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VITRINE História de mexicana líder do tráfico é lançada em livro. PÁGINA A28

CORREIO POPULAR Campinas, terça-feira, 2 de agosto de 2016 Fotos: Samuel Macedo/Divulgação

/ LIVRO / Terra de Cabinha retrata uma infância idílica no Cariri, um oásis no semiárido cearense

Garoto com indumentária de reisado em imagem que integra o livro Terra de Cabinha, que retrata as crianças do chamado Sertão Verde, formado por sete cidades no Sul do Ceará

SERTÃO dos meninos Fábio Trindade DA AGÊNCIA ANHANGUERA

fabio.silveira@rac.com.br

Imagine o sertão cearense sombreado de fruteira, com crianças correndo de um lado para o outro no mato, brincando em riachos, com direito a descanso em pequenas clareiras. Dá até para comer, colhidas no quintal de casa, iguarias como castanha, seriguela, buriti e pequi. Se achar pelo caminho ainda uma capemba — fo-

lha larga e resistente que se desprende das palmeiras —, mais do que depressa é hora de escorregar pelos morros do sertão a bordo dela. “Com dois na capemba, a bicha pesa mais”, avisa um garoto acostumado com tal diversão. O cenário, claro, soa como um oásis, o que pode a princípio não combinar com o dito no início do texto: sertão. Ledo engano. Tal paraíso em meio ao semiárido do Nordeste brasileiro é real, incrustado na

Chapada do Araripe, no Sul do Ceará. O nome é Cariri, região formada por sete cidades cearenses conhecida como Sertão Verde. Um lugar de localização realmente privilegiada, que faz divisa com Pernambuco, Piauí e Paraíba, e que atrai turistas de todo o Brasil. Por isso, crianças que crescem na terra das pinturas rupestres, do Padre Cícero, do poeta Patativa de Assaré, são diferentes do restante do sertão. Distintas ao ponto de te-

rem um nome próprio: cabinha. E como diz Alemberg Quindins, diretor-presidente do projeto Fundação Casa Grande, um grande centro cultural para as crianças de Nova Olinda: “quando um cabinha e o sertão se encontram na beira de uma estrada, até o cão se ‘envulta’ em cupim e trepa num toco pra se livrar de pedrada”.

Obra integra pesquisa sobre a infância no interior brasileiro

SAIBA MAIS

Trecho de Terra de Cabinha, de Gabriela Romeu

“Se virei cabinha crescido, foi por pura teimosia. Já tive de tudo um pouco e um pouco de tudo, Cresci com reza, chá e simpatia. Dona Miúda, a benzedeira, me salvou três vezes. O terço da vovó é também um santo remédio. Se ficava de vento caído, era reza com ramo. Pra fugir do mau-olhado, cordão vermelho no pescoço. Porque demorei a falar, mãe deu água no chocalho da vaca. (Desembestei de vez.)

As palavras recheiam o prefácio de Terra de Cabinha (Peirópolis, 96 págs., R$ 52,00), pequeno inventário da vida de meninos e meninas do sertão, escrito pela jornalista Gabriela Romeu. A obra é uma parte de sua extensa pesquisa sobre a infância de crianças do interior do País, para além dos grandes centros urbanos, que conta ainda com belas fotos de Samuel Macedo e ilustrações de Sandra Jávera. Mas apesar do livro trazer histórias verdadeiras dos cabinhas, há também “um pouco de causo e um outro tanto de invenção”, além de brincadeiras, receitas, versos, adivinhação. Uma edição única sobre tempos que parecem lembranças distantes, plantadas há tempos em terreiros esquecidos, mas que são colhidas com o calor e o frescor que só essas preciosas crianças nordestinas são capazes.

No dia em que me pilaram no pilão, comecei a andar. Simpatia pra verruga, perdi as contas. O jeito de parar de molhar a rede foi fazer xixi na enxada do vô. Birra era na peia mesmo.”

Crianças como Ricardo, o sabe-tudo de capemba. Ele e os gêmeos Gabriel e Manoel são lá do Sítio dos Azedos, um lugar cheio de buritis (as mais singulares palmeiras do Brasil, conhecidas como a palmeira de mil e uma utilidades), onde a água corre pelas levadas. Ou seja, os cabinhas sobem e descem os morros até dizer chega — ou até o fim da capemba, que é boa, mas não dura para sempre. Algo simples, mas de muito agrado. E invenções como essa recheiam praticamente todas as páginas de Terra de Cabi-

nha. Afinal, brincar em lugares assim exige uma fértil imaginação, e criatividade, como conta Gabriela Romeu, é o que não falta. Por exemplo, se a brincadeira é o chamado reisado, então o brinquedo é a macaca — chicotes que estralam pelas ruas na época de Reis. Como eles fazem o artefato: um pedaço de pau (cabo de vassoura vai muito bem), de uns 50 cm. 1,5 m de corda e fita isolante. É só prender a corda no pau com a fita e se divertir. Gostou? Então aventure-se assim como os cabinhas. Eles não estão pra brincadeira. Bom, estão.

Parede com fotos de meninos e meninas que têm suas histórias contadas na obra de Gabriela Romeu

Livro - Terra de Cabinha  
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