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Redação - Rua Raul Pompéia, 101 - 12.º andar, São Pedro - CEP 30330-080 Belo Horizonte - MG - Brasil Telefone: +55 (31) 3280-2105 Fax: +55 (31) 3227-3864 E-mail: revista@fapemig.br Site: http://revista.fapemig.br

Blog: http://blog.fapemig.br Facebook: http://www.facebook.com/FAPEMIG Twitter: @minasfazciencia

GOVERNO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Governador: Alberto Pinto Coelho SECRETARIA DE ESTADO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR Secretário: Narcio Rodrigues

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais Presidente: Mario Neto Borges Diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação: Evaldo Ferreira Vilela Diretor de Planejamento, Gestão e Finanças: Paulo Kleber Duarte Pereira Conselho Curador Presidente: João Francisco de Abreu Membros: Alexandre Christófaro Silva, Antônio Carlos de Barros Martins, Dijon Moraes Júnior, Flávio Antônio dos Santos, Júnia Guimarães Mourão, Marcelo Henrique dos Santos, Marilena Chaves, Ricardo Vinhas Corrêa da Silva, Sérgio Costa Oliveira, Valentino Rizzioli, Virmondes Rodrigues Júnior

Já teve a sensação de estar sendo observado? Provavelmente, essa sensação é verdadeira. É muito difícil, hoje, escapar da imensa variedade de dispositivos que fornecem informações precisas sobre nossos passos, contatos e preferências. Os recentes escândalos envolvendo a espionagem, pelos Estados Unidos, de dados de cidadãos e de chefes de governo também funcionaram como um alerta sobre os limites entre a manutenção da segurança – discurso oficial usado para justificar os aparatos de vigilância – e o uso de informações para obtenção de vantagens econômicas e controle social. A reportagem especial desta edição explora as consequências das novas tecnologias de vigilância e monitoramento que, aliadas ao desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação, resultaram na reconfiguração de nossas relações. Pesquisadores de diferentes áreas e instituições apresentam suas contribuições ao tema, discutindo, também, o significado da palavra “privacidade”, e o direito a ela, em um mundo povoado por câmaras de segurança, controles biométricos, vídeos pessoais e dados circulando na internet. O tema é vasto e será abordado também nos programas de rádio e televisão do projeto MINAS FAZ CIÊNCIA. Para conferir, acesse nosso blog: http://blog.fapemig.br. Outro destaque é uma pesquisa conduzida pela Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) sobre a participação das mulheres no mercado de trabalho. O tema é atual e pertinente: apesar de todos os avanços conquistados nessa área, os dados obtidos mostram que ainda há muito a ser feito. Tendo como foco a participação feminina em profissões representadas como ocupações masculinas – no caso, frentistas de postos de gasolina e policiais – o grupo realizou diversas entrevistas com homens e mulheres moradores da cidade no Norte de Minas. E constatou que, embora as mulheres apresentem níveis de escolaridade mais altos, as diferenças na remuneração persistem, com vantagem para os profissionais do sexo masculino. Confira, também, reportagem sobre o uso de materiais alternativos na construção civil. Com o objetivo de minimizar os impactos ambientais gerados pela atividade, uma equipe de pesquisadores do Cefet-MG, em parceria com outras universidades mineiras, avaliou o potencial de rejeitos como sobras de construção e demolição, de mineração, cavaco de eucalipto e até mesmo cinzas de bagaço de cana-de-açúcar. Misturados, por exemplo, ao cimento ou ao concreto, deram origem a um material com boa resistência mecânica e durabilidade. Os resultados promissores orientam novos estudos, que buscam disponibilizar a técnica para o mercado. Por fim, um lembrete. Em outubro deste ano, teremos, no Brasil, as eleições para presidente, deputados federais, senadores, governadores e deputados estaduais. Com isso, a partir de julho, entraremos no chamado período eleitoral, que traz, entre outros, algumas restrições com relação à comunicação realizada pelos órgãos públicos. A FAPEMIG, como autarquia do governo de Minas, está sujeita a essas restrições. Assim, durante o período eleitoral, as edições da revista MINAS FAZ CIÊNCIA não serão distribuídas. Após a oficialização do fim das eleições pelo Tribunal Regional Eleitoral, ela voltará a ser enviada a todos os nossos leitores. Boa leitura! Vanessa Fagundes Diretora de redação

AO LEI TO R

EX P ED I EN T E

MINAS FAZ CIÊNCIA Diretora de redação: Vanessa Fagundes Editor-chefe: Maurício Guilherme Silva Jr. Redação: Ana Luiza Gonçalves, Camila Alves Mantovani, Diogo Brito, Maurício Guilherme Silva Jr., Pedro Ivo Martins, Vanessa Fagundes, Verônica Soares, Virgínia Fonseca e William Rocha Ferraz Diagramação: Fazenda Comunicação Revisão: Sílvia Brina Projeto gráfico: Hely Costa Jr. Editoração: Fazenda Comunicação & Marketing Montagem e impressão: Rona Editora Tiragem: 20.000 exemplares Capa: Hely Costa Jr.


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ENTREVISTA

Jornalista e pesquisadora da Fiocruz, Luisa Massarani debate os rumos da divulgação científica no Brasil

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Engenharia de Materiais

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Estudo do Cefet-MG analisa uso de materiais alternativos para minorar impactos da construção civil

ESPECIAL

Reportagem debate reflexos científicos e sociais da proliferaçâo de equipamentos e ações de vigilância

Educação

Pesquisador da Ufop investiga significados por trás do predomínio de negros livres em escolas do século XIX

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Engenharia Agrícola

Especialistas da Universidade Federal de Lavras monitoram áreas de irrigação mineiras por meio de satélites

Ciência da Informação

Projeto do Governo do Estado, DataViva auxilia tomada de decisões por empresas privadas e órgãos públicos

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Bioquímica

Resultantes da reutilização de resíduos, sabões e sabonetes ecológicos produzidos na UFV contam com propriedades farmacológicas

Engenharia Elétrica

Equipamento criado por empresa do Sul de Minas auxilia setor industrial a controlar gastos com uso de energia

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LEMBRA DESSA?

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5 PERGUNTAS PARA...

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hiperlink

Método baseado no uso de raios gama elimina impurezas e microrganismos de inúmeros materiais

Biologia

De que modo o cérebro age quando piscamos os olhos? Pesquisa recorre ao sistema visual de corujas para responder à questão

Confira as propostas do grupo The Big Van Theory, que divulga a ciência de modo divertido

Bacia hidrográfica mineira, arroz e feijão, Megaterra e outras boas novas do blog Minas faz Ciência

sociologia

Trabalho de pesquisadora da Unimontes interpreta diferenças profissionais entre homens e mulheres


design e pela diagramação da revista, que são impecáveis.”

“Caros jornalistas da FAPEMIG, meu nome é Rafael Soal, trabalho na Assessoria de Comunicação da Emater-MG. Este e-mail é para agradecer, elogiar e desejar vida longa à criatividade da equipe da revista MINAS FAZ CIÊNCIA. Confesso que nunca tinha lido. Mas, graças ao destino, fui levado a seu encontro. A nossa empresa está procurando modelos de publicações que usam do meio virtual como nova oportunidade de “casa”. Ainda não somos tão bons nisso. Então, durante a semana, fiquei encarregado de vasculhar a internet para procurar modelos que pudessem servir de norte para nossa empreitada. E dei de cara com vocês. Depois de minutos e minutos perdidos nos ótimos textos e em imagens e formatação de extremo bom gosto, deparei-me com a certeza de que são muito mais do que referências virtuais. São referências profissionais. Enviarei a meus chefes o link e todas as impressões que tive. E que impressões! Muito obrigado por me proporcionarem esta experiência. Parabéns a toda equipe!” Rafael Soal Jornalista / Emater-MG Belo Horizonte / MG

“Sou assinante de MINAS FAZ CIÊNCIA, da FAPEMIG, e gostaria de parabenizá-los pela qualidade das matérias e, também, pelo

“Gostaria de deixar registrado os meus parabéns à equipe de MINAS FAZ CIÊNCIA pela qualidade das matérias e pela riqueza da publicação como um todo. É com felicidade e satisfação que a recebo em minha casa e tenho a oportunidade de conhecer projetos tão bacanas desenvolvidos em nosso Estado. Na edição 48, fiquei muito feliz em conhecer o projeto realizado pela UFV e seus parceiros, conforme citado na matéria “Canteiros de Saúde”. O conhecimento está aí, a nosso alcance, e é muito importante a disseminação de forma inteligente e acessível às pessoas! Parabéns pela iniciativa de MINAS FAZ CIÊNCIA em divulgar informações de forma tão prazerosa!” Priscila Oliveira Farmacêutica Belo Horizonte / MG

“Conheci a revista MINAS FAZ CIÊNCIA há alguns meses e a achei de extrema importância à minha profissão. Sou biomédica, especialista em Análises Clínicas, e, atualmente, faço mestrado em Educação Profissional em Ensino em Ciências da Saúde e do Meio Ambiente no Centro Universitário de Volta Redonda (RJ). Gostaria de receber esta revista, uma vez que a publicação contribuirá para o exercício de minha profissão e para a disseminação da ciência.” Miriam da Glória Seoldo Ferreira Monteiro Leopoldina / MG

“Por algum tempo, recebi MINAS FAZ CIÊNCIA no Cefet Bambuí, hoje IFMG Bambuí. Como estou aposentado, gostaria de continuar recebendo a revista em casa, se for possível. Agradecendo antecipadamente a atenção dos senhores, aproveito para parabenizá-los pela alta qualidade desta revista, que é, hoje, motivo de orgulho para os pesquisadores de Minas Gerais.” José Ferreira de Noronha Bambuí / MG

Para receber gratuitamente a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, envie seus dados (nome, profissão, instituição/ empresa, endereço completo, telefone, fax e e-mail) para o e-mail: revista@fapemig.br ou para o seguinte endereço: FAPEMIG / Revista MINAS FAZ CIÊNCIA - Rua Raul Pompéia, 101 - 12.º andar - Bairro São Pedro Belo Horizonte/MG - Brasil - CEP 30330-080

MINAS FAZ CIÊNCIA tem por finalidade divulgar a produção científica e tecnológica do Estado para a sociedade. A reprodução do seu conteúdo é permitida, desde que citada a fonte. MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2014

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CARTAS

Monique Abud Xavier de Pinho Belo Horizonte / MG


especial

Vigiar, punir e viver Novas tecnologias de vigilância e monitoramento redefinem os mecanismos de controle social e transformam os significados da própria existência Maurício Guilherme Silva Jr.*

* Colaborou Virgínia Fonseca

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Hoje, bilhões de cidadãos veem seus corpos – físicos e/ou virtuais – trespassados por luzes e lasers, assim como investigados por softwares e confrontados por monitores eletrônicos. A permanente vigilância ao comezinho cotidiano dos indivíduos é reveladora não apenas das multipossibilidades científicas e tecnológicas de nosso tempo, mas também (ou, principalmente) das suscetibilidades a que todos estão sujeitos no âmago da chamada sociedade da informação. Ano a ano, pesquisadores de todo o mundo dedicam-se à elaboração de novas ferramentas de observação e controle da vida humana. O curioso é perceber que, em função da eficiência dos próprios aparatos desenvolvidos, outros tantos especialistas embrenham-se em estudos para compreensão dos reflexos sociais e cognitivos de tais mecanismos de “vigilância” – termo, aliás, que, segundo Ricardo Augusto Rabelo Oliveira, professor do Departamento de Computação do Instituto de Ciências Exatas e Biológicas da Universidade Federal de Ouro Preto (Iceb/Ufop), deve ser definido “como ‘panóptico’, sistema que efetua a coleta e o registro de eventos, de maneira irrestrita, por meio de sensores de monitoramento, com memória de armazenamento ilimitado”. Na acepção do pesquisador – que, na Ufop, coordena o laboratório iMobilis, especializado em computação móvel –, apesar de as pessoas terem se acostumado ao vocábulo “vigilância” no sentido de “visão”, os significados da palavra não se restringem aos sensores óticos. “Os sistemas celulares, por exemplo, possuem acelerômetros, giroscópios e GPSs que permitem vigilância não só da posição espacial, mas, também, da interação do usuário com seu dispositivo”, diz. De outro modo, segundo Marta Mourão Kanashiro, professora dos programas de pós-graduação em Divulgação Científica e Cultural (Labjor) e em Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), não se pode considerar a ideia de vigilância como invenção contemporânea, nem se deve dizer que o termo seja inaugurado com a atual ampliação do número de equipamentos de monitoramento. “Vivemos, na

verdade, uma transformação da vigilância, que não mais se restringe àquela presente em Vigiar e punir, de Michel Foucault. Ela diz respeito, agora, às novas tecnologias de informação e comunicação”, destaca. Apesar disso, no ver da pesquisadora – que também coordena a Rede Latino-americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (Lavits) e integra o grupo de pesquisa Conhecimento, Tecnologia e Mercado (CteMe) –, os novos equipamentos de observação e controle não são os únicos responsáveis pela diferenciação entre os atuais conceitos de vigilância e os princípios “foucaultianos”. “A vigilância conecta-se, então, a uma série de transformações contemporâneas, sejam elas políticas, econômicas ou culturais”, diz. Importante destacar, portanto, que a demarcação conceitual do termo, na atualidade, deve considerar aspectos os mais diversos, como a centralidade da informação no capitalismo e os (complexos) processos de codificação e descodificação. Para Marta Kanashiro, é preciso, ainda, compreender a própria informação como processo: “Não se define mais a ideia de vigilância pelo crescimento da presença de equipamentos de monitoramento. É preciso compreender a incidência sobre os processos de transmissão de informações”. No que se refere às terminologias, há especialistas para todos os gostos: enquanto certos autores costumam diferenciar as palavras “vigilância” e “monitoramento”, outros tantos insistem em tratá-las como sinônimos. “Os primeiros compreendem que o ato de monitorar é definido como vigilância constante, num período de tempo, e direcionado a determinados grupos ou O iMobilis (www.decom.ufop. br/imobilis) tem atuado em diversas frentes de pesquisa, com destaque para o projeto “uGuide”, uma rede social de apoio ao estudante e ao turista em Ouro Preto (MG). A iniciativa busca a criação de um app, para tablets e celulares, que ofereça serviços georreferenciados na cidade, com base na localização dos usuários e em informações situacionais. MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2014

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pessoas”, explica a pesquisadora da Unicamp, ao lembrar que também a noção de “privacidade” mantém-se em pleno debate nos meios acadêmicos. Tome-se, como exemplo, o usuário que recebe ofertas direcionadas em seu correio eletrônico. Trata-se de material a ele enviado em função de palavras que tenha digitado nas mensagens enviadas, devido a pesquisas específicas em motores de busca vinculadores de dois serviços – a exemplo do que ocorre com Gmail e Google Search – ou, simplesmente, em função de ter aberto duas ou mais abas em um navegador de internet. “Esse direcionamento de propagandas pode ser considerado vigilância e violação de privacidade. Tal entendimento, aliás, levou um grupo de usuários a processar judicialmente a empresa Google, que, por sua vez, defende a iniciativa como um ‘modelo de negócios’”, explica.

Mundo ubíquo

Uma das mais incisivas “atuações” do aparato contemporâneo de vigilância relaciona-se, justamente, ao recolhimento e ao processamento de informações dos indivíduos no dia a dia. Dispositivos como computadores, celulares e smartphones permitem a coleta, o arquivamento e o processamento de dados pessoais e colaboram para a construção de um conhecimento sobre pessoas ou grupos, com fins de segurança, consumo etc. O mesmo ocorre com equipamentos que constituem os circuitos fechados de televisão (CCTV, na sigla em inglês), os cadastros biométricos das instituições e os estabelecimentos ou documentos (ID Cards, por exemplo). As atuais possibilidades de observação e controle caracterizam-se pela disseminação de mecanismos de vigilância, tanto nos espaços abertos quanto nos ambientes fechados das (pequenas, médias ou grandes) cidades (veja box sobre a experiência de Belo Horizonte à página 9). Afinal, por meio das Tecnologias de Informação e Comunicação, as chamadas TICs, tudo pode ser feito a distância, em tempo real e com comunicação imediata. Neste sentido, o termo “computação ubíqua” parece vital à compreensão do atual estágio tecnológico da humanidade. “Eu a explicarei como a computação irrestrita, por meio da

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qual a conexão à internet pode ser feita em qualquer equipamento com capacidade de processamento computacional”, afirma Ricardo Augusto Oliveira. Desse modo, permite-se que os sistemas apareçam embutidos em diversos objetos cotidianos. “A computação ubíqua é a evolução da pervasiva, que se define como a possibilidade de estar sempre conectado à internet, independentemente da presença de cabos e conexões fixas”, explica o professor, ao lembrar que a ubiquidade computacional é responsável por nova tendência, denominada, informalmente, de “internet das coisas”. A expressão busca definir o que hoje ocorre com antigos artefatos – geladeiras, fogões, televisores etc. – que, em outros tempos, não apresentavam capacidade de processamento digital, mas, agora, conectam-se à rede mundial e interagem com sistemas externos. Neste panorama, computadores onipresentes tornam-se invisíveis e passam a compor, camufladamente, os cenários cotidianos. “Além disso, as relações humanas adaptam-se a eles. De certa maneira, o lado positivo dessa história está nas novas formas de interação”, ressalta o pesquisador, ao destacar, porém, que tais ferramentas, perigosamente, acabam por se transformar em objetos essenciais à vida dos indivíduos. “Caso analisemos do ponto de vista histórico, novas tecnologias sempre modificaram os relacionamentos humanos. Assim como a internet, também o rádio e a televisão, em seus primórdios, proporcionaram impactos e questionamentos expressos, por exemplo, na seguinte questão: ‘Após o jantar, a família continuará a se reunir para assistir ao jornal e à novela?’”.

Trata-se de tecnologias capazes de mediar e interferir nos processos comunicativos e de transmissão de informações. Em outros termos, as TICs formam um conjunto de recursos tecnológicos integrados, usados nos mais diversos ramos de atividades, da indústria aos negócios, da educação ao esporte.

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Interessante ressaltar, neste sentido, que também os aparatos tecnológicos de vigilância, comunicação e controle transformaram-se em ferramentas de demarcação social e cultural. Basta citar, como exemplo, a breve – mas intensa – vida do pequeno João Paulo, típico integrante da geração que se habituou a conviver com diários “15 minutos de fama”. Hoje com dois anos de idade, ainda que dominasse as ciências exatas, ele teria perdido a conta das próprias aparições midiáticas. Das gravações de seu nascimento ao vídeo do primeiro aniversário – realizado com trilha sonora especial e flashback dos 12 meses de vida –, das filmagens de cotidianas conquistas pueris às inserções no Facebook e no Youtube, o garoto está definitivamente acostumado a se contemplar em telas de diversas dimensões. “Compartilhar alguns desses momentos com familiares e amigos é uma forma de eles acompanharem a evolução do João Paulo”, explica a mãe, Renata Giordani de Aquino, que, no entanto, revela-se comedida no uso das redes sociais, devido a questões de privacidade e de segurança.

De

Foi o empresário, artista plástico e cineasta norte-americano Andy Warhol (1928-1987) quem, nos anos 1960, cunhou a profética frase: “No futuro, todos terão seus 15 minutos de fama” Gerente de instituição financeira, Grasiela Rodrigues acredita que as câmeras traduzam a sensação de segurança desejada por muitas pessoas. Ela, por exemplo, tem acesso a quase todos os ambientes de seu local de trabalho, por meio de “olhos eletrônicos” de ação ininterrupta. “A vigilância nos transmite a sensação de que estamos mais seguros, embora, às vezes, tenhamos consciência de que, na prática, não é bem assim”, pondera.

Exemplos como os de João Paulo e Grasiela consolidam, no ver do professor Ricardo Augusto Oliveira, a ideia de que, quando há sensores auxiliados por dispositivos ligados à internet, as relações de sociabilidade – permeadas por vestígios de vigilância e monitoramento – tornam-se, necessariamente, diferenciadas. “A sensação de proximidade, por exemplo, é hoje realizada por meio dos próprios dispositivos. Dentre outras coisas, posso saber se meus amigos estão numa festa perto de mim”, comenta. O pesquisador destaca, ainda, que, hoje, mesmo antes mesmo da certidão de nascimento, muitas crianças exibem perfis nas redes sociais. “Elas têm a vida tão imersa neste novo mundo conectado que os aparatos de vigilância parecem não apenas naturais, mas necessários, no sentido

olho nas ruas de BH

Belo Horizonte contará, até o fim de 2014, com incremento de 150% no número de câmeras públicas de monitoramento do “Programa Olho Vivo”, serviço idealizado e gerenciado pela Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH), juntamente ao governo de Minas Gerais e à Prefeitura, que consiste na presença ocular da Polícia Militar em pontos estratégicos dos locais com maior incidência criminal, por meio do monitoramento de ferramentas de vídeo. De 261 equipamentos existentes em maio de 2014, dos quais 200 em operação, a capital mineira passará a 668, com cobertura nas nove regiões da cidade – para além das seis atuais. Os novos locais de monitoramento abrangem, entre outros, a Praça do Papa (Bairro Mangabeiras) e o Aglomerado da Serra, na Região Centro-Sul, o Bairro Buritis, na Região Oeste, o Barreiro e Venda Nova. Também estão previstas 183 câmeras do Orçamento Participativo de 2011. Os equipamentos contemplarão 28 bairros das regiões Leste, Nordeste e Centro-Sul.

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de que fazem parte de um contexto”, comenta, ao ressaltar, porém, que sob ótica mais crítica, tal realidade pode se revelar sinistra. “Afinal, o que era tido por ruim e invasivo torna-se parte da cultura ou da existência”, conclui. De toda forma, os maiores impactos sociais da atualidade parecem se referir, mesmo, às múltiplas possibilidades da computação ubíqua, presente nos celulares e em outros equipamentos portáteis. “A estimativa temporal e espacial do comportamento de um grande grupo de pessoas tem se transformado em foco de pesquisas de ponta. Neste cenário, os

usuários tornam-se elementos de uma grande rede de sensores”, explica o professor da Ufop. A tentativa de compreender as ações sensoriais dos indivíduos – exemplo clássico de vigilância tecnológica – encaixa-se, segundo Ricardo Oliveira, na novíssima definição de “cidade inteligente”. “Trata-se da versão avançada das ‘cidades digitais’, em que o acesso à informação é amplamente proporcionado e os serviços oferecidos pelos gestores públicos podem ser melhorados a partir dos sensores e da resposta a eles”, acredita.

Abusos e princípios Sem fins lucrativos e com sede em São Francisco, na Califórnia, a organização Electronic Frontier Foundation (EFF) – em português, Fundação Fronteira Eletrônica – busca proteger o direito à liberdade de expressão. A entidade conta com uma série de princípios, que pregam a garantia de privacidade dos cidadãos – e, em especial, dos estados. Em um de seus documentos oficiais, a EFF afirma, por exemplo, que “vigilância” abrange ações como “monitoramento, intercep-

Os sons da (in)segurança Um equipamento capaz de identificar determinado ruído e informar a ocorrência a uma rede remota. Em resumo, eis a funcionalidade básica do Microfone Inteligente Conectável (MIC), ferramenta em desenvolvimento por especialistas da empresa de tecnologia Daccord S.A. O aparelho deriva de projeto anterior, denominado “Áudio Alerta”, concebido, em 2009, na área de segurança, para detectar sons importantes, como tiros, arrombamentos e batidas de automóveis. Com a miniaturização do sistema, a tecnologia de reconhecimento automático de sonoridades será usada para identificar outros ruídos, principalmente, na segurança privada. O hardware integra microfone de alta qualidade e computador de pequeno porte. “É como uma mini-CPU conectada a um microfone muito poderoso. Tudo isso em tamanho bastante reduzido, com dimensões entre um microfone normal e uma câmera”, simplifica o pesquisador e diretor-presidente da Daccord, Américo Amorim. Para que o aparelho funcione, não há necessidade de grande expertise. Depois de captado, o som é analisado pela mini-CPU. As informações sobre os eventos detectados seguem, então, a servidores na rede do cliente ou na internet. “Mesmo escutando todos os barulhos que ocorrem num ambiente, o MIC conseguirá distinguir o que é importante, ignorando sons banais”, detalha Américo. Desse modo, o equipamento gerará alarmes contextualizados, o que inclui a classificação do tipo de ocorrência – tiros, vidros quebrando, gritos etc. O MIC com ênfase em questões de segurança deve ser lançado em 2015. No ano seguinte, a empresa pretende oferecer melhorias ao aparelho, para atender a áreas como meio ambiente e saúde.

Inovação

Atualmente, existem muitas pesquisas nas áreas de processamento de imagens para detecção e acompanhamento automático de objetos ou ameaças. “Essas tecnologias começam a adquirir grau de maturidade suficiente para serem usadas no cotidiano. Contudo, ainda existem bons espaços para inovações”, avalia o pesquisador, ao lembrar, ainda, que, em termos de áudio, há estudos para a área de defesa, com detecção, por exemplo, de alvos marítimos. Américo Amorim destaca a necessidade de maior interação entre academia, empresas de tecnologia e forças de segurança, para que novas possibilidades sejam desenvolvidas, de forma alinhada às necessidades do contexto contemporâneo. “Desse modo, poderemos ter soluções que agreguem inteligência e facilitem trabalhos de prevenção e combate”, afirma.

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tação, coleta, análise, uso, preservação, retenção ou acesso à informação que inclui, reflete, deriva ou diz respeito às comunicações de uma pessoa no passado, no presente ou no futuro” (confira íntegra do artigo no endereço eletrônico https:// pt.necessaryandproportionate.org/text.). “Em diferentes países, as leis têm sofrido alterações para contemplar recentes questões ligadas à vigilância, às privacidades e às novas tecnologias de comunicação e informação”, explica Marta Kanashiro, para quem, no que tange, especificamente, ao uso de câmeras de monitoramento, a maior parte da discussão legal brasileira não visa aos interesses dos cidadãos ou à privacidade, já que tais dispositivos foram incorporados – principalmente, nas políticas dos governos – como obrigatórios e essenciais ao provimento de modelos específicos de segurança. “A EFF é um exemplo de como podemos nos defender do abuso do controle. Muitos excessos – como aqueles revelados por [Edward] Snowden – passam longe do que seja legal ou permitido. Além disso, a via do direito, apesar de muito importante, caminha de forma muito mais lenta do que o desenvolvimento tecnológico”, analisa a pesquisadora. Neste cenário, os chamados “hackerativistas” – ou “hackativistas” – apresentam-se como importantes atores no combate aos abusos. “Quando me refiro a esses ativistas, não falo apenas daqueles que invadem ou derrubam máquinas e sistemas, mas, também, dos que realizam ações na internet, nas redes sociais, e repercutem uma série de problemas, questões e abusos. Midiativistas e artistas também são fundamentais nesse processo”, finaliza. Na acepção da professora da Unicamp, os muitos conflitos, tensões e litígios que ainda despontarão neste início de século devem pôr em xeque certas definições e ideias construídas e naturalizadas nos períodos anteriores. “Privacidade é um destes conceitos, a ponto de alguns já o decretarem como extinto. Considero que essa noção está sob tensão e passa por um processo de desconstrução. Por isso, creio que vá se tornar um grande

tema de pesquisa e de debate para diferentes áreas das ciências humanas”, ressalta. Tal “território” de discussões acadêmico-científicas abrange problemáticas as mais diversas, das definições de direitos e deveres dos cidadãos e estados às dúvidas em torno do acesso, do uso e da retenção de dados por parte das corporações. “Outros temas importantes relacionam-se à transparência, à participação, ao ativismo político, ao jornalismo de dados, à criptografia e aos softwares livres”, aponta Marta Kanashiro.

Dica de filme Obra: Não por acaso Gênero: Drama Direção: Philippe Barcinski Sinopse: Engenheiro de trânsito e operador de sinais, Ênio (Leonardo Medeiros) gerencia o fluxo de veículos na capital paulista. Sua ânsia por controlar tudo se reflete não apenas no ofício diário, mas, principalmente, na vida pessoal. Ao reencontrar a filha, Bia (Rita Batata), contudo, passa a se sentir desnorteado. Figura também vital à história, Pedro (Rodrigo Santoro) é um cuidadoso dono de marcenaria especializada em mesas de sinuca. A vida dos dois homens da trama será completamente modificada por um acidente de trânsito – tragédia milimetricamente registrada pelas câmeras de vigilância controladas por Ênio. Elenco: Branca Messina, Cássia Kiss, Graziella Moretto, Leonardo Medeiros, Letícia Sabatella, Rita Batata, Rodrigo Santoro, Silvia Lourenço Ano: 2007

Dica de livro Obra: Máquinas de ver, modos de ser: vigilância, tecnologia e subjetividade Autora: Fernanda Bruno Editora: Sulina Local: Porto Alegre Ano: 2013

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ENTREVISTA

Trabalho conjunto pela comunicação da ciência Para Luisa Massarani, jornalista e pesquisadora da Fiocruz, troca de experiências e esforço conjugado entre países são fundamentais para superar obstáculos e envolver a sociedade nos debates sobre CT&I Vanessa Fagundes Foi um caso de amor à primeira vista. “Enquanto ainda estava na graduação, fui fazer um estágio na revista Ciência Hoje e descobri que amava a divulgação científica e que minha vida era isso”. Esse relacionamento, que dura mais de 20 anos, deu vários frutos. Hoje, Luisa Medeiros Massarani é uma das principais jornalistas de ciência do País. Pesquisadora do Núcleo de Estudos da Divulgação Científica do Museu da Vida da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ela já contribuiu com diversos veículos nacionais e internacionais, como Folha de S.Paulo, Nature, Cómo vês?, do México, Jornal da Ciência e Ciência Hoje das Crianças. Atualmente, é coordenadora da América Latina do site SciDev.net (Science and Development Network), que se dedica à cobertura de temas científicos em países em desenvolvimento, e coordenadora da Red Pop, rede de popularização de CT&I na América Latina e no Caribe.

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No início de maio, Luisa Massarani foi a chair (coordenadora) da 13ª Conferência Internacional sobre Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (PCST, na sigla em inglês). Pela primeira vez em 25 anos, o evento, um dos mais importantes da área, ocorreu na América Latina – mais precisamente, no Brasil, na cidade de Salvador (BA). Nesta entrevista concedida a MINAS FAZ CIÊNCIA, ela comenta os debates atuais sobre comunicação da ciência, as possibilidades para os profissionais da área e o esforço dos países, especialmente latino-americanos, para enfrentar os desafios da área de forma criativa e incluir a sociedade nas discussões. No início de maio, realizou-se em Salvador a 13ª Conferência Internacional sobre Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia, da qual você foi uma das organizadoras. O tema central do encontro foi “Divulgação da ciência para a inclusão

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social e o engajamento político”. Qual a importância de se discutir a inclusão social em uma perspectiva da comunicação da ciência? A Conferência é fruto de uma rede chamada PCST Network, da qual faço parte, há pouco mais de 10 anos, como integrante do comitê científico. É uma rede muito interessante porque une indivíduos de vários países, e não instituições, que trabalham com o tema da divulgação científica. O evento é realizado de dois em dois anos, cada vez em um local diferente. No Brasil, duas instituições se uniram no esforço de realizá-lo, a Fundação Oswaldo Cruz, por meio do Museu da Vida, e a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), por meio do Labjor (Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo). O evento já passou por todos os continentes, esteve nas Américas há 20 anos e, pela primeira vez, chegou à América Latina. Em cada congresso, tenta-se dar um tempero


Peter Ilicciev / Fiocruz

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local. Uma questão que tem permeado as discussões sobre divulgação científica na América Latina é a importância de se engajar a sociedade em temas de ciência e tecnologia, pensando a inclusão social por meio da divulgação científica. Achamos fundamental apresentar esse tema para debate. Tendo em vista que ciência e tecnologia permeiam nossa realidade, nossa sociedade, acreditamos que é necessário incluir todas as pessoas nessa discussão. Quando tocamos em inclusão social, estamos também falando de audiências. Por que tal tema representa um desafio para os comunicadores da ciência, especialmente no Brasil? Fazendo uma reflexão após mais de 20 anos como divulgadora da ciência, acredito que avançamos bastante, principalmente no Brasil. Há, contudo, um ponto ainda em aberto, um tema que precisa de dedicação, talvez, hoje, o ponto mais importante para que a gente se debruce: falo da necessidade de entender melhor as audiências. Em outras palavras, compreender o resultado de tudo isso que temos feito nos últimos anos, em particular na última década; de que maneira as diferentes audiências constroem sentido a partir das iniciativas de divulgação científica que temos oferecido. Precisamos criar ferramentas, estratégias e processos investigativos para entender melhor quem são as audiências, qual a sua percepção dos temas de ciência e tecnologia, como elas constroem sentido a partir dessas atividades. É interessante observar que a América Latina tem uma corrente forte de estudos de audiência, mas, em geral, os trabalhos são voltados para telenovelas. Isso não é um problema brasileiro ou da América Latina: no mundo inteiro, existem poucos estudos que se debruçam sobre a audiência da divulgação científica. Portanto, essa tem sido uma preocupação, inclusive do meu grupo de pesquisa. Como você avalia a participação brasileira nas pesquisas relacionadas à comunicação pública da ciência?

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Em termos de pesquisas em divulgação científica, o Brasil tem crescido bastante e existem números que mostram isso. Por exemplo, tivemos, na década de 1980, a primeira defesa de tese em divulgação científica – de acordo com o registro que aparece na Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), a tese do professor Wilson Bueno. Desde então, o crescimento é significativo, chega a três dígitos o número de teses e dissertações defendidas anualmente na área. Não temos ainda um levantamento sistemático da produção em pesquisa de divulgação científica. A produção é muito dispersa – aliás, essa é uma necessidade que temos para a área –, mas também temos observado um crescimento grande de artigos. Já temos revistas, em geral mais voltadas à Educação, mas que incluem temas de divulgação científica, e existem vários grupos de pesquisa em divulgação científica cadastrados no CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Outra conquista, que é um reflexo do crescimento da pesquisa na área, é o fato de o CNPq, agora, ter bolsas de produtividade em divulgação científica. Você foi editora da revista Ciência Hoje para Crianças. Qual a importância – e qual a responsabilidade – de se falar sobre o tema para os pequenos? É fascinante fazer divulgação científica para crianças. Se eu tivesse que escolher um grupo, uma faixa etária, certamente escolheria fazer divulgação para elas, por vários motivos. Um deles é que as crianças são extremamente curiosas em relação ao que acontece a seu redor. Elas são “cientistas naturais”, vivem explorando o mundo. Portanto, estão mais sensíveis à divulgação científica. É uma responsabilidade grande, um compromisso, porque são cidadãs em desenvolvimento. Estudos mostram que, nessa fase, os estímulos podem ter influências positivas ou negativas na formação de cada um. Por isso, é um momento em que podemos fazer a diferença.

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Além do jornalismo, existem outras formas de se falar sobre ciência. Um exemplo são os museus. Qual a importância de espaços como esses para a divulgação científica? Acredito que não existe um meio de comunicação melhor ou pior para a divulgação científica: a gente deve usar formas diferenciadas para oferecer estímulos diferentes. Do ponto de vista da criança, é possível trabalhar com o jornalismo – eu mesma já escrevi muitas matérias para a Folhinha (caderno do jornal Folha de S. Paulo), usando a estrutura do jornalismo formal –, mas acho que a gente precisa ir além. Não é que eu não ache importante usar as ferramentas tradicionais do Jornalismo. Mas existem outras iniciativas. Por exemplo, já fizemos atividades com crianças na linha de consulta aos cidadãos. Em uma delas, que chamamos de “Carta do Clima”, reunimos crianças de 9 a 10 anos para discutir a questão das mudanças climáticas e propor ações. Ou seja, não só ensinar ou apresentar o conteúdo relacionado a mudanças climáticas, mas também estimulá-las a serem protagonistas no processo de divulgação científica. Então, não é só oferecer informações, mas dar subsídios para que elas sejam atores sociais importantes. Temos, também, ferramentas como a internet, o tablet e o celular. Acho que deveríamos explorar mais esses novos aparatos tecnológicos e envolvê-los nas atividades de divulgação científica não só para crianças, mas para pessoas de todas as faixas etárias. Ainda faltam atividades de divulgação científica, por exemplo, para pessoas na terceira idade, um segmento muito importante. Você é a atual diretora da Red Pop, uma rede de popularização da ciência e tecnologia na América Latina e no Caribe. Como é o trabalho do grupo? Os desafios para a popularização da ciência são semelhantes nessa região? A Red Pop foi criada no Brasil, em 1990, mas nunca tinha tido direção brasileira. Sou a primeira diretora brasileira da


rede, que surgiu no momento em que a divulgação científica começou a ter papel importante na América Latina e, em particular, no Brasil. Quando falamos de colaborações tanto na área de divulgação como de pesquisas acadêmicas, olhamos muito para os Estados Unidos e a Europa, mas a América Latina tem várias similaridades e desafios comuns. A Red Pop é um fascinante espaço para os latino-americanos pensarem juntos em pesquisas e práticas. Temos um evento que se realiza a cada dois anos. O último foi no México e o próximo será na Colômbia, em Medelín, cidade particularmente interessante porque já esteve associada a muita violência, à questão do tráfico de drogas, e, por meio de uma mudança de cultura e de uma proposta interessante de divulgação científica, conseguiu mudar um pouco essa realidade. Acho que a Red Pop é um fórum fundamental para nós, latino-americanos, pensarmos juntos em colaboração, em como podemos enfrentar nossos desafios de maneira interessante e criativa. Gostaria de destacar duas ações nas quais estamos trabalhando. Uma delas relaciona-se a políticas de divulgação científica. Hoje, poucos países no mundo possuem políticas específicas para a área, mas, de forma interessante, vários países da América Latina têm experiência nisso. Com a Unesco, temos mapeado essas políticas para estimular outros países a consolidar as suas. A segunda ação é o primeiro guia latino-americano de museus de ciência. Para entender a divulgação científica que fazemos, precisamos ter um mapeamento detalhado de quem trabalha com isso. Claro que divulgação científica não se faz só em museus de ciência, mas estamos partindo daí. E entendemos museus de ciência de maneira bem ampla, incluindo museus de Ciências Sociais (História, Antropologia, dentre outros) e, ainda, jardins botânicos, zoológicos, planetários e aquários etc.. Vale ressaltar que a Red Pop é ligada à Unesco e reúne instituições,

não indivíduos. Quero aproveitar para deixar um convite às instituições brasileiras para que se filiem e venham somar a esse esforço latino-americano. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) planeja realizar, em 2014, mais uma enquete nacional sobre Percepção Pública da Ciência. Você participou das duas últimas enquetes (2006 e 2010). Em sua opinião, o que mudou de forma mais significativa? Primeiro, era muito importante realizar essas enquetes. O Brasil teve uma primeira em 1987 e, depois, passou quase 20 anos sem outra. Esse movimento começou a crescer em outros países. Na Europa e nos Estados Unidos, as enquetes continuaram a ser feitas sistematicamente. Ainda não temos os resultados de 2014; a enquete está em fase de finalização. Mas um dado que chamou a atenção de 2006 para 2010 foi a visitação a museus de ciência. Com o que temos, não dá para fazer ligação direta entre os estímulos dados no Brasil e os resultados obtidos, mas o que se percebe é que, nesse contexto brasileiro, em que houve uma série de estímulos à divulgação científica, a visitação a museus de ciência dobrou. Em 2006, 4% dos respondentes disseram que tinham visitado um museu de ciência no último ano e, em 2010, essa porcentagem subiu para mais de 8%. Esse é um resultado importante. Também acho importante mencionar a questão da cobertura da ciência. Normalmente, somos muito críticos com o material que temos gerado, mas o que percebemos é que a avaliação dos respondentes era muito positiva em relação à cobertura de ciência. Outro dado interessante, mas que a mídia divulgou de maneira distorcida, é a questão do interesse dos brasileiros em relação a temas de ciência e tecnologia. De 2006 para 2010, houve mudança na forma de se fazer a pergunta. Por isso, parece que o crescimento foi muito grande. A mudança também tor-

na complicada a comparação, mas o que a gente pode afirmar é que, ao contrário do que se apresenta nos fóruns de discussão de divulgação científica, os brasileiros têm interesse em temas de C&T. As pessoas expressam esse interesse em percentuais muito semelhantes aos exibidos por esportes, área muito forte no Brasil. E onde é necessário concentrar esforços, em sua opinião? Bem, o que ficou claro é que o fato de as pessoas expressarem interesse em temas de ciência e tecnologia não significa que sejam atuantes. Elas não buscam mais informações ou se envolvem mais com a área. Portanto, acho que um dos desafios é, justamente, conseguir conciliar esse interesse expresso por uma atitude de envolvimento em ciência e tecnologia. Pesquisadores que trabalham com divulgação científica costumam reclamar sobre a dificuldade para concorrer ao apoio de agências de fomento, já que não existe um campo específico para a divulgação científica. Um biólogo que tem projeto de divulgação, por exemplo, não sabe se concorre com outros projetos de Biologia ou da área de Comunicação ou Educação. Com base em sua experiência, teria alguma sugestão para solucionar o problema? Sim, tenho uma solução simples, sobre a qual tenho falado muito. Basta usar o que o CNPq já faz. O Conselho tem, em sua raiz de campos do conhecimento, a área de “divulgação científica”. Assim, não importa se o pesquisador é da Biologia, da Física ou de qualquer outra área: se está fazendo um projeto de divulgação científica, ele tem essa opção na hora de submeter a proposta. Se não fizer isso, você realmente dificulta a aprovação de projetos na área. Como o CNPq e muitas FAPs (Fundações de Amparo à Pesquisa) já possuem editais específicos de divulgação científica, o processo natural seria adotar essa estrutura de área do próprio CNPq.

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EDUCAÇÃO

Liberdade, escola e igualdade Pesquisa revela predomínio de negros nas instituições de ensino mineiras e altera percepção sobre a condição social dos indivíduos libertos no séc. XIX Verônica Soares

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Negro, livre e letrado. Tal tríade de condições, em determinadas circunstâncias, poderia ser considerada contraditória, especialmente na nação que recebeu, de 1791 a 1835, mais de 1,4 milhão de escravos provenientes do continente africano. No século XIX, as escolas de instrução elementar de Minas Gerais destacavam-se por um perfil que as diferenciava das demais províncias brasileiras: a região revelava-se a única onde havia predomínio de negros – termo que, nesse contexto, agrega a condição de pretos, pardos e crioulos – nos ambientes escolares, a ponto de, muitas vezes, eles se caracterizarem como maioria nas salas de aula, situação que refletia, na verdade, o próprio perfil demográfico do província do Estado, que contava com população de negros livres e escravos muito superior à de brancos. Naquela época, o acesso às escolas não era permitido aos escravos. Sendo assim, para os libertos, ter acesso à educação, ainda que apenas no nível elementar, significava a garantia de muito mais do que a capacidade de ler e escrever. Tratava-se, afinal, da possibilidade de serem, ou não, reconhecidos como sujeitos livres. A escola lhes servia de importante estratégia de afirmação social. Tal conclusão surge a partir de um novo ponto de vista sobre a história da educação em Minas Gerais, que, ao perceber o negro fora de sua condição de escravo, entende que sua subjetividade era também reconstruída por meio de experiências resultantes dos processos de educação formal. Tradicionalmente, a historiografia considera a escravidão como marca permanente na população negra. Estudos desenvolvidos por Marcus Vinícius Fonseca, professor da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), contudo, apontam que a educação revelou-se importante instrumento de ressignificação da condição dos negros. Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), o pesquisador explica que sua investigação também buscou identificar o sentido da escolarização para a população afrodescendente. Ou seja: mais do que ensino, o que buscavam os pais ao inserir seus filhos nas escolas? Sendo a hipótese inicial a de que tais instituições serviam de instrumento de afirmação social – e de que uma de

suas principais funções seria demarcar o distanciamento entre negros livres e escravos –, os indivíduos de condição livre procuravam afirmar sua liberdade por meio da relação com as escolas. Famílias negras punham os filhos no ambiente escolar para afirmar seu status de liberdade. Desse modo, estabeleciam relações com um espaço social legalmente interditado aos trabalhadores escravizados. “Isso era uma forma de os negros livres demonstrarem que não eram escravos e possuíam códigos de conduta típicos das pessoas livres”, explica o pesquisador. Para chegar a essas conclusões, Fonseca consultou e analisou documentação censitária que, na década de 1830, promoveu tentativas de contagem da população de Minas Gerais. Os documentos, que se encontram no Arquivo Público Mineiro, estão organizados como listas nominativas de habitantes e apresentam várias informações sobre a população mineira, o que inclui o registro daqueles que se encontravam em processo de escolarização. A análise foi feita na região central do território, nas comarcas de Ourto Preto e Sabará. Nesta etapa de consulta, a investigação contou com a participação da estudante Sulamita Coura dos Reis, da Ufop, que foi bolsista de iniciação científica e teve como função auxiliar o levantamento e o tratamento do material analisado. A partir das listas, identificaram-se crianças que frequentavam as escolas em anos distintos – ou seja, que teriam permanecido em processo de formação. A partir dessa comparação, foi possível verificar os efeitos da escolarização na trajetória dos estudantes e de seus grupos familiares. “Ao comparar documentos que estavam separados por sete anos – entre os períodos escolar e pós-escolar –, pude analisar o nível de interferência da escola na constituição dos indivíduos que ingressavam na fase adulta da vida”, destaca Fonseca.

Mudando de raça

Dado curioso observado na pesquisa diz respeito à influência da escolarização no processo de classificação racial dos negros: a inserção na escola podia promover a mudança da condição do indíviduo

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“crioulo”, ou “preto”, para “pardo” – ou, até mesmo, para “branco”. Tal fato confirma o que vem sendo demonstrado pela historiografia brasileira: no século XIX, a classificação racial indicava um lugar social. O impacto dessas constatações pode ser contextualizado pela atual situação da educação negra no Brasil. Segundo o professor, fica evidente que o predomínio absoluto dos negros nas escolas de instrução elementar existentes na região central de Minas Gerais, desde os anos 1800, derruba a ideia de que eles não frequentavam instituições de ensino antes do século XX. A pesquisa é uma importante contribuição ao processo de reposicionamento dos negros como sujeitos da história, ao demonstrar que este grupo operou a partir de estratégias sociais tão complexas como

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a dos demais. Os indivíduos livres, que formavam grupos frequentemente confundidos com os pares escravizados, foram os que mais rapidamente compreenderam o valor social da experiência escolar e a utilizaram como mecanismo de afirmação sociorracial. Também merece destaque o fato de que as escolas com predomínio de alunos negros tinham forte componente civilizatório, cujo objetivo era disciplinar a população. Civilizar significava, sobretudo, combater as influências africanas que se faziam presentes em Minas Gerais. “Pode-se dizer que o papel da escola era “embranquecer” a população, tentando desfazer as influências africanas. Dessa forma, constatamos que uma atitude negativa em relação à cultura de origem africana é algo que se

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faz presente no próprio processo de gestação da educação enquanto prática social”, pondera o pesquisador. Tal fato aponta para a importância da lei 10.639, aprovada em 2003, que determina que os negros sejam incorporados de forma positiva no currículo e nos processos educacionais desenvolvidos pelas escolas brasileiras. Marcus Vinícius Fonseca destaca que, ainda nos dias de hoje, “estamos lutando contra

uma tradição de caráter discriminatório, que se estabeleceu logo após a independência do Brasil e se impôs à educação brasileira”. A abordagem desenvolvida a partir da História da Educação sinaliza que a lei 10.639/2003 não apenas tende a modificar ritos pedagógicos, mas, principalmente, a transformar a própria identidade da educação como prática social e como parte de um projeto de nação gestado nos últimos dois séculos.

A lei incluiu no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, nos estabelecimentos de ensinos fundamental e médio, públicos e particulares. O conteúdo programático inclui o estudo de temas como história da África e dos africanos, luta dos negros no Brasil, cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, com o objetivo de resgatar a contribuição do povo afrodescendente nas áreas social, econômica e política pertinentes à história do Brasil. A legislação também instituiu, no calendário escolar, o dia 20 de novembro como “Dia Nacional da Consciência Negra”.

Projeto: Sentidos e significados da escolarização para a população negra de Minas Gerais no século XIX Coordenador: Marcus Vinícius Fonseca Edital: Demanda Universal Valor: R$ 10.792,27 MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2014

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CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO

Guardião de informações Iniciativa do governo de Minas pretende auxiliar visualização de dados para tomada de decisões nos setores público e privado Camila Alves Mantovani Não há dúvidas de que, nos últimos tempos, em função da velocidade, do volume e da variedade da geração de informações, questões referentes à disseminação, ao armazenamento e ao acesso de dados têm se tornado complexas, de modo a desafiar homens e máquinas. Por meio dos sistemas financeiro, de transporte, de segurança e de comunicação interpessoal – representados pelos mais variados dispositivos, de cartões de crédito a trens, aviões, passaportes e telefones celulares –, circulam fluxos informacionais que carregam o DNA da vida cotidiana do indivíduo contemporâneo. Para além da constatação do vasto volume de dados produzidos e da consequente preocupação com seu armazenamento e acesso, pesquisadores passaram a se debruçar sobre o potencial da geração de conhecimento: diante de tantas informações, como correlacioná-las e interpretá-las? Big Data é o nome dado ao processamento cada vez mais complexo de grande quantidade de dados. Cunhado na década de 1990, o termo faz alusão ao desafio posto aos sistemas computacionais, no que se refere ao processamento de grandes volumes de informação, com o objetivo de produzir conhecimento e auxiliar empresas, governos e sujeitos nos processos de tomadas de decisão. Para além do referido cenário informacional contemporâneo, percebe-se, nos

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contextos governamentais, um esforço – gerado por leis e decretos, ou mesmo por pressões democráticas – em disseminar informações consideradas de interesse público. No Brasil, está em vigor, desde maio de 2012, a Lei de Acesso à Informação, no 12.527. Em linhas gerais, a legislação regulamenta o direito à informação, já garantido na Constituição Federal, obrigando órgãos públicos a divulgar tudo o que for de interesse dos cidadãos. Para tanto, tais setores devem estabelecer procedimentos que facilitem e tornem mais ágil o acesso ao que seja importante, por meio de Tecnologias de Informação e Comunicação, as chamadas TICs, para processamento e oferta de dados. Tais ações buscam promover uma cultura de transparência e controle social na administração pública. Como parte desse esforço, o governo de Minas, a partir do Escritório de Prioridades Estratégicas, com financiamento da FAPEMIG, lançou, em novembro de 2013, o projeto DataViva, que consiste na oferta de dados oficiais sobre exportações, atividades econômicas, localidades e ocupações profissionais de todo o Brasil. Além de atender à legislação, a iniciativa tem como grande diferencial a visualização de dados que, a partir dos preceitos do Big Data, busca, de maneira interativa, ajudar o usuário a extrair significado das informações disponíveis.

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Reprodução

Visualização

Originado de uma demanda interna, tendo em vista a necessidade de tomar decisões mais acertadas a respeito de políticas públicas econômicas, o DataViva expandiu-se para além das Gerais. Já em sua concepção, buscou dialogar com setores e sujeitos situados fora da esfera governamental. Na equipe de concepção do projeto, estão os professores Cesar Hidalgo, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e Ricardo Hausmann, da Universidade de Harvard. A metodologia desenvolvida pelos pesquisadores, nomeada Product Space, foi fundamental para o desenvolvimento do DataViva. A partir da análise das conexões existentes entre os produtos exportados pelos países, numa escala econômica global, a metodologia pretende apreender quais são as vantagens comparativas de cada nação com os respectivos produtos.

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Num primeiro momento, o DataViva construiu uma ferramenta que permitia a análise da economia mineira embasada por essa perspectiva metodológica complexa e diversa. No entanto, diante das possibilidades oferecidas pelas bases de dados trabalhadas – a saber, a Relação Anual de Informações Sociais, do Ministério do Trabalho e Emprego (Rais-MTE), o Banco de Dados da Secretaria de Comércio Exterior, Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Secex-MDIC) e Banco de Dados Estatísticos de Comércio de Commodities das Nações Unidas (UN Comtrade) –, a plataforma evoluiu para um sistema mais completo. Atualmente, conta com oito aplicativos e mais de 100 milhões de visualizações. “Durante o processo de criação, viu-se o potencial da plataforma não apenas para desenvolvimento da metodologia Product Space, mas, também, para a visualização de dados abertos”, afirma Guilherme Sgan-

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serla, analista do Escritório de Prioridades Estratégicas de Minas Gerais. De maneira interativa e didática, o usuário é guiado através das diversas maneiras de navegação dos aplicativos. Além de informações sobre os produtos exportados, bem como acerca do volume das exportações em cada um dos estados e municípios do País, em poucos cliques, o interessado pode conhecer melhor o perfil da população, o tipo de atividade desenvolvida, as ocupações formais e a média salarial por categoria. “De uso amigável e intuitivo, desenvolvido 100% em software livre e aberto ao acesso de todos, o DataViva pretende contribuir para a implementação de políticas, investimentos públicos e privados, bem como para a realização de estudos acadêmicos. Ao apontar relações e evidenciar dinâmicas não vistas até então, o sistema permite que atores públicos e privados aprimorem suas estratégias, decisões e, principalmente, que dialoguem sobre o desenvolvimento econômico e social do País de forma qualificada”, aponta Hidalgo. Com o intuito de aprimorar a ferramenta, o DataViva realiza, no momento, uma pesquisa online que busca identificar o perfil dos sujeitos que acessam a plataforma, tendo por foco suas necessidades e demandas. Dentre as melhorias já previstas, está a incorporação de outras bases de dados, como informações do setor de Educação, o que permitirá análises mais complexas, para tomada de decisão não apenas no âmbito da iniciativa pública, mas, também, na esfera privada. Segundo Cesar Hidalgo, mais do que oferecer informações já públicas, o DataViva funciona como plataforma de planejamento colaborativo, por meio da qual é possível explorar a complexidade dos dados, de maneira livre, crítica e propositiva.


Dados multifacetados As bases de dados disponíveis na plataforma fornecem conhecimento específico, que é apresentado de forma correlacionada. De acordo com o Governo, em sua versão atual, o DataViva apresenta informações dos últimos 10 anos, relativas à exportação de 1.256 produtos (Secex-MDIC) e a 865 ocupações em 427 atividades econômicas (Rais-MTE). A Rais é um registro administrativo com periodicidade anual, que permite o acompanhamento e a caracterização do mercado de trabalho formal no Brasil. Os dados são fornecidos pelas próprias empresas, que englobam desde informações referentes a funcionários, até nuances da atividade econômica desenvolvida. Tais cenários permitem ao DataViva gerar conhecimento sobre emprego, massa salarial, entre outros. O banco de dados da Secex-MDIC permite a análise do comportamento do intercâmbio comercial brasileiro ao longo dos anos. Nele, o movimento comercial do País é descrito e analisado em relação às demais nações do mundo, englobando-se aí as vendas e compras efetuadas externamente. No DataViva, os dados sobre as exportações brasileiras são de 2000 em diante. As principais variáveis dizem respeito a valor das exportações, unidade da Federação produtora, municípios exportadores e país de destino. Por último, o banco de dados UN Comtrade contém estatísticas detalhadas sobre importações e exportações de cerca de 200 países ou áreas. Com atualizações frequentes, conta com mais de 1 bilhão de registros, sendo considerado um dos mais abrangentes bancos de dados disponíveis sobre comércio internacional. No DataViva, as informações usadas para proceder às comparações internacionais são origem e destino das exportações e valor exportado por produto. Cabe destacar, conforme indicação do projeto, que os dados do UN Comtrade não estão disponíveis para visualização, sendo utilizados apenas para cálculo de indicadores no DataViva.

A FAPEMIG lançou, no início de 2014, um edital para financiar propostas relacionadas à plataforma Dataviva. O objetivo era apoiar pesquisas que utilizassem o Dataviva como base de informações para análise e proposição de políticas públicas em quatro linhas temáticas: diversificação da economia mineira, complexidade econômica de Minas Gerais, redução das desigualdades socioeconômicas no Estado e tratamento e visualização de base de dados. O recebimento de propostas se encerrou em maio e, ao todo, 18 propostas foram recebidas. Elas estão sendo analisadas e a previsão é que o resultado seja divulgado no final do ano. Ao todo, serão investidos R$500 mil nos projetos selecionados.

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ENGENHARIA ELÉTRICA

Sem parar as máquinas Inovação de empresa do Sul de Minas ajuda no controle do gasto de energia da indústria Pedro Ivo Martins

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As dicas para economia de energia elétrica nas residências já são bem conhecidas dos brasileiros. Trocar lâmpadas incandescentes por fluorescentes, deixar acumular roupas para usar a máquina de lavar e o ferro de passar, não esquecer aparelhos eletrônicos no modo stand-by e reduzir o tempo do banho são alguns dos hábitos que cada um pode adotar em casa. Por enquanto, nem todos põem em prática essas orientações, mas, desde o racionamento de energia no Brasil em 2001, as campanhas para uso consciente só aumentam. As residências, no entanto, não se revelam as maiores gastadoras. Respondem por 27% do total, segundo dados do Ministério de Minas e Energia. As grandes consumidoras de energia elétrica do País são as indústrias, responsáveis por 40% do consumo. Quais seriam, então, as “dicas” para que esse setor também pudesse contribuir para a economia energética? Com o intuito de responder a tal questão, pesquisadores de Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas, criaram um sistema inovador, capaz de ajudar o setor industrial a controlar gastos. O projeto de pesquisa intitulado Eime foi desenvolvido pela empresa Kite, sob coordenação do engenheiro eletrônico Carlos Henrique Rodrigues Cardoso – mais conhecido como Caíque. O resultado é um dispositivo de monitoramento que pode ser instalado em cada máquina da in-


Divulgação

dústria para medição do gasto de energia. As informações da ferramenta – chamada de Kite Power – são enviadas por uma rede sem fio a um sistema de gestão, que registra e apresenta relatórios sobre o consumo. “O foco do produto é eficiência energética. Com a racionalização, podemos usar a energia da forma mais adequada, sem desperdício”, esclarece. A consequência imediata envolve redução de custos e ganho de competitividade. Apesar disso, o objetivo, conforme o coordenador do projeto, é antecipar um cenário de falta de energia – o que pode acontecer caso o ritmo de crescimento do Brasil volte a acelerar nos próximos anos. Qualquer corte energético pode causar prejuízos a todos os setores, inclusive ao cotidiano das residências; porém, a indústria é a que mais perde, por precisar de fornecimento contínuo. “No comércio, é possível fazer racionamento nos horários em que as lojas estão fechadas. A indústria não tem essa opção”, afirma Caíque Cardoso. O Eime foi pensado, justamente, a partir da percepção do alto impacto do desligamento da energia na indústria. Segundo o coordenador do projeto, o dano vai além do período em que houve cortes, pois o retorno da produção toma mais tempo. “Em nossa casa, se ficamos meia hora sem energia, acendemos uma vela. Quando tudo volta ao normal, podemos ligar a luz novamente e assistir à televisão. Na indústria, os problemas se prorrogam e há queda considerável na produtividade”, explica.

Energia limitada

Hoje, o Brasil depende, em grande parte, da força das quedas de água para ter energia. As usinas hidrelétricas são responsáveis por quase 80% da produção, de acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), mas ampliar a geração com esse tipo de fonte não é simples. Para se construir uma hidrelétrica, o investimento é alto e a obra toma muito tempo, sem contar o reflexo ambiental nas terras alagadas pelo represamento da água. Bom exemplo disso está na polêmica Central de Belo Monte, que está sendo construída no

Rio Xingú, no Pará, com investimento estimado em R$ 30 bilhões. Usinas termelétricas têm sido muito usadas como opção rápida para suprir a necessidade de consumo. O problema é que utilizam, como combustível, o gás natural, o carvão mineral e óleos derivados do petróleo, fontes não renováveis que custam mais caro e causam impacto negativo ao meio ambiente. Por outro lado, as chamadas energias alternativas, geradas pela luz solar e pelos ventos (eólica), ainda representam menos de 1% do total de energia produzida no País, segundo a Aneel. Com isso, racionalizar o gasto representa, para Cardoso, a forma mais viável de evitar interrupção na distribuição de energia. “Se passarmos a crescer como todo mundo gostaria, a taxas de 5% anuais, talvez, em menos de dez anos, não teremos energia suficiente para garantir o funcionamento das fábricas”, afirma. Diante da atual situação de falta de chuvas e baixos níveis dos reservatórios de água, o “apagão” pode vir bem antes que isso, segundo relatórios sobre as perspectivas da economia brasileira realizados, por exemplo, pela Consultoria PSR e pelo Grupo Brasil Plural. Enquanto não faltar energia para o setor industrial, os investimentos continuarão tendo como foco a produção, segundo o coordenador do Eime. “A questão é que a indústria ainda não está sensível a isso, pois há certa abundância. Só irão se preocupar quando o problema de falta de energia começar, realmente, a ocorrer”, pondera. Para Cardoso, o desafio é mostrar a energia como matéria prima fundamental: “Quando se fabrica um produto, temos plástico, metal e outros materiais. Não adianta ter tudo isso, se não houver energia”.

Projeto: Eime – Equipamento Industrial de Monitoramento de Energia Coordenador: Carlos Henrique Rodrigues Cardoso edital: Eletroeletrônico Valor: R$ 70.000,00

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BIOLOGIA

Blecautes ligeiros Estudo usa corujas como modelos experimentais para avaliação das atividades do cérebro durante ausência de visão proporcionada pelo piscar de olhos Ana Luiza Gonçalves

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Divulgação

Imagine a sensação de explorar o mundo apenas pelo cheiro, pelo som e pelo toque das mãos, abdicando-se completamente da visão, durante quatro horas ininterruptas do dia. Uma cortina se fecha em frente aos olhos e por lá permanece, de modo a nos cegar e a nos fazer conhecer o escuro da vida. Ao piscar, os indivíduos produzem, por cerca de 150 milissegundos, uma espécie de blecaute. A princípio, tal fração de tempo pode parecer baixa, mas, se somada ao que gastamos a cada piscada, chega-se ao valor diário de, aproximadamente, 240 minutos de completa escuridão. Interessante lembrar, ainda, que a interrupção visual ocorre de dez a 15 vezes por minuto e, geralmente, não é percebida pelas pessoas – que, por isso, têm a ilusão de percepção contínua do que as cerca. Neste sentido, o que se passa no cérebro, a cada vez que a pálpebra se fecha, fazendo com que imagens deixem de ser projetadas? “Fisicamente, há um bloqueio visual, mas, perceptualmente, você próprio completa esse bloqueio. Seu cérebro apresenta uma informação onde ela não existe; do contrário, não teríamos a continuidade perceptual”, explica Jerome Baron, professor do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB/ UFMG) e coordenador do projeto “Impacto do piscar na via retinotalamofugal”, que investiga qual o mecanismo neuronal responsável por manter a continuidade perceptual dos indivíduos durante o piscar. O fechar das pálpebras é um ato reflexo espontâneo para proteger os olhos de danos causados por objetos externos, como insetos, cílios e outros corpos estranhos. Além disso, ao piscar, o indivíduo umedece e oxigena a córnea. Entretanto, os mecanismos por trás do fenômeno de continuidade perceptual ainda são pouco compreendidos. Baron alerta que a investigação desses processos de interpolação temporal pelo sistema visual é importante para que se compreendam problemas relacionados à consciência, bem como as consequências dos blecautes não percebidos na atividade cotidiana. O foco do projeto está no entendimento das bases neuronais envolvidas em um mecanismo, ao mesmo tempo,

Um quarto do cérebro da coruja é protegido por uma protuberância chamada wulst

funcional e perceptual. Várias técnicas não invasivas podem ser usadas em tal investigação, como a eletroencefalografia e a ressonância magnética. Por meio desses métodos, contudo, não é possível acessar diretamente os meandros do funcionamento neuronal.

Dos mamíferos às corujas

Por isso é que, em estudos de tal natureza, há uso de animais – principalmente, de mamíferos, com destaque para primatas e gatos. Em seu projeto, porém, Baron propôs que os experimentos fossem realizados em espécies da coruja buraqueira (Athene cunicularia) e da coruja-de-igreja (Tyto alba), bastante comuns no Brasil. A escolha baseia-se nas evidências de que o sistema visual da ave é altamente desenvolvido e comparável ao dos primatas, além da vantagem de não apresentar movimentos oculares. Os pesquisadores estão interessados em compreender os mecanismos celulares, indo diretamente à fonte elétrica do cérebro. “Para isso, há diversos recursos, sendo o mais direto a inserção de um eletrodo no cérebro. Próximo ao neurônio, ele consegue registrar a atividade elétrica gerada”, explica o coordenador. Os experimentos com as corujas são difíceis e longos, mas permitem que se façam correlatos entre padrões de atividade neuronal e de estado perceptual. “Isso porque a atividade elétrica se relaciona a determinados aspectos visuais e, a partir disso, é possível questionar a reação de um neurônio, devido a determinados estímulos, ou por meio da mudança do estado perceptual do animal”, explica o pesquisador.

De acordo com Baron, a coruja representa um ponto de singularidade na evolução das aves. Por ter olhos frontais, ela tem visão excepcional e binocular, que permite a extração da terceira dimensão. “Se você tapa um olho, depois o outro, vê o mundo de um ponto de vista diferente. Seu cérebro compara a discrepância entre uma imagem e outra. A partir desse cálculo de discrepância, dá-se a terceira dimensão”, esclarece. A coruja é uma das raras aves com sistema visual parecido com o do primata – que, por sua vez, possui o “córtex visual primário”, área de extrema importância à visão, bastante similar ao do homem. O pesquisador comenta que essa área cerebral é a porta de entrada do processamento visual para o resto do córtex no primata. “Apesar de não ter córtex cerebral, a coruja possui uma área chamada wulst, representativa de um quarto do cérebro, que é totalmente visual. Pela posição em que se encontra essa região, revela-se análoga ao córtex visual do primata”, explica Jerome Baron.

Equipamentos

Doados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), as corujas foram mantidas em um aviário localizado dentro do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG. Foi necessário um treinamento para que as duas espécies tolerassem, sem estresse, a imobilização da cabeça durante o período de realização dos registros. Durante quatro semanas, os animais foram ambientados, por meio de manuseamento diário, para que se acostumassem à presença de pessoas e aos sons ambientes. Em seguida,

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realizou-se, nas aves, uma cirurgia de implante de um cilindro de baixo peso sobre a área cranial de interesse para a realização dos registros eletrofisiológicos da atividade neuronal. O registro do piscar de olhos foi feito com auxílio de um detector formado por um diodo emissor de luz infravermelha. O dispositivo emitia luz em alta frequência por toda a área do olho e a porção refletida era detectada por um fotodiodo. “Desenvolvemos, ainda, um sistema que mede o tamanho da pupila em tempo real, usado para detectar e medir, com precisão, o tempo da ocorrência e a cinemática do piscar”, explica o professor. Conforme esclarece Jerome Baron, a medição poderia ser feita de forma mais simples, por meio de um eletrodo instalado na pálpebra da coruja, pois, dessa forma, é possível flagrar a atividade muscular. Porém, há, na ave, uma membrana transparente a revestir a pálpebra, que protege o olho, mas dificulta o processo de medição por meio da musculatura.

Resultados

O cérebro funciona como um preditor de eventos. Antes de a piscada ocorrer, grupos de neurônios despertam um sinal, alterando a atividade cerebral. É como se o cérebro “falasse” para a área visual:

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“Prepare-se, pois vai chegar uma atividade relacionada a uma piscada”. Jerome Baron comenta que a principal questão está na busca de compreensão sobre o modo como a mente lida com a ausência de informações no momento dos blecautes. “Nossos resultados são compatíveis com a ideia de que os mecanismos preditivos e compensatórios implicados na manutenção da continuidade perceptual durante o piscar são similares aos implicados na realocação do olhar”, completa. O piscar ocular e a constrição/dilatação da pupila são marcadores poderosos de fisiopatologias e distúrbios neurológicos. Por exemplo, o comportamento da pupila é alterado em pacientes com esclerose múltipla, ataque de pânico, Parkinson, autismo, dentre outras enfermidades. Além disso, o piscar pode ser usado como indicador de atividade cognitiva específica, em diagnósticos de fadiga ou sonolência. Assim, o pupilômetro digital desenvolvido no decorrer do projeto poderá ter aplicações clínicas diversas. Na coruja, foi encontrada frequência média de cinco piscadas por minuto, com duração média de 240 milissegundos em repouso e 130 milissegundos em tarefa visual – sendo que 90% ocorriam de forma simultânea ou logo seguidas por movimentação ocular (por meio do reposi-

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cionamento da cabeça). Além disso, constatou-se que a frequência de piscadas é reduzida, se comparada à movimentação da cabeça. “Tais dados, aliás, permitiram reforçar que o sistema visual da coruja tem interessantes analogias, pelo menos funcionais, com as dos primatas, e pode servir, assim, como um modelo animal interessante para o estudo da neurodinâmica da percepção visual”, completa o pesquisador.

Projeto: Impacto do piscar na via retinotalamofugal Coordenadora: Jerome Baron edital: Demanda Universal Valor: R$ 47.802,30


ENGENHARIA DE MATERIAIS

Sustentadas e sustentáveis Materiais alternativos são promessa para minimizar impactos da construção civil e manter qualidade nas obras Virgínia Fonseca

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O setor de construção civil emprega cerca de 3,5 milhões de trabalhadores no País, e, em 2012, representou 5,7% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Bastante associado a indicadores de desenvolvimento econômico, o segmento é, também, um dos grandes responsáveis por impactos ambientais no planeta, já que usa grande volume de recursos naturais como matéria-prima. Aproximadamente 90% das areias utilizadas nessa atividade, por exemplo, são extraídas dos leitos dos rios. Cada vez mais, jazidas e lavras do material ficam escassas, especialmente, nas proximidades de grandes centros urbanos, devido ao grande consumo relacionado à produção de concretos – na forma de cimento ou de agregados empregados no setor. Neste contexto, o estudo de materiais alternativos diz respeito à possibilidade de garantir o fornecimento e, ao mesmo tempo, minimizar os impactos ambientais da atividade. “A fabricação do cimento demanda ampla quantidade de matéria-prima e energia, enquanto o uso de agregados remove grandes maciços de rochas e areias de rios, causando desmatamento e assoreamento”, explica o professor Augusto Bezerra, coordenador do Laboratório de Tecnologia dos Materiais do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG) – campus Belo Horizonte. As pesquisas na área giram em torno do emprego de materiais não convencionais em parte do cimento e de agregados de resíduos industriais em substituição aos agregados naturais. Além de as adições minerais envolverem recursos aproveitados de outros processos, elas têm importante papel nas propriedades dos elementos cimentícios, com resultados positivos para a construção, a durabilidade e a recuperação de obras. Certos materiais podem colaborar com a redução drástica da permeabilidade e a melhoria da composição da zona de transição interfacial, aumentando, consequentemente, a resistência ao desgaste superficial das construções. Concorrem, ainda, para reduzir o calor de hidratação, uma vez que a reação, com as adições minerais, se processa de forma mais lenta – o que resulta em menos porosidade nas estruturas.

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Augusto Bezerra realiza estudos similares há mais de cinco anos. A partir de projeto aprovado em edital da FAPEMIG, o acadêmico iniciou pesquisas quando lecionava no campus do Cefet em Araxá. Atualmente em Belo Horizonte, Bezerra dá prosseguimento aos trabalhos, nos quais usa resíduos de processos de extração de matéria-prima e industriais disponíveis no Estado para desenvolver opções sustentáveis do ponto de vista técnico e ambiental. As principais propriedades ligadas à durabilidade dos concretos desenvolvidos, visando sua aplicação na construção civil, passaram pelo crivo dos pesquisadores: resistência à compressão, módulo de elasticidade, permeabilidade, absorção e carbonatação (veja box ao lado). Sobras de construção e demolição, de mineração, cinzas de bagaço de cana-de-açúcar e de cavaco de eucalipto estão entre as possibilidades investigadas. Para certos materiais, existe a aplicabilidade como agregado do concreto – em substituição à brita e à areia empregadas no processo. Outros podem ser adicionados diretamente à produção industrial do cimento.

Composições possíveis

Os resíduos de construção civil e de demolição foram estudados como matéria- prima para produção de cimento. Testes de calcinação em temperatura inferior à do cimento comum, com adição de percentuais desse material, mostraram resultados positivos. Com a substituição de 35% do cimento por resíduos processados, foi possível obter resistências superiores a 75% do compósito sem substituição, números que atendem às exigências das normas nesse quesito”, revela Augusto Bezerra. As pesquisas continuam em andamento, com a parceria da professora Maria Teresa Paulino Aguilar, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Embora não tenham sido realizados, ainda, estudos de viabilidade financeira, estima-se redução substancial de custos na produção cimentícia, já que se eliminam processos como a retirada do material da natureza e a britagem. Além disso, a energia envolvida é inferior. Há que se considerar, ainda, o custo ambiental. Outra pesquisa desenvol-


vida com a mesma equipe da UFMG investiga o uso do bagaço da cana-de-açúcar para adição direta no cimento. Nesta linha, o grupo coordenado por Augusto Bezerra também tem, em andamento, um projeto apoiado pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). O produto apresenta, porém, uma limitação, que os pesquisadores ainda se esforçam para transpor: a instabilidade de suas características. “Ainda que as cinzas sejam coletadas no mesmo local, originárias do mesmo tipo de cana, de um mês para o outro, constatamos diferenças consideráveis em sua composição”, re-

lata o professor. Os resíduos se alteram em função de diversas variáveis, como espécie, época de plantio e de colheita e tipo de solo. A despeito desse desafio, as pesquisas continuam, tendo em vista o potencial de uso. Quanto aos resíduos da indústria mineradora, o grupo trabalhou com dois materiais específicos: o óxido de ferro (ou magnetita) e o fósforo-gesso. O primeiro, denso e com elevado poder de resistência à abrasão, foi adotado como possível adição aos agregados de concreto. As propriedades do material – quanto à durabilidade, à resistência mecânica e ao

Considerada uma das principais propriedades do concreto, devido à sua correlação com outras características e à facilidade de ser obtida. É um dos dados usados no cálculo estrutural, alcançado por meio do ensaio de resistência à compressão em corpos-de-prova, geralmente cilíndricos e moldados especialmente para esse fim.

Relação da água absorvida pelo compósito, ao passar da condição seca para saturada.

Particularidade de quanto o material deixase penetrar por uma substância. No caso do concreto, geralmente, usa-se água como substância penetrante.

fogo – foram avaliadas como satisfatórias. Porém, segundo os pesquisadores, a elevada massa específica inviabiliza o uso longe dos locais onde o resíduo é gerado. “Ainda é preciso identificar uma utilização mais nobre, que justifique o custo do transporte”, analisa Augusto Bezerra. Já o fósforo-gesso foi usado, com resultados relevantes, na produção de argamassa para proteger termicamente estruturas metálicas em situações de incêndio. O pesquisador identifica a cinza de cavaco de eucalipto como o mais promissor dentre os materiais estudados. Trata-se de um rejeito de composição estável, não agres-

Reação que ocorre entre o concreto e o gás carbônico (CO2) da atmosfera.

Obtido pela relação entre tensão e deformação do material na região em que, quando tensionado à compressão, o concreto apresenta proporcionalidade entre tensões e deslocamentos. Trata-se de uma medida de rigidez dos materiais.

Basicamente, resistência à compressão e módulo de elasticidade são parâmetros mecânicos empregados no dimensionamento de estruturas. Por sua vez, permeabilidade, absorção e carbonatação estão relacionadas, indiretamente, à durabilidade dos concretos: quanto maiores seus índices, menor a tendência de durabilidade do material.

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sivo e cujo custo de transporte é relativamente barato. “O material que usamos é fornecido pela DPA Nestlé em Ibiá (MG). Já testamos cinzas originárias de unidades distintas da empresa e a composição química é sempre a mesma”, afirma. A equipe pretende intensificar as investigações nesta linha. “Hoje, a cinza de casca de arroz, por exemplo, já é vendida, em sua totalidade, para a indústria de cimentos. Talvez possamos chegar a uma realidade semelhante em relação à cinza do cavaco de eucalipto”, antevê. Para adição ao cimento, as normas brasileiras permitem o uso de até 44% de materiais com propriedades pozolânicas – como cinzas –, cuja presença é capaz de aumentar a resistência mecânica do concreto. Os estudos realizados até o momento indicam a possibilidade de alcançar tal percentual. Do ponto de vista da qualidade do cimento produzido, o resultado também tem se mostrado relevante: a adição

do resíduo reduz o calor de hidratação do concreto, tornando as estruturas mais duráveis. “De forma geral, a durabilidade dos compósitos cimentícios tende a aumentar, uma vez que a absorção de água foi diminuída”, acrescenta o professor. Com a parceria do professor Ricardo Fiorotti Peixoto, da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), o grupo também estudou o uso de escória de aciaria como agregado do concreto. Os resultados mostraram-se expressivos e a pesquisa continua, sob coordenação de Fiorotti.

Legado acadêmico

De forma geral, certos resíduos da mineração e da construção civil, assim como as cinzas agroindustriais, apresentaram potencial para uso em concretos. Esses elementos mantiveram ou elevaram a resistência mecânica e os ensaios realizados não indicam a redução na durabili-

dade. O estudo – que se desmembrou em vários subprojetos de mestrado e doutorado – continua, com boas perspectivas de resultados. O professor aposta no elevado potencial mercadológico das cinzas de bagaço de cana-de-açúcar e, especialmente, nas de cavaco de eucalipto. Augusto Bezerra também destaca, como grande contribuição do projeto, a formação de recursos humanos e a instalação, em Araxá, de um laboratório para fomento das pesquisas na área. “A iniciativa contribuiu para firmar convênio entre a Ufop e o Cefet-MG local, que resultou na qualificação dos docentes da instituição araxaense como mestres e doutores”, conta. O equipamento adquirido à época, com recursos da FAPEMIG, também permaneceu no campus Araxá e segue sendo usado em pesquisas, bem como nas aulas do curso técnico.

Atitudes verdes Os concretos são usados em diversas construções, de edifícios a barragens, e comumente apresentam resistência à compressão especificada entre 5 MPa, no caso de barragens, e 50 MPa para edifícios de múltiplos pavimentos. O consumo de cimento pode variar de 50 a 450 kg/m³. O emprego de resíduos pode levar à redução do consumo de cimento por metro cúbico de concreto e auxiliar no desempenho e na durabilidade do material, além de contribuir para a sustentabilidade do planeta com o não descarte desses materiais e a diminuição da extração de recursos do meio ambiente. Os resíduos de construção e demolição respondem por significativa parcela dos rejeitos gerados nos grandes centros urbanos. Belo Horizonte iniciou, em 1995, um programa de reciclagem de entulho que incluiu a instalação de três usinas de reciclagem. De acordo com a Prefeitura Municipal, este material representa 26% do total de resíduos destinados no município e responde por 80% da coleta de materiais recicláveis. Em 2013, foram produzidas 125 toneladas/dia de material britado nas usinas de reciclagem.

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Projeto: Desenvolvimento de concretos sustentáveis do ponto de vista técnico e ambiental Coordenador: Augusto César da Silva Bezerra edital: Edital Universal Valor: R$ 39.900,00


ENGENHARIA AGRÍCOLA

Do Cosmos à lavoura Pesquisadores da Universidade Federal de Lavras desenvolvem estudo sobre agricultura mineira a partir de monitoramento por satélite William Rocha Ferraz

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O avanço populacional no mundo caminha a passos céleres. Por ano, cerca de 78 milhões de novas vidas humanas florescem, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Diante de tal cenário, a produção de alimentos revela-se o desafio do século XXI. Em 2013, a Terra passou a acolher 7 bilhões de habitantes. A estimativa é de que, em menos de 50 anos, a população mundial atinja a marca de 9 bilhões. Nesse contexto, especialistas calculam que seja necessária, apenas nas próximas quatro décadas, produção de alimentos correspondente ao volume da demanda dos últimos oito milênios – o que significa aumento produtivo de 70%. O cenário é antagônico: ao passo que a humanidade cresce, os recursos são restringidos pelo aumento acelerado de consumo. Somem-se a tal realidade os obstáculos de produção impostos pelas alterações climáticas dos últimos anos. Tais fatores conduzem a segurança alimentar e nutricional a inquietante situação de risco. A maior aposta para o combate e prevenção da fome mundial está calcada na agricultura. A pecuária – segunda maior fonte de alimento para a humanidade –, além do maior aprovisionamento de insumos, é responsável por 14,5% das emissões de gases de efeito estufa, o que equivale a 7,1 bilhões de toneladas de dióxido de carbono por ano, segundo dados da agência das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (ou Food Agriculture Organization – FAO). Dono de setor agrícola com capacidade para alimentar um bilhão de pessoas no mundo, o Brasil assume posição de vanguarda nessa missão. Por isso, o fortalecimento agrícola no País faz-se imprescindível. Parte desse desafio foi assumido por pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (Ufla). Com o objetivo de fortalecer as atividades agrícolas praticadas em Minas Gerais – detentor da maior área de cultivo irrigado da América do Sul –, cientistas dedicaram-se ao desenvolvimento de técnicas de monitoramento por satélite para identifica-

ção e quantificação de áreas irrigadas pelo sistema de pivô central, método aplicado a mais de 20% da agricultura brasileira. Divididos em diferentes etapas de desenvolvimento, os estudos debruçaram-se sobre dois objetivos centrais. Em um primeiro momento, buscou-se gerar o mapeamento cadastral das áreas dos pivôs de irrigação em atividade no Estado, com a finalidade de suprir a carência de informações relativas a atividades agrícolas dispersas pelo vasto território mineiro. Em seguida, desenvolveram-se soluções para um complexo paradoxo: indispensável ao abastecimento mundial de alimentos, a irrigação é a atividade que mais consome água em todo o planeta, outro recurso essencial à vida. Aproximadamente 70% de toda a água disponível no mundo – recurso já em vias de escassez – destina-se à prática. No Brasil, o índice chega a 72%. O foco desta etapa, ainda em desenvolvimento, é a identificação dos cultivos, com vistas à compreensão do consumo adequado de água para cada um deles, em busca do aprimoramento de técnicas que reduzam o desperdício e intensifiquem a produtividade.

Informações do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA)

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Equipamento formado por estrutura suspensa, provida de tubulação metálica ao centro. Conectado a haste munida de orifícios, ele gira ao longo de área circular, por meio da qual a água é borrifada sobre a plantação.


Imagens de satélites As pesquisas, inéditas no País, tiveram início em 2009, com aporte financeiro da FAPEMIG, por meio de recursos do edital Demanda Universal. “O uso de imagens de satélite de média resolução mostraram-se extremamente eficientes para identificação e quantificação de áreas irrigadas por pivô central. Devido a suas formas circulares, essas áreas podem ser facilmente reconhecidas por meio de análises visuais”, explica Elizabeth Ferreira, coordenadora do projeto, que atua nas áreas de Sensoriamento Remoto, Cartografia e Geoprocessamento há cerca de 20 anos. De acordo com a pesquisadora, a acessibilidade à tecnologia de monitoramento por satélite ainda é recente no Brasil. “Até a década de 1980, os estudos usavam imagens capturadas por aviões. Esse tipo de fotografia oferece menor nitidez do que as imagens de satélite. Com o tempo, a tecnologia tornou-se acessível e uma série de softwares para manipulação desse formato digital passou a ser distribuída gra-

tuitamente, o que possibilitou o uso dos satélites com finalidade agrícola no País”. Apenas no final dos anos 1990 é que a área ganhou expressivo avanço no Brasil, com a implementação do Programa Sino-Brasileiro de Satélites de Recursos Terrestres (Cbers, na sigla em inglês), que pôs em órbita o primeiro aparelho voltado a programas de “imageamento” do território brasileiro. O projeto resultou de parceria entre o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e a Academia Chinesa de Tecnologia Espacial (Cast). Para sensoriamento das áreas de irrigação, a equipe utilizou o satélite Cbers 2B, versão aprimorada, que entrou em atividade em 2007. O processo de varredura geográfica do Estado – que domina uma superfície superior a 585 mil km² – foi realizado entre 2008 e 2010. Foram necessárias 88 fotografias para cobertura de todo o território. “O sensor do satélite usado fornece imagens de uma faixa de 113 km de largura no terreno, com resolução espacial de 20 metros, o que significa que objetos de dimensões inferiores a esta medida não

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são distinguíveis. Seu objetivo é cobrir áreas extensas”, explica Elizabeth. Um conjunto de softwares foi utilizado com a finalidade de verificar a qualidade das imagens e unir os bancos de dados das cenas, compondo um único arquivo com todas as informações das áreas irrigadas por pivô central no Estado. Para facilitar a interpretação e a minimização de erros, foram selecionadas imagens com porcentagem mínima de nuvens. “Ao final das investigações, detectamos 3.871 pivôs em todo o Estado, totalizando 255 mil hectares de área irrigada”, conta Elizabeth Ferreira. Dos 853 municípios de Minas Gerais, 180 apresentaram território irrigado por pivô central. Três municípios destacaram-se por apresentar números acima de 100 equipamentos. Trata-se de Paracatu, Unaí e Rio Paranaíba, cidades com, respectivamente, 495, 459 e 197 instalações. A maioria dos pivôs concentrados na região cobre a área de mil hectares. A coordenadora do projeto destaca que, ao final da referida fase, consolidou-se o primeiro projeto de identificação das áreas irrigadas por pivô central em todo o Estado. “Com esses dados reunidos, poderíamos determinar a abrangência do equipamento, identificar em que perímetro de município havia sido instalado e de qual bacia hidrográfica extraíra-se a água para irrigação. Por fim, estaríamos aptos a mensurar o volume de água usada”, completa.

Sustentabilidade em órbita Após catalogar as áreas de irrigação por pivô central em Minas Gerais, a equipe reuniu dados para iniciar a investigação sobre uso e consumo de água, no Estado, pelo setor agrícola. Com o propósito de desenvolver estudo consistente sobre o assunto, Elizabeth participou de curso realizado no Centro de Previsões do Tempo e Estudos Climáticos (Cptec), ministrado por equipe holandesa com vasta expertise em Agrometeorologia, ciência voltada à investigação das relações de causa e efeito de condições meteorológicas sobre a produção agrícola. “Estudos

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dessa natureza são de extrema relevância para o Brasil, uma vez que as equações para cálculo dos efeitos de fenômenos climáticos sobre as lavouras voltaram-se, até hoje, a padrões europeus, ou seja, a regiões com características geoclimáticas muito distintas das ocorrentes em terras tropicais”, explica Elizabeth. De acordo com a pesquisadora, o desenvolvimento de técnicas específicas para a prática de irrigação em climas quentes pode levar a agricultura nessas regiões a nível qualitativo muito mais elevado, já que os modelos equacionais atualmente aplicados podem não ser os mais apropriados, em razão de fenômenos como a evapotranspiração que incide diretamente sobre os métodos de cultivo e são determinados por características do clima e topografia. Os estudos conduzidos buscam a análise de coeficientes das culturas em cada estágio. Em outros termos, trata-se da demanda de água por determinada espécie de cultivo em cada uma de suas etapas de crescimento – uma vez que a equipe constatou relativa facilidade na distinção dos tipos de plantações, por meio do monitoramento remoto. Para tanto, elaboraram-se interpretações de imagens coletadas de lavouras em diferentes fases de desenvolvimento, com o intuito de analisar os valores de coeficientes das culturas em cada estágio – ou seja: a demanda de água por etapa de crescimento. “O objetivo dessa fase é desenvolver novas equações com base em testes de campo conduzidos em terras tropicais, com foco na redução de gasto excessivo de água ou irrigação insuficiente durante o crescimento do cultivo”, ressalta a pesquisadora. Como objetivo final, a pesquisa busca tornar a tecnologia disponível ao agricultor, por meio de ferramentas como o Google Earth. “Dessa forma, teremos avaliações em tempo real, em área mais concentrada e, portanto, mais precisa, se comparada ao monitoramento realizado por estações meteorológicas, tal como ocorre hoje”, completa.

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É a soma dos coeficientes do volume de água perdida do solo por evaporação e de plantas por transpiração. O nome provém dos dois processos, que são simultâneos e precisam ser igualmente mensurados.

Projeto: Estudo de áreas irrigadas utilizando imagens dos satélites CBERS_CCD, MSG/SEVIRI e dados de campo, em Minas Gerais Coordenadora: Elizabeth Ferreira Edital: Demanda Universal Valor: R$ 36.762,62


BIOQUÍMICA

Cheiroso e ecológico Pesquisadora desenvolve sabão com propriedades medicinais a partir da reutilização do óleo de cozinha e da combinação com plantas de ação farmacológica Camila Alves Mantovani

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Trata-se de um dos principais resultados da conferência Eco 92 (ou Rio 92). O documento estabeleceu parâmetros para comprometimento das nações com a solução dos problemas socioambientais, por meio de seus governos, de suas empresas e entidades de terceiro setor.

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A conscientização ambiental pode ser compreendida como uma mudança de comportamento por parte dos indivíduos – e, por conseguinte, da sociedade –, em relação ao meio ambiente. Tendo em vista que um dos grandes problemas ambientais, na atualidade, refere-se ao consumo desenfreado da população e à consequente geração de resíduos, tal mudança culmina com a utilização dos recursos ambientais de forma sustentada, levando-se a um consumo consciente. Dentre as diversas ações para promover tal conscientização, destacam-se as abordagens que têm como referência o princípio dos 3Rs, apresentado na chamada “Agenda 21”, a saber: redução, reutilização e reciclagem. Apesar de serem bastante difundidos, tais princípios ainda encontram barreiras em sua implementação, principalmente, quando se observa o consumo cotidiano dos cidadãos. Além de questões voltadas à mudança de comportamento, é patente o desconhecimento do que pode ser feito com determinados resíduos, como o óleo de cozinha. Com o intuito de contribuir para uma melhor gestão dos detritos, bem como de promover atitudes ecologicamente corretas, pesquisa coordenada pela professora Marisa Alves Nogueira Diaz, da Universi-

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dade Federal de Viçosa (UFV), busca produzir sabão e sabonetes medicinais a partir de óleo residual, aliado à investigação e à comprovação da existência de propriedades farmacológicas pesticidas em extratos de plantas da região de Viçosa (MG). De acordo com a pesquisadora, o descarte do óleo usado na cozinha é um grave problema ambiental, especialmente, no Brasil. Caso o material seja despejado nas pias de cozinhas, ainda que ocorra o processo de tratamento de esgoto, parte do líquido permanece retida no encanamento, de modo a atrair diversos tipos de pragas, além de contribuir para enchentes, tão frequentes nos grandes centros urbanos do País. Importante ressaltar, ainda, que o óleo chega intacto aos rios e às represas, fica na superfície da água e pode impedir a entrada de luz – elemento que alimenta o fitoplâncton, conjunto de organismos essenciais à cadeia alimentar aquática. Os recursos hídricos, porém, não são os únicos a sofrer os impactos do descarte. Ao atingir o solo, o óleo também promove sua impermeabilização, dificultando o escoamento de água das chuvas. Além desse problema, a demorada decomposição do material promove a emissão de metano – o gás do chamado “efeito estufa” – na atmosfera, contribuindo com o superaquecimento terrestre.


Motivações e estudos Ao chegar em Viçosa, em 2006, Marisa Diaz oferecia um curso na Semana do Fazendeiro, tradicional evento da região, intitulado “Sabão Rural”. Em resumo, o objetivo da iniciativa era promover a conscientização acerca do meio ambiente, aliada ao problema de descarte do óleo de cozinha. À época, para que as aulas ficassem mais atrativas, a pesquisadora decidiu acrescentar plantas medicinais com atividades farmacológicas – principalmente, antimicrobianas, sarnicidas e carrapaticidas – já comprovadas ao sabão feito com óleo residual. Inspirada pela experiência, dois anos mais tarde, a professora aprovou, na FAPEMIG, o projeto de pesquisa que seria realizado em parceria com a empresa Jr. In Bio, ligada ao curso de Biologia da UFV. A proposta era pesquisar plantas medicinais com atividade antimicrobiana e incorporá-las ao óleo vegetal residual. “Deu tão certo que trocamos o óleo residual pelo de macaúba e desenvolvemos um sabonete a

partir da planta aquática que pesquisávamos à época. O processo foi patenteado, além de ter gerado trabalhos acadêmicos”. A partir daquela primeira proposta, surgiram outras diversas proposições de pesquisa, como o projeto “Obtenção e avaliação de produtos fitossanitários alternativos para uso no controle de mastite bovina”, que detém o apoio do CNPq e conta, entre seus desdobramentos, com a produção de sabão com propriedades farmacológicas. Neste caso, contudo, o foco está no pequeno produtor, que, conforme ressalta a pesquisadora, não tem condição financeira de usar antibióticos para tratar a mastite bovina. O produto serviria, portanto, como alternativa para assepsia das mãos, antes da manipulação do animal. Reduz-se, assim, o risco de contaminação e disseminação da doença no rebanho. “Além disso, a pesquisa objetiva a realização de um estudo fitoquímico das plantas mais ativas, para verificar qual o princípio ativo responsável pelo efeito.

Até o momento, descobrimos o composto responsável pela reação antimicrobiana de duas das plantas investigadas”, conta Marisa Diaz. A pesquisadora destaca que o curso “Sabão Rural” ainda é oferecido, tanto na Semana do Fazendeiro quanto em outros períodos e espaços, a exemplo do Centro Tecnológico de Desenvolvimento Regional de Viçosa (Cetev) – onde é possível contar com a colaboração da ONG Engenheiros Sem Fronteira, formada por profissionais e estudantes de Engenharia que buscam ajudar comunidades social e economicamente carentes. Ao analisar os desdobramentos dos projetos e seus encaminhamentos futuros, Marisa Diaz revela-se bastante otimista. “No momento, fazemos a associação de plantas nas formulações. Testamos uma espécie in vivo e os resultados foram promissores. Agora, esperamos o parecer da comissão de ética para iniciarmos os testes – também in vivo – com outras variedades”, conclui.

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Devido ao sucesso do curso “Sabão Rural”, Marisa Diaz foi convidada a produzir aulas a distância, de modo a oferecê-las no site do “Espaço do produtor” (https://www2.cead.ufv.br/espacoProdutor), iniciativa da UFV. Na internet, são apresentadas as informações para quem deseja iniciar-se no ofício da produção de sabões a partir de óleo usado. Segundo a pesquisadora, o processo é bastante simples e não requer equipamentos ou instrumentos sofisticados. Além disso, a fabricação pode ocorrer numa cozinha convencional, desde que todos os recipientes e instrumentos estejam bem higienizados. Quanto à variedade dos produtos, é preciso partir da receita de sabão básico, para, em seguida, investir nos modelos com propriedades farmacológicas. O sabão de losna ou arruda, por exemplo, pode ser usado no combate a piolhos e lêndeas; já o de erva-de-santa-maria é ótimo contra pulgas. Quanto ao uso dos sabões em seres humanos, a pesquisadora ressalta que, para além das mãos, deve-se evitar receitas elaboradas a partir do óleo de cozinha. Isso porque, em peles sensíveis, há o risco de reações alérgicas, apesar da filtragem dos resíduos líquidos. E aí, quer produzir seu próprio sabão? Confira a receita abaixo!

Material necessário • • • • 1000 ml • • • • •

Fogão comum e/ou forno de microondas doméstico Balança de cozinha Recipientes de alumínio ou ágata Copo becker de plástico ou similar para medidas de Colher de pau ou bastão de vidro Fôrmas variadas de PVC e/ou silicone Peneira Coador de óleo de cozinha Congelador ou freezer

Ingredientes para sabão básico • • • •

150g de sebo 225 ml de óleo de soja de cozinha usado e filtrado 62,25g de soda cáustica 250 ml de álcool comercial

Modo de preparo Dissolva e filtre previamente o sebo. Adicione o óleo de cozinha usado e filtrado. Separadamente, dissolva a soda em 125 ml de água. Coloque o sebo e o óleo em um recipiente grande e adicione o álcool. Aqueça ligeiramente a mistura e junte a solução de soda; mexa bem, até ficar cremosa. Numa fôrma, despeje o sabão ainda mole e deixe esfriar. Corte os pedaços de sabão depois de frio. (Observação: no lugar do sebo, pode-se usar a base para sabonete de glicerina transparente ou branca.) Projeto: Produção de sabão com propriedades farmacológicas, aliada à conscientização ambiental e sustentabilidade através da reciclagem de óleo vegetal residual Coordenadora: Marisa Alves Nogueira Diaz Edital: Pesquisa em Interface com a Extensão Valor R$ 36.330,00

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no trabalho,

SOCIOLOGIA

Forte

frágil

no reconhecimento

Estudo aponta diferenças de oportunidades entre homens e mulheres nas profissões taxadas como “masculinas” Virgínia Fonseca

“Às vezes passava fome ao meu lado / E achava bonito não ter o que comer / Quando me via contrariado / Dizia: ‘Meu filho, o que se há de fazer!’ / Amélia não tinha a menor vaidade / Amélia é que era mulher de verdade”. Até quem nunca ouviu um trecho deste famigerado samba, escrito nos idos de 1940, já aprendeu o significado que a canção atribuiu, perenemente, à palavra Amélia. Desde então, o nome tornou-se sinônimo de mulher sub-

missa, abnegada, afeita às tarefas domésticas. Setenta anos se passaram e, seguramente, hoje, os fãs de Mário Lago e Ataulfo Alves têm ainda mais motivos para cantar suas “saudades da Amélia”: a cada dia, amplia-se a participação da mulher brasileira no mercado de trabalho. Análise do Cadastro Nacional de Atividades Econômicas (Cnae), divulgada em 2013, mostra que, em 2011, a disponibilização de empregos

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femininos no Brasil alcançou 19,4 milhões, crescimento de 5,93% em relação ao ano anterior. E não é apenas nas ocupações ditas femininas que o “sexo frágil” vem se firmando. Em Montes Claros, uma pesquisa analisou os impactos da inserção de mulheres em profissões representadas como ocupações masculinas, a exemplo de frentistas e policiais. O intuito da investigação, conduzida por um grupo da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), foi verificar como as mulheres que exercem essas

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funções se representam – e são representadas – pelos colegas do sexo masculino no exercício das atividades. Além disso, os estudiosos buscaram entender se, no imaginário dos referidos trabalhadores, há invasão do território masculino por parte das policiais e frentistas. Os resultados mostraram-se paradoxais: embora as mulheres apresentem níveis de escolaridade superiores aos dos homens, persistem diferenças importantes de remuneração – com vantagem para os profissionais do sexo masculino. “Apesar

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dos avanços no mercado de trabalho, com a presença feminina em atividades tradicionalmente tidas como masculinas, em relação às representações sociais, ainda há diferenciação entre os sexos”, pondera a professora Maria da Luz Alves Ferreira, coordenadora da pesquisa. Para escolher as ocupações sobre as quais se debruçar, Maria da Luz considerou o fato de ser relativamente recente o ingresso de mulheres na carreira policial. E de as frentistas ficarem, no exercício de suas atividades, muito expostas, até mesmo pelo tipo de uniforme adotado. Um levantamento quantitativo do número de homens e mulheres que atuam na Polícia Militar, e nos postos de combustíveis de Montes Claros, fez parte da prospecção de dados. Para captar o pensamento dos trabalhadores sobre a inserção feminina nessas profissões, a pesquisadora explorou a metodologia de grupos focais, também com integrantes de ambos os sexos, que responderam a questões específicas sobre o objeto de estudo. O universo da pesquisa era composto, em sua maioria (67%), por frentistas, enquanto os policiais militares da Área Integrada de Segurança Pública 98 cor-


respondiam a 33% dos entrevistados. No total, 47% dos respondentes eram do sexo feminino e 53%, do masculino.

Diferenças

Os índices educacionais estão entre os principais parâmetros usados para analisar as relações de desigualdade de gênero. Em Montes Claros, os estudos apontaram que não havia mulheres com apenas ensino fundamental, enquanto 10,5% dos homens encontravam-se nessa faixa. O nível médio – completo e incompleto – não apresentou muita discrepância entre os sexos. Porém, quando se trata do ensino superior, 35% das mulheres encontram-se a cursar alguma graduação, em comparação a apenas 5% dos homens. No ensino superior completo e na especialização, as variações não passaram de 5% entre um sexo e outro, com predominante presença masculina. Os resultados da pesquisa confirmaram, assim, uma tendência, observada no País, de diferenciação salarial entre homens e mulheres que trabalham na mesma ocupação: as últimas recebem até 28% menos, mesmo quando possuem escolaridade maior. Dados do Dieese (2013) corroboram: em Belo Horizonte, em 2012, apesar de terem aumentado sua participação no mercado, as mulheres recebiam até 79% do valor/hora percebido pelos homens. “Constatamos que, embora tenhamos tido grande avanço, já que elas estão ingressando mais no mercado de trabalho brasileiro, persistem as desigualdades”, conclui Maria da Luz. A média de renda dos homens, na pesquisa, foi de R$ 1.463,15, enquanto a das mulheres ficou em R$ 1.078,76. “É importante ressaltar que as rendas foram consideradas em conjunto, o que justifica um alto desvio padrão, já que a renda de policiais é, consideravelmente, superior à dos frentistas”, esclarece a professora. No caso das policiais, a pesquisa verificou que o salário é equiparado, quando se trata da mesma patente. Porém, existem disparidades no acesso, observando-se um número visivelmente maior de homens nos cargos mais altos. “Neste caso, a discriminação não é pela renda, mas dentro da própria carreira”, explica.

Ao longo da história, a mulher tem ocupado postos no mercado de trabalho que são definidos como majoritariamente femininos, em áreas como Educação e Saúde. Maria da Luz lembra que tais ocupações relacionam-se à dimensão do cotidiano doméstico das mulheres, que usualmente cuidam dos filhos e administram a casa. Nessas áreas em que são mais presentes, elas chegam a ter renda média 25% superior à dos homens. “Isso indica que a desigualdade de renda apresenta duas faces: pode ser verificada entre as carreiras e dentro delas”, analisa a pesquisadora. Em ambientes profissionais com maioria de homens, porém, as mulheres, via de regra, ocupam posições mais baixas e subordinadas. Consequentemente, recebem salários inferiores. Isso se confirmou no estudo de Montes Claros: quanto ao exercício da condição de chefia, por exemplo, nos casos analisados, nenhuma mulher está nesta posição, ao

passo que 15% dos homens entrevistados exercem liderança.

Gêneros no trabalho

Foi, sobretudo, a partir da década de 1970, marco do crescimento da participação feminina no mercado, que a Sociologia do Trabalho incorporou, em suas pesquisas, a temática da divisão sexual e social do trabalho. “Assume-se que existe, aí, uma dimensão simbólica e cultural que só poderá ser satisfatoriamente explicada a partir do uso da categoria ‘gênero’”, explica a professora. Na mesma época, ocorre, ainda, importante mudança no conceito do trabalho, que, anteriormente, era entendido apenas como atividade remunerada ou produtora de bens alocáveis ao mercado. Incorpora-se a atividade doméstica como categoria analítica e, consequentemente, ocorre ampliação do debate sobre as várias interfaces do trabalho, realizado para o mercado, ou no espaço doméstico, por homens e mulheres.

Sob o olhar dos gêneros em Montes Claros Quando questionados sobre o trabalho com homens ou mulheres na empresa, frentistas e policiais, masculinos e femininos, declararam sentir-se bem atuando ao lado de pessoas do sexo oposto. A maioria considerou o local de trabalho um ambiente harmônico. Em relação à capacidade de homens e mulheres, nos postos de combustíveis, as falas mostram que, em geral, eles consideram que todos têm as mesmas capacidades. Entretanto, alguns ressaltam as qualidades femininas – fragilidade, criatividade –, ao mesmo tempo em que consideram certas atividades como “pesadas” para elas. Já as mulheres frentistas consideram não haver diferença entre os sexos quanto às capacidades. Mas algumas também apontaram que existem atividades que elas não fazem tão bem quanto eles, devido à própria constituição física. Os policiais relataram que se sentem bem trabalhando com as colegas do sexo feminino. Eles argumentam que não existe grande diferença entre o trabalho de homens e de mulheres na polícia, já que todos, quando vão ingressar, passam por testes físicos determinantes para atuação na corporação. Apenas um policial considerou a força física como aspecto que limita o desempenho da atividade feminina na PM. As policiais femininas, mesmo considerando que todos têm capacidade intelectual para exercer as atividades dentro do cotidiano da corporação, ressaltam que os homens podem ter mais capacidades para determinada tarefa, e vice-versa, dependendo do tipo de atividade.

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A inserção das trabalhadoras no mercado, entretanto, veio acompanhada da tendência de segregar as mulheres em setores industriais e ocupações específicas. “Na maioria das vezes, elas exercem

Quem colocou lenha

funções definidas como menos qualificadas, recebem rendimentos menores e são mantidas, hierarquicamente, em posição inferior à dos homens”, detalha Maria da Luz. As mulheres acabam mais requisitadas para

sutiã nesta fogueira?

Maria da Luz menciona trabalho publicado, em 2003, pelas pesquisadoras Maria Cristina Aranha Bruschini e Maria Rosa Lombardi, que apresenta as mudanças ocorridas no País, sobretudo, depois dos anos 1970, como fatores explicativos do aumento da contratação da mão-de-obra feminina. Incluem-se, aí, transformações de ordem demográfica, social e cultural, que afetaram não só as mulheres, mas o conjunto das famílias. Confira: Expansão da escolaridade (especialmente de cursos superiores), que viabilizou o acesso das mulheres ao mercado de trabalho em novas ocupações. Queda da fecundidade, que reduziu o número de filhos por mulher, nas cidades mais desenvolvidas, liberando as mulheres para os postos de trabalho.

Alteração da constituição da identidade feminina voltada para o trabalho produtivo, resultante da atuação das mulheres nos espaços públicos.

Transformações culturais nos valores relativos ao papel social da mulher, impactado pela atuação do movimento feminista.

As autoras apontam, como mudanças, a alteração do perfil de trabalhadoras dos anos 1980, composto, geralmente, por jovens, solteiras e sem filhos, e que passa a ser integrado por mulheres mais velhas, casadas e com filhos. A responsabilidade de cuidar da prole, tradicionalmente reconhecida como atividade feminina, deixa de ser empecilho para o ingresso nos postos de trabalho. A ampliação da participação pode ser explicada tanto pela necessidade de complementar a renda familiar quanto pela elevação da escolaridade, que qualifica as mulheres para competir no mercado, embora persistam piores condições para o trabalho feminino. Nos quesitos “concentração de tarefas” e “dupla jornada”, as mulheres continuam à frente, já que a inserção no mercado não as exime de outras atribuições culturalmente associadas ao sexo feminino. Nos grupos focais pesquisados em Montes Claros, quando perguntadas sobre a dupla jornada, as trabalhadoras foram unânimes em afirmar que o fato de estarem inseridas no mercado e, consequentemente, de contribuírem com a renda familiar, não as isenta dos cuidados com a casa e com os filhos ou da supervisão destas atividades.

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executar tarefas que exigem habilidades como destreza manual, atenção a detalhes e paciência para realizar trabalhos repetitivos. Essas capacidades, no entanto, não são consideradas como qualificação, o que faz com que as trabalhadoras continuem sendo submetidas a salários inferiores. Ao longo das décadas, o aumento do ingresso da força de trabalho feminina no mercado não apresentou mudanças na forma como se dá tal inserção ou transformações no sentido de promover a igualdade salarial. Verifica-se, segundo os pesquisadores, a presença massiva de mulheres em condições de trabalho precário, sem carteira assinada e com instabilidade. A evolução dos anos trouxe, antes, um paradoxo: por um lado, as mulheres têm conquistado melhores empregos com maior escolaridade. Por outro, segue a predominância dos “guetos femininos”, com ocupações que se tornam específicas deste gênero e com desigualdades salariais. Neste contexto, a explicação para as disparidades entre homens e mulheres encontra-se, de acordo com a professora, nas construções sociais e culturais, que impõem valores e lugares distintos ao trabalho de ambos, independentemente de características técnicas ou de escolarização: as pessoas do sexo feminino são preparadas prioritariamente para o exercício de atividades reprodutivas e as do sexo masculino, para atividades produtivas. Atualmente, Maria da Luz conduz outro estudo na mesma linha, também apoiado pela FAPEMIG, em que estende o comparativo às cidades de Alfenas e Uberlândia. O leque de ocupações pesquisadas expandiu-se e, agora, abrange juízas, delegadas, motoristas de ônibus e de moto-táxi, pedreiras e auxiliares de construção civil.

Projeto: Ainda precisamos avançar? Identidade de gênero das profissionais que exercem função masculina: as frentistas e as policiais femininas de Montes Claros - MG Coordenador: Maria da Luz Alves Ferreira Edital: Demanda Universal Valor: R$15.445,50


William Rocha Ferraz Para grande parcela da população, o termo radioatividade remete a episódios trágicos da humanidade, repletos de espírito bélico e de potencial destrutivo. Pouco se sabe, contudo, que, hoje, a tecnologia está diretamente ligada a áreas da ciência voltadas à garantia da qualidade de vida e ao desenvolvimento econômico e social. Dentre tais práticas, a técnica da irradiação por raios gama insere-se no cotidiano dos indivíduos de maneira multifacetada, por auxiliar da conservação de produtos alimentícios à modificação – ou indução – de cores em pedras semipreciosas. Em Minas Gerais, o Laboratório de Irradiação Gama (LIG) do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), juntamente ao Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) – sediado no estado de São Paulo –, opera neste segmento. Trata-se, aliás, dos dois únicos laboratórios de natureza estatal a trabalhar com tais procedimentos. Inaugurado em 2002, o LIG teve suas operações iniciadas com pesquisas ligadas à irradiação de alimentos e coordenadas, à época, pelo físico Alexandre Soares Leal. A iniciativa foi tema da edição nº 21 da revista MINAS FAZ CIÊNCIA, de dezembro de 2004 a fevereiro de 2005. Os estudos buscavam a conservação da qualidade de produtos alimentícios, por meio do uso de uma fonte de radiação ionizante – no caso, os raios gama. A energia penetra na estrutura do alimento e elimina grande parte dos microrganismos, que se formam em seu material orgânico ou o contaminam durante processos de manuseio e armazenamento, comprometendo a qualidade do produto e sua durabilidade. O trabalho foi desenvolvido com aporte financeiro da

FAPEMIG, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Fundação Ezequiel Dias (Funed). O conhecimento adquirido com o trabalho de irradiação de alimentos conferiu, à equipe do Laboratório, grande expertise na manipulação da tecnologia. Sob coordenação de Luiz Carlos Duarte Ladeira, atual diretor do LIG, as aplicações da técnica de irradiação ganharam ramificações e atendem a diversos segmentos, além do trabalho de pesquisa e extensão em parceria com múltiplas instituições, como UFMG, Ufla, Ufes, do Espírito Santo, e Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH). “As finalidades de pesquisa e extensão demandam cerca de 20% do período de operações do Laboratório, que funciona 24 horas por dia. Fontes emissoras de radiação expiram mesmo durante o período de ócio. Além disso, trata-se de recursos onerosos. Por essa razão, o LIG atua no atendimento a segmentos comerciais, evitando que o material seja perdido sem aplicações práticas”, explica.

Perfil multiuso

As aplicações também atendem aos mais diversos setores. No segmento alimentício, além da eliminação de toxinas dos alimentos, a equipe combate pragas e realiza a desinfestação de frutas

Dispositivo eletromecânico de comando que possibilita o controle de cargas elétricas em um circuito de potência. Sua função é acionar e desligar motores, sistemas de iluminação, resistências e outros equipamentos que funcionem com eletricidade.

e grãos. “A técnica é vantajosa e substitui a aplicação de agrotóxicos e demais tratamentos químicos, prevenindo o depósito de resíduos químicos nos alimentos”, explica Luiz Ladeira. Dentre os novos campos de uso da técnica, estão a conservação de obras de arte a partir da eliminação de fungos e insetos, a esterilização de produtos médicos e farmacêuticos e a modificação de produtos industriais, como polímeros e outros derivados sintéticos, com a finalidade de lhes conferir maior resistência e durabilidade – técnica muito utilizada pela indústria mecânica para prolongar a vida útil de contactores elétricos. Outra importante linha de atuação do Laboratório é a modificação ou indução de cores em gemas semipreciosas, sendo os minerais mais usados a turmalina e o quartzo. De acordo com Luiz Carlos Ladeira, do ponto de vista econômico, as aplicações da irradiação ao segmento das pedras é extremamente representativo para Minas Gerais, maior produtor mundial de gemas coradas, responsável por cerca de 25% da produção mundial. “O processo de irradiação de pedras permite, em poucas horas, alcançar tonalidades que, pelo ciclo natural, poderia levar anos ou, até mesmo, milênios”, garante. De acordo com o pesquisador, o LIG produz, por ano, até 50 toneladas de pedras tratadas por meio da técnica. A irradiação pode auxiliar, ainda, o tratamento de sangue e hemoderivados. O LIG atende a centros de hematologia – como a Clínica Romeu Ibrahim e o Hemoservice –, além de manter acordo com o Hemominas para tratamento de seus estoques, em caso de falha mecânica ou inoperância das máquinas. “Por ano, cerca de 4 mil bolsas de sangue de 450 ml são irradiadas em nosso laboratório”, explica o pesquisador.

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LEMBRA DESSA?

Radiação que purifica

Laboratório do CDTN usa técnica com raios gama para eliminação de impurezas e microrganismos de materiais diversos


5 PERGUNTAS PARA...

Javier Santaolalla Camino e Manuel Tardaguila Sancho Com nome inspirado em uma série de sucesso da TV americana, 12 espanhóis juntaram-se para realizar a divulgação científica de maneira bem diferente. Multidisciplinar, o grupo The Big Van Theory – Científicos sobre rodas, criado em 2013, conta com engenheiros, bioquímicos, físicos, matemáticos e outros tantos profissionais e busca divulgar os últimos avanços da ciência – de modo simples, divertido e compreensível ao público leigo. A “trupe” – que se apresenta em bares, teatros e escolas com a missão de levar a divulgação científica a outros níveis – participou, recentemente, da 13ª Conferência Internacional sobre Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia, realizada na cidade de Salvador (BA). MINAS FAZ CIÊNCIA conversou com Javier Santaolla Camino, engenheiro de telecomunicações e doutor em Física, e Manuel Tardaguila Sancho, , bioquímico com doutorado em Biologia Molecular,. Diogo Brito e Verônica Soares

3 1 5 2 4 O que os motivou e quando decidiram começar o projeto? Quando nos conhecemos e vimos o trabalho de cada um dos integrantes, tivemos uma surpresa. Individualmente, criávamos conteúdos científicos de entretenimento ao vivo. Juntos, nosso trabalho resultou em um desempenho que nos surpreendeu. Percebíamos, além disso, a falta de um formato similar para transmitir a ciência a um público em geral e uma série de pessoas pouco interessadas no assunto. Isso nos motivou a lançar este projeto. Para alguns dos participantes, a paixão pelo teatro é também uma grande motivação, assim como a vontade de transmitir a importância da pesquisa. É uma troca do conhecimento com o público. Como mensuram os resultados? É possível afirmar que sua comunicação está melhor após a criação do The Big Van Theory? Estamos à procura de maneiras de medir o impacto de nossas ações, para nos ajudar a ter ideia do efeito dessa forma de comunicação científica. Não sabemos, quantitativamente, o impacto de nossas ações e atividades. Estamos ainda avaliando o resultado de uma pesquisa que fizemos com a plateia nos shows. Foram mais de 600 entrevistas. Contudo, podemos dizer, positivamente, que, em 2014, atingimos um público tradicionalmente jovem, que antes estava longe da ciência. A reação do público nos dá uma boa ideia da dimensão das ações. É comum que os frequentadores de nossos shows venham dar parabéns ao fim das apresentações, dizen-

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do que chegamos a um formato dinâmico, mas rigoroso, para transmitir a ciência. O riso é um bom termômetro.

Quais os planos do grupo para os próximos anos? Temos muitas propostas e atividades que queremos desenvolver no futuro. Desejamos continuar com o formato de monólogo, mas também são possíveis contribuições em televisão, jornais, revistas e livros. A formação de pesquisadores, para que eles possam transmitir os seus conhecimentos de maneira mais eficiente, é outra das linhas de atuação nas quais devemos focar nossos esforços nos próximos anos. Também temos planos para shows maiores, que incluem música, matemática e, talvez, mágica. Quais os maiores desafios e dificulades para promover a ciência de maneira diferente? A maior, até agora, é o aspecto econômico, referente à necessidade de apoio a nossa atividade científica. Embora os especialistas e o público – assim como agências de fomento e centros de pesquisa – recebam, de forma muito positiva, o nosso trabalho, a crise econômica e o fraco compromisso com a comunicação científica põem em risco este formato. Também há dificuldade em manter o equilíbrio entre o conteúdo científico e a experiência lúdica do show. Em geral, quanto mais denso o conteúdo, mais difícil é, para o grande público, aproveitar o show. Isso não significa que temos de abranger temas fáceis e

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tratar o público de modo infantil. Falamos de temas difíceis na ciência, como bóson de Higgs e mudanças climáticas. Porém, para fazer o show funcionar, trabalhamos com simplificações e comparações em formato de monólogos. Precisamos, contudo, manter o rigor científico.

Como vocês escolhem os temas a serem apresentados ao público? É a piada que orienta a temática? Outra questão: há agenda de reuniões? Nós nos reunimos, principalmente, na estrada, onde estamos e podemos discutir os assuntos do grupo de forma mais direta. Antes das reuniões, usamos e-mails diários para trocar opiniões e organizar tudo. Monólogos e temas são, normalmente, escolhidos individualmente. A partir daí, concentramo-nos em um tema de que gostamos, ou achamos particularmente interessante, e tentamos dissecar, vendo a maneira mais divertida e acessível para o entendimento do público. As piadas vêm mais tarde. O mais importante é que o conteúdo seja claro e a transmissão, didática. Como critérios, pensamos em algo que afeta a vida das pessoas – como o câncer – ou que deve se tornar muito importante, em um futuro próximo, para a maioria de nós, a exemplo da genômica. As piadas aparecem naturalmente depois disso. No palco, é possível refinar o texto, eliminando partes que não funcionam e adicionando piadas ou respostas às perguntas mais frequentes. (Para saber mais sobre o trabalho do grupo, acesse: http://www.thebigvantheory.com/)


No entanto, há que se ter em mente que a imagem, cultivada, segundo Benjamin, pela alegoria do drama barroco alemão, está muito longe da concepção nietzscheana da bela visualidade apolínea, ligando-se, antes, ao fragmento e à ruína. Aliás, a própria natureza inspira os poetas do período não sob o aspecto de sua produtividade e florescimento como ocorre, por exemplo, no romantismo –, mas no de fenecimento para a natureza, entendida em sua transitoriedade como história natural (Naturgeschichte) (Benjamin, 1991, p. 355).

seu viés social

Um dos principais especialistas em indústria cultural no Brasil, o renomado professor e pesquisador Rodrigo Duarte, do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), reúne, nesta abrangente e saborosa obra, 17 ensaios em torno de temas ligados à relação entre arte e sociedade. No livro, conforme ressalta Eduardo Jardim, o autor envolve-se, com arguta profundidade, no rico debate sobre questões relativas, por exemplo, ao potencial político das expressões artísticas. Os textos de Varia aesthetica problematizam motes estéticos os mais diversos, do Barroco ao velho e bom

rock’n’roll. Com olhar aguçado sobre a contemporaneidade, mas sem jamais se distanciar do rigor acadêmico-científico, Duarte discute questões como “a relação entre som e imagem”, “o construto estético-social”, o “‘conceito pseudomorfose’ em Adorno” e a “plausibilidade da pós-história”.

Livro: Varia aesthetica – Ensaios sobre arte & sociedade Autores: Rodrigo Duarte Editora: Relicário Páginas: 374 Ano: 2014

Sobre filósofos

Uma diferenciação talvez possa ser feita, com grande dificuldade, da seguinte maneira. A distinção entre profundidade e superfície é perpendicular à distinção filosoficamente mais corriqueira entre interno e externo. É difícil traçar a distinção entre interno e externo sem recorrer, em cada questão, às filosofias da mente e do conhecimento, mas a interpretação de superfície pressupõe caracterizar o comportamento externo de um agente com referência à representação interna desse comportamento, presumida como sendo do agente, e o agente se encontra numa posição um pouco privilegiada com respeito ao que são suas representações.

Professor emérito de Filosofia da Universidade de Columbia, o norte-americano Arthur C. Danto (1924-2013) foi um dos mais influentes críticos de arte do mundo. Além de colaborar com uma série de célebres revistas – entre as quais, The Nation, Punch Rewiew e Artforum –, o autor presidiu a American Philosophical Association e a American Society for Aesthetics. Toda a erudição e a intensidade do verbo de um dos mais importantes estetas da atualidade aparecem em O descredenciamento filosófico da arte, obra escrita após o clássico A transfiguração do lugar-comum e na qual são discutidas questões cruciais ao debate das expressões artísticas. Com sua verve peculiar, Danto aborda, no livro, temáticas de vasta dimensão, a

e artistas

exemplo dos ensaios “A apreciação e a interpretação de obras de arte”, “Linguagem, arte, cultura, texto” e “Filosofia como/e/da literatura”. Com prefácio de Jonathan Gilmore e tradução de Rodrigo Duarte, a obra revela-se imprescindível aos interessados pelos enigmas e pelas profundezas inerentes às multipossibilidades dos bens e processos estéticos e culturais.

Livro: O descredenciamento filosófico da arte Autores: Arthur C. Danto tradução: Rodrigo Duarte Editora: Autêntica Páginas: 252 Ano: 2014

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LEITURAS

A arte e


HI P ER LI N K

Águas mineiras As Minas Gerais são conhecidas pela beleza e pela importância de sua bacia hidrográfica: as reentrâncias hídricas estampam cartões postais, que atraem olhares dos quatro cantos do mundo, e a abundância das nascentes confere ao Estado a alcunha de “caixa d’água brasileira”. Zelar pela conservação de tão relevante recurso é indispensável. O Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) monitora os rios mineiros em mais de 500 pontos, visando à preservação da qualidade das águas. Amostras são colhidas e analisadas com base em cerca de 60 critérios. As informações permitem a aferição dos pontos mais atingidos pela poluição. O programa Ondas da Ciência conversou com especialistas da área e revela detalhes de como os estudos funcionam. Confira!

Com o tempero da inovação Emblemático na culinária nacional, o arroz com feijão teve sua popularização impulsionada por fatores históricos, como o pronunciado gosto do monarca português Dom João VI por arrojados deleites gastronômicos. Atualmente, com a comprovação científica de que a combinação assegura importante complementação nutricional, pesquisadores buscam tornar a iguaria aprazível aos mais diferentes paladares. Há muita ciência aplicada por trás da textura, do aroma e do sabor que chegam às mesas e cardápios do País. A equipe de Ciência no Ar foi à Epamig conhecer um pouco dos estudos que envolvem o cultivo do arroz, um dos componentes da mistura. Assista!

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Crenças à parte Certo ou errado: por que é tão difícil modificar aquilo em que cremos? “Eu não quero estar certo” é o título de interessante artigo publicado no website da revista The New Yorker. Nele, é apresentado o trabalho de pesquisadores que buscam compreender por que certas pessoas insistem em acreditar em coisas que, simplesmente, não são verdadeiras. O mote do texto foi a publicação, no mês de abril, dos resultados de estudo conduzido, durante três anos, por pesquisadores da área de Ciência Política e Pediatria. Os especialistas buscaram verificar se campanhas pró-vacinação poderiam modificar a atitude dos pais em relação às vacinas. Quer saber a resposta? Confira no blog Minas faz Ciência.

Big Brother sideral Não se trata de uma versão de reality show estrelada por homenzinhos verdes. A bola da vez é um surpreendente achado, feito pela sonda espacial Kepler, da Nasa, que tem ganhado as primeiras páginas de diversos sites de curiosidades e notícias. Trata-se da descoberta do grande irmão da Terra, apelidado de Megaterra, localizado a 560 anos-luz. A novidade causou controvérsia entre astrônomos, por se tratar de planeta de amplas dimensões – com diâmetro 2,3 vezes maior que o da Terra –, além de densa composição de rochas e outros sólidos, algo que especialistas da área não acreditavam ser possível. Até então, especulava-se que a força gravitacional de um astro tão robusto atrairia um envelope de gás durante sua formação, tornando-o predominantemente gasoso. Certas linhas de pesquisa sugerem que a composição do novo planeta possa ser favorável ao desenvolvimento de vida. E você, leitor, o que acha? MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2014

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Nesta bela imagem, registrada por Amanda Séllos Rodrigues – estudante do curso de Ciências Biológicas na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais –, a lagarta da mariposa Hypsipyla grandella consome vasos condutores de seiva de mogno brasileiro (Swietenia macrophylla).

VARAL

Amanda Séllos Rodrigues


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