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A Grande Alface Carlos Farinha

Pintura Painting

A Grande Alface Carlos Farinha

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A Grande Alface A Grande Alface

«Outra vez te revejo, Cidade da minha infância pavorosamente perdida... Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui... Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei, E aqui tornei a voltar, e a voltar. E aqui de novo tornei a voltar? Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram, Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória, Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim? […] Outra vez te revejo, Mas, ai, a mim não me revejo! Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico, E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim Um bocado de ti e de mim!...» Álvaro de Campos – “Lisbon revisited”,1926 Comece-se por falar de uma metrópole diferente de todas as outras: Lisboa, aqui designada como “A Grande Alface”, depois cruze-se esta cidade com um pintor que nela se instalou, se fascinou e a resolveu pintar numa enorme tela, onde tenta abarcar, não apenas edifícios, mas todo um espírito, fugindo de uma redutora visão folclórica ou histórica. Pretendeu captar nas suas casas e nas gentes que as habitam a alma que a unifica, sendo a análise feita como se de um organismo vivo e gigantesco se tratasse. Ao procurar encontrar uma tradição na pintura que ora se expõe e tentar cotejar as telas que estão patentes com propostas iconográficas afins feitas ao longo da História, ao contrário do que poderá parecer, a remissa não será para o celebrizado e esotérico pintor Hieronymus Bosch que tem no museu das Janelas Verdes patente uma das suas mais emblemáticas obras. A relação terá necessariamente que ser estabelecida com um outro pintor do mesmo Brabante, com as obras de Pieter Brueghel, o Velho, raiz de uma notável estirpe de artistas. Efectivamente a pintura de Bosch é profundamente moralista, sendo de tal bom exemplo o “Jardim das Delícias”, a tábua/mesa dos “Sete

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A Grande Alface Carlos Farinha

Let’s start with a different city: Lisbon, designated here by “A Grande Alface”. Then there is the painter fascinated by Lisbon who decides to paint an enormous canvas, trying to include not only its buildings but also its spirit, thus escaping a reducing folkloric or historic vision. He tries to reproduce the soul that unifies the houses and the people who inhabit them, analysing all this as if it were a big living organism. In iconographic terms, the start off point is the big canvas which gives name to this exhibition. It is a canvas of considerable dimension where the whole city is portrayed. Not only the city planning and architectonic forms are clearly recognizable but also the ones who were born here, the Lisbon natives, and others who came to live here and managed to distinguish themselves. And that is not all. The painter’s desideratum was to portray a whole set of situations, from the morning traffic jam to the plains flying in the sky, the crowd protests in front of the Portuguese Parliament, the contemporary “Velhos do Restelo”, the mythical “Adamastor do Alto de Santa Catarina”, the illegal immigrants in Martim Moniz, the poet Fernando Pessoa and even a float filled with the captains who gave a new significance to April (25th of April - Portuguese Revolution). Here we can see modern Lisbon, the famous disco “Lux”, the train station “Gare do Oriente”, the work piece “Portugal a Banhos” from the famous artist Joana de Vasconcelos floating in the Tagus river. The Príncipe Real (Royal Prince) has not yet been kissed and is still a frog, and the statue “Maria da Fonte” is almost alive and sails away to embark in new revolutions. All this while in the “Jardim da Estrela” an honest and faithful husband, a two faced man, passionately kisses his lover. This large canvas originates other canvas. The characters who populate it, like the taxi driver, the pickpocket, the couple watching TV, etc., primarily portrayed in the metropolis, are now painted individually, not in a mere circumstantial enlargement of details but integrated in a new space, in their own microcosms, and again the painter captures each moment’s intimacy in a masterful way.

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Pecados Mortais” ou as “Tentações de Santo Antão”. Já a pintura de Brueghel procura tão só mostrar as cidades como organismos vivos, povoadas de gentes que celebram a vida. Veja-se deste mestre, por exemplo, as obras “Provérbios holandeses”, “Jogos infantis” ou a notável tábua “Combate entre o Carnaval e a Quaresma” e depois analisem-se igualmente as obras de menor dimensão, mas não de menor relevo, que realizou como “Os aleijados”, Parábola dos cegos” ou “Festa de noivado”, normalmente parábolas, aliás como também sucede nesta exposição. Em ocasiões anteriores Carlos Farinha já havia partilhado connosco a sua visão de vivências urbanas como Sever do Vouga dissecada na tela “Amores de Sever”, Cascais interpretada em “O dia de Passeio”, “Braço de Prata” ou da terra onde passou parte da sua meninice “Proença-a-Nova” e até nos tinha dado duas singulares interpretações dos turbulentos levantamentos que conduziram à implantação da República em Portugal, ganhando de alguma forma “balanço” para se agarrochar a realizar uma exposição tendo como alvo Lisboa. Carlos Farinha transmite o pulsar da urbe alfacinha, onde se instalou quando veio estudar para a Escola António Arroio, onde cursou a Faculdade de Belas Artes e desde logo se apaixonou pela cidade, pelas gentes que aqui vivem, que aqui chegam das mais desvairadas partes, por aqui passam e que também por aqui ficam como ele ficou. Foi nesta terra que tem uma tessitura muito especial que descobriu a Sofia, onde casou e foi já em Lisboa que a Joana nasceu. Em termos iconográficos o ponto de partida é a grande tela que dá o nome à exposição. Trata-se de uma obra de consideráveis dimensões onde toda a cidade é retratada. Não apenas o urbanismo e formas arquitectónicas notáveis, que estão representados e são claramente reconhecíveis, nem, tão só, as gentes que aqui nasceram, os famigerados lisboetas, ou outros que para aqui vieram e cá se notabilizaram e que também foram representados. A tela não se reduz a isso. O desiderato do pintor passou pela figuração de um todo um conjunto de relações, desde os engarrafamentos matinais que pejam a cidade de carros, os aviões que levantam voo, as manifestações junto à Assembleia da República, os tão actuais velhos do Restelo, o mítico Adamastor do Alto de Santa Catarina, os imigrantes ilegais do Martim Moniz, o desassossegado Pessoa e até, num corso carnavalesco, um carro alegórico carregado com os capitães que deram um novo significado a Abril. Aqui está também delineada a nova Lisboa, do Lux, da Gare do Oriente, da obra “Portugal a Banhos” de Joana Vasconcelos colocada à deriva no Tejo. O Príncipe Real ainda não foi beijado e é um sapo e a estátua de Maria da Fonte ganha vida e parte para novas revoluções. 4

The saleswoman who shouts “knickers for ladies and gents” and who manages to escape the tax inspectors.

Tudo isto enquanto no Jardim da Estrela um honesto e fidelíssimo marido, homem de duas faces, beija arrebatadamente a sua amante.

From a well known song “Parva que eu sou” (“Silly me”) that portrays so well this young generation who finished the studies and couldn’t yet find a job, or that having found it, is clearly unused, under remunerated and unloved. However, his work isn’t lacking in charm. The girl still believes and hasn’t stopped dreaming and one can visualize “Pessoa” through Álvaro de Campos’s admirable poem “Tabacaria”: «À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo».

Da grande tela derivam várias outras. As personagens que a povoam, como o taxista, o carteirista, o casal de telespectadores, etc., retratados primeiramente integrados na urbe, são agora pintadas individualmente, não numa mera ampliação circunstancial de pormenor, mas integrados num novo espaço, no seu próprio microcosmos e, de novo, magistralmente o pintor capta a intimidade de cada momento.

Fernando Pessoa has to be present and he is riding his bike, so is the pickpocket whose moustache is a sardine. First up in the “Castelo” and after in the underground where each person is equipped with a mobile phone; “Senhor Lisboa” (Mr. Lisbon) that climbs the stairs after shopping; or the taxi driver with a hairy moustache who has drunk a “ginginha” and who is again driving a Mercedes 190D, the taxi that has travelled “a million kilometers” and is ready for another million. The Erasmus Program’s students, the siamese twins discovering Lisbon’s night life or the prima donna enjoying her 15 minutes of fame. In the “Bairro Alto” district one finds that the past and the present intertwine. It is possible to recognize the image “Em nome da Rosa” (The name of the rose) in the painting “Grande Alface”. Some details present in this canvas, like the iPhone, the tattoos, the piercing or the CR7 belt, should be noticed. Last but not least, the remarkable canvas “Bom dia Portugal” is a domestic painting that could represent any area of the city. It’s very rich and deserves being analysed and dissected. It represents a modest living room from a lower floor apartment. It is a narrow space. The table is folded and close to the wall. A couple is watching TV with no enthusiasm. This is the house’s centre and the centre of the world. The usual naperon and the image of Nossa Senhora de Fátima decorate the television set. The TV program “Portugal dos Pequeninos” closes a cycle of life as if it were a prison.

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Ah! by the way. Have you seen Wally? One must start all over again and visit the exhibition again and again and that mythical character is really there, in the middle of the “Grande Alface”, just like many other things that weren’t seen and can’t be described. Each one of us should discover its own Lisbon just like Carlos Farinha did. That’s what he tries to show us in this curious art exhibition.

A vendedora da economia paralela que apregoa a roupa interior “Cuecas para o menino e para a menina” e faz o seu negócio fugindo ao fisco para raiva das personagens que dirigem a cobrança dos impostos. Retirada de uma canção tão em voga a inspiração para a tela “Parva que eu sou” que retrata tão bem a chamada geração “nem, nem”, os jovens que já não estudam e que ainda não conseguiram encontrar trabalho ou que, tendo-o, estão claramente subaproveitados, mal pagos, mas não mal-amados. No entanto, não se trata de uma obra desencantada, como se poderia pensar. A rapariga ainda acredita, não deixou de sonhar e pode-se visualizar-se o que disse Pessoa pela mão de Álvaro de Campos no admirável poema “Tabacaria”: «À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo». Pessoa não poderia faltar, circula de bicicleta sabendo-se pela mão do seu heterónimo Caeiro que «O Tejo tem grandes navios / E navega nele ainda, / Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, / A memória das naus.» E o que dizer do carteirista, cujo bigode é substituído por uma sardinha? Primeiro localizado no Castelo e depois exercendo a sua actividade aliviadora num metro sobrepovoado e onde cada um está ensimesmado, agarrado ao seu telefone; do “Senhor Lisboa” que escala as escadinhas com as compras do dia; ou do taxista de farfalhudo bigode que já bebeu uma ginjinha e que está de novo ao volante do Mercedes 190D, o fogareiro, que já tem “Um milhão de quilómetros” e está pronto para fazer outro tanto. Aqui estão outrossim os estudantes do programa Erasmus, gémeos siameses, à descoberta da cidade e sobretudo da sua boémia ou a diva carregada em ombros a caminho dos seus quinze minutos de Fama. No Bairro Alto regista-se o confronto entre a modernidade e o passado. Da “Grande Alface” é retirada a figura nomeada “Em nome da Rosa”, ser bizarro que de dia, ou seja, lá para a hora do almoço, desce ao rio. Vale a pena atentar alguns pormenores desta pintura como o iPhone, as tatuagens, o piercing ou o cinto CR7.

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A encerrar a mostra uma das mais notáveis obras, a pintura “Bom dia Portugal”. Esta retrata um quadro familiar que se poderia passar em qualquer das zonas representadas da cidade. Trata-se de uma obra com uma enorme riqueza de detalhes que merece ser dissecada. Tudo se passa numa modesta “sala-de-estar” de um piso térreo. O trabalho de criação cenográfica é notável e vale a pena ver e rever cada pormenor do ambiente que é um hino ao Kitsch, uma ode às “meias tintas”. O espaço é exíguo, o que leva a que a mesa de jantar esteja dobrada e encostada a uma parede. Um casal que se diria pouco entusiasmado vê televisão. Esta é o centro da casa e o centro do mundo por onde se filtra a vida. Sobre o aparelho dispõe-se o habitual naperon sotoposto a uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. O machismo e o domínio do chefe de família, que apesar do progresso não se perdeu, são transmitidos pela posse do comando, ou seja pelo controle total do que se vê no “lar”. A televisão já não remete para a Grande Alface mas antes para o Portugal dos Pequeninos e fecha um círculo de vida, encerrando-o como se de uma prisão se tratasse e é, aliás, assim que é representada, com umas grades na parte anterior. A mulher colmata a solidão vivendo a vida dos outros. A sua realização como mulher é feita por interposta pessoa, através das heroínas das novelas e reality shows que vê, tudo isto enquanto vai descascando legumes para uma putativa sopa que há-de durar uma semana e ser comida até azedar. O alguidar onde coloca os legumes e tubérculos descascados está sobre um periclitante banquinho de cozinha. Na parede um outro sinal de uma religiosidade pueril, a reprodução da “Última Ceia” de Leonardo zela pela casa mas, também lá está a águia do Benfica, remetendo-se ironicamente para a máxima que declara que quem não pertence ao Glorioso não é bom chefe de família, o gato de loiça comprado na Feira da Luz “made in China”, as cortinas de fitas coloridas que dão para um eventual quintal, destinadas a afastar as moscas. O casal está sentado num sofá protegido por uma capa florida e vê-se ainda que atrás da porta que dá para a rua está o olho destinado a afastar as invejas e os maus-olhados, substituto hodierno do retorcido velho corno de cabra.

Era uma vez uma cidade na ponta da Europa que já foi o centro do mundo. Era uma vez um povo que suspira pelo passado e não tem a confiança que lhe permite avançar sozinho. A cidade é Lisboa, A Grande Alface de Carlos Farinha. Esta obra surge como uma lufada de ar fresco quando ansiamos por gritos de esperança e suplicamos por quem inove sem ter medo. É uma análise crítica que aceitamos com agrado, porque vem de dentro. Não podemos ficar presos ao passado. A inércia impede-nos de modificar o sentido determinante. A Grande Alface ilustra uma cidade que não tem por onde crescer. Atulhada. Invadem-na exércitos de automobilistas que buscam o seu sustento sem lhe dar nada em troca. As pessoas atropelam-se. O objecto de relação é um aparelho electrónico cada vez mais sofisticado que, eventualmente, os colocará em contacto com alguém que se encontra noutra cidade ou, se calhar, na outra ponta do autocarro. A recusa inconsciente em olhar para o lado torna-nos mais sós. É mais fácil sermos nós a definir o período de tempo em que estamos disponíveis. Depois disso é só carregar num botão. Seja ele do telemóvel, do messenger ou do televisor. Passamos o dia rodeado de pessoas mas sentimo-nos sós, desamparados, desapoiados e esquecidos. Procuramos quem nos ajude e fazemos o melhor possível. Sentimos orgulho nisso. Contentes por sobreviver esquecemo-nos de ter tempo para o outro. Poucos o fazem. Cada um na sua vidinha. Há quem sufoque e respire por uma palhinha. Há quem sonhe através da realidade alheia e há quem olhe para lá da tela. Somos conhecidos pela hospitalidade e simpatia mas, nesta altura, quem ouse entrar que se desenrasque. Entre no espírito. Muitos vêem-se forçados a voltar para o seu país, como retrata Carlos Farinha.

Ah! A propósito! Conseguiram encontrar o Wally. Não?

Esta é só uma das histórias que podemos encontrar n’A Grande Alface. O nosso inconsciente colectivo é representado através de inúmeras personagens que caricaturam a nossa vida e os nossos costumes. Algumas destas personagens são destacadas pelo artista em seis telas individuais. Cada uma tem a sua personalidade e a sua história, que mais uma vez o autor nos dá a liberdade de imaginar.

Há então que começar tudo de novo e voltar a ver toda a exposição, uma e outra vez, essa mítica personagem está efectivamente lá, no meio da Grande Alface, assim como muitas coisas que ainda não foram vistas, nem podem ser descritas, já que cumpre a cada um descobrir a sua Lisboa. Descobrir Lisboa como Carlos Farinha o fez e partilha connosco numa muito curiosa exposição de Pintura.

O Sr. Lisboa marcha numa rua de um dos bairros de Lisboa. Acomodado. Os braços multiplicam-se nas as tarefas do dia-a-dia. O seu pensamento está longe. Talvez nos poucos dias de ferias que vai passar com a família distante ou no sonho de lhe sair o Euromilhões . Alguém o espreita, invejoso porque o Sr. Lisboa ainda é capaz de sonhar. Ou espreita-nos a nós, a averiguar se ainda temos essa capacidade.

Paulo Morais-Alexandre, Março 2011

Através de uma personagem cuja orientação sexual é ambígua, na tela Em nome da rosa Carlos Farinha ilustra a procura pelos prazeres da vida

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Once upon a time there was a city located at the extreme end of Europe that was the centre of the world. Once upon a time there was a nation that yearned for the past and didn’t have enough confidence to face the future on its own. This city is Lisbon, “A Grande Alface” by the painter Carlos Farinha. His work is like a breath of fresh air just when we are so much in need of hope and long for innovative and fearless creations. An analysis coming from within which we welcome with pleasure. One cannot be a prisoner of the past. Inertia is responsible for unaltered rigid patterns. “A Grande Alface” illustrates a city with no room to grow. Stuffed, invaded by armies of drivers who struggle to make a living and give nothing in return. People stumble over each other. The relationship object is an electronic apparatus which will put them in contact with someone from another city or from the rear end of the bus. By refusing to look around one becomes increasingly lonely. It’s easier when we can decide the period of time in which we are available. After that we just have to press the button, be it the mobile’s, the Messenger’s or the TV’s. We are surrounded by people but we feel lonely, abandoned and forgotten. We search for somebody to help us and we do our very best. We are proud of ourselves. Happy to survive, we forget others. We live our own lives. Some of us suffocate and breathe through straws. Some of us dream through other’s reality and some look behind the canvas. We are known for our hospitality and friendliness but, nowadays, whoever dares to enter has to strive alone. Many are forced to go back to their countries just like Carlos Farinha portrays. This is but one of the stories we will find in “A Grande Alface”. Our collective unconscious is represented by various characters which illustrate our lives and behaviour. Some of these characters are portrayed by the artist in six individual paintings. Each one of them has its personality and story although the artist leaves room for us to use our imagination. “Sr. Lisboa” (Mr. Lisbon) marches in one of Lisbon’s typical streets. Adjusted. The arms multiply themselves to perform the various day to day tasks. He is distant. Maybe thinking of his holidays with family, or dreaming of winning the lottery. Somebody peeps with jealousy because Mr. Lisbon is still capable of dreaming. It makes us wonder whether we still possess that faculty. 7


e o comportamento desenfreado em nome do amor e da liberdade. Esperam-se colmatar necessidades interiores através de um consumismo incontrolável de objectos-fashion, como quem devora fast-food. O problema do mercado paralelo também não foi esquecido. É para o menino e para a menina retrata uma mulher despojada de preconceitos e que sabe fazer pela vida. O alma para o negocio já vem de família, está-lhe no sangue. Dá-lhe vida. Airosa, exibe com orgulho as formas voluptuosas que a natureza lhe proporcionou. N´ O carteirista há quem não esteja suficientemente isolado. Uma saída são os phones dos múltiplos i-pods. De facto, é fácil irem-nos aos bolsos quando preferimos estar de olhos tapados atrás de uns óculos escuros. No Bom Dia Portugal encontramos uma deliciosa caricatura de um serão numa casa tipicamente portuguesa onde um casal partilha o tempo em comum preso à televisão e rodeado pelos seus objectos de culto, seja ele religioso ou futebolístico. Finalmente, o Parva que eu sou representa, como diz a música dos Deolinda, “a geração sem remuneração... vou queixar-me para quê... e fico a pensar que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar”. No trabalho de Carlos Faria os níveis de leitura podem ser vários, logo a complexidade depende da vontade de quem vê, respeitando o seu querer e o seu ser. Pictórico, com cores fortes e grandes contrastes tem um efeito lúdico imediato. A vida transborda do quadro. Sente-se a pulsação. Facilita a aproximação. Envolve-nos e torna-nos participantes activos. Vamos conversando com cada uma das personagens tal como o autor faz enquanto desenvolve a obra. Elas revelam-se e ele representa-as. Permite também uma leitura transversal e longitudinal. É um dialogo com o presente e, simultaneamente, uma viagem no tempo. O presente é representado na tela por cada um dos EUs colectivos que pertencem a uma história que começou já antes dos descobrimentos. Numa altura de crise, esta obra é uma dádiva.

Berta da Cunha Ferreira, Março 2011

Through a character whose sexual inclination is ambiguous, in the painting “Em nome da rosa” (The name of the rose), Carlos Farinha illustrates the seek for life’s pleasures and the restless search for love and freedom. The need to feed our hunger through the uncontrollable consumerism of fashion objects, just like when one devours fast-food. The problem of the parallel market hasn’t been forgotten. A woman with no prejudices cries out loud selling her stuff. It’s a family trait. She flaunts gracefully her natural roundness. In the painting “O carteirista” (The pickpocket) some characters are not isolated. A way out is through the phones of the multiple I-pods. It is easy to be a pickpocket when others prefer to hide behind dark glasses. In the painting “Bom Dia Portugal” (Good morning Portugal) we are looking at a delicious caricature of an evening spent in a typical Portuguese home where a couple spends an evening watching TV surrounded by its favourite objects, either religious or connected to football.

A Grande Alface

Last but not least, the painting “Parva que eu sou” represents, just like the song from the musical group “Os Deolinda”, the generation with no salary. This is harder to transcribe for it is a really contemporary problem.

Carlos Farinha

Carlos Farinha’s work can be interpreted at various levels, so its complexity depends on the eyes that watch it. Pictorial, with strong colours and great contrasts, it has an immediate cheerful effect. Life emanates from his work. One can feel it pulsating. It facilitates the rapprochement. It enwraps us and turns us into active participants. We talk to the characters just like the author does while he pursues his work. The characters reveal themselves and he represents them. It also can be read in a transversal and longitudinal way. A dialogue with the present and a journey in time. The present is represented in the canvas by each of the collective “I” who belong to a history that started before the “Portuguese Descobrimentos”.

Pintura

Psiquiatra

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In a time of crisis, this work is a real gift. Berta Ferreira, Março 2011 Psychiatrist 8

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Grande Alface - 2011

. acrĂ­lico s/ tela, 200x360 cm . acrylic on canvas, 200x360 cm 10

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A Grande Alface Carlos Farinha

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Cuecas da Moda - 2011

. acrílico s/ tela, 100x80 cm . acrylic on canvas, 100x80 cm 12

Em Nome da Rosa - 2011

. acrílico s/ tela, 100x80 cm . acrylic on canvas, 100x80 cm

Carteirista - 2011

. acrílico s/ tela, 100x80 cm . acrylic on canvas, 100x80 cm Pintura Painting

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Sr. Lisboa - 2011

. acrílico s/ tela, 90x70 cm . acrylic on canvas, 90x70 cm 14

Parva que Sou - 2011

Bom Dia Portugal - 2011

. acrílico s/ tela, 90x70 cm . acrylic on canvas, 90x70 cm

. acrílico s/ tela, 100x150 cm . acrylic on canvas, 100x150 cm Pintura Painting

A Grande Alface Carlos Farinha

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1.000 000 de Kms - 2011 . acrílico s/ tela, 40x40 cm . acrylic on canvas, 40x40 cm 16

Erasmus Siameses - 2011 . acrílico s/ tela, 40x40 cm . acrylic on canvas, 40x40 cm Pintura Painting

Ginjinha - 2011

. acrílico s/ tela, 40x40 cm . acrylic on canvas, 40x40 cm A Grande Alface Carlos Farinha

Diva - 2011

. acrílico s/ tela, 40x40 cm . acrylic on canvas, 40x40 cm 17


Texto

Text Paulo Morais-Alexandre Berta da Cunha Ferreira

Tradução Translation Ana Goes

Fotografia

Photography Fabrice Ziegler

Design Sofia Mota

Março.2010 March.2010


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