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As aves em revista

REVISTA DA SOCIEDADE PORTUGUESA PARA O ESTUDO DAS AVES

NÚMERO 34 | 2009 | € 2,00 | GRÁTIS PARA SÓCIOS

P i c a n ç o b a r r e t e i r o

A v e d o A n o 2 0 0 9

I B A s M a r i n h a s

M i s s ã o C u m p r i d a !

P r i o l o 5 a n o s d e p o i s


E D I T O R I A L

ardela F I C H A T É C N I C A PARDELA N.º 34 | 2009 D I R E C T O R : Carlos Pereira C O M I S S Ã O E D I T O R I A L : Ana Leal, Carlos Pereira, Maria Dias e Vanessa Oliveira

Novo ano, vida nova, e uma nova Pardela junto de si! A revista Pardela, que já vai na sua 34ª edição, tem acompanhado o crescimento e a evolução da SPEA ao longo dos seus 15 anos de existência. Passámos por vários formatos, temas e rubricas, tendo sido já muitos os sócios e amigos que colaboraram neste projecto (como autores, fotógrafos e ilustradores) e aos quais deixamos aqui renovado agradecimento. A Pardela é o meio privilegiado de comunicação com os sócios, cujo perfil é cada vez mais abrangente, servindo também para divulgar as aves, a SPEA e os seus projectos junto de públicos que ainda não nos conhecem. Neste sentido, temos tentado diversificar as temáticas abordadas, pois as aves estão presentes nas nossas vidas de muitas formas: são objecto de estudo para os profissionais, de lazer para os birdwatchers de todos os níveis, fonte de inspiração para fotógrafos e outros artistas, e acima de tudo são parte fundamental dos ecossistemas, dos quais nós, os humanos, fazemos parte (apesar de nem sempre nos lembrarmos disso), funcionando como excelentes bio-indicadores. A Pardela pretende ser um hino às aves, dando a conhecer a quem a folheia paragens próximas e distantes, espécies, notícias do mundo das aves, actividades, projectos e problemáticas de conservação, entre outros assuntos, sempre acompanhados por imagens cativantes. E é com o sentido de cada vez fazer mais e melhor que continuamos, pois sentimos que é nosso dever, sempre cumprido com muito gosto, divulgar as aves e a Natureza, tentando sensibilizar todos os que nos lêem para a sua conservação. E para objectivos tão ambiciosos, 36 páginas nem sempre chegam… Fale connosco e ajude-nos a fazer uma Pardela cada vez melhor. As suas sugestões e comentários serão sempre bem-vindos: o e-mail pardela@spea.pt está à sua disposição.

A Comissão Editorial da Pardela

F O T O G R A F I A D A C A P A : Picanço-barreteiro Lanius senator de Joaquim Antunes F O T O G R A F I A S : Ana Isabel Fagundes, André Gonçalves, André Vieira, Arnaldo Carvalho, Artur Vaz Oliveira, Bruno Abreu, Bruno Domingues, Carlos Pimenta, Carlos Ribeiro, Domingos Leitão, Fábia Azevedo, Faísca, Gabriel Lascas, Guilherme Lima, Helder Costa, Iván Ramírez, João Neves, João Reis, Joaquim Teodósio, Jorge Rodrigues, José Viana, Maria Marques, Marta Moreno-García, Nuno Botelho, Orlando Teixeira, Pedro Geraldes, Pedro Lourenço, Pedro Monteiro, Pedro Nunes, Pedro Sousa, Ricardo Brandão, Susana Figueiredo, Vanessa Arede T E X T O S : Alexandra Lopes, Ana Isabel Fagundes, Carlos Pimenta, Domingos Leitão, Equipa do LIFE Priolo, Gonçalo Elias, Helder Costa, Iván Ramírez, Joana Domingues, João Petronilho, Luís Gordinho, Marco Correia, Marta Moreno-Garcia, Paulo Marques, Pedro Lourenço, Ricardo Brandão, Sílvia Nunes,Vanessa Oliveira. I L U S T R A Ç Õ E S : João Tiago Tavares, Marco Correia, Paulo Alves e Pedro Alvito. P A G I N A Ç Ã O E G R A F I S M O : BB3design.com I M P R E S S Ã O : Rolo & Filhos SA T I R A G E M : 1500 exemplares I S S N 0873-1124 Depósito legal: 189 332/02 Os artigos assinados exprimem a opinião dos seus autores e não necessariamente a da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves A fotografia de aves, nomeadamente em locais de reprodução, comporta algum risco de perturbação para as mesmas. A grande maioria das fotografias incluídas nesta publicação foi tirada no decorrer de estudos científicos e de conservação sobre as espécies, tendo os seus autores tomado as precauções necessárias para diminuir ao máximo o grau de perturbação sobre as aves. A SPEA agradece a todos os que gentilmente colaboraram com textos, fotografias e ilustrações. S P E A D I R E C Ç Ã O N A C I O N A L Presidente: Ricardo Tomé Vice-presidente: Maria Ana Peixe Dias Secretária: Ana Leal Tesoureiro: Pedro Guerreiro Vogais: João Jara, Paulo Travassos, Pedro Coelho Avenida da Liberdade, nº 105 2º Esq. 1250-140 Lisboa Tel. 213 220 430 | Fax 213 220 439 E-mail: spea@spea.pt w w w . s p e a . p t A SPEA é uma Organização Não Governamental de Ambiente que tem como missão o estudo e a conservação das aves e dos seus habitats em Portugal, promovendo um desenvolvimento que garanta a viabilidade do património natural para usufruto das gerações vindouras. Faz parte da BirdLife International, uma organização internacional que actua em mais de 100 países. Como associação sem fins lucrativos, depende do apoio dos sócios e de diversas entidades para concretizar as suas acções.

E s t a e d i ç ã o c o n t o u c o m o s p a t r o c í n i o s d e : P e n t a x , S t e i n e r e T r a d i C a m p o . BirdLife INTERNATIONAL

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P a r a p a t r o c í n i o s c o n t a c t a r : Joana Domingues: joana.domingues@spea.pt


Jorge Rodrigues

Iván Ramírez

Í N D I C E

P r o j e c t o L I F E I B A s M a r i n h a s7 Orlando Paulo Teixeira

2 0 0 4 2 0 0 8

2 0 0 9 é o a n o d o

P i c a n ç o b a r r e t e i r o6

CONCURSOFOTO

REDE NATURA 2000

B r e v e s |4

Bruno Domingues

P r i o l o

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a n o s d e p o i s

o seu olhar sobre a natureza

S e i x a l U m d o s s e g r e d o s | 20 m a i s b e m g u a r d a d o s d o e s t u á r i o d o T e j o

2 0 0 9 é o a n o d o

|6 P i c a n ç o b a r r e t e i r o | Programa Marinho

F a l s t e r b o

P r o j e c t o L I F E |7

| 11

n o c e n t r o d a p r i n c i p a l r o t a | 22 m i g r a t ó r i a d o N o r t e d a E u r o p a

I B A s M a r i n h a s 2 0 0 4 2 0 0 8

| Onde Observar

M i s s ã o C u m p r i d a !

o N o i t i b ó c i n z e n t o | 24 Caprimulgus europaeus

| SPEA Madeira

Fábia Azevedo

O b s e r v a ç ã o

| 10 d e A v e s M a r i n h a s n a I l h a d a M a d e i r a

R e c u p e r a ç ã o d e A v e s S e l v a g e n s

CONCURSOFOTO

REDE NATURA 2000 | 25 V e n c e d o r e s

| SPEA Açores

P r i o l o | 11 5 a n o s d e p o i s

| 14

V o a n d o c o m a s A v e s n o P a s s a d o | 28

V I I – M e m ó r i a s d e t r a b a l h o s e t n o z o o l ó g i c o s n o R i f ( M a r r o c o s )

R e c u p e r a ç ã o | 14 d e A v e s S e l v a g e n s

F a l s t e r b o

J u v e n i s | 30

C a u s a s d e i n g r e s s o I I

| A Ciência das Aves

M n e m ó n i c a s | 16 Pedro Lourenço

25

O r n i t o l ó g i c a s

| 22

| 32

| Ciber-Ornitofilia

| 34 O b s e r v a r a v e s

S o z i n h o e m G r u p o ? !

D e c i f r a n d o | 18

o s n o m e s c i e n t í f i c o s . . .

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i n t e g r a

e m e a r o “S

E P S O N F u t u r o I IG a r d u n h a u m a a g r i c u l t u r a B i o d i v e r s i t y c o m b i o d i v e r s i d a d e I n i t i a t i v e p a r a 2 0 0 9

P r o j e c t o s

L I F E +

O “Semear o Futuro II – uma agricultura com biodiversidade” é um projecto de comunicação para agricultores e técnicos agrícolas sobre agricultura sustentável e conservação das aves e da biodiversidade em meios agrícolas. O projecto, iniciado em Janeiro, está previsto decorrer ao longo de dois anos, e inclui a edição de materiais informativos e a organização de seminários e campanhas; é financiado pelo Fundo ONG – Componente Ambiente do mecanismo financeiro do Espaço Económico Europeu.

João Neves

A SPEA coordena desde Janeiro dois novos projectos LIFE+. O Projecto Laurissilva Sustentável visa a recuperação, conservação e gestão sustentável dos habitats naturais da serra da Tronqueira e do Planalto dos Graminhais na ilha de São Miguel, bem como a procura de benefícios para a economia local através da gestão do sítio e do fomento do turismo de natureza. O projecto, com uma duração prevista de quatro anos, é uma parceria entre a SPEA, a Secretaria Regional do Ambiente e do Mar e a Câmara Municipal da Povoação, no valor de 2.297.598 euros, financiados pela União Europeia a 71,5%. O Projecto “Safe Islands for Seabirds” (LIFE Corvo), também com uma duração de quatro anos, é liderado pela SPEA em parceria com a Secretaria Regional do Ambiente e do Mar, da Câmara Municipal do Corvo e da Royal Society for the Protection of Birds, no valor total de 1.057.761 euros, financiado pela União Europeia a 50%. O projecto tem como objectivo aumentar, a longo prazo, o número e a área de distribuição das aves marinhas nas ilhas de São Miguel e do Corvo, nos Açores, através de acções de gestão de habitat com vista à minimização das principais ameaças.

A u m e n t a a

A SPEA integra desde Dezembro a “EPSON Gardunha Biodiversity Initiative”, que tem como objectivo restaurar a biodiversidade na Serra da Gardunha, no concelho do Fundão, através da reflorestação com espécies autóctones de uma área devastada por incêndios. A SPEA é responsável pela componente de caracterização e monitorização da fauna. O projecto, patrocinado pela EPSON, tem como parceiros a Câmara Municipal do Fundão, a Gardunha Verde, a Pinus Verde, a Agência Gardunha 21 e a SPEA.

A SPEA está a dinamizar o projecto “Aumenta a Biodiversidade da tua escola e da tua cidade! Construção de comedouros e caixas-ninhos para aves”, em parceria com o FAPAS (Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens), e com o apoio do Programa AGIR-Ambiente 2008 da Fundação Calouste Gulbenkian. Este projecto, que decorre desde Janeiro e terminará no próximo mês de Julho, tem como objectivo a divulgação da biodiversidade existente nas cidades, em particular para o público em idade escolar. Os participantes vão aprender a identificar as espécies de aves típicas das suas cidades, a construir comedouros para aves reutilizando embalagens usadas, e a construir e colocar caixas-ninhos nas escolas ou proximidade das mesmas.

B i o d i v e r s i d a d e d a t u a e s c o l a e d a t u a c i d a d e !

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N O V O S P R O J E C T O S


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O S

Pedro Geraldes

Domingos Leitão

B R E V E S

E l v a s

t e m n o v a Z o n a d e N o v a e s p é c i e d e a v e m a r i n h a P r o t e c ç ã o E s p e c i a l p a r a o s A ç o r e s : p a r a a s A v e s Painho de Monteiro Em Outubro, foi aprovado o Decreto Regulamentar que cria a Zona de Protecção Especial (ZPE) de Torre da Bolsa, em Elvas. Esta área, de apenas 900 ha, alberga populações importantes de três espécies de aves Globalmente Ameaçadas (Francelho, Abetarda e Sisão). Esta ZPE foi criada por imposição da Comissão Europeia, na sequência de uma queixa formal da SPEA contra o Estado Português, por não designar um número suficiente de ZPE para a conservação de aves das estepes cerealíferas.

Uma nova espécie de ave marinha, o Painho de Monteiro Oceanodroma monteiroi, foi descrita recentemente num artigo científico publicado na revista científica Ibis. Esta espécie, anteriormente considerada como uma população do Roquinho Oceanodroma castro, foi diferenciada devido a resultados de estudos genéticos efectuados em colónias do Oceano Atlântico e Pacífico. O Painho de Monteiro torna-se assim uma nova espécie endémica dos Açores, de nidificação restrita apenas a dois pequenos ilhéus, e com uma população estimada em cerca de 250-300 casais. Este estudo teve como principal impulsionador o Doutor Luís Monteiro, falecido em 1999, a quem é prestada uma sincera e merecida homenagem.

V I C o n g r e s s o d e O r n i t o l o g i a d a

S a i u o n o v o

A t l a s

d a s A v e s N i d i f i c a n t e s e m P o r t u g a l O “Atlas das Aves Nidificantes em Portugal”, lançado em Dezembro, é uma nova obra de referência para a Ornitologia Portuguesa! São 600 páginas a cores, com informação sobre a distribuição das aves nidificantes, acompanhadas por belas ilustrações. Esta publicação, da Assírio & Alvim, é fruto de uma parceria entre o Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade, a SPEA, o Parque Natural da Madeira e a Secretaria Regional do Ambiente e do Mar dos Açores e contou com a ajuda de mais de 500 voluntários e colaboradores. O livro está à venda na loja SPEA, e disponível para consulta na Sede da SPEA.

E l v a s

5 a 8 d e D e z e m b r o 2 0 0 9 O VI Congresso de Ornitologia da SPEA & IV Congresso Ibérico de Ornitologia está marcado para os dias 5 a 8 de Dezembro de 2009, em Elvas. O evento, organização conjunta com a Sociedad Española de Ornitología (SEO/BirdlLife), conta desde o primeiro momento com o apoio da Câmara Municipal de Elvas. Já estão abertas as inscrições para o congresso e o período para submissão de resumos para comunicações orais e posters, com prazo até 31 de Maio.

S P E A e Q u a l A l b a t r o z j u n t a m s e à c a m p a n h a d a BirdLife

“ S a v e t h e A l b a t r o s s ” ! B r e v e m e n t e à v e n d a n a L o j a S P E A !O s l u c r o s d a v e n d a r e v e r t e m a f a v o r d a c a m p a n h a . E s t e j a a t e n t o a o l a n ç a m e n t o d e s t a p u b l i c a ç ã o e à s t i r a s c ó m i c a s j á d i s p o n í v e i s e m w w w . q u a l a l b a t r o z . p t

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2 0 0 9 é o a n o d o

P i c a n ç o b a r r e t e i r o C o m o i d e n t i f i c a r u m P i c a n ç o b a r r e t e i r o e o n d e o p o s s o e n c o n t r a r ?

Faísca

A

votação foi renhida entre as três espécies seleccionadas, mas os sócios escolheram, e o Picanço-barreteiro foi o eleito. Pelo terceiro ano consecutivo temos o desafio de divulgar a Ave do Ano, sendo o grande tema deste ano as aves dos meios rurais, e o Picanço-barreteiro o seu representante. O Picanço-barreteiro frequenta habitats agro-florestais, como montados abertos, mas também olivais, pomares, sebes e matas ribeirinhas. É uma espécie com estatuto de "Quase Ameaçado" em Portugal e que, tal como outras espécies comuns de zonas agrícolas e agro-florestais, se encontra em declínio por toda a Europa. As várias espécies de picanços, e as aves das zonas agrícolas em geral, têm diminuído drasticamente, tendo decrescido mais de 50% desde 1980. A intensificação agrícola e florestal, o aumento do uso de pesticidas, a diminuição dos prados e sebes, a florestação com espécies exóticas e as alterações climáticas têm contribuído para esta situação. As medidas de conservação propostas para o Picanço-barreteiro indicadas pelo Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal incluem o aumento do conhecimento e a monitorização das suas populações, a conservação dos montados de sobro e dos sistemas agrícolas extensivos.

O Picanço-barreteiro Lanius senator é conhecido pela sua bonita plumagem, de onde se destaca o castanho-avermelhado da coroa e nuca, mais arruivada nas fêmeas, e o preto e branco do corpo. Esta pequena ave migradora inverna em África e regressa ao nosso país na Primavera para se reproduzir. A sua dieta consiste em grandes insectos e pequenos vertebrados. Podemos encontrar este passeriforme em todo o país, sendo mais comum no interior norte e sul do território em montados abertos, charnecas ou pomares, pousando sobretudo em locais altos. Picanço-barreteiro

A organização do concurso “Desenha a mascote Ave do Ano 2009” foi a primeira acção lançada no decorrer da campanha Ave do Ano. Este mês de Março será também lançada a terceira edição do concurso “Conheça as Aves da Sua Propriedade”, destinada a agricultores que queiram saber mais sobre as aves dos seus campos, no qual o Picançobarreteiro terá um lugar de destaque. Outras acções de sensibilização estão previstas no âmbito do novo projecto Semear o Futuro II – uma Agricultura com Biodiversidade, de modo a promover uma agricultura mais sustentável junto dos agricultores e do público em geral.

A página alusiva à Ave do Ano, inserida no site da SPEA, apresentará entre outros, os regulamentos dos concursos, curiosidades sobre o Picanço-barreteiro e ligações a acções de voluntariado relacionadas com contagens de aves (CAC, CANAN e Projecto Chegadas – para mais informações ir a www.spea.pt). Merece igual destaque a actividade “Um dia com o Picanço-barreteiro”! Para este dia estamos a preparar saídas de campo, workshops e um almoço biológico, tudo a decorrer num espaço rural. E contamos consigo para passar um dia agradável com a sua família, na companhia da SPEA e do Picanço-barreteiro!

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José Viana

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Autores:

J o a n a D o m i n g u e s e D o m i n g o s L e i t ã o

DESENHA

A MASCO TE

Os trabalhos enviados serã o alvo de vo tação pelos só cios da SPEA e de um júri constituído po r elementos da SPEA e da empresa parc eira “Qual Alb atroz?”. Os trabalhos a concurso se rão colocados no site da SPEA e o vencedor v erá a sua t-shirt produz ida com a sua assina tura. Particip a até 12 de Ab ril e envia os trabalhos pa ra:


P r o j e c t o L I F E I B A s M a r i n h a s

2 0 0 4 2 0 0 8

M i s s ã o C u m p r i d a ! A I d e i a Estávamos no ano de 2003 quando a SPEA decidiu candidatar, em colaboração com o parceiro Espanhol da BirdLife (SEO/BirdLife), um projecto LIFE para realizar o primeiro inventário de IBAs (zonas importantes para as aves, IBAs no seu acrónimo inglês) Marinhas de Portugal. Pouco a pouco, página a página, e devido sobretudo ao esforço e dedicação da Manuela Nunes, então a trabalhar na SPEA, a ideia vai tomando forma e no final do mês de Outubro de 2003 converte-se numa candidatura ao programa LIFE Natureza de mais de 120 páginas. Os parceiros do Projecto são o Instituto para a Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB), o Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) e o Instituto do Mar (IMAR) nos Açores, o Parque Natural da Madeira, a Universidade de Aveiro e o Instituto de Investigação das Pescas e do Mar (IPIMAR). No final, a proposta tinha um orçamento total de 1.515.000 €.

O P r o j e c t o Outubro de 2004. O Projecto LIFE está aprovado e prestes a começar. Luís Costa tinha acabado de ser promovido a Director Executivo da SPEA e Iván Ramírez, nessa altura Coordenador do Programa IBAs, tem à sua frente quatro anos de duro trabalho para implementar o novo projecto LIFE IBAs marinhas. É necessário contratar novos profissionais para esta missão: chegam Pedro Geraldes e Ana Meirinho à Sede da SPEA, e a Patrícia Amorim ao DOP-Açores (no âmbito da parceria do Projecto). Também chega um estudante de Doutoramento através da Universidade de Coimbra: Vítor Paiva. A equipa permanente está constituída, agora é apenas necessário trabalhar duro.

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30ºW

Ana Pontes

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P a r c e i r o s

Ana Pontes

Anos 2005 a 2007. O Projecto LIFE IBAs Marinhas avança com passo firme. São realizados os primeiros embarques e a equipa, com o apoio dos consultores, aprende a colocar data-loggers ou a analisar as variáveis ambientais e marinhas. A colaboração com os parceiros é total e vão-se atingindo os objectivos estabelecidos. No fim do projecto, o esforço de amostragem traduzir-se-ia em quase 300 aves marinhas marcadas e mais de 400 viagens individuais registadas com data-loggers nas colónias de aves marinhas do Continente, Açores e Madeira. Perto de 65 000 km percorridos no mar, mais de 4000 km de censos aéreos... Todas as dúvidas iniciais vão encontrando resposta e o mapa de IBAs marinhas começa a ser uma realidade... No final de 2007 recebemos uma excelente notícia: um júri internacional dá ao projecto o 1.º Prémio Nacional BES de Biodiversidade.

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SEO/BirdLife

universidade de aveiro

Participantes na viagem

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Z o n a C o n t i n e n t a l P o r t u g u e s aA r q u i p é l a g o d o s A ç o r e s

A r q u i p é l a g o d a M a d e i r a

PTM01 - Figueira da Foz PTM02 - Berlengas PTM03 - Cabo Raso PTM04 - Ria Formosa

PTM16 - Desertas PTM17 - Selvagens

PTM05 - Corvo e Flores PTM06 - Faial PTM07 - Pico Norte PTM08 - São Jorge - Oeste PTM09 - São Jorge - Nordeste PTM10 - Graciosa PTM11 - Terceira PTM12 - São Miguel - Sul PTM13 - Santa Maria PTM14 - Norte do Corvo - Oceânica PTM15 - Norte do Corvo e Faial - Oceânica


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Ana Pontes

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Participantes na viagem

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O s R e s u l t a d o s Ano 2008. O Projecto LIFE IBAs Marinhas chega agora ao seu final, e com ele é publicado o primeiro Inventário Nacional de IBAs Marinhas. Esta publicação constitui não só o melhor estudo sobre a distribuição das aves marinhas na ZEE Portuguesa, mas também um guia para os países que começam agora identificar as suas IBAs Marinhas e que olham para Portugal e a SPEA como um (bom) exemplo a seguir. O projecto tem sido um êxito e podemos sorrir:

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M i s s ã o C u m p r i d a !

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Autor: MA06

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Q u e r c o n h e c e r m a i s s o b r e o s r e s u l t a d o s d e s t e p r o j e c t o ? C o n s u l t e a n o s s a p á g i n a W e b e m : h t t p : / / l i f e i b a s m a r i n h a s . s p e a . p t /

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Á r e a s M a r i n h a s i d e n t i f i c a d a s e m á g u a s i n t e r n a c i o n a i s

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Á r e a s M a r i n h a s i d e n t i f i c a d a s s i t u a d a s e m á g u a s t e r r i t o r i a i s d e o u t r o s p a í s e s

MA01/MA02/MA03/MA04 MA05/MA06/MA07/MA08/ MA09/MA10

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IBAs Marinhas Áreas importantes identificadas fora da ZEE de Portugal Limite da Zona Económica Exclusiva

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T a m b é m p o d e a d q u i r i r u m a c ó p i a d a p u b l i c a ç ã o

“ Á r e a s I m p o r t a n t e s p a r a a s A v e s M a r i n h a s e m P o r t u g a l ” n a s s e d e s d a S P E A .

200 km

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S P E A M A D E I R A

O b s e r v a ç ã o

Devido a este potencial a SPEA-Madeira associou-se, desde 2007, à RAM Rede de observação de Aves e Mamíferos Marinhos, que promove a monitorização de toda a costa da Península Ibérica e arquipélagos atlânticos (Açores, Madeira e Canárias). Uma das principais acções desta rede é a organização, no primeiro sábado de cada mês, de dias de observação de aves marinhas, com contagens simultâneas em diferentes locais da costa, para registo de todas as passagens de aves.

Ana Isabel Fagundes

Ana Isabel Fagundes

d e A v e s M a r i n h a s n a I l h a d a M a d e i r a

Cagarras Calonectris diomedea

Q

Ana Isabel Fagundes

ue o arquipélago da Madeira alberga algumas das mais importantes colónias de aves marinhas da Europa e que é o local de nidificação de duas aves únicas no mundo, a Freira da Madeira Pterodroma madeira e a Freira do Bugio Pterodroma feae, já é do conhecimento de grande parte dos leitores. Mas será que todos conhecem a potencialidade da ilha da Madeira para a observação de aves marinhas em migração? É verdade, todos os anos, entre Agosto e Setembro, esta ilha recebe a visita de centenas de observadores de aves, espe-

Turistas a observar aves no Porto Moniz

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cialmente oriundos do Reino Unido e países nórdicos, para se deliciarem com a observação das aves nidificantes assim como para dedicarem muito tempo a observar, desde a costa, as diversas espécies que ocorrem nos nossos mares. O melhor local para a realização das observações é Porto Moniz, pequena vila situada no extremo Noroeste da ilha. Segundo Klaus Olsen, no livro “Roadrunner”, Porto Moniz é um dos melhores locais no Paleártico Ocidental para a observação de aves marinhas a partir da costa, não só porque é possível a observação de elevado número de indivíduos como também, em especial nas épocas de migração, pela variedade considerável de espécies. Apenas como exemplo pode-se referir a observação anual de milhares de pardelas-de-bico-preto Puffinus gravis e de pardelas-pretas Puffinus griseus, assim como centenas de alcaides Stercorarius skua e moleiros do Ártico Stercorarius pomarinus, além das cagarras Calonectris diomedea, almas-negras Bulweria bulwerii e patagarros Puffinus puffinus.

Ana Isabel Fagundes

Grupo de observadores

Local de contagem de aves no Porto Moniz

Desde que a SPEA-Madeira se associou aos Dias RAM, já foram realizadas contagens em 14 meses, nas quais colaboraram 15 voluntários. Durante as contagens foram observadas sete espécies de aves marinhas, desde pintainhos Puffinus assimilis às freiras Pterodroma sp., assim como sete espécies de limícolas. Alguns dias de observação têm ainda sido coroados pela presença de cetáceos tais como a Baleia-sardinheira Balaenoptera borealis, golfinhos-comuns Delphinus delphis e golfinhos-pintados Stenella frontalis. Autora:

A n a I s a b e l F a g u n d e s


Pedro Monteiro

S P E A A Ç O R E S

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P r i o l o a n o s d e p o i s

A

pós cinco anos de trabalho intensivo terminou oficialmente em Novembro de 2008 o projecto LIFE Priolo, coordenado pela SPEA. Terminou oficialmente o projecto, mas para os esforços de conservação desta ave tão ameaçada foi apenas o concluir de mais uma etapa. Coordenado pela SPEA, teve como parceiros a Secretaria Regional do Ambiente e do Mar, a Direcção Regional de Recursos Florestais, a Royal Society for the Protection of Birds, a Câmara Municipal de Nordeste e o Centro de Conservação e Protecção da Natureza da Universidade dos Açores.

Cinco anos depois, os resultados superaram largamente as expectativas iniciais. A grande maioria das acções foi plenamente cumprida e, felizmente, muito mais foi possível fazer. Muitos factores terão por certo contribuído para que tal fosse possível, e ainda estamos longe de assegurar a sobrevivência da espécie, mas obtivemos excelentes indicadores de que o trabalho desenvolvido tem sido correcto e de que estamos no caminho certo para que o Priolo deixe um dia de ser “uma das aves mais ameaçadas do Mundo”.

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Pedro Monteiro

Nuno Botelho

nativas, produzidas nos viveiros dos Serviços Florestais do Nordeste. Igualmente foi replantada com plantas nativas uma área de 10 ha ocupada por uma plantação de Criptoméria, após a sua exploração florestal. Este foi um teste para possíveis reconversões de áreas de floresta de produção para floresta nativa. Todos os indicadores utilizados apontam para a recuperação do habitat intervencionado e para o facto de que a competição das plantas exóticas seja efectivamente um factor limitante para as plantas nativas. Ainda existem algumas centenas de hectares de floresta invadida, mas as técnicas apuradas ao longo destes cinco anos permitem encarar com maior optimismo o grande desafio de um dia recuperar na totalidade a floresta laurissilva ainda existente na ZPE do Pico da Vara / Ribeira do Guilherme.

C o m p r e e n d e r o q u e f a z e m o s

Pedro Sousa

Quando se procedem a trabalhos desta envergadura é essencial tentar perceber a cada momento o resultado das alterações provocadas pelo próprio trabalho. É necessário estar atento a uma grande diversidade de aspectos. Se as plantas exóticas morrem. Se as plantas nativas são danificadas. Se os Priolos mudam os seus comportamentos por causa dos trabalhos. Se a sua população está a diminuir ou a aumentar. Entre outras coisas… Foram vários os técnicos envolvidos neste trabalho ao longo dos últimos cinco anos, desde a monitorização do Priolo até à monitorização da vegetação. Os trabalhos de acompanhamento dos efeitos na vegetação permitiram saber que o sucesso das técnicas de controlo foi bastante alto, atingindo taxas superiores a 90% para a mortalidade de exóticas. A taxa de re-invasão também foi estudada permitindo ter uma melhor ideia de quando se terá de realizar a manutenção das áreas intervencionadas. A monitorização da população de Priolo foi feita intensivamente ao longo do projecto, por exemplo, através da realização de censos anuais e do primeiro Atlas do Priolo em Junho de 2008 (que contou com 48 pessoas no campo, ao mesmo tempo, a contar aves). Estas actividades permitiram perceber as tendências populacionais e com o atlas perceber a área de distribuição do Priolo, tendo sido observados em áreas onde a espécie não era registada há muitos anos. Estes são dois bons indicadores de que, aparentemente, a população de Priolos estará a recuperar do declínio acentuado verificado ao longo do século XX.

É na floresta laurissilva de altitude dos Açores que o Priolo encontra a maioria do seu alimento, sendo por isso essencial à sua sobrevivência. Este habitat tem sido sujeito a várias pressões nas últimas centenas de anos, sendo que, as manchas existentes actualmente (uma pequeníssima fracção do que seriam aquando da descoberta da ilha) estão agora sujeitas à invasão de espécies vegetais exóticas, como a Conteira, a Cletra e o Incenso, que ocupam o espaço da floresta nativa. Se nada fosse feito, estas espécies poderiam levar, em poucos anos, ao completo desaparecimento do Priolo e do seu habitat. A mais ambiciosa tarefa do LIFE Priolo foi a recuperação de mais de 200 ha de floresta nativa, sendo que para tal foi necessário fazer um controlo minucioso das plantas exóticas invasoras. Estas plantas tiveram de ser eliminadas uma a uma, através de corte e da aplicação individual de herbicida. Apesar deste herbicida ser bastante específico, foi essencial reduzir ao mínimo os danos colaterais sobre as espécies nativas, o que tornou o processo de controlo moroso e altamente exigente para a equipa que executou estes trabalhos. Para aceder às áreas de trabalho, em encostas com inclinações muito acentuadas e em locais remotos longe de qualquer estrada, foi necessário criar cerca de 15 km de trilhos. Estes trilhos tinham de ser percorridos todos os dias, muitas vezes com condições climatéricas adversas, que constituíram sempre uma dificuldade acrescida para a execução das acções. Em algumas das áreas onde a intervenção era mais profunda e o controlo de exóticas deixava o solo mais descoberto, foram realizadas acções de plantação com espécies

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Joaquim Teodósio

U m h a b i t a t e m p e r i g o


E a s p e s s o a s ? O LIFE Priolo atingiu também outros objectivos para além da conservação da Natureza. O seu impacto económico e social foi muito significativo e permitiu comprovar que um projecto deste tipo é igualmente um investimento no desenvolvimento das populações das localidades que abrange. É de salientar as mais de 150 empresas que, de alguma forma, intervieram neste processo. Seria igualmente impossível cumprir os objectivos propostos sem uma extensa equipa a realizar as diferentes acções. Desde a equipa técnica à equipa de campo, em algumas épocas do projecto foram cerca de 35 pessoas a trabalhar a tempo inteiro para o Priolo. A este número devem-se juntar todos os parceiros, estagiários, bolseiros e voluntários que colaboraram ao longo do LIFE Priolo. No total terão sido mais de 200 pessoas a trabalhar efectivamente neste projecto. Tudo somado, o impacto económico deste projecto acaba por ser bastante relevante para a economia local, sendo que foi calculada uma contribuição anual de 335 mil euros para o PIB regional dos Açores. A importância do LIFE Priolo estende-se também ao intenso esforço realizado na área da divulgação e sensibilização ambiental. Foram cerca de 3000 as pessoas que ao longo do projecto vieram visitar os trabalhos em curso, sendo na sua

maioria alunos e professores das escolas de São Miguel. Para além destas acções no local foram dezenas as iniciativas realizadas noutros locais (em Portugal e a nível internacional) com o objectivo de levar mais longe o conhecimento sobre o Priolo. Desde palestras em escolas, feiras e exposições, actividades com jovens e menos jovens, concursos, colaboração com os meios de comunicação social, campanhas diversas, foram muitos os meios utilizados para esse fim. O Centro Ambiental do Priolo (CAP) inaugurado em Dezembro de 2007, será por certo um dos mais significativos e menos esperados marcos do LIFE Priolo. O CAP surgiu de uma colaboração da SPEA com a Secretaria Regional do Ambiente e do Mar e a Direcção Regional dos Recursos Florestais, e representa muito do que se alcançou com o LIFE Priolo, nomeadamente contribuir para a conservação de uma espécie e um habitat alargando as possibilidades de desenvolvimento das populações locais, valorizando desta forma o Património Natural único que estas possuem e criando condições para a sua recuperação e conservação. A conservação do Priolo deixou de ser encarada como uma despesa com pouco sentido, para ser encarada com seriedade pelas populações locais como uma mais-valia e um investimento importante na sua região. Esperemos que desta forma seja possível garantir a sobrevivência desta espécie a longo prazo. Autores:

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E q u i p a d o L I F E P r i o l o


N

a Pardela número 33 listámos algumas das causas mais comuns para o ingresso de aves em centros de recuperação em Portugal, lista essa que completamos de seguida.

Artur Vaz Oliveira

R e c u p e r a ç ã o d e A v e s S e l v a g e n s C a u s a s d e i n g r e s s o I I

C a t i v e i r o i l e g a l A captura e posse de aves selvagens autóctones é ilegal, e como tal, deve ser denunciada às autoridades. Em alguns centros, esta é de longe a principal causa de ingresso de aves selvagens, principalmente devido ao elevado número de passeriformes, como por exemplo pintassilgos Carduelis carduelis ou corvídeos como a Gralha-preta Corvus corone ou o Corvo Corvus corax apreendidos pelas autoridades. No entanto, este problema também ameaça diversas espécies de aves de rapina, sendo de destacar negativamente o elevado número de casos de cativeiro ilegal de Milhafre-preto Milvus migrans, mas também de outras rapinas mais ameaçadas.

Juvenil de Açor Accipiter gentilis que estava em cativeiro ilegal numa aldeia de Gouveia e a quem foram cortadas todas as penas das asas

chrysaetos, bufos-reais Bubo bubo ou diversas espécies de abutres, como por exemplo o Abutre-preto Aegypius monachus, podem ser recuperáveis caso não tenha ocorrido lesão nervosa ou se as lesões dos tecidos forem recuperáveis.

A electrocussão ocorre quando uma ave levanta voo ou poisa num poste de electricidade que usa como poleiro, e há contacto com elementos não isolados do fio de electricidade, o que leva à passagem de corrente eléctrica pelo corpo. Geralmente a entrada ocorre pela ponta de uma das asas e a saída dá-se por uma garra do lado oposto, mas nem sempre segue este padrão, por isso, a diversidade de lesões é muito grande. A electrocussão é uma das ameaças mais letais, porque a passagem da corrente eléctrica pelo corpo da ave geralmente resulta em morte fulminante. A gravidade das lesões depende essencialmente da voltagem da linha eléctrica e do tamanho da ave afectada. Uma ave de grandes dimensões pode suportar um grau de destruição tissular que deixaria irreversivelmente incapacitada uma ave de menor massa corporal. Geralmente, aves de grande tamanho como cegonhas Ciconia ciconia, águias-reais Aquila 14

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Vanessa Arede

E l e c t r o c u s s ã o

Abutre-preto Aegypius monachus electrocutado num poste em Portalegre, com extensa lesão ao longo da asa. A recuperação deste individuo prolonga-se há mais de um ano, sendo considerado recuperável devido à lenta mas progressiva regeneração de todos os tecidos afectados

I n t o x i c a ç ã o / E n v e n e n a m e n t o São raros os casos de aves vítimas de envenenamento que entram num centro de recuperação com vida e com possibilidades de serem totalmente recuperados. A actuação de alguns tóxicos é geralmente rápida e a morte ocorre em pouco tempo, por vezes, em menos de 30 minutos após a ingestão do veneno. Um dos maiores problemas relacionados com a existência de substâncias tóxicas no ambiente é a possibilidade da sua acumulação e persistência, que leva a que vários animais possam ser afectados ao longo da cadeia trófica. O uso ilegal de alguns venenos de maior potência como a estricnina ou diversos grupos de insecticidas pode gerar consequências gravíssimas e incontroláveis. Em Portugal, existe uma plataforma de luta contra o uso ilegal de venenos denominada Programa Antídoto – Portugal (www.antidoto-portugal.org). No que respeita às intoxicações “moderadas” e crónicas, são conhecidos os efeitos que alguns tóxicos podem ter na fauna selvagem, mas este problema raramente é diagnosticado em centros de recuperação. Alguns estudos reve-


Ricardo Brandão

lam, no entanto, que a acumulação de tóxicos pode predispor os animais selvagens a outras causas de ingresso, como as doenças, debilidade, atropelamentos, entre outros.

D o e n ç a s i n f e c c i o s a s

Instalações para recuperação de aves petroleadas na costa da Galiza (2002)

ingresso P e t r ó l e o , ó l e o s , r e s i n a s Apesar do maior número de ingressos de aves selvagens em Portugal ser de espécies de aves terrestres, não podemos esquecer o elevado número de aves aquáticas que ingressam principalmente em centros localizados próximos da costa. Uma das ameaças mais sérias destas espécies é a contaminação da água, que quando é provocada por derrames de petróleo pode levar à morte de milhares de indivíduos e muitos ingressos em centros de recuperação. O ingresso de aves petroleadas em centros localizados no litoral ocorre com alguma frequência, ao longo de todo o ano, mesmo sem que ocorram derrames massivos de petróleo em acidentes de barcos. Há outras causas de ingresso que obrigam a procedimentos de lavagem semelhantes ao petróleo, como por exemplo o

Susana Figueiredo

As doenças que afectam os animais selvagens estão a adquirir um maior interesse. Torna-se cada vez mais importante identificar os principais agentes envolvidos em problemas relacionados com conservação de algumas espécies em perigo, mas também em espécies cinegéticas, pela possibilidade de transmissão de doenças entre as populações selvagens e os animais domésticos, bem como o próprio Homem. Os centros de recuperação constituem por isso um local privilegiado para a recolha de amostras e de bases para estudo epidemiológicos que se podem revestir de grande importância em termos de saúde pública e de conservação da fauna selvagem. Geralmente, os processos infecciosos que se diagnosticam nos centros de recuperação têm como antecedentes algumas situações de stress prolongado, como por exemplo o cativeiro, inanição devido a traumatismo que impeça o animal de continuar a conseguir alimento, inexperiência ou ao baixo grau na escala hierárquica da sua comunidade (ex: jovens). Também é de grande interesse para os centros de recuperação receber animais mortos, pois constituem uma base de trabalho para diversos estudos.

de animais sujos com óleo, azeite, resinas, cola e outras substâncias pegajosas. Os procedimentos clínicos e de maneio gerais podem ter semelhanças com os casos relacionados com petróleo, mas é sempre importante ter a certeza total do produto em causa, de forma a seleccionar os materiais de limpeza adequados. Nalguns casos, se o animal está estável, poderá ser importante proceder à remoção imediata do elemento contaminante, por ser tóxico ou cáustico para o corpo da ave. Noutros casos, a remoção não é urgente e deverá ser dada à estabilização no animal e recuperação da sua condição corporal, caso esteja muito debilitada. Autor:

R i c a r d o M . L . B r a n d ã o C e n t r o d e E c o l o g i a , R e c u p e r a ç ã o e V i g i l â n c i a d e A n i m a i s S e l v a g e n s ( C E R V A S )

No próximo número da Pardela fique a conhecer mais um pouco sobre o funcionamento dos centros de recuperação de aves selvagens.

SOS Ambiente

808 200 520 Necrópsia a uma Águia-de-asa-redonda Buteo buteo para determinação da causa de morte

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M n e m ó n i c a s O r n i t o l ó g i c a s …Era um final de tarde de Verão. A avó descansava, sentada num saco cheio de batatas. O dia tinha sido longo. Desde manhã cedo que ela e os seus três netos apanhavam as batatas que o pai e o avô arrancaram da terra com a enxada. Agora era altura de carregar os sacos para o reboque do tractor que o pai e o avô tinham ido buscar a casa. Por isso, restava esperar que eles chegassem, aproveitando para algumas brincadeiras e zaragatas que o momento proporcionava. De repente a avó exclamou: - Olhem! Lá está o paspalhão! - Paspalhão!? Aquilo é uma codorniz! - Diz o neto mais novo. - Não é nada! - responde a avó- Então não percebes o que ele diz? - "Eu-eu, eu-eu, eu-eu! Paspalhão! Paspalhão! Paspalhão!" Oh, tomem lá atenção! Espantados, os netos deliciaram-se com as palavras da avó, reproduzindo o canto da codorniz, enquanto esta continuava a cantar espaçadamente, em intervalos regulares, à espera de atrair uma fêmea…

E

ste é apenas um exemplo das mnemónicas populares que reproduzem os cantos de algumas aves e da forma como têm passado de pais para filhos… ou de avós para netos... ao longo dos tempos. Provenientes dos meios rurais, contextualizam quase sempre temáticas agrícolas e/ou religiosas. Estas expressões assentam na fonética auditiva das palavras e nem sempre é fácil reconhecer a associação, entre as palavras e o canto, que estas pretendem reproduzir.

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A grande variedade de cantos que uma espécie é capaz de emitir poderá confundir-nos e dificultar a identificação do canto que a mnemónica pretende reproduzir. Além disso é necessário dar a entoação correcta às frases. Tarefa que será mais fácil para aqueles que, sendo conhecedores dos cantos das aves, tenham também alguns dotes musicais! No caso da codorniz, nem sempre é possível apercebermo-nos da primeira parte do canto, pois é menos audível que a segunda. No entanto, é possível aceder

a gravações de som e imagem onde é fácil distinguir estas duas vocalizações. Há indivíduos que vocalizam apenas a primeira parte do canto ("...eu-eu, eueu, eu-eu..."). Facto que pode estar directamente relacionado com indivíduos imaturos. Outros reproduzem uma única vez o som dissílabo da primeira parte, antes de entoarem a segunda. Ou seja, é necessário ter em conta que o número de vocalizações, do mesmo som, que compõem um canto, varia de indivíduo para indivíduo.


T r i g u e i r ã o Miliaria calandra

"...Eeeh'na tem tanta raizzzzz!..."

À semelhança do Chapim-real, verifica-se também aqui um contexto agrícola. Neste caso enfatizando o espanto, perante o raizame exagerado de uma planta. Podemos encontrar alguns nomes vernáculos que, com alguma facilidade, também nos sugerem o canto do Trigueirão: "Tem-te-naraiz", "Tentarraiz", "Tintarraiz" ou "Trinta-raízes".

P a p a f i g o s Oriolus oriolus

"...já o engoliu!... já o engoliu!... já o engoliu!..."

Assentando também na fonética auditiva, esta mnemónica reforça o nome comum da ave, referindo-se o artigo definido "o" ao "figo". De todos os nomes vernáculos desta espécie o "Tiroliro" destaca-se dos restantes por, de certo modo, fazer uma analogia com o canto aflautado e de notas ligadas, característico da espécie.

Sendo uma ave bastante discreta é mais vezes ouvido do que visto, cantando quase sempre escondido entre os ramos, onde facilmente se confunde com os verdes amarelados das folhas iluminadas pelo sol.

T e n t i l h ã o c o m u m Frigilla coelebs

"...Tem - tem - tem-tem qualquer coisinha pr'ó São Sebastião?"

Por último, e mais uma vez de contextualização religiosa, fica a mnemónica que talvez se possa considerar a mais difícil de reproduzir. Pode também ser avaliada como a que melhor representa um canto de uma ave. Embora esta avaliação seja um pouco subjectiva, dependendo sobretudo da forma como cada um interpreta a mnemónica.

C h a p i m r e a l Parus major

Para ajudar à sua reprodução, imaginemos um gago a pedir uma esmola para S. Sebastião! Esta deverá ser reproduzida de forma inicialmente espaçada e acelerando até ao último "tem", mantendo a aceleração até ao fim da frase. Deste modo consegue-se uma referência quase perfeita a um dos vários cantos desta ave.

1. "Semeia-milho, semeia-milho, semeia-milho, semeia-milho!" 2. "Trigo, semeia-trigo, semeia-trigo, semeia-trigo!"

O Chapim-real é uma das aves mais difíceis de relacionar as mnemónicas devido à sua grande diversidade de cantos. Para além de que nem todos os espécimes apresentam o mesmo repertório. No entanto, das duas apresentadas, a primeira é relativamente fácil de identificar no canto desta ave.

Aproveitando este exemplo, convém salientar que, algumas destas mnemónicas, fazem referência a nomes vernáculos da espécie que representam. Podendo, tal como estes, apresentar variações de região para região. Da mesma forma que, em alguns casos, os nomes vernáculos são, eles próprios, mnemónicas ao canto da espécie.

Estas são apenas algumas das mnemónicas de cantos das nossas aves. Fazem parte da nossa cultura popular, e representam o conhecimento empírico que as populações têm, ou tiveram, sobre as aves que ocorrem no nosso território.

A tendência natural é para que este conhecimento se perca, à medida que as gerações mais velhas forem desaparecendo, sem que se tenha transmitido aos mais jovens. Autor (texto e ilustrações):

M a r c o N u n e s C o r r e i a

P a r t i l h e a s s u a s m n e m ó n i c a s c o n n o s c o a t r a v é s d o e m a i l p a r d e l a @ s p e a . p t N.º 34

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D e c i f r a n d o o s n o m e s c i e n t í f i c o s . . . José Viana

I N o m e s l a t i n o s o u g r e g o s ?

Antes, porém, de analisarmos o tema em detalhe, é importante referir alguns aspectos mais gerais sobre a origem dos nomes científicos. O primeiro aspecto a ter em conta é que o sistema em vigor é o sistema binomial, que foi criado pelo naturalista sueco Carolus Linnaeus (Lineu) em 1758. Cada nome é assim composto por duas palavras, sendo que a primeira palavra designa o género (sendo também chamado nome genérico) e a combinação das duas palavras designa a espécie (a segunda palavra designa-se epíteto específico). Assim, por exemplo, no caso da Andorinha-das-chaminés, o nome científico é Hirundo rustica, sendo que Hirundo designa o género e rustica corresponde ao epíteto específico. Existe uma ideia generalizada de que os nomes científicos provêm do latim (ideia esta que é enfatizada pela expres-

Q

uem se inicia na observação de aves, rapidamente se apercebe que muitos observadores mais experimentados preferem designar as aves pelos chamados nomes científicos, em detrimento dos nomes portugueses ou vernáculos. Embora esta terminologia faça confusão numa fase inicial e possa mesmo intimidar, a verdade é que, a pouco e pouco, mais pessoas se vão habituando a utilizá-la. Como dizia Fernando Pessoa, "primeiro estranha-se e depois entranha-se". Mas surge um problema. Sendo o latim uma língua morta, que quase ninguém sabe falar e pouca gente entende, a única forma de aprender a utilizar os nomes científicos consiste em decorálos ou, quiçá, em “empiná-los”. Este método é pouco prático e fica sujeito a erros de aprendizagem. Se por um lado é verdade que alguns nomes cujo significado é mais ou menos intuitivo (como por exemplo Cuculus canorus ou Picus 18

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viridis), há outros que são absolutamente incompreensíveis (por exemplo Acrocephalus schoenobaenus ou Neophron percnopterus), não se vislumbrando qualquer significado que permita associar as características da ave aos termos que compõem o nome. A fim de ajudar todos os interessados a ultrapassar este obstáculo, foi criada esta nova rubrica da Pardela que tem como principal objectivo ajudar a descodificar esta linguagem. Não se pretende apresentar uma mera lista de traduções e significados, mas sim fornecer as bases necessárias à boa compreensão dos nomes científicos, evitando desta forma que os nomes tenham de ser decorados (“empinados”), pois da boa compreensão resulta a melhor assimilação e a correcta utilização. Os nomes serão abordados tematicamente, isto é, em cada artigo serão tratados nomes que pertencem à mesma família de nomes.

José Viana

O nome Picus viridis provém do latim e a sua tradução para português é intuitiva: pica-pau verde.

Andorinha-das-chaminés Hirundo rustica - o nome genérico Hirundo designa andorinha em latim; o termo rustica também provém do latim e refere-se aos hábitos rurais desta ave.


Hirundo rustica Oenanthe leucura

grego + grego

Luscinia megarhynchos

latim + grego

Apus pallidus grego + latim

?

são “Latin names” que é utilizada em língua inglesa para designar esta terminologia). Contudo, cerca de metade dos nomes científicos usados para denominar as espécies de aves provêm, na verdade, do grego. Este aspecto é muito importante para a boa compreensão de muitos nomes, como veremos adiante. Poderia pensar-se, com base nesta ideia, que alguns nomes são então em latim e outros em grego. Contudo, a situação é mais complexa. Em muitos casos, o nome científico é composto por duas palavras no mesmo idioma (latim ou grego), mas há outros em que o nome genérico é em latim e o nome específico é em grego, ou vice-versa (ver caixa acima). Há ainda alguns casos, menos frequentes, em que uma das palavras (género ou espécie) é obtida por justaposição de elementos provenientes de grego e de latim. Estes casos serão analisados mais tarde. Para além dos elementos de origem grega ou latina, surgem também numerosos nomes latizinados, cuja grafia, porém, nada tem a ver com o latim genuíno. Os casos mais frequentes envolvem nomes de naturalistas famosos, que se decidiu homenagear atribuindo-lhes nomes de aves. Nestes casos, mantém-se a grafia na língua de origem, adicionando-se o genitivo.

Aqui ficam alguns exemplos: · Calidris temminckii (Pilrito de Temminck) – em homenagem a Coenraad Jacob Temminck (1778-1858), que foi um zoologista e aristocrata holandês. A grafia com “ck” corresponde ao nome do naturalista em causa e não aparece em latim. · Larus audouinii (Gaivota de Audouin) – em homenagem a Jean Victor Audouin ou simplesmente Victor Audouin (1797 –1841), naturalista, entomologista, ornitólogo e médico francês. · Gyps rueppellii (Abutre de Rüppell) - Wilhelm Peter Eduard Simon Rüppell (1794 - 1884) foi um naturalista e explorador alemão. · Falco naumanni (Peneireiro-dastorres) – em homenagem a Johann Friedrich Naumann (1780 –1857), cientista e editor alemão que é muitas vezes considerado o fundador da ornitologia científica na Europa. Como se pode ver pelos exemplos acima, quando se homenageiam indivíduos do sexo masculino, o nome específico termina geralmente em “i” ou “ii”. Isto significa que quando encontramos um nome com esta terminação, facilmente podemos concluir que esse nome homenageia alguém (por exemplo Calidris bairdii, Calidris mauri, Larus

sabini, Larus genei, Sterna forsteri, Sterna dougallii, Porphyrula alleni, Cettia cetti, Phylloscopus bonelli, Emberiza pallasi – para todos estes nomes uma pesquisa na internet facilmente permitirá obter mais informação). Contudo, há excepções a esta regra das terminações em “i”, como por exemplo Oenanthe deserti (Chasco-do-deserto), em que o termo “deserti” se aplica ao habitat frequentado por esta ave, sem evocar nenhuma personalidade. Refira-se ainda que, para indivíduos do sexo feminino, a terminação do nome específico é em “ae”. Os dois casos mais conhecidos a nível europeu são: · Falco eleonorae (Falcão-da-rainha) – em homenagem a Eleanor (Eleonora em italiano: 1347–1404), uma juíza de Arborea (Sardenha), que a tradição defende ter decretado a protecção das aves de rapina naquela ilha. · Chrysolophus amherstiae (faisão de Lady Amherst) – em homenagem a Sarah Countess Amherst, mulher de William Pitt Amherst, Governor geral de Bengala, que foi responsável pelo envio do primeiro espécime deste faisão para Londres em 1828. No próximo artigo abordaremos um tema que está presente em inúmeros nomes de aves: as cores. Aprenderemos a distinguir alguns nomes que vêm do latim de outros equivalentes com origem no grego. E ficaremos a saber um pouco mais sobre as diferenças entre os nomes masculinos e os femininos. Autor:

G o n ç a l o E l i a s

Cuculus canorus - tal como acontece em português, o termo latino Cuculus é onomatopaico.

Faísca

d o

latim + latim

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Alfeite

MIRATEJO Alameda 25 Abril

Rio Tejo

R. Soeiro Pereira Gomes

Sapal de Corroios

R. Ferreira Castro

Ponta dos Corvos

Rua do Rouxinol

CORROIOS

Azinheira SEIXAL

Moinho de Maré de Corroios

Centro de estágios SLB

Helder Costa

Moinhos de Maré dos Paulistas

N10

Baía do Seixal AMORA ARRENTELA

Flamingos na Baía do Seixal tendo em pano de fundo a Amora

S e i x a l

U m d o s s e g r e d o s m a i s b e m g u a r d a d o s d o e s t u á r i o d o T e j o C o m o e x p l o r a r

I n t r o d u ç ã o

A exploração desta zona pode considerar-se fácil sendo o único problema o elevado tráfego automóvel que por vezes circula nas estradas envolventes. A rede de transportes públicos é razoável e pode ser utilizada para quem queira aceder a partir de Lisboa. Os meios disponíveis incluem comboio (Fertagus e metro de superfície), barco ou autocarro.

rina. A zona é frequentada por uma grande diversidade de límicolas sendo de salientar o elevado número de maçaricos-reais Numenius arquata, milherangos Limosa limosa, tarambolas-cinzentas Pluvialis squatarola, pernas-vermelhas Tringa totanus e alfaiates Recurvirostra avosetta habitualmente presentes nos meses de Inverno. Muitas gaivotas frequentam a zona, destacando-se, no período pós-nupcial, a presença regular de bastantes gaivotas-de-cabeça-preta Larus melanocephalus. A Águia-pesqueira Pandion haliaetus pode ser vista com frequência nesta área. Nas manchas de vegetação estuarina ocorrem espécies como a Alvéola-amarela Motacilla flava, a Petinha-ribeirinha Anthus spinoletta ou o Pisco-de-peito-azul

O s a p a l d e C o r r o i o s e a P o n t a d o s C o r v o s O chamado Sapal de Corroios não é mais do que um esteiro do Tejo que, partindo da baía do Seixal, se estende até à localidade que lhe dá o nome. É uma zona sujeita à influência das marés e onde, na baixa-mar, as lamas expostas alternam com manchas de vegetação estua-

Helder Costa

Quando se fala em observação de aves no estuário do Tejo pensa-se quase de imediato nas magníficas áreas que se encontram abrangidas pela Reserva Natural e que constituem de facto locais privilegiados para o efeito. No entanto, o estuário do Tejo não se resume a essas zonas. Pressionadas pela densa teia urbana que se expandiu pelas duas margens do estuário, e bastante maltratadas por vezes, subsistem ainda muitas áreas com elevado interesse ornitológico e que são relativamente pouco conhecidas dos ornitólogos nacionais. O Seixal é uma delas.

Moinho de maré de Corroios

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Helder Costa

junto à Ponte da Fraternidade e nas saídas de esgoto junto ao Seixal. Algumas espécies raras como a Gaivota-de-bico-riscado Larus delawarensis ou o Famego Larus canus têm sido aí observadas. É possível percorrer todo o perímetro da baía utilizando uma estrada marginal e, para além disso, nos últimos anos foi construído um passeio ciclo-pedonal a partir do qual se pode observar as aves. O melhor acesso à baía do Seixal é feito a partir da N10 (ver mapa).

A z i n h e i r a A zona da Azinheira fica situada junto ao Seixal e aí existem alguns moinhos de maré abandonados e alguns tanques que proporcionam refúgio de maré a muitas centenas de límicolas. Os alfaiates e os milherangos são comuns, o mesmo se passando com os pernas-vermelhas, os pilritos-de-peito-preto Calidris alpina ou as tarambolas. O número de rolas-do-mar Arenaria interpres que utiliza esta zona como refúgio pode ser extremamente elevado no contexto do estuário (já foram vistos grupos com mais de 300 aves). O acesso é feito a partir do terminal dos barcos da Transtejo no Seixal. Uma vez aí deve seguir-se em direcção das instalações do Instituto Hidrográfico. Depois de passar o campo de futebol do Seixal deve virar-se à direita para uma estrada de terra que segue ao longo da vedação do centro de estágios do S.L. e Benfica. Os moinhos de maré dos Paulistas ficam situados a escassas centenas de metros (ver mapa).

Gaivotas alimentando-se na zona do Seixal. Em primeiro plano Gaivota-de-bico-riscado Larus delawarensis, em segundo plano Gaivota-de-cabeça-preta Larus melanocephalus e em terceiro plano guinchos Larus ridibundus

res locais para observar nesta área é o moinho de maré existente entre Corroios e Miratejo cujo acesso infelizmente está agora vedado. A Ponta dos Corvos é acessível a partir de Miratejo (ver mapa). Helder Costa

O Perna-vermelha Tringa totanus é uma das limícolas mais comuns no sapal de Corroios

A b a í a d o S e i x a l A baía do Seixal encontra-se ladeada por áreas densamente urbanizadas. Na sua margem oeste fica situada a localidade da Amora ao passo que na margem leste se localizam a Arrentela e o Seixal. Esta é uma zona particularmente interessante no Inverno, época em que é possível observar facilmente muitas garças, limícolas e gaivotas. Entre as espécies normalmente presentes contam-se a Garça-real Ardea cinerea, a Garça-branca Egretta garzetta, o Alfaiate, o Milherango, o Perna-vermelha e a Tarambola-cinzenta. As gaivotas tendem a concentrar-se na foz do Rio Judeu,

Autor:

H e l d e r C o s t a

Helder Costa

Luscinia svecica. O Pernilongo Himantopus himantopus nidifica regularmente na área tendo-se verificado também tentativas de nidificação de Chilreta Sterna albifrons e de Borrelho-de-coleira-interrompida Charadrius alexandrinus. Os terrenos envolventes do sapal de Corroios são provavelmente dos melhores sítios do país para ver o Mainato-de-poupa Acridotheres cristatellus, espécie asiática recentemente introduzida em Portugal. Separando o sapal do curso principal do Tejo estende-se uma restinga arenosa que, começando no Alfeite, termina na denominada Ponta dos Corvos já em frente ao Seixal. Esta área encontra-se coberta por um pinhal pouco denso e, na sua parte final existem alguns terrenos abertos. A diversidade ornitológica desta península não é por norma muito elevada. Entre as espécies habitualmente presentes salientam-se o Peneireiro Falco tinnunculus, o Mocho-galego Athene noctua ou a Cotovia-de-poupa Galerida cristata. No entanto, no período de passagem pós-nupcial, e sob condições climatéricas favoráveis, pode verificar-se a chegada de muitos migradores. O Sapal de Corroios pode ser explorado a partir da Rua do Rouxinol que começa junto à rotunda de Corroios e se prolonga até Miratejo. Um dos melho-

Perspectica do sapal de Corroios a partir da zona do Alfeite

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F a l s t e r b o

Pedro Lourenço

n o c e n t r o d a p r i n c i p a l r o t a m i g r a t ó r i a d o N o r t e d a E u r o p a

Nabben

A P e n í n s u l a d e F a l s t e r b o

Pedro Lourenço

Localizada na extremidade sul da Suécia, nas margens do Báltico, a Península de Falsterbo é reconhecida internacionalmente como um dos melhores locais para observação de aves na Europa. O forte de Falsterbo é a migração outonal. Toda a Península Escandinava forma como que um imenso funil para aves da Escandinávia, Lapónia e do Noroeste Russo, que se juntam em Falsterbo antes da travessia do Báltico no seu ponto mais estreito. Um dia bom, e em Falsterbo os dias bons não são raros, pode render ao birdwatcher atento alguns milhares de rapinas e centenas de milhares de passeriformes. Fui a Falsterbo no Outono, tendo aproveitado a participação num curso sobre migração animal na Universidade de Lund Observadores de aves em Nabben como desculpa para passar alguns dias nesta “Meca” do birdwatching. Vindo de Malmö, a principal cidade do Sul da Suécia, uma viagem de meia hora de automóvel leva-nos a Falsterbo, passando pelo caminho por algumas praias interessantes para observar gaivotas, patos, gansos e, com um pouco de sorte, mobelhas. Chegados a Falsterbo, apresentasse-nos uma pequena aldeia pito22

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resca, antiga aldeia de pescadores agora dedicada sobretudo ao turismo, de veraneio e de observação de aves. O local chave para observar aves é a zona junto ao farol, um local chamado Nabben que consiste na verdadeira extremidade sul da península. Aí, a grande surpresa, o principal local de observação de aves no norte da Europa é um campo de golfe! Nos caminhos de acesso, uma bizarra mistura de golfistas carregados de tacos e birdwatchers armados de telescópios entreolha-se com estranheza. Cada grupo parece olhar para o outro sem compreender a finalidade da sua visita. Chegados à extremidade do campo de golfe, junto a um lago onde abundam patos-olho-d'ouro Buce phala clangula, zarros-negrinha Aythya fuligula, mergansos Mergus mergus e patos-de-cauda-afilada Clangula hyemalis, entre outros anatídeos, encontramos o local onde se senta todos os dias, de 1 de Agosto a 20 de Novembro, Nils Kjellén, o principal responsável pelas contagens de migradores desde 1981.


FINLANDIA

b o

-pescoço-ruivo O u t r a s p a r t e s d a S k a n i a

NORUEGA

Oslo

Falsterbo integra-se na península sueca da Skania, região essencialmente agrícola e de relevos suaves, onde os campos de cultivo se sucedem a bosques de caducifólias e magníficos lagos nórdicos. A melhor forma de explorar a região é de carro, viajando de lago em lago, com paragens frequentes para analisar os bandos de gansos-bravos Anser anser, gansos-grandes-de-testa-branca Anser albifrons e gansos-de-faces-brancas Branta leucopsis, em busca dos mais raros gansos-pequenos-de-faces-brancas Anser erythropus e gansos-de-

SUÉCIA Estocolmo ESTÓNIA

LETÓNIA DINAMARCA

RÚSSIA POLÓNIA

Aqui, só numa época de migração outonal foram contadas 1.82 milhões de aves, na sua maioria tentilhões-monteses Fringilla montifringilla, tentilhõescomuns Fringilla coelebs, chapins-azuis Parus caeruleus, chapins-reais Parus major e pardais-monteses Passer montanus, mas também centenas de milhares de pombos-bravos Columba oenas e pombos-torcazes Columba palumbus, e mais de 50 000 rapinas. Pessoalmente, não sei o que me impressionou mais em Nabben, se os bandos de chapins e tentilhões que passam a baixa altitude logo acima das nossas cabeças, enchendo o ar de chilreios, se os enormes bandos de pombos que formam nuvens no céu, só para se desfazerem em magníficos bailados à chegada de um Falcão-peregrino Falco peregrinus, se os bandos de centenas de águias-de-asa-redonda Buteo buteo e bútios-calçados Buteo lagopus que desenham imensas espirais no céu. Além de Nabben, outro local muito atractivo para a observação de aves é Skanör, uma zona aberta de vegetação arbustiva que atrai muitas aves de rapina como local propício para caça. Aqui, assim como em Nabben, as aves de rapina voam por vezes a muito baixa altitude, permitindo excelentes observações de águias de grande porte, como a Águia-real Aquila chrysaetos, a Águia-rabalva Haliaeetus albicilla, a Águia-gritadeira Aquila clanga e a Águia-pomarina Aquila pomarina, assim como de rapinas de menor porte, como o Milhafre-real Milvus milvus, o Tartaranhão-azulado Circus cyaneus ou o Esmerilhão Falco columbarius.

Pedro Lourenço

ALEMANHA

LITUÂNIA

Autor:

Milhafre-real Milvus milvus

P e d r o M . L o u r e n ç o

w e b l i n k s d e i n t e r e s s e : w w w . s k o f . s e / f b o / Pedro Lourenço

Copenhagen Malmo Falsterbo

Branta ruficollis. Nos mesmos prados são avistados grandes números de abibes Vanellus vanellus e tarambolas-douradas Pluvialis apricaria, enquanto que as sebes que separam os campos são bons locais para avistar piscos-de-peito-azul Luscinia svecica, rabirruivos-de-testa-branca Phoenicurus phoenicurus e pintarroxos-de-peito-roxo Carduelis flammea. Os lagos, além de proporcionarem paisagens de beleza extasiante, são também bons locais para avistar mergulhões-de-crista Podiceps cristatus e mergulhões-de-pescoço-ruivo Podiceps grisegena, assim como cisnes-mudos Cygnus olor e cisnes-bravos Cygnus cygnus. Muitos destes lagos albergam casais residentes de águias-rabalvas, proporcionando assim boas observações desta espécie. Nos caniços, para o birdwatcher mais atento, pode espreitar ainda um Chapim-de-bigodes Panurus biarmicus, um final perfeito para um dia bem passado na Skania.

Bando de gansos

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O n d e O b s e r v a r

o N o i t i b ó c i n z e n t o

Caprimulgus europaeus

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A região localizada entre as Dunas de Quiaios e as Dunas de Mira e a zona envolvente ao castelo de Montalegre são áreas privilegiadas para observação da espécie. Contudo, não são únicas e para quem procura um contacto mais próximo, e outros pontos do país também podem ser prospectados. Para isso aconselho a adoptar as seguintes estratégias: 1) efectuar percursos de automóvel em estradas secundárias ou estradões rurais, atentos às aves em voo rasante ou aos reflexos produzidos pelos olhos das aves pousadas no asfalto face às luzes do veículo; 2) realizar algumas paragens para escutar eventuais sons emitidos pela espécie. Neste caso, poderemos potenciá-los recorrendo a emissões de chamamentos previamente gravados (comigo trago sempre um leitor de MP3 com os sons da maioria das espécies que ocorrem no nosso território, pronto a ser utilizado a qualquer momento); 3) esta última técnica também pode ser utilizada durante o dia e por vezes produz uma resposta por parte das aves que se encontram nas proximidades. Com estas dicas, muito provavelmente terão a oportunidade de observar de muito perto uma das aves, que pessoalmente, considero ser uma das mais belas criações da natureza. Autor:

J o ã o P e t r o n i l h o

João Tiago Tavares

D

as 69 espécies de noitibós conhecidas no nosso planeta, cerca de metade pertence ao género Caprimulgus, das quais quatro ocorrem no Paleárctico Ocidental. Destas, duas nidificam em Portugal: o Noitibó-denuca-vermelha Caprimulgus ruficollis e o Noitibó-cinzento Caprimulgus europaeus. Das seis sub-espécies desta última, apenas C. e. meridionalis se reproduz no nosso país, embora durante as migrações ocorra também a sub-espécie C. e. europaeus, a qual nidifica na maioria dos países da Europa Central e do Norte. Imensamente desconhecido da esmagadora maioria da população – ainda que, no meio rural e entre os mais idosos, ainda haja quem o conheça e que curiosamente lhe atribua o nome de Boa-noite - ocorre sobretudo de finais de Abril a meados de Outubro. O seu excelente mimetismo e os seus hábitos nocturnos fazem desta espécie uma das aves mais difíceis de observar na natureza, mesmo entre os observadores de aves. Durante o dia permanece deitada no solo ou estendido ao longo dos ramos das árvores e, a não ser que seja incomodada, quer por predadores quer por algum outro animal, incluindo o Homem, que casualmente passe junto do local onde se encontra, aí permanecerá até ao anoitecer. E é a partir daqui que a altura ideal para observar noitibós se proporciona. Quanto aos locais, apenas posso dizer que na sua área de ocorrência, que se localiza sobretudo no Norte e Centro de Portugal, é uma espécie que deve ser procurada em povoamentos florestais de jovens coníferas, clareiras, zonas de matos, zonas agrícolas, dunas e em terrenos ardidos em anos anteriores.


CONCURSOFOTO

REDE NATURA 2000

F O T O G R A F A R

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S E N S I B I L I Z A R

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Pedro Monteiro

o seu olhar sobre a natureza C O N S E R V A R

C o n c u r s o

“ R e d e N a t u r a 2 0 0 0 e m F o t o ” r e s u l t a e m c a l e n d á r i o S P E A 2 0 0 9 A qualidade e número de fotografias recebidas no concurso “Rede Natura 2000 em Foto” superou todas as expectativas! No total, recebemos 280 fotografias, enviadas por 120 participantes. O concurso divulgado na revista “O Mundo da Fotografia Digital”, na “Visão” e em blogs relacionados com temas como a fotografia e o ambiente, contou com o apoio técnico de um Júri, constituído pelo fotógrafo profissional de Natureza Faísca; pelo representante da revista Visão, João de Deus; pelo Director da revista “O Mundo da Fotografia Digital” e também fotógrafo, Joel Santos; pelo fotógrafo profissional Octávio Alcântara e por último pelo Presidente da SPEA, Ricardo Tomé. A todos eles, obrigada pelo apoio.

Os vencedores de cada categoria ganharam um voucher no valor de 100€ em material Pentax, para ser utilizado nas lojas da Beltrão Coelho, e viram as suas fotografias publicadas no calendário de 2009 produzido pela SPEA, já á venda na nossa loja. O concurso pretendeu acima de tudo divulgar mais as Áreas Importantes para as Aves (IBA), que se situam em áreas abrangidas pela Rede Natura 2000, e sensibilizar ao mesmo tempo para as boas práticas, essenciais à conservação destes locais. Autora:

J o a n a D o m i n g u e s

VENCEDORES C a t e g o r i a

A v e s

Autor: Pedro Miguel Nunes

2 º Legenda: Rouxinol-grande-dos-caniços Autor: Orlando Paulo Teixeira

1 º Legenda: Luta tardia - Cegonhas brancas N.º 34

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C a t e g o r i a

C a t e g o r i a

F a u n a

A m e a ç a s

Autor: André Vicente Gonçalves

2 º Legenda: Bee

Autor: Maria Cristina Pinto Macias Marques

1 º Legenda: Fundo no caminho para a serra

C a t e g o r i a

Autor: Guilherme Lima

F o r m a s

d e

1 º Legenda: À espreita

C a t e g o r i a

P a i s a g e m

Autor: Guilherme Lima

1 º Legenda: Energia positiva

Autor: Arnaldo Alves de Carvalho

Legenda: Deus e a Natureza 1 º

Autor: Bruno Virgílio Faria Abreu

Legenda: Ilhéu da Cal 2 º

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C a t e g o r i a

Autor: Guilherme Lima

F l o r a

Legenda: Floresta Protegida 1 º

NOTA: Os geradores eólicos, quando colocados em alguns locais, podem ter impactos negativos sobre a avifauna.

u s o


Patrocínio

Autor: Gabriel J. E. Lascas

2 º Legenda: Sem título

s u s t e n t á v e l

Autor: André Oliveira Rios Vieira

Legenda: Nas escarpas da Mizarela 2 º

Autor: João Jorge Rolão Vinhas Reis

Legenda: Planta 2 º

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V o a n d o c o m a s A v e s n o P a s s a d o V I I – M e m ó r i a s d e t r a b a l h o s e t n o z o o l ó g i c o s n o R i f ( M a r r o c o s ) Carlos Pimenta

Como estes relatos aconteceram num passado recente, porquê a sua inclusão nesta rubrica...? A razão é simples: para melhor conhecermos o passado e podermos enquadrar práticas e objectos que através da arqueologia o ilustram, vamos ao encontro das gentes em lugares “cristalizados” no tempo. No caso da Península Ibérica, sete séculos de presença islâmica, deixaram marcas profundas nos mais variados e quotidianos alicerces culturais. Há anos integrámos um projecto de investigação etnoarqueológica da Universidad de Cantábria, nas montanhas do Rif, no Norte de Marrocos (Fig.1). Durante cinco campanhas sucessivas uma equipa que integrou arqueólogos, arqueobotânicos, arqueozoólogos e antropólogos abordou temas tão diversos como agricultura, caça, pastorícia, produção de cerâmica, cutelaria, cestaria, lacticínios, tecelagem, etc. No nosso caso, ao longo das duas últimas campanhas, procurámos conhecer o tipo de exploração que aquelas comunidades faziam dos recursos animais domésticos e selvagens… Consultados os cadernos de campo e revisitadas as gravações áudio, alinhavámos os dois apontamentos que se seguem.

Fig.1 Dahar, aldeia do Rif no norte de Marrocos

A g h b a l o u Como as chuvas dos últimos Invernos tinham rasgado sulcos profundos na estrada de terra batida, o guia aconselhou-nos a abandonar o jipe e a fazermos o resto do trajecto a pé. No fundo do vale, a cerca de meia hora por serpenteantes atalhos, estava a aldeia. Ali conhecemos uma mulher de longa idade que nos explicava um processo caseiro de produzir azeite (Fig.2). Reparámos então que numa das franjas do lenço que lhe cobria a cabeça tinha preso um pequeno cilindro metálico que, de relance, nos pareceu uma anilha ornitológica… Através do intérprete perguntámos se poderíamos observar aquele pequeno objecto que ela nos facultou com um enrugado e desdentado sorriso. “Sim”, tirara-a da pata de uma ave pequena que os netos haviam

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Marta Moreno-García

1 6 d e N o v e m b r o d e 2 0 0 0

Fig.2 Explicando um método caseiro de produzir azeite. Numa das franjas azuis do lenço estava presa a anilha

capturado nas imediações com uma armadilha… prática regular naquelas paragens (Fig. 3). A sua leitura revelounos o nº X 350711 e a proveniência: Finnish Museum! Com um mapa da Europa apontámos-lhe a Finlândia, a terra de origem daquele passeriforme que atravessara toda a Europa para se transformar num petisco marroquino. Pedimos-lhe que nos dissesse como era: – “pequenita, avermelhada e”… pouco mais. Tudo se passara haveria algumas semanas e a memória por vezes falhava. Depois desta sumária descrição debruçámo-nos sobre o Guia de Aves. Os seus olhos deslumbrados brilhavam diante de tantas formas e cores. Algumas pareciam-lhe familiares, mas outras… eram absolutamente desconhecidas naquelas paragens. Perante tanta diversidade, flamingos e colhereiros


Carlos Pimenta

mereceram-lhe alegres comentários que Abdulah não conseguiu traduzir. Acabou por “se fixar” no macho de Dom-fafe Pyrrhula pyrrhula que, apesar de ultrapassar as fronteiras da sua distribuição a sul, era uma eventualidade a considerar. De qualquer modo, como a ave estava devidamente referenciada seria questão de contactarmos o Museu que nos iria esclarecer. Era-nos particularmente grato contribuir com aquela informação inesperada embora as possibilidades de resgatarmos a anilha fossem muito reduzidas. Aquela peça metálica era uma jóia, um objecto com enorme valor afectivo, inegociável, sobretudo depois de lhe revelarmos que viera de um país distante. Por lá ficou integrando o parco património familiar para que, ao passar das gerações, a história continuasse a ser contada referindo uns estrangeiros que por lá passaram e ajudaram a ler aquelas letras e números que ninguém na aldeia aprendera a decifrar… Já em Lisboa, contactado o Museu de História Natural da Finlândia, recebemos a informação, primeiro por e-mail, mais tarde por carta (Fig. 4) que afinal se tratava de um Rabirruivo-de-testa-branca Phoenicurus phoenicurus que fora anilhado no Fig.3 Algumas das armadilhas utilizadas para capturar aves e mamíferos. Do lado direito, na mão, a última vítima – um Pisco-de-peito-ruivo Erithacus rubecula. ninho havia mais de dois anos, a 3759 km de distância, em Joutseno, Kymi. Demos conta dessa informação ao nosso guia que, vivendo em Chefchauen, sem viatura 2 1 d e N o v e m b r o d e 2 0 0 0 própria, numa zona desprovida de transportes não terá conO “pássaro da noite” já nos tinha sido anteriormente menseguido fazê-la chegar a Aghbalou. cionado em dois povoados (Homar e Mokriset) sem que

D a h a r

Fig.4 Carta do Finnish Museum com as informações relativas à anilha de Aghbalou, Chefchauen, Marrocos

tivéssemos chegado a qualquer conclusão quanto à sua identidade. No vastíssimo rol de utilidades de diferentes partes de alguns animais (muitas delas já referidas em documentação medieval) aquela ave era fantástica: uma vez morta devia ser conservada seca num lugar protegido e obscuro. Depois, caso “a mulher se revelasse infértil”, “o burro deixasse de comer”, etc., cortava-se uma parte do cadáver mumificado, queimava-se e… a inalação daqueles fumos produziria resultados milagrosos! Uma vez mais, consultado o Guia, nem mochos, nem corujas, nem noitibós, nada correspondia. Até que Fátima, a camponesa entrevistada, se recordou que, apesar de já ter sido parcialmente utilizado para bem de “qualquer coisa”, devia ter algum resto no forro da casa. Regressou pouco depois com um morcego ressequido a que já faltava uma asa – um Vespertilionidae do Género Myotis, esclarecendo-se assim o mistério ornitológico que nos perseguiu durante alguns dias. Autores :

C a r l o s P i m e n t a M a r t a M o r e n o G a r c í a L a b o r a t ó r i o d e A r q u e o z o o l o g i a I G E S P A R , I P

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E n c o n t r a a P A L A V R A M I S T É R I O por Sílvia Nunes

Nas 7 fatias desta figura encontrarás 7 palavras diferentes.

Começa aqui! V J E

R

O que é o Spring Alive? Qual o objectivo do projecto?

R

C A M O S H O U A I I D Ã N E A P H N AO G N R O P V C I S A C A U C E N N D E A P I H S É N E I R E O

Quantos países participam? Quais as aves do projecto? Porquê estas espécies?

Como participar?

Encontra-as e escreve-as. Mas atenção, pois em cada fatia vais

Estas aves estão ameaçadas?

encontrar uma letra a mais. Junta essas letras e encontrarás a palavra mistério.

Pedro Alvito

1 . _ _ _ _ _ _ _ _ __ 2 . _ _ _ _ _ _ _ _ 3 . _ _ _ _ _ 4 . _ _ _ _ _ _ _ _ __ 5 . _ _ _ _ _ _ _ _ 6 . _ _ _ _ _ 7 . _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _

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Como ajudar estas aves?

Spring Alive em números


Paulo Alves

J U V E N I S

O Spring Alive é um projecto de observação de aves, dirigido a todos os residentes na Europa.

Com este projecto pretende-se conhecer as datas de chegada de algumas espécies de aves migradoras a cada país da Europa. Os dados obtidos, embora não tenham um carácter científico, podem ajudar a conhecer um pouco mais sobre a migração das aves. Mas o principal objectivo é envolver as populações na celebração da migração de aves, pelo que, quanto mais pessoas participarem maior será o sucesso do projecto. Em 2008 participaram 28 países. Portugal participa desde o início deste projecto, em 2006. Andorinha-das-chaminés, Cuco-canoro, Andorinhão-preto e Cegonha-branca. Foram escolhidas espécies de aves mais ou menos cosmopolitas na Europa e de identificação fácil, e que estão presentes em todos os países participantes.

S O L U Ç Ã O P A L A V R A M I S T É R I O :1 . P R I M A V E R A 2 . C E G O N H A 3 . S P E A 4 . A N D O R I N H A 5 . E S P É C I E 6 . C U C O 7 . A N D O R I N H Ã O P A L A V R A M I S T É R I O :J U V E N I S

Este projecto decorre todos os anos, durante os primeiros 6 meses. Para participares tens apenas que enviar para o site do projecto a data referente à primeira vez que observaste, nesse ano, cada uma das espécies de ave do projecto e o local dessa observação. Podes fazer isso para cada uma das regiões de Portugal Continental. Apesar da maior parte destas espécies ser comum na Europa, e das suas populações serem numerosas e amplamente distribuídas, há alguns perigos para estes mensageiros da Primavera, sendo um dos mais importantes a perda de habitats adequados para estas aves. Há várias maneiras de contribuires para a salvaguarda destas espécies. Algumas acções são simples e estão ao alcance de todos, como por exemplo, construir caixas-ninhos para o Andorinhão-preto ou sensibilizar as pessoas para não destruirem os ninhos das andorinhas; mas há também formas indirectas de ajudares, como por exemplo, tornando-te sócio/a de organizações como a SPEA, e incentivando outras pessoas a fazê-lo. Quantas mais pessoas apoiarem o trabalho que desenvolvemos, mais meios teremos para continuar a actuar em prol da conservação destas e, e de muitas outras, espécies de aves. - 56.000 registos - 28 países participantes - Países com mais registos: Itália, Rússia, Polónia e Irlanda

Participa! www.springalive.net

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O b s e r v a r a v e s

S o z i n h o e m

Para muitos, o prazer de observar aves, pelo menos em parte, está no convívio com outras pessoas que partilham com eles um mesmo interesse. Se este é o seu caso, por favor passe para a página seguinte! Depois há aqueles que preferem observar sozinhos. Uns serão anti-sociais, outros talvez especialmente sensíveis ao facto de a perturbação causada aumentar exponencialmente com a dimensão do grupo. Isto ao mesmo tempo que a capacidade de concentração dos seus elementos tende a diminuir. Além disso, um conjunto de observadores que actuem isoladamente consegue cobrir uma área muito maior e detectar muito mais aves do que se se mantiverem juntos. Na perspectiva do grupo, isso é vantajoso, o pior é se não somos nós a dar com a tal ave especial... Mesmo esse segundo tipo de observador não poderá negar que quatro olhos e quatro ouvidos detectam mais aves do que dois, nem que partilhar despesas de deslocação é uma grande vantagem. Ele poderá, sim, argumentar que a capacidade de detecção de um grupo aumenta pouco com o incremento do respectivo número de elementos e que esse aumento não compensa o que se perde devido à perturbação e à desconcentração.

M a r c aM o d e l o

Então e será que existe uma abordagem que minimize os inconvenientes da observação em grupo, ao mesmo tempo que aproveita as suas vantagens? Será que é possível observar aves “sozinho em grupo”?! Bom, não me venham com telemóveis porque todos sabemos que, em áreas remotas, mal o relevo aumenta fica-se logo sem rede. Além disso, um observador ver uma raridade de manhã e telefonar a outro para este a ir ver à tarde, não é observação em grupo – é twitching! A verdadeira solução são os walkietalkies. Um grupo de observadores desloca-se para uma mesma área num único veículo e aí separam-se para cobrir a zona o melhor possível. Regularmente vão mantendo o contacto para garantir que ninguém “perde pitada” e que, na hora de abandonar o local, estão todos presentes. No final de Outubro de 2008 testei este sistema na Ilha do Corvo (Grupo Ocidental do Arquipélago dos Açores), utilizando aparelhos de três marcas diferentes. Na Tabela 1 apresenta-se um resumo das características de cada modelo, tal como anunciadas pelo fabricante. De notar que as características publicitadas raramente coincidem com o que se observa no terreno, particular-

A l c a n c e P r e ç o p a r R L m á x . ( e u r o s )U www.motorola.com (Rádio para negócios curta distância)

Motorola

XTR 446

8 km

90

Cobra

microTALK 975

12 km

50 a 70

www.cobra.com (Two-Way Radios)

Topcom

Twintalker 6800

6 km

52 a 62

www.topcom.net/communication.html (Radio-Motorbike Walkie-Talkies) Tabela 1 - Os três modelos de walkie-talkies testados no campo em Outubro de 2008 e alguns elementos básicos sobre os mesmos.

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? h o e m G r u p o mente em condições adversas (relevo acentuado, floresta densa, vento, etc.). Por exemplo, nestas condições, o alcance máximo dos Cobra poderá não ultrapassar os 2 km e o dos Topcom ser da ordem dos 300 a 400 m! Destaca-se ainda o facto de o modelo da Motorola testado não ser o que consta da Tabela 1, mas sim o mais antigo Talkabout T5522, cujo fabrico foi descontinuado. Globalmente, a difícil selecção de sub-canais e o preço do Motorola, aliados aos fracos alcance e durabilidade do Topcom, parecem fazer do Cobra a melhor opção. Este equipamento pode ser adquirido no Media Markt (www. mediamarkt.pt) por cerca de 50 euros o par. Se pretender encomendar on-line, sugere-se uma visita a www.onedirect .pt/fr/walkie-talkies e www.minfo.pt/ catalogo. Não ficou convencido? E se eu lhe disser que foi graças a uma destas jigajogas que eu vi uma fragata Fregata sp. descoberta por Ingvar Torsson e que os meus colegas não perderam um noitibó-americano Chordeiles minor que eu detectei?! Ah pois é, sabe o que é que eu lhe digo... Boa Navegação! Autor :

L u í s G o r d i n h o

w w w . n a t u r l i n k . p t

Patrocínio

Agradecimentos: A David Monticelli, Richard Ek, Olof Jönsson, Ingvar Torsson e Simon Buckell por me permitirem testar os seus equipamentos no campo.


A derradeira experiência visual

Encurtar distância Encurtar distância 0ARAUMAVERDADEIRAEXPERI¼NCIANANATUREZA VOC¼TEMQUESETORNAR 0ARAUMAVERDADEIRAEXPERI¼NCIANANATUREZA VOC¼TEMQUESETORNAR PARTE DELA 5M $IASCOPE PERMITE LHE ATRAVESSAR FRONTEIRAS ÄPTICAS

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EXPLORAR A BELEZA NO SEUPERMITE LHE ENTORNO  NOS MAIS ¿NFIMOS DETALHES !S EXPLORAR A BELEZA NO SEU ENTORNO  NOS MAIS ¿NFIMOS DETALHES !S OBJETIVASDEALTODESEMPENHOCOMVIDRO&,GARANTEMAMAISBRILHANTE OBJETIVASDEALTODESEMPENHOCOMVIDRO&,GARANTEMAMAISBRILHANTE VIS¶O CONTRASTESPODEROSOS CORETEXTURA EUMAQUALIDADEDEIMAGEM VIS¶O CONTRASTESPODEROSOS CORETEXTURA EUMAQUALIDADEDEIMAGEM SEMPRECEDENTES SEMPRECEDENTES WWWZEISSDESPORTSOPTICS WWWZEISSDESPORTSOPTICS


Pardela 34  

Revista Ornitologia

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