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LER

MARÇO

“O verbo ler não suporta o imperativo. É uma aversão que compartilha com outros: o verbo “amar”... o verbo “sonhar”... é evidente que se pode sempre tentar. Vejamos: “Ama-me!”, “Sonha!”, “Lê!”, “Lê, já te disse, ordeno-te que leias!” – Vai para o teu quarto e lê! Resultado? Nada. (pág.11) “... e assim descobriu a virtude paradoxal da leitura, que consiste em fazer-nos abstrair do mundo para lhe encontrarmos um sentido.” (pág. 17) “... e cá temos o adolescente fechado no seu quarto, diante de um livro que não lê. O seu desejo de estar longe dali, coloca entre ele e as páginas abertas uma cortina que desfoca as palavras.” (pág.20) “A toda a leitura preside, por mais inibida que seja, o prazer de ler, e, pela sua própria natureza (...) o prazer de ler não receia qualquer imagem, mesmo a da televisão e mesmo sob a forma de avalanches quotidianas. Mesmo que o prazer de ler se tenha perdido (mesmo que, como se diz, o meu filho, a minha filha, a juventude não gostem de ler) não está muito longe. Está apenas escondido. É fácil de encontrar. Mas é preciso saber que caminhos se devem seguir para o encontrar... Nós, que afirmamos gostar de ler e que pretendemos partilhar esse amor. (pág. 41) “Se é verdade que, como se costuma dizer, o meu filho, a minha filha, os jovens não amam a leitura – e o verbo tem perfeita aplicação, já que de facto se trata de uma ferida de amor – a culpa não é da televisão, nem da modernidade, nem da escola. Até pode ser que tudo isso tenha influência, mas primeiro temos de responder a uma pergunta essencial: o que fizemos nós do leitor ideal que ele era no tempo em que nós desempenhávamos o papel de contador de histórias e de livro? Que grande traição! Ele, a leitura e nós próprios (pais) formávamos uma trindade todas as noites reconciliada; agora ele está sozinho perante um livro que lhe é hostil. (pág. 48) “A leitura é o flagelo da infância e quase o único modo de a ocuparmos. Fazemos grandes esforços na procura de melhores métodos de aprendizagem da leitura, inventamos secretárias, mapas, transformamos o quarto da criança numa tipografia (...) é lamentável! O meio mais seguro e de que nunca nos lembramos é criar o desejo de aprender. Dêem à criança esse desejo, e deixem o resto (...) qualquer método será bom. O interesse presente é que constitui a grande motivação, a única que leva longe e com garantia (...) Resta-me acrescentar o que considero muito importante; geralmente conseguimos mais depressa e com mais garantias, o que não nos apressámos em obter.” (pág. 51) “Minhas caras meninas, não é de modo nenhum sob as formas de vocabulário e sintaxe que a Literatura começa a seduzir-nos. Recordem-se do modo como as letras se introduziram na nossa vida. Na mais tenra idade, mal deixam de nos cantar canções de embalar que fazem o recém-nascido sorrir e adormecer, inicia-se a era dos contos. A criança bebe-os como bebe leite. Exige a continuação e a repetição das maravilhas; constitui um público impiedoso e excelente. Só Deus sabe as horas que passei a


alimentar de mágicos, monstros, piratas e fadas, crianças que exigiam ao seu esgotado pai: Mais! (Paul Valéry)” (pág. 52) «”É um público impiedoso e excelente.” Ele continuará a ser um bom leitor se os adultos que o cercam alimentarem o seu entusiasmo, em vez de tentarem provar a sua competência, se estimularem o seu desejo de aprender em lugar de lhe imporem a obrigação de recitar, se o acompanharem no seu esforço sem esperarem contrapartidas, se aceitarem perder noites em vez de procurarem ganhar tempo, se fizerem vibrar o presente sem acenar com a ameaça do futuro, se se recusarem em transformar em trabalho forçado o que era um prazer, se mantiverem esse prazer até se transformar em rotina, se edificarem essa rotina sobre a gratuidade da aprendizagem cultural, e se ele próprio descobrir o prazer dessa gratuidade.» (pág. 53) “Entretanto, na escola prossegue a sua aprendizagem. Se ainda não consegue grandes progressos nas suas tentativas de leituras escolares, não nos apressemos, temos imenso tempo, desde o momento em que renunciámos a fazer-lho ganhar. O progresso, o famosos progresso, manifestar-se-á noutro campo, inesperadamente. Uma noite, porque saltámos uma linha, ele protesta: - Saltaste um bocado! (...) É o primeiro sinal. Certa noite decretou: - Eu leio contigo! Cá está! Conseguimos. E se quisermos proporcionar-lhe um inultrapassável prazer, basta que adormeçamos enquanto ele lê para nós.” (pág. 55) “Há quem nunca tenha lido e que por isso tem vergonha, há os que já não conseguem arranjar tempo para ler e que por isso se lamentam, há os que nunca lêem romances, só livros úteis, ensaios, obras técnicas, biografias, livros de História; há os que lêem tudo, que devoram, e cujos olhos brilham, há os que só lêem os clássicos, meu caro senhor, pois a melhor crítica é o crivo do tempo, há os que passam a idade madura a reler e os que leram o último de fulano e o último de sicrano, porque, meu caro senhor, temos de estar a par... Mas todos, todos em nome da necessidade de ler. O dogma: que é preciso ler.” (pág. 66) “... sem dúvida nenhuma que as agradáveis horas da noite passadas no gabinete do meu pai estimulavam não só a nossa imaginação, mas também a nossa curiosidade. Quando conhecemos o encanto sedutora da grande literatura e o reconforto que ela proporciona, queremos saber mais – outras histórias ridículas e parábolas cheias de sabedoria e contos com múltiplos significados e estranhas aventuras. E é assim que começamos a ler por nós próprios. Klaus Mann” (pág. 74) “ A escola não pode ser um local de prazer, já que este supõe uma boa dose de gratuidade. É uma fábrica necessária do saber que requer esforço. As matérias que lá ensinam são utensílios da consciência. Os professores encarregados de iniciar as matérias são os iniciadores e não se lhes pode exigir que louvem a gratuidade da aprendizagem intelectual, quando tudo, absolutamente tudo na vida escolar – programas, notas, exames, classificações, orientações, secções – afirma a finalidade competitiva da instituição, ela própria induzida pelo mercado de trabalho.


Se um aluno, de vez em quando, encontra um professor cujo entusiasmo parece considerar as matemáticas em si mesmas, que as ensina como se elas fossem uma das Belas Artes, que o faz gostar das matérias devido à virtude da sua própria vitalidade, graças ao que o esforço se torna prazer, é porque se trata de um acaso e não se deve à excelência da instituição. É inerente aos seres vivos fazerem amar a vida, mesmo que sob a forma de uma equação do 2º grau, mas a vitalidade nunca foi incluída nos programas escolares. A função está aqui. A vida está algures. Ler, aprende-se na escola, amar a leitura...” (pág. 75) “É preciso ler. É preciso ler... E se em vez de exigir leitura o professor decidisse de repente partilhar o seu prazer de ler? Prazer de ler? O que é isso? (pág. 77) “Uma leitura bem conduzida salva de tudo, mesmo de nós próprios. E acima de tudo, lemos contra a morte.” (pág. 78) “Somos habitados por livros e amigos.” (pág. 81) “Aquele professor não metia à força o saber, oferecia o que sabia. Era menos professor do que trovador – um daqueles prestidigitadores de palavras que frequentavam as hospedarias dos caminhos de Santiago e que cantavam cações de gesta aos peregrinos analfabetos. Como tudo tem de ter um início, todos os anos reunia o seu pequeno rebaho nas origens orais do romance. A sua voz, como a dos trovadores, dirigia-se a um público que não sabia ler. Abria olhos. Acendia lanternas. Dirigia as suas gentes pela rota dos livros, peregrinação sem fim, nem certezas, encaminhamento do homem para o homem. - O mais importante era ele ler para nós em voz alta, era confiança que ele colocava imediatamente no nosso desejo de compreender... O homem que lê em voz alta elevanos à altura do livro. Ele dá verdadeiramente a ler.” (pág. 88) “- Dê-nos o desejo de ler!” (pág. 94) “Tome-se uma turma de adolescentes, cerca de trinta e cinco alunos. Não daqueles alunos cuidadosamente calibrados para franquearem rapidamente os altos pórticos das escolas importantes, mas dos outros, dos que vieram dos liceus do centro da cidade, porque o seu boletim não permitia acesso ao bacharelato (...) Fui sempre péssimo em Matemática... As Línguas não me interessam... Não consigo concentrar-me... Não consigo escrever bem... Há demasiado vocabulário nos livros... Não percebo nada de Física... Tive sempre zero em Ortografia... Em História lá ia andando, mas não fixo as datas... Julgo que não trabalho o suficiente... Não consigo compreender... Falhei muitas coisas... Custa-me muito... Faltam-me as bases... Não tenho ideias... Sei poucas palavras...“ (pág. 99) Querem ser livres e sentem-se abandonados. (pág. 102)


Evidentemente não gostam de ler. Há demasiado vocabulário nos livros e também demasiadas páginas. Em resumo, há demasiados livros. Decididamente não gostam de ler. (...) - Bom, já que não gostam de ler... Vou eu ler-vos livros. (...) - Não, não é preciso tirarem notas. Tentem apenas ouvir. (...) - Instalem-se confortavelmente, descontraiam-se... (pág. 103) É certo que a voz do professor ajudou a esta reconciliação: poupando esforços de descodificação, representando claramente as situações, colocando cenários, encarnando as personagens, sublinhando os temas, acentuando as nuances, fazendo o mais, nitidamente possível, o seu trabalho de revelador fotográfico. (pág.114) Onde desencantar tempo para ler? (...) O tempo disponível para ler e o desejo de ler, nem sempre coincidem. Porque, se virmos bem, ninguém tem tempo para ler. Nem os pequenos, nem os médios, nem os grandes. A vida é um perpétuo entrave à leitura. (...) O tempo para ler é sempre um tempo roubado. Como aliás o tempo para escrever ou para amar. Roubado a quê? Digamos que ao dever de viver. (pág. 119) Para que haja esta reconciliação com a leitura, existe uma única condição: não pedir nada em troca. Absolutamente nada. Não erguer qualquer barreira de conhecimentos prévios em torno do livro, não colocar a mais ínfima questão, não obrigar a fazer trabalhos de casa, não acrescentar uma palavra que seja às que foram lidas, não fazer juízos de valor, não dar explicações de vocabulário, nem fazer análises de texto, nem biografias... Proibição absoluta de falar “acerca de”. Leitura-dádiva. Ler e esperar. Não se força a curiosidade, desperta-se. Ler, ler e confiar nos olhos que se abrem, nas caras que se regozijam, na pergunta que vai nascer e que levará a outras. Se o pedagogo que existe em mim se preocupa por não apresentar a obra no seu contexto, terá o pedagogo de ser persuadido a que, por agora, o único contexto que importa é o desta turma. Os caminhos do conhecimento não terminam nesta turma: é aqui que devem começar! Por agora, leio romances a um auditório que julga que não gosta de ler. Enquanto eu não dissipar esta ilusão, enquanto não fizer o meu trabalho de intermediário, nada de sério se poderá ensinar. Mal estes adolescentes se reconciliem com os livros, percorrerão de bom grado o caminho que vai do romance ao autor, do autor à sua época e da história lida aos seus múltiplos sentidos. O importante é estar pronto. Esperar a pé firme a avalanche de perguntas. (pág. 122) O programa será portanto considerado, as técnicas de dissertação de análise do texto (com grelhas muito metódicas) de comentário composto, de resumo e discussão devidamente transmitidas e todo um mecanismo devidamente rodado para melhor demonstrar às instâncias competentes, no dia do exame, que não nos contentamos em ler apenas para nos distrairmos, mas que compreendemos, que fornecemos o famoso esforço de compreensão. (pág. 129) Passemos ao leitor. Porque mais instrutivos ainda do que os modos de tratar os livros, são os modos de os ler. Em matéria de leitura, nós os leitores temos todos os direitos, a começar pelos que recusamos aos jovens que pretendemos iniciar na leitura.


1) O Direito de não ler 2) O Direito de saltar páginas 3) O Direito de não acabar um livro 4) O Direito de reler 5) O Direito de ler não importa o quê 6) O Direito de amar os heróis dos romances 7) O Direito de ler não importa onde 8) O Direito de saltar de livro em livro 9) O Direito de ler em voz alta 10) O Direito de não se falar do que se leu (pág. 139) Porque se queremos que o nosso filho, a nossa filha, a juventude leiam, é urgente outorgar-lhes os direitos que outorgamos a nós próprios. (pág. 140) (Daniel Pennac, Como um Romance, Edições Asa)

“Lemos para compreender ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase tanto como respirar, é uma das nossas funções vitais.” Ler é descobrir o mundo com tudo o que de belo, grandioso, misterioso e exótico ele contém. “... não há cânone que nos guie na formação do gosto pela leitura. Antes de se perceber o que se lê, há que ler, ler sempre, ler tudo o que nos cai sob os olhos. O bom e o mau, o erudito e o vulgar, o roman philosophique e o livro policial” sem estratificação por grupos etários, que pressupõe uma enorme arrogância e uma prolongada infantilização dos potenciais leitores. Todos os livros são para toda a gente a todo o tempo. E não os perceber, numa determinada idade, faz parte do próprio processo de aprendizagem. É preciso ler em liberdade e com a disponibilidade sem a qual não há verdadeiro prazer.” (Alberto Manguel, in Uma História da Leitura)

“Os políticos de hoje, os senhores do mundo, não leram livros, são incultos. Churchill, de Gaulle, Mitterrand e outros, liam livros. Willy Brandt... homens de Estado com grande cultura. Todos mortos, e alguns foram assassinados. Se Rabin e Sadat fossem vivos... dois homens com visão de paz assassinados pelo seu povo. Estamos a falar de coisas sérias, e quem me dera que grandes escritores nos ajudassem mais. Mas Clinton lia muito, e sabia do que falava. Sei-o por experiência própria, ele discutiu comigo taco a taco, sem hesitações, depois de um jantar para o qual me convidou. Uma inteligência portentosa.” (George Steiner, in Revista, 22 de Junho de 2002)

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