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REALIZAÇÃO FAPEPI A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (Fapepi) promoveu no último mês de maio, no município de Picos, o I Seminário Perspectivas em Pesquisa, Ciência, Tecnologia e Inovação do Semiárido Piauiense. Através dessa iniciativa, a Fapepi fortalece seu papel de integrar o setor produtivo, a academia e as políticas públicas do Governo do Estado, com o objetivo de atender às necessidades da população.


EXPEDIENTE José Wellington Barroso de Araújo Dias Governador do estado do Piauí Margarete de Castro Coelho Vice-Governadora do estado do Piauí Francisco Guedes Alcoforado Filho Presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí - Fapepi Albemerc Moura de Moraes Diretor Técnico-Científico da Fapepi Wellington Carvalho Camarço Diretor Administrativo-Financeiro da Fapepi

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Foto: Paulo Barros

Pesquisador fala de sua linha de pesquisa para vacina contra o calazar

CONSELHO EDITORIAL Acácio Salvador Véras e Silva Adalberto Socorro da Silva Albemerc Moura de Moraes Ana Regina Barros Rêgo Leal Edvaldo Sagrilo Francisco Guedes Alcoforado Filho Francisco Marcelino Almeida de Araújo José Milton Elias de Matos Lívio César Cunha Nunes Orlando Maurício de Carvalho Berti Raimundo Isídio de Sousa Ricardo de Andrade Lira Rabêlo Rivelilson Mendes de Freitas COORDENAÇÃO DE COMUNICAÇÃO: Michelly Samia EDITORA-CHEFE: Vanessa Soromo– DRT: 1576 PI REDAÇÃO: Afonso Rodrigues Allan Campêlo (Estagiário) Mário David Melo FOTOS: Marcelo Cardoso Paulo Barros REVISÃO DOS TEXTOS: Márcia Ananda PUBLICIDADE: Patrícia Carvalho DIAGRAMAÇÃO: Luiz Carlos IMPRESSÃO E ACABAMENTO: Gráfica São João TIRAGEM: 10 mil exemplares Publicação Trimestral

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Fapepi fomenta programas que contribuem para o fortalecimento da CTI no Estado

Foto: Marcelo Cardoso

Nº 38 Ano XII / Junho de 2015 ISSN – 1809-0915


Ilustração: Patrícia Carvalho

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Sumário

Foto: Marcelo Cardoso

Programa destaca pesquisa de excelência no Piauí

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Piauiense é primeiro lugar em seleção do Ministério da Educação da França

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Uespi participa de projeto para desenvolver adesivo bucal que inibe a proliferação de bactérias

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Laboratório na UFPI realiza estudos em rochas sedimentares da Bacia do Parnaíba

E mais... Realização Fapepi, artigos, teses e dicas de livros.

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Inovação

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Francisco Guedes Presidente da Fapepi

Editorial

articipei das primeiras reuniões que levaram à criação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (Fapepi). Momentos difíceis aqueles, que foram superados por um grande desejo: mudar o destino da pesquisa científica e tecnológica do nosso Estado. Agora cá estou eu, depois de passados mais de vinte anos, com menos cabelos e com uma bagagem maior e diversificada, presidindo essa Fundação. O convite para escrever o editorial desta edição (que agora está em suas mãos ou na tela do seu computador/ smartphone) foi aceito com grande alegria, afinal de contas, vou ter a oportunidade de falar sobre Inovação Tecnológica (IT), uma área propulsora e que por isso me causa muito entusiasmo. A Fapepi, enquanto agência de fomento do estado, tem a missão (e o dever) de fomentar a IT no Piauí, por meio de soluções criativas que oportunizem a inclusão de mais pessoas (comunidade científica, sociedade) no processo de desenvolvimento do Estado. O Piauí é um solo fértil para a Inovação Tecnológica e conta com pesquisadores renomados e de excelência, que estão investigando o que pode ser realizado para desenvolver as nossas potencialidades. A seção “Entrevista” traz o professor Dr. Carlos Henrique Nery Costa, que segue uma linha alternativa nas pesquisas pela vacina contra o calazar. Trazemos ainda um estudo que visa melhorar a saúde bucal dos usuários de aparelhos ortodônticos, por meio de um adesivo que inibe a proliferação de bactérias. Tal estudo está sendo realizado por instituições nacionais e internacionais, entre elas a Universidade Estadual do Piauí (Uespi). Vamos saber mais sobre o primeiro Laboratório de Geoquímica Orgânica do Nordeste (LAGO), que fica localizado dentro da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Além disso, embarcamos no sonho de um jovem acadêmico piauiense que vai ensinar Português para franceses, na cidade de Bordeaux, com o apoio da Fapepi. O tema central desta edição são as pesquisas desenvolvidas no âmbito do Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex), apresentadas em cinco matérias reunidas em uma grande reportagem que revela a importância do Programa. Também destacamos, em outro texto, os principais programas executados pela Fapepi nos últimos anos e a sua contribuição para o desenvolvimento do Estado nas áreas da Ciência, Tecnologia e Inovação. Uma boa leitura a todas e a todos!

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EXPEDIENTE


Colaboração Vanessa Soromo

O avanço na pesquisa contra o calazar Segundo Carlos Henrique Nery Costa, o controle das doenças tropicais deve ser questão Foto: Paulo Barros estratégica para o país

Carlos Henrique Nery Costa Nascido em Teresina, Carlos Henrique Nery Costa é formado pela Universidade de Brasília (Unb), onde fez Residência em Clínica Médica e Mestrado em Medicina Tropical. É doutor em Saúde Pública Tropical pela Harvard University. Já recebeu a comenda Mérito Renascença do Governo do Estado do Piauí e o prêmio Mérito pelo Incentivo ao Desenvolvimento da Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado do Piauí. Atualmente é professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), médico do Instituto de Medicina Tropical Natan Portella e coordenador do Laboratório de Pesquisas em Leishmanioses.

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leishmaniose visceral, ou calazar, é uma zoonose transmitida por flebotomíneos, pequenos insetos conhecidos popularmente como mosquito-palha, asa dura ou birigui. Quando não tratada, a doença pode ser letal. Só em 2014, 319 casos de calazar e 10 óbitos foram notificados no Piauí, no sistema de informação Sistema de Informação de Agravos e Notificação da Secretaria Estadual de Saúde do Piauí (SINAN/Sesapi). Em entrevista à revista Sapiência, o médico Carlos Henrique Nery Costa, pesquisador atuante na área de doenças tropicais, fala da atual situação da doença e da sua linha de pesquisa para obtenção de uma vacina contra o calazar em seres humanos.

Qual a situação atual do calazar no mundo? O calazar, ou leishmaniose visceral, como alguns preferem, é um problema de saúde pública reemergente e tido como fora de controle pela Organização Mundial da Saúde. Embora não exclusivamente, acomete principalmente regiões muito pobres do mundo, como o Subcontinente Indiano, o Leste da África e o Brasil. Para cá, foi provavelmente trazida pelos portugueses e encontrou um bom vetor, que é o flebótomo Lutzomyia longipalpis. Atenção: não é um mosquito. Os mosquitos têm a fase larvária na água e um modo de sucção diferente, pois vão diretamente ao vaso sanguíneo. Já o flebótomo, corta a pele e depois suga o sangue que aflora. Junto com o sangue vem

material próprio da pele e, por isso, é que talvez ele está relacionado à leishmaniose cutânea. Embora fosse reconhecida como uma endemia tipicamente rural, nos últimos anos ela se espalhou para cidades aqui no Brasil e se tornou um problema realmente sério. Como surgiu esse movimento de urbanização da doença? Começou aqui em Teresina, em 1982, onde a doença primeiramente levou a epidemias urbanas em larga escala, espalhando-se a partir daqui e então pela América do Sul. Mas não sabemos ainda por que a doença se tornou urbana e como fazer para controlar. Então, diante desse cenário, é que se impõe a necessidade de vacinas para seres humanos.

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ENTREVISTA

Por Afonso Rodrigues


ENTREVISTA

Qual a linha de pesquisa desenvolvida pelo senhor? Existem vários projetos de vacinas para leishmanioses em andamento no Brasil e no mundo. Entretanto, nós estamos seguindo uma linha relativamente fora do principal caminho de investigação, um caminho alternativo. A nossa abordagem se baseia no fato de que tem sido difícil se conseguir imunidade duradoura nos indivíduos vacinados. A partir daí, passou-se a conceber uma ideia reversa de uma vacina, utilizando como ponto de partida o que nós temos em abundância, que são casos de leishmaniose aqui no nosso meio. Estamos organizando informações sobre os antígenos ou os fatores de virulência que determinam a doença grave. Queremos saber qual é o segredo da leishmaniose nessas pessoas que têm a doença mais grave, fatal. Para isso, estamos identificando a sequência genômica completa dos isolados Leishmania que dão a doença grave e comparamos com aquelas de doença que é não grave para saber quais são as diferenças genéticas no parasita e, a partir dessas diferenças, tentar construir um organismo vivo geneticamente modificado para ser utilizado como vacina. É um caminho que tem certa dificuldade porque a utilização de organismos vivos geneticamente modificados como vacina impõe as dificuldades de estabilidade, comercialização, conservação. Contudo, como existem muitas vacinas de organismos vivos atenuados, é uma estratégia boa e que pode resolver um problema da falta de imunidade duradoura nas vacinas recombinantes ou vacinas de proteínas purificadas. Nós temos aí um horizonte de aproximadamente cinco a dez anos de modo a ter um produto mais competitivo no mercado. Essa pesquisa começou quando? Em 2010. Esse projeto está sendo financiado pelo CNPq, tem recursos da Capes, mas tem uma fonte importante de recursos gerada por verbas de bancada de políticos, de deputados e senadores e amigos da ciência. É importante registrar que existe um consenso de alimentar esse grupo de pesquisa aqui no Piauí através não só de instituições nacionais, como também de instituições locais.

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A vacina que o senhor está desenvolvendo imunizaria o indivíduo para sempre? A ideia é dar uma dose única para a vida inteira. Nós já sequenciamos dez organismos globais para a identificação de fatores de virulência, uma área nossa, ninguém está fazendo. Estamos, no momento, em análise desse material para publicação e já estamos enviando mais cinquenta [organismos globais] para Coréia, onde uma grande companhia vai fazer o sequenciamento desse material. Estamos tentando a ousadia de trazer esta vitória, dando ao Piauí essa primazia. É possível uma vacina com amplitude global ou cada região teria que desenvolver uma de acordo com as características específicas daquela região? Nós sabemos que existem diferenças genéticas entre parasitas da mesma espécie. Por exemplo, uma Leishmania infantum, a mesma que dá o calazar, pode dar só lesão de pele. Na epidemia de Madrid, por exemplo, que está acontecendo agora, dois terços dos casos são só doenças de pele e um terço é doença visceral. Será se são variedades genéticas diferentes ou é o hospedeiro que está respondendo de forma distinta? Não sabemos. Tudo isso vai ter que ser validado. Mas já que estamos nos fundamentando em diferenças genéticas do parasita, é bastante provável que uma vez sendo atenuado, ele seja útil para todas as regiões do mundo, pois teria perdido essa capacidade de induzir doença. Um esforço internacional que está se fazendo. O caminho está ficando fértil. Por exemplo, um grupo do Canadá está trabalhando com pesquisadores da Índia e do Sri Lanka e já identificaram diferenças importantes de parasitas que determinam a visceralização da doença. Enquanto isso, nós estamos trabalhando numa visão um pouco diferente, naquilo que leva à doença muito grave, que mata. Em relação ao vetor que transmite a doença, o que está sendo feito para combatê-lo? Muito pouco. Na verdade, não existe como extinguir o vetor. O flebótomo é uma espécie de mosca, está em todo lugar; onde tem uma certa umidade, sombreamento, ele prolifera. O que se pode fazer melhor, do ponto de vista teórico, é proteger as residências com inseticidas, pois

é muito melhor se atuar sobre os vetores que transmitem a doença do que sobre os reservatórios vertebrados. Nesse caso, o problema são os inseticidas modernos, que têm o que nós chamamos de baixo poder residual, sendo incapazes de controlar a entrada dos insetos nas residências. Seguramente, não são tão bons como era o DDT. Infelizmente, o DDT foi banido pelo receio de que trouxesse alterações importantes de teratogênese e carcinogênese. O programa de eliminação de cães é um fracasso, pois não se tem nenhuma demonstração clara de eficácia. Além disso, há uma reação enorme da população, porque já sabe que não funciona. Uma tecnologia nova é o uso de colares impregnados com inseticida, que pode vir a funcionar. Isso porque as coleiras vão atuar não só sobre o reservatório, mas também sobre o vetor. Então, nessa perspectiva de ação combinada, a tecnologia, que é relativamente simples, pode levar a algum resultado positivo. Nesse momento, existe um grande estudo feito no Brasil tentando verificar se o uso de coleiras impregnadas com inseticidas seria capaz de gerar alguma proteção não só nos animais, como também nas pessoas. Isso está em andamento. Algum estudo comprova a eficácia das coleiras nos cães? Sim. É capaz de reduzir a transmissão entre os animais. No Brasil, os resultados não foram muito bons. Um estudo feito em Fortaleza não foi muito satisfatório por várias razões. Entre elas, os cães perdiam as coleiras rapidamente, pois cercas com arame farpado são capazes de rasgar a coleira. O Ministério da Saúde resolveu bancar esse grande estudo de avaliação dos colares para ver se são capazes de proteger não só os cães, mas principalmente as pessoas. Além dos inseticidas, o que a população pode fazer para prevenir a doença? Sabemos que as residências em locais que têm baixa infraestrutura urbana têm maior incidência de calazar. Agora, não existe nenhum estudo que mostre que a retirada ou a introdução desses melhoramentos seria capaz de modificar a transmissão da doença. Por exemplo, em Campo Grande, a doença é transmitida entre pessoas de alto poder aquisitivo, no centro da cidade. O que eu recomendaria para as


Atualmente, o tratamento disponível para o calazar é capaz de curar os seres humanos? Cura, mas não esteriliza. Se a pessoa tiver calazar e depois pegar uma doença que dá imunodepressão, como o HIV, ou se vai tomar remédio para transplante ou para câncer, o calazar pode aparecer novamente. O Brasil ainda adota a cultura da eutanásia para o tratamento de cães, questionada pela comunidade científica. Quais as alternativas para não se tomar essa atitude drástica? Qualquer política pública tem que ter demonstrada sua eficácia. Se ela não é eficaz, você está gastando recursos públicos inutilmente, além de gerar outros efeitos, como agressão aos direitos privados dos proprietários, desconsiderando o papel importante que os cães têm na sociedade. Além disso, eles são importantes animais de companhia de pessoas idosas, de crianças, de pessoas com deficiência. Matar cachorro não vai controlar o calazar. Vamos tratar isso seriamente. As pesquisas todas são praticamente unânimes: se existir algum efeito desse programa de eliminação de cães, ele é irrisório e totalmente insuficiente para o controle da doença. No caso de não sacrificar o animal, ele seria então tratado, teria que ter um cuidado especial? São poucas pessoas que querem tratar os cachorros. Na verdade, uma minoria dos proprietários tem essa preocupação. Quando o cão é de rua, o programa para prevenção inclui realmente o sacrifício. Isso está previsto na legislação pública e não está errado. O que está errado é você ir à casa das pessoas, fazer uma triagem, que é muito falha, tirar o cãozinho de casa, levar para o abate e sacrificar. Se as pessoas quiserem manter os seus cães limpinhos, usando coleira, ele não vai transmitir para ninguém, porque o inseto não vai picar. Se quiser dar um remedinho junto com o veterinário, dê o remédio junto com o veterinário. Não há problema nenhum

em fazer isso, desde que o ambiente esteja protegido da picada de inseto. O senhor disse que o teste para o calazar em cães não é tão seguro. Como é feita essa triagem? Tem muitas inexatidões. Nós temos uma avaliação de vários testes aqui em Teresina com a professora Ivete Mendonça no CCA – Centro de Ciências Agrárias [da Universidade Federal do Piauí] e esses testes têm o que nós chamamos de baixa sensibilidade e especificidade, de tal ordem que, quando a transmissão da doença é relativamente alta, como aqui em Teresina, o teste positivo pouco muda a chance de o cão ter a doença. De tal ordem, que quando um resultado é positivo num cão assintomático, a maior parte dos cães retirada é de cães sadios. Esse talvez seja o maior drama da retirada de cães assintomáticos, o erro inerente de tecnologia de identificação dos cães. Quais são os efeitos dos remédios no tratamento do cão? O cão responde mal, mas pode ser tratado e mantido vivo durante alguns anos. Inclusive tem uma equipe na Universidade [Federal do Piauí] que faz o tratamento dos cachorros. Na Europa, os cães são tratados sem nenhum problema legal. É importante se salientar que, quando um cão testa positivo para leishmaniose, isso quer dizer duas coisas: uma é que ele pode estar infectado, mas a outra é que também ele pode estar imune. Então, esse segmento de cães soro-positivos tem dois componentes: o dos cães que realmente estão infectados e podem representar algum risco, mas tem o outro de cães que são imunes, que são refratários da doença, que não são capazes de transmitir. Esses cães que são imunes têm um papel importantíssimo no que nós chamamos imunidade coletiva. Então, eu suspeito de que o fracasso da eliminação de cães reside exatamente em estar sistematicamente retirando os cãezinhos imunes da população. Deixam-se assim os cães jovens inteiramente suscetíveis à doença, o que reduz a imunidade coletiva e facilita a transmissão da doença. A que o senhor atribui a persistência do Brasil na cultura da eutanásia? O drama brasileiro é que as nossas políticas públicas não têm memória nem

experimentação. Nos países desenvolvidos, cada vez que uma nova política pública é instaurada, se faz isso segmentadamente com grupo controle, de modo que o efeito dessa medida possa ser avaliado no futuro. No Brasil, ou você acaba toda política de uma vez ou a mantém em todos os lugares do País, e não se aprende o que há de bom ou ruim com as políticas instauradas, nem se inova, substituindo-as por outras mais eficazes. Quais são as opções para os donos de cães diagnosticados com calazar de acordo com a legislação atual? Eles podem resistir a essa política de eliminação? Podem. Eles vão ser constrangidos, porque existem algumas portarias dentro do Ministério da Saúde de constranger as pessoas, mas o Supremo Tribunal Federal determinou que os proprietários [podem] tratar os seus cachorros quando o desejarem. O que o poder público pode fazer para inibir o avanço da doença? Seguramente, mais investimento em pesquisa é o melhor que podemos fazer. Nós estamos ainda no terreno do desconhecido, uma vez que hoje não tem nada muito eficaz que possa se fazer nesse momento, a não ser o tratamento, distribuição de remédios eficazes e o alerta para o diagnóstico da doença. Então, eu gosto sempre de realçar o papel do Brasil nos trópicos. As nossas doenças endêmicas são doenças tropicais essencialmente e, ao lado da Índia, o Brasil, hoje, é a nação tropical mais proeminente do ponto de vista científico e tecnológico. Ao lado de outras nações tropicais, como México, a Austrália, e outros, o Brasil pode fornecer contribuições importantes não só para o calazar, mas também para o controle de muitas outras doenças tropicais. Por ser um país tropical, o que se fizer bem feito aqui terá aplicação em todos os trópicos, que são os lugares mais pobres do mundo. O Brasil pode e deve lutar para ter essa liderança. Nesse sentido, o controle das doenças tropicais ou de outros aspectos peculiares dos trópicos deve ser absolutamente estratégico para o País. Investimento em ciência no Brasil é fundamental, particularmente na ciência dedicada às prioridades dos trópicos, entre elas, o calazar.

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ENTREVISTA

pessoas seria a procura imediata de uma unidade de saúde, no caso dos sintomas típicos, como febre, palidez, perda de peso e aumento do volume abdominal.


MATÉRIA

Por Mário David Melo

Fapepi financia pesquisa científica no Piauí há mais de 10 anos A Fundação já fomentou a qualificação de centenas de professores e apoiou milhares de projetos científicos Foto: Marcelo Cardoso

Fundação cria novos canais de divulgação científica

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apesar de ser elemento fundamental para a evolução da pesquisa científica e da inovação tecnológica no estado, a Fapepi, muitas vezes, passa despercebida por seus próprios pares, os pesquisadores. Para sanar tal situação e acompanhando a evolução tecnológica, a Fapepi tem desenvolvido novos canais de divulgação científica, objetivando estar mais presente no dia a dia dos piauienses. No último mês de abril, a fundação lançou o Fapepi Informa, boletim institucional que no primeiro número reapresenta a fundação e as expectativas para 2015. A matéria de abertura “desvenda” a Fapepi em conceito, missão, atuação e público-alvo. Informações básicas es-

tão disponíveis no site fapepi.pi.gov. br, para que o pesquisador compreenda o papel da instituição. O leitor encontra ainda o planejamento para execução de programas pela Fapepi no decorrer de 2015. Em 12 anos como a única agência de fomento à ciência, tecnologia e inovação do estado, a Fapepi promoveu outras realizações que auxiliaram pesquisadores, professores e estudantes de iniciação científica a desenvolverem projetos de pesquisa, assim como contribuiu na qualificação de recursos humanos do estado. São ações que alcançaram o objetivo de fazer a diferença na difusão do conhecimento para muitos piauienses.

Programas fomentados pela Fapepi nos últimos 10 anos PROGRAMA DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO DO PIAUÍ Visa promover o fomento à pesquisa científica em áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento científico e tecnológico do Estado do Piauí, assim como incentivar a criação de linhas de pesquisa de interesse do Governo do Estado nos cursos de pós-graduação stricto sensu através do auxílio a projetos de pesquisa com aporte financeiro do Tesouro Estadual. Desde 2003, vem

aplicando recursos em pesquisa, sendo que, de 2008 a 2010, financiou mais de 30 projetos de pesquisa. ACORDO DE COOPERAÇÃO TÉCNICO-FINANCEIRA SEDUC-PI/FAPEPI /AUXÍLIO PARA PROJETOS DE PESQUISA E EXTENSÃO Executado pela Fapepi em 2012, com o objetivo de apoiar a execução técnica de projetos de pesquisa e extensão, voltados ao desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem nas diversas áreas do conhecimento nas

escolas de Ensino Médio da Rede Estadual do Piauí dos municípios de Teresina e Parnaíba, a fim de elevar o nível de aprendizagem dos discentes e de propor metodologias de ensino alternativas para o desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem. O valor global de investimentos foi de R$ 224.000,00. PROGRAMA DE BOLSA DE PÓS-GRADUAÇÃO DA FAPEPI Instituído em 2008 com o objetivo de conceder bolsas de mestrado e de doutorado aos docentes do quadro efe-

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o longo de mais de duas décadas de existência, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (Fapepi) passou por muitas transformações. Em 2015, Francisco Guedes Alcoforado Filho assume como novo presidente da Fapepi. É o 11º desde Elmano de Almeida Férrer em 1994. Em 2003, 10 anos após a criação da fundação em 1993, a Fapepi passou a investir e captar recursos para pesquisa, tecnologia e inovação do Piauí. Além dos diversos programas de financiamento e qualificação profissional, lançou em 2004 a primeira publicação de divulgação científica do estado, a revista Sapiência. Mas,


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tivo da Universidade Estadual do Piauí – UESPI vinculados aos programas de pós-graduação stricto sensu fora do estado, visando contribuir com a qualificação do quadro de docentes efetivos da referida IES. Já foram beneficiados 76 profissionais, dos quais 56 são doutores e 20 são mestres. Em 2014, o programa manteve a concessão de 27 bolsas de doutorado e uma de mestrado, acumuladas de editais anteriores junto às daquele ano. Os investimentos passam de R$ 4.000.000,00 com recursos do Tesouro Estadual. PROGRAMA DE BOLSA DE PÓS-GRADUAÇÃO DA FAPEPI/SEDUC A primeira versão, implantada em 2007 com recursos da SEDUC, objetivou conceder três Bolsas de Apoio e Capacitação Técnico-Científica a mestrandos no intuito de incentivar a capacitação de professores e gestores efetivos na rede pública estadual de ensino. Já em 2009, a SEDUC concedeu bolsas de mestrado a alunos de programas de pós-graduação stricto sensu, visando melhorar o nível de qualificação dos recursos humanos da área de magistério da rede estadual de ensino do Piauí. BOLSA DE TÉCNICO DE APOIO À PESQUISA E/ OU DIFUSÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA Programa implantado em 2005, visando conceder bolsa de pesquisa na modalidade Bolsa de Técnico de Apoio à Pesquisa a fim de incentivar e apoiar o envolvimento de estudante, técnico ou pesquisador em atividades de transferência e/ou difusão científica e tecnológica, com aplica-

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ção imediata para o Estado do Piauí. Por meio desse programa, a Fapepi divulga suas ações através da revista Sapiência e oferta bolsas de apoio técnico de nível superior, destinadas aos profissionais de comunicação. PROGRAMA DE BOLSAS DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA JÚNIOR (PIBIC-JR) Programa implantado em 2003, com o objetivo de despertar vocação para os campos das ciências e as carreiras tecnológicas, incentivando talentos potenciais entre estudantes do ensino médio e profissionalizante da rede

De 2003 a 2013, a Fapepi concedeu mais de 1.200 bolsas de iniciação científica

pública de ensino do Piauí. De 2003 a 2013 a Fapepi concedeu mais de 1.200 bolsas de iniciação científica, beneficiando alunos da capital e de alguns municípios piauienses, onde as instituições de ensino e pesquisa já contam com núcleos de pesquisa científica e tecnológica. São alunos de Teresina, Pi-

cos, Bom Jesus, Parnaíba, São Raimundo Nonato, Uruçuí e Cocal dos Alves. PROJETO NÚCLEO INTERINSTITUCIONAL DE ESTUDOS E GERAÇÃO DE NOVAS TECNOLOGIAS PARA O FORTALECIMENTO DO ARRANJO PRODUTIVO LOCAL DO BABAÇU (GERATEC) Executado entre 2008 e 2014, desenvolvendo ações voltadas para o atendimento das demandas de inovação tecnológica das atividades da cadeia produtiva do babaçu no Estado do Piauí. Os recursos foram oriundos da FINEP, no valor de R$ 5.359.589,81, e contrapartida do Tesouro Estadual, de R$ 1.549.631,81. Para ampliar a comunicação entre pesquisadores e a fundação, assim como oferecer ao público piauiense um melhor acesso ao universo da pesquisa científica, a Fapepi conta agora com mais meios informativos. Além do site, notícias e informações da instituição podem ser encontradas na fanpage Fapepi PI na rede social Facebook, no twiiter @Fapepi_pi e no Google+ fapepi pi. Para quem gosta de rádio, a Fapepi criou o quadro de curiosidades científicas “Você Sabia?” e o “Minuto Fapepi Sapiência”, que apresenta aos ouvintes uma síntese de pesquisas realizadas no estado. Os quadros estão inseridos no programa Piauí Notícias da Agência Rádio CCOM da Coordenadoria de Comunicação Social do Piauí (CCOM) às terças e quintas-feiras. Por fim, sendo novamente pioneira na divulgação científica, a Fapepi lança um suplemento voltado para crianças, o Sapiência Jr., para despertar, desde cedo, o prazer de fazer ciência.


•Natália Silva Andrade1 •Isaac Torres dos Santos2 •Laynna Marina Santos Lima3 •Marcoeli da Silva Moura4 •Lúcia de Fátima Almeida de Deus Moura5 •Marina de Deus Moura de Lima6 1. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Odontologia da UFPI. E-mail: natalia642@gmail.com 2. Graduando do Curso de Odontologia da UFPI. E-mail: isaac_atwa@hotmail.com 3. Mestre em Odontologia pela Universidade Federal do Piauí – UFPI. E-mail:laynna_lima@hotmail.com 4. Professora do Programa de Pós-Graduação em Odontologia da UFPI. E-mail: marcoeli-moura@uol.com.br 5. Professora do Programa de Pós-Graduação em Odontologia da UFPI. E-mail: mouraiso@uol.com.br 6. Professora do Programa de Pós-Graduação em Odontologia da UFPI e coordenadora da linha de pesquisa CNPq Defeitos estruturais do esmalte dentário. E-mail: mdmlima@gmail.com

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efeitos de desenvolvimento de esmalte (DDE) caracterizam-se por alterações clinicamente visíveis na translucidez ou espessura do esmalte dentário, as quais são resultantes de danos ao órgão do esmalte durante a amelogênese (FDI, 1992; Jacobsen et al., 2014). A prevalência de DDE, relatada na literatura, varia de 10,0 a 88,5% (Casanova-Rosado et al., 2011; Ramesh et al., 2011). De acordo com o comprometimento da estrutura e seus aspectos macroscópicos, DDE podem ser classificados como defeitos qualitativos (opacidade difusa e opacidade demarcada) e/ ou quantitativos (hipoplasia de esmalte). As opacidades são decorrentes de alterações na mineralização, que levam a modificações na translucidez do esmalte. Nas opacidades demarcadas, podem-se observar defeitos com bordos definidos a partir do esmalte adjacente normal, variando em coloração. Nas opacidades difusas, não existe um limite claro entre o esmalte normal adjacente e o esmalte afetado. A hipoplasia é um defeito associado à redução da espessura do esmalte, como sulcos ou fóssulas (FDI, 1992). A etiologia dos DDE ainda não está elucidada. Entretanto, acredita-se que ocorram modificações na função dos ameloblastos por alterações das condições locais e sistêmicas

herdadas ou adquiridas (Vargas-Ferreira, Ardenghi, 2011; Salanitri, Seow, 2013; Corrêa-Faria et al., 2013). Esses defeitos de esmalte podem ter um impacto significativo sobre estética, sensibilidade dentária e função oclusal (Casanova-Rosado et al., 2011; Seow et al., 2011; Vargas-Ferreira, Ardenghi, 2011). A ocorrência de DDE também está associada ao risco aumentado da cárie dentária de progressão rápida, aos desgastes dentários e às dificuldades no tratamento odontológico no que diz respeito à adesão dos materiais odontológicos ao esmalte alterado, anestesia, ansiedade e medo odontológico. Diante de tal dilema, esforços devem ser dirigidos para que medidas preventivas frente aos DDE sejam adotadas, minimizando os danos causados por essa alteração (Kilpatrick et al., 2009; Hong et al., 2009; Salanitri, Seow, 2013; Robles et al., 2013). Assim, o grupo de pesquisa “Defeitos Estruturais do Esmalte Dentário” (CNPq/UFPI) tem desenvolvido estudos que objetivam traçar o perfil epidemiológico dos indivíduos com defeitos de desenvolvimento do esmalte. Com o objetivo de identificar a prevalência de DDE e cárie em pré-escolares de Teresina-PI, foi realizado estudo observacional transversal, que foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da UFPI com Parecer nº 817.193. Foram examina-

ARTIGO

Defeitos de desenvolvimento do esmalte das 566 crianças, com 5 anos de idade, matriculadas em creches públicas e privadas de Teresina-PI. O exame clínico intrabucal foi realizado por um único examinador (Kappa = 1,00 para DDE e 0,96 para cárie). Para o diagnóstico de cárie, utilizou-se o Índice ceo-d (OMS) e, para o diagnóstico do DDE, usou-se o Índice DDE Modificado (FDI). A análise estatística foi realizada através do programa SPSS®, versão 20.0 para Windows®. Testes Qui-quadrado de Pearson (²), Exato de Fisher e Regressão de Poisson, considerando o nível de significância α=5%. Foi observada prevalência de DDE de 33,7%. As opacidades demarcadas foram os defeitos mais comumente identificados (35,0%) nas crianças com DDE, seguido pelas opacidades difusas (34,2%) e hipoplasias (30,8%). Houve associação entre a presença de DDE e o tipo de escola (p=0,026). Crianças com DDE tiveram maior experiência de cárie (57,6%) que aquelas sem a alteração (46,4%) (p=0,012). A prevalência de cárie em crianças com DDE foi 30% maior do que em crianças sem DDE (RP = 1,3, IC95% 1,01-1,79). Os dentes decíduos mais comumente afetados pelos DDE foram os molares superiores e caninos inferiores. Esses são os resultados preliminares do projeto de pesquisa financiado pela FAPEPI (Edital PPSUS/FAPEPI 2013-2015).

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Bartira Araújo da Silva Viana

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Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente/UFPI. Doutora em Geografia/ UFMG. Professora Adjunta do Curso de Geografia do CCHL/UFPI/CMPP. bartira.araujo@ufpi.edu.br

Conflitos socioambientais associados à exploração de massará em Teresina-PI

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expansão acelerada da área urbana de Teresina deve-se ao crescimento natural associado aos elevados contingentes de imigrantes, os quais são oriundos tanto da zona rural quanto de outras cidades piauienses, além de estados como Maranhão, Ceará e outros. Esses imigrantes são atraídos pelo desenvolvimento e pela adoção de inovações tecnológicas e, principalmente, pelos serviços de educação e saúde oferecidos na capital piauiense (FAÇANHA, 1998). A grande expansão urbana das últimas décadas trouxe, como efeito colateral, o aumento da utilização do “massará” como matéria-prima em construções. Portanto, o crescimento populacional e o aumento das taxas de desenvolvimento urbano impõem a maior necessidade de consumo desse material presente em Teresina e em áreas de seu entorno. O massará é um termo regional conhecido apenas na região de Teresina, sendo que esta expressão serve para definir um sedimento conglomerático de cores e coloração variadas (creme, vinho, rosa, esbranquiçada, amarelada, arroxada e avermelhada), com matriz areno-argilosa, média a grosseira, e até conglomerático, ligante, de pouca consistência, facilmente desagregável (friável), contendo seixos brancos de sílica bem arredondados (CORREIA FILHO; MOITA, 1997).

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Detectou-se, na pesquisa, que a extração de massará e de seixos em Teresina tem gerado diversos danos ambientais, os quais estão bem visíveis na paisagem urbana, especialmente na direção dos vetores espaciais de crescimento Norte e Sul da cidade, assim como no vetor oeste, em Timon (MA). Os impactos positivos são de natureza socioeconômica e estão relacionados à geração de emprego e renda e ao abastecimento da cidade com materiais de baixo custo, essenciais para a construção civil. Os impactos negativos são representados por alterações ambientais, como a poluição do ar e das águas, as vibrações e ruídos, impactos visuais e o desconforto ambiental. Também são gerados conflitos devido ao uso irregular do solo, à depreciação de imóveis circunvizinhos, à geração de áreas degradadas, à contribuição para processos erosivos, escorregamentos e queda de blocos das encostas dos morros, além dos transtornos causados ao tráfego urbano. Dessa forma, os impactos da mineração estão relacionados ao alto grau de ocupação urbana, que são agravados em face da proximidade entre as áreas mineradas e as áreas habitadas. Tais impactos são decorrentes da ineficiência do poder público, enquanto normatizador, fiscalizador e gestor das questões ambientais e legais relacionadas ao uso e ocupação do solo urbano.

Por essa razão, a possibilidade de exploração mineral na capital piauiense está sendo cada vez mais limitada, devido a uma extração desordenada e predatória desses recursos naturais e, também, em decorrência da expansão horizontal da cidade, ou seja, pela construção de grandes conjuntos habitacionais pelo poder público ou empreendimentos privados, como os condomínios fechados de luxo. Também contribui para essa degradação a construção, por meio de ocupações irregulares de vilas ou favelas, e demais formas de uso e ocupação do solo, tornando aleatórias as perspectivas de garantia de suprimento futuro e inviabilizando a manutenção de uma atividade mineral sustentável. Este artigo compõe parte dos resultados da tese de doutorado apresentada em 2013, na UFMG, sendo que um dos objetivos do trabalho foi caracterizar os conflitos socioambientais associados à atividade mineral de massará. Agradecemos ao Programa de Pós-Graduação em Geografia do IGC/UFMG/Projeto de Doutorado Interinstitucional (DINTER-UFPI/UFMG), à minha orientadora, a Prof. Drª. Cristiane Valéria de Oliveira, ao senhor Walter Brito (geólogo da CTDN) e aos demais colaboradores da pesquisa.


Maria Acelina Martins de Carvalho

Animais não convencionais são utilizados como fonte de obtenção e cultivo de células-tronco no Piauí

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s pesquisas com células-tronco têm avançado em termos nacional e mundial e já são uma realidade terapêutica em diversas doenças degenerativas e crônicas sem resposta aos tratamentos convencionais. Dentre as células utilizadas em terapias, as células-tronco de tecidos adultos (CTA) têm sido consideradas uma alternativa em relação às células-tronco embrionárias (CTE), pois apresentam vantagens significativas, como a facilidade de obtenção e a ausência de problemas éticos associados. As células-tronco possuem potencial de diferenciação e imunomodulação, com capacidade para repor ou reconstituir tecidos danificados. A dificuldade de caracterizar o comportamento in vitro das células-tronco demonstra a necessidade de estabelecer modelos animais que simulem as doenças ocorridas em humanos e permitam a avaliação do comportamento celular no nicho tecidual para o qual foi transplantado. A adequação desses modelos animais para o estudo da terapia celular constitui um desafio em nível mundial. É crescente o interesse em pesquisas com animais silvestres devido à sua ampla distribuição no território nacional e à necessidade de estabelecer políticas públicas do uso racional desses animais em pesquisa e produção, contribuindo para a sua preservação. Pesquisadores do grupo multidisciplinar “Núcleo Integrado de Pesquisa em Células-Tronco”, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), vêm utilizando a cutia (Dasyprocta prymnolopha) e o cateto (Tayassu tajacu) criados no Núcleo de Estudos e Preservação de Animais Silvestres – NEPAS (Registro IBAMA/PI N° 02/08-618) em suas pesquisas, sendo pionei-

ros no Estado do Piauí, no isolamento, cultivo e caracterização das células-tronco dessas duas espécies animais não convencionais, bem como na sua utilização como modelos experimentais em terapia celular. O Laboratório de Cultivo de Células-Tronco (LABCelt/CCA) e o Centro de Estudos Pré-Clínicos (CEPREC/CCA) vêm desenvolvendo inúmeras pesquisas no campo das células-tronco e da criação de modelos animais para o desenvolvimento de estudos relacionados à biologia celular e à medicina regenerativa. A cutia (Dasyprocta prymnolopha), roedor, vem sendo estudada nos seus aspectos morfológicos, fisiológicos, reprodutivos e hematológicos. Esses dados auxiliam na caracterização desse animal como modelo biológico, além do seu pequeno porte, prolificidade e docilidade, o que facilita seu manejo e diminui os gastos associados com sua manutenção. Foram realizados experimentos na cutia, sobre terapia com células mononucleares da medula óssea isoladas, na lesão renal induzida e o modelo animal gerado apresentou características de lesão renal similares às encontradas em seres humanos. Ademais, foram descritos morfologicamente os progenitores que compõem as células mononucleares em diferentes estágios de progenitores hematopoiéticos e o comportamento de progenitores indiferenciados plásticos aderentes que se mantiveram em cultura por diversas passagens. O cateto (Tayassu tajacu) é um tayassuídeo, encontrado na América do Norte, Central e do Sul, que apresenta proximidade filogenética com o suíno, um potencial modelo animal para pesquisas aplicadas a humanos, em virtude da similaridade das caracterís-

ticas anatômicas, fisiológicas e nutricionais do suíno com o humano. As células-tronco mesenquimais da medula óssea do tecido adiposo de catetos foram previamente isoladas em experimentos realizados no Laboratório de Cultivo de Células- Tronco (LABCelt/CCA) da UFPI, no Estado do Piauí. Além disso, o cateto foi utilizado como modelo animal para doença renal, tendo sido apontado como um modelo bastante promissor para os estudos com medicina regenerativa, em especial com células-tronco. Considerando a grande importância do uso de animais na pesquisa científica e a necessidade pela busca de modelos biológicos adequados, o uso da cutia, animal com rusticidade, docilidade e de tamanho aproximado ao coelho, apresenta-se como boa alternativa aos cobaios tradicionais, assim como o cateto, como alternativa mais barata e de maior rusticidade quando comparados aos suínos domésticos. Demais estudos são diretamente relacionados ao isolamento e à constituição de um banco de células-tronco: o isolamento das células-tronco da medula óssea de catetos (Tayassu tajacu), visando à terapia celular em um modelo de lesão renal isquêmica que vem sendo desenvolvido nesse laboratório; o isolamento e caracterização por meio da diferenciação e citometria de fluxo das células-tronco da medula óssea e da polpa dentária de cutia para futuras terapias. Esses estudos da biologia celular dessas espécies, associados às pesquisas correntes com os modelos animais de lesões renais e ósseas que vêm sendo desenvolvidas, além de inovadores e promissores, norteiam o futuro da pesquisa com células-tronco com animais silvestres.

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ARTIGO

Doutora em Anatomia dos Animais Domésticos e Silvestres - USP Professora Associada da Universidade Federal do Piauí – Centro de Ciências Agrárias Coordenadora do Núcleo Integrado de Morfologia de Pesquisa com Células-Tronco-UFPI Pesquisadora do CNPq mcelina@ufpi.edu.br


Por Mário David Melo

DOSSIÊ

Fapepi capta recursos estaduais e federais para núcleos de excelência do Piauí Estado firmou quatro convênios em 2012 e projetos devem ser concluídos em 2016

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pesquisa científica é a base para a produção do conhecimento, sendo desenvolvida em todas as áreas de estudo e em vários níveis, desde iniciações científicas a teses de doutorado. Do ponto de vista das agências de fomento à pesquisa, tecnologia e inovação, a diferença entre grupos baseia-se nos tipos de programas de apoio oferecidos. É o caso do Programa de Apoio a Núcleo de Excelência (Pronex), voltado para grupos de alta competência no setor de sua atuação. Núcleos de Excelência são grupos de pesquisadores e técnicos de alto nível, com reconhecida capacidade de produção técnico-científica em suas áreas de pesquisa, capazes de funcionar como fontes de geração e transformação do conhecimento em programas e projetos relevantes ao desenvolvimento do país. O Pronex determina que os principais pesquisadores do Núcleo pertençam aos níveis 1 e 2 ou tenham perfil equivalente na classificação do Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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O Pronex tem como objetivos: •Promover a integração de fomento à pesquisa entre agências federais, órgãos estaduais e municipais, assim como, quando necessário, buscar desenvolver ações comuns e complementares junto ao setor produtivo; •Promover o uso descentralizado e flexível das verbas; •Incentivar a formação de recursos humanos de alta qualificação com projetos direcionados às deficiências e prioridades do desenvolvimento no país; •Recuperar de forma dinâmica equipamentos e infraestrutura; •Distribuir recursos aos núcleos de excelência nos estados brasileiros; •Criar e aplicar mecanismos adequados de avaliação e controle de desempenho; •Catalisar e desenvolver núcleos emergentes. Essas informações podem ser obtidas em http://www.memoria.cnpq. br. Também estão disponíveis no site os itens financiáveis, o histórico de criação que data de 1996 e a legislação vigente, além de dados de editais

passados com o número de projetos e recursos investidos. Há uma aparente desatualização, já que as informações legislativas datam até a Portaria MCT nº 538 de 24/08/2006 e a atuação do Pronex refere-se apenas aos editais de 1996, 1997, 1998, 2003 e 2004. Entretanto, o site informa que a partir de 2003, por decisão do conselho deliberativo, o Pronex passou a ser executado em parceria com as entidades estaduais de fomento à pesquisa. É o que explica o analista sênior de ciência e tecnologia do CNPq, Dácio Renaut: “Aparecem no site apenas os editais que foram lançados diretamente pelo CNPq. Em 2003, o modelo de execução do Pronex foi alterado, passando a ser implementado em parceria com as FAPs (Fundações de Amparo à Pesquisa dos estados) por intermédio de convênios na forma de transferências voluntárias da União para os Estados. O lançamento dos editais passou a ser uma tarefa das FAPs, ficando a cargo do CNPq a análise e aprovação do conteúdo dos editais, o acompanhamento e a fiscalização da execução dos convênios”. Sobre a parte legislativa do programa, Dácio afirma que “não foi publicada nova portaria


federais aos recursos estaduais investidos no mesmo programa. Essa parceria, além de aumentar os recursos disponíveis para a execução do programa, trouxe como possibilidade o lançamento de chamadas públicas, contemplando as prioridades de cada estado e auxiliando no fortalecimento das políticas estaduais de ciência, tecnologia e inovação. O Pronex, na forma como é operacionalizado atualmente, está alinhado às linhas estratégicas do CNPq em favorecer parcerias para a execução de projetos de interesse comum, podendo ser considerado uma iniciativa de muito sucesso”, finaliza Dácio Renaut. Em 2012, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Piauí (Fapepi) implantou quatro convênios com o Pronex no estado, válidos até 2017. Os in-

vestimentos somam R$ 800.000,00, sendo R$ 600.000,00 oriundos do CNPq e R$ 200.000,00 a contrapartida do Governo do Estado. Os projetos contemplados são: “Planos diretores e sustentabilidade em municípios piauienses: análise dos instrumentos e intervenções locais”, da Professora Doutora Antônia Jesuíta de Lima; “Produtos alternativos e nutrientes funcionais para frangos de corte em condições naturais de estresse por calor”, do Professor Doutor João Batista Lopes; “Análise pré-clinicas para atendimento da demanda do setor farmacêutico por novos bioprodutos”, do Professor Doutor Rivelilson Mendes de Freitas e “Biodiversidade de solo e plantas no Parque Nacional de Sete Cidades, PI”, do Professor Doutor Ademir Sérgio Ferreiro de Araújo.

Entenda a Bolsa de Produtividade em Pesquisa (PQ) do CNPq Para ser contemplado pela PQ, o pesquisador precisa preencher os seguintes requisitos e critérios: possuir doutorado ou perfil equivalente; ser brasileiro, ou estrangeiro com situação regular; ter dedicação constante às atividades relacionadas à temática da bolsa e manter atividades acadêmico-científicas junto às instituições de pesquisa e ensino, mesmo quando aposentado. Além disso, para enquadrar-se na categoria 1 (níveis A, B, C e D), o pesquisador deve ter no mínimo oito anos de doutorado por ocasião de implementação da bolsa. Para a categoria 2, a exigência é o mínimo de três anos como doutor por ocasião de implementação da bolsa. A diferença entre os níveis da categoria 1 está na base comparativa dos últimos 10 anos entre os pesquisadores que demonstrarem maior capacidade de formação contínua de recursos humanos. Já para a categoria 2, será avaliada a produtividade do pesquisador, em especial os trabalhos publicados e orientações referentes aos últimos cinco anos. As PQs podem durar até 48 meses e concedem ao selecionado uma série de benefícios.

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de composição do Comitê de Coordenação do Pronex nos moldes da PO MCT nº 538 e nenhuma modificação no Decreto nº 1.857 de 10/04/1996 que criou o Pronex”. Com quase duas décadas de existência, o Pronex firmou, nas edições de 2008 e 2010, 27 convênios no valor global de R$ 273.275.500,00, sendo R$ 174.847.000,00 de responsabilidade do CNPq e R$ 95.585.500,00 de contrapartida das FAPs. O edital mais recente de 2013 contemplou 18 convênios com recursos de R$ 132.801.666,67, sendo R$ 78.890.000,00 em repasses do CNPq e R$ 53.911.666,67 a contrapartida das FAPs. “A alteração da execução do Pronex permitiu que o volume de recursos aplicados fosse significativamente ampliado, ao unir os recursos


DOSSIÊ

Por Mário David Melo

Pesquisa busca alternativas para criação de frangos de corte em ambiente de elevadas temperaturas Foto: arquivo UFPI

Pesquisa é realizada em ambientes com controle de temperatura

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avicultura no Brasil é responsável por empregar mais de 3,6 milhões de pessoas direta e indiretamente. O setor, que responde por quase 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, possui dezenas de milhares de produtores integrados, centenas de empresas beneficiadoras e dezenas de empresas de exportação. Além disso, em muitas cidades, a produção de frangos é a principal atividade econômica. Em 2011, o Brasil foi considerado um

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dos três maiores produtores mundiais junto com Estados Unidos e China após atingir a produção histórica de 13,058 milhões de toneladas de carne de frango. As informações são da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). No Piauí, o Professor Doutor João Batista Lopes coordena uma equipe de pesquisa que investiga e busca soluções para melhoria no desempenho produtivo de frangos de corte, em situações de altas temperaturas, condição dominante no estado, principalmente em

Teresina. O projeto faz parte do Programa de Apoio a Núcleo de Excelência (Pronex), com edital lançado em 2011 pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (Fapepi). É importante ressaltar que apesar dos programas de melhoramento genético estarem propiciando grandes avanços para a produção avícola, no entanto, as condições de umidade e o calor excessivo têm interferido no potencial imunitário das aves, bem como no desempenho zootécnico. Assim, nos pe-


Como resultados obtidos até o momento, desde o início do projeto em 2012, o professor João Batista explica que, “nas pesquisas envolvendo minerais e vitaminas, tem-se encontrado resultados diversos, em função da época de execução. Por exemplo, no estudo com suplementação de selênio na forma orgânica com frangos de corte no período de 22 a 42 dias de idade, constatou-se que houve melhoria na conversão alimentar (quantidade de ração para produzir 1 kg de peso vivo) até o nível 0,36 mg/kg de ração. Também, percebeu-se que a suplementação com o nível de 0,3 mg/kg de inclusão de selênio melhora a viabilidade criatória de frangos de corte nas fases de 22 a 33 e de 22 a 42 dias. Na fase de 1 a 21 dias de idade, a associação de 0,2 e 0,4 mg de selênio orgânico, respectivamente, com 400 e 300mg de vitamina E/kg de ração, proporcionam melhores valores na conversão alimentar. O fornecimento de dietas contendo 0,4 mg de selênio orgânico/kg de ração melhora o rendimento de carcaça das aves aos 21 dias de idade, quando suplementadas com até 411,54 mg/kg de vitamina E/kg de ração. Com relação ao zinco, na fase de 1 a 21 dias, os níveis de zinco orgânico suplementar não interferem no desempenho de corte de frangos de corte, no entanto, o uso de 47,33 mg zinco orgânico/kg de ração melhora o rendimento de carcaça e 75 mg/kg, o peso relativo do pâncreas, órgão metabolicamente ativo”. Ainda segundo João Batista, ao final da pesquisa “tem-se a expectativa de que se possa definir o nível ideal dos minerais estudados, a partir dos dados de desempenho, das características da carcaça e dos principais cortes, bem como dos parâmetros bioquímicos e do estudo da morfologia intestinal dos animais, nas condições dominantes no nosso clima, de modo que se torne disponível um produto de qualidade e

Foto: arquivo UFPI

DOSSIÊ

ríodos de altas temperaturas ambiente, ocorre redução no consumo de alimento pelos animais, o que acarreta danos ao sistema produtivo, visto que a energia que seria destinada para produção é desviada para desenvolver mecanismos fisiológicos compensatórios. Intitulado “Produtos alternativos e nutrientes funcionais para frangos de corte em condições naturais de estresse por calor”, o trabalho tem por objetivo geral avaliar a utilização do grão integral e semi-integral processado e coprodutos da soja, assim como da levedura da cana-de-açúcar associada a enzimas exógenas (xilanases e proteases), que facilitam a digestão e a absorção de nutrientes. Também, os pesquisadores buscam estudar o efeito de níveis de selênio, de zinco e de vitamina E, isolados ou associados, utilizados em dietas de frangos de corte, sobre o metabolismo dos nutrientes, desempenho, rendimento de carcaça e dos principais cortes e órgãos metabolicamente ativos. São observados ainda a histomorfometria intestinal, os parâmetros fisiológicos e a incorporação de nutrientes. Todos os dados são coletados nos períodos de 1 a 21 dias e de 22 a 42 dias de idade, em ambientes com elevada temperatura. A escolha por pesquisar novas fontes de alimento para os frangos deve-se às recentes inflações das commodities (mercadorias agrícolas e minerais) em rações tradicionais a base de milho e farelo de soja, o que interfere diretamente na produção e no preço praticado no país. Os minerais, objeto do estudo, apresentam propriedades capazes de reduzir os efeitos negativos do estresse por calor. O selênio e a vitamina E têm efeito antioxidante e constituem importantes componentes que atuam no sistema imunológico. Já o zinco, além da propriedade antioxidante, tem papel fundamental nos processos metabólicos necessários ao crescimento e à vida.

Frangos recebem alimentação diferenciada

com possível redução nos custos, principalmente com o uso racional desses minerais”. Por meio do Pronex, o grupo já produziu nove dissertações de mestrado e três teses de doutorado. No momento, mais três teses estão andamento. Além disso, já foram publicados seis artigos científicos e outros dez estão em processo final de elaboração ou tramitando nos periódicos. São publicações nacionais e internacionais como Acta Scientiarum, Animal Science, Revista Brasileira de Ciência Avícola, Revista Brasileira de Saúde e Produção Animal, Revista de Ciências Agrárias de Lisboa, dentre outras. O professor João Batista ressalta a importância da Fapepi na obtenção desses resultados. “Os recursos da Fapepi têm sido a garantia para realização dos trabalhos de pesquisa que têm culminado na realização das dissertações e teses da área de nutrição de não ruminantes e, ao mesmo tempo, disponibilizando informações para o meio científico via publicações dos resultados”, destaca.

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DOSSIÊ

Por Afonso Rodrigues

Núcleo de análises pré-clínicas contribui para a inovação no setor farmacêutico local

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a descoberta de um novo produto farmacêutico até a sua colocação no mercado existe um longo caminho marcado por pesquisas científicas e testes laboratoriais. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), autarquia responsável pela regulação do setor no Brasil, exige estudos pré-clínicos, realizados no estágio que antecede aos testes com humanos, e clínicos, aqueles desenvolvidos em humanos e que atestem a segurança, eficácia e qualidade do medicamento para que seu registro seja aprovado. No Piauí, estado com potencial para a produção de novos fármacos devido a sua diversidade botânica, o núcleo de excelência em Farmácia e Biologia “Farbio” possui a infraestrutura necessária para executar essas análises pré-clínicas, indispensáveis para se avançar ao estágio clínico do desenvolvimento de um novo medicamento. A consolidação do núcleo foi possível com a aprovação do projeto “Análises pré-clínicas para atendimento da demanda do setor farmacêutico por novos bioprodutos”, pelo Edital Fapepi/ MCT/CNPq nº 006/2012 do Pronex. Segundo o coordenador do Farbio, o professor doutor em Farmacologia Rivelilson Mendes Freitas, bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq – Nível 2, o núcleo “se propõe a atender às demandas das indústrias farmacêuticas nacionais no que se refere aos estudos nas áreas de toxicologia em roedores e não roedores, farmacodinâmica e farmacologia de segurança, possibilitando o aproveitamento de doutores formados no Brasil nos últimos anos, contribuindo diretamente para a capacitação do estado do Piauí em medicamentos”.

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Um dos objetivos do projeto aprovado era possibilitar o desenvolvimento das análises pré-clínicas em laboratórios piauienses para que a produção de novos fármacos não precisasse mais ser finalizada fora. De acordo com o professor Rivelilson, essa meta já foi alcançada. Grande parte dos experimentos está sendo desenvolvida no Laboratório de Pesquisa em Neuroquímica Experimental (LAPNEX), do Núcleo de Tecnologia Farmacêutica (NTF) da Universidade Federal do Piauí (UFPI), ambiente equipado não só para a realização dos testes, como também para a formação de recursos humanos nas áreas de tecnologia farmacêutica, química, farmacologia e análises toxicológicas. Esses dois fatores aliados, infraestrutura laboratorial e recursos humanos qualificados, presentes no núcleo Farbio, fortalecem o desenvolvimento de novos bioprodutos no estado e a obtenção de tecnologias inovadoras no setor farmacêutico, que devem se transformar em patentes para atendimento da saúde humana e animal. “O foco dos fármacos está nas avaliações farmacêuticas e toxicológicas sobre o sistema reprodutor, desenvolvimento embriofetal e pós-natal; análises farmacológicas sobre mutagênese e carcinogênese; pesquisa de atividades anti-inflamatória, analgésica, gastroprotetora e ação cicatrizante de fármacos e produtos naturais de uso tópico; fitoterápicos na dor; atividade antiparasitária, neurotoxicidade, cardiotoxidade, hepatoxicidade, nefrotoxicidade, psicofarmacologia – atividades antidepressivas, anticonvulsionais e ansiolíticas”, destaca Rivelilson Mendes. Como declara o professor, os resultados obtidos até agora são positivos:

Foto: arquivo pessoal

O coordenador do Núcleo Farbio, Prof. Dr. Rivelilson Mendes de Freitas

“diversos bioprodutos foram avaliados e exibiram vários efeitos terapêuticos que deram origem a diversos artigos publicados e patentes depositadas”. O núcleo Farbio é organizado de forma multidisciplinar e interinstitucional. Além da UFPI, que é a instituição executora, participam do projeto a Universidade Federal de Sergipe (UFS), a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual do Ceará (UECE), a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e o Instituto Butantã. O Piauí é representado pelo Instituto Federal do Piauí (IFPI) e os campi da UFPI Senador Helvídio Nunes de Barros, de Picos; Ministro Petrônio Portela, de Teresina; e o Campus Universitário de Parnaíba.


Por Allan Campêlo

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oradores do solo, seres minúsculos, microscópicos e extremamente importantes para a conservação e equilíbrio natural de determinadas localidades. Quando caminhamos por uma área conservada ou um parque ambiental, percebemos a vegetação, a cor, o cheiro e as frutas que nos passam a sensação de contato direto com a natureza. Mas praticamente tudo o que se pode sentir em lugares com essa característica vem de algo que não podemos enxergar a olho nu, pequenas formas de vida presentes no solo. Não existiria palavra melhor para definir este conceito de inter-relações do que “biodiversidade”, e foi no sentido de entender esses processos que o professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e doutor em Ecologia de Agroecossistemas, Ademir Sérgio, está desenvolvendo, desde 2013, a pesquisa Biodiversidade de solo e plantas no Parque Nacional de Sete Cidades (PN7C). O PN7C fica localizado nos municípios de Piracuruca e Brasileira, em uma área de 6.221,48 hectares. Como uma unidade de conservação brasileira, é atualmente administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação de Biodiversidade (ICMbio). Conhecido pela beleza das grandiosas pedras esculpidas pela natureza e as pinturas rupestres de até seis mil anos, o parque é objeto de vários estudos históricos que tentam definir quem seria o povo que primeiro o habitou, porém, bem antes dos humanos a vida já se fazia presente em Sete Cidades, constituindo um complexo sistema de cooperação e enriquecimento do solo que perdura até hoje. Imagine um impacto ambiental, uma mudança climática, uma queda

na qualidade do solo. Acontecimentos como esses podem ser previstos pelo comportamento de microrganismos, e é reconhecendo a importância destes seres que, através de um longo trabalho de investigação a partir do sequenciamento do DNA retirado do solo do PN7C, a pesquisa coordenada pelo professor Ademir Sérgio busca conhecer melhor como as interações entre os grupos ta-

Em áreas de grande variabilidade de vegetação, a ocorrência da atividade microbiana é maior

xonômicos de microrganismos podem estar contribuindo de forma direta com a diversidade de plantas no parque. “Os benefícios do projeto vão desde o conhecimento da biodiversidade microbiana para fins de preservação até a prospecção de genes.”, destaca o pesquisador. Com a coleta do DNA feita e a primeira análise realizada, foi possível constatar que, em áreas de grande variabilidade de vegetação, a ocorrência

DOSSIÊ

Estudo identifica biodiversidade no solo do Parque Nacional de Sete Cidades da atividade microbiana é maior. Entre os grupos taxonômicos encontrados estão Acari, Araceae, Colembola, Coleoptera, Diplopoda, Diptera, Formicidae e Homoptera. Segundo o professor Ademir, “os resultados confirmam que há um supercentro de diversidade microbiana e uma alta beta diversidade, ou seja, as comunidades microbianas apresentam mudanças seguindo um gradiente fisionômico nas áreas do Parque Nacional de Sete Cidades”. Contemplado pelo Pronex, o projeto é desenvolvido com a participação de vários pesquisadores através de uma parceria entre a UFPI, a Universidade Federal do Ceará (UFC), a Universidade de São Paulo (USP) e a University of California Davis (UCDavis), instituição norte-americana de ensino superior que está entre as 100 melhores universidades do mundo, de acordo com o respeitado ranking de produção acadêmica, Times Higher Education. “Esta parceria teve início em 2014 quando estive em evento técnico com o grupo de pesquisa da diretora do Instituto de Agricultura Sustentável da UC Davis, Dra. Kate Scow, e traçamos todas as estratégias para colaboração no projeto. Evento este que teve o apoio da Fapepi com recursos do Pronex. Além disso, estamos implementando propostas para envio de estudantes de doutorado para realizarem estágio sanduíche na UC Davis.”, ressalta o professor Ademir Sérgio, que se encontra nos Estados Unidos para a realização da análise do material coletado no Piauí. Com os resultados da pesquisa sendo obtidos, a equipe se prepara para divulgação das conclusões em revistas internacionais.

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Foto: acervo pessoal

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Por Allan Campêlo

Professora Antonia Jesuíta (primeira da direita para esquerda) e parte da equipe de pesquisadores do projeto

O impacto do Plano Diretor em municípios piauienses

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m 2001, o Estatuto da Cidade trouxe a obrigatoriedade da construção de um roteiro programático de administração municipal, denominado Plano Diretor, com o objetivo de identificar

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e implementar ações planejadas em benefício do desenvolvimento dos municípios brasileiros. E foi reconhecendo esta ferramenta como fundamental para a elaboração de políticas públicas municipais, que a

professora da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e doutora pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC - SP), Antônia Jesuíta de Lima, vem desenvolvendo de forma interprofissional e interinstitu-


DOSSIÊ

A materialização dos projetos contidos nos planos diretores depende da correlação de forças da sociedade com o Estado

cional a pesquisa “Planos diretores e sustentabilidade em municípios piauienses: análise dos instrumentos e intervenções locais”, que pretende investigar o impacto da implementação do Plano Diretor em 21 municípios de nosso estado. A lei 10.257 de 10 de julho de 2001 especifica o Plano Diretor como “instrumento básico da política de desenvolvimento e expansão urbana”, caracterizando-se como parte integrante e obrigatória do planejamento administrativo de municípios com mais de 20.000 habitantes ou que façam parte de regiões metropolitanas e, também, os que se constituem como área de interesse turístico e de empreendimentos. Observando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a equipe da professora Antonia Jesuíta identificou inicialmente 37 municípios piauienses que pareciam se adequar aos critérios citados, mas no curso da pesquisa foi possível perceber que nem todos tinham cumprido as exigências legais.

“Lamentavelmente, apesar de ser uma obrigatoriedade, dos 37 municípios iniciais que escolhemos, 16 ainda não tinham elaborado seus planos diretores. Então, reduzimos o nosso universo de pesquisa para 21 cidades”, ressalta a pesquisadora. Com a delimitação do trabalho realizada, os municípios que hoje fazem parte da análise, são: Altos, Batalha, Beneditinos, Campo Maior, Canto do Buriti, Corrente, Esperantina, Floriano, José de Freitas, Lagoa Alegre, Lagoa do Piauí, Luís Correia, Miguel Alves, Monsenhor Gil, Parnaíba, Pedro II, Picos, Piracuruca, Piripiri, Teresina e União. A coleta de dados junto aos municípios tem se mostrado como um dos obstáculos da pesquisa. Segundo a professora Jesuíta, “na maioria dos casos, os municípios não têm acervo documental, e a legislação, se existe, está dispersa, demandando maior tempo para localizá-la”. Entretanto, em uma análise preliminar dos planos, foi possível identificar a ausência de particularidades locais inscritas nas propostas.

“Inicialmente, o que encontramos foi uma semelhança muito grande entre os planos de cada município, o que parece ser uma padronização. Podemos observar a ausência de singularidades, especificidades das cidades.”, destaca a pesquisadora. Ainda neste ano, a equipe finaliza a análise dos Planos e se prepara para redigir o diagnóstico referente à implantação dos instrumentos de desenvolvimento municipal. Mesmo com a obrigatoriedade legal e a magnitude de um instrumento de desenvolvimento de políticas públicas como o Plano Diretor, a professora Antônia Jesuíta chama a atenção para a importância da participação da sociedade como fator decisivo no desenvolvimento de projetos desta natureza: “A materialização dos projetos contidos nos planos diretores depende da correlação de forças da sociedade com o Estado. Como qualquer lei, ela só se operacionaliza por mobilização permanente e exigências da sociedade, quando esta se apropria dessa lei e pressiona as autoridades públicas a executá-la”.

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Por Afonso Rodrigues

Piauiense é primeiro lugar em seleção do Ministério da Educação da França Rômulo Mendes pretende mostrar a cultura do Estado para os franceses Se você está visitando alguma cidade e escuta expressões como “bonito pra chover”, “b-r-o-bró” ou “siribolo”, já sabe que é grande a chance de algum piauiense estar por perto. A língua reflete a expressão cultural de um povo, funcionando como fator de identidade. Justamente por isso, o ensino de uma língua deve ir além das regras gramaticais e passar também pela abordagem cultural, situando-a em um contexto. Com o objetivo de estimular a mobilidade estudantil e levar para suas escolas a autenticidade da língua portuguesa e a riqueza de nossa cultura, o Ministério da Educação da França seleciona anualmente estudantes brasileiros de 20 a 30 anos de idade, matriculados em licenciatura em letras ou outro curso na área das ciências humanas e com bom conhecimento da língua francesa, para participar do Programme D’Échange D’Assistants de Langue Vivante (Programa de Intercâmbio Assistentes de Língua Estrangeira na França). Lá, os assistentes têm como atribuição apoiar o professor de língua em estabelecimentos escolares por um período de sete meses. E, em 2015, um piauiense está entre os selecionados para o programa. Rômulo Silvestre Quaresma Mendes, estudante do Curso de Letras Francês da Universidade Federal do Piauí (UFPI), conquistou o primeiro lugar na seletiva nacional. A seleção de que Rômulo participou teve três etapas. A primeira foi a análise de currículo. Nessa fase, o can-

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didato deveria entregar um dossiê para análise, contendo informações como carta de motivação, ficha médica, perfil pessoal e profissional, seu nível na língua francesa e indicação da cidade em que gostaria de atuar na França. Entregues os documentos, os candidatos passaram por uma entrevista, por telefone ou presencial, nas seções regionais do consulado da França no Brasil. A segunda etapa foi a classificação nacional, divulgada em 19 de janeiro. Por fim, no dia 24 de março, aconteceu a última etapa, a nomeação, quando foi divulgada a quantidade de vagas para este ano e a região do país em que cada selecionado vai trabalhar. Rômulo vai atuar em Bordeaux, cidade localizada no sudoeste da França. Essa não foi a primeira vez que Rômulo tentou participar do programa de intercâmbio francês. Em dezembro de 2013, o jovem fez a sua inscrição, mas não conseguiu passar da primeira etapa. Segundo ele, os representantes da Embaixada alegaram a falta de experiência como motivo determinante, mas recomendaram que ele tentasse novamente no ano seguinte. E assim ele fez. Buscando se aperfeiçoar na língua e ganhar bagagem, Rômulo foi a Paris, em agosto de 2014, para um estágio linguístico de duas semanas, o Art Vision Paris, curso de língua francesa destinado a estudantes de diversos países, em que os participantes são estimulados a desenvolver um novo olhar sobre os monumentos da cidade luz.

Além da viagem, o piauiense procurou se envolver mais com a universidade. “Eu fui me envolvendo, participando da vida na universidade, com projetos, bolsas... Eu acho que o que me levou mais foi o fato de já ter ido a Paris no ano passado, já estar perto de terminar o curso”, analisa o estudante, que está no último semestre do seu curso. Rômulo está se preparando para levar as culturas brasileira e piauiense para os franceses. Na sua ida a Paris, ele observou algumas inexatidões quando o assunto era o Brasil, como o pensamento de que a capital do país é o Rio de Janeiro. Pensando nisso e na importância que a cultura confere à dinamicidade da língua, ele está montando um acervo cultural para apresentar durante as aulas de português. Ele vai levar mapas, guias turísticos, material didático sobre as diferenças regionais do Brasil e livros. “Eu pretendo fazer uns vídeos com o pessoal aqui da Universidade se apresentando e, ainda, ir a alguns lugares da cidade para fotografar, fazer alguns vídeos e sair explicando o que é, isso é chamado de documento autêntico. É isso que eu pretendo fazer até lá”, explica. Do Piauí, Rômulo quer levar ainda a literatura de cordel, gênero literário tipicamente nordestino. A história de Rômulo com a língua francesa vem desde pequeno. Ainda criança, um livro de francês que a mãe utilizava em um curso despertou seu interesse. “Na época, minha mãe tinha feito um curso e eu perguntava se ela


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Crédito: Marcelo Cardoso

Rômulo cursa o último semestre de Letras Francês na UFPI

ainda se lembrava de alguma coisa, e ela ia me dizendo o que significava, como pronunciava, e eu achei a sonoridade tão bonita, e comecei a me dedicar”, conta o estudante. Na adolescência, ele passou a estudar a cultura francesa por conta própria. Procurava na internet músicas e filmes para aprender a pronúncia correta dos fonemas. Quando chegou o momento de prestar o vestibular, percebeu que aquele hobby era algo maior e decidiu cursar a licenciatura em francês. No primeiro semestre do curso, no entanto, veio a decepção e a vontade de sair. Rômulo conta que chegou a fazer o Enem

para os cursos de Arquitetura e Nutrição, mas foram as aulas de latim que o motivaram a permanecer. Rômulo deve embarcar com destino a Bordeaux no final do mês de setembro. O início das suas atividades como assistente de língua portuguesa está previsto para o dia 1º de outubro, prosseguindo até 30 de abril de 2016. Existe ainda a possibilidade de renovação do contrato para que ele permaneça mais tempo na França. Ele revela que seu plano é, no futuro, fazer um Mestrado lá mesmo e, quando retornar, abrir uma escola de idiomas.

Faltando poucos meses para o intercâmbio, Rômulo não esconde a ansiedade para a realização de um sonho. “Eu ainda pequeno dizia, ‘Ah, um dia eu vou pra França, vou conhecer isso tudo!’, mas eu nunca pensei que eu fosse pra passar esse tempo todo”, afirma o estudante, que atribui o resultado a Deus, à motivação constante dos pais e ao apoio dos professores, sem esquecer do seu esforço pessoal. O governador Wellington Dias autorizou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (Fapepi) a conceder uma bolsa de apoio para Rômulo.

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Por Afonso Rodrigues

Pesquisa desenvolve modelo de adesivo para fixação dos aparelhos ortodônticos Estudo é fruto de parceria entre instituições brasileiras e alemãs

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or muito tempo, os aparelhos ortodônticos foram associados apenas ao fator estético. Hoje, o tratamento ortodôntico é recomendado não apenas para a melhoria na aparência e autoestima, mas também por questões de saúde. A Sociedade Brasileira de Ortodontia (SBO) informa, em sua página na internet, que o correto alinhamento dos dentes é importante para um melhor desempenho das funções do aparelho mastigatório, bem como para a higiene oral, evitando o surgimento de cáries e outras doenças bucais. De acordo com o Caderno de Atenção Básica nº 17 do Ministério da Saúde (2008, p. 47), entre os principais agravos em saúde bucal no Brasil está a má oclusão, definida pelo documento como “a deformidade dento-facial que, na maioria das ocasiões, não provém de um único processo patológico específico. Mas é uma variação clínica significativa do crescimento normal, resultante da interação de vários fatores durante o desenvolvimento, tais como a interação entre influências ambientais e congênitas”. Os aparelhos ortodônticos, então, destinam-se a corrigir esses problemas, realinhando os dentes. No entanto, uma das dificuldades na utilização de aparelhos para o tratamento ortodôntico está na sua higieni-

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zação. “Os adesivos usados para colocar nos aparelhos hoje têm um grande problema de ser ainda um ambiente propício para acúmulo de bactérias”, explica o professor doutor Francisco das Chagas Alves Lima, do Departamento de Química da Universidade Estadual do Piauí (Uespi). Francisco é o subcoordenador do projeto “Desenvolvimento de materiais híbridos baseados em polidimetilsiloxano-uretana (PDMSur) obtido pela fixação de CO2 e rota sol-gel para adesivos biomiméticos com aplicações odontológicas e revestimentos para aplicações tecnológicas”, aprovado pelo Edital Capes 25/2013, dentro do programa Probral I, que oferece apoio a projetos de pesquisa desenvolvidos em conjunto por grupos brasileiros e alemães. O objetivo da pesquisa é produzir materiais híbridos do tipo Silicatos Organicamente Modificados (Ormosils) derivados de polidimetilsiloxanouretânicos (PDMSur), com baixa temperatura de transição vítrea, baixa absorção de água, baixa energia superficial e boa adesão sobre vidro, ligas de titânio e aços. Uma das aplicações desses materiais destina-se à área da ortodontia, com o desenvolvimento de um modelo do adesivo usado para a fixação do aparelho nos dentes que deve inibir a colonização de bactérias e permitir,

dessa forma, uma higienização bucal mais eficaz. Isso se deve ao fato de esse novo adesivo conter substâncias que fixam o CO2. Como descreve o professor Francisco Lima, “o CO2 é um ambiente muito impróprio, inóspito, bastante ruim para as bactérias. Então, quando eu fixo o CO2 no meu sistema, eu impeço a proliferação de bactérias”. O projeto está sendo desenvolvido por meio de uma parceria entre quatro Instituições de Ensino Superior (IES): a Uespi, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o Instituto de Química de São Carlos, da Universidade de São Paulo (IQSC/USP), a Universidade de Dresden, na Alemanha, e um Instituto Tecnológico, o Instituto Fraunhofer de Bremen (IFAM), também desse país. No Brasil, o estudo é coordenado pelo professor doutor Ubirajara Pereira Rodrigues Filho, da USP, e na Alemanha, pelo professor doutor Andreas Hartwig. Um dos desafios encontrados pelos pesquisadores foi justamente o de unir pessoas de regiões diversas, vinculadas a instituições de pesquisa com níveis de infraestrutura diferentes. “Fazer essa junção é um desafio que foi, consequentemente, rompido porque, à medida que o tempo foi passando, os pesquisadores foram se aproximando e ganhando resultados.


Doutor em Química, Francisco das Chagas Alves Lima

Nós já temos publicação científica em revistas de alto impacto, apresentação em congressos nacionais e internacionais dos nossos resultados”, comenta o professor Francisco Lima. Atualmente, a pesquisa encontra-se na fase de testes. No Brasil, estão sendo feitos testes computacionais para mostrar que a bactéria apresenta rejeição ao material produzido e também para descobrir os motivos. “A gente sabe que não aderiu, mas por quê? É essa a resposta que a gente vai procurar: mostrar por que não está aderindo. Mostrar o que acontece com a fórmula química do adesivo que inibe

a aproximação de bactérias”, conta o professor. Enquanto isso, na Alemanha, acontecem os testes de resistência e durabilidade do produto, que devem ser finalizados até o mês de setembro. Concluída essa fase, e se for verificado que o adesivo não produz efeitos colaterais, seguem-se os testes in vivo, com a participação de seres humanos, etapa necessária para a aprovação do produto pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Os resultados encontrados até agora são promissores. Segundo o professor Francisco Lima, as bactérias não têm apresentado afinidade com esse

novo material, o que pode representar uma importante contribuição para evitar a formação de colônias de bactérias na região bucal de pacientes que utilizam aparelhos ortodônticos. A equipe que integra o projeto é formada por mais de vinte pesquisadores dos dois países e multidisciplinar, entre químicos, físicos, médicos, odontólogos e biólogos. “O trabalho é altamente coletivo. Um determinado problema experimental só é respondido com a parte teórica ou a parte experimental responde alguma parte teórica, sempre assim.”, destaca Francisco Lima. Dentro dessa perspectiva de comunicação entre as equipes dos dois países, o professor esteve em Bremen, na Alemanha, no último mês de maio em uma missão de trabalho. A ideia dessas visitas técnicas de curta duração, segundo ele, é discutir os resultados obtidos e propor novos caminhos. Orientando do professor Francisco Lima no doutorado em Biotecnologia da Rede Nordestina de Biotecnologia (Renorbio), Jefferson Almeida Rocha tem experiência em Bioinformática e Microbiologia e participa dos testes de atividade bacteriana para a verificação dessa capacidade do adesivo de ser um ambiente inóspito para as bactérias. “Um diferencial do projeto é a questão biotecnológica, porque o adesivo convencional é simplesmente um adesivo. E esse não, ele tem uma função biotecnológica, vai incluir a questão de evitar o crescimento dessas bactérias na própria estrutura do adesivo”, esclarece Jefferson Almeida, que também deve ir em breve para a Alemanha dentro do cronograma do seu doutorado, que é na modalidade sanduíche. A previsão da equipe é que o projeto seja concluído em 2017 e que até lá já se tenham obtido ao menos duas patentes para serem transformadas em tecnologia aplicadas ao mercado ou à saúde pública.

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Foto: Marcelo Cardoso


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Por Mário David Melo

Piauí tem o primeiro Laboratório de Geoquímica Orgânica do Nordeste Laboratório desenvolve estudos em rochas sedimentares da Bacia do Parnaíba, buscando avaliar o potencial para exploração de petróleo

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uando se pensa em petróleo, logo se imagina aquele líquido negro que vale milhões e jorra da terra quando encontrado. Realmente, o valor econômico do petróleo é bem alto e chegou ao ponto de ter motivado conflitos como a Guerra do Golfo. Trata-se da principal fonte de energia da atualidade, da qual derivam importantes combustíveis, como gasolina, óleo diesel, gás natural, querosene, dentre outros. Quanto ao jorro, semelhante a um gêiser, só ocorreu no início do século XX, primeiros tempos da pesquisa petrolífera. Era um desperdício e, portanto, atualmente, as máquinas de perfuração são equipadas com sensores de detecção para evitar essa situação. Na definição química, o petróleo é uma mistura complexa de hidrocarbonetos (hidrogênio e carbono) na maioria alifáticos, alicíclicos e aromáticos. É inflamável e oleoso, possuindo um cheiro característico, além de ter densidade menor que a da água, ou seja, quando misturados se mantém na superfície. Isso explica inúmeros acidentes ambientais quando há vazamento em plataformas e cargueiros no mar. Apelidado de “ouro negro”, também possui uma variação de cores, podendo ser incolor, marrom, verde e marrom-claro. O Piauí tem demonstrado potencial para exploração de gás natural, tendo sido incluído na 12ª Rodada de Licitações de Blocos de Petróleo e Gás Natural realizada pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombus-

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tíveis (ANP), em novembro de 2013. Foram 13 blocos da Bacia do Parnaíba, considerada uma bacia terrestre com potencial geológico pouco conhecido. Com o objetivo de aprofundar a pesquisa científica nessa área, a Universidade Federal do Piauí (UFPI) inaugurou, em março de 2013, o primeiro Laboratório de Geoquímica Orgânica (LAGO) do Nordeste em parceria com o Centro de Pesquisas Leopoldo Américo Miguez de Mello (CENPES) da Petrobrás. O Lago, coordenado pelo Professor Dr. Sidney Gonçalo de Lima, possui 280 m2 e conta com um laboratório de geoquímica, um laboratório instrumental, um laboratório de síntese orgânica, quatro salas de professores e duas salas para alunos. Ao todo, o convênio foi de R$ 3.195.090,00. Localizado no Centro de Ciências da Natureza (CCN) da UFPI, o grupo de pesquisa do LAGO tem desenvolvido trabalhos com amostras de petróleo e, em especial, com rochas sedimentares da Bacia do Parnaíba. O grupo vem trabalhando em colaboração estreita com o Grupo de Geoquímica Orgânica do IQ/UNICAMP, UFPA, UFPel e com pesquisadores da Gerencia de Geoquímica do CENPES/ PETROBRAS. “O grupo de Geoquímica Orgânica da UFPI, que iniciou seus trabalhos logo após doutoramento do Prof. José Arimatéia Dantas Lopes (atual reitor da UFPI), tem trabalhado com amostras de petróleo desde então, mas recentemente direcionamos nossas pesquisas para rochas sedimentares da Bacia do Parnaíba, com

Foto: LAGO-UFPI

Análise de rochas passam por várias etapas

foco em três formações geológicas: Codó (MA), Pimenteiras (PI, TO) e Tianguá (CE). A Petrobrás tinha feito um estudo no passado em relação aos biomarcadores e ao potencial de hidrocarbonetos nessas formações, e em 1995 elas foram objeto de estudo no doutoramento do professor René Rodrigues (UERJ), atual colaborador do nosso grupo, mas já estamos aprofundando esses estudos e temos dados relevantes e inovadores sobre biomarcadores”, explica o coordenador do LAGO Professor Doutor Sidney Lima. Os biomarcadores, também chamados fósseis químicos, são moléculas or-


Do corpo discente que atua no LAGO, cinco já defenderam dissertações de mestrado e um seguiu para doutorado na área. Os pesquisadores também participaram do último Congresso Latino Americano de Geoquímica Orgânica, realizado em novembro de 2014 em Búzios, no Rio de Janeiro, onde a aluna de mestrado Antônia Laíres Santos teve a pesquisa Identification of Aryl Isoprenoids in oils from Sergipe-

Foto: LAGO-UFPI

do em Praga, na República Tcheca, em setembro de 2015. Para o professor Sidney Lima, descobrir o potencial de geração de petróleo da Bacia do Parnaíba é um trabalho extenso e integrado com outras áreas do conhecimento, sendo importante criar novas formas de análises. “A ideia é procurar desenvolver novas metodologias e buscar novos biomarcadores que auxiliem nesse processo de prospecção e caracterização de óleos

Foto: LAGO-UFPI

Coleta de rochas sedimentares na Formação Tianguá (CE)

econômico do petróleo encontrado. Ainda em 2013, o grupo de geoquímica da UFPI aprovou um novo Projeto de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) junto à Petrobrás na ordem de R$ 400.000,00. O recurso vem sendo utilizado na implantação de bolsas de iniciação científica, de mestrado e para pesquisadores de desenvolvimento tecnológico e industrial. O grupo já apresentou relatório à Petrobrás com dados inéditos sobre compostos químicos encontrados no petróleo da Bacia Sergipe-Alagoas e, também, em extrato de rochas sedimentares da Bacia do Parnaíba.

LAGO conta com equipamentos de última geração

-Alagoas Basin, Northeastern Brazil using Triple Quadrupole GC-MS-MS (Identificação de Aril Isoprenóides em óleos da Bacia Sergipe-Alagoas, Nordeste do Brasil usando o Triplo Quádruplo GC-MS-MS) premiada como melhor trabalho em pôster. Grupos de pesquisas dos Estados Unidos e da Colômbia manifestaram interesse em firmar parcerias com o LAGO para o intercâmbio de estudantes de mestrado. Os integrantes do LAGO também foram convidados para participar do International Meeting on Organic Geochemistry (IMOG) a ser realiza-

e extratos de richas, sem necessariamente repetir o que já é feito em outros grupos de pesquisa”, conclui. O grupo também tem linha de pesquisa em Produtos Naturais, com dissertações e teses em andamento, atuando principalmente com óleos essenciais e extratos de material vegetal, avaliando sempre composição química e, em parceria com o programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas, e suas propriedades biofamacológicas. O Laboratório está equipado com as mais modernas técnicas cromatográficas e analíticas.

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gânicas encontradas em óleos, extrato de rocha e sedimento, e são empregadas para avaliar o estágio de maturação do sedimento, a ocorrência da migração e biodegradação de óleo, ambiente deposicional e, também, para parâmetros de correlação óleo/óleo e óleo/rocha. Diariamente, a Petrobrás faz uso dessas moléculas para avaliar rochas sedimentares, sua qualidade e seu potencial gerador de hidrocarbonetos, bem como avaliar o potencial


DICAS DE LIVROS

ENERGIA SOLAR FOTOVOLTAICA NO PIAUÍ: BARREIRAS E POTENCIALIDADES Autor: Albemerc Moura de Moraes Número de Páginas: 192 Ano: 2013 E-mail: albemerc@ufpi.edu.br Pretende-se, neste livro, identificar as principais barreiras e potencialidades para a expansão do uso da energia solar fotovoltaica no Estado do Piauí, visando um melhor aproveitamento desse recurso como alternativa viável na eletrificação rural, tendo em vista a carência energética do Estado, bem como seu grande potencial energético solar. Assim, foram realizadas, conforme proposições deste estudo, pesquisas documentais e de campo que mostram a existência de alguns projetos e iniciativas que materializam o uso de sistemas fotovoltaicos no Piauí, principalmente no meio rural.

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DICAS DE LIVROS

SUPERDOTAÇÃO, PSICANÁLISE E NOMEAÇÃO - CRIANÇAS E ADOLESCENTES SUPERDOTADOS, SUAS FAMÍLIAS E AS INSTITUIÇÕES DE APOIO Autor: Cássio Eduardo Soares Miranda Número de Páginas: 312 Ano: 2015 E-mail: cassio.edu2007@gmail.com Resultado de uma tese em Psicologia, este livro tem como objetivo demonstrar que a identificação como superdotado tem efeitos na constituição da subjetividade. Com base na apresentação de casos clínicos e do relato de entrevistas realizadas com adolescentes, na faixa etária compreendida entre 12 e 18 anos, e seus pais, discutem-se o conceito de superdotação e as políticas governamentais elaboradas para alcançar este público.

TEORIA DA JUSTIÇA DE JOHN RAWLS TENSÃO ENTRE PROCEDIMENTALISMO PURO (UNIVERSALISMO) E PROCENDIMENTALISMO PERFEITO (CONTEXTUALIZADO) Autor: Pablo Camarço de Oliveira Número de Páginas: 194 Ano: 2015 E-mail: pablocamarco@hotmail.com Este livro apresenta de forma rigorosa e ao mesmo tempo didática o núcleo da teoria da justiça como equidade, sem deixar de contribuir de forma original para o debate sobre um importante aspecto da teoria de John Rawls relacionando-o ao procedimentalismo puro e ao procendimentalismo perfeito, incorporando ao estudo o rico diálogo de Rawls com os seus críticos.

TUDO QUE NÃO INVENTAMOS É FALSO: DISPOSITIVOS ARTÍSTICOS PARA PESQUISAR, ENSINAR E APRENDER COM A SOCIOPOÉTICA Organizadores: Shara Jane Holanda Costa Adad; Sandra Haydèe Petit, Iraci dos Santos e Jacques Gauthier Número de Páginas: 488 Ano: 2014 E-mail: shara_pi@hotmail.com Este livro tem como objetivo dar visibilidade às inúmeras técnicas inventivas (dispositivos artísticos) criadas por sociopoetas do Brasil. Cada capítulo traz uma técnica de pesquisa diferente, vivenciada em contextos e grupos-pesquisadores, como: em quilombos, em rodas de capoeira, nos círculos de cultura, nos torés indígenas, nas giras de candomblé, nas ruas com jovens e crianças, nos teatros e museus vivos, nas escolas etc. Estas técnicas são intensificadoras de devires e de problemas políticos, anarquistas-anarquisantes e espirituais nos contextos com quais se envolvem.

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TESES

Orlando Maurício de Carvalho Berti

Raimundo Dutra de Araujo

Professor adjunto I do curso de Comunicação Social – Jornalismo – da Universidade Estadual do Piauí Defesa: Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2014 orlandoberti@yahoo.com.br

Professor Adjunto da Universidade Estadual do Piauí – UESPI Defesa: Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP), Piracicaba – São Paulo, 2015 raimundo.dutra@bol.com.br

Processos comunicacionais nas rádios comunitárias do Sertão do Nordeste brasileiro na Internet

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tese aborda os processos comunicacionais nas rádios comunitárias do Sertão do Nordeste do Brasil que estão na Internet. Objetiva-se entender, teórica e empiricamente, como ocorrem esses processos nessas emissoras e explorar suas especificidades; compreender as estruturas, programações, equipes, financiamentos e históricos de inserção digital; entender os processos de estímulo, emissão e interação, em termos de cidadania; compreender como se dão as novas vozes, territoriais e na Internet; entender como se dá a participação do usuário (internauta); e listar as rádios comunitárias ou que se assumem comunitárias sertanejas, entendendo suas peculiaridades de programação, diferencial em termos de emissão territorial e não territorial (via Internet). A metodologia empregada consistiu em pesquisa bibliográfica e documental, em mapeamento prévio das emissoras, bem como de pesquisa de campo por meio de visitas in loco e de entrevistas semiestruturadas para que se entendessem as emissoras nos oito Estados sertanejos nordestinos (Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe). Acompanhou-se também o trabalho das emissoras na Internet, tanto em seus sites quanto a presença em redes sociais. Constatou-se, com base em parâmetros teóricos, a existência de três tipos de emissoras de rádio comunitárias na Internet: as off-line (que apenas têm espaço na Internet, mas não há transmissão simultânea), as online institucionais (que apenas transmitem simultaneamente a programação no dial) e as online dinâmicas (que têm conteúdo diferencial da emissora no dial e promovem interação e interatividade). O fato de estarem na Internet faz com que as emissoras de rádio comunitárias sertanejas aumentem sua capacidade de promover a participação, a interação e a interatividade, pois ocorre a retroalimentação da comunicação comunitária radiofônica com um novo tipo movido pela desterritorialização, que é o maior desafio dessas emissoras em lugares de baixo poder aquisitivo e comunicacional onde a presença do coronelismo eletrônico ainda persiste. Palavras-chaves: Comunicação Social. Processos Comunicacionais. Rádio Comunitária. Internet. Sertão Nordestino. Participação.

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O acompanhamento do Estágio Supervisionado no Curso de Pedagogia: um diálogo com as concepções e as condições de trabalho dos supervisores

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sta pesquisa tem como objeto de análise o acompanhamento do Estágio Supervisionado do Curso de Pedagogia. O objetivo do estudo é conhecer, compreender e analisar, a partir das perspectivas dos supervisores: a organização do Estágio Supervisionado do Curso de Pedagogia em diversas instituições; as concepções de estágio dos supervisores do Curso de Pedagogia; as formas de acompanhamento do estágio e seus encaminhamentos; e as condições de acompanhamento do estágio pelos supervisores em seu contexto de trabalho. A problemática desta investigação situa-se no campo das práticas e do papel do supervisor de Estágio, considerando suas condições de trabalho e as possibilidades de acompanhamento dos estagiários na formação inicial de professores. Esta investigação, de natureza qualitativa, possui como sujeitos supervisores de estágio que atuam na formação inicial docente no Brasil e em Portugal. Os resultados, construídos com base no referencial histórico-cultural, apontam para os seguintes aspectos: na formação inicial de professores o Estágio Supervisionado é uma etapa formativa permeada por múltiplas concepções; o trabalho de acompanhamento de estágio realizado pelo supervisor é fundamental no processo formativo; existem diversos modos de acompanhamento de estágio, pois a multiplicidade de práticas está relacionada às condições de trabalho e características de cada contexto. A tese sustentada neste trabalho é: As condições de trabalho dos supervisores definem as concepções, práticas e orientações supervisivas no processo de acompanhamento dos estagiários. Embora cada instituição tenha uma forma de organização do Estágio Supervisionado, são as condições de trabalho que orientam as possibilidades de atuação dos supervisores. Palavras-chaves: Formação inicial de professores. Pedagogia. Estágio Supervisonado. Práticas supervisivas


Nayana Pinheiro M. de Freitas Coelho

Professora adjunta I da Universidade Estadual do Piauí. Defesa: Universidade de Ribeirão Preto, São Paulo, 2015 angela.endo@hotmail.com

Cargo: Docente da Uespi- adjunto I - dedicação exclusiva Defesa: 2013 Universidade do Vale do Paraíba (Univap) São José dos Campos - São Paulo nayanamachado@oi.com.br

Adição de fluorescentes a cimentos endodônticos: Influência nas propriedades físico-químicas e na resistência de união do cimento à dentina

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valiou-se, in vitro, a influência da adição dos fluorescentes utilizados em microscopia confocal de varredura à laser, rodamina B e fluoresceína, nas concentrações de 0,01%, 0,05% e 0,1%, aos cimentos AH Plus e Endofill nas propriedades: tempo de endurecimento (TE), escoamento (ES), solubilidade (SB) e alteração dimensional (AD) e na resistência de união (RU) destes cimentos à dentina. Quando o Endofill foi acrescido de rodamina B, observou-se que as concentrações de 0,05 e 0,1% promoveram aumento no TE e ES (p<0,05) e diminuição da SB (p<0,05). A adição da fluoresceína ao Endofill aumentou o TE e o ES para a concentração de 0,1% e diminuiu para 0,01% (p<0,05), enquanto que a SB diminuiu para as concentrações de 0,05 e 0,1% (p<0,05). AD não foi alterada pela adição dos fluorescentes em nenhuma das concentrações analisadas. Acréscimo de rodamina B ao AH Plus provocou aumento no TE para a concentração de 0,1%, do ES e SB para 0,05 e 0,1% e da AD para 0,01% em relação ao cimento puro (p<0,05). A adição da fluoresceína ao AH Plus diminuiu o TE para a concentração de 0,05% e aumentou o TE e o ES para a concentração de 0,1%; a AD para 0,01% e a SB para 0,05 e 0,1% (p<0,05). As diferentes concentrações da rodamina B e da fluoresceína não interferiram na emissão de fluorescência dos cimentos avaliados em MCVL. O acréscimo de fluoresceína, em todas as concentrações, reduziu a RU do AH Plus à dentina (p<0,05). Concluiu-se que os fluorescentes interferiram nas propriedades físico-químicas dos cimentos obturadores, sendo as menores alterações observadas para o acréscimo de 0,01% dos fluorescentes, e que a fluoresceína diminuiu a resistência de união do AH Plus à dentina radicular.

Espectroscopia FT-raman do reparo tecidual em lesões cutâneas cirúrgicas em ratos com Diabetes mellitus induzido tratadas com Cenostigma Macrophyllum Tul. variedade acuminata Teles Freire

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Cenostigma macrophyllum Tul. é uma alternativa viável para facilitar a recuperação de lesões teciduais em pacientes portadores de Diabetes mellitus. Esta pesquisa visou avaliar a ação da emulsão óleo-água de C. macrophyllum sobre o processo de reparo tecidual de lesões cutâneas em ratos com Diabetes mellitus induzida, pela Espectroscopia FT Raman. Foram utilizados 63 ratos (machos, Wistar), distribuídos em três grupos: Controle(C), Diabético(D) e Diabético tratado com emulsão óleo-água da planta (DPL) em sete, 14 e 28 dias. A diabetes foi induzida, nos animais dos grupos D e DPL, pela administração de estreptozotocina (50mg/Kg, via peniana, jejum de 12 horas), confirmada aos 21 dias, pelo índice glicêmico (˃ 240mg/dL). Aos animais do grupo tratado (DPL), aplicou-se sobre a lesão 0,5 ml da emulsão óleo-água da planta. Nos tempos experimentais programados e antes da eutanásia dos animais, foram coletados 5ml de sangue da aorta abdominal de todos os espécimes para avaliação dos índices de óxido nítrico. A seguir, as amostras foram retiradas, e encaminhadas para processamento histológico e análise por espectroscopia FT Raman. Na análise histomorfométrica, houve redução das células inflamatórias e aumento no número de fibroblastos no grupo DPL aos sete dias. Com relação aos valores de óxido nítrico, os animais do grupo DPL, aos 14 dias, apresentaram maior concentração (p<0,01) e maior área de percentual de fração de volume de fibras de colágeno (p<0,001). No que se refere à análise por Espectroscopia FT Raman, 92,9% dos dados se concentraram no tempo experimental de 14 dias e os espectros em Cluster se agruparam de acordo com a sua similaridade. Em relação à razão das áreas das amidas I (1700-1600cm-1) e III(1245-1345cm-1), os grupos DPL e D apresentam comportamento contrário. Conclui-se que a emulsão óleo-água da Cenostigma macrophyllum Tul. acelerou o processo de reparo das lesões cirúrgicas em ratos diabéticos.

SAPIÊNCIA 38 Publicação Científica da FAPEPI

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TESES

Maria Ângela Arêa Leão Ferraz


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Sapiencia Nº 38  
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