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MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/AGO 2012

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MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/AGO 2012


Redação - Rua Raul Pompéia, 101 - 12.º andar, São Pedro - CEP 30330-080 Belo Horizonte - MG - Brasil Telefone: +55 (31) 3280-2105 Fax: +55 (31) 3227-3864 E-mail: revista@fapemig.br Site: http://revista.fapemig.br

Blog: http://fapemig.wordpress.com/ Facebook: http://www.facebook.com/FAPEMIG Twitter: @fapemig

GOVERNO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Governador: Antonio Augusto Junho Anastasia SECRETARIA DE ESTADO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR Secretário: Narcio Rodrigues

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais Presidente: Mario Neto Borges Diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação: José Policarpo G. de Abreu Diretor de Planejamento, Gestão e Finanças: Paulo Kleber Duarte Pereira Conselho Curador Presidente: João Francisco de Abreu Membros: Antônio Carlos de Barros Martins, Dijon Moraes Júnior, Evaldo Ferreira Vilela, Giana Marcellini, José Luiz Resende Pereira, Magno Antônio Patto Ramalho, Paulo César Gonçalves de Almeida, Paulo Sérgio Lacerda Beirão, Ricardo Vinhas Corrêa da Silva, Rodrigo Corrêa de Oliveira

Este número da MINAS FAZ CIÊNCIA que você, leitor, acaba de receber tem um significado especial para a FAPEMIG. Com ele, completamos 50 edições já lançadas, um volume expressivo para uma publicação financiada com recursos públicos e destinada à cobertura jornalística de temas da Ciência, Tecnologia e Inovação (C,T&I). Ao longo dessa trajetória, a revista cresceu, amadureceu e, hoje, é reconhecida como importante veículo de divulgação científica, inspirando projetos semelhantes em todo o Brasil. A primeira edição da MINAS FAZ CIÊNCIA foi lançada em dezembro de 1999, com 24 páginas, uma tiragem de cinco mil exemplares e distribuição gratuita. Já naquela época, chamou atenção por apresentar pesquisas desenvolvidas em Minas Gerais e estimular a discussão de temas científicos, aproximando-os do cotidiano das pessoas. Hoje, a revista está maior: são 52 páginas e uma tiragem de 20 mil exemplares, distribuída gratuitamente a leitores de todos os estados brasileiros e também do exterior. A proposta original se mantém: levar informações, fomentar o debate e propiciar o envolvimento dos cidadãos em questões relacionadas à C,T&I. E nada melhor para celebrar esse marco que uma edição recheada de temas interessantes e relevantes. A começar pela reportagem de capa, que explora os parques tecnológicos, ambientes destinados à produção de conhecimento e locais onde ideias, saberes e tecnologias de ponta se encontram. Em Minas Gerais, o mais recente empreendimento é o Parque Tecnológico de Belo Horizonte – BH-TEC, inaugurado em maio deste ano. Nele, já estão instaladas 16 empresas cujo negócio está fortemente relacionado ao conhecimento e à inovação. Essas empresas já colhem os frutos de sua participação na experiência e a expectativa é que isto aconteça também no Parque Tecnológico de Viçosa, já em funcionamento, e nos outros quatro parques que ainda serão instalados no Estado. Na área da saúde, um projeto conduzido por equipe de pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia busca desenvolver uma técnica baseada em biossensores para o diagnóstico rápido e preciso do infarto do miocárdio. Hoje, esse mal está entre as principais causas de óbitos no Brasil e no mundo e sua identificação precoce é fundamental para a sobrevivência do paciente. A pesquisa mostrou que é possível realizar o diagnóstico por meio de marcadores específicos que identificam enzimas cardíacas liberadas na corrente sanguínea quando as células do miocárdio começam a morrer. De menor custo e fácil de utilizar, a técnica está sendo avaliada para aplicação no Sistema Único de Saúde. Memória é o tema de outras duas reportagens desta edição. A primeira, escrita pela jornalista Virgínia Fonseca, apresenta uma pesquisa da Escola de Belas Artes da UFMG, que aborda a relação entre memória e arte a partir de monumentos ou manifestações visuais que remetem a catástrofes. Entre os casos estudados, estão o Memorial do Holocausto, na Alemanha, e o Parque de la Memoria, na Argentina. A jornalista Juliana Saragá, por sua vez, aborda um projeto da PUC Minas que tem como objetivo resgatar e valorizar a tradição da “vida de bairro”. Entre os desafios da equipe formada por pesquisadores das áreas de Sociologia, Arquitetura e História, estão proteger o patrimônio cultural dos bairros situados no anel pericentral da cidade e articular as dimensões material (patrimônio construído) e imaterial, ou seja, o modo de vida dos moradores. Desejamos a todos uma ótima leitura, ressaltando que é uma alegria para a equipe que participa do projeto chegar à quinquagésima edição. Agradecemos àqueles que participaram de sua concepção, há mais de 10 anos, e aos profissionais que desde então passaram pela redação; aos pesquisadores, dispostos a compartilhar conosco e com a sociedade os resultados de seu trabalho; e a vocês, leitores, que com a audiência, as críticas e as sugestões dão sentido ao nosso projeto de divulgação da ciência. Vanessa Fagundes Diretora de Redação

AO LEI TO R

EX P ED I EN T E

MINAS FAZ CIÊNCIA Diretora de redação: Vanessa Fagundes Editor-chefe: Fabrício Marques Redação: Ana Flávia de Oliveira, Diogo Brito, Juliana Saragá, Marcus Vinícius dos Santos, Maurício Guilherme Silva Jr., Virgínia Fonseca e William Ferraz Diagramação: Beto Paixão Revisão: Sílvia Brina Projeto gráfico: Hely Costa Jr. Editoração: Fazenda Comunicação & Marketing Montagem e impressão: Lastro Editora Tiragem: 20.000 exemplares Capa: Hely Costa Jr, sobre foto de Marcelo Focado


Í N D I CE

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SAÚDE

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ENTREVISTA

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TECNOLOGIA DE ALIMENTOS

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Pesquisadores desenvolvem técnica baseada em biossensores, mais rápida e precisa para diagnóstico de infarto agudo do miocárdio

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MUSEU ITINERANTE

A MEMÓRIA NAS RUAS

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SOCIOLOGIA

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ÍNDIOS EM MINAS

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LEMBRA DESSA?

Monumentos construídos em espaços públicos, como o Parque de La Memoria, em Buenos Aires, não deixam feridas serem esquecidas

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Parques tecnológicos, como o BH-TEC, se destacam ao unir, em um único espaço, pesquisadores, empresários e setor público

O empreendedorismo entre jovens é o tema da conversa com o diretor do Future Centre da Telecom Itália, Roberto Saracco

O que acontece quando se adiciona dióxido de carbono ao leite durante processo produtivo do queijo Minas?

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ESPECIAL

GEOCIÊNCIAS

Intervenção humana e maneiras de ocupar o solo propiciam a formação de ilhas de calor em pontos diferentes da mesma cidade

ENGENHARIA ESPACIAL

Estudantes mineiros se preparam para construir banco de testes para inédito foguete universitário nacional

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Projeto da UFMG, caminhão especialmente equipado levará a Ciência a escolas públicas de todas as cidades do Estado

Mapa dos Conflitos Ambientais de Minas procura identificar tensões decorrentes das relações dos homens entre si e com o ambiente

Um tema pouco conhecido a respeito da história de Minas Gerais: a população indígena integrada ao sistema colonial

Núcleo é capaz de investigar a física de formação da descarga, estudo sem precedentes que permite examinar o que gera um raio

5 PERGUNTAS PARA...

Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Raul Antônio Raupp, comenta integração entre academia e setor privado

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VIDA DE BAIRROS

Avaliar como proteger o patrimônio cultural desses locais, situados no anel pericentral de BH, é o objetivo de pesquisadores da PUC Minas


@ O programa Ondas da Ciência que aborda o trabalho com a Prescrição Eletrônica pode ser ouvido em fapemig.wordpress.com

Gostaria de objetivamente agradecer e elogiar o brilhante trabalho dos responsáveis pela MINAS FAZ CIÊNCIA, que, junto à FAPEMIG, estão divulgando os projetos e os cientistas do nosso estado. Difundir a tecnologia e a ciência das nossas universidades é, sem dúvida, uma grande contribuição para o crescimento científico do nosso país. Fico realmente muito feliz por ter tido a oportunidade de apresentar um pouco do meu trabalho científico junto a esse meio de comunicação tão importante. Não tenho dúvidas de que terá grande contribuição e repercussão para a nossa sociedade na área de saúde e poderá servir como início de uma grande transformação para futuras melhorias desse setor. A Prescrição Eletrônica é um tema importantíssimo, discutido atualmente tanto em nível nacional como internacional, o qual aborda principalmente a segurança do paciente. Motivo de grandes preocupações da Organização Mundial de Saúde, o tema está sendo votado no Brasil em projeto de lei de número 3344. Fiquei muito impressionada com a rapidez da equipe de comunicação, que demonstrou estar atenta aos acontecimentos políticos e científicos mais importantes e imediatamente abraçou a causa, com a preocupação de demonstrar e divulgar o tema de interesse de todos e que envolve qualquer profissional da área de saúde.

Esta semana, em Muriaé, recebi das mãos de um aluno esta revista, para ser mais preciso a edição nº 47. Junto com a revista, um sorriso de satisfação, pelo fato de ele ter lido a matéria “Gotas de Energia”, felicidade por ter visto na matéria publicada assuntos discutidos em sala (poder das pontas, densidade superficial de cargas, campo elétrico, indução...). Sua felicidade residia no fato de que ele havia entendido todo o funcionamento do equipamento e a minha foi de que ele realmente havia aprendido e conseguido relacionar informações de sala com a matéria publicada. De posse da publicação, pude ler todo o conteúdo: linguagem direta, agradável, acessível, mas sem prejudicar o caráter de divulgação científica da revista. Ensinar é estar sempre aprendendo. Parabéns pela revista. Carmelino Moraes Professor Muriaé/MG  Minha filha Tamires recebe a revista MINAS FAZ CIÊNCIA. Gosto muito da publicação: assuntos atuais, tudo de muito bom gosto, a diagramação, nem se fala. Parabéns pelo conteúdo. Minha filha está fazendo Engenharia Civil. Ela também faz estágio e quase não sobra tempo para ler. Eu aproveito e leio frequentemente. Agradeço por me enviar sempre a revista. Agradeço de todo coração, peço que Deus abençoe o trabalho de toda a equipe que publica a revista, estão de parabéns pelo trabalho. Arlete Gomes (via e-mail)

Para receber gratuitamente a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, envie seus dados (nome, profissão, instituição/ empresa, endereço completo, telefone, fax e e-mail) para o e-mail: revista@fapemig.br ou para o seguinte endereço: FAPEMIG / Revista MINAS FAZ CIÊNCIA - Rua Raul Pompéia, 101 - 12.º andar - Bairro São Pedro Belo Horizonte/MG - Brasil - CEP 30330-080

MINAS FAZ CIÊNCIA tem por finalidade divulgar a produção científica e tecnológica do Estado para a sociedade. A reprodução do seu conteúdo é permitida, desde que citada a fonte. MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/AGO 2012

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CARTAS

Parabenizo, especialmente, o jornalista Marcus Vinícius, por ter sido o grande apoiador e orientador desta matéria. Finalmente, não tenho outra coisa a dizer, senão, muito obrigada! Wania Cristina da Silva Mestranda Universidade Federal de Ouro Preto Ouro Preto/MG


Maurício Guilherme Silva Jr.

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Im de pres de senv cind pa Min olvi íveis pro rque as G men ao co duz s te erai to pa nhec em cnol s, óg de rtir d ime ico n a i s d t ex pe eias confl o a riê , sa uê nc ias bere ncia se

ão

Pr i de sm ino as va ç

especial


Num de seus fantásticos contos, o escritor argentino Jorge Luis Borges descreve, em detalhes, a natureza do “Aleph”, uma espécie de ponto visual capaz de concentrar, nele próprio, todos os outros pontos do universo. Se, no relato literário, pouquíssimos tiveram o privilégio de contemplar o misterioso “objeto”, na realidade cotidiana, muitos são os indivíduos a participar de ambiente também bastante propício – como na metáfora borgiana – à múltipla “convergência”. Desde meados do século XX, os parques tecnológicos transformaram-se em ambiente promissor não apenas à construção de projetos e planejamentos de ponta – desenvolvidos por homens e mulheres fascinados pelos desafios da inovação –, mas também, e principalmente, à confluência de sonhos, experiências e ideais. Atualmente, há mais de 2 mil estabelecimentos de estímulo à inovação no planeta. Modernos “Aleph’s” a congregar empresas de inovação e centros de pesquisa, tais espaços, com o passar do tempo, tornaram-se grandes aliados às aspirações de desenvolvimento das soberanias. No Brasil, estima-se que, hoje, existam 75 experiências dessa natureza, sendo 25 em efetivo funcionamento. Em Minas Gerais, até o momento, estão em atividade os parques tecnológicos de Viçosa, na Zona da Mata, e de Belo Horizonte, o BH-TEC. Outras quatro propostas, com sede nos municípios de Juiz de Fora, Lavras, Itajubá e Uberaba, estão em andamento. Foto: Marcelo Focado

Nos últimos meses, o governo do Estado, por meio de sua Secretaria de Ciência,Tecnologia e Ensino Superior, ampliou as negociações com a União, em busca de recursos federais capazes de auxiliar o programa estadual para implantação de parques tecnológicos. Justamente de tais prospecções nasceram os estudos – em desenvolvimento – para ainda outros três novos espaços aptos a receber empresas de tecnologia e desenvolvimento de produtos – sempre, obviamente, em parceria com universidades e centros de pesquisa. Trata-se de projetos destinados às cidades de Brumadinho, Três Pontas e Uberlândia. Financiadora de todos os parques tecnológicos já articulados em Minas Gerais, com investimentos na ordem de R$ 40 milhões, a FAPEMIG auxilia todo o processo de concepção e desenvolvimento das iniciativas de inovação – assim como, após implementados os polos de tecnologia, passa a prestar auxílio de natureza diversa, por meio de seus editais, às empresas e centros de pesquisa. Tal apoio é fundamental aos “atores” envolvidos, cuja rotina de trabalho diz respeito, como se sabe, às complexas exigências da produção e da transmissão de conhecimento. “Todos os nossos projetos têm fortíssima participação da FAPEMIG, que muito tem apoiado o parque e seus protagonistas”, ressalta o professor Ronaldo Tadêu Pena, ex-reitor da UFMG e atual diretor-presidente do BH-TEC.

A administração do Parque Tecnológico de Belo Horizonte ocorre por meio da ação de uma série de instâncias. A Assembleia Geral reúne o reitor da UFMG, Clélio Campolina Diniz; o governador do Estado de Minas Gerais, Antonio Augusto Anastasia; o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda; o presidente da Fiemg, Olavo Machado Júnior; e o presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae-MG, Lázaro Luiz Gonzaga. Já o Conselho de Administração é formado por quatro representantes da UFMG, indicados pelo reitor; dois do Governo do Estado, fruto de indicação do governador; dois da Prefeitura, recomendados pelo prefeito; um da Fiemg e um do Sebrae-MG, sugeridos pelos respectivos presidentes. Por fim, há o Conselho Técnico-Científico, o Conselho Fiscal e a Diretoria Executiva. Atualmente, além do apoio financeiro da FAPEMIG, o BH-TEC conta com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Governo do Estado, da Fiemg e do Sebrae.

Professor Ronaldo Tadêu Pena, diretor presidente do BH-TEC MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/AGO 2012

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Trata-se de Ecovec, Embraer, Labtest, Instituto EBT, Way Carbon, Neocontrol, Zunnit, Siteware, Labfar, Enacom, ATI, Invent Vision, Samba Tech, Omnimed, Take.net e STA. Também o Centro de Pesquisas René Rachou, da ­Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), deverá construir sua sede em área já destinada do parque.

Bancado pelo Governo de Minas, o primeiro prédio do BH-TEC é fruto de investimento no valor de R$ 28 milhões. Para além das empresas selecionadas, o edifício abriga, em seus 7,5 mil metros quadrados, miniauditório, quatro salas de reuniões, cafeteria e 88 vagas de estacionamento.

“Optamos por seguir o modelo de desenvolvimento econômico baseado em projetos de inovação, elemento que se acelera bastante no interior de um parque tecnológico” Ronaldo Tadêu Pena diretor presidente do BH-Tec

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Associação que reúne Governo do Estado, Prefeitura de Belo Horizonte, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) e Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais (Sebrae-MG), o parque tecnológico instalado na capital mineira iniciou suas atividades com 16 empresas, selecionadas por meio de chamada pública. Enquanto algumas companhias realizam todas as suas atividades no parque, outras trouxeram para a atual sede do BH-TEC – inaugurada em maio de 2012, bastante próxima ao campus Pampulha – apenas as atividades de pesquisa e desenvolvimento de novos produtos. Na sede funciona, além das 16 empresas, a diretoria executiva do BH-TEC. Ao abrigar empreendedores das áreas do saber nas quais a UFMG apresenta tradição de pesquisa – Ciências da Vida; Biotecnologia, Saúde Humana e Animal; Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs); Tecnologias para Entretenimento e Cultura; Energias Alternativas; e Meio Ambiente –, o BH-TEC acaba por revelar sua vocação produtiva, caso se pense que o principal “artefato” desenvolvido pelas empresas ali instaladas é, no final das contas, “conhecimento” – o qual, por sua vez, carece, justamente, do profícuo convívio entre empresários e pesquisadores para que se desenvolva de modo pleno.

Propostas coletivas Os desafios da confluência de ideias, expectativas e planos nascem junto à própria idealização de um parque tecnológico. O advento do BH-TEC, por exemplo, remonta a discussões iniciadas em 1992, à época da gestão do prefeito Patrus Ananias, que solicitara ao Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), ligado à Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, uma série de propostas para Belo Horizonte. Como resultado da ação governamental, surge o primeiro documento – assinado pelos professores Clélio Campolina Diniz, hoje reitor da Universidade, e Mauro Borges Lemos, presidente do Conselho de Administração do BH-TEC e, atualmente, também

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presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) – com vistas ao desenvolvimento de polos de inovação na capital mineira. “A proposta do parque foi estabelecida por meio de metas. O projeto andou devagar devido a desafios naturais ao processo”, explica Ronaldo Pena, ao relatar que, após a proposta inicial da prefeitura, seguiu-se à busca de um local adequado para implantação do BH-TEC. No fim do ano 2000, à época do mandato do prefeito Célio de Castro, foi o professor Maurício Borges Lemos – então secretário de Planejamento da Prefeitura de Belo Horizonte – o autor da sugestão do terreno, pertencente à UFMG, como lugar ideal para o empreendimento. “Outros espaços haviam sido cogitados, mas todos os envolvidos no projeto sabiam que o parque deveria ficar perto da universidade”, ressalta Pena. Naquele momento, afinal, revelavam-se as inúmeras vantagens da construção do parque em região próxima à maior instituição de ensino e pesquisa de Minas Gerais. Dentre tais fatores, destaque para a almejada natureza acadêmico-científica – identificada nas melhores experiências ao redor do mundo – de um polo tecnológico. Em 2001, o professor Francisco César de Sá Barreto, então reitor da UFMG, nomearia comissão especial com a missão de realizar, exatamente, os necessários estudos de viabilidade para instalação do futuro BH-TEC no terreno pertencente à universidade. Formado pelos professores Clélio Campolina, Mauro Borges, José Aurélio Garcia Bergmann e Ronaldo Pena, tal grupo redigiu, à época, o documento responsável por indicar a conveniência do desenvolvimento do parque no quarteirão 15 do campus Pampulha. “Optamos, daquele modo, por seguir o mesmo caminho de desenvolvimento econômico aceito mundialmente. Trata-se de modelo de desenvolvimento econômico baseado em projetos de inovação, elemento que se acelera bastante no interior de um parque tecnológico”, comenta o atual diretor-presidente do BH-TEC. Ao final do mandato do reitor Francisco César de Sá Barreto, é assinado o convênio de intenções que oficializa o desenvolvimen-


Foto: Marcelo Focado

Em 2011, o Conselho Universitário modificou a cláusula do prazo de cessão, estendendo seu limite de duração a 1º de julho de 2041, sem possibilidade de renovação. A partir daí, todos os prédios integrarão o patrimônio da UFMG. to do projeto. Em seguida, já na gestão da reitora Ana Lúcia Almeida Gazzola, o professor Mauro Borges Lemos é encarregado de dar sequência à concretização do parque, que, a partir dali, seria formalizado como associação – já com os cinco parceiros que hoje constituem o BH-TEC. Em 2005, firma-se o acordo por meio do qual se estabelece que a UFMG haveria de ceder seu terreno ao empreendimento, pelo período de 30 anos, com possibilidade de renovação, enquanto a prefeitura se encarregaria das obras de infraestrutura e o Governo construiria a sede do polo de inovação.

com o objetivo de absorver novos conceitos e aprimorar processos. “Além disso, buscaremos criar parcerias que possibilitem mais agilidade e redução nos custos de desenvolvimento de nossos produtos e soluções tecnológicas”, afirma. Para Breno Rates, sócio-diretor da WayCarbon – que presta serviços de assessoria sobre mudanças climáticas, gestão de ativos ambientais, desenvolvimento de estratégias e estruturação de negócios com vista à ecoeficiência e à economia de baixo carbono –, fazer parte da iniciativa é um modo de “abrir novas possibilidades de negócios” e de se aproximar não apenas da UFMG, mas também de outros tantos grupos focados em pesquisa, desenvolvimento e inovação: “Já estamos colhendo

As empresas que ora desenvolvem trabalhos no BH-TEC foram selecionadas – pelo Conselho Técnico-Científico – por meio da chamada pública finalizada em fevereiro de 2011. Conforme previa o regulamento da concorrência, as empresas interessadas eram livres para, de acordo com suas necessidades, demandar espaço físico com dimensões entre 30 e 400 metros quadrados. Hoje, como bons “moradores”, os grupos de base tecnológica acertam seus condomínios mensalmente, assim como pagam aluguéis conforme a área ocupada no prédio. O interessante a ressaltar é que, mesmo com ocupações físicas, ramos do conhecimento e interesses absolutamente diversos, tais empresas de base tecnológica fazem do convívio o grande trunfo para o crescimento. Segundo Marcelo Henrique Pereira, da gerência de negócios da ATI – que está há apenas um mês no prédio do BH-TEC e atua nos setores de Telecomunicações e Energia, com ênfase no desenvolvimento de softwares e hardwares para supervisão remota de plantas e segurança corporativa – todos esperam aproveitar ao máximo o ambiente voltado à inovação,

Breno Rates, sócio-diretor da Way Carbon

Foto: Marcelo Focado

“Papo” de corredor

Tiago Delboni, diretor executivo da Zunnit Technologies

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Foto: Foca Lisboa

A área ocupada pela BH-TEC, em plano aberto

bons frutos por meio de parcerias, em projetos de P&D, com outras duas empresas das quais nos aproximamos ao chegar, em abril deste ano, ao BH-TEC”. Diretor executivo da Zunnit Technologies – especializada em Tecnologia da Informação, centrada na pesquisa e no desenvolvimento de sistemas de recomendação, sobretudo para comércio eletrônico e provedores de conteúdo, Tiago Delboni lembra que a empresa – em processo de instalação no parque – nasceu dentro do Laboratório para Tratamento de Informação (Latin), ligado ao Departamento de Ciência da Computação da UFMG, e, aliás, agora é sócia dos empreendedores por meio “de um formato de transferência de tecnologia inovador no mercado brasileiro”, ressalta Delboni, ao lembrar que, além do crescente estreitamento de laços com a instituição de ensino e do ambiente propício à inovação, o BH-TEC será importantíssimo devido à repercussão permanente. “A exposição na

mídia facilita a abertura de negócios e a contratação de novos talentos. Queremos ser reconhecidos como referência em tecnologia de recomendação na América Latina, com atuação global”, destaca. Já Rodrigo Monteiro de Mota, gerente de Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação da Ecovec – empresa de Biotecnologia nascida na UFMG e especializada na detecção e monitoramento de vetores de doenças urbanas (principalmente, do Aedes aegypti) –, a decisão de participar do parque tecnológico também envolveu, principalmente, a oportunidade de interação com outros empreendedores. “Tanto é que a Ecovec – a primeira a efetivamente instalar-se no BH-TEC – já ‘encaixou’ importante parceria com a empresa Invent Vision. Nesse processo de interação, fruto, literalmente, de ‘conversas de corredor’, pretendemos construir uma armadilha automática de detecção do Aedes, projeto que, inclusive, foi objeto de contemplação no edital ‘Mestres e Doutores’ da FAPEMIG em 2012”, conta.

Mercado ímpar Parque de Viçosa se destaca na indução do desenvolvimento Instalado em uma área de cerca de seis mil metros quadrados, o Parque Tecnológico de Viçosa (Tecnoparq) também já está em funcionamento. Assim como no BH-Tec, sua proposta é criar um ambiente propício à inovação e atuar como um vetor de indução do desenvolvimento local. Atualmente, três empresas de base tecnológica estão instaladas no local: Dinni Soluções em Sistemas, Laborural Serviços e Empreendimentos e Nexa Contact Center. Elas foram selecionadas a partir de um edital público, que funciona em fluxo contínuo – ou seja, qualquer empresa que se encaixe nas exigências do edital pode apresentar sua proposta, a qualquer momento. As primeiras iniciativas para implantar um parque tecnológico na cidade da Zona da Mata mineira datam da década de 1990. Na época, uma pesquisa constatou haver grande interesse de empresas que trabalham com inovação tecnológica de se instalar em Viçosa. O Tecnoparq é uma das unidades do Centro Tecnológico de Desenvolvimento Regional de Viçosa (Centev), que também abriga uma incubadora de empresas, uma central de empresas juniores e um núcleo de desenvolvimento social e educacional. O projeto é uma parceria entre a Universidade Federal de Viçosa, a Prefeitura Municipal e o Governo do Estado, por meio da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e da FAPEMIG.

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Além de ambientes para elaboração dos mais sofisticados produtos e serviços, parques tecnológicos configuram-se como polos capazes de estimular – nas regiões onde se instalam – uma série de novas lógicas e parcerias de mercado. Nesse cenário, duas “instâncias” de ação caracterizam-se como inerentes ao desenvolvimento de tais iniciativas. Trata-se, de modo direto, dos empreendimentos imobiliários públicos e privados. No BH-TEC, as duas vertentes revelam-se vitais à sobrevivência e à ampliação do projeto: “Por um lado, o empreendimento público torna-se responsável por sustentar o parque. Se aqui construirmos mais um prédio, por exemplo, poderemos garantir sua subsistência para sempre”, diz Ronaldo Pena. Nesse sentido, já com vistas às (grandes) possibilidades futuras, Pena encomendou, junto ao escritório UJMN Architects & Designers – com sede na Filadélfia, nos Estados Unidos, e sob o comando de Robert W. McCauley –, o anteprojeto arquitetônico da nova edificação. Trata-se do passo inicial de uma das duas


vertentes da “etapa 2” do desenvolvimento do BH-TEC. O outro ramo de tal fase refere-se ao delicado processo de concessão a empreendedores imobiliários privados das demais áreas do parque. Trata-se, pois, dos primeiros movimentos em direção à outra imprescindível vertente de ação para desenvolvimento de um parque tecnológico: os empreendimentos imobiliários privados. Nesse ponto, que o leitor, ao menos por um segundo, imagine-se na pele do empresário imobiliário

que, decidido a investir tempo e recurso em novas possibilidades de negócio, busque construir algo no BH-TEC. Após a conclusão de suas obras, você não só lutaria por ter de volta o que gastou, como gostaria de ampliar suas margens de lucro, não é verdade? Antes, contudo, é preciso ter em mente que, por ser patrimônio público, o terreno onde se localiza o BH-TEC necessitará de cauteloso estudo de viabilidade econômica, levando em consideração os aspectos jurídicos para uso por corporações imobiliárias

A chamada “modelagem” do plano de negócios ficou a cargo das empresas Accenture, Athié Wonrath e Junqueira & Ferraz Advogados, sob coordenação e responsabilidade do BDMG. de capital particular. Note-se que, em 1º de agosto de 2041, todos os imóveis construídos passarão à propriedade da UFMG, que receberá, em seu orçamento de recursos próprios, o produto dos aluguéis pagos pelas empresas residentes no parque. O Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) foi a instituição escolhida para elaboração do plano de negócios capaz de nortear o processo de autorização do uso de áreas do BH-TEC pela iniciativa privada. Num futuro próximo, possivelmente, caberá a tais parceiros o investimento para a construção de edificações, que poderão ser exploradas, junto às empresas de base tecnológica, ao longo do período da concessão. No que diz respeito às grandes corporações, conhecidas como “âncoras”, deverá haver, no parque tecnológico, a possibilidade de construção de sedes próprias, sempre com o compromisso de transferência da propriedade construída à UFMG em 2041.

Artefatos, não!

Nos idos de 1924, o estudioso Frederick Terman, natural da Califórnia – região dos Estados Unidos, à época, ainda essencialmente agrícola –, partira rumo ao Massachusetts Institute of Technology (MIT) com o intuito de realizar doutorado em Engenharia Elétrica. Devido a problemas de saúde, porém, já em 1925, o pesquisador seria obrigado a retornar ao solo californiano, onde se integraria, de vez, ao corpo docente da Universidade de Stanford. Na instituição de ensino, Terman resolve, de modo nada habitual ao período, “abrir as portas” do laboratório, que coordenava estudantes, professores e empresários interessados em desenvolver produtos, ideias e serviços inovadores (principalmente, no campo da microeletrônica). Ao longo das décadas seguintes, o visionário professor receberia, em seu “QG” acadêmico, alunos assaz criativos, a exemplo de Bill Hewlett e David Packard – hoje bastante conhecidos como fundadores da HP, grande empresa de computação, impressão, tratamento de imagem, equipamentos eletrônicos e venda de softwares e serviços. Com o sucesso dos projetos desenvolvidos em seu laboratório, Frederick Terman via-se permanentemente sondado por empresas de natureza diversa, sempre ansiosas por montar ali, sob sua orientação, “fábricas” para desenvolvimento de produtos tecnológicos. Apesar de aparentemente tentadoras, aquelas propostas eram sempre recusadas pelo professor. Sabia ele, afinal, que seu laboratório em Stanford não deveria prestar-se à mera serialização de artefatos. Para ele, naquele ambiente, seria muito mais relevante a possibilidade de investimento em elaboração e disseminação do conhecimento. Após a Segunda Guerra Mundial, tais princípios de Terman seriam fundamentais ao surgimento – e à consolidação – de marcas e invenções que, cada uma a seu modo, modificariam o planeta. Em breves linhas, eis o relato dos primórdios de nascimento do cultuado Vale do Silício, região da Califórnia onde ficam cidades como Palo Alto e Santa Clara, estendendo-se até os subúrbios de San José. Nessas áreas, nasceram e/ou se localizam não menos do que as mais cultuadas empresas de base tecnológica da atualidade. Apenas de modo ilustrativo, que o leitor se lembre, para além da já citada Hewlett-Packard (HP), de “gigantes” como Apple Inc., Google, Facebook, Symantec, eBay, Yahoo!, Intel e Microsoft.

Fotos: Foca Lisboa

A incrível história do visionário criador da mais importante área de inovação tecnológica do mundo

Nas duas fotos, fachada de um dos edifícios que farão parte da estrutura do BH-TEC MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/AGO 2012

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Imunossensor desenvolvido em Uberlândia aprimora diagnóstico de infarto agudo do miocárdio

Virgínia Fonseca

“Pane” no sistema Quando a obstrução de uma artéria impede que o sangue chegue ao coração, ocorre o infarto do miocárdio, que é a morte do tecido cardíaco no local não irrigado. A área necrosada deixa, então, de exercer sua função. “Se pensarmos o órgão como um sistema de ‘bombeamento’, ao perder 30%, 40% de sua capacidade, ele gera limitações no organismo, como cansaço, falta de ar, entre outros sintomas”, explica o médico cardiologista Almir Fontes, chefe do Setor de Ecocardiografia do Hospital das Clínicas da UFU. A arritmia, que é o descontrole no ritmo dos batimentos cardíacos, é uma das principais consequências da doença e pode levar à morte. A intensidade do infarto varia de acordo com fatores como maior área atingida ou região específica do órgão. Segundo o cardiologista, em cerca de 30% dos casos, o doente não apresenta sintomas típicos, como dor no peito e, às vezes, ocorrem quadros atípicos, como cansaço súbito e mal-estar, daí a importância de se fazer check-ups e procurar sempre o médico, diante de qualquer suspeita, para um diagnóstico preciso.

Foto: Cetes/Faculdade de Medicina/UFMG

saúde

Quando tempo é vida

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O coração é um órgão oco composto de tecido muscular que, em um adulto, tem o tamanho aproximado de um punho fechado e pesa cerca de 400 gramas. Sua função é bombear o sangue para que percorra todo o corpo, transportando o oxigênio e os nutrientes de que o organismo precisa para manter suas atividades vitais. O fato de o coração ser constituído por um músculo, o miocárdio, é o que possibilita ao órgão desempenhar esse papel, por meio do movimento de contração que, nesse caso específico, recebe o nome de sístole. Por sua vez, o músculo cardíaco é altamente vascularizado e precisa receber um suprimento de oxigênio para seguir trabalhando. Como em um mecanismo de auto-alimentação, ao bater, o coração também leva sangue para os seus próprios vasos. Quando esse processo falha – devido à obstrução das artérias, por exemplo – pode ocorrer o temido infarto do miocárdio, que é a “morte” de parte do tecido cardíaco, causada pela ausência de irrigação sanguínea que transporta oxigênio para o órgão. Ao lado de outras doenças cardiovasculares, esse mal está entre as principais causas de óbitos hoje no Brasil e no mundo. A relevância social do tema motiva estudos em centros de pesquisa de todo o planeta e levou uma equipe da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) a desenvolver uma técnica, baseada em biossensores, mais rápida e precisa para diagnóstico da enfermidade. A identificação precoce e segura de um quadro de infarto é fundamental para a sobrevivência do paciente, devido ao caráter progressivo da doença. “A demora no diagnóstico pode afetar de forma intensa o funcionamento do coração, vasos sanguíneos e linfáticos que formam o sistema cardiovascular, levando à morte”, detalha a coordenadora da pesquisa, professora Ana Graci Brito Madurro, do Instituto de Genética e Bioquímica (Ingeb) da UFU. Em contrapartida, a detecção precoce pode aumentar as chances de recuperação e reduzir o tempo de internação, colaborando para a diminuição do impacto social e econômico na família do paciente. A pesquisadora aponta reflexos significativos

também nos custos para o Sistema de Saúde, com a queda nos gastos hospitalares, inclusive em unidades de terapia intensiva, pois, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia, mais de 320 mil pessoas morrem por ano no País, tendo como causa doenças do coração. Hoje, o diagnóstico do infarto agudo do miocárdio em salas de emergência é baseado em sintomas, eletrocardiograma, exame de sangue para detecção de substâncias indicativas (marcadores específicos) e angiografia ou angiograma, uma espécie de radiografia da anatomia do coração e vasos sanguíneos que utiliza contraste iodado (tintura). Embora existam vários testes disponíveis, nenhum é altamente sensível e específico, particularmente nos momentos iniciais do infarto. “Se por um lado o tempo é fator fundamental para o tratamento do paciente, por outro está também relacionado com os sintomas, a dosagem dos marcadores e os estudos eletrocardiográficos e angiográficos”, comenta Ana Graci. Segundo a professora, as técnicas utilizadas atualmente são relativamente eficazes para monitorar o quadro clínico do paciente, entretanto, demandam mão de obra qualificada, custo elevado e longo tempo de análise. Tendo em mente a importância de reduzir o período necessário para detecção dos marcadores específicos e proporcionar mais agilidade ao diagnóstico, foi que os pesquisadores do Laboratório de Biomateriais (Ingeb) e do Laboratório de Filmes Poliméricos e Nanotecnologia (Instituto de Química) da UFU propuseram um método que utiliza biossensores. Além de diminuir o tempo do exame, o objetivo é proporcionar menor custo e mais facilidade de utilização da técnica, características que são de grande interesse tanto para o paciente, quanto para o Sistema de Saúde.

Rastros de um problema Quando as células do miocárdio começam a morrer, há a liberação de uma grande quantidade de enzimas cardíacas na corrente sanguínea. Assim, o diagnóstico do infarto do coração por meio de marcadores específicos é feito pela dosagem dessas enzimas. Muitas vezes, são realizadas várias MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/AGO 2012

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Fotos: André Carnero

Os professores Ana Graci e João Marcos estão à frente dos trabalhos nos laboratórios da UFU

Equipe conta com profissionais de diferentes formações, nas áreas de Ciências Biológicas e Exatas

medições no decorrer do dia, para melhor avaliação e acompanhamento do quadro clínico. Os marcadores mais pesquisados são a creatina fosfoquinase (CPK), transaminase glutâmico oxaloacética (TGO), lactato desidrogenase (LDH), creatinina kinase-MB (CK-MB) e troponina T, sendo os dois últimos considerados os mais relevantes. Normalmente encontrados em baixos níveis no plasma sanguíneo de pessoas saudáveis, eles são elementos indispensáveis para o diagnóstico definitivo do infarto, pois a elevação dos valores indica lesão do tecido ou órgão específico. Da mesma forma, a normalização dos seus índices costuma ser um dos critérios para alta do paciente da unidade de terapia intensiva. A CK-MB é um bom marcador para a lesão cardíaca aguda, devido à sua excelente especificidade, sendo que seu aumento no plasma se dá dentro de duas a oito horas após o infarto. Essa enzima também é útil no diagnóstico de reincidência ou extensão da doença, pois sua concentração começa a decair em 24 horas, desaparecendo de um a três dias. Elevações subsequentes são indicativas de um novo evento de infarto do miocárdio. Já as troponinas permanecem elevadas por muito mais tempo que a CK-MB: de cinco a nove dias para a troponina I cardíaca (cTnI) e até duas semanas para a troponina T cardíaca (cTnT), o que constitui uma vantagem na identificação do infarto, caso algum tempo já tenha se passado depois da ocorrência. As cTnT e cTnI tornam-se mensuráveis de três a quatro horas após o início do infarto agudo do miocárdio. Ambas podem ser utilizadas para o diagnóstico, porém a sensibilidade da cTnT é superior à de todos os outros marcadores, sendo considerada o padrão-ouro entre os marcadores bioquímicos da necrose do tecido miocárdico.

Passos para a solução

O projeto pautou-se no desenvolvimento de um biossensor para diagnóstico do marcador específico troponina T cardíaca. O biossensor é um sistema que usa reações bioquímicas que ocorrem a partir de DNA, enzimas, tecidos, organelas, células, antígenos ou anticorpos para detectar um determinado componente. Eles podem ser

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classificados em genossensores, quando empregam DNA; sensores enzimáticos, à base de enzimas; ou imunossensores, se utilizam antígenos ou anticorpos – este último, escolhido pelos pesquisadores da UFU. Enquanto os exames convencionais de dosagem de enzimas levam cerca de 2 horas, com o imunossensor para a troponina T cardíaca a resposta é obtida em até cinco minutos e a análise poderia ser realizada fora do ambiente hospitalar, por meio de um equipamento portátil. Normalmente, os biossensores funcionam por meio de contato com fluidos corpóreos como sangue, saliva ou suor, que são retirados do paciente. “A aplicação desse tipo de método é uma área de grande interesse atualmente, pois facilita o diagnóstico à distância”, explica Ana Graci. Ela acrescenta que o sistema proposto é semelhante ao kit para a avaliação de glicose, disponível no mercado e de amplo acesso da população. Nele, uma pequena amostra de sangue é adicionada ao aparelho, gerando um sinal proporcional à concentração de glicose no sangue. A metodologia baseia-se em uma tecnologia bastante utilizada para fins de diagnóstico: a produção de eletrodos impressos. O eletrodo é formado por um suporte, normalmente de PVC ou cerâmica, sobre o qual é depositada uma fina película de material condutor. Sobre esta é aplicada outra camada, de material isolante, conectada ao aparelho de medição e, por fim, é afixada a biomolécula que será usada para reconhecer o “alvo”. No caso do diagnóstico de infarto do miocárdio, trata-se de um anticorpo específico para a troponina T que, em contato com a amostra de sangue a ser analisada, provoca uma reação capaz de gerar um sinal elétrico indicativo da presença desse biomarcador. Para a otimização do sistema, o grupo propôs a modificação da superfície desses eletrodos com polímeros funcionalizados, que permitem melhor imobilização da anti-troponina. “Os polímeros tornam o sistema mais seletivo e sensível, além de aumentar a eficiência da fixação e estabilização das biomoléculas durante a produção, o que contribui para fazer crescer o tempo de estocagem dos biossensores, facilitando sua comercialização”, adianta a professora.


Esses são alguns dos passos iniciais para a utilização médica em grande escala. E, enquanto caminha nesse sentido, a equipe segue aprimorando as pesquisas. Para complementar o diagnóstico, um novo biossensor está em fase de desenvolvimento, visando à detecção da proteína C-reativa (PCR), um marcador considerado referência para inflamação, contribuindo para predizer com maior exatidão o risco cardiovascular. Nesse caso, seria possível realizar o acompanhamento preventivo de pessoas com predisposição, resultando em melhor qualidade de vida para os pacientes e auxiliando os profissionais de saúde no diagnóstico precoce de lesões cardíacas. Ana Graci explica que este é apenas um dos desdobramentos dos estudos. Devido ao caráter multidisciplinar, o projeto envolve profissionais com diferentes formações nas áreas de Ciências Biológicas e Ciências Exatas, propiciando a integração de grupos que atuam em atividades de pesquisa e inovação tecnológica na UFU. Além de professores do Instituto de Genética e Bioquímica e do Instituto de Química, alunos de pós-graduação investigam aspectos diversos relacionados ao tema. “Ele colabora para a formação de recursos humanos de alto nível em biotecnologia e nanotecnologia”, corrobora a coordenadora. Até o momento foram produzidas duas teses de doutorado, cinco dissertações de mestrado e um projeto de iniciação científica, voltados para a criação de novas plataformas para a concepção de dois genossensores (diagnóstico de hepatite e de câncer de próstata), um biossensor enzimático para detecção de lesão do tecido hepático e dois imunossensores (diagnóstico da leishmaniose e infarto agudo do miocárdio). Com o apoio da FAPEMIG e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), foi possível também o depósito de duas patentes: “Metodologia para construção e utilização de genossensor eletroquímico para diagnóstico da hepatite B” e “Dispositivo óptico para detecção de marcador específico de lesão cardíaca”.

Pesquisadores buscam viabilizar produção, em grande escala, de biossensores com polímeros funcionalizados Foto: André Carnero

De acordo com a pesquisadora, atualmente existe um interesse crescente quanto à aplicação desses sistemas para a produção em grande escala de sensores para análise clínica de doenças. Sensores de tamanho reduzido, baixo custo, elevada sensibilidade e detecção em tempo-real são desejados, particularmente em diagnósticos que possam ser realizados fora do ambiente hospitalar, como em residências, consultórios e até mesmo se o paciente estiver em viagem – situações em que o resultado deve ser rápido e pequeno volume de amostras é requerido. A produção dos eletrodos impressos está em fase de desenvolvimento, coordenada pelo professor João Marcos Madurro, do Laboratório de Filmes Poliméricos e Nanotecnologia, sendo que a equipe criou uma tinta com elevada condutividade e estabilidade para a aplicação sobre o substrato de cerâmica. Os novos polímeros utilizados como plataformas para a imobilização do anticorpo específico para a troponina T cardíaca mostraram-se eficientes na detecção. “Além do tempo de resposta rápido e do fácil manuseio, o material apresenta grande potencial para miniaturização e produção em massa”, destaca a professora. Os imunossensores poderão ser incorporados em exames laboratoriais em larga escala ou em testes individuais, além do atendimento à demanda governamental brasileira e de outros países quanto à detecção de doenças humanas. Outra vantagem apontada é o baixo custo e a possibilidade de produção a partir de material disponível no país. Segundo Ana Graci, atualmente, somente as biomoléculas utilizadas são importadas. O projeto para desenvolvimento do imunossensor para marcador cardíaco está em andamento, sob patente, visando à produção independente dos eletrodos impressos funcionalizados com polímeros. Além da produção da plataforma, encontra-se em andamento uma etapa importante para a sua utilização, que são os testes com amostras reais de pacientes infartados e a determinação do limite de detecção, que aponta a quantidade mínima a partir da qual o sistema consegue reconhecer a presença do marcador específico.

Principal causa de morte As doenças cardiovasculares, com aproximadamente 320 mil óbitos anuais, aparecem em primeiro lugar entre as causas de morte no Brasil, representando quase um terço dos óbitos totais e percentual significativo das mortes na faixa etária de 30 a 69 anos de idade, atingindo a população adulta em plena fase produtiva.

Projeto: Desenvolvimento de imunossensor para diagnóstico do infarto agudo do miocárdio Coordenador: Ana Graci Brito Madurro MODALIDADE: Programa Pesquisador Mineiro – PPM III Valor: R$ 48.000

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entrevista

Mundo de oportunidades Para Roberto Saracco, novas tecnologias e baixo custo das transações ajudam jovens a se transformar em empreendedores

A história é bem conhecida, já deu origem a vários livros e virou filme vencedor de três estatuetas do Oscar. Em 2004, com 19 anos e ainda estudante na Universidade de Harvard, Mark Zuckerberg criou com alguns amigos o Facebook, hoje conhecido como a maior rede social do mundo. Para se ter uma ideia, estima-se que, a cada minuto, o Facebook receba 451 novos usuários que, até agosto deste ano, chegarão à casa do 1 bilhão de assinantes. O jovem empresário, dono de uma das maiores fortunas do planeta, foi eleito em 2010 a personalidade do ano pela revista norte-americana Time, por ter “mudado a forma como os seres humanos se relacionam”. O exemplo é emblemático, mas não o único quando se trata de empreendedorismo entre jovens. Para Roberto Saracco, cientista da computação, professor e diretor do Future Centre da Telecom Itália, sediado em Veneza, as novas tecnologias de informação e comunicação tornaram o mercado propício a iniciativas empreendedoras. “Uma das coisas mais espantosas que temos hoje - e as pessoas ainda não perceberam isso - é que tudo é muito barato. Tudo custa nada”, defende ele, nesta entrevista à MINAS FAZ CIÊNCIA. Saracco atualmente leciona na Politécnica de Turim (Itália) disciplinas sobre multimídia e telecomunicações. Ele esteve no Brasil para uma série de compromissos, entre eles uma palestra em Belo Horizonte, na sede da FAPEMIG, que abordou

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Vanessa Fagundes

a importância de se transformar estudantes em empreendedores. Esse também é o foco de seu trabalho na Itália. O Future Centre é um centro de pesquisa focado no impacto econômico das inovações na área de telecomunicações. Sua missão é identificar e desenvolver novas oportunidades de negócios relacionados à área. Ele está ligado ao projeto do European Institute of Inovation & Technology (EIT) e coordena um dos seis centros de excelência europeus na área de tecnologias da informação e comunicação (EIT ICT Labs - http://eit.ictlabs.eu). Lá, estudantes de todos os países – inclusive do Brasil – trabalham no desenvolvimento de projetos em linhas como cloud computing e cidades digitais. Com base em sua experiência, Saracco afirma: a cultura da inovação deve ser estimulada cedo, e não apenas dentro das escolas. O ambiente familiar, por exemplo, é decisivo na formação de novos empreendedores. O senhor irá proferir uma palestra sobre as formas de estimular o empreendedorismo entre os jovens. Por que esse tema é importante? Bem, o mundo mudou muito nestes últimos dez anos. O que temos visto é que tecnologias de informação e comunicação tornaram possível diminuir o custo de entrar no mercado. Uma das coisas mais espantosas que temos hoje – e as pessoas ainda não percebem isso – é que tudo é


Foto: Diogo Brito

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muito barato. Tudo custa nada. E toda vez que eu digo isso, as pessoas duvidam e respondem: “não, tudo é caro”. Não é verdade, tudo é muito barato, é impressionante. Podemos comprar bananas na Europa por 20 centavos. Aqui, no Brasil, vocês provavelmente conseguem comprar por menos. Como algo tão tecnológico como a banana pode custar tão pouco? Porque é preciso lembrar que existe um agricultor que vai até a árvore colher a fruta, um caminhão que transporta as bananas para o porto e um navio que, de lá, as transporta para qualquer outro lugar do mundo. Quando o navio aporta você tem outro caminhão que transporta as bananas para a loja, um funcionário que as coloca nas prateleiras e, no fim, elas vão te custar 20 centavos. É incrível, não é? Mas é diferente quando você pensa em produto de alta tecnologia, não? Aí é que está. A banana só é tão barata porque ela carrega alta tecnologia. Há uma confusão hoje entre o que é alta tecnologia e o que não é. Eu usei a banana como exemplo porque essa é uma reação comum: as pessoas não acham que a banana é um produto tecnológico. Mas ela é extremamente hi-tech. Se não fosse, não seria possível vendê-la por 20 centavos. Anteriores à banana, você tem pesquisas sobre processos de conservação, reações químicas, sistemas de irrigação, além de uma grande logística para garantir que o custo de transporte para uma distância de milhares de quilômetros não influencie no preço do produto e a fruta continue acessível. E toda essa logística está relacionada a novas tecnologias de comunicação e informação (TICs). Existe uma grande quantidade de tecnologia por trás disso. As pessoas tendem a associar as TICs com computadores, laboratórios, equipamentos avançados... Mas elas estão em todo lugar. Se não, não seria possível ir ao supermercado e comprar uma banana por 20 centavos. Esse é o ponto. Essas novas tecnologias estão associadas a novas oportunidades de negócios, correto? Sim. O mais espetacular sobre nossa sociedade atual é que conseguimos diminuir os custos das transações. Esses custos costumavam ser muito maiores. E se os custos são altos, isso significa que você precisaria ter um grande capital para iniciar qualquer empreendimento. Hoje, os custos são tão pequenos que cada pessoa pode ser um empreendedor, pode começar um negócio

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próprio. Por exemplo, você pode vender coisas no eBay (empresa americana de comércio eletrônico – www.ebay.com) e isso não te custará nada. Mas o eBay é um sistema tremendamente complexo, existe uma grande quantidade de tecnologia por trás do site que permite seu funcionamento. Você também pode anunciar seus produtos no Youtube e, novamente, não custará nada para você. Mas há muita coisa por trás daquilo. Resumindo, é possível gerenciar e comunicar um negócio pela internet sem custos. E atingir mais pessoas também... Hoje o mercado é todo o mundo. Pensando em um negócio tradicional, é necessário um mercado para qualquer coisa que se esteja vendendo. Você tem um mercado potencial, mas nem todas as pessoas para quem você fala irão comprar seu produto. Para alcançar um pequeno grupo, formado por seus clientes reais, você precisava anunciar para todo um grande mercado. Isso significa gastar muito dinheiro para passar a mensagem. E com o custo do transporte, seus clientes não poderiam estar muito longe, senão o produto final seria inacessível. Hoje, o mercado é todo o planeta e você consegue alcançar a todos gastando muito pouco dinheiro. Nesse grande mercado, você identifica nichos, que podem ser compostos por poucas pessoas e estar em países diferentes. As grandes empresas não conseguem se dirigir a nichos tão pequenos como esses, pois custariam muito para a organização. Mas uma única pessoa pode fazer isso. Por isso, hoje, qualquer estudante pode se tornar um empreendedor. No Brasil, também existem tentativas no sentido de estimular o empreendedorismo entre estudantes. O senhor acredita que quanto mais cedo essa cultura da inovação for ensinada, melhor? Por exemplo, as escolas deveriam investir nisso? Muita coisa é ensinada na escola, mas estimular a cultura da inovação vai além disso e envolve todo o ambiente. Até mesmo dentro de casa essa cultura pode ser ensinada. Claro que a escola tem um


enorme potencial para estimular o empreendedorismo, mas não é preciso esperar os professores para começar esse tipo de lição. Claro, você não vai ensinar uma criança de dez anos o que significa se tornar um empreendedor. Mas você pode ensiná-la a aprender história de um modo em que ela seja participante. Em vez de ensiná-la a procurar as informações no livro, vamos dizer: “OK, havia um imperador romano neste local. Vá à internet, procure e leia sobre isso, tire suas conclusões”. Vamos mostrar como ser um agente ativo nesse processo. Ser pró-ativo é o primeiro passo para ser empreendedor. Se você estuda de uma forma em que todo dia te dizem o que ler, o que aprender, o que fazer... Isso não cria um espírito empreendedor. E é preciso entender que, o que quer que você faça, será melhor se usar algo que já testaram antes. Isso costumava ser chamado de cópia e era algo condenável. Mas não: você pode copiar desde que acrescente algo. Essa é a parte crucial: acrescentar algo. A contribuição pode ser na etapa inicial ou no topo, e quanto mais alto ela começou, mais alto ela irá. Precisamos entender isso, pois, para muitos professores, isso é errado. Muitos dizem “você deve aprender pelo livro e não deve copiar”. A vida é aprender com os outros – e acrescentar. Empreendedorismo, então, é acrescentar alguma coisa. Isto é algo que pode começar bem cedo. E empreendedorismo não se resume a copiar e acrescentar. Também é parceria. Se nós dois trabalhamos juntos, chegamos a algo maior. Esses são os pontos cruciais que a escola pode trabalhar. E aí, claro, a universidade deve ir além de sua grade curricular e abordar questões como gerenciamento de pessoas, comunicação, entre outros. O senhor dirige um centro de pesquisa na Itália que busca transformar pesquisas em inovações para o mercado. Isso é um desafio em seu país? É um desafio em qualquer lugar. Transformar pesquisas em inovação é, primeiro, uma questão de foco, de descobrir as áreas em que você quer investir. Existem muitas áreas e não é possível

trabalhar com todas, precisamos focar em algumas. No Future Centre, focamos em dados: como obtê-los, como visualizá-los, como levá-los para as pessoas, como incentivar o empreendedorismo, como gerar novos negócios nesse campo. Que lições poderiam ser aproveitadas aqui no Brasil? Nós tivemos uma boa experiência com estudantes brasileiros que passaram pelo EIT ICT Lab. Lá, exploramos o potencial da inovação. E, ao observá-la, é preciso pensar na economia – isso vale para qualquer país. Para fazer dinheiro, você deve vender seu produto em algum lugar. Então, nós incentivamos: pense no Brasil. Onde seu produto faria a diferença? Como você deve adaptar a ideia desenvolvida aqui para ter sucesso no Brasil? Vocês recebem estudantes de todo o mundo no laboratório italiano do EIT. Qual a importância dessa experiência internacional? Como o senhor vê o Programa Ciência sem Fronteiras, do governo brasileiro? Eu acho que é um programa muito bom, que basicamente acabou de começar. Fizemos a primeira seleção para a Itália em dezembro, estamos esperando a chegada desse grupo. Assinamos com o Brasil uma participação pelo período de cinco anos. No centro que eu dirijo, teremos três estudantes brasileiros. Se pensarmos em toda a Itália, devemos ter milhares. Eles estão chegando não para aprender, mas para fazer projetos conosco. Esse é um programa muito importante, que abre oportunidades. Normalmente, os estudantes permanecem de seis meses a um ano em nosso laboratório e esse período é sempre muito bom para nós e para eles. Depois disso, alguns até permanecem na Itália, mas a maioria volta. Há semelhanças entre Brasil e Itália na área de Ciência e Tecnologia? Bem, ambos estamos correndo atrás dos Estados Unidos. Isso é comum. Vejo muito potencial também, especialmente no Brasil – vocês estão crescendo muito rápido. A pirâmide social está ficando achatada, mais e mais pessoas estão tendo acesso à educação e a novas oportunidades. Resumindo, há um grande potencial a ser explorado. MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/AGO 2012

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TECNOLOGIA DE ALIMENTOS

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Sem ele, definitivamente, a “hora do café” não seria a mesma. Alimento tradicional à mesa de milhões e milhões de brasileiros, o queijo Minas tornou-se popular em função dos muitos predicados que o definem. Poucos sabem, contudo, que, além de saudável, prático e saboroso, este clássico derivado do leite enfrenta uma série de desafios em seu processo de fabricação. Se, hoje, o chamado “mercado lácteo” mundial passa por significativas mudanças de paradigma – fruto, em grande medida, das pressões econômicas sobre as indústrias do setor –, a busca por inovação tecnológica surge como eficiente alternativa para que, ao mesmo tempo, seja possível aprimorar a qualidade dos produtos e ampliar a competitividade das empresas. Dentre tais inovadoras estratégias para desenvolvimento de laticínios, o uso de dióxido de carbono (CO2) tem despertado vasto interesse dos especialistas. Trata-se, afinal, de composto químico seguro, de aplicação simples e baixo custo. Estudos em “países economicamente estáveis” demonstram que o emprego do CO2 na indústria de queijos proporciona, ao processo de produção, benefícios como diminuição do tempo de coagulação e aumento da firmeza da coalhada. “Além disso, há maior liberação de soro, redução da dose de coalho, alterações no rendimento e melhor controle do processo”, ressalta Junio Cesar Jacinto de Paula, doutor em Ciência e Tecnologia de Alimentos pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e professor do Instituto de Laticínios Cândido Tostes, ligado à Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig). Com apoio financeiro da FAPEMIG, o pesquisador realizou experimentos, em escala industrial, nas dependências do Laticínio Ita, na cidade de Itabirito (MG). À frente dos equipamentos da empresa, coordenou a fabricação de queijos Minas (frescal e padrão) com adição de dióxido de carbono ao leite pasteurizado. “Pretendíamos usar o CO2, ‘in loco’, numa indústria tradicional – o que, aliás, remete à vivência da produção de queijos Minas no Estado –, para que chegássemos a resultados condizentes com a realidade”, explica Junio de Paula. Ao longo do estudo, além

A alta popularidade dos queijos Minas (frescal e padrão) no mercado brasileiro diz respeito não apenas às singulares propriedades gastronômicas do alimento, mas também à natureza de seu processo de feitura. Além do alto rendimento e do baixo custo final, o produto se destaca pela fabricação simplificada – o que, no fim das contas, acaba por resultar em preços acessíveis a todas as classes sociais. das etapas de produção, realizaram-se análises físico-químicas, microbiológicas e sensoriais no Instituto “Cândido Tostes”, e investigações do perfil de textura e das propriedades microestruturais e reológicas – relativas à “mecânica dos fluidos” – nos laboratórios da UFV. Os resultados da pesquisa corroboram a ideia de que os benefícios tecnológicos e econômicos gerados são suficientes para ampliar o estudo acerca do uso de dióxido de carbono para a fabricação de queijos. “Não havia, na literatura, trabalhos que avaliassem, industrialmente, os efeitos da incorporação do CO2 ao leite para a produção dos tipos Minas frescal e padrão”, conta, ao esclarecer que o principal objetivo do trabalho foi, justamente, a avaliação, em escala industrial, dos múltiplos impactos, no produto final, do referido composto químico. Como propósitos específicos, a pesquisa buscou qualificar distintos processos de incorporação de CO2 e verificar seus efeitos quanto aos aspectos tecnológicos e às características físico-químicas e microbiológicas dos dois tipos de queijos elaborados no Laticínio Ita. “Verificamos, ainda, as mudanças de rendimento, a evolução dos Apesar de coordenada pela Epamig, a pesquisa se desenvolveu, na verdade, com a tese de doutorado de Junio de Paula, sob orientação do professor Antônio Fernandes de Carvalho, da UFV. As empresas Laticínio Ita (onde ocorreu a fabricação dos queijos, com adição de CO2) e Air Liquide do Brasil (que forneceu o gás CO2) também apoiaram o projeto. MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/AGO 2012

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Fotos: Junio de Paula

índices de maturação durante o armazenamento, a ‘aceitabilidade’ sensorial, a microestrutura e a capacidade de acidificação do fermento lático na fabricação do Minas padrão e nas propriedades mecânicas e reológicas do Minas frescal”, conclui.

Economia

Aparelho usado para medir pH do tanque de fabricação de queijos

Equipamentos para análise microestrutural do dióxido de carbono no leite

Diversas pesquisas hoje realizadas no Brasil – bastante similares ao projeto coordenado por Junio de Paula – revelam a tendência, no atual cenário do setor de alimentos, pela substituição dos métodos de prevenção – que alteram química e fisicamente os alimentos – por métodos menos severos. “Grande atenção tem sido dada a novas tecnologias de processamento e acondicionamento, tais como atmosfera modificada, embalagens ativas e adição de CO2”, explica o professor, que há mais de dez anos investiga o uso de dióxido de carbono em produtos derivados do leite. Já em seu mestrado, defendido em 2004, na UFV, o pesquisador da Epamig buscava avaliar a estabilidade de bebida carbonatada – o mesmo gás encontrado nos refrigerantes, fruto da adição de CO2 – à base do soro de queijo. Ao longo da pesquisa, Junio de Paula pôde perceber que a

Minas em dois sabores A pesquisa desenvolvida sob coordenação da Epamig investigou dois dos mais conhecidos queijos oferecidos ao consumidor brasileiro. Conforme revelam as principais características de ambos, contudo, trata-se de produtos categoricamente distintos. Obtido por coagulação enzimática do leite, com ação de bactérias láticas específicas, o “frescal” destaca-se – segundo revela seu próprio nome – como produto fresco, semigordo e de alta umidade. Também chamado de “queijo de massa branda, mole ou macia”, possui formato cilíndrico, peso entre 0,3 kg e 5,0 kg, cor esbranquiçada, odor suave, baixa acidez e curta durabilidade – o que, aliás, exige consumo rápido. Por outro lado, o “padrão” – também conhecido como curado, padronizado ou prensado –, apesar da origem em Minas Gerais, também é produzido em diversos outros estados brasileiros. Queijo de massa prensada – à qual se adiciona fermento lático mesofílico –, possui período de maturação relativamente curto (de 20 a 30 dias), entre 10°C e 12°C. Além disso, apresenta formato cilíndrico, com faces planas, bordas retas, peso de 0,8 kg a 1 kg, crosta lisa e amarelada, consistência semidura e sabor levemente ácido. Entre aqueles de massa crua, os queijos Minas destacam-se, significativamente, como os mais populares do País. Juntos, representam cerca de 8% do mercado brasileiro. Em 2010, o “Frescal” foi o quinto mais fabricado no Brasil, com volume total de 40.070 toneladas. No que diz respeito ao “Padrão”, no mesmo período, verificou-se produção de 8.855 toneladas.

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própria literatura corroborava os princípios de seu trabalho: os benefícios tecnológicos e econômicos gerados pelo uso do dióxido de carbono justificariam a aplicabilidade da técnica. Além disso, serviriam de incentivo a outras tantas pesquisas acerca do tema. Somem-se, a tal constatação, os relatos informais, surgidos nas próprias indústrias do setor, sobre a enorme diminuição de gastos resultante do uso de leite acidificado, durante a fabricação de queijos, por meio da injeção de CO2. “A economia gerada e a diminuição de uso de coagulantes revelavam-se suficientes para garantir, em apenas dois meses e meio, total retorno do investimento feito na implantação do sistema”, diz.

Barreiras legais No Brasil, um dos principais entraves ao uso de CO2 durante o processo de produção de queijos diz respeito à legislação do País. Considerado inócuo ao consumo humano – já que se trata de “Produto Reconhecido como Seguro” ou Generally Recognized as Safe (GRAS), conforme a expressão em inglês –, não carece de ser declarado no rótulo dos alimentos oferecidos, nas gôndolas, à população. Apesar disso, o Serviço de Inspeção Federal proibiu a adição de dióxido de carbono ao leite. “Como justificativa, infere-se que os possíveis efeitos microbiológicos, relatados na literatura, possam gerar negligência no que refere às boas práticas de produção do leite e seus derivados”, afirma Junio de Paula, ao declarar, porém, que os principais efeitos benéficos da iniciativa, em relação ao queijo Minas, têm caráter estritamente tecnológico. “Sendo assim, acreditamos que a legislação sobre o assunto poderia avançar, tendo por subsídio, inclusive, a nossa pesquisa”, diz o professor. Importante ressaltar que o próprio projeto coordenado por Junio precisou de autorização especial do Serviço de Inspeção Federal, para que pudesse se realizar numa fábrica de queijos. Os resultados da pesquisa, já publicados em revistas nacionais, têm sido usados por indústrias do setor, que, no momento, mobilizam-se – juntamente à Associação Brasileira das Indústrias de Queijos (Abiq) – em defesa da liberação do uso da inovadora tecnologia no Brasil.


Lácteas toneladas de saúde Nova tecnologia pode também auxiliar combate à contaminação dos laticínios 60% da comercialização total, pode-se concluir que a fabricação, na verdade, ultrapassou 1,3 milhão de toneladas há dois anos. Em meio a tal gigantesca produção, diversas pesquisas já identificaram “pontos críticos” durante o processamento dos queijos, com destaque para problemas relativos à matéria-prima, ao tanque de coagulação e à salmoura. “As bactérias do grupo coliformes são indicativas de condições higiênico-sanitárias inadequadas”, afirma o pesquisador. Microrganismos psicrotróficos têm destaque especial, por alterarem os produtos sob refrigeração, devido à produção de enzimas (lipases e proteases) que degradam os lipídeos e as proteínas, resultando em alterações sensoriais e de textura do alimento. Ao longo dos anos, diversos surtos de doenças foram associados à ingestão de queijos, devido, principalmente, à presença, nos produtos, de Staphylococcus aureus, de E. coli, B. cereus, Listeria monocytoge-

nes e de Salmonella sp. Falhas ocorridas ao longo de todo o processamento, aliadas a temperaturas inadequadas de conservação durante a comercialização, são fatores que contribuem para a venda dos alimentos fora dos padrões regulamentares. “A dificuldade de exportação e os principais problemas com a produção de queijos no Brasil relacionam-se, principalmente, à baixa qualidade do leite produzido, às péssimas condições de fabricação e à falta ou ineficiência da cadeia de frio”, explica Junio de Paula. Muitas vezes, portanto, os processos de fabricação e armazenamento são responsáveis pela contaminação, o que, em certos casos, pode, até mesmo, transformar-se em problema de saúde pública. “Neste sentido, o estudo da aplicação do CO2 nos queijos Minas é também um modo de avaliar os efeitos de tal estratégia tecnológica contra uma série de contaminações microbiológicas”, completa. Fotos: Junio de Paula

Quinta maior nação em volume de litros, o Brasil responde por 5,3% da produção mundial de leite. Neste cenário – e como fruto da tríade “tradição, clima e topografia” –, Minas Gerais revela-se o principal estado brasileiro a produzir o “ouro líquido branco” e a fabricar queijos, sendo responsável por mais da metade da produção nacional. Segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a indústria queijeira é o principal destino (33%) do leite do País. “Nos últimos anos, a produção de queijos tem aumentado expressivamente. Os maiores aumentos ocorreram no período em que a população apresentou maior poder aquisitivo. Ou seja, após a implantação do Plano Real”, explica Junio de Paula. Em 2010, conforme estatística da Abiq, foram produzidas – sob inspeção formal – 801.440 toneladas do alimento, com aumento de 11% em relação a 2009. Ao se considerar que o mercado formal equivale a

Técnicos trabalham na embalagem dos queijos

Análise da textura, importante para o estudo da fabricação de queijo Minas

Projeto: Influência da adição de dióxido de carbono (CO2) na fabricação de queijo Minas Coordenador: Junio Cesar Jacinto de Paula modalidade: Demanda Universal Valor: R$ 23.961

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Foto: Maria Melendi

história

A arte de lembrar

Virgínia Fonseca

Monumentos construídos em espaços públicos perpetuam a memória de fatos contemporâneos

Altar popular no local da boate Cromañón, em que 194 pessoas morreram e centenas ficaram feridas, durante um incêndio, em dezembro de 2004 - Buenos Aires, Argentina

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“Uma ferida aberta”: esse é o simbolismo do Parque de la Memoria, monumento às vítimas do terrorismo de estado construído em Buenos Aires, Argentina. Inaugurado em 2007, o parque é composto por quatro trilhas de concreto em que estão afixadas 30 mil placas de pedra, nas quais são gravados os nomes de homens, mulheres e crianças mortos ou desaparecidos sob ação do governo durante o regime ditatorial que tomou conta do país nas décadas de 1970 e 1980. O local é tido como um espaço de reflexão e lembrança para cada uma das pessoas ali incluídas – até o momento foram gravados 9 mil nomes e o trabalho segue em andamento, pois estima-se em 30 mil o número de vítimas. A própria forma de construção do monumento, como um


“corte” na terra, é alusiva à cicatriz deixada na sociedade argentina pela repressão. Toda essa representatividade torna o parque um dos mais emblemáticos objetos de estudos sobre a relação entre memória e arte, campo de pesquisa da professora Maria Angélica Melendi, da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em meados dos anos 1990, Maria Angélica iniciou um trabalho de análise de arquivos contemporâneos, focado em obras de arte que apontavam para a memória de catástrofes como o holocausto, genocídios, ditaduras. A partir desta pesquisa, a professora começou a investigar também monumentos que estavam sendo feitos – sobretudo na América Latina, que é o seu campo de estudos – em homenagem a desaparecidos e mortos pelo terrorismo do estado, vítimas de ditaduras. Na época, havia iniciativas de memoriais na Argentina, Uruguai e Chile. “Eu os relacionei com os monumentos feitos depois da II Guerra Mundial para identificar as diferenças. E fui notando que havia alguns grupos, sobretudo na Alemanha, de artistas que faziam antimonumentos, contramonumentos, que tendiam à horizontalidade e, às vezes, à desaparição”, conta a professora. A percepção levou a um projeto de pesquisa intitulado “Monumentos horizontais; a memória nas ruas”. A expressão refere-se mesmo à posição horizontal dos monumentos, em contraponto à verticalidade que costumava predominar nestas obras.

Uma mudança de posição da arte quanto aos monumentos pode ser constatada nas últimas décadas. A relação negativa estabelecida após a II Guerra Mundial, quando a arte se afasta do monumental e da representação, inverte-se nos anos 1980. “Começa uma demanda de monumentalização, ou pelo menos de se fazer recordatórios, memoriais, há uma reaproximação”, comenta a professora. Entretanto, esse novo contato com o artista não se dá de modo automático, ele encontra-se com esta demanda, mas a forma clássica da monumentalidade já não funciona. Então, o desafio é criar novas maneiras de representar a lembrança. A maior transformação se dá, porém, quanto ao objeto da representação. Enquanto os monumentos clássicos eram de vitórias, os contemporâneos em geral são relativos à derrota. Um dos principais exemplos neste sentido é o memorial aos veteranos da Guerra do Vietnã. “Ele lembra os soldados que morreram e não os generais que comandavam”, valida a pesquisadora. Maria Angélica percebeu também que, apesar de ter havido essa reaproximação com a arte, os monumentos estão cada vez mais independentes dos artistas. O próprio Parque de la Memoria, na Argentina, foi uma iniciativa de associações de direitos humanos e de parentes das vítimas.“Eles se tornam cada vez mais populares, às vezes partem não do poder público, mas dos próprios moradores”, infere.

O monumental e o memorial

Como maneiras de resgate da memória, os monumentos assumem diversos

formatos, nem sempre grandiosos. Na Alemanha, a pesquisadora cita placas de bronze colocadas no passeio em frente às casas e que informam situações ocorridas com seus antigos moradores, como assassinatos, prisões. Outros optam pela realização de performances ou formas diferenciadas de memorial. No Peru, um grupo se reuniu em frente à casa de governo para lavar e dependurar bandeiras em protesto contra o ex-presidente Alberto Fujimori. O que era a ação isolada acabou se espalhando, atraiu pessoas que se juntaram espontaneamente, tomou o país e motivou manifestações similares mesmo em outras nações – inclusive no Brasil, onde por vezes se presenciou a lavagem de bandeiras de partidos políticos e até times de futebol. Às vezes, o ato sai do campo artístico e conclama multidões. No Brasil não há, ainda, modelos de grandes monumentos horizontais construídos. Existem exemplos que podem ser considerados no sentido de resgate e manutenção das lembranças, mas que não costumam estar no espaço público. Maria Angélica cita obras da artista mineira Rosângela Rennó, como Imemorial e Cicatriz, que apontam para essas memórias reprimidas. O paulista Nuno Ramos também é mencionado por sua instalação 111, sobre o massacre do Carandiru. Mas esses trabalhos ficam em galerias de arte e não nas ruas ou permanentemente expostos. A pesquisadora acredita que o fato de as manifestações, neste sentido, serem menos usuais no País esteja ligado à forma algo “mediada” como aqui se deu a passagem do processo ditatorial para a democraFoto: Martin Blanke, Berlin e Gerz Studio

Jochen Gerz, Monumento contra o racismo / Monumento invisível, 1993 - Saarbruck,Alemanha

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O artista e o ativista

Manifestações visuais como as que ocorreram nos últimos anos, em que foram colocadas centenas de cruzes nas areias da Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em protestos pelas vítimas da violência, pela tragédia na região serrana do Estado, entre outras, são consideradas pela pesquisadora como uma apropriação estética de grupos ativistas. “São ativistas, não são artistas, mas usam formas que vêm da arte, porque causa mais impacto”, analisa. Embora, acrescenta, de alguma maneira se aproximem do campo da arte, já que se utilizam desse formato para chamar atenção. Outro movimento que começou a acontecer no Brasil está relacionado à ideia de se colocar flores, fotos e outros objetos que lembrem as vítimas em espaços onde tragédias tiveram lugar. Para a pesquisadora, esta postura é reflexo de uma conduta comum nos Estados Unidos. Porém, não se trata apenas de “importar” um comportamento. Em certa medida, ela ressalva, há anos isso já ocorre no interior do país – representado, por exemplo, pelas cruzes afixadas em rodovias, que marcam locais de acidentes – embora a cidade tenha perdido esta cultura. Ao construir o seu próprio “altar” nos pontos que indicam tragédias e fatos marcantes, os indivíduos tomam em suas mãos o poder da rememoração. Esta ação

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também tem um forte significado para a professora. É como se as pessoas, muitas vezes pertencentes a classes menos favorecidas, soubessem que estão tão desamparadas que só podem contar consigo mesmas para preservar aquilo que precisa ser lembrado, ninguém fará isto por elas. Todas essas ações têm em comum seu objetivo e sua contribuição para a preservação da memória de uma comunidade. Memoriais, representados seja por grandes monumentos ou por fotos, objetos, funcionam como testemunhas dos fatos e quase como documentos. “Não tem que ser aceito cem por cento, mas também não é questionado. Fica preservado neste sentido, da memória”, reforça Maria Angélica.

O poético e o político

No Brasil, desde o final do século XX, existem jovens artistas que se unem em grupos e têm se apropriado da cidade para realizar intervenções. Eles fazem ações ativistas nos espaços públicos, chamando para a recuperação da cidade, denunciando situações insustentáveis. Porém, têm um caráter mais voltado para o tempo presente. De acordo com a professora, esses projetos de memória são mais poéticos do que políticos. Ela acredita que isso ocorre porque os conflitos são menores e novamente vê nisso uma herança cultural clara. “Eles não vivem em uma lembrança do passado, estão visualizando problemas de hoje, enquanto os artistas do resto da América Hispânica ainda reivindicam alguma solução para questões passadas que não se resolveram completamente”, diz.

O mito e o rito

As conclusões dos estudos levaram a pesquisadora a refletir o quanto de religioso há nos procedimentos de rememoração: não da religião convencional, mas em um sentido

mais amplo, da repetição de rituais. Tal como uma procissão lembrando os mortos, colocam-se flores, velas e determinados atos que são ritualísticos. Para Maria Angélica, é uma espécie de “mito sem rito”, formas de relação com o espaço e o tempo que vêm de um passado longínquo. Uma questão que, para a maioria das pessoas, chega pela religião católica, mas que remonta a épocas arcaicas. “Há uma transposição do sagrado, que vem de eras bem antigas, do que seria uma espécie de culto aos mortos”, pondera. E como uma descoberta leva a outras, a professora já se dedica, a partir dessa constatação, ao seu próximo desafio: estudar os rastros do sagrado na arte contemporânea. Foto: Maria Melendi

cia. “No Brasil, a ditadura termina já com a anistia, com as pessoas voltando do exílio. As coisas tendem, então, mais à celebração dos que voltaram do que à lembrança dos que se foram”, considera. Ela explica que na Argentina, por exemplo, a ferida de fato permanece aberta. As juntas ditatoriais foram julgadas e condenadas, mas receberam indulto de um governo constitucional que veio em seguida. “A coisa não está fechada e vai ser difícil fechar, eu acredito”, reflete.

Parque de la Memoria: nomes de vítimas da ditadura gravados nas pedras e na lembrança – Buenos Aires, Argentina

Projeto: Monumentos horizontais; A memória nas ruas Coordenador: Maria Angélica Melendi de Biasizzo Modalidade: Demanda Universal Valor: R$ 35.161

Monumentos clássicos

Monumentos contemporâneos

Monumento equestre do Imperador Marco Aurélio, Roma. 176 d C

Monumento aos veteranos da guerra do Vietnã (1982) – Washington D.C., Estados Unidos

Obelisco da Vitória (1873) – Berlim, Alemanha

Memorial do Holocausto (2005) – Berlim, Alemanha

Monumento ao Duque de Caxias, (1960) autor Vitor Brecheret. Praça Princessa Isabel, São Paulo.

Parque da la Memoria (2007) – Buenos Aires, Argentina

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NOVA IDENTIDADE

Mais moderna e dinâmica

Nova logo da FAPEMIG. Dinamismo e contemporaneidade foram os conceitos utilizados

Dinâmica, contemporânea, moderna: assim pode ser definida a nova logo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), apresentada no último dia 22 de junho. “O objetivo principal dessa criação foi revitalizar a identidade visual da FAPEMIG, de forma a deixá-la mais atual e em sintonia com os valores e missão da Fundação”, explica o presidente da Fundação, Mario Neto Borges. “A logo original era muito estática e rígida. Com a de 25 anos criamos uma identidade contemporânea e conceitual. A partir dela foi concebida a nova logo, que apresenta linhas mais dinâmicas. Ela foi conceituada a partir dos três eixos de atuação da FAPEMIG – Ciência, Tecnologia e Inovação – com o triângulo, símbolo da bandeira de Minas Gerais, representando cada um desses eixos”, explica Hely Costa Jr. , designer responsável pela criação. A nova identidade visual já pode ser vista no portal (www.fapemig.br) e

começou a ser utilizada na papelaria, documentos e peças gráficas da instituição. Pesquisadores e bolsistas deverão utilizar a nova logo nos documentos enviados à Fundação. Peças gráficas, como banners de eventos e projetos apoiados pela FAPEMIG, também deverão ter a aplicação da nova marca. O download do arquivo pode ser feito no portal, através do link http://migre.me/9LP1r

Inovação e modernização

A FAPEMIG é a agência de fomento à pesquisa e à inovação científica e tecnológica do Estado. Hoje, ela é também uma das principais agências de fomento do País. Com orçamento que ultrapassa os R$ 300 milhões, seus recursos são investidos no financiamento de projetos, concessão de bolsas, intercâmbio de pesquisadores, divulgação científica, interação com empresas, dentre outros. Os 25 anos da FAPEMIG, celebrados em 2011, foram marcados não só pelo reconhe-

cimento, mas também por importantes parcerias firmadas. Grandes mudanças também marcaram o Jubileu de Prata: uma nova estrutura institucional começou a funcionar e uma nova sede a ser construída. Com espaço adaptado para atender às necessidades de uma agência de fomento, primando pela sustentabilidade, as obras do complexo devem ser finalizadas no início de 2013. O objetivo é tornar a Fundação mais moderna e ágil. O lançamento do livro “FAPEMIG 25 anos – História em Pesquisa”, no final de maio deste ano, encerrou as comemorações de 25 anos da Fundação. No encontro, foi assinada uma importante parceria entre a FAPEMIG e a Fiemg/Sebrae na área de inovação, foco de atuação da FAPEMIG para 2012. “Não vamos deixar de atuar no eixo da ciência pura apoiando a atividade acadêmica, mas atualmente temos dois fortes objetivos: a internacionalização da ciência mineira e a inovação da indústria no Estado”, afirma o presidente da FAPEMIG.

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Geociências

Ilhas de calor Pesquisa mostra como a intervenção do homem pode ser responsável pela variação de temperatura em pontos diferentes de uma mesma cidade

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Diogo Brito


O termo ilha de calor é um conceito que foi desenvolvido na América do Norte e nada mais é do que o aumento e a permanência de temperaturas elevadas em uma ou mais regiões de uma cidade. Um exemplo simples e fácil de ser percebido: a sensação de calor ao caminhar durante a noite por uma avenida como a Afonso Pena, uma das mais movimentadas de Belo Horizonte, é maior que a percebida durante uma caminhada no mesmo horário pelo Parque Municipal. Isso acontece por haver no parque um grande espaço verde, com árvores e lagos, diferente do restante do Centro da cidade, caracterizado por várias alterações em decorrência da urbanização. Um estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) analisou diversos pontos da capital mineira para mapear as regiões que possuem as ilhas de calor. A pesquisa constatou que a intervenção do homem e a maneira como é ocupado o solo são algumas das grandes responsáveis pela formação dessas ilhas. Os resultados chamam a atenção para a necessidade de arborização da cidade e de preservação das áreas verdes já existentes, como o Parque Municipal. A pesquisa teve início em 2008 e utilizou 20 termo-higrômetros, aparelhos que

medem a umidade do ar. Eles foram distribuídos em várias regiões de Belo Horizonte, desde Venda Nova, no extremo norte da capital, até o Belvedere, no extremo sul. Quatro estações climáticas oficiais e dois aeroportos também auxiliaram na pesquisa com o envio de dados sobre o clima. A coordenadora do projeto, Magda Luzimar, do Instituto de Geociências da UFMG, explica que as medições foram realizadas durante todo o ano, mas os dados avaliados foram aqueles colhidos nos meses de inverno, à noite. “Nessa época, não temos chuvas e a noite é o momento em que a energia do sol absorvida está sendo liberada”, diz. Magda afirma que muitos fatores contribuem para a formação das ilhas de calor, como a topografia da região, a densidade urbana e também o tipo de material usado na urbanização. “Uma região como a Serra do Curral, com boa parte de sua vegetação preservada e nenhuma intervenção do homem, não é uma ilha de calor, pois toda a energia do sol é absorvida pelas árvores e usada nos processos naturais das plantas. Como exemplo oposto, temos a região central de Belo Horizonte, com muitos edifícios, avenidas asfaltadas e poucas árvores. Isso retém o calor e dificulta a dispersão de energia”. A forma como as cidades foram construídas contribui para agravar o problema. Prédios muito próximos dificultam a dispersão de energia e também são causa do aumento da temperatura. “O calor que deveria ser liberado no período noturno fica retido nessas áreas. Ao invés de ir para a atmosfera, permanece numa espécie de “bate e rebate” entre o concreto”, completa.

Climas variados Como já era esperado, a maior concentração de calor na capital mineira foi identificada no Centro da cidade. De acordo com Magda, mesmo com o conforto térmico causado pelas sombras dos prédios durante o dia e os corredores de ar, no período da noite toda a energia absorvida não é devolvida para atmosfera. Isso provoca a sensação de calor e transforma a região em um núcleo de aquecimento. Uma curiosidade fica por conta da região de Venda Nova. Mesmo com as altas temperaturas registradas e a forte sensação

de desconforto térmico durante o dia, a região é considerada um núcleo de resfriamento. Contribui para isso a grande presença de casas ao invés de edifícios. Com isso, no período noturno, a energia do sol é liberada para a atmosfera. O mapa produzido a partir dos dados coletados (abaixo) mostra que o bairro Mangabeiras, Centro-Sul de BH, é uma das áreas com menor média de temperatura, fato que, em parte, também pode ser explicado pela predominância de casas ao invés de prédios e pela grande presença de árvores. A formação de ilhas de calor tem consequências diversas. Uma delas é a mudança do próprio clima da capital. De acordo com a pesquisadora, a literatura científica mostra que Belo Horizonte possui duas estações bem definidas: uma seca e uma chuvosa. A primeira tem início no final do mês de março, marcando o começo do outono, e permanece até o final de setembro, finalizando o inverno. A segunda, caracterizada por elevadas temperaturas e pancadas de chuva, inicia-se no final de setembro, com a primavera, e permanece até meados de março, com o final do verão. Mas, a partir dos dados coletados, a equipe percebeu que a intervenção humana está criando climas locais ou microclimas. Esse é um ponto que, de acordo com a pesquisadora, ainda pode ser explorado em estudos futuros. A pesquisa mostra não apenas a localização das ilhas de calor, ou dos pontos que são considerados áreas de resfriamento, como o Parque Municipal, mas também indica que o planejamento detalhado sobre o clima e os efeitos da intervenção humana auxilia em uma melhor estrutura climática. Com o conhecimento de como são formadas as ilhas de calor, é possível planejar como será feita qualquer modificação no uso do solo e, dessa maneira, a urbanização pode ser feita de forma prática e funcional, observando cada característica da região. PROJETO: Mapeamento das unidades climáticas urbanas e ilhas de calor do município de Belo Horizonte COORDENADOR: Magda Luzimar de Abreu MODALIDADE: Demanda Universal VALOR: R$ 46.331

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engenharia espacial

O céu (não) é o limite Estudantes mineiros se preparam para construir banco de testes para foguete universitário

Virgínia Fonseca

Meio século se passou desde que o homem foi, pela primeira vez, ao espaço. O ano era 1961 e o mundo vivia a Guerra Fria quando o soviético Yuri Gagarin deu a volta em órbita ao redor do planeta e anunciou, fascinado, que “a Terra é azul”. Ao longo desse tempo, o Brasil tem ouvido, sempre em outros idiomas, as frases célebres que acompanham cada conquista espacial. Com o objetivo de contribuir para o fomento de pesquisas nacionais na área, estudantes de Engenharia Mecatrônica da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) trabalham no projeto de uma bancada de teste para motores de foguetes. O equipamento, primeiro a ser construído no país a partir de trabalhos acadêmicos, contribui para uma proposta que reúne outros grupos em torno da ideia de montar o também inédito foguete universitário nacional. Cada instituição colaboraria com uma parte da construção do foguete, de acordo com a sua especialidade acadêmica. “Nós não temos um

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curso na área de aeroespacial, mas temos o de mecatrônica, que envolve mecânica e eletrônica, então, percebemos que éramos capazes de projetar e desenvolver a bancada de testes para o motor”, conta o professor do Instituto de Ciências Exatas e Informática da PUC-MG, Welerson Romaniello Freitas, que coordena os alunos. A iniciativa de participar dessa “empreitada” aeroespacial veio dos próprios estudantes, idealizada pelo aluno Bruno Garkauskas Neto. Hoje, sete graduandos se dedicam ao projeto, sob orientação do professor Romaniello, que foi convidado para coordenar a equipe. Trata-se de um banco para medir a potência (empuxo) do motor. O objetivo é proporcionar testes que permitam averiguar se o motor é capaz de um empuxo suficiente para erguer uma determinada carga. No caso do trabalho em andamento, o grupo planejou um banco capaz de testar motores pequenos, com o empuxo de 10 quiloNewtons – o que, a título de ilustração, seria o suficiente para levantar um carro popular com massa de uma tonelada. As projeções estão de acordo com a proposta do protótipo de foguete universitário, que deve ter dimensões reduzidas. “Não podemos comparar, por exemplo, com os foguetes norte-americanos, estamos falando de coisas distintas”, lembra o coordenador. De acordo com o projeto, a plataforma será constituída por uma estrutura similar a uma balança, com dois braços de aço. Para permitir o equilíbrio, é colocado de um lado um contrapeso móvel e, de outro, uma armação rígida de concreto sobre uma célula de carga – um tipo de sensor para medição de força em tração (ou peso em compressão). O motor é, então, conectado na parte inferior da célula de carga e, ao ser acionado, exerce pressão sobre este dispositivo, provocando sua deformação. Quanto maior a alteração provocada na célula, maior o empuxo do motor. O banco deve ser construído na Fazenda da PUC-MG, em Esmeraldas, região Metropolitana de Belo Horizonte, mas montado sobre chassis, para que seja possível deslocá-lo, caso necessário, até algum lugar onde se queira realizar os testes. Isto facilitaria a utilização do equipamento por outras instituições, como a Universida-

de Federal de Minas Gerais (UFMG), que trabalha no projeto de um motor para o foguete universitário. Segundo o professor, inicialmente o grupo havia previsto construir o projeto para a parte estrutural, porém, logo perceberam que já tinham isso pronto e que dispunham, inclusive, do material para sua execução. Os alunos levantaram uma série de informações, fizeram visitas ao Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), em São José dos Campos (SP), para conhecer a única bancada de testes que há no país. “Visualizamos que seríamos capazes de construir também o projeto hidráulico, um conjunto de válvulas de controle que vai monitorar o combustível e todos os fluidos que passam pelo foguete, além das temperaturas das câmaras e da chama”, conta Romaniello. Ele explica que será possível avaliar o rendimento do motor, seu consumo em determinado espaço de tempo, contribuindo para as adequações necessárias. Também faz parte do desafio da equipe criar uma alternativa para a coleta de dados, ou seja, interfaciar todos os instrumentos com um computador, possibilitando operar o controle de maneira remota. Os alunos já se dedicam à construção da parte estrutural e, paralelamente, à busca de recursos junto a entidades financiadoras, visando aporte para aquisição de equipamentos necessários na execução do projeto hidráulico. Obtidos os recursos, Romaniello calcula que sejam necessários de seis a nove meses para apresentar o banco pronto, montado sobre chassis, conforme planejado.

“A partir de bancadas de foguetes como essa podem surgir trabalhos de conclusão de curso, dissertações, teses, tudo já evoluindo para essa área” Welerson Romaniello Freitas professor do Instituto de Ciências Exatas e Informática da PUC-MG

Um grande passo para o País A construção da plataforma de testes e de um foguete universitário tem, sobretudo, o aspecto de desenvolver a cultura aeroespacial no Brasil, incentivando que se exercitem esses estudos acadêmicos. “A partir de bancadas de foguetes como essa podem surgir trabalhos de conclusão de curso, dissertações, teses, tudo já evoluindo para essa área”, antevê Romaniello. O pesquisador faz uma comparação com a indústria automotiva, que no passado recebeu estímulos por meio de projetos que investiam na construção de um veículo MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/AGO 2012

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Foto: Marta Carneiro

A equipe da PUC Minas, Bruno ao centro e professor Romaniello à direita (sentado), apresenta protótipo da bancada de testes

universitário. “Hoje, por exemplo, já temos instalada no país uma boa indústria automotiva. E não temos pesquisadores e nem atividades numa massa significativa ligados ao setor aeroespacial”, pondera. Além disso, o lançamento de um satélite ou foguete abrange aspectos tecnológicos das diversas engenharias disponíveis no mundo. Desde a Engenharia Civil, para construção da base, até a parte mecânica, eletrônica, de controle e automação, metalúrgica e de materiais, ambiental e de informática. Trata-se, segundo o professor, de um exercício de ponta para todos os ramos envolvidos e com amplos desdobramentos possíveis. Ele cita como exemplo a utilização do cristal líquido, hoje existente em variados componentes, desde relógios de pulso a celulares, e que deriva do projeto Apollo nos Estados Unidos. “As coisas nunca são estanques ou ficam restritas àquilo que estamos pesquisando. Há sempre desdobramentos e, às vezes, eles são maiores que o objeto em que estava a atenção inicial”, afirma. Resultados práticos de longo prazo, claro, também são apontados pelos pesquisadores. A capacidade do país de

construir foguetes e lançar satélites traz reflexos positivos em questões ligadas a monitoramentos climáticos, ambientais, de segurança, entre outros.

Para o infinito e além...

O professor Romaniello conta que a iniciativa de unir esforços na construção do foguete universitário partiu do engenheiro e empresário mineiro Rene Nardi, proprietário de uma empresa de engenharia de projetos para o setor aeroespacial. Ele divulgou a ideia de incentivar a construção de um protótipo de veículo espacial a partir do conhecimento gerado nas próprias universidades. Cada instituição assumiria uma parte distinta do processo, de acordo com a sua expertise - a uma caberia propósito de desenvolver, por exemplo, o motor; outra projetaria a fuselagem; e assim sucessivamente. “Através da Inotech, empresa de inovação sem fins lucrativos, estamos tentando agrupar algumas universidades para esse desafio. Temos a participação da PUC-MG e da UFMG, outras interessadas estão se organizando”, relata o engenheiro Rene Nardi. Nardi adianta que o projeto do motor já foi desenvolvido pela UFMG e algumas

O programa de exploração espacial Apollo foi idealizado pelo presidente John F. Kennedy no início da década de 1960 e desenvolvido pela agência espacial norte-americana Nasa (National Aeronautic and Space Administration) com o objetivo de levar o homem à Lua. Uma trágica estreia, em 1967, resultou na morte dos três astronautas da Apollo 1 devido a um incêndio provocado por curto circuito. Após intensos estudos – algumas missões tripuladas chegaram a ser adiadas –, em 1968 foi feita uma excursão pela órbita da Terra com a Apollo 7. E, em 1969, Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins finalmente comprovaram que o ser humano era capaz de chegar à Lua. A última missão do projeto foi realizada em 1972.

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partes estão sendo construídas. Com o intuito de desenvolver tecnologia nacional no setor, a empresa prospecta recursos para execução das propostas. “Tanto neste quanto em outros trabalhos que realizamos, tudo o que projetamos foi criado no país, por brasileiros, segundo processos nacionais. O Brasil tem tudo o que é necessário para fazer o foguete”, garante. Esta perspectiva é compartilhada com o estudante Bruno Neto, da PUC-MG, que desde os 17 anos (hoje está com 25) alimenta o sonho – e tentativas – de construir um foguete. “Sempre fui muito voltado para o setor de Aeronáutica, fiz curso técnico na área e quando iniciei a graduação em Mecatrônica fiquei especialmente encantado com a parte de propulsão”, conta. O aluno já fazia experimentos com pequenos foguetes e, quando começou a encontrar problemas nos resultados dos seus ensaios, resolveu ir mais fundo na parte teórica. As experiências se transformaram, assim, em um projeto, que acabou envolvendo outros colegas. Em busca de bibliografia para a proposta inicial, que era a construção de um minifoguete, Bruno viajou a São José dos Campos, onde conheceu o engenheiro Rene Nardi. Foi então que o conhecimento encontrou-se com a “vontade de fazer” e o jovem cientista organizou o grupo em Belo Horizonte. Ele acredita que as expectativas para o setor no país são boas. “Baseado no que tenho visto, este campo está se expandindo em uma velocidade grande no Brasil”, considera. Para o professor Welerson Romaniello, a proposta de construção do foguete está no contexto de uma mudança que precisa acontecer no Brasil e que está em andamento. “Vem de uma cultura do setor produtivo, que quer incentivar essa postura no país, e a universidade tem que passar também a produzir mais inovação”, analisa. O pesquisador observa que ainda há uma grande discrepância entre o volume de produção científica nacional e o processo de inovação. E, segundo ele, a atitude de transformar algo que não fique restrito ao papel é um passo importante para alterar esse quadro, gerando patentes, riqueza, e não apenas mão de obra. “É louvável a proposta de criar o espírito de inovação tecnológica e louvável a iniciativa dos alunos que se organizaram para construir”.


educação

eu Itinerante s u M , s a v ti ra m atrações inte m o c tar debate e n e e s a m d fo ro ra a re p b So as jará por Min ia v e cultura G o M ã F ç U a c u d e , Ponto a fic dução cientí ro p erme Silva Jr. a d o n r to Maurício Guilh

Quando surgiam ao longe, em seu colorido caminhão, não havia quem permanecesse alheio. Bastavam os primeiros “rugidos” do motor para que a alegria tomasse conta da população, prontamente à espera daqueles intrépidos visitantes, sempre dispostos a distribuir sonho, sorriso e arte. Caso o leitor se reconheça na breve descrição dos sentimentos ligados à chegada das trupes de circo a pequenos municípios mineiros, prepare-se para surpresa ainda maior. Substitua a alegria dos picadeiros

pela magia da ciência e, se for capaz, responda rapidamente: “Que reação teria diante da bela e misteriosa carreta ali estacionada, em cuja boleia exibe-se, vasto e inquieto, nada menos do que ‘o conhecimento’ – e sua fascinante miríade de possibilidades?” Pois não pense tratar-se, meu caro, de ficção científica: tal fabuloso veículo já existe e está mais próximo do que se possa imaginar. Em julho último, foi oficialmente inaugurado, na Praça de Serviços da Universidade Federal de Minas Gerais

(UFMG), o Museu Itinerante Ponto UFMG, caminhão especialmente equipado com o objetivo de desenvolver uma de série de “ações articuladoras”, capazes de estreitar os laços entre o conhecimento científico – produzido nas instituições de ensino superior e nos centros de pesquisa – e a sociedade. “Nosso intuito é chegar a alunos e professores da educação básica de cidades mineiras e promover momentos de contato com experimentos e objetos de aprendizagem preparados especialmente

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Foto: Foca Lisboa

No Museu Itinerante, há cinco salas para exposições interativas e uma para projeção em 3D; na foto, a Sala dos Sentidos, que permite interação dos visitantes

O Museu sobre rodas, pronto para partir

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para esse público, que, muitas vezes, não tem acesso a essa oportunidade”, explica a professora Tânia Margarida Lima Costa, coordenadora geral do projeto. Iniciativa que conta com o apoio da FAPEMIG, da Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep), o Ponto UFMG não se destacará, apenas, como espaço físico. Trata-se, também, da possibilidade de registrar a presença da universidade nos locais onde o veículo se instalar. “A ideia não é apenas oferecer visitas à população. Desejamos criar relações com as cidades, de maneira a identificar suas demandas e incorporá-las aos projetos apresentados. Buscaremos interação diferente, ao instigar discussões e estimular a emoção, o impacto e a surpresa. Após cada viagem, o Museu retornará diferente. Vamos trocar e socializar experiências, de modo a agregar um pouco da cultura de cada localidade”, destaca Tânia Costa, que também é diretora do Centro Pedagógico UFMG.

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Por meio do Museu Itinerante, para além da divulgação e debate da rotina de produção dos centros de pesquisa, pretende-se a criação de comunidades de cultura científica e o estímulo ao trabalho em rede. Somem-se a tais intuitos o compartilhamento de experiências e desafios e a possibilidade de fazer com que os alunos tenham ideias originais e ponham em prática tudo o que absorverem. “A alfabetização científica passa a ser compreendida como necessidade para a formação de uma ‘cultura’ fundamental ao exercício da cidadania”, comenta Jessica Norberto Rocha, coordenadora pedagógica do projeto. Compreenda-se “cultura científica”, conceito a amparar o Museu Itinerante Ponto UFMG, segundo discussão elaborada pelo professor Carlos Vogt, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). De acordo com tal princípio, para ampliar a relação entre ciência e sociedade, é fundamental buscar estratégias que superem a mera “divulgação” ou a simples “inserção”, no cotidiano das pessoas, de temas relativos à produção do


Fora de sala

O Ponto UFMG permanecerá no Centro Pedagógico da Universidade. Assim que se “entregar” às estradas mineiras, passará a atender às escolas públicas de todas as cidades do Estado. Nos intervalos entre as viagens, o Museu Itinerante ficará no campus Pampulha, onde será visitado por estudantes e professores de Belo Horizonte. Segundo os idealizadores do projeto, contudo, isso não basta: “Buscamos repensar os espaços de aprendizagem e levar os professores a fazer o mesmo. Não se trata, pois, de apenas levar o museu aos alunos, para que eles o visitem e, na semana seguinte, voltem para a escola sob a mesma rotina de aprendizado”, destaca Tânia Costa. Ao invés disso, espera-se que toda a comunidade escolar seja influenciada pela experiência de “pensar” a Ciência para fora da sala de aula. “Os professores precisam refletir sobre como isso pode ser feito com suas turmas e comunidades”. Já os pesqui-

sadores do Ponto UFMG precisam superar a singela questão: como, efetivamente, estimular os profissionais da educação fundamental? “Como forma de contribuir para a manutenção do Museu Itinerante, ofereceremos cursos de aperfeiçoamento de educação científica. Além disso, serão desenvolvidos materiais didáticos para fundamentar pedagogicamente as ações e as atividades”, explica a coordenadora geral. Também a história por trás da elaboração do projeto guarda elementos importantes à compreensão da natureza humanista do Ponto UFMG. Amadurecida desde 2006, a iniciativa mobilizou não apenas pesquisadores, mas também estudantes de graduação de diversas áreas do saber, como letras, biologia, pedagogia, matemática, sociologia, computação, direito, enfermagem, engenharias e comunicação social. Ao longo do tempo, os estudantes puderam encontrar – ou redefinir– sua área de atuação profissional, a partir, justamente, da experiência e do envolvimento junto à iniciativa. Tal constatação é reveladora dos efeitos proporcionados, até mesmo internamente, pelo “espírito” da iniciativa, sempre em busca de inovadoras estratégias para disseminação da “cultura científica”.

Fotos: Foca Lisboa

saber: “Para nós, investir em cultura científica significa ampliar o conhecimento e, ao mesmo tempo, fomentar discussões em torno de ciência, tecnologia, cultura e inovação”, ressalta a professora Tânia Costa.

De cima para baixo, a Sala Útero e a Sala Biomas

Projeto: Museu Itinerante Ponto UFMG Coordenadora Geral: Tânia Margarida Lima Costa modalidade: Edital de Popularização da Ciência e Tecnologia Valor: R$ 494.000

Por dentro da máquina Ambientes do Museu Itinerante ensinam e divertem ao mesmo tempo Juntas, as áreas – interna e externa – do caminhão a abrigar o Museu Itinerante ocupam área aproximada de 800 metros quadrados. Na veículo, há cinco salas de exposições interativas e uma para projeção em 3D. “Já no ambiente externo, que compreende um palco e o entorno da carreta, são oferecidas dezenas de experimentos, práticas responsáveis pela articulação entre diferentes áreas do conhecimento”, explica Jessica Norberto. Por fim, o Ponto UFMG conta com área para realização de diversas oficinas, todas coordenadas por professores da Universidade. Confira, pois, o que os visitantes poderão “saborear” em cada ambiente:

Sala Útero – Nela, as pessoas têm sensações similares às vividas durante a “estada” na barriga materna. Enquanto uma televisão reproduz vídeos do desenvolvimento embrionário, outra captura a imagem do visitante. Além disso, uma cadeira vibratória imita os movimentos sentidos pelo bebê. Sala dos Sentidos – Os visitantes podem interagir com o ambiente, descobrindo diversas formas de perceber o mundo (quais sejam: audição, tato e visão). Projeções e objetos reproduzem os órgãos que permitem ao homem ter contato com o ambiente. Sala Biomas – O público assiste a imagens sobre como o homem interfere no meio ambiente. A experiência busca conscientizar as pessoas a mudar de atitude e melhorar a condição do ser humano no planeta.

Sala Projeção 3D – No espaço de cinema, vídeos em 3D apresentam fascinantes viagens por ambientes da Terra, para que – com óculos especiais – todos compreendam a grandeza e diversidade do planeta. Sala Submarino – Cinco telas compõem o ambiente, que simula a sala controle de um “submarino especial” submerso em águas profundas. Através de escotilhas, os visitantes podem ver seres abissais e as condições de vida na região. Sala Cidades – Eis a oportunidade de visitar diversas cidades do mundo, por meio de telas especiais. Os visitantes têm a possibilidade de perceber que, hoje, a tecnologia é capaz de lhes “transportar” a lugares distantes.

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sociologia

Estudo mapeia tensões ambientais do Norte de Minas e busca proposta de desenvolvimento sustentável Virgínia Fonseca

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A definição de povos tradicionais adotada pelos pesquisadores abrange os grupos étnicos que apresentam as seguintes particularidades: serem politicamente minoritários, terem identidade distinta da “homogênea” nacional, residirem há um longo período em determinada área e subsistirem dos recursos naturais do ambiente.

“O sertão está em toda a parte”, dizia Guimarães Rosa em seu Grande Sertão: Veredas. Na interpretação dos estudiosos, mais que um espaço geográfico, o sertão representa, para o escritor, a referência a uma realidade política, social, psicológica: o reflexo de muitos conflitos vivenciados pelo homem, alguns morais, outros concretos. Já em 1956, ano em que foi publicado o romance, Riobaldo, o narrador, adverte seu interlocutor a respeito de um tema não apenas palpável, mas atual: se ele (o entrevistador) tinha ido conhecer as potencialidades naturais e culturais do lugar, havia chegado tarde, pois tudo estava já degradado. O pensamento do personagem tem sua razão de ser. Não apenas o ambiente físico, mas o próprio modo de vida sertanejo, que por quase 200 anos foi o cenário predominante no Norte de Minas Gerais, passaram, nas últimas décadas, por profundas modificações. O que o protagonista “vivencia” é apenas o começo de uma série de mudanças nos processos produtivos que provocaram uma alteração nas relações dos homens entre si e com o meio ambiente na região. As tensões decorrentes desta reorganização estão identificadas no Mapa dos Conflitos Ambientais de Minas Gerais – Mesorregião Norte de Minas. O trabalho integra um projeto extenso, que mapeou conflitos por todo o Estado (veja box). A palavra “ambiental”, no caso, é conceitual e envolve também as relações sociais, partindo da ideia de que o ambiente existe em interação com os seres humanos, seus processos e relações. Mais do que identificar as situações que originam conflitos, os pesquisadores pretendem que o estudo viabilize ações e políticas públicas capazes de proporcionar visibilidade e fortalecimento participativo de populações afetadas por modelos excludentes de exploração da natureza. No norte de Minas, a resistência de grupos considerados como povos tradicionais é um dos fatores de relevância nas relações mapeadas pela equipe de pesquisadores da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), coordenada pelo professor Rômulo Soares Barbosa. Em um território que abrange 89 municípios, foram identificados cerca de 60 conflitos, relacionados a infraestrutura (20

ocorrências); atividade agrícola, pecuária e florestal (15); atividade industrial (8); áreas protegidas (7); atividades agroindustriais (3); demanda territorial (3); uso e ocupação do solo (1) e dinâmicas urbanas (1). Não obstante a classificação, a maior parte dos focos de tensão tem como pano de fundo o fato de que o modelo de vida dessas populações locais, muitas vezes, não é considerado na elaboração das políticas públicas propostas para o manejo e conservação do ecossistema, o que evidencia conflitos entre as comunidades, os ambientalistas e o Estado, além de diminuir a eficiência das ações de preservação propostas. As Matas Secas, bioma que traduz a paisagem característica da região, tornaram-se foco de disputa entre atores sociais, políticos e econômicos. A ocupação histórica da região indica a presença de comunidades indígenas e quilombolas autônomas que viviam em interação. Posteriormente, os bandeirantes introduziram a pecuária extensiva, com a criação de gado solto às margens do Rio São Francisco, por meio de grandes fazendas ao redor das quais surgiram núcleos camponeses que desenvolveram o modo de vivência social chamado “cultura sertaneja”. As fazendas, que se estabeleceram com o uso da mão de obra escrava negra e indígena, tinham na pecuária extensiva sua matriz econômica e destinavam sua produção ao mercado baiano e núcleos de mineração. Ao mesmo tempo, pequenos proprietários, posseiros e agregados que viviam no sertão constituíram seu modelo econômico próprio, baseado nas relações de parentesco, vizinhança e compadrio, caracterizado por uma agricultura diversificada e extrativista, associada à criação de gado “na solta”, atividades que proporcionavam sua subsistência. As ligações entre as famílias dos fazendeiros e desses camponeses eram de interdependência. Estudos indicam que entre 1750 e 1947 a região vivia praticamente dos seus próprios recursos. Foi em meio a esse sistema de produção que se constituíram os primeiros agrupamentos que originaram algumas cidades da região, como Januária, Matias Cardoso, Itacarambi e São João das Missões. A partir do final da década de 1960 até meados dos anos 1980, porém, políticas voltadas para a

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industrialização alteraram a lógica existente. Os programas adotados giravam em torno de quatro eixos: agricultura irrigada, monocultura de eucalipto, pecuária extensiva e monocultura de algodão. “Como a implantação não se deu de forma homogênea, esta nova forma de produção trouxe consequências, como expropriação dos agricultores, degradação ambiental e concentração fundiária, acentuando as desigualdades sociais e desestruturando o modo de vida sertanejo”, analisa Rômulo Barbosa. A região, que um dia foi palco de típicas cenas sertanejas, é hoje fronteira de forte expansão da agroindústria. Somada a esse fator, teve início a implementação da segunda etapa do Projeto Jaíba, programa de irrigação que entrou em operação no final da década de 1980, a partir de uma parceria entre os governos federal e estadual. A permissão de desmate para irrigação está vinculada ao cumprimento de condicionantes ambientais. “E essa compensação se dá principalmente com a criação de unidades de conservação”, detalha Rômulo Barbosa.

Paradoxo da preservação

O problema que dá origem aos conflitos na região é claro e reside em um paradoxo: os levantamentos identificaram que as unidades de conservação da Mata Seca a serem criadas, para as quais são escolhidas as regiões de maior biodiversidade, coincidem com as áreas de intensa presença da população tradicional. “Isto leva à luta política de povos que são ‘encurralados pelos

parques’ e que foram historicamente expropriados pelo processo de modernização das fazendas”, esclarece o professor. São representantes dessas populações os indígenas, remanescentes quilombolas e vazanteiros – estes últimos constituíram sua subsistência a partir do manejo do ecossistema do rio, cujas vazantes permitem o acesso a terras periodicamente fertilizadas por matéria orgânica, bem como um farto suprimento de peixes nas lagoas marginais: povos que dependem da pesca, criação animal, extrativismo e plantio, cujo modo de vida permite a manutenção e a perfeita interação com o meio ambiente. Quando são delimitados os territórios dos parques, estas pessoas são diretamente afetadas, pois não são proprietários: detêm apenas o usufruto da terra, por ocupação tradicional. Assim, ao serem estabelecidos os espaços de preservação nas regiões de maior biodiversidade, essa população passa a não poder mais utilizar as terras e as matas. Porém, o fato de as áreas de maior biodiversidade coincidirem com a ocupação desses povos fala por si. Para os pesquisadores, isso é prova de que o modo de vida por eles adotado possibilita a convivência em harmonia com o ambiente, sem danos ao ecossistema da região. “E eles têm consciência disso. ‘Estamos sendo punidos por termos cuidado bem da terra’, esse é o sentimento deles”, conta Rômulo.

Em movimento

Diante da constatação de que é viável o uso dos recursos naturais pela po-

pulação local sem que haja degradação, o grupo está avaliando a reconversão de algumas áreas. “Parte dessas terras que passaram por desapropriação poderia ser convertida em unidades de uso sustentável”, pondera Rômulo. Neste sentido, ele destaca a importância dos esforços que vêm sendo empreendidos por mediadores como a Pastoral da Terra e o Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM). O professor ressalta que a ação dessas entidades é muito importante para a transformação dos estudos em resultados. Promover a discussão, junto às instâncias responsáveis, para construção de uma contraproposta com estratégias de melhoria da qualidade de vida destes povos: esse é o papel exercido pelos mediadores. Por meio desta conscientização e articulação política local, a população tradicional sai do estado de “encurralados pelos parques” para a posição de “vazanteiros em movimento”. O pesquisador do CAA-NM Carlos Dayrell reafirma que a parceria com os trabalhos da Unimontes proporciona a visibilidade das comunidades impactadas pelos grandes projetos econômicos, o intercâmbio de iniciativas de resistência e de proposição e o diálogo com a academia. “O estudo coloca em cena a existência de sujeitos sociais que vivem nessas regiões. Sujeitos que se apresentam não apenas para denunciar, mas e principalmente, para colocar suas propostas”, relata. Os estudos indicam que não há dúvidas quanto à necessidade de promover

Fotos: Rômulo Barbosa/2008

Agricultores conduzem carroça de melancia em região de Mata Seca, no entorno do Projeto Jaíba

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Faixa afixada na Ilha da Ressaca, território reivindicado pela comunidade quilombola da Lapinha, município de Matias Cardoso


políticas de conservação da região, pois ela está ligada à preservação do Rio São Francisco, de nascentes e lagoas, e ao processo de sobrevivência da população. Mas também está claro para os pesquisadores que as comunidades locais são compromissadas com essa conservação. “É preciso revelar e valorizar as estratégias

culturais, produtivas, usadas por esses povos, que são de inclusão econômica e que foram invisibilizadas ao longo do tempo”, argumenta o professor. Dessa forma, as pesquisas no Norte de Minas estão diretamente associadas a um processo de mudança nas estratégias de preservação. Rômulo

avalia que o caminho seja a construção de propostas conjuntas, sem imposição, considerando os conhecimentos e processos sociais da comunidade. “É possível proporcionar a conservação das Matas Secas com esses povos e por esses povos, aliada a políticas para qualidade de vida”, ressalta.

Matas Secas: muito importantes, pouco preservadas O termo “Mata Seca” é utilizado no Brasil para caracterizar as Florestas Estacionais Deciduais (FED), um tipo de vegetação que perde mais de 50% das folhas na estação seca. Ocorre geralmente em regiões que passam por pelo menos três meses secos no ano e cuja temperatura média fica acima de 25º C. No País, este ecossistema é encontrado predominantemente no Nordeste e no Centro-Oeste e cobre 3% do território nacional. Essas matas são naturalmente fragmentadas e localizadas em diferentes biomas, como cerrado e caatinga, ou entremeadas às formações sempre verdes da Amazônia e Mata Atlântica. Comumente convertidas em áreas de pastagem e agricultura, elas têm sido historicamente negligenciadas em termos de pesquisas e esforços conservacionais, se comparadas a outras formações.

No Norte de Minas Gerais, as Matas Secas estão predominantemente em zonas de transição entre o cerrado e a caatinga. Como existem poucos levantamentos sobre a fauna e a flora dessas áreas, elas são consideradas de grande importância botânica e foram classificadas como área prioritária para conservação e pesquisa. Além disso, trata-se de uma das regiões mais pobres do Estado e possui presença marcante de populações tradicionais, como indígenas, quilombolas e outros habitantes que utilizam recursos naturais para sua subsistência.

Entre dois domínios Mata Atlântica ou caatinga? Devido à ocorrência diversificada, do ponto de vista ecológico, existe um debate sobre a qual desses domínios pertencem

as Florestas Extensionistas Direcionais. Em 2008, a inclusão, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), deste ecossistema na área de aplicação da Lei da Mata Atlântica, limitando seu corte, ocasionou uma reação por parte dos ruralistas, no sentido de passar a considerar as Matas Secas como caatinga. As discussões resultaram, em 2010, na criação da Lei Estadual 19.096/2010, que retirou esse domínio da área de proteção da Mata Atlântica. No mesmo ano, porém, a lei foi “derrubada” por uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) movida pelo Ministério Público Estadual. A Adin já reflete resultados dos estudos realizados pelo grupo da Unimontes, pois baseou-se em subsídio técnico da rede Tropi-dry, que articula pesquisadores.

Conflitos Ambientais em Minas O Mapa dos Conflitos Ambientais é resultado de uma parceria entre o Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais da Universidade Federal de Minas Gerais (Gesta/ UFMG), o Núcleo de Investigação em Justiça Ambiental da Universidade Federal de São João del-Rei (Ninja/UFSJ) e pesquisadores do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Social (PPGDS) da Unimontes. Entre 2007 e 2010, o projeto buscou identificar, caracterizar e classificar casos de violação do direito ao meio ambiente evidenciados na primeira década do século XXI nas 12 mesorregiões do Estado: Metropolitana de Belo Horizonte, Vale do Jequitinhonha, Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, Central Mineira, Oeste de Minas, Vale

do Rio Doce, Vale do Mucuri, Norte de Minas, Noroeste de Minas, Campo das Vertentes, Sul/Sudoeste de Minas e Zona da Mata. Com vistas a um levantamento qualitativo, os trabalhos envolveram uma pesquisa documental e a consulta a órgãos oficiais para prospecção de situações de conflito, além de entrevistas com integrantes de associações, sindicatos, movimentos sociais envolvidos. Também foram realizadas oficinas com representantes desses grupos, visando a articulação e a troca de experiências. A ideia é que o mapeamento possa ser utilizado como base para políticas públicas focadas na sustentabilidade e na democratização da apropriação dos territórios.

Embora o mapa tenha sido concluído, ele segue sendo utilizado como um “observatório” dos conflitos e como base para outros projetos em execução. Em nível estadual, os trabalhos foram coordenados pela professora Andréa Luisa M. Zhouri, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da UFMG. Os resultados estão disponíveis no site: http:// conflitosambientaismg.lcc.ufmg.br/ Projeto: Mapa dos Conflitos Ambientais do Estado de Minas Gerais - Etapa: Mesorregião Norte de Minas Coordenador: Rômulo Soares Barbosa modalidade: Demanda Universal Valor: R$ 20.311 MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/AGO 2012

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história

A Minas Gerais indígena

A partir de documentos eclesiásticos do século XVIII, pesquisa revela cotidiano dos índios em solo mineiro e interpreta sua importância para a formação do Estado Maurício Guilherme Silva Jr.

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De sol a sol, para além do árduo trabalho compulsório, eles ousaram viver. Mesmo sob intenso sofrimento, souberam sonhar, amar, e, a seu modo, subverter ordens estabelecidas. Tais peculiaridades do modo de vida dos milhares de índios a habitar as Minas Gerais do século XVIII podem hoje ser investigadas em meio ao vasto volume de documentos, guardados por instituições de natureza diversa, acerca do chamado Ciclo do Ouro. Como exemplo, tomem-se os arquivos das igrejas – e outros tantos estabelecimentos religiosos –, onde “repousam” inventários e relatos capazes de, neste novo milênio, auxiliar significativamente a pesquisa sobre a história dos indígenas em solo mineiro. Que o diga o Arquivo da Cúria do município de Mariana (MG), onde, em 56 volumes de devassas eclesiásticas, encontram-se nada menos do que 768 registros de delitos cometidos por índios e/ou seus descendentes. Para não falar, no mesmo “fundo”, das 135 ocorrências, também ligadas à população indígena, encontradas junto a 8.019 processos matrimoniais. Justamente com o objetivo de interpretar a extensa documentação sobre o assunto, a professora Maria Leônia Chaves de Resende, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São João del-Rei (Decis/UFSJ), desenvolveu o projeto de pesquisa responsável por apurar e investigar, de modo sistemático, o cotidiano de tais povos, então residentes no Estado. Em seu estudo, conforme ressaltado, a pesquisadora recorreu, entre outros, a “suportes documentais de cunho eclesiástico” – denúncias e processos de “banho” (casamento) –, lavrados ao longo de todo o século XVIII. “A investigação buscou recuperar a experiência vivida por populações indígenas ou descendentes, de diversas procedências étnicas, desterrados de suas aldeias, expulsos de suas terras ou aprisionados pelas bandeiras A investigação resulta do aprofundamento da tese de doutorado da pesquisadora, defendida, em 2003, junto à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Trata-se, em síntese, dos processos de justiça e inquisição desenvolvidos, nas Minas Gerais setecentistas, pela alta cúpula da Igreja Católica. nos sertões, e que passaram a viver nas vilas e lugarejos das Minas Gerais”, explica Leônia Chaves, ao ressaltar que, por “cobrir” todo o território no período, a documentação se revela admirável e ilustrativa: “Por meio dela, podemos acompanhar os dilemas culturais dos indígenas, impostos pelo contato interétnico no mundo colonial”. Trata-se, em suma, de vestígios do passado capazes de remontar à trajetória dos índios no cotidiano setecentista de Minas Gerais. Em outros termos, a leitura dos documentos permite o resgate da história das populações indígenas por meio dos mais frugais “causos” do dia a dia, assim como de “registros de fragmentos dos indivíduos, de seu tempo, de suas práticas e vivências”, segundo expressão da professora, que, em seguida, define geograficamente a problematização de seu estudo. “A pesquisa levanta a presença e a experiência cotidiana dos índios e seus descendentes em vilas e lugarejos da Minas Gerais colonial, como Ouro Preto, Mariana, São João del-Rei, Tiradentes ou Diamantina”.

Força identitária

Os povos indígenas investigados pelo projeto coordenado pela professora Leônia Chaves detinham múltipla procedência étnica. Dessa forma, a diversidade de costumes dos botocudos, caiapós, puris ou coroados diluía-se, com facilidade, por meio de sua rotina nas vilas coloniais. “Ali, todos viviam sob a condição de ‘índios’ e ‘carijós’; de mestiços, ‘caboclos’, ‘curibocas’, ‘cabras’, ‘bastardos’, ‘mamelucos’ ou, simplesmente, como ‘gentios ou negros da terra’”, esclarece a pesquisadora, ao lembrar que, por essa razão, foram designados como “índios coloniais’”. Destribalizados por diversas razões, os povos indígenas – muitos dos quais nascidos “dentro” da sociedade coloMINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/AGO 2012

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nial – foram integrados à sociedade, “a mais das vezes, na condição de mestiços”, apesar das múltiplas procedências e origens étnicas. “Tais indivíduos foram incorporados à vida sociocultural das vilas e povoações da Minas Gerais setecentista. Apesar da adscrição nitidamente indígena, posto que assim eles se identificavam e eram também reconhecidos como tal pelos outros, experimentaram intenso contato com os colonos”, conta Lêonia Chaves. Nas vilas coloniais, os índios criaram um grupo específico, que demarcou diferenças com relação a outros componentes da sociedade, tais como brancos, negros e mulatos. A ascendência indígena, afinal, é que definiria a inserção desses indivíduos no contexto das Minas colonial. “Tributários de um legado comum – o de ser ou ter origem no ‘gentio da terra’ –, também se distinguiram de outros índios, isto é, daqueles que não haviam sido ‘domesticados’”, explica a pesquisadora. Trata-se, neste caso, dos “índios bravos”, que viviam nos sertões. “Integrados ao mundo colonial, eles construíram uma ‘distintividade’. Ainda que destribalizados dos grupos de origem, reconheciam-se como herdeiros de uma origem indígena”.

Protagonismo

A partir dos dados recolhidos e interpretados junto a fontes eclesiásticas – trabalho que contou com o auxílio dos estudantes Lidiane Santos e Carlos Henrique Cruz, bolsistas de Iniciação Científica –, Maria Leônia Chaves de Resende demonstrou o relevante papel dos índios, e seus descendentes, para a consolidação – política, cultural, econômica etc. – das Minas Gerais: “Se muitos dos aspectos de formação da sociedade mineira, durante o século XVIII, ilustram de modo cristalino o processo de exclusão,

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exploração e destruição das populações indígenas, ele também é expressão do quanto esses grupos contribuíram para a constituição do Estado”. Neste cenário, buscou-se demonstrar que, para além da chacina a que estiveram expostos ao longo do período setecentista, os índios participaram da vida social e cultural da região. “Trata-se não da retomada da história de uma etnia ou de um grupo indígena em especial, mas das muitas histórias daqueles que sobreviveram ao desenraizamento de seu povo e souberam capitanear o seu lugar na sociedade mineira. Por isso mesmo, elegi o período colonial como marco, pois é o momento consagrado como o de grandes reveses e de impacto sobre as populações nativas, lugar da espoliação, que colocou as sociedades indígenas como ‘vítimas’ das iniquidades dos brancos”. A “consequência natural” de tal processo teria sido o extermínio das populações indígenas à época do “mundo colonial” (leia box), de modo a sacralizar “as máximas de que os índios foram exterminados ou reduzidos, nas matas, à condição de ‘perigosos e bestiais’, para lançar mão dos próprios termos da época”, ressalta Leônia Chaves. Ao contrário disso, em seu estudo, a pesquisadora buscou “encontrar” os índios e seus descendentes no próprio convívio cotidiano das Minas: “Procurei recuperar os fragmentos da trajetória de índios de diversas origens, que foram destribalizados e passaram a viver nas vilas e arredores”.


À margem da História? A despeito de a “Minas do ouro” ter recebido a alcunha de “terra dos cataguás”, em reconhecimento aos indígenas como “senhores de todas as Gerais” – e ainda que a presença dos índios tenha se transformado, inúmeras vezes, em tema das “discussões administrativas e eclesiásticas” –, tais povos foram literalmente ignorados “por parte expressiva da historiografia mineira”, conforme ressalta Leônia Chaves, em texto desenvolvido para a Revista do Arquivo Público Mineiro. Segundo a pesquisadora, mesmo que “uns poucos historiadores” admitissem a presença de índios no Estado ao longo do século XVIII, “antecipavam ressalvas, ao reduzirem sua atuação aos primeiros contatos, sem os tomar sequer como agentes da história e da formação sociocultural de Minas”. Na aferição de certos especialistas, os povos indígenas não passariam de “apêndices” em seus estudos, “prestando-se, quase sempre, de penduricalhos à ação colonizadora e ao protagonismo português, como testemunham as obras clássicas da historiografia, que apenas tangenciaram a questão”. Daí, aliás, o “silêncio avassalador” a que foram sujeitados os milhares de índios coloniais de Minas. “Objeto de raríssimas pesquisas, a etno-história indígena mineira deixou esparsas contribuições, situação ainda mais agravada quando se percebe a desproporção entre a produção acadêmica e a riqueza qualitativa e quantitativa das fontes depositadas nos arquivos”. Se extensa é a documentação acerca do cotidiano dos povos indígenas – material categoricamente propício ao desenvolvimento de “investigações de grande fôlego e de diversos matizes” –, resta a pergunta fundamental. “Como entender essa indigência bibliográfica sobre a trajetória dos índios em Minas Gerais?” A resposta, segundo a professora Leônia Chaves, está ligada tanto ao “‘tratamento’ dado à questão indígena, pelas políticas coloniais de sucessivos governos, quanto à própria genealogia da historiografia mineira”. Dentre as justificativas para a ausência dos índios nos relatos históricos, há vertentes, por exemplo, que a aproximam da ação das “expedições de conquista” – também conhecidas por “entradas e bandeiras” –, em fins do século XVII e início do XVIII. “Penetrando os

sertões, essas campanhas teriam avançado indiscriminadamente sobre o território, devastando aldeias e dizimando toda a população nativa. Chacinados pela violência e crueldade dos colonos, os índios teriam desaparecido da história”. Tal discurso “vitimizador”, como se pode perceber, realça a crueldade dos colonizadores, tomados como responsáveis pelos atos atrozes contra os nativos. “O mais significativo é que, considerados exterminados por essas investidas devastadoras, os índios foram excluídos da história de Minas, não tendo participado de sua construção e, por extensão, abandonados como tema de estudo pelos historiadores”, interpreta a pesquisadora, ao destacar, porém, que as particularidades da política indigenista em solo mineiro, também devem ser ponderadas. “A Coroa Portuguesa proibiu o acesso às Minas, decretando certas ‘áreas proibidas’, temendo os descaminhos do ouro levado a cabo por ávidos contrabandistas. Essa deliberação também recaiu sobre as ordens religiosas, que nutriam grande autonomia e foram, por isso, proibidas de pastorear na capitania”, afirma Leônia, para quem “a decisão acabou por comprometer os estudos sobre as estratégias de ‘civilização’ dos índios, tema tão caro às investigações sobre o papel de cristianização da Igreja na colônia”. Apesar disso, a “ausência formal das ordens religiosas” não encerrou, completamente, as relações entre Igreja e grupos indígenas. Ao contrário, e por isso mesmo, transformou-se em prática singular do clero secular – o que, na acepção da pesquisadora, merece análise profunda. Que o diga o exemplo de atuação do padre Pedro Mota, “índio cropó educado com o propósito de arrebatar sua gente para o seio da Igreja”. Por fim, importante ressaltar que o fato de Minas Gerais ter acolhido ampla mistura de grupos – com distintas e diversas procedências e origens –, “numa mescla de brancos, negros, índios”, fez com que o Estado apresentasse complexa configuração étnica e social. Sobre tal assunto, muito ainda há de ser desvendado: “Ao adotar a perspectiva dos povos indígenas, a historiografia transforma o próprio curso da história de Minas, dando a conhecer uma narrativa inédita e ainda tão pouco difundida”.

Projeto: Gentios Brasílicos: Índios Coloniais na Minas Gerais Setecentista Coordenadora: Maria Leônia Chaves Resende modalidade: Demanda Universal Valor: R$ 28.900

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Patrimônio

Juliana Saragá

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“Seu” Adelson de Oliveira passou cada um dos seus 72 anos de vida no Lagoinha, bairro tradicional de Belo Horizonte. Se perguntarem por Adelson no bairro, talvez pouca gente conheça, já que o aposentado é conhecido como “Saveia” desde a infância. O apelido ele herdou do pai, que nos carnavais se fantasiava de “mulher velha” no extinto Bloco Leão da Lagoinha. “Saveia” é figura popular e escreve para uma coluna no jornal no bairro. Nela, ele dá dicas culturais, opina sobre os acontecimentos locais e ainda procura amigos e moradores antigos na seção “Cadê Você”. Além disso, joga bola em um time do bairro, formado por jogadores acima dos 60. Atualmente, ele está organizando mais uma edição da festa “Amigos da Lagoinha”, exclusiva também para pessoas acima de 60 anos nascidas e criadas no bairro. “Fazemos comida, batemos papo, dançamos. É muito divertido!”,

Um pouco de história...

anima-se. Resgatar e valorizar a tradição desta “vida de bairro” faz parte da missão do aposentado e também é objeto de estudo para pesquisadores do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da PUC Minas. Em função da natureza do tema, sua equipe tem formação multidisciplinar, nas áreas da sociologia, arquitetura e história. São dois os seus principais desafios. Pensar como proteger o patrimônio cultural dos bairros situados no anel pericentral da cidade e como articular as dimensões materiais – patrimônio construído – com a dimensão chamada imaterial, ou seja, os modos de vida dos moradores.

rios do Governo e aos que tinham posses para adquirir lotes. “Contrariando os planos de Aarão Reis, que imaginava o crescimento da cidade partindo da zona urbana, as ocupações se deram mais intensamente na chamada zona suburbana. Dentro do anel da Avenida do Contorno ficaram os grupos de maior poder aquisitivo. Os imigrantes, trabalhadores que vieram para construir a cidade, não podiam pagar os preços altos dos lotes e foram para a região pericentral”, explica Luciana Teixeira, coordenadora do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da PUC Minas e pesquisadora responsável pelo projeto.

Inspirada no modelo das mais modernas cidades do mundo, como Paris e Washington, Belo Horizonte foi projetada pelo engenheiro Aarão Reis entre 1894 e 1897. O projeto dividiu a cidade em três principais zonas: a área central urbana, a área suburbana e a área rural. No centro, o traçado geométrico e regular estabelecia um padrão de ruas retas, formando uma espécie de quadriculado. Mais largas, as avenidas seriam dispostas em sentido diagonal. Essa área receberia toda a estrutura urbana de transportes, educação, saneamento, comércio e assistência médica, e abrigaria os edifícios públicos dos funcionários estaduais. Seu limite era a Avenida do Contorno, que naquela época se chamava 17 de Dezembro. A capital traçada era um lugar elitista. Seus espaços estavam reservados somente aos funcioná-

Patrimônio social

Pode ser considerado patrimônio todo bem que recebe algum tipo de valor por um determinado grupo de pessoas. “O patrimônio não precisa ser necessariamente material, pode ser uma prática cultural, um lugar, enfim, algo que recebeu uma atribuição de valor pela sociedade. Esta atribuição nem sempre é consensual e geralmente há uma disputa para isso. Com o tempo, as pessoas vão incorporando este valor, apesar da resistência inicial”, explica a pesquisadora. O primeiro objeto de proteção da capital mineira foi a área no interior da Avenida do Contorno. Os primeiros conjuntos

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tombados se localizam nessa região, como a Praça da Liberdade, o bairro Funcionários e o Centro da cidade. Mas os bairros localizados no entorno da Avenida do Contorno, objeto do estudo, são tão antigos quanto os do interior. “Eles foram ocupados e formados na mesma época e também merecem atenção quanto à proteção de seu patrimônio. Nosso desafio foi pensar a relação entre a arquitetura das casas e os modos de vida e as relações de vizinhança. Como preservar os dois patrimônios e que tipos de proteção que eles devem ter para que estas relações permaneçam”, esclarece. Os bairros selecionados para o estudo foram os tradicionais Bonfim, Lagoinha, Floresta, Santa Tereza, Carlos Prates e Padre Eustáquio, com foco para os quatro primeiros. Eles são chamados de “bairros históricos” e suas histórias de origem estão muito vinculadas à própria formação e construção da nova capital. Mas, diferentemente do que ocorreu na zona urbana, não sofreram um intenso processo de substituição de casas por prédios e, principalmente, de função residencial para comercial. Tudo isso contribuiu para a manutenção de um patrimônio tanto arquitetônico, quanto cultural, representado por modos de apropriação do espaço e por relações de vizinhança de caráter mais tradicional.

Charme de bairro

Foto: arquivo pessoal

Casas singelas, compras no mercadinho da esquina, uma conversa na praça, a observação da janela: o charme da vida de bairro atraiu grandes escritores como Pe-

dro Nava e Carlos Drummond de Andrade, que já foram moradores do Floresta. E nem só de famílias antigas e tradicionais vivem estes bairros, cujo encanto tem atraído também os jovens. É o caso da publicitária Paula Seabra, que há dois anos mora no Santa Teresa. “Lá eu me sinto em uma cidade do interior dentro da cidade grande”, conta. A zona boêmia e as atividades culturais, características principais do bairro, encantam a juventude e atribuem ao Santa Teresa uma mistura de modernidade e tradição. “O antigo me atrai”, explica a publicitária. Como parte do projeto, foi realizado um roteiro de entrevistas que investigou as percepções que os moradores têm pelos bairros e algumas características foram observadas. “O Floresta e o Santa Teresa têm uma relação de proximidade muito forte. Quando perguntávamos a um morador do Floresta qual outro bairro ele escolheria para morar, eles respondiam Santa Teresa, e vice-versa. São bairros irmãos que têm uma relação de vizinhança e modos de vida muito parecidos. A diferença é que o Floresta é um bairro mais familiar, católico, enquanto no SantaTeresa a tradição se renova com a juventude nos bares e eventos culturais”, detalha a pesquisadora. Quando se fala em Bonfim, a primeira palavra associada foi o cemitério, que é patrimônio tombado do bairro. “Percebemos nas entrevistas que o Bonfim e o Lagoinha ainda enfrentam um estigma negativo da relação com drogas , prostituição e presença da polícia. Mas “Seu” Adelson, morador nato do Lagoinha, não concorda com essa fama “de jeito nenhum”. Para ele, a vivência no bairro

Time do Pitangui, bairro Lagoinha, na década de 80

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é “maravilhosa” e ele o considera um local tranquilo e charmoso. O aposentado ressalta a importância das políticas de conservação do patrimônio. Recentemente, um programa da prefeitura possibilitou que os moradores votassem em um bem que gostariam que fosse revitalizado. “O conjunto IAPI ganhou na primeira edição. Agora votamos pela revitalização da Rua Itapecerica para melhorar o problema das drogas”. Para “Seu” Adelson, a revitalização vai transformar o local em um “dos melhores bairros para se viver” e ainda trazer gente nova. “Nosso filhos vão querer voltar com a Lagoinha bonita”, antecipa-se.

Desafios

Uma das hipóteses do grupo de pesquisadores é que, apesar dos avanços na concepção e nas práticas de proteção ao patrimônio urbano municipal e de todo um movimento de descentralização e democratização da política cultural, a proteção aos bairros situados fora da zona urbana encontra uma série de dificuldades, entre elas a de reconhecer, como patrimônio da cidade, as áreas fora do seu espaço central e com características de ocupação e maneiras de percepção distintas. “Identificamos a necessidade de os patrimônios materiais e sociais serem pensados conjuntamente. É preciso pensar que um patrimônio não deve ser necessariamente monumental e produzido por uma elite. Casas que não levam nomes de arquitetos famosos, que não têm um estilo arquitetônico definido, mas que possuem grande valor social devem ser protegidas”, alerta. Para a pesquisadora, a população e as políticas públicas devem reconhecer essa arquitetura popular como patrimônio passível de proteção. “São retratos de diferentes ocupações sociais. A identidade e riqueza de uma cidade estão diretamente ligadas à sua diversidade”, conclui. O projeto rendeu diversos artigos e, como produto final, um livro será publicado em breve. Projeto: Bairros Históricos de Belo Horizonte: Patrimônio Cultural e Modos de Vida Coordenador: Luciana Teixeira de Andrade Modalidade: Demanda Universal Valor: R$ 20.541


Referência na área, núcleo de estudos registra dados de descarga elétrica em milionésimos de segundos

Em todo o mundo, mais da metade das interrupções em linhas de transmissão e distribuição de energia são causadas por descargas elétricas, que provocam sobrecarga em pontos das redes. Minas Gerais concentra os raios mais potentes e uma das maiores incidências de descargas do planeta, o que faz com que a região necessite de dispositivos de proteção mais resistentes e de maior eficácia. O estudo dessas descargas tem uma vertente econômica muito importante, como explica o professor da Escola de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Silvério Visacro Filho, coordenador do Lightning Research Center (LRC), ou Núcleo de Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Descargas Atmosféricas. Os projetos desenvolvidos pelo LRC têm hoje abrangência global e resultaram em mais de duzentas publicações sobre o assunto. Em 2001, a MINAS FAZ CIÊNCIA anunciava em sua edição n° 7 a criação do LRC, fruto de uma parceria entre a UFMG e a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). Naquele ano, o LRC foi considerado o único centro de excelência em descargas atmosféricas da América Latina. Hoje, o centro se consolida como um dos três mais importantes do mundo. Visacro Filho relata: “desde o início, nossa meta foi buscar excelência científica e tecnológica em nível internacional, visando impactar comunidades científicas de todo o planeta com um aprofundamento inédito nas pesquisas”. Criado para ser autossustentável e proporcionar desenvolvimento científico e tecnológico em interação com o mercado, o LRC adotou a estratégia de converter os fundos arrecadados nos projetos em recursos para o próprio centro, programando-se assim para não sofrer interrupções por falta de verba. Isso possibilitou ampliar a estação do Morro do Cachimbo – que, em princípio, media apenas correntes de raio –,

transformando-a no maior complexo de pesquisas de descargas atmosféricas a céu aberto do mundo, com cinco ambientes de estudos distintos. “Os medidores foram digitalizados e hoje possibilitam a aferição integral da onda de raio, com resoluções de tempo muito maiores, o que oferece uma visão mais detalhada sobre o fenômeno e sua formação”, diz. Com a tecnologia modernizada, o LRC foi o primeiro núcleo de estudos de descargas atmosféricas a registrar dados de uma onda de raio em um espaço de milionésimos de segundos. “Esta detecção permite extrair informações sobre a física de formação da descarga, um estudo sem precedentes que nos permite investigar o que gera um raio”, explica Visacro. Câmeras ultrarrápidas foram integradas a sistemas de detecção de descargas, tornando possível a captura de imagens dos estágios iniciais de sua formação. O complexo possui duas redes de transmissão experimentais de diferentes configurações, para abstração das tensões e interferências induzidas em cada uma delas ao receber uma descarga e aparatos que receptam e distinguem efeitos dos campos elétricos gerados por descargas diretas ou em uma área de até 100 m². Os softwares que possibilitam a interatividade de todos os aparelhos são desenvolvidos pelo Lightning Research Center. Para isso, o núcleo possui um edifício-sede, construído no campus da UFMG, ao qual estão integrados seis laboratórios especializados com equipamentos de alta tecnologia. Neles, são realizados testes a partir dos dados coletados. “O Complexo do Cachimbo e a unidade da UFMG estão articulados de forma complementar. Dependo do Cachimbo para coletar dados e do laboratório para apurá-los”, explica Visacro. Os eventos são reproduzidos nos laboratórios para que suas particularidades possam ser examinadas pela equipe, sob a supervisão de sete

LEMBRA DESSA?

Caçadores de raios William Ferraz

docentes de formação acadêmica multidisciplinar. “Nós viemos da Engenharia, mas tivemos de caminhar para o campo da Física. A convergência de conhecimentos possibilita extrair o máximo de cada pesquisa e compreendermos o fenômeno integralmente, para então projetarmos ferramentas de proteção muito mais sofisticadas e eficazes que as convencionais”. Antes da criação do LRC, toda a medição de raios realizada no mundo tinha por referência os dados coletados a partir de medições realizadas na Suíça. Entretanto, esses valores são pouco representativos para Minas, onde a intensidade média da corrente de um raio é de 45 mil amperes, contra 30 mil da média europeia. Além disso, as condições climáticas distintas também influenciam na forma das descargas. Hoje, devido à precisão das medições realizadas pelo LRC, as estatísticas obtidas pelo centro mineiro tornaram-se referência em todo o Brasil e em muitos países de clima tropical, já que a similaridade climática é maior do que a da Suíça. Um projeto do LRC em fase experimental promete incorporar ainda mais acuidade aos resultados de suas aferições. Os testes estão sendo realizados em dez pontos distintos nos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro e consistem na instalação de um equipamento de captura de correntes de raios junto a torres de telecomunicação construídas em grandes altitudes. Quando um raio ocorre próximo ao local, os aparelhos coletam e armazenam propriedades da descarga. A precisão das mensurações feitas pelos receptores ainda está em análise. “Quando a exatidão das medições dos equipamentos for constatada, validaremos as pesquisas. A proposta é que, em um futuro próximo, esse aparelho esteja espalhado por todo o território brasileiro. Teremos amostras de correntes de todas as regiões do país e pesquisas ainda mais significativas”, ressalta o professor.

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LEITURAS

História da Cartografia

A Idade Média marca o retrocesso da Cartografia. Os ‘cartógrafos’ medievais foram dominados pelo sentido cristão, com fortes expressões simbólicas e artísticas. Utilizaram a Orbis Terrarum dos romanos, para fins cristãos, tendo Jerusalém como centro. Produziram os mapas T-O – harmonia divina (Isidoro, 570636, bispo de Sevilha) – nos quais a Ásia ocupava a metade superior do O, com a Europa e África ocupando, cada uma, a metade da parte inferior

Uma abordagem histórica da cartografia, uma das formas mais antigas de representação da superfície da Terra, é o tema de História da Cartografia e Cartografia Sistemática, voltado para alunos de graduação e pós-graduação em Geografia e áreas afins. Escrito pelo pesquisador mineiro José Flávio Morais Castro, pós-doutor em Cartografia Histórica pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, de Portugal, e contando com apoio da FAPEMIG, o livro mostra como o mapa sempre esteve presente nos grandes momentos da história da humanidade como elemento de orientação dos mais variados povos, como importante instrumento de planejamento e gerenciamento do espaço. Morais Castro ressalta que, com a introdução dos recursos computacionais na cartografia, o processo de análise de informação tornou-se interativo, principalmente com o uso da cartografia digital, dos sistemas de informações geográficas e da

internet. “Entretanto, métodos e técnicas desenvolvidos na cartografia convencional (ou analógica) não devem ser negligenciados nas aplicações ligadas a essas tecnologias”, adverte o autor. Rico em ilustrações coloridas, o volume é dividido em três partes. Na primeira, a ênfase é na história da cartografia, começando dos povos primitivos e chegando até o século XX. Na segunda, o foco recai sobre as concepções em torno do tema. Finalmente, a terceira parte elege a cartografia sistemática como assunto, destacando a carta topográfica e os métodos analógico e digital da Morfometria. LIVRO: História da Cartografia e Cartografia Sistemática AUTOR: José Flávio Morais Castro EDITORA: Editora PUC Minas PÁGINAS: 104 ANO: 2012

O sonho de Einstein

Chegamos, então, a 1905. É um dos anos mais criativos de Albert Einstein. E de toda a física. Nesse ano realmente admirável, o jovem, que conseguiu finalmente um emprego fixo no Departamento de Patentes de Berna, lança três foguetes flamejantes que, segundo as palavras de Louis de Broglie, de repente iluminam o céu escuro da física. Trata-se dos três famosos trabalhos sobre o movimento browniano, o efeito fotoelétrico e a relatividade restrita

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Ao ler a extensa bibliografia sobre Albert Einstein (1879-1955), algo incomodava Pietro Greco: todos os autores falam com profunda admiração do gênio científico do alemão. Mas quase todos, quando falam dessa forma de um dos mais famosos cientistas de todos os tempos, referem-se à atividade que realizou em pouco mais de dez anos, entre 1905 e 1917, quando contribuiu, por exemplo, para o surgimento da Teoria Quântica, a redefinição dos conceitos de espaço e tempo e a consolidação da Teoria Atômica da Matéria, e deixam de lado quase toda a atividade científica que Einstein desenvolveu nos 40 anos seguintes. Nessa perspectiva, a tese de Greco, em O sonho de Einstein, é que os últimos 40 anos de vida científica de Einstein não devem ser envoltos no “silêncio piedoso e, ao mesmo tempo, embaraçoso, com que familiares costumam proteger o parente que, de repente, perdeu o juízo”.

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O ponto de partida é a carta mais longa do cientista para seu melhor amigo, Michele Besso, a última de um epistolário que é o mais “completo, articulado e complexo” da história científica contemporânea. O autor, Pietro Greco, é formado em Química, jornalista científico do diário L’Unitá e consultor científico e coautor do programa de TV Pulsar. Storia della scienza e della tecnologia Del ‘900, transmitido pela emissora italiana RAI. O livro integra a coleção Meio de Cultura, que procura apresentar textos em linguagem acessível a todos os leitores, e não apenas aos iniciados. LIVRO: O sonho de Einstein – Em busca da Teoria do Todo AUTOR: Pietro Greco TRADUÇÃO: Letizia Zini EDITORA: Editora Unicamp TÍTULO ORIGINAL: Il sogno di Eistein PÁGINAS: 152 ANO: 2011/2012


Gaúcho de Cachoeira do Sul, o dirigente do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) assumiu a pasta aos 73 anos. Somente nessa área são mais de 40 anos de experiência ativa. Físico, PhD em matemática, ex-professor da Universidade de Brasília (UnB), dentre outros destaques, foi fundador e diretor geral do Parque Tecnológico de São José dos Campos, presidente das sociedades brasileiras Para o Progresso da Ciência (SBPC) e de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC). No ano passado, presidiu a Agência Espacial Brasileira. Na função de ministro desde janeiro de 2012, Raupp conversou com MINAS FAZ CIÊNCIA durante sua visita à FAPEMIG, no final de maio. “Gostei do que vi aqui”, afirmou ele. Por Marcus Vinicius dos Santos

Como o senhor avalia a integração entre o meio acadêmico e as empresas privadas? Como um desafio. E a obrigação nossa — sistema nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) — é superar desafios. As políticas públicas voltadas para o desenvolvimento do Brasil, em todas as áreas, trazem inseridas a estratégia nacional de CT&I. Como a base de produção de conhecimento cresceu, precisamos levá-la, agora, a contribuir para o aumento da competitividade das empresas. A tendência é esse movimento de inovação se propagar por todo o setor produtivo. Se na liderança das cadeias produtivas estão as grandes organizações, seus fornecedores podem ser empresas bastante pequenas. Quando uma empresa maior adota a inovação, ela exige que seus fornecedores inovem também. As empresas pequenas, por sua vez, podem fazer parcerias com as universidades ou buscar mecanismos de apoio à inovação do governo, como a subvenção econômica da agência de fomento do MCTI, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) . A Ciência e a Inovação trazem benefícios para toda a sociedade, em todas as áreas do conhecimento.

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A Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação para o período de 2012-2015 prevê investimento de recursos públicos da ordem de R$ 75 bilhões. Esse valor é suficiente para financiar o que se planeja? Temos uma boa possibilidade de investir em tudo aquilo que estamos propondo, mas o valor ainda não é suficiente para toda a demanda. Além do Fundo Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico, temos tido reforços orçamentários. Por exemplo, fazendo associações com o Banco Nacional de Desenvolvimento

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Econômico e Social (BNDES), que nos permite financiar diretamente as empresas para o processo de inovação. Só no ano passado e neste, foram mais de R$10 bilhões de reforço. O Brasil tem experiências muito bem sucedidas em setores como petróleo, agronegócios e aeroespacial. Como levar esse sucesso a outras áreas? Mais uma vez, com a participação das empresas, especialmente das empresas privadas. Indicadores de países desenvolvidos, como os asiáticos, por exemplo — onde o desenvolvimento é mais recente —, mostram que os investimentos empresariais são bem mais altos do que os governamentais. Aqui, não é assim. Note que os exemplos citados, todos, estão muito ligados a iniciativas dos governos. Mas o desenvolvimento é uma responsabilidade de toda a sociedade. MCTI, FAP’s e secretarias estaduais devem trabalhar juntos para que as empresas, estimuladas pelo Estado, invistam mais. Os instrumentos para isso podem ser a oferta de crédito, isenção tributária e estímulo à cooperação entre os vários agentes, ou a criação de parques tecnológicos, onde atuam empresas e academia com objetivos comuns. E também a cooperação internacional, dentre outros.

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Por falar em internacionalização, o Ciência sem Fronteiras é um programa — realizado pela sua pasta, junto com o Ministério da Educação e órgãos de fomento — que deve enviar milhares de estudantes de graduação e pós-graduação do Brasil para intercâmbio com o exterior. Existe um plano para absorver esses jovens depois? A internacionalização da Ciência é muito importante. Precisamos estar conectados com

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o que acontece no mundo. E o valor da Ciência é universal. Quando a gente compara nossa produção com a de outros países podemos perceber mais rapidamente a qualidade do nosso trabalho. Mandar estudar fora, além de promover a internacionalização, permite direcionar o estudo em áreas estratégicas para o país, como Engenharia e Ciências Naturais, focos do programa. O ministério está empenhado em criar uma estrutura para recepcionar esses jovens de volta, encaminhá-los para empregos adequados e permitir seu pleno desenvolvimento profissional. Vi com muita satisfação que a FAPEMIG tem programas, semelhantes, de fixação de pesquisadores e de internacionalização, que são duas áreas estratégicas para a CT&I. Minas Gerais tem um destaque em relação aos outros estados por seu dinamismo na promoção do crescimento, fundamental, e da divulgação das políticas públicas. E a FAPEMIG exerce um papel muito importante nesse cenário. Queremos fazer parcerias e aproveitar essa contribuição.

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E, com relação aos centros de pesquisa, como o senhor avalia os INCT’s ? O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia é o maior sucesso, uma configuração voltada para estimular o desenvolvimento científico nacional, que estimula a conjugação de esforços a fim de atingirmos objetivos de maior nível de complexidade da pesquisa. Junta forças de vários grupos menores e permite melhores resultados, elevando escala e qualidade da produção científica. O ministério vai continuar apoiando os INCT’s.

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Você pode ouvir essa entrevista no podcast Ondas da Ciência e no videocast Ciência no Ar: fapemig.wordpress.com

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5 PERGUNTAS PARA...

Marco Antônio Raupp


A MINAS FAZ CIÊNCIA se volta para sua própria história: para marcar as 50 primeiras edições da revista, uma imagem formada com as capas desses números

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Criação: Hely Costa Jr.

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Espaços de Inovação - Parques tecnológicos reúnem idéias, saberes e experiências