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Redação - Rua Raul Pompéia, 101 - 12.º andar, São Pedro - CEP 30330-080 Belo Horizonte - MG - Brasil Telefone: +55 (31) 3280-2105 Fax: +55 (31) 3227-3864 E-mail: revista@fapemig.br Site: http://revista.fapemig.br

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GOVERNO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Governador: Antonio Augusto Junho Anastasia SECRETARIA DE ESTADO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR Secretário: Narcio Rodrigues

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais Presidente: Mario Neto Borges Diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação: José Policarpo G. de Abreu Diretor de Planejamento, Gestão e Finanças: Paulo Kleber Duarte Pereira Conselho Curador Presidente: João Francisco de Abreu Membros: Alexandre Christófaro Silva, Antônio Carlos de Barros Martins, Dijon Moraes Júnior, Evaldo Ferreira Vilela, José Luiz Resende Pereira, Marcelo Henrique dos Santos, Marilena Chaves, Paulo Sérgio Lacerda Beirão, Ricardo Vinhas Corrêa da Silva, Valentino Rizzioli

É comum pensar que arte e ciência são campos antagônicos, com muito pouco (ou nada) em comum. No entanto, observando mais atentamente a história da humanidade, percebemos que, não raro, esses campos se cruzam, conversam e, mutuamente, se inspiram. Leonardo da Vinci é o ícone máximo deste entrelaçamento, tendo deixado contribuições importantes tanto em uma como em outra área. Pensando em tudo que há de belo na ciência, e no que há de racional nas artes, chegamos ao tema da reportagem de capa desta edição. Para compor a matéria, o editor Maurício Guilherme Silva Jr e a jornalista Virgínia Fonseca conversaram com profissionais que, normalmente, não são encontrados em uma revista de ciência. Músicos, atores e escritores falam sobre como a razão, característica da ciência, e a emoção, tão forte nas artes, convivem e contribuem para o desenvolvimento de seus trabalhos. A entrevista com o maestro Fabio Mechetti, diretor artístico e regente titular da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, complementa o tema e destaca como a sensibilidade, a dúvida e a constante busca por conhecimentos unem de forma inequívoca os dois campos. Seja na arte, seja na ciência, eles sempre inspiram boas ideias: os robôs humanoides, ou seja, aqueles que imitam o comportamento humano, são tema de reportagem desta edição. Na Universidade Federal de Uberlândia, a Equipe de Desenvolvimento em Robótica Móvel (Edrom) desenvolve projetos e participa de competições nacionais e internacionais. Os robôs criados realizam as mais diversas ações, desde ajudar pessoas com dificuldade de locomoção até competir em uma disputa de pênaltis. Ao longo do processo de concepção e construção do robô, os alunos se aperfeiçoam, fazem contatos profissionais e praticam o empreendedorismo. Qual o melhor adoçante? A mesma pergunta que aparece na capa da MINAS FAZ CIÊNCIA motivou pesquisadores do Centro Universitário de Lavras e da Universidade Federal de Lavras a iniciar pesquisa que avaliou as propriedades de cinco substâncias presentes nos adoçantes mais populares. O estudo comparou ganho de peso, perfil lipídico, glicemia e função hepática de ratos submetidos a dieta hipocalórica com cada um dos adoçantes. Um dos resultados é também um estímulo à mudança no estilo de vida: isoladamente, os adoçantes não são capazes de reduzir o peso – é preciso associar sua ingestão a exercícios físicos. Na Universidade Federal de Itajubá, um grupo de pesquisadores estuda os efeitos da incidência de radiação ultravioleta. O trabalho, que envolveu medições em diferentes pontos do país, mostrou que os índices de radiação chegam a ser 50 vezes superior ao considerado recomendável pela Organização Mundial de Saúde. A pesquisa resultou em uma rede de monitoramento e compartilhamento de dados, acessível a especialistas de todo o país, que fornece subsídios para novos estudos e para a elaboração de medidas preventivas. Outro destaque é a reportagem da jornalista Juliana Saragá sobre um tema delicado, mas que pede atitudes urgentes: o abuso sexual infanto-juventil. Ela apresenta o projeto Cavas – Crianças e Adolescentes Vítimas de Abuso Sexual –, trabalho de pesquisa e extensão que reúne pesquisadores e alunos da UFMG. O grupo oferece aconselhamento e orientação às vítimas e, por outro lado, produz artigos e encontros sobre o tema, com o intuito de compartilhar conhecimentos. Algumas das matérias divulgadas aqui também são encontradas nos outros veículos de divulgação científica da FAPEMIG: o programa de televisão Ciência no Ar, o programa de rádio Ondas da Ciência e o blog do projeto (http://fapemig. wordpress.com). Não deixe de conferir! Boa leitura! Vanessa Fagundes Diretora de Redação

AO LEI TO R

EX P ED I EN T E

MINAS FAZ CIÊNCIA Diretora de redação: Vanessa Fagundes Editor-chefe: Maurício Guilherme Silva Jr. Redação: Diogo Brito, Juliana Saragá, Marcus Vinícius dos Santos, Maurício Guilherme Silva Jr., Virgínia Fonseca, Rodrigo Valadares e William Ferraz Diagramação: Fazenda Comunicação Revisão: Sílvia Brina Projeto gráfico: Hely Costa Jr. Editoração: Fazenda Comunicação & Marketing Montagem e impressão: CGB Tiragem: 20.000 exemplares Capa: Hely Costa Jr.


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ENTREVISTA

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Tecnologia

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Diretor artístico e regente titular da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, Fabio Mechetti fala dos “embates” entre música, razão e emoção

Reportagem vasculha bastidores da construção de robôs, máquinas que servem de vitrine ao conhecimento e revelam a face do futuro

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Educação física

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Sustentabilidade

Psicologia

Referência no estudo do abuso sexual infanto-juvenil, projeto realiza atendimento psicoterápico às vítimas do trauma

SAÚDE PÚBLICA

Fundações de Amparo à Pesquisa do Amazonas, do Rio de Janeiro e de Minas Gerais financiam rede de pesquisa contra a “doença do peito”

Nuances culturais e históricas de romances extensos latino-americanos são problematizadas por estudo da UFMG

Pesquisa multidisciplinar investiga efeitos da incidência de radiação UV no Brasil e na América do Sul

Criada por pesquisador aposentado da Universidade Federal de Viçosa, técnica permite produção simultânea de cachaça e álcool combustível

Eng. Biomédica

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LEMBRA DESSA?

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5 PERGUNTAS PARA...

Raios solares

Artistas e pesquisadores discutem limites e possibilidades do multifacetado relacionamento entre arte e ciência

Voltada à manutenção da qualidade de vida do idoso, iniciativa avalia benefícios da prática regular de atividade física

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Literatura

ESPECIAL

Experimentos sobre atenção auditiva seletiva podem levar a dispositivo que permitirá comunicação com pacientes imobilizados

Conheça o ofício dos “canteiros”, mestres que há séculos transformam pedras em ornamentos e peças estruturais

O casal Stephen Macknik e Susana Martinez-Conde discute a neurociência da mágica

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ENGENHARIA DE ALIMENTOS

Duas instituições universitárias de Lavras (MG) desenvolvem análise comparativa dos principais adoçantes consumidos pelos brasileiros


Como docente do Senai e estudante de Gestão da Qualidade, me interessaram muito as reportagens da edição 51 de MINAS FAZ CIÊNCIA. Desde já agradeço e parabenizo à redação pela excelente iniciativa, haja vista a grande carência que temos de divulgações sérias, de assuntos inerentes à ciência e, sobretudo, à inovação em nosso estado, e – por que não dizer? – em nosso país. Ontem à noite terminei a leitura da Minas Faz Ciência n° 51. Adorei! O número atual me chamou especial atenção por trazer como matéria de capa um tema tão recorrente nas discussões atuais – a escrita e o uso das TICs –, porém ainda permeado de preconceitos, inclusive em meio aos pesquisadores. Gostaria de parabenizar a você e à sua equipe pela ousadia, assim como pela excelente revista que tão bem divulga e populariza o conhecimento científico. Bárbara Olímpia Ramos de Melo Universidade Estadual do Piauí (UESPI) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (FAPEPI)

Reinaldo Lourenço Crispim Instrutor de Formação Profissional/Senai Belo Horizonte/MG Sou estudante e pesquisador. Vi a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, da FAPEMIG, e me encantei com a clareza dos artigos e a organização da publicação. Vocês estão de parabéns! Fiz meu cadastro para receba-la e gostaria de também ter acesso às edições anteriores, já que tenho uma biblioteca comunitária e recebo diversos estudantes que, por aqui, realizam pesquisas. Pretendo lhes oferecer este material, que, com certeza, fará a diferença na vida e no conhecimento dessas pessoas. Vander Bruni da Silva via email

Sobre a reportagem “#prontofalei”, publicada na edição nº 51 Excelente matéria da revista nº 51 (set./Nov. 2012) da @fapemig. Abordou o impacto dos recursos de informática na escrita de jovens. Clenio Araújo (via Twitter) Prezados senhores: daqui, desta terra entre-serras e guarnecida por anjos barrocos, faço chegar, até vocês, os meus cumprimentos pela

Para receber gratuitamente a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, envie seus dados (nome, profissão, instituição/ empresa, endereço completo, telefone, fax e e-mail) para o e-mail: revista@fapemig.br ou para o seguinte endereço: FAPEMIG / Revista MINAS FAZ CIÊNCIA - Rua Raul Pompéia, 101 - 12.º andar - Bairro São Pedro Belo Horizonte/MG - Brasil - CEP 30330-080

MINAS FAZ CIÊNCIA tem por finalidade divulgar a produção científica e tecnológica do Estado para a sociedade. A reprodução do seu conteúdo é permitida, desde que citada a fonte. MINAS FAZ CIÊNCIA • DEZ/FEV 2013

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CARTAS

alta qualidade da publicação da Revista MINAS FAZ CIÊNCIA, cujo exemplar nº 51 tive a satisfação de ler. José Antônio de Ávila Sacramento Membro do Instituto Histórico e Geográfico, da Academia de Letras e do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de São João del-Rei


especial

Movidas pela dúvida

* Colaborou Virgínia Fonseca

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Arte e ciência se entrecruzam, desde tempos imemoriais, como resultado da ânsia humana por novas descobertas, tecnologias e concepções de vida Maurício Guilherme Silva Jr.*

Em um de seus estudos sobre a natureza da arte, Leonardo da Vinci (14521519) discute, com ênfase no ofício do pintor, as “dez funções do olho”. Segundo o mestre italiano – que, em 67 anos de genialidade, também atuou como cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico –, não caberia às retinas o mero exercício da observação estética. Para além de paciência e sensibilidade, o artista deveria compreender, disciplinada e detalhadamente, o decálogo de princípios vital à captação, pela “janela da alma”, dos mais diversos seres, objetos e cenas. Trata-se de noções relativas a elementos como “escuridão, luz, corpo, cor, forma, localização, afastamento, proximidade, movimento e repouso”, sem as quais seria impossível reproduzir ou “recompor” as maravilhas do mundo. “Acaso não vemos que o olho abarca a beleza de todo o universo, assim como aconselha e corrige todas as artes da humanidade?”, questionava o sábio do Alto Renascimento, ao louvar o órgão humano que chamou de “o príncipe das matemáticas”, por tornar “absolutamente certas” as ciências que nele se fundavam: afinal, afora a visão, que outro sentido permitiria ao homem medir as distâncias e a magnitude das estrelas, desvendar os elementos e sua localização ou dar à luz “a arquitetura, a perspectiva e a divina arte da pintura”? Curioso observar que, ao abordar atributos essenciais ao bom pintor, Leonardo da Vinci seja capaz não apenas de problematizar o olhar do artista, mas também – ou principalmente – de alimentar um dos mais complexos (e fascinantes) dilemas resultantes da capacidade criativa do homo sapiens: o que caracterizaria, exatamente, a confluência entre as artes e as ciências? De maneira mais específica: o que haveria de artístico nas práticas e teorizações científicas e, por outro lado, qual seria a “influência” do conhecimento acadêmico para as realizações estéticas? À cata de respostas a tais questionamentos – etéreos e universais, conforme se sabe –, MINAS FAZ CIÊNCIA conversou com uma série de artistas e pesquisadores de renome internacional (veja, também, entrevista com o maestro Fabio Mechetti, à

página 12). Realizadas ao longo dos meses de dezembro de 2012 e janeiro de 2013, as entrevistas marcaram-se, de um lado, pela heterogeneidade das experiências profissionais e dos pontos de vista. Por outro, acabaram por revelar aquilo que, de modo unânime, parece mesmo se destacar como ingrediente fundamental ao desenvolvimento tanto das iniciativas científicas quanto das expressões artísticas: a boa e velha “dúvida”. “A meu ver, tanto a ciência como a arte buscam novas percepções do mundo. Descobertas pressupõem rupturas de percepções estabelecidas. Neste referencial, o frescor do novo é gerado a partir da superação dos limites de uma teoria científica ou de referenciais estéticos e, também, da confluência de diferentes áreas do conhecimento”, destaca Eduardo de Campos Valadares, professor do Departamento de Física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e, ainda, tradutor de poesia. Segundo o pesquisador, são comuns as alterações paradigmáticas proporcionadas, num mesmo período, por “movimentos” artísticos e científicos. Que o diga a convivência entre Cubismo e Teoria da Relatividade: “Não é mera coincidência que a mudança de paradigmas coincida com movimentos simultâneos de ruptura nas artes, nas ciências e na sociedade em geral”, explica, ao citar, ainda, que a Mecânica Quântica foi concebida em momento de convulsão econômica e social na Alemanha, que vivia conjuntura de hiperinflação e desemprego, marcada por diversas expressões estéticas de vanguarda. “Neste Eduardo Valadares realizou importante trabalho de tradução das obras do poeta alemão Stefan George (18681933). Sobre tal atividade, ressalta o professor: “Além dos meus interesses científicos, dediquei dez anos lendo, quase exclusivamente, poesia – que alguém definiu como ‘tecnologia de ponta da linguagem’. Com isso, busquei adquirir a cultura poética que me permitiu explorar diferentes abordagens de recriação literária.” MINAS FAZ CIÊNCIA • DEZ/FEV 2013

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panorama, embora os atores envolvidos tenham linguagens diferentes, existe algo comum que os conecta e os inspira mutuamente”, completa. Autor de mais de 40 obras infanto-juvenis, o escritor, jornalista, professor e pesquisador Leo Cunha concorda com a ideia de que, assim como as investigações científicas, as expressões artísticas sejam movidas a dúvidas, inquietações e curiosidades. Apesar disso, destaca o que considera a diferença crucial entre as duas atividades humanas: na arte, os diversos gêneros e correntes estão muito mais habituados a conviver e a dialogar. “Na ciência, ao contrário, é maior a tendência à substituição de um paradigma por outro”.

Barbas e cabideiros Por falar em inspirações mútuas e conflitos paradigmáticos, importante ressaltar a visão do ator e diretor Chico

Pelúcio, do Grupo Galpão, para quem o status de “crise” – situação intrínseca à prática científica – também integra “o antes e o durante” da elaboração artística. “A busca da arte é revelar o que está por trás das paisagens, das palavras, das paredes, dos olhares, dos silêncios e dos gritos. Por isso, a dúvida e a crise são inerentes ao processo de criação, de tentativa de tradução de uma realidade aparente”, comenta. A seu ver, a concepção estética da obra resulta de íntima relação entre a racionalidade e a intuição, entre a técnica e a improvisação: “Para que isso aconteça, é necessário que o criador tenha um chão e a definição clara do universo a ser visitado. A partir daí, é fundamental dar espaço à emoção e à intuição. Há necessidade, ainda, de uma espécie de ‘cabideiro’, roteiro onde essa criação – ora desordenada e caótica – possa ser organizada, dependurada e analisada”.

Ao comentar as confluências e dissidências de seu ofício de escritor e cientista, Angelo Machado – que, além de professor e pesquisador do Departamento de Zoologia da UFMG, é autor de 35 obras literárias e integrante da Academia Mineira de Letras – acredita que ambas as atividades precisam ter, em alto nível, a criatividade: “Entretanto, o trabalho criativo do cientista é limitado pela verdade. Ou melhor, por aquilo que, naquele momento, ele acha ser a verdade. O escritor, ao contrário, não possui limitações. Em seus textos, pode criar o que quiser”. Essa foi, aliás, uma das razões que levaram o próprio Angelo, desejoso de conceber o absurdo, a se tornar literato: “Em meu livro O velho da montanha, o personagem principal mora no alto do Pico do Vento e sua barba tem mais de dois quilômetros. Como cientista, jamais poderia criar essa barba. Na pele do escritor, o velho é meu e eu a ponho do tamanho que quiser”.

Da tela ao chip O que, na atualidade, as novas tecnologias representam para o “universo” das artes? A questão, objetiva e aparentemente simples, é, no fundo, reveladora dos desafios a que, atualmente, estão sujeitos os homens da cultura e da produção estética. O diretor Chico Pelúcio, por exemplo, lembra que a transversalidade das expressões artísticas incluiu os dispositivos tecnológicos como forma de comunicação com o homem contemporâneo. “Podemos considerá-los apenas como suporte para transmissão das artes tradicionais. O mais instigante, entretanto, é pensá-los enquanto forma de expressão que se multiplica e se torna complexa a cada piscar de olhos”, comenta. Eduardo Valadares prefere recorrer aos exemplos para revelar a atual força das novas tecnologias, que permitem aos artistas explorar temas antes inconcebíveis. O pesquisador cita o trabalho de Mabe Machado Bethônico, da Escola de Belas Artes da UFMG, que, há alguns anos, usou imagens de aparas de unhas geradas com microscopia de força atômica – técnica de visualização de superfícies com resolução subatômica – para compor uma obra de arte. O próprio Valadares, quando envolvido com a recriação poética dos versos de Stefan George, recorreu, por vezes, dispositivos de buscas na internet, que lhe forneceram pistas para uma série de soluções. “Utilizei, ainda, uma ferramenta de identificação de imagens, no caso de um cristal chamado carneol, que lembra carne, ao qual o poeta se refere em um verso”, conclui. Também ciente de que, no campo da criação, as inovações abrem amplo leque de possibilidades – ao permitir, e mesmo estimular, que o artista explore a fundo, em seu processo criativo, questões como a aleatoriedade, o acaso, a não linearidade e a hipermídia –, Leo Cunha comenta que, no que tange ao campo da divulgação, as alternativas são ainda mais evidentes: “Afinal, é imensa a capacidade de reprodução, multiplicação e compartilhamento das obras artísticas/culturais. Ao mesmo tempo, ganham dimensão os dilemas envolvidos com a questão da autoria, dos direitos autorais, da reprodução e intervenção não autorizadas, entre outras questões”. Já segundo a professora Yacy-Ara Froner, o uso de ferramentas tecnológicas não pode ser visto como um fim em si mesmo. Isso porque computadores, samplers, programas de imersão, internet e intranet, vídeo, televisão, rádio, GPD etc. são apenas suportes com os quais os artistas exercem sua imaginação. “Como parte de uma exposição, Eduardo Kac implantou um chip de identificação em seu tornozelo, registrando o código junto a uma base de dados. Seu trabalho discutiu o controle e o uso de tecnologias no cerceamento da liberdade e do direito à intimidade e à privacidade”, descreve. Neste sentido, assim como os demais cidadãos, o artista contemporâneo percebeu-se impelido a desenvolver o pensamento crítico e a intimidade com as diversas ferramentas disponíveis. “Tanto a arte quanto a ciência convivem ‘na esfera do social’ e dependem das relações de poder, de identidade, de ideologia. Ambas são produtos de uma época, de um sistema de pensamento, de uma configuração histórica e, portanto, partilham do mesmo leque de opções seu tempo”, completa.

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A dicotomia a envolver “verdades e belezas” também atrai a atenção de Artur Andrés Ribeiro, integrante do grupo mineiro Uakti e professor da Escola de Música da UFMG. Há muitos anos, ele ouviu a frase que, em sua opinião, sintetiza com propriedade o convívio entre conhecimento e estética: “A ciência busca a beleza na verdade. A arte busca a verdade na beleza.” Em função de os dois princípios constituírem “extremidades opostas de uma mesma vara, tendemos a querer encontrar um ponto intermediário entre eles. Creio ser este o lugar no qual, por vezes, o Uakti se posiciona: fazer com que a verdade esteja a serviço da beleza”. Coordenadora do curso de Conservação-Restauração de Bens Culturais Móveis e professora do Departamento de Artes Plásticas da UFMG, Yacy-Ara Froner diz que são permanentes as relações entre expressões artísticas e científicas. Segundo a pesquisadora, por meio das Ciências Exatas, a arquitetura e a arte greco-romana determinaram o cânon e o decoro: desde o Renascimento, o desenvolvimento da perspectiva ocorre por meio do uso de aparelhos ópticos e da pesquisa de novos materiais – como a pintura a óleo –, em busca do realismo tridimensional. Apesar disso, arte e ciência jamais estabeleceram diálogo tão intenso quanto na contemporaneidade: “A introdução das novas tecnologias, tanto para o uso na expressão e na experimentação artísticas quanto na construção de novos campos de conhecimento, potencializou a força sinérgica entre ambas”.

Razão e sensibilidade Mas de que modo, afinal, as técnicas científicas podem auxiliar as expressões artísticas? Por outro lado, qual a contribuição das emoções ao cotidiano de um pesquisador? Há séculos, questões desse porte mobilizam a atenção da Epistemologia – ramo da filosofia responsável pelo estudo da natureza do conhecimento –, assim como estimulam ricas reflexões por parte de especialistas em cultura e estética. Na atualidade, segundo Yacy-Ara Froner, áreas do saber como a neurociência, a psicologia e a educação preocupam-se ininterruptamente

Formado por Marco Antônio Guimarães, Paulo Santos, Décio Ramos, Artur Andrés Ribeiro, o Uakti é bastante conhecido por desenvolver instrumentos pouco convencionais, a partir de objetos como tubos de PVC, teclas de vidro e cabaças. com o debate sobre o papel da arte para a formação dos indivíduos e a construção de pensamentos criativos e autônomos – base primeira das motivações científicas. No que tange à natureza do fazer artístico, a pesquisadora lembra, ao citar Jean Lancri, que as propostas estéticas resultam de um entrecruzamento, marcado pela maneira como o artista costuma elaborar conexões. Segundo Froner, as questões de ordem técnica e metodológica, ao longo da elaboração das obras, as referências conceituais e estilísticas de escolas e poéticas, os diálogos da criação com o público e os significados dos trabalhos gerados – enquanto projeções individuais e coletivas – conduzem à fusão entre técnica e emoção, o que torna complexo o mapeamento dessa linha tênue. “A pergunta maior, na verdade, é outra: ‘Por que razão esta distinção torna-se significativa?’ Nem sempre as questões técnicas são os únicos marcos operacionais, por exemplo, das pesquisas científicas sobre autenticidade. Do mesmo modo, nem sempre a percepção é o único viés que nos permite acessar uma obra”, completa. Segundo o professor Eduardo Valadares, o fundamental a enfatizar é que a arte tem como suporte, justamente, a técnica. O que usa um pintor, por exemplo? Tintas. E o que elas são? Pigmentos, aglomerados de moléculas, que, por sua vez, absorvem seletivamente a luz. Já o escultor busca pedras, metal, tecidos, papelão, e, com o intuito de implementar seu ofício, recorre a ferramentas de corte, colas, abrasivos, solda. “Do mesmo modo, o escritor usa a palavra, o átomo da linguagem, além de uma série de instrumentos: caneta, lápis, computador etc. Assim como átomos formam moléculas, cristais e tecidos orgânicos – segundo a Mecânica Quântica e as Leis da Termodinâmica –, o literato está sujeito às

“Um pesquisador em artes plásticas, com efeito, opera sempre, por assim dizer, entre o conceitual e o sensível, entre teoria e prática, entre razão e sonho. Mas que a palavra ‘entre’, aqui, não nos iluda, pois, para nosso pesquisador, se trata de operar no constante vaivém entre esses diferentes registros.”

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Machado, muitas são as contribuições da pesquisa acadêmica a seu ofício de escritor – e, particularmente, ao conteúdo das obras literárias. “Por trabalhar em um Departamento de Zoologia e, ao mesmo tempo, presidir a ONG Fundação Biodiversitas, que usa métodos científicos para a conservação de espécies ameaçadas de extinção, tenho a oportunidade de conhecer muitos fatos curiosos sobre os animais. Essas informações acabam transportadas para meus livros”, conta o professor, ao garantir que a estratégia dá muito certo porque as crianças adoram os bichos. Certa vez, um zoólogo amigo do autor descobriu que, ao contrário do que pregava a literatura especializada, o lobo-guará come mais frutas do que carne. O fato levou Angelo Machado a escrever um livro e a peça de teatro Chapeuzinho Vermelho e o lobo-guará. No principal momento da trama, quando está prestes a engolir a garotinha, o peludo malvado vê uma melancia em cima da mesa e pergunta à criança: “Para quê esta melancia tão

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grande?”. “É para você comer”, responde Chapeuzinho. Resultado? Como se pode perceber, ao contrário da historinha já conhecida por todos, o animal acaba por se satisfazer apenas com a fruta. “Cerca de cem espécies de animais figuram em meus livros. Só em A festa de aniversário da Aline, comparecem 85 bichos, alguns novos para a ciência. Garanto que um escritor não zoólogo dificilmente conseguiria dispor de número tão vasto de informações sobre a fauna”. Também conhecedor das expectativas de seus jovens leitores, Leo Cunha chama a atenção para o fato de que, apesar de certas limitações de prazo, tamanho, tema e linguagem, o escritor sente-se muito mais livre do que um jornalista ou um cientista: “A liberdade tende a ser maior. Meu processo criativo, geralmente, passa por um primeiro momento de risco, desorganização. Para usar um termo da ciência, começo soltando muitos balões de ensaio, para, num momento posterior, buscar alguma ordem, alguma racionalização”. Little Red Riding Hood by G. P. Jacomb Hood

regras gramaticais. Alguns poetas buscam subverter estas regras e acabam ampliando o acervo da linguagem”, explica. De maneira distinta, no que diz respeito à criação artística, Valadares atenta para o fato de que, além de talento e imaginação, existe certa cultura a unir o artista a seus predecessores – seja ao ater-se a temas universais, expressos de formas diferentes, seja ao buscar, incessantemente, um modo de renovar a percepção do mundo e de si próprio com os instrumentos e meios à sua disposição. “A meu ver, a emoção é a sensibilidade do artista em ação, que se traduz através dos meios técnicos ao seu alcance e nos permite avançar para dentro e para fora”. Já Chico Pelúcio, do Grupo Galpão, acredita que as técnicas, ao contrário do que muitos pensam, garantem liberdade aos artistas, para que possam fruir e traduzir melhor as emoções. “No caso do teatro e da dança, o corpo do ator é sua escrita, é por onde ele se comunica. Para que um resultado contundente seja alcançado, revela-se primordial, portanto, que ele tenha o corpo, a voz e o conhecimento ‘afiados’”, diz, ao esclarecer que, para tal, deve-se ter ampla noção de anatomia e consciência dos próprios limites. “Também é preciso adquirir bagagem cultural, treinar a sensibilidade, entender de física quântica, de biodinâmica, e – por que não? – compreender o ser humano”. Desenvolvimento de técnicas e predisposição à sensibilidade artística são atividades que convivem de modo natural no Uakti. Se, nas oficinas realizadas pelo grupo musical, as pessoas são despertadas ao “interesse pelo ouvir, de maneira despojada de virtuosismo excessivo e próximas do sentimento humano”, durante os exercícios para construção de instrumentos, é exigido dos participantes bom conhecimento de acústica, marcenaria, mecânica e performance: “Há, porém, um interesse vivo por algo, bastante complicado de definir em palavras – talvez por não se encontrar no plano visível da matéria –, que segue além desses conhecimentos”. Da música à literatura, modificam-se, apenas, as especificidades da relação entre razão e sensibilidade. No ver de Angelo

Saber científico fez Angelo Machado criar lobo também herbívoro


Para ler, ver, ouvir, tocar... Ao longo das entrevistas realizadas para esta reportagem, pediu-se aos pesquisadores que citassem experiências de artistas que, de maneira própria, abordaram a ciência em suas obras. Confira as boas dicas na literatura, no cinema e nas artes plásticas:

Os livros, segundo Angelo Machado “No Brasil, a divulgação de ciências por meio da literatura começou na década de 1940, com Monteiro Lobato e Lúcia Machado de Almeida. Lobato dedica-se ao tema, por exemplo, em Serões de Dona Benta, Aritmética da Emília e História das Invenções. Ou quando, em Caçadas de Pedrinho, Emília descreve minuciosamente uma colmeia de abelhas. Já Lúcia publica No fundo do mar, Na região dos peixes fosforescentes, O caso da borboleta Atiria e Atiria na Amazônia. Dentre os escritores infantis que ocasionalmente tratam de questões científicas em seus livros, cito Mary França, Ana Maria Machado, Malba Tahan, Sylvia Orthof e Ruth Rocha.” 

Os filmes, segundo Leo Cunha “Um dos grandes cineastas contemporâneos, o canadense David Cronenberg lida com as ciências, direta ou indiretamente, em grande parte de sua obra. Discussões biomédicas estão em Gêmeos – mórbida semelhança e A mosca. Já questões ligadas ao domínio (ou não) das tecnologias pelo ser humano – assim como da relação homem/máquina, em geral – aparecem em Scanners, Videodrome, eXistenZ, Cosmópolis e Crash – estranhos prazeres. O diretor também examinou o universo das ciências humanas em Um método perigoso, filme que trata da amizade, do embate e do rompimento entre Freud e Jung. Stanley Kubrick é outro grande cineasta a abordar temas científicos. Em 2001 – uma odisseia no espaço, tratou do progresso e das diversas tecnologias humanas ao longo da história, o que é simbolizado pela famosa elipse entre o osso (atirado ao ar pelo primata pré-histórico) e a nave espacial (que voa livre, milhões de anos depois). Também discutiu temas da psicologia e da medicina no filme Laranja mecânica. Ao morrer, deixou pronto o roteiro de Inteligência artificial, que seria filmado, anos depois, por Steven Spielberg. O norte-americano Terry Gilliam reuniu-se com um grupo de comediantes britânicos e fundou, na década de 1960, a célebre trupe humorística Monty Python. Nos filmes, questões ligadas ao progresso e às máquinas, assim como aos conflitos entre razão e fé, surgiam esporadicamente. Quando o grupo se desfez, nos anos 1980, Gilliam iniciou sólida carreira como cineasta, na qual as temáticas ligadas à ciência e à (ir)racionalidade ganharam proeminência. Entre as obras, podemos citar 12 macacos, O imaginário do Dr. Parnassus e Brazil – o filme.”

As obras de arte, segundo Yacy-Ara Froner “Eduardo Kak faz parte de um grupo que discute explicitamente os limites éticos da genética e da ciência da informação. Há artistas, porém, que usam o conhecimento científico como suporte à experiência estética: a Arte Cinética de Jesús-Raphael Soto e Abraham Palatnik demanda profundo conhecimento da física e discute a percepção por meio da digressão óptica. Instalações, de maneira geral, são obras complexas de engenharia, arquitetura e matemática. Em particular, cito as obras de Richard Serra e de Guto Lacaz, que discutem o tempo e o espaço. Walmor Correia extrapola barreiras, ao usar o desenho científico para construir esqueletos de seres imaginários. Além disso, a temática não diz respeito apenas às ciências naturais. Questões políticas e sociais também fazem parte desse repertório: o sociólogo Pierre Bourdieu e o artista Hans Haacke produziram um estudo – Livre-Troca: diálogos entre ciência e arte –, decorrente de seus encontros na década de 1980, em que discutem as profundas transformações no meio artístico. A obra de Haacke condensa uma análise do mundo da arte e das próprias condições da produção artística, questionando as relações de poder a partir de sua percepção crítica – nas palavras de Bourdieu, quase sociológica – do contexto. Há vários artistas, como Chen Shaofeng, Rassim e Tereza Margolles que discutem política, intolerância e criminalidade. Há pouco, estive no instituto Serralves, no Porto, e o trabalho de Nedko Solakov impressionou-me pela potência de questionamentos sobre o contexto da arte e da sociedade contemporânea. Por ‘temática da ciência’, pode-se entender a apropriação da ciência, sua refutação ou o questionamento sobre condicionantes éticos da ciência e da arte.”

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ENTREVISTA

A (poética) matemática dos sons Diretor artístico e regente titular da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, Fabio Mechetti revela os desafios de um maestro e a intensa relação entre música e ciência Maurício Guilherme Silva Jr. À frente de duas orquestras de padrão internacional, o paulistano Fabio Mechetti não titubeia em destacar o que lhe mobiliza em direção à arte – atividade, a seu ver, de foro “subjetivo e não tangencial”: a dúvida. Diretor artístico e regente titular da Filarmônica de Minas Gerais e da Sinfônica de Jacksonville, nos Estados Unidos, o maestro afirma não haver melhor antídoto aos desafios estéticos e sociais senão a própria busca por solução a questionamentos e obstáculos de natureza técnica, íntima ou política. Daí, aliás, a singular proximidade, discutida ao longo desta entrevista, entre música e ciência – ofícios humanos mobilizados, justa e permanentemente, pela procura de “respostas capazes de solucionar problemas atuais, melhorando as perspectivas futuras em suas várias aplicações”. Mestre em regência e composição pela Juilliard School, de Nova Iorque, Mechetti também revela, aos leitores de MINAS FAZ CIÊNCIA, as racionalizações e responsabilidades inerentes ao ofício do maestro, os significados da formação acadêmico-científica para a trajetória de músicos e musicistas e a paradoxal convivência entre orquestras e novas tecnologias.

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Discutir ciência é tratar das “crises permanentes” – paradigmáticas ou metodológicas –, capazes de alimentar, na pesquisa, a “eterna dúvida” sobre tudo. Tais estados críticos também seriam inevitáveis à elaboração das mais relevantes expressões e/ou criações artísticas? Em algo tão subjetivo e não tangencial quanto a arte, tudo é dúvida. Ao mesmo tempo, toda obra de arte é a resposta a um questionamento interno do próprio artista – fruto da vontade de se expressar em sua linguagem ou em retorno a um estimulante externo, proveniente de questões sociais, políticas etc. Logicamente, a arte, ao contrário da ciência, não é, em si, pragmática, no sentido de exercer influências determinadas e mensuradas nas pessoas ou na sociedade como um todo. Entretanto, “só” por meio dela (ou, de modo menos arrogante, “principalmente” por meio dela) é que certas transformações são possíveis. Parafraseando Picasso, eu diria que a arte (ou “a melhor arte”) é aquela que não necessariamente reflete a realidade, mas tenta mudá-la, por compreender que ela sempre poderá melhorar. Nesse sentido, as expressões artísticas aproximam-se da ciência, que busca, constantemente,


Foto: Eugênio Sávio

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“Logicamente, a arte, ao contrário da ciência, não é, em si, pragmática, no sentido de exercer influências determinadas e mensuradas nas pessoas ou na sociedade como um todo. Entretanto, “só” por meio dela (ou, de modo menos arrogante, “principalmente” por meio dela) é que certas transformações são possíveis”

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respostas capazes de solucionar problemas atuais, melhorando as perspectivas futuras em suas várias aplicações. É interessante mencionar aqui, para efeito de ilustração dessa ideia, algo dito, mais ou menos assim, por Einstein: “Se eu não tivesse descoberto a teoria da relatividade, alguém o teria feito, pois ela estava aí para ser revelada. Porém, se Mozart não tivesse escrito seu ‘Requiem’ – ou se Beethoven não fizesse a ‘Nona Sinfonia’ –, ninguém mais o teria feito, pois só a arte é capaz de realmente criar algo do nada”. Em seu ofício diário, como maestro, que atividades ou ações precisam ser necessariamente racionalizadas? No outro extremo, em que momentos revela-se fundamental o afloramento da sensibilidade estética? Um regente é, de certa forma, um empreiteiro com um projeto em mãos – a partitura –, não concebido por ele, mas pelo compositor. O maestro, porém, é responsável pela transformação de uma ideia em algo desfrutável. Assim como um empreiteiro, ele deve analisar o projeto, entender sua dinâmica, suas necessidades, seus desafios, e planejar, com entendimento, eficiência e competência, como irá realizar esse projeto. Esse é um trabalho essencialmente racional, baseado em técnicas que não apenas ele, mas também o criador (arquiteto/compositor) têm em comum. Além de alcançar o entendimento teórico da questão, por meio dessa preparação, o maestro busca a aplicação adequada no sentido prático. Os ensaios são, na verdade, o processo de “construção”, em algo vivo, daquele modelo desenhado na partitura. Assim como qualquer belo projeto arquitetônico iria às ruínas caso não houvesse perfeita solidez nas questões técnicas, uma apresentação de concerto ruiria sem clareza estrutural da obra, sem limpeza em sua realização, sem o equilíbrio sonoro capaz de realçar as perspectivas inerentes a essa obra, sem o ritmo consistente e fluido que lhe confere forma. Só assim é que a obra, quando finalizada, deslumbra toda a sua beleza e seu impacto

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emocional. Na metáfora que usei, entre o empreiteiro e o regente, a única diferença básica é que o maestro, além do necessário enfoque racional, precisará embasar sua análise numa concepção estética que contemple a “emocionalidade” inerente à obra em questão. Sem ela, não se justifica o momento de sua realização. Em A República, Platão discute as consequências éticas e políticas da “produção do falso” pelo discurso do poeta. Em outros termos, o pensador grego questiona a necessidade de autonomia da arte em relação à ética e à política. Neste sentido, afasto-me da ciência para lhe perguntar sobre a relação entre música e sociedade: o que, a seu ver, há de “político” nas principais obras dos grandes compositores? Depende. O engajamento social ou político das obras de arte, ao menos no campo da música, é algo que só vai ocorrer, de maneira consciente, no século XIX. A maioria das obras barrocas, pré-clássicas ou clássicas caracterizava-se, exatamente, pela “distância” que mantinha com relação a associações da música com influências externas. Era a arte pela arte. O artista como agente político talvez se inicie com Beethoven, que, fruto do Iluminismo e dos ideais da Revolução Francesa, passou a usar de sua arte para exprimir conceitos de independência, de igualdade etc., e a lutar pela valorização do artista como criador – e não submisso à aristocracia. Mesmo assim, essa postura se manifesta de forma muito sutil em suas obras. Sabemos que a “Sinfonia Eroica” foi originalmente composta para Napoleão, mas, depois que este se declarou imperador, Beethoven rabiscou a dedicatória e a chamou, simplesmente, de “Eroica”. Isso, porém, não se vê diretamente na música. A peça é, em si, revolucionária, não porque manifestava a reação política de Beethoven com relação ao status quo político, mas porque, estruturalmente, baseada em questões puramente estéticas e formais, representa um passo gigantesco na evolução da história da música. O compositor, entretanto, revelou o caminho do subjetivismo na música, usado


por toda a geração romântica. Wagner, por exemplo, e Verdi – até certo ponto – foram artistas ativamente envolvidos com política. Em algumas de suas obras, isso se manifesta de forma direta. A meu ver, porém, quando a arte se propõe a ser primordialmente política, ou social, ela se diminui enquanto arte. A melhor expressão artística é aquela que não necessariamente deixa de ser engajada, mas não trata esse engajamento como objetivo primeiro, e sim como o resultado de um pensamento estético – proveniente, talvez, de um impulso político, mas que, só após seu valor artístico, atinge conotação extramusical. Atualmente, para a trajetória de um músico profissional, como o senhor avalia a importância da dedicação a estudos de mestrado e doutorado? Para o maestro, é vital que músicos e musicistas invistam em caminhos, digamos, “mais científicos”? Há duas respostas distintas a essas questões. Para a trajetória bem-sucedida de um músico profissional, ter ou não ter mestrado e doutorado é irrelevante. Nas audições para ingresso na Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, por exemplo, os músicos se apresentam atrás de um biombo. O importante, afinal, é como esse candidato toca, independentemente de sua formação acadêmica. Isso não quer dizer, entretanto, que o resultado da audição não traduzirá, exatamente, o melhor preparo, advindo de bom treinamento, de experiências adquiridas empiricamente ou em meios acadêmico-científicos. Acho primordial que qualquer músico – seja ele orquestral ou solista famoso – avance em suas concepções estéticas, o que não pode se basear, simplesmente, no talento natural e intuitivo que tem. Para tal, são necessários anos de pesquisa, de erros e acertos que, pouco a pouco, vão construindo esse músico. De modo objetivo – e em recorrência ao que prega o senso comum –, pergunto-lhe: o que há de “matemático” no ofício do maestro? De modo antípoda, quando o senhor está com a batuta nas mãos, qual o papel da “emoção”?

Algo que distingue a especificidade de um regente, em relação a outro músico, é que o maestro não faz absolutamente nenhum som. A principal função de um maestro é convencer seus músicos de que o que tem a oferecer merece a atenção da orquestra, e que segui-lo levará os músicos a uma execução íntegra e coesa. A emoção, logicamente, é um ingrediente importante, mas que só se realizará caso os músicos sob sua batuta estiverem emocionados. Isso só ocorrerá quando existir respeito mútuo entre músicos e maestros, assim como entre todos eles e o compositor interpretado. O que as novas tecnologias representam para o “universo” da producao erudita – da acústica dos palcos às possibilidades de gravação; da preparação dos músicos ao estudo e/ou resgate de obras? Vivemos, na verdade, um grande paradoxo, não apenas em música, mas em qualquer outra atividade: quanto maior o volume de informação a que temos acesso, menos preparados estamos para saber como usá-la. Vejo, com certa preocupação, nossa inabilidade para lidar, no dia a dia, com tanta informação (ou, por vezes, “desinformação”). Mesmo no campo da música erudita – certamente, um dos nichos mais herméticos ainda existentes na sociedade –, a facilidade em obter informações (livros, partituras, gravações, vídeos no YouTube) transforma-se numa incrível e enorme dificuldade de usar esse conteúdo de maneira coerente, íntegra, aplicável à melhoria daquilo que fazemos. Do ponto de vista técnico, creio que, hoje, os músicos – entre os quais, obviamente, me incluo – são bem melhor preparados dos que os de antigamente. No entanto, é preocupante ver como tão poucos são capazes de transformar essa abundância de informação em algo inteligente. Não quero dizer, com isso, que somos mais burros dos que os de décadas atrás, mas que a velocidade com que hoje a informação se dissemina nos pegou, de certa forma, de surpresa. Neste cenário, muitas vezes, não temos os instrumentos necessários para usá-la de forma coerente. Existe, na atualidade, um relativismo exagerado na

interpretação de valores, que, espero, será certamente questionado em breve. Existem valores absolutos, ou, ao menos, sensivelmente não contestáveis. É por meio dessa constatação que voltaremos a “aprender” a separar o joio do trigo e a utilizar informação não apenas cumulativamente, mas também qualitativamente. Desse modo é que, espero, a boa arte vá nos ajudar a reencontrar o papel civilizatório sempre exercido por ela. O senhor poderia comentar, com base em sua vivência pessoal, o significado da ciência para o homem? É engraçado perceber-me respondendo a algo com o que, certamente, não esperava estar envolvido, mas que sempre me preocupou – a ponto de escrever ensaios a respeito. Como artista, em busca de minha funcionalidade social, e, também, de meu papel como provedor de “entretenimento”, sempre defendi a relevância da arte enquanto instrumento de emancipação da humanidade: falo de sua função civilizatória e de sua importância como catalizadora das experiências humanas – capaz de nos ensinar algo, para que possamos realmente progredir. A ciência, assim como a arte, busca respostas que enriqueçam o conhecimento humano, desmistifiquem o incompreensível e valorizem o homem enquanto agente de sua própria existência. Hoje, falta-nos compreensão - ou vivemos uma espécie de real confusão – quanto a um preceito importante: o avanço tecnológico não pode ser visto como sinônimo de progresso em si, mas, tão somente, como um instrumento a mais para que alcancemos a experiência utópica de uma sociedade melhor, mais igual, mais justa – e, sim, também mais culta, mais educada, mais civilizada. Neste sentido, arte e ciência são antídotos à ignorância e à mediocridade institucionalizadas. Em outros termos: de mãos dadas, a arte e a ciência – por se embasarem na busca – serão efetivamente as manifestações humanas que determinarão o sucesso, ou insucesso, de nossa civilização.

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ROBÓTICA

Competições são vitrine do conhecimento para estudiosos que se dedicam à construção de máquinas capazes de reproduzir comportamento humano

Virgínia Fonseca

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Santos Dumont: para ir além Por meio dos editais do programa Santos Dumont, a FAPEMIG financia projetos de iniciação tecnológica que permitam ao aluno testar seus conhecimentos acadêmicos, além de possibilitar a participação de equipes discentes em competições de caráter educacional. Na edição 2012, diversas pesquisas na área de robótica, similares às desenvolvidas em Uberlândia, foram aprovadas. “Todas as participações estão vinculadas a um projeto, de modo que os resultados possam ser aplicados nas disputas. Ou seja, não treinamos simplesmente para competir, mas aplicamos na competição o conhecimento adquirido em estudos”, afirma o professor Guilherme Sousa Bastos, coordenador da equipe da Universidade Federal de Itajubá.

Enquanto Hope, a goleira, faz o reconhecimento do espaço entre as duas traves, as atacantes Lena e Kate dedicam-se aos cálculos necessários para chutes certeiros. Afinal, uma disputa de pênaltis contra o México requer preparo por parte da equipe. Já a corredora Rose, embora tenha feito o melhor tempo nas prévias, mostra-se um pouco indisposta, o que pode colocar em risco o seu desempenho na etapa final da categoria. A dupla de vôlei de praia Maria Elisa e Talita, por sua vez, não se deixa abater, mesmo diante de uma disputa acirrada, que deve se estender por dias, até a partida derradeira. Nem todos os nomes não são conhecidos do grande público, mas o cenário bem retrata os momentos vividos por atletas durante uma competição esportiva – quiçá, olímpica! A diferença, aqui, fica por conta das características peculiares das jogadoras: elas têm, no máximo, 60 cm de altura e dois anos de “idade”. A despeito de suas particularidades, as competidoras, neste caso, são bastante reais e, de fato, defenderam seu time nas respectivas categorias durante a última edição da Latin American Robotics Competition (Larc 2012), em outubro passado, no Ceará. As robôs pertencem à Equipe de Desenvolvimento em Robótica Móvel (Edrom), associação de discentes dos cursos de graduação da Faculdade de Engenharia Mecânica (Femec) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Sob

Foto: Arquivo Edrom

orientação de um professor tutor, a Edrom participa, desde 2010, de competições nacionais e internacionais de robótica nas modalidades educacionais e de futebol de robôs humanoides. A Edrom conquistou o 1º lugar, com Talita e Maria Elisa, na simulação de partida de vôlei de praia entre equipes formadas por robôs constituídos a partir de kits educacionais Lego. Em outra categoria, numa corrida de quatro metros em linha reta, a robô Rose obteve o 2º lugar e o melhor tempo geral. Já no futebol, Hope, Lena e Kate venceram o México na demonstração técnica de pênaltis.

Para além da participação em disputas que abarquem o desenvolvimento de sistemas mecatrônicos, o grupo tem como objetivos promover o aperfeiçoamento técnico-acadêmico de seus membros e fomentar seu espírito empreendedor. “Buscamos, ainda, proporcionar o contato dos discentes com o mercado de trabalho e realizar atividades de extensão inerentes aos cursos de graduação”, complementa o professor Rogério Sales Gonçalves, que, em 2009, assumiu a tutoria da Edrom. Competições de robôs, em atividades como futebol, judô, resgate ou combate, tornam-se vitrine para a divulgação do desenvolvimento tecnológico. A “missão” das “criaturas” móveis projetadas não se restringe à atuação nos campeonatos. Os estudos que resultam em sua construção permitem, ainda, a criação de dispositivos robóticos que podem auxiliar o ser humano em atividades relacionadas à exploração de lugares de difícil acesso, à localização e salvamento de vítimas em regiões atingidas por catástrofes como terremotos e maremotos, entre outras tarefas. Na UFU, as pesquisas têm culminado em tecnologias capazes de ajudar idosos, paraplégicos, tetraplégicos e outras tantas pessoas com dificuldades de locomoção.

Arte da guerra

A robô Hope defendeu a equipe Edrom à frente do gol na Larc 2012

Os robôs são construídos a partir da experiência adquirida ao longo das competições. Eles derivam de projetos mecatrônicos que abrangem várias etapas, nas

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quais é necessário o estudo e a aplicação das teorias aprendidas durante o curso de engenharia. Além do desenvolvimento e da construção da parte mecânica, há a eletrônica, que envolve o controlador – cérebro do robô – e sensores para interação com o ambiente – similares aos sentidos dos seres humanos. Por fim, vem a programação, processo em que se dota o dispositivo de inteligência artificial, algo comparado ao aprendizado humano para realizar tarefas cotidianas e específicas. Nas chamadas competições inteligentes em robótica, o intuito é, justamente, desenvolver robôs autônomos, capazes de realizar tarefas fundamentadas em atividades do cotidiano, para que daí resultem tecnologias possíveis de serem aplicadas ao dia a dia. “As disputas acabam por estimular ambiente similar ao de uma guerra, e é dentro deste contexto que as inovações tecnológicas aparecem”, compara Rogério Sales. Primeiramente, as equipes têm que buscar os melhores equipamentos e recursos humanos. Depois, é necessário o planejamento das tarefas a serem realizadas, em um curto espaço de tempo, até a grande “batalha” (competição). “É da necessidade de cumprir o desafio que surgem desenvolvimentos dentro da robótica”, conclui o professor. Os alunos têm a possibilidade de aplicar os conhecimentos teóricos com a utilização de equipamentos de ponta, além de se manter em contato com o mercado de trabalho. “Participar de competições tem sido fundamental para mim, pois é uma forma de aprimorar a capacidade de resolução de problemas práticos, habilidade fundamental na rotina do engenheiro”, afirma o atual presidente da Edrom, Anazíbio Batista de Faria Neto, graduando do 8º período de Engenharia Mecatrônica. O tutor revela que o envolvimento no projeto, quando os estudantes estão nos períodos iniciais, diminui também o índice de evasão. “Mas a grande diferença entre as guerras e as competições robóticas é que não existem perdas de vidas, mas a possibilidade de aprender e melhorar com os erros”, afirma. Uma das estratégias bélicas de que os competidores não abrem mão é o segredo em torno dos equipamentos desen-

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volvidos e da estratégia prevista. Como hoje e facil a obtenção de informações e a ampla revisão bibliográfica do atual estágio do desenvolvimento de robôs aplicados a competições, o elemento surpresa é fundamental para a vitória. Na modalidade Standard Educational Kits (SEK), por exemplo, são utilizados kits comerciais educacionais, no formato dos jogos de montar Lego, o que permite às equipes, se tiverem acesso ao projeto das concorrentes, copiar ideias e táticas para cumprir o desafio, modificado a cada ano. A tecnologia muda rapidamente e, mesmo durante os eventos, alunos e robôs estão em constante evolução. “Isto é importante para o aprendizado dos profissionais. Afinal, estarão diante de um mercado de trabalho dinâmico, no qual os problemas aparecem e devem ser solucionados em curto espaço de tempo”, argumenta o pesquisador. Ao término das disputas, tem-se a exposição de relatórios técnicos, que dão, aos membros de todas as equipes, acesso a ideias, estratégias e equipamentos usados pelos concorrentes para resolver os desafios. Dessa forma, o conhecimento é difundido e os grupos se veem obrigados a pensar em inovações para as próximas disputas. “As competições são uma prova da superação em criatividade, organização e planejamento da equipe, além do esforço de suportar os dias de disputa diante da pressão intensa dos adversários”, complementa o coordenador do curso de Engenharia Mecatrônica da UFU, professor João Carlos Mendes Carvalho. A Edrom conta com 10 estudantes e com o professor Rogério Sales. Os componentes são escolhidos por meio de processo seletivo, do qual participam graduandos do segundo ao quinto períodos. Dessa forma, espera-se o crescimento dos alunos, conjuntamente à equipe, que apresenta taxa de renovação anual em torno de 30%.

Nos campeonatos de futebol de robôs humanoides, o desenvolvimento dos dispositivos está diretamente relacionado a investigações que tentam imitar o ser

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humano. Busca-se construir máquinas que possuam constituição e comportamentos de movimentação similares aos do homem, inclusive quanto à forma de caminhar. Para isto, diversos pesquisadores têm estudado o equilíbrio dinâmico de robôs bípedes, e não apenas a implementação do equilíbrio estático. Nesse sentido, um dos objetivos da RoboCup é promover a troca de experiência e fomentar pesquisas em conjunto.

Evolução Assim como os demais docentes que trabalham o tema na UFU, Rogério Sales está vinculado ao Laboratório de Automação e Robótica (LAR) da instituição, coordenado pelo professor João Carlos Carvalho, um dos pioneiros nos estudos da área em Minas Gerais. As investigações do grupo direcionam-se ao estudo das estruturas seriais e paralelas (análise de trajetórias, espaço de trabalho, análise dinâmica, flexibilidade, controle) e suas aplicações, principalmente aquelas voltadas aos robôs industriais, à reabilitação dos membros humanos, à robótica móvel, além das já citadas competições acadêmicas. Uma das áreas em que os cientistas têm concentrado esforços diz respeito a projetos de biomecânica e biorobótica aplicados à recuperação de pessoas com problemas de movimentação nos membros superiores e inferiores. “Trabalhamos, também, com uma linha de pesquisa para implementação de um centro virtual de reabilitação, que usa jogos acoplados a estruturas robóticas. Esse mecanismo poderia ser utilizado, inclusive, por atletas paraolímpicos”, sinaliza Rogério Sales. O próprio professor conduz, ainda, um trabalho que trata do desenvolvimento de robôs para inspeção e manutenção de cabos de alta tensão. A aproximação entre a ciência e o cotidiano não está apenas nas habilidades rotineiras de que se pretende dotar os robôs. Outra faceta em evidência na UFU são os projetos de extensão em robótica educacional, focados na interação com alunos do ensino médio, bolsistas de programas de iniciação científica júnior. “Usamos a robótica como motivação, a partir da cons-


trução de robôs baseados em kits educacionais da Lego, para atividades como encontrar a saída de labirintos e simular o desarmamento de bombas com equipamentos telecomandados”, exemplifica. As aplicações, sugere o professor, permitem aos estudantes o desenvolvimento de habilidades necessárias a seu bom desempenho escolar e pessoal, como organização, pesquisa bibliográfica, cumprimento de prazos e metas, apresentação de trabalhos e exposição de ideias. Os trabalhos do LAR já renderam uma carta patente. Além disso, há dois outros pedidos em andamento. A formação de mão de obra altamente especializada, com a qualificação de doutores, mestres, centenas de alunos de iniciação científica e de projetos de conclusão de curso, é outro resultado apontado. No que diz respeito aos avanços da área, João Carlos Carvalho explica que a robótica é multi e interdisciplinar. Assim, sua evolução depende, em muito, do progresso de outros setores, como eletrônica, microeletrônica, computação, sensoria-

mento, processamento matemático, mecânica etc. “Isso me permite afirmar que o avanço, visto desde meu início nesta atividade, em 1984, faz com que a robótica daquela época possa ser considerada um objeto digno de museu”, brinca. Um exemplo são os atuais computadores, detentores de velocidades de processamento inimagináveis 30 anos atrás. O pesquisador destaca que as possibilidades de aplicação da robótica são inúmeras, desde tarefas do dia a dia – como a limpeza da casa – a missões delicadas, a exemplo da manipulação de cargas explosivas ou radioativas. “Nesse sentido, a imaginação humana é o limite”, afirma. Fica uma ressalva, porém, quanto ao universo ficcional. A presença de robôs e sistemas automatizados no cotidiano é crescente – em procedimentos médicos, na indústria, nos transportes e em outras áreas –, mas as máquinas humanoides, com aparência e comportamento idênticos aos do homem, conforme apresentado em obras de ficção, avisam os pesquisadores, ainda serão para um futuro distante.

De olho na “Copa 2014”

Os editais do Programa Santos Dumont [veja Box] representam importante suporte para as atividades da Edrom. Com recursos dessa iniciativa, sob orientação do professor João Carlos Mendes Carvalho, o grupo montou o time de robôs humanoides que participa de jogos de futebol pioneiro nas Minas Gerais. A equipe, agora, se empenha no desenvolvimento do primeiro robô humanoide em tamanho real (1,30m) do Brasil, que deve estrear em competições internacionais ainda em 2013. Já em 2014, o protótipo construído precisa estar pronto para representar o país na RoboCup – Adult Size, campeonato mundial de robótica que, pela primeira vez, ocorrerá em território brasileiro. “O desafio da construção deste robô é imenso. Na RoboCup 2012, apenas seis equipes de todo o mundo concorreram nessa modalidade”, comenta o professor. Rogério Sales acrescenta que a Edrom conta, também, com o apoio da UFU, da Femec, da Fundação de Apoio Universitário (FAU) e de empresas que colaboram para a participação em competições internacionais.

Conheça projetos aprovados no edital 2012 do programa Santos Dumont: Projeto: Desenvolvimento e construção de um robô huma-

dade Federal de São João del-Rei / Campus São João del-Rei

noide para jogar futebol Coordenador: Rogério Sales Gonçalves - UFU

Projeto: Projeto e Montagem dos Robôs Omnidirecionais

Projeto: Desenvolvimento de Robôs e Participação em

Coordenador: Alexandre Brandão - Universidade Federal

Competição de Futebol de Robôs Categoria Very Small Coordenadora: Karla Boaventura Pimenta Palmieri - Universidade Federal de Ouro Preto Projeto: Equipe de Robótica Mecatron para competição

IEEE Standard Educational Kit Coordenador: Pedro Shiroma - Universidade Federal de

São João del-Rei / Campus Alto Paraopeba Projeto: Uaisoccer- Futebol de Robôs da UFSJ Coordenador: Erivelton Geraldo Nepomuceno - Universi-

de Quatro Rodas da Equipe BDP / UFV de Viçosa Projeto: Projeto, Construção e Programação de Robôs Móveis para Competições Universidade Federal de Viçosa Coordenador: José Augusto Miranda Nacif - Universidade Federal de Viçosa / Campus Florestal Projeto: Participação na Competição Brasileira de Robótica: Futebol Simulado 2D, Resgate Simulado e Festo Robotino Logistics Competition Coordenador: Guilherme Sousa Bastos - Universidade Federal de Itajubá

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PSICOLOGIA

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Todos eles têm direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade, à convivência familiar e comunitária. Esse pequeno texto elenca apenas alguns dos direitos estabelecidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A Constituição Federal de 1988 também diz, em seu artigo 227, que é obrigação do Estado, da família e da sociedade manter a infância e a adolescência a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. Parece muito natural que isto aconteça, mas, na prática, tudo ainda é utopia no país. São inúmeras as dificuldades sociais enfrentadas pela sociedade brasileira, mas uma das principais é a falta de proteção das crianças e adolescentes, principalmente no que diz respeito aos maus tratos e à violência sexual infantil – um dos problemas mais graves a serem combatidos, com atenção crescente, em ações conjuntas de governo e população. Em 1990, com a instituição do ECA – que determinou a adoção legal de mecanismos específicos de proteção –, a luta contra a violência sexual teve reforço em seu aparato legal. Dentre tais mecanismos, destaca-se a função dos Conselhos Tutelares, que se tornaram responsáveis por receber, averiguar e encaminhar às autoridades judiciárias denúncias de violação aos direitos da criança e do adolescente. Nos Juizados da Infância e Juventude, após o estudo de cada caso, trabalho realizado por psicólogos e assistentes sociais, e a averiguação da situação de risco a que as crianças estejam expostas, os juízes determinam medidas de proteção aos pequenos – do afastamento do agressor da moradia comum à perda da guarda do(s) filho(s) e seu consequente encaminhamento a abrigos sociais. O ano de 2000 marcou-se pela implantação do Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-juvenil, seguido, em 2001, pelo “Programa Sentinela”, que passou a oferecer assistência social às vítimas de abuso sexual. Para acolher as denúncias, o Governo Federal criou um serviço de Disque-Denúncia (Disque 100), gratuito, para todo o país,

que apresentou significativos resultados. Segundo relatório elaborado pelo Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual de Crianças e Adolescentes, entre 2003 e 2010, o número de denúncias recebidas pelo Disque 100 cresceu 625%. A média de ligações registradas a cada dia passou de 12, em 2003, para 129 em 2011. O projeto já foi responsável por cerca de 2,7 milhões de atendimentos e encaminhou mais de 164 mil denúncias em todo o país. O aumento das denúncias refletiu diretamente no trabalho da psicanalista Cassandra Pereira França, do departamento de psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Comecei a perceber que, de uns anos para cá, apareceram muitos casos de abuso sexual infantil. Eram casos tão graves que muitos alunos não tinham condições de atender. Por isso, eu tinha que acompanhar de perto, orientar, supervisionar e percebi que não ia dar conta. Precisava formar uma equipe especializada”, lembra. A partir da expressiva demanda, surgiu o projeto de pesquisa e extensão Cavas – Crianças e Adolescentes Vítimas de Abuso Sexual (www.projetocavas.ufmg.br). “Buscamos ser referência na pesquisa sobre o enfrentamento ao abuso sexual infanto-juvenil em Minas Gerais e propiciar a articulação entre o conhecimento acadêmico e a rede de proteção a crianças e adolescentes”, explica Cassandra, coordenadora do projeto. Além de constituir um polo de atendimentos psicoterápicos a crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual, o grupo elabora pesquisas, organiza equipes de estudos e de produção de textos científicos relacionados ao tema e oferece cursos tanto para a comunidade acadêmica como para profissionais que atuam fora da universidade. “Privilegiamos um trabalho com perfil acadêmico de clínica e pesquisa. Ao invés de investir em quantidade, preferimos fortalecer a qualidade dos atendimentos. Os casos viram objeto de pesquisa na graduação, por meio de bolsas de iniciação científica. O projeto cresceu, e, hoje, temos 16 pessoas na equipe”, conta.

Reféns da dor O Estatuto da Criança e do Adolescente diz que os cidadãos são obrigados a denunciar atos presenciados de violência.

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Quem não denuncia pode ser indiciado por negligência. “Tudo o que antes estava abafado, guardado em segredo, começou a vir à tona”, relata a psicanalista. Segundo a pesquisadora, é difícil definir o perfil de um abusado, mas há características típicas e que podem ser definidas, apenas, como indicadores de suspeita. “A criança para de brincar, apresenta queda significativa no rendimento escolar, perda do entusiasmo e da alegria e se mantém ‘mais afastada’. Ela se torna refém de um segredo e fica presa ao silêncio, já que o abuso, geralmente, vem acompanhado de ameaça impossível de ser enfrentada. Os sintomas assemelham-se aos de um sequestrado”, descreve. Em 2005, pesquisas da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos revelaram dados alarmantes: do número total de denúncias, 56,5 % das vítimas eram crianças de até 6 anos de idade – estatística agravada pelas conclusões extraídas de estudos realizados por ONGs, o abusador sexual raramente é um estranho.

Na maioria das vezes, trata-se de alguém muito próximo da criança ou do adolescente – pessoa de seu convívio e com quem mantém relação de confiança, afeto e respeito. Importante ressaltar, ainda, que, geralmente, são pessoas do sexo masculino. Pode ser o pai, o padrasto, o tio, o primo, o avô, além de parentes, vizinhos, professores ou desconhecidos. Quanto mais próximo o vínculo, mais difícil é, para a criança, revelar o abuso sexual. E mais devastadoras revelam-se as consequências do ponto de vista psicoemocional. “Trabalhamos com o final da rede. Quando as crianças chegam à clínica, já enfrentaram todas as etapas da denúncia”, explica Cassandra. Segundo a pesquisadora, todas estas fases são muito dolorosas para as vítimas, que criam mecanismos psicológicos de defesa. Elas têm que repetir os relatos para todas as instâncias e profissionais (Conselho Tutelar; assistentes sociais, psicólogos, juízes) e, ao final do processo, os relatos, por vezes,

tornam-se incoerentes, o que facilita a defesa do abusador. “A criança tem uma série de mecanismos psíquicos de defesa, que a faz confundir o que aconteceu. Muitas vezes, ela fica confusa e não sabe se tudo foi pesadelo ou se seria verdade. Tais mecanismos dificultam a apuração dos fatos”, explica. Ainda há outro agravante a impedir a condenação do agressor: a maioria dos abusos sexuais não deixa marcas, o que dificulta a coleta de provas mais consistentes. A pesquisadora explica que, nos últimos anos, a tendência de ação do judiciário tem sido retirar o abusador de casa – e não mais a criança, antes levada para abrigos. O problema é que, no geral, são os abusadores que provêm o sustento da família. Desse modo, retirá-los de casa acaba por gerar uma série de consequências para as vítimas. Além de receber ameaças do agressor, são acusadas, pela mãe e pelos irmãos, de prejudicá-los. “A composição familiar é geralmente tão patológica que, muitas vezes, a própria mãe retira a queixa. Nestes casos, a criança sempre sai

Entenda como funciona a rede de proteção dos direitos de crianças e adolescentes no Brasil

Portas de Entrada

Atende demanda imediata e encaminha/comunica ao CT

Responsabilização

Disque Denúncia

Abordagem de rua

Ministério Público

Proteção

1

Delegacia

CREAS

Receber Denúncia

(Estadual ou Federal) (Art. 24 do Código Penal Art. 201, VII do ECA)

Abrigo

(48 h para comunicar CT e a autoridade judiciária Art. 93 do ECA)

(Arts. 13 e 245 ECA)

Escola

(Arts. 56 e 245 ECA)

Comunidade /ONG (Art. 18 - ECA)

CRAS

Conselho Tutelar

(Art. 136, I a IX - ECA)

Medidas Protetivas

Acolhimento

(Art. 101, VII e VIII)

Medidas destinadas a famílias

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(Art. 101, I a VII)

Polícia Civil

Autoridade Judiciária (Juiz(a) Criminal) Vara Especializada

Fonte: Unicef

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Unidade de Saúde

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(Art. 129, I a VII - ECA)

Autoridade Judiciária

(Juiz(a) da Infância e Juventude Art. 148, VI e VII)

(abuso ou exploração sexual inquérito policial)

1

Centro de Referência Especializado de Assistência Social

2

Centro de Referência de Assistência Social

2


prejudicada, pois passa por mentirosa, é acusada de destruir o lar e perde a família. Assim, ela vai mudando suas versões do caso, até desmenti-lo por completo”, esclarece Cassandra, para quem o sofrimento maior, aliás, não está na violência física, mas na perda de todas as relações familiares: “É muito triste. São casos realmente emocionantes”.

Círculo vicioso Uma das graves sequelas na vida das crianças e adolescentes abusados é o início de um círculo vicioso no qual as vítimas perpetuam o próprio abuso, causado, principalmente, pelo fenômeno da identificação com o agressor. Além do mais, outros problemas sociais são disparados, pois as vítimas apresentam tendência a sexualizar todos os seus relacionamentos, o que pode acarretar, especialmente no caso de meninas adolescentes, um quadro autodestrutivo de promiscuidade e gravidez precoce – por vezes, uma porta de entrada para a prostituição. Tais crianças e adolescentes ainda podem, no futuro, desenvolver bloqueio psíquico que as leve a estabelecer relações conjugais com parceiros potencialmente violentos ou abusadores – tornando-se,

assim, mães “coniventes” ou que não conseguem perceber, apesar de todas as evidências, que o filho está sendo abusado dentro de casa. No caso dos meninos, os efeitos mais diretos e visíveis do abuso sexual são a delinquência, o uso de drogas e o abuso de outras crianças menores. “Muitos meninos que hoje estão nas ruas sofreram abusos quando pequenos. Sem proteção, permanecem como vítimas. É uma porta aberta para o crack”, completa.

Recuperando a autoestima As atividades do projeto Cavas buscam tratar as sequelas emocionais das vítimas de abuso sexual. “A psicoterapia ajuda a criança a recuperar o amor próprio e conviver com as consequências deste abandono. Trata-se de espaço onde é construída uma relação de confiança, a duras penas, pois, quando ela chega a realizar a terapia, já está desacreditada dos adultos e tem a percepção de que eles não são confiáveis”. A professora Cassandra França explica que um dos principais desafios do trabalho é fazer com que elas voltem a acreditar e confiar nas pessoas. A relevância social das pesquisas do projeto fundamenta-se na possibilidade de interrupção de um círculo vicioso que

pode atravessar diferentes gerações. O grupo colabora com as redes de proteção às crianças e adolescentes na minimização de sequelas psicopatológicas, que costumam desorganizar a constituição da estrutura psíquica das vítimas. Neste cenário, a equipe desenvolve, basicamente, duas vertentes de atuação social. A primeira envolve compromissos dentro da própria UFMG, tais como assistência psicológica a crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual e treinamento de estudantes de psicologia para as especificidades dessa clínica – o que é realizado por meio de grupos de estudo, estágios e seminários clínicos. A segunda vertente de atuação, externa, refere-se ao compartilhamento dessas experiências com outros profissionais das redes sociais, tanto com a publicação de artigos e livros e/ou a capacitação de psicólogos e outros profissionais quanto por meio de cursos teóricos que sistematizam os conhecimentos adquiridos. Um dos frutos do trabalho interdisciplinar é o livro As engrenagens da violência sexual (2012), que já se tornou referência na área. Em 2013, o grupo terá o apoio do MEC para lançar publicação sobre a produção teórica do Cavas. “Ainda temos um campo de pesquisa enorme a ser explorado”, planeja a coordenadora.

Saiba a quem recorrer em caso de suspeita de violência sexual infanto-juvenil: Conselhos Tutelares – Foram criados para zelar pelo cumprimento dos direitos das crianças e adolescentes. A eles cabe receber a notificação e analisar a procedência de cada caso, visitando as famílias. Se for confirmado o fato, o Conselho levará a situação ao conhecimento do Ministério Público. Varas da Infância e da Juventude – Em municípios onde não há Conselhos Tutelares, as Varas da Infância e da Juventude podem receber as denúncias. Outros órgãos que também estão preparados para ajudar são as Delegacias de Proteção à Criança e ao Adolescente e as Delegacias da Mulher. Disque 100 O serviço do Disque Denúncia Nacional de Abuso e Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes é coordenado e executado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Por meio do número 100, o usuário pode denunciar violências contra crianças e adolescentes, assim como colher informações acerca do paradeiro de desaparecidos ou de vítimas do tráfico de pessoas – independentemente da idade – e obter dados sobre os Conselhos Tutelares. O serviço funciona diariamente, de 8h às 22h, inclusive nos fins de semana e feriados. As denúncias recebidas são analisadas e encaminhadas aos órgãos de defesa e responsabilização, conforme a competência, num prazo de 24h. A identidade do denunciante é mantida em absoluto sigilo.

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SAÚDE PÚBLICA

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Virgínia Fonse

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Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Castro Alves, José de Alencar: não obstante as diferenças entre o mundo contemporâneo e o período em que viveram esses clássicos autores da literatura nacional – especialmente no tocante aos avanços tecnológicos e da medicina –, a enfermidade que os vitimou continua no rol dos problemas mundiais de saúde pública. Como dezenas de outros artistas, e milhões de anônimos, os escritores acima citados contraíram tuberculose, doença que infecta, por ano, quase 9 milhões de pessoas no planeta. O Brasil figura entre os 22 países que concentram 82% dos casos e, desde 2003, o combate a esse mal está entre as prioridades nacionais. Para unir forças nesse sentido, as Fundações de Amparo à Pesquisa dos Estados do Amazonas (Fapeam), do Rio de Janeiro (Faperj) e de Minas Gerais (FAPEMIG) constituíram o Programa Temático Conjunto em Diagnóstico da Tuberculose. O percentual de cura de novas incidências é o principal indicador para avaliar o controle da doença. Uma das metas propostas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), com o intuito de reverter a situação da tuberculose, é identificar 70% dos casos e curar, ao menos, 85% deles. Criado em 2011, a partir de acordo de cooperação assinado pelas três FAPs, o programa – que passou a se chamar Rede de Pesquisa em Tuberculose – disponibilizou verba de R$ 6 milhões para os estudos de identificação da enfermidade. O foco dos trabalhos é o desenvolvimento de tecnologias para diagnóstico, avaliação das técnicas em diferentes cenários clínicos, realização de ensaios que afiram a efetividade dos novos mecanismos e análise do impacto desses projetos sobre o sistema de saúde. A despeito de, na última década, o Brasil ter registrado redução de 15,9% no número de casos, a tuberculose ainda representa a terceira causa de óbitos por doenças infecciosas e a primeira entre pacientes com AIDS. Os estados formadores da rede estão entre aqueles com maior taxa de incidência no país, mas os cientistas esperam, com esforços compartilhados, aperfeiçoar resultados que possam ser aplicados em todo o território nacional. O

presidente da FAPEMIG, Mario Neto Borges, destaca a preocupação em contemplar pesquisas do tipo translacional – ou seja, cujos resultados são transferidos para a prática médica. “O intuito é somar forças dos três estados para que haja maior articulação entre os grupos, além de valorizar e potencializar todos os trabalhos produzidos”, afirma. Em Minas, o grupo de pesquisa é coordenado pela professora Silvana Spíndola de Miranda, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Os estudos contemplam a análise de modelos de kits diagnósticos, para averiguar se eles teriam aplicabilidade no sistema de saúde. “Estamos testando a validade desses métodos. Desejamos saber se são sensíveis, específicos e se seria possível sua utilização em hospitais, em centros de referência e ambulatórios”, detalha. A ideia é capacitar as unidades de saúde para a realização de diagnóstico de elevado padrão técnico e em acordo com as normas nacionais e internacionais. A professora acrescenta que o programa também tem procurado envolver outras entidades associadas, em âmbito municipal e estadual.

Pílulas Em 2011, o Brasil registrou 69.245 novos casos de tuberculose. Minas Gerais responde por cerca de 5 mil casos, e, a capital do estado, por uma média de mil ocorrências. Existe, no país, uma iniciativa de nome Rede Brasileira de Pesquisa em Tuberculose (http://redetb.org/), que congrega cientistas e entidades de todo o território nacional em torno de objetivos comuns e projetos para combate à doença. O Brasil conseguiu detectar, em 2010, 88% dos casos de tuberculose. Mas o percentual de cura, 70%, está ainda longe de alcançar a meta recomendada pela OMS (85%). Os primeiros resultados das pesquisas da Rede formada pelas FAPs foram apresentados em encontro realizado em Minas Gerais, em outubro de 2012.

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Foco no diagnóstico

No projeto conjunto, cada fundação estadual centrou esforços numa parte do trabalho. Enquanto a FAPEMIG avalia a efetividade dos kits de diagnóstico, a Faperj estuda questões relacionadas a novas tecnologias e a Fapeam investe em infraestrutura para pesquisa e hospitalização de doentes. A vinculação dos resultados obtidos mostrará os avanços obtidos pela rede. O diagnóstico, explica Silvana Spíndola, influencia diretamente no tratamento a ser ministrado e no processo de recuperação do doente. “Isso irá nos sinalizar se as cepas que o paciente tem são resistentes ou sensíveis, se vamos tratá-lo com um medicamento ou outro. Poder oferecer um tipo diferente de diagnóstico já é de grande utilidade”, comenta. A rapidez na obtenção dos resultados, por sua vez, reduz a cadeia de transmissão, já que a tuberculose, na maioria dos casos, é pulmonar e pode passar de um indivíduo a outro pelo ar. Hoje, em Minas Gerais, o diagnóstico depende de exame clínico, radiografia do tórax e baciloscopia, seguida de cultura bacteriológica. A baciloscopia é realizada pelos próprios hospitais e proporciona uma identificação inicial, capaz de informar, em até quatro horas, se a infecção é causada por micobatéria. Se o teste for positivo, o doente já recebe o diagnóstico. Se apresentar resultado negativo, parte-se para a segunda análise, feita apenas pela Fundação Ezequiel Dias (Funed). O

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procedimento de cultura envolve exames de sensibilidade – quando se verifica se o microrganismo é resistente ou sensível – e possibilita dizer com precisão se se trata da Mycobacterium tuberculosis ou de outra micobactéria. “Isso é o básico, mas precisamos agilizar, pois até encaminharmos para a Funed, e aguardarmos o resultado, já se passou muito tempo. Se, nos hospitais, conseguirmos aplicabilidade que funcione de imediato, tanto melhor”, argumenta Silvana Spíndola. O resultado final leva até três meses, considerando-se o período necessário para crescimento em meio de cultura, envio para a Fundação, realização dos testes de identificação e sensibilidade. “Mesmo com baciloscopia negativa, conforme o quadro, o médico opta por já aplicar o tratamento para tuberculose, se perceber grande probabilidade de ser essa doença. Afinal, o teste não é tão preciso”, adverte. A pesquisadora explica que a baciloscopia negativa pode resultar em cultura positiva, ou seja, em paciente com tuberculose. “Precisamos de outro método, mais sensível – a ponto de detectar os positivos – e específico, que, quando apontar negativo, seja, de fato, negativo”, conclui. Realizado no hospital, esse primeiro passo toma entre uma e oito semanas, dependendo das características da própria bactéria.


Avaliar quais e em que circunstâncias as metodologias disponíveis podem ser aplicáveis é o trabalho desenvolvido pelo grupo mineiro. Os cientistas analisam não apenas a eficácia dos testes existentes, mas também a incidência de casos e o perfil das instituições de tratamento. No Hospital das Clínicas da UFMG, por exemplo, onde usualmente os pacientes não são portadores de cepas resistentes, eles estudam se existe necessidade de investir em método de diagnóstico de resistência, ou se um exame mais simples resolveria. Já no Hospital Júlia Kubitscheck, que tem histórico de doentes com bacilos resistentes, metodologias mais completas, ainda que mais caras, podem ser importantes. Pesquisadores analisam possibilidades tanto nos métodos de cultura quanto em exames que usam tecnologias relacionadas à biologia molecular. Nesse último caso, os diagnósticos se dão por meio da amplificação do DNA do bacilo. O paciente expele a

micobactéria, que, em laboratório, tem seu DNA extraído e amplificado. A partir daí, os cientistas aplicam metodologias de diagnóstico e de resistência. Novos métodos estão sendo comparados com os já existentes, inclusive para avaliar a viabilidade de aplicação conjunta. “Se conseguirmos diminuir o tempo de cultura, por exemplo, para uma semana, ou três dias, teremos um diagnóstico rápido”, almeja a professora.

Cura e prevenção

Em todo o mundo, a tuberculose ainda mata cerca de 16 pessoas por dia. A OMS estima que quase um terço da população mundial possa estar infectada pelo M. tuberculosis, embora nem todos esses indivíduos desenvolvam a enfermidade. Silvana Spíndola explica que, neste caso, trata-se de diagnóstico de infecção, não de doença. “É importante trabalhar preventivamente, saber quais pessoas são portadoras do bacilo e medicá-las, para

Peste branca Muitos foram os poetas a expressar em versos o abatimento causado pela tuberculose. Os sintomas da doença levaram o grego Hipócrates (mais de 300 anos a.C.), por exemplo, a denominar de tísica a enfermidade, em alusão à palavra phthisikos, cuja tradução seria “que traz consumpção”. Causada por uma bactéria de forma bacilar, o Mycobacterium tuberculosis – ou bacilo de Koch, em homenagem ao seu descobridor, o alemão Robert Koch –, a enfermidade manifesta-se mais frequentemente nos pulmões, mas também pode afetar rins, ossos, pleura, meninges, gânglios e outros órgãos, casos em que recebe o nome de tuberculose extrapulmonar.

não deixar a doença se manifestar”, opina, acrescentando que existem pesquisas neste sentido. Silvana Spíndola destaca que a doença tem cura, mas é necessário seguir todo o tratamento, com duração de seis meses. Não se pode desistir, sob pena de a bactéria adquirir resistência ao remédio. Fazer uso da medicação de forma irregular, ou abandoná-la, é prejudicial ao doente e ocasiona reincidência da enfermidade, de maneira, até mesmo, a reduzir as chances de recuperação. “No caso desses pacientes, temos que detectar e trabalhar o diagnóstico, verificar, o mais rápido possível, se já existe resistência e se haverá mudança ou não na terapia”, descreve. A pesquisadora chama atenção para a necessidade de buscar diagnóstico, se aparecerem sinais de contágio. Qualquer pessoa que apresentar tosse persistente por mais de três semanas, escarro com sangue, febre, emagrecimento ou perda de apetite deve procurar rapidamente a unidade básica de saúde, para fazer baciloscopia e raio-X. “A conscientização é importante, principalmente nos locais onde há maior número de casos”, ratifica. A tuberculose é uma das muitas doenças consideradas negligenciadas, cuja incidência se agrava entre comunidades pouco assistidas, que vivem em condições desfavoráveis de moradia, de alimentação e de acesso a serviços de saúde. Assim, o Programa Nacional de Controle da Tuberculose do Ministério da Saúde, definiu como público prioritário as populações em situação de rua, a carcerária, os indígenas e os portadores de HIV/AIDS.

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ESTUDOS LITERÁRIOS

Qualquer semelhança não é mera coincidência Romances extensos latino-americanos refletem nuances culturais e históricas do continente Virgínia Fonseca*

*Colaborou Maurício Guilherme Silva Jr.

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Um mundo em que as máquinas controlam tudo e, por sua vez, funcionam graças à magia. A descrição superficial do cenário controverso criado pelo escritor argentino Alberto Laiseca dá a pista sobre um dos motivos pelos quais esse livro é tido, ainda hoje, como enigma para a crítica. Los sorias, impresso pela primeira vez em 1998, tem mais de 1.300 páginas de trama complexa, cuja elaboração exigiu 16 anos de trabalho do autor. Por se revelar bastante representativa da linhagem dos romances extensos, a obra foi escolhida como ponto-chave para pesquisa desenvolvida, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sobre as referências culturais envolvidas nesse tipo de produção. “Pensar o ato e o produto de ‘escrever por extenso’ me desafiou a analisar a tessitura de relações que esse procedimento implica, ao articular intrincados temas condutores ao longo de romances assim construídos”, relata a professora Graciela Inés Ravetti de Gómez, da Faculdade de Letras (Fale) da UFMG, coordenadora da investigação. Doutora em Literaturas Hispânicas, a pesquisadora, que está à frente, também, do Núcleo de Estudos Latino-Americanos (Nelam), observou que obras como a de Laiseca marcam uma mudança de direcionamento no “sistema” literário latino-americano contemporâneo, como contraponto a certos parâmetros textuais consolidados – fugindo aos ideais de coesão narrativa estrita e convencional. Realismo e ficção, verdade e falsidade, singularidade e multiplicidade, tradição e novidade, mercado e experimentalismo, modelo e cópia, ciência e arte, religião e secularismo, mito e história, magia e materialismo e outros tantos dualismos encontram-se presentes no romance. “Frente a isso, cheguei à conclusão de que havia necessidade de pensar uma crítica tão abrangente e multifacetada quanto a obra, com método de trabalho específico para o objeto que se dispõe a analisar”, conta. A obra investigada, assim como grande parte dos romances latino-americanos de fôlego (veja Box), configura-se tanto na construção do espaço e do tempo de duração imensos, quanto no tamanho concreto dos livros. Nesse contexto, uma

multidão de personagens, orientados por um ou mais narradores, atuam em cenários variados. A partir dessa constatação, Graciela Ravetti trabalhou com a certeza de que a força da formulação ética está sempre latente, de maneira explícita ou dissimulada, em meio a detalhes constitutivos. “A confiança na presença dessa dimensão ética deriva da crença que me leva a pensar o texto surgindo da cultura e da sociedade onde se insere seu autor”, comenta.

História revivida Para a pesquisadora, não é possível, a qualquer escritor na América Latina, criar uma obra extensa sem se deparar, em pelo menos algum momento, com as mazelas inerentes à história desse território. O terror, o poder autoritário, as vítimas das investidas desses poderes, a tortura, a miséria, a injustiça e a exploração, de maneira geral, estão sempre à espreita do escritor que se estende nessas performances. Em função disso, Graciela Ravetti reafirma que haverá sempre, nos romances extensos por ela analisados, uma dimensão ético-política. A memória e a experiência, individuais e coletivas, funcionam como vetores de forças que oscilam entre a lembrança do legado colonial e as atrocidades dos períodos de ditaduras. Tais assuntos são naturalmente associados à questão do trauma e aos resíduos silenciados nas construções

da comunidade do presente. “O fazer poético e a rede de sentidos que se estabelece entre esses dois campos acaba integrando uma vertente literária que não esvazia a obra de história, mas que também não renuncia à sua vocação de projetar o futuro”, conclui a pesquisadora. Na perspectiva de contribuir para uma teoria do romance latino-americano, a partir do estudo da dimensão cultural pela via do ficcional, a pesquisadora comenta ser possível associar Los sorias a outras grandes obras, que aprofundam, problematizam e complexificam o terreno literário. Grande Sertão: veredas, de João Guimarães Rosa; Rayuela, de Julio Cortázar; Yo, el supremo, de Augusto Roa Bastos; Viagem ao México, de Silviano Santiago; O Catatau, de Paulo Leminski; Amadís de Gaula, de autoria incerta; Ulisses, de Joyce, e Don Quijote, de Cervantes, estariam entre os exemplos de romances que primam pela originalidade, pela abrangência, e cuja poética das intensidades foge aos ideais de imitação e de reprodução. Essas narrativas são capazes de problematizar e dimensionar, simultaneamente, o ficcional e o real, o histórico e o artístico. Além disso, funcionam como arquivos performáticos. “Afinal, suas personagens podem pôr-se na pele de outros seres, transpondo tempos e espaços, e também conseguem ativar contex-

Los sorias em breve raio-X Impressa pela primeira vez em 1998, com tiragem restrita – 350 exemplares – e ilustrações originais, a obra de Laiseca seria reeditada seis anos mais tarde, com impressão de 1.500 unidades. O principal argumento do livro é a humanização do poder. Como pano de fundo, o autor criou os países Tecnocracia, Soria e União Soviética, para desfiar uma narrativa que, na verdade, discute temas como poder, amizade, morte, técnica, ciência, trabalho, religião, sexo, o mal, a sabedoria, a guerra, o sentido que foge à razão, a dor, o humor, a sátira, as relações de aliança e filiação e, de maneira especial, a arte e a literatura, com suas possibilidades de realização e de intervenção nos caminhos das comunidades.

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tos verbais, expressionais ou estilísticos de diversos tempos ou lugares”, explica a professora. As obras caracterizam-se, ainda, pela prática da chamada prosa catacrésica: recolhem uma oralidade e espontaneidades perdidas – ou em vias de sê-lo – e dispõem, nos textos, imagens de uma complexidade impactante, que não cessam de demandar visibilidade/legibilidade.

Teoria do romance Dentre as contribuições que serviram como pressupostos para a pesquisa, e enriquecem a discussão sobre as peculiaridades do romance na América Latina, Graciela Ravetti constata que a cultura latino-americana é dotada de complexidade específica constitutiva – resultado, em especial, das marcas ainda vivas dos processos coloniais. As obras-sumas traduzem-se em enciclopédias ficcionais que refletem tal complexidade e convidam a pensar a dimensão da realidade.

A pesquisadora atenta para a identificação da escrita marcada por um realismo delirante, destacado, insistentemente, pela escassa crítica sobre Los sorias e acerca de seu autor. “Tal carência relaciona-se com as dificuldades que comporta o estudo teórico e crítico de uma obra de tamanha dimensão e originalidade”, avalia. A temática da loucura também está presente, tanto no romance em foco quanto nas reflexões a seu respeito. Laiseca explica que seu método de trabalho busca distorcer a realidade com o delírio. O escritor afirma que majora algumas coisas e diminui outras, para que tudo possa se ver melhor. “Com o absurdo como um dos elementos mais verossímeis da realidade – mediante evidente rigor documental e livresco –, o autor atualiza um mundo diverso e extraordinário, adoçado com detalhes cotidianos e visões profundas dos próprios personagens”, elucida a coordenadora. Percebe-se, na obra de Laiseca, a crítica ao romance naturalista e institu-

cional burguês, a partir da linguagem verborrágica que, como um poderoso curso de água, envolve o leitor e o conduz aos confins da representatividade. O romance se diferencia, então, dos modelos cristalizados. Ganha força como gênero dinâmico, maleável e multiforme, em que cabem programas políticos, ideológicos e é possível a encenação das propostas, dos sonhos, das profecias. Graciela Ravetti comenta, por fim, que esses são apenas alguns dos aspectos abordados. A professora formulou o primeiro estudo sobre o assunto em 2008 e prepara-se para publicar, também em livro, os resultados dos trabalhos desenvolvidos desde então – que contaram com fomento da FAPEMIG e do CNPq. “É uma obra que não cessa de crescer e se complicar, como típico romance extenso”, diverte-se. “Afinal, todo discurso é uma ficção que tenta dar conta de nossa visão do mundo, não é mesmo?”, provoca.

Vastos e imprevisíveis O que caracteriza livros extensos como Los sorias, de Alberto Laiseca, é o fato de se constituírem como sumas, romances-universo de forma explícita. O tamanho já aponta o desejo de que sejam vistos a partir de sua interminável sucessão de adições. Isso dá, à obra, a feição de um catálogo de narrativas concatenadas e de um amontoado caótico, ao mesmo tempo em que se presume a autoria de uma trama labiríntica, de uma população de personagens e de cenários para abrigar os relatos. Romances extensos não possuem centro irradiador definitivo e as tramas se perdem em inúmeros arabescos, cuja sistematização mostra-se impossível. O prazer da escrita longamente demorada, à maneira dos tratados medievais e da tradição do romance como gênero antigo, são características evidentes. Sua leitura não exige, necessariamente, que seja seguida a ordem sugerida pelo autor no encadeamento dos capítulos. Uma teatralidade expressiva os povoa. Trata-se de um tipo de retórica da loucura, ou de certo realismo delirante, indo do clássico ao popular, do sofisticado à comédia debochada, da sátira à reflexão filosófica. Romances extensos abrangem, assim, uma franja diferenciada, partindo de posições que poderíamos denominar de “clássicas”, posto que procuram desestruturar as formas fixas, as temáticas previsíveis, as tramas esquemáticas e as perspectivas consolidadas nas culturas nas quais estão inseridos.

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Projeto: O romance extenso como forma de dimensionalização da cultura: o caso da ficção pseudo-enciclopédica Los Sorias, de Alberto Laiseca – Contribuições para uma teoria do romance na América Latina Coordenador: Graciela Inés Ravetti de Gómez Modalidade: Programa Pesquisador Mineiro Valor: R$ 24.000


Pesquisa da Unifei reúne profissionais de diversos campos do conhecimento em investigação sobre os efeitos da incidência da radiação UV no Brasil e na América do Sul

William Ferraz

Desde os primórdios da história, percebe-se o especial deslumbramento do ser humano pelo Sol. A fulgente imponência do Astro Rei fez dele objeto de investigação e veneração em várias civilizações – muitas das quais lhe atribuíram a aura de entidade sobrenatural. A evolução do conhecimento e o desenvolvimento da ciência e da tecnologia permitiram estudos cada vez mais minuciosos sobre a grande estrela. Hoje, compreende-se que a atividade solar é indispensável à Terra. Dentre os diversos fenômenos a afetar a vida no planeta, a emissão da radiação ultravioleta é um dos que mais se evidenciam, pelo paradoxo acerca de seus efeitos: se, por um lado, tais emissões são essenciais à manutenção da vida, por outro, o excesso de exposição às radiações pode se revelar altamente nocivo à saúde humana. As regiões terrestres de baixa latitude – próximas à Linha do Equador – são as mais expostas à incidência da radiação ultra-

violeta, cujos efeitos têm implicações na qualidade de vida da população, além de interferir nas atividades socioeconômicas, a exemplo da agricultura e da pesca. Quase todo o território brasileiro está sujeito à grande incidência de radiação UV. Logo, o desenvolvimento de estudos neste campo é de extrema relevância para a economia e a saúde da população. Essa foi a força motriz a estimular a criação da linha de pesquisas interdisciplinares desenvolvida por equipe de especialistas da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), que, sob a coordenação do professor Marcelo de Paula Corrêa, dedica-se a investigar o fenômeno da radiação e seus efeitos. Segundo Corrêa, “os impactos da radiação UV na comunidade brasileira são muito grandes. No Brasil, o câncer de pele corresponde a cerca de 25% dos casos diagnosticados no país, e essa radiação proveniente do Sol é o maior agente causador”, ressalta. Isso sem considerar os casos de tumores não melanômicos, tratados

sem a intervenção de clínicos especialistas e que não integram as estatísticas. O professor aponta, ainda, que, nas últimas décadas, o hábito brasileiro de cultuar o “bronze” do corpo tem conduzido os indivíduos a exposições cada vez mais excessivas ao Sol, o que resulta em crescente problema de saúde. “A incidência de radiação UV praticamente não variou nas últimas décadas, mas os casos de tumores cresceram vertiginosamente. O que mudou foram os hábitos da população. Um trabalho de conscientização precisava ser elaborado”, defende Corrêa.

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GEOCIÊNCIAS

Sentinelas do clima


Manhãs e mormaços

Os estudos iniciaram-se em 1999, ainda durante o período do doutorado de Marcelo Corrêa na Universidade de São Paulo (USP). “Em princípio, as pesquisas voltavam-se ao aprimoramento de técnicas para Modelagem de Transferência de Radiação, que consistiam em analisar a composição física da atmosfera e sua influência sobre os efeitos da radiação UV”, explica. Em seguida, o estudo foi desenvolvido em associação com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), processo que conferiu alto grau de excelência à investigação, devido à expertise do Inpe no campo dos fenômenos atmosféricos. As investigações realizadas nesta fase possibilitaram reunir dados consistentes sobre a dinâmica da radiação UV em regiões tropicais. O professor relata que “os resultados mais recentes permitem desmistificar muitos paradigmas, como o de que o período nocivo de exposição ao Sol é compreendido entre 10 e 16 horas. Medições realizadas às 9h, no nordeste brasileiro, apresentaram índices de radiação até 50 vezes superior ao considerado recomendável pela Organização Mundial da Saúde”. As pesquisas demonstraram que, em Itajubá e São Paulo, onde medidas também foram realizadas, ao meio-dia, os índices de radiação UV no verão podem

Mas que radiação é essa? A radiação solar UV caracteriza-se por ondas eletromagnéticas de comprimento situado entre 280 e 400 nanômetros (1 nm = 10-9 m). Ela se subdivide em três categorias: radiação ultravioleta A (UVA, com 315 a 400 nm), B (UVB, 280 a 315 nm) e C (UVC, 200 a 280 nm). O ozônio filtra grande parte da radiação que atravessa a atmosfera da Terra, promovendo absorção total da radiação UVC – tornando seus efeitos desprezíveis – e quase 90% da radiação UVB, fazendo com que os níveis de incidência em superfície sejam muito pequenos, mas suficientes para promover uma série de efeitos fotobiológicos e fotoquímicos significativos. A radiação UVA sofre pouca absorção pelo ozônio e representa a maior parte da radiação UV a atingir a superfície. A radiação tipo UVC tornaria inviável a vida na Terra, caso atingisse a superfície, uma vez que, em função de sua alta frequência, possui ação germicida e mutagênica. Geralmen-

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te, ela é utilizada, em sua forma artificial, para esterilização de água e de materiais cirúrgicos. Já a radiação UVB conta com ação tanto benéfica quanto nociva. Por um lado, é fundamental para a manutenção da vida. Nos seres humanos, permite a formação da vitamina D pela pele, que combate o raquitismo, a osteoporose e outras enfermidades. No território brasileiro, alguns poucos minutos de exposição ao Sol garantem tais efeitos. Por outro lado, quando em excesso, a radiação UVB pode causar queimaduras graves, fotoalergias e, em logo prazo, diversos tipos de câncer de pele. Por fim, a radiação UVA, que, há décadas, foi amplamente difundida como benéfica – além de ser usada em câmaras de bronzeamento artificial –, é atualmente reconhecida como responsável pelo envelhecimento precoce e, em grandes quantidades, como precursora dos tumores de pele.

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ser superiores àqueles observados no nordeste. De acordo com Corrêa, essa variação se dá por questões geográficas. “Nas regiões tropicais, o conteúdo total do gás ozônio presente na atmosfera é naturalmente menor e esse gás é o responsável pela absorção da maior parte da radiação UV. Além disso, essa é a região com a maior disponibilidade de incidência devido à posição do Sol. Esses fenômenos promovem uma maior penetração de radiação na superfície terrestre”. Outra significativa constatação da pesquisa diz respeito aos efeitos produzidos pela presença de nebulosidade (formação de nuvens) e de aerossóis atmosféricos (dispersão de partículas no ar). Segundo o professor, as consequências são variáveis: nuvens e partículas atmosféricas podem tanto reduzir a intensidade da radiação como espalhá-la, tornando-a temporariamente mais intensa. “Geralmente, as pessoas atribuem a presença da radiação UV a dias luminosos, o que é um mito. Mesmo em dias nublados, a pessoa pode sofrer queimaduras pela radiação. É o que, erroneamente, muitas pessoas atribuem ao fenômeno do mormaço”, explica.

Trabalho interdisciplinar

Anos depois do doutorado, Corrêa passou a integrar o corpo docente da Unifei. Nesse período, com aporte financeiro da FAPEMIG, as pesquisas puderam prosseguir. A partir daí, implementou-se um projeto mais abrangente: os “Estudos interdisciplinares sobre os efeitos da Radiação Ultravioleta”, linha de pesquisas que reuniu profissionais das mais diversas áreas para tratar da questão dos impactos da radiação UV nos trópicos. “O objetivo do projeto era agregar conhecimentos e criar soluções conjuntas. Médicos, economistas e meteorologistas, por exemplo,


poderiam reunir dados para desenvolver medidas preventivas contra os efeitos das radiações UV sobre a saúde humana”, esclarece Corrêa. O projeto alcançou novo patamar qualitativo quando, por meio de parcerias e trabalhos em cooperação, estabeleceu-se uma rede de monitoramento em contato com outras universidades do país. “Assim, expandimos nossa base de dados e passamos a contar com especialistas monitorando a atmosfera em todo o Brasil, o que nos possibilitou estabelecer análises comparativas muito mais precisas”, comenta. Os estudos concentram-se, principalmente, nas regiões Sudeste e Nordeste, áreas de grande incidência de radiação UV. “Geralmente, a população brasileira atribui a exposição nociva ao Sol a áreas litorâneas e ao Nordeste. Contudo, o interior e o sul do país também sofrem com elevados níveis de radiação”.

Reconhecimento global

Os avanços inéditos alcançados pelas pesquisas também foram beneficiados pela criação do curso de Ciências Atmosféricas, implementado à grade de ensino da Unifei em 2010. Trata-se do primeiro curso de graduação do gênero no estado de Minas Gerais, o que permite grande aprofundamento dos estudos sobre a radiação UV e de seu comportamento no Brasil e América do Sul. “As pesquisas desenvolvidas nas Ciências Atmosféricas relacionam-se a áreas bastante abrangentes. Os estudos envolvem previsões de tempo e clima, desastres naturais, métodos de proteção de safras agrícolas contra alterações climáticas, saúde populacional, poluição etc.”, descreve Corrêa. “Por meio de colaboração e acesso aos dados do Inpe

Estudos recentes demonstram que os índices de incidência dos raios UV em Minas Gerais alcançaram, em diversas oportunidades, níveis considerados como extremos pela OMS nos últimos meses.

e de outras instituições espalhadas por diversos pontos do continente sul-americano, nossos estudos conquistaram posição de vanguarda no país, alcançando reconhecimento global”, completa. A convergência de diferentes campos do saber numa só linha de estudos permite o aperfeiçoamento de tecnologias imprescindíveis às Ciências Atmosféricas, tais como as previsões de tempo e clima, o que incluem a previsão da incidência da radiação UV. “A evolução e o aperfeiçoamento desses estudos vêm possibilitando melhorias significativas na previsão e prevenção”, conta o coordenador. Outro projeto pioneiro da equipe de pesquisadores da Unifei foi o plano para conscientização de crianças e adolescentes quanto aos malefícios da exposição inadequada à radiação UV. A iniciativa consiste em treinamento específico, para que professores dos ensinos médio e fundamental incorporem às suas disciplinas estratégias educativas capazes de orientar os jovens. “Desse modo, fornecemos subsídios para que os professores possam abordar o problema a partir de suas disciplinas. Matemáticos e físicos demonstram, por meio de equações, a dinâmica da radiação UV na atmosfera. Biólogos abordam as reações no organismo humano, geógrafos demonstram os índices do fenômeno por região, e assim por diante”. Corrêa explica que o objetivo é fazer com que os jovens

conheçam melhor os efeitos do fenômeno – principalmente, pelo fato de ainda estarem em processo de formação física.

Novas pesquisas

Atualmente, Corrêa encontra-se na França, onde desenvolve pesquisas em parceria com o Laboratoire Atmosphères, Milieux, Observations Spatiales (Latmos), instituto especializado em estudos atmosféricos e astronômicos, incluindo aí as mudanças climáticas e a radiação UV. Segundo o professor, esses eventos podem se correlacionar, porém, ao contrário do que prega o senso comum, pesquisas demonstram que os dois eventos têm natureza distinta. “Não existem estudos a indicar que as mudanças climáticas de origem geofísica tenham como causa ou consequência a intensificação da incidência da radiação UV. Pelo contrário, o desenvolvimento de gases do efeito estufa inclui a produção de ozônio e de seus precursores”. Segundo Corrêa, com maior quantidade de ozônio, a tendência é que haja diminuição dos fluxos de radiação UV. Porém, tal redução não será muito significativa, principalmente, sobre a região próxima à Linha do Equador. Neste cenário, qual seria, afinal, a melhor maneira de a população se proteger? O pesquisador da Unifei é categórico na resposta: apesar de todos os avanços científicos no campo das radiações ultravioletas, o método defensivo mais eficiente ainda é a prevenção, por meio do uso de proteção adequada: filtro solar, chapéu, roupa, óculos de sol. “O indivíduo sempre deve se manter atento à exposição aos raios solares. Além disso, é preciso lembrar que, mesmo em dias nublados, também podem ocorrer danos à saúde”.

Projeto: Estudos interdisciplinares sobre a radiação solar ultravioleta Coordenador: Marcelo de Paula Corrêa Modalidade: Programa Pesquisador Mineiro Valor: R$ 48.000

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TECNOLOGIA DE ALIMENTOS

Ora doce, ora amargo O Brasil possui cerca de 120 indústrias dedicadas à produção de alimentos light e diet, segmento que representa algo entre 3% e 5% dos gêneros alimentícios vendidos no país. O percentual pode parecer pouco significativo ao leitor, mas ganha volume se se considerar o fato de que mais de um terço (35%) dos lares brasileiros consomem algum tipo de produto com essas características. Para além dos índices, porém, o que chamou a atenção de pesquisadores de duas instituições de ensino superior de Lavras foi a descoberta de uma interpretação equivocada, por parte dos consumidores, sobre o uso dessas substâncias. A leitura de um artigo acerca do assunto despertou os estudiosos para a generalizada convicção dos usuários de

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Em Lavras, pesquisadores comparam resultados do consumo dos principais adoçantes usados por brasileiros Virgínia Fonseca que o consumo de adoçantes, sem mudanças adicionais de comportamento, seria suficiente para perder peso e regularizar a saúde. A constatação resultou em estudo comparativo entre alguns dos principais adoçantes consumidos no Brasil. Pesquisadores do Centro Universitário de Lavras (Unilavras) e da Universidade Federal de Lavras (Ufla) confrontaram as propriedades antiglicêmicas, dulcificantes e funcionais da estévia em relação à sacarose, à sacarina/ ciclamato, à sucralose e ao aspartame. “Atualmente, existe crescente procura por alimentos de baixa caloria ou, até mesmo, não calóricos, devido à preocupação com a saúde, em função dos riscos relacionados a obesidade, doença arterial coronariana e diabetes, mas também por


A estévia começou a ser utilizada no Brasil por volta de 1987, embora seja conhecida no Japão desde 1920. Nos Estados Unidos, aguarda aprovação há 27 anos, mas já é aceita como complemento alimentar pelo órgão regulador americano FDA (em inglês, Food and Drug Administration). Extraída da planta Stevia rebaudiana, a substância apresenta mistura de glicosídeos, entre os quais predominam o esteviosídeo (50%) e o rebaudiosídeo A (30%).

questões estéticas”, observa a professora dos departamentos de Farmácia Generalista e Química Industrial do Unilavras, Patrícia de Fátima Pereira Goulart, coordenadora do projeto. Os adoçantes testados estão na base de diversas opções de edulcorantes – substâncias com poder de adoçar – encontrados no mercado nacional em substituição ao açúcar. Os pesquisadores escolheram a estévia como parâmetro comparativo por se tratar de substância natural e potencialmente menos propensa a efeitos adversos. “Mas não que pudesse ocasionar, de maneira isolada, o resultado do emagrecimento, por exemplo”, ressalva.

Dietas diferenciadas

Foto: Arquivo pessoal

Patrícia Goulart: pesquisa comparativa

Os testes basearam-se em ensaios com ratos Wistar. Machos com sobrepeso – considerada uma proporção com valores que corresponderiam à obesidade em seres humanos – foram submetidos a dieta hipocalórica, em período de 160 a 180 dias, com os adoçantes. Os pesquisadores trabalharam com subprojetos e distribuíram os tratamentos entre ração pura, ciclamato/ sacarina, estévia, aspartame e sucralose. “Todos os passos foram aprovados pela Comissão De Ética no Uso de Animais, guardando os princípios éticos estabelecidos pelas normas”, assegura a professora. Após o período estabelecido, os animais tiveram seu sangue e órgãos submetidos a exames bioquímicos e centesimais. No caso do subprojeto que comparou o uso da estévia com o açúcar comum, ou sacarose, por exemplo, analisaram-se o ganho de peso, o perfil lipídico, a glicemia de jejum e a função hepática dos ratos. Além disso, fez-se a avaliação histológica das vísceras. Para estabelecer o contraponto necessário às comparações, os animais haviam sido submetidos, por 45 dias, a dietas especiais, com os seguintes tratamentos: T1 (controle, alimentação simples de fubá); T2 (sacarose 4%); T3 (estévia 2%); T4 (estévia 4%) e T5 (estévia 6%). Não houve diferenças significativas para ganho de peso, consumo médio da ração, níveis de triglicérides, colesterol total e VLDLc, ureia e creatinina, independentemente da dieta. Porém, os animais alimentados com estévia a 2% e 4% apresentaram menores níveis de glicose. Por sua vez, os ratos que ingeriram sacarose 4% mostraram valor médio inferior para o

HDLc, o chamado colesterol bom, enquanto que o valor médio de LDLc, o colesterol “ruim”, e de ALT (alanina transaminase, enzima liberada na corrente sanguínea quando há lesão hepática) foi superior aos demais. Os animais dos tratamentos T1 e T5 apresentaram níveis médios de AST (aspartato transaminase, detectada no sangue quando ocorre lesão hepática, cardíaca, muscular ou cerebral) inferiores. As lâminas histológicas apontaram uma camada de gordura nos rins dos ratos tratados com sacarose, ao contrário do que se observou nos demais animais. “Neste contexto, a estévia apresenta características benéficas à saúde, principalmente quando comparada à sacarose, podendo substituir o açúcar”, concluíram os envolvidos na investigação. Estudos com metodologia similar se repetiram, contrapondo dietas de estévia com os demais edulcorantes avaliados. Os dados corroboraram a hipótese inicial proposta pelo artigo que motivou a investigação: os adoçantes, isoladamente, não foram capazes de reduzir o peso dos ratos. Os pesquisadores constataram, ainda, um resultado considerado interessante, fruto de discussões com outros profissionais da área, como cardiologistas e nutricionistas: após cerca de três ensaios, os estudiosos identificaram, nos exames bioquímicos de colesterol e frações, a tendência a valores mais dentro da normalidade nos animais que usaram estévia, quando comparados aos outros adoçantes e açúcar. “Além de melhorar esses padrões bioquímicos, a estévia não apresentou efeitos adversos, como o aumento da pressão arterial. E, por se tratar de planta medicinal imunoestimulante, alivia desconfortos digestivos, problemas na cavidade bucal, entre outros”, detalha a nutricionista Tatiana Abreu Reis, mestranda da Ufla que participa das pesquisas. A equipe conseguiu, ainda, definir a concentração dos adoçantes que apresentaram melhores resultados, reunindo todos no último ensaio. “Verificamos que a tendência é mesmo de melhores indicadores de glicose e colesterol com o uso da estévia. Já quanto ao emagrecimento, nenhum deles resolve algo sem atividade física associada”, revela a coordenadora, que há sete anos realiza estudos nessa área e já prevê: um próximo passo talvez seja propor os ensaios associados a exercícios.

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Perigo gota a gota Estima-se o consumo médio mundial de açúcar, per capita, em aproximadamente 200g por dia – incluindo bebidas em geral, doces e, até mesmo, cigarros –, o que somaria cerca de 72 kg anuais. Patrícia Goulart explica que o corpo humano não está preparado para processar essa grande quantidade de sacarose. Assim, o excedente ocasiona malefícios à saúde. A ingestão da substância em demasia, por meio de cereais, de frutas ou diretamente do açúcar e de doces que o contenham, sobrecarrega o pâncreas. Essa glândula é responsável pela produção da insulina, hormônio que transforma a sacarose em glicose – que, em excesso, se acumula no organismo na forma de gordura, causando diversas doenças, como obesidade, diabetes, hipertenção arterial e enfermidades cardiovasculares. “A mudança nos hábitos alimentares, com a introdução de adoçantes em substituição ao açúcar, por exemplo, pode exercer poderoso suporte à prevenção dessas doenças”, explica a estudante de mestrado, Tatiana Reis. Por outro lado, também há restrições ao consumo exagerado dos edulcorantes usados em substituição ao açúcar. Um dos potenciais fatores prejudiciais seria a indução ao aumento do peso. Isso porque o adoçante atua no sistema nervoso, causando a sensação de insaciedade no organismo e ativando o sensor da fome.

Existem, ainda, considerações sobre a própria composição dos produtos. A maioria das opções encontradas no mercado (tanto líquidas quanto em pó) é artificial e tem, como base, o ciclamato de sódio ou a sacarina sódica – cujo principal elemento químico pode resultar, por exemplo, em elevação da pressão arterial ou agravamento de quadros de predisposição a doenças renais. Além disso, adoçantes com as duas substâncias em sua fórmula não devem ser ingeridos por grávidas e crianças. Já o aspartame é contraindicado a pacientes com fenilcetonúria – doença hereditária que pode gerar problemas dermatológicos e neurológicos, caracterizada pelo acúmulo do aminoácido fenilalanina e seus derivados no organismo. Quanto ao açúcar light, embora apresente menor teor calórico, constitui-se de combinação entre a sacarose convencional e o adoçante. “O dano é ainda maior, já que os perigos acarretados pelo açúcar comum se juntam àqueles provocados pela sacarina e pelo ciclamato”, avalia a professora. Entre os adoçantes mais indicados estão aqueles que têm como base a estévia, cuja ingestão não demonstrou efeitos colaterais nos estudos. “Seu uso pode ser uma forma eficaz de reduzir as calorias de diversos alimentos, sem comprometer o sabor doce que

os consumidores apreciam e sem prejudicar a saúde”, sinaliza Tatiana Reis. Segundo Patrícia Goulart, a sacarina e o ciclamato estão proibidos em países como Canadá e Estados Unidos, respectivamente, uma vez que testes feitos em ratos resultaram em câncer na bexiga dos animais. Embora não seja comprovado o risco em seres humanos, os estudos incentivaram a proibição em alguns países e a restrição no Brasil. A pesquisadora esclarece que a maioria dos limites de consumo de adoçantes é determinada a partir de análises com cobaias, sendo a dose máxima estabelecida para humanos 10% da porção mínima que mostrou qualquer tipo de toxidade em animais. “Inúmeros alimentos consumidos em excesso fazem mal, mas essas doses tóxicas são quantidades que, possivelmente, um indivíduo não ingeriria”, elucida. Como muitos pacientes não contam as gotas ou exageram na quantidade de sachês de adoçante, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reduziu a cota máxima, no caso da sacarina e do ciclamato, em bebidas e alimentos industrializados. Para estabelecer esses limites, a Anvisa se apoia em dados da Ingestão Diária Aceitável (IDA), que estima quanto um indivíduo pode ingerir de determinada substância por dia, e durante toda a vida, sem colocar sua saúde em risco.

Projeto: Estévia: um estudo comparativo com aspartame, ciclamato/ sacarina, sucralose e sacarose em ratos Wistar e seres humanos Coordenador: Patrícia de Fátima Pereira Goulart Modalidade: Demanda Universal Valor: R$ 34.302

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EDUCAÇÃO FÍSICA

Melhor (Vital)idade Pesquisa da Universidade Federal de Lavras avalia benefícios da atividade física para idosos e identifica principais motivos de abandono da prática de exercícios Virgínia Fonseca

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A expectativa de vida nacional alcançou, em 2012, a marca dos 74 anos. Cerca de um quarto de século a mais do que um brasileiro esperava viver em 1960, quando a média era de 48 anos. No mesmo período, o percentual de participação das pessoas com idade acima dos 60, na população total do país, passou de 4,7% para 10,8% (IBGE 2010). Mudanças como essas no perfil dos cidadãos provocam a discussão de políticas e propostas voltadas à manutenção dos sistemas de saúde, previdenciário e de outros mecanismos de suporte ao novo cenário. No Sul de Minas, professores e alunos da Universidade Federal de Lavras (Ufla) conduzem, desde 2009, projeto voltado a aspecto não menos importante: a manutenção da qualidade de vida do idoso por meio da prática de atividades físicas. Implantada em 2010 como projeto de extensão – sob o título de “Atividade Fotos: arquivo do projeto

Caminhada no Parque Ecológico Quedas do Rio Bonito, em Lavras (MG)

Física e Saúde para Idosos” –, a proposta foi ampliada a partir da aprovação no edital da FAPEMIG para apoio a iniciativas extensionistas em interface com pesquisa. “Isso nos permitiu expandir as ações, tanto no sentido de envolver mais idosos no programa, adquirir equipamentos de avaliação e materiais para as aulas quanto no de inserir estudantes de iniciação científica nas pesquisas vinculadas à iniciativa”, relata a professora do Departamento de Educação Física e do Laboratório de Pesquisa em Psicologia do Exercício (Lappex) da Ufla, Priscila Carneiro Valim-Rogatto, que coordena os trabalhos em parceria com o professor Gustavo Puggina Rogatto. O estudo propõe a investigação de fatores relacionados à adesão e à manutenção, pelos idosos, da prática de exercícios, bem como a análise dos motivos de desistência, com vistas à oferta de serviços mais contextualizados a esse público. O envelhecimento do ser humano é marcado por um processo natural de perda de capacidade motora, de força, de flexibilidade, de velocidade e de níveis de VO2 máximo – a quantidade de oxigênio que o sistema cardiovascular consegue transportar aos músculos para produzir energia. Esses fatores resultam em maior dificuldade na realização de tarefas cotidianas e atrapalham a manutenção de um estilo de vida saudável. As investigações conduzidas em Lavras corroboram resultados de outros estudos, que apontam a participação em programas de atividades

Hidroginástica: relatos positivos dos participantes

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físicas como uma medida eficaz para a recuperação da autonomia e do bem-estar físico, psicológico e social pelos idosos. O projeto proporciona a oferta de diversificados exercícios, como atividades aeróbicas, rítmicas, de equilíbrio e de memória, além de esportes adaptados. Por meio de avaliações periódicas, a equipe da Ufla – em média, 12 graduandos bolsistas de iniciação científica, além dos professores coordenadores – verifica os efeitos à saúde dos participantes sob os pontos de vista físico, psicológico e social. Para tanto, os pesquisadores avaliam o estado cognitivo do idoso, o nível de atividade, a aptidão física relacionada à saúde e o tempo de reação, assim como aspectos psicológicos, a exemplo da autoeficácia física, da percepção dos benefícios e das barreiras inerentes à prática. Também há o acompanhamento da participação por meio da contagem de ausências e da verificação de possíveis desistências – nesse último caso, com análise do motivo, do tempo de participação antes da desistência e do interesse pelo retorno. A cada semestre, de 20 a 40 pessoas, com idade a partir de 60 anos, frequentam o programa.

Em movimento Priscila Valim-Rogatto explica que os exercícios indicados à pessoa adulta podem, também, ser recomendados às mais velhas. Porém, com adaptações, considerando-se as limitações consequentes do envelhecimento ou as necessidades individuais. A pesquisadora ressalta que, para resultar em benefícios, a prática precisa ser habitual: “A inserção no programa de atividade física aumenta o tempo em que o indivíduo se mantém em movimento, tanto durante as aulas quanto fora delas, ou, ainda, o conduz a adquirir outros hábitos saudáveis”, comenta, ao citar casos de idosos que caminham de suas casas até o Departamento de Educação Física da Ufla. Outros se submetem a exames clínicos preventivos motivados, exclusivamente, pela avaliação médica periódica do projeto. As relações sociais também se ampliam, deixando de ocupar apenas o âmbito familiar. Nilton Costa Lima, 82


anos, está no programa desde o início e é o homem mais velho do grupo. “De maneira geral, me sinto muito bem, com os exercícios, tenho mais equilíbrio para caminhar”, autoavalia-se. Nilton relata que fez amizade com todos os demais participantes, inclusive com as monitoras, e deixar o programa nunca passou por sua cabeça. “A necessidade de trabalhar o corpo por meio de exercícios não se concentra apenas no aspecto da saúde física, pois a aceitação do corpo velho, pelo próprio idoso e pela sociedade, faz parte das crises e problemas psicológicos próprios do envelhecimento”, afirma Priscila. A observação do comportamento dos idosos, ao longo do desenvolvimento do programa, e os resultados das avaliações da autoeficácia física mostraram que a participação nas atividades fez com que eles aceitassem o próprio corpo, de modo a perceber suas capacidades e descobrir habilidades. A hidroginástica, por exemplo, foi considerada um desafio para muitos. A insegurança dizia respeito tanto ao medo da água quanto ao receio de as pessoas observarem seus corpos. “Transcorridas algumas aulas, contudo, essas pessoas mudavam de postura e seus relatos eram de satisfação”, conta. As avaliações objetivas da capacidade física percebida – ou seja, a crença ou opinião do indivíduo sobre a própria capacidade de desempenhar determinada ação –, realizadas por meio da análise de escala específica, revelaram, em geral, níveis altos de autoeficácia física nos participantes do programa. “Isso quer dizer que eles se percebem capazes de desempenhar atividades propostas, ou, ainda, se sentem seguros com a autoapresentação física”, interpreta a pesquisadora.

Perfil

Por que parou? A pesquisa distinguiu, como principais causas do abandono das atividades físicas, problemas de saúde do próprio participante ou de alguém da família, nos casos em que o idoso precisa dar suporte. Outros motivos apontados, mas com percentual abaixo de 10% da amostra pesquisada, foram falta de acompanhante, horário de administração de remédios, viagens, visita de parentes e falecimento na família. “Contudo, mais de 90% dos entrevistados relataram interesse em voltar ao programa depois de solucionada a situação que os fez desistir”, contabiliza Priscila Valim-Rogatto. O desejo de retornar é pautado em justificativas como necessidade de melhorar o corpo e a memória, buscar condicionamento físico, fazer amizades e emagrecer. Com o intuito de minimizar o percentual de abandonos – um dos estudos apontou 36% em 12 meses (veja quadro) –, a equipe adota estratégias como contato telefônico para lembrete logo após feriados prolongados ou alguma modificação no horário/local de atividades. “Realizamos eventos específicos em certas épocas, atividade física periódica para a terceira idade na praça central da cidade, atos festivos com a participação da família e amigos, entre outros”, acrescenta. Os estudos têm resultado em diversos trabalhos acadêmicos por parte dos alunos engajados. Além disso, o grupo, atualmente, busca correlacionar as variáveis obtidas, ao verificar, por exemplo, as associações entre aptidão física e autoeficácia, ou entre motivos de desistência e percepção de barreiras para prática. As análises qualitativas também seguem em aperfeiçoamento.

Quinze participantes de ambos os sexos, que desistiram do programa no período de um ano, foram entrevistados. O estado civil desses idosos variou bastante: 61,5% eram casados e 38,5% viúvos. Quanto ao tempo de participação no programa, 30,8% permaneceram menos de 30 dias; 30,8%, de 30 a 60 dias, e 38,4%, mais de 60 dias. Como principais motivos de desistência, relataram-se problemas próprios de saúde (46,2%) ou na família (23,1%), viagem (7,7%), falta de atestado médico (7,7%) e dificuldade de encontrar acompanhante para participar do programa (7,7%).

Projeto: Atividade física e saúde para idosos Coordenador: Priscila Carneiro Valim-Rogatto Modalidade: Edital extensão em interface com a pesquisa Valor: R$ 43.559

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MEIO AMBIENTE

e a c o b a N e u q n a t no

dissemina V F U a d o d ta n ose Pesquisador ap ução simultâd ro p ra a p l e v tá técnica susten ombustível c l o o lc á e a ç a Diogo Brito nea de cach

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Em 1980, recém-chegado de volta ao Brasil, o professor Juarez de Souza e Silva recebeu de um amigo, como pagamento de dívida, muitos litros de cachaça. Durante certo tempo, a aguardente ficou estocada em sua casa, aparentemente, sem utilidade. Devido à enorme quantidade armazenada, seria impossível que ele consumisse toda a bebida. Sem saber o que fazer com o produto, mas ciente da crise brasileira à época, Juarez daria início, naquele momento, à atividade que já desempenha há mais de 20 anos: produzir cachaça e álcool combustível simultaneamente e de forma sustentável e limpa. No início dos anos 1980, o ex-professor já dominava a tecnologia de destilação da cana-de-açúcar para produção de aguardente. O domínio da produção de álcool combustível, contudo, ocorreria anos mais tarde, como fruto da necessidade de alternativas, no país, para novas fontes de energia. O Brasil, na verdade, sempre se revelara absoluto na produção de combustível a partir da cana. No que diz respeito à frota nacional, na segunda metade daquela década, aproximadamente 95% dos carros eram movidos a álcool. Em 1989, consolida-se no país a grande crise dos combustíveis, ocasionada, em grande medida, pelos altos preços do açúcar no mercado internacional. Foi tal problema econômico que “obrigou” Juarez a investir em seu próprio produto: “Cheguei ao Brasil em 1980. Três anos depois, comprei um carro a álcool. E já conhecia a tecnologia de produção do combustível. Assim que resolvi meu problema com a falta do produto, achei que deveria transmitir essas técnicas a outras pessoas”, comenta. A meta de informar os outros sobre a possibilidade de produzir seu próprio combustível foi iniciada com as inúmeras visitas que o professor costumava receber na Universidade Federal de Viçosa (UFV). Eram pessoas interessadas em conhecer e dominar a tecnologia de produção do próprio combustível. Atualmente, Juarez é professor aposentado e voluntário na UFV, onde busca apresentar, documentar e oferecer todo o material necessário ao processo de produção de aguardente e de combustível. Para o pesquisador, aliás, essa tecnologia sustentável pode ser ainda mais barata, em grande medida, devido à sim-

plicidade do processo de produção: “Na cachaça, existem duas frações que não devem ser ingeridas: o álcool de cabeça e o de calda. Isso corresponde a algo entre 20 e 25% do álcool originário da fabricação da bebida. Ou seja, se você produzir 200 litros de aguardente de boa qualidade, terá 70 litros de álcool combustível”.

Nada se perde...

Obviamente, o sucesso do processo de fabricação simultânea de álcool e cachaça deve-se ao uso de matéria-prima comum, a cana-de-açúcar. O que torna o processo sustentável é o aproveitamento de quase 100% de todo o material usado na fabricação da bebida e do combustível. “Uma das partes da cana-de-açúcar, o ‘gomo’, concentra todo o açúcar da planta. Já sua parte superior, onde ficam as folhas, serve de alimentação ao gado”, explica o professor, ao esclarecer que provém do gomo todo o sumo da cana – conhecido como garapa: “A partir dela é que se fazem subprodutos como o açúcar, a rapadura, o melado, e, claro, a aguardente e o álcool combustível”. O bagaço originado do gomo “moído” pode ser usado para recomposição do solo. Em outros termos: as sobras ajudam no próprio plantio de mais cana-de-açúcar. “Retoma-se, desse modo, todo o processo, por meio de prática sustentável e ecologicamente correta”, explica Juarez de Souza.

Modos de produção

Ainda segundo o pesquisador, a fabricação sustentável de cachaça e álcool combustível deveria ser praticada pelos pequenos produtores, em sistema de cooperativa. Além disso, se um único indivíduo tem capacidade de gerar 300 litros de combustível por dia, isso é o suficiente para o consumo em diversas regiões (e situações): “Queremos trabalhar à maneira da indústria leiteira no Brasil: cerca de 90% de nossa produção de leite está nas mãos dos pequenos proprietários. Numa rápida comparação, produzem-se, hoje, cerca de 35 bilhões de litros de leite, contra menos de 20 bilhões de litros de álcool combustível”. Para o produtor que já possui a fábrica de aguardente, o valor a ser desembolsado fica entre R$10 mil e R$12 mil para adaptação satisfatória ao modelo de fabricação do álcool combustível. Para aqueles que não possuem nenhum equipamento,

mas se interessam pela atividade, o investimento girará em torno de R$ 70 mil. Os pequenos produtores brasileiros, contudo, esbarram nos empecilhos da lei. De acordo com Juarez de Souza, em função da alta carga tributária, apenas 5% dos fabricantes de cachaça nacional atuam de forma legalizada, enquanto os outros 95% produzem clandestinamente. “Se as tarifas fossem mais baixas, teríamos, talvez, 100% dos produtores na legalidade”, completa. O professor alega que, em diversas ocasiões e esferas públicas, defendeu a criação de cooperativas para a produção de cachaça e álcool combustível. “Precisamos que os órgãos públicos tomem posição sobre o assunto. Se dependermos do Governo Federal, ficaremos na mão da Agência Nacional de Petróleo (ANP)”, opina.

Para todos

Atualmente, Juarez investe na montagem de uma unidade demonstrativa de destilação e produção de álcool em seu sítio, localizado próximo ao município de Viçosa (MG). O pesquisador deseja transmitir know how às pessoas interessadas em se tornar pequenos produtores de cachaça e combustível. “Investiremos em um curso completo e gratuito, por meio do qual os participantes aprenderão, passo a passo, o processo de produção – da moagem da cana à feitura do destilado”, diz. O domínio da tecnologia de produção de cachaça e combustível e a experiência acumulada pelo professor Juarez, ao longo de sua jornada de estudos e experimentos, também foram por ele documentados no livro Produção de Álcool na fazenda – Equipamentos, sistemas de produção e usos. Na obra, o pesquisador ajuda os produtores a descobrir e desenvolver novas maneiras de uso da cana-de-açúcar.

Projeto: Análise Técnico-econômica de um Sistema Integrado de Produção de Álcool Combustível, Aguardente e Leite, a partir da Biomassa de Cana-de-açúcar Coordenador: Juarez de Sousa e Silva Modalidade: Demanda Universal Valor: R$ 49.650

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ENGENHARIA BIOMÉDICA

O que os olhos não veem, mas o cérebro sente Habilidade inerente ao ser humano, atenção seletiva auditiva é chave para comunicação com doentes imobilizados

Virgínia Fonseca Você está em uma festa. Ao som da música eletrônica, misturam-se as conversas de distintos grupos de convidados. Em dado momento, parece-lhe ter ouvido a menção a seu nome na mesa mais próxima. Não obstante todos os outros ruídos do ambiente, instintivamente, seus sentidos concentram-se naquelas vozes e buscam apurar o que está sendo dito a seu respeito. À capacidade da mente humana de resistir a estímulos de distração e focar em informações relevantes denomina-se atenção seletiva auditiva. A maneira como o cérebro processa essa habilidade é campo de estudo de pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV), que projetam utilizá-la como base para o desenvolvimento de dispositivo que permita a comunicação com pacientes impossibilitados de se mover.

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A eletroencefalografia é um método para investigação do funcionamento do cérebro humano, no qual é possível verificar a reação do órgão a vários estímulos. Alguns podem ser facilmente associados a alterações no eletroencefalograma; outros provocam mudanças não claramente observadas.

A ideia é usar a atenção seletiva, mensurada por eletroencefalograma, como ferramenta para a construção de interfaces cérebro-computador – dispositivos que permitem manipular computadores e máquinas por meio da mente. Isso possibilitaria ao indivíduo escolher entre duas ou mais opções apresentadas, empregando seu poder de concentração auditiva. “Essa abordagem, típica da Engenharia de Reabilitação, tem a peculiaridade de não necessitar que o sentido da visão esteja ativo no paciente, sendo, portanto, útil aos severamente desabilitados”, explica o professor Leonardo Bonato Felix, coordenador do projeto. Os pesquisadores pretendem, ainda, aplicar as técnicas desenvolvidas em estudos e diagnóstico precoce de quadros como autismo, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), entre outros. Atualmente, de acordo com o professor, existem diversos paradigmas para comunicação com pacientes desabilitados, que condicionam o doente a provocar reações cerebrais detectáveis, como respostas evocadas visuais, movimentos imaginados, potenciais corticais lentos (alterações lentas, mas perceptíveis, na atividade do córtex cerebral). Muitos trabalhos também usam sinais eletroencefalográficos. Nesse modelo, um sistema de interconexão cérebro-computador permitiria à pessoa controlar a máquina usando apenas suas ondas cerebrais. Segundo Leonardo Bonato, já foi demonstrado que doentes, em estados severos de locked in – condição na qual o indivíduo está acordado e consciente, mas não consegue se mover devido à paralisia completa –, aprenderam a se comunicar por meio de dispositivo que interpreta os sinais do eletroencefalograma. O desenvolvimento de mecanismos baseados na atenção seletiva auditiva tem como principal vantagem a aplicação em pacientes com dificuldades para controlar o movimento ocular, já que esses sistemas seriam independentes da função visual. Estudos anteriores apontam que as possibilidades de interface cérebro-computador hoje em vigor possuem níveis variados de eficiência. Para alguns, a longa imobilidade e a degeneração das células do córtex

motor podem dificultar a produção de sinais a partir de movimentos imaginados. Além disso, em situações de danos extensos, todo o sistema visual pode se tornar comprometido: se os olhos não conseguirem ajustar o foco, não se movem para inspecionar a cena, fato que rapidamente enfraqueceria um mecanismo baseado em respostas visuais. Por fim, certos métodos, como o de imaginação de movimentos, requerem treinamento anterior ao uso do sistema, o que pode se tornar impeditivo para pacientes com expectativa de vida reduzida. “Some-se a isso o fato de a audição ser relatada como estímulo que persiste mesmo em situações de grave trauma. Assim, constatamos considerável vantagem em metodologias independentes de visão”, analisa o pesquisador.

Comunicação possível

No sistema proposto, o paciente receberia orientação para fazer escolhas com atenção em estímulos sonoros específicos. Estes sinais, aplicados a um código de classificação de respostas, permitiriam identificar em qual som o indivíduo se concentrou e, consequentemente, que informação ele desejaria transmitir. Os pesquisadores trabalham com banco de dados criado a partir do experimento realizado com voluntários, entre 18 e 25 anos de idade, sem histórico de disfunção auditiva. Em cabine com isolamento acústico, os jovens passam por exame de eletroencefalograma direcionado – usando fones de audiometria para receber o sinal sonoro e para atenuar os ruídos do ambiente. A experiência inclui três etapas, em que dois estímulos auditivos são gerados simultaneamente e o voluntário deve atentar para o som instruído pelos cientistas. Todos os estímulos possuem, em comum, características como a mesma intensidade sonora e tempo de duração (2 minutos). Num primeiro momento, o indivíduo recebe instrução para permanecer de olhos abertos e tentar não prestar atenção nos estímulos sonoros. A seguir, solicita-se que feche os olhos e se concentre no som do ouvido esquerdo. Por último, a partir do mesmo procedimento, instrui-se que o voluntário foque sua atenção no ouvido direito.

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Para gerar padrão comparativo, antes das estimulações, os indivíduos são orientados a focar em um dos ouvidos. “Como em cada orelha é apresentado um som com frequência diferente, sabemos em qual frequência no espectro do sinal eletroencefalográfico devemos procurar por padrões diferentes da normalidade, que, no caso, corresponderia à situação sem foco de atenção”, detalha o coordenador. Os pesquisadores usam, então, técnicas de processamento de sinais para identificar os padrões espectrais de cada resposta. O professor Leonardo, que também está à frente do Núcleo Interdisciplinar de Análise de Sinais da UFV, especializado em pesquisas relacionadas a processamento de sinais biológicos, instrumentação eletrônica, modelagem matemática e inteligência computacional, faz analogia com outra situação hipotética. “Imagine que você tem de dizer se uma torneira está pingando no meio de uma lagoa, mas só pode analisar o movimento de uma boia na margem. O que podemos fazer é ajustar a frequência com que os pingos caem, de forma a gerar um padrão mais facilmente reconhecível na margem”, compara. “No

caso específico desse projeto, o problema é que estaria chovendo”, brinca. As respostas evocadas (veja Box), quando comparadas ao eletroencefalograma como um todo, apresentam níveis de amplitude bem inferiores, o que torna difícil avaliar sua presença por simples inspeção visual do sinal. Por isso, os cientistas precisam desenvolver técnicas de detecção objetiva, ou seja, instrumentos para automatizar o processo de identificação de respostas a estímulos e para ajudar a lidar com a grande variabilidade de formas de onda de diferentes indivíduos. Esses métodos baseiam-se em ferramentas estatísticas, nas quais a capacidade de detecção depende da relação sinal-ruído e da quantidade de dados disponíveis para o cálculo. Os melhores resultados até o momento indicaram taxa de transmissão de informação – medida padrão em sistema de interface cérebro-computador – de 1,89 bits por minuto, com taxa de acerto de 82%. Atualmente, a equipe trabalha para pôr o sistema de detecção/classificação em modo online, de forma a confrontar o desempenho do sistema com as respostas dadas pelo indivíduo em questionário pre-

viamente respondido. Segundo o professor, esse seria o caminho para um sistema robusto, passível de aplicações clínicas. Quanto ao percentual de acerto, o grupo planeja alcançar algo em torno de 95%. Leonardo Bonato ressalta que o grupo segue os testes com outras abordagens de processamento de sinais. Além disso, as pesquisas têm corroborado evidências, encontradas na literatura, de que as estruturas cerebrais ativadas no ato de focar atenção em um sinal sonoro são inversas ao lado que recebe o estímulo. “Isso poderia explicar por que não conseguimos nos concentrar em dois sons simultaneamente”, sugere, acrescentando que existe necessidade de estudar melhor esse aspecto. Em sequência aos trabalhos, estudos sobre outra possibilidade de informação – desfocar atenção de todos os sons – estão em andamento. O grupo prepara, ainda, pesquisa envolvendo estimulação auditiva com sons da natureza, como vozes e ruídos de animais, ou mesmo música, com o intuito de verificar se a capacidade de focar atenção auditiva é influenciada pelo impacto que o som representa para a pessoa. Daniel Sotto-Maior

Estímulo e reação O potencial evocado é a atividade bioelétrica desencadeada e registrada no nervo, no músculo, no receptor sensorial ou em determinada área do sistema nervoso central, relacionada à natureza de um estímulo externo. Usualmente, esse tipo de atividade possui amplitude baixa, se comparada à atividade cerebral espontânea. Assim, devido à baixa relação sinal/ruído, são aplicadas técnicas de processamento para extrair o sinal (resposta evocada) imerso em ruído (eletroencefalograma de fundo). O uso desses elementos tem sido constante em estudos que buscam compreensão das diversas modalidades sensoriais inerentes ao corpo humano. O registro destas respostas, por meio da eletroencefalografia – associada à aplicação de técnicas de processamento de sinais –, fornece importantes informações sobre a maneira como estímulos externos são conduzidos, percebidos e interpretados pelo sistema nervoso. Os potenciais evocados auditivos, ou seja, as respostas desencadeadas pelo sistema nervoso, em função de uma estimulação sonora, podem ser classificados como transitórios – quando obtidos com estímulos de curta duração – ou de regime permanente. Esse último ocorre se um som é apresentado em taxa suficientemente elevada, de modo que a resposta a um estímulo sempre se sobreponha ao estímulo sonoro anterior. É o caso do sinal modulado em amplitude (AM, do inglês, Amplitude Modulation), usado pelos pesquisadores no trabalho. Em comparação com os estímulos auditivos transitórios, o tom AM tem a vantagem de ser mais próximo dos sons da natureza, tornando as respostas evocadas mais conexas com situações cotidianas e contribuindo para maior abrangência de eventual teste.

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Testes em cabine com isolamento acústico analisam reação de voluntários aos estímulos sonoros

Projeto: Investigação da atenção seletiva auditiva para interface cérebro-computador Coordenador: Leonardo Bonato Felix Modalidade: Demanda Universal Valor: R$ 44.488


Eram os deuses escultores? LEMBRA DESSA?

Projeto desenvolvido pela Universidade Federal de Ouro Preto “ressuscita” o ofício dos canteiros, mestres que, há séculos, transformam a pedra em arte William Ferraz pessoas compreender melhor o quanto o ofício está vinculado ao cotidiano da cidade”, esclarece o pesquisador. Inicialmente restrito à pequena garagem adaptada para a prática da Cantaria, o projeto ganhou, com o tempo, equipamentos modernos, além de contar com melhorias nas instalações de pesquisa. “A nova estrutura, apesar da pouca ampliação do espaço físico, nos possibilita que, hoje, realizemos reformas anuais em monumentos de Outro Preto e imediações, como o centro histórico da cidade de Itabirito e a ponte da Estrada Real, que vai até Ouro Branco”, destaca. Ao longo dos anos, a equipe de Pereira incorporou novos projetos, a exemplo do Itacolomito, estudo desenvolvido com aporte financeiro da FAPEMIG que busca cartografar todos os tipos de rocha usados na Cantaria em Ouro Preto e região. O mapeamento torna mais eficaz a obtenção de materiais de qualidade. No que diz respeito às iniciativas de extensão, um projeto de inclusão social foi elaborado para atender a 2 mil crianças, entre 10 e 12 anos, de diversas escolas

da cidade histórica. Além de aprenderem o ofício dos canteiros, os pequenos recebem estímulo à leitura por meio de livros relacionados à arte da Cantaria. “Este projeto pretende promover a aproximação da comunidade com a universidade. As crianças também estudam a história dos bairros, aprendem um pouco mais sobre a influência da Cantaria na cultura ouro-pretana e se tornam agentes difusores do ofício”, explica Pereira. Também na área da educação, a equipe fundou bibliotecas comunitárias e centros culturais para atender à população carente da cidade, incorporando a Cantaria em diversas formas de entretenimento. Outro ponto de destaque dos estudos desenvolvidos pelos pesquisadores da Ufop diz respeito à incorporação do trabalho em Canga – uma espécie de rocha com alta concentração de ferro e de difícil manejo. O uso da pedra deu início a uma nova linha de pesquisa. “Devido à composição da Canga, o trabalho gera resíduos de tom vermelho-intenso. Neste momento, desenvolvemos pesquisas no sentido de criar pisos que combinem esta rocha à pedra sabão ou ao quartzito”. Foto: Carlos Alberto Pereira

Desde a Pré-História, os canteiros, mestres da pedraria, desenvolvem a arcana habilidade de aperfeiçoar, manualmente, a rocha bruta. Em seu ofício, transmitido de geração a geração, transformam as pedras em elementos estruturais e requintados ornamentos, usados em construções e equipamentos, sendo as pirâmides egípcias alguns dos mais antigos e representativos exemplos da aplicação da arte. A edição n° 17 de Minas Faz Ciência, publicada há dez anos, apresentou reportagem sobre projeto desenvolvido pelo professor Carlos Alberto Pereira, do Departamento de Engenharia de Minas (Demin) da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Chamada de “Oficina de Cantaria”, a iniciativa, originada em meados do ano 2000, buscava, justamente, resgatar a trajetória dos canteiros. Apesar de presente entre as mais diversas variações da arquitetura ocidental, e largamente empregada em obras arquitetônicas do país – a partir da segunda metade do século XVI –, o ofício da Cantaria, intrinsecamente ligado à arquitetura do Brasil colonial e enraizado na cultura de cidades históricas, encontrava-se pouco reconhecido e em vias de extinção. Ciente disso, Carlos Alberto procurou “reviver” o trabalho dos canteiros, perpetuando-o por meio da formação e qualificação de novos oficiais do ramo. “A Cantaria não era discutida no Brasil antes de 2000. O trabalho desenvolvido por nossa equipe foi responsável por atribuir notoriedade e reconhecimento à arte”, conta Pereira. Além da oficina de formação de profissionais, o projeto se ramificou em outras tantas atividades, focadas na investigação e no resgate da expressividade histórica da Cantaria brasileira. “Criamos linhas paralelas de extensão relativas a educação cultural e patrimonial da população de Ouro Preto, o que permitiu às

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5 PERGUNTAS PARA...

Stephen Louis Macknik e Susana Martinez Conde Diretores dos Laboratórios de Neurociência Comportamental e de Neurofisiologia Visual no Instituto Neurológico Barrow, em Phoenix, Arizona, o casal de neurocientistas Stephen Macknik e Susana Martinez-Conde são os fundadores de um novo campo de investigação: a neurociência da mágica, ou neuromágica. Para isso, eles, inclusive, se tornaram mágicos e se juntaram às maiores organizações da categoria nos Estados Unidos e no Reino Unido – como o Magic Castle, o Círculo Mágico e a Sociedade de Mágicos Americanos. Também convenceram alguns dos melhores ilusionistas do mundo a revelar suas técnicas e as analisaram sob a luz das últimas descobertas da neurociência cognitiva. De acordo com os pesquisadores, que estiveram no Brasil para participar da II Semana Internacional de Neurociências da UFMG, o desenvolvimento desse campo de pesquisa pode permitir novas abordagens na busca por melhor compreensão dos mistérios do cérebro. Por Marcus Vinicius dos Santos

O que vocês propõem com a neuromágica? Levantamos a ideia de estudar a neurociência cognitiva da atenção e da consciência usando métodos de mágica de palco, um novo campo de pesquisa. A mágica consiste em poderoso e robusto conjunto de métodos para manipular a atenção e a consciência. Trata-se de métodos extremamente importantes na determinação das bases neurais da ciência cognitiva. E esse tipo de experiência no laboratório é muito sensível ao estado do observador. Se a pessoa sabe a hipótese, ou é capaz de adivinhar, os dados podem ser corrompidos e fica impossível analisá-los. Truques de mágica testam muitos dos mesmos processos cognitivos que pesquisamos, mas são incrivelmente robustos. Eles funcionam uma, duas, ou mais vezes, enquanto experiências cognitivas, em geral, funcionam apenas uma. Em shows de mágica, não importa que cada pessoa saiba que está sendo enganada. As pessoas continuam felizes, toda vez que assistem. Propomos, portanto, que os métodos mágicos possam ser aplicados no laboratório, combinados com a mais alta tecnologia de imagem do cérebro e outras técnicas neurocientíficas, para estudar o cérebro, em condições normais e patológicas. Ainda que sejamos capazes de trazer para o laboratório apenas a metade da habilidade do mágico para manipular a atenção e a consciência, seremos capazes de promover grandes avanços nas neurociências.

Quais são estes avanços? Os métodos usados pelos mágicos podem estimular insights sobre como tratar certas condições, como o transtorno de déficit de atenção ou o diagnóstico e a avaliação do regime de tratamento utilizado em casos de autismo. Também podemos usar esses métodos para tentar compreender como truques cognitivos semelhantes são trabalhados em estratégias de publicidade, negócios e relacionamentos interpessoais. Podemos entender como uma pessoa escolhe comprar um produto caro, apesar de já ter se decidido pelo contrário. Percebe-se, assim, como os profissionais de vendas podem, todos os dias, criar a “ilusão da escolha”.

física da luz – com o uso de fumaça e espelhos. Podem ser truques poderosos quando usados adequadamente por um mágico. Ilusões visuais e cognitivas ocorrem apenas no cérebro, e os mágicos também as usam. Em um show de mágica, quanto mais você tenta descobrir o método secreto subjacente a cada efeito, mais difícil fica: quanto mais a sua atenção é reforçada no centro do foco de atenção, mais ela é suprimida em todos os outros locais. Os exércitos de neurônios que suprimem a percepção dessas regiões são cúmplices do mágico. Não existem diferenças culturais conhecidas que conduzam a diferenças na percepção de truques de mágica.

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Como a ilusão ocorre? O cérebro humano não é um leitor perfeito da realidade. Ele não é capaz de reconstruir a realidade (tal qual ela é), e, frequentemente, usa atalhos para interpretar, de forma mais rápida e eficiente, o que nos acontece. Essas limitações do cérebro são o núcleo de muitas ilusões. O que os mágicos fazem? Eles exploram esses atalhos neurais para fazer o que parece impossível. Isso ocorre, por exemplo, quando o mágico chama a atenção do público para a mão esquerda, enquanto esconde a moeda com a direita. Será que a ilusão se origina na mente ou nos olhos? Somos enganados pelos olhos ou pelo cérebro? Ambos desempenham a sua parte. Ilusões de ótica são ilusões que ocorrem devido à

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Existem pessoas que não se deixam enganar por truques de ilusão ou de prestidigitação? Por que isso poderia ocorrer? Todo mundo é enganado por mágica, mas há pessoas que têm déficits de atenção. Existem, ainda, os autistas, que parecem ser menos enganados por truques que dependam demais de se manipular a atenção. Saiba mais no blog (www.sleight-

! sofmind.com) do livro Truques da

mente: o que a neurociência da mágica revela sobre nossas decepções diárias, publicado em 15 idiomas e em mais de cem países.

@

fapemig.wordpress.com


Zina Aita, nascida em Belo Horizonte, era filha de família italiana e, depois de estudos em Florença, conheceu, no Rio, Ronald e Manuel Bandeira –, que teriam sugerido seu nome para a Semana. Entre as obras que exibiu, talvez a única hoje conhecida seja Petrópolis (ou Trabalhadores), que Aracy Amaral, pela temática, considera possível tratar-se de A sombra, título mencionado no catálogo, ao lado de outros sete da artista. O trabalho, na opinião da pesquisadora, seria um dos ‘mais avançados’ da exposição – embora Zina Aita também produzisse naquele tempo aquarelas ‘passadistas’.

anos de influências

O título remete a uma publicação reputada de nossa literatura. É proposital a semelhança: 1922, a semana que não terminou faz referência direta ao livro de Zuenir Ventura, 1968, o ano que não terminou. Talvez, por se tratar de grandes artistas brasileiros, e pela influência da Semana de Arte Moderna de 22 no cenário cultural do país. Já são 90 anos desde então. O escritor e jornalista Marcos Augusto Gonçalves levou três anos pesquisando o assunto e apresenta, na obra, o resultado de entrevistas, fotos e reproduções da época. O livro se torna interessante tanto como “instrumento” acadêmico quanto como objeto para os amantes do tema. Embora o autor não acredite que a Semana de 22, propriamente dita, tenha mudado o cenário de arte brasileira, tudo o que fora feito antes dela também contribuiu para deixar um legado precioso, especialmente para o Modernismo – não apenas nacional. A Semana tornou-se uma espécie de mito da criação do Modernismo brasileiro, na qual jovens futuristas de São Paulo promovem uma revolução contra o atraso do país e mudam tudo. Ao contrário do que se pensa, Gonçalves reverte essa questão, sem que a importância da Semana de Arte seja abalada. Afinal, o Tropicalismo – que buscava uma identidade cultural própria, incorporando e valorizando elementos nacionais em sua predominância, sem abrir mão de valores estéticos estrangeiros – fora influenciado, anos depois, por este movimento. A primeira exposição modernista precedeu a Semana de Arte e foi realizada por Anita Malfatti, artista recém-chegada da Europa. Para o estado de São Paulo, Anita promoveu uma mostra com obras

que rompiam com os traços do realismo. Aos olhos daquela época, elas pareciam estranhas e provocaram reações até mesmo de outros artistas, como o escritor Monteiro Lobato, feroz em seus artigos. O efeito causado pelas críticas, contudo, foi contrário. Jovens talentos se interessaram pela “nova arte” e, dali, criaram um grupo para defendê-la. Entre os nomes mais relevantes estão os escritores Mário e Oswald de Andrade, os cartunistas Menotti del Picchia e Plínio Salgado, o compositor Heitor Villa-Lobos, o pintor Di Cavalcanti e o acadêmico Graça Aranha. No livro, é usada a expressão “modernismo de compromisso” para ressaltar essa característica tão brasileira, que estava presente no evento. Trata-se de compromissos de convívio entre o novo e o velho, o elemento transformador e o conservador, o futuro e a tradição. Com narrativa empolgante, o autor dá vida aos personagens e descreve as famosas jornadas que animaram o Teatro Municipal de São Paulo, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922. A descrição do evento aponta para algumas conclusões, como a de que tudo o que fora produzido antes da Semana de 22 era meramente acadêmico. Além disso, Gonçalves não se limita à esfera dos revolucionários artistas paulistanos. A obra remete à participação de cariocas e mineiros na invenção do Modernismo brasileiro. Esse episódio da história da arte do país é apenas um dos muitos que ficaram pouco conhecidos em meio àquela renovação. A Semana de 22 é um momento que, de tão rico, e pleno de polêmicas, não se esgotou até os dias de hoje.

Livro: 1922, a semana que não terminou Autor: Marcos Augusto Gonçalves Editora: Companhia das Letras Páginas: 376 Ano: 2012

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LEITURAS

Uma semana com 90


O P I N I ÃO

William Ferraz Não é necessário vasculhar muito para constatar que o assunto mais comentado da web, no ano que se passou, foi o suposto fim dos tempos na fatídica data de 21 de dezembro. O fenômeno tomou proporções globais, penetrou em diversas culturas e levou pessoas a gastar milhões em abrigos anticataclísmicos, suprimentos e coisas afins. O curioso de tudo isso é a dúvida em torno do que, afinal, deu tanta força à profecia do apocalipse em 2012, mesmo que outros diversos eventos similares, agendados para datas já passadas, tenham falhado gritantemente. Sigamos, pois, aos fatos. Em primeiro lugar, ficou claro, no atual episódio, o hercúleo esforço das mídias para noticiar informações capazes de endossar a teoria catastrófica, com participação de renomados veículos de divulgação científica. Numa segunda etapa, destaque para a incorporação, ao discurso, dos elementos de culturas ancestrais, da estrela azul, dos índios Hopi, ao planeta Nibiru, dos babilônios, do Ragnarok, dos nórdicos, às tradições egípcia e maia – com destaque para esta última civilização, que, de acordo

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com “sustentadores” do presságio, detinha conhecimentos avançados de astronomia, a ponto de prever o fim da humanidade com base no que diziam as estrelas. Tudo isso, porém, ainda não seria suficiente para fazer com que, em tantas culturas do mundo, o fenômeno tomasse as aterradoras proporções por nós presenciadas. Até por que, diga-se de passagem, nem todos os sítios arqueológicos do povo maia foram descobertos, de forma que algum calendário, com referências a períodos posteriores, pudesse vir a ser encontrado no futuro. Também é preciso considerar o fato de que os maias foram drasticamente reduzidos após a chegada dos colonizadores europeus, que impediram a civilização mesoamericana de prosseguir com seus estudos e destruíram muitos de seus registros, então considerados pagãos pela Igreja Católica. Acontece que os sábios nativos acreditavam que, em 21 de dezembro de 2012, retornaria ao mundo dos homens o Deus Bolon Yokte, entidade que, de acordo com o panteão maia, seria o responsável pela guerra e traria consigo

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uma onda de mudanças: a ordem social atingiria outro nível e o mundo, conforme conhecemos, deixaria de existir. Tais modificações seriam motivadas por ações geofísicas e antropológicas, como o aquecimento global, a intensificação do tectonismo e do vulcanismo e o acirramento dos conflitos no Oriente Médio – o que poderia levar as civilizações do planeta à guerra nuclear. Além disso, a exatidão com que os maias previram a máxima solar – com início próximo a 21 de dezembro de 2012, podendo interferir diretamente sobre as linhas de transmissão de energia e de telecomunicações da Terra – pareceu fazer sentido para muitos de nossos contemporâneos. O problema, na verdade, é que a correta previsão acabou por se revelar oportunidade e tanto para que a cultura ocidental deturpasse os conceitos maias e promovesse verdadeiros mercados cataclísmicos. Foram centenas de publicações vendidas sobre o assunto, diversos abrigos subterrâneos construídos e uma infinidade de produtos para sobrevivência no “dia depois de amanhã”.


Dias X Kins?

Nossa atual “folhinha” divide-se em dias, meses, anos, décadas, séculos e milênios. Já o sistema de tempo dos Maias se organiza segundo modelo de contagem vigesimal, bem distinto do calendário gregoriano: um dia é chamado de Kin e 20 Kines completam um Uinal – o equivalente ao nosso mês, mas com apenas 20 dias; por sua vez, 18 Uinales configuram um Tun. Vinte Tuns são responsáveis por um Katun e 20 Katuns formam um Baktun. De acordo com estudiosos, o encerramento do calendário, na data de 21 de dezembro de 2012, representaria algo semelhante ao fim de um milênio para nós, ou seja, nada além do encerramento de um período e início de outro.

Estamos salvos?

O senso comum nos leva a acreditar que, depois do fracasso de profecia com tamanha repercussão global, mitos do mesmo gênero não façam mais sucesso no imaginário popular. Certo? Bem, ao que parece, os profetas de plantão não se intimidaram. A cultura de datas apocalípticas está longe de ser extinta. Há quem já divulgue, por aí, nova data para que tudo vá para os ares: o fatídico ano de 2036. Aparentemente, a especulação da passagem do asteroide Apophis – um dos maiores que orbitam nosso sistema planetário –, pelas imediações da Terra, seria a razão para que um novo apocalipse volte a ser cultuado. MINAS FAZ CIÊNCIA • DEZ/FEV 2013

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Kunst und Wissenschaft (em tradução livre, “Arte e Ciência”) – Colagem digital e manipulação fotográfica de autoria de Hely Costa Jr., designer e diretor de arte do Programa de Comunicação Científica e Tecnológica da FAPEMIG, desenvolvidas a partir de gravuras do artista alemão Albrecht Dürer e de uma série de anônimos. A obra foi criada especialmente para a revista MINAS FAZ CIÊNCIA.

VARAL


Revista Minas Faz Ciência  
Revista Minas Faz Ciência  

Edição nº52 da Revista Minas Faz Ciência.

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