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FAZENDAS URBANAS

O FUTURO SUSTENTÁVEL RONDA A METRÓPOLE

HISTÓRIA EMOLDURADA A ARTE BRASILEIRA DO SÉCULO XIX

DO CÉU E SUAS ESFINGES


O caminho certo para empreender e inovar em Minas Gerais!

Acesse: www.simi.org.br/trilhamineiradainovacao


Redação - Av. José Cândido da Silveira, 1500, Bairro Horto - CEP 31.035-536 Belo Horizonte - MG - Brasil Telefone: +55 (31) 3280-2105 Fax: +55 (31) 3227-3864 E-mail: revista@fapemig.br

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GOVERNO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Governador: Fernando Pimentel SECRETARIA DE ESTADO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR Secretário: Miguel Corrêa Jr.

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais Presidente: Evaldo Ferreira Vilela Diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação: Paulo Sérgio Lacerda Beirão Diretor de Planejamento, Gestão e Finanças: Alexsander da Silva Rocha Conselho Curador Presidente: Virmondes Rodrigues Júnior Membros: Clélio Campolina Diniz, Esther Margarida Bastos, Eva Burger, Luiz Roberto Guimarães Guilherme, Marcone Jamilson Freitas Souza, Michele Abreu Arroyo, Nilda de Fátima Ferreira Soares, Ricardo Vinhas Corrêa da Silva, Roberto do Nascimento Rodrigues, Valentino Rizziioli Para receber gratuitamente a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, envie seus dados (nome, profissão, instituição/empresa, endereço completo, telefone, e e-mail) para o e-mail: revista@fapemig.br ou para o endereço: FAPEMIG / Revista MINAS FAZ CIÊNCIA Av. José Cândido da Silveira, 1500, Bairro Horto - Belo Horizonte/MG - Brasil - CEP 31.035-536

Não importa a época, não importa o lugar. O universo – e suas estrelas, planetas, buracos negros e possibilidades infinitas – desperta a curiosidade e instiga o ser humano a ir além. Para comprovar, basta dar uma olhada na seção “Ciência Aberta”, que perguntou aos leitores e visitantes de nossas redes sociais o que te intriga ao contemplar o céu. Além do número recorde de respostas (aquelas que não entraram aqui, por falta de espaço, serão publicadas no blog http://minasfazciencia.com.br), as contribuições são as mais variadas, indicando, ao mesmo tempo, o grande interesse pelo tema e as múltiplas questões ainda não inteiramente respondidas ou compreendidas. A reportagem especial desta edição é um mergulho na Astronomia, um dos campos mais antigos da ciência, dedicada ao estudo dos corpos celestes e dos fenômenos que se originam fora da atmosfera da Terra. O texto dos repórteres Luiza Lages, Roberta Nunes e Téo Scalione parte dessa curiosidade inata e aborda as investigações realizadas em solo brasileiro, citando os avanços proporcionados pelo acesso a equipamentos de observação cada vez mais potentes e pela participação em consórcios internacionais de pesquisa. Diferente de outras áreas, a Astronomia recebe contribuições regulares de amadores, pessoas que, apesar de não terem formação específica na área, realizam observações e descobertas. Estes grupos, cujo envolvimento vai desde a construção de equipamentos até a descoberta de corpos celestes, também são lembrados. A partir de seu trabalho, eles ajudam, também, a divulgar essa ciência e a despertar o interesse de crianças, jovens e adultos pelo tema. E por falar em divulgação, nosso entrevistado é o jornalista Reinaldo José Lopes, que acaba de ganhar o prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica na categoria “jornalista de C&T”. Com 15 anos de dedicação ao tema, o repórter da Folha de S. Paulo fala sobre sua carreira, as mudanças recentes na área do jornalismo, as possibilidades para a divulgação da ciência a partir, por exemplo, da internet, e os desafios para a criação de uma cultura científica no país. Outro destaque é um estudo realizado na Universidade Federal de Juiz de Fora que aborda a arte brasileira no século XIX. O trabalho debruça-se sobre algumas obras do acervo do Museu Mariano Procópio e propõe reflexão sobre traços, ícones, contextos de produção e simbologias. A reportagem discute, ainda, a pesquisa em arte – uma chance de chamar atenção para o fato de que a ciência abrange os mais variados campos, o que inclui, também, áreas como literatura, música e arte. Além de apresentar projetos de pesquisa realizados em diferentes instituições do Estado, esta edição traz reportagens sobre trabalhos e programas relacionados a empreendedorismo e inovação. Um deles é a primeira fazenda urbana comercial da América Latina, recém-inaugurada na cidade de Belo Horizonte. O projeto da startup Be Green passou pelas etapas da pesquisa, teste em escala reduzida, até seu lançamento. Agora, irá testar na capital a proposta da agricultura urbana, que já tem iniciativas de sucesso em outros países. Para empreendedores com ideias inovadoras como essa, uma dica é a plataforma Trilha Mineira de Inovação. O projeto reúne os atores do Estado de Minas Gerais que trabalham com o tema – entre eles, a própria FAPEMIG. No local, os interessados encontrarão informações e oportunidades, além de poder entrar em contato com parceiros diversos. A proposta tem como meta fortalecer o ecossistema de inovação mineiro. Boa leitura! Vanessa Fagundes Diretora de Redação PS: Gostou do conteúdo? Então, certamente, você irá apreciar os outros canais do projeto MINAS FAZ CIÊNCIA. Conheça nossos vídeos, podcasts e site para o público infantil no endereço http:// minasfazciencia.com.br

AO LEI TO R

EX P ED I EN T E

MINAS FAZ CIÊNCIA Diretora de redação: Vanessa Fagundes Editor-chefe: Maurício Guilherme Silva Jr. Redação: Álvaro Pétrus, Lorena Tárcia, Luana Cruz, Luiza Lages, Mariana Alencar, Maurício Guilherme Silva Jr., Roberta Nunes, Tatiana Pires Nepomuceno, Téo Scalioni, Vanessa Fagundes, Verônica Soares e Vivian Teixeira Direção de arte: Felipe Bueno Editoração: Fatine Oliveira Montagem e impressão: Rona Editora Tiragem: 25.000 exemplares Capa: Felipe Bueno


ÍNDICE

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Entrevista

Vencedor do prêmio José Reis, Reinaldo José Lopes comenta os desafios e responsabilidades do jornalismo científico

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Farmácia

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Terapia Assistida por Animais (TAA) auxilia recuperação clínica de enfermos

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Inovação

Patologia

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Ciência Política

Nanotecnologia

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Política científica

Estudo revela que substâncias presentes na maconha agem, de modo eficaz, no combate a uma série de doenças

Produção de células em laboratório pode pôr fim à necessidade de transplantes de medula óssea

Uso indiscriminado de nanomateriais pode resultar em sérios problemas para os homens e o meio ambiente

20

Arte

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Engenharia Elétrica

O crowdfundig (ou financiamento coletivo) torna-se alternativa de apoio a iniciativas de ciência e tecnologia

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Contemporâneas

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Especial

Ao abordar dilemas do universo, reportagem discute buscas, paixões e horizontes da Astronomia

Pesquisa analisa processo de estreitamento de relações entre Brasil e China

Hiperlink

Especialistas da Universidade Federal de Juiz de Fora investigam pinturas brasileiras do século XIX

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Empreendedores mineiros ampliarão parcerias por meio do programa Trilha Mineira de Inovação (TMI)

47

Na Unimontes, estudo busca evitar acidentes em sistemas dinâmicos, ao aprimorar método para detecção de falhas

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Medicina

Saiba quais foram as reportagens mais acessadas, em 2017, no blog Minas Faz Ciência

Pressões institucionais e excesso de atividades abalam saúde mental de alunos de pós-graduação

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Arquitetura

Startup Be Green investe em fazendas urbanas, que diminuem desperdício e melhoram qualidade dos alimentos


CIÊNCIA ABERTA

O que te

intriga ao

?

contemplar

o céu

“Como somos pequenos diante do universo”.

“Será que estamos sozinhos?”.

Jéssica Torres Via Facebook

Hellen Cristina Via Facebook

“Que o Sol que vejo em Betim seja o mesmo que aparece – a guardar as proporções de fuso-horário – em Berlim e Londres, por exemplo”.

“Pergunto sempre quantas estrelas mais poderíamos ver se não fosse pela ‘poluição luminosa’”. Mari Massa

Bruno Torquato Via Facebook

Via Facebook

Que ele esteja aí.

“O arco-íris sempre me intriga”.

José Eduardo de Lima Pereira

Leo Cunha Via Facebook

Via Facebook

“Que o céu daqui do Salgado Filho [bairro de Belo Horizonte] seja limpo demais, a ponto de vermos muitas estrelas, o que eu não esperava de uma cidade cujo índice de emissão per capita superou o de São Paulo, segundo o jornal O Tempo. Quando estou no interior, gosto de ver as nebulosas e imaginar que é ali que estão prestes a nascer as estrelas. Lembro-me de como é raro o momento da supernova, único lugar possível de criar o Ouro”.

“Me intriga a imensidão... O brilho que ofusca meus olhos, a possibilidade do futuro, e de outras vidas e mundos”.

Luiz Trigueiro Via Facebook

Lucas Soares Via Facebook

“Estamos sozinhos? Existe vida em outros lugares?”. Lorena Franco Milo Via Facebook

“A complexidade da palavra existência. Será que significa, neste sentido, cá de baixo, estar morto ou estar vivo?”. Lorena Scafutto Via Facebook

Iza Santana Via Facebook

“Como o céu consegue ser uma grande tela. O nascer do sol, a dança das nuvens, o pôr-do-sol que colore e serve de cenário para muitas pessoas. Além do mais, a certeza de que o outro dia chegará”.

“Como o homem pode se achar tão grande dentro desse universo tão vasto? Como podemos ver estrelas que já morreram? De certa forma, ver as estrelas, as nuvens, o raiar do sol, a chuva... aumenta minha fé e a certeza de que tudo é passageiro e relativo”. Tabatha Lucena Via Facebook

MINAS FAZ CIÊNCIA tem por finalidade divulgar a produção científica e tecnológica do Estado para a sociedade. A reprodução de seu conteúdo é permitida, desde que citada a fonte. MINAS FAZ CIÊNCIA • MAR/ABR/MAI 2017

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ENTREVISTA

Pela ciência, uni-vos! Recém-laureado com o prêmio José Reis, jornalista Reinaldo José Lopes analisa virtudes e percalços da divulgação científica brasileira Verônica Soares

Repórter da Folha de S.Paulo, Reinaldo José Lopes venceu, em 2017, o 37º prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica, na categoria “Jornalista em Ciência e Tecnologia”. Em 15 anos de dedicação ao tema, Lopes foi colaborador das principais revistas especializadas do País, a exemplo de Unesp Ciência, Pesquisa Fapesp, Superinteressante, Scientific American Brasil, Ciência Hoje e Aventuras na História. Formado em jornalismo pela Universidade São Paulo (USP) – instituição pela qual também se tornou mestre e doutor em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês –, desenvolveu estudos sobre a obra de J.R.R. Tolkien, autor da trilogia O Senhor dos Anéis. Escreveu, ainda, os livros Além de Darwin, Os 11 maiores mistérios do universo, Deus: como Ele nasceu e Luz,

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ciência e muita ação. Na entrevista abaixo, Reinaldo destaca passagens de sua carreira, comenta a formação e a prática do jornalismo científico no Brasil e defende a mobilização política de profissionais ligados à ciência, à tecnologia e à inovação. Em que momento nasceu a ideia de se tornar jornalista científico? Tudo nasceu da mistura entre planejamento e acaso. Quando eu era adolescente, o jornalismo não passava por minha cabeça. Sempre achei que seria biólogo, pois tive grande interesse por bichos e dinossauros. No vestibular, tentei, ao mesmo tempo, Biologia, Medicina e Jornalismo. Gostava de escrever e era leitor da Superinteressante. Então, se pudesse trabalhar lá, seria legal. Passei em Biologia na UFSCar [Universidade Federal de São Carlos]

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e em Jornalismo na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru. Tentei Medicina na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mas não rolou. Acabei por fazer Jornalismo na Escola de Comunicação e Artes da USP. Flertei com o jornalismo esportivo e cultural, mas sem empolgação. Não tive qualquer formação específica para o jornalismo científico, mas fiz vários cursos na área de História, e, por conta própria, lia autores como Richard Dawkins e Carl Sagan. Tempos depois, fui chamado a cobrir férias no caderno de “Ciências” da Folha. Lembro-me que o editor, Marcelo Leite, gostou de minha tradução correta, do inglês, para o termo “célula-tronco”. Na primeira semana de trabalho, aconteceu o atentado de 11 de setembro, e fui escalado a fazer um infográfico que explicasse por que as torres caíram, sob efeito do calor.


Arquivo pessoal

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“O problema é mais embaixo: falo da formação nos ensinos Fundamental e Médio. Costumo dizer que consegui me virar bem, escrevendo sobre ciência, mesmo sem ter feito graduação na área, pois eu era dos poucos caras que conseguia prestar atenção em Biologia e Química no Ensino Médio. Contudo, de modo geral, até quem tem boa formação sente dificuldade com essas disciplinas. Integrar melhor o conhecimento científico na base é o que fará a diferença. Isso, porém, é tarefa para muito mais tempo.”

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Depois, li um artigo científico sobre ocupação pré-histórica no Ártico, há 40 mil anos. Nessa loucura, descobri que queria mesmo fazer aquilo. Iria me dedicar ao jornalismo científico. Como sua imersão acadêmica contribuiu para a prática jornalística? Meu caso é peculiar, pois fiz mestrado e doutorado, basicamente, como hobby, devido à paixão pela obra de Tolkien. Creio que me ajudou na carreira o fato de eu desejar compreender as coisas em profundidade, o que, no jornalismo, não é muito usual. Há certa glorificação da superficialidade. Já vi gente dizendo que repórter precisa ser burro, para não ter escrita rebuscada e refinada, o que o impediria de explicar algo ao leitor. Penso ao contrário: a busca pela profundidade, na cobertura e nos temas, tem forte diálogo forte com meu lado acadêmico. Em seus livros e no blog Darwin e Deus (darwinedeus.blogfolha.uol.com.br), você abraça o desafio de falar de ciência e religião em um país como o Brasil, onde a religião, com frequência, suscita reações apaixonadas, contraditórias, e, claro, politizadas. De onde vem tal interesse e quais os desafios de correlacionar temas tão complexos? Existem várias motivações. A primeira é, de novo, a paixão. Sempre me interessei pelo tema religioso. E sou católico praticante. Mas não o faço apenas pelo aspecto devocional. Sempre quis tentar entender como as coisas surgiram e como funcionam. Trata-se de tema de investigação científica tão legítimo quanto qualquer outro. Não para defender ou derrubar a religião, mas para compreender e explicar o fenômeno às pessoas. Outro aspecto é o fato de tal nicho ser pouco ocupado no Brasil, e, ao mesmo tempo, de atrair muita atenção. Tento fazer com que isso seja meu diferencial. É importante discutir religião com base em evidências, de maneira educada e respeitosa, com referência a todos os lados. Não é preciso ser um fundamentalista maluco para aceitar a religião na vida.

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Qual sua avaliação do jornalismo científico praticado, atualmente, no Brasil? Do ponto de vista prático, ao pensar em emprego, o jornalismo, como um todo, está em crise. As pessoas não querem pagar por informação, o que está matando a mídia tradicional, que, por sua vez, faz o óbvio: dedica-se a cortar pessoal. Nesse cenário, o jornalismo científico é o primeiro a ser cortado. No momento, portanto, a situação é muito ruim. Estamos num abismo, e não há mais para onde cair. Com a situação econômica tão estreita, e sem dinheiro, corta-se na ciência. Por outro lado, acho que falta visão. Minha hipótese, difícil de testar, é a de que aqueles que mandam no jornalismo, de maneira geral, têm formação em ciências humanas (Jornalismo, Letras, Direito), e encaram tudo de maneira separada, como se a cultura humanística nada tivesse a ver com a científica. Há muito preconceito com relação a tal cultura. Certas pessoas com ótima formação jornalística são analfabetos científicos, e, se você não compreende o valor de algo, não dedicará espaço àquilo, mesmo sabendo que há demanda reprimida. Sempre senti isso: o público em geral quer saber sobre ciência. Pois ciência chama atenção. Mas essa demanda não é suprida. Nesse momento, uma infinidade de fontes falam sobre ciência, especialmente na internet. Você, aliás, também tem um canal no YouTube. Nesse sentido, quais seriam a função e o diferencial do trabalho de um jornalista de ciência? Algumas coisas são meio óbvias, pois têm a ver com o trabalho jornalístico como constituído historicamente. Uma delas é a tentativa de olhar a ciência criticamente. O cientista, e acho natural que assim o seja, é um entusiasta, pois tem paixão pelo negócio. Acho isso saudável, natural. Nós, jornalistas, porém, temos que mostrar as coisas com viés crítico, e lidar com temas como “conflito de interesses na ciência” e “financiamento”, além de promover debates éticos. Toda essa visão crítica está mais próxima do jornalismo. Mesmo no didatismo, a gente começa


como leigo e passa, lentamente, a compreender o tema, de modo que temos maior capacidade de enxergar e explicar as coisas, de maneira mais banal, às pessoas, se nos comparamos aos cientistas, que já têm tudo na cabeça, e pensam que tudo é muito óbvio, mas deixam buracos. Sua linguagem, afinal, tem pouca clareza e pouco didatismo. Acha necessário fortalecer a formação de estudantes, e de recém-formados, em jornalismo científico? Existem outros caminhos para ampliar tal tipo de conhecimento? Um passo óbvio é apelar à formação, mas a graduação está como está! E há certa lógica para que ela esteja assim. Ciência é um nicho de mercado, e, quando alguém monta a grade de um curso, acaba por dar preferência a outras áreas. Claro que isso não é motivo para deixar de fazer algo legal sobre ciência. O problema é mais embaixo: falo da formação nos ensinos Fundamental e Médio. Costumo dizer que consegui me virar bem, escrevendo sobre ciência, mesmo sem ter feito graduação na área, pois eu era dos poucos caras que conseguia prestar atenção em Biologia e Química no Ensino Médio. Contudo, de modo geral, até quem tem boa formação sente dificuldade com essas disciplinas. Integrar melhor o conhecimento científico na base é o que fará a diferença. Isso, porém, é tarefa para muito mais tempo. Na última edição do Fórum Mundial de Jornalistas de Ciência (WFSJ), uma importante discussão dizia respeito à possibilidade de o jornalismo funcionar como watchdog [cão de guarda] ou como cheerleader [animadora de torcida] da ciência. Qual sua opinião? Dá para trabalhar das duas formas? Sim, acho que o jornalismo precisa ser as duas coisas: a depender do tema, pende-se para cá ou para lá. É difícil ser muito mais do que cheerleader em uma reportagem sobre, por exemplo, filogenia dos dinossauros. A não ser que se descubra que alguém, naquela pesquisa publicada pela Nature, é traficante de fósseis. Por outro lado, se a pauta se refere a células-tronco embrionárias, a parcela watchdog deve estar muito mais regulada.

Vivemos a chamada era da pós-verdade, o que tem suscitado inúmeras reflexões sobre fatos/crenças, jornalismo/opinião. O que tudo isso significa, em termos de responsabilidade, para cientistas e jornalistas? Não dá para prescindir do engajamento político de jornalistas e cientistas, que deveriam se engajar muito mais. O incentivo, porém, é pequeno, e, por vezes, ocorre o contrário. Para trabalhar como cientista, é preciso resolver burocracias, dar aula, fazer extensão e, ainda, ser ativista político. O cara precisa ser um polvo, com muitos braços. Dito isso, acho que, realmente, falta esforço, principalmente, em relação a temas científicos sobre os quais há incontroversas claras, como no caso das mudanças climáticas. Podem sapatear, chorar, achar ruim, mas a culpa é mesmo nossa: está acontecendo, não há o que discutir. No que se refere às vacinas, a mesma coisa. No jornalismo, cansei da postura de imparcialidade e de isenção em relação a temas incontroversos. Quando faço uma reportagem sobre mudança climática, não ouvirei céticos. A não ser que parta uma ordem, não sei de onde, que ponha meu emprego em risco. Do contrário, não dá. E, quando o texto é opinativo, ao fazer minha coluna de opinião quinzenal, ou postar algo no blog, chuto o balde! Ponho evidências, é claro, mas não adianta se pautar só pela imparcialidade, pois aquilo acaba por se transformar na isenção da canalhice. Como enxerga a relação entre mídia e academia no Brasil e no mundo? Os jornalistas têm dificuldade de acesso aos pesquisadores? A diferença existe, mas a boa notícia é que ela diminuiu absurdamente. Quando comecei, em 2001, era muito mais complicado. As pessoas quase não usavam e-mail. Hoje, devido às redes sociais, aos papers com o contato dos pesquisadores e às universidades, que se mobilizam para pôr os contatos dos pesquisadores em suas páginas, o acesso às pessoas melhorou muito no Brasil. O que ainda não melhorou o suficiente, creio eu, é a capacidade de as universidades divulgarem

o que elas têm feito, em modelo próximo ao do EurekaAlert [https://www.eurekalert. org], ou por meio de assessorias de imprensa mais atuantes. As assessorias de universidades no Brasil ainda estão muito presas à agenda política interna. Por isso, perdemos muita coisa legal. Isso atrapalha. Em vídeo sobre a “Marcha pela ciência”, você diz que o direito ao conhecimento é – ao menos, em teoria – um preceito humano básico. Isso não tem acontecido, porém, devido a decisões políticas equivocadas. Além disso, o cientista gosta de se manter à margem do sistema político, para preservar a aura de neutralidade da ciência. Isso ainda se sustenta? Qual sua avaliação de ações como a “Marcha”? É difícil avaliar. A Marcha foi um primeiro passo importantíssimo, mas ainda muito tímido. A sensação é de que ela mobilizou muito mais gente das universidades. Se houvesse metade dos alunos dos cursos de graduação em ciência básica no Brasil, podíamos ter tido muito mais gente no evento. Tudo bem que foi feriado, mas acho que as pessoas ainda têm uma visão muito burocrática de seu próprio papel como alunos e pesquisadores. Há inércia pessoal e cultural muito forte. Não dá para deixar a chama da mobilização se apagar. Sei que é difícil, mas, se o pessoal não continuar a se mobilizar, por meio de um trabalho de formiguinha, nada vai para a frente. Precisamos, também, que mais cientistas ajam como intelectuais públicos. Falo de gente que seja, aqui, nosso Neil deGrasse Tyson, nosso Carl Sagan. Há embriões dessas figuras no País, como a Suzana Herculano-Houzel – antes de partir para os EUA –, o Steven Rehens, da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro]. Mas tudo é ainda muito tímido. É preciso arriscar-se mais, dar mais a cara a tapa. Quanto à neutralidade, acho que, talvez, não seja isso. Trata-se de algo inercial: o cara está soterrado de coisas para fazer e não vai pensar em mobilização, ou em ser uma pessoa pública da ciência.

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farmácia

O lado B da maconha Pesquisadores da UFMG estudam formas de a Canabis sativa contribuir com o tratamento de uma série de doenças

Roberta Nunes

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Em território brasileiro, a função terapêutica da Cannabis sativa, nome técnico dado à maconha, tem sido estudada, desde a década de 1970, em busca de compreensão para usos e efeitos terapêuticos de substâncias que a compõem. Em Minas Gerais, pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), investigam tais compostos e observam seus efeitos em modelos animais. O intuito é entender como esses processos ocorrem, além de explorar tanto as substâncias da maconha quanto aquelas que o cérebro produz, para desenvolver medicamentos capazes de tratar doenças como ansiedade, depressão, epilepsia. Nativa da Índia, a maconha provém de clima quente e úmido. No Brasil, os primeiros relatos da planta remontam ao século XVII, quando era usada para produzir a fibra de cânhamo. Como a Cannabis sativa é considerada droga ilícita por aqui, seu emprego no tratamento de doenças sofre muitos questionamentos. O preconceito ainda alimenta o debate, que contrapõe argumentos conservadores aos já comprovados benefícios do papel medicinal da planta. Segundo o Instituto Nacional de Saúde, a Canabis contém mais de 400 substâncias químicas, das quais 60 se classificam na categoria dos canabinoides. Vários deles não têm efeitos psicotrópicos – ao contrário do Tetraidrocanabiol (THC), principal substância responsável por causar alucinações, dependência e sensação de relaxamento.

Proteção natural

O próprio cérebro produz substâncias que podem auxiliar o combate a doenças como pânico, ansiedade e epilepsia. Dentre as centenas de tipos de neurotransmissores nele existentes, comprovou-se a produção de substâncias semelhantes aos canabinoides, denominadas “endocanabinoides”. Sua função é proteger o cérebro contra qualquer estímulo que faça mal, a exemplo de crises epilépticas, estresse e pânico. “Nossa proposta é identificar um mecanismo que faça o cérebro produzir o endocanabinoide em quantidade suficiente para inibir um ataque de pânico, por exemplo”, explica Daniele Aguiar, que coordena, na UFMG, junto a

Fabrício de Araújo Moreira, o Laboratório de Neuropsicofarmacologia. Os pesquisadores investigam onde, exatamente, o composto é encontrado no cérebro. E testam as reações da substância em animais. “No laboratório de pesquisa básica, para compreender esses efeitos, usam-se modelos animais. Na clínica, compara-se, então, com os cérebros humanos. Isso ajuda a entender a neurobiologia do transtorno. Ou seja, identificamos as regiões cerebrais envolvidas, assim como os possíveis alvos terapêuticos, para, assim, propormos novos medicamentos”, acrescenta Aguiar. De acordo com as pesquisas, a hipótese é a de que pessoas que enfrentam ataques de pânico produzem quantidade menor dessa substância. “Nos experimentos, quando o sistema endocanabinóide é reduzido, o animal fica mais sujeito a sofrer crise equivalente ao pânico que se manifesta em humanos. Contudo, a solução não está, apenas, em aumentar a produção do endocanabinoide específico, mas em fazer isso na medida certa”, aponta a pesquisadora. No caso de ansiedade e depressão, Daniele explica que, para observar comportamentos, usou o modelo “labirinto em cruz elevado”. “É o equivalente a pegar uma pessoa com medo de altura que não chegará perto de uma janela. Porém, ao usar drogas que podem inibir a ansiedade, como a proposta para o canabidiol (derivado da maconha), diminui-se a ansiedade e ela consegue chegar até lá, sem problemas”, explica.

Epilepsia

Cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo têm epilepsia, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Quase 80% dos casos registrados globalmente estão em países de baixa e média renda. Além disso, em 70% das pessoas, o transtorno responde aos remédios, apesar de três quartos dos que vivem nessas localidades não receberem tratamento adequado. Embora o uso do canabidiol, para tratamento da epilepsia, já seja liberado em países como Estados Unidos, ainda não se sabe como ele reduz as crises convulsivas. A equipe do Laboratório tem buscado

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tais respostas, ao investigar o emprego da substância em casos de epilepsia refratária. “Observamos que, sob efeito do canabidiol, o animal experimental fica protegido de estímulos que o façam ter crises”, acrescenta Fabrício. As discussões sobre a recorrência ao canabidiol também ocupam grupos de Facebook. Integrante do “Quebra do preconceito: epilepsia, familiares, amigos e pacientes”, Vera Alcântara comentou, em entrevista à revista MINAS FAZ CIÊNCIA, a dificuldade de acesso ao tratamento. “Não faço uso do canabidiol, mas sou a favor. Tenho epilepsia desde os 6 anos. Fiz uma lobectomia temporal direita, para correção do problema, e as crises reduziram, mas não acabaram. Não tinha qualidade de vida, pois chegava a ter 20 crises ao dia”, destaca, ao lembrar que não teve, nem mesmo, oportunidades de trabalho, como a maioria das pessoas. “Se tivéssemos acesso maior ao canabidiol, minha vida, certamente, seria diferente”, acredita. Para Maria Carolina Doretto, secretária executiva da Federação Brasileira de Epilepsia (Epibrasil), as pesquisas e os tratamentos estão avançando. O que não diminui é o preconceito. “Defendemos, veementemente, o uso compassivo, pois muitas pessoas irão se beneficiar. Quando não há nada mais a fazer, o canabidiol é a solução”, declara, ao comentar que, entre as opções de tratamento para a doença, estão a medicação, as cirurgias e as dietas cetogênicas. “No entanto, aproximadamente 20% dos indivíduos com epilepsia são refratários ao tratamento farmacológico com anticonvulsivantes”, esclarece. Devido às pressões de famílias, instituições de pesquisas e organizações, desde janeiro de 2015, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu retirar o canabidiol da lista de produtos proibidos no Brasil, identificando como “substância controlada”. Para os pesquisadores, isso facilitou bastante, mas ainda é grande a dificuldade de consegui-la com rapidez. “Apesar da tradição brasileira de pesquisa nessa área, o difícil acesso à substância ainda nos prejudica muito”, afirma Fabrício.

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Conquista na justiça

A família de Alexandre Meirelles e Maria de Fátima Pereira de Araújo é uma das três, no Rio de Janeiro, com autorização para plantar maconha com fins medicinais. O filho do casal, Gabriel de Araújo, recebeu diagnóstico de epilepsia aos sete anos, após passar dois meses em coma. Depois de tentarem diversos tipos de tratamento, medicamentos e intervenções, seus pais enfrentaram o preconceito e a burocracia para ter acesso ao canabidiol. “Tentei todos os medicamentos nacionais. Meu filho, inclusive, passou por cirurgia, e pôs um marcapasso no cérebro. Nada, porém, fazia efeito. Com o canabidiol, porém, as crises caíram pela metade. Ele ficou mais calmo e focado”, comenta Alexandre. Apesar dos benefícios, a importação do remédio ainda é complexa, demorada e custosa. Estima-se que dois frascos de 60 mililitros do canabidiol custam R$ 3 mil. Devido ao custo, o casal entrou na Justiça, com pedido para que o Governo fornecesse o remédio de forma gratuita, o que não aconteceu. Diante da situação, os pais entraram com novo processo, para pedir um habeas corpus preventivo, com o intuito de que a família pudesse plantar os pés de maconha, e, a partir deles, produzir o óleo do canabidiol. Em novembro de 2016, a decisão judicial foi-lhes favorável. Após conseguir a autorização, a Associação AbraCannabis contribuiu para ensinar algo sobre o cultivo e a escolha da melhor planta para o tratamento. “Pelo fato de o canabidiol ser específico, é preciso esperar a planta florescer. Isso demora de três a cinco meses. Nesse processo, a planta pode morrer, pois é delicada. Além disso, trata-se de erva medicinal. Portanto, não se pode acrescentar nada para alterar seu crescimento, a exemplo de agrotóxicos. Planejamento é fundamental”, explica Alexandre. Após passar pelos processos de conhecimento sobre a doença, descoberta de direitos e aprendizado sobre modos de cultivo, o pai de Gabriel luta, agora, para compartilhar tais informações, e, por isso, lançou o site epilepsiaonline.net, por meio do qual pretende ampliar o acesso das pessoas e desmistificar estigmas acerca da epilepsia.

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2017

Redução de danos

Cerca de 6 milhões de brasileiros provaram cocaína alguma vez na vida, e 2,8 milhões fizeram uso da droga no último ano, segundo pesquisa do Relatório Nacional de Álcool e Drogas, elaborado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). No ranking, o Brasil ocupa o segundo lugar, no mundo, entre nações que mais consomem a substância entorpecente e seus derivados, atrás, apenas, dos Estados Unidos. As pesquisas com o canabidiol também indicaram aplicações que podem contribuir com esse cenário. Conforme explica Fabrício Moreira, algumas das alterações que a cocaína provoca no cérebro são semelhantes àquelas observadas após uma crise epiléptica. Por isso, o grupo de pesquisadores testou a substância contra os efeitos da droga. O resultado surpreendeu, pois o estudo indica redução de 80% nos danos cerebrais provocados pelo uso da cocaína em ratos expostos ao canabidiol. Existem substâncias no organismo que, quando em excesso, matam células do cérebro, a exemplo do glutamato. As pesquisas indicam que o canabidiol reduz o efeito deletério dessas substâncias. Fabrício ressalta, ainda, que “há expectativa de que a substância possa reduzir impactos de crises de abstinência durante eventual tratamento. Os dependentes da droga costumam ter dificuldade em interromper o uso da cocaína, pois ela afeta a maneira como o cérebro processa e produz endocanabinoides”.

Particip a Pro jeto ção da FAPE :O s bino is M id trata e como tema end IG men a o lvo p cana tos trans a torno farmaco ra novo s ansie s psi lógic q d o Coo ade e pâ uiátricos s de rden nico de Arau a jo M dor: Fa o Instit brici reira o de dera uição: Univ l de Mina e Cha s G rsidad m Valo ada: De erais (U e Fema FM r: R$ 32.5 nda Univ G) 50,0 ersal 0


MEDICINA

Sangue criado em laboratório Pesquisa serve de pontapé inicial para o fim da necessidade de transplantes de medula óssea Mariana Alencar

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Ainda que seja de comum realização, e de grande necessidade para pacientes com diversas patologias sanguíneas, o transplante de medula óssea, por vezes, não consegue atingir os objetivos pretendidos pelo tratamento. O baixo número de doadores, as dificuldades de o paciente encontrar órgão compatível e o pequeno número de células-tronco hematopoiéticas obtido no procedimento são fatores que comprometem sua eficácia. A produção de células-tronco hematopoiéticas em laboratórios parece, portanto, um grande avanço clínico para a solução desses problemas. A boa notícia é que pesquisas iniciais, com o objetivo de cultivar tal tipo de células in vitro, já têm sido realizadas por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com pesquisadores de instituições dos Estados Unidos e do Japão. Os primeiros resultados da pesquisa foram recentemente publicados na revista norte-americana Nature Cell Biology, pelo professor Alexander Birbrair, do departamento de Patologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, em parceria com pesquisadores de outros países. Embora conhecidas, as células do sangue, até o momento, não podem ser obtidas com eficiência em laboratório, devido à fal-

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ta de conhecimento sobre as sinalizações químicas e as condições do microambiente onde elas são produzidas no organismo, a medula óssea. Os pesquisadores já sabem que, com a necessidade de manter uma reserva de células, o organismo conserva a regulação, no microambiente da medula, para garantir que o processo ocorra. Agora, eles estudam formas de mimetizar esse ambiente para o cultivo artificial, com todas as sinalizações químicas necessárias. Na primeira etapa de pesquisa, o estudo averiguou, detalhadamente, os aspectos e as características de microambientes ósseos, onde estão localizadas as células-tronco hematopoiéticas, as quais são responsáveis pela produção de todas as células sanguíneas. De acordo com Alexander, o estudo de tais microambientes é fundamental para a compreensão sobre como se dá a formação de células hematopoéticas e quais fatores levam esse tipo de células-tronco a criar carga reserva de células do sangue – para que, assim, tal tipo de células-tronco possa ser cultivado em laboratório, de forma eficiente. Ao tentar sintetizar as células, os pesquisadores encontraram um problema em relação à reserva gerada. “A grande questão é: precisamos, no organismo, de


certa reserva de células-troncos hematopoiéticas, para qualquer doença que possa aparecer. Se ela não existir, o corpo não funcionará bem. Estudamos a forma como a contenção de células hematopoiéticas é mantida na medula óssea, além de observarmos quais são os sinais e as células importantes”, explica. Entre os resultados obtidos, a partir da primeira etapa de investigação, está a descoberta da presença de um tipo especial de célula, os pericitos, que se encontram em locais específicos da estrutura óssea. Alexander explica que, a partir do estudo de microambiente, foi possível identificar várias categorias de vasos na medula óssea. Trata-se dos chamados sinusoides e das arteríolas. Ao redor desses vasos, encontram-se os pericitos, que podem promover a manutenção e o crescimento das células hematopoiéticas, a depender do local onde se encontram. “Todo tipo de célula se comunica com as outras, por meio de sinais”, explica o pesquisador. Durante as etapas do estu-

do, verificou-se, portanto, que os pericitos localizados nos vasos sinusoides emitem, como sinalização a outras células, a citocina Stem Cell Factor (SCF). Enquanto isso, aqueles alojados nas arteríolas comunicam-se a partir da citocina CXCL12. “Averiguamos todas as citocinas transmitidas de uma célula a outra e descobrimos que a CXCL12 era muito importante para a manutenção da célula hematopoiética na medula óssea. Entretanto, a citocina produzida nos pericitos sinusoidais não importava, ao contrário daqueles produzidas nas arteríolas”, detalha Alexander Birbrair.

Pontapé inicial

As células-tronco hematopoiéticas são responsáveis pela manutenção da produção dos diversos tipos de células sanguíneas, como hemácias, granulócitos, linfócitos, monócitos e megacariócitos. Derivadas das células-tronco, elas respondem pela produção, por segundo, de cerca 3 milhões de células do sangue. E se encarregam, também, do tratamento de

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mais de 80 tipos de doenças hematológicas, como leucemias, anemias malignas, linfomas e talassemia, dentre outras. Encontradas, principalmente, na medula óssea e no sangue do cordão umbilical, as células-tronco hematopoiéticas podem ser extraídas desses locais para, então, serem transplantadas aos pacientes. A extração desse tipo de célula-tronco deve ser feita após o nascimento de um bebê, o que limita o processo em indivíduos adultos. Já a retirada das células da medula ocorre por meio de punção. Eis o mais comum dos tratamentos para patologias do sangue. Entretanto, ainda que comum, o transplante de medula óssea apresenta dificuldades que podem comprometer a eficiência do processo, bem como do tratamento. Muitas vezes, o organismo do paciente rejeita o procedimento. Há, também, o problema relativo ao baixo número de células-troncos hematopoiéticas conseguido por meio do transplante. “Por fim, é difícil a compatibilidade genética entre os (escassos) doadores e os pacientes”, explica Alexander, ao lembrar que a alternativa seria a criação de um banco de células sanguíneas a partir da produção em laboratório. O pesquisador explica, ainda, que, ao se multiplicar, as células-tronco hematopoiéticas geram células já maduras, com pouco tempo de vida e formam apenas uma idêntica à original, que, por sua vez, mantém-se dormente ou adormecida. “Nosso organismo tenta manter a reserva de células, mas isso dependerá do microambiente. Na produção das células em laboratório, por exemplo, a reserva não acontece”, diz. O estudo de Alexander Birbrair e de sua equipe aparece, portanto, como um avanço no entendimento de microambientes, para que, futuramente, as células possam ser cultivadas in vitro. “Parece simples, mas o trabalho levou entre 4 e 5 anos. Nosso objetivo é aplicar os estudos em clínicas, e, consequentemente, chegar à população. Importante deixar claro, porém, que o processo demorará, mas há de gerar bons frutos”, conclui.

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Tal período é de, aproximadamente, 120 dias para hemácias, por exemplo.


NANOTECNOLOGIA

Pequeno mundo tóxico

Pesquisadores alertam para riscos das nanotoxinas na poluição do ar, dos solos e da água, com prejuízos à saúde humana

Verônica Soares da Costa

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A sábia natureza já produz nanocompósitos próprios, como ossos, conchas e madeira, a partir de moléculas de carboidratos, lipídeos e proteínas. Hoje, porém, há vários estudos que se debruçam sobre a produção de nanocompósitos, sendo que alguns se concentram na otimização da chamada biomimetização, ou seja, a imitação dos “artefatos” naturais, por meio da fabricação de tais elementos, que, dentre outras aplicações, hão de contribuir com o avanço da indústria e o desenvolvimento de produtos com propriedades melhoradas. “Os novos materiais podem ser substitutos diretos de embalagens plásticas, recobrimentos com propriedades ópticas, biomateriais para implantes, fibras de tecidos convencionais e diversos outros itens para as indústrias automotiva e aeroespacial”, detalha Marcelo Machado Viana, professor do departamento de Química da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Um dos campos de estudo da biomimetização envolve a preparação de nanocompósitos para elaboração de materiais avançados, com propriedades mecânicas, elétricas, térmicas e ópticas que nem sempre existem na natureza. No entanto, o aumento de produtos que usam nanotecnologia no mercado traz, também, a necessidade de estudos sobre os impactos por ela gerados. “Faz-se necessária uma regulamentação, no sentido de melhorar as estratégias para manipulação e descarte desses materiais, que podem ser tóxicos”, alerta o professor. Na natureza, uma nanotoxina pode resultar de queimadas em florestas, e, também, de erupções vulcânicas, que se caracterizam pela produção de partículas ultrafinas. Nanotoxinas também podem se originar como fruto de atividades antropogênicas, a exemplo da geração de poluentes orgânicos persistentes (POPs), como os pesticidas. Estudos sobre nanotoxicidade realizados em todo o mundo, porém, alertam para a disponibilidade, a distribuição, os mecanismos de ação e os caminhos traçados por nanomateriais nos organismos vivos e no meio ambiente. “Pesquisadores têm comparado o nanomaterial com um Cavalo de Troia: após a entrada desses

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A nanotecnologia permite a manipulação de materiais na bilionésima parte do metro. Essa característica possibilita combinações entre diferentes classes de materiais, como polímeros, cerâmicos e metálicos, para desenvolvimento de nanocompósitos – que, por sua vez, têm aplicações nas mais diversas áreas do conhecimento. elementos numa célula, o mecanismo de interação, ali, ainda é inexplorado e imprevisível”, exemplifica Marcelo. Segundo o pesquisador, verifica-se aumento no uso de materiais feitos à base de plásticos, que, ao serem degradados fotoquimicamente, microbiologicamente ou por ação mecânica, levam à produção, na natureza, de nanofragmentos plásticos com potencial poluente. “Imaginemos uma embalagem feita de um nanocompósito polimérico (plástico). Nela, nanopartículas foram adicionadas com o objetivo de reforçar a estrutura. A matriz desse nanocompósito imobiliza as nanopartículas, o que, em princípio, não nos traz preocupação quanto à liberação de toxinas. No entanto, após seu descarte, e à medida que o nanocompósito se degrada, seus fragmentos, cada vez menores, aumentam sua capacidade de interação com poluentes ambientais”, detalha.

Possíveis soluções Embora largamente difundido como escolha ecologicamente correta, o simples uso de embalagens biodegradáveis não é suficiente para frear os impactos dos nanocompósitos na natureza. “Essa é uma questão de reflexão para todos nós: materiais biodegradáveis solucionam a questão ou simplesmente aumentam a formação dos nanofragmentos, elevando, mais rapidamente, a quantidade deles no meio ambiente?”, questiona Marcelo Viana. Para Nelcy Della Santina Mohallem, que também é professora e pesquisadora do departamento de Química da UFMG, já


é bem conhecido o fato de que o descarte de cosméticos, materiais poliméricos e vários outros produtos na natureza pode provocar grandes danos aos ecossistemas. Segundo ela, o correto seria que todos os produtos fossem reciclados e retornados à empresa de origem, em processo conhecido como logística reversa de resíduos. “Alguns países, como Alemanha e Japão, já conseguem fazer a recuperação completa e de alta qualidade dos resíduos sólidos urbanos, de modo a zerar seu envio aos aterros sanitários”, destaca. Em países menos desenvolvidos, contudo, não existem, nem mesmo, aterros sanitários suficientes em todas as cidades, o que leva ao depósito inadequado de lixo em solos, com a contaminação de nascentes, rios e mares. Se, por um lado, grupos multidisciplinares brasileiros tentam regulamentar produtos como cosméticos, alimentos, vestuários e demais itens que contêm nanocompósitos, a fim de reduzir os prejuízos ambientais, Nelcy chama atenção para o fato de que tais artefatos, na verdade, podem apresentar mais perigo aos consumidores do que ao próprio meio ambiente. “Por outro lado, sabemos que as mineradoras, as indústrias de cimento e produtos similares geram muito mais nanopartículas na atmosfera do que empresas que trabalham diretamente com nanotecnologia”, pondera.

Cuidados com a saúde

Na UFMG, o grupo de pesquisa de Marcelo e Nelcy tem trabalhado com a preparação de nanocompósitos de matriz cerâmica ou polimérica, a partir de processos de preparação como o sol-gel, técnica química para síntese de materiais. Os usos são diversos e incluem fotodegradação de poluentes, materiais autolimpantes e anticorrosivos e dispositivos fotovoltaicos, que geram energia a partir da luz solar. Por se tratar de espaço de pesquisa, o Laboratório de Materiais Nanoestruturados (LMN) trabalha com quantidades pequenas, em escala nanométrica, e todos os cuidados com a manipulação e o des-

carte têm sido seguidos. O grupo pretende iniciar projetos sobre nanotoxicidade para compreender os potenciais riscos que os materiais produzidos podem causar à saúde e ao meio ambiente. Na produção de nanomateriais, empresas devem tomar cuidado com a saúde de seus funcionários, que não podem ter contato direto com os produtos. “Vários estudos toxicológicos indicam tal precaução, mas ainda não há dados suficientes para quantificar os efeitos do contato de nanomateriais com os seres vivos, principalmente, com os humanos”, observa Nelcy. Por esse motivo, materiais em escala nano não deveriam ser usados indiscriminadamente, já que ainda são necessários estudos sobre sua toxicidade. Já os produtos que podem acarretar maior perigo ao consumidor são aqueles que entram diretamente em contato com a pele, ou acabam ingeridos e inalados, como cosméticos, fármacos e produtos alimentícios. “Não existe fiscalização adequada sobre isso. Os cosméticos, por exemplo, são postos diretamente sobre a pele e podem penetrar na corrente sanguínea e se acumular em órgãos como rins, fígado e pulmão”, alerta a pesquisadora. Por fim, produtos com nanopartículas inorgânicas podem causar, em longo prazo, danos irreparáveis aos consumidores e em pessoas que trabalham, sem os devidos cuidados, em sua produção. O descarte de um nanocompósito não gera novo desafio, posto que sua matriz – geralmente, um material polimérico ou cerâmico – faz parte da cadeia produtiva industrial, e continua a compor o mesmo quadro de um problema enorme já existente. Por isso, é importante repensar hábitos de consumo, cobrar políticas públicas de reciclagem das autoridades, e, das empresas, programas de logística reversa.

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Estudos busc am compreender potenciais es téticos, históricos, so ciais e políticos da arte brasileira pro duzida no século XIX

Luana Cruz

Armando Martins Vianna Rio de Janeiro, RJ, 1897 - Rio de Janeiro, RJ, 1992 Limpando os metais, 1923 óleo sobre tela, 99,5 x 81 cm

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Procópio/Arquivo Fotos: Museu Mariano

“Dificilmente, passamos impunes diante de uma obra de arte. Entre amor e repulsa, ela nos provoca. Quanto mais a conhecermos, mais saberemos sobre os valores que a produziram e aqueles com os quais a vemos”. Eis uma das motivações da professora Maraliz de Castro Vieira Christo ao se lançar às pesquisas no campo da História da Arte. Ela coordena projeto que explora o acervo do Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira. O espaço conta com mais de 50 mil peças, algumas das quais passam pelo olhar apurado dos pesquisadores, que buscam o compreender seus processos de produção, circulação e recepção. (Perdidos entre molduras, os cientistas acabam por “se encontrar” nelas.) Em seu doutorado, Maraliz dedicou-se à investigação do quadro Tiradentes esquartejado (1893), de autoria de Pedro Américo, obra icônica da pintura histórica brasileira (veja box à página 23) – e pertencente ao Museu Mariano Procópio. O trabalho recebeu o Grande Prêmio Capes Florestan Fernandes, concedido à melhor tese defendida em 2005, no conjunto das grandes áreas de Ciências Humanas, Ciências Sociais Aplicadas e Linguística, Letras e Artes. A premiação, uma bolsa de pós-doutorado no exterior, permitiu a Maraliz iniciar estudos comparados sobre a pintura histórica na América Latina do século XIX. Devido à própria formação europeia dos artistas, geralmente, os estudos de arte se faziam ligados ao Velho Continente. Entretanto, como a pintura histórica na América Latina tinha uma questão em comum com o Brasil, era necessário conhecê-la de forma particularizada. Segundo a professora, havia necessidade de um olhar especial sobre a iconografia nacional. A trajetória do projeto se confunde com os caminhos da professora Maraliz, mas há grande força coletiva envolvida. Os trabalhos se inserem no grupo de pesquisa do Laboratório de História da Arte, ligado à Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e certificado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Em relação ao acervo do Museu Mariano Procópio, já foram produzidas

seis dissertações de mestrado, uma tese de doutorado e um estágio de pós-doutoramento. Atualmente, há duas novas pesquisas sobre o conjunto de obras, que, segundo a professora, desperta muito interesse em estudantes da UFJF. Coleções do Museu também acabaram classificadas e catalogadas em três publicações.

Pesquisar arte?

as a partir Publicações realizad nvolvidas no de pesquisas dese ria da Arte Laboratório de Histó

O trabalho pode até parecer abstrato e ligado à observação contemplativa. No entanto, pesquisar arte é buscar significações relevantes em cada elemento de uma obra. Trata-se da possibilidade de reconstruir contextos de produção, investigar autores, identificar traços e ícones, além de interpretar os anseios do artista ao retratar simbologias. Tudo isso faz parte dos achados de pesquisadores envolvidos com estudos de acervos como o do Museu Mariano Procópio. Segundo Maraliz, a pesquisa em História da Arte tem a especificidade de partir de ações ou objetos artísticos, inserindo-os em totalidades explicativas cada vez mais complexas, a depender das questões levantadas pelo historiador ou provocadas pela própria obra. O projeto em que a pesquisadora trabalha atualmente, por exemplo, visa ao mapeamento da produção de pintura histórica relativa ao Brasil. A ideia é compreender os mecanismos de inserção do gênero no País, assim como os diálogos que estabelece com a produção internacional. No trabalho, os pesquisadores constroem e mantêm um banco de dados que permite a rápida visualização das imagens e de referências técnicas (artista, período, obras com o mesmo tema, classificação dentro do acervo, entre outros). As informações armazenadas favorecem estudos comparados e preservam a memória da pintura de história no Brasil. Os dados levantados ajudam, ainda, a remeter obras e temas a circuitos cada vez mais amplos, inclusive internacionais. É possível saber por que determinadas peças foram abandonadas pela crítica e pela historiografia modernista,

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cujo maior desprezo recai, exatamente, sobre a pintura histórica. “Interessa-nos estabelecer profícuo diálogo com o objeto, além de buscar entender o seu processo de produção, circulação e recepção. Assim, nós o inserimos em determinado contexto social de origem e identificamos sua trajetória até o presente, suas transformações físicas e simbólicas, apropriações e capacidade de ainda nos instigar”, explica Maraliz. As obras de arte com as quais trabalham os pesquisadores da UFJF têm relevância internacional. Ao estudá-las e divulgá-las, acabam por valorizar um patrimônio público, apesar de ainda pouco conhecido e compreendido. Dessa forma, os estudos de História da Arte contribuem para a recuperação e a manutenção da memória social. A equipe do Laboratório também está envolvida em trabalhos internacionais. “Seguimos com duas pesquisas, referentes à pintura histórica e ao acervo do Museu Mariano Procópio, cientes de que a tarefa é infindável, para muitas gerações”, relata Maraliz. O grupo estuda as obras colecionadas e doadas pela viscondessa de Cavalcanti, com ênfase na relação dela com os artistas: seu bom relacionamento com a classe artística fica claro ao observar o leque pessoal de autógrafos que conservou (veja box à página 23). Os pesquisadores também se dedicam, atualmente, a trabalhos sobre pintura histórica, a partir do convite de uma das curadoras do Pennsylvania Academy of Fine Arts. Os especialistas da UFJF in-

tegrarão uma equipe que irá assessorá-los na organização da exposição “Creando Historia”/”Making History in the Americas”, programada para 2019. De acordo com Maraliz, serão feitos estudos de comparação entre a pintura histórica brasileira e a dos EUA.

Acervo

O Museu Mariano Procópio é um dos mais importantes do País. Eclético, seu acervo conta, hoje, com mais de 50 mil peças. Fundado pelo colecionador Alfredo Ferreira Lage, o espaço foi por ele doado ao município em 1936. Na pinacoteca, estão obras relevantes para estudos da História da Arte ocidental, pela qualidade dos trabalhos produzidos. Há, ainda, peças de artistas brasileiros, como Pedro Americo (1843-1905), Rodolpho Amoêdo (1857-1941), Henrique Bernardelli (1858-1936), Oscar Pereira de Silva e Belmiro de Almeida (18581935), além de estrangeiros, a exemplo de Charles François Daubigny (1817-1878), Jean Honoré Fragonard (1732-1806), Willem Relofs (1822-1897) e José Júlio Souza Pinto (1856-1939). O acervo é formado por obras predominantemente datadas da segunda metade do século XIX e do início do XX, valorizadas em seu momento de origem, mas esquecidas pela crítica modernista. Eram vistas como decadentes, por permanecerem presas aos ditos cânones acadêmicos. Nas últimas décadas, tanto no Brasil como no exterior, tal tipo de produção tem sido revista, a ponto de fomentar ricos debates sobre seu significado histórico. Maraliz Christo

Exposição de peças do Museu Mariano Procópio na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 2010

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Acervo da Fundação Museu Mariano Procópio, Juiz de Fora, MG

Herói em pedaços

A tela Tiradentes esquartejado, de Pedro Américo, produzida em 1893, representa, em grande formato, o corpo esquartejado do protomártir da República brasileira, executado em 1792 por crime de lesa-majestade, acusado de liderar um movimento pela Independência do Brasil. Não foi a pintura de uma tela isolada, mas a composição de uma narrativa sobre a Conjuração Mineira. O acontecimento é relatado na forma de tragédia, destacando a fragilidade do movimento. O trabalho de Pedro Américo denota o intenso diálogo com a História da Arte, assim como o processo de desconstrução dos heróis no conjunto da obra do artista, enfatizando a consonância com a pintura internacional do final do século XIX.

Museu Mariano Procópio/Arquivo

O mundo cabe num leque

Amélia Machado Coelho nasceu no Rio de Janeiro, a 7 de novembro de 1853. Em 1871, casou-se com o Conselheiro Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque, o Visconde de Cavalcanti, que foi senador, presidente das províncias do Ceará, do Piauí e de Pernambuco, e também ministro. A viscondessa reuniu itens variados para o museu particular que tinha na capital fluminenses. Após a Proclamação da República, mudou-se, com a família, a Paris e levou o acervo. Entre as décadas de 1920 e 1930, distribuiu as coleções entre instituições no Brasil, a exemplo do Museu Mariano Procópio, e do exterior. Era sobrinha e afilhada de Mariano Procópio, frequentava a chácara de veraneio da família, que se tornou o Museu, e viveu por dois anos em Juiz de Fora. A história da viscondessa foi relembrada em 2016, durante a passagem da tocha Olímpica na cidade mineira. O acervo da instituição ganhou destaque internacional, pois, entre os objetos doados pela viscondessa, há um leque com a assinatura do Barão Pierre de Coubertin, criador das Olimpíadas na era moderna.

Participação da FAPEMIG Projeto: A arte brasileira no século XIX Coordenadora: Maraliz de Castro Vieira Christo Instituição: Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Chamada: Programa Pesquisador Mineiro Valor: R$40.000,00

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astronomia

O céu que nos abraça Dos grandes temas de pesquisa à paixão dos curiosos amadores, Astronomia permanece à cata de respostas para mistérios universais

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Luiza Lages Roberta Nunes Téo Scalione


Antes de compreender o que é uma estrela, a criança aprende a reconhecer pequenos pontos luminosos no céu. Descobre, então, a Lua e o Sol. E passa a diferenciar as estações do ano e a perceber o transcorrer do tempo. Não há vida humana, afinal, sem o firmamento: lá está ele, quando se olha para cima. É o que vai além, o universo... e a Terra, que o integra. Trata-se, também, de expressão social e cultural, posto que parte de nossa concepção de mundo. Ou, em outras palavras: o céu e seu estudo não podem ser tomados como distantes da humanidade, já que, na verdade, as pessoas fazem parte de sua história, de sua estrutura, de seus mecanismos. A curiosidade e a necessidade de entender aquilo que, contraditoriamente, está tão perto e tão longe estimularam as primeiras medições astronômicas, tanto para previsões astrológicas quanto para estruturação de métodos científicos que conseguissem lidar com dados e teorias a respeito dos astros. A Astronomia é uma das ciências originárias do pensamento científico moderno. Em outros termos, é a área do saber responsável por observar o território celeste – e inferir suas propriedades –, para muito além da atmosfera terrestre.

“Acredito que, no fundo, o que a esmagadora maioria das pessoas busca com a Astronomia são respostas para perguntas transcendentais: quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Existe vida após a morte?”, resume Renato Las Casas, professor do departamento de Física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador do Grupo de Astronomia ligado à Universidade e do Observatório Astronômico Frei Rosário. O ato de olhar para o céu estrelado e a vontade de compreender o inexplicável sempre motivaram as investigações humanas. Na história das civilizações, povos diversos, e sem conexão entre si, observaram as estrelas e desenvolveram relações muito próprias com os astros. De Stonehenge, na Escócia, a Chaco Canyon, nos Estados Unidos, diversos monumentos ligados a tais necessidades de descoberta podem ser visitados em todo o mundo.

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Há, por exemplo, ruínas de antigos povoados que serviam como postos de observação do céu, ou como expressão da harmonia e do controle de um povo sobre o universo. As constelações são exemplos das diferentes interpretações e usos conferidos ao firmamento. “Agrupamos as estrelas de tal forma que tudo remonta à cultura, a partir do que é importante para nós. Quando Cabral chegou por aqui, os indígenas brasileiros tinham as próprias constelações, e viam o céu de forma completamente diferente”, conta Las Casas. Os antigos astrônomos usavam as constelações, que surgiam ou desapareciam no horizonte, para marcar eventos meteorológicos, períodos de enchentes, épocas para atividades de plantio e caça e rituais diversos. Uma das que mais se destacava no Hemisfério Sul é a de Escorpião, conhecida, segundo a etnia Desana, (grupo com origem no Alto Rio Negro, às margens do rio Tiquié, próximo à fronteira com a Bolívia), como “constelação da Jararaca”. Ela se relacionava aos períodos de cheias ou vazantes na Amazônia. Quando os desanas a viam em determinada posição no céu, sabiam que se iniciaria um período de muitas serpentes, e de poucos peixes e frutas. Além das constelações, diversas são as expressões sociais e culturais derivadas da relação humana com o Cosmos. Trata-se de elementos múltiplos, dos calendários e da marcação do tempo às religiões e aos questionamentos sobre a criação; da busca por vida fora da Terra ao folclore e à mitologia dos astros. “É comum vermos pessoas religiosas que acreditam na Astronomia como forma de encontrar Deus. Outras acreditam em seres extraterrestres, vindos à Terra. Para elas, os estudos astronômicos são uma forma de abreviar tal contato. Nossa cultura determina a forma como olhamos para o céu e nossas expectativas ao observá-lo”, completa Renato Las Casas. Ao apontar, pela primeira vez, o telescópio para o céu, o astrônomo e físico italiano Galileu Galilei deu início a uma série de observações, de modo a transformar, para sempre, a maneira de fazer Astronomia e de enxergar o Universo. Isso se deu graças à invenção do instru-

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mento óptico, em 1608, pelo holandês Hans Lippershey, fabricante de óculos. Sem a ferramenta, ainda estaríamos presos à Astronomia do século XVI. Segundo Las Casas, reconhecer que a Terra não é o centro do Universo foi um dos grandes passos da humanidade. Em um fólio (livro numerado por folhas) de seis páginas, Nicolau Copérnico, astrônomo e matemático polonês, revolucionou a Astronomia ao dizer que “nos movemos ao redor do Sol como qualquer outro planeta”. Afinal, segundo Las Casas, “faz muita diferença vivermos pensando que o Universo foi feito em nossa função, e que somos o centro, em relação ao que sabemos hoje: somos apenas um planeta entre incontáveis outros”. Tal mudança de paradigma só foi possível, e comprovada, quando começou-se a olhar o céu com o telescópio. “Não paramos aí. Hoje, estamos próximos a grandes descobertas sobre o universo. Em algumas décadas, descobrimos a existência da matéria escura, e, mais recentemente, passamos a teorizar sobre a energia escura. O progresso da humanidade está intimamente ligado ao ato de olhar para o céu”, conclui o professor.

Cenário brasileiro

Apenas 30 anos após a criação e a descoberta do telescópio, o Brasil teve seu primeiro observatório astronômico instalado, em 1639, no palácio Friburgo, no Recife, pelo astrônomo holandês Georg Markgraf. O espaço, no entanto, acabou destruído em 1643, durante a expulsão dos holandeses. Depois de quase um século, em 1730, os jesuítas instalaram outro na cidade do Rio de Janeiro, local onde, atualmente, funciona o Observatório Nacional. Apesar das ações pontuais, a Astronomia só começou a se consolidar, no País, nas décadas de 1960 e 1970, com a construção de telescópios e o investimento em formação na área. Na mesma época, iniciou-se a construção do Observatório do Pico dos Dias (OPD), no Sul de Minas Gerais, no qual foi inaugurado, em 1981, o maior telescópio em solo brasileiro, com 1,60 metros, operado pelo Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA). A partir dele, pela primeira vez, foi possível garantir, aos

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astrônomos nacionais, uma infraestrutura observacional óptica competitiva. Segundo Eder Martioli, um dos coordenadores do LNA, alguns dos passos importantes para consolidação da área no País foram a criação da pós-graduação na área e a orientação de novos doutores no Brasil; a criação do Observatório do Pico dos Dias, em Minas Gerais; a associação aos projetos Gemini, com dois telescópios de 8 metros; a integração ao consórcio Soar,

com equipamento de 4 metros; e, por fim, a criação de competências para construção de instrumentos astronômicos mundialmente competitivos. Desde então, há grandes temas no centro da pesquisa astronômica brasileira, que podem ser classificados em três grandes áreas, de acordo com o “Plano Nacional” do LNA, referentes às investigações teóricas e computacionais, às observações e ao desenvolvimento de novas tecnologias.

1. Busca pelos primeiros buracos negros, estrelas e galáxias

Pretende-se responder quando e como as primeiras galáxias se formaram a partir de nuvens frias de hidrogênio, e de que modo começaram a brilhar. Até agora, as observações e os cálculos sugerem que isso aconteceu quando o universo tinha cerca de meio bilhão de anos, mas, provavelmente, as novas gerações de telescópios terrestres e espaciais contribuirão com o fenômeno.

2. Vida fora da Terra e origem da existência

Após a descoberta de planetas ao redor de outras estrelas, a Astronomia engaja-se, seriamente, na tentativa de descobrir vida para além da Terra e do Sistema Solar, por meio da busca por planetas extrassolares, com densidade e atmosferas semelhantes ao nosso – e que possam ter condições para desenvolver e abrigar vida. A questão é compreender se existem outros planetas a girar em torno de estrelas que não o Sol.

3. Entendimento de princípios fundamentais da Física

O Universo pode ser visto como imenso laboratório físico, formado por condições irreproduzíveis em laboratórios terrestres. Isso abre perspectiva para que observações astronômicas possam desvendar conhecimentos para além dos limites do que, hoje, a ciência desvendou. Situações extremas, tais como intensos campos gravitacionais de buracos negros, permitem testar a validade das leis da Física conforme são conhecidas.

Patrulha do céu Há, também, aqueles que se dedicam às observações astronômicas movidos, tão somente, por prazer. Eis o caso de Cristóvão Jacques Lima Faria, engenheiro civil e físico. Seu envolvimento com a Astronomia começou aos 14 anos, quando comprou um telescópio e descobriu que aquela famosa estrela brilhante era, na verdade, o planeta Vênus. Desde então, frequentou o Centro de Estudos Astronômicos de Minas Gerais (Ceamig), considerado o primeiro clube de Astronomia amadora no Brasil. Aos 18, já era presidente da entidade. Apesar da paixão, o engenheiro trabalhou 25 anos em empresa de seu ramo profissional. Durante esse período, desenvolveu uma série de projetos. Um deles foi um programa de busca por supernovas, inédito no Brasil, e que possibilitou, até agora, a descoberta de 15 dessas estrelas. Após ser demitido, em 2013, usou o fundo de garantia para comprar os equipamentos que faltavam, e se juntou a João Ribeiro e Eduardo Pimentel para construção do Observatório do Sul para Pesquisa de Asteroides Perto da Terra (Sonear, segundo a sigla em inglês), localizado perto de Oliveira (MG), a 150 km de Belo Horizonte. Até o momento, foram cerca de R$ 200 mil investidos, por meio de iniciativa totalmente voluntária, mantida pelos próprios astrônomos. Em 2014, veio o reconhecimento. O Sonear passou a ocupar o 12º lugar na análise do Minor Planet Center (MPC), órgão da União Astronômica Internacional (IAU), com sede nos Estados Unidos. Eles elencaram os melhores observatórios do mundo, que atuam na busca por asteroides e cometas, e incluíram estabelecimentos profissionais e amadores. A função do Sonear é observar o céu em busca de objetos que possam passar perto da Terra, de tal maneira que seja possível

Supernovas são objetos celestes pontuais, com luz intensa e duração de apenas alguns meses.

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Fotos: Luiza Lages

Lentes produzidas pelo professor Bernardo Riedel

ter uma ideia do futuro dos asteroides detectados no Hemisfério Sul. Ou seja: se eles podem colidir com a Terra. A descoberta mais relevante aconteceu em agosto de 2016. Com 19 horas de antecedência da passagem do corpo celeste, os astrônomos amadores descobriram um pequeno asteroide, com, aproximadamente, 40 metros de diâmetro, que passaria a 83 mil km de distância da Terra. O incentivo para tal pesquisa veio veio de uma missão da Agência Espacial Norte-americana (Nasa), responsável por produzir um inventário com os maiores asteroides próximos ao planeta. Ao usar o telescópio espacial Wise, a Nasa conseguiu detectar e catalogar 90% deles. Ao final, perceberam que, ao contrário do que se imaginava, não existem 35 mil asteroides potencialmente perigosos para os seres da Terra, mas, “somente”, cerca de 19.500 – sendo que tais corpos podem destruir uma área metropolitana. Embora ainda não se tenha encontrado todos, calcula-se que o perigo seja menor do que o imaginado. Agora, os astrônomos amadores trabalham com objetos menores. O foco é encontrar asteroides acima de 140 metros de diâmetro, que podem causar sérios danos regionais. “Em termos de importância, vasculhamos áreas não investigadas, pois não existem observatórios no Hemisfério Sul. O desafio é continuar as pesquisas e procurar oportunidades para colaborar com um equipamento modesto”, afirma Cristovão. Além disso, o avanço da tecnologia contribuiu com uma rotina mais flexível para os pesquisadores, já que tudo é feito por meio de automação. Colabora-se, assim, para diminuir o abismo entre astrônomos profissionais e amadores.

Fabricante de telescópios

Em pequena fábrica no bairro Horto, em Belo Horizonte, Bernardo Riedel, professor aposentado

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da UFMG, mantém uma estrutura completa para produção de telescópios amadores, de forma quase artesanal. Ao lado de dois funcionários, ele domina e trabalha com processos de ótica, mecânica, fundição de alumínio, vácuo, pintura, e, mais recentemente, automação. Aos 76 anos, conta com orgulho sobre os mais de dois mil equipamentos que já fabricou. “O telescópio é um instrumento incomum, com a parte ótica complicada. O Brasil, e, especificamente, Minas Gerais, é muito pobre em indústrias óticas. Tenho, então, que ter imaginação para achar, no mercado, as condições que mantenham essa estrutura. Fabrico aparelhos, reaproveito peças e sucatas e sou frequentador de ferros velhos”, explica. Formado em Farmácia e Bioquímica pela UFMG, Bernardo Riedel também foi astrônomo do Observatório Astronômico Frei Rosário, antes de fundar, em 1978, a B. Riedel Ciência e Técnica, fabricante de telescópios, refletores, cúpulas e lentes. Sua história com a Astronomia, porém, começa muito antes. Apelidado, pela comunidade astronômica amadora, de “professor Pardal brasileiro”, construiu seu primeiro telescópio aos 13 anos, idade em que começou a olhar para o céu. Dono de coleção de 20 telescópios, e autodidata, Riedel aprendeu a dominar e a desenvolver técnicas originais para produção dos equipamentos. “Estudo telescópios para entender a ótica, e como eles foram fabricados. Pego um aparelho e tenho ideia de como foi construído”, conta. O professor aponta um dos equipamentos para as estrelas “sempre que a noite está bonita”. Afinal, “quando a pessoa observa o céu com um telescópio, pela primeira vez, ela muda por completo o olhar, e se empolga. Quando se vê mais perto de uma estrela, da Lua, de um planeta, passa a querer observar mais. Muita gente me procura para satisfazer essa curiosidade, e eu atendo com o maior prazer”, diz, ao destacar que seu público é diverso, formado, geralmente, por pessoas com interesse em ciência e tecnologia.


Não é possível!

Curiosidades sobre o céu e seus mistérios

Cometas

Pedras de gelo sujo, cometas são fruto de uma mistura de água e dióxido de carbono (o famoso “gelo seco”). Ao passar, diretamente, do estado sólido ao gasoso, à temperatura de -53ºC, o dióxido se transforma em gás, ao se aproximar do Sol. Em torno do cometa, forma-se, então, uma nuvem de gás e poeira, denominada “cabeleira” – que, por sua vez, é empurrada pelo vento solar. Origina-se, assim, aquela famosa cauda, que, ao contrário do que muitos imaginam, não se forma no sentido contrário ao deslocamento do cometa: ela está sempre no sentido oposto ao Sol.

Estrelas cadentes

O professor Renato Las Casas resume, de modo direto, o que grande parte das pessoas pensa sobre o tema: “Estrela cadente, na verdade, não é estrela”. Trata-se, sim, de meteoros, pequenas pedras que caem diariamente na Terra, e que, ao cruzar a atmosfera, incendeiam-se, em virtude da alta velocidade e do atrito com o ar atmosférico. O fenômeno provoca um rastro de luz no céu e destrói a maior parte dos meteoros, que não sobrevivem à queda. O material que chega a atingir o chão é chamado de “meteorito”. As pedras são, geralmente, fragmentos de asteroides, ou restos de cometas, que entram na atmosfera. “Ao passar o cometa, o material desprendido do núcleo continua naquela região, em órbita. Quando a Terra a cruza, acontece a chuva de estrelas cadentes”, explica Las Casas.

Buraco Negro

Objeto composto por grande quantidade de matéria comprimida, em região muito pequena do espaço, os buracos negros contam com campo gravitacional tão forte que nem a luz consegue escapar. Eles consomem a poeira e o gás de estrelas e da galáxia em torno deles, e crescem de tamanho. Telescópios espaciais, com instrumentos especiais, podem ajudar a encontrar os objetos, por meio da observação do comportamento do material e das estrelas próximas. Nathalia Fonseca, doutora em Física pela UFMG e assessora do núcleo de astronomia do Espaço do Conhecimento UFMG, observa que existem dois tipos mais comuns de buracos negros: o de massa estelar e o supermassivo. Os primeiros são produtos da evolução estelar, e, em geral, têm de dez a 24 vezes mais massa que o Sol, com matéria compactada do tamanho de uma cidade. Já os supermassivos contam com massa de milhões ou bilhões de vezes a do Sol.

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ENGENHARIA ELÉTRICA

Para evitar o pior Pesquisa desenvolvida na Unimontes busca prever falhas em sistemas dinâmicos e, assim, prevenir acidentes Mariana Alencar

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O que pode haver em comum entre um pêndulo, um veículo, um satélite, uma população de microrganismos, o preço de um produto, uma aeronave e um duto por onde escoa petróleo? Embora aparentemente distintos, tais elementos correspondem aos chamados sistemas dinâmicos. Nas Ciências Exatas, o conceito se refere a um conjunto de equações (lineares ou não) que envolvam o mesmo conjunto de variáveis, o qual, por sua vez, sofre evoluções ao longo do tempo. Em outros termos, trata-se de componentes interconectados que apresentam variações – totais ou parciais – com o passar dos anos. Agora, pense na queda do avião Airbus A330, da Air France, ocorrida no dia 1º de junho de 2009, no Oceano Atlântico, que custou a vida de 228 passageiros e tripulantes. Lembre-se, também, do acidente com a plataforma da Petrobras, a P36, que, em 2001, naufragou após três explosões consecutivas. Tais acontecimentos trágicos parecem não ter semelhança entre si, mas, nas duas situações, houve falhas nos sistemas, que, se detectadas previamente, evitariam as tragédias.


A busca por novas abordagens para detecção de falhas abruptas e incipientes em sistemas dinâmicos é o principal objetivo do professor Marcos D’Angelo, do departamento de Ciência da Computação da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). A identificação de falhas é uma subárea da Engenharia, que consiste em monitorar um sistema, localizar, nele, quando e onde uma falha ocorre, e evitar parada de produção, perda de material e de qualidade, além de impedir acidentes com seres humanos. A subárea corresponde à primeira etapa de um sistema Fault Detection and Isolation (FDI) – Detecção de falhas e isolamento, em tradução livre –, cujo principal objetivo é reconhecer o comportamento anormal dos componentes de um processo – ou do próprio processo –, por meio do monitoramento de suas variáveis. Importante compreender que existem três tipos de falhas: a “intermitente” ocorre quando há, por exemplo, queda de energia em uma residência, devido a um galho caído sobre a rede elétrica. Após algum tempo, a própria energia se restabelece, sem necessidade de intervenção. Existem, também, as “falhas abruptas”, resultantes de grandes desvios nas condições normais de operação do processo, ou em suas variáveis, que acontecem em curto espaço de tempo. “Por fim, há as ‘falhas incipientes’, que afetam, gradualmente, o funcionamento normal do processo, e, por isso, podem levar mais tempo para sua detecção. Como exemplo, cito um cabo que se rompe aos poucos”, explica o pesquisador. O grande problema relativo a tais pesquisas é que as linhas de trabalho, geralmente, lidam com falhas abruptas, mais simples de serem “capturadas” do que as incipientes – uma vez que apresentam lenta evolução no tempo. “Diante desse impasse, que ainda não conta com tratamento apropriado e sistemático, o estudo tem, como principal contribuição, a elaboração de abordagem que permite a detecção de falhas incipientes em sistema dinâmicos”, esclarece Marcos D’Angelo, ao lembrar que, diferentemente de outras linhas de pesquisa, “não há necessidade de adoção de modelo matemático, de cálculo de limiares e resíduos, de geração de

padrões e é baixa a taxa de alarmes falsos. O trabalho é longo e contínuo”. Segundo o professor, hoje, é crescente a demanda por segurança na detecção de falhas em sistemas dinâmicos representativos de processos reais – em aeronaves e oleodutos, por exemplo –, já que a identificação antecipada permitirá alto grau de confiabilidade ao funcionamento da estrutura. A partir dessa descoberta, é possível evitar, conforme já dito, paradas de produção, perdas de material e de qualidade, além de acidentes com pessoas, como no caso da queda do avião da Air France.

Métodos

Para a detecção de falhas incipientes, dividiu-se o percurso metodológico em duas etapas: a primeira baseou-se na chamada “teoria dos conjuntos fuzzy”; a segunda, numa “abordagem bayesiana”, para detecção de pontos de mudança em séries temporais. Tal identificação dará suporte às hipóteses de ocorrência de falhas. As metodologias foram escolhidas por se tratar de técnicas usadas na área de Inteligência Computacional, aplicadas ao tratamento de incertezas. Logo, têm, como vantagens, se comparadas a outros mecanismos, o fato de não requerer modelo matemático. Em linhas gerais, a teoria dos conjuntos fuzzy, a partir de seu desenvolvimento, é usada como ferramenta para formulação de modelos em diversos campos do saber. Introduzida nas Ciências Exatas, pela primeira vez, em 1965, pelo matemático Lotfi Asker Zadeh, a conceituação busca dar tratamento matemático a certos termos linguísticos subjetivos, como “aproximadamente” e “em torno de”, dentre outros. A teoria representa um primeiro passo na programação e no armazenamento de conceitos vagos em computadores, de maneira a permitir que a produção de cálculos com informações imprecisas, a exemplo do que faz o ser humano, seja facilmente realizada. No projeto da Unimontes, a teoria é aplicada ao sistema dinâmico, com o objetivo de aglomerar e transformar os dados iniciais, com distribuição arbitrária, em informações que podem ser aproximadas por distribuição de probabilidade contínua.

Em um segundo momento, há a investigação de como a modelagem Bayesiana – que descreve as incertezas sobre quantidades invisíveis de forma probabilística –, associada à teoria dos conjuntos fuzzy, pode ser usada na detecção de falhas. “A segunda etapa consiste em usar simulação de Monte Carlo, via cadeias de Markov [o algoritmo de MetropolisHastings, comum a esse tipo de modelagem], para detectar pontos de mudança na série temporal transformada, isto é, com características estatísticas fixas. No trabalho, falhas incipientes estão sendo caracterizadas por mudanças gradativas na série temporal”, explica Marcos. A formulação de duas etapas mostrou-se suficiente para resolver o problema de detecção de ponto de mudança (usada para identificar falhas incipientes). Segundo o professor, a metodologia foi aplicada, com sucesso, para o problema de detecção de falhas incipientes no “benchmark” – a execução de um programa de computador específico – de FDI em sistemas analisados. Ainda que o projeto tenha, a grosso modo, um percurso metodológico curto, Marcos D’Angelo explica que, há pelo menos 18 anos, realiza pesquisas na área de detecção de falhas. Os resultados das investigações são usados, de modo específico, na Engenharia Elétrica. “O estudo foi minha tese de doutorado, mas o projeto ainda está em andamento. Quanto à aplicação, apesar de o projeto estar livre de contexto, pois pode ser aplicado em qualquer lugar, temos, hoje, um dispositivo que detecta e localiza falhas em redes de distribuição de energia elétrica”, completa.

Participação da FAPEMIG Projeto: Novas abordagens para detecção de falhas abruptas e incipientes em sistemas dinâmicos Coordenador: Marcos Flávio Silveira Vasconcelos D’Angelo Instituição: Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) Chamada: Universal Valor: R$ 22.155,00

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TERAPIA ASSISTIDA

Melhores amigos, mesmo! Animais assumem novos papéis e ajudam crianças, idosos e enfermos em diversos processos de recuperação clínica

Tatiana Pires Nepomuceno

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A Equoterapia foi reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina do Brasil como método terapêutico em 1997.

“Animals have the answer”. Em tradução ao português: “Os animais têm a resposta”. Tal expressão foi pronunciada por Joshua Schiffman, pediatra e oncologista da Intermountain Primary Children’s Hospital and The Huntsman Cancer Institute, ligado à Universidade de Utah, nos Estados Unidos. A máxima do médico diz respeito ao fato de que, atualmente, cães, gatos, cavalos, e, até mesmo, pintinhos são usados como “agentes” na terapia e na reabilitação de adultos, crianças e idosos com uma série de enfermidades. Os bichos podem auxiliar, hoje, pessoas com câncer, síndrome de Down, autismo, Alzheimer, deficiência intelectual e saúde mental, dentre outros. Para quem ainda não ouviu falar dessa ajuda para lá de carinhosa, trata-se da Terapia Assistida por Animais (TAA). Muito difundida e estudada no exterior, a modalidade tem, por propósito, a introdução de animais junto a indivíduos – ou a grupos –, com finalidades terapêuticas. Importante ressaltar, aliás, que as formas de atuação transcendem a Equoterapia, modalidade mais conhecida pelas pessoas. Atenção, porém! Não é qualquer animal que pode assumir o papel de coterapeuta. “A escolha do cão deve seguir critérios relativos à avaliação da saúde, ao temperamento e à socialização”, pontua Glícia Ribeiro, fonoaudióloga. Estudos recentes, conduzidos pela American Humanist Association (AHA), em parceria com a Fundação Pfizer e com cinco hospitais oncológicos situados nos EUA, sob coordenação de Amy McCullough, indicaram uma série de benefícios fisiológicos e psicológicos, tanto para pacientes quanto para seus familiares. A pesquisa analisou o comportamento de 68 crianças diagnosticadas com câncer — entre as quais, 39 faziam TAA.

Resultados preliminares apontaram que o contato com o cão ajudou a diminuir os níveis de ansiedade dos parentes. Além disso, o índice de cortisol também se manteve baixo em alguns pacientes. Observou-se, ainda, que a média de interação entre o animal e a criança correspondeu a 3,6, em escala de 1 a 5, o que, em taxas percentuais, significa variação de 70%. O estudo prevê a medição dos níveis de cortisol, e, portanto, a diminuição do estresse dos pequenos pacientes. Prevê-se que o resultado da investigação saia em setembro de 2017.

Múltiplos fins

Em Minas Gerais, diversas pesquisas com TAA já são realizadas. A Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em parceria com a Prefeitura Municipal, usou pintinhos para auxiliar crianças com problemas de sociabilidade, atendidas pelo Centro de Atenção Psicossocial (CAPsi) da cidade. Os resultados mostraram que 75% dos garotos e garotas que interagiram com os animais apresentaram comportamento afetivo e melhoria no convívio familiar. No que se refere a crianças autistas, a Universidade Federal de Lavras (Ufla) desenvolveu pesquisa, em 2012, intitulada “Práticas Psicológicas Direcionadas a crianças portadoras de transtornos do desenvolvimento”. Trata-se de iniciativa interinstitucional entre o departamento de Medicina Veterinária da Ufla e o Serviço de Psicologia do Centro Universitário de Lavras (Unilavras), coordenada pelo professor Carlos Artur. Segundo o pesquisador, os métodos de terapia, normalmente, estão associados a práticas de Comunicação Alternativa e Ampliada (CAA), que visam estabelecer, complementar ou substituir a linguagem oral comprometida, ou ausente, no indivíduo. Entretanto, por sua diversidade e pela aplicabilidade – a depender do grau de transtorno –, a CAA pode não resultar em efeitos práticos quanto ao complexo mecanismo de interação do indivíduo autista. “Com crianças e adolescentes autistas, portanto, a TAA deveria ser prática incentivada. O animal revela-se um verdadeiro catalisador da reação autista-sociedade. É

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sabida a evolução dos pacientes quando se envolvem com cães terapeutas. O mesmo ocorre com pessoas com Síndrome de Down”, esclarece. Em São Paulo, a técnica apresenta maior difusão. Recentemente, a Fundação Pio XII (SP), em parceria com o Hospital do Câncer de Barretos, estudou, ao longo de 24 meses, crianças entre 6 e 12 anos, com diagnóstico de tumor sólido, em tratamento ambulatorial. Os resultados apontaram dados significativos: “Conseguimos diminuição do estresse e concluímos que a TAA tem impacto positivo nos parâmetros psicológicos e na dor, na perspectiva dos pacientes ou de seus cuidadores”, comenta a fisioterapeuta Nathiana Belgamo. O estudo foi aprimorado e também apresentará seus resultados estatísticos no segundo semestre de 2017, além do protocolo de critérios e cuidados para realização de TAA no contexto oncológico. Ainda em solo paulista, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), em parceria com o Hospital Infantil Sabará, usou a Terapia, com auxílio dos cães Bruce e Sheep. O resultado dessa dobradinha surpreendeu os estudiosos: diminuição da sensação de dor, aumento da motivação, melhoria na comunicação com a equipe médica e com familiares. “Os dados estatísticos também se mostraram significativos”, afirma a psicóloga Tatiane Ichitani.

são, 58% dos indivíduos mostraram-se indiferentes à presença dos bichos. Na última, 81% revelaram-se motivados e dispostos a interagir entre si, com os animais e com a equipe. Paulo Oliveira relata que a atividade mais estimulante era a de jogar bolinha para que os cães a trouxessem de volta. “Alguns acariciavam os animais, outros ‘conversavam’ com eles. Com o desenrolar do estudo, algumas histórias se destacaram”, conta, ao lembrar que certo caso chamou a atenção da equipe: a paciente número 10, que, geralmente, não verbalizava no cotidiano, fez, de forma surpreendente, elogios às cadelas: “Durante uma sessão, um dos animais se assustou com um funcionário e latiu. Ficamos apreensivos, para não assustar os pacientes, e a paciente número 10, que estava perto, ficou muito emocionada, ao alegar que a cadela estava se comunicando com ela. Todos nos emocionamos”. O estudo observou, ainda, condutas de uso da TAA para desviar o foco da dor. “A paciente número 11, portadora de dor na coluna e com dificuldades de se movimentar, abaixava-se e se levantava, durante a Terapia, para pegar e jogar a bolinha para os animais. Ao fazer isso, ela não reclamou de dor alguma, durante ou depois”, descreve o pesquisador. Outra questão diz respeito ao uso da técnica para casos de perda da memória. De acordo com Paulo Oliveira, a equipe sempre levava dois cães às sessões, mas, na terceira, um dos cachorros não pôde comparecer. Resultado? Vários pacientes perguntaram pelo animal ausente. Caso semelhante foi observado em estudo conduzido em São Paulo, pela fonoaudióloga Glícia Ribeiro. A pesquisadora conta que uma paciente, diagnosticada com Alzheimer, apresentava memória recente bastante afetada, segundo avaliação fonoaudióloga inicial. “Após 6 meses, ela apresentou melhora na expansão de turnos de conversação, embora precisasse de ajuda da terapeuta para narrar, assim como coesão e coerência de enunciados”, relata.

Emoção inusitada

De volta ao território mineiro, o pesquisador Paulo Roberto Oliveira realizou estudo com envolvimento da UFU e de duas instituições de longa permanência para idosos, em Uberlândia, por meio do qual buscou-se avaliar parâmetros de uso da TAA na qualidade de vida dos internos. O projeto foi avaliado pelo conselho de ética da universidade, que solicitou a omissão dos nomes dos pacientes e das entidades participantes. Na pesquisa, realizaram-se oito sessões, em 60 dias, com visitas semanais de 60 minutos. A idade dos internos variou entre 64 e 107 anos. No total, 24 pacientes participaram da inciativa. Neles, observou-se aumento no que tange à motivação e ao interesse pelos animais. Na primeira ses-

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Evento discutirá TAA Em outubro de 2017, será realizado o “IV Simpósio Internacional de Atividade, Terapia e Educação Assistida por Animais”, no Rio de Janeiro. Na oportunidade, especialistas apresentarão e debaterão as mais recentes pesquisas e evidências científicas sobre o tema.


INOVAÇÃO

Ecossistema fortalecido Trilha Mineira de Inovação busca ampliar relação entre atores responsáveis por iniciativas empreendedoras no Estado Téo Scalioni

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Em definição pura e simples, o termo “ecossistema” se refere ao ambiente capaz de concentrar conjuntos de características físicas, químicas e biológicas – os quais, por sua vez, influenciam o modo de existência de espécies vegetais ou animais. Trata-se do locus (local) onde vivem os seres, constituído por uma unidade natural, composta de parte “não viva” (água, gases atmosféricos, sais minerais e radiação solar) e “viva” (plantas e bichos). Nos últimos anos, o vocábulo assumiu novas função, ao ser diretamente relacionado ao surgimento dos chamados “ecossistemas de inovação”. A referência diz respeito às regiões, ou polos, que se destacam não apenas pelo desenvolvimento tecnológico, mas, principalmente, pela capacidade empreendedora e de desenvolvimento de atores envolvidos em pesquisa e inovação, o que inclui governo, iniciativa privada, instituições de fomento, universidades e comunidade em geral. Minas Gerais tem se destacado como ecossistema inovador. Afinal, são várias as atividades empreendedoras realizadas, em áreas distintas e por inúmeras instituições. Muitas ações, no entanto, permanecem isoladas, sem interação interna ou externa. Para solucionar o problema, o próprio ecossistema de inovação do Estado elaborou iniciativa cujo objetivo será dar suporte consistente a projetos inovadores. Trata-se da Trilha Mineira de Inovação (TMI), plataforma na web que permitirá a identificação dos múltiplos atores de inovação – da pesquisa básica aos estudos aplicados ou de tecnologia; da ideia, ou protótipo de negócio, ao projeto em produção e às oportunidades de mercado. Por meio da TMI, os usuários poderão encontrar a solução mais adequada à sua demanda, em momento específico, conectando-o às ações dos diversos parceiros – as quais permitem continuidade e efetividade dos programas de apoio à inovação oferecidos no Estado. Em suma, a Trilha auxilia a identificação dos atores de inovação em suas respectivas áreas, de modo a facilitar a conexão entre empreendedores, pesquisadores, empresas, instituições e governo. Além disso, funciona como uma espécie

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de bússola, que guiará os processos inovadores por caminhos cada vez melhores e mais eficientes. De acordo com o secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Miguel Corrêa, a TMI se somará ao já dinâmico ecossistema mineiro. Trata-se, segundo ele, de mais uma iniciativa inovadora a reunir governo e instituições voltadas ao desenvolvimento do Estado. “Acreditamos no ecossistema mineiro e transformamos em políticas públicas, e em programas de fomento, nossa aposta no empreendedorismo, na tecnologia e na inovação”, observa. Presidente da FAPEMIG, Evaldo Vilela participou ativamente da concepção do projeto. Para ele, a ideia refere-se ao desenvolvimento de espaço destinado a pessoas interessadas em inovar – ou que já o fazem –, mas têm dúvidas sobre como agir ou a quem recorrer. “Falo de situação como as seguintes: ‘Tenho uma ideia e quero transformá-la em negócio: quem pode me ajudar?’; ou: ‘Já tenho uma empresa, mas preciso de investidores: o que fazer?’. Enfim, a proposta da TMI é conectar elos”, ressalta. Segundo a metáfora do professor, caso se imagine o processo de inovação como uma corrente, há de se pensar em etapas, ou, conforme ressaltou, em elos. “Eles vão da ideia à formação da empresa, até a inserção no mercado. Às vezes, quando estamos inseridos nessa cadeia, não temos a visão do todo. A TMI oferece tal ajuda. Experiências semelhantes, em paíDentre as entidades que fazem parte da Trilha, estão a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Sedectes), o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), a FAPEMIG, o Sistema Fiemg, o Sebrae, a Rede Mineira de Inovação (RMI), a Rede Mineira de Propriedade Intelectual (RMPI), a Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig) e a Agência de Promoção de Investimento e Comércio Exterior de Minas Gerais (Indi).

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ses desenvolvidos, deram certo. Por isso, apostamos no sucesso do projeto por aqui, pois acreditamos que beneficiará o ecossistema de inovação no Estado”, conclui.

Inovação no ar

Além de serem inovadoras, o que têm em comum empresas como Intel, Microsoft, HP, eBay, Yahoo, Apple, Facebook, Electronic Arts e Google? Todas nasceram no mesmo local: o Vale do Silício, nos Estados Unidos. A região, localizada no estado da Califórnia, próximo a São Francisco, conta com grande variedade de companhias de base tecnológica, com forte vocação empreendedora, e de centros de P&D. Além disso, são muitas as universidades em localidades próximas, que intercambiam talentos e conhecimento com as empresas, de maneira a formar o maior ecossistema de inovação do mundo. Trata-se, afinal, de um conjunto de pessoas, empresas e organizações que se relacionam em busca de coevolução, a partir do desenvolvimento de projetos inovadores. Apesar de o Vale do Silício ser o exemplo mais emblemático e reconhecidamente exitoso no planeta, ele não se revela o único. Experiências em ecossistemas de inovação têm ocorrido em todo o mundo, de modo a se tornar mais

comuns, tanto de forma natural quanto por meio de criação estimulada. São inúmeros os ambientes inovadores espalhados pela Ásia (principalmente, em países como China, Índia, Japão, Coreia do Sul e Singapura), pela Europa (Inglaterra, Alemanha e Suíça) e América do Sul (Brasil, Chile, Uruguai e Argentina). Por aqui, para além de Minas Gerais, certos ecossistemas têm se destacado no cenário inovador: a cidade de São Paulo, pela própria grandeza econômica, tornou-se polo empreendedor, com startups apoiadas, principalmente, por empresas consolidadas. Destaque-se, nesse sentido, o Cubo, espaço de cinco mil metros quadrados destinado a atividades inovadoras e ao fomento de projetos de empreendedorismo. Tal iniciativa conta com incentivo do grupo Itaú Unibanco. Há, ainda, o Campus São Paulo, idealizado pela Google e voltado a projetos inovadores e a novos empreendedores. No Sul do País, um forte polo está situado em Florianópolis (SC), onde ficam os parques tecnológicos Alfa e Sapiens. No Nordeste, há o Porto Digital, no Recife, que, hoje, abriga 267 empresas, duas incubadoras, duas aceleradoras de negócios e dois institutos de pesquisa. De volta a Minas Gerais, o ecossistema inovador diz respeito a fatores que vão da quantidade de universidades bem-conceituadas ao crescimento do espírito empreendedor. Em Belo Horizonte, fica o San Pedro Valley, comunidade com mais de 200 startups, que visa fortalecer a ca-

deia inovadora da cidade. O nome faz alusão, é claro, ao Vale do Silício. No entanto, as várias empresas de tecnologia e os profissionais estão alocados no chamado bairro São Pedro, na zona Sul da capital mineira. Além de startups, o local conta com aceleradoras, investidores e espaços de coworking. No interior de Minas Gerais, também existem ecossistemas consolidados, a exemplo da notória Santa Rita do Sapucaí. Localizada no Sul do Estado, a cidade é conhecida como “Vale da Eletrônica”, devido à enorme quantidade de empresas ali situadas. Com população pouco superior a 40 mil habitantes, o município conta com três instituições de ensino e 153 grupos tecnológicos. Há, por fim, outros dois ecossistemas no interior do Estado, que têm se destacado por múltiplas iniciativas de inovação: Montes Claros, no Norte, e Uberlândia, no Triângulo. A partir de agora, com a TMI, a tendência é que esses polos se conectem ainda mais, de maneira a proporcionar maior integração e desenvolvimento ao Estado.

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ARQUITETURA

Tem lavoura no shopping center Primeira fazenda urbana comercial da América Latina pretende diminuir desperdício de alimentos e evitar uso de agrotóxicos Mariana Alencar

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No início dos anos 1960, a escritora, urbanista e ativista política canadense Jane Jacobs criticou os formatos urbanísticos defendidos por teóricos renomados, como Le Corbusier e Ebenezer Howard, e propôs novo modelo de cidade, baseado na diversidade. Em Morte e vida das grandes cidades (1961), Jacobs defende a pluralidade como antídoto a grande parte dos males urbanos relativos ao uso monofuncional. Nas décadas posteriores, em decorrência da ascensão dos movimentos em defesa do meio ambiente, a obra da canadense seria usada para explicar a necessidade de melhor manejo do espaço nas metrópoles, com vistas, justamente, à sustentabilidade. A chamada agricultura urbana (ou periurbana) aparece, então, como possibilidade de uso do território urbano, alternativa ao agronegócio e tentativa de potencialização do abastecimento alimentício nas grandes cidades. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), tal modalidade agrícola corresponde ao cultivo de espécies vegetais – o que inclui frutas, verduras, legumes e plantas ornamentais – dentro dos limites dos grandes centros e em suas regiões metropolitanas. Apesar de não se tratar de movimento recente, o modelo tem ganhado força no Brasil – e, em Belo Horizonte, pode ser visto de perto. Com o intuito de produzir alimentos naturais, sem agrotóxicos e mais baratos, dentro do perímetro da metrópole, a primeira fazenda urbana da América Latina foi inaugurada em BH, em maio deste ano, e já dá o que falar: primeiramente, porque o estabelecimento, concebido pela startup Be Green, fica em terreno de 2,7 mil metros quadrados no interior do Boulevard Shopping, na região centro-sul da capital mineira, por onde, mês a mês, passam cerca de 1 milhão de pessoas. Em segundo lugar, porque a fazenda conta com produção mensal de mais de 50 mil pés de alface, além de rúcula, espinafre, agrião, tomilho e hortelã, entre outros. Tudo isso sem uso de agrotóxicos. Por meio de seus idealizadores, Giuliano Bittencourt e Pedro Graziano, a Be Green busca explorar, desde sua inauguração, as possibilidades oferecidas pelas

cidades, por meio do uso alternativo de um centro de compras, e, consequentemente, do estreitamento de laços entre comunidade e produtores. “Hoje, uma criança nascida e criada na metrópole acha que o leite vem da caixa, e a alface, do supermercado. Até adultos, às vezes, se esquecem do caminho percorrido pelo alimento até nosso prato. Com a fazenda, queremos diminuir essa distância e estimular a consciência das pessoas quanto à produção”, explica Bittencourt. Na agricultura convencional, o trajeto percorrido da horta ao prato de um morador do grande centro urbano é tortuoso, de maneira a potencializar o desperdício e a gerar aumento no preço do alimento. Levantamento divulgado pela FAO, em 2015, mostra que algo em torno de 50% da produção agrícola são desperdiçados nas etapas de produção, colheita, armazenamento e transporte. O órgão afirma, ainda, que só o volume de produtos desperdiçados no Brasil poderia matar a fome de 11 milhões de pessoas em todo o mundo.

Do MIT a BH Graduado em Administração Pública, Giuliano Bittencourt, de 26 anos, trabaDiogo Brito

Giuliano Bittencourt e Pedro Graziano: uso alternativo de espaços urbanos MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2017

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lhava no governo de Minas Gerais, quando teve a ideia de investir em agricultura urbana. Durante seu trabalho no Estado, ele foi um dos responsáveis pela criação do primeiro programa de aceleração de startups do País com dinheiro público, o Startups and Entrepreneurship Ecosystem Development (Seed). Devido ao Seed, Giuliano teve oportunidade de viajar, em 2014, a Cambridge, nos Estados Unidos, para conhecer o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Lá, o empresário conheceu a inovadora ideia das fazendas urbanas, uma vez que a universidade conta com laboratórios interdisciplinares que promovem o cultivo agrícola, em larga escala, dentro de territórios urbanos. Apaixonado por culinária, o administrador uniu suas habilidades profissionais a um hobby antigo e acabou por trazer a ideia ao Brasil. Contudo, para que a iniciativa fosse bem-sucedida, era preciso testá-la de maneira menos ousada. Foi assim que o empresário, junto a seu sócio, o paulista Pedro Graziano, e a uma equipe de engenheiros agrícolas e técnicos da área, iniciou a produção de alface em propriedade na cidade de Betim. “Mantivemos a fazenda por dois anos. Nosso plano era desenvolver melhor o negócio. Estudamos e testamos tecnologias, vendemos alimentos produzidos ali a produtores locais e ganhamos experiência. Desde aquele momento, a ideia era levar a fazenda a alguma capital”, conta. Em meados de 2016, os empresários estavam prontos para ver a ideia da fazenda urbana ser concretizada. Começaram, então, a buscar locais que poderiam sediar o projeto. “Queríamos que a fazenda ficasse em São Paulo, por ser a maior metrópole do País, mas soubemos da disponibilidade do espaço no Boulevard Shopping. Não havia motivos para esperarmos mais e viemos para cá, mas nosso próximo passo é mesmo tentar levar a fazenda à capital paulista”, alega Bittencourt.

urbana de BH busca atingir a máxima diminuição dos impactos socioambientais causadas pela agricultura convencional e pelo crescimento das cidades. Para isso, a técnica empregada no cultivo dos alimentos é chamada de “aquaponia”, que une piscicultura e hidroponia: o método une criação de tilápias em reservatórios e reaproveitamento da água. Ao todo, 180 peixes são criados e alimentados pelos proprietários. A água onde ficam os animais atravessa uma sequência de filtros, que transformam a urina das tilápias em alimento para as plantas. O líquido com os nutrientes necessários ao crescimento das hortaliças é bombeado até a estufa, e retorna, por encanamento, ao reservatório. Reinicia-se, assim, o ciclo. Quanto às instalações de parte da fazenda, usam-se contêineres reaproveitados. O piso do local é feito de rejeitos da mineração, e algumas mesas e cadeiras provêm de rejeitos da indústria do plástico. A fonte de energia usada é resultante de turbinas eólicas e células fotovoltaicas (energia solar). Ou seja: todo projeto foi detalhadamente pensado a partir dos princípios de sustentabilidade. Quem visita a Be Green pode comprar os produtos da fazenda na Casa Horta, um mini-hortifruti feito, também, em colaboração com outros produtores da cidade e da região. A fazenda conta, ainda, com uma unidade do restaurante Casa Amora, que funciona no conceito “farm to table” (“da fazenda para a mesa”, em tradução livre). “Tudo isso é feito para que a relação entre ser humano, alimento e produtor seja modificada. No entanto, investiremos em outros elementos para potencializar o bem-estar da população, como aulas de yoga, ginástica e minicursos sobre plantação e cultivo”, completa Bittencourt.

Mundo afora Além da iniciativa desenvolvida, no Brasil, pela Be Green, quatro fazendas urbanas comerciais destacam-se em outros países. Confira! Sky Greens (Cingapura): primeira fazenda urbana vertical, orgânica e comercial do planeta. O cultivo de hortaliças ocorre em “torres-estufa”, dez vezes mais produtivas que as tradicionais. Tower Garden (EUA): também conta com formato vertical. Entretanto, a torre onde os alimentos são cultivados dispensa terra para o plantio, o que diminui o tempo de cultivo. Urban Farmers (Suíça): produz alimentos sem agrotóxicos e usa terraços de edifícios como locais de plantios. Como a fazenda da Be Green, recorre à água da criação de peixes.

Tecnologia e sustentabilidade

“Bem-estar”. Eis o termo a nortear a proposta da Be Green. Além de estreitar os laços entre produtor e comunidade e combater o desperdício de alimentos, a fazenda

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Ecf Farmsystems (Alemanha): trata-se da maior fazenda aquapônica urbana da Europa.


CIÊNCIA POLÍTICA

Detrás da mesma muralha Pesquisa revela que laços entre Brasil e China se estreitaram nas últimas décadas, de modo a permitir condições essenciais ao mútuo desenvolvimento econômico Álvaro Pétrus

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Acentuado pelo processo de globalização, o cenário de abertura de mercados amplia as relações de cooperação entre nações. A diplomacia por trás de parcerias internacionais estabelece nova dimensão ao efeito espaço-tempo e aproxima soberanias até então distantes. No que diz respeito ao Brasil, enquanto ator de destaque entre países em desenvolvimento, fica evidente a importância de relações e acordos capazes de corroborar tal crescimento, sobretudo, em tempos de crise. Atualmente, dentre os parceiros dignos de atenção, há aquele que se destaca quando o assunto é cooperação com o Brasil: a China. A parceria econômica com a nação asiática, principalmente, a partir de 2001, pode ser medida em números. O “novo melhor amigo” do País ocupa, hoje, papel imprescindível no desenvolvimento nacional, tendo se tornado, em 2009, seu maior parceiro comercial, de maneira, inclusive, a desbancar mais de 80 de anos hegemonia dos Estados Unidos como “companheiro de estrada”. Embora, desde a década de 1990, a relação tenha se estreitado ainda mais, a cooperação chino-brasileira vem de longa data. O primeiro momento de destaque remonta aos anos 1970, quando do reconhecimento, por parte do Brasil, da República Popular da China. Na ocasião, outras soberanias do continente americano – Argentina, Chile e EUA – também reconheceram oficialmente o país asiático. Cabe destacar, porém, que, no contato inicial, as relações foram diplomáticas, e, portanto, quase insignificantes do ponto de vista comercial. A aproximação ocorria de forma lenta, gradual, e permitia que a relação se tornasse cada vez mais amistosa entre os países. Ainda assim, fora do continente – na esfera Sul-Sul, por exemplo –, apenas os laços com a

África fizeram parte, por longo período, da caminhada brasileira de cooperação. Segundo o professor Javier Alberto Vadell, coordenador do curso de pós-graduação em Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), e coordenador de pesquisa sobre a história de cooperação econômica Brasil/China, a mudança de cenário se dá em momento posterior à saída do então presidente Fernando Collor. “Durante o governo Itamar, e, especificamente, em 1993, as relações são de fato estreitadas entre os dois países. O novo momento será marcado pelo primeiro acordo de parceria estratégica entre a China e um país da América Latina, um dos primeiros do mundo”, explica o pesquisador, ao destacar que o acordo envolvia, principalmente, questões relativas à cooperação na área de ciência e tecnologia e ao fomento de parcerias para envio de satélite. “Essa década, portanto, marca, de forma importante, a entrada da China na região, e sobretudo, a ampliação do contato com o Brasil”, completa.

Fases da relação

Como marcas fundamentais da relação, destaca-se a proposta de coexistência pacífica, que inclui a não interferência em questões políticas de outros estados, além da ideia de benefícios mútuos. Segundo Javier Vadell, ainda existe um terceiro momento digno de atenção quanto à análise da parceria. Após duas décadas de superávit comercial, e ao se destacar como um dos principais receptores de investimentos diretos no decorrer da década de 1990, além de passar por franca expansão de consumo, a China estabeleceu um marco para sua nova fase de consolidação de crescimento: a entrada do país, em 2001, na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Sistema próprio do modelo capitalista, que determina que um país deve ser adepto aos princípios de multilateralismo, transparência e abertura comercial.

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À época, dentre as exigências feitas ao governo chinês para sua inclusão na OMC, cabe ressaltar a determinação da Organização para que, até 2016, a China se tornasse uma economia de mercado. “Depois de negociação difícil, esse passo é fundamental para que os acordos comerciais da China se ampliem, e é exatamente isso o que ocorre a partir de 2001, com a implantação da política de expansão chinesa, denominada ‘Go Global’”, explica Javier. O número de acordos comerciais com outras nações, nesse período, passa por significativa mudança. Surgem, assim, novas parcerias globais, inclusive, na América do Sul,a exemplo da relação entre China e Peru. A entrada na OMC também é fundamental, sobretudo, para países como o Brasil, que, em 2001, passava por crise de grandes proporções no continente, marcada pela alta do dólar e pelo enfraquecimento de importantes parceiros econômicos, como a Argentina. “A ampliação dos negócios com o país asiático surge, para nós, como grande oportunidade de diminuir os efeitos da crise no continente”, afirma o pesquisador, ao lembrar que, entre os principais produtos-alvo responsáveis pela ampliação do processo de cooperação comercial com a China, merecem destaque as exportações brasileiras de minério e soja.

Evolução chinesa

Para a compreensão plena dos fatores que levaram a República Popular da China ao status de segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos EUA, é fundamental a compreensão de parte do processo de desenvolvimento do país, que, até 1949, apresentava um dos piores índices socioeconômicos do planeta. Javier Vadell considera como fator crucial a aproximação com os Estados Unidos, então, um inimigo comum da antiga União Soviética, durante o governo de


Richard Nixon. “A relação, porém, se dava apenas no campo da geopolítica, não se estendendo, em um primeiro momento, a questões comerciais”. A aproximação, porém, foi vista com bons olhos por boa parte do mundo e suscitou o entusiasmo da comunidade de negócios, ansiosa pela reestruturação do processo de produção global. Tais medidas teriam ocasionado uma série de outras iniciativas na região, como a entrada, no fim dos anos 1970, de grandes empresas americanas e europeias na China e em outros países do continente asiático – cujo interesse empresarial era aguçado pelo baixo custo da produção, sobretudo, devido à mão de obra barata. A análise conjuntural ampliada leva à constatação, portanto, de que o impressionante desenvolvimento econômico chinês desenha-se ao longo de 70 anos, com ênfase nas últimas três décadas. Para Javier Vadell, o crescimento médio, entre 7 e 9% anuais, nos últimos 25 anos, dá tom ao mecanismo de ascensão. “O processo chinês é um desafio para todo pesquisador do assunto. Se pegarmos como base os rankings feitos em 1949, temos o seguinte quadro: um grande país, com a maior população do mundo e sem áreas férteis”, resume. Além disso, trata-se da nação com um dos piores indicadores econômicos e sociais do mundo à época. “Em 60 ou 70 anos, a mudança de cenários se mostrou impressionante. Que o diga o fato de que, terminada a Guerra Fria, o olhar norte-americano sobre o crescimento chinês não se revela o mesmo, principalmente, pós-2005. Especialistas estadunidenses parecem estar com medo de ver ameaçada a hegemonia de seu país”, comenta.

Novos paradigmas

Ao se destacar no novo cenário da economia mundial, a China traz à tona uma significativa alteração dos paradigmas dominantes. Embora não pertença ao hemisfério Sul, o simples fato de o gigante asiático apresentar-se ao mundo como “em desenvolvimen-

to” permite que os panoramas tradicionais sejam alterados – de modo a diferenciar a própria natureza dos acordos estabelecidos, por exemplo, no eixo Norte-Sul. Entre as principais mudanças propostas pelo governo chinês, por meio de seu sistema multipolar de atuação, pode-se citar o fato de não envolverem condicionantes políticos em planos de cooperação, como feito em acordos com o Fundo Monetário Internacional, ou com o Banco mundial. Os parâmetros são outros, posto que baseados em novas possibilidades de cooperação Sul-Sul, definidas pela Organização das Nações Unidas (ONU). Para Javier, “a ideia é que, do ponto de vista político, a relação flua na horizontalidade, como propunham os acordos com os países desenvolvidos. Claro que, economicamente, ainda podem existir disparidades, mas, na política, há novo posicionamento”. Tudo isso se dá no momento em que o mundo passa por transições. “Precisamos saber, portanto, quem serão os atores a determinar as regras da nova governança econômica global. Sem dúvida, a ascensão chinesa faz com que o país passe a pleitear o protagonismo no mundo e abala os paradigmas existentes”, conclui. A eleição de Donald Trump, como presidente dos EUA, também surge como fator relevante no cenário mundial. Os norte-americanos repensam acordos transpacíficos e transatlânticos, que podem não progredir. Enquanto isso, o crescimento chinês e os acordos de cooperação seguem a pleno vapor. O mundo passa a contar com novo eixo de desenvolvimento, investimento e progresso. “Os paradigmas começam com dimensão multipolar. Em que medida isso pode afetar outra nação, que vê a multipolaridade como ameaça? Tenho muitas perguntas e poucas respostas”, pontua Javier.

Projeto: As implicações políticas da crescente presença econômica da China no Brasil: cooperação Sul-Sul ou relacionamento Norte-Sul? Coordenador: Javier Alberto Vadell Instituição: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) Chamada: Universal Valor: R$ 13.776,00

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POLÍTICA CIENTÍFICA

Vaquinha científica Alternativa já conhecida em projetos culturais, financiamento coletivo ganha força no universo da pesquisa Mariana Alencar

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Eis a situação bastante conhecida: o aniversário daquele amigo se aproxima. As pessoas próximas do aniversariante decidem se juntar para lhe comprar um presente. Cada um cede determinada quantia de dinheiro, e o montante arrecadado serve à concretização da “lembrancinha”. Pense, agora, na estratégia da tradicional “vaquinha” transportada ao ambiente digital. Certamente, passaremos a lidar com a ampliação quase infinita de possibilidades para recolhimento de verbas. Nesse caso, a ação ganha nome sofisticado: crowdfunding – ou “financiamento coletivo”. Quando o assunto é internet, o aparecimento do termo “colaboração” parece inevitável às análises da temática. Afinal, a web 2.0, termo criado pelo americano Tim O’Reilly, em 2003, tem, como regra fundamental, o aproveitamento da inteligência coletiva. Pois é a partir dessa lógica que o crowdfunding funciona. Com a mobilização coletiva na web, aglomeram-se consumidores para financiar a produção ou a exibição de projetos em diversas áreas. Os sites de crowdfunding funcionam com uma espécie de vitrine para exibição de projetos que carecem de verba para se concretizar, e estão dispostos a receber doações dos internautas. As contribuições são feitas de maneiras voluntária, e, em alguns casos, o doador recebe algo em troca pelo dinheiro recebido (um CD com dedicatória, em casos de projetos musicais, por exemplo). Existem, porém, valores mínimos a serem pagos, a depender do portal. Em tempos de instabilidade política e econômica, as plataformas de financiamento coletivo têm sido uma alternativa, também, para pesquisadores independentes ou estudantes. É o caso do Projeto Tesla, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Formado por alunos dos cursos de Engenharia Elétrica e Mecânica, sob coordenação dos professores Braz de Jesus Cardoso Filho e Fabrício Pujatti, a iniciativa busca a construção de veículos automotivos. Em 2017, os alunos recorreram ao crowdfunding com o intuito de arrecadar verba para elaboração de um carro 100% elétrico, a ser projetado para fazer de 0 a 100 km/h em quatro segundos.

No site Kickante, plataforma escolhida para arrecadação da verba, os universitários explicam que a execução do projeto não se sustenta apenas com a ajuda de parceiros e patrocinadores: “Nosso objetivo é a construção de um veículo puramente elétrico, com todos os componentes, do chassi ao banco de baterias. Dessa forma, almejamos demonstrar avançada tecnologia nacional, para que o investimento no setor aumente substancialmente”, Os estudantes informam, ainda, que o projeto conta “com parceiros e patrocinadores, porém, não é capaz de suprir os custos de construção. A campanha no Kickante será fundamental para o caminhar da equipe”. Ao todo, eles precisavam de R$ 24 mil para realização do projeto. Como optaram pela campanha “flexível”, disponível no site, receberão o valor arrecadado durante as semanas destinadas às doações, independentemente de terem atingido o montante desejado.

Rumo a Coimbra! Outra forma de usar as plataformas de financiamento coletivo em prol da ciência dá-se por meio da arrecadação de verba para viagens profissionais, com apresentação de trabalhos em outros países. Em setembro do ano passado, Letícia Vulcano, mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), se surpreendeu ao ver que um de seus artigos científicos, com questionamentos sobre a violência obstétrica no Brasil, fora aprovado no “II Colóquio Internacional de Estudos Feministas”, a ser realizado na cidade de Coimbra, em Portugal. Sem condições financeiras de representar o País no evento, a mineira recorreu à universidade onde tinha estudado, e ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Entretanto, não obteve sucesso. “O Ministério nem me respondeu. E a PUC disse que não poderia financiar minha viagem, pois eu já não era mais aluna. Sem alternativas, recorri ao financiamento coletivo”, explica.

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Na ocasião, Letícia precisava de R$ 4 mil para comprar a passagem e se hospedar em Coimbra por quatro dias. Em dois meses de campanha, divulgada por meio das redes sociais, entre amigos, parentes e conhecidos, conseguiu o R$ 4.160. “A campanha gerou muita visibilidade. Fico com receio de acharem que posso estar abusando. Pedir dinheiro não é algo fácil ou tranquilo. A pessoa que doou, inevitavelmente, quer ter certeza de que você usou o dinheiro, especificamente, no projeto. Registrei tudo, do início ao fim. Fiz prestação de contas na internet e publiquei muitas fotos, para provar, que, sim, a doação de cada um me ajudou na apresentação de meu trabalho”, esclarece.

Desafio permanente Ainda que o crowdfunding gere resultados bastante satisfatórios entre projetos musicais e literários, e tenha se tornado boa opção para iniciativas científicas independentes, tal tipo de prática ainda é pouco eficiente para financiar propostas de segmentos nas áreas de ciência e tecnologia. Dados sobre o financiamento coletivo no Brasil mostram que tais campos apresentam as menores taxas de sucesso no site Catarse – uma das principais plataformas da modalidade no País. Atualmente, os projetos de ciência e tecnologia correspondem a cerca de 10% do número de propostas submetidas ao referido portal. Ao longo da existência do site, os projetos referentes a esse segmento apresentaram taxa de sucesso de pouco mais de 30%. Em 2016, as áreas de ciência e tecnologia receberam, por meio do site, o investimento de R$ 296.433, valor pequeno perto dos R$ 1.234.889 arrecadados por projetos musicais, por exemplo.

Na contramão dos números baixos, está o Grupo Independente para Avaliação do Impacto Ambiental (Giaia) – Samarco/Rio Doce, criado o rompimento da Barragem de Fundão, na cidade de Mariana (MG), que deixou centenas de famílias desabrigadas. Na ocasião, um grupo de pesquisadores reuniu-se, espontaneamente, com o objetivo de obter informações independentes da Samarco e dos órgãos ambientais, acerca dos impactos ambientais do rompimento da barragem. Devido ao caráter de urgência de apresentação dos resultados para o público, os pesquisadores recorreram ao crowdfunding. “Logo após o rompimento, fui à região com o intuito de caracterizar e coletar amostras no trecho que ainda não tinha sido impactado. O objetivo era buscar informações científicas e apresentar ao público algo menos superficial do que a cobertura jornalística tradicional feita à época”, explica Dante Pavan, doutor em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (USP) e idealizador do Giaia. Financiado por meio do site Kickante, o projeto precisava de R$ 50 mil reais para ser executado, mas, em menos de um mês, os pesquisadores já haviam arrecadado mais de R$ 85 mil. Com a divulgação via redes sociais, a ideia do projeto, rapidamente, ganhou força, o que fez com que dezenas de outros profissionais se juntassem, de forma voluntária, para ajudar a iniciativa. “As pessoas colaboraram bem mais do que o esperado, por confiar em nossa boa intenção. Percebemos que certo público espera, da ciência, alguma solução para os problemas. Infelizmente, muitos pesquisadores não deram o retorno merecido. Muitos receberam amostras ou usaram os recursos sem feedback. Além disso, tivemos que lidar com o fato de que a plataforma usada segurou os recursos por muito tempo”, explica.

— As plataformas Kickante, Kickstarter, Indiegogo, StartMeUp, Broota, Impulso, Idea.me, Bicharia, Catarse e Benfeitoria são algumas das que, no Brasil, promovem o financiamento de projetos. O mais antigo é o Vakinha, de 2009.

O caminho (coletivo) das pedras 46

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— No Brasil, ainda não há plataforma específica para financiamento de projetos científicos. O site norte-americano SciFundChallenge, contudo, tem exercido tal papel. — As plataformas de crowdfunding cobram taxa de, aproximadamente, 10% do valor do projeto para uso do site como ferramenta. O valor varia de acordo com o portal, e pode chegar a 20% do valor arrecadado. — Todos os sites oferecem dois tipos de campanha: “flexível”, que permite ao organizador retirar o dinheiro, independentemente de a meta ter sido alcançada; e “tudo ou nada”, quando o mentor do projeto só consegue ter acesso ao valor arrecadado se o valor proposto for atingido.


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Dúvidas infantis

Campeão de audiência

Jovens cientistas

Robôs

Economia e Matemática?

Xixi de peixe

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CONTEMPORÂNEAS

Os sofrimentos do jovem pós-graduando O grande volume de atividades exigidas na pós-graduação pode impactar, negativamente, a saúde do aluno Mariana Alencar

Quando iniciei meus estudos na pós-graduação, não imaginava que, logo no primeiro encontro entre alunos e professores, presenciaria uma realidade cruel e desesperadora. Durante a reunião, estudantes demonstraram preocupação com a saúde mental de muitos colegas, uma vez que o número de pedidos de adiamento de datas para defesas de dissertações e teses havia crescido muito nos últimos anos. Os relatos deixaram claras algumas das pressões vividas pelo corpo discente: prazos apertados, alto volume de leituras, cobranças excessivas por produção acadêmica, complicados relacionamentos com orientadores etc. Tempos depois, vi que aquela não era uma preocupação apenas de minha área, uma vez que o desenvolvimento de transtornos mentais, na pós, é mais comum do que se pensa. Preocupados com tal realidade, discentes do programa de pós-graduação propuseram a organização de palestras sobre saúde mental para os estudantes. Foi assim que conheci Robson Cruz, pesquisador de pós-doutorado do departamento de Psico-

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logia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Durante o bate-papo, Cruz explicou que não há apenas um fator condicionante do sofrimento entre alunos de pós. E que as histórias vividas por eles, até que cheguem ao mestrado ou ao doutorado, são fatores que influenciam a saúde do aluno. “A organização da universidade e as vivências pessoais dos estudantes são elementos que, quando se entrelaçam, podem causar transtornos. A transição entre graduação e pós-graduação, por exemplo, é feita, muitas vezes, de maneira despreparada”, comenta o pesquisador, ao destacar que o aluno, frequentemente, depara-se com um universo de muita incerteza. “Ele não sabe se sua produção terá o devido reconhecimento, nem quais serão os próximos passos. Isso gera grande ansiedade”, conclui. A vasta competitividade do ambiente acadêmico é outro fator a intensificar o sofrimento dos estudantes. Em tempos de crise econômica e instabilidade política, os recursos repassados às universidades pú-

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blicas estão cada vez menores, de modo a prejudicar a distribuição de bolsas de estudo entre os discentes. Se, há alguns anos, certos programas de pós-graduação tinham 100% de alunos contemplados com bolsas, hoje, tal número caiu para 30%. Entretanto, ainda que receber bolsa de estudos signifique ter condições financeiras para a realização das pesquisas, os alunos devem completar quantidades determinadas de produções acadêmicas para que a bolsa seja mantida. “A universidade se revela altamente competitiva, mas a gente finge que não é. O grande problema desse tema está em não explicitar que o ambiente acadêmico produz sofrimento. Por isso, as instituições têm pouca estrutura para lidar com o problema como ele merece ser tratado”, alega Cruz. Com o intuito de minimizar o sofrimento de muitos estudantes, o Programa de Extensão em Atenção à Saúde Mental (Pasme) atua, na UFMG, há pelo menos cinco anos, e se compõe por diversos projetos e departamentos da universidade


(Psicologia, Terapia Ocupacional, Enfermagem e Saúde Mental) e pela Associação dos Usuários dos Serviços de Saúde Mental (Asussam). O objetivo do Pasme tem sido fomentar políticas de formação voltadas à inclusão e à reforma psiquiátrica, por meio da sensibilização da comunidade universitária e com ampla participação daqueles que são alvo de políticas sociais inclusivas e da comunidade. “O sofrimento na vida universitária é muito comum, e, por vezes, não passa apenas pelo aluno. Entretanto, não queremos patologizar o que está acontecendo, mas desejamos que isso seja enxergado. A liberdade intelectual fica comprometida e falsamente definida, quando há sofrimento. Nosso processo no Pasme começou ao buscarmos pensar que a universidade precisava mudar, mas ainda de forma muito ingênua. Vimos, então, que a universidade tematiza, mas não ensina questões relativas à saúde mental, que, muitas vezes, é tida como temática de segunda linha”, explica Maria Stella Goulart, integrante do Pasme e professora do departamento de Psicologia da UFMG.

Assustadora tela em branco “Qual é o meu problema? Por que não consigo escrever, nem sequer, uma frase que faça sentido?”. Tais perguntas me surgiram na tentativa de escrever sobre saúde mental na pós-graduação. Enquanto a famigerada inspiração não chegava, tomei café, chequei o celular, fiz alongamentos e um teste na internet para descobrir qual personagem da série Breaking Bad eu sou. Digitei duas palavras, apaguei, conferi, novamente, o celular, e, por fim, decidi escutar as gravações da conversa que tive com Robson Cruz. Em um dos trechos da entrevista, o pesquisador ressalta que o bloqueio de escrita é uma das causas (e, em certos casos, sintomas) de sofrimento e transtornos mentais de alunos na pós. “Se, na graduação, a escrita do estudante é só um elemento em seu percurso, na pós, passa a defini-lo. Isso acontece de forma rápida, praticamente, da noite para o dia. Quando o estudante carrega outros elementos pessoais de sofrimento em relação à escrita, como traumas e cobranças anteriores, isso pode gerar uma ansiedade muito grande na pessoa”, analisa Robson Cruz. Segundo o pesquisador, os bloqueios de escrita são ainda mais frequentes em estudantes da área de Humanas, uma vez que se presume que esses alunos têm mais facilidade com a escrita. “Na área de Exatas ou Biológicas, a escrita é só uma parte da pesquisa desenvolvida. Nas Humanas, muitas vezes, é encarada como todo o projeto”. Em livrarias e lojas online, é possível encontrar grande quantidade de livros que auxiliam o pesquisador na hora de escrever, mas nem sempre ter contato com essa literatura é o suficiente. “A escrita é um hábito a ser exercido sempre, assim como ocorre com os músculos e o corpo. Porém, há outro grande problema: a falta de liberdade do aluno, na academia, para elaborar escritas mais criativas. Escrever em primeira pessoa é uma boa maneira, por exemplo, de burlar tal bloqueio”, acredita o pesquisador.

SAIBA MAIS Escrita sem neura

Para ajudar a quem sofre na hora de botar as ideias na folha de papel, o experiente sociólogo Howard S. Becker, conhecido pelo estilo simples e informal, dá dicas de como superar a temida tela em branco. Livro: Truques da escrita Autor: Howard S. Becker Editora: Zahar Páginas: 256 Ano: 2015

Sintomas de um sofrimento

Único romance da poeta Sylvia Plath, A redoma de vidro conta a história de Esther Greenwood, que, ao sair da universidade, é contratada por uma revista feminina. A intensa vida social da jovem jornalista serve-lhe de gatilho para que, aos poucos, desenvolva transtornos mentais que culminarão com sua internação numa clínica psiquiátrica. Lançado semanas antes da morte da poeta, a obra é repleta de referências autobiográficas. Livro: A redoma de vidro Autora: Sylvia Plath Editora: Biblioteca Azul Páginas: 280 Ano: 2014

Quando procurar ajuda? Sinal verde O aluno sente certa pressão, devido ao excesso de atividades, mas consegue realizá-las, sem que sua estrutura emocional seja fortemente impactada.

Sinal amarelo As noites de sono ficam comprometidas. Aparecem dores físicas, na cabeça, no estômago e nas costas, e a produtividade diminui com o excesso de trabalho.

Sinal vermelho A saúde mental do aluno se reverte em tentativas de suicídio, sintomas de depressão e ataques de pânico. Há que se buscar um profissional especializado.

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varal “Achei muito interessante a iniciativa. Acredito, inclusive, que o Pint of Science deveria ser semestral, pois amplia nosso conhecimento do ponto de vista científico. Com relação ao painel de que participei, só tenho elogios quanto ao que foi explicado, com relação aos vários processos químicos envolvidos no processo de fabricação da cerveja. Além da contextualização histórica, o evento é propício ao diálogo e à troca de ideias. Isso gera conhecimento e agrega muito valor à iniciativa. Agora, aprecio a cerveja com mais ‘valorização’ a cada gole”.

De 15 a 17 de maio, em centenas de cidades ao redor do mundo, realizou-se nova edição do tradicional Pint of Science. Durante o evento, pesquisadores de diversas áreas do saber apresentam-se em bares, onde discutem seus temas de estudo e conversam com os frequentadores. Em Belo Horizonte, a iniciativa chamou a atenção de muitas pessoas. Ao lado, algumas delas comentam o que aprenderam com os cientistas, enquanto, espertamente, apreciavam deliciosos tira-gostos e aquele chope geladinho!

Rosana Gomes, funcionária pública, sobre a palestra “Cerveja: a ciência dentro da garrafa”, com as professoras Luciana Brandão (UFMG) e Beatriz Borelli (UFMG)

“Muito legais o fo rmato do evento e tema. O nível dos a relevância do palestrantes foi m uito bom, especia mente por falarem lde iniciativas de em preendimentos qu surgiram na academ e ia. Eu não tinha es se conhecimento”.

Augusto Andrade, estudante de Adm inistração, sobre matização de tudo “Auto: Big Data, Mac hine Learning, In das Coisas e Inter ternet net Preditiv, com os professores Ed Barrere (UFJF) e uardo Nívio Ziviani (UFM G)

“Eu já havia lido o livro Preconceito linguístico, de Marcos Bagno. Por isso, já tinha contato com o tema. Foi interessante notar, porém, como nosso sotaque é naturalizado para nós, mineiros, e como não percebemos, muitas vezes, quanta coisa há em torno dele. Foi interessante confirmar a ideia de que o ‘mineirês’ concentra-se, mesmo, apenas em Minas Gerais, e não apresenta derivações em outras regiões do Brasil, como ocorre com outros sotaques. Depois do Pint of Science, descobri que temos quatro tipos de ‘mineirês’. A parte mais interessante foi saber a origem das expressões ‘uai’ e ‘trem’”. Lara Alves, estudante de jornalismo, sobre “Minas são muitas, né não, sô? A ciência do ‘mineirês’”, com as professoras Sueli Maria Coelho (UFMG) e Maria do Carmo Viegas (UFMG)

“A visão da p rofessora do nossa percep Cefet-MG per ção acerca d mitiu que am os impactos pliássemos em que, até en no Ensino M tão, não tínham édio técnico, os parado par nos possibili algo a pensar. O P tou ganhar co int of Science nhecimento e reflexão a resp eito”.

Luiza Magal hães, José Carlos Fort pesquisadore unato e S s, sobre “Ref abrina Oliv or ma do ensi eira, multiplica ou no médio: so divide?”, com m a, di os m pr in ofessores Car ui, e Orlando Gom la Chamon (C es (UFMG) efet-MG)

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MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2017


MINAS FAZ CIÊNCIA • MAR/ABR/MAI 2017

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Vem aí, no Circuito Cultural da Praça da Liberdade, a grande mostra de ciência, tecnologia e inovação de Minas Gerais: A Inova Minas FAPEMIG 2017. Acompanhe a programação em nosso site: www.fapemig.br

Mostra de projetos de pesquisa. Encontros de inovação. Exposições interativas de ciência.

Realização

Apoio

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MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2017

Minas faz ciência nº 70  

Do céu e suas esfinges