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ENTREVISTA

Ciência e maternidade Mãe, professora, pesquisadora e idealizadora do projeto "Parent in Science", Fernanda Staniscuaski comenta os desafios de ser mulher cientista no Brasil Alessandra Ribeiro Oito em cada dez docentes pesquisadoras das universidades brasileiras percebem impactos negativos em suas carreiras depois de se tornarem mães. É na faixa etária dos 32 anos que as mulheres cientistas têm o primeiro filho – em média, 2,8 anos depois de serem contratadas. Os dados espelham as primeiras impressões obtidas a partir de questionário respondido por mais de mil pessoas de várias partes do Brasil, iniciativa do projeto "Parent in Science", criado para apoiar mulheres que passam por situação semelhante. Em inglês, a palavra parent remete a pais e mães: a escolha de nome estrangeiro para a iniciativa diz respeito à intenção de também abranger homens que se dedicam ao cuidado com os filhos. A pesquisa mostra, porém, que eles ainda são minoria: em 54% das respostas, apenas a mãe cuida das crianças quando elas estão fora da escola ou da creche. Os cuidados são divididos entre mãe e pai – não necessariamente de forma igual – em menos de 40% dos casos. O projeto foi idealizado por Fernanda Staniscuaski, mãe, professora e pes-

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quisadora do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – ela se apresenta nesta ordem. No laboratório, a bióloga investiga o mecanismo de ação de proteínas vegetais com atividade inseticida. Sua atual linha de pesquisa concentra-se em um tipo específico de proteína, as aquaporinas, e seu papel nas respostas das plantas a diferentes tipos de estresse. Em 2015, logo após o nascimento do segundo filho, Fernanda constatou que o meio acadêmico-científico não oferece suporte às mulheres no momento em que precisam conciliar trabalho e maternidade. Ela ainda estava no início do período de licença quando foi cobrada pelo envio do relatório de um financiamento obtido, requisito para se candidatar ao recebimento de novas verbas. Envolvida com os cuidados de um recém-nascido e de outra criança de dois anos, não foi possível atender ao prazo naquele momento, o que, posteriormente, dificultou a retomada da carreira. Em um sistema de fomento pautado pela produtividade dos pesquisadores, e

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2018

reconhecido como ambiente extremamente competitivo, quem precisa desacelerar acaba em desvantagem. Nesta entrevista a MINAS FAZ CIÊNCIA, Fernanda Staniscuaski fala dos desafios de ser mulher cientista e analisa os primeiros dados já sistematizados sobre maternidade e ciência no Brasil. No ambiente profissional, em que momentos você se sentiu em desvantagem por ser mulher? Até me tornar mãe, não me lembro de ter percebido desvantagens por ser mulher. Talvez, porque esteja em área que não é dominada (numericamente) por homens. De maneira nenhuma, contudo, isso quer dizer que eu não tenha experimentado o machismo que existe em nosso meio. Nunca me esqueci do comentário de um colega, no início da faculdade, ao insinuar que eu havia sido escolhida para um estágio porque o entrevistador era homem e tinha se interessado por mim. É muito comum associarem nossos méritos a outros aspectos, que não nossa capacidade intelectual.

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A NOVA LOUSA É O MUNDO

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