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QUANDO O

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SEGUE AO INFINITO

CONTEMPORÂNEAS O QUE É E COMO LIDAR COM A “PÓSVERDADE”?

REDE INTELIGENTE

CEMIG CRIA CABOS QUE TRANSPORTAM LUZ E INTERNET


O SISTEMA FIEMG INVESTE EM CENTROS DE INOVAÇÃO E TECNOLOGIA PARA QUE A NOSSA INDÚSTRIA SEJA COMPETITIVA. CENTRO DE INOVAÇÃO E TECNOLOGIA SENAI/FIEMG CAMPUS CETEC: • R$ 150 milhões em investimentos. • Um dos maiores investimentos em inovação em Minas Gerais. • 3 Institutos SENAI de Inovação. • 5 Institutos SENAI de Tecnologia. • Gerência de Metrologia. • Laboratório Aberto SENAI MG. • O Campus CETEC abriga também o CSEM Brasil, a Sunew, a Biominas e o Centro de Engenharia e Tecnologia da Embraer MG.

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84 anos

APOIANDO A INDÚSTRIA MINEIRA.


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Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais Presidente: Evaldo Ferreira Vilela Diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação: Paulo Sérgio Lacerda Beirão Diretor de Planejamento, Gestão e Finanças: Alexsander da Silva Rocha Conselho Curador Presidente: Virmondes Rodrigues Júnior Membros: Clélio Campolina Diniz, Esther Margarida Bastos, Eva Burger, Luiz Roberto Guimarães Guilherme, Marcone Jamilson Freitas Souza, Michele Abreu Arroyo, Nilda de Fátima Ferreira Soares, Ricardo Vinhas Corrêa da Silva, Roberto do Nascimento Rodrigues, Valentino Rizziioli Para receber gratuitamente a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, envie seus dados (nome, profissão, instituição/empresa, endereço completo, telefone, e e-mail) para o e-mail: revista@fapemig.br ou para o endereço: FAPEMIG / Revista MINAS FAZ CIÊNCIA Av. José Cândido da Silveira, 1500, Bairro Horto - Belo Horizonte/MG - Brasil - CEP 31.035-536

Difícil, chata, complicada. Esses são apenas alguns dos adjetivos normalmente associados à Matemática. Nos primeiros anos de escola, números e equações costumam assombrar os estudantes. Em situações do cotidiano, como na mesa de um bar, sempre tem aquele amigo que sente até calafrios quando é solicitado a fazer contas (“Deixa para Fulano, que fez Engenharia!”). Outros sentem vontade de chorar quando percebem que a matéria será cobrada em um concurso público. Até mesmo na divulgação científica, a Matemática é vista com receio. Em pesquisa de audiência realizada com os leitores da Minas Faz Ciência no ano de 2014, essa “resistência” ficou clara. Quando perguntamos sobre os temas de interesse na área de Ciência e Tecnologia, Matemática aparece em último lugar entre 11 opções dadas – apenas 9% mencionam interesse em ler reportagens sobre a área. Para a equipe da revista, isso funcionou como um desafio. E o resultado é a reportagem especial desta edição, na qual as jornalistas Mariana Alencar e Roberta Nunes exploram as belezas e os desafios da Matemática. A reportagem aborda as novas formas de ensino da disciplina nas escolas, a Matemática como campo de pesquisa no Brasil, o sucesso das Olímpiadas criadas há mais de uma década e, até mesmo, a presença feminina entre os grandes nomes da área – algo muitas vezes ignorado. Convido a todos à leitura e à descoberta de que, como diz o tema da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) desde ano, “a Matemática está em tudo”. Outro destaque é projeto de pesquisa desenvolvido pela Companhia Energética de Minas Gerais, a Cemig, com o apoio da FAPEMIG. O trabalho buscou viabilizar a transmissão simultânea de energia elétrica e comunicação de dados em banda larga – ou seja, levar luz e internet à casa das pessoas usando o mesmo cabeamento. Altamente inovador, o projeto traria, entre os benefícios, a possibilidade de aproveitar a rede já instalada e a redução de custo a longo prazo. Atualmente, a tecnologia está sendo testada, em escala maior, em espaço experimental na cidade de Sete Lagoas. Conheça, também, trabalho desenvolvido na Universidade Federal de Minas Gerais que busca traçar a relação entre dependência do álcool e predisposição genética. Os testes realizados indicam a influência direta de um grupo de genes, o que pode abrir caminho para novos tratamentos terapêuticos e farmacológicos. Em outro estudo, relatado pelo jornalista Téo Scalioni, pesquisadores da Universidade Federal de Itajubá adaptaram um veículo aéreo não tripulado para investigar o potencial de energia eólica em regiões próximas a represas mineiras. O projeto foi apresentado ao público durante a mostra Inova Minas FAPEMIG 2016, e, pelo potencial inovador, escolhido para receber mentoria de especialistas e ser apresentado a possíveis investidores durante a Feira Internacional de Negócios, Inovação e Tecnologia – Finit. Por fim, chamo a atenção para as mudanças no design da revista. Algumas estão evidentes, como a alteração na ordem de algumas seções; outras, os leitores não perceberão de imediato. De forma geral, Minas Faz Ciência ficou mais bonita, com páginas mais leves e ilustrações que dialogam com o texto. Mérito de nossa equipe de design! A turma do conteúdo não ficou atrás e também propôs novidades. Uma delas é a seção “Contemporâneas”, que discutirá, com a ajuda de especialistas, temas que recentemente monopolizaram os debates na grande imprensa e as conversas nas redes sociais. Para a estreia da seção, optamos por falar sobre a pós-verdade, verbete que foi considerado a palavra do ano de 2016 pelo Dicionário Oxford. Boa leitura! Vanessa Fagundes Diretora de Redação

AO LEI TO R

EX P ED I EN T E

MINAS FAZ CIÊNCIA Diretora de redação: Vanessa Fagundes Editor-chefe: Maurício Guilherme Silva Jr. Redação: Alessandra Ribeiro, Lorena Tárcia, Luana Cruz, Mariana Alencar, Maurício Guilherme Silva Jr., Roberta Nunes, Tatiana Pires Nepomuceno, Téo Scalioni, Vanessa Fagundes, Verônica Soares e Vivian Teixeira Direção de arte: Felipe Bueno Editoração: Fatine Oliveira Montagem e impressão: Rona Editora Tiragem: 25.000 exemplares Capa: Felipe Bueno


ÍNDICE

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Entrevista

Especialista em interatividade e inovação, Ronaldo Gazel comenta uso da gamificação em diversos ramos de atividade

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Economia

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Saúde

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Determinantes para formação de redes de copatenteamento no Brasil são investigadas em dissertação de mestrado

Pesquisadores buscam avaliar relação entre composição genética e consumo abusivo de álcool

Inovação

Empresa Méliuz investe em tecnologia de cashback, por meio da qual clientes compram produtos e recebem dinheiro de volta

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Energia

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Biologia

4

32

Projeto leva discussões sobre ciência aos aglomerados da Serra e Cabana do Pai Tomás, em Belo Horizonte

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Medicina

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Engenharia

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Tese de doutorado da UFMG avalia prejuízos cognitivos provocados pela doença falciforme

Por meio de veículos aéreos não tripulados (vants), especialistas da Unifei identificam potencial eólico em sistemas aquáticos mineiros

Engenharia e Computação

Em trabalho multiprofissional, pesquisadores desenvolvem equipamento para exercícios fonoaudiológicos com a língua

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Hiperlink

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Contemporâneas

Cemig desenvolve cabos sinérgicos capazes de transportar, ao mesmo tempo, luz e internet banda larga

Inédita técnica anticalvície age, até mesmo, em casos de tratamento quimioterápico

Divulgação científica

MINAS FAZ CIÊNCIA • MAR/ABR/MAI 2017

Boas novas do projeto Minas faz Ciência na web e dica especial sobre um espacinho – também na rede – para responder às dúvidas das crianças

O que há sob o véu da “pósverdade”, eleita, em 2016, pelo dicionário Oxford, como palavra do ano?

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Especial

Reportagem investiga universo da Matemática, das teorias e práticas de ensino aos desafios dos profissionais da área

Psicologia

Pesquisa investiga elementos responsáveis pela construção e pelo fortalecimento de casamentos duradouros


CIÊNCIA ABERTA

De que modo

a Matemática aparece em seu

dia a dia?

“Em todos momentos: no cafezinho da padaria, ao abastecer meu carro, nos espaços em que estou, ao planejar (tempo) para as tarefas do dia a dia”. Thayse Menezes Via Twitter

“Em todas as receitas de bolos: tempo de forno, elaboração de custo de produto, cálculo do troco e de faturamento. Sem a Matemática, impossível”. Bolo Doce Bolo Via Instragram

área na qual há planilhas, prestação de coisas etc.”.

Bruna Sobreira, produtora cultural Entrevista ao programa Ondas da Ciência

“Lido com a Matemática de maneira muito frequente, pois gosto de fazer controle financeiro. Além disso, estou sempre anotando algo – e, quando possível –, somando, diminuindo, multiplicando. Cálculos matemáticos também são importantes em minha profissão, pois, para realizar modelagem e costura, é preciso usar medidas do corpo. Portanto, mesmo que para funções simples e básicas, uso, corriqueiramente, a Matemática”.

SilMontheiro Via Instragram

Elisa Pazzini, designer de produtos e modelista Entrevista ao programa Ondas da Ciência

“Quando estou no ônibus, em pé, e fico imaginando os vetores de peso se decompondo a cada curva ”.

“Minha relação com a Matemática é muito sincera, pois, por meio dela, as coisas ficam muito claras – e podem ser explicadas. Por ser da área de Exatas, prefiro as coisas calculadas e corretas. E falo isso por uma razão direta: a Matemática é capaz de nos garantir respostas. No mais, para onde olhamos, a Matemática se revela: numa quina de parede, lá está ela, no mais simples dos ângulos. Já no supermercado, será preciso fazer contas. Enfim, no cotidiano, para onde quer que se olhe, a Matemática estará envolvida”.

BrenoCB Via Instragram

“Quando penso em Matemática, a primeira coisa que me vem à mente é o tempo da escola. Naquela época, eu não era muito boa na disciplina. Hoje, ela sempre aparece nas pequenas coisas: afinal, quando nos programamos para fazer algo, isso exige pensamento matemático. No mais, trabalho com produção,

Frederico Vieira, engenheiro de computação Entrevista ao programa Ondas da Ciência

MINAS FAZ CIÊNCIA tem por finalidade divulgar a produção científica e tecnológica do Estado para a sociedade. A reprodução de seu conteúdo é permitida, desde que citada a fonte. MINAS FAZ CIÊNCIA • MAR/ABR/MAI 2017

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ENTREVISTA

Jogos para a vida Especialista em gamificação, Ronaldo Gazel comenta uso de tecnologias lúdicas para aprimoramento de atividades em áreas como gestão e educação Téo Scalioni

Quem acredita que games são equipamentos restritos ao universo de crianças e adolescentes deveria rever os próprios – e ultrapassados – conceitos. Hoje, a gamificação – ou gamefication, no termo em inglês – é uma realidade, usada por organizações e indivíduos com vários e diferentes objetivos. Sim, o crescimento do uso de jogos em resoluções de problemas tem sido exponencial! Que o diga a enorme quantidade de trabalhos realizada, Brasil afora, pelo professor e palestrante Ronaldo Gazel, especialista em inovação e interatividade e proprietário da Gaz Games. Referência em novas tecnologias, ele é bastante convidado a falar sobre o desenvolvimento de experiências disruptivas, focadas em advergaming, ludificação e tecnologias emergentes – como realidade mista (Mixed Reality) e “internet das coisas”. Nesta conversa com MINAS FAZ CIÊNCIA, Gazel reforça a ideia de que os games são fundamentais à ressignificação de modelos já ultrapassados de gestão em empresas. Além disso, destaca que a ga-

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mificação, embora já existisse há bastante tempo, ganhou força nos últimos anos, e pode ser usada, até mesmo, para educação de crianças. Hoje, fala-se muito em gamificação. Que conceito define tal prática, usada tanto no mundo corporativo quanto no dia a dia das pessoas? Gamification, ou gamificação, é, basicamente, um rótulo. Hoje, o mundo está cheio de rótulos, criados e eliminados em enorme velocidade. Por isso, não se pode ficar muito preso à semântica do termo. Diria que se trata de palavra que surgiu naturalmente, porque, antes de se popularizar, já era usada. Cito como exemplo o universo educacional, que, explicitamente, tem elementos da gamificação, pois tudo se baseia em pontuação. Normalmente, você tem 100 pontos no ano, e, como se fosse um game, há a meta de alcançar algo acima de 60 pontos. Muitos podem considerá-lo um game meio chato, mas existem, nele, elementos da gamificação. Pode-se abor-

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dar vários outros aspectos, como o score de um correntista de banco e os sistemas de pontuação com milhagens ou de recompensas em geral, usados por uma série de empresas. Tudo isso se relaciona aos jogos. Trata-se, basicamente, de um processo catártico, no qual você propõe uma experiência à pessoa, que não necessariamente será 100% prazerosa. Pode haver, até mesmo, dor – no sentido de a pessoa se sentir desafiada, por ter que se esforçar, ou mesmo sofrer um pouco, para conquistar seus objetivos. Contudo, que, ao final, ela seja recompensada. No Dotz [programa de fidelização], por exemplo, você ganha pontos para, um dia, trocar por algo. No entanto, minha impressão é de que esses modelos mais antigos não são suficientes para as atuais demandas por gamificação. O que mudou? Existe o que se pode chamar de “gamificação moderna”? Vários recursos modernos possibilitam atrair mais a atenção das pessoas. Como no advergame, em que há uso das


Divulgação

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“[Gamificação] é um processo catártico, no qual você propõe uma experiência à pessoa, que não necessariamente será 100% prazerosa. Pode haver, até mesmo, dor – no sentido de a pessoa se sentir desafiada, por ter que se esforçar, ou mesmo sofrer um pouco, para conquistar seus objetivos. Contudo, que, ao final, ela seja recompensada”.

mecânicas dos jogos para trabalhar um produto específico, numa campanha de marketing. Isso já existia antes do termo gamificação. Nos anos 1990, também na área da educação, as pessoas passaram a ter acesso a CD- ROMs multimídia, com jogos para aprender espanhol ou inglês, com storytelling e personagens que ajudam nos objetivos educacionais. Ou seja, não estou trazendo a gamificação, em primeira mão, a vocês, pois ela já existia. As pessoas, porém, nunca haviam lidado com isso. O que quero dizer é que todos esses movimentos foram consolidados, e, em 2010, uma designer americana, chamada Jane MCGonigal, fez um TED [famoso modelo de apresentação de palestras], em que analisou o tempo que as pessoas levavam para jogar World of Graphs e o comparou ao tempo de construção de toda a Wikipédia. Parece que, em três ou quatro semanas, devido ao engajamento das pessoas, era possível construí-la. Acredito que, assim, ela pôde jogar na cara das pessoas o quanto sabemos sobre como os jogos engajam, mas, quando vemos os números, nos assustamos. Ela nos propôs a convocação das pessoas, em um movimento – que serve de ressignificação dos jogos – para outros ramos, em quaisquer áreas de atividade humana. Em outros termos, ela propõe o uso dos recursos dos jogos para o bem, pois, se você olhar direito, a gamefication é um prato cheio para o mal. Afinal, também pode ser usada para manipular alguém. Como assim? Poderia citar exemplos? Há várias maneiras, pois o poder de engajamento da gamificação é muito grande. É possível, por exemplo, estimular as pessoas a consumir cada vez mais produtos. Ou influenciar a própria natureza do universo onde o game está sendo jogado, de maneira a mudar cidades e/ou empresas. E o que dizer da manipulação de crianças? Como exemplo de algo fictício, pense numa promoção segundo a qual, para ver um novo episódio de algo, ou passar às novas fases de um jogo de RPG, você precisará comprar novas caixas de sucrilhos. Cria-se, assim, uma gamificação, mas os

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mecanismos não são muito legais. A China, por exemplo, estava com um plano de gamificação institucionalizada pelo governo. Isso culminará, na certa, em problema, pois a gamificação deve estimular a autoinserção. Ela não pode ser obrigatória. A pessoa tem que entrar por vontade própria. Se um governo, ou uma empresa, passa a obrigar ao uso, não há mais um jogo. Pode-se desconfiar, pois coisa boa não é. A Über começou a usar ferramentas de gamificação com os seus motoristas, de maneira a desafiá-los e a incentivá-los a bater certas metas. No entanto, nada é obrigatório. Participa, apenas, quem quiser. E como outras empresas têm usado a gamificação? Como se trata de processo novo, as empresas não querem se arriscar muito, justamente, devido ao caráter emergente da tecnologia. Elas têm procurado usar gamificação para ações pontuais, como um treinamento específico, uma mudança de gestão ou de software. Em vez de um diretor falar das vantagens de um novo sistema em PowerPoint, entra a gamificação. As organizações têm buscado humanizar o processo, por compreender que sua sobrevivência depende dessas mudanças. Não há mais suporte para os próprios funcionários contemporâneos que não conseguem manter o padrão e cumprir as tarefas repetidas. Antigamente, havia a perspectiva de prosperidade em ficar na mesma empresa por 15 ou 20 anos. Hoje, não temos perspectivas nem para um ano, e muito menos para cinco. Antes, há 30 ou 40 anos, o paradigma de tecnologia dessas pessoas resumia-se à máquina de escrever; depois, ao computador de tela verde. Hoje, tudo mudou. Vemos se descortinar, à nossa frente, a timeline do Facebook, onde amigos postam as últimas novidades da robótica e/ou da tecnologia. Hoje, os seres humanos se revelam bastante ansiosos, e, ao mesmo tempo, entediados, com tendência à depressão. Nesse cenário, entra a gamificação, que não mais dissocia a vida do trabalho. Afinal, não há como ligar chaves on e off para momentos de criatividade e prazer. Por isso, as empresas têm encon-


trado, na gamificação, uma forma de vivenciar o período de trabalho como se algo natural à vida. Os jogos têm, justamente, a capacidade de fazer com que o jogador, em segundos, se situe em todo o processo. Mas como tudo isso funciona na prática? O funcionário não precisa analisar relatórios, e-mails e conferir tabelas. Por meio do jogo, ele perceberá a quantidade de crescimento e de vitórias conquistadas. O game permite, ainda, o estímulo à capacidade de o indivíduo se motivar para agir imediatamente. Ele entra, olha suas conquistas e compreende tudo melhor. E liga o jogo, ao entrar no trabalho, como se fosse algo bom. Outro ponto se refere à relação da falta de perspectivas futuras, de “coisas” mais organizacionais à gestão de tarefas e de horas de trabalho. Isso tem dado muito resultado. Algo interessante ocorre em relação às perspectivas dentro da empresa, no que diz respeito a cargos e salários. As pessoas sempre escutam algo sobre isso. Mas, em 99% das vezes, nada acontece. Você está dentro de uma empresa e tem, no máximo, três ou quatro níveis – coordenador, gerente, diretor –, e as coisas não são muito claras. Você não sabe direito a jornada e o trajeto a ser percorrido para chegar a essas vagas. Tudo é obscuro e a gente continua a viver numa boa. Ninguém parou para falar “Gente, puxa o freio de emergência, vamos ressignificar a jornada toda, pensar direito, criar rótulos para perspectivas ainda não consolidadas”. A pessoa quer crescer na empresa, quer seguir a determinados caminhos, compreender as ramificações. E como entra a gamificação nesse universo? Imagine o Super Mario Bros, um clássico dos games. Nele, há um mapa, que é ótima maneira de ter feedback de algo, e conhecer fases já vencidas. As empresas têm começado a investir nisso: criam mapas, desenham territórios a serem conquistados e transformam aquilo em fases de jogos, com metas, comportamentos e valores muito específicos, para que tudo faça mais sentido. Em meio àquele caos todo, a gamefication organiza as coisas. Resultado? A pessoa se sente bem em um mundo bem menos confuso.

De que modo as pessoas podem usar a gamificação em sua vida pessoal? Conforme falei, trata-se de um movimento que se tornou visível há cerca de três anos, mas, agora, parece, também, tangível. Hoje, há programas com os quais é possível organizar jornadas muito específicas para, por exemplo, emagrecer ou parar de fumar. Você deve aprender a desconstruir muito bem as desmotivações e os desafios, com muita clareza, e não varrer nada para debaixo do tapete. Além disso, deve saber o que é bom e ruim. Quais comportamentos você deseja estimular ou eliminar? A partir disso, o game te ajudará. Tudo isso pode estar numa interface web, em um sistema de pontuação, ou, para deixar tudo mais interessante, numa experiência transmídia. Você pode criar macrocondicionamentos, ou, mesmo, autobloquear seu Gmail, caso não consiga cumprir determinada meta ou tarefa. As pessoas têm que ter consciência das motivações, do que pretendem e de até onde conseguem chegar. Falo, portanto, de uma leitura da própria zona de conforto. E no que diz respeito às crianças? Com elas, é tudo mais legal, pois você pode abstrair muito. Para as crianças, até um dinossauro voador faz sentido. Fizemos um projeto de gamefication para emagrecimento. E a experiência se revelou muito interessante, pois funciona da seguinte forma: tudo é metaforizado em um ambiente espacial, numa espécie de Star Wars, em que a própria criança tem a responsabilidade de gerar suas atividades, mas sempre acompanhada de um profissional de saúde, devidamente cadastrado. Além disso, os pais também têm uma interface para acompanhar o processo. No game, há estrelas e cometas. As estrelas são pontos, trocáveis por alimentos, de modo a que você componha a dieta. Já os cometas são atividades físicas, revertidas em estrelas. A criança pode comer, até mesmo, um McDonald’s, caso tenha a quantidade de estrelas para tal. Assim, o participante é estimulado a fazer as atividades físicas, a receber cometas e os converter em estrelas. Com o celular, faz-se

check-in nos estabelecimentos pré-cadastrados, como academia e aula de natação. Como inserir, na gamificação, pessoas distantes da tecnologia? Indivíduos com mais de 50 anos, por incrível que pareça, formam a faixa etária mais interessante para aplicar a gamefication, pois, geralmente, têm mais tempo livre para jogar. O perfil de quem não gosta de tecnologia nada tem a ver com idade. Há pessoas com 20 anos que também não têm afinidade, nem prazer, com games. Por isso, antes de lançar um jogo, é preciso compreender o perfil do usuário e sua persona. Assim, consegue-se balancear atributos, para que o jogo se torne atrativo. Ao invés da tela de um computador, pode-se usar um jogo de tabuleiro, que, no geral, é amado por jovens e velhos. A gamificação, enfim, é uma forma de gerir problemas e soluções, sob a ótica dos jogos, e não há, portanto, necessidade de sempre recorrer às novas tecnologias.

“Hoje, os seres humanos se revelam bastante ansiosos, e, ao mesmo tempo, entediados, com tendência à depressão. Nesse cenário, entra a gamificação, que não mais dissocia a vida do trabalho. Afinal, não há como ligar chaves on e off para momentos de criatividade e prazer. Por isso, as empresas têm encontrado, na gamificação, uma forma de vivenciar o período de trabalho como se algo natural à vida. Os jogos têm, justamente, a capacidade de fazer com que o jogador, em segundos, se situe em todo o processo”.

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economia

Inovação compartilhada Dissertação investigou determinantes regionais e estruturais das ligações nacionais e internacionais que formam redes de copatenteamento no Brasil Vivian Teixeira Uma nova tecnologia, um produto ou um processo inovador: qualquer desses itens pode ser registrado por meio de patente. Tal caminho assegura que o inventor tenha direito de exclusividade no comércio e na industrialização de seu invento por meio de uma Patente de Invenção (PI). Também há a possibilidade de requerer o registro em caso de melhorias ou de fabricação de objetos de uso prático, como utensílios e ferramentas, sob a alcunha de patente de Modelo de Utilidade (MU). Há alguns anos, havia, em torno das invenções, certa aura misteriosa, vivida, de forma solitária e isolada, por cientistas e instituições. O trabalho demandava longos anos de pesquisa, infraestrutura adequada e disponibilidade para realizar experimentos e testes. Hoje, a preocupação com a proteção do conhecimento é grande, mas existe outra ótica: trabalhar de forma colaborativa. A formação de redes de copatenteamento é uma das alternativas. Enquanto uma instituição se mobiliza em várias frentes, uma rede potencializa o esforço e reduz o tempo do processo. A estudante Raquel Reis ousou explorar o tema em sua dissertação de mestrado, intitulada “Redes de copatenteamento no Brasil: determinantes regionais e estruturais das ligações nacionais e internacionais”, defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Economia (PPGE) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). A pesquisa contempla as ligações entre agentes em geral, e não apenas entre pesquisadores e empresas. O trabalho considerou que redes sociais de colaboração podem ser localizadas por meio da identificação de colaboradores (coinventores), durante a produção de patentes. “Com o trabalho, foi possível identificar se a mesma patente teve participação de um inventor originário de São Paulo e outro de Minas Gerais, e, até mesmo, se houve

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participação de inventores internacionais”, explica a pesquisadora. Segundo Raquel Reis, as Redes são formadas por nós e laços – sendo os “nós”, neste caso, as regiões brasileiras de onde se originam as instituições (empresas, universidades e agentes) –, enquanto as ligações se referem à união entre os atores, durante o copatenteamento. Para o pesquisador Eduardo Gonçalves, professor da Faculdade de Economia da UFJF e orientador da dissertação, a pesquisa da Raquel destaca a colaboração entre regiões no processo inventivo. “O trabalho mostra que a colaboração tem crescido em função da complexidade tecnológica das novas invenções, dentre diversos outros fatores. Essa complexidade demanda interações entre agentes/instituições, para suprir competências técnicas necessárias às invenções contemporâneas”, afirma. Por meio do estudo, foi possível mapear as regiões que se destacaram (veja tabela ao lado). Quando se observam as 15 cidades com maior número de ligações de região por patentes no Brasil, aparecem quatro cidades mineiras: Itabira, Lavras, Viçosa, Congonhas e Caratinga. Quando consideradas as ligações com agentes brasileiros e estrangeiros, aparecem os municípios de Lavras, Viçosa, Alfenas e Belo Horizonte. Quando o olhar é lançado ao número absoluto de patentes produzido, apenas Belo Horizonte surge entre as 15 primeiras, quando se consideram as ligações nacionais, e, também, as brasileiras e estrangeiras.

Regiões econômicas

Para identificar as convergências, o estudo explorou 482 regiões do Brasil e usou metodologia que necessitou, primeiramente, de informações organizadas em sua região de origem. Os dados foram recolhidos junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), à Relação Anual de Informações Sociais (Rais), à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Assim, pôde-se construir uma base de dados longitudinal para o período 2001-2011.

Ranking das 15 regiões brasileiras com mais ligações por patentes (2001-2011) A tabela inclui a análise do número de ligações da região por patentes geradas em colaboração.

Regiões de influência das cidades (Regic)

Nº de ligações internacionais por patentes locais

Regiões de influência das cidades (Regic)

Nº de ligações internacionais por patentes locais

Itabira (MG)

545,0

Lavras (MG)

42,0

Lavras (MG)

347,0

Macaé (RJ)

8,5

Manaus (AM)

177,8

Viçosa (MG)

5,7

Viçosa (MG)

172,0

Guaratinguetá (SP)

4,3

Aracaju (SE)

169,8

Nova Prata (RS)

4,0

Congonhas (MG)

143,0

Alfenas (MG)

4,0

Ponta Grossa (PR)

127,0

Rio Verde (GO)

3,7

Santa Maria (RS)

126,0

Joinville (SC)

3,5

Ilhéus (BA)

124,0

Salvador (BA)

3,2

10º

Macaé (RJ)

102,0

Limeira (SP)

2,7

11º

Rio Claro (SP)

101,5

Araraquara (SP)

2,2

12º

São Luís (MA)

93,5

Belo Horizonte (MG)

2,2

13º

Caratinga (MG)

90,0

Campinas (SP)

2,1

14º

Campina Grande (PB)

88,0

São Carlos (SP)

2,0

15º

Piracicaba (SP)

66,0

Cruzeiro (SP)

2,0

43%

Percentual 15 primeiros

68%

Total de ligações na

5737

135,2

rede

Fonte: Elaboração própria

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A pesquisadora explica que, posteriormente, realizou-se análise exploratória dos dados no espaço, técnica desenvolvida pela econometria espacial. O método usa procedimentos que possibilitam investigar a dependência dos dados no espaço, onde eles se inserem, assim como entender a influência de regiões vizinhas para o desempenho da região – o que torna possível averiguar de que modo os dados se aglomeram, isto é, se criam clusters. Numa última etapa, as estimativas foram realizadas por meio de técnicas de painel de dados, por meio do software Stata, e as medidas da rede pelo software Gephi. Raquel destaca que esses programas de econometria espacial e de redes conseguem incorporar dados geográficos, a exemplo da distância entre os agentes. Além disso, o Stata se revela, no ver da pesquisadora, como software de fácil acesso e bem usado na área. Na visão de Eduardo, a etapa de análise do banco de dados apresentou-se como uma das dificuldades do processo. “Foi um desafio conseguir acesso à base de dados e recuperar informações relativas aos inventores, como ter certeza da cidade onde moravam e garantir a uniformização de nomes e CPFs envolvidos, para correta tabulação junto ao programa estatístico Stata”, esclarece. Raquel explica, ainda, que o enigma dizia respeito à possibilidade de conseguir identificar as ligações durante a produção da patente, pois os dados podem chegar sem certas informações. Neste sentido, fez-se um esforço para não perder dados. “Precisamos complementar, na internet, informações como o número da patente, que se refere à localização dos seus inventores. Outra dificuldade foi conseguir montar as redes adequadamente, para contabilizar cada agente e identificar, uma única vez, sua região de origem”, detalha.

Possibilidades

O trabalhou mostrou que a formação de redes de copatenteamento pode fortalecer as invenções por meio de competência técnica diversificada reunida na equipe, conforme já ocorre em países como Estados Unidos, Alemanha, França, Itália e

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Na área industrial, podemos entender como cluster a concentração de instituições diversas (empresas, órgãos de fomentos, universidades), que se comunicam por possuir características semelhantes e coabitar certo local. Elas colaboram entre si e se tornam mais eficientes. Japão. De acordo com Eduardo, para que o Brasil avance, é preciso de políticas públicas voltadas à inovação, que contemplem agências públicas como a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) e as Fundações de Amparo à Pesquisa, dentre outras. “É preciso fortalecer tais agências com programas que não sejam descontinuados. E com orçamentos compatíveis ao desafio de galgar degraus na competição tecnológica, como todos os grandes países desenvolvidos e emergentes o fazem”, acredita. Para o pesquisador, há entraves clássicos à interação entre os diversos agentes envolvidos. Ele acredita que a Universidade pode ter agenda de pesquisa diferente da indústria, mas há vários casos de sucesso que poderiam ser reproduzidos. “A lei da Inovação, recentemente, avançou no sentido de facilitar a interação pesquisador-empresa. Vejamos se trará resultados concretos”, pondera. Uma das iniciativas que podem contribuir para a aceleração desse processo é o incentivo a Redes de Pesquisa em diversos níveis. A Rede Mineira de Propriedade Intelectual (RMPI) é apoiada pela FAPEMIG – no âmbito do Programa de Apoio a Redes de Pesquisa Científica, Tecnológica e de Inovação –, voltado, justamente, ao incentivo da criação, da manutenção e do fortalecimento de redes de pesquisa científica, tecnológica e de inovação no Estado. Para o coordenador geral da RMPI, Rodrigo Gava, a Rede apresenta um diferencial: sua principal missão não se relaciona diretamente ao esforço científico ou ao efetivo avanço no desenvolvimento tecnológico. “Ela também atende às demandas das demais redes, uma vez que mantém presença por meio dos Núcleos

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de Inovação Tecnológica (NITs) das Instituições Científicas e Tecnológicas (ICTs) que fazem parte da RMPI, todas presentes em Minas Gerais, em um total de 26 membros afiliados”, explica. A RMPI atua em conjunto com os principais atores voltados ao estímulo e ao apoio à inovação no estado, como Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig), Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), FAPEMIG, Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais (Indi), Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Sedectes) e Sebrae/MG, por meio de ações voltadas ao desenvolvimento do Ecossistema Mineiro de Inovação. Para seu coordenador, a RMPI busca, por meio da oferta de cursos, treinamentos e parcerias, auxiliar a definição de políticas de proteção intelectual, a implantação dos núcleos de inovação tecnológica, a capacitação de recursos humanos, aptos a atuar na gestão da proteção do conhecimento, e a transferência de tecnologia. Ele lista iniciativas que o trabalho em rede proporcionou na Universidade Federal de Viçosa (UFV). “Temos casos de vacinas que são exemplos de codesenvolvimento com empresas privadas, em cuja titularidade também consta a FAPEMIG, pelo apoio às fases iniciais das pesquisas. Há, também, a maior rede de pesquisas [de melhoramento genético] para desenvolvimento de novas cultivares de cana para o setor sulcroalcooleiro”, cita Rodrigo.


saúde

Alcoolismo é questão de gene Resultados de pesquisa apontam novas possibilidades de tratamento para o vício Mariana Alencar

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Tomar uma cerveja com os amigos no fim do expediente é prática comum do brasileiro. Entretanto, o hábito esporádico do consumo de bebidas alcoólicas pode fazer com que a prazerosa ação de socialização se transforme, com o tempo, em um vício bastante perigoso. Compreender a predisposição dos indivíduos ao alcoolismo é essencial para que a população e os profissionais da saúde se articulem em relação ao consumo de álcool. Baseado em tal necessidade, um grupo de pesquisadores do Laboratório de Genética Animal e Humana, ligado ao departamento de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com a Universidade Federal da Bahia (Ufba), tem buscado traçar a relação entre a dependência em etanol e a predisposição genética do indivíduo. Para investigar o que leva uma pessoa a perder o controle sobre o consumo de álcool, a partir do delineamento dos mecanismos genéticos e moleculares intrínsecos ao vício, a pesquisa, ainda em fase inicial, já apresenta resultados satisfatórios. Coordenadora do estudo, a professora Ana Lúcia Brunialti Godard explica que a primeira etapa da pesquisa, realizada com camundongos, mostrou relação direta entre o material genético da espécie e a dependência alcoólica. Com foco no fenótipo de uso abusivo de álcool – termo empregado para designar as características apresentadas por um indivíduo, sejam elas morfológicas, fisiológicas e comportamentais –, os pesquisadores conseguiram evidenciar que há uma via biológica, a LRRK2, encontrada no cérebro dos camundongos, que está envolvida com o processo de dependência (ou “adição”, vocábulo usado pelos pesquisadores). Em linhas gerais, a metodologia do estudo teve, como base, uma abordagem direcionada. Ou seja, foi escolhida uma via biológica específica – sendo que cada uma é composta de determinados genes, com funções distintas –, a qual, a princípio, não

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tinha relação com o álcool. “O objetivo era procurar uma rota cuja relação com o alcoolismo ainda não houvesse sido detectada, por meio do estudo de uma via sem aparente relação com a adição ao etanol”, afirma a professora do departamento de Biologia Geral do ICB. Na primeira etapa da pesquisa, realizada em 2016, a equipe coordenada pela pesquisadora expôs 80 camundongos, durante 16 semanas, a um modelo de livre escolha entre três soluções: com água; e com concentrações alcoólicas de 5% e 10%. Posteriormente, o modelo foi dividido em quatro fases: de aquisição, em que animais ficaram expostos às soluções; de abstinência, com a retirada das duas opções alcoólicas; de reapresentação, quando a bebida foi novamente oferecida aos animais; e de adulteração com quinino, com a oferta de substância de gosto amargo. A partir da observação comportamental, diante da exposição ao modelo,

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classificaram-se os 80 camundongos em três grupos diferentes. O primeiro compunha-se de animais que preferiram a água durante as 16 semanas do experimento. O segundo correspondia àqueles cuja preferência pelo etanol diminuiu significativamente após a adulteração da bebida. Por fim, os animais do terceiro grupo demonstraram preferência constante pelo etanol, ainda com adulteração do sabor da solução etílica. Após a categorização dos camundongos, os pesquisadores buscaram identificar o que haveria de diferente no RNA de animais dependentes, ou não, de álcool, a partir do uso de parte do cérebro responsável pela formação de hábito na espécie. Diante desse mapeamento, observou-se que os genes constituintes da via LRRK2 estavam desregulados entre os diferentes grupos de animais. Desse modo, a “via” tornara-se o importante substrato molecular responsável pela consolidação do consumo compulsivo, e sem controle, de etanol. A primeira etapa da pesquisa foi finalizada em meados do ano passado. Agora, os pesquisadores têm novos desafios para consolidar a pesquisa, com o objetivo de realizar o tratamento terapêutico e farmacológico dos dependentes de álcool. Para isso, novas etapas do estudo estão em andamento. Uma delas é a verificação da via LRRK2 em peixes chamados “zebrafish”, mais conhecido como “paulistinha”. A metodologia usada para essas espécies assemelha-se àquela empregada no experimento com camundongos. Os resultados encontrados nos peixes foram tão positivos quando no estudo com roedores. Ou seja, assim como em camundongos, os experimentos com zebrafish também apontaram a presença do LRRK2. “Nessa etapa, trabalhou-se com um conjunto de animais submetidos ao álcool durante 16 semanas. Depois de uma série de testes comportamentais, verificaram-se quais possuíam, ou não, preferência por etanol. Assim, identificou-se que o

LRRK2 é o gene importante no fenótipo da dependência ao álcool, assim como ocorreu com os camundongos”, explica a coordenadora do estudo.

Verificação em humanos O grande desafio dos estudos de Ana Lúcia e de sua equipe é verificar como se dá a relação entre genética e alcoolismo em seres humanos, para que diagnóstico e prognóstico sejam desenvolvidos de maneira efetiva. Em parceria com a Universidade Federal da Bahia, os pesquisadores caminham em direção a uma resposta concreta. As etapas iniciais do estudo demonstraram que o caminho percorrido pelos pesquisadores está correto, e é aparentemente promissor, uma vez que a via biológica verificada nos camundongos e peixes nunca havia sido relacionada ao uso abusivo de etanol. Portanto, ela pode ser considerada uma nova possibilidade de entendimento e de ações de prevenção junto à população. Entretanto, para que se possa demonstrar tal envolvimento, são necessários estudos de epidemiologia genética, que busquem a associação genética entre os vários genótipos – termo que se refere à constituição genética do indivíduo – evidenciados na via LRRK2 e o fenótipo de interesse em humanos. O cruzamento dos determinantes genéticos em fenótipos definidos, baseados em consenso internacional, representa uma das prioridades de investigação para compreensão das causas do alcoolismo. Ana Lúcia explica que as evidências serão melhor compreendidas a partir do teste em humanos, que já tem sido realizado. Na etapa atual do estudo, indivíduos foram selecionados para responder a questionário sobre uso abusivo de etanol. “Recorremos a uma população-teste (pessoas que usam álcool de forma não controlada) e uma população-controle (indivíduos que não consomem abusivamente), para ver se há associação não alea-

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tória entre genética e dependência”, explica. A professora adianta que, até o momento, observa-se que os indivíduos de extremos – ou seja, que apresentam grande dependência ao etanol – têm o gene LKRR2. “Agora, queremos compreender o que leva o indivíduo a perder o controle sobre o consumo de álcool, e, a partir daí, apresentar alternativa preventiva em relação ao vício. É necessário que se identifique um alelo do gene, para que possamos trabalhar a possibilidade de tratamento, de prevenção ao alcoolismo, e, até mesmo, à compulsão. Só assim é que poderemos pensar em elaborar novo protocolo de medicação para esses casos”, esclarece.

Cenário preocupante Apesar de suas consequências legais, econômicas e sociais, o consumo excessivo e descontrolado de drogas, em particular, do álcool, é um dos principais fatores de risco para mortalidade precoce e incapacidade na população mundial. Estudo divulgado recentemente pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) mostra que o Brasil é o terceiro país das Américas em mortes de homens causadas pelo álcool. O documento também revela que o consumo de bebidas resultou, apenas em 2012, em mais de 300 mil mortes nas Américas, número que excede a população de muitas nações do Caribe, por exemplo. Isso significa que, em média, o álcool levou a cerca de uma morte a cada 100 segundos no continente americano. No Brasil, a taxa de mortes atribuíveis ao álcool – ou seja, que ocorreram porque a referida substância estava envolvida – foi de 11,7 a cada 100 mil habitantes entre mulheres, e de 73,9 entre os homens, o que representa, respectivamente, quedas de cerca de 5% e aumento de mais de 20% em relação a 1990. A partir de uma estratificação etária, os números relativos ao uso abusivo do etanol tornam-se ainda mais preocupantes. Estudos epidemiológicos sugerem que 19% dos adolescentes norte-ame-

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ricanos abusam do consumo de álcool. Os dados brasileiros são mais escassos e indicam haver características regionais quanto ao uso de bebidas. A se considerar o uso na vida, segundo o “Levantamento domiciliar sobre o uso de drogas psicotrópicas no Brasil” (2001), em 107 grandes cidades do País, a prevalência foi de 48,3% entre jovens de 12 a 17 anos. No estudo, a prevalência de dependência ao álcool ficou em 5,2%. Os dados verificados evidenciam a urgente necessidade do desenvolvimento e da implantação de políticas públicas que visem a tratar e a acolher os pacientes. É necessário, também, o desenvolvimento de estudos que possam esclarecer os mecanismos intrínsecos à perda de controle sob a droga, uma vez que, no cenário brasileiro atual, ainda há muito desconhecimento sobre os aspectos que levam à dependência e à compulsão com relação às drogas – principalmente, ao álcool. Ana Lúcia Brunialti Godard acredita que a descoberta e a compreensão dos mecanismos genéticos intrínsecos ao vício e ao uso abusivo da substância serão importantes para políticas de diagnóstico, tratamento terapêutico e prevenção.

Para além do alcoolismo Outro ponto a ser averiguado pela pesquisa diz respeito à relação entre comportamentos alimentares compulsivos e genética. Isso tem sido feito na UFMG, por meio do uso de camundongos nos experimentos. Ainda em etapas preliminares, já se observa que o mecanismo molecular de compulsão por alimento tem similaridade ao do abuso de drogas – no caso, de etanol. De acordo com Ana Lúcia, a partir da posse das informações referentes aos alelos de LRRK2 predisponentes, será possível investir em trabalho de prevenção do comportamento compulsivo. Com base em tais informações, haverá melhor entendimento sobre a compulsão alimentar, e, também, sobre alvos para tratamento medicamentoso mais eficientes.

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Projeto: Alcoolismo – Validação de um modelo animal de dependência etílica Coordenadora: Ana Lúcia Brunialti Godard Instituição: Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Chamada: Demanda Universal Valor: R$ 45.293,72


inovação

Na onda do cashback Startup Méliuz desenvolve tecnologia para reembolso de dinheiro a clientes

Téo Scalioni

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Já imaginou ir a uma sorveteira, consumir, não pagar e, ao final, ainda ganhar por isso? Pois é! Além de possível, tal cena tem se tornado prática comum em certos estabelecimentos comerciais espalhados pelo Brasil. Esse novo tipo de comércio acontece graças a um modelo que envolve tecnologia, fidelização e marketing. A política do “ganha-ganha-ganha” é boa para todos: estabelecimento, cliente e um “terceiro ator”, responsável por realizar a ponte nas negociações. Trata-se de uma empresa de inovação, que consegue viabilizar, propagar e controlar a operação. No caso aqui analisado, a startup mineira Méliuz é a companhia precursora desse modelo de negócio, que envolve o chamado cashback (“dinheiro de volta”, em tradução livre). Por meio dele, a pessoa que compra diretamente de um estabelecimento parceiro da empresa recebe, por meio de uma plataforma – antes, um aplicativo; agora, máquinas em lojas físicas –, parte do dinheiro de volta, devidamente depositado em conta corrente. Em resumo: a startup repassa parte da comissão que recebe de volta aos consumidores. O programa de recompensa deu tão certo que, apenas no ano passado, a empresa alcançou a marca de R$ 1 bilhão em vendas realizadas por seu canal, devolvendo outros R$ 27 milhões aos clientes. A Méliuz foi criada por Ofli Guimarães e Israel Salmen, que se conheceram na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (Face/UFMG). Com espírito empreendedor, tornaram-se sócios de outras empresas, até que, em 2011, tiveram a ideia da inovação e criaram a Méliuz. A startup surgiu da insatisfação de ambos – assim como de outros milhares de clientes – com programas de fidelização, das milhas aéreas ao acúmulo de pontos para troca por produtos. Os dois perceberam a dificuldade, para o consumidor, em fazer o resgate. No fim do processo, seus ganhos expiravam e/ou se perdiam. Decidiram, então, investir em algo mais prático e menos burocrático, para compensar o cliente e devolver dinheiro, a ele, em sua conta. “Percebemos que a dor não era apenas nossa. As pessoas juntavam pontos e, depois, tinham que tentar vendê-los. Foram criadas empresas para intermediar tal processo. Simplificamos

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o processo, e recompensamos o cliente de forma rápida, com dinheiro”, esclarece Ofli, ao reforçar que, pela conta no aplicativo, o cliente pode conferir seu extrato completo, e, quando chegar a R$ 20, resgata o dinheiro quando quiser. O empresário reforça que o cashback não se refere a promoção, mas, sim, a dinheiro devolvido. Neste sentido, se a pessoa chegar a um estabelecimento e pedir o “desconto” anunciado na Méliuz, não conseguirá nada. Para isso, é necessário ter conta no aplicativo, para fazer a compra, e, em seguida, o resgate. “O retorno do dinheiro é feito por nossa plataforma”, afirma Ofli, ao reforçar, também, a importância da fidelização, já que quase 100% dos usuários voltam a comprar na mesma loja. Ao todo, hoje, mais de 2 milhões de pessoas usam a plataforma. Além disso, há cerca de cinco mil lojas e estabelecimentos conveniados. Ofli lembra que, no começo, tinha dificuldade em fechar a parceria com as lojas. Por isso, o trabalho foi de porta em porta, até que alguns parceiros – como as Lojas Americanas, a Giuliana Flores e a Ingressos.com – acreditaram no negócio. Agora, os empreendimentos é que procuram a Méliuz. Os empresários, então, negociam o valor em dinheiro a ser devolvido, e a promoção é lançada. “Hoje, temos vários tipos de estabelecimentos, como redes de supermercados, lanchonetes, academias, sorveterias e postos de gasolina, dentre outros”, exemplifica.

Loja física

A Méliuz iniciou seu negócio apenas de forma online, por ser mais rápido, fácil de testar e barato. Hoje, porém, há um atalho para crescer e chegar ao mundo físico. A partir de 2016, a empresa passou a atuar no varejo, com um supermercado, e, agora, investe pesado em Belo Horizonte e São Paulo – tanto que, na capital paulista, já são cerca de 40 colaboradores a difundir o negócio. Agora, um dos objetivos da empresa é entrar com força no varejo físico. Em tais estabelecimentos, a operação funciona da seguinte maneira: o consumidor pede para pagar as compras com a máquina de cartão do Méliuz. O equipamento opera normalmente, para crédito e débito, com todas as bandeiras. Após a conclusão do pagamento, basta digitar o número do

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celular e, no comprovante, aparece o valor devolvido na transação. Outra novidade é que, com o aplicativo, a pessoa consegue ver, online, em um mapa, os lugares mais próximos dela a aceitar o Méliuz. Se precisar abastecer o carro, por exemplo, basta procurar o posto de gasolina parceiro. Outra questão que também tem ajudado a divulgar a Méliuz são os supercashbacks. Como já abordado aqui, trata-se do momento em que o estabelecimento oferece desconto de 100%, ou de valor maior do que o próprio preço da venda. Assim, você vai a uma sorveteria, gasta R$ 10 e pode receber, de crédito, em sua conta Méliuz, o equivalente a R$ 12. Bem... Mas qual a vantagem de promoções em tais moldes? “Elas são muito boas para lojas novas, que estejam começando e precisam ser conhecidas. Os comerciantes querem que as pessoas saibam de sua existência. Nada melhor, pois, que uma campanha dessas”, explica Ofli. Segundo o empresário, trata-se, em resumo, de nova maneira de divulgação: ao invés de investir em propagandas com outdoors, panfletos, com spots na rádio ou na televisão, a empresa investe na promoção inovadora. Assim, consegue chamar a atenção, e o consumidor acaba por conhecer a loja in loco. “A iniciativa gera assunto na mídia, e se espalha, rapidamente, em grupos de WhatsApp, divulgando o estabelecimento. Certas lojas recém-inauguradas dão filas nos dias da promoção”, lembra Ofli, ao observar que, dessa maneira, também é possível mensurar, de forma mais efetiva, os resultados de uma campanha.

Empresa de tecnologia

Atualmente, além de colaboradores em São Paulo e de uma equipe de cerca de 100 pessoas que trabalham na sede da empresa, em Belo Horizonte – divididas entre as áreas comercial, financeira e de marketing –, a Méliuz conta com um Centro de Engenharia e Tecnologia em Manaus, no Amazonas. Isso porque o grupo acredita que aquele estado tem uma das melhores instituições de tecnologia do Brasil – a Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Por lá, são outros 40 colaboradores, que trabalham para sempre

melhorar o desenvolvimento da plataforma e apresentar inovações. No que se refere ao modelo de cashback, a Méliuz detém 95% do mercado brasileiro. A startup se vê como empresa de tecnologia, o que a diferencia de outras que investem em serviço parecido, como grupos de fidelização existentes no mercado. Ofli reforça que, atualmente, a tecnologia não tem limites, e, por isso, vários modelos de negócios estão sendo revistos. O empresário exemplifica com a Über, maior empresa de transporte do mundo, mas que não conta com nenhum carro próprio. Ele acredita que isso também acontecerá com as transações financeiras. “O dinheiro está com os dias contados. A tendência é que as pessoas andem cada vez menos com papel, e passem a fazer tudo com o celular”, diz. Tal tendência pode ser comprovada no próprio resultado obtido pela Méliuz. Ao comparar os anos de 2015 e 2016, a empresa teve aumento de 250% no volume de compras feitas por meio de sua plataforma. Os números devem aumentar, principalmente, com a entrada da empresa em lojas físicas, além do exponencial aumento de estabelecimentos conveniados.

Reconhecimento

Em 2015, a Méliuz recebeu investimento do empresário francês Fabrice Grinda, que atua como investidor-anjo de startups com alto potencial. O investidor foi, também, um dos criadores da OLX e é parceiro da Alibaba e da Über. Também naquele ano, a Méliuz recebeu investimento de outras quatro pessoas, entre as quais, Julio Vasconcellos, do Peixe Urbano. Em 2016, os fundadores do aplicativo Méliuz foram aprovados no 63º Painel Internacional de Seleção (ISP), em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e se tornaram Empreendedores Endeavor. A organização, sem fins lucrativos, contribui para o crescimento de negócios de alto impacto ao redor do mundo – atualmente, 1.233 empreendedores, de 25 países, fazem parte da rede. Em novembro de 2016, a Méliuz foi eleita, por voto popular, como “Startup do Ano” e ganhou o prêmio de Equipe Fundadora, ambos concedidos pela Associação Brasileira de Startups – Startup Awards. MINAS FAZ CIÊNCIA • MAR/ABR/MAI 2017

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energia

Tudo junto (e organizado) Desenvolvida por especialistas da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), rede inteligente integra luz e internet

Luana Cruz

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Rede é um termo muito usado na Modernidade, como metáfora para conexões estabelecidas entre pessoas, computadores, comunidades e países. O que nos facilita compreender tal representação é a possibilidade de enxergar um circuito em funcionamento, com capilaridade e ligações, assim como os cabos que levam energia às casas dos cidadãos. E se fosse possível associar, em uma mesma rede, e de modo sinérgico – em ação coordenada –, dispositivos executores de funções diferentes? A partir do referido desafio, a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) resolveu potencializar o uso das redes instaladas pela empresa, para experimentar a transmissão simultânea de energia elétrica e comunicação de dados em banda larga. Sim: trata-se da possibilidade de, no mesmo cabeamento, transportar internet e luz à casa das pessoas. Para isso, seriam usados cabos condutores especialmente integrados, com fibras ópticas em seu núcleo. Por meio de projeto-piloto, a rede sinérgica já funciona em escala real na

UniverCemig, em Sete Lagoas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A tecnologia é inédita no mundo. Segundo Carlos Alexandre Meireles Nascimento, engenheiro de tecnologia e normalização da Cemig e um dos desenvolvedores do projeto, a vantagem de pôr a fibra óptica dentro do condutor de energia é garantir o acesso à internet junto à expansão da rede elétrica. Isso reduziria em 30% o custo de investimento global em infraestrutura para “levar” a rede mundial às residências. “Hoje, no Brasil, o acesso à banda larga via fibra óptica é muito limitado. Com a nova tecnologia, a tendência é que as operadoras de telecomunicações explorem os ativos da rede elétrica de forma mais inteligente”, comenta. Além disso, a rede inteligente (smart grid, na expressão em inglês) reduz a poluição visual dos postes, que, atualmente, reúnem dezenas de cabos de forma desorganizada. Outro benefício, segundo Carlos Nascimento, é o aumento da eficiência na detecção de falhas, já que, na transmissão

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por fibra óptica, o sinal é transformado em luz. “Qualquer problema na rede será detectado e localizado a distância, na velocidade da luz. Atualmente, se um cabo rompe ou cai sobre a rua, por causa de um acidente, há um tempo para a detecção. Se a fibra óptica estiver no núcleo do cabeamento, identifica-se o ponto de defeito com rapidez”, explica.

Inovação O condutor metálico especial foi construído para manter as mesmas características do tradicional, com variáveis mecânicas e elétricas. Trata-se do chamado cabo sinérgico, com tecnologia OPDC (Optical Distribution Cable), que conta com caráter híbrido (ao unir o circuito metálico à fibra óptica.) “O ineditismo da tecnologia está no fato de que pusemos a fibra óptica na alta tensão. Para isso, desenvolveu-se um isolamento especial. Os chineses, por exemplo, põem a fibra óptica na parte externa do cabo elétrico e levam, juntas, a banda larga e a rede elétrica. Mas essa não é a melhor solução”, detalha Carlos. O projeto de rede sinérgica é uma parceria da Cemig Distribuidora com o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD), a Cemig Telecom e a indústria nacional especializada (Furukawa, Balestro e Workeletro). O projeto foi financiado pelo programa de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e pela FAPEMIG.  Para o CPqD, o projeto é importante devido ao caráter inovador, e, também, por ter envolvido vários interessados no desenvolvimento da nova tecnologia. “O conceito de redes sinérgicas é uma inovação que, no Brasil, transformou-se em realidade graças a iniciativas destinadas a atender às necessidades de mercado”, enfatiza Claudio Antonio Hortencio, pesquisador do CPqD, ao destacar, ainda, a tecnologia de construção do novo cabo. “O acesso às fibras ópticas exige proteção elétrica, por meio de um dispositivo isolador [desenvolvido em parceira

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com a Balestro, empresa de Mogi Mirim (SP)], um dos resultados inovadores do projeto”, afirma. As pesquisas começaram em 2002, mas a execução da fibra óptica, no interior do cabo, iniciou-se em 2014, quando engenheiros da Cemig visitaram uma feira tecnológica em Paris, na França. De acordo com Carlos Nascimento, havia um cabeamento parecido, desenvolvido pelos franceses, e a empresa mineira trouxe o desafio à indústria nacional. O condutor pode custar até 15% mais do que o tradicional, mas, segundo Nascimento, o valor será recompensado no investimento global em infraestrutura – quanto se pensa numa integração entre instalações da Cemig Distribuidora e da Cemig Telecom. “O trabalho resulta de uma convergência de visões de ruptura tecnológica, com alto risco de insucesso no início. No entanto, criamos, hoje, nova empresa de distribuição de energia”, completa o engenheiro.

Dimensão social Dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) revelam que 38,92% dos domicílios brasileiros têm banda larga fixa. Em Minas Gerais, o percentual é de 37,41%. As informações são de 2017 e mostram que internet de boa qualidade em casa ainda é privilégio de poucos. A energia elétrica, em contrapartida, chega a 99,3% dos domicílios particulares permanentes, segundo o Ministério de Minas e Energia – a partir de estimativa de 2015, baseada no número de domicílios da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A ideia das redes sinérgicas é expandir acesso à banda larga última milha (conexão nas residências). A solução da Cemig, porém, ainda não tem uso comercial. No espaço experimental, em Sete Lagoas, a Companhia substituiu um trecho da rede tradicional pela nova tecnologia. No local, a empresa monitora, por meio de uma central de controle, o quarteirão com a rede sinérgica. “Conseguimos pôr dois computadores trafegando a um giga por

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segundo”, explica Carlos Nascimento. Para conectar o condutor sinérgico ao computador, é preciso montar um cabo de rede na ponta da fibra óptica, que poderá virar um ponto de conexão físico ou ser distribuído por roteadores. Os próximos passos da pesquisa dizem respeito a testes exaustivos, para futura padronização do equipamento, com objetivo de comercialização. A Cemig pretende expandir a ideia em dois anos. “Em nossa visão, quando o mecanismo estiver disponível no mercado, ele substituirá, completamente, a tecnologia wireless nas redes inteligentes do setor elétrico. Isso irá impactar, de forma definitiva, o rumo da indústria de telecomunicação e de tecnologias da informação”, completa.

Impactos tecnológicos As redes sinérgicas devem estimular o desenvolvimento de novas tecnologias de geração, transmissão e distribuição. Afinal, serão exigidos, da indústria brasileira, novos modelos de equipamentos ópticos, condutores, fios, ramais e conectores, além de medidores de corrente e tensão. Os serviços de distribuição e comercialização também são impactados, ao exigir gestão diferenciada. Em Minas Gerais, por exemplo, a Cemig é proprietária de grande parte do posteamento. A companhia tem convênio de compartilhamento dessa estrutura com as operadoras de telefonia, internet e TV a cabo, que possuem cabeamento próprio. Com o condutor sinérgico, a lógica de cabeamento será alterada.

O que é rede sinérgica?

O conceito de rede sinérgica deriva da palavra “sinergia”, que significa “associação concomitante de vários dispositivos executores de determinadas funções, contribuindo para uma ação coordenada”. Trata-se do somatório de esforços em prol do mesmo fim. O conceito de redes sinérgicas surgiu dentro da visão do smart grid, cujos requisitos de comunicação são aprimorados pelo uso de fibra óptica. Configura-se uma rede sinérgica, basicamente, a partir de um condutor metálico com fibras ópticas construídas em estrutura física única, para, ao mesmo tempo, conduzir energia elétrica e transmitir dados em banda larga.

Participação da FAPEMIG Projeto: Projeto D566 – Redes Sinérgicas 1G Coordenador: Carlos Alexandre Meireles Nascimento Instituição: Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) Chamada: Parceria FAPEMIG–Cemig: pesquisas na área do setor elétrico Valor: R$ 2.007.780,00 MINAS FAZ CIÊNCIA • MAR/ABR/MAI 2017

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especial

Para muito além dos números Segredos, reflexões, limites e ferramentas da (sempre) desafiadora Matemática

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Mariana Alencar e Roberta Nunes


De geração a geração, seu aprendizado é constante na vida escolar de um aluno. Para além do ensino nas escolas, também os pais costumam transmitir, aos filhos, noções sobre cálculos, estatísticas e probabilidades – o que parece ocorrer devido à exatidão desta área do conhecimento, cujos métodos são aprendidos e disseminados, ao longo dos anos, sem grandes alterações. Por se tratar de “território” do saber bastante antigo – e popular –, tem-se, mesmo, a impressão de que nada existiria, ainda, a ser descoberto. Mas, afinal: o que, hoje, não se sabe sobre a Matemática? E o que faz, exatamente, um pesquisador da ciência dos números? Em função de sua excessiva abstração, e de conceitos, por vezes, difíceis de explicar, o estudo da Matemática acaba melhor compreendido por especialistas, uma vez que sua aplicação se restringe ao ambiente acadêmico, com pouca influência sobre o cotidiano das pessoas. Professora do departamento de Física e Matemática da Universidade de São João Del-Rey, Bárbara Lopes Amaral destaca a amplitude das investigações no referido campo do conhecimento: “Além de vasta, a Matemática é uma ferramenta. As pesquisas giram em torno da chamada ‘Matemática pura’ e, ao mesmo tempo, de suas aplicações em outros campos científicos. Em ambos os casos, fica difícil a percepção da pesquisa no cotidiano de uma pessoa que não é da área”. Outro motivo para que a população – e, até mesmo, a comunidade científica – desconheça o que se pesquisa na Matemática brasileira é a falta de revistas científicas nacionais. Segundo Wenderson Marques Ferreira, professor do Departamento de Matemática da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), tal escassez faz com que os pesquisadores busquem, apenas, publicações estrangeiras. “Faltam, no Brasil, revistas com Qualis alto. Por isso, temos que publicar em veículos internacionais. Não acho que isso seja um problema, de fato, para nós, pesquisadores. Mas, talvez por esse motivo, as publicações da área percam visibilidade no País”, lamenta. Crescente, o número de cursos de pós-graduação em Matemática no Brasil

influencia a relação entre pesquisadores e sociedade. Wenderson explica que, nos últimos 15 anos, em Minas Gerais, tal volume aumentou consideravelmente, apesar de ainda faltarem pessoas dispostas a ingressar na área. “Existe grande lacuna entre a pesquisa de ponta e o ensino básico, que, se fosse melhor, culminaria com o surgimento de mais pesquisadores. Infelizmente, porém, nossas educações básica, fundamental e média não têm bons resultados na área. Isso faz com que os alunos nem sequer enxerguem a Matemática como possibilidade de estudo”, destaca o professor, ao lembrar que, por vezes, os estudantes nutrem a ideia de que ser matemático é atuar, apenas, como professor. “O que, para um aluno em idade escolar, pode ser algo negativo”, analisa.

Sistemas Dinâmicos

A partir de seu interesse pelo estudo da Mecânica Celeste, no século XIX, o matemático, físico e filósofo francês Jules Henri Poincaré (1854-1912) buscou compreender a evolução do Sistema Solar. A abordagem usada pretendia a resolução – analítica ou numérica – das equações diferenciais do movimento. Para obter descrição qualitativa e quantitativa do comportamento do sistema, propôs o uso de ferramentas provindas de outras áreas, como Topologia, Geometria, Álgebra e Análise. A proposta culminou com o surgimento dos chamados “Sistemas Dinâmicos” – como disciplina da Matemática –, com o intuito de desenvolver a teoria capaz de prever a evolução dos fenômenos naturais e humanos observados em diversos ramos do conhecimento. Hoje, quase dois séculos após a proposta de Poincaré, a linha de pesquisa em Sistemas Dinâmicos ganha cada vez mais destaque no Brasil. Em linhas gerais, trata-se do campo responsável por estudar processos cuja evolução se baseia em leis Matemáticas – a exemplo de mecanismos encontrados na Física, na Química, na Biologia, na Economia, na Meteorologia, dentre outros ramos. O objetivo, portanto, é construir uma teoria Matemática desses processos, que permita compreender e prever sua evolução. MINAS FAZ CIÊNCIA • MAR/ABR/MAI 2017

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Diogo Brito

Para tal, usam-se métodos computacionais, e, também, aparatos dos mais diversos setores do saber matemático. No País, a área de Sistemas Dinâmicos conta com pesquisas avançadas e de alta qualidade. Prova disso está na trajetória do brasileiro Artur Ávila, pesquisador do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa) e do Centre National de la Recherche Scientifique, na França, que, em 2014, recebeu a medalha Fields, o mais alto prêmio dedicado a estudiosos da Matemática.

Brasil no raio-X Um dos recursos usados para medir a compreensão dos conhecimentos matemáticos de um país são as medições de desempenho dos estudantes. O Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), lançado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), tem sido capaz de revelar a situação, em diversos países, nos últimos 15 anos. Apesar de o Brasil ser um dos que mais evoluíram na avaliação, mantém-se estacionado entre as piores colocações do ranking (veja box à página 27). Desde 2000, o exame busca medir, trienalmente, a performance de estudantes de 15 anos em Matemática, Ciências e leitura. Na última edição, em 2015, dos 70 países participantes, o Brasil ficou em 66º lugar. Especialista em avaliações, Ocimar Munhoz Alavarse, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), comenta que a posição do País não é surpreendente, visto que está sendo comparado a países que não têm tradição de exclusão social. “Apesar da colocação, o Brasil tem melhorado seu desempenho. A cada geração de 15 anos, os alunos se aprimoram. No entanto, é preciso avançar muito”, ressalta. A baixa proficiência dos alunos no Pisa pode estar relacionada a fatores como defasagem etária e de conhecimentos escolares, procedimentos pedagógicos de ensino da Matemática e desigualdade social. O exame avalia alunos de 15 anos de diferentes países, mas o Brasil tem um dos maiores índices de reprovação, sendo 11,1% nos anos finais escolares, segun-

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Devido ao Projeto Visitas, alunos da Escola Ana Alves Teixeira melhoram sua relação com a Matemática

Breve entrevista com o matemático Artur Ávila, vencedor, em 2014, da medalha Fields. Qual a importância de desmistificar a Matemática para a população brasileira? É importante que as pessoas não a encarem como algo separado da realidade, e que tenham o reconhecimento de que, para além dos aspectos matemáticos, ela tem papel fundamental na vida de todos – até mesmo, no exercício correto da cidadania. Existe certa aceitação social, que é nociva, em torno do fato de as pessoas declararem não “ter jeito para Matemática”, e serem incapazes de fazer uma conta. Isso leva a um afastamento, e é ruim. Que caminhos mudariam tal realidade? O ensino é um deles? O ensino, naturalmente, tem papel importante, mas, diante da dificuldade de fazer com que tudo melhore, é preciso ir além dele. Existe a influência da sociedade, que pode vir de casa, dos pais – e de como eles lidam com o assunto –, e de como motivar as pessoas a estarem abertas à Matemática. Além disso, há outras maneiras, como as Olimpíadas da área, que também cumprem bem esse papel.

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do indicadores do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). “Em outros países, os alunos de 15 anos que fazem a avaliação costumam estar no ensino médio, enquanto, aqui, estão do oitavo ano em diante”, explica Ocimar Alavarse. No entanto, o principal fator relacionado aos índices da avaliação internacional é a desigualdade brasileira. Dados de 2015 mostram que o Brasil tem 2.486.245 crianças e jovens de 4 a 17 anos fora da escola – sendo que o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, no País, corresponde a menos da metade da média de outros países da OCDE. Outro fator relevante é que o gasto acumulado por aluno brasileiro, entre 6 e 15 anos de idade, equivale a apenas 42% da média do gasto em nações da Organização. O contexto impõe a necessidade de articulação política para tomada de decisões. Além disso, é preciso considerar as informações apontadas pelo Pisa. “A educação não melhora se todos os anos fizermos novas avaliações, assim como subir na balança, diariamente, não provoca emagrecimento. Ainda não temos uma cultura de uso desses dados para organização e elaboração de políticas de enfrentamento”, lamenta Alavarse.

Inovações no ensino

As necessidades de novos métodos de ensino da Matemática são cada vez mais perceptíveis nos ensinos básico, fundamental, médio e superior. O debate perpassa o uso de novas tecnologias, gamificação e recursos pedagógicos que possibilitem um ensino híbrido da disciplina. Segundo a pesquisa “Nossa escola em re(construção)”, realizada pelo Instituto


Inspirare, a Matemática é o conteúdo que os estudantes mais desejam estudar. Eles almejam, no entanto, metodologias eficientes de ensino. O estudo entrevistou 132 mil jovens acerca de seus desejos para uma escola dos sonhos. “Seja na formação inicial, seja na continuada, o profissional precisa estar aberto a conhecer esses recursos, a analisar as vantagens e desvantagens, a ter conhecimento das possibilidades e limites e a reconhecer aquilo que pode ser posto em prática em cada contexto”, acredita Kátia Stocco Smole, matemática e diretora do Grupo Mathema. Em Minas Gerais, certos projetos destacam-se por buscar a desmitificação da Matemática como vilã, e apresentam recursos pedagógicos que promovem aprendizagens mais dinâmicas. Há 20 anos, o Projeto Visitas torna a disciplina mais divertida para os alunos, por meio de atividades criativas, prazerosas e desafiantes. Coordenada pela professora Aniura Milanés, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a iniciativa atende a mais de 4 mil alunos por ano. Sem o modelo enrijecido da sala de aula, os estudantes do 6º ano da Escola Municipal Ana Alves Teixeira, do bairro Urucuia, divertiram-se com os jogos das

correntes, da estrela (Matix), da tgeometria em ação, dos sapos e dos palitos. Com o auxílio dos monitores do projeto, os alunos desenvolveram operações de lógica, dedução, estratégia e operações matemáticas, além de realizar trabalho em equipe. Para Rafael Abner, 11, um dos integrantes do grupo vencedor do dia, o amor pela Matemática é antigo. “Sinto-me muito feliz por ter ganhado hoje. Eu amo Matemática! E acho que, além de muito bom, o conteúdo da escola é bastante útil, senão, não saberia responder nada nas brincadeiras. Com os jogos, a gente pensa ‘de boa’ e faz tudo certinho; sem eles, ficamos muito preocupados e acabamos errando”, analisa. Durante as atividades, a pedagoga Alessandra Vieira vibra com os acertos de cada aluno. “Participar do projeto é observar a cidade como um lugar de aprendizagem. E sair um pouco do formato da escola como único lugar de conhecimento”, conclui. Além das oficinas, realizadas de terça a sexta-feira, o Projeto Visitas oferece palestras, conferências e minicursos para formação de profissionais, com visão ampla sobre o ensino matemático. “Muita gente não vê a licenciatura como algo positivo, mas a apresentação dos jogos e do conteúdo abordado nas visitas estimula os alunos a gostar mais da disciplina. Ao ver esse

desenvolvimento, me sinto incentivado a continuar”, conta Leandro Augusto Araújo, estudante do 5º período de Matemática e monitor do Projeto.

Robótica

Unir o ensino de Matemática à robótica tem possibilitado um aprendizado mais dinâmico, participativo e desafiador para alunos do Triângulo Mineiro. Isso é possível por meio do Núcleo de Pesquisa e Mídias na Educação, da Universidade Federal de Uberlândia, que, há 20 anos, atua em diversas frentes educacionais. Professor e matemático, Arlindo José de Souza Júnior acredita na relevância do estímulo da tecnologia para a aprendizagem. “Crianças e jovens participam de campeonatos de robótica, e a gente percebe, nesse processo, um grande desenvolvimento intelectual, principalmente, em Matemática. Se eles se sentem desafiados, continuam a avançar no conhecimento, o que os beneficia muito”, resume. Os estudantes aprendem a manipular, programar, desenvolver, implementar (e percorrer distâncias com) robôs. Para isso, usam-se os kits da Lego ou a robótica livre, produzida com materiais reciclados. De acordo com Arlindo, o desafio, agora, é ampliar a proposta, para que mais alunos participem, e os docentes possam se envolver

O desempenho dos brasileiros em Matemática Dados do Pisa Matemática (2000 a 2015) BRASIL

Pisa 2000

Pisa 2003

Pisa 2006

Pisa 2009

Pisa 2012

Pisa 2015

Média Brasil

334

356

370

386

391

377

Média OCDE

496

500

494

495

494

490

Ranking

40º

40º

54º

57º

58º

66º

Nº de países

41

41

56

65

65

70

Fonte: OCDE

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mais. Como resultado de anos de pesquisa na área, várias teses e dissertações abordam a implementação dos projetos nas escolas públicas e a relevância educacional de trabalhar com tal recurso. Eis mais um passo para a diminuição da distância do conhecimento acadêmico sobre a educação matemática e a realidade das salas de aula, de forma a contribuir para todos.

Coisa de menino?

Se compararmos o número de matrículas em cursos presenciais, e a distância, na educação superior do País, percebe-se que a grande maioria deles é ocupada por mulheres. Contudo, de acordo com o censo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), realizado em 2015, enquanto elas representam 70% das matrículas em graduações de Educação e Saúde, em cursos de Ciências, Matemática e Engenharia, o percentual cai para 30%. Somado a isso, o último Pisa mostrou que as meninas de 15 anos se saem mal nas questões de Matemática e Ciências, mas muito bem em leitura. A avaliação também revela que, no Brasil, os alunos fizeram 15 pontos a mais do que as alunas em Matemática. Diante de tais dados, surgem questionamentos relativos, principalmente, à origem das disparidades. Por que existem mais engenheiros homens do que mulheres? E por que os estudos matemáticos aparentam ser tão difíceis para elas? Estudo divulgado, em 2017, pela Unesco, aponta que uma em cada cinco meninas terá dificuldade com a Matemática no decorrer de sua vida escolar. A pesquisa, intitulada “The ABC of Gender Equality in Education: Aptitude, Behaviour, Confidence” [O ABC da igualdade de gênero na educação: atitude, comportamento e confiança, em tradução livre], demonstra que a origem da disparidade entre homens e mulheres, nas Ciências Exatas, começa ainda na infância. Enquanto os brinquedos das meninas são voltados ao ambiente doméstico, os objetos dos meninos ensinam-nos, por exemplo, a construir coisas. Ou seja, para elas, há panelinhas de brinquedo, bijuterias, maquiagens e bonecas, enquanto, a eles, são entregues carros e blocos de montar. O estudo afirma que, mais tarde,

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na idade escolar, isso provoca um impacto nas disciplinas escolhidas pelos jovens para estudo, assim como em suas carreiras e no modo de expressarem a criatividade. Outros elementos a impactar, diretamente, o número de mulheres com pesquisas na área de Exatas são obstáculos como o assédio moral, a falta de ajuda do companheiro nas atividades domésticas e, até mesmo, o preconceito na própria família. “Gera-se um significativo prejuízo quando se perpetua a ideia de que existem profissões masculinas e femininas. Este é o problema”, frisa Flávia Marcatto, professora do Instituto de Matemática e Computação da Universidade Federal de Itajubá. “Hoje, o pensamento é de que matemáticos são homens. Uma jovem chega em casa e diz aos pais: ‘Vou fazer Matemática’. Eles se assustam e perguntam: ‘Mas… isso não é coisa de homem? Não seria melhor fazer

Ars mathematica

outra coisa?’. A representação social é a de que o masculino é ‘mais fechado’, ‘mais bruto’ – portanto, muito próximo à rigidez da área. Parece existir um catálogo discriminando o que as mulheres podem fazer, o que gera desprestígio da profissão ligada ao gênero”, conclui. Durante os séculos, a participação da mulher no universo intelectual sempre foi restringida (veja box, à página 29, com a trajetória de importantes matemáticas da história). Ao pensar em nomes importantes das Ciências Exatas – e, especificamente, da Matemática –, as histórias reproduzidas e lembradas dizem respeito a pesquisadores do sexo masculino. Que o digam os teoremas aprendidos pelos jovens em idade escolar, que fazem referência, em sua maioria, a homens como Pitágoras, Ptolomeu e Euclides, dentre outros. Professora do Departamento de

A Matemática está presente no cotidiano de todas as pessoas, inclusive, nas expressões artísticas. O holandês Mauritis Cornelis Escher (1898-1972) mostrou ao mundo que os conteúdos da disciplina -, especialmente, de Geometria – podem ser fascinantes quando bem aplicados ao campo das artes. O desenhista usou construções matemáticas para representação de objetos impossíveis, e explorou conceitos como o infinito, a reflexão, a simetria, a perspectiva, os poliedros estrelados e truncados e a tesselação ou mosaico. Segundo fundamentos matemáticos, o mosaico é o equivalente a cobrir um plano com um padrão geométrico, de modo que não haja espaço entre eles, e não ocorra sobreposição. Isso só é possível com os triângulos equiláteros, os quadrados e os hexágonos regulares. Escher usou um triângulo e, por meio de modificações aqui e ali, conseguiu transformá-lo em um peixe com a mesma área. Desse modo, as figuras encaixam-se perfeitamente nas pavimentações do plano, e são muito intrigantes. Pesquisador da UFMG, Bernardo Nunes Borges de Lima acredita que Escher tem o potencial de atrair a população para as curiosidades matemáticas. “A questão é o quanto ele pode incentivar a população a gostar mais da área, devido aos curiosos elementos percebidos pelas pessoas, mesmo que não saibam do que se trata”, aponta.

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Matemática e Estatística da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), Elenice Zuin explica que, embora as mulheres possam estudar e se dedicar à área que desejarem, desde a Grécia Antiga, poucas tiveram seus nomes ligados à Matemática. Isso porque, historicamente, não era permitido que estudassem. “Durante muito tempo, foram mantidas escolas ‘para meninos’ e ‘para meninas’, com currículos diferentes. Os conteúdos de Matemática, para elas, se fixavam em menos da metade do que se designava a eles. A coeducação foi um processo lento. Um exemplo, no nível superior, está ligado à Escola Politécnica de Paris, fundada em 1794, e exclusiva para o sexo masculino, com o intuito de formar matemáticos e cientistas”, explica. Para compreender a disparidade entre gêneros nas Exatas, é preciso considerar uma conjugação de fatores sociais, históricos e culturais que levaram ou obrigaram as

mulheres a não ter a Matemática como meta profissional. “No Brasil, elas só tiveram direito ao voto em 1932. Hoje, ainda lutam por direitos civis, políticos e sociais. Além disso, nas universidades, e mesmo na educação básica, por décadas, os professores da área eram engenheiros. Em todo o meu Ensino Básico, por exemplo, só tive homens como professores de Matemática e Física”, comenta Elenice Zuin. Cridas e realizadas pelo Impa há 13 anos, as “Olimpíadas de Matemática” podem ser vistas, atualmente, como estímulo ao envolvimento feminino com as Ciências Exatas, em especial, com a Matemática. Elenice explica que as provas ocorrem anualmente no Brasil, e têm contribuído para que muitas garotas se interessem pela área. “Os alunos medalhistas têm a oportunidade de cursar, por um ano, o Programa de Iniciação Científica Jr., com bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento

Científico e Tecnológico (CNPq). Minha sobrinha foi medalhista mais de uma vez, cursou o Programa de Iniciação Científica e despertou para a Matemática”, celebra. A professora Bárbara Amaral também entende que ainda haja pouca inclusão de mulheres em estudos científicos de Matemática. “Cada vez que uma de nós recebe um prêmio, é uma vitória para todas. Quanto mais diversidade, melhor”, analisa a pesquisadora, cuja tese de doutorado foi premiada, pela UFMG, em 2014, como a melhor da área de Exatas. Segundo Flávia Marcatto, a disseminação de informações em torno da questão de gênero, na internet, apresenta-se como caminho para a solução das disparidades. “Outra saída, a meu ver, é uma educação que discuta tais (des)igualdades a partir de um cuidado maior, ao apresentar a disciplina nos anos iniciais da escolarização, para não associá-la à coisa bruta, masculina”, destaca.

Notáveis matemáticas Elas venceram preconceitos históricos e se tornaram grandes nomes da ciência dos números e das lógicas Marquesa de Châtelet Nascida no começo do século XVIII, Gabrielle-Émile Le Tonnelier de Breteuil, a Marquesa de Châtelet, teve papel importante na divulgação e no desenvolvimento do Cálculo Newtoniano. Aos 27 anos, ela passou a se dedicar integralmente à Matemática, e escreveu vários artigos científicos e ensaios sobre Ciência e Filosofia.

Maryam Mirzakhani

Maria Gaetana Agnesi Contemporânea de Châtêlet, Agnesi foi a primeira a ter notoriedade oficial no meio científico de sua época. Ela estudou trabalhos dos irmãos Bernoulli e de Newton, Leibniz, Euler, Fermat e Descartes. Também discutia Física, Lógica, Ontologia, Mecânica, Hidromecânica, Elasticidade, Mecânica Celeste, Gravitação Universal, Química, Botânica, Zoologia e Mineralogia.

Atualmente com 37 anos, a iraniana é professora da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, e se dedica a estudos sobre superfícies hiperbólicas, sistemas dinâmicos e espaços de módulos. Ela foi a primeira mulher a receber a medalha Fields, considerada o Prêmio Nobel da Matemática.

Sophie Germain Nascida no século XVIII, na França, Germain foi matemática, física e filósofa, com contribuições à teoria dos números e da elasticidade. Ainda jovem, estudou a teoria básica de números, cálculos e trabalhos de Leonhard Euler e Isaac Newton. Também se aprimorou em Química, Física, Geografia, História, Psicologia e publicou dois volumes de trabalhos filosóficos.

Mary Fairfax Greig Somerville Nascida na Escócia, em 1780, Somerville não teve educação escolar antes dos dez anos. Entretanto, estudou o Principia de Newton, Astronomia Física e Matemática Superior. Publicou vários artigos sobre Física experimental e, a pedidos de amigos cientistas, traduziu, ao inglês, o fabuloso e obscuro tratado de Laplace, Mécanique Céleste. MINAS FAZ CIÊNCIA • MAR/ABR/MAI 2017

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biologia

Fios de Método pioneiro contra a calvície pode se revelar eficiente em casos de alopecia androgenética e queda de cabelo pós-quimioterapia

Tatiana Pires Nepomuceno

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A alopecia, ou queda do cabelo, parcial ou generalizada, não é apenas um problema estético que, proporcionalmente, afeta mais homens do que mulheres. Trata-se, também, de doença inflamatória causada por vários fatores – dentre os quais, estresse emocional (crônico e ambiental), alterações do sistema imunológico, infecções, radiações, menopausa, excesso de metabólito ativo dihidrotestosterona (DHT) e alterações tireoidianas. Segundo Bruna Duque Estrada, coordenadora do Departamento de Cabelos e Unhas da Sociedade Brasileira de Dermatologia, a calvície afeta cerca de 80% dos homens e 40% das mulheres no País – obviamente, com relevantes diferenças de gênero, tanto com relação a sintomas quanto aos níveis de queda. Ainda de acordo com Bruna, existe o que se pode chamar de “faixa etária clássica” para que se comece a ficar calvo: no caso delas, entre 15 anos e após a menopausa; no que se refere a eles, entre 18 e 40 anos, com ocorrências registradas do problema em crianças de 8 a 10 anos. Os sinais, na verdade, começam devagarinho, quase de forma imperceptível: a cada banho, o cabelo fica mais ralo; na escova de pentear, surgem mechas e mechas. Assim ocorreu com Guilherme de Faria, engenheiro civil da Ferrovia Centro Atlântica (FCA), que percebeu indícios de calvície por volta de 2012. “No início, não

dei muita importância, pois o progresso da queda ocorre de maneira lenta e pouco perceptível. Só depois de um ano é que iniciei tratamento, com uso oral de finasterida, aplicação noturna de Minoxidil, ingestão de um terceiro remédio manipulado e sessões de carboxiterapia. Atualmente, também faço tratamento homeopático”, conta ele, que, apesar do enorme esforço, não está satisfeito com o resultado: “Os fios pararam de cair, mas a parte calva permanece sem crescimento perceptível”. A esperança, contudo, vem de trem! E, conforme acontece com tal típico transporte mineiro – cujos vagões, em trajeto contínuo e constante, param em diversas estações, recebem e deixam passageiros, mas sempre chegam ao destino final –, também assim o é com a questão da calvície. A metáfora serve para ilustrar as idas e vindas do universo da pesquisa, que começou há 25 anos, quando o professor Robson Santos, doutor em Fisiologia e CEO da Labfar, estudava o uso da Angiotensina (1-7) para o tratamento de doenças cardiovasculares e metabólicas, como a diabetes mellitus. Ocorre que, paralelamente, o professor Frederic Frezard, do Departamento de Fisiologia e Biologia o Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB/UFMG), pesquisava a utilização de lipossomas (gotículas de

Alimentação X Calvície Outra linha de ação para evitar perda de cabelos diz respeito à qualidade da alimentação. A nutrição pode auxiliar tanto na prevenção quanto no tratamento da calvície. Segundo Edith Zulato, nutricionista esportiva do Conselho Regional de Nutricionistas de Minas Gerais, o déficit nutricional está diretamente relacionado ao retardo da fase anágena (de crescimento) e ao aceleramento da etapa telógena (ligada à queda do cabelo). “Usar alimentos com maior quantidade de vitamina e selênio, como as castanhas (amêndoas, pistache, noz, amendoim), e ingerir frutas e vegetais com betacaroteno, como cenoura, mamão, manga e abóbora, são ações que ajudam o organismo a combater a calvície”, esclarece. Contudo, não é para exagerar no consumo de vitaminas. O equilíbrio na alimentação é fundamental, pois a hipervitaminose – ou envenenamento por vitamínicos – pode levar a quadros de intoxicação, e, por consequência, à queda dos cabelos. “O organismo como um todo, o que inclui os pelos, é feito de nutrientes, mas temos que manter o equilíbrio. Nada de tomar vitaminas industrializadas sem real necessidade”, complementa a nutricionista.

Labfar é um spin-off do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) em Nanobiofarmacêutica (INCTNanobiofar), apoiado pela FAPEMIG. gordura) com afinidade ao folículo piloso. Das duas linhas de pesquisa, surge a ideia de unir as tecnologias e inserir a Angiontensina (1-7) dentro do lipossoma, justamente, para desenvolvimento de um tônico contra a calvície. “Conseguimos atravessar o couro cabeludo e atuar diretamente no folículo piloso, de modo a liberar a Angiontensina, que, por sua vez, libera o Óxido Nitro, um vaso dilatador”, explica Robson Santos. De acordo com o professor, a combinação da produção de Óxido Nitro com a redução de radicais livres, alinhada ao fato de a formulação cosmética usar lipídeos endógenos, faz com que o tônico capilar seja quase um “organo cosmético”. Tal fato é um dos principais diferenciais da tecnologia, que, após testes, poderá ser usada por pacientes em tratamento quimioterápico ou de radioterapia. Segundo Robson Santos, os testes clínicos em humanos já foram realizados pela equipe do INCT, e os resultados revelaram-se positivos para fotossensibilização, promoção do crescimento e isenção de irritação. E quanto aos testes clínicos, realizados para o crescimento do cabelo em pacientes em tratamento quimioterápico? “Os testes clínicos em animais foram muito positivos. Por isso, o próximo passo será passar às análises em humanos. A previsão é que o tônico seja comercializado ainda em 2017”, afirma. No projeto, estão envolvidas as empresas mineiras Alamantec, do grupo Labfar, e Yeva Cosmétiques.

Participação da FAPEMIG Coordenador: Robson Santos Instituição: INCT Nanobiofar Chamada: Programa INCTs (parceria MCTIC, CNPq, Capes e FAPs) Valor: R$ 5.118.718,00.

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divulgação científica

Ciência a mil mãos Ações de divulgação científica nos aglomerados da Serra e Cabana do Pai Tomás, em Belo Horizonte, almejam construção coletiva de ideias e objetos Roberta Nunes

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Saraus culturais, sessões de cinema comentado, práticas de educação em saúde e produção de brinquedos são alguns dos recursos a permitir, de maneira interativa e descontraída, o compartilhamento de saberes acerca de ciência, tecnologia e inovação. Eis os instrumentos usados pelos professores Bráulio Silva e Cláudia França, do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), que, juntos, desenvolvem um projeto de popularização das práticas científicas nos aglomerados da Serra e Cabana do Pai Tomás, em Belo Horizonte. Desde 2016, o Centro Cultural Lá da Favelinha, na Serra, e o Grupo de Apoio à Criança e ao Adolescente, no Cabana, abriram suas portas para o fortalecimento do diálogo entre a ciência e a população. O Centro fica na Vila Fazendinha – uma das sete vilas da maior favela de Minas Gerais. O espaço foi idealizado em 2014, pelo rapper Carlos dos Anjos, mais conhecido como Kdu dos Anjos. Atualmente, oferece 15 oficinas, entre as quais, balé, artesanato, passinho, capoeira, danças, inglês, espanhol e rap. Já no bairro Cabana, o Grupo de Apoio, com gestão consolidada há mais de 20 anos, luta por melhores condições de vida para os moradores e tem se revelado importante ponte para troca de conhecimento. O uso de recursos imagéticos possibilita que se explore a imaginação e auxilia a abordagem de assuntos mais complexos. Já na primeira sessão de cinema comentado no Lá da Favelinha, é possível perceber olhares atentos e curiosos. Na chegada, Maurício Martins de Souza, de 11 anos, apresenta-se e cumprimenta, um a um, com aperto de mão. Na sala de exibição, puffs coloridos acomodam a todos. Logo em seguida, Nicole Barbosa, Raquel Abood e Júlia Guimarães, estudantes do ensino técnico do Cefet-MG, iniciam a atividade. Os participantes leem, juntos, um resumo da história, trocam ideias sobre corpo humano, emoções, cérebro, e são estimulados a se ater a certas questões durante a sessão. Terminado o bate-papo, as luzes se apagam: chega a pipoca e se inicia o filme. A animação Divertidamente conta a história de Riley – garotinha que

passou por mudanças importantes em sua vida, assim que os pais mudam de cidade. Dentro do cérebro da menina, estão as personagens-emoções do filme: alegria, medo, raiva, nojinho e tristeza. Ao terminar a exibição, os jovens passam a discutir o que viram. De mãos levantadas, os participantes disputam a possibilidade de opinar sobre o funcionamento das emoções. “Achei muito legal. Acho que deu para reconhecer o corpo humano, nem que seja um pouquinho”, destaca Maurício, que frequenta o Lá da Favelinha há mais de um ano. Ao perguntar a ele se gosta da disciplina de ciência na escola, a dúvida se revela: “Um tanto sim, um tanto não. Quando fala dos animais, da natureza e do corpo, acho bem legal. A parte chata é que a professora fica falando, falando, falando. Daí, cansa. Se você vier para cá, aprende de forma interativa. Lá, vai querer saber tudo e falar”, completa. A proposta cinematográfica também serve de oportunidade a jovens do ensino médio e técnico. Para Julia Guimarães, 17, bolsista do projeto, “a parte mais legal foi conseguir falar de um assunto importante, mas de maneira que todos consigam entender. Afinal, estávamos tratando de uma coisa complexa: o funcionamento do cérebro. Além disso, ter contato com crianças, e poder ensiná-las, é algo essencial para mim, porque quero isso para meu futuro”, confessa.

Brinquedos científicos

Construir um objeto é um modo de fazer com que tentativas e erros se tornem elementos divertidos e inspiradores. Por isso, o segundo passo do projeto busca desenvolver um boneco de tecido, que contenha os sistemas do corpo humano. Por meio dele, espera-se um aprendizado mais dinâmico. Para tal, a equipe visitou as comunidades e discutiu o modo como a figura humana foi representada, da pré-história aos dias de hoje. Na ocasião, apresentaram-se trabalhos de Picasso, Basquiat, Botero e Leonardo da Vinci, com o intuito de revelar a liberdade da arte em representar a figura humana. A partir de tal provocação, crianças e adolescentes fazem desenhos de pessoas

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da comunidade, que servirão como base à construção do boneco. Depois dessa etapa, os participantes das duas comunidades visitaram o Museu de Ciências Morfológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e observaram, de perto, as estruturas do organismo humano. “Eles estão trabalhando conosco. Quando terminar todo o processo, vamos transmitir as instruções às costureiras da comunidade, a partir do que discutimos. Queremos que a construção seja feita de forma colaborativa”, acrescenta Cláudia França. Para isso, recorreu-se a referências capazes de direcionar o trabalho, como os conceitos do The Tinkering Studio, do Exploratorium Museum e do espaço Dóing – Oficina Aumentada, que convidam seus visitantes a criar, a fazer, a experimentar, a construir e a compartilhar objetos diversos.

Democratização do saber

dução diferenciada e ativa. Neste sentido, assume-se que o fazer científico e tecnológico do Cefet não pode ser visto como único ou exclusivo, disposto de forma superior, mas, antes, como lugar de saberes institucionalizados. Por isso, a ação de conectar ciência, tecnologia e inovação em lugares distintos acaba por ser entendida como a possibilidade de democratização da produção intelectual, do acesso aos conhecimentos instituídos e da visibilidade de saberes que emergem fora dos espaços educativos formais. Na visão de Kdu dos Anjos, esse é o modelo de ensino-aprendizagem ideal: “Tentei estudar no Cefet, mas não consegui. Acho que, para as poucas pessoas que tentam, é massa que conheçam, desde cedo, o que é uma escola pública. É preciso desconstruir esse funil para chegar lá. Entramos no Cefet para realizar um tanto de atividades, e estou muito feliz que isso esteja acontecendo”, completa. Divulgação

Para Bráulio Ribeiro, coordenador do projeto, espaços sociais como os aglomerados não se constituem apenas como ambientes para legitimar a produção científica e tecnológica. Trata-se, na verdade, de lugares onde saberes oficiais precisariam de inserção verticalizada, por meio de pro-

Tinkering significa reparar, manipular e construir de forma não especializada, por meio da experimentação.

Saraus estimulam troca de conhecimento entre moradores

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Participação da FAPEMIG Projeto: O CEFET-MG, do Cabana do Pai Tomás ao Aglomerado da Serra: conexões entre ciência, tecnologia e educação Coordenador: Bráulio Silva Chaves Instituição: Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG) Chamada: Apoio à Organização e Execução de Ações de Popularização da Ciência, Tecnologia e Inovação Valor: R$ 86.112,62


medicina

Contra o (silencioso) algoz da cognição Estudo indica caminhos para tratamento de jovens e crianças com QI comprometido pela falta de oxigenação típica da doença falciforme

Verônica Soares da Costa

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Umas das alterações genéticas mais frequentes no Brasil, a doença falciforme integra um grupo de disfunções caracterizadas pela predominância da hemoglobina S (HbS) nas hemácias. Segundo dados do programa de triagem neonatal em Minas Gerais (PTN-MG), a incidência no Estado é de 1 a cada 1.400 recém-nascidos. Nas pessoas com a doença, a hemácia adquire formato de foice e se autodestrói, processo chamado de falcização. Tal quadro também obstrui o caminho do oxigênio no organismo, de modo a comprometer, globalmente, a saúde dos pacientes, e em diferentes níveis: “No coração, o problema pode levar ao infarto. No cérebro, ao AVC. Nos olhos, à cegueira. Trata-se de doença sistêmica, cuja crise pode ocorrer em qualquer parte do corpo, e, dependendo da dimensão, gera sequelas irreparáveis. Pessoas com anemia falciforme convivem com quadros intensos de dor e sofrimento”, explica a psicóloga Isabel Pimenta Spínola Castro. Em sua tese de doutorado, Isabel dedicou-se a investigar grupos de jovens com anemia falciforme (HbSS), a mais comum e mais grave dentre os subtipos da doença. Além de psicóloga, ela é professora do Centro Universitário UNA, em Belo Horizonte, e, há 17 anos, trabalha no Núcleo de Ações e Pesquisa em Apoio Diagnóstico (Nupad), órgão complementar da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre e doutora em saúde da criança e do adolescente, a pesquisadora foi impulsionada a investigar o tema a partir de seus contatos diários com as famílias no Centro de Educação e Apoio Social do Núcleo de Ações e Pesquisa em Apoio Diagnóstico, coordenado por ela na UFMG. A tese de Isabel – “Avaliação de sistemas cognitivos na anema falciforme: estudo comparativo de crianças e adolescentes com e sem infartos cerebrais silenciosos”, que contou com orientação do professor Marco Borato Viana, uma das maiores referências em hematopatologia pediátrica no Brasil – é fruto de investigação de vasto fôlego. A pesquisa cruzou dados de dezenas de crianças e adolescentes doentes e saudáveis, com idades entre 7 e 13 anos, e

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apresentou resultados inéditos na literatura científica nacional sobre o tema, de maneira a corroborar informações internacionais e a indicar novos procedimentos clínicos para tratamento e acompanhamento escolar de quem tem a enfermidade.

Perfil da enfermidade

A doença falciforme origina-se na África, e chega ao Brasil, a partir do século XVI, com a vinda dos negros, ao País, como escravos. Sua maior incidência coincide com o mapa da escravidão brasileira, sendo a Bahia e o Rio de Janeiro os estados com maior número de casos, seguidos de Minas Gerais, Pernambuco e Maranhão. Trata-se de enfermidade consanguínea – ou seja: mais comum entre pessoas que se relacionam dentro da própria família. Tal herança é autossômica-recessiva: tanto a mãe quanto o pai precisam ter a

“O Nupad tem como missão desenvolver ações de extensão, pesquisa e ensino, de modo a que os profissionais da ponta também melhorem o atendimento e os resultados nas vidas dos pacientes. Todos os serviços devem estar integrados”, comenta Isabel Pimenta. Uma das ações já em andamento é o projeto “Saber para Cuidar – Anemia falciforme na escola” (http:// www.cehmob.org.br/?page_id=222), coordenado pela professora. Com financiamento do Ministério da Educação e ligado à Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi), a proposta busca formar educadores para atender e dar suporte aos estudantes e às famílias, por meio da criação de uma rede de apoio ao professor, que poderá auxiliar o aluno nos cinco estados de maior incidência da doença no Brasil: Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco e Maranhão. O projeto também tem parceria com a Secretaria Estadual de Educação de Minas Gerais e capacitou cerca de 600 profissionais de Minas.

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mutação em seus genes, o chamado “traço falciforme”. Quando associados os genes com o traço, há 25% de chances de nascimento de uma criança com a doença, e 50% de possibilidades de o bebê adquirir o traço. Os outros 25% são de recém-nascidos saudáveis. “O traço falciforme não é a doença, embora o senso comum tenha difundido, erroneamente, que ele possa levar as pessoas a desenvolver um quadro mais grave”, esclarece Isabel. O indivíduo com a doença terá crises de dor, decorrente do processo de falcização, (hemácias em formato de foice), cotidianamente, ao longo de toda a vida, ainda que tenha acompanhamento médico e siga, corretamente, as orientações. O quadro se intensifica em situações como febres, infecções e frio, e não há como blindar o indivíduo de circunstâncias que desencadeiam crises, sempre acompanhadas de intensa dor. “Esses indivíduos sentem dores o tempo todo, e elas variam de intensidade e gravidade, a depender da região do corpo. Desde o nascimento, há relatos de sofrimento. Somente nos primeiros seis meses de vida é que estão um pouco mais protegidos, pois nascemos com a hemoglobina de nossas mães – a fetal –, que se torna uma proteção”.

Implicações cognitivas

Crianças e adolescentes com anemia falciforme têm comprometimento cognitivo explicado pela própria fisiopatologia da doença – a redução de oxigênio no sangue leva a alterações cerebrais, que causam danos no funcionamento mental. “Acompanho crianças que ficam muito tempo internadas, perdem aulas e conteúdos escolares, além de sofrer com a falta de atenção. Queria obter mais dados na pesquisa do doutorado para entender melhor esse quadro”, explica a professora. A pesquisa é um marco na literatura nacional sobre o tema por ter acompanhado 64 crianças e adolescentes com anemia falciforme e outras 64 saudáveis, para fins comparativos. Isabel partiu da hipótese de que crianças e jovens com anemia falciforme têm mais dificuldades de aprendizado do que aqueles sem a doença. Triados e acompanhados pelo Nupad, e em tra-


tamento pela Fundação Hemominas, os estudantes foram pareados por sexo, gênero e idade, com crianças saudáveis em situações socioeconômicas equivalentes, matriculadas em escolas públicas. No grupo de pacientes doentes, Isabel detectou aqueles com infartos cerebrais silenciosos (ICS), quadro assintomático identificado por meio de ressonâncias magnéticas. A expectativa era de que essas crianças e jovens (32% dos pacientes) tivessem desempenho pior do que as crianças com anemia falciforme sem ICS. No entanto, os resultados dos testes de QI demonstraram que não houve diferença significativa, mesmo entre aqueles que não tinham infarto cerebral. “Em comparação referente a todas as medidas cognitivas, porém, as crianças doentes apresentaram-se muito piores do que as saudáveis. É assustador e muito preocupante”. Os testes de QI foram realizados a partir da Escala de Inteligência Wechsler, uma das mais usadas no mundo: “É um teste superdinâmico, com 12 subtestes realizados pela criança, como se participasse de brincadeiras, com quebra-cabeça, contação de histórias e uso de habilidades cognitivas”, explica a pesquisadora. O teste resulta em três medidas de QI – total, verbal e não-verbal (capacidade de execução) – e quatro índices fatoriais (agrupamentos de habilidades): velocidade de processamento, organização perceptual, resistência a distração e compreensão verbal. “Para todas essas medidas, o grupo doente revelou-se muito, muito pior do que o saudável”, conta Isabel. No estudo, também foram aplicados questionários socioeconômicos, a fim de considerar o pressuposto de que a inteligência sofre influência das condições sociais. As análises estatísticas demostraram que o grupo saudável tinha condição socioeconômica melhor do que aquele com crianças doentes, mas isso se explica pelo quadro de marginalidade das pessoas com doença falciforme, de maneira geral: “A enfermidade é comum em negros, pobres e excluídos sociais. As mães, com frequência, param de trabalhar para cuidar dos filhos, que são muito dependentes. No total, 95% dessas famílias precisam de

Cognição na doença falciforme Crianças e adolescentes dos 7 aos 13 anos sem episódios de AVC (diagnosticadas pelo Programa de Triagem Neonatal de MG) QI Verbal

91,41

QI Total

90,95

Grupo controle*: 112,31

Grupo controle*: 113,97

QI de Execução

31,2%

92,34

Com episódios de ICS

Grupo controle*: 113,38

(infartos cerebrais silenciosos)

*Grupo controle: crianças e adolescentes sem a doença falciforme

algum tipo de benefício do governo para sobreviver”, detalha a pesquisadora. Ainda assim, Isabel fez um cruzamento de todos os dados de quem tinha mesmo nível socioeconômico e, também, a doença, para comprovar que a anemia falciforme leva a um desempenho pior em qualquer caso: “Ao controlar o nível socioeconômico nos testes estatísticos, confirmamos o quanto a doença interfere diretamente na cognição desses estudantes, mais do que a situação econômica das famílias”. Crianças e jovens com a enfermidade apresentaram, em média, QI 21 pontos inferior ao da média do grupo controle. “O resultado é muito pior do que imaginávamos e mostra que a doença afeta a cognição, embora de forma silenciosa e assintomática”, alerta. A partir dos dados hematológicos das crianças, obtidos pelo acompanhamento médico na Fundação Hemominas, foi possível identificar tendências importantes e propor novos tratamentos. O estudo identificou, por exemplo, que as hemoglobinas fetal e total se transformavam em fatores de proteção da condição de aprendizagem, o que resultou na recomendação da administração do quimioterápico hidroxiureia para todas as crianças com a doença. “O medicamento aumenta a hemoglobina fetal l, mas só era indicado a uma parcela da população considerada de maior risco. Vimos, porém, que o fator de

proteção que ele pode gerar é fundamental ao desenvolvimento cognitivo desses jovens e crianças”, esclarece. A indicação da hidroxiureia, via Hemominas, para todos os doentes, está em processo de negociação, pois depende da alteração de protocolos médicos, mas será fundamental para diminuir o risco de infartos cerebrais silenciosos. O estudo também recomenda a realização de um protocolo de avaliação psicológica em lugares que tratam de doença falciforme, a fim de identificar o tamanho do problema e orientar as escolas sobre como lidar com esses alunos em sala de aula. “Quadros de depressão e ansiedade são muito comuns entre os doentes, e é preciso pensar em medidas de reabilitação e acompanhamento psicológico”, orienta Isabel. A pesquisa é transversal e abre possibilidades para acompanhamento do mesmo grupo ao longo dos anos, a fim de qualificar os dados sobre o desempenho das crianças doentes. Os resultados serão importantes para planejar ações de reabilitação e auxiliar as escolas na oferta de um melhor acompanhamento pedagógico. Em parceria com as Secretarias de Educação (estadual e municipais) de Minas Gerais, por exemplo, será possível mapear os estudantes com anemia falciforme, para que suas vidas escolares sejam monitoradas individualmente, a fim de minimizar os danos cognitivos causados pela doença.

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psicologia

De mãos dadas ao tempo Psicólogos da UFTM pesquisam processos de construção e transformação das relações de casais que estão juntos há mais de 30 anos

Roberta Nunes

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Foi nas rodas de samba da juventude que Mirtes Helena – hoje, com 64 anos – e Sílvio Scalioni, 66, se apaixonaram. Passados 42 anos dos primeiros embalos de companheirismo, os dois permanecem juntos. Em tempos de amores líquidos e de laços humanos frágeis, compreender tais casamentos de longa duração, sob a perspectiva psicológica, significa trazer luz às estratégias de manutenção de relacionamentos. Para tal, sete pesquisadores da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), vinculados ao Laboratório de Investigações sobre Práticas Dialógicas e Relacionamentos Interpessoais (Prosa-CNPq), em parceria com pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), buscaram analisar processos de construção e transformação inerentes às relações conjugais. Quais os principais conflitos de um casamento? O que pode contribuir para sua manutenção? Por fim, que estratégias são usadas pelos casais? Para tentar responder a tais questões, os pesquisadores entrevistaram 32 cônjuges casados há mais de 30 anos, e que não passaram por qualquer tipo de separação. Do ponto de vista metodológico, aplicaram escalas e questionários, além de recorrer a roteiros de entrevistas e a técnicas como a de “história de vida oral”. O projeto é coordenado pelo psicólogo e professor Fabio Scorsolini-Comin, autor de livros como Casamento e satisfação conjugal: um olhar da Psicologia Positiva (Editora Annablume) e Aconselhamento psicológico: aplicações em gestão de carreiras, educação e saúde (Editora Atlas). A partir das pesquisas realizadas, foi possível perceber que existe um ponto em comum nos casais entrevistados: os filhos. Percebeu-se, portanto, que a parentalidade, ao mesmo tempo em que pode causar potenciais conflitos, também representa um fenômeno importante, como complemento à relação de casal. “Esse dado também aponta que os filhos podem ser uma exigência para os casais longevos, de modo que ser pai e mãe são funções associadas, inequivocamente, à conjugalidade. Para os casais entrevistados, não se concebe a ideia de um casal feliz sem a presença de filhos”, explica o psicólogo.

De acordo com Fabio, a informação leva ao raciocínio de que casamentos de longa duração podem alimentar valores tradicionais, de modo a abrir pouco espaço à experimentação de novos papéis e à possibilidade de releituras acerca do que seja a família. “Obviamente, essas considerações devem ser recebidas com parcimônia, haja vista o fato de que são fruto de pesquisas qualitativas e cujos achados não podem ser generalizados para a população geral”, alerta. Importante ressaltar, também, que o casamento duradouro não anula a existência de problemas. O pesquisador pontua que os casais precisam ser ouvidos e acolhidos, possivelmente, em serviços de saúde e em clínicas psicológicas. Com mais tempo juntos do que separados, os pontos em comum auxiliaram a relação de Mirtes e Sílvio. Eles compartilharam objetivos na profissão, trabalhos de fins-de-semana, música, filhos, e, agora, a aposentadoria. “Tudo foi feito aos poucos. Nós nos formamos em 1974 e casamos um ano depois. Éramos duas figuras inocentes do interior, numa cidade grande. Tínhamos nossos valores e construímos a relação que temos hoje. Erramos algumas vezes e percebemos o que dava certo ou não. Acredito que, hoje, as pessoas têm um pouco de preguiça de construir, pois desejam tudo pronto”, acredita Mirtes. Arquivo pessoal

Sílvio e Mirtes: parceria e companheirismo em áreas as mais diversas MINAS FAZ CIÊNCIA • MAR/ABR/MAI 2017

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Estratégias A análise dos dados da pesquisa qualitativa não pode ser generalizada, mas aponta que as principais estratégias usadas para manutenção do relacionamento conjugal dos entrevistados dizem respeito a ingredientes como compreensão, comprometimento, doação, desenvolvimento de hábitos ou comportamentos individuais, religiosidade ou espiritualidade, afetividade, necessidade de adaptação e humildade. “É importante compreender que esses elementos narrados pelos casais ocorrem de modo articulado, e não podem ser analisados isoladamente. O laço conjugal é mantido por estratégias desenvolvidas e transformadas tanto a partir de recursos pessoais como de noções compartilhadas pelo par”, complementa Fabio Scorsolini-Comin. Aspectos histórico-sociais também influenciam a dinâmica conjugal, da escolha do par à construção da trajetória percorrida pelo casal. Na vida de Mirtes e Sílvio, vários dos elementos citados pela pesquisa estão presentes no dia a dia: cumplicidade, companheirismo e desenvolvimento de hábitos pessoais, por exemplo, sempre foram fundamentais. Por isso, a banda Boca de Sino revelou-se relevante

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Arquivo pessoal

A percepção da esposa de Sílvio não está equivocada. De acordo com o artigo “Conjugalidade e casamentos de longa duração na literatura científica”, publicado em 2016 por pesquisadores do Prosa, a exacerbação do individualismo, na contemporaneidade, afeta a visão de relacionamento afetivo, encarado, atualmente, como solúvel, e, em certos casos, tido por volátil. Daí a duração incerta dos relacionamentos modernos, posto que relacionada ao grau de satisfação de cada um. As relações acabam por se apropriar de características da modernidade líquida, a exemplo da “solubilidade dos afetos” abordada pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017). Isso porque há sempre uma novidade disponível no mercado – geralmente, com a promessa de que algo será melhor e mais completo. Desse modo, o estímulo ao consumo frenético encontra um equivalente na efemeridade dos relacionamentos amorosos.

em seu relacionamento, de modo a lhes possibilitar atividades de prazer. As viagens – uma vez ao ano – e as idas semanais ao cinema são respiros na rotina. Além disso, a família sempre se mostrou como ponto de apoio. “Temos valores de família, muito agarrados, com filhos e netos. Valorizamos os momentos familiares, e sentamos juntos aos domingos, no Natal e na Páscoa. Fora isso, a gente se gosta muito e se conhece só pelo olhar”, complementa Mirtes. Apesar da história do casal ter suas especificidades, a pesquisa mostrou que a participação da família e a religiosidade ou espiritualidade são apontadas nos relatos dos casais entrevistados como fontes de apoio para o casal. “Isso deve ser compreendido dentro do contexto de realização da pesquisa, que é o de casais residentes em cidades interioranas dos estados de São Paulo e Minas Gerais e que frequentemente relatam pertencer a alguma religião”, acrescenta Scorsolini-Comin.

Relevância da pesquisa Atualmente, discute-se muito a conjugalidade e o divórcio, mas pouco se estuda sobre os casais que, em sua maioria, passam por várias fases da vida juntos. Diante disso, dar visibilidade a esses grupos é muito importante, para abordar novos norteadores estratégicos da vida a dois. Os estudos ocorreram com o apoio do CNPq e da FAPEMIG. A relevância do

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trabalho levou ao reconhecimento em diferentes esferas. Em 2015, o estudo sobre os recursos pessoais usados para a manutenção do matrimônio em uniões de longa duração recebeu menção honrosa no XI Congresso Latino-Americano de Psicoterapia. Em 2016, a menção honrosa foi dada na Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP). O próximo passo do grupo é iniciar a coleta de uma pesquisa quantitativa que vai investigar a religiosidade e a espiritualidade em casamentos de longa duração. Esse foi um dos aspectos bastante mencionados nas entrevistas com os casais. O objetivo é compreender como esse recurso está associado à satisfação nos relacionamentos. Participação da FAPEMIG Projeto: Casamentos de longa duração na perspectiva da psicologia positiva: estratégias de manutenção do casamento, fontes de apoio, bem-estar subjetivo e satisfação conjugal Coordenador: Fabio Scorsolini-Comin Instituição: Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) Chamada: Demanda Universal Valor: R$ 23.830,80


engenharia

Caçadores de ventos Com auxílio de veículos aéreos não tripulados (vants), pesquisadores da Unifei investigam potencial de energia eólica em regiões próximas a represas mineiras

Téo Scalioni

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Nos últimos anos, as fontes renováveis de energia – a exemplo da biomassa, da eólica e da solar – passaram a ter papel fundamental no desenvolvimento das economias emergentes. No Brasil, mesmo com boa capacidade para tal exploração, o investimento em novas possibilidades é ainda escasso. No caso dos recursos energéticos oriundos dos ventos, por exemplo, o País conta com potencial de geração anual 600 vezes maior do que a própria demanda nacional. No entanto, a capacidade instalada representa, hoje, apenas 0,3% da energia elétrica nacional. Com o pensamento na inversão desses números, e na melhoria do aproveitamento de fontes renováveis, o projeto “Uso de Vant para prospecção eólica em sistemas aquáticos”, realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), busca estudar o comportamento de ventos próximos a represas mineiras. A iniciativa, que tem apoio da FAPEMIG, pretende avaliar o potencial de energia eólica em tais ambientes. Isso porque, conforme já apresentado em trabalhos científicos, o aproveitamento em reservatórios hidrelétricos é promissor, devido a várias razões. Uma delas diz respeito ao fato de os reservatórios construídos em regiões de planalto possuírem, normalmente, forma alongada, com relevo disposto ao longo do eixo principal. Isso introduz regiões de convergência para o vento sobre o lago, o que cria condições orográficas (de relevo) favoráveis ao aproveitamento eólico. Outra vantagem é que, dada a proximidade com o sistema de transmissão, a integração com a rede é facilitada. Além disso, importante ressaltar que as fontes renováveis são complementares. A energia gerada pelas turbinas eólicas, em períodos de ventos favoráveis, pode contribuir para o gerenciamento do nível de água do lago, por meio da redução de geração hidrelétrica. Ou seja, a água “poupada” nesses períodos pode ser usada durante temporadas climáticas desfavoráveis – como a de seca prolongada, por exemplo.

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Para realizar a medição do vento – o que pode ser feito a cerca de 100 metros de altura do leito da água –, utiliza-se o vant. Para quem não sabe ainda do que se trata, o termo vem de “veículo aéreo não tripulado”, uma espécie de drone. Na pesquisa, ao invés dos quadricópteros, mais comuns e conhecidos, tem sido usado um hexocóptero, devido a sua maior estabilidade. Os seis motores do hexocóptero trabalham em sincronia, de forma a compensar eventuais perturbações causadas pela turbulência. O controle de altitude é feito por um barômetro, e os motores operam de forma a manter a pressão e, consequentemente, a altitude constante. “As cargas úteis consistem de um anemômetro de alta qualidade [instrumento para medidas da velocidade do vento] e de um gravador de dados”, explica Arcilan Trevenzoli Assireu, coordenador da pesquisa, ao lembrar que o anemômetro foi preso, pelo cabo elétrico de conexão, a quatro metros do vant. “Essa distância foi empiricamente obtida para que a esteira dos motores não influencie as medidas do anemômetro”, completa. Arcilan conta que também se pode medir o vento, nesses locais, por meio da instalação de torres flutuantes na água, o que, no entanto, envolve grande dificuldade, devido ao ambiente. A logística é complexa, e os custos, elevadíssimos. Por isso, a ideia de recorrer ao vant foi muito bem aceita, sendo pioneira no Brasil. “Esperamos gerar subsídios para os tomadores de decisão, quanto à instalação de parques eólicos em reservatórios hidrelétricos e grandes lagos”, frisa. Em relação ao estágio da pesquisa, em novembro do ano passado, realizou-se ampla campanha no reservatório de Furnas, no município de Guapé (MG). O objetivo foi levantar diversas informações importantes sobre o vento naquela região. Na ocasião, mediram-se ventos a 100 metros de altura (altura típica de operação dos aerogeradores atuais), algo jamais realizado em sistemas aquáticos brasileiros. As informações foram importantes para várias atividades já realizadas na re-

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gião, como práticas de voo livre, segurança para navegação, piscicultura, e, também, é claro, iniciativas relacionadas ao levantamento do potencial eólico – o que permitiria conhecer a viabilidade da instalação de parques de geração de energia. Desse modo, finalizaram-se as etapas científicas do desenvolvimento: testes de dimensionamento, alcance e condições de voo, além de validação dos dados e desenhos amostrais. As próximas etapas contemplam eventuais tratativas no sentido de converter conhecimentos adquiridos em produtos. Além da FAPEMIG, a pesquisa é apoiada por instituições como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Unifei, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). As contrapartidas institucionais passam de R$ 500 mil, investidos em instrumentação e em aparatos usados em etapas de validação do sistema.

Interesse pelas águas Embora a pesquisa seja realizada nas proximidades de represas hidrelétricas, a exploração da energia eólica em sistemas aquáticos também pode ser feita em grandes lagos, rios e oceanos. “Eu mesmo vim da Oceanografia, mas o projeto científico me deixou mais próximo do reservatório, de modo a despertar meu interesse em conhecer melhor o regime de ventos nesses ambientes”, conta Arcilan. Segundo o coordenador da pesquisa, as primeiras análises têm confirmado a expectativa quanto ao grande potencial para energia eólica na região. “Veio a certeza de que muitos ambientes têm condições favoráveis para instalação de parques eólicos”, acredita. Em 2016, o projeto foi selecionado a participar da Feira Internacional de Negócio, Inovação e Tecnologia (Fnit), realizada, em novembro, na capital mineira. No ver de Arcilan, a participação foi muito proveitosa, e funcionou, perfeitamente, como elo entre o setor de desenvolvimento e a área de aplicação e de geração de negócios.

Drones X Vants Qual a diferença entra um vant e um drone? Tecnicamente, nenhuma. (O drone, aliás, é um vant.) Ambos são veículos não tripulados, com hélices, controlados por alguém. A diferença relaciona-se às finalidades de uso: enquanto um está associado ao lazer, outro (vant) conta com fins comerciais ou científicos, a exemplo das investigações da Unifei acerca de prospecção eólica em ambientes aquáticos. Outra diferença está no fato de que vants necessitam, durante o voo, de carga útil embarcada, que não seja essencial para que o veículo voe: uma pizza, uma câmara ou mesmo o anemômetro responsável por realizar a medição dos ventos.

Participação da FAPEMIG Projeto: Uso de Veículos Aéreos não Tripulados (VANTs) para prospecção eólica Coordenador: Arcilan Trevenzoli Assireu Instituição: Universidade Federal de Itajubá (Unifei) Chamada: Demanda Universal Valor: R$ 48.424,11

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ENGENHARIA E COMPUTAÇÃO

Equipe multiprofissional transforma exercícios fonoaudiológicos em jogos digitais que tornam tratamentos mais estimulantes e eficazes

Alessandra Ribeiro

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A letra “T” do nome remete à palavra tongue, que significa língua, em inglês.

Fonoaudiólogos, engenheiros e cientistas da computação trabalharam juntos no desenvolvimento de um aparelho que promete tornar as sessões de fonoaudiologia mais atrativas, especialmente para as crianças. Trata-se do T-station, espécie de manete que se encaixa na boca do paciente e permite que ele interaja com jogos enquanto exercita a língua. A tecnologia é um estímulo para adesão ao tratamento de disfunções que afetam processos como a deglutição e a fala, já que os exercícios são considerados, por muitos, bastante repetitivos e cansativos. Apresentado na Mostra Inova Minas FAPEMIG, em novembro de 2016, em Belo Horizonte, o equipamento já obteve ao menos duas premiações: o Grande Prêmio UFMG de Teses, no grupo Ciências Exatas, da Terra e Engenharias, para a autora Renata Maria Moreira Moraes Furlan; e o segundo lugar geral na competição “Idea-to-ProductLatinAmerica 2015” (I2P). Antes de chegar ao joystick, os pesquisadores desenvolveram um primeiro instrumento, para medir a força da língua. A avaliação permite perceber, por exemplo, o quanto a força cai depois que a pessoa sofre um acidente vascular cerebral (AVC) – ou aumenta, na medida em que a terapia progride. Tradicionalmente, o exame é feito pelo fonoaudiólogo, com o auxílio de uma espátula, ou do próprio dedo. Em seguida, realizou-se uma adaptação para medir a força dos lábios. Sensores biocompatíveis (próprios para entrar em contato com o corpo humano) possibilitaram mensurar, separadamente, a força feita pelos lábios inferior e superior e pelas musculaturas à direita e à esquerda. Os pesquisadores desenvolveram, ainda, um dispositivo próprio para monitorar a sucção de recém-nascidos, e, assim, observar se os bebês conseguem, ou não, sugar o leite adequadamente. O T-Station permite aos profissionais definir, com precisão, a medida da força a ser realizada pelo paciente, monitorar o tempo da contração muscular e o número de repetições, além de gerar um relatório com dados relacionados ao desempenho

da pessoa em tratamento. “A adesão dos fonoaudiólogos é muito positiva para os equipamentos de medição e reabilitação de força, pois, na prática clínica, a avaliação ainda é realizada de maneira qualitativa. O emprego do teste quantitativo permite registrar o progresso do paciente ao longo dos processos”, destaca Renata Furlan, autora da tese responsável pela criação do T-Station, pesquisa que teve, como coorientadora, Andréa Rodrigues Motta, professora do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O trabalho foi orientado pelo professor Estevam Las Casas, da Escola de Engenharia da UFMG, para quem o método tradicional empregado pelos fonoaudiólogos dá margem para que dois profissionais com diferentes níveis de treinamento cheguem a diagnósticos diferentes. “Pensamos que seria interessante desenvolver algo para ter medida objetiva, numérica, e facilitar a comunicação em equipes nas quais um dentista e um fonoaudiólogo, por exemplo, trabalham com o mesmo caso”, conta.

Trabalho multiprofissional Las Casas destaca o diálogo constante da Engenharia Biomecânica com a área da saúde, o que inclui cursos como Odontologia, Fisioterapia, e, até mesmo, Veterinária. Antes mesmo de chegar aos consultórios, porém, a pesquisa já se revelava multiprofissional. Renata Furlan cursou, por exemplo, a disciplina “Desenvolvimento de Jogos Digitais”, oferecida pelo Departamento de Ciência da Computação (DCC) da UFMG. “Com o auxílio de outros alunos, criaram-se protótipos de jogos a serem testados juntamente ao dispositi-

A língua desempenha papel importante nas funções de mastigação, deglutição, sucção e fala. Sua fraqueza pode acarretar prejuízos funcionais, além de alterações ortodônticas e estéticas.

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Divulgação

Os jogos computacionais foram desenvolvidos por meio do software Gamemaker® e consistem em alvos que aparecem na tela, representados por imagens de frutas, a serem alcançadas pelo usuário, representado pela imagem de uma mão, por meio da movimentação da peça de comando com a língua. Para treino de força, o jogador deve tocar o alvo e manter a posição da peça de comando pelo tempo estipulado previamente. O fonoaudiólogo pode controlar parâmetros como grau de dificuldade, tempo de sustentação do movimento, tipo de contração muscular, sentido e direção do movimento, força e número de repetições.

vo desenvolvido pela Renata”, conta Luiz Chaimovicz, professor do DCC. Cada vez mais, projetos de diversas áreas necessitam da expertise da Ciência da Computação. “Exemplo disso está no uso de algoritmos sofisticados de tomada de decisão e arcabouços para o processamento massivo de dados nas mais diferentes áreas do conhecimento, recursos que têm permitido a obtenção de resultados importantes”, ressalta. Pesquisadores de outras instituições também foram envolvidos nos projetos, a exemplo do engenheiro eletricista Márcio Falcão Santos Barroso, professor da Universidade Federal de São João del-Rei – que participa do desenvolvimento dos equipamentos e dos sistemas de aquisição dos dados – e do engenheiro mecânico Cláudio Gomes da Costa, da Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais (Cetec), especialista em Metrologia. “A

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contribuição dos pesquisadores tem sido fundamental, não apenas à calibração dos instrumentos, mas, também, ao projeto e à construção dos equipamentos. No caso do T-station, foi importante o trabalho de Guilherme André Santana, aluno de pós-graduação em Engenharia de Estruturas da UFMG”, afirma Renata. Mais de 400 pessoas, dentre crianças, adultos e idosos, já fizeram uso dos dispositivos. No caso específico do T-Station, os testes envolveram 20 adultos e 8 crianças, no Ambulatório de Fonoaudiologia do Hospital das Clínicas da UFMG. A patente do produto foi depositada em 2013, e a fabricação em larga escala depende, agora, de questões burocráticas, como a obtenção de certificações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo o professor Estevam Las Casas, algumas empresas já manifestaram interesse em produzir o aparelho.

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Participação da FAPEMIG Projeto: Desenvolvimento de um protótipo para reabilitação da força da língua Instituição: Universidade Federal de Minas Gerais Coordenador: Estevam Las Casas Chamada: Demanda Universal Valor: R$ 34.198,50


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Ciência nas redes

Novidade no ar

Mas por quê?!

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CONTEMPORÂNEAS

Além de antiga, a palavra do ano de 2016 revela-se prática comum na política

Mariana Alencar

Muito antes da ascensão das redes sociais digitais, quando Donald Trump ainda era adolescente, a filósofa alemã Hannah Arendt já elaborava, na obra Verdade e Política, sua crítica à permanente ameaça da dissolução do conceito de fato. Em linhas gerais, a autora defendia que a mentira sempre fora considerada um instrumento legítimo e necessário, de modo a ser usada como substituta de instrumentos mais violentos em ações políticas. Quase 50 anos após tal teorização, a ideia de que um acontecimento objetivo tenha menos força do que a crença pessoal – no que se refere à capacidade de moldar a opinião pública – ganha destaque, em discursos midiáticos, sob a alcunha de “pós-verdade”. Eleita “palavra do ano de 2016” pelo dicionário Oxford, o termo “post-truth” (em inglês) ganhou visibilidade a partir das análises sobre dois importantes acontecimentos políticos: a eleição de Donald Trump, como presidente dos Estados Unidos, e o referendo que decidiu pela saída da Grã-Bretanha da União Europeia, fato internacionalmente conhecido como “Brexit”. Na ocasião, acadêmicos e mídia tradicional afirmaram que mentiras, boatos e informações duvidosas foram elementos estratégicos muito bem usados, com o intuito de apelar para as emoções do eleitorado e radicalizar as opiniões da população. No Brasil, as últimas eleições presidenciais e as recentes in-

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vestigações da Operação Lava Jato fizeram com que a aplicabilidade do vocábulo fosse exaustivamente explorada, por meio de blogs, páginas de Facebook e mensagens que circularam (e ainda circulam) pelo aplicativo WhatsApp. Em análise mais ampla, a revista inglesa The Economist afirmou que há tendência de o mundo contemporâneo substituir fatos por indícios; e percepções, por convicções. Segundo a publicação, a sociedade tem deixado de lado avaliações dicotômicas entre certo e errado, verdade ou mentira, para dar lugar a uma era de avaliações fluidas, baseadas em sensações, e não em evidências. Entretanto, o conceito de pós-verdade e a visão que defende a superação de dicotomias representam, para certos pesquisadores, um grande equívoco. Segundo eles, afinal, o termo não é novo, nem representa uma tendência da atualidade, uma vez que não existem fatos objetivos, pois todo acontecimento, enquanto evento percebido pelo homem, é subjetivo. Segundo o professor Carlos Alberto de Carvalho, professor do departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na prática jornalística, acontecimentos não se revelam neutros, nem objetivos. Trata-se, antes, de fatos sociais, sujeitos às crenças presentes nas próprias formas de interpretação de cada um deles. “No jornalismo, trabalhamos com a noção de acontecimentos, que são socialmente ‘apanhados’ por narrativas e discursos. Todo fato social é sujeito a interpretações múltiplas, que podem se basear não em elementos concretos, mas em crenças, sejam políticas, religiosas, culturais etc.”, explica. Em contrapartida, sob a ótica da Filosofia, a busca por um conhecimento verdadeiro, por uma verdade objetiva, é atrapalhada por elementos como preconceito, ideologia, opinião e crenças.


“No mundo atual, percebemos um excesso de informações, mas pouca preocupação em buscar a verdade [preceito básico dos estudos filosóficos]. Porém, o homem que não usa o pensamento racional torna-se impossibilitado de enxergá-la”, defende Aroldo Marques, professor de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). O entendimento da verdade como algo objetivo transforma-se quando o termo é inserido no campo da política. Marques explica que o conhecimento e a verdade são fatores mutáveis, e, ainda que a Filosofia trabalhe com princípios universais, na política, ela se condiciona a questões culturais e ideológicas. “Ao falar de política, tratamos de conflito, de jogo de interesses. Por isso, é quase impossível pensar em ‘objetividade’”, analisa.

Mentira bem contada

Na era das redes sociais, em que informações circulam, pelo mundo, em poucos minutos, faltam tempo e disponibilidade aos profissionais do jornalismo para que sejam capazes de checar todas as notícias veiculadas nas redes. Eis o momento em que boatos, ou notícias falsas, relativos a certo fato não ocorrido, ganham força e, assim, fazem emergir, como elemento fundamental à prática jornalística e à formação da opinião pública, o conceito de pós-verdade. Na política ou no cotidiano dos cidadãos comuns, portanto, informações sem base real adquirem popularidade, com velocidade assustadora. Manchetes como “Lula declara que Sergio Moro não viverá para vê-lo preso”, “Ladrões distribuem chaveiros com rastreadores”, “Silvio Santos removeu um tumor na testa” ou “Ministro Gilmar Mendes manda cancelar o BBB17” circularam via Facebook, Twitter e/ou Whatsapp, nas últimas semanas, e geraram comentários passionais sobre os assuntos. Tais notícias, porém, foram checadas e declaradas como falsas por sites especializados. Fundado em 2014, o site Aos Fatos é uma dessas plataformas responsáveis pela checagem de assuntos que circulam pela web. Fundadora do portal, a jornalista carioca Tai Nalon explica que, apesar de comum no jornalismo, o “fact-checking” [checagem de fatos, em tradução livre] foi sendo abandonado, devido ao excesso de notícias que circulam nas mídias. “Com as redes sociais, tornou-se ainda mais necessária a checagem do que se publica. Montamos, então, um projeto inspirado no modelo do Chaqueado [site especializado da Argentina]. Como, atualmente, vivemos um momento de crise política, nas próximas eleições, o desenvolvimento, a ascensão e as consequências da ideia de pós-verdade serão fatores importantes, assim como a verificação de fatos se mostrará imprescindível”, defende. A jornalista explica que certos boatos são complexos de desmentir, por ganha força, por exemplo, no WhatsApp. “Nele, é um desafio averiguar a veracidade do boato, pois fica difícil conhecer sua origem. Também não há muito como saber o potencial da dispersão das informações propagadas. E, por vezes, elas são perigosas, complicadas e vão além da política. Cabe ao usuário ter cuidado”, alerta.

SAIBA MAIS Nem verdade, nem mentira

Com humor, Ralph Keyes nos leva a uma turnê por um mundo onde o conceito de honestidade já não é absoluto, mas mutável e fluido. Para o autor, na era da pós-verdade, além de verdades e mentiras, há uma terceira categoria, a das declarações ambíguas.

Livro: The Post-Truth Era: Dishonesty and Deception

in Contemporary Life Autor: Ralph Keyes Editora: St. Martin’s Press Páginas: 325 Ano: 2004

Linguagem, verdade e poder

Em seu último romance, o escritor inglês George Orwell aborda o futuro da sociedade, em que as pessoas são manipuladas e dominadas por um estado autoritário. No universo fictício da obra, um novo idioma – a novilíngua ou novafala – foi desenvolvida não por meio da criação de novas palavras, mas pela “condensação” e pela “remoção” dos vocábulos e de seus sentidos, com o objetivo de restringir o escopo do pensamento. Um clássico da literatura, o livro aparece como reflexão acerca dos excessos delirantes de formas de poderes incontestadas.

Livro: 1984 Autor: George Orwell Editora: Companhia das Letras Páginas: 416 Ano: 2009

“Não existe justiça; há, apenas, partes satisfeitas.”

Exibida e produzida pelo streaming Netflix, a série norte-americana House of Cards narra a história de Frank Underwood (Kevin Spacey), congressista ambicioso e astuto que é traído pelo presidente que ajudou a eleger. Com a ajuda da esposa, de uma jornalista ambiciosa e de outro político, Underwood inicia um plano para minar adversários e conquistar, em alguns anos, justamente, a presidência dos Estados Unidos.

Série: House of Cards Gênero: Drama político Elenco: Kevin Spacey, Robin Wright, Michael Kelly e entre

outros Ano: 2013

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Natural de São João Del Rei, Mário Alex Rosa mora em Belo Horizonte e é autor dos livros ABC futebol clube (Aletria, 2015); Formigas (Cosac Naify, 2013); Ouro Preto – poemas (Scriptum, 2012, semifinalista do prêmio Telecom); e Via Férrea (Cosac Naify, 2013). Graduado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), é mestre e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP). Também professor de Literatura Brasileira, publicou poemas nas revistas Dimensão (Uberaba), Inimigo Rumor (RJ), Cacto (SP), Teresa (USP/SP), Jandira (Juiz de Fora) e Ato (BH), assim como nos jornais Revirarte (Mariana), Folhinha de São Paulo, Suplemento Literário de Minas Gerais, Dezfaces (BH) e Cândido (Curitiba). Como artista visual, já expôs em galerias de diversas cidades do País.

varal

A ciência do poema

A sábia ciência perguntou ao poema: – O que se oculta nos seus versos? O universo, respondeu o poema Com cara de quem inventa.

A ciência ciente de sua sapiência Indagou: – Mas o universo cabe num poema? Ora, é só unir o verso como na soma De dois mais dois não são quatro, São cinco, entendeu Dona Ciência?

Se a água que cai do céu Veio antes da terra, De onde vem a falta Que a gente tem Quando o amor é presente?

A ciência do poema Certificou de tudo, Mas, porém, contudo e com asa É melhor não duvidar de nada.

Mário Alex Rosa

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Minas Faz Ciência - edição 69  

Edição 69 da revista Minas Faz Ciência, veículo de divulgação científica do Programa de Comunicação Científica, Tecnológica e de Inovação da...

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