Page 1


Redação - Av. José Cândido da Silveira, 1500, Bairro Horto - CEP 31.035-536 Belo Horizonte - MG - Brasil Telefone: +55 (31) 3280-2105 Fax: +55 (31) 3227-3864 E-mail: revista@fapemig.br Site: http://revista.fapemig.br

Dinâmicas sociais são fluxos contínuos, capazes de alterar a relação dos seres humanos com suas próprias noções de existência. Nesta edição, MINAS FAZ CIÊNCIA aborda uma das mais importantes questões acerca da convivência entre os indivíduos na contemporaneidade. Em reportagem especial, a jornalista Verônica Soares – também responsável, no Programa de Comunicação Científica e Tecnológica (PCCT) da FAPEMIG, pelo gerenciamento das mídias sociais – revela e problematiza, a partir de entrevistas com pesquisadores de múltiplas áreas, as investigações em perspectiva antropológica que, hoje, ressignificam o conceito de “corpo humano”, de maneira a engendrar novos olhares sobre sexualidades e temas afins. Destaque, também, para a entrevista com um dos mais importantes nomes da ciência brasileira. Do alto de sua vasta experiência como gestor e pesquisador, o químico e ex-ministro José Israel Vargas analisa os obstáculos, as (multi)possibilidades, os erros e acertos do incentivo à pesquisa e à inovação tecnológica no País. Por falar em estímulo ao espírito inovador, não perca a reportagem de Diogo Brito

Blog: http://blog.fapemig.br Facebook: http://www.facebook.com/minasfazciencia Twitter: @minasfazciencia

sobre a Casa do Empreendedor do Vale da Eletrônica (Ceve)! Sediada em Santa Rita do Sapucaí (MG), a entidade busca, ao mesmo tempo, transmitir conhecimento e desburocratizar processos para elaboração de ideias, práticas e produtos indispensáveis ao desenvolvimento da nação. Como prova do espírito também inovador e multifacetado desta edição, que

GOVERNO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Governador: Fernando Pimentel

tal conhecer, ainda, o software Quiz Loucura, ferramenta projetada para auxiliar pro-

SECRETARIA DE ESTADO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR Secretário: Miguel Corrêa Jr.

os premiados protótipos de aviões criados por universitários mineiros?

fissionais de Enfermagem a enfrentar desafios ligados à saúde mental, ou voar com Não se apresse, contudo, pois tem mais! O que acha de saborear a exposição “Sentidos do nascer”, que pretende conscientizar as pessoas quanto à relevância do parto normal? De outro modo, caso prefira, o leitor poderá discutir o papel social, político e econômico dos intelectuais no Norte de Minas ou compreender melhor o

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais Presidente: Evaldo Ferreira Vilela diretor de Ciência, tecnologia e inovação: Paulo Sérgio Lacerda Beirão diretor de Planejamento, Gestão e Finanças: Alexsander da Silva Rocha Conselho Curador Presidente: João Francisco de Abreu Membros: Alexandre Christófaro Silva, Dijon Moraes Júnior, Virmondes Rodrigues Júnior, Esther Margarida Alves Ferreira Bastos, Flávio Antônio dos Santos, Júnia Guimarães Mourão, Marcelo Henrique dos Santos, Ricardo Vinhas Corrêa da Silva, Roberto do Nascimento Rodrigues, Sérgio Costa Oliveira, Valentino Rizzioli Para receber gratuitamente a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, envie seus dados (nome, profissão, instituição/empresa, endereço completo, telefone, fax e e-mail) para o e-mail: revista@fapemig.br ou para o seguinte endereço: FAPEMIG / Revista MINAS FAZ CIÊNCIA - Av. José Cândido da Silveira, 1500, Bairro Horto - Belo Horizonte/MG - Brasil - CEP 31.035-536

projeto responsável pelo sequenciamento genômico das raças zebuínas Gir e Guzerá. Para completar, nas seções fixas da revista – Lembra dessa?, Hiperlink e Cinco perguntas para... –, o leitor terá a oportunidade de ficar por dentro das novas vertentes da pesquisa que transformou soro lácteo em bebida isotônica, de apreciar a beleza das ilustrações científicas e de conhecer o trabalho do pesquisador Elton Eduardo Freitas, um dos responsáveis pela plataforma DataViva. Diante de temáticas com tamanha amplitude e contemporaneidade, só me resta, é claro, convidar o leitor à descoberta das maravilhas da diversidade da vida – expressa na fascinante complexidade dos seres, dos corpos, dos atos, dos tempos. Boa leitura! Maurício Guilherme Silva Jr. editor-chefe

Ao LEI To R

EX P ED I EN T E

MINAS FAZ CIÊNCIA diretora de redação: Vanessa Fagundes editor-chefe: Maurício Guilherme Silva Jr. redação: Alessandra Ribeiro, Ana Luiza Gonçalves, Camila Alves Mantovani, Diogo Brito, Maurício Guilherme Silva Jr., Vanessa Fagundes, Verônica Soares e Vivian Teixeira diagramação: Fazenda Comunicação revisão: Sílvia Brina Projeto gráfico: Hely Costa Jr. editoração: Unika Editora, Fatine Oliveira Montagem e impressão: Rona Editora tiragem: 20.000 exemplares Capa: Hely Costa Jr.


Í N D I CE

12

Entrevista

33

Genética

17

Inovação

39

História

21

Pecuária

42

Educação

25

Medicina

46

LEMBRA DESSA?

28

30

4

Ex-ministro José Israel Vargas comenta rumos, percalços e perspectivas da prática científica no Brasil

Software Quiz Loucura auxilia profissionais de Enfermagem a lidar com os desafios da saúde mental

Inédito no Brasil, projeto investe no sequenciamento genômico das raças zebuínas Gir e Guzerá

Itinerante, exposição “Sentidos do nascer” busca conscientizar população acerca da importância do parto normal

Pesquisa sobre dinâmica populacional de aves é capaz de prever mudanças de distribuição das espécies em função do clima

Engenharia

Protótipos de aviões construídos por universitários mineiros destacam-se em competições nacionais e internacionais

Especialistas discutem relação entre a prática científica e o processo de ressignificação do corpo humano

Iniciativa estimula escolas e universidades a encontrar outros modos de pensar o Brasil por meio da educação

Na UFV, soro lácteo resultante da fabricação de queijos é usado na produção de bebida isotônica

47

5 PERGUNTAS PARA...

49

hiperlink

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

Especial

Estudo busca compreender papel social, político e econômico dos intelectuais no Norte de Minas

Saúde

Protetor de seios desenvolvido na Unimontes beneficia aleitamento e evita dores e fissuras nos mamilos das mães

6

Um dos responsáveis pelo projeto DataViva, Elton Eduardo Freitas comenta o sucesso da plataforma

Ilustrações científicas, colecionismo e outras novidades do blog Minas faz Ciência

36

Gestão

Sediada em Santa Rita do Sapucaí (MG), Casa do Empreendedor transmite conhecimento e desburocratiza processos


ciência

fez parte de sua infância? “As feiras sempre foram superinteressantes! E minha escola tinha um laboratório de ciências muito bom – coisa que, hoje em dia, não há mais. Era um laboratório com animais embalsamados e um monte de outras coisas. Assim que cheguei nessa escola, precisei comprar equipamentos para as aulas no laboratório, que sempre foram as mais interessantes. Sou muito suspeita para falar, pois sempre adorei ciência. Essa introdução escolar foi responsável por muitas coisas futuras, quando pude, enfim, dar vida à aplicabilidade de tantas descobertas.” Marina Fráguas Barçante Via Facebook

“Em meu colégio, no interior do Paraná, havia feira de ciências todos os anos. Aquele era um dos grandes acontecimentos da escola, pois juntava a turma toda em um mesmo projeto. Fizemos sobre a ida à Lua, as flores, as salinas, os espelhos. A mais marcante, porém, foi nosso trabalho sobre o Universo. Em uma sala escura, iluminávamos, com lanternas, os planetas, nebulosas etc.”

grupo realizou trabalho sobre magnetismo: montamos uma espécie de instalação, com várias coisinhas flutuando. Aí, todo mundo que passava ficava curioso.” André Coelho Via Facebook

“Na minha escola, não havia feira de ciências, mas, em função de meu pai trabalhar com Engenharia, ele sempre envolveu a mim e a meu irmão em ciências divertidas, em eletrônica e coisas assim. Quando novinha, meu sonho era ser cientista. Meus brinquedos favoritos eram um microscópio e um kit chamado ‘Meu pequeno químico’. Cresci em casa rodeada e apaixonada pela ciência!” erika Araújo Via Facebook

“Tive um pouquinho de tudo: experiência do feijão no chumaço de algodão, feira de ciências, aulas no laboratório. Esta parte dá uma saudade danada. Era bem divertido.”

luciana eastwood romagnolli Via Facebook

Adriana linhares Via Facebook

“Cresci abraçado à Biblioteca do Escoteiro Mirim, coleção de livros da Disney com centenas de textos, quadrinhos e gráficos sobre uma pancada de coisas, principalmente, Astronomia e Química. Eu fazia certas experiências e saía carregando tudo para a escola. Às vezes, nem os amiguinhos davam muita importância, mas eu achava muito louco. Acho que, até mesmo pela escola onde estudei ser bem relapsa quanto ao ensino de ciências, as raras feiras foram memoráveis. Numa delas, meu

“Aqui em casa convivemos com ciência desde pequenos, fazendo experimentos na escola e visitando o trabalho de meu pai, que era pesquisador.” Ângela Guimarães Pinto dias Via Facebook

“Adorava as feiras de ciências, e, como fui criada em casa, material não me faltava para explorar...” Piedade oliveira Fagundes Via Facebook

MINAS FAZ CIÊNCIA tem por finalidade divulgar a produção científica e tecnológica do Estado para a sociedade. A reprodução do seu conteúdo é permitida, desde que citada a fonte. MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

5

CI ÊN CI A AB ERTA

Como a


especial

o t i u m a r a P o d além o h l e p es erspectiva p m e s o d u Est ignificam s s e r a ic g ló antropo de “corpo o it e c n o c o dram novos n e g n e e ” humano lidades, a u x e s e r b olhares so ecnologias t e s e t r a , s ciborgue ares Verônica So

6

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015


Em uma sociedade fortemente influenciada pela tecnociência, o corpo é pensado a partir de suas existências material e biológica: “Sou homem”. “Sou mulher”. A maneira de nos relacionarmos à corporeidade – a nossa e a dos outros –, porém, sofre influência de diversas circunstâncias culturais e sociais, capazes de serem observadas no cotidiano: da religião ao trabalho, da cidade de nascimento à família em que fomos criados ou aos gostos musicais de nossos pais. Do referencial estabelecido por René Descartes (1596-1650) – “Penso, logo existo” – e, posteriormente, pelos mecanicistas, passando pelo desenvolvimento da Biologia, e, mais recentemente, pela Genômica, chega-se a um ideal de corpo cada vez mais visto como conjunto de informações, sendo passível de manipulação, modulação e controle. A afirmação é do professor Marko Synésio Alves Monteiro, do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que lidera o Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia (GEICT) e investiga, dentre outros temas, os corpos digitais, as controvérsias sociotécnicas, as biotecnologias e os gêneros. Conforme destaca o pesquisador, muitas são as pesquisas e áreas a lidar com o assunto, da “molecularização” – ou a ênfase na genética e na esfera molecular para compreensão do corpo – à constante busca por melhoramento e superação dos limites naturais. Há, ainda, vertentes de estudo que pensam a corporeidade em sua interface com as tecnologias digitais, a exemplo do design interativo. As investigações se desdobram a partir de questões centrais: como esse corpo contemporâneo existe em relação à ciência, à moda, à estética, ao esporte e à medicina, dentre outras áreas? Nos estudos sociais da ciência e da tecnologia, o novo conceito tem se expandido para tratar de corpos em constante transformação. À primeira vista, o que vem à mente são transformações físicas motivadas por padrões estéticos, como implantes de silicone, cirurgias modeladoras ou, até mesmo, intervenções ortodônticas. Há algo além disso, contudo. No livro Os dilemas do humano: reinventando o corpo numa era

Confira vídeo sobre a pesquisa:

(bio)tecnológica, Marko Synésio trata das mudanças em curso na concepção moderna de “corpo”, a partir do advento das novas tecnologias de manipulação genética. A obra é fruto do doutorado do autor em Ciências Sociais e promove importante debate sobre como as biotecnologias, o avanço da Medicina e as crescentes possibilidades de manipulação corporal afetam as concepções culturais em torno do “corpo” e do significado de “humano”. “Inicialmente, do ponto de vista antropológico ou das ciências sociais, é preciso questionar um conceito unívoco ou universal. A ideia de que haja uma entidade discreta e autoevidente denominada ‘corpo’, e que seja universalmente reconhecida enquanto tal, não faz muito sentido”, declara o professor, que atenta para o fato de que essa categoria existe dentro de um contexto, de um sistema de relações sociais e significados. Imerso numa série de experiências etnográficas em laboratórios, Marko Synésio desenvolveu pesquisa na Universidade do Texas, em Austin, com cientistas que buscavam construir nova terapia con-

tra o câncer de próstata, a partir do uso de computação avançada para prever o dano causado por luz laser nos tecidos. Surge daí um importante debate sobre como “verdades científicas construídas em laboratório” participam da construção e da manutenção de relações sociais de poder desiguais, por exemplo. Ao tratar da forma de trabalho desses pesquisadores, e do tipo de corpo que se constituía nas bancadas do laboratório, o professor pôde vislumbrar a contribuição de muitas áreas da ciência e da tecnologia. Na visão de Marko Synésio, as ciências sociais têm buscado a discussão de políticas públicas e a ampliação do enten-

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

7


dimento das pessoas sobre o corpo, por meio do debate, por exemplo, de questões éticas relacionadas a pesquisas de saúde. “Que o digam as teóricas feministas, que propõem a reflexão sobre estudos na área da reprodução, questionando a forma como algumas delas objetificam o corpo da mulher, reproduzem e produzem desigualdades”, conclui.

Somos todos ciborgues?

Em 1985, a filósofa feminista americana Donna Haraway publicou seu Manifesto para ciborgues: ciência, tecnologia e feminismo socialista no final do século XX, documento que ditou novos parâmetros para a crítica das identidades, em defesa das diferenças, e buscou reivindicar a apropriação dos avanços científicos e tecnológicos. Na definição da própria autora, um “ciborgue é um organismo cibernético, um híbrido de máquina e organismo, uma criatura de realidade social e, também, uma criatura de ficção”. Ainda que pareça inventada em um filme de ficção científica, a ideia de “ciborgue”, conforme discutida por Donna Haraway, é uma forma de chamar atenção para o fato de que o corpo humano aparece cada vez mais entrelaçado às tecnologias. Além disso, fica o alerta para a necessidade de reflexão sobre o tema, de forma consciente e crítica, tanto na saúde quanto no esporte, na moda e no cotidiano. Para a artista Maria Angelica Melendi de Biasizzo, doutora em Estudos Literários e professora da Escola de Belas Artes da UFMG, vive-se, hoje, com a sensação de que não há limite para os corpos, nem para suas potencialidades. Além disso, tanto as ciências humanas quanto as investigações tecnológicas alimentam essa sensação. Segundo a pesquisadora, o corpo ciborgue proclamado por Donna Haraway é um fato consumado. Afinal, todos (ou quase todos) têm computadores, lentes de contato, dentaduras novas, unhas postiças e seios impecáveis, dentre outras coisas que desnaturalizam os humanos. “Talvez esse corpo que nos ocupa seja apenas uma miragem. Por meio de próteses mais ou menos complexas, estaria o sonho do corpo-máquina perfeito e eterno que persegue a humanidade desde

8

sempre. Estratégias vãs para distanciar a morte”, defende Melendi. Já na acepção de Marko Synésio, também falta, aos indivíduos, conhecimento acerca dos processos, produtos e métodos tecnológicos comuns ao cotidiano de todos. “Quando usamos pasta de dente ou filtro solar com nanopartículas, por exemplo, estamos cientes de como essas tecnologias foram produzidas? Sabemos se causam danos ou não? Quando vemos a obsessão pela cirurgia estética, desde implantes de silicone até lipoaspirações, discutimos a ética dessas alterações? Como elas são vivenciadas? Como o Estado deve se posicionar diante de tais questões?”, destaca. Para o pesquisador, à medida que o homem se torna mais ciborgue – posto que cada vez mais alterado pela tecnociência, com o auxílio de anabolizantes, roupas especiais e próteses –, é possível pôr em questão, até mesmo, a validade da separação entre o que seja natural e artificial. Nos esportes de alto desempenho, por exemplo, existiriam, hoje, atletas “naturais”? A competição é justa ou ganha quem tem mais

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

Transgênero, travesti ou transexual? O termo “transgênero” – que poderia ser usado como guarda-chuva conceitual – não é consenso. Afinal, nem todos os transexuais se identificam com a definição. “Na verdade, não há termo correto. O importante é saber como o sujeito se autoidentifica, para que possamos usar o melhor vocábulo em cada caso”, explica a professora Érica Renata de Souza. Do ponto de vista do conhecimento médico-psiquiátrico, a transexualidade é considerada um transtorno psíquico, e a travestilidade é classificada como “homens que se vestem de mulher”. No âmbito dos movimentos sociais, há pessoas que usam a denominação “travesti” como afirmação política, por não se conformarem com uma norma de gênero binária, responsável pela divisão “homem/mulher”. “O senso comum diz que transexuais seriam pessoas que fazem uma transição de gênero e realizam determinadas intervenções corporais, por meio de hormônios, cirurgias ou implantes de silicone. Tais limites, porém, são muito tênues na experiência. As próprias pessoas se autodeclaram de forma diferente, de acordo com os contextos”, esclarece o professor Marco Aurélio Prado.


tecnologia? “A busca por melhoria no desempenho já alcançou o nível molecular. Há muitas pesquisas sobre o chamado doping genético. Neste cenário, se mudamos o corpo a partir dos genes, ainda se trata de doping? Se sim, como detectá-lo?”, completa.

Direitos e preconceitos

Outro campo crescente de pesquisas sobre corporeidade relaciona-se à questão das transexualidades, tema, segundo Marko Synésio, de grande interesse. Conforme destaca o pesquisador, transgêneros e transexuais põem em xeque as visões binárias da sociedade – marcada pela dicotomia “homem/mulher” – sobre gênero e sexo biológico. Além disso, as experiências e os sofrimentos dos indivíduos representam dilemas a serem enfrentados: “Um diálogo aberto entre a Medicina, a lei e as Ciências Sociais traria grandes avanços à proteção dessa população, em geral, extremamente marginalizada. Tal aproximação também ajudaria a modernizar a visão do grande público, que ainda trata com grande desconfiança e preconceito qualquer prática ou forma de vida diferente da heterossexualidade”, sublinha. Para dar visibilidade a discussões relacionadas ao corpo transexual, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) conta com o Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT, o Nuh, que desenvolve ações de caracterização das realidades de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, assim como das formas de violência, de homofobia e de transfobia. Há cinco anos sob coordenação do professor Marco Aurélio Máximo Prado, doutor em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o Nuh foi institucionalizado em dezembro de 2007, por meio de convênio entre a UFMG e a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. O pesquisador também está à frente do projeto “Direitos e violências na experiência de travestis e transexuais na região de Belo Horizonte”, financiado pela FAPEMIG, que pretende mapear as formas de agressão e de acesso a direitos de travestis e transexuais femininas em trabalho sexual em BH. A iniciativa nasceu do alto índice de assassinatos

e do interesse do movimento das travestis na cidade, que buscava dados para discussão de políticas públicas no município. “Do ponto de vista do conhecimento científico sobre as travestilidades, a Antropologia é pioneira no Brasil e foi responsável por ampliar as pesquisas sobre diversidade sexual. Sendo assim, quase todos os estudos no Brasil são de cunho etnográfico”, explica, ao pontuar que as travestis estão em um campo de intervenção de várias forças, sejam elas de cunho religioso, político ou policial. Para realização do trabalho de campo, foi preciso que, antes, os pesquisadores se inserissem na comunidade, de modo a desenvolver relações de confiança e a mapear experiências de direito e de violência. Marco Aurélio Prado observa, ainda, que as experiências LGBT foram, por muito tempo, deslegitimadas pelas ciências. Em função disso, essa comunidade acabou por criar conhecimentos quase espontâneos sobre suas próprias experiências, para dialogar com as instâncias políticas. “Essas pessoas acumularam saberes que a gente não tem. Nosso trabalho é delicado, pois é um campo violento, cheio de vulnerabilidades”, conta. O pesquisador identifica um hiato nos estudos sobre travestis no Brasil, posto que as investigações estão muito datadas à emergência da Aids, entre as décadas de 1980 e 1990. A partir dos anos 1990 é que se inicia no País a discussão sobre as transexualidades à luz dos direitos humanos. Para Érica Renata de Souza, professora do departamento de Antropologia e Arqueologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da UFMG e integrante do Nuh, um dos

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

9


problemas centrais para os estudos na área das transgeneridade é a escassez de literatura acadêmica sobre o tema – para não falar da lacuna de conhecimentos e políticas públicas adequadas. “Essa população é alvo de muito preconceito e de violências de vários tipos, sobretudo, física e simbólica. É ainda mais preocupante pensar que as agressões permeiam todas as instituições sociais: a família, a escola e o trabalho”, esclarece. Érica coordena a extensa pesquisa denominada “Transexualidades Masculinas e saúde pública no Brasil”, que estuda o acesso e a restrição de homens transexuais aos serviços de saúde. A professora explica que, no Brasil, grande parte dos “homens trans” nem se identifica como transexual, e se apropria do termo “homens trans” para se autorreferenciar. “A falta de entendimento dos termos e seus usos é um problema, à medida que a diversidade de expressões e identidades não é respeitada e o sujeito não se identifica com uma categoria na qual foi arbitrariamente posto por determinado discurso, seja ele proveniente de médicos, psicólogos ou familiares”, explica. Nos últimos dois anos, o grupo coordenado por Érica tem participado de espaços de sociabilidade – inclusive, nas redes sociais –, a fim de compreender melhor as transmasculinidades. Assim como a maior parte das pesquisas sobre a temática LGBT, também essa tem cunho antropológico, o que revela a intrínseca relação entre o biológico e o cultural: “Não há linha divisória identificável entre natureza/biologia/corpo e cultura/sociedade/mente. Não há corpo, sujeito, sentimento ou experiência que possam ser vividos ou concebidos fora de uma cultura”, conclui. Resultados preliminares da pesquisa indicam que a violência física e simbólica contra homens trans é um fato quase que naturalizado em todas as instituições sociais. “É mais que urgente a elaboração de políticas públicas que não se pautem em discursos patologizantes, mas contemplem a saúde integral dos homens trans e o reconhecimento de sua cidadania”, defende a professora. No Brasil, o Ministério da Saúde oferece atenção às pessoas transexuais, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), desde a publicação da portaria nº 457,

10

De acordo com o Ministério da Saúde, o processo transexualizador – ou cirurgia de redesignação de sexo – pode ser definido como um conjunto de estratégias assistenciais para transexuais que pretendem realizar modificações corporais, em função de um sentimento de desacordo entre seu sexo biológico e seu gênero, em atendimento às legislações e pareceres médicos. de agosto de 2008, seguida da portaria 2.803, de 2013, que redefiniu e ampliou o processo transexualizador, incluindo o atendimento aos homens trans e travestis. Segundo dados oficiais, até 2014, houve 6.724 procedimentos ambulatoriais e 243 cirurgias referentes ao processo transexualizador no SUS. Em novembro de 2013, o Ministério da Saúde aumentou o número de procedimentos ambulatoriais e hospitalares, incluindo procedimentos para redesignação sexual de mulher para homem (homens trans). A transexualidade está listada na Classificação Internacional de Doenças (CID) e ainda é considerada uma patologia mental por diversos setores da Medicina. Para Érica, esse movimento diz muito sobre como a medicina ainda não consegue lidar com a transexualidade a partir de um viés que não seja patologizante: “É uma cilada: ao mesmo tempo em que pode possibilitar o acesso a hormônios e a cirurgias, reifica a ideia de que se trata de doença e de que essa é a única forma de resolver o ‘problema’”, questiona. O quadro é ainda mais complexo quando se sabe que muitos transexuais não se identificam com o perfil exigido para ter acesso aos hormônios e à cirurgia, enquanto outros não querem se submeter à operação. “Mesmo entre aqueles e aquelas que desejam hormônios e cirurgias, o acesso deveria se dar de forma mais autônoma, e não por meio da dependência de um profissional que ‘ateste’ a necessidade de o indivíduo se submeter ao processo transexualizador”, defende a professora, para quem há, hoje, uma espécie de “tutela” médica, como se o outro não tivesse condições suficientes de falar de si e por si.

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

Eis as instituições habilitadas pelo SUS a realizar o processo transexualizador: Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás, Hospital de Clínicas de Porto Alegre, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (RJ), Fundação Faculdade de Medicina, da Universidade de São Paulo (USP), e Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).


Corpos e direitos

As pesquisas conduzidas por Érica Renata de Souza e Marco Aurélio Prado reforçam a necessidade de acesso a serviços de saúde para a população trans, no que concerne a referenciais de democracia, cidadania e direitos humanos. Entretanto, os estudos encontram desafios impostos por outras áreas do conhecimento e pela própria lógica de funcionamento da sociedade. Para Laís Godoi Lopes, doutoranda na UFMG, o Direito, por exemplo, encontra-se em nítido descompasso com as outras ciências em relação ao tratamento do corpo humano. “A prática e a regulação consideram o corpo como dado, uma realidade biológica estática e prévia ao Direito, que deve ser protegida na sua inteireza, inclusive contra a ação da própria pessoa”, explica. A pesquisadora acredita que tal posicionamento revela o paternalismo presente no conceito jurídico de integridade física, que veda a livre disposição do próprio corpo. Sua pesquisa junto à Faculdade de Direito da UFMG, intitulada “A família para além do gênero: reformulações dos direitos sexuais e reprodutivos a partir das biotecnologias”, parte do gênero como conceito ainda normativo, que constrange as possibilidades de vivência e o reconhecimento social das diferentes formas de existir e de se relacionar no mundo. Contudo, segundo Laís, as biotecnologias apontam para possibilidades ilimitadas de No que tange aos direitos LGBT, a Argentina tem a legislação mais avançada do mundo. A “Ley de Identidad de Género da Argentina”, de 2012, desburocratizou uma série de demandas da comunidade. Projeto similar foi apresentado ao Congresso brasileiro em 2013, como “Lei João W. Nery” – em referência ao primeiro transexual brasileiro –, e ainda se encontra em tramitação no Legislativo. A aprovação do projeto ajudaria a desconstruir o modelo médico-jurídico que rotula a transexualidade como doença a ser regulada pelo Direito, e não como expressão legítima da diversidade de gênero.

vivência e de reconstrução do corpo, de tal modo que não mais se sustenta naturalizar a identidade de gênero como algo determinado por uma realidade corporal inata, como o genital ou os genes. “O gênero não é um destino biológico imutável. A identidade de gênero é uma construção relacional, que, em última instância, só pode ser definida pelo reconhecimento social reivindicado pela pessoa. Ou seja, por sua autoidentificação”, defende. O corpo, neste sentido, passa a ser o primeiro espaço de democracia, de construção da própria identidade, na tensão com o reconhecimento do outro. Essa perspectiva comporta, ainda, a luta por direitos dos movimentos sociais – inclusive, o direito à saúde e ao próprio corpo, cotidianamente negado, como visto nas pesquisas desenvolvidas por Marco Aurélio Prado e Érica Souza. Laís Lopes defende que o Direito seja readequado às novas realidades, que compreendem o corpo como construção social e tecnológica, aberta a intervenções e ressignificações. “As biotecnologias redimensionam as fronteiras corporais. As possibilidades abertas por elas têm que ser consideradas em suas consequências políticas e jurídicas”, lamenta.

Na história, na cidade

Denise Berruezo Portinari, doutora em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC Rio), desenvolve e orienta pesquisas relacionadas a diferentes formas de articulação dos corpos com o espaço urbano. Professora do Programa de Pós-graduação em Design da PUC-Rio, a pesquisadora parte do pensamento de autores como Michel Foucault, Roland Barthes, David Le Breton, Judith Butler e David Harvey, dentre outros, para compreender melhor as diversas linhas de força que se entrecruzam na produção de formas e relações corpo/cidade. Dentre as motivações para estudar o tema, está a possibilidade de produção ou de encorajamento de alternativas, de “contracondutas” – conforme termo de Foucault – e de formas de resistência às forças biopolíticas que atuam na produção dos corpos e das subjetividades contemporâneas. “Certamente, vivemos em uma sociedade na qual o corpo tem lugar privilegiado na constituição das identidades.

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

11


Neste sentido, podemos evocar Foucault, quando aponta a valorização do corpo, da saúde, da descendência, da longevidade, da higiene, do asseio e da multiplicação dos cuidados corporais como forma de autoafirmação da burguesia em seu trajeto de ascensão – processo que culminará, no século XIX, com a invenção da sexualidade como atributo fundamental e definidor desse ‘corpo burguês’”, elucida. O corpo fundado no século XIX, portanto, seria “histórico”, por não contemplar a “essência” do corpo, nem conter em si a verdade. “A verdade que se produz a partir dos corpos é o efeito de um jogo de forças, de valorações, de técnicas, de práticas, de formas de interpretação”. Segundo a pesquisadora, as ciências estão engajadas, ao menos desde o século XIX, em projetos biopolíticos de produção dos corpos e da sexualidade – sobretudo, no que tange à extensão do domínio da “vida”, no sentido biológico do termo. “Trata-se de produção ininterrupta de novos saberes, técnicas, estratégias e tecnologias de extensão da vida, da ‘saúde’ e do ‘bem-estar’ mental e físico, que implica, também, na produção constante de novos sujeitos, como a criança hiperativa. Criam-se, ainda, novas técnicas e produtos para investigar, controlar e tratar as patologias”, descreve Denise. Como forma de subversão a tal ordem, surge a necessidade de críticas que permitam reintroduzir o estranhamento (o queer), a finitude, a incompletude e a problematização da questão da autonomia do indivíduo, de suas possibilidades de escolha e de produção de outras formas do viver. Neste contexto, importante abordar a pesquisa de Fernanda Ribeiro Coutinho, orientada por Denise Portinari, sobre a body modification e sua produção de “beleza freak” como forma de subversão das estéticas e das corporeidades urbanas. Atualmente na França, para um estágio doutoral, Fernanda Coutinho trabalha com a perspectiva antropológica que compreende o corpo como construção social. “Julgamos que há, por parte da cultura na qual o homem se insere, assimilação das propriedades biológicas que lhe são particulares”, afirma a pesquisadora. Ou seja, as práticas do corpo aparentemente “naturais” são vistas como culturalmente produzidas, de acordo com as singularidades de cada sociedade. Por isso, noções como as de nascer e morrer, além de distinções de traços físico-raciais, de sexo e funções humanas (fome, sono, desejo sexual etc.), são intermediadas pela cultura.

12

A expressão body modification diz respeito, nos EUA e na Europa, a uma série de práticas realizadas por sujeitos que se autointitulam body hackers, self-made cyborgs, grinders, primitivos modernos, dentre outros termos relacionados a mudanças corporais. Fernanda Coutinho pontua que, no Brasil, a diferenciação das práticas não aparece de forma clara, uma vez que as mais variadas correntes aglutinam-se sob o genérico termo body modification. Em outras palavras, trata-se de “modificações corporais” como tatuagens, implantes subcutâneos, escarificação, bifurcação da língua ou eyeball tattoo – quanto se tatua a região branca dos olhos. Esses estilos produzidos no interior das subculturas configuram-se como “táticas”, na medida em que estão associados a contracondutas e a formas de resistência de vanguarda adotadas por grupos identitários minoritários e/ou de estratos sociais marginalizados, com acesso restrito aos mercados de bens de consumo. Segundo Fernanda, as motivações para a promoção das alterações corporais podem ser percebidas sob dois aspectos: “Há reivindicação de autonomia do sujeito em relação ao próprio corpo, em termos políticos, além de forte rejeição ao que denominam e classificam como ‘corpo burguês’, normatizado pelos dispositivos de poder em termos estéticos, socioeconômicos e de sexo”, afirma. Tal “corpo burguês” caracteriza-se por ser branco, longilíneo, de musculatura definida, heterossexual e cristão. Para os adeptos da body modification, tal representação se aproxima dos ideais da eugenia – ou a investigação de características capazes de melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das gerações futuras. Quando destituídos de seu significado original, estes estilos de modificação corporal são comercializados de forma diluída e pasteurizada, por meio de estratégias voltadas, sobretudo, ao público jovem, o que leva a um movimento de assimilação, como ocorreu com a tatuagem e o piercing, incorporados maciçamente pelo mercado. “O corpo é uma biografia em construção”, conclui Fernanda.

Linguagens e excessos

“Estamos nos tornando corpos intolerantes. Essa mistura entre carbono e silício, ou seja, entre corpo e tecnologias, não

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

acontece de maneira harmoniosa”. Tal afirmação, feita por Graziela Andrade, bailarina e professora adjunta do curso de Licenciatura em Dança da UFMG, no departamento de Fotografia, Teatro e Cinema da Escola de Belas Artes, pode parecer na contramão das discussões apresentadas até aqui. A observação, contudo, vem ao encontro da angústia de muitos indivíduos em relação ao atual excesso de tecnologia e de informação que circulam em nosso cotidiano. A pesquisadora observa que, na atualidade, somos treinados a lidar com uma troca de informações condicionada pela compressão do espaço e do tempo. “Quando as coisas não acontecem na velocidade que desejamos ou esperamos, quando o corpo está presente de maneira real e não digital, quando precisamos dar conta de um tempo lento e de um espaço longo, parece que perdemos habilidades e que o reconhecimento da alteridade tornou-se bastante problemático”, explica. Suas investigações dizem respeito ao fato de que temos muito mais contato com sujeitos de ‘corpo ausente’ do que com pessoas de ‘carne e osso’. “Por isso, talvez estejamos ainda mais intolerantes às diferenças”, pontua a pesquisadora, ao analisar o comportamento humano em redes sociais digitais. Na dança, percebe-se, desde o final do século XIX, a tentativa de reflexão sobre um corpo que não siga os princípios cartesianos, que não se separe da mente e possua existência – pensante – em si mesmo. “Este corpo que é sujeito-objeto no e do mundo, a meu ver, tem grande potência crítica para experimentar e refletir sobre suas aproximações com as tecnologias. Não quero dizer com isso que os bailarinos estejam ‘imunes’ aos efeitos da técnica. Ninguém está! Mas, enquanto campo de pensamento e do fazer artístico, acredito que a dança tenha muito a colaborar no que diz respeito a essa grande questão: ‘Que corpo somos?’”.


entrevista

Em defesa do mérito Um dos mais respeitados nomes da ciência brasileira, José Israel Vargas analisa movimentos, obstáculos e soluções para a pesquisa nacional Maurício Guilherme Silva Jr.

Secretário de Estado de Minas Gerais durante o governo Aureliano Chaves e ministro de Ciência e Tecnologia ao longo das gestões dos presidentes Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso – entre 1992 e 1998 –, José Israel Vargas é um dos principais nomes da produção e da gestão científicas no País. Formado em Química pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tornou-se PhD pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e atuou, ainda, como embaixador do Brasil junto à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Desse modo, auxiliou a concretização de algumas das mais relevantes iniciativas ligadas ao desenvolvimento da pesquisa em solo brasileiro. Mineiro de Paracatu, Vargas foi gestor, pesquisador e professor em diversas instituições nacionais e internacionais. Como físico – campo do conhecimento ao qual se dedica com mais afinco –, desenvolveu trabalhos sobre as aplicações da Correlação Angular Perturbada e o efeito Mössbauer, ligado ao estudo das transformações nucleares nos sólidos. Dentre suas tantas atividades, foi diretor do Instituto de Pesquisas Radioativas da UFMG – de

onde, aliás, é professor emérito – e colaborou com a construção do laboratório de interações hiperfinas do Centro de Estudos Nucleares de Grenoble, na França. Nesta entrevista, o professor e ex-ministro relembra histórias brasileiras de sucesso na área de ciência, tecnologia e inovação e comenta o que, definitivamente, precisa mudar. A seu ver, o que é mais importante para o incentivo a boas gerações de pesquisadores? Há necessidade de iniciativas criativas e eficazes. Lembro-me, por exemplo, da Fundação Getúlio Vargas, que criou um colégio, em Nova Friburgo (RJ), para recrutar meninos, em todo o Brasil, por meio de concursos de seleção. Muitas pessoas, hoje com 60, 70 anos, frequentavam esse colégio de liderança. Recordo-me de Antônio Otávio, que foi presidente da Fundação João Pinheiro e fez um doutorado no MIT [Massachusetts Institute of Technology], em educação. Ele se formou na Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, que também é um bom exemplo de criatividade no ensino, já que lá, em certo período, foi implantado um regime de tempo integral para os alunos. Isso culminou com impor-

tante geração de economistas mineiros. Da mesma maneira, Francisco Magalhães, na Escola de Engenharia, teve a iniciativa de criar o Instituto de Pesquisa Radioativa, fato mais relevante da ciência durante a guerra. De um lado, estava a importância estratégica do ato. Afinal, muito mais do que a produção da bomba atômica, o que nos interessava era o sonho da energia nuclear. Por meio da obtenção de energia barata, seria possível estabelecer, restaurar ou relançar uma nova Revolução Industrial. Conforme dizia um antigo presidente da comissão de energia atômica americana, um dia, a eletricidade seria tão barata que não valeria a pena emitir a conta de luz. Outra ótima iniciativa no Brasil diz respeito ao Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), do qual tive a extraordinária chance de participar, no começo dos anos 1954, junto ao departamento de Física, recrutado por Paulus Aulus Pompeia, um dos responsáveis pela criação da a Física brasileira. O Instituto permanece uma grande escola de Engenharia Eletrônica, de aeronaves, aerovias e eletrônica, além de ter dado origem à Embraer. Trata-se de excepcional estrutura, criada pelo tenente coronel Montenegro [Casimiro Montenegro Filho], que entre-

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

13


Maurício Guilherme Silva Jr.

14

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015


vistava todos os novos recrutas que ali estudariam. Cheguei lá aos vinte e poucos anos, em consequência de um curso de reciclagem de professores de ensino secundário de Física, baseado no diagnóstico de que o nível estava muito baixo. No total, éramos cinquenta professores, dois por estado, patrocinados pelo Conselho Nacional de Pesquisa. De Minas Gerais, além de mim, foi escolhida a professora Beatriz Alvarenga. Fiquei dois anos e meio por lá. E a iniciativa revelou-se realmente muito interessante. Os alunos do Instituto foram recrutados no Brasil inteiro. Para tal, bancas examinadoras deslocavam-se para as diversas regiões do País, com o intuito de realizar seleções eficazes, de modo a identificar jovens com mérito para ingressar no ITA. Importante ressaltar, também, que o Instituto recebeu professores estrangeiros, quase todos dos MIT – alguns dos quais, bastante famosos. Muitos anos depois, eu e o presidente da Finep [Financiadora de Estudos e Projetos], José Pelúcio Ferreira – que teve papel muito importante no desenvolvimento da ciência e da tecnologia no Brasil – fomos entrevistar Montenegro, a quem perguntamos: “Como é que o senhor conseguiu fazer o ITA?”. Ao que ele nos respondeu, com tranquilidade: “Muito simples”. Primeiramente, ele era amigo de Getúlio Vargas, pois tinha sido um dos pilotos, ao lado de “Melo Maluco” [apelido de Francisco de Assis Correia de Melo], que haviam apoiado a revolução de 1930. Por ter prestígio com Getúlio, Montenegro conseguiu ficar livre do Dasp, o Departamento de Administração do Serviço Público Brasileiro. Podia, assim, fixar o salário dos professores a preços de mercado, além de dar bolsas aos alunos. Pôde, também, não consultar o Estado Maior da Aeronáutica, que, provavelmente, teria sido contra aquilo tudo. Para a boa formação de pesquisadores, portanto, não há muito mistério: entidades de formação de pessoas de alta qualidade são constituídas por professores de alta qualidade, bem selecionados, bem pagos e respeitados. No caso do ITA, essa elite, 20 anos depois, gerou

a Embraer. Escutei no rádio, há pouco, que o balanço da Embraer gerou U$ 20 bilhões em produtos. Ou seja: caso haja o desejo de gerar produtos de boa qualidade, é preciso, obviamente, de gente de boa qualidade. Por sua vez, gente de boa qualidade é formada por professores de boa qualidade. O papel da FAPEMIG, por exemplo, é este: investir e induzir a boa qualidade. E não é preciso de números grandes para tal, nem de se tornar popular, já que qualidade não se encontra aos “tropicões”. É preciso, sim, de bons processos de seleção e de pouca burocracia. Pelo que percebo, o trabalho no ITA revelou-se bastante significativo em sua trajetória. Do ponto de vista pessoal, minha passagem pelo ITA foi formidável, pois, à época, não havia pós-graduação no Brasil. O Instituto era o único lugar onde os jovens professores tinham casa, comida, roupa lavada, salário suficiente, baixa carga horária e liberdade de realizar seus desejos. Naquele mesmo período, ao lado de meia dúzia de colegas, mais seniors do que eu, também tivemos a chance única de ir a São Paulo, para frequentar, semanalmente, um seminário do famoso físico norte-americano David Bohm, que estava refugiado do Macartismo no Brasil e fora recrutado pela Universidade de São Paulo. Ele era, digamos assim, o profeta de um novo ramo revolucionário: a física quântica. Para além de tais experiências, no ITA, também havia o fato de que poderiam fazer pesquisa todos aqueles que assim o desejassem. Éramos estimulados e induzidos a isso. Neste cenário, montei, talvez, o primeiro curso de Física atômica experimental. Tempos depois, eu e Beatriz Alvarenga trouxemos tal modalidade a Belo Horizonte. Com base em sua vasta experiência, o que se revela essencial à gestão da ciência? Conforme destaquei, só é possível formar cientistas e técnicos de alta qualidade por meio de cientistas e técnicos de alta qualidade. Não há outra receita. Lamento que, em diversos outros setores – com

Do ponto de vista pessoal, minha passagem pelo ITA foi formidável, pois, à época, não havia pós-graduação no Brasil. O Instituto era o único lugar onde os jovens professores tinham casa, comida, roupa lavada, salário suficiente, baixa carga horária e liberdade de realizar seus desejos.

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

15


exceção da Embrapa, instituição da qual assisti ao nascimento, por ser membro do Conselho Nacional de Pesquisa, que havia deixado de ser um órgão público, submetido ao Dasp, para se transformar numa fundação pública de direito privado –, haja impedimentos ao desenvolvimento de iniciativas importantes. Na Constituição de 1988, por exemplo, havia coisas absurdas, como a proibição de contratação de cientistas e técnicos estrangeiros por instituições públicas brasileiras. Levei quatro anos para tirar isso da Carta, mas ainda existiam dispositivos absurdos, como o chamado “regime jurídico único”, que faz com que todos os universitários brasileiros federais tenham o mesmo salário, independentemente da universidade e da qualidade do que fazem. Trata-se de um sistema democrático entre aspas, que consiste em nivelar tudo por baixo. É indispensável reconhecer o mérito. Evidentemente, contudo, nem tudo é ruim. Existem canais, como a FAPEMIG, que estimulam aqueles com melhor disposição, em universidades voltadas e treinadas à pesquisa, e permitem que haja recursos adicionais, por via de bolsas de contrato etc. De todo modo, isso ainda é insuficiente, pois os gastos totais com a ciência, no Brasil, estão em pouco mais de 1% do PIB [Produto Interno Bruto], índice muito pequeno, se comparado a países como Japão e Coreia. Outro ponto importante diz respeito à participação do setor privado – principalmente, das empresas – no esforço de ciência e tecnologia, o que é muito restrito e passa por altos e baixos no Brasil. À época em que fui ministro, aprovamos duas leis que tiveram muito sucesso. A de número 8.661 permitia que as empresas destinassem até 8% do imposto devido à tecnologia. Caso aplicassem na área, as empresas abatiam a porcentagem correspondente do imposto. A novidade teve muito sucesso, durou 10 anos e acabou. A outra lei, de número 8.248, permitia aplicação de 5% do faturamento bruto das empresas em informática. Desses 5%, metade podia ser resultado de projetos mistos, entre as universidades e o setor privado. A metade era muito grande

16

e gerou uma série de iniciativas importantes, como um programa para o desenvolvimento dos softwares, o Softex 2000. Como o senhor observa a divulgação científica brasileira? Em sua visão, os jornais, as revistas, os sites e meios audiovisuais realizam bons trabalhos na área? O Brasil, na verdade, nunca deu a devida importância à ciência. Costumo dizer que o País não incluiu, entre seus sistemas e valores, a educação em geral, e, em particular, a educação científica. Apesar disso, lembro-me, agora, de uma iniciativa de alta qualidade, promovida pela TV Escola, que consiste na transcrição e na dublagem de ótimos filmes, feitos, na maioria das vezes, pela BBC [a emissora inglesa de televisão British Broadcasting Corporation]. Um deles, muito interessante, abordava o darwinismo. Um programa como este nos lembra, por exemplo, que a maioria das experiências de Darwin foram repetidas no jardim de sua casa. E Darwin, naturalmente, tornou-se um marco na ciência mundial e na história do homem. O darwinismo, aliás, teve como precursor o próprio avô do cientista. Em outros episódios, a TV Escola abordou o teorema de Pitágoras, a evolução da Astronomia e da geometria, a origem da eletricidade, dentro outros assuntos. Iniciativas como estas são extremamente relevantes. As TVs universitárias também precisam investir em programações assim. Como o senhor analisa o estudo, o aprendizado e o ensino da Química e da Física na atualidade? Em primeiro lugar, é inegável que o ensino se expandiu enormemente. Fui o primeiro doutor em Física e Química do Brasil, mas era outro universo. Hoje, há centenas de doutores na UFMG, por exemplo. E a produção é de qualidade razoável. Há uma imposição errônea do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], que obriga o bolsista a publicar dois trabalhos por ano. Isso faz com que os trabalhos não tenham grande qualidade. De todo modo, há gente de qualidade em Física e Química. Em 1964,

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

segui à França, onde, por sete anos, fui dirigido por um prêmio Nobel. Trabalhavam comigo uns 20 doutores. Muitos dos meus ex-alunos já se aposentaram e tenho visto os meus netos como pesquisadores de alto nível. Tive, é importante dizer, uma vida privilegiada. Na atualidade, porém, o relacionamento entre a ciência e o setor produtivo continua mal. As duas leis de incentivo que citei nesta entrevista tiveram papel importante nesta aproximação, mas foram abolidas. Além disso, os sistemas brasileiros de financiamento não entenderam que um importante projeto de pesquisa, aplicada ou econômica, exige sigilo. O originador da nova ideia, da inovação, não confia em um grupo anônimo de julgadores de projeto. Quanto às empresas, a situação é ainda muito mais grave: a perda de conhecimento pode significar perda de dinheiro ou de sobrevida. Mais do que poder, conhecimento é valor econômico. A consequência da separação entre setores é que perdemos muitos resultados valiosos de ciência básica, com potencial aplicado, devido à limitação de contato entre os pesquisadores e o sistema produtivo. Tenho frequentado a universidade duas vezes por semana. Ali, tomo conhecimento de trabalhos de Química desperdiçados. Afinal, não há canais desburocratizados de financiamento. Um destes trabalhos, realizado sob a direção de um de meus ex-alunos, refere-se ao desenvolvimento de um nanocatalizador, capaz de produzir a decomposição fotolítica da água, pela radiação do sol, com eficiência de 8%. Comentei, em primeiro lugar, que o trabalho deveria estar no Rio + 20 [Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável]. Falaram do trabalho na China, e, em breve, pagaremos patente por ele. Eis o problema da propriedade intelectual. Para que tudo funcione, é preciso de uma fonte de publicação técnica, de um inovador e de um empresário, um capitalista que corra o risco da aplicação.


inovação

Software educativo auxilia formação de estudantes e profissionais que lidam com os desafios da saúde mental

Camila Alves Mantovani

17

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

17


Os processos de ensino-aprendizagem têm se modificado bastante nos últimos anos, principalmente, a partir da introdução de tecnologias de informação e comunicação como recursos pedagógicos. Diante de uma geração de alunos cada vez mais conectada e tecnológica, a presença dessas ferramentas no processo educacional apresenta-se como um desafio à produção e à disseminação do conhecimento. Vale ressaltar que a mudança no cenário das salas de aula deve-se, em grande parte, à capacidade criativa dos professores, que percebem o valor das tecnologias de informação e comunicação, do ponto de vista educacional, e as organizam estrategicamente, para desempenhar importantes papéis em contextos pedagógicos. Coordenado por Nadja Lappann Botti, professora e pesquisadora do departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), o projeto “Desenvolvimento de software educativo para o ensino de saúde mental” é um exemplo de tais iniciativas no “território” das universidades. A partir da sua experiência no ensino da saúde mental e da Psiquiatria, junto ao curso de Enfermagem, a professora percebeu que as metodologias tradicionais de ensino-aprendizagem não se mostravam eficientes, principalmente, no que concerne à motivação dos alunos a aprender. Ao mesmo tempo, percebia-se certa tendência, no âmbito do ensino da saúde, ao desenvolvimento de programas de ensino mediado por tecnologias. “Partindo do pressuposto das possibilidades do uso da tecnologia na educação e da escassez de materiais pedagógicos e de inovação no processo de ensino-aprendizagem na área da saúde mental, propusemos o projeto, cujo objetivo é o desenvolvimento e a validação de um software educativo, voltado a alunos do curso de Enfermagem”, explica. Tempos depois, o público-alvo se expandiu, de modo a abarcar não apenas estudantes, mas, também, profissionais de áreas correlatas. Segundo a pesquisadora, a produção do software como instrumento de ensino-aprendizagem na área da saúde men-

18

tal, além de se revelar alternativa pedagógica, pode favorecer a valorização da profissão, ao estimular a pesquisa e a promoção de mudanças.

Teste de conhecimento Desenvolvido pelo projeto, o software Quiz Loucura é um jogo de tabuleiro que, além de conteúdos específicos de saúde mental, apresenta informações voltadas à formação geral dos estudantes. De acordo com Nadja Botti, todo o material disponível foi estruturado em categorias. Eis as categorias temáticas e os conteúdos do Quiz Loucura: Formação geral Categoria temática

Conteúdo

Artes plásticas e loucura

Escultores, pintores, colecionadores, museus, iconografias, personalidades, exposições artísticas relacionados com a temática da loucura

Artes cênicas e loucura

Peças teatrais, filmes, desenhos infantis, documentários, programas de televisão e atores relacionados com a temática da loucura

Música e loucura

Cantores, compositores, grupos musicais, óperas, composições, músicas e apresentações musicais relacionados com a temática da loucura

Literatura e loucura Curiosidades e loucura

Escritores, poetas, contistas, obras literárias e frases relacionadas com a temática da loucura Expressões, traduções, cultura popular, mitos populares, frases relacionadas com a temática da loucura Formação específica

História da loucura

Concepções de loucura nas idades Antiga, Média, Moderna e Contemporânea

Paradigma asilar

Hospícios do Brasil e do mundo, tratamentos realizados nos hospícios, personalidades e concepções do modelo asilar

Paradigma psicossocial

Personalidades e concepções da reforma psiquiátrica, serviços substitutivos de atenção à saúde mental, personalidades e concepções do modelo psicossocial

Legislação e loucura

Declarações, portarias, leis, resoluções e recomendações relacionadas à temática da loucura

Personalidades e loucura

Biografia dos principais personagens e teóricos da história da psiquiatria e da saúde mental

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015


No âmbito dos itens gerais, há temas como artes plásticas ou cênicas, música, literatura e curiosidades. Já na parte de formação específica, estão disponíveis discussões sobre história da loucura, paradigma asilar ou psicossocial, legislação e personalidades. As etapas de desenvolvimento da interface seguiram a metodologia desenvolvida no campo da Engenharia de Software. Na primeira etapa, foi trabalhada a identificação dos objetivos e do público-alvo para definição da temática. Em um segundo momento, partiu-se para o desenho do ambiente de aprendizagem, bem como da modelagem da aplicação. Tal fase representa a personalização do ambiente de acordo com características, motivações, preferências e metas do aprendiz. Nela, são definidos os comandos e a forma de execução da atividade proposta – características de desempenho técnico e controle –, a interação, o enredo e as metas (desafios e recompensas). Na terceira etapa, houve o planejamento da interface em termos de critérios de interação, fundamentação pedagógica, conteúdo e programação. Em momento pos-

terior, definiram-se as tecnologias a serem usadas na implementação do projeto. Para tal, recorreu-se às ferramentas do Microsoft Visual Studio 2010 e às linguagens de programação Asp.Net MVC e Silverlight. Por fim, foi a vez dos processos de avaliação e validação, iniciativas bastante importantes ao ciclo de desenvolvimento de softwares, posto que visam assegurar os objetivos e metas propostos na concepção do projeto. “Selecionamos sujeitos representativos dos grupos-alvo, como estudantes dos cursos de Medicina e Enfermagem e professores com atuação em saúde mental e Psiquiatria de universidades públicas, que procederam à avaliação da interface com base em critérios pré-estabelecidos. No caso, o modelo desenvolvido pelos autores Reeves e Harmon”, explica a coordenadora. O referido modelo lista uma série de critérios, tanto pedagógicos quanto de interface, para avaliação da qualidade de um software educacional. Dentre os fatores de interface, estão, por exemplo, questões como facilidade de navegação,

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

19


design da tela, compatibilidade espacial do conhecimento, apresentação da informação, estética e funcionalidade. No que se refere aos pedagógicos, destaque para epistemologia, sequenciamento instrucional, validade experimental, valorização do erro, estruturação, controle do aluno e aprendizado cooperativo. Desse modo, compõe-se a listagem dos critérios em escala não dimensionada, representada por uma seta dupla. Em cada extremidade da seta, são postos os conceitos antagônicos, que caracterizam o critério em avaliação. Em “controle do aluno”, por exemplo, o avaliador pode posicionar a marca mais à direita, onde está o conceito “irrestrito”, ou mais à esquerda, local de “não existe”. “A partir desse modelo, que avalia o software com base na pontuação em escala de conceitos antagônicos, sendo negativamente à esquerda e positivamente à direita,

encontrou-se média de 92,36±6,54 para os critérios relacionados à interface com o usuário e 86,08±9,18 para os pedagógicos”, explica Nadja Botti, que destaca, ainda, que o software tem cumprido com suas expectativas, mostrando-se alternativa ao ensino das formações geral e específica da área da saúde mental, não só no âmbito da graduação, mas, também, para profissionais em situações de treinamento e/ou aperfeiçoamento. “Percebe-se que os softwares educativos podem promover relação pedagógica motivadora e interativa quando professores e alunos os utilizam como recursos auxiliares às atividades de ensino-aprendizagem”, conclui. Oferecido gratuitamente na web, o software encontra-se disponível no endereço www.quizloucura.com.br. Atualmente, o principal desafio da pesquisa é manter o jogo acessível ao público, pois, com o término do projeto, não há recurso para pagamento do domínio e hospedagem do jogo.

ProJeto: Desenvolvimento de software educativo para o ensino de saúde mental CoordenAdorA: Nadja Cristiane lappann Botti ModAlidAde: Universal VAlor: R$ 31.810,28

20

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015


PECUáRIA

Genes da prosperidade

Embrapa, Fiocruz e UFMG dedicam-se a projeto pioneiro no País, que busca sequenciar genoma das raças zebuínas Gir e Guzerá para melhorar qualidade dos animais

Vivian teixeira MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

21


Para quem vive da atividade pecuária – principalmente, do comércio de leite –, prever características e condições capazes de influenciar a produtividade do rebanho é algo vital: quais os animais indicados e mais resistentes às doenças? Que grupo poderia produzir leite de melhor qualidade e adequado a cada produto? A partir de agora, essas e outras questões poderão ser respondidas com propriedade, em função de um feito inédito nas Minas Gerais: o sequenciamento do genoma das raças de zebu leiteiro Gir e Guzerá. O trabalho levou cerca de quatro anos para ser concluído e contou com equipes da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), do Centro de Pesquisas René Rachou (Fiocruz) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), a Associação Brasileira dos Criadores de Gir Leiteiro (ABCGIL) e o Centro de Melhoramento do Guzerá (CBMG) desenvolveram “pontes” entre pesquisadores e produtores, de modo a revelar as necessidades dos criadores e a realidade da fabricação. Líder do projeto na Embrapa Gado de Leite, Marcos Vinícius Barbosa da Silva participou, nos Estados Unidos, do grupo que sequenciou o primeiro bovino no mundo, de 2006 a 2009. Quando voltou ao Brasil, percebeu que era preciso sequenciar as raças zebuínas mais importantes ao contexto nacional. Após conversar com Beatriz Cordenonsi Lopes – à época, no Polo de Bioinformática de Uberaba –, com representantes das associações e outros setores, o trabalho foi iniciado, conjuntamente, pelas equipes da Fiocruz e da UFMG. À Embrapa, coube a definição dos animais pesquisados, a coleta do material genético em campo e parte das análises de bioinformática. Segundo Marcos Vinícius, hoje, o genoma já sequenciado possibilita a identificação das regiões do DNA ligadas à produção de leite, à resistência aos parasitas, às altas temperaturas e ao estresse térmico, o que facilita o processo de seleção. “Conseguimos olhar o DNA dos indivíduos e diferenciar esses animais, antes mesmo de eles nascerem, quanto à adaptabilidade, à resistência a doenças e à própria produção de leite. Isso apressa o processo de

22

melhoramento genético em cerca de cinco anos. Antes, era preciso esperar quase sete anos para avaliar o potencial genético de um animal. Agora, isso pode ser feito em até 24 meses”, explica o pesquisador.

Metodologia

É vasto o processo para chegar aos benefícios do sequenciamento. Em longa etapa de trabalhos, a Fiocruz gerou boa parte dos dados de análise e montagem dos genomas nuclear e mitocondrial. Conforme explica Guilherme Correa, que coordenou os estudos na Fiocruz, a montagem e as anotações para entendimento da função dos genes foi realizada em conjunto. “Parte do sequenciamento ocorreu na Fiocruz. Os colegas já tinham o DNA dos animais coletados e, em seguida, fizemos o controle de qualidade do material e a construção das bibliotecas genômicas”, detalha. Na montagem de tais bibliotecas, usaram-se duas tecnologias. A primeira foi o sequenciador Solid, no qual foram gerados os primeiros dados – o que permitiu cobrir boa parte tanto do genoma do Gir quanto do Guzerá. Em seguida, foi empregada a tecnologia da Illumina, mais moderna, que possibilitou o acesso à outra parte das informações. “Quando usamos tecnologias diferentes, aproveitamos as especificidades de cada uma para montar bibliotecas genômicas diferentes, o que permite uma montagem mais rica e complementar”, explica. Após o sequenciamento do DNA, realiza-se a etapa de montagem do genoma, por meio do uso de algoritmos já conhecidos da comunidade científica. Eles são parametrizados para chegar à expressão que oferece a melhor montagem, que, em seguida, é congelada. A segunda etapa é a de anotação, na qual analisa-se a sequência do DNA composta por quatro bases, para identificar os genes e sua função, até que se determine a fisiologia de cada organismo. Maria Raquel Carvalho, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, comenta que, na primeira fase da pesquisa, sua equipe foi responsável pela montagem do genoma eucarioto complexo. Para tal, foi feito um projeto-piloto para testar a montagem das sequências, que serviu de

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

Genoma é o conjunto do DNA completo do indivíduo, no qual está codificado o que o constituirá e como funcionará o conjunto de genes que o compõe. Toda célula de mamífero conta com dois genomas: um deles está no núcleo da célula, e, por isso, é conhecido como “nuclear”; o outro diz respeito a uma organela, a mitocôndria, responsável por produzir energia. No estudo, sequenciaram-se os dois genomas porque existem genes específicos relacionados aos fenótipos de interesse dos pesquisadores.


base a vários outros trabalhos do grupo – principalmente, ligados à formação de mão de obra capaz de trabalhar com esses dados. “Começamos com o Guzerá e fizemos a primeira montagem do genoma. Em seguida, trabalhamos com o Gir para levantar variações e diferenças em relação às raças taurinas”, conta a pesquisadora Izinara Rosse, também da equipe da UFMG.

Infinitas possibilidades

A interação entre as equipes das três instituições colaborou para o êxito do projeto. Afinal, cada organização pôde direcionar suas pesquisas a partir do sequenciamento. “Genoma é o primeiro passo, pois temos uma quantidade muito grande de informações do DNA para caracterizar, o que demandará anos de trabalho. Ao observar uma variável, podemos gerar as mais importantes em análise computacional. A partir daí, investimos em estudos capazes de determinar os fatores mais relevantes”, defende Maria Raquel Carvalho.

Duas outras pesquisas têm sido desenvolvidas na UFMG a partir do sequenciamento. A primeira compara as características do Gir leiteiro saudável com animais portadores de hipoplasia gonadal – que é a diferença morfológica nos testículos do touro, que pode ser total, bilateral, unilateral ou unilateral parcial ou total –, capaz de fazer, por exemplo, com que o animal tenha maior facilidade ou dificuldade de reprodução. “O maior problema é que indivíduos com hipoplasia unilateral ou bilateral podem apresentar libido de reprodução, o que dificulta a detecção do problema no rebanho e faz com que eles continuem espalhando a mutação”, explica Pablo Augusto de Souza Fonseca, responsável pelo estudo na UFMG. Investigação prévia já conseguiu identificar regiões genômicas associadas aos fenótipos relacionados à hipoplasia gonadal e a anormalidades espermáticas. Em função disso, serão buscadas mutações em relação ao genoma montado do

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

23


Gir saudável e aos genomas já depositados que possam se revelar as reais causadoras desse fenótipo. O estudo está sendo conduzido em parceria com a Escola de Veterinária, que tem como responsável o professor Vicente Duarte. A segunda pesquisa estuda o temperamento dos animais da raça Guzerá. “Trata-se de questão importante nos rebanhos, pois os animais precisam ser tratados diariamente. Como entram em contato com o pessoal da fazenda para serem alimentados e ordenhados, não podem ser ariscos”, explica Fernanda Caroline dos Santos, responsável pelo estudo no ICB. Segundo a pesquisadora, um animal esquivo apresenta prejuízos aos rebanhos, como danos à fazenda e leite de pior qualidade. Além disso, pode causar acidentes de trabalho. Para a condução do estudo, aproveitaram-se dados sobre temperamento recolhidos pela equipe da pesquisadora Maria Gabriela Diniz Peixoto, da Embrapa, e têm sido coletadas amostras de sangue dos indivíduos mais bravios. O estudo já identificou que os problemas de temperamento são hereditários. Ainda é preciso descobrir, porém, o local do genoma responsável por tais características. A equipe avaliou as informações relacionadas a essas características e suas especificações, de modo a constatar quais áreas têm influência sobre o temperamento do animal. Definidos os dados, o grupo iniciará o sequenciamento dos animais mais ariscos.

Expressividade econômica

Dados da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), a partir de informações divulgadas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), revelam que o resultado da relação entre o volume da produção e a cotação média do produto – Valor Bruto da Produção (VBP) – da agropecuária mineira subiu 0,9% (R$ 44,7 bilhões), em 2014, se comparado ao resultado de 2013 (R$ 44,3 bilhões). Apenas a pecuária é responsável por 36,7% (R$ 16,40 bilhões) do VBP agropecuário, sendo que Minas Gerais tem a principal bacia leiteira do País. Sozinha, a produção do Estado representa R$ 7,2 bilhões. A escolha por realizar o mapeamento das espécies Gir e Guzerá não foi ale-

24

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

atória. Trata-se, afinal, de raças indianas, importadas ao Brasil no século passado. Os animais foram selecionados, principalmente, por serem resistentes a doenças e por aguentarem as altas temperaturas em zonas tropicais. Atualmente, a pecuária trabalha com dois grupos: os taurinos, que vieram da Europa e são mais adaptados a climas mais frios, e os zebuínos, provenientes da Índia e do Paquistão, que oferecem maior resistência em relação ao clima e às doenças. Marcos Vinícius Barbosa da Silva explica que, quando as raças taurinas – ligadas à maior produção de leite – foram trazidas ao Brasil, os animais não conseguiam corresponder à expectativa de produção de leite porque sofriam demais com o calor. “A solução foi trazer os animais da Índia e cruzá-los com a raça taurina, para que tivessem boa produção leiteira e fossem resistentes, como ocorre com os zebuínos. Desse cruzamento, surgiu o Girolando, que tem características dessas duas raças”, esclarece, ao destacar, ainda, a importância da pesquisa no que diz respeito à fertilização in vitro. Atualmente, são mais de 400 mil animais nascidos por meio dessa tecnologia. Para Vania Maldini Penna, diretora técnica do CBMG, a seleção de animais mais aptos à produção sustentável econômica, ecológica, etológica e socialmente correta é de grande importância. “O interesse por nossos animais é cada dia maior. Além disso, a exportação de material genético, por meio de embriões ou sêmen, já faz parte de nosso cotidiano e acena como importante fonte de renda”, avalia.

Projeto: Análise do genoma zebuíno, prospecção de marcadores moleculares e comparações com genoma taurino por meio de sequenciamento de terceira geração Coordenador: Marcos Vinícius Gualberto Barbosa da Silva Edital: Programa Pesquisador Mineiro Valor: R$ 48.000,00


MEDICINA

A a ag vid

rade c e Exposição “Sentidos do nascer” busca sensibilizar população brasileira quanto à importância do parto normal Maurício Guilherme Silva Jr. MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

25


Ao longo de 2015, “Sentidos do nascer” passará por Belo Horizonte (4 a 31/5), Rio de Janeiro (1º a 31/7), Niterói (1º a 31/8) e Brasília (1º/10 a 30/11).

26

No interior do carrinho de compras, empilham-se inúmeras facilidades, todas à disposição das futuras mamães. Naquele pequenino espaço de metal, ao lado de produtos embalados em caixas multicoloridas, e com nomes bastante curiosos – Mommy Beauty Spa, Pau de Cesaselfie –, o letreiro publicitário exibe aos clientes a mais imperdível das ofertas: “Preço promocional! Cesariana, 50% off, 18h às 22h”. Antes que alguém se apresse em investigar as benesses oferecidas por tal supermercado de ilusões, importante ressaltar o caráter ficcional da inusitada cena. Trata-se, tão somente, dos elementos constituintes de “Loja de conveniências 4”, obra artística a integrar a exposição “Sentidos do nascer”, iniciativa que busca sensibilizar a população brasileira quanto aos perigos da realização indiscriminada de cesarianas. A situação é bastante complexa. Afinal, devido a tais elevados índices de cesárias no País, tem aumentado significativamente a chamada prematuridade iatrogênica – quando se marca a intervenção cirúrgica sem que a mulher entre em trabalho de parto –, para não falar de outros tantos efeitos adversos à saúde da mãe e do filho. Daí, pois, a importância de melhorar a compreensão do imaginário social em relação aos “sentidos do nascer” – principalmente, no que tange à percepção dominante sobre possíveis riscos do parto normal. “Ao pensarmos na exposição, não buscamos apenas a disseminação de informações sobre partos. Ela foi projetada para emocionar os visitantes, por meio da arte e da vivência sensorial, e estimular questões instigantes e reflexivas”, ressalta Bernardo Jefferson de Oliveira, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FaE/UFMG) e um dos curadores da mostra itinerante, ao lado de sua esposa, a médica pediatra Sônia Lansky. Na exposição, tem-se o privilégio de apreciar fotografias, vídeos e obras de arte sobre os desafios do nascimento, assim como de participar de uma série de atividades interativas. Além disso, os visitantes deparam-se com marcantes provocações, a exemplo dos produtos da loja de mater-

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é a nação onde mais se realizam cesárias no mundo. As taxas chegam a 84% no sistema privado e a 40% no Sistema Único de Saúde (SUS). A recomendação da OMS é de que as cesarianas se restrinjam a cerca de 15% do total de partos.

nidade cirúrgica. “Há, ainda, o Dr. Cesário, que diz preferir o parto normal, mas deixa subentendido que, na hora agá, ele próprio escolherá o que lhe for mais conveniente”, lembra Bernardo Oliveira, ao sublinhar que os dilemas propostos pela exposição acabam por gerar desconfiança nas pessoas. “Acho que fui enganada. Eu deveria ter me informado melhor à época”, pode pensar alguém. Emoção é o que não falta à mostra. Numa de suas atrações, os visitantes são convidados a entrar em um ambiente que imita o útero. As pessoas atravessam um Maria Lansky


Maria Lansky

Foca Lisboa

Informações, imagens e espaços interativos proporcionam experiência única aos visitantes

canal estreito e, durante o percurso, ouvem sons de batimentos cardíacos, além da voz de um bebê, que insiste em pedir calma à mãe. “Muitas pessoas saem dali chorando, com vontade de conversar sobre o próprio nascimento ou de relembrar a história de um parto marcante na família. Gravamos depoimentos bastante emocionantes”, destaca.

Saberes e práticas

A ideia da mostra nasceu de experiências profissionais dos próprios organizadores. “Pensávamos numa exposição sobre o parto pelo fato de envolver disputas entre diferentes saberes e práticas”, comenta Bernardo Oliveira, ao revelar que acompanhava a temática de perto em função do cotidiano de sua esposa, Sonia Lansky, que coordena a Comissão Perinatal da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte e realiza consultoria sobre o assunto no Ministério da Saúde. Ao observarem o sucesso de duas exposições itinerantes – “Sentimentos da terra” e “Ponto da ciência” –, realizadas pela UFMG, com investimento da FAPEMIG, os curadores de “Sentidos do nascer” pensaram na possibilidade de realizar algo parecido. Descobriram, então, um edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em parceria com a Fundação Gates, que possibilitava a abordagem desejada. O CNPq, afinal, incentivava pesquisas para redução da prematuridade. “Sabíamos que os altos índices de cesarianas estavam entre as causas do acentuado número de bebês prematuros no Brasil. Por isso, para nos ajudar, articulamos um grupo de especialistas no assunto”, conta. A proposta foi aceita pelo Conselho, que concedeu investimento de R$ 495 mil

aos pesquisadores, para que montassem uma espécie de “laboratório”: surgiam assim, na verdade, a exposição “Sentidos do Nascer” e o projeto da pesquisa multimetodológica de avaliação dos impactos da própria mostra. “O principal objetivo de tal estudo é avaliar o potencial de uma exposição tão interativa e instigante para mudar a percepção das pessoas acerca do parto”, afirma.

científicas e as disputas entre diferentes visões de mundo e formas de saber são especialmente ricas para a compreensão da história do conhecimento. Assim como no caso do aleitamento, a história do parto é riquíssima para que se entenda o papel dos grupos de interesse, da difusão de práticas e, também, das resistências e das dinâmicas de circulação de ideias e de transformação de expectativas”, completa.

Mobilização

Segundo Bernardo Oliveira, embora o projeto ambicione reverter a cultura de consumo de cesarianas desnecessárias – o que envolve não apenas interesses comerciais, mas um sistema de formação e de práticas profissionais que transformou o parto em algo violento e gerou equivocadas representações sociais –, os organizadores da iniciativa sabem que é pequeno o alcance de uma exposição. “Ainda que seja atraente, e tenhamos muita demanda, com gente se emocionando e retornando com amigos e parentes, a mostra não comporta mais do que 240 pessoas por dia. Desse modo, para alcançar um público maior, é fundamental envolver as redes sociais e a internet”, explica, ao destacar que a campanha pela humanização do parto conta, hoje, com a ação de muitos agentes, além de Organizações não governamentais, associações e instituições. “A exposição tem sido vista por esses grupos como fator de mobilização, o que tem nos ajudado muito”, completa. Há muitos anos, o pesquisador investiga a história e os processos de popularização e difusão da ciência, o que o faz dedicar-se à analise de estratégias discursivas, de veículos e processos de legitimação de práticas. “As controvérsias

Projeto: Sentidos do nascer: intervenção para mudança de percepção sobre o parto Coordenador: Bernardo Jefferson de Oliveira Modalidade: Apoio a Projetos de Extensão em Interface com a Pesquisa Valor: R$ 32.398,38

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

27


Amamentação

Saúde

sem traumas Pesquisadora cria protetor de seios que favorece aleitamento e ajuda a prevenir dor e fissuras nos mamilos Ana Luiza Gonçalves

28

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015


Nos últimos meses, questões relativas à amamentação têm sido muito destacadas e discutidas. Tudo isso, em grande medida, porque Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, sancionou, em abril, a lei que garante o aleitamento materno em qualquer estabelecimento da cidade. Quem proibir ou constranger a mãe de amamentar seu filho em público pagará multa de R$ 500. Em caso de reincidência, o valor dobra. O projeto de lei foi proposto após uma mãe ter sido orientada a não alimentar seu filho em público no Sesc Belenzinho. A amamentação é um direito e beneficia a saúde não somente do bebê, mas, também, da mãe, de modo a prevenir doenças cardiovasculares e câncer de mama. Já está comprovado que a mulher que amamenta de 6 a 11 meses apresenta índice de 11% a menos de chance de ter diabetes tipo 2. Já o risco de câncer ovariano revela-se 34% inferior, se comparado àquelas que não praticam o ato. Hoje, o Brasil conta com política nacional de incentivo ao aleitamento materno, na rede de atenção básica, por meio da Rede Amamenta Brasil, estratégia de promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno. A proposta é aumentar os índices de amamentação no País, por meio da circulação de informação e da capacitação de profissionais capazes de se tornar agentes de mudança no ensino e na aprendizagem do aleitamento. Com a amamentação, conseguiu-se o maior impacto na redução da mortalidade infantil. No entanto, o aleitamento requer preparos, para que se evitem fissuras, dores e sangramento. O trauma mamilar é definido como lesão ou alteração do tecido dos seios, o que, comumente, resulta do manejo inadequado durante a amamentação. A primiparidade – condição da mulher em sua primeira gestação –, o lábio inferior do bebê voltado para dentro ou seu queixo posicionado de forma inadequada, bem como a retirada incorreta do bebê do seio são alguns dos fatores indutores de problemas. Conforme revelam os altos índices identificados do problema, o trauma pode acabar por representar um fator de risco ao desmame precoce, sendo fundamentais a

prevenção e o tratamento. É sabido que a criança que mama nos seis primeiros meses – ou até os dois anos – tem melhor qualidade de vida e menos riscos de morrer ou de adoecer. Preocupada com os chamados traumas mamilares, Sabina Pena Borges Pêgo, professora da Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), desenvolveu, durante sua gravidez, um protetor de seios absorvente capaz de liberar um composto de lanolina anídrica, substância conhecida por sua ação hidratante. A intenção é prevenir e tratar os traumas decorrentes da amamentação. O mecanismo representa um sistema epidérmico, não adesivo, descartável, composto por uma membrana de acetato de celulose, interposta em um reservatório impermeável contendo lanolina anídrica e de tecido cutâneo. O sistema está inserido em uma estrutura usada para absorver o excesso de leite produzido pela gestante. A pesquisadora explica que o funcionamento do produto está associado à liberação – lenta e contínua – da lanolina anídrica, que atua no estímulo à cicatrização de áreas traumatizadas do mamilo. A outra forma de prevenção diz respeito a medidas preventivas, como o posicionamento correto do bebê durante a amamentação e o preparo adequado das mamas durante a gestação. A lanolina é efetiva no tratamento dos traumas mamilares e a forma como está associada ao protetor evita sua contaminação – e, consequentemente, a infecção nas mamas. Favorece, ainda, o contato efetivo com o mamilo, ou seja: a lanolina pode ser ingerida pelo bebê, dispensando lavadas frequentes nas mamas, o que pode resultar em aumento do trauma. Por fim, o absorvente está ligado a um protetor mamilar de algodão, que absorve adequadamente o excesso de leite produzido pela lactante. “O fato de a lanolina poder ser ingerida pelo bebê dispensa as lavadas dos mamilos antes da amamentação. Além disso, como a lanolina já vem no reservatório, evita sua manipulação, impedindo a contaminação e favorecendo um contato permanente e efetivo com o mamilo”, conta Sabina Pêgo. Os traumas mamilares

são de difícil tratamento, devido ao fato de o bebê apresentar alta frequência de amamentação nos primeiros dias de vida – além de ocorrer, principalmente, com as primíparas. A literatura apresenta inúmeras formas de tratamento, as quais envolvem o uso de cremes e pomadas. Tais produtos, porém, grudam na roupa e, por isso, ficam pouco tempo em contato com o mamilo. Sabina Pêgo diz que ainda não recebeu proposta para a confecção do protetor mamilar, mas, devido ao baixo custo, o produto poderia ser fornecido gratuitamente às gestantes durante o pré-natal, no momento do parto e nas campanhas pró-amamentação. “Acredito que o uso do produto, associado a uma efetiva educação em relação ao preparo das mamas e ao correto posicionamento do bebê durante a amamentação, ajudaria a reduzir efetivamente o desmame precoce por traumas mamilares”, conclui.

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

29


Engenharia aeroespacial

Bons (in)ventos Universitários mineiros se destacam no desenvolvimento de protótipos de aviões Alessandra Ribeiro

30

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015


Fotos: Sérgio Fujiki

“Urrú! É pão de queijo!”. O grito de comemoração tornou-se recorrente na premiação do campeonato anual promovido nos Estados Unidos pela Sociedade de Engenheiros da Mobilidade (SAE, na sigla em inglês), a Aerodesign East Competition. O desafio consiste em projetar e construir aeronaves radiocontroladas, com capacidade de transportar cargas. Na última edição, encerrada em março, com a participação de 75 grupos das Américas, da Ásia e da Europa, duas equipes mineiras alcançaram o segundo lugar, em diferentes categorias: a Uirá, da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), na classe “regular”, e a Trem Ki Voa, da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), na “micro”. Instituições mineiras de ensino superior figuram anualmente na lista de vencedores da competição desde 2006, quando o primeiro e o segundo lugares da classe “regular” ficaram, respectivamente, com as equipes Uai-So-Fly, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Tucano, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Pouco antes, em 2004, o grupo CEAV-UAV, também da UFMG, havia conquistado o vice-campeonato. Nesta categoria, os participantes devem construir aeronaves com dimensões totais de, no máximo, 4,45 metros, capazes de decolar na distância máxima de 61 m, com o uso de motores elétricos limitados à potência de mil watts. O uso de materiais compostos – com fibra de carbono ou vidro – é vetado na estrutura dos aviões. Já na classe “micro”, os protótipos devem ter dimensões reduzidas e pesar, em média, 700 gramas. Além disso, a equipe precisa transportar a aeronave dentro de um tubo circular de 15,3 centímetros de diâmetro. Quanto menor o comprimento do tubo, mais pontos são ganhos. As aeronaves também têm que usar motores elétricos e decolar por lançamento manual. Foi nesta categoria que a Trem Ki Voa (TKV), da UFSJ, subiu, pela primeira vez, no pódio da Aerodesign East Competition. A equipe micro teve sua participação iniciada em 2010, por iniciativa de estudantes do curso de Engenharia Mecânica. “De lá para cá, participamos de todas as competições, sendo vice-campeões nacionais em 2012 e 2014 e vice-campeões

Aeronave da equipe Trem Ki Voa, campeã brasileira na categoria micro do desafio da SAE, em 2014

mundiais em 2015”, conta o professor Cláudio Pellegrini, orientador do grupo, que conta com o apoio do Programa Santos Dumont, da FAPEMIG. O edital batizado com o nome do “pai da aviação”, natural de Minas Gerais, estimula o espírito empreendedor de alunos de graduação, por meio do financiamento de projetos focados em iniciação tecnológica. O apoio financeiro abrange a participação de equipes em competições de caráter educacional, como as promovidas pela SAE. A TKV é “filha caçula” da equipe regular da UFSJ, a Coiote, criada em 2001. Três anos mais tarde, as duas se unificaram e decidiram adotar a alcunha Trem Ki Voa, uma referência (ou reverência) ao dialeto mineiro. Os nomes das equipes, aliás, demonstram o nível de criatividade dos participantes. Na mesma universidade, a NoizAvua, que reúne estudantes das engenharias Civil, Mecatrônica e de Telecomunicações do campus Alto Paraopeba, estreou em 2012 na SAE Brasil Aerodesign, competição brasileira que garante a classificação ao desafio internacional. Já na primeira participação, o grupo recebeu menção honrosa por apresentar o melhor projeto não custeado. Desde então, já conseguiu patrocínios pontuais, um deles também viabilizado pelo programa da FAPEMIG. “Para esses estudantes, o projeto e a construção de uma aeronave de carga não tripulada controlada a distância é uma oportunidade única de testar seus conhecimentos, de modo a desenvolver a capacidade de trabalhar em equipe e integrar os conhecimentos adquiridos ao longo das várias unidades curriculares, por vezes tão distintas, de seu curso”, avalia Cláudio Pellegrini, orientador da TKV. O professor ressalta que isso vale, inclusive, MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

31


Protótipo da Uirá, equipe famosa pela maior capacidade de carga na classe regular

para os estudantes sem formação específica em aeronáutica – caso das equipes da UFSJ. “A participação também desenvolve a autonomia no aprendizado, característica essencial em um mercado de trabalho em constante mudança”, acrescenta.

Peso pesado

Com tradição de 12 anos de participação nas competições nacionais e internacionais promovidas pela SAE, a Uirá Aerodesign, da Unifei, busca a autossuficiência, mesmo já contando com o apoio de patrocinadores e com verbas da própria universidade, por meio de projetos de extensão e da FAPEMIG. “A equipe busca alcançar a independência financeira, tanto para não limitar financeiramente nosso projeto, como para ter uma nova área onde os estudantes aprendam a lidar com arrecadação de fundos”, revela o capitão administrativo Jean Lopes de Vilas Boas, estudante do curso de Engenharia de Produção. A “microempresa aeronáutica”, como se autodenomina a Uirá, envolve, ainda, estudantes das engenharias Mecânica, Elétrica, Aeronáutica e de Materiais. Eles participavam apenas da classe regular até

32

2011, quando foi criada a classe “micro”, exclusivamente, para os novos integrantes. O objetivo é garantir aos calouros “um aprendizado mais rápido e efetivo em todas as etapas de um projeto aeronáutico”, conforme destaca o documento elaborado para apresentação a potenciais patrocinadores. A Uirá ostenta o recorde mundial em carga levantada pelas aeronaves na classe “regular”, de 14,2 kg, alcançado em 2007. A fama de transportar as maiores cargas das provas se mantém em três anos consecutivos. Em 2015, “A Barca”, nome do protótipo desenvolvido pelo grupo, levantou 13,55 kg. A equipe também se destacou pela inovação: foi a primeira a usar dispositivos de sustentação na parte posterior da asa – o que os engenheiros chamam de “asa duplamente flapeada”. Pelo visto, Minas Gerais pode voar alto e sonhar com potenciais sucessores do inventor do 14-Bis.

Polo aeroespacial

Ao menos cinco universidades oferecem formação superior específica em Aeronáutica no Estado: na capital mineira, a modalidade pode ser encontrada na UFMG, na Universidade Fumec e no

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

Centro Universitário UNA; no interior, há opções na UFU e na Unifei – que, aliás, formará a primeira turma do curso de Engenharia Mecânica Aeronáutica em 2016. Além da preparação de profissionais especializados, o Estado conduz o processo de implantação de um polo aeroespacial, que envolverá as cidades de Lagoa Santa, Itajubá, Diamantina, Uberaba e Tupaciguara, onde serão instalados centros de desenvolvimento de tecnologias do setor. O contexto favoreceu a instalação, em 2011, de um escritório de Engenharia da Embraer em Belo Horizonte, o único fora da sede da empresa no Brasil, instalada em São José dos Campos (SP). O espaço, que já conta com 160 funcionários envolvidos em desenvolvimento de projetos, produtos e serviços para o setor aeronáutico e de defesa e segurança, será transferido para Lagoa Santa, assim que as obras do Centro de Capacitação de Tecnologia Aeroespacial (CCTA) forem concluídas. Em novembro de 2014, a multinacional firmou um termo de cooperação financeira com a FAPEMIG. As duas instituições lançaram um edital, no último mês de maio, com R$ 1 milhão destinados a projetos de inovação na indústria aeronáutica. “Temos muito interesse em olhar esse assunto com as universidades, para que surjam ideias novas”, comentou Carlos Hilário, engenheiro de desenvolvimento de produto da Embraer, durante workshop de apresentação do edital aos pesquisadores. “Buscamos verificar se as universidades mineiras têm grupos de pesquisa habilitados, com experiência e know-how para entrar no edital”, complementa Elza Fernandes de Araújo, assessora adjunta de inovação da FAPEMIG.


genética

As aves que aqui gorjeiam... Pesquisa investiga dinâmica populacional histórica de aves restritas aos topos de montanha para prever alterações de distribuição com as oscilações climáticas Camila Alves Mantovani

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

33


As mudanças no clima, com destaque para o aquecimento global, têm desafiado a comunidade científica a propor estudos que busquem não apenas conhecer o fenômeno, como, também, avaliar seus impactos. No âmbito da conservação e da preservação das espécies, a perda da biodiversidade é um dos aspectos mais importantes e preocupantes. Ao redor do mundo, pesquisadores buscam compreender a dinâmica das espécies – principalmente, daquelas restritas às áreas mais frias do planeta. No projeto “Genética de paisagem de aves em topos de montanha nos refúgios climáticos holocênicos da América do Sul”, coordenado por Fabrício Rodrigues dos Santos, professor do departamento de Biologia Geral da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o foco são as aves, ou, mais especificamente, as que vivem nas áreas de topo de montanha, localizadas na região leste do Brasil. De acordo com Santos, várias espécies de aves adaptadas a climas frios estão hoje restritas às áreas de campos rupestres e de altitude, que funcionam como refúgios climáticos holocênicos. Holoceno é o pe-

ríodo atual, quando se registra a temperatura mais quente dos últimos 2 milhões de anos. O momento anterior, ou Pleistoceno, caracterizava-se pelas glaciações e pelo frio. “Em regiões mais baixas, poderiam existir ambientes parecidos com o das áreas de topo de montanhas. Na transição para o Holoceno, o ambiente frio reduziu-se ainda mais aos topos”, explica. Na mudança para o Holoceno, há 12 mil anos, o planeta esquentou e os animais e plantas adaptados a ambientes mais frios deslocaram-se ainda mais para cima. Se a temperatura continuar a subir, a expectativa é que eles se desloquem mais e mais, até chegar-se ao ponto de não haver habitat viável para tais espécies. Na acepção de Anderson Vieira Chaves, doutor em Ecologia e Conservação da Vida Silvestre, pela UFMG, e também coordenador do projeto, a preocupação é grande, pois, conforme apontam diversos estudos, feitos em outros países, sobre os impactos do aquecimento global, há animais que já subiram 200 metros. “Muitas espécies se beneficiaram com o aumento da temperatura e houve ampliação de suas distribuições. Com as aves de topos de Anderson Vieira Chaves

montanha, seria o contrário. São espécies adaptadas a regiões mais frias, que, cada vez mais, têm sua área reduzida. Algumas aves poderão subir a montanha. Contudo, os passarinhos que só existem lá, e são de regiões frias, ficarão ainda mais no alto. Isso se houver ambiente para eles. Possivelmente, poderá ocorrer sua extinção”, lamenta o pesquisador. Para muitas espécies, fala-se em deslocamento e em migração. No que diz respeito ao tipo de ave estudado, entretanto, não se conhece movimento migratório, por exemplo, de uma serra para outra. De acordo com Anderson Chaves, as aves vivem naquelas populações e, há muito tempo, estão isoladas. “As montanhas têm sido refúgio para essas populações, que até poderiam, no passado, ter tido distribuição mais ampla do que a que hoje se verifica”, pondera. As cadeias de montanhas incluídas no estudo são a Serra do Espinhaço – onde a vegetação dominante é a de campos rupestres, distribuídos, geralmente, acima de 900 metros –, as serras do Mar e da Mantiqueira, ambas com presença de campos de altitude, distribuídos acima de 1500 m, e a Serra Geral, área com predomínio de campos sulinos.

Diferencial metodológico

Muitas aves adaptadas a climas frios estão restritas às áreas de campos rupestres e de altitude

34

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

Ao investigar os padrões de distribuição desses grupos de aves, cujos gêneros restringem-se a regiões frias, acima de mil metros de altitude no Brasil, o estudo arvora a genética de paisagens. De acordo com os pesquisadores, tal perspectiva teórica e metodológica leva em conta não apenas informações presentes nos genes, mas, também, as diversas unidades do ambiente físico – configuração geográfica, geologia, relevo, clima e vegetação – e os dados da biologia geral. “Trata-se de uma linha de pesquisa que busca trabalhar as informações da genética de populações e da evolução, somadas às modelagens da ecologia de paisagem”, explica Anderson Chaves. Além da abordagem inovadora, outro desafio do estudo foi empreender as amostragens populacionais de várias espécies endêmicas de aves, pois, devido às restri-


Segundo Anderson Chaves, muitas espécies se beneficiaram com o aumento da temperatura e houve ampliação de suas distribuições

ções de acesso às regiões montanhosas, quase não havia representação dessas espécies em coleções e museus. Outro ponto problemático apontado por Anderson está na existência de poucos parques e/ou unidades de conservação ao longo das montanhas estudadas – o que dificultava ainda mais o acesso dos pesquisadores. “Muitas vezes, o trabalho começava no Google Earth. Hoje, essa é uma vantagem, pois, antes, a opção era ir ao local e descobrir os acessos ou trilhas para atingir as áreas mais preservadas. A gente chegou a acessar pontos não preservados, onde os bichos não viviam mais por causa da mineração ou de outras atividades humanas”, conta. Segundo os pesquisadores, para fazer um desenho amostral que permitisse avaliar a dinâmica populacional dos grupos, foi preciso ir até essas áreas, coletar os indivíduos, colher material sanguíneo, registrar os seus cantos e taxidermizar. Para Fabrício dos Santos, o esforço naturalístico da coleta é muito importante para estudos futuros, pois, a partir dessa referência, é possível pesquisar algo diferente e fazer novas perguntas. Nessa empreitada, parte da história natural de espécies ainda não conhecidas foi revelada. Até então, segundo os pesquisadores, a maioria delas era identificada em poucas regiões geográficas ou estava presente em coleções científicas da Europa ou Estados Unidos, em poucos museus. As diversas expedições de campo desse estudo contaram com a participação não só de moradores, que conheciam bem a região, como também dos pesquisadores Marcelo Ferreira de Vasconcelos e Guilherme H. S. Freitas, também

idealizadores do projeto. Nesse trabalho foi feito o registro do beija-flor Augastes scutatus, até então endêmico da Cadeia do Espinhaço ‘mineira’, nas ‘terras baianas’ do município de Jacaraci (Morro do Chapéu), próximo à divisa de MG e BA. Esse achado aproximou em 150 Km os limites da distribuição geográfica com a sua espécie irmã, típica da Chapada Diamantina, o Augastes lumachella. Os estudos também possibilitaram a descoberta e descrição de uma nova espécie de pássaro nativo dos campos rupestres da região da Serra do Cipó, o Cinclodes espinhacensis, que é irmã de outra espécie endêmica da Serra Geral no sul do País, o Cinclodes pabsti. Além do registro e da identificação de espécies, Fabrício dos Santos destaca a temática da conservação e da preservação. Segundo o pesquisador, os campos rupestres, por exemplo, são ambientes únicos, posto que não há regeneração na área, por se tratar de solos extremamente pobres, e com mais de 2 bilhões de anos. Nestas áreas, não há os recursos minerais que, normalmente, aparecem em terrenos novos. Trata-se, portanto, de ambientes extremamente sensíveis a distúrbios ambientais. Além disso, as espécies ali identificadas não aparecem em outros lugares, pois não conseguem sobreviver em terras baixas. “Se acabou lá, acabou para sempre”, alerta, ao destacar que, ao recorrer à genética, busca-se estudar, coletar e entender as relações temporais entre as populações das espécies. “Pensamos em conservação não apenas para o agora, mas, também, para nossos netos e muitas outras gerações”, destaca.

ProJeto: Genética de paisagem de aves em topos de montanha nos refúgios climáticos holocênicos da América do Sul CoordenAdoreS: Fabrício Rodrigues dos Santos e Anderson Vieira Chaves ModAlidAde: Universal VAlor: R$ 49.980,00

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

35


gestão

Estratégia em primeiro plano Em Santa Rita do Sapucaí (MG), Casa do Empreendedor do Vale da Eletrônica transmite informações e desburocratiza processos para os empresários do futuro Diogo Brito

36

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015


Para certas pessoas, o ato de empreender pode ser considerado um dom natural, algo que poucos possuem, quiçá, desde o nascimento. Empreendedores, por vezes, são considerados indivíduos diferenciados, seres visionários, dotados de conhecimento autodidata, mestres na arte de prosperar e de, por meio de medidas simples, encontrar soluções em tempos difíceis e em meio a crises financeiras ou políticas. De fato, tais profissionais bem sucedidos possuem características que os distinguem dos outros, o que não quer dizer que possam ser considerados “sobrenaturais”. É claro que a vocação ao empreendedorismo deve ser levada em conta, assim como em qualquer ramo profissional, mas a diferença entre aqueles que prosperam em seus negócios e os que desistem ao primeiro sinal de dificuldade – e param no meio do caminho – também diz respeito à capacidade de adaptar os negócios às necessidades de mercado. Alie-se, a tal preocupação, o investimento em estratégias distintas, capazes de atender às demandas do mercado no qual o empreendedor está inserido. Tudo isso ganha ainda mais força quando a pessoa pode contar com orientação profissional adequada, além de um plano de negócios condizente com sua realidade. O resultado são ações que podem dar sobrevida a uma microempresa em meio a crises financeiras ou fazê-la ampliar de porte. Por outro lado, pessoas com espírito aventureiro arriscam-se neste universo do empreendedorismo de maneira equivocada, sem orientação, preparo profissional ou acadêmico. Desse modo, abraçam o sonho de ter negócio próprio e investem valores altos em projetos sem planejamento estratégico ou plano de negócios. Tal combinação de ingredientes é a “fórmula ideal” para o fracasso de qualquer iniciativa. Qualificação, portanto, ainda se revela requisito primordial para que uma pessoa se torne empreendedora. Quem reside na charmosa cidade mineira de Santa Rita do Sapucaí sabe disso. A localidade, que fica a 420 km de Belo Horizonte, é conhecida, no Estado, pelo pioneirismo nos ramos da eletrônica e das telecomunicações, graças ao arranjo produtivo local dessas indústrias. Durante muitos anos, porém, o cenário não era bem assim. O município de pouco mais de 40 mil habitantes tornou-se conhecido

como “Vale do Silício” brasileiro – em referência ao importante polo com sede na Califórnia (EUA) –, devido aos investimentos realizados em capacitação nas últimas cinco décadas. O start para a configuração do atual cenário de prosperidade foi dado por uma mulher que atendia pelo nome de Sinhá Moreira. Casada com o diplomata Antônio Moreira de Abreu, ela soube aproveitar bem uma oportunidade rara em sua época: viajar e conhecer o mundo. Em 1959, esta ilustre cidadã deu início a uma transformação social na cidade, que sobrevivia, sobretudo, da produção de leite e café. Após regressar de viagem ao Japão, Sinhá fundou, em sua terra natal, a primeira Escola Técnica de Eletrônica da América Latina. Passou, assim, a capacitar os alunos da época, despertando o interesse de sua gente pelos estudos em tecnologia. Tal exemplo bem poderia ser aplicado nos dias de hoje, posto que, para empreendedores, são essenciais a capacitação pessoal e a investigação do mercado. Não que Sinhá soubesse que sua ação transformaria a cidade em polo tecnológico de excelência em eletrônica, mas, certamente, já naquele tempo, conhecia o potencial transformador do conhecimento. Por se tratar de fenômeno mundial, o empreendedorismo é, hoje, estimulado por diversas instituições públicas e privadas, que têm investido esforços e capital em pesquisa e formação de profissionais. Atualmente, a realidade é diferente de outros tempos, e o município de Santa Rita do Sapucaí conta com novos métodos para incentivar o espírito empreendedor e desenvolver ferramentas para o desenvolvimento local.

A casa

Muitos anos se passaram desde a primeira semente plantada por Sinhá Moreira. Seu exemplo empreendedor, contudo, permanece por meio de projeto financiado pela FAPEMIG, em parceria com a prefeitura da cidade, que tem servido de nova luz a quem deseja investir em negócios próprios. Trata-se da Casa do Empreendedor do Vale da Eletrônica (Ceve). Com pouco mais de dois anos e meio de trabalho, a iniciativa mostra resultados animadores. Inicialmente implementada em caráter experimental, em março de 2012, a Ceve, após os primeiros resultados positivos, foi oficialmente inaugurada em

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

37


Divulgação

20 de dezembro daquele ano. O projeto encaminhado à Fundação define que a casa funciona como uma divisão ligada diretamente à Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia, Indústria e Comércio. Desse modo, atua como importante agente interlocutor no apoio a todos que buscam orientações sobre o mercado local. O suporte oferecido se divide em duas frentes de trabalho, expressos nos balcões de “serviços” e de “negócios”. A primeira linha de atividade está ligada às ações básicas de formalização de todos os tipos de empresas, dos empreendedores individuais (MEIs) às instituições de pequeno porte e às sociedades anônimas. Segundo Dani Lúcia Xavier, diretora de divisão de programa de incubação e coordenadora do projeto Ceve, o balcão de serviços tem importância ímpar no atendimento básico a quem busca legalizar seu empreendimento. Neste sentido, a Casa torna-se um órgão de apoio, capaz de minimizar as burocracias do setor público. “A Ceve centraliza, facilita e agiliza o atendimento às empresas ao oferecer orientações básicas sobre os passos para constituir um empreendimento e realizar procedimentos como abertura, alteração ou baixa de empresas, emissão de alvará etc.”, explica Dani Xavier. Desde a inauguração da Casa, aproximadamente 350 empreendedores deixaram a informalidade e, hoje, possuem alvará e licença de funcionamento. Para facilitar os procedimentos, aliás, a instituição conta, no local, com uma unidade da Junta Comercial do Estado de Minas Gerais (Jucemg). Para compreender as carências do público e transmitir orientações empresariais, a Ceve também dispõe de atendimento focado nos interesses de quem deseja montar um empreendimento na cidade. Segundo a coordenadora da iniciativa, o trabalho “consiste em oferecer noções básicas ao empreendedor sobre os primeiros passos para constituir um empreendimento”. Dani Xavier ressalta, ainda, que também faz parte do escopo de trabalho o direcionamento do empreendedor aos parceiros da Casa, para que possam encontrar qualificações, consultorias e financiamentos. “As parcerias variadas com o meio acadêmico, bancos e entidades de classe, dentre outros, são imprescindíveis”, conclui.

38

Casa do Empreendedor do Vale da Eletrônica (Ceve) busca fomentar inovações

No que se refere à tecnologia, a Ceve encontrou um meio inovador de distribuir informações relevantes sobre o mercado local. Para aqueles que desejam empreender e conhecer nuances regionais, há um banco de dados disponível aos futuros empreendedores, com informações competitivas valiosas. O serviço também fornece referências sobre prestadores de serviços especializados, como contadores e engenheiros ambientais, para que o empresário tenha referências iniciais. A localização da Ceve é estratégica. Ela está instalada no prédio da Incubadora Municipal de Empresas Sinhá Moreira e conta com a parceria do poder público municipal no que tange à oferta de mobílias e à disponibilização de funcionários efetivos para atendimento gratuito aos interessados. Atualmente, a Casa realiza cerca de 10 atendimentos diários, o que, no ver de Dani Xavier, não é um número baixo. “Para um município de aproximadamente 40 mil habitantes, consideramos a busca pela Ceve razoável”, afirma. Os impactos obtidos com o trabalho da Ceve refletem-se em setores primários do poder público, expressos na desburocratização de processos e na conscientização das pessoas acerca dos caminhos de abertura de empreendimentos. Além disso, com a divulgação de informações sobre os benefícios da lei de inovação, houve redução significativa da informalidade na cidade e aumento dos processos de inscrições municipais e de emissões de alvarás de funcionamento.

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

ProPoStA: Casa do Empreendedor do Vale da Eletrônica CoordenAdorA: Dani Lúcia Xavier ModAlidAde: Inovação Regional VAlor: R$ 46.511,20


PSICoLoGIA SoCIAL

Eu tenho a força? Pesquisa da Unimontes investiga papel social, político e econômico exercido por intelectuais no Norte de Minas Vivian teixeira

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

39


No dia 20 de fevereiro deste ano, um grupo de respeitados pensadores brasileiros lançou o manifesto O que está em jogo agora, que propõe debate acerca da crise de corrupção que ronda a Petrobras e dos rumos a serem tomados a partir dela. O documento foi assinado por personalidades como Cândido Mendes, Leonardo Boff e Marilena Chauí, dentre outros intelectuais do País. Se as condições da nação fossem outras – como à época da luta pela redemocratização do Brasil ou contra os avanços do neoliberalismo – tal iniciativa seria taxada de natural. Hoje, quando o País vive em regime democrático e muitos parecem imersos no estilo de vida neoliberal, que atende plena e confortavelmente aos anseios de consumo da população, a movimentação dos intelectuais, ligados a alinhamentos ideológicos e políticos de contestação do status quo, faz com que sejam reconhecidos como indivíduos “de esquerda”. O manifesto do dia 20 sugere alterações na estrutura, já que boa parte dos nomes que o ratificaram não é contrária às inclinações do atual governo. Tal constatação vai ao encontro das ideias do filósofo francês Michel Foucault, para quem “o papel do intelectual não é mais o de se colocar ‘um pouco à frente ou um pouco de lado’ para dizer a muda verdade de todos; é, antes, o de lutar contra as formas de poder exatamente onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento na ordem do saber, da ‘verdade’, da ‘consciência’ do discurso”. No Norte de Minas, o historiador Laurindo Mekie Pereira, da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), pesquisou o papel dos intelectuais na identidade regional e na hegemonia de classe. O pesquisador baseou-se na história de quatro indivíduos da região: o fazendeiro; industrial; engenheiro; professor e líder político Simeão Ribeiro Pires; o proprietário de terras e professor universitário Alfredo Dolabela, o empresário Luiz de Paula Ferreira e o médico Pedro Santos. De acordo com o pesquisador, cada um deles representa uma estratégia de desenvolvimento pensada para a cidade mineira e suas proximidades. Na pesquisa, foi usada abordagem baseada no pensador italiano Antônio Gramsci (1891-1937), famoso, principal-

40

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

mente, pela elaboração dos conceitos de hegemonia e de bloco hegemônico. “Os intelectuais são pensados como agentes organizadores das classes sociais, operando nos âmbitos social, cultural e político. Além disso, não se restringem a atividades imediatamente econômico-corporativas. Eles podem ser grandes pensadores e acadêmicos, mas também podem ser cidadãos não escolarizados”, explica Laurindo Mekie.

Atores sociais

Os quatro personagens analisados pela pesquisa foram atores-chave nos meios empresarial e político da região, atuando, ao longo da segunda metade do século XX, nas construções da identidade regional e da hegemonia do grande capital no Norte de Minas. Para Mekie, outros indivíduos também contribuíram nesse processo. O discurso regionalista foi um dos mecanismos que permitiram a hegemonia dos grandes comerciantes e industriais, consumando um modelo de desenvolvimento fundado na industrialização, incentivada na modernização do campo por meio de grandes projetos de reflorestamento e irrigação e na transformação das antigas fazendas pela lógica capitalista. “Simeão Ribeiro, por exemplo, atuou em várias frentes. Suas pesquisas e publicações sobre a história de Minas Gerais contribuíram para a difusão da ideia de que o Norte do Estado é uma região com identidade própria desde a colonização, vinculando-se mais à Bahia do que a Minas Gerais”, explica. Já Alfredo Dolabela foi um dos grandes idealizadores, se não o principal, do Estado de São Francisco. Apesar de o projeto não ter sido aprovado, a pesquisa demonstrou que ele contribuiu para levar mais “água para o moinho” do discurso regionalista. De acordo com os estudos, Luiz de Paula é o mais claramente identificado com o modelo vitorioso. O intelectual, que chegou a ser deputado federal, migrou ainda jovem para Montes Claros, onde fez carreira como empresário, sendo também conhecido por sua sociedade com o ex-senador e vice-presidente José Alencar (1931-2011). “Sua trajetória e seu pensamento ilustram com razoável nitidez uma


visão de mundo difundida entre os empresários, segundo a qual o desenvolvimento é obra do capital privado, cabendo ao estado incentivá-lo, subsidiá-lo e servi-lo, sem jamais concorrer com ele. O Estado é bem visto como agente supletivo e subsidiário”, acrescenta Mekie. Dados da pesquisa mostram que, para a fração norte-mineira, havia também as variáveis “território” ou “região”, como era usual dizer. “Assim, em nome do Norte de Minas, requeria-se do poder público um benefício adicional ao destinado para as demais frações da classe. Na prática, reclamou-se um estado máximo para os donos do capital e mínimo para os trabalhadores”, completa o professor. Por fim, a pesquisa demonstrou que Pedro Santos – considerado um caso especial, posto que funcionou como contraexemplo do pensamento hegemônico, por ser um médico que se vinculava deliberadamente aos setores de baixa renda – foi escolhido para análise como uma estratégia metodológica. Por meio dele, buscou-se examinar a trajetória e o pensamento de alguém de fora, ou, ao menos, não muito identificado com os grupos hegemônicos. “A campanha abertamente trabalhista, reformista e nacionalista, em 1962, a vitória nas urnas contra todos os grupos econômica e politicamente poderosos, as posteriores dificuldades para governar e as inevitáveis concessões que fez aos conservadores indicam a força dos grupos hegemônicos e os limites de projetos alternativos”, esclarece o pesquisador. Segundo a acepção utilizada na pesquisa, confirmou-se a tese de Antonio Gramsci de que não há organização social sem intelectuais. “São eles os organizadores dos consensos sociais e políticos, os agentes da sociedade civil, cujo papel depende da importância dessa esfera na dinâmica maior da sociedade”, afirma. No contexto nacional, é possível usar as definições de Foucault e do professor Mekie para demonstrar que, atualmente, os intelectuais não estão inertes às urgências de seu tempo. O manifesto do dia 20 de fevereiro é apenas um dentre vários exemplos de contribuições dos pensadores para uma percepção mais crítica sobre os problemas da atualidade.

Pensar e agir Cineasta Silvio Tendler defende engajamento dos intelectuais

Quando o papel do intelectual extrapola as barreiras acadêmicas, as ferramentas de reflexão e debate ganham formas distintas: livros, músicas, poemas, esculturas, filmes. Para o cineasta Silvio Tendler, o intelectual de hoje está sendo um pouco desprezado devido ao fato de a civilização revelar-se extremamente midiática: nela, afinal, mídia e conhecimento se confundem. Sobre o papel dos pensadores na contemporaneidade, Tendler apresenta o conceito gramsciano do “intelectual orgânico”, que se divide em dois tipos: o intelectual em si é aquele que todos conhecem, enquanto o para si tem consciência da importância do que faz, transformando reflexão em ação. “O intelectual orgânico é atrelado a causas políticas. Ele sabe de suas responsabilidades na sociedade e usa o conhecimento como ferramenta para as causas às quais se dedica”, afirma o cineasta. Para Tendler, o que falta, hoje, é um espaço para fazer cinema de reflexão. Segundo ele, existem muitas salas voltadas a filmes comerciais, que fazem mais rir do que pensar. “Sou de uma época em que todas as artes se tangenciavam, se misturavam. Por isso, meus filmes têm essa ‘cara de esquina’, que é o lugar onde as pessoas se encontram para conversar e pensar projetos. Sinto falta disso na atual geração. Afinal, o intelectual é, sobretudo, um ser engajado”, conclui.

Projeto: Identidade regional e hegemonia de classe no norte de Minas - o papel dos intelectuais Coordenador: Laurindo Mekie Pereira Modalidade: Demanda Universal Valor: R$ 7.978,95

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

41


EDUCAção

Sentidos do conhecimento

Projeto mobiliza comunidades escolar e acadêmica a encontrar novas maneiras de pensar o Brasil por meio da educação Ana luiza Gonçalves

42

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

42


Mais do que pátria e mátria, queremos ter frátria, ressalta Caetano Veloso na canção “Língua”, escrita no início da década de 1980. Afinal, mais do que a representação de pai e mãe, os indivíduos desejam “algo” que caminhe a seu lado. Em 1984, o compositor não se referia à linguagem apenas como meio de comunicação ou expressão, mas, também, como símbolo de uma história. História essa que, agora, trava luta constante para que o Brasil torne-se uma nação densa, democrática, igualitária e de alta qualidade. No que se refere à educação, o País ainda precisa encontrar medidas e promover uma série de ações sociais para se afirmar, finalmente, como “pátria educadora”, lema proposto pelo governo da presidente da república, Dilma Rousseff, para seu segundo mandato. É possível dizer que a educação foi estendida às mulheres, aos negros, aos indígenas e aos moradores de áreas rurais. Apesar disso, ainda é grande o desafio de fazer das escolas um ambiente acolhedor, de inclusão e respeito. Para tal, há de se criar condições para que o ensino não ocorra apenas no âmbito escolar, assim como para trabalhar a política, a cidadania e a desigualdade social. No dia 28 de abril de 2000, durante o Fórum Mundial de Educação, realizado em Dakar, no Senegal, representantes de 164 países estabeleceram seis metas, junto à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), com o objetivo de ampliar o acesso ao ensino de qualidade no mundo, com prazo de cumprimento em 2015. Os dados foram publicados no dia 9 de abril de 2015 e o resultado não é nada satisfatório. Somente um terço dos países alcançou os objetivos mensuráveis de Educação Para Todos (EPT). O Brasil atingiu apenas duas metas no prazo de 15 anos: garantir educação primária universal, do primeiro ao quinto anos do ensino fundamental – particularmente, para meninas, minorias étnicas e crianças marginalizadas – e alcançar paridade e igualdade de gênero, o que significa levar meninos e meninas às escolas em proporções idênticas.

“Enquanto o Brasil não tiver um outro projeto societário, será muito difícil falar em ‘pátria educadora’. A própria presidente Dilma disse que pensar nesse lema não é enfatizar apenas a escola”, destaca Luciano Mendes de Faria Filho, um dos coordenadores do projeto “Pensar a educação, pensar o Brasil (1822-2022)”, desenvolvido em rede por 11 instituições de ensino e pesquisa do País. O que fica evidente é que não se pode esperar um sistema educacional de boa qualidade sem boas políticas públicas. Sozinha, a escola não realiza toda a educação necessária, apesar de, nos últimos 200 anos, as instituições de ensino terem adquirido centralidade na formação das novas gerações. Com base na comemoração do bicentenário da independência, a ser completado em 2022, surgiu o projeto, que estimula a discussão em torno dos sentidos da educação no espaço público. Desde 2007, a iniciativa articula ações de ensino, pesquisa e extensão em universidades públicas brasileiras, como forma de procurar alternativas para pensar o Brasil.

Vertentes de ação De que modo tornar a discussão sobre educação mais densa, uma vez que a grande mídia veicula, predominantemente, relatos sobre a violência nas escolas? Além disso, é bastante comum ver, na imprensa, os preceitos educacionais sendo discutidos por jornalistas, economistas, psicólogos, sociólogos e outros profissionais que não se especializaram no assunto. Segundo Luciano Mendes, as ações de violência envolvendo a escola e seus sujeitos, por exemplo, cresceram muito, mas ainda estão aquém dos números do “mundo social”. Enquanto isso, as boas experiências de ensino e aprendizagem, ou de diminuição de atos violentos, acabam estritas aos pés de página dos jornais. Neste cenário, “Pensar a educação, pensar o Brasil” tornou-se um grande projeto de comunicação pública, ao promover amplos debates embasados em pesquisa. Para tal, a iniciativa desenvolve sete distintas vertentes de ação: um portal eletrônico, um jornal, uma pesquisa, um MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

43


programa de rádio, uma coleção, um seminário e uma revista. No portal, é possível encontrar qualquer informação sobre o projeto. Já o jornal, que conta com cerca de 40 colaboradores, entre professores e alunos de mestrado e doutorado do Brasil e do exterior, apresenta, semanalmente, opiniões de especialistas sobre o tema, além de notícias de divulgação científica e um grande clipping sobre educação. Outra ação do grupo, a pesquisa intitulada “Moderno, modernidade, modernização: a educação nos projetos de Brasil no século XIX e XX” garante suporte teórico ao trabalho desenvolvido. No total, são pesquisadores de 11 instituições brasileiras, que investigam a educação no pensamento social e político brasileiro. Já o programa de rádio vai ao ar às segundas-feiras, às 14h, pela rádio UFMG Educativa (104,5 FM) e é organizado nas seguintes seções: entrevista, educação em pauta, destaques do boletim e agenda da

educação. Há, ainda, as sessões especiais, que discutem literatura, mídia e cinema. Com 33 títulos publicados, a coleção busca reunir diferentes séries e temas voltados a professores de educação básica, com ensaios, relatos e resultados de pesquisas. Também foi criada uma revisão bibliográfica sobre a pesquisa em educação. Um pesquisador é convidado a fazer a revisão sobre um tema e indica outros dez textos fundamentais sobre o assunto. Já o seminário, hoje na nona edição, é realizado anualmente. Todos os anos, um grande tema é escolhido para debate. Em 2015, a discussão diz respeito à formação de professores. No segundo semestre, serão realizadas quatro conferências, no auditório da Faculdade de Educação da UFMG, e os interessados que não puderem estar presentes ao evento poderão acompanhar ao vivo pela webrádioFAE (www.radio.fae.ufmg.br) ou pelo canal que o projeto mantém no YouTube. Após as discussões, o seminário se desdobra em uma disciplina de pós-graduação. Além dessas ações, o projeto abriga um programa de estágio para alunos da Pedagogia e da Comunicação, uma mobilização das redes sociais para divulgação da pesquisa e para formação de professores e, também, um boletim semanal de divulgação científica construído com uma rede de articulistas de várias universidades brasileiras. Uma nova iniciativa está em gestação: trata-se de revista dedicada aos professores de escola básica, que divulgará a pesquisa em educação e, também, experiências de professores. A publicação será lançada, até o fim do ano, em parceria com o mestrado da FAE.

Escola básica Em 2008, Fernando Haddad, então ministro da educação do governo Lula, anunciou o primeiro Plano Nacional de Formação dos Professores da Escola Básica (Parfor), com o intuito de formar, até 2013, 330 mil professores para educação básica, com investimento de R$ 1 bilhão. Até 2012, o Parfor implantou 1920 turmas. Mais de 50 mil professores frequentaram

44

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015


os cursos em turmas especiais do programa, espalhado por 397 municípios do País. A realidade dos professores, contudo, ainda se caracteriza por baixa remuneração, salas de aula lotadas, material didático insuficiente e infraestrutura inadequada. Por que, então, muitos professores de escola básica permanecem realizando ótimos projetos? Em parceria com o Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (SindUTE), o projeto discute esse aparente paradoxo, dirigindo-se aos professores, de modo a funcionar como uma espécie de política de formação e de discussão pública sobre a carreira. Luciano Mendes explica que o projeto busca ser um canal para reforçar o debate sobre a dignificação da profissão. Para tal, aliás, a revista pretende reforçar os próprios professores da escola básica como protagonistas do debate sobre sua trajetória profissional. “A autoria é parte da dignificação da profissão. No mundo contemporâneo existe essa ideia de que somos autores de nossa vida e de nossa profissão, e os professores não são apenas consumidores de livros didáticos. Há produção de conhecimento nessa experiência”, sublinha o coordenador. Além de ações indiretas de alcançar a escola básica, o projeto mobiliza a comunidade escolar à participação em programas de rádio realizados e transmitidos de dentro das instituições de ensino. Dessa forma, professores, pais e alunos podem acompanhar de perto as ações do projeto, além de incentivar a escola a apresentar suas propostas para a educação. “Esperamos que todos esses canais sejam formas de aproximar os professores da escola básica, que são o nosso público. O projeto foi todo construído com a ideia de que é preciso dialogar fortemente com os docentes, de modo a reconhecer sua autoria e a valorizar a carreira e a profissão”, afirma. Mesmo com várias iniciativas a envolver a comunidade escolar, o projeto ainda não conseguiu alcançar os pais e os alunos. “Temos que pensar nisso para o futuro: de que modo produzir material ‘com’ os alunos e não ‘para’ os alunos? Hoje, por meio das novas tecnologias, é possível

criar canais de expressão da população e, mais especificamente, da comunidade escolar. Há muitos projetos pelo Brasil afora que já realizam isso e precisamos aprender com eles”, completa o pesquisador.

Expectativas Atualmente, o projeto conta com a colaboração direta de cerca de 70 pessoas de todo o Brasil e do exterior, que, em sua maioria, não imaginavam ser possível colaborar com a formação de professores e alunos por meio da comunicação pública de suas pesquisas. Segundo Luciano Mendes, com o projeto, foi possível montar uma rede de colaboração que se estendeu aos campos da pesquisa e da extensão. Outro bom retorno da iniciativa diz respeito à formação de comunicólogos, algo bastante importante no atual contexto das grandes mídias. “Os estudantes que se formam em Comunicação Social têm novos olhos e temos que aproveitar esse momento. Tal formação específica é muito atraente para o projeto”, confessa o coordenador. No mais, esperam-se melhores condições para exercício da profissão, assim como a elevação da qualidade da escola no Brasil – sobretudo a básica e a pública. Isso passa pela elevação dos valores financeiros aplicados. “Esperamos chegar ao final da década com os 10% do produto interno bruto (PIB) aplicados na educação, mas é preciso que o dinheiro seja bem gasto. É necessário aumentar os recursos porque o valor per capita, no Brasil, é muito baixo em relação a outros países”, comenta Luciano Mendes. O projeto tem pretensão, ainda, de mobilizar mais pesquisadores para discutir a educação também em espaços não acadêmicos. Luciano Mendes comemora a mobilização da comunidade para produzir conteúdo e interagir com a escola. “A ideia é que mais pessoas participem, não somente para pensar, mas para dar visibilidade à pesquisa e à discussão. Além disso, devemos criar um portal de comunicação pública”, defende, ao lembrar a necessidade de tornar ainda mais densa a “disputa” pelos sentidos da educação.

ProJeto: Projeto de Extensão Pensar a Educação Pensar o Brasil (18222022), em interface com Pesquisa editAl: Apoio a Projetos de Extensão em Interface com a Pesquisa VAlor: R$ 47.349,36

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

45


LEMBRA DESSA?

Do leite ao isotônico

Especialistas da UFV estudam uso de soro lácteo, resultante da fabricação de queijos, na produção de bebida a ser consumida por esportistas Diogo Brito

Verdade seja dita: o brasileiro gosta de se exercitar. Basta uma olhada nas academias de qualquer cidade e é possível perceber muita gente dedicada a atividades físicas – o que é ótimo! Diante de tanta gente a praticar exercício físico, uma pergunta revela-se fundamental: as pessoas se hidratam de maneira ideal durante as atividades? A ingestão de água durante a prática de ginástica, afinal, é imprescindível à saúde do corpo. Pelo que se pode perceber, muitos são os esportistas que aderem ao uso de repositores energéticos, os conhecidos isotônicos. Nestes casos, é preciso ficar atento! A necessidade de consumo do isotônico é recomendada apenas quando há perda de dois por cento do peso corporal durante a “labuta”. Reportagem publicada na edição nº 53 de MINAS FAZ CIÊNCIA, veiculada em 2013, tratava, justamente, da produção de tais isotônicos – a partir, porém, de algo bastante improvável: o soro que resta durante a produção de queijos. O texto da revista apresentava os resultados preliminares de estudo realizado por um grupo de pesquisadores do Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos da Universidade Federal de Viçosa (UFV), financiado pela FAPEMIG) por meio do edital Demanda Universal. A equipe buscava solução para o aproveitamento integral do chamado “permeado”, tanto do leite quanto do soro usado na produção de queijo, assim como para a diminuição dos impactos ambientais gerados pelo descarte de resíduos orgânicos no processo de fabricação. Ao produzir queijos, os fabricantes lidam, basicamente, com dois distintos componentes lácteos: o coalho – a parte sólida usada durante a fabricação – e o soro, líquido que detém boa parte dos nu-

46

trientes do alimento, o que inclui proteínas, sais, vitaminas, lactose e enzimas. Os primeiros resultados da pesquisa indicavam que, por meio do processo descrito como “ultrafiltração”, seria possível reduzir os impactos ambientais, já que o permeado do soro e do leite não seria mais tratado como resíduo – ou como subproduto da indústria de laticínios –, mas como coproduto da indústria alimentícia, servindo de base a alimentos de suplementação alimentar e ao enriquecimento do valor proteico de alimentos. Durante décadas, a ausência de tecnologia na indústria de laticínios não permitiu o aproveitamento adequado para os dois derivados do leite. Assim, boa parte dos produtos era descartada indevidamente nas redes fluviais sanitárias, tornando-os agentes poluidores do meio ambiente. A coordenadora do projeto e doutora em Ciência e Tecnologia de Alimentos, Edimar Aparecida Filomeno, constatou, entretanto, que, com os avanços da pesquisa, a composição dos permeados reuniria todos os nutrientes necessários à elaboração de bebidas hidroeletrolíticas e com potencial para a produção de isotônicos. Outra importante vertente da pesquisa envolvia os processos de coloração e de escolha de sabor para as bebidas. Devido à alta concentração de vitaminas do complexo B, os permeados possuem tom próximo à cor verde. Por isso, o grupo optou por dar ao produto o gosto de limão, e, desse modo, fazer referência à coloração natural do produto.

Cores e sabores

Após concluídos os estudos de aplicabilidade do permeado do soro e do leite, os esforços da equipe de pesquisa

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

concentram-se, agora, na adição de elementos de base natural capazes de atribuir novos sabores e colorações à bebida. Segundo Edimar Aparecida Filomeno, a equipe tem a intenção de inserir paladares não muito convencionais ao produto. Trata-se de gostos característicos, por exemplo, de diversas regiões mineiras. “Trabalharemos com extratos de pigmentos naturais de frutas típicas do Brasil, com destaque especial para o pequi, fruta típica do cerrado de Minas Gerais”, conta. Açaí e jabuticaba são outras possíveis apostas dos pesquisadores. Mesmo com avanços significativos na elaboração de bebida isotônica a partir do permeado do leite – estudo realizado, coincidentemente, em período próximo às Olimpíadas 2016, no Rio de Janeiro (RJ) –, não se espera a comercialização do produto nos próximos anos. A coordenadora da pesquisa alega que, para tal, ainda seria necessário avaliar resultados técnicos importantes. “No momento, o foco está na pesquisa. Os resultados que envolvem a participação de estudantes de pós-graduação e de iniciação científica darão informações importantes quanto ao emprego de embalagens adequadas, às condições de armazenamento, à vida de prateleira, aos critérios de identidade e à qualidade físico-química e microbiológica do produto final”, explica. Portanto, o produto deve chegar às prateleiras somente após a última etapa de testes. Tal avaliação é focada em um público específico e pode demorar até dois anos. “Estudos sensoriais estão sendo executados para verificar a aceitabilidade da bebida isotônica junto ao público, com ênfase nos praticantes de atividade física”, esclarece.


Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Ceará e mestre em Economia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (Cedeplar/UFMG), Elton Eduardo Freitas tem vasta experiência em pesquisas, análises econômicas e Data Science. O pesquisador também é o responsável pela área de inteligência e de conteúdo do projeto DataViva, plataforma eletrônica aberta que, desde dezembro de 2013, oferece, aos usuários, dados econômicos e outras informações acerca de diversos setores governamentais do Estado. Na iniciativa, que recebeu aporte de R$ 1,2 milhão da FAPEMIG, Elton Freitas atua na definição de modelos, conteúdos e regras de negócios. Diogo Brito

1

A plataforma DataViva foi aberta ao público em 2013. Qual a avaliação de seu funcionamento pela equipe que a gerencia? Nossa expectativa era muito grande. Foram quase 2 anos de trabalho conjunto entre o governo do Estado e a equipe do professor César Hidalgo, do Media Lab, ligado ao Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT). A plataforma foi inicialmente pensada para atender o que chamávamos de Sistema de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, e centrada em uma ferramenta que apresentasse o product space do Estado. Com o decorrer do projeto, vimos a possibilidade de fazer isso para todo o Brasil. Chegamos, então, à segunda versão, lançada há pouco, com números que consideramos impressionantes: são quase 77 mil usuários desde o lançamento da primeira versão até hoje. No total, 793 mil páginas foram visitadas. Estamos falando de uma plataforma que exibe dados sobre a economia brasileira. Os números, portanto, revelam-se bastante expressivos. O DataViva vem sendo acessado por usuários em diversos países e tem se transformado em referência na busca por informações das localidades brasileiras.

2

Hoje, a sociedade conectada exige informações imediatas sobre determinados assuntos e o DataViva se destaca por apresentar amplo raio-x do Estado. Que outras informações podem, no futuro, ser agregadas à plataforma? Temos, como visão, transformar o DataViva na melhor plataforma de visualização de dados abertos do Brasil, revelando novas perspectivas sobre problemas relevantes para o desenvolvimento de nossa sociedade. A primeira versão da plataforma continha informações sobre empregos for-

mais, obtidas no Ministério do Trabalho, além de dados de exportação fornecidos pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Lançamos, no dia 24 de abril de 2015, a segunda versão da plataforma, que não apenas conta com novo layout, mas apresenta novos conjuntos de dados. Incluímos informações de importação, que faltavam na primeira versão, e dados do Censo Escolar e do Censo de Educação Superior fornecidos pelo Ministério da Educação. Pensamos numa plataforma não focada apenas em desenvolvimento econômico, mas no desenvolvimento em si – seja ele econômico, social ou humano. Para as próximas versões, trabalhamos a inclusão de, ao menos, duas novas bases de dados. Uma delas seria a base de informações do currículo Lattes, de modo a captarmos a produção científica no Brasil. A outra diria respeito ao Datasus, que contém informações bastante detalhadas sobre o sistema de saúde brasileiro.

3

Quais os desafios para criar e gerenciar uma ferramenta com tal complexidade? Posso citar três grandes desafios: o primeiro deles foi a distância entre a equipe de desenvolvimento local e o grupo do professor Hidalgo. Isso foi solucionado com as atuais ferramentas de comunicação e de desenvolvimento, que nos ajudaram bastante nesse processo. O segundo refere-se à obtenção dos dados. Ainda não temos uma cultura de dados abertos, o que dificultou bastante nossa vida. Foram inúmeras idas a Brasília para tentar conseguir essas informações. Conseguimos convencer os fornecedores dos dados e fazer deles parceiros desse projeto. O terceiro desafio diz respeito ao fato de que o DataViva foi construído por várias mãos. Montamos o

Grupo Técnico Ampliado – que chamamos de GTA –, no qual tínhamos representantes de várias instituições, do governo de Minas aos setores privado, federal etc. Essa rede foi montada com vários intuitos.

4

A plataforma foi criada com base em software de código aberto. Apesar disso, a segurança das informações está resguardada? Na verdade, todas as informações que temos no DataViva também são públicas. Não há nenhum dado sigiloso. São informações que você pode obter, até mesmo, nos sites dos ministérios. O que fizemos de diferente foi mostrar esses dados de forma nunca antes vista. A plataforma não só apenas conta com informações abertas, como também o código é aberto e pode ser obtido no repositório do projeto, localizado na plataforma GitHub (https:// github.com/DataViva). Qual a influência do DataViva no desenvolvimento do Estado? O principal impulso do projeto está na criação de uma cultura de dados para a tomada de decisão. Antes, o “tomador de decisões” necessitava de uma equipe com técnicos que trabalhassem dados e apresentassem resultados em complexas tabelas de Excel. Com o DataViva, poucos cliques podem ser suficientes para que se encontre a informação necessária, de forma muito mais amigável e reveladora. Essa mudança cultural proporcionada pela plataforma tem atraído não só a atenção dos que se utilizam da DataViva para tomar decisões, mas, também, daqueles que querem se inspirar nas ferramentas de visualização e de tecnologia para tratar suas informações de forma inovadora.

5

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

47

5 PERGUNTAS PARA...

Elton Eduardo Freitas


LEITURAS

Tudo pelo

Essa reflexão sobre os efeitos e desdobramentos do Assédio Moral nas Organizações Públicas, bem como a atuação dos sindicatos frente a este problema em níveis local, regional, nacional, e até mesmo, internacional, deixa claro o quanto ainda há de ser caminhado. Inclusive para fornecer a estas organizações, dentre essas, as sindicais, maior suporte para a prevenção e o combate ao assédio, principalmente em termos de políticas públicas.

trabalhador

Envolver as organizações públicas e sindicais de forma efetiva no debate sobre o assédio moral e considerá-las “como um frutífero campo de pesquisas e intervenção voltado ao desenvolvimento do bem-estar e da qualidade de vida do trabalhador”: eis o argumento central do livro Assédio moral em organizações públicas e a (re)ação dos sindicatos. O objetivo da obra é ajudar a preencher a lacuna existente no ambiente acadêmico sobre as discussões relacionadas ao assédio moral no contexto das organizações. A publicação reúne trabalhos de autores com expressão nacional e internacional e se relaciona à linha de pesquisa Políticas Públicas e Sustentabilidade, do grupo de pesquisa Gestão e Desenvolvimento de Territórios Criativos do Conselho

Meu nome é

O fazer ciências é e sempre foi uma seara difícil de galgar em nosso país. Passamos muitos anos sem grandes incentivos para a área de desenvolvimento científico e pesquisas. Mas, não obstante os percalços, conseguimos destaques em campos particulares do avanço da ciência em nível mundial. Como é o caso do professor José Israel Vargas, que traz em sua vivência o pioneirismo e o compromisso com a modernização de várias áreas do conhecimento científico no Brasil, aliados ao desenvolvimento de estudos de interesse mais amplo.

48

A história de um dos principais nomes da produção científica brasileira acaba de chegar às mãos dos leitores. O livro Desafiando fronteiras, escrito pela historiadora Lígia Maria Leite Pereira, reconta a brilhante trajetória do mineiro José Israel Vargas, professor e pesquisador que, no campo da ciência e da tecnologia, também trabalhou como secretário de Estado, em Minas Gerais, de 1977 a 1979, e ministro, entre 1992 e 1998, nas gestões dos presidentes Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso – além de ter atuado como embaixador do Brasil junto à Unesco. Nascido em Paracatu (MG), Vargas formou-se em química pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e, logo em seguida, ganhou o mundo. Como pesquisador, aprimorou-se em Cambridge, no

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), liderado pelo professor Magnus Luiz Emmendoerfer, da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Também participaram da organização os professores Suzana da Rosa Tolfo e Thiago Soares Nunes, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Livro: Assédio Moral em Organizações

Públicas e a (Re)Ação dos Sindicatos Autores: Magnus Luiz Emmendoerfer,

Suzana da Rosa Tolfo e Thiago Soares Nunes (organizadores) Editora: CRV Páginas: 276 Ano: 2015

“Ciência” Reino Unido, em Grenoble, na França, e em Moscou, na Rússia. Além de muitas histórias sobre tais jornadas internacionais, o livro reaviva a caminhada do grande pesquisador em uma série de momentos relevantes, das descobertas do menino curioso às experiências do gestor de ciência.

Livro: Desafiando fronteiras – Trajetória de vida do cientista José Israel Vargas Autora: Lígia Maria Leite Pereira Editora: Editora UFMG Páginas: 415 Ano: 2015


Nem só de biólogos vive o mundo da ilustração científica. Nos últimos 10 anos, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) ofertou diversos cursos na área, com temas e técnicas diversas – a maioria ligada à extensão. Em tais iniciativas, artistas exploram seu talento para a ciência ao possibilitar, por meio de imagens, a descrição e a identificação de espécies, além da apresentação de características morfológicas essenciais ao estudo das ciências naturais. Além de biólogos, também donas de casa, engenheiros, geógrafos, farmacêuticos, fotógrafos, jornalistas, médicos e paleontólogos interessados na arte de desenhar o universo das práticas científicas podem atuar como ilustradores. É preciso, contudo, especializar-se. Embora pareçam criações artísticas, os desenhos obedecem a regras internacionais.

BIG DATA, SMALL DATA Muitas vezes, percebem-se as pesquisas quantitativas e qualitativas como abordagens distintas, embora possam ser complementares. Em ensaio publicado na revista Big Data & Society, a etnógrafa Heather Ford buscou desmistificar tal visão, tendo por base o trabalho desenvolvido sobre a Wikipédia, durante três anos, em parceria com dois cientistas da Ciência da Computação. Ao falar sobre sua experiência nesse trabalho conjunto, e, principalmente, sobre os ganhos obtidos na pesquisa, apareceram temas importantes, todos relacionados à colaboração científica: há muitas coisas em comum entre as abordagens “quali” e “quanti” e o trabalho em conjunto resultou em visão mais ampla e profunda sobre o assunto.

CoLECIoNISMo Eis algo que, provavelmente, o caro leitor já tenha feito (ou permanece a fazê-lo): guardar e organizar coisas. Afinal, há pessoas que colecionam selos, livros, brinquedos, figurinhas e obras de arte. Apesar de tudo ser colecionável, geralmente, as pessoas privilegiam os objetos. Além disso, na maior parte das vezes, os itens armazenados são antigos e guardam história. Atualmente, o conceito de “antigo” mudou muito. Com a velocidade da inovação, até um computador do fim do século passado já se torna item de coleção. No podcast Ondas da Ciência, conheça a coleção de computadores e videogames do professor Marco Aurélio Birchal.

CIÊNCIA E ESPoRTES Seja na academia, nas quadras ou ao ar livre, a prática de esportes ganha cada vez mais adeptos, preocupados com a saúde e com o bem-estar. Devido à Copa do Mundo de 2014 e aos Jogos Olímpicos de 2016, o interesse pelo tema só tem aumentado, não apenas entre os amantes da prática de esportes, mas, também, no âmbito acadêmico. Pesquisadores buscam contribuir com estudos que permitam melhores resultados para os atletas, além da redução de lesões. Neste episódio do Ciência no Ar, falamos sobre como a ciência pode contribuir para a melhoria do desempenho de atletas profissionais e amadores.

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

49

hI P ER LI N k

ILUSTRADoR CIENTÍFICo


50

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

Poucos conseguem vê-los em tal estado de paz e tranquilidade. Afinal, estão sempre em pleno voo, como resultado de asas que chegam a bater até 80 vezes por segundo. Nesta bela imagem, um beija-flor da espécie Ramphodon dohrnii cuida de seu singelo ninho, construído nos galhos de uma Mangueira (Mangifera indica). A cena foi registrada no quintal da casa de Aline Graziele Pinheiro Aguiar, que acompanhou de perto as etapas do processo de reprodução. As fêmeas da delicada ave encarregam-se de todo o trabalho duro. Sem ajuda dos machos, elas constroem o “lar, doce lar”, encubam os ovos e alimentam os filhotes. Aline Aguiar é estudante de Engenharia de Produção nas Faculdades Santo Agostinho de Montes Claros (MG).

VARAL

Aline Graziele Pinheiro Aguiar


MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

51


PARA USO DOS CORREIOS MUDOU-SE DESCONHECIDO RECUSADO

FALECIDO AUSENTE NÃO PROCURADO

END. INSUFICIENTE CEP NÃO EXISTE Nº INDICADO INFORMAÇÃO ESCRITA PELO PORTEIRO OU SÍNDICO

REINTEGRADO AO SERVIÇO POSTAL EM ___/___/___ ___/___/___

_______________ RESPONSÁVEL

Avenida José Cândido da Silveira, 1500 Bairro Horto Belo Horizonte (MG) CEP: 31 035-536 Contatos: revista@fapemig.br Blog: blog.fapemig.br/

www.facebook.com/minasfazciencia www.twitter.com/minasfazciencia/ www.youtube.com/user/ciencianoar

52

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2015

Minas Faz Ciência  

Edição nº 62