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Redação - Rua Raul Pompéia, 101 - 12.º andar, São Pedro - CEP 30330-080 Belo Horizonte - MG - Brasil Telefone: +55 (31) 3280-2105 Fax: +55 (31) 3227-3864 E-mail: revista@fapemig.br Site: http://revista.fapemig.br

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GOVERNO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Governador: Alberto Pinto Coelho SECRETARIA DE ESTADO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR Secretário: Narcio Rodrigues

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais Presidente: Mario Neto Borges diretor de Ciência, Tecnologia e inovação: Evaldo Ferreira Vilela diretor de Planejamento, Gestão e Finanças: Paulo Kleber Duarte Pereira Conselho Curador Presidente: João Francisco de Abreu Membros: Alexandre Christófaro Silva, Antônio Carlos de Barros Martins, Dijon Moraes Júnior, Virmondes Rodrigues Júnior, Flávio Antônio dos Santos, Júnia Guimarães Mourão, Marcelo Henrique dos Santos, Marilena Chaves, Ricardo Vinhas Corrêa da Silva, Sérgio Costa Oliveira, Valentino Rizzioli

Na época em que era criança, a moda entre as garotas era colecionar papeis de carta. Na hora do recreio, os grupinhos sentavam-se em roda para exibir as coleções, guardadas em pastas que pesavam mais que nossos livros didáticos, e tentar conseguir novos modelos. Havia de tudo: os papeis de carta grandes, os pequenos, os divertidos, os cheirosos (verdadeiros objetos de cobiça), os decorados com personagens de desenhos animados... Minhas negociações resultaram em três grandes pastas que, hoje, estão meio esquecidas no fundo do armário. A preferência por papeis de carta foi substituída, ao longo do tempo, por chaveiros, postais, xícaras e, finalmente, lápis de lugares que visitei. Como bem sabem os colecionadores “de carteirinha”, as peças guardadas são mais que simples objetos, são memórias que podem ser revisitadas a qualquer momento. Para além das lembranças, as coleções também têm significado especial para a ciência. Coletar, ordenar e guardar objetos, sejam eles materiais da natureza ou produzidos pelo homem, ajuda a compreender a história e o desenvolvimento de várias áreas do conhecimento. Uma coleção de computadores, por exemplo, mostra como a tecnologia evoluiu. Já uma coleção de exemplares da fauna e da flora possibilita comparar, identificar e formular hipóteses sobre novas espécies. Os materiais reunidos por Charles Darwin durante sua viagem de mais de quatro anos a bordo no navio Beagle – mais de 1.500 espécies fósseis e mais de 3.900 espécimes preservados – foram fundamentais para as observações que dariam origem à Teoria da Evolução das Espécies. Na reportagem especial desta edição, a repórter Virgínia Fonseca conversou com especialistas e colecionadores na tentativa de mostrar a importância e os prazeres do ato de colecionar. E por falar em coleções, uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal de Lavras tem reunido resultados interessantes com seu mapeamento das cavernas de Minas Gerais. O Estado se destaca nesse campo: 40% das cavernas do País estão em território mineiro. Durante o trabalho, o grupo se deparou não só com áreas ainda inexploradas, mas também com animais ainda desconhecidos, que correspondem, em alguns casos, a novos gêneros ou mesmo famílias. O trabalho ainda ressalta a importância de preservar tais ecossistemas, que costumam ser ameaçados por atividades como a mineração. Outros dois projetos que ganharam destaque nesta edição trazem alertas relacionados às crianças e aos adolescentes. Um deles, desenvolvido na Universidade Federal do Triângulo Mineiro, analisou as denúncias de violência sexual contra esse grupo e propôs ações capazes de fortalecer a rede de proteção infanto-juvenil na região. O outro estudo tem como foco a obesidade, um problema cada vez mais comum entre os jovens. Uma equipe da Universidade Federal de Viçosa comparou os componentes relacionados à síndrome metabólica e propôs um novo critério de diagnóstico, o que permitiria a prevenção e o tratamento precoce das alterações. E para quem acha que a divulgação da ciência está restrita a espaços tradicionais, como museus, palestras abertas ao público e veículos de comunicação, vale ler sobre o projeto mantido pelo Instituto de Ciências Biológicas da UFMG. Por meio da iniciativa, pesquisas e curiosidades dos campos da ciência, tecnologia e inovação foram parar nos ônibus do transporte coletivo de Belo Horizonte. Na sua próxima viagem, aproveite para conhecer o trabalho, que já despertou o interesse de outros estados e países. Boa leitura! Vanessa Fagundes diretora de redação

Ao LEI To R

EX P ED I EN T E

MINAS FAZ CIÊNCIA diretora de redação: Vanessa Fagundes editor-chefe: Maurício Guilherme Silva Jr. Redação: Ana Luiza Gonçalves, Camila Alves Mantovani, Diogo Brito, Maurício Guilherme Silva Jr., Vanessa Fagundes, Verônica Soares, Virgínia Fonseca e Vivian Teixeira diagramação: Fazenda Comunicação Revisão: Sílvia Brina Projeto gráfico: Hely Costa Jr. editoração: Fazenda Comunicação & Marketing, Fatine Oliveira Montagem e impressão: Rona Editora Tiragem: 20.000 exemplares Capa: Hely Costa Jr.


Í N D I CE

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ENTREVISTA

A neurocientista Suzana Herculano-Houzel comenta a necessidade de diversificação de métodos e princípios da ciência brasileira

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Engenharia de Telecomunicação

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Problemas do reconhecimento automático de fala em ambientes reais são tema de estudo

ESPECIAL

Por meio de fascinantes acervos científicos, pesquisadores buscam classificar e elucidar os seres e as coisas

Espeleologia

Mapeamento de cavernas brasileiras revela a inexplorada riqueza da escuridão subterrânea

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Saúde coletiva

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Ecologia

Iniciativa de extensão aprimora redes de proteção a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual

Sociologia urbana Qual seria, exatamente, a relação entre criminalidade e acesso a direitos civis e sociais?

Confira alguns dos desafios por trás da implantação do novo Código Florestal Brasileiro

Divulgação científica

Projeto oferece oportunidade de aprender sobre CT&I em ônibus da capital mineira

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LEMBRA DESSA?

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5 PERGUNTAS PARA...

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hiperlink

Investigação da Embrapa Milho e Sorgo investiga uso de vespinhas no combate a pragas agrícolas

Engenharia

Equipamento multifuncional desenvolvido por empresa mineira é capaz de atender a diversas demandas da construção civil

MINAS FAZ CIÊNCIA • SET/OUT/NOV 2014

Pesquisador da Universidade Federal de Uberlândia, Roberto Mendes Finzi Neto fala de estruturas inteligentes

Acessibilidade, open source, vigilância e perigos do vírus ebola no blog Minas faz Ciência

Nutrição

Em Viçosa (MG), estudo analisa mecanismos de prevenção e combate à obesidade e à síndrome metabólica


Maria Rita de Souza Uberaba (MG)

“Vi, na casa de um amigo, a revista MINAS FAZ CIÊNCIA. Gostei muito, não só por seu conteúdo, como pela qualidade de sua edição. Felicito-os também por seu trabalho. Saudações.” Reginaldo de Oliveira Ponte Nova (MG)

@minasfazciencia muito obrigado, é um prazer ler e reler essa revista regada de ciência e conhecimento, sem mais! “Meu nome é João Carlos de Oliveira. Sou professor da Escola Técnica de Saúde, na Universidade Federal de Uberlândia, e, em especial, do curso técnico em Controle Ambiental e Meio Ambiente. Também tenho atuado nos cursos de Enfermagem, Prótese e Saúde Bucal. Já conhecia MINAS FAZ CIÊNCIA, por meio de TV, eventos científicos e internet. Solicitei assinatura da revista e já recebi dois exemplares (56 e 57). Muito interessantes as reportagens, que sempre nos instigam a ressignificar o que sabemos e fazemos. Desejamos que esta revista amplie suas conquistas e oportunidades.” João Carlos de Oliveira Professor / Escola Técnica de Saúde da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Uberlândia (MG)

“Prezados senhores, agradeço-lhes o envio da revista MINAS FAZ CIÊNCIA, que tenho recebido com regularidade e a qual leio com muito prazer e curiosidade. Peço-lhes o favor de presentear, com a assinatura da publicação, um jovem de 16 anos, filho de uma amiga que anda muito preocupada com ele, pois deixou a escola,

Paulo Lameiro @pudim18

@jaimeguimaraess Este twitter é de uma revista espetacular. Da nossa Fapemig. Se quiser seguir e também divulgar @minasfazciencia Grata! G. Gomes @GlsiaG

“Parabenizo a todos os envolvidos, direta e indiretamente, para a finalização de cada edição, que sempre me surpreende. Em especial, parabenizo à Ana Luiza Gonçalves, pela matéria ‘Blecautes ligeiros’. Obrigado por tratar de um assunto tão interessante e nos revelar que, realmente, não percebemos nossa ‘cegueira’ diária. Parabenizo, ainda, ao William Rocha Ferraz, pela matéria ‘Do Cosmos à lavoura’. O texto revela a importância de nos preocuparmos com os recursos que temos e, principalmente, em mantê-los. Continuem desempenhando esse esplêndido trabalho, que muito contribui com a sociedade.” Fernando Tôrres Publicitário Belo Horizonte (MG)

Para receber gratuitamente a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, envie seus dados (nome, profissão, instituição/ empresa, endereço completo, telefone, fax e e-mail) para o e-mail: revista@fapemig.br ou para o seguinte endereço: FAPEMIG / Revista MINAS FAZ CIÊNCIA - Rua Raul Pompéia, 101 - 12º andar - Bairro São Pedro - Belo Horizonte/MG - Brasil - CEP 30330-080

MINAS FAZ CIÊNCIA tem por finalidade divulgar a produção científica e tecnológica do Estado para a sociedade. A reprodução do seu conteúdo é permitida, desde que citada a fonte. MINAS FAZ CIÊNCIA • SET/OUT/NOV 2014

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CARTAS

apesar de dizer que quer ser um engenheiro civil. Tentamos incentivá-lo a voltar para a escola, mas sem sucesso. Quem sabe, ao ler as excelentes matérias que a revista nos proporciona, ele desperte novamente para os estudos.”


especial

Por ofício, desejo ou curiosidade, homem adquire, organiza e preserva acervos que transformam a ciência Virgínia Fonseca*

*Colaborou Maurício Guilherme Silva Jr.

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Cervos, bisontes, cavalos e outras imagens ganham forma nas paredes das cavernas habitadas pelo homem no período Paleolítico. Na Idade Moderna, filósofos e cientistas se empenham em organizar, em acervo inédito, artigos sobre diversas descobertas humanas. Em pleno século XXI, um professor universitário debruça-se sobre artefato eletrônico de décadas anteriores, tentando recuperar-lhe as funções. Que relação poderia haver, caro leitor, entre cenas tão dispersas, localizadas em pontos variados de uma linha do tempo que abrange intervalo de mais de 10 mil anos? Desde épocas remotas, acompanha a humanidade o imperativo de lidar com a noção de temporalidade, sinal evidente da preocupação dos indivíduos em deixar registros às gerações vindouras. Tal cuidado aprimora-se com o tempo, e, ao longo da história humana, encontrou amparo no hábito de construir séries, coleções e arquivos daquilo que se deseja preservar e tratar. “Todo esse material, essencialmente, contém informações. São elas que nos interessam e estão abrigadas, guardadas e registradas em diferentes suportes: papel, quadros, objetos, pinturas”, relata a professora Betânia Gonçalves Figueiredo, do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), estudiosa da História da Ciência. A pesquisadora reconhece a relevância, para as práticas científicas e, especialmente, para a construção da chamada ciência moderna, do costume que há séculos acompanha o homem – ora agregado ao ócio, ora indissociável do labor – de coletar, ordenar e guardar objetos. O colecionismo, que serviu a exóticas demonstrações de poder da nobreza nas décadas anteriores ao Renascimento, assume, no período da História Moderna, papel de destaque na gestão dos saberes. “Em torno do século XVII, as coleções passam a colaborar para que pudessem ser apreciadas, de forma sistemática e metódica, a

natureza e a produção humana”, constata Betânia Figueiredo. Tanto materiais da natureza (naturablia) quanto aqueles produzidos pelo homem (mirablia) estão no foco da atividade. Em muitos casos, os acervos criados são condições básicas ao desenvolvimento da ciência. “Não há, na Biologia, testemunho mais confiável sobre uma estimativa de número de espécies amostradas, ou descoberta de novas espécies, do que os corpos dos animais devidamente preservados, ou a parte reprodutiva da planta, no caso dos botânicos”, atesta o professor Sérvio Pontes Ribeiro, do Departamento de Biodiversidade, Evolução e Meio Ambiente da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).

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Antoine Lévêque

Em 2012, Sérvio Ribeiro uniu-se a um grupo de outros colecionadores para realizar coleta de insetos em topos de árvores, na França, com uma estrutura de flutuação em balão fixado em cordas

História preservada Na Biologia, explica Sérvio Ribeiro, o ato de colecionar tem razão muito específica, e, muitas vezes, o biólogo que o faz segue duas linhas de investigação: quantificar espécies de dado conjunto taxonômico numa área ou descrever novas espécies de animais, plantas ou microrganismos para a ciência. No primeiro caso, o “colecionador” é ecólogo; no segundo, taxonomista. O professor, que coordena, na Ufop, coleção de referência sobre o conjunto de insetos herbívoros e formigas coletadas em algumas árvores e florestas em particular, enquadra-se no grupo dos ecólogos. Nesta atividade, quase sempre, formar as coleções diz respeito ao ato inevitável de criar o testemunho do que foi coletado, a fim de comparar com espécies de museus, devidamente descritas pelos taxonomistas. “Esse último tende a ser apaixonado pelo grupo em que trabalha. É a alma de taxonomista que acaba por criar os museus zoológicos e botânicos”, conclui. Acervos de referência como os mantidos em Ouro Preto são particularmente importantes para estudos de longa duração, pois permitem comparar a fauna presente sobre as mesmas árvores, segundo amostras de diferentes momentos – no caso, de 2000 a 2004 e 10 anos depois. “É difícil imaginar o estudo de plantas e animais sem as coleções”, reitera Betânia Figueiredo.

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A localização no tempo e no espaço também é foco de outra coletânea, bem diferente, mantida pelo professor Marco Aurélio de Souza Birchal, do Departamento de Engenharia de Controle e Automação da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Para o docente, a importância das coleções reside na possibilidade de guardar momentos da história. No caso específico da computação, trata-se de área recente, por um lado, mas muito dinâmica – a sequência de novas possibilidades, apresentadas a todo momento, leva à perda da noção de continuidade. “A oportunidade de revisitar tecnologias antigas traz de volta esse nexo, leva a perceber a relação do que temos hoje com o momento anterior”, pondera. “Creio que esse papel de mostrar o crescente natural da evolução científica se aplica a todos os campos”, arremata. Marco Aurélio Birchal cuida de um acervo particular de cerca de 40 computadores antigos – das décadas de 1970 a 1990 –, que ele se esforça para manter em funcionamento. As máquinas são apresentadas em sala de aula, como forma de contextualizar e, consequentemente, enriquecer o aprendizado dos graduandos de Ciência da Computação. “O aluno se posiciona no tempo e no espaço, para além do momento atual. Além disso, uma coleção tecnológica apresenta outro aspecto: ela mostra o quanto ainda somos incipientes”, comenta.

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Raquel Domingues

Evolução

Betânia Figueiredo destaca que as coleções, nos diversos campos das ciências, se transformam e se complexificam ao longo da história. A existência de tais acervos, em si, não bastaria para o entendimento das sociedades e da natureza. O homem classifica, redistribui, seleciona, agrupa suas coletâneas e trabalha de forma sistemática para construir nexos, análises e interpretações. “O fato de termos conjuntos documentais, por exemplo, não significa que produzimos História, no sentido da interpretação e construção de análises a partir desse material”, adverte. O colecionismo constitui, pois, apenas um dos importantes passos para a pesquisa. De modo geral, a própria ciência torna-se, dia após dia, mais elaborada. “As coleções foram essenciais à formação das ciências modernas, até o século XIX. A partir daí, o incremento de uma série de novas tecnologias faz com que elas percam sua importância central”, avalia Betânia Figueiredo. Tome-se como base a Biologia: a combinação da taxonomia clássica, que necessita das partes ou do corpo todo dos seres vivos em estudos, com a molecular, tem ocasionado profundas mudanças em várias classificações dos reinos animal e vegetal. “Com o avanço das técnicas moleculares, atualmente, uma coleção clássica é seguida por outra de sequenciamento de DNA”, corrobora Sérvio Pontes. As coleções foram, antes de mais nada, uma maneira de sistematizar o conhecimento. “Neste sentido, há um aprendizado que incorporamos ao modo moderno/contemporâneo de fazer ciência”, conclui.

Involução

Nos tempos atuais, o professor Marco Aurélio Birchal chama atenção para a existência de uma cultura que caminha em

Cerca de 40 de computadores, em sua maioria da década de 1980, compõem a coleção do professor Marco Aurélio

Colecionador no divã

Afinal, o que impulsiona um colecionador? De acordo com a psicóloga Sílvia Guimarães Domingues, para os aficionados, o ato de colecionar torna-se uma espécie de brincadeira, um hábito vicioso que lhes distrai, acalma e ocupa a mente. A atividade, em si, não apresenta malefícios. É preciso ter cuidado, porém, com a distinção entre colecionador e acumulador. O primeiro adquire, por diversão, objetos que considera valiosos ou exóticos, a exemplo de selos, livros, moedas, canetas, entre outros. O hábito não o tira do trabalho, da rotina. Já o segundo tende a ser depressivo e, como sintoma, apresenta compulsão por acumulação. “Ele acumula independentemente do que seja. Não consegue se livrar disso. É similar à compulsão por comida, em que a pessoa come sem parar, o que tiver pela frente”, compara. Neste caso, trata-se de uma necessidade patológica de apego, que pode ser tratada com auxílio profissional. MINAS FAZ CIÊNCIA • SET/OUT/NOV 2014

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sentido oposto à valorização das referências. “As pessoas estão cada vez mais imediatistas. Como reflexo disso, vemos uma apatia que, muitas vezes, mantém o jovem alheio à história e à memória”, preocupa-se. O engenheiro menciona o exemplo dos museus e outros pontos que abrigam acervos culturais. “Belo Horizonte possui dezenas desses espaços e mesmo o público universitário desconhece a maior parte deles”, presume. Os equipamentos mantidos pelo pesquisador ficam em sua residência e, quando saem para exposição, é Marco Aurélio quem providencia tudo, com seus próprios meios. “Minha vontade era fazer um museu, na PUC ou na UFMG. Acho uma pena ter esse tanto de coisa em casa”, admite, acrescentando que doaria grande parte de seu acervo pela causa – não todos, pois, como bom colecionador, tem seus prediletos. Na opinião do professor, falta, porém, a valorização desse costume no País, que perde a oportunidade de ver publicamente expostos itens de grande valor histórico e cultural. “Não é preciso ser expert em informática para admirar uma coleção de computadores, assim como não preciso ser especialista em arte para ver beleza na Arquitetura. Toda coleção enriquece culturalmente e torna mais sábio seu apreciador”.

quase científico: faz questão de catalogar e organizar, metodicamente, mais de 500 lápis da coleção que iniciou há 15 anos. “Atualmente, eles estão dispostos em caixas ou em canecas – que são quase outra coleção”, diverte-se. Os novos, Maria Lúcia expõe, por determinado tempo, em local de destaque. Num caderno, anota onde foi adquirido cada precioso item e por quem foi doado, se for o caso. “Além do prazer de obter novos lápis, adoro ver os antigos, manuseá-los e lembrar de quando foram adquiridos ou da pessoa que os doou. Apenas outro colecionador pode entender esses prazeres”, comenta. Marco Aurélio Birchal também vê a busca pela descoberta como princípio comum entre o pesquisador e o colecionador. “Tanto um quanto outro precisam estabelecer metas e realizar pesquisas. Usualmente, a pessoa não deseja, simplesmente, ter uma peça, mas posicioná-la em dado contexto”. O colecionador torna-se exímio entendedor de seu objeto de coletânea. “Neste sentido, é um processo que se assemelha à pesquisa, por meio da qual você absorve e consolida conhecimentos”, afirma.

Coleção

Confira acervos que, na opinião de entrevistados desta reportagem, são imperdíveis espaços de visitação – muitos deles, originários de coleções particulares:

de coleções British Museum (www.britishmuseum.org) Londres, Reino Unido

Museu de Artes e Ofícios (www.mao.org.br) Belo Horizonte (MG)

Acervos Especiais da Biblioteca Central da UFMG (www.bibliotecacentral.ufmg.br) Helena Antipoff e Curt Lan Belo Horizonte (MG)

Museu dos Brinquedos (www.museudosbrinquedos.org.br)

Belo Horizonte (MG)

National Museum of Natural History (www.ufmg.br/rededemuseus/mcm) (www.mnh.si.edu) Washington, EUA Belo Horizonte (MG)

Museu de Ciências Morfológicas da UFMG

Enquanto isso...

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Museu das Telecomunicações Oi Futuro (www.oifuturo.org.br/cultura/museu-das-telecomunicacoes)

Belo Horizonte, MG e Rio de Janeiro, RJ

Natural History Museum (www.nhm.ac.uk) Londres, Reino Unido

Museu de História Natural da UFMG (www.mhnjb.ufmg.br/) Belo Horizonte, MG

Espaço do Conhecimento UFMG (www.espacodoconhecimento.org.br) Belo Horizonte (MG) Museu do Oratório (www.museudooratorio.org.br) Ouro Preto, MG

The Frick Collection (www.frick.org) Nova Iorque, EUA

Fora do ambiente acadêmico, dos laboratórios e museus, uma legião de entusiastas parece concordar com o professor Marco Aurélio Birchal e segue firme no propósito de manter viva a cultura do colecionismo. O Guinness Book, livro dos recordes, não deixa dúvidas de que todo tipo de objeto tem potencial aos olhos de um colecionador – dos mais clássicos – selos, carros, garrafas e rótulos – aos mais inusitados – mechas de cabelos de celebridades e itens relacionados a bananas (sim, itens relacionados a bananas!). O senso de organização e a visão classificatória identificados pelo professor Sérvio Ribeiro nos colecionadores – e que, na Biologia, serve aos princípios taxonômicos – revestem-se, então, de outros propósitos. A professora e guia de turismo Maria Lúcia Dornas evidencia esse pensar


Acervo do século XXI Na França do século XVIII, os filósofos Denis Diderot e Jean le Rond D’Alembert tomaram para si a ambiciosa empreitada de organizar, em uma coleção de livros, todo o conhecimento existente até então. O resultado foi a Encyclopédie, cerca de 30 volumes que levaram 21 anos para serem produzidos e reuniam milhares de artigos sobre distintas áreas das ciências. Imagine, agora, que os mais recentes estudos produzidos neste século podem ficar disponíveis – e acessíveis – em um tipo de enciclopédia on-line, de maneira confiável, rápida, e sem a necessidade, sequer, de grande espaço físico para armazenamento. Essa é a realidade proporcionada pelos repositórios, estruturas que permitem o registro da produção científica em meio digital. Os repositórios digitais surgiram há pouco mais de uma década, justamente, pela necessidade de registrar a produção científica. Professor do Departamento de Organização e Tratamento da Informação da Escola de Ciência da Informação da UFMG, Helio Kuramoto conta que, na ocasião, os elevados preços cobrados por editoras para acesso a importantes revistas científicas levaram universidades, em todo o mundo, a abdicar da assinatura dessas publicações. Consequentemente, pesquisadores – inclusive aqueles que divulgavam trabalhos nesses periódicos – deixaram de ter acesso ao material. Um grupo reuniu-se, então, em Budapeste, para discutir a questão e buscar soluções. O resultado foi o lançamento da declaração intitulada “Budapest Open Access Initiative (Boai)”, na qual são apresentadas estratégias para acesso livre à informação científica. Duas frentes de trabalho integram a iniciativa: o surgimento de revistas científicas eletrônicas, de acesso livre via internet, e a criação de repositórios digitais. Esta última via preconizava que universidades, centros de pesquisa e, eventualmente, agências de fomento e governos criassem

Enciclopédias do mundo atual, repositórios digitais garantem acesso aberto ao conhecimento

repositórios e estabelecessem como obrigatório, para seus pesquisadores, o depósito, ali, de artigos por eles publicados em revistas científicas. A partir da declaração, e de outros manifestos que se seguiram, iniciou-se a criação de repositórios digitais, com o propósito de armazenar e disseminar a produção científica. Seria possível comparar tais “ambientes” aos grandes portais de periódicos. Porém, segundo Kuramoto, o custo é visivelmente inferior, já que o software para sua gestão é livre e há apenas o investimento operacional de implantação. A disseminação da produção científica, via repositórios, possibilita o aumento da visibilidade das instituições e dos próprios pesquisadores, para além da publicidade restrita às revistas. “Hoje, devido ao fato de o Google indexar não apenas os sítios da web, mas, também, os conteúdos dos repositórios digitais, um contingente maior de usuários acessa o material ali depositado”, explica o professor. “Com o avanço dos repositórios digitais, em breve, qualquer pessoa poderá ter acesso à produção científica mundial da sua própria mesa de trabalho – e, o melhor, a custo praticamente zero”, prenuncia. Dados de agosto de 2014 contabilizam, mundialmente, 2.708 repositórios, distribuídos nos diversos continentes. De forma bastante diversa das enciclopédias inauguradas no século XVIII, o contexto da internet permite, hoje, um alcance maior, além de livre e gratuito, ao conteúdo científico. Se, anteriormente, apenas quem tinha condições de adquirir as enciclopédias acessava o conhecimento ali disponibilizado, na atualidade, qualquer estudante poderá visualizar o que está armazenado nos repositórios digitais. “O custo de acesso à internet, em uma lan house, é bem menor do que o da assinatura de uma revista científica ou o da aquisição de uma enciclopédia. Além de, certamente, bem mais leve do que as publicações antigas”, associa o professor.

Distribuição de repositórios por continentes 20%

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18% 1%

4% 9%

2%

De acordo com sua finalidade, tais ambientes possuem três classificações principais: o “Repositório Institucional (RI)” é usado por instituição de ensino ou pesquisa para receber os depósitos da produção científica de seus pesquisadores ou professores, bolsistas e demais autores. Já o Repositório Central (RC) diz respeito a agências de fomento, onde se armazenam os resultados de investigações realizadas com os financiamentos concedidos. Por fim, o Repositório Temático (RT) está sob o comando de sociedades científicas ou de organizações que operam em áreas específicas, com o intuito de armazenar a produção de seu campo de atuação. MINAS FAZ CIÊNCIA • SET/OUT/NOV 2014

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ENTREVISTA

Abaixo a endogamia Professora da UFRJ, a neurocientista Suzana Herculano-Houzel comenta alguns dos pontos cruciais ao desenvolvimento e à diversificação da pesquisa no Brasil Maurício Guilherme Silva Jr. Graduada em Biologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ela logo seguiria, em 1992, à Case Western Reserve University, nos Estados Unidos, para realizar estágio organizado por sua orientadora de iniciação científica em terras brasileiras. À época, não havia facilidade de obtenção de bolsas para pós-graduação no exterior e Suzana Herculano-Houzel – hoje, professora da UFRJ e uma das mais importantes neurocientistas do País – precisou ter as despesas pagas pela própria família. “Uma vez lá, fiz as provas e entrevistas para entrar para a pós, e, aí, sim, comecei os estudos, financiados pelo laboratório que me recebeu na CWRU”. Três anos mais tarde, ela ingressa no Instituto Max-Planck, na Alemanha, para fazer o doutorado. “Contudo, como o Max-Planck não formava doutores, eu era oficialmente aluna da Universidade Paris VI, que tinha um programa chamado ‘Tese Europeia’, coorientada por um pesquisador francês”. Após concluído o doutorado em terrritório germânico, em 1999, retorna ao Brasil para trabalhar como pesquisadora visitante no Museu da Vida, da Fundação Oswaldo Cruz. A referida experiência internacional da pesquisadora acabaria não apenas por trazer a ela vasta expertise em Neurociência, como por transformá-la numa das vozes mais respeitadas, no País, no que

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se refere à ciência e à divulgação científica. Autora de múltiplos artigos acadêmicos e livros – entre os quais, O cérebro nosso de cada dia (Vieira & Lent, 2002), Por que o bocejo é contagioso? (Jorge Zahar Editor, 2007) e Pílulas de neurociência para uma vida melhor (Sextante, 2009) –, Suzana fala, nesta entrevista, sobre qualidade na educação, profissionalização do cientista e financiamento à pesquisa. Quais as diferenças, experimentadas pela senhora, entre ensino e pesquisa no Brasil e no exterior? De modo específico, o que temos a aprender, por exemplo, com instituições como o Instituto Max-Planck, que fez parte de sua trajetória? Ao chegar aos Estados Unidos, constatei que a graduação em uma boa universidade pública brasileira pode ser extraordinária, pois eu tinha recebido um nível de formação que meus colegas, nos EUA, só receberiam no primeiro ano da pós-graduação, de nivelamento. Até hoje, recomendo, a quem me pergunta, que faça a graduação no Brasil, se tiver a oportunidade de entrar em uma das boas universidades. Depois, contudo, que saia assim que possível, porque, na pós-graduação, a situação rapidamente se inverte, por uma série de razões. Nos EUA, a pós é um curso extremamente puxado e sério, no qual os professores se empenham em fazer o seu

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melhor, e os alunos sabem que a demanda é enorme. Aqui, infelizmente, vejo colegas demais usando as reuniões semanais do laboratório como “seminário de tópicos especiais” – para contar como créditos de aulas, ao invés de dar aulas de fato – e alunos que, por achar a situação confortável, não reclamam. Além disso, como a endogamia torna os departamentos de pesquisa altamente homogêneos, não há diversidade de professores e ideias para criar currículos abrangentes. Faltam disciplinas, falta seriedade, falta um nível maior de cobrança. O Max-Planck é um caso um tanto particular. Trata-se de instituição de pesquisa exemplar como tal – digo, que não se propõe a ensinar ao mesmo tempo. Cada Instituto (são mais de 40) é uma entidade privada financiada por outra entidade privada, a Sociedade Max-Planck (Max-Planck Gesellschaft). Seus laboratórios são dirigidos por pessoas selecionadas a dedo e que gerenciam fundos da MPG e, também, do governo alemão, com total liberdade para decidir pelo que melhor atender às necessidades de trabalho do grupo. Contratações são ágeis e imediatas; não há a lentidão do processo de aplicação prévia de um pedido, para, caso venha a ser aprovado, só então proceder-se à seleção ou à contratação de um candidato. Tudo isso além de um orçamento muito superior ao


Divulgação: Editora Sextante

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orçamento típico de um laboratório bem-sucedido no Brasil, é claro. Pelo que sei, até se tornar professora associada da UFRJ, a senhora não assinou contrato de trabalho com instituições de ensino e/ou pesquisa. Neste sentido – e, também, com base em sua experiência acadêmica e profissional –, poderia discutir a profissionalização do trabalho de cientista? Não, não é verdade, embora a realidade da grande maioria dos jovens cientistas no País, de fato, seja ter seu primeiro contrato de trabalho assinado depois dos 30 anos de idade, após um ou mais pós-doutoramentos. Mesmo quando doutoranda no Max-Planck, 20 anos atrás, eu era, sim, contratada da MPG: tinha cinco semanas de férias pagas por ano, seguro-saúde, direitos e deveres trabalhistas. Nos EUA, não tinha contrato. Meu trabalho era exercido na condição de estudante financiada pelo laboratório e pela universidade, que abria mão da anuidade. Ao voltar ao Brasil, também não era contratada, e, portanto, não “trabalhava”: recebia uma bolsa de R$ 2 mil da FAPERJ [Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro], que repassava recursos recebidos da Fiocruz para tal. Note que isso significa que é perfeitamente possível uma instituição federal, engessada, sujeita às regras pétreas do Governo Federal, repassar recursos para que uma empresa pague pesquisadores “terceirizados” – como, aliás, naquela época, a Fiocruz também fazia com grande parte dos funcionários do Museu da Vida, que tinha contrato de trabalho não com a Fiocruz, mas com uma empresa que recebia recursos, da Fundação, para isso. Idealmente, também as universidades públicas teriam flexibilidade e agilidade para contratar legitimamente seus pesquisadores, desde o momento em que eles obtêm o diploma universitário. Enquanto isso não acontece, precisamos de legislação que garanta aos jovens pesquisadores o direito de serem reconhecidos como os trabalhadores que, de fato, são, gerando o conhecimento que enche a boca das universidades e das agências de fomento. De que modo a senhora analisa o atual mito social em torno da ciência?

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Nestas primeiras décadas do novo milênio, mudou algo, na percepção das pessoas, em relação à prática científica? A facilidade de veicular e obter informação tem ajudado muito a fazer o conhecimento científico chegar ao público. Infelizmente, esse “público” ainda não é um só: temos pessoas altamente educadas, que tiveram acesso a escolas particulares e outras oportunidades, e que devoram novos conhecimentos; e pessoas que, no Brasil, continuam à margem da sociedade moderna, ainda que possuam celulares, tablets e computadores com acesso à internet, pois não recebem instrução básica nas escolas públicas que mostrem como a compreensão da ciência é fundamental à inserção na vida moderna. Há, no mínimo, dois mundos, portanto. O primeiro, educado, é informado, aprendeu a ter espírito crítico, busca e tem acesso aos novos conhecimentos e pode aplicá-los em suas decisões cotidianas. O segundo, sem educação e oportunidades, não tem espírito crítico, não busca ou usa novos conhecimentos, e, assim, vive à margem, guiados cegamente por outras pessoas. É triste – mas muito conveniente aos vários grupos que os “guiam”. Falar em ciência é falar em “crise permanente”, visto que a pesquisa se alimenta da eterna dúvida sobre tudo. Hoje, a seu ver, vivemos em que estágio deste status crítico? Vivemos, felizmente, no mesmo estágio de sempre: em questionamento. É a incerteza do “será que é mesmo assim?”, que move a ciência e os cientistas. A boa ciência é aquela que responde a uma pergunta e, ao fazer isso, cria dez novas outras perguntas. Mas isso não é crise; isso é criticismo saudável, é fazer aquilo em que o cérebro é naturalmente excelente: buscar padrões, questionar e procurar respostas que criem novos padrões. Nas últimas décadas, cresceu significativamente o número de citações a pesquisas e pesquisadores brasileiros no exterior. Além disso, temos ampliado os índices de registros oficiais de patentes, principalmente, em áreas de ponta, como Genética e Nanotecnologia. Neste cenário

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de desenvolvimento, o que significaria, para o Brasil, a possibilidade de receber um Prêmio Nobel? Que parte da grande estrutura da produção – e disseminação – da ciência seria modificada em função do que aqui chamarei de “reconhecimento internacional”? Antes de falarmos em um Nobel brasileiro é preciso andar MUITO em relação à qualidade da pesquisa feita aqui. Reconhecimento internacional já existe, mas em casos pontuais – porque a maioria da pesquisa produzida aqui ainda é, infelizmente, insignificante, no sentido de ter impacto quase nulo. Impacto se mede de uma série de maneiras, e uma primeira, bastante óbvia, é o número de citações de um trabalho publicado. Todo novo conhecimento científico é publicado em revistas especializadas, que o submetem ao escrutínio de pares da mesma especialidade. Se o conhecimento tem impacto no meio científico, ele influencia novos estudos feitos a seguir, o que pode ser medido pelo número de vezes em que o artigo onde o novo conhecimento foi publicado é citado por outros artigos, de outros grupos (e não do mesmo grupo original) nos anos seguintes. Nosso trabalho de maior impacto, publicado há cinco anos, já foi citado por mais de 300 outros trabalhos científicos: é o artigo onde descrevemos o número de células que compõem o cérebro humano, mostramos que ele é um tanto diferente do, até então, mítico “100 bilhões de neurônios e dez vezes mais células gliais”, e ainda que esse número torne o cérebro humano apenas um cérebro de primata grande – uma descoberta radicalmente diferente do que se dizia até então. Em comparação, outro artigo, dois anos mais antigo, e sobre um tema extremamente específico, até hoje foi citado por menos de 20 outros artigos. O problema é que, mesmo esse índice pequeno, é relativamente bom no País: infelizmente, é comum o fato de que trabalhos brasileiros praticamente não sejam citados por outros grupos nos anos após sua publicação – ou seja, que não tenham qualquer impacto notável nos caminhos da produção do conhecimento científico. E, se não têm impacto, são insignificantes. Não é necessário que todos os trabalhos de um cientista tenham grande impacto, mas é


“Precisamos diversificar. Por causa da endogamia, temos especialistas de peso em pouquíssimos tópicos no País. Além disso, a maior parte dos departamentos e institutos tem vários pesquisadores que estudam o mesmo assunto. A saída são colaborações internacionais”

preocupante quando a norma são publicações de quase nenhum. O próximo passo é identificar por que tantos são insignificantes. Alguns fatores eu vejo com meus próprios olhos. Um deles é a endogamia que reina nas instituições de pesquisa no Brasil, onde novos frutos caem exatamente aos pés da árvore-mãe e fincam raízes ali mesmo, no mesmo departamento, fazendo exatamente o que seus orientadores faziam antes – o que significa que sua pesquisa produz conhecimentos sobre detalhes que, em geral, pouco acrescentam, ao invés de abrir novos horizontes. Ao mesmo tempo, e fomentado pela endogamia, não há incentivo para pensar diferente. As agências de fomento pedem garantias: você só recebe verba para pesquisa se mostrar que já tem resultados. Quando comecei minha linha de pesquisa, absolutamente original e diferente do que todos meus colegas faziam no Instituto de Ciências Biomédicas (inclusive, porque não sou cria de ninguém aqui), somente consegui recursos da FAPERJ na segunda ou terceira vez que concorri, apresentando o mesmo projeto – porque, da última vez, já tinha conseguido resultados, mesmo sem qualquer apoio financeiro, graças à colaboração iniciada então com o professor Roberto Lent, bem estabelecido no meio. Pesquisa de impacto é aquela que gera conhecimento de fato tão novo que influencia o futuro da própria pesquisa – mas, para fazer isso, é preciso parar de olhar para os detalhes. Como a senhora analisa as atuais fontes de financiamento à pesquisa no Brasil do século XXI? Estamos no caminho certo? O que pode melhorar? É preciso ter coragem de parar de financiar a pesquisa insignificante, parar de pulverizar recursos, e ousar colocar recursos nas mãos de quem realmente faz diferente, inova, produz conhecimento de impacto. Naturalmente, contudo, os pesquisadores já estabelecidos não querem nada disso – e mudar quem recebe fundos para pesquisa depende do aval desses pesquisadores estabelecidos, que são quem compõe os comitês de avaliação que decidem quem e quais projetos serão financiados. É óbvio que há pesquisadores de porte, originais, nesses comitês,

mas a energia necessária para vencer a inércia que pulveriza recursos é grande. O País vem investindo no MAIS, e enche a boca com o número rápida, assustadora e irresponsavelmente crescente de novos doutores lançados em um mercado quase inexistente. Não investe, contudo, no MELHOR. Não é um erro apenas da política científica brasileira; outros países, inclusive, os EUA, notaram, recentemente, que estão no mesmo caminho de autodestruição – porque, entre várias razões, a carreira científica se torna cada vez mais suicida. O caminho saudável, a meu ver, envolve formarmos MENOS e MELHORES pesquisadores, com MAIS condições de fazer pesquisa de ponta e de significância. Isso passa por lhes dar condições de trabalho (e reconhecer o trabalho como tal), melhores salários, muito mais recursos, e, sobretudo, facilidade e flexibilidade para compor suas equipes, contratando pesquisadores qualificados sem burocracia e engessamento das leis do serviço federal. Por outro lado, o que de fato precisamos MAIS – muito, muito mais – é educação de qualidade e oportunidade para os futuros adultos, inclusive, para que eles tenham mais condições de absorver o conhecimento científico, usá-lo em suas vidas e decisões, desenvolver espírito crítico, e, assim, parar de se deixar guiar cegamente. Com relação à Neurociência, seu campo de estudo, em que estágio o Brasil se encontra? Quais os principais desafios da área? Precisamos diversificar. Por causa da endogamia, temos especialistas de peso em pouquíssimos tópicos no País. Além disso, a maior parte dos departamentos e institutos tem vários pesquisadores que estudam o mesmo assunto. A saída são colaborações internacionais, que não só injetam novos ares e direções, como também ajudam a trazer reconhecimento e impacto internacional à ciência feita aqui. Com base em sua vivência pessoal, o que significa a ciência para o homem? Autoconhecimento, senso crítico e humildade. É uma pena que ainda sejam tão poucos os que têm acesso, no País, ao que o homem conquista com a ciência.

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ESPELEOLOGIA

Riquezas da escuridão Projeto da Ufla realiza mapeamento das cavernas de Minas Gerais para identificar a diversidade da fauna subterrânea e definir áreas prioritárias de conservação Maurício Guilherme Silva Jr.

Nova, a espécie Cirolanidae foi identificada na Gruta do Lago, no Rio Grande do Norte

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A paixão de Rodrigo Lopes Ferreira pelas áreas cavernícolas remonta a seu passado como estudante de graduação. O pesquisador começou a trabalhar com cavernas quando ainda era aluno do curso de Biologia da UFMG. “Naquela época, entrei em um grupo de estudos em Espeleologia, ciência que estuda as cavernas, e me interessei pela questão da fauna subterrânea. Há 20 anos, não havia ninguém que trabalhasse, especificamente, com o tema. Quando passei a lidar com o assunto, percebi que se tratava de um mundo novo e inexplorado”.

“Minas são muitas. Porém, poucos aqueles que conhecem as mil faces das Gerais”. Para além de sua beleza estética ou política, a frase do escritor Guimarães Rosa (1908-1967) é involuntariamente reveladora de outra abastança desta multifacetada região brasileira: nada menos do que 40% das cavernas do País estão em território mineiro. Tal índice faz do Estado um ambiente privilegiado para uma série de pesquisadores, que, dia a dia, busca desvendar as riquezas da fauna a viver na obscuridade subterrânea. “Identificamos em Minas um inestimável patrimônio de cavernas, não apenas no que diz respeito à quantidade, mas, principalmente, aos tipos de rochas e de seres nelas presentes”, destaca o professor Rodrigo Lopes Ferreira, do Departamento de Biologia da Universidade Federal de Lavras (Ufla), que, de 2011 a 2013, coordenou a pesquisa “Fauna cavernícola no estado de Minas Gerais: principais ameaças, descrição de novos táxons e definição de áreas prioritárias para a conservação”, iniciativa financiada pela FAPEMIG. Afora a procura por novas espécies de animais, a equipe de trabalho deu início ao mapeamento de parte das cerca de quatro mil cavernas mineiras, com o intuito – explicitado no título do projeto – de definir áreas a serem preservadas. “É importante lembrar que apenas começamos o mapeamento da biodiversidade subterrânea de Minas Gerais, tarefa que, na verdade, requer décadas de trabalho e não pode se restringir a uma iniciativa”, esclarece Rodrigo Ferreira, ao comentar, por exemplo, que foi vital adicionar, ao banco de dados da pesquisa, os resultados de outras tantas investigações sobre o tema. De todo modo, definidos os objetivos de trabalho, investiu-se na determinação de ferramentas de análise da fauna cavernícola, com vistas ao recolhimento de informações acerca da quantidade de seres, da presença de espécies estritamente subterrâneas e/ou endêmicas, e, por fim, à definição das áreas consideradas prioritárias para conservação em Minas Gerais. Não preservar, afinal, significa pôr

em risco parte magnífica do acervo natural de uma região. “Existe grande variedade de formas de vida em cavernas. Algumas delas, inclusive, evoluem, transformam-se e se tornam especializadas na busca por alimentos em ambientes de escassez e escuridão”, destaca. Isso quer dizer que muitas espécies tornam-se inviáveis fora das áreas cavernícolas. Trata-se de representantes da fauna que acabam por se transfigurar em seres restritos aos ambientes subterrâneos. “São animais fantásticos, com especializações incríveis e características que ainda não conhecemos com propriedade. Daí a importância de aprofundarmos as pesquisas”, afirma Rodrigo Ferreira. Os organismos que só conseguem viver em cavernas recebem o nome de troglóbios. Para eles, se tal ambiente subterrâneo é destruído, há grande risco de extinção. Além disso, pode-se perder a oportunidade de estudar um ser vivo único, que se desenvolveu de maneira singular. “Neste sentido, infelizmente, Minas Gerais tem vocação para a mineração, atividade importante, mas altamente danosa às rochas, e, consequentemente, às cavernas”. Neste cenário, os pesquisadores almejaram agir, simultaneamente, em duas importantes frentes: descobrir/analisar as espécies e caracterizar os sistemas, na tentativa de conciliar o desenvolvimento econômico do Estado com amostragens de áreas viáveis à mineração e à preservação, devido à relevância de tal patrimônio. “Prova dessa riqueza está no fato de que, a cada ano, a gente descobre e descreve novas espécies, além de investir no estabelecimento de padrões de fauna subterrânea. Muito, porém, está por vir”, conclui.

Vasta biodiversidade Ao adentrar as cavernas mineiras, os pesquisadores logo perceberam a dimensão de seu êxtase diário, fruto de descobertas sem limites. A chamada “microbiota subterrânea”, afinal, conta com gigantesca diversidade de animais – dos microrganismos a seres invertebrados e vertebrados, como peixes e morcegos. “Costumo brin-

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A maior parte das pessoas acredita que macho e fêmea sejam definições ligadas à presença de pênis e vagina. No entanto, existem diversos organismos que não têm genitália. Por isso é que, na Biologia, convencionou-se que os machos de uma espécie são aqueles que possuem gametas menores, enquanto as fêmeas caracterizam-se pelos de maior dimensão. “A fêmea é aquela que conta com mais investimento reprodutivo: seu gameta é maior por carregar vitelo e nutrientes necessários ao desenvolvimento do embrião, enquanto o macho tende a ser mais quantitativo”, conta Rodrigo Ferreira.

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car que, para nós, descobrir novas espécies nem tem mais graça. É que, em cada nova caverna para onde vamos, encontramos espécies e gêneros inéditos. Na verdade, tendemos a comemorar mais quando nos deparamos com nova família”, garante o pesquisador. Interessante ressaltar que diversos organismos apresentam pré-adaptação às características naturais das cavernas. Como exemplo de tal especificidade, imagine um peixe diurno, predador, que se guia pela luz e precisa comer muito. “Se, em um período de chuvas, ele acaba numa caverna, tende a morrer ali, justamente, por não estar pré-adaptado àquilo tudo”, analisa Rodrigo Ferreira. De modo contrário, um resistente bagre, animal de hábitos noturnos – que se alimenta de detritos e se guia pelo olfato –, não perceberia o mesmo ambiente como desfavorável. “Frequentemente, os animais que encontramos numa caverna compreendem pequena amostra de todos os grupos de fora, mas, preferencialmente, daqueles que estão pré-adaptados a condições muito singulares de sobrevivência”. Os pesquisadores têm encontrado grupos taxonômicos bem elevados, com novas subordens e famílias, não apenas em Minas Gerais. “Recentemente, descrevemos, na Bahia, uma subordem inédita de piolho de cobra, um diplópode”. Também há pouco tempo, foi identificado um inseto – da ordem Psocoptera – que se marcava por certo fenômeno raríssimo: a reversão genital. Trata-se, na verdade, do primeiro caso registrado de uma espécie em que as fêmeas têm pênis, enquanto os machos exibem vaginas. “Isso não era conhecido em nenhum tipo de organismo. Encontramos uma dessas espécies no Norte de Minas Gerais, na região do Vale do Peruaçu, entre Januária e Itacarambi”, conta o coordenador da pesquisa, ao lembrar que a descoberta teve repercussão internacional.

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Leis na penumbra No Brasil, as cavernas passaram por períodos de completa falta de proteção, até que, em 1990, foi publicado o decreto 99.556, que lhes passou a garantir preservação integral. “O fato é que saímos da ausência de legislação à proteção extrema, mas nenhuma das duas formas revelava-se, de fato, possível”, explica. Ainda como estudante de graduação, ao longo dos anos 1990, Rodrigo Ferreira presenciou cavernas sendo destruídas: “Muitos órgãos de fiscalização sabiam de tudo, mas não tinham o que fazer. Se a lei fosse cumprida ao pé da letra, várias atividades – inclusive, as de mineração – teriam de ser paralisadas”. As normas, portanto, mostravam-se paradoxais. A degradação das cavernas pioraria, a partir do século XXI, com a ampliação do trabalho das mineradoras. Ao mesmo tempo, pesquisadores de todo o País começavam a investigar os ambientes subterrâneos de extração de minério de ferro, onde, curiosamente, encontrariam animais raros e formações rochosas únicas. “Ampliava-se, assim, a atenção acadêmica a tais tipos de cavernas. Tudo começara no Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, até que alguém se lembrou de Carajás (PA). Será que lá não tem caverna? Pois havia muitas”, comenta o pesquisador, ao frisar que todos – mineradores e estudiosos – perceberam, à época, a fraqueza da legislação vigente. Em 2008, promulgou-se o decreto normativo 6.640, que passa a permitir, apenas, a destruição de certos tipos de caverna. Além disso, exige que os ambientes subterrâneos sejam estudados e categorizados segundo os padrões de “baixa”, “média”, “alta” ou “máxima” relevância. “O grande problema é que só as de importância máxima têm proteção garantida. As outras podem ser destruídas pela mineração ou pela construção de hidrelétricas e de rodovias. A lei, portanto, gerou ainda


mais preocupação, já que os parâmetros de normatização são ainda muito fracos”, explica Rodrigo Ferreira. Ainda não se tem amplo conhecimento, por exemplo, dos componentes bióticos das cavernas. “Nossa preocupação diz respeito à possibilidade de que um patrimônio muito importante acabe se perdendo em função de uma legislação que apareceu truncada e foi elaborada apressadamente, sem tempo para discussão ou geração de conhecimento”, opina o professor da Ufla, ao alertar que só o aprofundamento das investigações científicas será capaz de aprimorar a sensibilidade da legislação. “Quais parâmetros, de fato, são importantes de ser avaliados? O que define a máxima relevância, a ponto de uma caverna não poder ser destruída?”.

Balanço

Felipe Guerra

Informações coletadas pela pesquisa revelam que não é boa a situação das cavernas em Minas Gerais. Hoje, o único mecanismo de controle à destruição de tais ambientes são as unidades de conservação (UCs). “Algumas das principais regiões com acúmulo de cavernas de relevância máxima, porém, não são compreendidas pelas UCs. Por isso, mantêm-se fora da ação das políticas de conservação”, explica o coordenador. Para reverter tal panorama, a primeira coisa a ser realizada, no ver de Rodrigo Ferreira, é o investimento governamental no estudo de regiões como a de Arcos-Pains-Doresópolis, área com maior concentração de cavernas do País. No total, são mais de 1.200 delas, a concentrar centenas de novas espécies – permanentemente ameaçadas pelo crescente avanço da mineração. “Para nós, trata-se de um imenso laboratório, onde poderíamos buscar soluções equilibradas, de modo a preservar o meio ambiente e, ao mesmo tempo, permitir a ampliação da exploração econômica”, finaliza. Imagem da Gruta do Pau, no Rio Grande do Norte

Projeto: Fauna cavernícola no Estado de Minas Gerais: principais ameaças, descrição de novos táxons e definição de áreas prioritárias para a conservação Coordenador: Rodrigo Lopes Ferreira Modalidade: Programa Pesquisador Mineiro Valor: R$ 48.000,00

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SOCIOLOGIA URBANA

O crime e a cidade Projeto analisa as variações do fenômeno da criminalidade no espaço urbano, a partir do acesso da população a direitos civis e sociais Camila Alves Mantovani

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Sempre fomos ou es tamos mais viorola e os habitantes lentos? Entre notícias , diante das múltip de jornais e boletins las que busca produzir manifestações de vio de ocorrência, os nú conhecimento acad meros e relatos sobr lência e crime – rouêe mi bo crimes praticados co sobre os problem , furto, agressões no Brasil são basta fís as da violência e ica s, se qu es tro ns, da criminalidade, be homicídio, tráfico de te expressivos. De acordo com dados m como auxiliar na drogas, violação ao da s formulação, impleme direitos humanos –, primeira edição da Pesquisa Nacional ntação e avaliação viv em em clima de de de políticas de segu medo e insegurança Vitimização, divulgad . Em vista desse co rança pública no Es os em 2013 pela Se ntado e no Brasil. Po texto preocupante, co cretaria Nacional de r estudar um fenôm Segurança Pública, ns titu em -s e div ers eno as do multidisciplinar, o pesquisas no camp Ministério da Justiça Crisp conta com pe o das Ciências Socia , 32,6% dos brasile sis iquisadores oriundo e Humanas, com ab ros, que vivem em s or cidades com mais de diferentes campos dagens multidiscipl de ido conhecimento: nares. Trata-se de inv 15 mil habitantes, dis Sociologia, Estatíst estigações que, além seram ter sofrido, ao ica, Ciência da Computa de desenvolver o tra longo da vida, algum balho de identificaç ção, Economia, Filodos tipos de crimes ão sofia, Pedagogia, M e caracterização do ou ofensas contemp edicina etc. crime, busca subsidi lados no estudo, co mo ar políticas de seguran furto e roubo de ob Dentre os trabalho jetos ou bens, sequ ça pública. s produzidos, o esestudo “Segregação tro, fraudes, agressõ Desde a década de Ur es, ofensas sexuais ba na, Cidadania e 19 80, a Univere Crime”, coordenado sidade Federal de discriminação. Minas Gerais (UFM pe la professora CoG) rinne Davis Rodrigu produz conhecimen Em que pese a reflex to científico acerca es, do Departamento ão em torno do de de Sociologia e An criminalidade e violên aumento da crimina tropologia da UFM lidade e/ou da visibi cia, bem como sobr G, lie buscou analisar em organizações policiai dade que tais ações qu ganham na mídia, ge s, com ênfase em M e medida a segregaição social produz dif nas Gerais. Por me rando-se uma espé io do Departamento erenciações na práti cie de círculo vicios ca de o, da cidadania, além Sociologia e Antropo há que se destacar o fato de que a discu de investigar o mo logia, a universidade do scomo tais diferenças estuda e forma profi são em torno do fen relacionam-se às va ssionais especializaômeno tem ganhad o riações de crimes no dos na área. espaço na sociedade espaço urbano. brasileira, da população à mídia, das ruas A percepção do delito Em 1996, como fru à universidade. to do conhecicomo problema público central mento adquirido e As grandes cidades das demandas socia na vida cotidiana do representam o is, s brasileiros emerge foi criado o Centro principal cenário on de um conjunto de de Estudos de Crim de a trama se dese arnigumentações teóric nalidade e Seguran as acerca do comp ça Pública (Crisp) or, tamento criminoso, bem como sobre su a

Realizada por meio de parceria entre o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública, da UFMG, e o instituto Datafolha, a pesquisa entrevistou cerca de 78 mil pessoas, em 346 municípios, de junho de 2010 a maio de 2011, e de junho a outubro de 2012.

Fonte:

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relação com os contextos econômicos e sociais. Segundo Corinne, várias teorias buscam explicar a propensão à criminalidade, das que focam nos indivíduos àquelas que procuram explicações sobre as condições de vida que os cercam. De acordo com a pesquisadora, a perspectiva adotada em seus estudos é a da ecologia humana, desenvolvida pela Escola de Chicago, entre os anos 1930 e 1940. A partir desse enfoque, a cidade, tendo por base o processo de urbanização, é vista como um laboratório para o estudo das relações sociais vinculadas ao crime, sendo abordada tanto do ponto de vista físico quanto social. “O pressuposto básico é o de que o comportamento humano é modelado pelas condições sociais, presentes nos meios físico e social, que conformariam o poder de escolha dos indivíduos”, afirma. Crimes têm motivações diferentes, de acordo com os seus tipos: delitos contra a propriedade ou contra pessoas têm origens distintas. Numa perspectiva teórica que busca discutir oportunidade e crime, tem-se, como ponto de partida, o fato de que, em pessoas dispostas a cometer delitos, tais atos são cometidos diante de condições favoráveis, como alvo atrativo e falta de vigilância. No ver de Corinne Rodrigues, a questão não está em mudar o criminoso, mas em alterar o espaço físico e social, para que não haja “a oportunidade”. No ensejo das políticas públicas, a questão central diz respeito à compreensão do fato de que determinadas ações aumentam ou diminuem a criminalidade.

Crime X IDH

Baseado em argumentos teóricos que relacionam as diferenças inter e intraurbanas em criminalidade, com o acesso diferencial aos direitos civis e sociais em de-

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terminados ambientes, o projeto analisou as variações nas taxas de crime em municípios mineiros e em distintas áreas no interior da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Verificou-se, ainda, a relação entre essas variações e indicadores sociais que medem o nível de cidadania dos lugares – a saber: saúde, educação e renda. Cabe salientar que, na pesquisa, o nível de cidadania foi construído com base no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Para tanto, o projeto lançou mão de metodologia mista, ao empregar análises estatísticas e dados qualitativos. Segundo Corinne Rodrigues, num primeiro momento, as análises estatísticas buscaram determinar a relação entre os indicadores de cidadania e as variações das taxas de crime. Em etapa posterior, usaram-se métodos qualitativos, como entrevistas e grupos focais, para apreender os significados das práticas e níveis de cidadania – que, por sua vez, foi avaliada com base no acesso, ou não, a direitos civis e sociais. Cabe destacar que, ao proceder às análises, a equipe de pesquisadores do projeto se deparou com elementos que contradiziam teorias, como a da relação entre IDH e criminalidade. “Em tese, onde o índice é alto, a criminalidade tende a ser menor, e vice-versa. Em Belo Horizonte, porém, vimos que alguns bairros apresentavam essa relação invertida. Como explicar tal situação?”, questiona. Uma das possíveis respostas está nas teorias que analisam a chamada “coesão social”. Em regiões onde se verifica maior interação entre vizinhos, por exemplo, pode haver redes de proteção mais amplas. Entretanto, esse dado isolado não dá conta da complexidade do fenômeno abordado, pois, no Brasil, existem regiões/bairros onde a coesão social é alta, assim como as taxas de crime. Nesse

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O IDH apresenta-se como um contraponto ao indicador Produto Interno Bruto (PIB) per capita, que considera apenas a dimensão econômica do desenvolvimento.


caso, Corinne aponta a falta de articulação do bairro com a administração pública como uma das possíveis explicações para essa ocorrência.

Próximos passos

Até o momento, os pesquisadores analisaram dados referentes a todos os municípios de Minas Gerais, visando encontrar possíveis relações entre uma série de indicadores de investimento público e as taxas de criminalidade. Ao trabalhar com duas fontes de dados – o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e o Índice Mineiro de Responsabilidade Social (IMRS), ambos produzidos pela Fundação João Pinheiro –, a pesquisadora destaca resultados importantes. Em primeiro lugar, percebeu-se que as taxas de criminalidade não se relacionam à privação “absoluta”, mas “relativa”. Isso significa dizer que o crime diz mais respeito à desigualdade do que à pobreza. Observou-se, ainda, que a falta de acesso aos serviços básicos, garantidores dos direitos civis e sociais, altera, de fato, as taxas de crimes violentos verificados no Estado. Corine Rodrigues acrescenta que indicadores como percepção de desordem, infraestrutura e condição de habitação fo-

ram importantes para explicar as diferenças das taxas de crimes em distintos bairros de Belo Horizonte. “Os dados qualitativos, obtidos em entrevistas e grupos focais, reforçaram a importância de presença de serviços públicos e, especialmente, de redes de interações sociais nas percepções de segurança nos bairros”, explica. Na visão da pesquisadora, para que possam ser desenvolvidos programas de prevenção, faz-se necessário compreender a natureza do fenômeno. O entendimento acerca da distribuição da criminalidade urbana, e em torno do que acontece nos espaços físico e social, que acaba por contribuir – ou não – para a criminalidade, é algo que precisa estar presente em estudos futuros. A observação de tais fenômenos, sob visada micro, pode iluminar ainda mais a questão. “Se, numa amostragem censitária, temos uma relação entre bairros, precisamos, então, partir para uma análise rua a rua, de modo a tentar compreender a distribuição do crime segundo características dos espaços físico e social”, conclui, ao lembrar, por fim, que o intercâmbio com outros pesquisadores da América Latina– que possuem processo de urbanização similar ao brasileiro – pode representar bons resultados e ajudar na compreensão do fenômeno da criminalidade.

Projeto: Segregação Urbana, Cidadania e Crime Coordenador: Corinne Davis Rodrigues Edital: Universal Valor: R$ 48.076,35

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Divulgação Científica

No balanço do busão Iniciativa oferece aos passageiros de ônibus municipais de Belo Horizonte a oportunidade de ler e aprender sobre CT&I Verônica Soares

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Se você já circulou de ônibus pela capital mineira, certamente este projeto de divulgação científica não passou despercebido: “Ciência para todos” consiste na publicação de lâminas com informações científicas e curiosidades do mundo da pesquisa para serem penduradas em veículos que circulam por Belo Horizonte. A premissa de aproveitar o tempo livre dos passageiros no transporte coletivo, para informar sobre ciência, tecnologia e inovação, surgiu a partir de outra iniciativa, o “Leitura para todos”, idealizada pela professora Maria Antonieta Pereira, da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (Fale/UFMG). “Conheci o projeto de leitura como a maioria das pessoas: andando de ônibus. Desde o início, achei uma coisa maravilhosa e me perguntava: ‘E se a gente pusesse ciência aqui?’. Aquilo ficou na minha cabeça, até eu começar a trabalhar com divulgação científica, em 2005, no programa “Na onda da vida” veiculado pela Rádio UFMG Educativa”, conta Adlane Vilas-Boas, professora do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e coordenadora do projeto de divulgação científica nos ônibus, que foi incorporado ao de leitura a partir de 2011. Os projetos no rádio e no transporte público têm objetivos em comum: a inclusão da sociedade nas temáticas abordadas, o incentivo à leitura e a preocupação com os níveis de compreensão da população sobre ciência. Juntos, foram batizados de “Ciência para ler e ouvir”, com apoio da FAPEMIG, do edital Proext/MEC e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e apoio logístico da BHTrans. Para mensurar a eficiência da iniciativa junto ao público, a equipe de bolsistas aplica questionários

para avaliar os níveis de compreensão dos textos que circulam nos coletivos. Os resultados foram recentemente apresentados na 13ª Conferência Internacional sobre Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia, realizada em Salvador, em maio de 2014. “Buscamos compreender se havia preferência dos leitores pelos textos de prosa e poesia ou pelos artigos sobre ciência. A pesquisa mostra que não há grande diferença. O dado é muito interessante, por demonstrar que nossos escritos são acessíveis, a ponto de o leitor não identificar clara distinção entre o que escrevemos e trabalhos mais literários”, analisa Adlane, ao ponderar, ainda, que, possivelmente, muitos leitores não consigam diferenciar um tipo de texto do outro por falta de formação. Para aprofundar a análise, a equipe construiu um questionário que se relaciona com informações disponíveis na pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Informação (MCTI) sobre percepção pública da ciência e tecnologia. Observaram, por exemplo, que as pessoas não costumam consumir informações científicas no rádio, meio que veicula a maior parte dos textos usados no projeto. Adlane acredita que a complementação dessas iniciativas é positiva: “Por meio dos ônibus, levamos informações importantes sobre pesquisas desenvolvidas na UFMG a uma população que não tem acesso à ciência em outros meios e nem ouve a rádio da Universidade”. A iniciativa tem chamado a atenção de diversas outras cidades brasileiras e recebeu propostas para ser implantada nos estados do Acre e Espírito Santo, além do Chile. Adlane colhe os frutos de uma trajetória na divulgação científica, que começou com a publicação de um artigo na revista Ciência Hoje, no final da década

Ciência para todos

Percepção da ciência e perfil dos leitores no ônibus Os dados foram coletados nos últimos três anos, de 2011 a 2013, em linhas de ônibus metropolitanos de Belo Horizonte.

Predominância de mulheres (62%) em relação a homens (38%). O projeto tem 17 milhões de leitores em potencial por ano.

587 respondentes à pesquisa.

79% dos respondentes “Leitura para Todos” e “Ciência para Todos” com muita frequência ou ocasionalmente.

respondentes da pesquisa declararam ter menos de 40 anos de idade. Desses, 17.2% eram mulheres entre 16 e 24 anos. Em seguida, homens na mesma faixa etária, com 14.9%.

Sobre o nível de escolaridade: 80% dos respondentes declararam ter diploma de ensino superior, com prevalência dos jovens. Dos respondentes entre 16 e 24 anos, 89,8% tinham pelo menos o ensino médio completo, assim como 93% dos respondentes entre 25 e 29 anos. Entre os mais velhos (acima de 50 anos), estavam os menores níveis de escolaridade (6.7%).

programas de TV sobre ciência com muita ouvir raramente ou nunca. Ou seja, ciência é informação pouco consumida no rádio, 69,2% sobre ciência em jornais, na internet, em revistas ou livros.

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de 1990: “O resultado e o retorno foram tão legais que passei a me dedicar a isso. Queria transformar a linguagem da pesquisa e fazer as pessoas compreenderem. Havia, também, uma preocupação em reduzir essa distância do cientista que, na maioria das vezes, produz com dinheiro público, em instituições públicas. Lembro que, quando voltei do doutorado no Canadá, minha família perguntava o que tinha ido fazer lá e eu tentava explicar de maneira simples. Sempre gostei de escrever e uma coisa levou à outra”.

Ciência e poesia

Diogo Brito

Atualmente, o projeto “Ciência para ler e ouvir” está na 8a etapa, na qual são desenvolvidos textos adaptados do material produzido para os programas radiofônicos “Na onda da vida” e “Ritmos da ciência” – que usa trechos de MPB para falar sobre os mais diversos assuntos e curiosidades –, dentre outros projetos de pesquisadores parceiros. A fim de inovar o conteúdo das lâminas, na 7ª etapa, Adlane promoveu uma chamada entre os pesquisadores da UFMG e de outras instituições para que enviassem poemas. Resultado? Os ônibus circularam com textos de cientistas poetas. A repercussão foi positiva tanto entre os estudiosos quanto em relação ao público: “Ao publicar uma poesia, o cientista se faz mais humano. Tenho planos para realizar uma pesquisa que identifique a per-

cepção do público acerca da figura do pesquisador, que também é um cara comum, que escreve poesia”, relata, ao buscar desmistificar a imagem dos cientistas inalcançáveis, em suas torres de marfim. No total, Adlane coordena oito bolsistas, sendo a maioria estudantes das áreas de Saúde ou Biológicas. “Nosso edital contempla todas as áreas, mas os que mais participam são os alunos de Biologia. Já tivemos bolsistas com formação mista em Jornalismo e Ciências Biológicas, mas não é fácil encontrar estudantes de Comunicação Social interessados nas atividades”, avalia a coordenadora, que ministra uma disciplina de divulgação científica no Instituto de Ciências Biológicas da UFMG. A formação dos estudantes, para que se tornem divulgadores da ciência, começa nas ondas eletromagnéticas: “O fato de a gente trabalhar o texto primeiramente para rádio ajuda muito. Essa questão da oralidade é muito interessante. Oriento para que escrevam um texto pensando em como contariam à própria mãe. Essa é a ideia: que os artigos se aproximem do modo como a gente fala, com todo o ‘mineirês’”, explica. O processo de adaptação dos textos da rádio para as lâminas do ônibus é, portanto, uma adequação da oralidade à formalidade. Princípios do Jornalismo se fazem presentes nessa etapa, principalmente, no que se

O Programa de Extensão Universitária (ProExt) busca apoiar as instituições públicas de ensino superior no desenvolvimento de programas ou projetos de extensão que contribuam para a implementação de políticas públicas. Criado em 2003, abrange a extensão universitária, com ênfase na inclusão social. refere à edição: é preciso cortar o que não for necessário. Segundo Adlane Vilas-Boas, um dos mais importantes resultados do projeto é ver estudantes de Ciências Biológicas interessando-se por Educação e escolhendo áreas como a Sociologia para seus projetos de mestrado e doutorado. Os resultados também estimulam reflexões a respeito do papel do professor pesquisador nas universidades. Muitas instituições começaram a se questionar se o que faziam era somente pesquisa ou se havia, ainda, um caráter extensionista. Nos últimos anos, editais do Ministério da Educação (MEC), como o ProExt, e incentivos institucionais acabaram por alavancar as práticas de extensão no meio universitário, o que se revelou um grande ganho para projetos de divulgação científica. Dentre seus planos futuros, Adlane destaca o interesse em levar o projeto a outras cidades, já que “todo lugar tem ônibus com gente fazendo nada nos ônibus”. Ao mesmo tempo, a professora preocupa-se com a inovação. Há o interesse em realizar uma pesquisa para identificar os hábitos dos cidadãos que usam transporte coletivo, e, assim, adaptar as estratégias de comunicação às novas tecnologias. “Investiremos mais em desenhos, linguagem visual. Além disso, pensamos em incluir um QRCode que permita que a pessoa ouça o podcast que deu origem ao texto que circula no ônibus no próprio smartphone”, explica.

Projeto: Ciência para ler e ouvir Coordenador: Adlane Vilas-Boas Ferreira Edital: Popularização da Ciência e Tecnologia Valor: R$ 46.662,42

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ENGENHARIA MECÂNICA

Inovação em bases sólidas Empresa mineira desenvolve máquina perfuratriz multifuncional inédita no Brasil Virgínia Fonseca

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Em 2014, um dos marcos da Engenharia nacional completou 40 anos. Com seus 13 quilômetros de extensão, nove deles sobre o mar, a ponte Presidente Costa e Silva, mais conhecida como Rio-Niterói, foi construída de 1968 a 1974 e desafiou as soluções tecnológicas da época. Para desenvolvimento de suas fundações, houve necessidade de recorrer a ilhas flutuantes, que transportavam os equipamentos de perfuração do leito oceânico. Máquinas perfuratrizes trabalhavam dentro de tubos – que as protegiam da água do mar – e faziam escavações profundas, até alcançar rochas capazes de suportar as bases da edificação. Os furos abertos recebiam longas tubulações metálicas, preenchidas com concreto até a superfície do mar. Grupos dessas tubulações, por sua vez, amparavam as fundações da construção. Ou seja: sobre enormes bases de concreto maciço,

foram encaixados os pilares que sustentam as pistas da ponte. A despeito da ousadia estimulada pela grandiosidade da obra – e longe da ideia de simplificar tal projeto –, a construção da ponte amparou-se em princípio elementar da construção civil: o conceito de fundação. Trata-se de acrescentar ao terreno elementos que garantirão estabilidade e sustentação a uma carga que antes não existia. “A fundação pode ser executada de diversas formas, dependendo do tipo de solo e das cargas a que será submetida. Estacas pré-fabricadas cravadas no solo ou, até mesmo, moldadas in loco, enchendo-se as perfurações de concreto, são exemplos”, explica o engenheiro mecânico André Horta Paraíso. Por outro lado, embora o princípio seja o mesmo, as formas de aplicar esse método muito evoluíram ao longo de quatro décadas, com o aperfeiçoamento de tecnologias e equipamentos. “A competitividade em toda

Três em um: aplicações da EK 90 Hélice segmentada e hélice contínua: no primeiro caso, um segmento de hélice é introduzido no solo por perfuração. A seguir, na medida em que se retira o segmento, inje’ta-se concreto. Na EK 90, o equipamento vem com hélice padrão para atingir até 20 metros, mas pode ser adaptado para profundidade maior, desde que o solo permita. A perfuratriz tem capacidade para sacar até 20 toneladas, somados aí elementos como o volume de solo, o atrito e o peso da própria ferramenta. A hélice contínua, por sua vez, é composta por um segmento único, de 10 metros de profundidade. Possui a característica de sacar maior quantidade de produto, mas em profundidade menor. Nesses dois casos, uma armação pode ser introduzida depois, para dar sustentação. Trado mecânico: trata-se de haste telescópica semelhante a uma antena que se abre e, na extremidade, possui um trado (ferramenta de perfuração). Permite uma profundidade maior, que vai de 32 a 39 metros. Estaca raiz: o mecanismo usa um tubo com coroa de corte na ponta. Ao ser introduzido, bombeia água, que erode o solo e sai pelas laterais do tubo, formando um furo cujo diâmetro é maior que o do tubo. Um tubo é inserido por dentro e vai sendo preenchido com concreto ou, ainda, pode-se colocar armação por dentro do tubo, se for o caso, após perfuração concluída. Tal técnica permite passar por rochas.

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a cadeia produtiva da Engenharia Mecânica e Civil guarda relação direta com o progresso tecnológico no segmento industrial, no qual a inovação é fator decisivo”, analisa André Paraíso. O engenheiro coordena a equipe de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da CZM Indústria de Equipamentos, empresa

Companhia provedora de soluções em máquinas para fundação, com sede em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A empresa projeta, desenvolve e fabrica modelos para diversas aplicações em fundação, com foco nos mercados nacional e internacional. Atualmente, seu portfólio tem cerca de 40 modelos, sendo a EK 90 a primeira concebida no conceito multifuncional.


que trabalha na construção de uma máquina perfuratriz multifuncional, inédita no Brasil. Fabricação de equipamento de perfuratriz multifuncional montada sobre escavadeira EM210R (EK 90)” conta com financiamento do Programa Pró-Inovação, linha criada por meio de parceria entre a FAPEMIG e o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG). Com início em julho de 2013, a proposta está em fase final de desenvolvimento da tecnologia que permitirá a criação de nova linha de máquinas. O primeiro protótipo foi concluído em agosto de 2014.

Diferencial

A aplicação na construção civil, na fundação de prédios, pontes e outras obras, é o principal destino das perfuratrizes no Brasil. Profundidade e diâmetro a serem atingidos pelos equipamentos dependem da aplicação – mas, usualmente, variam de 8 a 32 metros de profundidade e de 300 a 1.000 mm de diâmetro. O projeto conduzido pela CZM teve, como objetivo principal, o desenvolvimento de máquina perfuratriz do porte de cerca de 30 toneladas capaz de atender, simultaneamente, à execução mecanizada de fundações pelos métodos “estaca raiz”, “trado mecanizado” e “hélice segmentada”. “Observamos que vários equipamentos tinham finalidade próxima e surgiu a ideia de criar equipamento para mais de uma aplicação. Grosso modo, podemos comparar a uma impressora multifuncional, que contém, em si, várias possibilidades”, simplifica o assessor da CZM, Miguel Arcanjo Souza. Inovação e produtividade estiveram em pauta na elaboração da proposta. A meta era prover diferenciação no que se refere às tecnologias já estabelecidas, tanto em termos de produtos quanto de processos para concepção, desenho e fabricação do equipamento no mercado nacional. E o resultado deveria ser uma máquina que permitisse, ao próprio executor da fundação, realizar alteração entre as funções. Segundo André Paraíso, o grande desafio foi, justamente, chegar a um conceito que conseguisse unir as três aplicações com alta produtividade e baixo custo de conversão. A equipe projetou novos de-

senhos industriais, com uso de materiais mais leves e resistentes, testados ao longo de todo o projeto, para chegar a elevada performance e garantir a durabilidade dos componentes. “Fizemos pesquisas com aços especiais para atender às condições de alta resistência mecânica e ao desgaste”, conta o engenheiro. Foram apontados resultados satisfatórios durante as etapas de desenvolvimento e teste, como diminuição de peso e aumento significativo da durabilidade de componentes submetidos ao desgaste, o que deve contribuir para menor custo de produção, transporte e manutenção. Testes indicaram a opção por diferentes materiais, conforme a natureza do uso e esforço a que cada componente é submetido. Os aços especiais foram submetidos a ensaios que permitiram ajustar os parâmetros de soldagem, garantindo a qualidade do processo. Dez profissionais – engenheiros mecânicos e desenhistas projetistas experientes nas áreas de fundações, desenvolvimento de projetos e P&D – dedicaram mais de 20 mil horas de trabalho à proposta. Um protótipo está em fase final de montagem na empresa, que conta com parceiros especializados para a fabricação. “As partes estruturais, bem como caldeiraria, montagem e pintura ficam por conta da própria CZM”, detalha o coordenador de P&D.

Produtividade made in Brazil

O objetivo foi atingido: criou-se um modelo nacional em que a troca de componentes simples e de baixo custo permite executar a conversão entre uma função e outra da perfuratriz. “A aplicação direta da tecnologia e a difusão do conhecimento adquirido têm potencial para se converter em vantagem competitiva para as empresas que usam esse tipo de equipamento”, estima o coordenador de P&D. Os diferenciais esperados permeiam várias etapas de produção e operação das futuras perfuratrizes, em comparação aos equipamentos atualmente disponíveis. Ganho de produtividade na hora/homem trabalhada, com redução do tempo das operações de substituições de componen-

tes nas novas perfuratrizes, seria um dos aspectos a se considerar. Os desenvolvedores preveem, ainda, redução de até 15% dos custos atuais de produção, com a adoção de subconjuntos compartilhados entre vários produtos. Além disso, espera-se menor consumo de combustível para o transporte, em razão do menor peso absoluto das máquinas. Dentre as vantagens proporcionadas pela oferta de um equipamento nacional, estariam os benefícios da pós-venda, com destaque para o treinamento de operadores e disponibilidade de rede nacional de assistência técnica. “Há que se lembrar, por fim, que estamos falando do lançamento de produto inovador no mercado, em substituição a uma tecnologia com mais de 20 anos de existência”, destaca André Paraíso. Para o engenheiro, o foco em inovação, além de apresentar ganhos ao setor produtivo, foi responsável pelo crescimento da empresa: nos últimos anos, a CZM obteve, inclusive, uma patente que contribuiu para levá-la à posição de líder mundial na tecnologia de hélices contínuas.

O sistema Bottom Drive CFA aplica-se na execução de “estacas de hélice contínua”. Baseia-se no posicionamento do cabeçote de rotação ao pé da torre de perfuração, o que desloca para baixo todo o centro de gravidade do equipamento, permitindo melhor aproveitamento da perfuratriz no alcance de maiores profundidades e diâmetros de perfuração.

Projeto: Pró-Inovação Coordenador: André Horta Paraíso Edital: Pro-Inovação Valor: R$1.900.000,00

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ENGENHARIA DE TELECOMUNICAÇÕES

A voz no comando

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Estudo investiga e propõe soluções para o problema do reconhecimento automático de fala em ambientes reais Camila Alves Mantovani


Cada vez mais, os sistemas tecnológicos integram funcionalidades que buscam tornar as interfaces mais amigáveis e eficientes. Em um mundo povoado por tecnologias de informação e comunicação, o desafio está em tornar os dispositivos menos disruptivos e mais integrados ao dia a dia das pessoas. Isso porque, se, no discurso midiático em torno das tecnologias, propaga-se a ideia de que elas estejam aí para ajudar – de modo a tornar os indivíduos mais eficientes e próximos de seus interesses –, o que ocorre, em grande medida, é a interrupção de atividades e a sobreposição de tarefas. Ou seja, o uso de tais ferramentas ainda não se revela tão fluido quanto prometem as propagandas de smartphones, tablets, computadores portáteis etc. Neste contexto, um importante aspecto do uso de tecnologias no cotidiano diz respeito às funções a serem executadas para acionar determinado dispositivo, pondo-o em funcionamento. Senhas para desbloqueio, cliques aqui e acolá e validações de códigos são procedimentos que, em um planeta com ferramentas personalizadas, visam garantir acesso seguro. Porém, cada vez mais, tais artefatos têm lançado mão de validações biométricas, das impressões digitais aos timbres vocais. Há poucos anos, ao se falar em reconhecimento de voz ou de fala, seria natural recorrer à imagem projetada pelos filmes de ficção científica ou de ação, em que o personagem, ao pronunciar palavras-chave, acionava comandos específicos, por meio de computadores que, após a confirmação da identidade, executavam a função demandada. Atualmente, a tecnologia de reconhecimento de padrões sonoros está mais difundida, fazendo-se presente, por exemplo, no atendimento eletrônico ao consumidor – “fale a opção desejada” – ou em aplicativos que realizam a “escuta” de determinado trecho de música para proceder à identificação. Nos automóveis, por exemplo, já é possível, por meio da voz, ligar o motor, mudar a estação de rádio, regular a climatização, realizar chamada telefônica e

ter acesso e controle a praticamente todas as funções internas do veículo. Tal maravilha da tecnologia, contudo, ainda está longe de ter o seu potencial máximo explorado, conforme avalia Gustavo Fernandes Rodrigues, professor da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ). Doutor em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o pesquisador tem trabalhado na área de telecomunicações, desde 1995, especializando-se, posteriormente, em temas como processamento e separação cega de sinais, multimídia e reconhecimento de fala. Em um de seus projetos, ele busca aprimorar a tecnologia do reconhecimento de comandos pela voz, a fim de aumentar a eficiência e a fidelidade de sua aplicação. “O desenvolvimento de equipamentos dotados de tal tecnologia tem por objetivo diminuir o esforço físico humano para sua utilização, o que viria a facilitar a realização de determinada tarefa, otimizando sua precisão”, esclarece.

Alô, som, testando... Existem, hoje, diversos sistemas eletrônicos e de telecomunicações que podem ser controlados via comando de voz. Segundo Gustavo Rodrigues, isso evidencia a tendência à aplicação da tecnologia para acionamento e controle de dispositivos. O pesquisador comenta, porém, que um dos maiores desafios a serem superados pelos sistemas de reconhecimento de fala refere-se ao desempenho em ambientes ruidosos. Afinal, seja na indústria, seja em casa, na escola ou no carro, as ferramentas acabam expostas a múltiplas fontes de ruído, havendo necessidade da proposição de soluções práticas. No caso do projeto, o foco de estudos foi o ambiente industrial. Segundo o coordenador da pesquisa, a eficiência do comando de voz torna-se consideravelmente reduzida quando usada em espaços barulhentos, posto que os ruídos são processados juntamente ao sinal de voz, o que prejudica – ou impossibilita – o equipamento de realizar as funções demandadas.

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Para melhorar a eficiência dos sistemas de reconhecimento de fala, buscou-se, portanto, implementar mecanismos de separação cega de voz, em ambientes reais, com o intuito de atuar na etapa de pré-processamento dos dados de entrada dos dispositivos. Conforme explica o pesquisador, o objetivo seria separar o sinal da voz de interesse das sonoridades interferentes. Os sinais de voz foram obtidos por meio de microfones omnidirecionais, postos em ambientes reais, onde havia outras sonoridades. Na etapa seguinte, desenvolveu-se um sistema de separação de fontes, que permitiu a realização de medições para aferir a relação sinal-ruído ou sinal-interferência da frequência sonora separada. De posse dela, já sem a interferência de outros sinais, extraíram-se informações

No âmbito da ciência da computação, reconhecer padrões com rapidez é tarefa árdua. Ferramenta bastante empregada, e que tem apresentado bons resultados, é a rede neural artificial (RNA). O próprio nome indica a busca por certo funcionamento semelhante ao dos neurônios no cérebro humano, no que diz respeito ao processamento de dados. A ideia é que, com treinamento adequado, as estruturas da rede adquiram conhecimento. Cientificamente, o reconhecimento automático busca a classificação de padrões pré-determinados.

úteis para o processo de reconhecimento ou de classificação de padrões. Por fim, a tarefa de identificação de voz foi realizada a partir do desenvolvimento de um sistema baseado em redes neurais artificiais, onde, a partir da análise dos dados de entrada, o sistema deverá ser capaz de reconhecer o sinal de fala. Isso porque, para o cérebro humano, ouvir uma frase e proceder à conexão entre as palavras – com o objetivo de interpretá-las – são funções relativamente fáceis. No entanto, para um sistema computacional, a compreensão torna-se mais simples, na medida em que cada palavra é pronunciada separadamente e de forma mais pausada. Na visão do pesquisador, a principal contribuição da pesquisa está na verificação dos limites de melhoria de performance dos sistemas de reconhecimento, sob a influência de ruídos. A maioria desses sistemas, afinal, não fornece bom desempenho em ambientes ruidosos ou com a interferência de outras vozes. “Os resultados encontrados sugerem a possibilidade de melhorarmos as taxas de acertos de sistemas de reconhecimento de fala, por meio do uso de técnicas de mascaramento espectral, contribuindo, dessa maneira, para a melhoria dos sistemas de tais dispositivos”, conclui Gustavo Rodrigues. Ao analisar a evolução da tecnologia, do ponto de vista da variedade de contextos em que já é utilizada, e, também, sob a ótica do crescente uso de dispositivos tecnológicos em movimento – ou mesmo em concomitância à realização de outras tarefas –, pode-se inferir que há tendência de que os sistemas de reconhecimento de fala sejam cada vez mais explorados, aperfeiçoados e difundidos. Projeto: Reconhecimento automático de fala utilizando técnicas de mascaramento espectral e análise em componentes independentes Coordenador: Gustavo Fernandes Rodrigues Edital: Demanda Universal Valor: R$16.490,00

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SAÚDE COLETIVA

Esforços contra

o silêncio

Projeto desenvolvido no Triângulo Mineiro busca potencializar rede de proteção a crianças e adolescentes que se tornaram vítimas de violência sexual Ana Luiza Gonçalves

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Culpa, vergonha e temores os mais diversos, de ameaça a vingança, de abandono à possibilidade de se verem acusados de provocar a agressão, de discriminação da família ao receio de que não acreditem naquela terrível história. Ainda que os dados revelem que, atualmente, o número de denúncias de violência contra crianças e adolescentes tem aumentado (veja gráfico abaixo), multiplicam-se os motivos para que as vítimas permaneçam em condição de silêncio absoluto. De acordo com o Disque 100, serviço da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos da Presidência da República, o primeiro semestre de 2014 registrou cerca de duas mil notificações de violência sexual infantojuvenil. Orientadas sob o Estatuto da Criança e do Adolescente, há um conjunto de ações implementado pelo Governo Federal, como programas de atendimento especializado, assistência à saúde e defesa de direitos, com o fortalecimento dos conselhos tutelares, das delegacias de proteção à infância e à juventude e das defensorias públicas. Outra ação que vem ganhando espaço nesse cenário é o aplicativo – para sistemas IOS ou Android – chamado “Proteja Brasil”. Desenvolvido pelo Fundo das Nações Unidas Para a In-

e u q s i D

100

fância e Adolescência (Unicef), a ferramenta foi criada para facilitar denúncias, por meio da indicação de telefones e endereços do esclarecimento sobre como chegar a delegacias especializadas nas principais cidades do Brasil, além de informar as características de cada tipo de violência. Em Minas Gerais, com a publicação da portaria no 1968, em outubro de 2001, tornou-se obrigatória a notificação, às autoridades competentes, dos casos de abusos e maus tratos contra crianças e adolescentes. Em 2002, o Ministério da Justiça tornou pública a atuação de traficantes por meio da Pesquisa Nacional sobre o Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para fins de Exploração Sexual (Prestraf), que mapeou 241 rotas de “comércio” de pessoas para exploração sexual. Desse total, 131 eram internacionais, 78 interestaduais e 32 intermunicipais. A partir de tais dados, as secretarias de Estado de Assistência Social e dos Direitos Humanos lançaram o programa Ações Integradas e Referenciais de Enfrentamento à Violência Sexual Infantojuvenil no Território Brasileiro (Pair). Atentos a tal cenário, pesquisadores das universidades federais do Triângulo Mineiro (UFTM) e de Minas Gerais (UFMG) deram início, em 2010, a projeto cujo intuito era descrever a rede de prote-

Denúncias anuais de violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil

2003 4.494 2004 3.774 2005 5.138 2006 13.830 2007 24.942 2008 32.589 2009 29.756 2010 30.543 2011 50.866 2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

2010

2011

Fonte: Relatório Disque Direitos Humanos – módulo criança e adolescente, produzido pelo Programa Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes. Ano: 2011.

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ção às crianças e adolescentes vítimas de exploração e abuso sexual dos municípios da região do Triângulo Mineiro, por meio do diagnóstico situacional, assim como da mobilização, da articulação e do desenvolvimento de processos de formação/educação de vários segmentos da sociedade civil. Para tal, tinha-se como eixo central o Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes e o Estatuto da Criança e do Adolescente. Em 2006, o Conselho Tutelar e Secretaria de Desenvolvimento Social (Seds) identificou 55 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes em Uberaba (MG), sendo 41 de abuso e 14 de exploração sexual. As informações mostravam que 54% dos abusos ocorriam dentro da casa das vítimas. Além disso, crianças com até 12 anos teriam sido abusadas por agressores conhecidos e próximos. A partir de tais constatações, iniciou-se um movimento de mobilização na cidade, que, hoje, conta com rede integrada e empenhada no enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes. Coordenadora do projeto, Helena Hemiko Iwamoto, pesquisadora da UFTM, identificou a existência de redes de proteção a crianças, adolescentes e jovens, vítimas de violência e exploração sexual e comercial, que, na região, precisavam ser apoiadas e fortalecidas. A pesquisa foi desenvolvida em 26 municípios da macrorregião de Uberlândia, onde se observou a necessidade urgente de mobilização e de articulação das instituições que prestam assistência às vítimas de abuso sexual infantojuvenil, no sentido de potencializar o processo de identificação e notificação dos casos de violência. Segundo Iwamoto, outra ação relevante estaria em dar visibilidade aos mecanismos de enfrentamento ao abuso, de modo local ou regional, na perspectiva de prestar acolhimento de qualidade, assim como de identificar o percurso do atendimento às vítimas no interior dos sistemas de proteção social.

Ações múltiplas

O maior desafio do projeto, segundo a coordenadora, foi a efetiva obtenção de informação sobre a violência sexual. De

Deste total, 83% das vítimas eram do sexo feminino, 59% tinham menos de dez anos. Quanto aos agressores, 95% revelaram-se do sexo masculino e 63% tinham até 28 anos de idade

janeiro a junho de 2010, apenas 16 instituições (61,53%) forneceram informações, após inúmeras solicitações via ofício e visitas in loco aos gestores municipais. Outro aspecto importante refere-se à construção de indicadores, a partir de dados produzidos e socializados pelas entidades participantes, para a ampliação de diagnósticos, considerados imprescindíveis à avaliação das ações já existentes e ao possível redirecionamento das políticas de enfrentamento ao fenômeno. Atualmente, ações isoladas têm sido realizadas no Triângulo Mineiro, como a marcha de protesto realizada no “Dia Nacional de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual Infantojuvenil”. Além disso, a capacitação de agentes comunitários de saúde também ganhou enorme visibilidade. “Os dados referentes a Uberaba, por exemplo, indicam que a questão do abuso é real. A atuação do Conselho Tutelar, do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) e do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) revela nuances do problema. Do ponto de vista da notificação, o fenômeno da exploração sexual é mais invisível, aparecendo pouco nos registros”, comenta Helena Iwamoto.

Água Comprida, Araguari, Cachoeira Dourada, Campo Florido, Canápolis, Carneirinho, Comendador Gomes, Conceição das Alagoas, Delta, Fronteira, Frutal, Itapagipe, Ituiutaba, Iturama, Limeira do Oeste, Monte Alegre de Minas, Pirajuba, Planura, Prata, Pompéu, Sacramento, Santa Vitória, São Francisco de Sales, Uberaba, União de Minas e Veríssimo.

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Concluída em 2011, a pesquisa foi operacionalizada por meio da metodologia do Pair, que abrange seis etapas: articulação político-institucional, diagnóstico rápido participativo, seminários, capacitação da rede, assessoria técnica e monitoramento dos planos operativos locais. Cada uma destas fases teve como desafio construir ações coletivizadas, capazes de intervir na estruturação da rede de proteção infantojuvenil, ao estimular a articulação e o diálogo entre diversos atores e setores sociais do Triângulo Mineiro. Historicamente, as consequências do abuso e da exploração sexual são inúmeras. A pesquisadora destaca, ainda, que a pobreza e a carência material revelam-se fatores diretamente ligados à existência do fenômeno. “Além da ineficácia do estado, o enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes passa, principalmente, pela melhoria da qualidade de vida da população, por meio de acesso à renda e aos serviços fundamentais que permitam ultrapassar o cenário de total abandono

tanto das famílias quanto dos governos”, destaca a pesquisadora. De acordo com dados da pesquisa, um padrão recorrente de abuso, nos municípios, é a exploração sexual às margens das rodovias. Em tais casos, as vítimas – principalmente, da ação de caminhoneiros – , pertencem a famílias muito pobres. Há, ainda, a violência decorrente de movimentos migratórios de homens para trabalho em lavouras de cana-de-açúcar e das concentrações em festas de negócios. “É preciso fazer com que o conjunto de avanços sociais conquistados, com muita luta, pela sociedade brasileira e a legislação vigente em favor da infância e da juventude sejam cumpridos por todos, não permitindo que os direitos fundamentais deste segmento populacional acabem violados. Isto ocorrerá na medida em que a sociedade civil se organizar, por meio de seus representantes políticos, criando condições ou fazendo pressão ao poder público instituído”, explica Iwamoto.

Um dos indicadores revelados pelo estudo refere-se à magnitude da violência sexual no conjunto das violências infantojuvenis. Dentre os 26 municípios participantes, três (11,1%) registraram alto índice de vítimas atendidas pelo Conselho Tutelar. Apesar da incompletude dos dados para análise mais detalhada, destaca-se, como perfil das vítimas – na maior parte, crianças entre 7 e 14 anos –, indivíduos com predomínio de abuso intrafamiliar. O abuso entre parentes, a pedofilia e a exploração sexual infantojuvenil aparecem registrados nos 19 municípios que apresentaram dados aos pesquisadores. “A complexidade do fenômeno da violência sexual com crianças e adolescentes evidencia que o processo de enfrentamento ao problema, na região do Triângulo Mineiro, também se configura como um campo de incertezas e possibilidades que extrapolam o simples desejo de mudanças da academia”, completa Helena Iwamoto.

Chame o Conselho Tutelar Célula embrionária do atendimento às vítimas de abuso sexual infantojuvenil, o chamado Conselho Tutelar (CT) está vinculado à rede pública de atendimento. Em sua maioria, os CTs foram implantados por força da lei, em todos os municípios do Triângulo Mineiro. “Muitos deles têm enfrentado falta de qualificação dos conselheiros, de carros para atendimento de emergência e de bons sistemas de informatização dos prontuários”, comenta Helena Iwamoto, ao lembrar, ainda, que tanto a população quanto os profissionais – das áreas de saúde, educação, assistência social ou do Ministério Público –, que compõem a rede de denúncia, desconhecem os conselhos. Quando se trata de violação dos direitos da criança e do adolescente, deve-se levar em consideração os três tipos de redes existentes: a “de responsabilização”, que reúne delegacias de polícias, varas da infância e do adolescente e têm como função responsabilizar judicialmente os autores de violações de direitos); a de “defesa dos direitos” (Conselhos Tutelares e Centros de Defesa), cujo papel é garantir o bem-estar de todos os implicados na situação de violência sexual notificada, protegendo-os de violações, e, por fim, a “de atendimento”, formada por instituições executoras de políticas sociais. “O desconhecimento dessas três instâncias talvez seja uma das razões de as pessoas acionarem a polícia, por exemplo, ao invés do Conselho Tutelar”, comenta a pesquisadora.

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Projeto: O Triângulo Mineiro no enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes Coordenadora: Helena Hemiko Iwamoto Edital: Extensão Valor: R$ 18.144,00


Especialistas propõem medidas de prevenção e combate à obesidade e à síndrome metabólica em adolescentes de Viçosa (MG) Vivian Teixeira

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NUTRIÇÃO

Menos quilos, mais futuro


Henrique é estudante de informática, tem 16 anos e mais de 100 quilos distribuídos em 1m80 de altura. Após muita insistência dos pais, o garoto aceitou consultar um especialista, que recomendou dieta equilibrada e exercícios físicos regulares para redução do peso, controle da glicemia e da pressão arterial – que já se encontravam precocemente alterados. O nome do personagem é fictício, mas o perfil apresentado revela-se cada vez mais frequente entre os adolescentes brasileiros. De acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 20082009, realizada em parceria entre o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Ministério da Saúde, o aumento de peso em jovens de 10 a 19 anos foi contínuo nos últimos 34 anos – o que é mais perceptível no sexo masculino, segmento no qual o índice passou de 3,7% para 21,7%; já entre as meninas, as estatísticas saltaram de 7,6% para 19% entre 1974-75 e 2008-09. No que se refere à obesidade, também há tendência de aumento, de 0,4% para 5,9% nos meninos e rapazes e, entre “elas”, de 0,7% a 4%. A incidência de sobrepeso em adolescentes pode sinalizar uma série de alterações na saúde, a exemplo da síndrome metabólica. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) define a enfermidade como um conjunto de doenças cuja base é a resistência insulínica. Por dificuldade de ação da insulina, decorrem as manifestações que podem fazer parte da síndrome. Conforme esclarece Silvia Eloiza Priore, nutricionista, professora do Departamento de Nutrição e Saúde da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e responsável pela pesquisa “Comparação de diferentes componentes para o diagnóstico da síndrome metabólica na adolescência”, a resistência à insulina está associada a alterações metabólicas, como dislipidemias, hipertensão, diabetes, excesso de peso e/ou de gordura corporal. Em conjunto, tais alterações caracterizam a síndrome metabólica e se comportam de forma diferente nas três fases da adolescência. Financiada pela FAPEMIG, a pesquisa busca comparar os componentes da síndrome metabólica entre os sexos e as

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As dislipidemias, também chamadas de hiperlipidemias, referem-se ao aumento dos lipídios (gordura) no sangue, principalmente, do colesterol e dos triglicerídeos. três fases da adolescência: inicial, de 10 a 13 anos; intermediária, de 14 a 16; e final, de 17 a 19. A partir desses dados, a intenção é propor um novo critério para diagnóstico da síndrome. Segundo a professora, os critérios hoje utilizados para diagnóstico e os pontos de corte considerados de risco ainda não estão bem estabelecidos, dificultando a comparação entre a prevalência e as alterações na população de jovens. Acrescenta-se a isso o fato de o Brasil passar, assim como outros países, por um processo de transição nutricional, com mudanças nos hábitos alimentares e aumento do sedentarismo – o que se reflete em maior predominância de obesidade e complicações metabólicas associadas. “Diante desse quadro, percebemos a importância de estudar os fatores associados à resistência à insulina, a síndrome metabólica e os pontos de corte das variáveis de composição corporal segundo sexo e a fase em que se encontram na adolescência, com vistas ao diagnóstico e à prevenção precoce das alterações”, explica Silvia Priore. Para compor o estudo, foram avaliados 800 adolescentes, sendo 414 (51,8%) do sexo feminino e 386 (48,2%) do sexo masculino, de 10 a 19 anos, estudantes de escolas públicas e privadas da zona urbana e rural de Viçosa (MG). Como critérios de inclusão, não poderiam fazer uso regular de medicamentos que alterassem a pressão arterial, a glicemia, a insulinemia ou o metabolismo lipídico, nem utilizar regularmente, diuréticos, laxantes, marcapasso ou prótese, usar participar de programa atual de redução e controle de peso e, no caso das meninas, não podiam estar grávidas e/ou utilizar anticoncepcional há menos de dois meses. Trata-se de estudo transversal, observacional, tendo o indivíduo como unidade de investigação. “A metodologia

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faz parte de uma análise epidemiológica, na qual fator e efeito são observados em um mesmo momento histórico. Os estudos transversais descrevem uma situação ou fenômeno em instante não definido, apenas representado pela presença de doença ou transtorno. Portanto, não há necessidade de saber o tempo de exposição de uma causa para gerar o efeito”, explica Eliane Rodrigues de Faria, nutricionista e doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Nutrição do Departamento de Nutrição e Saúde da UFV, que também participou da pesquisa.

Obesidade X Síndrome metabólica De acordo com Eliane Faria, o excesso de peso e/ou de gordura corporal, principalmente abdominal, é um dos principais com-

ponentes ligados à resistência à insulina, podendo levar à síndrome metabólica. Sugere-se que o perfil inflamatório, associado ao excesso de tecido adiposo visceral, possa estar ligado a hábitos alimentares inadequados e/ou falta de atividade física. Portanto, os adolescentes com obesidade têm maior chance de apresentar a enfermidade. “Nos últimos anos, tornou-se evidente que o tecido adiposo é um órgão ativo e dinâmico. E a função principal do armazenamento de gordura é servir como reserva energética do organismo. Por isso, o excesso de gordura corporal relaciona-se a obesidade, diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial, arteriosclerose, dislipidemias, processos inflamatórios agudos e crônicos, dentre outros problemas”, afirma Eliane. As medidas antropométricas (registro das particularidades físicas dos indivíduos) e de composição corporal – usadas, na pesquisa,

Evolução de indicadores antropométricos na população de 10 a 19 anos de idade, por sexo, no Brasil (Períodos: 1974-1975, 1989 e 2008-2009)

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como indicadores de localização de gordura central – são medidas simples, de fácil obtenção e de baixo custo. No entanto, Silvia Priore destaca que ainda não há consenso sobre o melhor método para tal fim, uma vez que um bom indicador de localização de gordura corporal deveria associar-se, independentemente de sexo, idade e adiposidade total, com os marcadores de risco para síndrome metabólica. “Por outro lado, o uso do índice de massa corporal (IMC), no diagnóstico da obesidade em adolescentes, está bem estabelecido na literatura, pois tem boa aplicabilidade clínica e se associa com gordura abdominal, pressão arterial e níveis lipídicos”, ressalta. No entanto, a especialista alerta para que este indicador não seja usado isoladamente, considerando que, nem sempre, indivíduos com peso adequado possuem percentual de gordura corporal adequado, o que torna indispensável o uso de mais instrumentos para tal avaliação, como circunferência da cintura, relação cintura/estatura e percentual de gordura. Esse fator fez com que o tema inicial da pesquisa fosse revisado para contemplar fatores antropométricos e de composição corporal, e não apenas o IMC. Como ainda não há consenso quanto ao diagnóstico da síndrome metabólica em adolescentes, a prevalência varia, dependendo do critério, do ponto de corte e das características da população e da região. Silvia explica que, em 2007, a International Diabetes Federation (IDF) sugeriu um critério específico para jovens, com a ressalva de que fossem consideradas as diferenças étnicas, entre os sexos e idades, sendo necessários mais estudos para estabelecer os riscos em cada grupo. A nova definição da IDF é dividida em grupos de idade, com ênfase nas diferenças em relação às mudanças da puberdade. Para adolescentes de 10 a 16 anos, a síndrome metabólica pode ser diagnosticada pela presença de obesidade abdominal e outras

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alterações (hipertrigliceridemia, baixos níveis de HDL, alta pressão arterial, glicemia de jejum alterada). “Por isso esse estudo é tão importante. É preciso ampliar conhecimentos sobre um critério para o diagnóstico da síndrome metabólica e pontos de corte específicos, segundo as três fases da adolescência”, defende.

Legado Por meio da pesquisa, é possível conhecer os critérios e pontos de corte estabelecidos para que o levantamento e o tratamento dos indivíduos com risco de desenvolvimento da síndrome metabólica – como no caso de Henrique, o adolescente citado no início da matéria – possam ser realizados precocemente. Os adolescentes de Viçosa também foram orientados a ter um estilo de vida adequado, o que vai ajudá-los a manter a saúde ao longo da vida, tendo um impacto direto na área de saúde do município. Além disso, o estudo usou amostra representativa de adolescentes matriculados nas escolas públicas e privadas de Viçosa, ao fornecer dados importantes do estado de saúde da população e possibilitar uma avaliação estatística detalhada. O estudo possibilitou, ainda, a implementação de medidas intervencionistas e de prevenção e combate a esse distúrbio metabólico nos adolescentes da cidade mineira, com incentivo à prática de atividade física regular e hábitos alimentares adequados, importantes no controle da síndrome em adolescentes. “As repercussões do estudo vão desde o maior conhecimento científico e técnico relacionado à síndrome metabólica na adolescência – e à análise dos melhores critérios diagnósticos e pontos de corte – à maior conscientização sobre a importância da prevenção de obesidade e alterações metabólicas o que impacta na redução do risco de doenças na vida adulta, diminuindo, também, a mortalidade geral da população”, conclui Silvia Priore.

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Projeto: Estudo comparativo entre as três fases da adolescência, em relação ao excesso de gordura corporal e dos fatores de risco para síndrome metabólica. Coordenadora: Silvia Eloiza Priore Edital: Universal Valor: R$ 49.963,45


ECOLOGIA

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Pouca gente sabe, mas 53% da vegetação nativa em território brasileiro estão em propriedades privadas. 5,6 milhões de propriedades rurais espalhadas pelo País. Diante de tais números, a noção de que as florestas e matas originais brasileiras permanecem nas mãos de proprietários rurais toma outra proporção. A boa gestão dos recursos florestais é necessária para além da produção de oxigênio e do papel que desempenham na manutenção dos ecossistemas: afinal, está também diretamente relacionada a questões como as mudanças climáticas e o desenvolvimento da agricultura e da pecuária no Brasil. Neste sentido, o Código Florestal Brasileiro cumpre papel central na regulação do uso da terra e na gestão ambiental das propriedades rurais. Em artigo publicado na revista Science, pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) quantificaram as mudanças resultantes de revisões no Código, considerando as obrigações e os direitos concedidos a donos de terras. Entre seus pontos mais controversos, está a anistia conferida aos proprietários rurais que desmataram ilegalmente até 2008. Ao mesmo tempo, contudo, o documento desenvolveu mecanismos para a conservação florestal. A implantação efetiva das novas regras é um desafio que envolve distintos campos do conhecimento e demanda compreensão transdisciplinar do processo.

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Trata-se da lei Nº 12.651, de 25 de maio de 2012, que dispõe sobre a proteção da vegetação nativa. O primeiro Código Florestal do País foi lançado em 1934 (Decreto 23.793) e, entre outras medidas, obrigava os proprietários a preservar 25% da área de suas terras com a cobertura de mata original. A atualização veio em 1965 (Lei nº 4.771), com previsão de que metade dos imóveis rurais da Amazônia deveria ser preservada. A partir de 1996, o Código sofreu diversas modificações por meio de Medidas Provisórias, até ser totalmente reformulado em outubro de 2012. O documento é o instrumento legal para definição das regras de uso da terra em território nacional, indicando de que forma as áreas florestais podem ser exploradas e como devem ser preservadas ou conservadas.

O primeiro grande desafio reside no reconhecimento dos potenciais ganhos do novo Código para o agronegócio. Embora sejam muitas as críticas à legislação florestal, o tom da pesquisa coordenada por Britaldo Silveira Soares-Filho, professor titular do Departamento de Cartografia do Instituto de Geociências da UFMG, não é apocalíptico. Fruto da necessidade de compreender o conceito de uso da terra, o estudo envolve desde a modelagem computacional como orientação para a expansão agrícola – compreendendo o que existe de terra disponível para a expansão das florestas plantadas ou de atividades como a pecuária e a agricultura – até as políticas públicas e suas potencialidades. Em todos os casos, as restrições nos termos da lei são o ponto de partida. “Para ter a correta dimensão do uso da terra, é preciso saber o que existe de


passivo, ou seja, as áreas que precisam ser recuperadas, e o que existe de ativo, ou seja, onde se pode fazer o desmatamento legalmente”, explica Soares-Filho. Para o pesquisador, as motivações iniciais eram de ordem técnica: começou-se a estudar os impactos do antigo Código Florestal e de sua nova versão na disponibilidade de terra para a agricultura. De posse de instrumentos que permitiam realizar análise complexa, considerando o território brasileiro como um todo, o grupo desenvolveu metodologia baseada na coleta e na análise comparativa de dados fornecidos por censos agropecuários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e por mapas fornecidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), dentre outros. Chegou-se, então, a uma estimativa dos benefícios e prejuízos do Código Florestal Brasileiro para a conservação das florestas, por meio do programa Dinamica EGO, software livre desenvolvido pelo Centro de Sensoriamento Remoto do Instituto de Geociências que permitiu a análise comparativa entre as duas leis. “As alterações do código foram propostas sem que se soubesse a real dimensão de suas consequências, a partir de interesses e estudos que indicavam caminhos, mas de maneira superficial”, explica Britaldo. À época das mudanças no Código Florestal, o pesquisador e sua equipe trabalhavam em parceria com a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, que também buscava compreender os impactos dos novos termos da lei, principalmente, em relação à redução das obrigações dos proprietários rurais. O grupo acompanhou a discussão, mas só concluiu a pesquisa quando a nova lei foi publicada. Em abril de 2014, o artigo na Science, intitulado “Cracking Brazil’s Forest Code”, veio acompanhado de uma série de discussões sobre a efetividade de regras que ainda não haviam saído do pa-

pel. “Coincidência ou não, duas semanas depois da publicação do artigo, saíram os decretos de regulamentação do novo Código”, destaca outro autor da pesquisa, o professor do Departamento de Engenharia de Produção da UFMG, Raoni Guerra Lucas Rajão.

Histórico Raoni Rajão alerta para a necessidade de compreensão das origens do documento e das mudanças aprovadas em 2012: “Historicamente, o Código surge de um grande embate entre aqueles preocupados com a gestão sustentável dos recursos naturais e o setor rural, que não admitia regulamentações no uso de suas terras. O Código Florestal é uma limitação do direito privado, pois define as fatias de terra que o proprietário pode usar e quais ele tem que, obrigatoriamente, preservar”, comenta. Segundo Rajão, nos 30 anos anteriores à formulação da nova norma, o documento sofreu dezenas de modificações e tornou mais rígido, mas o setor do agronegócio não se preocupou em cumprir a legislação, pois a lei não era, de fato, implementada, e não chegava a trazer consequências aos donos de propriedades. A partir dos anos 2000, iniciou-se um processo de efetivação dos termos do Código, com instrumentos como a restrição dos créditos bancários, que fez com que a lei passasse a provocar impacto na atividade agrícola em um momento de alto índice de desmatamento. Rajão observa que, “quando o desmatamento está baixo e a questão da proteção da floresta sai da pauta, o assunto é esquecido do ponto de vista das políticas públicas”. No entanto, a partir de 2008, Organizações Não Governamentais e representantes do governo posicionaram-se fortemente contra as alterações do Código Florestal porque, apesar de a nova redação manter pontos originais de importância para a redução do desmatamento, a anistia aos desmatadores foi duramente criticada.

Preservação ambiental é um conceito mais restrito, ligado a áreas protegidas e intocáveis, que se referem à necessidade de isolar regiões para que o ambiente permaneça o mais natural possível, com mínima interferência. Já a conservação baseia-se em visão mais pragmática: permite-se o uso da terra, mas de forma que se conservem os recursos naturais para as gerações futuras.

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Segundo tal conceito, o proprietário fica responsável pela manutenção da área preservada. Britaldo Soares-Filho explica que a floresta em pé sempre teve menos valor do que a área derrubada – ou seja, transformada em uso agrícola. Segundo o pesquisador, é preciso contrapor esse jogo de forças. Uma das maneiras para isso é permitir ao proprietário obter remuneração por sua atividade de conservação. Entram, aí, várias estratégias em discussão, como as soluções orientadas pelo mercado, que são as Cotas de Reserva Ambiental, objeto da atual pesquisa do grupo, trabalho realizado em conjunto com o Ministério da Fazenda. “Todo desmatamento ilegal realizado até 2008 acabou, em grande parte, perdoado: 58% do desmatamento ocorrido deixou de ser ilegal”, explica Rajão. Pelo Código antigo, os proprietários de terra teriam obrigação de restaurar as áreas desmatadas, em torno de 50 milhões de hectares de vegetação nativa, e esse número caiu para 21 milhões com a anistia. Apesar disso, se o perdão representou o enfraquecimento de alguns pontos, outras ações propostas nas novas leis apresentaram benefícios: o Cadastro Ambiental Rural (CAR) é um dos mais importantes, por possibilitar o registro das propriedades e o monitoramento via satélite. “Uma coisa que sempre se criticava no antigo Código era o fato de que ele estaria além de nossa realidade. Por isso, não era considerado como ferramenta de conservação. Os proprietários, muitas vezes, nem tinham conhecimento de que deveriam cumprir. Com essa revisão, foram criados mecanismos de controle que demonstram avanços”, defende Britaldo Soares-Filho. Para ele, o CAR é o mecanismo

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mais importante previsto no Código, pois as propriedades terão de ser todas cadastradas eletronicamente pelos estados, nos próximos dois anos, em um sistema on-line, sob coordenação do Governo Federal. A integração das bases estaduais permitirá o desenvolvimento de um programa de recuperação ambiental no qual o proprietário fará o balanço do uso de sua terra: “Ao indicar o que tem de ‘sobra’ – ou seja, o ativo que vai além do que demanda o Código –, o proprietário poderá emitir um certificado de cota ambiental e negociar esse título no mercado, e, como resultado, agregar valor à floresta em pé, o que poderia ajudar na conservação”, explica Britaldo. Por outro lado, caso o proprietário tenha passivo – áreas desmatadas que precisam ser recuperadas –, terá que desenvolver um programa de recuperação ambiental, em um período de 20 anos. “O processo se dará como autodeclaração, com o proprietário assumindo o compromisso de metas a serem cumpridas com o governo, que, por sua vez, terá que desenvolver condições de fiscalizar todo o processo, de modo semelhante ao que ocorre com o imposto de renda”. O pesquisador avalia os mecanismos de registro e monitoramento das propriedades rurais como grandes avanços, que vão além do simples cumprimento da lei ou da penalização de proprietários rurais. O novo Código, afinal, flexibiliza a plantação de florestas comerciais em áreas a serem recuperadas. Diante dos dados analisados, Soares-Filho, Rajão e colegas defendem que a ideia de que a conservação ambiental prejudica a economia agrícola do País é infundada, pois há alternativas para que os agricultores cumpram a lei e recuperem as áreas desmatadas, a exemplo da compra de Cotas de Reservas Ambientais (CRAs).

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Projeto: SimMinas: uma plataforma integrada de modelagem de mudanças no uso da terra, emissões de CO2 associadas e impactos ambientais para o estado de Minas Gerais Coordenador: Britaldo Silveira Soares-Filho Edital: Pesquisas sobre mudanças climáticas no Estado de Minas Gerais Valor: R$ 287.750,96 Projeto: Gestão de inovação no setor público: contribuição da abordagem sociotécnica para a criação de um sistema de monitoramento ambiental para o cerrado Coordenador: Raoni Rajão Edital: Demanda Universal Valor: R$ 27.929,90


LEMBRA DESSA?

Para manter a ordem Pesquisadores apostam no cultivo de minúsculas vespas com o intuito de promover controle biológico em lavouras de milho Diogo Brito Nos últimos anos, tem sido frequente, no Brasil, o uso do controle biológico como ferramenta fundamental ao Manejo Integrado de Pragas (MIP), especialmente, no que diz respeito à seleção de vespas apropriadas ao combate de pestes na lavoura. Também cresceram e se sofisticaram as técnicas de produção e conservação – por vezes, automatizada – de tais espécies de insetos em biofábricas. O primeiro grande surto de pragas na lavoura brasileira, causado pela lagarta-de-cartucho, foi registrado em 1964. À época, verificaram-se prejuízos em pastos, culturas de milho e de arroz. Os agricultores acreditavam, então, que o uso de agrotóxicos nas plantações seria a melhor forma de exterminar a praga. Tal atividade, porém, não apenas aumentava os custos de produção, como elevava a quantidade de material tóxico no meio ambiente – de maneira a contaminar o solo e os alimentos, além de pôr em risco a saúde dos responsáveis pela aplicação do veneno. Essas e outras dificuldades enfrentadas pelos produtores – até muitas décadas após o primeiro surto – fizeram com que pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Emprapa) Milho e Sorgo desenvolvessem soluções, sem aumento de custos ou prejuízo ao meio ambiente e aos alimentos, para o combate da praga. Sob coordenação de Ivan Cruz, a equipe percebeu a possibilidade de uso do inimigo natural do “vilão” da história: vespa minúscula, o Trichogramma age como parasita dos ovos da lagarta-de-cartucho. “Desenvolvemos tecnologia capaz de criá-la em laboratório, sendo possível cultivar um combatente direto à praga, sem ações prejudiciais”, comenta. Segundo revelou o projeto da Embrapa – que foi tema de reportagem publicada

pela revista MINAS FAZ MINAS nº 14, com data de março a maio de 2003 –, as vespinhas custam 50% menos que os agrotóxicos e são totalmente inofensivas. A aplicação também se revela bastante simples: basta soltá-las na lavoura, para que encontrem os ovos da praga, e, dentro deles, botem sua ninhada. Em poucos dias, nascem os filhotes de Trichogramma, que começam a se alimentar das futuras lagartas-de-cartucho. “Dessa maneira, o ciclo da praga é quebrado e, consequentemente, o uso de agrotóxico acaba descartado”, explica Ivan Cruz. Segundo o pesquisador, o controle da lagarta-de–cartucho, por meio das vespinhas, ainda é a melhor técnica a ser aplicada, no que diz respeito à relação entre custos e qualidade final dos produtos. “A manutenção de um inseto em nível populacional abaixo daquele com potencial para causar prejuízos econômicos depende muito do equilíbrio entre a espécie fitófaga e seus agentes de controle biológico natural”, comenta Ivan, ao lembrar a necessidade de manutenção, na área agrícola, de determinado número de pragas para a sobrevivência dos seus inimigos naturais. O cultivo da vespa para combate à lagarta-de-cartucho é muito eficiente. Tanto que, nos últimos anos, houve significativo aumento da demanda pela técnica, que hoje é empregada em diversas regiões do País, sobretudo, por cooperativas e associações de produtores. Em agosto de 2014, foi inaugurada uma biofábrica no Rio Grande do Sul, cujo alvo é o controle das pragas nas lavouras de soja e milho. Em termos internacionais, o governo brasileiro, por meio da Embrapa, tem incentivado o estabelecimento de áreas de produção da vespinha em diversos países africanos. Além disso, afora o aumento no número de biofábricas no Brasil e no exterior, tam-

bém se verifica substancial elevação na capacidade produtiva de tais estabelecimentos.

Diversificação de técnicas

Mesmo com a tecnologia de controle, a lagarta-de-cartucho permanece como uma das piores pragas das lavouras de milho no continente americano. Por isso, de acordo com Ivan Cruz, o uso das vespas não pode se apresentar como alternativa única. “É consenso da pesquisa de que uma única tecnologia dificilmente manterá a população da praga abaixo do nível de dano econômico”, garante. O pesquisador destaca que há necessidade de integração de métodos de controle, dentro dos preceitos do Manejo Integrado de Pragas. “Na verdade, o MIP ganhou importância devido ao aumento da incidência da praga em outros cultivos, como algodão e soja, que convivem praticamente no mesmo ecossistema”, esclarece. Ainda segundo o pesquisador, há, no Brasil, uma nova espécie – a Helicoverpa armigera – com grande potencial de danos ao milho e a outros cultivos agrícolas, como soja, algodão, feijão, tomate e pimentão. “Além de ter elevada capacidade de se multiplicar por meio de vários hospedeiros, essa praga possui alta taxa de fecundidade e é resistente a diferentes grupos de produtos químicos”. A eficiência do controle, contudo, teve grande salto, nos últimos anos, pelo uso correto de técnicas de monitoramento de pragas. A vespinha Trichogramma, por exemplo, é específica para eliminar ovos da lagarta-de-cartucho e tem a vantagem de não permitir o nascimento de novos filhotes do inimigo, evitando danos às plantas. Por outro lado, ela não tem efeito sobre as lagartas. Assim sendo, a liberação a campo deve ser sincronizada com a presença de ovos.

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5 PERGUNTAS PARA...

Roberto Mendes Finzi Neto Pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Estruturas Inteligentes em Engenharia (INCT-EIE), sediado na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Roberto Mendes Finzi Neto integrou o grupo de especialistas que, durante 10 anos, dedicou-se ao estudo das aplicabilidades de tais estruturas. Também chamadas de adaptativas, elas são capazes de auxiliar a identificação de alterações em infraestruturas ou operações, além de permitir autoajuste e autoadaptação a situações as mais diversas. Na aviação, por exemplo, podem apontar danos na fuselagem de um avião comercial, de modo a impedir desastres. Já na Construção Civil, desde que aplicadas em concreto e metal, evitam o desabamento de pontes e viadutos. O INCT foi criado em 2009, quando passou a contar com a participação de cerca de cem pesquisadores ligados a sete instituições brasileiras e a duas do exterior, sob coordenação da UFU. Dentre os resultados das pesquisas, destaque para um protótipo de hardware funcional, implantado diretamente nas estruturas para identificação de falhas. Em 2012, em parceria com a Embraer, iniciou-se o processo de conversão do dispositivo em ferramenta capaz de ser produzida em linha industrial. Para tal, realizaram-se os registros do pedido de patente do sistema nos Estados Unidos, no Brasil, na Europa e na Ásia.

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Diogo Brito

Para uma empresa aérea, quais as vantagens de tecnologias capazes de detectar falhas nas aeronaves? Os principais custos associados à posse de aeronaves relacionam-se aos processos de manutenção a que elas precisam ser submetidas em períodos regulares de tempo de uso. Boa parte dessas paradas para manutenção refere-se, exclusivamente, a inspeções estruturais que requerem o desmonte de diversas partes da aeronave para permitir a avaliação visual dos componentes estruturais. Se a aeronave contar com sistema de detecção ativo de falhas estruturais, torna-se possível reduzir, ou mesmo eliminar, esse tipo de inspeção visual, o que diminui drasticamente os custos operacionais com a aeronave.

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Na Construção Civil, as estruturas inteligentes serviriam para prevenção de acidentes como trincas e desabamentos? Existem diversos estudos na literatura atual que demonstram o uso da tecnologia no monitoramento de componentes estruturais de estruturas metálicas e de concreto em prédios e pontes. As chamadas “pontes inteligentes” empregam diversas tecnologias de monitoramento

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estrutural para garantir tanto a capacidade de prevenção de acidentes estruturais quanto a otimização do processo de manutenção das estruturas. Exemplo disso seria a ponte Rio-Niterói, que emprega diversas tecnologias para o monitoramento constante do comportamento estrutural da própria ponte. Tal tecnologia pode ser aplicada em estruturas de concreto, como o viaduto que desabou recentemente em Belo Horizonte? Com certeza. O colapso estrutural dos pilares poderia ser detectado precocemente se a tecnologia de detecção de falhas estivesse em monitoramento diário. Porém, é raro identificar empresas que invistam em tecnologias de monitoramento estrutural desde as etapas iniciais da construção ou da reforma. É possível imaginar tecnologias nas quais os materiais sejam infalíveis? Em Engenharia, é muito temeroso afirmar a infalibilidade de um material ou de alguma estrutura. Isso porque todos estão sujeitos às ações do tempo, à sua própria dinâmica estrutural e ao próprio erro do ser humano no momento do uso e/ou da construção. Exemplos interessan-

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tes seriam as estruturas aeroespaciais, que, em geral, empregam tecnologias mais recentes e confiáveis. Essas estruturas sempre operam dentro de certo grau de confiabilidade, que decresce com o passar do tempo. Neste caso, ao fim da vida útil, a estrutura é descartada, mesmo que não se observem falhas estruturais significativas. Ou seja, garante-se apenas que uma estrutura apresenta certo grau de confiabilidade dentro de determinado período de tempo.

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Qual sua previsão para o futuro da Engenharia, com ênfase na inserção de estruturas inteligentes no mercado? O uso de estruturas inteligentes no mercado aeroespacial já é uma realidade que tem apresentado bons frutos. Outros ramos da indústria, como os da construção naval e civil, começam a dar passos sólidos na mesma direção. Penso que a indústria em geral tem avaliado os conceitos de “prevenir” e “remediar” com grande seriedade. Isso, principalmente, porque os custos humanos e financeiros, associados ao “remediar”, acabam por ser muito maiores ou dolorosos.


O exercício dos direitos civis e políticos pressupõe a livre escolha pelos sujeitos, que se fortalece ou decorre do acesso e uso da informação: um direito cuja prerrogativa é proteger a capacidade de emancipação dos homens. O direito à informação é considerado também precondição para o desenvolvimento pessoal, a formação contínua dos sujeitos, a elaboração de conhecimentos e, ao cabo, para a constituição das subjetividades e autonomia dos indivíduos.

Questões como direito à informação, acesso aberto, privacidade, segurança de dados, espionagem e ambientes dinâmicos vêm se tornando tema de reflexões e, também, de preocupações por grande parte da população que navega pelos ambientes digitais em rede. Tendo como ponto de partida a Lei de Acesso à Informação, em vigor desde o dia 16 de maio de 2012 no Brasil, o livro A construção social do acesso público à informação no Brasil busca analisar os elementos históricos, contextuais e tecnológicos envolvidos na questão do acesso público à informação no País, sem perder de vista o contexto internacional do debate. Organizado pela professora e pesquisadora Maria Aparecida Moura, da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a obra reúne textos de 25 pesquisadores, ligados a diferentes áreas, que buscam dar sua contribuição ao assunto. O livro

Além do

Agora que o Google está personalizado para todos, a pesquisa ‘células-tronco’ pode gerar resultados diametralmente opostos para cientistas favoráveis à pesquisa com células-tronco e para ativistas opostos a ela. ‘Provas da mudança climática’ pode gerar resultados diferentes para um ambientalista e para um executivo de companhia petrolífera. Segundo pesquisas, a ampla maioria das pessoas imagina que os mecanismos de busca sejam imparciais. Mas essa percepção talvez se deva ao fato de que esses mecanismos são cada vez mais parciais, adequando-se à visão de mundo de cada um. Cada vez mais, o monitor do nosso computador é uma espécie de espelho que reflete nossos próprios interesses, baseando-se na análise de nossos cliques feita por observadores algorítmicos.

No livro O filtro invisível: o que a internet está escondendo de você, Eli Pariser, ativista digital estadunidense, convida os leitores a pensar sobre o papel de um dos principais buscadores de informação na internet, o Google. Ao partir do pressuposto de que a maioria das pessoas acredita que os resultados apresentados na busca representam, com imparcialidade, o que vem sendo discutido e/ou produzido sobre determinado tema, o autor refuta a pretensa neutralidade da rede. Ao retomar a história da construção do Google e, também, do Facebook – principalmente, no que se refere à configuração dos mecanismos de busca e à indicação de preferências –, Pariser apresenta a principal tendência na internet e em outros sistemas: a personalização dos serviços, baseada nos perfis dos usuários. Tendo por base nossos interesses e escolhas, o

informação oferece, ainda, uma experiência de leitura inovadora por meio do QR Code (código de resposta rápida), de modo a explorar o conceito de livro expandido. Presente na contracapa e na última página da versão impressa, o recurso permite ao leitor, de posse de smartphone ou de tablet, aceder a conteúdos complementares e dinâmicos, enriquecendo a leitura.

Livro: A construção social do acesso público à informação no Brasil: contexto, historicidade e repercussões Organizadora: Maria Aparecida Moura Editora: UFMG Páginas: 283 Ano: 2014

que se vê referido “filtro invisível” passa a nos oferecer apenas aquilo com que concordamos ou quando nutrimos pensamento afim. O autor procura demonstrar a ausência de neutralidade no processo de busca, e, consequentemente, nas informações obtidas. O que, inicialmente, pode soar como eficiência, por oferecer aos indivíduos respostas rápidas às expectativas, acaba por nos encerrar em um universo onde não há espaço para o diferente e onde as informações pessoais servem, apenas, como incentivo ao consumo.

Livro: O filtro Invisível: o que a internet está escondendo de você Autores: Eli Pariser Editora: Zahar Páginas: 252 Ano: 2012

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LEITURAS

Acesso público à


hI P ER LI N k

EM NoME DAS DIfERENçAS

fAçA VoCÊ MESMo

As questões sobre inclusão e acessibilidade na relação entre ciência e indivíduos com deficiência são muitas e cheias de singularidades. Para tratar deste complexo assunto, conversamos com a pesquisadora Sônia Pessoa, que estuda o discurso da diversidade nas redes sociais digitais. Doutoranda em Estudos Linguísticos pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e idealizadora do blog www. tudobemserdiferente.com, Sônia falou ao blog Minas Faz Ciência sobre maneiras de contribuir com a construção de ambiente acadêmico mais inclusivo. Acesse e confira: blog.fapemig.br

A sigla DIY – do it yourself, ou “faça você mesmo” – é comum nos grupos que trabalham com artesanato, mas também pode se referir à ciência: em todo o mundo, surgem movimentos de redes informais de pesquisa que desenvolvem hardwares e montam equipamentos a partir de peças comuns do cotidiano para colaborar com novas experiências científicas. Professora da Universidade de Singapura, Denisa Kera desenvolve projetos de ciência-hacker-DIY em regiões onde os equipamentos são caros e a tecnologia não atinge amplamente a população. A base dessa filosofia é o desenvolvimento científico em acesso livre, open source e open data. Assim, para além de diversão, montar um microscópio torna-se uma forma de ampliar o alcance do fazer científico.

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o fANTASMA Do EBoLA

VIGILANTE oU VIGIADo?

Em meio a tantas notícias preocupantes sobre o surto do vírus ebola na África, a equipe do projeto Scicast – podcast feito por brasileiros que trata com humor dos mais variados temas científicos – convidou o biólogo Átila Iamarino para falar sobre essa que é uma das doenças mais mortais do Planeta. Iamarino também é apresentador do canal Nerdologia no YouTube e escreve no blog Rainha Vermelha. Estima-se que, até janeiro de 2013, mais de 1.800 casos de ebola tenham sido diagnosticados, dos quais mais de 70% resultaram em morte. No atual surto, a doença se espalha cada vez mais rápido pelo continente africano. Ouça em http:// www.scicast.com.br/.

Em continuidade à matéria de capa da edição 58 desta revista – “Vigiar, punir e viver” –, o blog Minas Faz Ciência publicou posts que buscam compreender a relação entre vigilantes e vigiados. Ao mesmo tempo em que portar um dispositivo móvel transmite a muitos a sensação de segurança – pelo fato de que se pode acionar uma rede de contatos a qualquer emergência ou imprevisto –, essa mesma ferramenta, cada vez mais portátil e pessoal, coleta e retransmite informações preciosas sobre nossos passos, interações e movimentos. A partir daí, sobram indagações: quem vigia os vigilantes? O que será feito dos dados coletados? Que tipo de regulação/restrição é possível? O fato de nos tornarmos conscientes de tais processos já se revela um importante passo. Sabemos que estamos sendo filmados... Quanto a sorrir ou não, fica à escolha de cada um. Qual sua opinião, caro leitor? Passe lá no blog para comentar!

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Eis o registro da estrutura de um metal depositado, por solda, para revestimento protetor. Na imagem – fruto das pesquisas do professor José Eduardo S. A. Brandão, do Departamento de Engenharia Metalúrgica do Instituto Politécnico da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) –, observam-se carbonetos com morfologias diferentes e curiosas.

VARAL

José Eduardo S. A. Brandão


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