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EX P ED I EN T E


Redação - Rua Raul Pompéia, 101 - 12.º andar, São Pedro - CEP 30330-080 Belo Horizonte - MG - Brasil Telefone: +55 (31) 3280-2105 Fax: +55 (31) 3227-3864 E-mail: revista@fapemig.br Site: http://revista.fapemig.br

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GOVERNO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Governador: Antonio Augusto Junho Anastasia SECRETARIA DE ESTADO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR Secretário: Narcio Rodrigues

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais Presidente: Mario Neto Borges diretor de Ciência, tecnologia e Inovação: Evaldo Ferreira Vilela diretor de Planejamento, Gestão e Finanças: Paulo Kleber Duarte Pereira Conselho Curador Presidente: João Francisco de Abreu Membros: Alexandre Christófaro Silva, Antônio Carlos de Barros Martins, Dijon Moraes Júnior, Flávio Antônio dos Santos, Júnia Guimarães Mourão, Marcelo Henrique dos Santos, Marilena Chaves, Ricardo Vinhas Corrêa da Silva, Sérgio Costa Oliveira, Valentino Rizzioli, Virmondes Rodrigues Júnior.

O envelhecimento é um processo natural, parte de nosso ciclo de vida como seres humanos. Isso não significa, porém, que seja um processo fácil. Alterações nas funções motoras e cognitivas, uma maior suscetibilidade a doenças e mesmo as mudanças físicas fazem do envelhecer uma etapa que exige preparação. Nesse sentido, a ciência e a tecnologia oferecem contribuições valiosas, tanto na prevenção e tratamento de doenças, prolongando a expectativa de vida, como em maior qualidade e vitalidade. São vários os trabalhos desenvolvidos com esse foco, que investigam desde terminologias mais adequadas até formas de estimular a memória e auxiliar o processamento de informações. Esse panorama é apresentado na reportagem especial desta edição, que mostra que a vida tem, sim, muito a oferecer depois dos sessenta. Neste número, apresentamos também projetos que se destacaram em recentes premiações nacionais e internacionais. Um deles se diferencia pelo caráter inclusivo. Desenvolvido por grupo de alunos da pós-graduação da Universidade Federal de Ouro Preto, o Sound Cage é uma plataforma eletrônica de jogos e entretenimento destinada a deficientes visuais. Uma estrutura formada por caixas de som envolve o usuário, simula ambientes e permite que eles joguem partidas de videogame em condições de igualdade com pessoas sem a deficiência. O trabalho, que não tem similar no mercado, venceu a edição 2013 do Programa Mineiro de Empreendedorismo e rendeu à equipe uma viagem à University of Science and Technology (UST), na Coreia do Sul. Outro projeto premiado vem da Universidade Federal de Viçosa. O professor Ricardo Capúcio de Resende desenvolveu uma máquina semeadora que se diferencia por ser mais leve e fácil de manusear que as existentes no mercado. O equipamento foi concebido para ser utilizado por mulheres que trabalham com agricultura familiar. Pelo caráter inovador e facilidade de replicação, o projeto foi selecionado pelo programa Grand Challenges Explorations, da Fundação Bill e Melinda Gates. A Fundação irá investir US$100 mil na ideia, recursos que serão utilizados para desenvolver e testar o protótipo. A expectativa é que a máquina também beneficie mulheres trabalhadoras do continente africano. Confira, ainda, a entrevista com o professor Tomaz Aroldo da Mota Santos, diretor do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal de Minas Gerais. O ICB foi o vencedor do prêmio de pesquisa básica Marco Luiz dos Mares Guia, uma iniciativa que busca reconhecer o trabalho de instituições e pesquisadores que contribuem para o avanço do conhecimento, realizando projetos com potencial para subsidiar o desenvolvimento tecnológico. Nesta conversa, Santos, que já foi reitor daquela Universidade, analisa a trajetória do ICB e discute a importância do ensino, pesquisa e divulgação da ciência. São muitos os projetos de pesquisa que, como esses, contribuem para o avanço do conhecimento e para mudar a vida de muitas pessoas. Para divulgar as informações para toda sociedade, contamos com uma equipe de jornalistas que – boa notícia – acabou de crescer. Os novos integrantes do Programa de Comunicação Científica e Tecnológica já estão produzindo reportagens para rádio, televisão e web, além das matérias da MINAS FAZ CIÊNCIA. A produção está disponível no blog http://www.wordpress.fapemig.com. Boa leitura! Vanessa Fagundes diretora de redação

AO LEI TO R

EX P ED I EN T E

MINAS FAZ CIÊNCIA diretora de redação: Vanessa Fagundes editor-chefe: Maurício Guilherme Silva Jr. Redação: Ana Flávia de Oliveira, Ana Luiza Gonçalves, Diogo Brito, Marcus Vinícius dos Santos, Maurício Guilherme Silva Jr., Vanessa Fagundes, Virgínia Fonseca e William Ferraz diagramação: Fazenda Comunicação designer gráfico: Breno Maia Revisão: Sílvia Brina Projeto gráfico: Hely Costa Jr. editoração: Fazenda Comunicação & Marketing Montagem e impressão: Rona Editora tiragem: 20.000 exemplares Capa: Hely Costa Jr.


Í N D I CE

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ENTREVISTA

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Fomento

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zootecnia Mastite bovina é combatida por aparatos de nanotecnologia desenvolvidos por especialistas da Embrapa

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CIÊNCIA POLÍTICA

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Engenharia Florestal

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AGRONOMIA

METROLOGIA Reportagem descreve as atividades da Rede Metrológica de Minas Gerais, responsável por medições técnicas

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LEMBRA DESSA?

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acessibilidade

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5 PERGUNTAS PARA...

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microbiologia

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hiperlink

Ex-reitor da UFMG, Tomaz Aroldo da Mota Santos discute investimento em pesquisa básica e divulgação da CT&I

Estudo da Ufla realiza testes com plantas capazes de purificar águas com elementos tóxicos

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Batizado de Sound Cage, protótipo criado por estudantes da Ufop promove inclusão de deficientes visuais

Investigação busca compreender nível de conhecimento da população sobre a dengue

FAPEMIG prepara-se para se transferir à nova sede, fruto de projeto arquitetônico arrojado e sustentável

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ESPECIAL

Conheça iniciativas da ciência para auxiliar os idosos a melhorar sua qualidade de vida

Confira o perfil dos indivíduos eleitos como representantes do povo nas assembleias legislativas do País

Escolhida em programa internacional, invenção de professor da UFV auxiliará plantio de sementes na África

Pesquisa da Escola de Engenharia da UFMG investiga níveis de radiação eletromagnética em BH e Região Metropolitana

Fernando Dolabela comenta nuances, obstáculos e perspectivas do empreendedorismo

Pesquisadores desenvolvem tecnologia capaz de traduzir à linguagem humana o pensamento dos animais

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religião

Recepção às religiões de matriz africana no Brasil é tema de análise na Universidade Federal de Ouro Preto


“Obrigada, FAPEMIG! Recebi na sexta duas revistas MINAS FAZ CIÊNCIA: a última edição do ano e, também, a Edição Especial de 2013. Parabéns a todos os pesquisadores pela divulgação da pesquisa científica, pela popularização da ciência para beneficiar ‘o povo’, pela utilidade prática e por fazer aquilo que Dr. Arthur Ramos sonhava que acontecesse: ‘Não adianta escrever só para as elites, através da divulgação dos estudos sobre o homem. Suas implicações e vantagens deveriam ser difundidas e usufruídas também pelo homem da rua – o povo’. Acompanho daqui de #alagoas os avanços de #minasgerais e espero que outras fundações, em outros estados, sigam o #exemplo e também possam divulgar os investimentos no avanço da ciência como #minasfazciencia. Aline Gusmão Pelo Facebook

“Adorei a edição 55 de MINAS FAZ CIÊNCIA. Desde as grandes reportagens, como a do novo panorama dos Museus no Brasil e a da importância do Cinema de ‘Hicth’ na educação, até as pequenas pílulas, a exemplo de ‘Versos que curam’. Meus parabéns para os autores e editores. Espero que, em breve, tenhamos muito mais pessoas apreciando a arte e os museus no Brasil.” Fabrício Martins Belo Horizonte (MG)

“Recebi hoje meu primeiro exemplar da revista MINAS FAZ CIÊNCIA! Muito obrigada a todos. Estou curtindo demais as publicações! Deus os abençoe e dê um ano de infinitas vitórias, na saúde, no amor, na família e no trabalho!” Heveline Cristina de Figueiredo Silva João Monlevade (MG)

“Fui apresentado à revista por uma professora de Química. Gostei do conteúdo e acredito que será de grande valia para o meu curso.” Vanderson Reis Estudante da Faculdade Pitágoras Governador Valadares (MG)

Para receber gratuitamente a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, envie seus dados (nome, profissão, instituição/ empresa, endereço completo, telefone, fax e e-mail) para o e-mail: revista@fapemig.br ou para o seguinte endereço: FAPEMIG / Revista MINAS FAZ CIÊNCIA - Rua Raul Pompéia, 101 - 12.º andar - Bairro São Pedro Belo Horizonte/MG - Brasil - CEP 30330-080

MINAS FAZ CIÊNCIA tem por finalidade divulgar a produção científica e tecnológica do Estado para a sociedade. A reprodução do seu conteúdo é permitida, desde que citada a fonte.

CARTAS

“Caros editores, excelente a edição nº 55 da revista MINAS FAZ CIÊNCIA. Pauta atualizada, temas diversificados, abordagens claras. Diagramação e edição de fácil leitura. Parabéns!” Paulo Marcos Pires Uberlândia (MG)


especial

A vida fervilha aos 70 Pesquisas em diversas áreas do conhecimento auxiliam homens e mulheres a vivenciar as (muitas) belezas da maturidade com o corpo e a mente cada vez mais ativos Maurício Guilherme Silva Jr.

O pintor Pablo Picasso (1881-1973) dizia que é preciso muito tempo para que uma pessoa se torne jovem. No ver do grande artista espanhol, a sabedoria acumulada ao longo dos anos funcionaria como matéria-prima imprescindível à transfiguração das pedras e maravilhas da existência em experiências individuais repletas de frescor. Ao rico paradoxo proposto pelo gênio de Andaluzia, some-se, na atualidade, a eficiência de iniciativas, conceitos e produtos científicos capazes não apenas de ampliar a expectativa de vida da população mundial,

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mas, também, de levar ainda mais vitalidade ao corpo e à mente dos já viçosos senhores e senhoras deste milênio. Interessante ressaltar, aliás, que as preocupações da ciência quanto aos efeitos da idade nos seres humanos iniciam-se com o estudo do(s) modo(s) como os mais velhos são verbalmente tratados no dia a dia. Trata-se, afinal, do exame de parâmetros de observação e acolhimento da sociedade em relação a seus mais vividos representantes. “Em nossa experiência com os idosos, é quase unívoco o

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discurso em torno da necessidade de cuidado com as termologias para referência a eles”, sublinha Cristiano Mauro Assis Gomes, professor do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador do Laboratório de Investigação da Arquitetura Cognitiva (Laico). Neste cenário, revela-se vital, por exemplo, delimitar diferenças conceituais entre termos como “velhice”, “envelhecimento” ou “idoso”.


Na maioria dos países, os índices de expectativa de vida aparecem, hoje, acima das sete décadas. No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tal marca é de 74,6 anos. O maior valor identificado por pesquisadores diz respeito ao Japão, à Suíça e a San Marino – nações onde as pessoas vivem, em média, 83 anos –, enquanto o menor (47 anos) foi verificado em Serra Leoa.

Segundo Cristiano Gomes, muitos senhores e senhoras preferem a expressão “melhor idade” como designativa de sua fase de vida. “Percebemos que os termos ‘idoso’ e ‘velho’ caíram em desuso, em função das próprias formas de valorização da juventude em nossa sociedade. Falo da concepção de que o que envelhece precisa ser descartado, por não apresentar mais funcionalidade”, comenta, ao sublinhar que a relevância social das investigações científicas está, justamente, em auxiliar a quebra de preconceitos coletivos: “As pesquisas podem eliminar estereótipos e proporcionar maior qualidade de vida às pessoas”.

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Fruto da Política Nacional do Idoso, a referida Lei deu amparo jurídico, dentre outras iniciativas e providências, à criação do Conselho Nacional do Idoso. O objetivo da legislação é assegurar os direitos sociais dos mais velhos, ao promover a autonomia, a integração e a participação efetiva de tais indivíduos na sociedade.

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Marcada por eventos de natureza múltipla – das perdas psicomotoras ao afastamento social, da restrição de funções às alterações cognitivas –, a velhice pode ser considerada uma fase do desenvolvimento humano. “Já o envelhecimento é um processo com características de cunho universal, pautado geneticamente para espécies e indivíduos, que se traduz em diminuição da plasticidade comportamental, em aumento da vulnerabilidade e da probabilidade de morte”, explica o pesquisador. Por último, o termo “idoso”, no Brasil, representa, conforme a Lei 8.842, de 4 de janeiro de 1994, o cidadão com 60 anos ou mais. Professor da Faculdade de Medicina da UFMG e presidente da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia, Leandro Fernandes Malloy-Diniz esclarece que o envelhecimento é um processo natural, biologicamente determinado e influenciado por fatores ambientais de natureza multifatorial. Além disso, envolve modificações biológicas que irão impactar, gradualmente, a estrutura e a função de múltiplos sistemas do organismo. “Uma série de fatores biológicos e ambientais, em interação dinâmica, pode influenciar a qualidade e a velocidade do processo de envelhecimento”, completa. O pesquisador destaca, ainda, que certas características do envelhecer são típicas da espécie. Por isso, ocorrem de forma relativamente uniforme, apesar de haver grande variabilidade entre os indivíduos. “Certas pessoas mantêm-se ativas durante várias décadas, de modo a praticar atividades físicas, desempenhar funções profissionais complexas e manter excelente qualidade de vida. Outras apresentam perda funcional importante já nos primeiros anos da velhice, o que lhes impede o desempenho independente de várias dimensões da vida social”, resume, ao mostrar que a compreensão dos determinantes de diferentes padrões do envelhecimento e das doenças típicas do idoso são os atuais desafios de geriatras, gerontólogos e outros especialistas.

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No que tange às formas de definição da velhice, Leandro Malloy-Diniz frisa a existência, no mundo, de critérios científicos diversos – dos parâmetros etários (nos países desenvolvidos, idosos são indivíduos acima de 65 anos; em nações em desenvolvimento, a partir dos 60) às classificações mais complexas. “Uma delas, muito usada na década de 1990, nos ajuda a distinguir o envelhecimento ‘primário’, processo biológico natural, programado, progressivo e cumulativo, do ‘secundário’, resultante de fatores não inerentes à senescência (processo de envelhicimento dos seres vivos), como doenças surgidas ao longo da vida, atividades culturais, exposição a estressores etc.”, explica. Dentre os fatores aptos a determinar o envelhecimento secundário, destaque para a dimensão comportamental, referente, por exemplo, a práticas de “abuso” – alimentação pouco saudável e uso de substâncias psicoativas – ou de “desuso” (sedentarismo e falta de estimulação intelectual). “Tais atitudes podem potencializar e patologizar o processo de senescência”, garante Leandro, ao lembrar a existência de outro “tipo” de envelhecimento, chamado de terciário. Trata-se de tipologia destinada aos indivíduos muito velhos e que busca caracterizar o rápido declínio das funções do indivíduo – entre as quais, o desempenho cognitivo –, em decorrência de efeitos cumulativos.

No pique!

Para além da compreensão de terminologias adequadas à descrição do processo de envelhecimento, as pesquisas científicas da atualidade privilegiam a prevenção como forma de melhorar a sensação de bem-estar dos indivíduos. “O fundamental está, realmente, na mudança de foco. Ao invés de intervir junto à doença, buscam-se, hoje, atitudes preventivas e ampliadoras da qualidade de vida”, diz Thiago Henrique Ferreira Vasconcellos, professor dos cursos de Fisioterapia, Nutrição e Psicologia do Centro Universitário de Patos de Minas, onde também é pesquisador do Laboratório de Anatomia Humana.


“Prevenir”, é bom que se ressalte, representa, neste contexto, ingerir alimentos saudáveis, praticar exercícios físicos, desafiar diariamente as potencialidades da mente e da memória, além de cultivar amizades e relacionamentos afetivos. Aos 84 anos, Zuleika Avelino Batista exerce essas e outras tantas atividades com fôlego ímpar. Na mineira Caratinga, município onde vive há mais de cinco décadas, mantém ativa a rotina de atividades e compromissos sociais, familiares e religiosos. Afora os encontros regulares com os cinco filhos, 15 netos e quatro bisnetos, ela segue semanalmente ao Lyons Clube do município, onde troca experiências sobre tricô e crochê com dezenas de amigas. Em outros dois dias da semana, realiza trabalho voluntário no Núcleo do Câncer de Caratinga e participa das reuniões da Congregação do Sagrado Coração de Jesus. “Sinto-me ótima por fazer parte de dois grupos. Trocamos experiências sobre trabalhos manuais, bordado, crochê, pintura. Tenho prazer de participar porque fico em contato com amigas, conversas, brincadeiras, músicas e lanches. Tudo isso me faz bem demais”, destaca a inquieta Zuleika, ao contar, ainda, que, nos encontros de oração, todas costumam rezar o terço e fazer reflexão. “Afora essas atividades, gosto muito de viajar e de conhecer coisas novas. Atualmente, estou na fase de ir aos casamentos dos netos e de curtir os nascimentos dos bisnetos, momentos que me renovam sempre”, completa. Outras searas de estudo do envelhecimento dizem respeito à compreensão dos processos degenerativos e inflamatórios e da relação entre depressão e bem-estar. “Tema também importante, e que ganha maior relevância a cada dia, é o impacto de doenças crônicas – como a hipertensão arterial, o diabetes, os quadros dolorosos e os transtornos cognitivos – sobre a qualidade de vida dos idosos. Por fim, mais recentemente, os pesquisadores têm se preocupado com as relações entre espiritualidade e qualidade de vida”, enfatiza Leandro Malloy-Diniz. No que tange às investigações ligadas à área das Neurociências – “ter-

ritório” de atuação do pesquisador da UFMG –, verifica-se grande avanço, nos últimos 20 anos, em relação à produção de conhecimento sobre as causas das alterações cognitivas e inúmeros processos patológicos, a exemplo da doença de Alzheimer e outros quadros demenciais. “Além disso, o uso de novas técnicas de neuroimagem, como a Ressonância Magnética Funcional e o PET, possibilitou a visualização de regiões cerebrais envolvidas em tarefas cognitivas específicas, revelando-nos como elas são afetadas por mecanismos patológicos”, completa. A tais boas-novas, some-se a atual combinação entre avanços da Neuropsicologia – responsável pela avaliação do desempenho cognitivo dos idosos – e das Neurociências, o que tem culminado com melhorias no tratamento e na reabilitação de pacientes com quadros de prejuízo do desempenho cognitivo.

Memória episódica

Ação imprescindível ao acompanhamento da saúde dos idosos, a avaliação das habilidades cognitivas tem se sofisticado por meio do emprego de diversos instrumentos de rastreio. Trata-se de aparelhos capazes de diagnosticar o funcionamento mental dos pacientes de maneira mais rápida – assim como de apontar indicativos sobre o que, exatamente, há de ser especificamente avaliado. “Apesar de tais avanços, quando a avaliação diz respeito a habilidades como atenção, concentração e raciocínio, ainda faltam instrumentos e estudos de padronização”, explica Cristiano Gomes. Dentre as habilidades cognitivas do ser humano, a memória é uma das funções mais comprometidas em pessoas acima de 60 anos. “A capacidade de memorização pode estar associada a quadros depressivos e/ou a comprometimentos maiores”, ressalta o pesquisador. O que se percebe é que os especialistas concentram esforços para verificar a relação da memória com outras competências cognitivas – e sua funcionalidade no processo de envelhecimento. “É sabido que há declínio em certos sistemas de memória como a episódica, que representa nossa aptidão para lembrar lugares, compromissos, nomes e rostos de pessoas”, ilustra. MINAS FAZ CIÊNCIA • DEZ/JAN/FEV 2014

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Com o passar dos anos, também decaem de forma importante, nos indivíduos, a velocidade de processamento de informações e a capacidade de manter e relacionar dados para a resolução de problemas. “No entanto, o conhecimento adquirido com o tempo tende a se manter estável. Ao que parece, apesar de perdas, o envelhecimento também gera ganhos, como sabedoria, discernimento e paciência”, conclui o professor. Em estudo realizado pelo Laboratório de Investigação da Arquitetura Cognitiva, os pesquisadores buscaram compreender quais seriam as habilidades cognitivas relacionadas ao declínio da memória episódica – que está associada à manutenção da autonomia e à independência dos idosos. “Os resultados mostram que o envelhecimento favorece quedas no desempenho de tal memória. Além disso, é provável que a piora em recursos básicos de processamento iniciem-se muito antes dos 50 anos de idade”, elucida. Outro importante aspecto dos estudos desenvolvidos no Laboratório refere-se à constatação de que o “fator idade” não se revela tão impactante quanto se imaginara. “A história pessoal do indivíduo parece ser um dos fatores cruciais”, conclui.

Pesquisa multifacetada

Segundo o IBGE, cerca de 14,9 milhões de brasileiros – 7,4% da população – têm idade acima de 65 anos. Estimativas revelam que, em 2060, tal volume deve atingir a marca de, aproximadamente, 58,4 milhões de cidadãos, ou 26,7% do total de habitantes do País.

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A proporção de brasileiros com idade superior a 60 anos não tem precedentes na história do Brasil. “E a tendência é que tal volume aumente consideravelmente nas próximas décadas. Por isso, deparamo-nos com uma série de fenômenos relativamente novos, cuja abordagem será fundamental para a compreensão dos processos determinantes das formas de envelhecimento”, explica o médico Breno Satler Diniz, integrante da Diretoria da Associação Brasileira de Neurociências Clínicas e da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia. Segundo o pesquisador, um reflexo interessante do aumento da faixa etária populacional pode ser notado nas últimas décadas. “As teorias clássicas sobre

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desenvolvimento humano enfatizavam os processos de mudança ocorridos até a adolescência, etapa final da formação de nossa constituição mental e comportamental. A idade adulta era vista como fase de estabilidade, enquanto a velhice, como período de declínio global”, explica, ao ressaltar que eventos típicos dessas faixas etárias eram raramente abordados em profundidade. Na primeira metade do século XX, outras teorias já buscavam perceber o desenvolvimento humano a partir da totalidade do ciclo vital, conforme revelam os estudos de Erik Erikson. Apesar disso, é a partir da década de 1980, com Karl W. Schaie e Paul Baltes, que ganha força a necessidade de investigação “do todo” – o que inclui, de modo efetivo, a idade adulta e o período da velhice. “Perdas e ganhos, afinal, ocorreriam ao longo de toda a existência, cabendo às ciências do desenvolvimento compreender as peculiaridades de cada fase, além de destrinchar os modos como elas se relacionam entre si”, comenta Breno. Neste cenário, fenômenos típicos da vida de adultos e idosos tornam-se objeto de estudos os mais diversos. Dentre os temas de tais pesquisas, destaque para investigações sobre as diferenças entre envelhecimento normal e patológico – ou entre reserva cerebral e cognitiva – e para assuntos ligados ao efeito protetor de estimulação ambiental, ao estresse cumulativo, às patologias do envelhecer e aos métodos de promoção do chamado “envelhecimento bem sucedido”. “Há, ainda, indagações sobre temas como relações sociais, impacto da viuvez, divórcio e alterações de padrões familiares”, completa o médico.


Eles merecem! Confira novas e boas conclusões da ciência em prol da qualidade de vida de homens e mulheres que já tanto fizeram pelo bem-estar do planeta Apesar de ainda pouco efetivo, o uso de videogames em atividades de reabilitação corporal, treinamento da memória e desenvolvimento de novas habilidades cognitivas revela-se importante vertente de pesquisa em diversos países. Novos tratamentos contra problemas demenciais – com ênfase no Mal de Alzheimer – são hoje possíveis devido ao entendimento das alterações biológicas relacionadas ao surgimento de tais enfermidades. Ainda sobre tais “quadros demenciais”, pesquisas mostram que fatores como baixa atividade física, má alimentação, atividades com baixa demanda de esforço cognitivo – além da presença de uma série de doenças (hipertensão arterial, diabetes melito e depressão) – aumentam o risco de desenvolvimento de Alzheimer. Tal conclusão possibilita o desenvolvimento de intervenções preventivas e com baixo custo de implementação ao longo da vida das pessoas. Estudos sobre a plasticidade cerebral têm ajudado a mudar a crença de que o envelhecimento seja, necessariamente, um processo unilateral e exclusivo de degeneração e perda. A educação e as oportunidades de desenvolvimento (pessoal e profissional) são tão ou mais importantes do que a idade, no que se refere ao status cognitivo do idoso. Além disso, pessoas equilibradas, otimistas, que possuem metas e têm senso de responsabilidade e engajamento, tendem a manter melhores condições de saúde física, qualidade de vida e funcionamento cognitivo.

Os benefícios da convivência 2.0 Uma série de dispositivos eletrônicos de informação e comunicação tem ampliado, significativamente, a capacidade de atuação social dos indivíduos com mais de 60 anos. Tais tecnologias, afinal, são conhecidas por multiplicar as possibilidades de desenvolvimento cognitivo, social e afetivo de seus usuários. “Apesar de ainda não conhecermos os detalhes de tais repercussões na vida dos idosos, as evidências iniciais são promissoras. Estudos mostram, por exemplo, que os recursos digitais aumentam os níveis de processamento cognitivo básico de quem os utiliza”,

explica o professor Cristiano Mauro Assis Gomes. Na concepção de Leandro Malloy-Diniz, as ferramentas tecnológicas permitem, aos idosos, maior acesso ao amplo volume de informações hoje disponíveis, além de estimulá-los a buscar novos conhecimentos – atitude fundamental à manutenção de padrões cognitivos saudáveis e à proteção contra quadros de demência. “As tecnologias aumentam, ainda, a possibilidade de interação social e diminuem o sentimento de isolamento, responsável pelo surgimento de quadros depressivos”, comenta.

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ENTREVISTA

O saber que transforma a cultura Diretor do premiado Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, Tomaz Aroldo da Mota Santos comenta a importância das atividades de ensino e pesquisa Maurício Guilherme Silva Jr.

A clareza e a serenidade com que aborda algumas das mais complexas questões – práticas e teóricas – da ciência são reveladoras dos porquês de sua bem-sucedida trajetória de professor, pesquisador e gestor acadêmico. Ex-reitor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – cargo que ocupou de 1994 a 1998 – e, atualmente, diretor do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da instituição, Tomaz Aroldo da Mota Santos revela e contextualiza, nesta entrevista, as nuances que levaram o ICB a vencer a edição 2013 do Prêmio de Pesquisa Básica Marcos Luiz dos Mares Guia. Além disso, discute temas como divulgação científica e financiamento de CT&I no Brasil. Para o ICB, o que significou receber o Prêmio de Pesquisa Básica Marcos Luiz dos Mares Guia? O Prêmio serve de prestação de contas das atividades do ICB para com a

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comunidade mineira. O dossiê enviado à premiação relata as ações desenvolvidas pelo Instituto ao longo de sua história. A participação, portanto, já nos era relevante por relatarmos, aos mineiros e à FAPEMIG – uma das principais financiadoras de nossas atividades de pesquisa –, o que temos feito diariamente. Após divulgada a decisão do comitê organizador, a premiação tornou-se, para nós, o reconhecimento de Minas Gerais – por meio da FAPEMIG e da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior – quanto à importância das atividades acadêmicas do Instituto, e, em especial, de seu trabalho de pesquisa, dado que o Prêmio busca reconhecer as instituições pelas iniciativas de pesquisa básica. Nossa comunidade se vê reconhecida na ideia de que auxilia a ciência, a tecnologia, a inovação, e, de maneira especial, a formação de cientistas que atuarão em instituições brasileiras e estrangeiras.

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Criado pelo Governo do Estado, o Prêmio é concedido, em anos pares, a pesquisadores mineiros, e, em anos ímpares, a unidades de pesquisa de universidades, institutos e empresas sediados em Minas Gerais. De 7 de abril a 18 de junho, estarão abertas as inscrições para a categoria “Pesquisador”. Mais informações pelo endereço www.fapemig.br/premio.


Foca Lisboa

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Qual o diferencial do ICB, no que diz respeito à pesquisa básica? Para entender o ICB, temos de mergulhar em sua história e na trajetória da UFMG. Nos anos 1960, a Universidade se modernizou por meio da reforma universitária, ação proposta, inicialmente, pela própria instituição. Depois, em 1968, a ideia se generalizou, por ação do Governo Federal. Em ambas as reformas, previa-se a criação de institutos básicos – os quais, aqui, foram chamados de “institutos centrais”. Esses espaços reuniam disciplinas, professores, recursos e meios anteriormente dispersos, na Universidade, em unidades correlatas à área biológica. Por isso é que chegaram, ao ICB, professores e servidores técnicos e administrativos das faculdades de Filosofia, Medicina, Farmácia e Odontologia, assim como das escolas de Veterinária e Enfermagem. Tais unidades foram, em certo sentido, fundadoras do Instituto. Some-se a isso o fato de que o princípio geral da reforma universitária era não duplicar recursos – materiais e humanos – destinados ao mesmo fim. Outro aspecto fundador do ICB diz respeito à ampliação das vagas no ensino superior após 1968. Daí nasceu a necessidade de reunir estudantes de áreas profissionais correlatas num ciclo básico comum: toda a formação da área biomédica migrou para o ICB, que se tornou sede dos dois primeiros anos dos cursos de Farmácia, Odontologia, Medicina etc. Nossa última vertente fundadora refere-se não apenas à Biomedicina, mas às Ciências Naturais – hoje “Ciências Ambientais” –, cujo núcleo era o curso de Ciências Naturais da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), que resultaria nos cursos de Geografia, Geologia e, aqui, no de Ciências Biológicas. o que funda o ICB, portanto, é o ensino de graduação... Sim. Além disso, passamos a reunir professores com tradição de pesquisa, o que aumentou a possibilidade de o ICB iniciar, ou consolidar, a incipiente atividade científica existente nas outras unidades. Tais

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atividades, também antes dispersas, foram potencializadas no Instituto. Nosso segundo momento de consolidação, portanto, diz respeito ao desenvolvimento da pesquisa. Por último, está o crescimento da pós-graduação. O professor Eduardo Osório Cisalpino, primeiro diretor eleito no ICB, em 1971, realizou o 1º Encontro de Pesquisa do Instituto, cujo coordenador foi o professor Marcos Luiz dos Mares Guia – que organizaria o 2º Encontro, um ano depois. Também em 1972, o professor Marcos ressaltaria que, a partir dali, poderíamos dizer que o ICB se revelava uma unidade de ensino e pesquisa. Importante ressaltar que não era comum, às unidades, realizar encontros de pesquisa. Vale o registro, pois, de que fomos pioneiros nesta área, ao organizar encontros de pesquisa com resultados parciais de professores e estudantes de Iniciação Científica e pós-graduação. Nesse período, já havia os cursos de pós-graduação em Bioquímica e Parasitologia, de modo que o ICB tem dupla vocação: de um lado, a vertente educacional, responsável pela formação de estudantes do ensino básico e de biólogos; de outro, a extensa atividade de pós-graduação. o ICB atende a todos os cursos da área de saúde da UFMG e possui mais de 90% de professores doutores ou pós-doutores. São 10 departamentos, 12 programas de pós-graduação e perto de uma centena de laboratórios. Ainda há muito por fazer? Temos colhido bons frutos. Digo de nosso elo com a sociedade, que se fortalece, principalmente, por meio do ensino de graduação. O ICB conta, hoje, com cerca de 7 mil graduandos, entre estudantes de ciclo básico, Ciências Biológicas e outros cursos. Se imaginarmos os laços de convívio de cada estudante, poderíamos multiplicar nossas relações sociais por 20. Ou seja: cerca de 140 mil pessoas têm direta ligação com o ICB. Só isso justificaria nossa existência como espaço de ensino. Entretanto, também é preciso destacar o que o Instituto propicia em termos de formação de cientistas e professores. No início de nossa história, não

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A ciência é a busca de compreensão para fenômenos sociais, naturais etc. Compreender, por si, já é importante. Afinal, o conhecimento aparentemente inútil, que não gera dinheiro, resulta em cultura. Trata-se do conhecimento que podemos ter sobre nossa vida, sobre o ‘estar no mundo’.


havia aqui muitos mestres e doutores. O primeiro desafio foi o de formá-los. No Brasil, porém, existiam poucos cursos de pós-graduação com o atual padrão. Por isso, resolvemos criar – e usar – nossa própria pós para formação de professores, trabalho que ficou a cargo de docentes vindos de outras unidades, muitos dos quais eram doutores formados fora do País. De certo modo, o ICB deu prioridade, em seus cursos, aos professores de seu próprio corpo docente. Depois, começamos a formar professores que seguiram a outras instituições, tanto em Minas Gerais quanto em outros estados brasileiros. Esse é um papel muito importante para nós, pois, para além da importância dos recursos, o que garante continuidade às pesquisas é o pesquisador. Além disso, não há como formar cientistas senão fazendo ciência. As duas coisas caminham juntas. Hoje, temos vasta produção científica, em campos diversos. Também são crescentes, no ICB, projetos de educação para a ciência. Trata-se, na maior parte das vezes, de Educação Biológica como atividade de extensão. Trabalhamos com vários instrumentos de divulgação científica, para além das mídias tradicionais. Ressalto, por exemplo, o Museu de Ciências Morfológicas, um dos estabelecimentos mais visitados de Belo Horizonte, principalmente, por estudantes de escolas públicas. Investimos, ainda, em atividades de pesquisa aplicada, iniciativas com viés tecnológico e que se tornam objetos de patenteamento.

A divulgação é instrumento fundamental para que a ciência se faça cultura. Afinal, se a produção do conhecimento estiver circunscrita à sociedade dos cientistas, seus efeitos sociais inexistem.

Que distinções o senhor faz, hoje, entre “ciência básica” e “ciência aplicada”? Essas diferenças são sempre suscitadas, em várias circunstâncias. Lembro-me de comentários do professor Evando Mirra, da Escola de Engenharia, para quem a atividade científica busca explicação sobre determinado fenômeno, enquanto a tecnologia procura desenvolver produtos e processos. As duas coisas não estão dissociadas, pois a tecnologia facilita a pesquisa científica, e vice-versa. Suponha que alguém tenha descoberto certa liga resistente e leve entre dois metais, capaz de gerar produtos com vasta aplicação nas indústrias automobilística ou aeronáutica. O cientista explicará o modo como os metais agem, para formar a liga, no nível atômico. Já alguém da tecnologia

procurará otimizar a produção da liga, para que ela se torne mais forte, eficaz, leve ou econômica. Tal distinção revela que uma coisa facilita a outra. Certos equipamentos mudam a visão dos cientistas sobre os fenômenos. Ciência e tecnologia, portanto, são atividades que implicam processos de racionalidade, criatividade e conhecimento, mas não possuem os mesmos objetivos e consequências. Leva tempo para que uma pesquisa básica se transforme em processo ou serviço. e, para certos leigos, os cientistas acabam por investir em pesquisas inúteis. É verdade. A história, contudo, revela que muitas dessas pesquisas transformaram-se em produtos importantes para a vida cotidiana, sendo que muitas delas começaram com perguntas aparentemente sem sentido. A ciência é a busca de compreensão para fenômenos sociais, naturais etc. Compreender, por si, já é importante. Afinal, o conhecimento aparentemente inútil, que não gera dinheiro, resulta em cultura. Trata-se do conhecimento que podemos ter sobre nossa vida, sobre o “estar no mundo”. A ciência, além do mais, auxilia a compreensão do que somos: quais nossas origens? Como funcionamos? Como nascemos, crescemos e envelhecemos? Muitas dessas questões, é verdade, não são respondidas pela ciência. Por outro lado, certas respostas, dadas em contextos de perguntas não aplicáveis, nos permitem compreensões importantes. A cada momento, a ciência dá explicações que suscitam debates, com novas explicações e novos fenômenos. Mudam-se, assim, os padrões culturais, pois a ciência suscita diálogos e não se estrutura em certezas definitivas, já que suas explicações são sempre provisórias. Por isso, a atitude do cientista deve ser de modéstia. Além de não haver certeza absoluta sobre o que é dito, a explicação e o caminho escolhidos podem não ser os melhores. Ciência é fruto de trabalho coletivo, de discussões que atravessam os séculos. Neste sentido, pode-se, na ciência, falar em progresso, ao contrário do que ocorre, por exemplo, com a arte. Apreciamos hoje, com a mesma emoção e o mesmo senso estético, uma peça musical da Idade Média. De outro modo, em Física ou Biologia, muitos conceitos foram superados.

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Como o senhor analisa as atuais fontes de financiamento à pesquisa no Brasil? Na atividade científica, são importantes os que fazem ciência, os que formam cientistas, os que divulgam e os que pensam políticas públicas e garantem as condições para tais políticas. Vai aqui, aliás, minha homenagem aos dirigentes da FAPEMIG, pois, sem eles, não haveria pesquisa. Num laboratório, todos têm um pouco de cientista e gerente. A pesquisa básica, em nossa tradição, tem de ser garantida pelo estado. Afinal, as fontes de financiamento são o próprio estado, ou, eventualmente, as empresas e o chamado mercado. Os professores Carlos Ribeiro Diniz e Marcos Luiz dos Mares Guia diziam que, para que a pesquisa básica fosse garantida, parte substantiva do financiamento deveria vir do estado. Trata-se da pesquisa nascida com a curiosidade do pesquisador, e que não possui aplicação previsível. As políticas de ciência, pois, não precisam nem devem esperar por “relevância social”. Na pesquisa básica, a relevância é a contribuição para a própria ciência, pois o pesquisador não precisa provar a importância dos processos biológicos para a cura de doenças. Além disso, o financiamento não pode ser determinado, apenas, pelo capital produtivo do pesquisador, mas pela natureza da pesquisa proposta. Se for relevante, o estudo deve ser apoiado, mesmo que apresentado por pesquisadores iniciantes. Por fim, a pesquisa científica deve ser compartilhada pelo sistema produtivo. As empresas – em especial, as brasileiras – precisam investir em pesquisa, por meio de parcerias com pesquisadores, que, por sua vez, devem deixar seus preconceitos de lado quanto à relevância da pesquisa aplicada. A relação mais profícua entre universidade e empresa exige, evidentemente, custos elevados. Há que convocarmos os empresários para este esforço. Em Minas Gerais, seria interessante, ainda, saber quantos doutores a indústria emprega ou quantos laboratórios estão nelas montadas.

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o que o senhor acha da divulgação científica realizada nas universidades? Em primeiro lugar, se pensamos que a ciência tem valor em si e é fonte de geração da cultura, essa função só ocorre se todos tiverem acesso a tal elaboração. Para mencionar algo no campo da Biologia, lembro-me que, segundo recente enquete da Folha de S.Paulo, mais de 50% dos brasileiros acreditam que o mundo foi criado em seis dias. A visão religiosa para explicação da natureza, do universo e de uma série de fenômenos – aos quais também a ciência se dedica – segue muito importante. Não tenho nada contra as religiões. No entanto, há outra visão da qual grande parte da sociedade não tem conhecimento. Por isso, quando os poderes do estado precisam tomar decisões importantes para a vida das pessoas, tais escolhas acabam obstaculizadas por manifestações de desconhecimento sobre avanços da ciência. Isso mostra como a divulgação da ciência é importante para alargar a visão das pessoas – que não são especialistas sobre a vida, o mundo ou a sociedade. A divulgação é instrumento fundamental para que a ciência se faça cultura. Afinal, se a produção do conhecimento estiver circunscrita à sociedade dos cientistas, seus efeitos sociais inexistem. Participei de simpósio em Portugal sobre formas de divulgação científica no mundo. Um professor inglês falava, por exemplo, da importância de se discutir, num pub, o modo de desenvolvimento das cervejas. A mais fundamental das ações, porém, é um bom curso de ciências na educação básica – do ensino fundamental ao médio –, o que implica bons profissionais. Eis outra meta da universidade: formar bons professores, que, bem pagos, possam divulgar a ciência no momento de formação de crianças e jovens. Esse é o modo mais amplo e eficaz de divulgação científica, sem prejuízo, obviamente, das outras formas de disseminação da ciência.

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Num laboratório, todos têm um pouco de cientista e gerente. A pesquisa básica, em nossa tradição, tem de ser garantida pelo estado. Afinal, as fontes de financiamento são o próprio estado, ou, eventualmente, as empresas e o chamado mercado.


PECUÁRIA

Aplicação de nanotecnologia aumenta eficácia do tratamento da mastite bovina Virgínia Fonseca

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Por entre serras e riachos, nas bucólicas fazendas de Minas, a cena ainda se repete. Cada vez com menos frequência, alguns hão de notar, saudosamente. O dia amanhece, em meio ao cacarejar das aves e ao mugido do rebanho. Canecos em punho, as crianças – primos, sobrinhos, netos, afilhados e filhos – acorrem ao curral, onde os adultos, madrugadores, ordenham o gado. O objetivo é um só: degustar o leite recém-saído do úbere da vaca. Aquele líquido denso, quente, espumoso, com gostinho de infância mineira e levemente salgado... Opa! “Levemente salgado”? Parem as canecas! A presença de sódio, que confere sabor salobro, é uma das características do leite proveniente de animais contaminados pela mastite bovina. Trata-se da doença mais relevante para os produtores leiteiros em todo o mundo, devido à alta incidência e aos prejuízos econômicos que acarreta. Trata-se, também, de um dos motivos pelos quais médicos e defensores de medidas sanitárias não recomendam a ingestão do leite in natura, ainda que pese a magia despertada, no imaginário, pela cena acima. A mastite é uma infecção na glândula mamária que pode ser provocada por diferentes tipos de microrganismos, como leveduras, fungos, algas e bactérias. Estas últimas respondem pela maior parte dos casos. Com vistas a reduzir as perdas decorrentes da enfermidade, em todo o mundo, especialistas dedicam-se a novas formas de combatê-la. Na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) – unidade Gado de Leite, em Juiz de Fora, Zona da Mata mineira –, pesquisadores têm obtido êxito com auxílio da nanotecnologia. Tais estudos tiveram início há cerca de cinco anos, quando o médico-veterinário Humberto de Mello Brandão ingressou na Embrapa Gado de Leite com a função de aprofundar investigações na área de nanotecnologia. O pesquisador trabalhou, em parceria com a professora Vanessa Mosqueira, da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), no desenvolvimento de nanopartículas capazes de aumentar a eficiência dos antibióticos no combate às bactérias causadoras da mastite. O leite de animais acometidos pela doença apresenta alteração em sua composição quanto a proteínas, gorduras e outros elementos, além de potencial contribuição

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Os prejuízos advêm de consequências como queda na produção, descarte de leite, gastos com medicamentos e serviços veterinários, além de morte do animal. para a elevação da contagem bacteriana total (CBT) e, principalmente, das células somáticas (CCS), uma vez que a tentativa de destruir os microrganismos invasores resulta em concentração de células de defesa (polimorfonucleares) na região afetada. Por sua vez, o manejo nutricional adequado auxilia a redução de gorduras e sólidos totais. Já a mitigação das taxas de CCS – diretamente relacionadas à ocorrência clínica ou subclínica da mastite – mostra-se mais delicada e depende do bom estado sanitário do rebanho, resultado a que se pode chegar por meio de programas eficazes de controle da enfermidade. Por meio da Instrução Normativa 62, válida a partir de 2012, em substituição à anterior (IN 51), o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento estabelece normas de produção e qualidade do leite. Humberto Brandão explica que os parâmetros composicionais definidos pela IN 62 são, em geral, alcançados com o adequado ajuste do manejo nutricional da vaca. Já os índices de CTB, embora ainda sejam elevados no Brasil, podem diminuir significativamente pela simples adoção de práticas de higiene na ordenha, nos equipamentos, e pela refrigeração imediata. No caso dos índices de CCS – diretamente relacionados à ocorrência clínica ou subclínica da mastite –, o alcance da meta mostra-se mais delicado e é altamente dependente do bom estado sanitário do rebanho, resultado a que se pode chegar por meio de programas eficazes de controle da mastite. O combate à infecção baseia-se em três fatores: identificação da doença, prevenção e tratamento correto dos animais contaminados. Esta última etapa é tida como ponto sensível, devido ao grande número de patógenos capazes de causar a mastite. Atualmente, o uso de antibióticos convencionais constitui a via mais usual de ação. A pesquisa conduzida pela Embrapa Gado de Leite e pela Ufop apresenta, como novidade, a associação desta técnica à nanotecnologia, o que garante eficácia aos fármacos ministrados.

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Desafio no campo

Os agentes causadores da mastite podem ser de origem ambiental ou contagiosa. No primeiro caso, o reservatório das bactérias é o ambiente em que a vaca vive. O acúmulo de esterco, urina, barro e outros detritos favorece o crescimento das bactérias. Assim, a maioria das propriedades apresenta esse tipo de mastite, pois é difícil a eliminação dos patógenos presentes nesses locais. Já os microrganismos contagiosos, principalmente o Staphylococcus aureus e o Streptococcus agalactiae, promovem a contaminação de um animal a outro, ou, ainda, de um quarto mamário a outro – principalmente, no momento da ordenha. Como animais infectados tornamse o principal reservatório da bactéria, em ambas as situações, o tratamento rápido é fundamental para evitar o contágio de outras reses do rebanho. Hoje, a terapia baseia-se em formulações farmacêuticas para aplicação parenteral ou intramamária, sendo esta última considerada mais efetiva. “Normalmente, utiliza-se um antibiótico convencional veiculado numa formulação aquosa ou oleosa. Há, também, tratamentos alternativos, com produtos naturais ou homeopáticos, mas sua eficácia ainda precisa ser comprovada cientificamente”, detalha o pesquisador. Embora os produtos alopáticos apresentem eficácia satisfatória, elementos como o tipo de patógeno, a via de administração do medicamento, a escolha da base farmacêutica e seu uso adequado podem ocasionar variações. Algumas bactérias desenvolvem mecanismos para sobressair-se à droga, como a produção de enzimas que degradam o antibiótico, a resistência à fagocitose do sistema de defesa do animal ou a indução à formação de abscessos. “Nessas situações, o remédio, muitas vezes, não chega à bactéria ou se caracteriza por baixa concentração, insuficiente para matá-la. As consequências são a recorrência da manifestação clínica de mastite e a seleção de bactérias resistentes”, adverte Humberto Brandão.

Menos é mais

É aí que entra a nanotecnologia, área capaz de aumentar a eficácia dos antibióticos já existentes no mercado e reduzir o

risco de surgimento de organismos resistentes. “Deixemos claro que não se trata de uma nova base farmacêutica ou algo semelhante, mas da atividade que permite a construção de um novo ‘veículo’ para as drogas convencionais no combate às bactérias”, ressalta o pesquisador. Por meio das técnicas adotadas no estudo, os cientistas inserem o antibiótico numa nanopartícula, espécie de cápsula extremamente pequena que protege o medicamento, possibilitando que ele seja direcionado às células da glândula mamária em contato com as bactérias. O mecanismo permite, até mesmo, veicular um fármaco hidrofóbico (insolúvel em água) num meio aquoso. “Nestes casos, a base para aplicação seria o óleo, mas, com a nanotecnologia, podemos reverter para água, o que faz com que o medicamento se espalhe melhor e mais rapidamente pela glândula mamária”, conclui. O processo também se mostra eficaz na absorção do medicamento. Numa formulação convencional, à base de óleo, o líquido, após aplicação do medicamento, tende a se dividir em gotículas, que se dirigem para a parte superior do úbere, por meio dos ductos lactíferos. Estes canais estreitam-se progressivamente, o que dificulta a movimentação da substância – as gotículas de óleo acabam funcionando como pequenos êmbolos. Isso

retarda a chegada do antibiótico à porção superior da glândula mamária, onde costuma haver a maior concentração de bactérias. Ao encapsular o antibiótico na nanopartícula e usar água em vez de óleo como meio, os cientistas conseguem que a medicação chegue mais rapidamente a todos os pontos da glândula mamária. Estudos realizados pela equipe constataram que, em seis horas, as nanopartículas já haviam atingido todas as regiões da glândula mamária. Como a liberação do antibiótico se processa gradativamente ao longo da glândula, existe mais eficácia neste tipo de medicamento, distribuído de forma homogênea até o ápice do úbere. Ao longo do trajeto, ainda há o direcionamento do antibiótico para o interior das células de defesa da vaca, passo importante no combate à mastite. Isso porque, durante a infecção, tais células fagocitam o microrganismo para destruí-lo. Entretanto, certas bactérias podem resistir ao ataque, mantendo-se em estado de “hibernação”, o que lhes possibilita sobreviver a um tratamento convencional. Mais tarde, com a morte das células fagocitárias, a bactéria é liberada, provocando novamente a doença. Ocorrem, então, as mastites reincidentes, ou as chamadas vacas “mamiteiras”, que, além de causar prejuízos, contribuem para a seleção de bactérias mais resistentes, capazes de contaminar outros animais do rebanho.

Conexão de possibilidades São infinitas, segundo o pesquisador Humberto Brandão, as oportunidades oferecidas pela nanotecnologia. E o Brasil, avalia, tem se destacado, na referida área, como um dos países que mais progressos obtém nos estudos sobre aplicação das técnicas nanotecnológicas no agronegócio. Em Minas, duas redes consolidadas reúnem cientistas da área e interagem entre si, contribuindo para o avanço das pesquisas: Agronano, coordenada pela Embrapa, e Nanobio-MG, mantida pela FAPEMIG. Os profissionais envolvidos na pesquisa sobre mastite trabalham com a aplicação da nanotecnologia a outros medicamentos. O potencial antibiótico natural da própolis inspira estudos para uso de nanopartículas da substância pelo segmento de produção de leite orgânico. Outra novidade diz respeito ao tratamento da ceratoconjuntivite, doença que acomete os bovinos e é causada pela bactéria Moraxella bovis. A técnica permitiu o desenvolvimento de partículas minúsculas, que aderem à mucosa ocular e liberam o medicamento gradativamente, evitando que o composto seja “lavado” pela lágrima do animal. Em breve, estudo clínico deve ser conduzido pelo pesquisador Alessandro Guimarães, para comprovar a eficácia dessas nanopartículas. MINAS FAZ CIÊNCIA • DEZ/JAN/FEV 2014

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Arquivo Embrapa

Humberto Brandão conduz pesquisas que exploram possibilidades da nanotecnologia para o agronegócio

Pioneirismo latino

Todo o processo foi concebido para funcionar de forma totalmente segura: os componentes da nanopartícula são liberados para uso humano e a formulação foi projetada para não deixar resíduos no leite ou provocar qualquer toxidade para o animal. Por meio de um acordo binacional entre a Embrapa e o Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (Inta), da Argentina, testes estão em andamento nos dois países. Os estudiosos pretendem fazer com que a eficácia da técnica seja comprovada por vários grupos de pesquisa. Brandão considera os resultados, até o momento, positivos. “Tratamos bovinos e ovinos, em colaboração com a Embrapa Pecuária Sudeste, e obtivemos bons índices de cura, sem nenhum efeito adverso”. No mercado – ou melhor, no campo –, a expectativa é grande, pois se trata da primeira formulação intramamária do mundo a usar nanopartículas. “Já fui indagado por vários técnicos sobre quando o produto estará disponível para uso nas fazendas leiteiras”, conta o pesquisador. O grupo estima iniciar a fase de transferência de tecnologia ainda no primeiro semestre de 2014. Dentre todos os trâmites necessários, a exemplo do registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Brandão prevê um prazo de cerca de três anos até a comercialização. O preço, por sua vez, não deve ser muito diferente dos produtos hoje existentes, assim como não haverá alteração na maneira de administrar o medicamento. A

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forma de aplicação intramamária foi escolhida, justamente, por ser mais eficaz e já usual entre os produtores rurais. “Levaremos a terapêutica de precisão ao dia a dia do pecuarista, de modo a otimizar o uso dos antibióticos, sem mudar sua rotina”, sintetiza Brandão. Os estudos laboratoriais contaram com auxílio de uma equipe de colaboradores, como a engenheira de Bioprocessos e Biotecnologista Juliana Gern, e outros pesquisadores da Embrapa. Na Ufop, os trabalhos são conduzidos pela professora Vanessa Mosqueira e pelas estudantes Raquel Araújo e Raquel Castanheira, da Escola de Farmácia. Existem, ainda, pesquisadores da Rede Mineira de Nanobiotecnologia colaborando com os projetos em andamento.

trocando em miúdos A nanotecnologia pode ser entendida, de forma simplista, como uma nova característica gerada para dado material pelo controle do seu tamanho. Para se ter ideia da escala de trabalho, se uma bola de futebol tivesse um nanômetro de diâmetro, o planeta Terra teria um metro.


RELIGIãO

Pesquisa investiga modo como as religiões de matriz africana são interpretadas pela população no País William Ferraz

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Candomblé, umbanda, quimbanda, omolocô, xambá... Vários são os nomes dados aos caminhos percorridos pelos ancestrais afro-brasileiros em busca de ascensão espiritual e de diálogo com Deus. Em cada vertente, elementos históricos e socioculturais dão aspectos próprios à maneira como seus seguidores olham para os céus. Com o passar dos tempos, surgiram ramificações associadas à fé dos nativos pré-colombianos, enquanto outras fundiram-se a elementos da crença católica, e, mais recentemente, características do espiritismo de Allan Kardec passaram a integrar alguns rituais, consolidando um complexo universo de crenças ainda incógnito para a grande população. “As religiões brasileiras de matriz africana são aquelas nascidas em solo brasileiro, praticadas inicialmente pelos negros africanos trazidos ao Brasil na condição de escravos, que praticavam suas crenças com base em tradições tribais, mas adotaram conceitos e rituais de outras expressões de fé que encontraram no Novo Mundo”, explica Erisvaldo Pereira dos Santos, professor do Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS) da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Santos desenvolve longo estudo social sobre a maneira como as religiões afro-brasileiras são compreendidas pela sociedade. O contato do professor com a temática, a partir de perspectiva que problematiza o histórico das crenças afro-brasileiras no contexto social, teve início em 1983, por meio do curso da Semana de Religião Afro-Brasileira, no então Instituto Superior de Pastoral Catequética (Ispac) de Salvador (BA), ministrado, à época, pelo padre francês François de l’Espinay. O pesquisador conta que, apesar da expressiva participação na construção da identidade histórico-cultural do Brasil, seus estudos demonstram que, ainda nos dias de hoje, as heranças de raiz africana são estigmatizadas e postas à margem da sociedade, comportamento que se estende

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ao campo religioso. Em um país cuja crença é predominantemente baseada em princípios judaico-cristãos – cerca de 86,8%, de acordo com o último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) –, as expressões das doutrinas de matriz africana ainda se revelam um tabu, geralmente atribuídas a seitas e paganismos. Entre os seguidores, há consenso de que conotações dessa natureza são desfavoráveis e formadas sem conhecimento abalizado, fato que contribui para o cenário de exclusão social que precisa ser vencido. “O próprio uso do termo ‘macumba’, que generaliza e trata de forma pejorativa os cultos afro-brasileiros, demonstra isso”, explica Erisvaldo Santos. O vocábulo se refere ao instrumento de percussão de uso comum durante os cultos. O cenário observado motivou o desenvolvimento do projeto “A intolerância religiosa com relação às religiões de matriz africana no contexto de escolas municipais de Belo Horizonte”. O objetivo, à época da iniciativa – que teve início em 2008 –, seria investigar a forma como a diversidade religiosa é abordada no âmbito educacional. “Parte do tratamento excludente dado às crenças de matriz africana remonta aos primeiros anos de socialização básica do indivíduo, como resultado dos vestígios culturais arraigados à educação brasileira, que carregam visão desfavorável em relação a tais práticas religiosas”, explica.

Tríade de premissas

O estudo tomou por base três pressupostos básicos, para os quais se buscava constatação e reflexão. O primeiro deles foi o de que, no contexto escolar, a criança depara-se com ambiente de formação de identidades socioculturais, de reprodução e enfrentamento de preconceitos e formas correlatas de intolerância. O segundo considera que, em vários segmentos da sociedade brasileira, há atitudes de preconceito e de intolerância com relação aos adeptos de religiões de matriz africana.


Já o terceiro pressuposto remonta à ideia de que a hegemonia das religiões de matriz judaico-cristã, a discriminação racial e a visão bestializada do culto a entidades espirituais contribuem para a falta de elaboração de políticas educacionais favoráveis à extinção – ou, pelo menos, à redução – do preconceito. Para conduzir os estudos, Santos encaminhou ofício a 15 escolas da capital mineira, com o objetivo de captar professores disponíveis a participar do desenvolvimento do projeto. Doze escolas responderam positivamente. A pesquisa visava verificar se a regra prevista pela lei 10.639/03 – alterada pela lei 11.645/08 –, que torna obrigatório o ensino da cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas públicas e particulares, do ensino fundamental ao médio, estava sendo aplicada. “A proposta apresentada pela lei é de conceituação abrangente, no sentido de compreender a herança afro-brasileira como parte inseparável da história nacional, valorizando-se a cultura, o pensamento, e, não obstante, as religiões de matrizes africanas”, explica Erisvaldo. De acordo com o pesquisador, ao longo da pesquisa, identificou-se grande dificuldade de promover a integração social de uma minoria religiosa numa sociedade cuja orientação é essencialmente fundamentada em doutrina religiosa predominante, como é o caso do cristianismo no Brasil. “A manifestação de uma crença que se expressa por meio de elementos tão distintos dos costumes cristãos é recebida com resistência, já que a pouca similaridade na linguagem conduz à interpretação de que outra entidade divina está sendo cultuada nesses espaços. Trata-se de algo que os cristãos, por doutrina, não estão abertos a aceitar com naturalidade”, explica. Santos ressalta, ainda, que existe intrínseca relação entre o preconceito racial e a rejeição a religiões descendentes da cultura negra. “Os estudos partiram da constatação de que há tratamento diferen-

ciado contra devotos ou descendentes de praticantes de religiões de matriz africana. A errônea interpretação que associa a crença à feitiçaria faz com que o preconceito seja disseminado para novas gerações, como forma de resguardar os jovens ante uma suposta ameaça”. De acordo com Santos, essa visão habitual é transportada aos ambientes didáticos. “Os próprios docentes abordam o assunto de forma apreensiva e resistente, o que fomenta a exclusão cultural entre os jovens”, diz. A pesquisa buscou identificar elementos que subsidiassem um projeto de elaboração de programas de informação e conscientização, com o objetivo de contribuir para a superação da atitude de indiferença de educadores frente ao preconceito e à intolerância religiosa de que são vítimas crianças e adolescentes em escolas de diversas partes do País. Neste sentido, Belo Horizonte apresenta um cenário ainda mais complexo. O município adota postura em que o ensino religioso não é aplicado em escolas públicas. O professor argumenta que essa maneira de tratar a religiosidade pode agravar o tratamento preconceituoso com as minorias. “A religiosidade deve ser estudada, mas de forma ampla e conciliadora, distante dos moldes judaico-cristãos que vigoram nos dias de hoje. É necessário difundir o conhecimento religioso a partir de uma visibilidade histórico-cultural e desprovida de julgamentos pré-estabelecidos, com base na preocupação com o próximo e no respeito às raízes de cada um”, completa. Os estudos desenvolvidos visam problematizar a questão e promover a reflexão da sociedade quanto ao pensamento pré-conceituado, no âmbito religioso ou racial, adotando cautela com a religião institucionalizada e compreendendo que, do ponto de vista cultural, há diversos conteúdos cognitivos aptos a serem ensinados. O Brasil é uma nação tão vasta e de tão ampla variedade cultural que tal-

vez ainda leve um bom tempo para que se conscientize de sua distinta – e rica – identidade. O pesquisador aponta que o projeto revelou a necessidade de desprendimento do preconceito, provocado, por vezes, pelo medo do novo. Além disso, é evidente que estudos sociais e projetos de conscientização e valorização da cultura do País devem ser contínuos. Santos destaca o modo como a ciência – muitas vezes compreendida como antagonista à religiosidade – tem sido ferramenta útil para a solução do problema. “Em seu sentido mais amplo, a ciência é o instrumento pelo qual estudamos e buscamos soluções para problemas. O fato de este ser um debate religioso não anula sua aplicabilidade numa interpretação abrangente”, conclui o pesquisador.

Projeto: A intolerância religiosa com relação às religiões de matriz africana no contexto de escolas municipais de Belo Horizonte Coordenador: Erisvaldo Pereira dos Santos Modalidade: Edital Universal Valor: R$ 20.777,75

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ENGENhARIA FLOREsTAL

Pesquisadores da Universidade Federal de Lavras testam plantas aquáticas capazes de construir biofiltro para eliminação de metais tóxicos Virgínia Fonseca

Macrófitas aquáticas são plantas que, ao longo de sua evolução, retornaram do meio terrestre para o aquático. Tais espécies podem se enraizar no solo sob a água ou flutuar na superfície. Suas características variam de acordo com as diferentes classificações e famílias botânicas a que pertencem. Presentes em áreas de várzeas, açudes, reservatórios de hidrelétricas, lagoas naturais e artificiais, esses vegetais, muito comuns em Minas Gerais, estão na mira de um estudo da Universidade Federal de Lavras (Ufla) que trata do desenvolvimento de um filtro biológico para recuperação de ambientes poluídos por metais tóxicos.

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As espécies em questão são consideradas adequadas ao uso na remediação de metais pesados, graças a seu crescimento intenso e a sua resistência a diferentes condições ambientais. Esse primeiro fator beneficia, especialmente, uma característica fundamental ao uso de organismos vegetais na remediação de locais contaminados: a necessidade de grande quantidade de biomassa para alocar os elementos removidos. As macrófitas podem, ainda, ser utilizadas para “detectar” a presença dos elementos tóxicos, ao exibir sinais facilmente perceptíveis em sua morfologia.

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Taboa (Typha Typha domingensis domingensis), chapéu-de-couro (Echinodorus grandiflorus), aguapé (Eichhornia crassipes rus crassipes), alface d’água (Pistia Pistia stratiotes stratiotes) e braquiária do brejo (Brachiaria Brachiaria arrecta arrecta) são algumas das espécies mais conhecidas pela população e que têm sido estudadas pela equipe do professor Evaristo Mauro de Castro, do Departamento de Biologia da Ufla. As duas primeiras – taboa e chapéu de couro – foram alvo de trabalhos mais aprofundados e mostraram, de forma geral, capacidade de acumular os elementos tóxicos a que foram expostas (chumbo, cádmio, arsênio e


Arquivo do projeto

cromo) e de manter o crescimento. Outras, por sua vez, apresentaram respostas particulares de sensibilidade a alguns dos elementos, o que resulta em sua classificação como bioindicadoras. “Verificamos que se pode, de fato, vislumbrar um potencial muito grande na aplicação dessas espécies em sistemas de fitorremediação e na construção de filtros biológicos”, avalia o pesquisador.

Filtro natural

Plantas aquáticas têm apresentado grande potencial para descontaminação

A fitorremediação é o processo que utiliza as plantas para a remoção de elementos tóxicos de solos e ecossistemas aquáticos contaminados, valendo-se da capacidade que os vegetais possuem de crescer em diferentes ambientes, sujeitos a variados tipos de estresse e de pressões ambientais.

Os metais tóxicos ocorrem de forma natural em formações rochosas, mas são lentamente liberados do solo, durante sua formação, e lixiviados para depósitos e cursos d’água ao longo das chuvas. Atividades humanas como a indústria, a mineração e a agricultura, porém, têm intensificado o acúmulo desses metais em certos ambientes. Por isso, a comunidade científica ampliou esforços em pesquisas relacionadas à descontaminação do solo e de ambientes aquáticos, visto que os métodos físicos e químicos de extração atualmente existentes são onerosos. Além disso, essas técnicas envolvem procedimentos que necessitam de manejo do solo ou da água, o que pode gerar novos refugos. “Tratar os resíduos de processos industriais é nossa responsabilidade, pois constitui problema social e ambiental. As pessoas sofrem com a baixa qualidade de vida decorrente de contato com esses efluentes contaminados, que podem levar ao desenvolvimento de doenças e a problemas ambientais sérios”, declara o professor. Evaristo Castro explica que a diversidade e a complexidade das interações dos elementos tóxicos com o meio é um dificultador no processo de extração e descontaminação. Segundo o pesquisador, a aplicação de filtros biológicos já é usual e satisfatória em alguns países. “Na Engenharia Ambiental, a expressão ‘constructed wetlands’ é bastante comum e se refere a locais construídos que simulam ambientes naturais alagados para o tratamento de resíduos”, detalha. A proposta desenvolvida em Lavras, porém, é diferente, já que, ao invés de áreas abertas do ambiente para cultivo das macrófitas, seriam usados tanques isolados, que permitiriam maior controle da proliferação dessas plantas. A preocupação é fundamentada: agressivas, tais espécies podem colonizar grandes territórios.

Coordenado pelo professor Evaristo, o projeto inclui, assim, a composição de um tanque isolado, com sistema de filtragem de resíduos sólidos e com volume controlável. O recipiente seria preenchido com a água contaminada e receberia as plantas por tempo suficiente para a remoção dos elementos, até valores considerados seguros. Posteriormente, as águas seriam liberadas, já com teores bem menores dos elementos tóxicos. Pode-se usar vários tanques em sequência e o líquido precisa ser examinado antes de retornar ao ambiente, para que se tenha certeza dos níveis de elementos na solução. O pesquisador conta que, após o uso, existe a possibilidade de incinerar as plantas de forma a resgatar parte dos metais para reutilização na indústria. O baixo custo de aplicação e o fato de não ocasionar poluição secundária seriam as principais vantagens do filtro de macrófitas proposto pela equipe da Ufla. “A fitorremediação seria bem mais limpa e com menos resíduos do que as técnicas químicas e físicas comumente usadas”, defende o pesquisador.

Boas perspectivas

O grupo realizou testes entre macrófitas e diferentes elementos tóxicos, como arsênio, cádmio, chumbo, cromo e zinco. Os resultados mostraram-se variados para cada espécie. Algumas, como o aguapé, demonstraram tolerância para arsênio, cádmio e chumbo sem prejuízos para o crescimento, a anatomia ou a fisiologia. O mesmo se confirma em relação à taboa e à canarana. No que tange a outras plantas, como a braquiária do brejo, registrou-se sensibilidade a certos elementos. “Neste caso, elas são classificadas como bioindicadoras. A braquiária, por exemplo, tem potencial para bioindicadora do cádmio”, conta Evaristo Castro. Os resultados, portanto, são muito particulares, mas sempre se relacionam à tolerância ou à capacidade de bioindicação com as características anatômicas e fisiológicas. Caso interessante se deu, segundo o professor, com o aguapé. A espécie demonstrou tamanha tolerância ao arsênio, que ampliou sua taxa fotossintética em função da presença do elemento. “Esse aumento relaciona-se à anatomia da planta, que revelou adaptações foliares

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para, por exemplo, capturar mais CO2 por meio de maior quantidade de estômatos nas folhas”, explica. De forma geral, conclui o coordenador, observou-se grande potencial das plantas testadas nas pesquisas. “Usamos concentrações elevadas, que alcançam de 800 a mil vezes o valor de referência permitido, pela legislação, para a água. Assim, constatamos que as plantas, realmente, possuem grande potencial de descontaminação”, revela. Encontrar espécies potencialmente utilizáveis e reconhecer quais elementos se pode remediar são os objetivos dos atuais trabalhos. Oito espécies já foram analisadas pela equipe de pesquisa, para, ao menos, três elementos tóxicos. “Esperamos, com o projeto, trabalhar dez espécies e três elementos para que tenhamos ampla gama de possibilidades de aplicação. Estamos quase concluindo a fase de teste das espécies”, adianta Evaristo Castro. Paralelamente, realizam-se experimentos em microescala, para já aplicar

essas plantas no sistema do filtro biológico. O pesquisador ressalva, porém, que a aplicação em grandes sistemas, com volumes maiores de solução contaminada por resíduos, ainda deve ser avaliada. Em longo prazo, espera-se aplicar as plantas analisadas em locais onde se gera resíduos descartados sem tratamento. Sistemas serão montados nesses locais, em parceria com empresas que precisam tratar esses efluentes gerados, e testados em grande escala. Após esses testes, os detalhes do manejo dos filtros serão definidos, bem como os protocolos para que funcionem adequadamente. A equipe envolvida nos estudos conta, também, com outros docentes da Ufla, como o professor Fabrício Pereira, que orienta os alunos no desenvolvimento das pesquisas com macrófitas aquáticas, além de alunos de mestrado e doutorado do Programa de Pós-Graduação em Botânica Aplicada da universidade.

Pesados e perigosos Minas Gerais é um estado extenso, com diferentes tipos de ambientes e atividades humanas que podem favorecer a presença de metais pesados. O alumínio, por exemplo, pode ser encontrado em grandes quantidades em solos dos ambientes de cerrado. Teores de chumbo, cobre, arsênio e cádmio também ocorrem de forma natural em terras mineiras. Muitos existem em níveis inofensivos para os organismos, mas atividades humanas como a mineração, muito importante no Estado, aumentam consideravelmente o teor dessas substâncias no solo. O desenvolvimento de filtros biológicos para aplicações nesses locais de alta concentração dos elementos tóxicos pode evitar problemas para a população e para o ambiente, já que a exposição a altas taxas, em longo prazo, pode provocar diversos problemas de saúde, como insuficiência renal e hepática.

Aguapé (Eichhornia crassipes)

Chapéu-de-couro (Echinodorus grandiflorus) taboa (Typha domingensis)

Vetiver (Vetiveria zizanioides) Alface d’água (Pistia stratiotes)

Plantas aliadas Canarana (Panicum aquaticum)

Salvínia (Salvinia auriculata)

Braquiária do brejo (Brachiaria arrecta)

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PRoJeto: Avaliação de macrófitas aquáticas ocorrentes em Minas Gerais com potencial para serem utilizadas como bioindicadoras e fitorremediadoras e com potencial para o desenvolvimento de um filtro biológico para metais tóxicos. CooRdenAdoR: Evaristo Mauro de Castro ModALIdAde: Programa Pesquisador Mineiro VALoR: R$ 48.000,00


METROLOGIA

A exata medida do progresso Rede Metrológica de Minas Gerais investe na formação dos profissionais responsáveis pela ciência das medições. diogo Brito

Você já ouviu falar em Metrologia? Pois saiba que muitos produtos usados no dia a dia beneficiaram-se de tal ramo do conhecimento. Trata-se, em suma, da ciência das medições. Ou, em outros termos, da atividade capaz de garantir, por exemplo, que a carne comprada no supermercado tenha o peso anunciado na embalagem. Os profissionais da área, portanto, estudam, na teoria e na prática, os pesos, as medidas e os sistemas de valor de todo o mundo, de modo a afiançar que os processos industriais sejam realizados de maneira padronizada e que produtos e serviços respeitem bons padrões de qualidade. Equipamentos que não passam por manutenção podem ficar fora das normas, não atendendo às exigências dos órgãos fiscalizadores. A Metrologia atua, neste sentido, em diversos processos a envolver a saúde humana. Por meio dela, uma série de aparelhos passa por verificação e é devidamente calibrada. Que o diga o etilômetro – mais conhecido por “bafômetro” –, que precisa estar impecável, do ponto de vista das verificações metrológicas, para melhor veracidade das informações colhidas. MINAS FAZ CIÊNCIA • DEZ/JAN/FEV 2014

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Também o Inmetro possui, em Minas Gerais, 76 estabelecimentos para calibração de equipamentos e laboratórios de ensaio.

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No Brasil, o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) é o órgão responsável por manter as unidades fundamentais de medida, de modo a garantir padrões internacionais, disseminando-os às empresas. Em solo mineiro, no que tange à padronização dos equipamentos usados no comércio e na indústria, uma série de laboratórios busca adequar-se às exigências dos órgãos internacionais e nacionais por meio da união de esforços. Há 14 anos, foi aqui criada a Rede Metrológica de Minas Gerais (RMMG) – entidade diretamente vinculada à Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) –, que atua no fomento à cultura metrológica e no desenvolvimento de projetos de capacitação de profissionais da área para atuação no mercado local. Para garantir a qualidade dos resultados proporcionados por seus instrumentos de medida, a Rede conta, atualmente, com o reconhecimento e a competência de oito laboratórios de calibração e 21 de ensaio. No total, são 74 estabelecimentos, com capacidade reconhecida em todo o Estado, para desenvolver trabalhos de Metrologia. Além de certificar laboratórios, a RMMG desenvolveu, recentemente, um projeto estruturador para o mercado metrológico. Coordenada pelo diretor executivo da Rede, Kléber Vasconcelos, e orçada em mais de R$ 300

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mil – financiados pela FAPEMIG –, a inciativa buscou ampliar a oferta de serviços em Metrologia no Estado, de modo a qualificar cerca de 90 profissionais. Segundo o diretor da Rede, o resultado tem se revelado bastante positivo. “Recentemente, em Minas Gerais, o cenário da mão de obra qualificada na área era reduzido. Além disso, a busca por profissionais qualificados, para atuar no mercado da Metrologia, deveria ser feita em outras regiões do País”, esclarece Kléber, ao destacar que, mesmo com a inclusão de cadeiras metrológicas nas universidades – principalmente, nos cursos de exatas –, eram raros os profissionais qualificados para executar tais trabalhos. “Hoje, já é possível dizer que a situação é favorável ao mercado da Metrologia. Além de disseminarmos com mais facilidade as competências metrológicas nos diversos fóruns empresariais, temos menos necessidade de buscarmos fora, por exemplo, profissionais para execução de auditorias e treinamentos”, completa.


Vantagem competitiva

Seguir as normas e padrões nacionais e internacionais assegura a qualidade dos produtos e, consequentemente, gera confiabilidade diante do mercado consumidor, de modo a proporcionar vantagens competitivas para a empresa que faz uso da Metrologia. De acordo com Kléber Vasconcelos, a ciência das medições é aplicada como diferencial para muitas corporações. “Em alguns casos, é até mesmo condição fundamental para que elas exerçam suas atividades. Além disso, os órgãos de fiscalização têm exigido cada vez mais certificações”, afirma, ao lembrar, por fim, que equipamentos certificados consolidam-se como produtos de bom funcionamento e de uso satisfatório para a população. De modo direto, enfim: equipamentos que não passam pelo crivo dos laboratórios de Metrologia ficam fora dos padrões e não

atendem às exigências dos órgãos fiscalizadores. “A questão mais importante dessa história é, na verdade, a saúde humana”, explica, ao destacar, por exemplo, que os limites aceitáveis para presença de metais pesados ou agrotóxicos em alimentos são extremamente baixos. No caso de haver medições em tais produtos com equipamentos não verificados e calibrados, as pessoas poderão consumir algo impróprio. “Temos visto casos de produtos, no mercado nacional, que tiveram de ser recolhidos. Tais indústrias sofreram penalidades expressivas”, conclui.

A tríade metrológica Os estudos da Metrologia se dividem em três categorias. A “fundamental” – também conhecida por “científica” ou “primária” – busca investigar o desenvolvimento e a demonstração de unidades de medida e a materialização de grandezas, com o intuito de atingir certos padrões. Na maioria dos casos, os estudos dessa tipologia são aplicados em instrumentos laboratoriais a serem rigorosamente calibrados. Já a Metrologia aplicada – também conhecida por “industrial” – está focada em todas as etapas e processos de produção. Por último, e com maior abrangência, há a categoria “legal”, ligada aos estudos do consumo e cujas áreas de atuação dizem

respeito ao comércio, à segurança, ao ambiente e ao fornecimento de energia. Essa categoria atua junto aos agentes que fazem com que os mais diversos tipos de instrumentos estejam de acordo com as normas técnicas e padrões nacionais e internacionais. Como exemplos de aplicação da Metrologia Legal, importante citar a fiscalização da padronização dos taxímetros instalados nos carros, das balanças usadas na pesagem de produtos alimentícios em supermercados e de equipamentos com fins comerciais e que devem estar de acordo com normas e técnicas.

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ACEssIBILIDADE

Plataforma eletrônica criada por alunos da Ufop permite que deficientes visuais divirtam-se em atividades antes restritas àqueles que enxergam Ana Flávia de oliveira

Quem tem algum tipo de deficiência, provavelmente, sonha em desfrutar de oportunidades acessíveis às outras pessoas. Com o intuito de ampliar a inclusão de tais indivíduos na sociedade e levar mais diversão à vida daqueles que não podem enxergar, um grupo de estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) criou o Sound Cage, plataforma eletrônica de entretenimento destinada ao uso dos deficientes visuais. O equipamento utiliza equipamento de tecnologia assistiva, que funciona por meio de movimentos do usuário e de sua interação com sons emitidos em diversas direções. “É uma alternativa e, possivelmente, também um complemento aos videogames atuais. Propomos uma forma de jogar sem a necessidade do elemento visual. Há quem o chame de “audiogame”, devido ao uso do áudio como ferramenta de entrete-

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nimento interativo”, comenta Victor Soares, mestrando em Sustentabilidade Socioeconômica Ambiental e um dos integrantes do grupo. Com o Sound Cage, o usuário pode interagir com os sons de modo diferente do simples “ouvir”. “Na verdade, o usuário interage de forma ativa, e, por meio dessa possibilidade de interação, surgem oportunidades de criar “jogos” que usem tal característica”, explica o estudante. No início, a ideia era apenas criar uma ferramenta a ser usada como auxílio à educação de deficientes visuais. Aos poucos, contudo, a equipe percebeu a possibilidade de também criar opções para os amantes dos jogos eletrônicos. Um dos idealizadores do projeto, Bruno Nazário, doutorando em Engenharia de Materiais, explica que o projeto foi elaborado em três distintas fases, cada uma delas composta por um protótipo específico.

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O termo é usado para se referir aos recursos e serviços que pretendem proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiência, de modo a facilitar seu cotidiano, permitindo a inclusão social.


Divulgação

Protótipo 1: educação e memória

Trata-se de ferramenta que facilita muito a montagem de projetos eletrônicos. É uma plataforma open-source baseada numa placa microcontroladora, com o objetivo de permitir o desenvolvimento e o controle de sistemas interativos, com baixo custo e acessível a todos. Atualmente, está sendo muito utilizada em projetos independentes e, dentro das universidades, nas áreas de automação, elétrica e computação.v

O primeiro é formado por uma placa, de aproximadamente um metro quadrado, dividida em nove quadrantes (três linhas e três colunas), nos quais estão posicionados nove alto-falantes. Além disso, um LED infravermelho, junto a cada caixa de som, serve de guia ao sistema de controle, para que se identifique o posicionamento de tudo. “Esse protótipo possibilita diversas aplicações, como jogos educativos e da memória. Pode-se emitir sons de diferentes animais em cada caixa de som. A criança deverá decorar a sequência e identificar o lugar de cada animal. Outra possível aplicação diz respeito a um tiro ao alvo para deficientes visuais. Nesta modalidade, sorteia-se um alto-falante para emitir o som. O usuário deve identificar a direção da sonoridade, para, então, mirar e atirar”, explica o estudante. O protótipo conta com joystick, joystick adaptado de um videogame, e uma placa Arduíno para gerenciar todo o sistema de controle e comunicação com um computador. O grupo da Ufop já montou este primeiro protótipo, que hoje está em funcionamento, após testes com deficientes visuais, que aprovaram o produto.

Múltiplas sonoridades

A segunda fase do projeto busca a montagem de estrutura com vários altofalantes em volta do usuário. “Daí surgiu o nome Sound Cage, já que o usuário ficaria envolvido numa ‘gaiola de sons’”, sintetiza Bruno. O protótipo usa 25 altofalantes, divididos em quatro camadas ao redor do usuário – sendo 8 embaixo, 8 no meio, 8 acima da cabeça e um no alto. Esse ambiente proporciona inúmeras aplicações, a exemplo de jogos de corrida: uma curva remete a determinado som, que se aproxima de um lado. O usuário, portanto, deve virar para o outro. Já uma ultrapassagem diz respeito à sonoridade de um carro vindo por trás, passando ao lado e sumindo pela frente do usuário, enquanto aceleração, freio e troca de marchas sugerem outros tipos de barulho. A mesma estrutura serve, ainda, a jogos da memória e de tiro ao alvo, assim como no primeiro protótipo. A equipe destaca, por fim, que os deficientes visuais podem interagir em diferentes aplicações, além de competir, em condição de igualdade, com pessoas sem deficiência. De acordo com os integrantes do grupo, o protótipo final é o responsável por realmente revolucionar o projeto. Para simular ambientes sonoros, a máquina usa tecnologia já existente, calcada em sons 3D e sensores de movimento, como os já utilizados em smartphones. “Esse protótipo é ligado a tablets ou celulares equipados com o aplicativo do Sound Cage. Isso torna o produto muito mais prático, simples e adequado às novas tecnologias”, ressalta Bruno Nazário. A partir dessa experiência, poderão ser desenvolvidos inúmeros aplicativos, desde jogos educativos até programas de simples entretenimento. “Este protótipo já conta com hardware projetado, desenvolvido e em funcionamento. Trata-se de um fone de ouvido acoplado a sensores acelerômetros, a giroscópios e a um magnetômetro digital, peças que possibilitam a correção da direção sonora de acordo com o movimento do usuário”, esclarece Bruno, ao lembrar, contudo, que ainda há ajustes a fazer nos aplicativos.

Simulação e modelagem 3D do protótipo 2 revelam complexidade tecnológica MINAS FAZ CIÊNCIA • DEZ/JAN/FEV 2014

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Fotos: divulgação

Para todos

Segundo os estudantes, além da aplicação em jogos e outros aparatos de entretenimento, os protótipos poderão ser usados, por exemplo, em treinamentos militares de tiro, nos quais simulam-se ambientes escuros onde o usuário deve se localizar, mirar e atirar segundo a direção dos sons, sem depender da visão. Outra possível aplicação diz respeito à simulação de trânsito, em autoescolas. “Uma forma de ver as potencialidades do uso do jogo é reparar o quão somos dependentes, hoje, do elemento ‘visual’ em nossas tecnologias de interação. Boa parte destas tecnologias podem ser complementadas com o Sound Cage”, complementa Victor Soares. A equipe enfatiza que não há tecnologia similar no mercado. O que mais se aproxima de suas ideias, segundo Bruno Nazário, são jogos específicos, que tentam criar ambientes sonoros para o usuário. Trata-se, contudo, de experiências incompletas, se comparadas ao Sound Cage. “Esses aplicativos não possibilitam a integração do usuário com o ambiente, diferentemente do que oferece nosso hardware”, comenta. Mesmo com os protótipos já em funcionamento, para que a tecnologia dos estudantes da Ufop chegue às lojas, faltam investimentos. “A chegada de nossa invenção representa uma quebra de paradigma, por acabar com a excessiva dependência visual das tecnologias de interação. Além disso, trata-se de nova linha de trabalho para a criação de jogos, treinamentos, exercícios educativos, aplicativos de jogos e de interação em geral”, acredita Victor Soares, ao ressaltar que o Sound Cage será barato, já que o objetivo do grupo não está na geração de lucro, mas na melhoria da qualidade de vida de deficientes visuais. O equipamento poderia chegar ao mercado por, aproximadamente, R$ 200.

Ideia empreendedora

Composta por estudantes das áreas de Saúde, Engenharia, Ciência da Computação e Meio Ambiente, a turma responsável pelos protótipos participou do Programa Mineiro de Empreendedorismo na Pós-graduação, promovido pela Secretaria de Estado de de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Sectes), por meio do Sistema Mineiro de Inovação (Simi), em parceria com a FAPEMIG. A busca por conhecimento no assunto e a vontade de empreender foram os elementos

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Novas tecnologias estimulam inclusão

Por meio do Sound Cage, usuários integram-se ao ambiente

motivadores dos jovens. “O Programa foi sensacional. Não esperávamos chegar tão longe, e, muito menos, vencer. Aprendemos muito em cada fase do programa, e, hoje, temos bagagem muito maior para incentivar e ajudar a desenvolver o empreendedorismo em nossa universidade”, elogia Bruno Nazário. Para Victor Soares, a oportunidade gerou uma rede de contatos em Minas Gerais e no Brasil. Agora, será a vez de fazer parceiros internacionais. “Conseguimos vivenciar um ambiente de competição e inovação absolutamente novo. Aprendemos diversas formas de encorpar, preparar, vender, e, até mesmo, criar novas ideias”, observa.

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Estudo investiga conhecimento da população sobre ações de prevenção e tratamento da dengue Ana Luiza Gonçalves

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MICROBIOLOGIA

Compreender para espantar


“Foi-se, finalmente, o verão, não sem antes fazer algumas grosserias e malcriações: trovejou, relampejou, choveu, inundou. Não queria ir embora”. Desse modo, o calor excessivo e as tormentas que ele traz se despedem. Inclusive, de Rubem Alves, autor da crônica “O outono”, na qual confessa compreender a persistência do verão em querer reinar sobre a terra. A verdade é que uma fatídica rotina persegue a estação do calor e deixa claro o fato de que certas coisas nunca mudam: o sol estonteante estimula doenças típicas da temporada. Exemplo disso é a dengue, que, mesmo estando presente durante todo o ano, se dissemina com ênfase especial no verão. Nos períodos chuvosos, afinal, o Aedes aegypti, principal mosquito transmissor da doença, ataca com maior naturalidade. Por isso é que os cuidados devem ser redobrados. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais (SES), a maior concentração de casos ocorre entre novembro e maio, devido às condições climáticas. De acordo com o Informe Epidemiológico Dengue, divulgado em 20 de setembro de 2013, pela SES, o número de casos de dengue clássica no Estado (veja gráfico à página 35) era de 293.325, com 105 óbitos confirmados. No total, o aumento foi de mais de 1.300% em relação a 2012, o que acabou por tornar-se um problema para a saúde pública. Até 2011, circulavam em Minas Gerais os sorotipos DENV-1, DENV-2 e DENV-3. Atualmente, também foi identificado o DENV-4. Com a presença de quatro sorotipos do vírus na mesma área, cresce o risco de complicação da doença, que pode acarretar febre hemorrágica da dengue (FHD) ou síndrome do choque da dengue (SCD) – ambas provocadas pela exacerbação de mecanismos imunológicos do indivíduo. Apesar dos impactos anuais do vírus na saúde dos brasileiros, a conscientização da população sobre a enfermidade tem aumentado, de acordo com a pesquisa “Ações intersetoriais e o estudo e controle da dengue”, coordenada

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por Alzira Batista Cecílio, professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e pesquisadora da Fundação Ezequiel Dias. Segundo ela, o maior desafio é informar e solidificar as informações do combate ao vetor da dengue para a mudança de comportamento das pessoas dentro das comunidades. “A principal medida a ser tomada é eliminar os criadouros do mosquito. A população possui conhecimento, apesar de dúvidas sobre o vetor. Todos estão dispostos a cooperar, desde que haja motivação e mobilização”, comenta.

Hábito e prevenção

A pesquisadora Alzira Cecílio e sua equipe descobriram que aquisição de informação não significa mudança de hábito e de comportamento. Daí a importância de verificar o alcance das medidas preventivas que envolvem a participação de setores do poder público e de instituições privadas. O estudo visou avaliar a situação do controle da doença, por meio da implementação de ações intersetoriais na cidade mineira de Sete Lagoas (MG), onde doenças emergentes, como a dengue, têm aparecido nas últimas décadas. Segundo a pesquisa, a importância da promoção da saúde está na diversidade de ações para preservação e aumento do potencial individual e social de formas de vida mais saudáveis. Para tal, indicam-se dois caminhos: integralidade do cuidado e construção de políticas públicas. Desde 2009, os estudiosos realizam intervenções, em Sete Lagoas, para verificar o modo como a população e os profissionais se envolvem no controle da doença. A falta de participação da população é um dos grandes problemas enfrentados para o combate ao mosquito, tendo em vista que cerca de 80% dos focos encontram-se em domicílios. Na visão de Alzira Cecílio, a implementação de ações intersetoriais, para efetiva inclusão da população no combate ao vetor, foi extremamente importante, pois ficou comprovado, com a pesquisa, que


estratégias como essa diminuíram o número de casos nas áreas incluídas no estudo. A pesquisa também buscou verificar o alcance dos trabalhos educativos, além de determinar a relação entre as medidas de caráter intersetoriais praticadas e a diminuição dos indicadores de presença de vetores, reservatórios e condições ambientais. Por fim, pretendeu-se isolar e identificar as amostras de vírus da dengue circulantes nas larvas coletadas, e, então, propor mudanças ao modelo de intervenção adotado, se necessário. Alzira Cecílio diz que os resultados obtidos com a implementação da pesquisa mostraram-se positivos. Foram evidentes a aquisição das informações, a participação no combate e a diminuição de número de casos nas áreas estudadas, tanto pelos moradores quanto pelas crianças das escolas envolvidas.

Etapas de ação

O estudo coordenado por Alzira Cecílio dividiu-se em duas etapas. A primeira ocorreu antes da implementação das ações intersetoriais. Nesta fase, foram aplicados questionários, com perguntas sobre a dengue e seus vetores e acerca das medidas de controle doméstico de criadouros, dos mecanismos de transmissão. Colheram-se, ainda, informações socioeconômicas, demográficas, clínicas e epidemiológicas. A segunda etapa da pesquisa ocorreu após a realização de tais ações. Trata-se da análise do levantamento de infestação, realizada com recursos do laboratório de entomologia da Secretaria Municipal de Saúde de Sete Lagoas. Durante os processos de trabalho, também foi desenvolvido um estudo para levantar dados a respeito da contagem de criadouros, dos potenciais vetores da dengue, da coleta de larvas e da detecção do vírus.

Casos de dengue clássica no Estado

A coordenadora comentou que a detecção de quatro sorotipos em formas imaturas do vetor aponta para maiores riscos de quadros graves da dengue nos próximos períodos epidêmicos em Sete Lagoas. Entretanto, notou-se diminuição no número de casos, se comparados a anos anteriores, evidenciando que as ações intersetoriais têm trazido resultados positivos. “Além do conhecimento adquirido por membros da comunidade e por participantes do projeto, desde 2009, houve grandes mudanças no sistema de saúde. Os funcionários, por exemplo, estão com maior treinamento acerca da doença”, disse. As atividades relatadas pelo trabalho, desenvolvidas na comunidade, possibilitaram maior integração e assimilação de conhecimento a respeito da dengue. Além disso, foram envolventes, indicando que a ferramenta de ensino é eficiente para as medidas interventivas. Alzira Cecílio reforça os resultados de envolvimento da comunidade no combate ao vetor, pois a própria população é a força motriz para a execução da eliminação dos criadouros. “As ações intersetoriais contribuíram, de forma positiva, para aquisição de conhecimento pela comunidade acerca da dengue e seu mosquito vetor, podendo ser replicadas e aplicadas no sistema público das prefeituras e das secretarias de saúde do Estado”.

PRoJeto: Ações intersetoriais e o estudo e controle da dengue CooRdenAdoRA: Alzira Batista Cecílio ModALIdAde: Programa de Pesquisa para o SUS VALoR: R$ 135.924,04 Fonte: Informe Epidemiológico Dengue

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Inovação

Alicerces do futuro Nova sede da FAPEMIG é modelo de arquitetura inteligente e sustentável William Ferraz

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Diogo Brito

Mario Neto Borges, presidente da FAPEMIG: é preciso ampliar ainda mais as ações da Fundação

Quem passa pela avenida José Cândido da Silveira, no bairro Horto, zona leste da capital mineira, já nota mudanças na paisagem. Ali está sendo construída a nova sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG). O edifício irá ocupar uma área de 10 mil metros quadrados na região que, hoje, reúne várias outras instituições ligadas à produção da ciência e da tecnologia. A chegada da FAPEMIG é emblemática para a consolidação de um projeto ousado: a construção da Cidade da Ciência e do Conhecimento de Minas Gerais. Além do espaço destinado a abrigar os funcionários, a construção completa-se com um centro de convenções com capacidade para 1.200 visitantes, atualmente uma carência em Belo Horizonte. Concebida para oferecer máximo conforto com mínimo dispêndio de energia, a nova sede tem como diferencial uma arquitetura inteligente, que combina praticidade e sustentabilidade. Como explica o presidente da FAPEMIG, Mario Neto Borges, a nova estrutura tornou-se uma necessidade diante da atual configuração da agência. “As atividades desenvolvidas pela FAPEMIG cresceram muito, devido, principalmente, ao repasse regular de seu orçamento. Isso permitiu ampliar a atuação da agência, que, hoje, é reconhecida não só pelo trabalho desenvolvido junto aos centros de pesquisa, mas também junto ao setor empresarial, estimulando a inovação, e às entidades internacionais, facilitando o intercâmbio e a realização de projetos em conjunto com grupos estrangeiros. Obviamente, isso

requer uma equipe maior e mais qualificada, e um espaço adequado para acomodá-la”. Borges destaca que os recursos investidos na obra são originários de imóveis que a FAPEMIG herdou de governos passados e cuja venda foi autorizada pelo Conselho Curador da Fundação e pela Assembleia Legislativa de Minas, por meio da Lei nº 19.243/10. Dessa forma, as atividades-fim da agência não foram prejudicadas. Para o presidente, a construção da nova sede é um marco na história da Fundação, que, em 2016, completará 30 anos. “A nova sede, assim como a recente aprovação de seu estatuto, fortalece a FAPEMIG e garante a continuidade de um trabalho que, no fim, beneficia toda a sociedade”, destaca. Divulgação

Nova sede: máximo conforto e baixo gasto de energia MINAS FAZ CIÊNCIA • DEZ/JAN/FEV 2014

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Praticidade e eficiência

Já nos primeiros passos dentro do complexo, é possível identificar os recursos inteligentes. O edifício conta com luzes autoajustáveis, o que significa que, por meio de sensores desenvolvidos para detectar a luminosidade natural, a intensidade da iluminação artificial é controlada. “Uma vez captado o nível de luminosidade no ambiente, as lâmpadas serão reguladas para prover uma escala de iluminação adaptada às necessidades do recinto, a partir de um padrão pré-definido. Isso irá gerar economia de energia”, explica Flávio Caliman, engenheiro civil responsável pelo gerenciamento e pela fiscalização da obra. Ele conta, ainda, que os ambientes serão equipados com sensores de presença. “Não havendo ninguém em determinado espaço, as lâmpadas se apagam automaticamente”. A tecnologia contribui, também, para o aumento da vida útil das instalações elétricas. Além disso, os vidros que revestem a fachada são preparados para amenizar a sensação térmica de calor, diminuindo o uso do ar condicionado. A questão da utilização e do consumo consciente de água foi considerada durante o planejamento das estruturas e encontra, na arquitetura do complexo, uma solução ecológica. Por meio de sistema de calhas e reservatórios independentes, as águas pluviais serão coletadas, armazenadas e, posteriormente, destinadas ao uso em vasos sanitários e lavabos nas dependências da sede. “A finalidade sanitária representa de 40 a 60 por cento da utilização de água nos edifícios. Essa medida proporcionará sensível redução do consumo das águas fornecidas pela Copasa”, explica o engenheiro. A preocupação ambiental se fez presente desde o momento de construção das fundações da obra. De acordo com Caliman, a construção foi realizada com estruturas pré-fabricadas, fator que, além de oferecer qualidade estrutural superior, também representa uma alternativa sustentável ao campo da Engenharia. “Os resíduos de construção são, atualmente, os de maior volume e impacto ambiental. A utilização de estru-

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turas pré-moldadas atribuem qualidade e dinamismo às obras, reduzindo o tempo de execução e a produção de resíduos”. Destaca-se, ainda, a planta de geração solar fotovoltaica que será construída na área da nova sede da Fundação, resultado de um convênio entre a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e a FAPEMIG, executada pela Efficientia SA, subsidiária integral da Cemig. O destaque se dá tanto pelo pioneirismo da instalação, que atuará como piloto e indutor da inserção da tecnologia – ainda pouco popular – no mercado nacional, quanto pelos benefícios diretos à sociedade. “Além de atender grande parte da demanda energética do complexo, a energia produzida no local poderá ser revertida para a Cemig, por exemplo, em dias nos quais não houver atividade no prédio. Essa energia será redistribuída para a população, resultando em economia para o Estado”, explica o superintendente de Tecnologia e Alternativas Energéticas da Cemig, Alexandre Francisco Maia Bueno. O campo ainda é novo. A própria lei que regulamenta a implantação dessas plantas de geração solar foi aprovada em 2012. Entretanto, Bueno destaca como a difusão da tecnologia pode trazer

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os benefícios para a sociedade. “Com o aumento do uso dessas tecnologias alternativas de captação de energia, teremos, em um primeiro momento, o benefício da utilização de energia limpa, ou seja, que não libera gases ou resíduos em sua produção ou consumo. Em um segundo aspecto, havendo mais fontes de suprimento energético, as companhias terão suas linhas de transmissão menos carregadas, podendo, em consequência, estender o intervalo entre manutenções ou novas instalações, o que terá como reflexo uma diminuição na frequência do reajuste de taxas. A sociedade só tem a ganhar”, afirma. O projeto tem como proposta a instalação de 630 módulos fotovoltaicos com potência total estimada em 157 quilowatts. Esses valores representam uma produção energética de 219 megawatts ao ano, energia que pode suprir o consumo de até 150 residências. “A instalação recebe o aporte de R$ 840 mil, com recursos do Programa de Eficiência Energética da Cemig. Os valores serão reembolsados pela FAPEMIG a partir da energia gerada, em um período previsto de sete anos”, explica Bueno.


Vanguarda do conhecimento A Cidade da Ciência e do Conhecimento é um complexo urbano moderno que reunirá diversas instituições ligadas à CT&I. Sua proposta é convergir as atividades do setor em um mesmo espaço urbano, localizado na área que abrange os bairros Cidade Nova e Horto, na região leste de Belo Horizonte. Além da interatividade entre as instituições presentes no local, o complexo irá assegurar visibilidade para as ações de desenvolvimento de ciência e tecnologia e aplicação de conhecimento. Na região, já estão erguidas as sedes do Senai/Cetec, do Centro de Formação e Experimentação Digital (Plug Minas), do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), e da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig); o Museu e Jardim Botânico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); a incubadora de empresas Habitat, da Fundação Biominas; e a Escola Estadual Técnico-Industrial Professor Fontes. A FAPEMIG está sendo transferida para o local e, futuramente, a região também abrigará a nova sede da Universidade Estadual de Minas Gerais (Uemg), onde

serão instaladas, entre outros, a Escola Guignard e a Escola de Música. No final de 2013, o arquiteto e urbanista Jaime Lerner entregou ao governo de Minas o projeto executivo de arquitetura do Instituto de Desenvolvimento de Ideias Aplicadas (Ideia), obra que irá conectar as instituições de pesquisa e tecnologia do local. Na ocasião, ele comentou que o conceito surgiu da proposta de unir os diversos órgãos em um espaço de convivência e convergência de conhecimento, em que a ciência será a principal protagonista. “A Cidade da Ciência vai colocar Minas Gerais na vanguarda do desenvolvimento científico e tecnológico no País e no mundo”, declarou. Para o presidente da FAPEMIG, Mario Neto Borges, a Cidade da Ciência e do Conhecimento representa o marco físico de uma grande conquista para a comunidade científica mineira. “Por um lado, é a concretização da importância que o governo e a sociedade dão à ciência como pilar essencial para o desenvolvimento. Por outro, estabelece o locus que ‘concretamente’ assegura uma conquista que não pode e não deve ser abalada, e, sim, fortalecida”.

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CIÊNCIA POLÍTICA

Diga-me quem eleges... Estudo da Fundação João Pinheiro analisa perfil dos deputados eleitos para assembleias legislativas nas cinco regiões brasileiras Virgínia Fonseca

Dom Pedro I outorgou, em 1824, a primeira Constituição nacional, que definia as incipientes normas do sistema eleitoral no País. Embora a Assembleia Geral, órgão máximo do Poder Legislativo – por ele criado –, já fosse composta por Senado e Câmara dos Deputados, o voto era censitário e excluía a maior parte dos brasileiros. Ao longo do século XX é que ocorre a ampliação do sufrágio universal – a exemplo do voto feminino, exercido, pela primeira vez, em 1935 –, estendendo o direito à população em geral. Hoje, são cerca de 140 milhões de eleitores brasileiros que, a cada dois anos, seguem às urnas. Entender o perfil dos representantes escolhidos por essas pessoas é o foco de pesquisa realizada pela Fundação João Pinheiro (FJP). Conduzida pela pesquisadora Simone Cristina Dufloth, especialista em Ciência e Tecnologia da FJP, a investigação avalia características dos eleitos para os cargos de deputado estadual e distrital entre 1998 e 2010, de forma a estabelecer compa-

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ração do perfil escolhido pelos cidadãos ao longo deste período e entre as unidades da Federação. Intitulada “Análise do perfil dos representantes eleitos nas Assembleias Legislativas: estudo aplicado às unidades da Federação”, a pesquisa baseou-se em dados brutos das eleições estaduais de 1998, 2002, 2006 e 2010, disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Foram pesquisados, ainda, publicações e documentos relacionados à temática. De acordo com Simone Dufloth, existem poucas pesquisas acerca da noção dos cidadãos sobre os mecanismos de apuração de votos. Contudo, há indícios da percepção, por parte dos eleitores, de que são empossados os candidatos que obtêm maior número absoluto de votos, à maneira de um sistema majoritário que elege mais de um representante. “Poucos têm informação sobre quão complexo é o sistema de agregação de votos e distribuição de cadeiras entre os partidos

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concorrentes”, infere. Adveio daí, pois, constatação que reforçou, para os estudiosos, a necessidade de se conhecer os representantes eleitos – no que tange ao perfil de cada um. A extensão e a heterogeneidade na história do desenvolvimento do País, que resultam em profundas diferenças entres as regiões, deram tom ao desafio, calcado na observação da existência de padrões diferenciados no perfil dos deputados estaduais e distritais eleitos em cada macrorregião brasileira. Composta por nove profissionais, entre pesquisadores da FJP e bolsistas, a equipe examinou aspectos como o perfil de idade e o grau de instrução, sexo e ocupação dos eleitos nas assembleias legislativas. Foram analisados apenas os dados dos candidatos direta e efetivamente eleitos pelo voto popular, excetuando-se, portanto, aqueles que ocuparam cargos legislativos por meio de voto recebido pelas legendas partidárias às quais são filiados.


Panorama nacional

Os resultados da análise realizada revelam que mulheres continuam sub-representadas nas assembleias legislativas. Segundo Simone Dufloth, os dados conduzem a constatações relevantes para a ampliação do debate sobre democracia representativa no Brasil. “A despeito de a composição do eleitorado brasileiro ter se revertido no hiato de gênero, passando as mulheres a representar a maioria em todas as faixas etárias, no perfil do eleito, constatou-se que elas aparecem em menor número”, explica. Para a pesquisadora, tal desigualdade no campo político é reflexo de processo similar no campo socioeconômico. A pesquisa constatou que, em nenhum dos períodos analisados, a eleição de candidatas do sexo feminino foi superior a 13,35%, considerando-se a média de todos os estados brasileiros. Tal indicador demonstra que, mesmo com a diretriz legal segundo a qual cada partido ou coligação deve preencher o mínimo de 30% e o máximo de 70% para candidaturas de cada sexo, conforme o art.10, §3º, da Lei 9.504/97, as mulheres permanecem sub-representadas no total dos eleitos em todos os anos considerados. Em outro item da pesquisa, identificou-se que houve aumento na participação dos deputados com idade entre 55 e 59 anos. Enquanto, nas eleições de 1998, 8,2% dos eleitos estavam nessa faixa etária, em 2012, o percentual passou para 13,12%. Houve, ainda, aumento da idade média dos deputados eleitos, passando de 45 anos, em 1998, para 48 anos em 2010. Na visão dos pesquisadores, o incremento na idade dos eleitos, apurado tanto para os deputados como para as deputadas no período, poderia demonstrar reflexo do envelhecimento populacional da população brasileira – embora outras correlações estejam em levantamento. Já quanto ao grau de instrução, o estudo mostrou que, em 1998, 64% dos eleitos declararam possuir ensino superior completo. Já no último período eleitoral, tal percentual elevou-se a 70%. “Tal fato poderia demonstrar a preferência dos eleitores por candidatos que possuem ensino superior, tendo em vista que, no últi-

mo pleito, do total de deputados, somente 5,2% não possuíam segundo grau completo”, constata Simone. Outro aspecto a se considerar é a demanda dos partidos, que, eventualmente, podem preferir candidatos com nível educacional mais elevado, posto que escolaridade denota habilidade técnica, capacidade intelectual e prestígio social”. A professora destaca, porém, que, em todos os períodos analisados, as mulheres possuíam maior percentual de escolaridade. Dentre as eleitas, no mínimo 70% possuíam ensino superior completo, em comparação com uma média de 60% no caso dos homens. No que diz respeito à profissão, a pesquisa – que se baseou nas categorias do Código Brasileiro de Ocupações (CBO) – evidenciou o predomínio do grupo que compreende os profissionais de ciências físicas, biológicas, sociais e humanas até 2006. Em 1998, por exemplo, eles representavam 41,5% dos eleitos, mas, nos pleitos posteriores, houve redução deste percentual, dando lugar ao grupo formado por membros superiores do poder público, dirigentes de organizações de interesse político e de empresas e gerentes. “A representação desse último perfil ocupacional nas Assembleias Legislativas, entre 1998 e 2010, praticamente dobrou, de forma que, na última eleição, determinaram mais da metade dos eleitos (56,51%)”, detalha a pesquisadora. Destes, o percentual dos que declararam ocupações relacionadas ao Poder Legislativo aumentou de 17%, em 1998, para 47,6% no ano de 2010. A pesquisa apontou, ainda, que há tendência à profissionalização na carreira da representação legislativa, o que, de acordo com os estudiosos, confirma o maior ativismo, ou, até mesmo, o amadurecimento político da sociedade brasileira. O relatório final, com dados desagregados por estados da Federação, está em fase de conclusão. Três textos para discussão, produzidos a partir dos resultados, encontram-se disponíveis na página da Fundação João Pinheiro. Além disso, o trabalho foi tema de seminário na Escola de Governo Professor Paulo Neves de Carvalho.

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QUEsTãO DE GÊNERO Brasil e grandes regiões: percentual de deputados estaduais e distritais eleitos segundo sexo (1998, 2002, 2006 e 2010)

PECULIARIDADEs REGIONAIs Na última eleição, as regiões Nordeste e Norte destacavam-se das demais em termos de representação feminina, com índices de 16,61% e 16,23%, respectivamente. Em seguida, aparecem as regiões Sul e Sudeste, com percentuais menos significativos (11,94% e 10,00%). Chama atenção, por outro lado, a baixa participação das mulheres nas assembleias legislativas na região Centro-Oeste: 5,38%. Vale notar que a participação das mulheres nas assembleias legislativas não possui relação com a composição segundo sexo da população brasileira nas regiões consideradas. O fato de o Nordeste ter maior representação feminina pode estar relacionado, segundo os pesquisadores, ao próprio papel desempenhado pelas mulheres nessa região, onde, segundo dados históricos, elas formam parte da engrenagem de manutenção do poder patriarcal e oligárquico. Apesar de representar a maior participação, a faixa etária de 40 a 49 anos tem decrescido, ao longo das últimas quatro eleições, em todas as regiões, passando de 42% para 33%, no Brasil, entre 1998 e 2010. Ressalta-se a região Sudeste com a maior queda na participação (13%). Por outro lado, a participação de deputados

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eleitos com faixa etária entre 50 e 59 apresenta crescimento em todas as regiões. Destacam-se, neste sentido, o Norte e o Sudeste, com aumentos de 23% e 19%. Os dois últimos censos demográficos apontam que a idade média dos brasileiros, e, consequentemente, da população acima de 16 anos, aumentou cerca de quatro anos. Portanto, os candidatos às eleições estão, também, envelhecendo. Outra suposição seria a de que a população mais madura tenderia a votar em candidatos também mais velhos. Os diferenciais segundo média de idade, para as grandes regiões brasileiras, guardam relação direta com as idades médias dos deputados eleitos. De forma geral, pode-se observar elevação no nível de escolaridade dos deputados estaduais e distritais eleitos nas quatro últimas eleições. Em 1998, 63,39% declaram possuir nível superior completo, passando para 70,07% no ano de 2010. A preferência dos eleitores brasileiros por candidatos com curso superior indicaria, portanto, que as pessoas com baixa escolaridade têm mínimas chances de chegar a deputado estadual ou distrital, embora haja exceções.

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PRoJeto: Análise do perfil dos representantes eleitos nas Assembleias Legislativas: estudo aplicado às unidades da Federação CooRdenAdoRA: Simone Cristina Dufloth ModALIdAde: Edital Universal VALoR: R$ 32.655,00


Criada por professor da UFV, tecnologia para plantio de sementes é selecionada para o programa Grand Challenges Explorations. diogo Brito

Um projeto criado pela Fundação Bill e Melinda Gates, do milionário criador da Microsoft, premia as mentes criativas de todo o planeta com ideias inovadoras para problemas a atingir o mundo. Anualmente, são milhares de propostas enviadas à iniciativa, elaboradas em diversas partes do globo. Na edição de 2013, três brasileiros foram selecionados. Dentre eles, estava um mineiro que, desde a infância, demonstrava fascínio pelas máquinas, e, na adolescência, passava boas horas do dia a construir seus próprios aviões. Foi com naturalidade, pois, que acabou por trilhar os caminhos da Engenharia Mecânica, no Sul do País.

Engenheiro mecânico formado pela Universidade Federal de Santa Catarina, o professor Ricardo Capúcio de Resende, do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Viçosa (UFV), foi um dos selecionados – dentre 2.700 propostas de todo o mundo – para o programa Grand Challenges Explorations. O foco principal do programa está na busca por pessoas com pensamentos criativos capazes de solucionar os problemas de países em desenvolvimento. A ação começou distribuindo mais de US$ 450 milhões a 45 projetos de 33 países.

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AGRONOMIA

De Minas Gerais às camponesas africanas


O projeto enviado por Ricardo Capúcio propunha a criação de uma máquina leve, desenvolvida, especificamente, para ser manuseada por mulheres que trabalham com agricultura familiar no continente africano. De acordo com o engenheiro, há duas maneiras de realizar plantios. Na primeira delas, realiza-se o preparo do solo com uma máquina específica, que corta o terreno e faz com que as plantas fiquem embaixo da terra. Esse é o método tradicional, conhecido por aragem. “Ele é utilizado para controlar as plantas invasoras, também chamadas de daninhas. O solo, então, é gradeado, para que seja nivelado”, explica. Quanto à segunda técnica de plantio, o solo não sofre interferência de qualquer máquina. As sementes são distribuídas diretamente no solo. “Em um terreno com plantação de milho, por exemplo, a palha é cortada ainda na plantação e jogada no chão. Logo, quando houver outro plantio, será realizado por cima das palhas decompostas”, esclarece. A máquina criada por Ricardo Capúcio, para facilitar o plantio de sementes, é bastante apropriada a terrenos onde não

De Bill Gates para o mundo Criado em 2007, o Grand Challenges Explorations financia propostas inovadoras e inéditas, focadas em combater problemas globais de desenvolvimento. A cada seis meses, são lançados cinco desafios. O programa dispõe de financiamento no valor de US$ 100 mil por projeto. Uma parceria com as fundações estaduais de amparo à pesquisa faz com que os cientistas brasileiros selecionados para o programa recebam, da FAP de seu estado, um financiamento adicional de US$ 50 a US$ 100 mil. As inscrições são realizadas duas vezes ao ano, e, a cada edição, propõem-se novos desafios em diferentes temas. Caso o projeto seja aprovado, as pesquisas selecionadas podem concorrer a um financiamento adicional de até US$ 1 milhão. Até 2013, o programa já investiu em 800 projetos, de mais de 50 países.

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há necessidade de preparo. Segundo o pesquisador, o plantio em solo não arado é vantajoso. “A cobertura de palha que usei de exemplo é a maior aliada do solo, por protegê-lo das chuvas, funcionando como isolante térmico e mantendo a temperatura sempre estável e com alta qualidade”, afirma. Das vantagens da máquina, é importante destacar a inovação no modo como é feito o plantio da semente. Hoje, tal atividade é realizada por semeadoras movidas a combustíveis fósseis, como gasolina e óleo diesel, ou por tração animal. O tratamento recebido pelo solo é realizado com máquinas apropriadas para fazer sulcos em toda a extensão do terreno a ser plantada. A semeadora desenvolvida por Ricardo inova todo o processo, por trabalhar com furos feitos pela máquina, que, devido a seu peso leve, pode ser empurrada manualmente. Além disso, a máquina é capaz de plantar até dois tipos de sementes ao mesmo tempo. A maioria das semeadoras – de tração motora ou animal – corta o solo continuamente, deposita a semente e fecha esse sulco. O equipamento desenvolvido pelo pesquisador brasileiro trabalha partes do solo que não receberão sementes. Quando há semeadoras movidas a motor, ou a tração animal, isso não é um problema, já que a força e a energia não vêm do trabalhador. “Já com a máquina que desenvolvi, é possível fazer o mesmo trabalho empurrando-a. Desse modo, não há prejuízo para o solo. Sem desgaste do trabalhador, o equipamento pode trabalhar das duas formas, tanto no plantio direto quanto no convencional”, completa. O equipamento foi desenvolvido para trabalhadoras do continente africano, atendendo a uma especificação do edital. Nada impede, porém, que, no futuro, a tecnologia seja também aproveitada no Brasil. Até que a novidade chegue aos agricultores, o mecanismo passará por etapas importantes, da criação do protótipo ao teste de campo.


Boas-novas

O primeiro passo do estudo foi a execução de medições estratégicas em pontos chaves da capital, onde, com base em estatísticas, deveriam concentrar os maiores índices de radiações. Saldanha conta que existe uma lei federal a regulamentar as

taxas de emissões seguras para o contato humano. A pesquisa norteou-se por tais índices. De acordo com José Paulino, os estudos demonstraram que, dentro das áreas urbanas de BH e em cidades adjacentes, não há região onde as emissões ultrapassem os padrões toleráveis. “A população se espanta com as dimensões das torres de telefonia, mas, na verdade, trata-se apenas de longas estruturas suportando pequena antena no topo, com o objetivo de posicioná-la em boa altitude para que os sinais apresentem maior qualidade. O sinal emitido equivale, em intensidade, ao de aparelhos celulares”, explica. Hoje consolidado, o projeto ganhou diversas ramificações. Além de se tornar tema de diversas dissertações de mestrado e de duas teses de doutorado, deu origem à disciplina “Compatibilidade Eletromagnética”, ministrada junto ao Departamento de Engenharia Elétrica da UFMG, nas áreas de graduação e especialização. Os laboratórios foram ampliados e ganharam novos equipamentos. Saldanha destaca, ainda, que os monitoramentos têm sido realizados, ininterruptamente, desde o início do projeto. “Aferições periódicas possibilitam o controle sobre qualquer possível alteração. Qualquer medida corretiva que possa vir a ser necessária é mais fácil de ser aplicada quando se tem conhecimento dos dados e suas variáveis”. O Departamento também possui convênio com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), por meio do qual presta consultoria e suporte técnico a aferições de níveis de radioatividade no município. O mais recente – e inovador – projeto em desenvolvimento pelos pesquisadores conta com um autômato (robô), cuja finalidade é realizar medições dos valores das radiações eletromagnéticas em uma réplica de crânio humano durante o uso de aparelhos celulares. “Estas aferições têm como objetivo identificar se há emissão de frequências nocivas à saúde humana no caso de se usar o celular por longos períodos”, explica o coordenador. Tal aparato também foi conseguido por meio de apoio da FAPEMIG.

Pesquisadores da Escola de Engenharia da UFMG buscam identificar e controlar campos eletromagnéticos na Grande BH

As chamadas radiações “ionizantes” são aquelas capazes de causar sérios danos ao organismo humano. O contato direto com tal tipo de raios eletromagnéticos – que possuem energia suficiente para ionizar átomos e moléculas – pode provocar danos às células e afetar o material genético (DNA), de modo a provocar graves doenças, ou, até mesmo, a morte do indivíduo. “Para produzir esse tipo de radiação, é necessária a presença de material que a emita, como urânio enriquecido, rádio ou radônio. Esses elementos, obviamente, não são usados em eletrônicos domésticos”.

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DANGER...

Era 1998 quando pesquisadores da Escola de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) decidiram embarcar na missão de aferir as emissões eletromagnéticas de Belo Horizonte e sua Região Metropolitana. Os índices de radioatividade sempre estiveram no centro de acalorados e controversos debates, já que qualquer aparelho eletrônico – de computadores a relógios de pulso – emitem sinais eletromagnéticos. O assunto reacendeu discussões na comunidade científica na década de 90, com o boom da indústria de telefonia móvel, que invadia os espaços urbanos com antenas de transmissão que se avizinharam de residências e escritórios, proliferando-se em velocidade espantosa. O principal fator a motivar o projeto foram as especulações em torno dos possíveis danos à saúde provocados pela proximidade das moradias em relação às torres de transmissão e pela exposição dos indivíduos, em longo prazo, aos raios eletromagnéticos. “O Departamento de Engenharia Elétrica passou a ser muito procurado pela sociedade e pela imprensa, em busca de respostas. Como os órgãos oficiais do município não possuíam o aparato tecnológico para executar medições, o departamento se viu no compromisso de dar início às pesquisas”, conta José Osvaldo Saldanha Paulino, coordenador da iniciativa. Por meio de aporte financeiro concedido pela FAPEMIG, o grupo adquiriu aparelhagem especializada para estudos desta natureza. “O apoio recebido foi fundamental para o aprofundamento de pesquisas neste campo. No Brasil, o estado de Minas Gerais foi pioneiro nesse tipo de medição”, lembra Saldanha. Os estudos ganharam as páginas da revista MINAS FAZ CIÊNCIA em 2005, diante da grande expectativa da população por estudos dessa natureza.

LEMBRA DESSA?

À cata de sinais ocultos


5 PERGUNTAs PARA...

Fernando Dolabela Mestre em administração pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pós-graduado pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, Fernando Dolabela é reconhecido como criador das duas metodologias de ensino de empreendedorismo mais usadas no Brasil. A primeira delas destina-se às crianças e adolescentes; a segunda, aos universitários. Dedicado ao assunto desde os anos 1990, Dolabela é empresário e autor – dentre outros – dos livros Oficina do empreendedor, O segredo de Luísa, que já vendeu mais de 300 mil exemplares, e do plano de negócios MakeMoney. Marcus Vinicius dos Santos

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Qual a melhor definição de empreendedorismo? O empreendedorismo pode ser visto ou explicado de diferentes formas, mas existem dois conceitos mais abrangentes que se complementam: um pela ótica do resultado com valor positivo para a coletividade, por meio da inovação; o outro, pelo aspecto de como fazer acontecer esse ato empreendedor, a partir da concepção de caminhos e estratégias que permitam essa transformação. Empreendedor, contudo, é aquele que inova, ou seja, que “cria o novo”, a partir de uma visão, de um sonho, de uma concepção do futuro.

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existem outros conceitos fundamentais? O empreendedorismo trata de pessoas. Já a administração, por exemplo, trata de empresas, ensina a usar ferramentas. Tratar de pessoas significa entender o modo como o indivíduo gera, cria, transforma. Descobrir formas de identificar um desejo, uma concepção de futuro, significa agir em busca da autorrealização, que, por sua vez, deve levar à transformação da própria realidade. A busca é de dentro para fora e envolve autoconhecimento, paixão, talento, criatividade. Não é um conhecimento como a física e a química, que existem “apesar da pessoa”. O empreendedorismo move-se, inicialmente, pela emoção, por coisas essencialmente humanas. Todos nascemos com potencial empreendedor, que pode ser estimulado ou obstruído. Os estímulos ou obstáculos ao desenvolvimento desse potencial diferem de outros aprendizados escolares, como Matemática, Física, Geografia. Muita gente se engana ao considerar que o empreendedorismo seja uma especialização acadêmica. Não é.

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Podemos dizer que empreender e inovar sejam sinônimos? Digamos que elas sejam palavras “gêmeas”. O economista Joseph Schumpeter, em sua teoria do ciclo econômico, propôs que a inovação é o dínamo do empreendedorismo. Para ele, o ato inovador faz com que o mercado se ajuste em novo patamar. As empresas que sobrevivem são aquelas que conseguem acompanhar essa

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inovação. O novo destrói o velho e altera o equilíbrio da economia. Na visão de Schumpeter, a inovação só acontece na empresa, através da empresa, e pressupõe a assunção de riscos. Mesmo que todo o desenvolvimento de um novo produto tenha ocorrido numa universidade, a inovação só se completa com a geração do resultado de valor positivo. É preciso que haja impacto na economia. A universidade produz conhecimento, dá suporte estratégico.

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Vários pesquisadores e profissionais da área afirmam não ser possível “ensinar” a empreender. o senhor acredita que a universidade poderia adaptar-se para formar empreendedores? Para isso, seria preciso muita reinvenção. A universidade é uma estrutura hierarquizada, meritocrática, voltada ao ensino. Está preparada para dizer qual conhecimento, quando e como se deve absorvê-lo, mas tem muita dificuldade para lidar com o que não é ciência nem arte. Já o empreendedorismo é um processo de aprendizagem. E há diferença fundamental entre ensino e aprendizagem. Por isso é que se acredita que ninguém possa ensinar empreendedorismo. Falamos, porém, de uma das instituições mais fortes e sábias do mundo, que pode aprender a lidar com isso, apesar de nunca tornar-se o centro de geração desse conhecimento, sobre o qual não dá para estabelecer relações de causa e efeito ou criar algoritmos. Nos Estados Unidos, em Israel e, em escala minúscula, também no Brasil, há instituições com capacidade de empreender. E é bom que a escola participe. Contudo, esse não é um conhecimento privativo da universidade, e é bom que ela saiba disso. As universidades americanas já perceberam a necessidade de se conectar, em rede, com outros segmentos da sociedade. Harvard está reinventando seus cursos de MBA e lhes dando um caráter empreendedor, buscando experiências em várias partes do mundo. No Brasil, as universidades – ou grande parte de seus professores e estudantes – não querem nem ouvir falar em empresa. E, por definição, a inovação só ocorre na empresa. Um dos principais motivos é o ethos universitário, que,

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além de considerar o empreendedorismo como acessório, tem dificuldade de aceitar a dinâmica do mercado e o fato de que seus membros ganhem dinheiro. Por outro lado, a geração de conhecimento e a pesquisa ágil e sintonizada com o mercado são fundamentais para todo o processo. Precisamos, ainda, descobrir formas de equacionar esse desequilíbrio. Estudo desenvolvido pelos americanos Bell-Masterson e Motoyama, da Fundação Kauffman, concluiu que fenômenos de startups como o Vale do Silício e a Rota 128, de Boston, são exceções. E citam que a Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, por exemplo, não gerou impacto no desenvolvimento da região.

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o que o senhor julga ainda ser importante destacar? Nossa história empresarial estimulou a formação de operadores, e não de criadores de sistemas, produtos, processos ou tecnologias. De forma geral, ainda não sabemos formar pessoas que, por meio da rebeldia, do talento, da criatividade e da paixão, sejam capazes de criar. Empreendedorismo não tem mistério. Do contrário, não funciona. Contudo, é preciso ser traduzido em atos. Complexidade tecnológica não é atividade empreendedora, mas um momento do processo. O essencial é conhecer o cliente, saber o que ele quer, em qual quantidade e quanto está disposto a pagar. Empreender é identificar problemas e propor soluções atraentes. Afinal, só existe empresa porque existem problemas. Economistas e administradores tentam “prever” o futuro, enquanto o empreendedor “faz” o futuro. Jamais podemos nos esquecer de que são empreendedores os filósofos, os escritores e os artistas que inovam, pois transformam sonhos, conhecimentos, energia e inconformismo em riqueza, seja ela material ou imaterial. Um administrador não é necessariamente um empreendedor. Não basta comprar um tênis para se tornar um corredor do nível do Usain Bolt, da equipe de atletismo jamaicana. O tênis é importante, mas tem gente que corre descalço. O que vale, mesmo, como essência, é o sentimento, a paixão, o talento, a capacidade de buscar e de realizar.


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Se as imagens da arte liberam pela eternidade afora a potência de sua expressividade imanente, caberia a cada leitura a tarefa ética de atualizar e canalizar de forma diferencial sua intensidade ao presente e ao mundo por vir. O mesmo movimento encarna a tentativa de restituir ao conhecimento sua dimensão poética, em face da qual os filmes nos ofereceriam também o que o poeta Herberto Helder havia situado como propriedade das palavras: ‘uma expansão da Terra’.

Resultado de discussões estimuladas por meio do cineclube e ciclo de conferências “Ciência em foco” – experiência nascida em 2004, por iniciativa do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast), com sede no Rio de Janeiro –, os textos reunidos nesta obra promovem rico entrelaçamento entre a produção do conhecimento e a polissemia da sétima arte. Com organização do professor e filósofo Gabriel Cid de Garcia, produtor cultural da Casa da Ciência da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o livro conta com artigos de professores ligados a diversas instituições brasileiras. Trata-se do segundo volume de debates em torno do modo como o cinema aborda alguns dos mais importantes princípios, conceitos, produtos e avanços

da ciência. Nesta edição, que conta com prefácio do professor Charles Feitosa, há ensaios sobre os filmes Solaris, Brilho eterno de uma mente sem lembranças, Os doze macacos, Pão e rosas, Veludo azul, O conto da aia, Os olhos sem rosto, Alphaville, Blow up e Rabid, entre outros.

Livro: Ciência em foco (volume II) - Pensar com o cinema Autores: Gabriel Cid de Garcia (Org.) Editora: Casa da Ciência da UFRJ/ Garamond Páginas: 300 Ano: 2013

A aventura do conhecimento

Ciência, magia, religião e tecnologia foram usadas pelas primeiras sociedades humanas que se assentaram em vales fluviais na Índia, na China e no Oriente Médio. Os vales fluviais eram férteis, o que permitia plantações a cada ano, o bastante para alimentar uma comunidade grande. Por consequência, algumas pessoas dessa comunidades tiveram tempo suficiente para se concentrar em uma coisa, praticar e praticar até se especializar em algo. Os primeiros ‘cientistas’ (apesar de não se chamarem assim naquela época) eram provavelmente sacerdotes.

Como tudo na trajetória da humanidade, também as práticas científicas possuem seus mistérios, curiosidades e surpresas. Ao buscar destrinchar os principais acontecimentos da produção do conhecimento – dos “cientistas” lotados em vales fluviais na Índia, na China e no Oriente Médio às novas possibilidades da era digital –, William Bynum, professor emérito de História da University College London e autor de outros tantos livros sobre o assunto, apresenta ao público, com linguagem simples e saborosa, os bastidores de uma série de eventos ligada à construção dos saberes. Em mais de 300 páginas, os leitores apreciarão dezenas de “fábulas” sobre a sofisticada prática humana que, segundo os próprios editores da obra, “trata de

praticamente tudo o que há entre o céu e a terra”. Ao abordar temas amplos – dos ideais filosóficos da Grécia Antiga aos mais singelos (e relevantes) fatos presenciados e/ou estimulados por cientistas anônimos e famosos –, a escrita de Bynum serve-nos, desse modo, de convite ao autoconhecimento. A história da ciência, afinal, pode também ser compreendida como o relato do que somos, de onde viemos, e, principalmente, para onde vamos.

Livro: Uma breve história da ciência Autores: William Bynum Editora: L&PM Páginas: 312 Ano: 2013

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LEITURAS

Ciência na telona


hI P ER LI N k

PENsAMENTO ANIMAL Dialogar com os pets é o desejo de grande parcela da humanidade. Muitas pessoas relatam a sensação de serem compreendidas por seus animaizinhos. Para alguns, os olhares expressivos e a busca por proximidade física com os donos seriam demonstrações de entendimento e de afeto superiores a muitos relacionamentos humanos por aí. Nova (e revolucionária) tecnologia ainda em desenvolvimento pela Sociedade Nórdica para Invenções e Descobertas (NSID)

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promete elevar tal conexão entre espécies a níveis nunca dantes imaginados. “No More Woofs” – algo como “latidos nunca mais”, em livre tradução – é um dispositivo capaz de escanear padrões cerebrais caninos e traduzir seus pensamentos para nossa linguagem, por meio de frases curtas, emitidas em um alto-falante. Por ora, o mecanismo está sendo testado apenas em cães. Para conseguir resultados satisfatórios, a equipe combina tecnologias de microin-

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formática e de eletroencefalografia. Em outros termos, por meio da varredura de sinais cerebrais dos cães e da detecção de padrões entre as necessidades dos animais e as formas como eles as expressam, o aparato consegue distinguir sentimentos e sensações. Em um primeiro momento, o equipamento não permitirá diálogos entre homens e pets, mas dará pistas de como o bichinho se sente, ou o que deseja. De acordo com o portal R7 Notícias, o site Indiegogo (www.indiegogo. com) já oferece protótipos para venda.


ANO NOVO, CARA NOVA Projeto responsável pela produção de veículos de divulgação científica, o Programa de Comunicação Científica e Tecnológica (PCCT) da FAPEMIG começa o ano de 2014 com nova – e crescida – equipe. A chegada de outros profissionais à iniciativa busca intensificar as atividades de difusão da ciência mineira. Criado em 2010, o PCCT é um programa aprovado pelo Conselho Curador da Fundação, que busca promover a disseminação e a popularização da CT&I em

Minas Gerais, além de desenvolver vocações, ao despertar a atenção da comunidade e do público jovem para o universo da ciência. A partir de agora, o programa contará com a colaboração de sete bolsistas, que serão responsáveis por atividades nas áreas de jornalismo, rádio, TV, design e web. Além de MINAS FAZ CIÊNCIA – publicação trimestral, que conta com tiragem de 20 mil exemplares e é distribuída gratuitamente a leitores de todo

o Brasil –, os bolsistas do PCCT continuarão a produzir a série Ciência no Ar (pílulas de TV transmitidas em formato web com temas relacionados à produção científica) e o programa de rádio Ondas da Ciência, veiculado em formato podcast. Há, ainda, o blog Minas faz Ciência, que, além de reunir versões digitalizadas da revista e links para os programas de rádio e TV, divulga textos que incentivam o debate acerca da ciência, da tecnologia e da inovação.

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Obra de Raiane Luíza Pereira Amorim, esta fotografia foi realizada na cidade de Ibirité (MG), em área de cerrado. Trata-se de formiga da espécie Camponotus sericeiventris.

VARAL

Raiane Luíza Pereira Amorim


Revista Minas Faz Ciência Edição #56