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Precisamente às 6h15, com o soar dos acordes de sua canção predileta, ela abre os olhos ao novo dia. De bom humor, e já com o smartphone em mãos, cancela a melodia que lhe despertara, põe a roupa de ginástica – feita com tecido especial, capaz de amenizar a temperatura corporal – e calça o tênis, cuja estrutura foi arquitetada para não lhe agredir os pés. Já na academia, com a garrafinha térmica em mãos, sobe na esteira eletrônica, equipamento que, além de impedir impactos nos joelhos do usuário, revela tudo em detalhes: distância percorrida, frequência cardíaca, calorias eliminadas e ritmo de passadas. Findo o exercício aeróbico, chega a vez da musculação, atividade realizada em aparelhos inteiramente cambiáveis, aptos a se adequar às especificidades físicas dos indivíduos. Por fim, sob a ducha de alto impacto, aprecia os músculos massageados e imagina – satisfeita – os anos de vida que acabara de conceder ao próprio corpo. A protagonista da historieta acima, caro leitor, é fictícia. Cenários, exercícios e objetos, porém, fazem parte da rotina de milhões de atletas – profissionais ou amadores – em todo o mundo. Trata-se de pessoas acostumadas a buscar, nos progressos da ciência e da tecnologia, os estímulos para que a prática de esportes se torne cada vez mais simples, eficaz e prazerosa. “As pesquisas têm proporcionado avanços em intervenções mais efetivas para prevenção e reabilitação de lesões, recuperação de atletas e melhoria das performances. De forma positiva, a ciência proporciona ferramentas e informações que auxiliam os profissionais do esporte na tomada de decisões”, ressalta a fisioterapeuta Natalia Franco Netto Bittencourt, pesquisadora da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais (EEFFTO/UFMG). A ênfase na ideia de que a adequação de métodos e ferramentas relaciona-se, diretamente, às escolhas pessoais de atletas e técnicos faz com que o depoimento da especialista defina, com propriedade, a atual relação entre desenvolvimento científico e prática esportiva. Tal princípio, compartilhado pelo professor Emerson Silami

Na edição nº 53 de MINAS FAZ CIÊNCIA, confira reportagem sobre a estudante mineira, vencedora do Prêmio Jovem Cientista 2012, que desenvolveu tal tecido inteligente. Garcia, diretor da EEFFTO/UFMG, também se traduz no fato de que o auxílio da ciência ao esporte já se apresenta, como prática cotidiana, nos treinamentos da maioria das modalidades olímpicas – principalmente, entre profissionais das chamadas “potências”, os países que mais ganham medalhas em competições mundiais. “Grandes resultados esportivos resultam de um conjunto de fatores, que dizem respeito ao perfil genético dos atletas, à qualidade dos treinos, da nutrição e da recuperação, aos estímulos e à motivação, ao reconhecimento social e ao material utilizado”, destaca. Por trás das investigações em torno de tantos detalhes, a dúvida permanece como “mola propulsora” dos trabalhos a serem realizados. “Toda pesquisa é motivada por incertezas e pela busca de respostas a uma série de questões. Muitas vezes, contudo, encontram-se diferentes alternativas para o mesmo problema”, ressalta Emerson Silami, ao destacar que isso ocorre em função de um mesmo desafio estimular soluções as mais diversas. “Pode ser, ainda, que a metodologia usada não seja a mais adequada ou que nenhuma das respostas sirvam de solução correta para o problema”. No caso dos esportes, além da conversão de dúvidas em hipóteses científicas, a procura de solução aos desafios leva a outras inúmeras incertezas – que, por sua vez, acabam por exigir novos estudos. “Como exemplo, lembro que os resultados de pesquisa em torno dos efeitos de diferentes tipos de treinamento físico sobre a força muscular masculina podem se distinguir bastante das respostas colhidas em análise similar, mas feita apenas com mulheres”, comenta o professor da UFMG, instituição, aliás, onde as investigações multifacetadas iniciaram-se na década de 1970. Também no ver do sociólogo e jornalista Juca Kfouri – um dos mais aclamados comentaristas esportivos do país –, as cer-

tezas, em regra, costumam conduzir ao insucesso, não apenas no que diz respeito às pesquisas científicas, mas, principalmente, à trajetória dos atletas. “Que os digam as incontáveis histórias em que o vencedor antecipado foi fragorosamente derrotado. A dúvida, ao contrário, estimula a competição, a começar pela vontade de superar a si mesmo”, completa.

Treinos e reabilitação

O que dizer, porém, das perspectivas do desenvolvimento científico ligado ao esporte? Na UFMG, segundo Emerson Silami, os horizontes são bastante promissores. “Por meio de financiamento entre a Universidade, a Secretaria de Estado do Esporte e da Juventude de Minas Gerais e o Ministério do Esporte, estamos construindo o Centro de Treinamento Esportivo (CTE), um núcleo de ciências aplicadas ao esporte que reunirá docentes-pesquisadores de vários cursos e permitirá, além de vasta produção científica, a formação de recursos humanos”, explica o professor, ao afirmar, ainda, que o CTE Na Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG, as pesquisas aplicadas ao esporte iniciaram-se como fruto do trabalho pioneiro dos professores Sílvio Raso e Luiz Oswaldo Carneiro Rodrigues. À época, já se realizavam estudos, com atletas de múltiplas modalidades, no Laboratório de Fisiologia do Exercício (Lafise). A partir dos anos 1980, com a criação do programa de Pós-Graduação em Ciências do Esporte, e, especificamente em 1996, com a fundação do Centro de Excelência Esportiva (Cenesp), as investigações acadêmicas avançaram de modo significativo. Tempos depois, surgiria o Programa de Pós-Graduação em Ciências da Reabilitação, por meio do qual foram implantados laboratórios e linhas de pesquisa, hoje responsáveis pela produção de vasto volume de artigos, apresentados em periódicos e eventos nacionais e internacionais. Destaque, ainda, para o atendimento à comunidade externa, com ênfase no trabalho com atletas de alto desempenho.

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2013

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Minas Faz Ciência #54  

Da Mente ao Músculo

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