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ais, ou mesmo federal, que se limitaram, inicialmente, a qualificar como “vândalos” ou “fascistas” os manifestantes e aplicar a eles as medidas repressivas de costume. Todo esse conjunto de tensões e eventos fez com que se intensificasse o sentimento de privação relativa de parcelas significativas da população brasileira (desde a alta classe média conservadora, que queria aproveitar a oportunidade para protestar contra a titular do governo federal, até jovens motoboys de periferia, que faziam seu debut em manifestações políticas, passando por militantes de partidos de extrema esquerda, que viam nos protestos uma oportunidade de fortalecer suas respectivas legendas partidárias às custas do desgaste do PT), o qual foi catalisado pelo grande potencial de mobilização das redes digitais, provocando a fortíssima reação psicosocial que todos observamos pelo noticiário da TV e pela internet nas últimas semanas. Para quem julgava que a democracia brasileira voava em céu de brigadeiro, ao conjugar crescimento econômico, distribuição de renda e estabilidade política, como era insistentemente afirmado por setores ligados à propaganda oficial, inclusive nas

universidades, e, portanto, poderia passar imune ao ciclo de manifestações e ao sentimento de mal-estar que pouco a pouco se espraia pelo capitalismo global, tais manifestações foram uma surpresa. Entretanto, para os observadores menos desavisados, os protestos nada mais foram do que a culminância de um amplo descontentamento contra inúmeros aspectos da gestão pública brasileira, que já se disseminara e se expressara amplamente de maneira difusa, inclusive pelas redes sociais. Bem ou mal, e de forma algo atropelada, nos dias subsequentes às manifestações, os gestores estaduais e municipais, em grande parte pressionados pelo governo federal e por lideranças políticas nacionais, tomaram uma série de medidas que responderam positivamente às demandas mais imediatas do movimento, tais como a anulação dos preços das passagens de ônibus e de outros serviços públicos, como pedágios. O Congresso também deu respostas, rejeitando a PEC 37, prometendo mais gastos em educação e saúde vinculados aos royalties do petróleo, e mais participação e transparência nos processos de elaboração de políticas públicas em nível local.

Neste sentido, o sistema político brasileiro tem reagido, até agora, de maneira satisfatória aos protestos, sinalizando uma agenda de políticas que busca canalizar a energia das ruas, no sentido de tornar mais responsivas e participativas as políticas governamentais, aumentando, no fim das contas, a qualidade da democracia e da gestão pública brasileiras. Outro efeito colateral positivo dos protestos foi o de recolocar a atividade política no local nobre onde ela deve estar, ou seja, nas ruas e perto das demandas da população, e não somente nos conchavos de gabinete e nos cálculos eleitoreiros, conforme ela, infelizmente, esteve nos últimos anos no Brasil. Desse modo, menos do que a primavera que anuncia o sol radiante de uma democracia sem problemas e assentada no consenso latente das maiorias silenciosas, as históricas manifestações dos últimos meses podem ter anunciado o outono de velhas formas de fazer política e sinalizado para um futuro promissor, que, embora incerto, abre um novo campo, onde serão plantadas novas sementes, que permitirão a renovação de nossa democracia.

ONDAS DA CIÊNCIA

Prêmio José Reis

Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com sólida e destacada trajetória na área da popularização da ciência, o físico Ildeu de Castro Moreira foi condecorado com o Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica de 2013. Escolhido, entre 139 concorrentes, pelo “conjunto de sua obra”, o pesqui-

sador se destaca pelo impacto nacional – e multiplicador – de seu trabalho na área. A solenidade de entrega da premiação ocorreu no dia 21 de julho, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), durante a abertura da 65ª reunião da SBPC. Ouça entrevista com Ildeu de Castro no Ondas da ciência. MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2013

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Minas Faz Ciência #54  

Da Mente ao Músculo

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