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5 PERGUNTAS PARA...

Ana Elisa Ribeiro Pós-doutora em Comunicação e Linguística Aplicada, a professora e pesquisadora Ana Elisa Ribeiro coordena, no Departamento de Linguagem e Tecnologia do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), o programa de pós-graduação em Estudos de Linguagens. Também poeta (leia seção Varal, na página 50) e cronista, a autora é líder do grupo de pesquisa “Escritas Profissionais e Processos de Edição”, pelo qual organizou, em parceria com a professora Ana Elisa Costa Novais, da área de Língua Portuguesa do Instituto Federal de Minas Gerais – campus Ouro Preto –, o livro Letramento Digital em 15 cliques (2012). Na obra, são apresentadas formas diversas de uso das novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) em sala de aula. Marcus Vinicius dos Santos O que, exatamente, é letramento digital? O letramento digital está ligado ao que a gente aprende a fazer e usa nas práticas sociais de leitura e escrita em que o computador – e outros dispositivos digitais – está implicado. Por isso, podemos ampliar nosso letramento digital dentro e fora da escola, por meio de aulas ou aprendendo com as pessoas. Há conexões do letramento digital com outros aspectos importantes, como a cultura digital, as agências de letramento etc. É importante pesquisar de que modo esses novos jeitos de aprender vêm sendo tratados, na era das tecnologias digitais, sem descartar o que aprendemos antes do computador e das redes.

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Ainda faz sentido pensar nas tecnologias digitais de informação e de comunicação como boas ou más, alienantes ou salvadoras da educação? Como vivemos tempos de transição, ainda há o ímpeto de uns para “defender” um campo mais tradicional das tecnologias e das aprendizagens, enquanto outros defendem novos modos de fazer as coisas. É natural, mas não vejo sentido em tratar as tecnologias dessa forma. É bastante claro, se olharmos a história das mídias, por exemplo, que os dispositivos “aprendem” uns com os outros, mais do que se excluem. Toda tecnologia é boa quando serve para fazermos coisas positivas e interessantes, quando nos ajudam, nos poupam tempo, potenciam a qualidade do que queremos fazer. E toda tecnologia é má quando serve para a destruição, para o embaraço. Parece óbvio, então, que o que interessa são os usos que dela fazemos. A educação se resolve quando há pessoas dispostas a isso, seja lá com que tecnologia for.

tivos e negativos das tecnologias digitais na educação. Nem gosto de chamá-las de “novas tecnologias” porque não são novas faz tempo! Mas isso depende do contexto, não é? Há escolas que só estão recebendo computadores e internet hoje. O fato é que as pesquisas sobre leitura, escrita, alfabetização e outros assuntos relacionados a isso são variadíssimas. Nosso grupo de pesquisadores, na UFMG e no Cefet-MG, tem resultados que nos levam a crer que há formas interessantes de usar tecnologias digitais na escola, em aulas de redação ou de leitura, mas que as habilidades que as pessoas vão desenvolver são bastante semelhantes ao que um bom leitor de impresso precisa saber. Não é fácil a distinção entre o que seja realmente novo ou velho.

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De que modo as novas tecnologias de comunicação podem influenciar o processo de ensino-aprendizagem? Citarei exemplos para facilitar a visualização do que podemos empregar na educação: o desenvolvimento de habilidades importantes para a produção de textos pode ser incrementado se o professor e os alunos usarem, por exemplo, um editor de textos em nuvem (como o do Google Drive, antigo Docs) ou uma wiki. Pode ser muito legal trabalhar questões de oralidade e escrita na observação de ambientes como chats. Pode ser bem interessante fazer pesquisa na web e aprender a filtrar o que se procura. Escrever usando editor de textos é, claramente, mais econômico em termos de tempo e de trabalho de citações e tal. Isso tudo influencia “como” e “o que” podemos fazer. Isso é aprendizagem.

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Com base em pesquisas desenvolvidas na área, já se conhecem as principais qualidades do uso do computador no ensino? Temos pesquisado muito, há pelo menos 20 anos, no Brasil, os usos posi-

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Alguma orientação para os professores que ainda não se motivaram a fazer uso dessas tecnologias? Penso que o professor precisa ser, antes de qualquer coisa, um cidadão que usa tecnologias para se comunicar, para conviver. Não dá para usar TICs no tra-

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2013

balho da escola sem conhecer os programas, os ambientes, as possibilidades. Também não dá para saber tudo, ou para obrigar as pessoas a algo, embora o mundo vá nos induzindo, nos empurrando. Se o professor não entende como funciona o Facebook, certamente não poderá empregar isso em suas aulas. E há maneiras de fazê-lo, como mostram alguns autores em nosso livro. O professor que sabe usar acaba pensando modos de se apropriar, pedagogicamente, da ferramenta. Quem ainda não se motivou, precisa fazer um esforço, engajar-se e ver se o emprego de tecnologias digitais pode ajudar no ensino e na aprendizagem da disciplina que ministra. Há coisas muito interessantes, para muitas matérias e séries escolares. Certamente, a falta de computadores, de laboratórios adequados, internet etc. faz uma diferença enorme. Se a escola não tem essa infraestrutura, fica tudo mais difícil. No entanto, isso não é impedimento para quem quer trazer as tecnologias digitais a seu plano de trabalho. Os alunos e o professor podem ter celulares espertos, computadores em casa, internet no trabalho. Assim, o computador pode ficar entranhado nas atividades, sem, necessariamente, estar dentro da escola. O mundo tem funcionado assim. No entanto, não estou dizendo que as autoridades estejam dispensadas de equipar as escolas. De forma alguma! Elas precisam ser equipadas. Mas o “salto”, mesmo, está na cabeça do professor.

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! O LIVRO

Letramento digital em 15 cliques. Ana Elisa Ribeiro e Ana Elisa Costa Novais (orgs.). Belo Horizonte: Editora RJH, 2012.

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fapemig.wordpress.com

Minas Faz Ciência #54  

Da Mente ao Músculo

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