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Em 2011, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou gastos da ordem de R$ 140 milhões com internações por doenças diarreicas no Brasil. Tais distúrbios figuram como segunda maior causa de morte entre crianças menores de cinco anos de idade no mundo, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), e constituem grave problema de saúde pública, especialmente nos países de baixa renda. A ocorrência dessas enfermidades, por sua vez, relaciona-se, grandemente, à falta de saneamento básico adequado. Pesquisa realizada entre as 100 maiores cidades brasileiras, no período de 2008 a 2011, atesta: nos 10 municípios com piores índices, havia 2,7 vezes menos pessoas atendidas por coleta de esgotos e 29 vezes mais casos de internação por diarreias do que nas 10 melhores localidades. Esse tipo de contaminação, embora mais evidente, não é a única ameaça do saneamento inadequado. Em Minas, equipe de pesquisadores das Universidades Federais de Minas Gerais (UFMG) e de Ouro Preto (Ufop) dedica-se a investigar tema mais incipiente e não menos relevante: o contágio do esgoto sanitário por medicamentos e perturbadores endócrinos – compostos capazes de desestabilizar o sistema hormonal humano e de levar à diminuição da contagem de espermas, ao câncer de mama, de próstata, dentre outros males. Com vistas a avaliar a eficiência de sistemas simplificados de tratamento na remoção dessas substâncias, os cientistas conduzem, com o suporte da FAPEMIG e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), diversas investigações relacionadas ao tema. De acordo com os estudiosos, sistemas usuais de tratamento mostram-se eficientes na eliminação de matéria orgânica e, em alguns casos, de nutrientes (nitrogênio, fósforo) e organismos patogênicos como coliformes, ovos de helmintos etc. “Entretanto, até a realização da pesquisa, pouco se sabia sobre a eficiência desses mecanismos na remoção de microcontaminantes orgânicos, originários de fármacos e produtos de limpeza”, esclarece o professor Sérgio Francisco de Aquino, chefe do Departamento de Química (Dequi) da Ufop, que conduz os trabalhos ao lado de Robson Afonso, da mesma instituição, Carlos Chernicharo e Cláudio Leite

Enquanto nos 20 municípios com menores taxas de internação (média de 17,9 casos por 100 mil habitantes) tem-se aproximadamente 78% da população atendidos por coleta de esgotos, nas 10 localidades com piores índices de internação (média de 516 casos por 100 mil habitantes), em média, apenas 29% das famílias possuem atendimento sanitário. Os dados são do estudo “Esgotamento Sanitário Inadequado e Impactos na Saúde da População 2008-2011”, elaborado pelo Instituto Trata Brasil, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) que conduz ações com foco na universalização do acesso à coleta e ao tratamento de esgoto no país. de Souza, do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental (Desa) da UFMG.

Simples, mas eficaz

Os sistemas simplificados constituem o padrão predominante em Minas, embora, alerta o professor, o número de estações de tratamento, como um todo, seja ainda restrito no estado. Esse modelo apresenta baixo grau de mecanização e de sofisticação e, consequentemente, menores custos de implantação e de operação. Como exemplo do mecanismo, há as lagoas de estabilização, os sistemas alagados construídos (wetlands) e os reatores tipo UASB (do inglês Upflow anaerobic sludge blanket reactor: reator anaeróbio de manta de lodo), seguidos de filtros biológicos percoladores (FBP). Na pesquisa, fez-se monitoramento nos sistemas de tratamento simplificado do Centro de Pesquisa e Treinamento em Saneamento (CePTS) da UFMG/Copasa, localizado junto à Estação de Tratamento de Esgotos do Ribeirão Arrudas (ETE Arrudas). Tal posto recebe e trata, aproximadamente, 200 milhões de litros de esgoto por dia – atendimento correspondente a quase metade da população de Belo Horizonte. Ao longo de vários meses, em 2010 e 2011, a equipe mensurou a concentração de nove fármacos e desreguladores endócrinos (vide quadro).

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2013

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Minas Faz Ciência #54  

Da Mente ao Músculo

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