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Primeiros trabalhos

O pesquisador Antero Andrade atua em uma linha de pesquisa do CDTN que investiga as aplicações da radiação na área da saúde. O trabalho com infecções fúngicas de importância médica teve início há mais tempo, com outra micose de grande prevalência no Brasil: a paracoccidioidomicose, ou PCM, provocada pelo fungo Paracoccidioides brasiliensis. O país é responsável por cerca de 80% dos casos da doença já reportados mundialmente e essa é a oitava endemia mais frequente no país. Similar à esporotricose, os mais suscetíveis à PCM são profissionais que trabalham com a manipulação de terra, como agricultores, pois o fungo vive no solo das plantações. Ao trabalhar na lavoura, o homem pode aspirar o fungo junto à poeira. Assim, durante algum tempo, a infecção estava praticamente restrita a áreas rurais. No entanto, as zonas urbanas vêm sendo cada vez mais atingidas. Entre os sintomas da doença estão lesões na pele, nas mucosas, emagrecimento e fraqueza, tosse e comprometimento pulmonar. Na ausência de tratamento, a PCM é geralmente mortal.

A metodologia para obtenção de fungos atenuados foi a mesma usada no estudo da esporotricose: doses de radiação até encontrar a quantidade ideal que impede o crescimento, mas preserva o metabolismo e permitindo ativar o sistema imunológico do organismo. No caso da PCM, os estudos foram além. Produziu-se uma vacina a partir dos fungos atenuados e essa foi testada em camundongos, comprovando sua eficácia. Com isso, o grupo conseguiu atestar o potencial da atenuação por radiação gama para o desenvolvimento de vacinas vivas contra doenças provocadas por fungos. “Vacinas baseadas em patógenos atenuados por radiação têm sido estudadas desde 1950. Porém, a utilização de fungos radioatenuados nunca havia sido explorada para este propósito”, destaca Andrade. Esse trabalho contou com a parceria do professor Alfredo Miranda Góes, do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que já estudava a paracoccidioidomicose, e da então estudante de doutorado Estefânia Mara do Nascimento Martins. Além de

Para saber mais

Atenuação de Leveduras Viabilidade Síntese de proteínas Secreção de proteínas Metabolismo oxidativo Perfil antigênico Morfologia

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Antero Andrade, o grupo possui dois estudantes de mestrado e um de doutorado. O estudo, que rendeu uma patente ao grupo, foi desenvolvido até a fase de testes com camundongos – a produção de uma vacina para uso humano também depende de parceria com empresa interessada em investir no projeto. Segundo o coordenador, o Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) da instituição cuida dessa parte, buscando a transferência da tecnologia para a indústria. Enquanto isso, novos estudos são feitos. O grupo avaliou, por exemplo, o efeito terapêutico da vacina para a PCM em grupos de camundongos. Como aponta Andrade, a vacina é um instrumento profilático, ou seja, imuniza o organismo contra infecção futura. Mas os pesquisadores perceberam que, quando a pessoa já está infectada e toma a vacina junto ao medicamento, o resultado é muito melhor. Os mais recentes artigos da equipe mostram que a associação da vacina com as drogas antifúngicas provocam recuperação mais rápida do que as drogas ou a vacina isoladamente. Ou seja, mais uma possibilidade a ser explorada no combate à enfermidade.

Levedura

BARROS, M. et al. “Esporotricose: a evolução e os desafios de uma epidemia”. Revista Panamericana de Salud Publica 27(6), 2010. LACERDA, C. “Efeitos da radiação gama em leveduras de Sporothrix schenckii”. Dissertação de mestrado. Belo Horizonte, 2010. Cartilha “Paracoccidioidomicose não é palavrão e tem cura!”, desenvolvida pelo Ipec/Fiocruz, disponível em: http://www5.ensp.fiocruz.br/biblioteca/dados/txt_331040956.pdf.

Imunização

PROTEÇÃO

Capacidade reprodutiva Virulência

Pesquisa: Desenvolvimento de vacinas radioatenuadas para doenças fúngicas Coordenador: Antero Silva Ribeiro de Andrade Modalidade: Edital Universal Valor: R$ 31.513,65 MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2013

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Minas Faz Ciência #54  

Da Mente ao Músculo

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