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Em maio de 2013, o Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (Ipec), unidade da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgou um alerta: nos últimos 15 anos, quatro mil pessoas haviam contraído, no Estado do Rio de Janeiro, a esporotricose. A doença, transmitida pelo fungo Sporothrix schenckii, costumava ser associada a jardineiros, agricultores e outros profissionais que trabalhavam manipulando flores e terra. Hoje, o perfil é diferente. A ocorrência da enfermidade em animais, especialmente gatos, e sua transmissão para humanos por meio de arranhões e mordidas assumiram proporções endêmicas. O problema não se restringe ao Rio. Na verdade, essa é a micose subcutânea mais comum na América Latina. Nos gatos doentes, as manifestações clínicas da esporotricose revelam-se variadas: lesões na pele, que costumam evoluir rapidamente, e espirros frequentes são os sinais mais comuns. Nos humanos, as lesões costumam ser restritas à pele, tecido subcutâneo e vasos linfáticos adjacentes, mas, em algumas ocasiões, podem disseminar-se a outros órgãos. As lesões na pele começam como um pequeno caroço avermelhado que, com o tempo, transforma-se em ferida. A doença tem tratamento que dura, em média, três meses, mas as feridas aparentes costumam provocar danos à autoestima dos pacientes. Em Minas Gerais, um grupo de pesquisadores do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), órgão da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEM), está estudando formas de combater a doença. O foco dos trabalhos é o desenvolvimento de vacina capaz de imunizar cães e gatos contra a esporotricose, interrompendo, assim, a transmissão para humanos. O coordenador da pesquisa, Antero Silva Ribeiro de Andrade, enfatiza: até o momento, não existe vacina em uso para a doença ou para qualquer infecção fúngica de importância médica. Ele explica que a resposta imune a um organismo complexo como o fungo exige a ação coordenada de várias partes do sistema de defesa do organismo e uma vacina viva seria capaz de produzir este efeito. “Estamos explorando

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Caso o gato esteja com suspeita da doença, recomenda-se isolá-lo de outros animais, usar luvas e lavar as mãos com água e sabão após tocá-lo, desinfetar o ambiente com água sanitária ou cloro e evitar que ele tenha acesso à rua. É importante procurar um médico veterinário, pois a doença tem tratamento. Ele é prolongado e exige cuidados especiais pelo dono, para não contrair a enfermidade. um campo com grande potencial. Nossa abordagem é usar a radiação para atenuar os fungos e conseguir produzir uma vacina eficaz”, disse. Normalmente associada a efeitos negativos ao organismo e ao meio ambiente, a radiação, nesse caso, é uma aliada. Para produzir a vacina, os pesquisadores utilizam doses controladas de radiação gama, que produzem o efeito de fragmentar o DNA das células do fungo. Após ter seu DNA fragmentado, a célula não consegue mais se reproduzir. “Ela perde a capacidade reprodutiva e a virulência, mas continua metabolicamente ativa e capaz de induzir uma resposta imune. A gente considera, então, que o fungo está atenuado”, detalha Andrade. Sem a virulência, o fungo, ao infectar o organismo, estimula o sistema imunológico, mas não consegue mais provocar uma infecção progressiva.

Vacinas

De acordo com o pesquisador, o primeiro passo é a realização de testes para definir a dose de radiação ideal. Cultivadas em placas, as colônias do fungo eram bombardeadas com radiação gama. Após cada dose, realizavam-se testes para checar se os fungos conseguiam se multiplicar, continuavam a sintetizar proteínas, se conservavam a respiração celular, se a membrana permanecia íntegra, enfim, se estavam vivos, apesar da incapacidade de crescimento. A síntese de proteínas era verificada com o fornecimento de um aminoácido radioativo às células. Após 24 horas, os pesquisadores conferiam se as proteínas produzidas continham elementos radioativos, já que os aminoácidos são a base dessas moléculas orgânicas. O trabalho teve resultado positivo e originou uma dissertação de mestrado, de autoria de Camila Maria de Sousa Lacerda, que demonstrou a dose ideal de radiação para comprometer a capacidade de reprodução e a virulência do agente infeccioso, mantendo sua viabilidade. Segundo Andrade, o próximo passo é o desenvolvimento da vacina radioatenuada, com testes em animais para comprovar sua viabilidade. A princípio, a vacina é destinada a uso veterinário, mas nada impede que, no futuro, sejam realizados estudos destinados à profilaxia em humanos. “Para isso, dependemos do interesse de uma empresa, já que o volume de recursos envolvido é maior”, lembra o coordenador.

A produção de vacinas é um processo longo e demorado: envolve o estudo da doença e do patógeno que a provoca, testes em animais e humanos, aprovação de agências reguladoras e produção em grande escala, para só então chegar à população. Existem vários caminhos para se chegar a uma vacina, mas o princípio por trás deles é o mesmo: uma pessoa contaminada por uma doença fica imune a ela. As vacinas contêm, assim, traços do agente causador da doença, que não conseguem provocar a infecção, mas estimulam o sistema imunológico a produzir anticorpos. Assim, quando exposto novamente ao patógeno, o corpo reconhece a doença e a combate. No caso da vacina proposta pelo grupo do CDTN, as células do fungo que provocam as infecções ainda estão vivas, mas perderam a capacidade de reproduzir e prejudicar o organismo (ela foi atenuada pela radiação). Outra vacina famosa, a BCG, que imuniza contra a tuberculose, também utiliza a forma atenuada da bactéria Mycobacterium bovis. A atenuação, porém, não é resultado de doses de radiação, e sim da manipulação em laboratório. Existem, ainda, vacinas de vírus ou bactérias inativados, como a da hepatite A e B.

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2013

Minas Faz Ciência #54  

Da Mente ao Músculo

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