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go Rodrigues Gregório, de 25 anos, comprovou os progressos possibilitados pelo aparelho. Paraplégico devido a acidente motociclístico, ele começou a participar dos testes com o elevador em setembro de 2011. “Passei por vários avanços e obtive mais independência”, comemora. Dentre as benesses do tratamento, que o fizeram sentir-se mais seguro, destacam-se o melhor controle de tronco – o que lhe facilitou o ato de sentar-se –, a habilidade de transferência da cadeira de rodas para outros locais, como a cama, o carro, e o ganho de massa muscular. “Resolvi, inclusive, tirar carteira de habilitação novamente. Sei que eventuais dificuldades podem surgir, porém, me sinto mais preparado para enfrentá-las”, declara. Tiago Gregório complementa o tratamento com sessões de fisioterapia convencional, realizadas em sua casa. Apesar disso, ele assegura que os treinos coletivos, com outros cadeirantes, sob acompanhamento de Cláudia Garcez e de alunos de Engenharia Biomédica, proporcionam evoluções com reflexos na qualidade de vida dos participantes. “A esfera social também é importante, pois muito do que aprendi foi trocando experiências com os outros cadeirantes”, ressalta o jovem, que, em longo prazo, espera voltar a caminhar. O projeto do elevador ortostático dinâmico teve início quando Cláudia Garcez residia em Curitiba (PR), a partir de protótipo mecânico. “Por meio daquele equipamento ‘rústico’, percebi que esta nova abordagem de tratamento funcional poderia trazer avanços, principalmente, à terapia para pacientes com lesão medular”, relata a fisioterapeuta. Quando se mudou para Santa Rita do Sapucaí (MG), em 2007, Cláudia procurou o Inatel e obteve o suporte necessário para dar continuidade ao projeto, com o auxílio, ainda, de duas empresas da cidade – Usivale e Prodmec. As investigações científicas começaram em 2009 e já envolveram cerca de 25 pessoas. A equipe de pesquisa é formada por médica neurologista, educador físico, engenheiro e fisioterapeuta. O equipamento passa, agora, por

processo de transferência à indústria, a fim de que possa ser comercializado. Os pesquisadores, entretanto, pretendem dar continuidade às experiências, atrelando novos conhecimentos e abordagens de tratamento. Trabalhos já foram apresentados em vários eventos nacionais e internacionais, e, em setembro, o elevador será tema de palestra durante o Congresso Internacional de Engenharia Biomédica, realizado nos Estados Unidos.

Para ir além De acordo com o coordenador do CDTTA, nos últimos anos, os impactos da inovação chegaram, enfim, ao “território” do atendimento às necessidades de pessoas com deficiência, por meio da tecnologia assistiva. “Difícil entender como o investimento nesta área possa ter sido negligenciado, mas agora é o momento”, afirma, ao citar o empenho dos governos federal e estadual no desenvolvimento da área. O especialista em Engenharia Biomédica reitera que se pode encontrar, Brasil afora, centros já estruturados, com propostas em andamento. “Com relação às tecnologias, ainda temos muito a melhorar. Ou

seja, a inovar. Mas nosso país tem competência para estar entre os melhores e, além de atender à demanda interna, por que não pensar em exportar?”, aposta. Neste sentido, um passo importante seria, na opinião do engenheiro, o incentivo, por parte dos governos, quanto à desburocratização dos processos de registro e certificação. No CDTTA, a interface entre as áreas de Saúde e Engenharia leva os envolvidos a pensarem na melhor forma de fazer com que os equipamentos e procedimentos projetados atendam às reais necessidades dos usuários. “Isto induz alunos e engenheiros a conhecer a demanda, no caso das pessoas com deficiência, o mercado e o desenvolvimento de novos produtos, além de estimular nova filosofia de humanização para a Engenharia”, arremata Cláudia Garcez, enquanto Tiago Gregório reafirma: “Esses estudos são de extrema importância para a humanidade, não somente para aqueles que adquirem ou nascem com algum tipo de deficiência, já que possibilitam à crescente população com essa característica alcançar uma expectativa de vida melhor”.

Ideia premiada

O kit de motorização agraciado com o Prêmio 3M de Inovação para Estudantes Universitários integra o projeto da cadeira de rodas bifuncional® de baixo custo, que propõe nova concepção de equipamento, passível de ser utilizado em dois modos de operação: manual ou motorizado. Para tal, são utilizados motores sem escovas – BLDC de cubo de roda (do inglês, Brushless DC eletric). A tecnologia proposta contempla, ainda, os quesitos preço e facilidade de transporte, de forma a colaborar com a qualidade de vida e a inclusão das pessoas com deficiência física, dependentes desse mecanismo de locomoção, em qualquer faixa etária. Com menor peso (31 Kg) e com tamanho convencional de cadeira manual, o aparato pode ser fechado e transportado, por exemplo, em porta-malas de carros de passeio. Segundo os pesquisadores, tais diferenciais trarão, à pessoa com deficiência, o conforto de possuir uma cadeira motorizada, mas que também pode ser usada no formato manual, colaborando, inclusive, com a reabilitação dos indivíduos. De autoria do engenheiro Fábio Rodrigues da Silva, o projeto, desenvolvido sob coordenação do professor José Maria Souza Silva, está em fase de transferência para a indústria e, para ser comercializado, passará por todos os trâmites da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro).

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2013

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Minas Faz Ciência #54  

Da Mente ao Músculo

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