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leite e estimulam a investigação de diferentes tipos de amidos – frequentemente usados como materiais para fraudar leite em pó. Tais trabalhos, bem como aqueles desenvolvidos para a análise de corantes alimentares – como o azo corante vermelho –, foram caracterizados em projeto que envolveu uma indústria de alimentos de Juiz de Fora. Segundo os pesquisadores, do ponto de vista técnico, não existem restrições para uso da espectrometria Raman. No geral, os limites são instrumentais. Entretanto, com o advento de espectrômetros que usam microscópios para aquisição de dados, o leque de possibilidades do método tem aumentado muito nos últimos anos. Prova disso é o portfólio de situações investigadas pelo Neem. Os sistemas reais, como são chamados, vão desde alimentos – leite e derivados (queijos, requeijão e outros), bebidas, frutas, produtos naturais dos mais diversos (entre os quais, corantes e outros biocomponentes) –, fármacos, liquens, fungos, amostras de arte, arqueologia e o que mais for necessário e/ou possível. Orgulhoso com a infinidade de materiais passíveis de análise, Luiz Fernando Cappa assegura: “Se pudermos pôr a amostra no compartimento do equipamento, e prender na frente do laser de excitação, conseguiremos, de alguma maneira, obter o espectro Raman e, assim, estudar a composição do material”, comemora.

Amostra intacta

Um dos diferenciais que torna a espectrometria Raman mais avançada, em comparação com outras técnicas, é o fato de a amostra se manter preservada. Tal feito, de acordo com os pesquisadores, tem implicações fantásticas, sobretudo no mundo das artes e da arqueologia, em que a análise de obras ou de antiguidades requer estratégias que devem levar em conta a preservação e a integridade do objeto. Um dos campos que mais tem se beneficiado da técnica tem sido a área forense. As análises de drogas, de solventes orgânicos, de superfícies, de tipos diferentes de tintas e pigmentos e de fibras naturais e sintéticas podem ser feitas com rapidez e segurança, por meio do uso de microscópios acoplados a instrumentos Raman. “Em nosso laboratório, desenvolvemos

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convênio com a Polícia Civil de Juiz de Fora para análise de algumas drogas”, esclarece Luiz Fernando. Os trabalhos são realizados em parceria com um pós-graduando do grupo, que também é perito criminal da Polícia. “Esse trabalho tem se revelado muito importante, sobretudo no que se refere à análise de drogas, de líquidos inflamáveis e de explosivos, em aeroportos de todo o mundo, porque os materiais podem ser analisados dentro dos recipientes que os contêm, sem necessidade de manipulação direta”, afirma o professor. Além dos diversos sistemas químicos estudados pelo Neem, seu coordenador ressalta o uso da técnica em um grande projeto, apoiado pela Petrobras, no qual a espectroscopia Raman é a ferramenta para análise de inclusões fluidas em rochas obtidas durante processos de perfuração de poços. “As rochas são trazidas ao laboratório e a análise da superfície de tais materiais, que contém inclusões fluidas, pode indicar a existência de gases. Se for metano, ou sulfeto de Hidrogênio, há grande chance de a perfuração atingir bolsões contendo combustíveis fósseis ou petróleo”, comenta. O projeto agrega, ainda, um estudo para determinação das curvas de pressão-temperatura em diferentes sistemas que contenham inclusões fluidas – pois, a partir do conhecimento dessas condições, pode-se entender a gênese de tais materiais. O coordenador do Neem destaca que a Química Supramolecular também tem sido bastante beneficiada pela espectroscopia Raman, especialmente nas atividades desenvolvidas pelo Núcleo. Uma delas foi a execução do projeto “Síntese, caracterização e modelagem molecular de supramoléculas e nanossistemasauto-organizados com potencial para o desenvolvimento de materiais avançados”, aprovado pela FAPEMIG, dentro do Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex). Na iniciativa, adquiriu-se um equipamento Raman com várias linhas laser para excitação na região visível dos espectros eletromagnéticos, que tornam viáveis todos os estudos descritos anteriormente.

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2013

Minas Faz Ciência #54  

Da Mente ao Músculo

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