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narem-se engenheiros. O restante ele deve adquirir em atividades como a iniciação científica, monitoria, estágio, trabalhos em grupo, enfim, atividades em que ele possa ter uma participação ativa. A participação passiva em sala de aula oferece apenas uma parte do que o aluno precisa. Temos que reformar esta questão metodológica. A quantidade de conhecimento que se exige para a formação hoje é muito maior e não dá para ficar aumentando o tempo de curso. É preciso criar processos para aplicar este conhecimento. As grandes empresas fabricam mais rápido, com melhor qualidade e menor custo. Isto não se aplica às universidades ainda. O processo da sala de aula é muito lento. Este aspecto é observado tanto nas universidades públicas como nas privadas? Não vejo diferenças, não neste aspecto. O que predomina é a aula tradicional, como na Escola de Pontes e Calçadas, de 1747, na França, que foi a primeira escola de Engenharia do mundo. Se um professor ficar em estado latente por 300 anos e acordar de repente em uma sala de aula, ele poderá dizer “como eu falei na aula passada...” e continuar lecionando. Diferente do médico do século XVIII, que se acordar hoje em um centro cirúrgico não terá a menor ideia do que estará acontecendo. Isto significa que a nossa sala de aula parou no tempo. Mas já existe uma reação. Por que aconteceu esse congelamento, essa parada temporal da sala de aula? Isto se deve ao fato “sei, logo ensino”. O aluno formava-se e não desenvolvia conhecimentos pedagógicos e educacionais para lecionar, repetindo na sala de aula o que o seu professor lhe ensinou. Não havia uma preocupação com o aspecto metodológico. É preciso acelerar o processo de aprendizagem. Não o de aprender as técnicas, mas o de aprender a aprender, que é o que chamamos de desenvolvimento de competências e habilidades a partir do conteúdo. Hoje, o aluno, na maioria das vezes, aprende só o conte-

údo, mas não sabe o que vai fazer com o que aprendeu. O estudante de Engenharia geralmente não sabe para que vai lhe servir as disciplinas do ciclo básico, como Cálculo, Física e Química. Isto explica o alto índice de desistência nos primeiros períodos? Sim. Cerca de 50% a 55% dos alunos que entram no curso de Engenharia não se formam. Ou seja, mais da metade dos alunos que iniciam o curso não o concluem. Levantei alguns dados da Faculdade de Engenharia da UFJF desde a década de 1960 até o ano de 2006. Descobri que 42% dos alunos que se matricularam não se formaram. A maior taxa de evasão ocorre no básico, entre o 1º e o 3º períodos. A partir do 5º período, este índice é muito pequeno, menor que 5%. Isto poderia ser resolvido com questões metodológicas. Se as disciplinas do básico fossem ministradas de uma forma contextualizada, a evasão cairia pela metade. Por exemplo, é preciso explicar para o aluno que ele precisa aprender mecânica porque amanhã precisará estruturar e desestruturar artefatos.

“A formação tradicional já não dá mais conta do recado. Hoje, a empresa que contrata um engenheiro não quer saber o que ele aprendeu, mas sim o que ele sabe fazer com o que aprendeu.”

Isso ajudaria a resolver o problema? Sim. É o que chamamos de contextualização do conhecimento. O nosso curso de Engenharia de Produção, por exemplo, tem três disciplinas de contextualização, no 1º, 3º e 5º períodos, exatamente para evitarmos a perda de alunos. Isto fez com que o nosso curso apresentasse uma evasão de apenas

14%. A média de evasão nas federais é de 40% a 45%. Nas privadas, de 60% a 70%. Para se ter uma ideia, em média, os cursos possuem 90 vagas. Destas, 80 são preenchidas e apenas 30 alunos se formam. Vale lembrar, também, que todo curso de Engenharia tem o que chamamos de núcleo duro. Por exemplo, na Engenharia Civil, temos a disciplina de análise de estruturas. Na Elétrica, magnetismo e circuitos. Na Engenharia de Produção, pesquisa operacional e modelagem. Todas elas com um grande conteúdo de matemática. Muitas vezes, o aluno tem de repeti-la. Dessa forma, o tempo de formação que é previsto para cinco anos acaba chegando a cerca de sete anos, se acrescentarmos as repetências ocorridas no básico em Matemática e Física. A evasão poderia ser diminuída com providências não muito complicadas. A primeira, investir na atualização do professor, principalmente o do básico, de maneira que ele contextualize os seus conteúdos, o que seria ideal. Outra alternativa é criar disciplinas específicas de contextualização. Um exemplo são as disciplinas de integração do conhecimento, por meio da qual o aluno vai até uma empresa saber como ela funciona, como é a fabricação dos produtos e como são prestados os serviços ou se exercita no próprio curso em Laboratórios de integração curricular e fábricas de aprendizagem que são propostas de sucesso em algumas Escolas de Engenharia.Tudo isso com o objetivo de mostrar como as disciplinas, principalmente as do básico, se aplicam nestes processos. Essa parceria com empresas já é uma realidade? Infelizmente não, são poucos os cursos que têm essa preocupação. Mas a forma como são ministradas as disciplinas do básico não é um problema do Brasil, e sim do mundo todo. O senhor disse que a metodologia de ensino parou no tempo. E quanto às pesquisas na área? Há dez anos, você poderia contar nos dedos os pesquisadores na área de educação em Engenharia. Hoje, reuMINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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Minas Faz Ciência 41  

Empreendedorismo - Merenda escolar- Redes de pesquisa - Engenharia sanitária - Biodiversidade

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