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CEBio

Educação em Engenharia Vanderli Fava de Oliveira, pesquisador da UFJF, fala sobre o aumento da demanda por profissionais dessa área e sobre a urgência de adequar a formação às necessidades do mercado. 6

Empreendedorismo

Centro de Excelência em Bioinformática, primeiro de Minas Gerais e do Brasil, fornece importante suporte às pesquisas da área da genômica.

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Merenda escolar

Programa mescla aulas teóricas, práticas e visitas orientadas a fim de incentivar alunos do mestrado e do doutorado a transformarem suas pesquisas em novos negócios.

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Redes de Pesquisa

Software inovador auxilia escolas e creches na gestão da merenda escolar proporcionado redução de custos e de desperdício.

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Meio ambiente Resíduos de indústrias siderúrgicas, como limalha de ferro e areia, se transformam em matéria-prima para obras de arte que chamam atenção para a importância do reaproveitamento. 39

Programa da FAPEMIG destinado a apoiar pesquisas em áreas estratégicas passa por primeira avaliação e já apresenta resultados benéficos para o desenvolvimento da ciência no Estado. 16

Ovos de qualidade

Polimorfismo Fenômeno que pode causar alteração nas propriedades dos medicamentos é estudado por grupo de pesquisadores da Unifal dentro do Programa de Pesquisa para o SUS.

Pesquisa avalia o efeito da utilização de microminerais orgânicos na dieta de aves poedeiras sobre a produção e qualidade dos ovos.

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Engenharia Sanitária Projeto desenvolvido por aluna do ensino médio conquista reconhecimento internacional ao propor uma forma simples e barata de descontaminação da água.

22 Agentes penitenciários

Fruto de uma parceria entre Cefet, UFMG e Cemig, equipamento de baixo custo e fácil instalação ajuda as pessoas a controlar o consumo de energia em casa ou no trabalho.

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Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais

HorizonTI é o primeiro fundo de capital semente de Minas Gerais a aportar recursos a uma empresa da sua área de atuação.

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Biodiversidade

Filme, livro e relatório estão entre os produtos gerados por alunos do curso de Gestão em Segurança Pública, todos eles com foco no trabalho desenvolvido pelos agentes penitenciários de BH. 26

Energia

Especial

Equipe investiga como espécies da flora e fauna se comportam com o aumento da concentração de gás carbônico na atmosfera, uma das principais consequências do aquecimento global.

Cientistas brasileiros

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Sérgio Pena, renomado pesquisador e geneticista, fala sobre a ciência básica no Brasil e sobre o evolucionismo e o criacionismo das agências de fomento.

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MINAS FAZ CIÊNCIA tem por finalidade divulgar a produção científica e tecnológica do Estado para a sociedade. A reprodução do seu conteúdo é permitida, desde que citada a fonte.

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Ao leitor

Expediente MINAS FAZ CIÊNCIA Assessora de Comunicação Social e Editora: Vanessa Fagundes (MG-07453/JP) Redação: Vanessa Fagundes, Ariadne Lima (MG09211/JP), Juliana Saragá Colaboração: Desiree Antônio e Virgínia Fonseca Ilustrações: Beto Paixão Revisão: Aline Bahia Projeto gráfico/Editoração: Fazenda Comunicação & Marketing Montagem e impressão: Lastro Editora Tiragem: 15.000 exemplares Fotos: Marcelo Focado Agradecimentos - Agradecemos a todos os colaboradores desta publicação Redação - Rua Raul Pompeia, 101 - 12.º andar São Pedro - CEP 30330-080 Belo Horizonte - MG - Brasil Telefone: +55 (31) 3280-2105 Fax: +55 (31) 3227-3864 E-mail: revista@fapemig.br Site: http://revista.fapemig.br

Capa: Tratamento Foto: Marcelo Focado Nº41 mar. a maio. 2010

GOVERNO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Governador: Antônio Augusto Junho Anastasia SECRETARIA DE ESTADO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR Secretário: Alberto Duque Portugal

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais Presidente: Mario Neto Borges Diretor Científico: José Policarpo G. de Abreu Diretor de Planejamento, Gestão e Finanças: Paulo Kleber Duarte Pereira Conselho Curador: Presidente: Paulo Sérgio Lacerda Beirão Membros: Afonso Henriques Borges Anna Bárbara de Freitas Proietti Evaldo Ferreira Vilela Francisco Sales Horta Giana Marcellini João Francisco de Abreu José Cláudio Junqueira Ribeiro José Luiz Resende Pereira Magno Antônio Patto Ramalho Paulo César Gonçalves de Almeida Rodrigo Corrêa de Oliveira

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No fim de maio, foi realizado em Brasília um dos eventos mais importantes da área de Ciência, Tecnologia e Inovação. A 4ª Conferência Nacional de CT&I reuniu mais de 3.500 participantes com o objetivo de discutir os rumos, as expectativas e os desafios para a construção de uma política nacional para a área. Representantes de diferentes setores da sociedade, entre eles setor empresarial, movimentos sociais e comunidades indígenas, contribuíram com demandas e sugestões que irão compor um documento referência. O plano é entregar esse documento aos próximos governantes e disponibilizá-lo para todos os interessados via internet, de modo que ele possa continuar sendo construído e aperfeiçoado coletivamente. Apesar da pouca cobertura da mídia, cuja atenção já estava voltada para a seleção brasileira e as poucas semanas até o início da Copa do Mundo, a Conferência tem importância estratégica para toda a sociedade. Afinal, é esse documento que irá subsidiar o planejamento para a CT&I na próxima década. Onde e como investir os recursos, quais áreas são estratégicas para o desenvolvimento do país, o equilíbrio entre ciência básica e ciência aplicada e a revisão do arcabouço legal são exemplos de questões discutidas durante o encontro que são cruciais para o fortalecimento da produção científica e tecnológica. Esse fortalecimento gera processos e produtos competitivos e inovadores, o que contribui para o desenvolvimento econômico e social do país. Para que os objetivos propostos sejam alcançados, é necessário que as pessoas conheçam as propostas e participem das discussões. Afinal, quando os cidadãos conhecem o que se fala sobre ciência, podem tomar decisões através do voto. Mesmo que não se expressem formalmente sobre o assunto, os governantes têm a sensibilidade de perceber a opinião pública e isso afeta o modo como irão trabalhar ao longo de seu mandato. Faça sua parte! E como estamos falando de cidadania, esta edição da MINAS FAZ CIÊNCIA apresenta um trabalho desenvolvido por estudantes do segundo grau que está contribuindo para a melhoria da qualidade de vida em pequenas comunidades sem acesso ao tratamento de água, especialmente aquelas localizadas na zona rural. Eles idealizaram uma tubulação construída com garrafas PET e chapas refletoras. Quando a água do rio passa por essa tubulação, o calor do sol elimina os micro-organismos que podem transmitir doenças como amebíase e disenteria. O trabalho começou em 2007 com duas alunas que hoje já se formaram e teve continuidade com a colega Karoline Lopes. Pelas qualidades, o projeto foi reconhecido em várias premiações nacionais e internacionais, como o Prêmio Google, em que recebeu o primeiro lugar, e a feira internacional Intel ISEF. Vale conferir, também, os primeiros resultados do Programa de Apoio a Redes de Pesquisa. Este Programa reúne pesquisadores de diferentes instituições que desenvolvem pesquisas de ponta sobre temas estratégicos, como bioterismo, nanobiotecnologia e propriedade intelectual. Com cinco anos de existência, ele passou por sua primeira avaliação, a fim de checar se os objetivos estão sendo cumpridos. Os primeiros resultados mostram o avanço da produção científica, a contribuição para formação de recursos humanos e vários pedidos de patentes, o que significa produtos inovadores desenvolvidos no Estado. Outra iniciativa que vai contribuir para o desenvolvimento da ciência em Minas Gerais é a implantação do Centro de Excelência em Bioinformática (CEBio). Primeiro do Estado e do país, o local é equipado com computadores de alta performance que realizam a análise de informações genômicas. A análise de porções do código genético de seres vivos é a base de uma série de processos e permite desde o melhoramento da espécie, visando seu fortalecimento, até a descoberta de partes do genoma que podem estar associadas a certas doenças, o que auxilia na busca por formas mais adequadas de tratamento. Vale conferir essa e as outras reportagens. Boa leitura!

Vanessa Fagundes Editora


Cartas “Parabenizo a todos pela revista da FAPEMIG. Desejo muito sucesso a todos que a fazem”. Elivan Carneiro Ciclista Bananeiras / PB

Publicação trimestral da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais - FAPEMIG nº 40 - dez. a fev. 2010 MINAS FAZ CIÊNCIA informa que as cartas enviadas à Redação podem ou não ser publicadas e, ainda, que se reserva o direito de editá-las, buscando não alterar o teor e preservar a ideia geral do texto.

“Parabéns pelas reportagens! O estudo sobre tumores e armazenamento de células cancerígenas para estudo e a busca de plantas com propriedades e princípios ativos (reportagens publicadas na edição nº 39) merecem nosso elogio e a certeza de que os resultados serão satisfatórios. Vale a pena investigar e desenvolver projetos científicos nessas áreas.” Maria das Dores Lima por e-mail “Sou leitor assíduo da revista já há um bom tempo. Trabalho em uma empresa que, para a minha felicidade, alia pesquisa aplicada à inovação em Minas Gerais. Daí minha simpatia pela revista e pelo que ela representa. Gostaria de parabenizar a equipe da revista, que mantém artigos com ótimo nível.” Leonardo K. Shikida Belo Horizonte/MG

“Olá! Escrevo porque fiquei sabendo por meu professor de Química sobre a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, que sua distribuição é gratuita e que é de grande importância pela sua qualidade geral de informações para nosso aprendizado. Gostaria de parabenizar por essa iniciativa de distribuir gratuitamente esse conhecimento de qualidade, pois sabemos que quanto mais pessoas informadas, instruídas e satisfeitas com as oportunidades oferecidas ao seu crescimento, maior o desenvolvimento, a produção, a independência e a riqueza de um país.” Kleyton Torres Paulino Estudante / Intercursos Montes Claros/MG

“Antes de tudo, devo expressar o meu orgulho pelo desenvolvimento científico de Minas Gerais. Nesse sentido, a revista MINAS FAZ CIÊNCIA mostrase como sendo a grande responsável por este sentimento, uma vez que é a partir da leitura deste meio de comunicação que consigo perceber a magnitude dos trabalhos científicos mineiros. Espero que os recursos destinados à pesquisa sejam crescentes em Minas.” Gilson Cássio de Oliveira Santos Montes Claros/MG “Agradeço a vocês por me disponibilizarem as edições da revista MINAS FAZ CIÊNCIA. Já estou esperando a chegada dos exemplares ansiosamente... Saibam que ela terá grande valia na construção da minha carreira acadêmica. Obrigado!” Jomar Silva Magalhães Estudante/Coltec Viçosa/MG

“Meu nome é Clarice e sou universitária da UNIFEMM, universidade em Sete Lagoas. Já tive a oportunidade de ler as revistas MINAS FAZ CIÊNCIA e considero de grande ajuda para minha formação acadêmica.” Clarice Frade Ferreira Universitária Sete Lagoas/MG

“Primeiramente gostaria de parabenizar pela publicação, conheci a revista através da biblioteca da faculdade UNA, pelo exemplar de número 32 e fiquei maravilhado com a qualidade da revista. Caso seja possível gostaria de receber as próximas publicações.” Leonardo J. Gallo Contagem/MG

“Profissionais da revista MINAS FAZ CIÊNCIA, gostaria muito de voltar a fazer parte do grupo que recebe esta brilhante revista. Fico feliz por ter uma pequena coleção e os amigos que já indiquei estão muito felizes por receberem a revista.” Vilmar Francisco Tavares Contagem/MG

“Gostaria de receber a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, pois tenho enorme interesse nos assuntos e reportagens nela publicados.” Alexandre Faustino Gonçalves Estudante / UNI-BH Belo Horizonte/MG

“Sou conhecedora da qualidade e importância da revista MINAS FAZ CIÊNCIA. Valorizo cada reportagem e sempre que minha irmã recebe a investigo e leio. Realmente considero valiosíssima esta publicação para leitura e pesquisa. Desde já agradeço por este presente muito bem vindo.Um abraço e que o sucesso da revista seja sempre exponencial.” Marly Cristiane Costa Belo Horizonte/MG

“Pela presente, venho solicitar o favor de incluir meu nome entre os assinantes desta grande revista que nos mostra o avanço de trabalhos técnicos em nosso Estado. Aqui em Viçosa, por ser um berço de cultura, tais publicações têm grande valor, pois a gama de informações é enorme e de boa credibilidade. Esperando merecer a valiosa atenção e na certeza de ser atendido, antecipo meus agradecimentos.” Antônio Carlos Alves Torres Viçosa/MG

Para receber gratuitamente a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, preencha o cadastro no site http://revista.fapemig.br ou envie seus dados (nome, profissão, instituição/empresa, endereço completo, telefone, fax e e-mail) para o e-mail: revista@fapemig.br ou para o seguinte endereço: FAPEMIG / Revista MINAS FAZ CIÊNCIA - Rua Raul Pompéia, 101 - 12.º andar - Bairro São Pedro - Belo Horizonte/MG - Brasil - CEP 30330-080 MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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Engenharia

Baixa qualidade da formação e número insuficiente de profissionais podem trazer problemas para o Brasil em um futuro próximo 6

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Engenharia: arte de dirigir as grandes fontes de energia da natureza para o uso e conveniência do homem. A definição de Thomas Tredgold, engenheiro que viveu no século XIX, continua pertinente até hoje. É impossível imaginar nossas vidas sem a presença desta ciência, cuja origem confunde-se com o surgimento da civilização, se for considerada como o emprego de métodos e técnicas para construir, transformar materiais e fabricar ferramentas. Mas, ao longo do tempo, o perfil do profissional de Engenharia evoluiu. De construtor e solucionador de problemas da década de 1950, ele passou a ser um aplicador de tecnologia e hoje é um projetista de soluções. A demanda por engenheiros é crescente. No entanto, os dados registrados no Brasil sobre a formação deste profissional são preocupantes. “Existe uma demanda anual de cerca de 60 mil engenheiros, mas se formam apenas 35 mil, apesar de termos uma capacidade instalada para formar 90 mil. A isso, soma-se uma grande evasão de alunos, já que mais da metade deles se matriculam nos cursos de Engenharia e não o concluem. Tudo contribui para que esse profissional seja disputado no mercado brasileiro”, conta Vanderli Fava de Oliveira, doutor em Engenharia e coordenador do curso de Engenharia de Produção da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). O pesquisador desenvolveu um projeto cujo objetivo foi mapear os cursos existentes e levantar dados sobre a educação em Engenharia no Estado de Minas Gerais. O projeto, apoiado pela FAPEMIG, buscou responder algumas questões, por exemplo, se os cursos estão distribuídos de acordo com a demanda de cada região e se os currículos e as metodologias de ensino/aprendizagem são condizentes com as necessidades atuais de formação profissional. Os resultados foram apresentados no Congresso Brasileiro de Educação em Engenharia da Associação Brasileira

de Educação em Engenharia (Abenge), da qual Oliveira é consultor. Estes dados serviram de base para a apresentação do quadro sobre a formação em engenharia no Brasil durante o Seminário Ibero-americano de Educação em Engenharia, promovido pela Asibei, em português, Associação Ibero-americana de Educação em Engenharia. O evento, realizado em julho deste ano, em Belo Horizonte, reuniu profissionais, pesquisadores e estudantes de 11 países da América Latina e Europa. Nas discussões, ficou clara a preocupação com a qualidade da formação dos profissionais da área e a necessidade de revisão das diretrizes curriculares dos cursos de Engenharia. Os participantes também falaram sobre a existência de um descompasso entre a sala de aula e as exigências do mercado, além de uma formação deficiente dos professores. Entidades representativas da área tiveram a oportunidade de expor algumas preocupações, e isso mostrou que os dilemas enfrentados são parecidos. “A troca de informações entre engenheiros de diferentes países beneficia o desenvolvimento tecnológico em todos os aspectos”, acredita o pesquisador. Vanderli Fava de Oliveira também é avaliador de cursos do Sistema de Credenciamento Regional de Cursos de Graduação dos Estados Partes do Mercosul e Estados Associados (ARCU-SUR) e membro do Programa Regional de Educación para el Desarrollo de Capacidades en Innovación Tecnológica y Emprendedorismo en Carreras de Ingeniería (Precitye). Financiado pelo BID, o Programa, que envolve Argentina, Brasil, Chile e Uruguai, tem o objetivo de produzir conhecimento para desenvolver políticas, programas e processos que permitam formar engenheiros empreendedores e fomentar a criação de empresas de base tecnológica nos países envolvidos. Nesta entrevista concedida à MINAS FAZ CIÊNCIA, ele fala sobre os resultados de sua pesquisa, os probleMINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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mas e as possíveis soluções para melhorar a qualidade da formação dos engenheiros brasileiros, além de apresentar dados importantes e traçar o perfil atual deste profissional. Está mesmo faltando engenheiros no Brasil? Sim, há uma escassez de profissionais no país. Formam-se menos engenheiros do que o Brasil precisa, por isso estamos correndo atrás do prejuízo. Para nos igualarmos com a Argentina, por exemplo, teríamos que triplicar essa formação de engenheiros. A Coreia do Sul tem 49 milhões de habitantes e nós temos cerca de 190 milhões. Formamos 35 mil engenheiros ao ano e a Coreia, 80 mil no mesmo período. Por aí dá para se perceber a disparidade. O Brasil precisa de engenheiros. Para dar conta da nossa demanda teríamos que formar pelo menos 60 mil profissionais ao ano. O interessante é que temos capacidade instalada para formar cerca de 90 mil, ou seja, temos escolas suficientes para formar esta quantidade de profissionais. Mas existe uma alta taxa de desistência dos estudantes, sem falar nos profissionais que perdemos para o exterior. Nos Estados Unidos, existem cerca de 270 milhões de habitantes. Eles precisam de 100 mil engenheiros por ano, mas formam somente 70 mil. Isto significa que buscam 30 mil engenheiros em outros países. Além disso, não há um despertar para a vocação. O aluno no ensino fundamental e médio é amendrontado pela Física e Matemática e, com isso, ocorre uma desmotivação para o curso de Engenharia. Nos Estados Unidos, as escolas já têm projetos para desenvolver esta vocação ainda no pré-primário. Em que áreas vão atuar esses engenheiros? Engenharia é a forma de se trabalhar a cadeia produtiva de produtos ou serviços. Ela é encarregada de todas as transformações, que vão desde detectar a necessidade até fazer com que ela seja totalmente satisfeita. Então, onde houver transformação, seja de bens ou necessidades, está o mercado de trabalho do engenheiro. Um exemplo de

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área que tradicionalmente não tinha engenheiros e hoje já tem necessidade desse profissional é a hospitalar. E o que faz um engenheiro em um hospital? Ele organiza todo o processo produtivo, melhora o fluxo de informações e faz com que o local tenha equipamentos e profissionais adequados para o processo fluir da melhor forma possível. E como o senhor vê a importância da Engenharia para o desenvolvimento do país? Sem engenheiro não há desenvolvimento. O modelo atual de desenvolvimento, globalizado, só funciona com Engenharia. Uma prova disto é que os países ricos têm mais engenheiros que países pobres. A base do desenvolvimento é a transformação de insumos em produtos, bens ou serviços e a base da transformação é a Engenharia.

Engenheiros formados a cada ano: Coreia: 1 para cada 625 habitantes EUA: 1 para cada 3 mil habitantes Brasil: 1 para cada 6 mil habitantes Dos cem novos cursos de Engenharia que surgem por ano no país, a maioria está no setor privado. Isto é um problema? A formação em Engenharia já não dá mais conta da necessidade do mercado, tanto em termos de qualidade como de quantidade. O setor público ficou para trás, então se abriu espaço para a iniciativa privada criar cursos e vagas. Mas nós sabemos que existe o problema da qualidade. Antes de 1996, a maioria dos cursos de Engenharia estava no setor público. Hoje, cerca de 70% dos cursos ofertados estão no setor privado. Não podemos encarar isto como um problema, mas sim como um fato que deve ser muito bem monitorado pela sociedade. Um possível problema é o fato

da maioria dos cursos serem noturnos, como em Minas Gerais, por exemplo. Muitos destes alunos trabalham e o tempo para se dedicar ao estudo é pequeno. Se o estudante não souber administrar seu tempo, a formação pode se tornar deficiente. Recentemente, foi publicada em um grande veículo uma entrevista com o diretor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), em que ele dizia que dois terços dos engenheiros formados hoje não estão habilitados para exercer a Engenharia. Isto é fato. O que ocorre é que a formação tradicional já não dá mais conta do recado. Hoje, a empresa que contrata um engenheiro não quer saber o que ele aprendeu, mas sim o que ele sabe fazer com o que aprendeu. Então não basta apenas ter o conhecimento? Não, é preciso ter competência. O conhecimento é a base para a competência, mas ele tem que se juntar à habilidade e a outros atributos. Estes atributos são muito difíceis de desenvolver na sala de aula tradicional. Isto significa que esta sala de aula tem que mudar. O desenvolvimento atual da educação superior não se baseia mais em conteúdo, mas em metodologia. Traçando um paralelo com as empresas, podemos observar o que mudou nas organizações nos últimos 50 anos. As organizações tinham como prioridade investimento em capital e instalações. Hoje, o importante é investir em conhecimento. O ato de “sujar a mão de graxa” foi transferido para os países em desenvolvimento. Atualmente, calcula-se o tamanho de uma empresa pelo seu nível de conhecimento - é o que chamamos de capital intelectual. Precisamos formar profissionais adequados – isso não inclui aqueles que entram na escola, cursam várias disciplinas e pensam que estão preparados para o mercado. Não estão. Eles têm que desenvolver uma série de outros atributos. O que deve mudar nesta formação? Na sala de aula, os cursos de Engenharia oferecem, no máximo, 50% do que os alunos precisam para tor-


narem-se engenheiros. O restante ele deve adquirir em atividades como a iniciação científica, monitoria, estágio, trabalhos em grupo, enfim, atividades em que ele possa ter uma participação ativa. A participação passiva em sala de aula oferece apenas uma parte do que o aluno precisa. Temos que reformar esta questão metodológica. A quantidade de conhecimento que se exige para a formação hoje é muito maior e não dá para ficar aumentando o tempo de curso. É preciso criar processos para aplicar este conhecimento. As grandes empresas fabricam mais rápido, com melhor qualidade e menor custo. Isto não se aplica às universidades ainda. O processo da sala de aula é muito lento. Este aspecto é observado tanto nas universidades públicas como nas privadas? Não vejo diferenças, não neste aspecto. O que predomina é a aula tradicional, como na Escola de Pontes e Calçadas, de 1747, na França, que foi a primeira escola de Engenharia do mundo. Se um professor ficar em estado latente por 300 anos e acordar de repente em uma sala de aula, ele poderá dizer “como eu falei na aula passada...” e continuar lecionando. Diferente do médico do século XVIII, que se acordar hoje em um centro cirúrgico não terá a menor ideia do que estará acontecendo. Isto significa que a nossa sala de aula parou no tempo. Mas já existe uma reação. Por que aconteceu esse congelamento, essa parada temporal da sala de aula? Isto se deve ao fato “sei, logo ensino”. O aluno formava-se e não desenvolvia conhecimentos pedagógicos e educacionais para lecionar, repetindo na sala de aula o que o seu professor lhe ensinou. Não havia uma preocupação com o aspecto metodológico. É preciso acelerar o processo de aprendizagem. Não o de aprender as técnicas, mas o de aprender a aprender, que é o que chamamos de desenvolvimento de competências e habilidades a partir do conteúdo. Hoje, o aluno, na maioria das vezes, aprende só o conte-

údo, mas não sabe o que vai fazer com o que aprendeu. O estudante de Engenharia geralmente não sabe para que vai lhe servir as disciplinas do ciclo básico, como Cálculo, Física e Química. Isto explica o alto índice de desistência nos primeiros períodos? Sim. Cerca de 50% a 55% dos alunos que entram no curso de Engenharia não se formam. Ou seja, mais da metade dos alunos que iniciam o curso não o concluem. Levantei alguns dados da Faculdade de Engenharia da UFJF desde a década de 1960 até o ano de 2006. Descobri que 42% dos alunos que se matricularam não se formaram. A maior taxa de evasão ocorre no básico, entre o 1º e o 3º períodos. A partir do 5º período, este índice é muito pequeno, menor que 5%. Isto poderia ser resolvido com questões metodológicas. Se as disciplinas do básico fossem ministradas de uma forma contextualizada, a evasão cairia pela metade. Por exemplo, é preciso explicar para o aluno que ele precisa aprender mecânica porque amanhã precisará estruturar e desestruturar artefatos.

“A formação tradicional já não dá mais conta do recado. Hoje, a empresa que contrata um engenheiro não quer saber o que ele aprendeu, mas sim o que ele sabe fazer com o que aprendeu.”

Isso ajudaria a resolver o problema? Sim. É o que chamamos de contextualização do conhecimento. O nosso curso de Engenharia de Produção, por exemplo, tem três disciplinas de contextualização, no 1º, 3º e 5º períodos, exatamente para evitarmos a perda de alunos. Isto fez com que o nosso curso apresentasse uma evasão de apenas

14%. A média de evasão nas federais é de 40% a 45%. Nas privadas, de 60% a 70%. Para se ter uma ideia, em média, os cursos possuem 90 vagas. Destas, 80 são preenchidas e apenas 30 alunos se formam. Vale lembrar, também, que todo curso de Engenharia tem o que chamamos de núcleo duro. Por exemplo, na Engenharia Civil, temos a disciplina de análise de estruturas. Na Elétrica, magnetismo e circuitos. Na Engenharia de Produção, pesquisa operacional e modelagem. Todas elas com um grande conteúdo de matemática. Muitas vezes, o aluno tem de repeti-la. Dessa forma, o tempo de formação que é previsto para cinco anos acaba chegando a cerca de sete anos, se acrescentarmos as repetências ocorridas no básico em Matemática e Física. A evasão poderia ser diminuída com providências não muito complicadas. A primeira, investir na atualização do professor, principalmente o do básico, de maneira que ele contextualize os seus conteúdos, o que seria ideal. Outra alternativa é criar disciplinas específicas de contextualização. Um exemplo são as disciplinas de integração do conhecimento, por meio da qual o aluno vai até uma empresa saber como ela funciona, como é a fabricação dos produtos e como são prestados os serviços ou se exercita no próprio curso em Laboratórios de integração curricular e fábricas de aprendizagem que são propostas de sucesso em algumas Escolas de Engenharia.Tudo isso com o objetivo de mostrar como as disciplinas, principalmente as do básico, se aplicam nestes processos. Essa parceria com empresas já é uma realidade? Infelizmente não, são poucos os cursos que têm essa preocupação. Mas a forma como são ministradas as disciplinas do básico não é um problema do Brasil, e sim do mundo todo. O senhor disse que a metodologia de ensino parou no tempo. E quanto às pesquisas na área? Há dez anos, você poderia contar nos dedos os pesquisadores na área de educação em Engenharia. Hoje, reuMINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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nimos mais de cem e temos um grupo grande no Brasil, alguns em Minas Gerais, com várias propostas de investigação. A escolha de Minas Gerais para sediar o Seminário Ibero-americano de Educação em Engenharia é consequência disso? Pode-se dizer que foi um dos fatores. A Engenharia no Brasil nunca foi muito regional. A nossa pesquisa, que se concentrou em Minas Gerais, mostra que existem lugares que possuem cursos de Engenharia, mas na região não há demanda de empregos. O engenheiro forma-se para atuar em qualquer lugar do país e do mundo. Podemos dizer que, hoje, a Engenharia está globalizada. O Seminário Ibero-americano, em Belo Horizonte, reuniu profissionais de 11 países. Esta troca de informações entre engenheiros de diferentes localidades beneficia o desenvolvimento tecnológico em todos os aspectos. Para incentivar este intercâmbio de informações foi proposta a criação de um Espaço de Educação Superior Latinoamericano, para a realização de atividades de pesquisa, desenvolvimento e transferência de conhecimentos. Quais foram os principais temas discutidos? Eu destacaria a preocupação com a formação do professor. Se encontramos deficiências na formação dos engenheiros é porque temos que melhorar o processo de formação e atualização dos professores. Outra preocupação é a integração entre os países de maneira que um engenheiro do Brasil possua uma formação em igualdade com a de qualquer outro país. Não pode haver uma disparidade. Hoje, a principal preocupação na formação dos engenheiros é qualidade. A solução seria investir em recursos humanos. Sem investir nas pessoas, de nada adiantam os laboratórios, os equipamentos e as instalações de última geração. É preciso capacitar os professores em termos de metodologia de ensino e aprendizagem. Não falo da formação pedagógica tradicional, mas de uma formação em que ele tenha habilidade de ensinar utilizando todos os recursos disponíveis. Não é incomum entrar em uma sala de aula em que o professor tem à sua disposição um datashow de última

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geração projetando o que antes era escrito no quadro. Neste caso, a tecnologia só colaborou para que ele não sujasse as mãos de giz. Outro problema é o da aprendizagem passiva. O aluno precisa fazer as coisas e não ficar só ouvindo o professor. Estudos mostram que ouvindo aprendemos 30% do conteúdo. Ouvindo e vendo, 60%. Ouvindo, vendo e fazendo, este índice sobe para 90%. Com aulas interativas, o aproveitamento pode triplicar. Um detalhe importante é que estas novas metodologias vão exigir

“Cerca de 50% a 55% dos alunos que entram no curso de Engenharia não se formam. Ou seja, mais da metade dos alunos que iniciam o curso não o concluem.” mais tempo do professor e nas escolas há uma competição desleal em relação à pesquisa e publicações. Isto toma muito tempo do professor e, atualmente, é o que agrega valor a ele. Lecionar não agrega valor. É preciso mudar esta visão sobre o valor da atividade docente, invertendo assim as prioridades do professor. E empreendedorismo na formação? A formação empreendedora é fundamental. As empresas hoje contratam um engenheiro não como uma peça de reposição como era feito até a década de 1980. Esta formação empreendedora está ligada às competências. Se for disponibilizada para o aluno uma metodologia em que ele tenha a oportunidade de desenvolver suas competências e habilidades, ele naturalmente irá pelo caminho do empreendedorismo. Em algumas escolas, já existe essa preocupação. As empresas juniores, por exemplo, são uma ótima maneira de formar empreendedores. Outra opção são convênios firmados entre universidades e empresas. A gestão também é uma preocupação da Engenharia. É preciso gerir o

que se faz. Por exemplo, um engenheiro civil que não tem noção de como gerir uma obra com conhecimento científico não vai sobreviver no mercado se repetir o que se fazia antigamente, época em que se desperdiçava um terço dos materiais utilizados na construção. A gestão é que está mudando esta realidade, pois exige que o processo corra bem a ainda melhore a todo instante. O engenheiro que antes era um “resolvedor” de problemas, hoje precisa ser um projetista de soluções. Existem disciplinas de gestão nos cursos de Engenharia? A primeira palavra que o Sistema do Conselho Federal/Regionais de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea-Crea), incluiu ao alterar a sua resolução de habilitação profissional foi “gestão”. Assim, a gestão hoje é uma atividade reconhecida da Engenharia. Como está Minas Gerais em relação ao resto do país em termos de formação de engenheiros? Minas Gerais foi o primeiro estado do Brasil a criar escolas de Engenharia no interior. Em 1914, já tínhamos escolas em Ouro Preto, Itajubá e Juiz de Fora. Por muito tempo, Minas Gerais foi o Estado que possuía mais escolas na área. Depois, fomos ultrapassados por São Paulo e Rio de Janeiro. Recentemente, Minas superou o Rio de Janeiro em número de escolas e engenheiros formados e está crescendo mais neste aspecto do que os outros estados, o que corrobora com o seu desenvolvimento. Sem falar que a qualidade do ensino superior no Estado de uma maneira geral é muito boa. Os engenheiros mineiros são muito bem vistos nos outros estados. O mercado de trabalho no Estado é grande? O mercado de trabalho é bom nos chamados eixos das grandes BRs. Da Fernão Dias até o Vale do Aço há uma grande concentração de empregos em Engenharia. Outro eixo é o que vai de Uberlândia até Belo Horizonte e Juiz de Fora. Estes são os principais mercados em termos de empregabilidade. Mas as escolas devem mostrar que engenheiros são sujeitos desbravadores. Ao se


formarem, os profissionais podem ir para uma cidade e fomentar o desenvolvimento local. O engenheiro não deve ser apenas mão de obra, mas um agente de desenvolvimento.

15000

32.128

30.246

20000

2001

2002

21.863

25000

23.831

26.555

30000

19.810

Quais as modalidades estão em ascensão? Além da Engenharia de Produção, pode-se destacar a chamada Engenharia Ambiental. Em 1996, não existia nenhum curso nesta modalidade. Hoje já existem cerca de 130.As engenharias de Petróleo e de Telecomunicações também estão crescendo. Mas é importante destacar que engenheiros que possuem uma formação de qualidade sempre terão espaço no mercado de trabalho.

35000

17.818

Em relação às modalidades de formação, quais podemos destacar em Minas Gerais? Até dez anos atrás, a Engenharia Civil era o destaque. Hoje, formamos mais engenheiros de Produção. No Brasil, existem cerca de 350 cursos nesta modalidade. A segunda colocada é a Engenharia Elétrica, com cerca de 220 cursos, e em terceiro lugar fica a Engenharia Civil. Minas Gerais repete essa proporção.

Engenheiros Formados por Ano

2003

2004

2005

2006

2007

Fonte: Organizado por Vanderli Fava de Oliveira, com base em dados do INEP

Engenharia em Minas Gerais O crescimento do número de cursos no Estado corresponde à demanda por engenheiros e novas modalidades de Engenharia? Os currículos e as metodologias de ensino são condizentes com as necessidades atuais de formação profissional? Qual o nível de interação entre os setores empresariais, as escolas de Engenharia e o conselho profissional? Essas são algumas das perguntas que Vanderli Fava de Oliveira buscou responder com seu projeto “A Educação em Engenharia em Minas Gerais: crescimento do número de cursos e modalidades, consequências pedagógicas e mercado de trabalho”. Como explica o pesquisador, que trabalha com a educação em Engenharia desde 1996, o projeto nasceu da falta de dados e elementos de análise sobre a área de uma maneira geral. As informações começaram a ser coletadas em 2005, dentro de Minas Gerais. Segundo Oliveira, essa etapa não foi fácil. “Enviamos questionários para todas as escolas de Minas, mas precisávamos ficar ligando para obter as respostas. Também

aproveitamos eventos da área para coletar dados”, diz. Uma das conclusões é que não há razão clara para se instituir um curso de Engenharia. Ou seja, não é porque determinada região possui minas que se criará ali um curso de Engenharia de Minas.“A escola de Engenharia mais antiga é a de Ouro Preto. Na época, queriam criar a Escola de Minas no Rio de Janeiro, mas Dom Pedro II articulou para que ela fosse criada aqui. A segunda escola criada foi a de Belo Horizonte pela simples razão de ser uma capital e também para resolver problemas urbanos. Em Itajubá, a Escola de Engenharia foi criada em 1913: um advogado visionário percebeu que aquele era um local estratégico pela proximidade com Rio de Janeiro e São Paulo. A consequência é que hoje o Vale da Eletrônica está em Itajubá e a universidade fomentou o desenvolvimento da região”. Outra prova de que a criação das escolas de Engenharia não está necessariamente ligada às necessidades locais é o fato de que na região do Norte de Minas existem muitas mineradoras, mas não há escolas de Engenharia de Minas. Através de ma-

pas sobre os dados econômicos do Estado, a equipe contatou, também, que o número de escolas e vagas de determinada região está diretamente ligado ao tamanho de sua população e à riqueza do local. Apesar de ter sido utilizada para avaliar os cursos em Minas Gerais, a metodologia pode ser aplicada em qualquer localidade do Brasil. De acordo com Oliveira, as publicações e o levantamento de dados inéditos podem contribuir para futuras pesquisas. “Fomos premiados pela Sociedade Mineira de Engenharia (SME), no Encontro Mineiro de Engenharia de Produção (Emepro), e no Encontro Nacional de Engenharia de Produção (Enegep). E ainda existem muitas possibilidades de estudos a partir dos dados obtidos”, finaliza. Juliana Saragá Projeto: “A Educação em Engenharia em Minas Gerais: crescimento do número de cursos e modalidades, consequências pedagógicas e mercado de trabalho” Modalidade: Edital Universal Coordenador: Vanderli Fava de Oliveira Valor: R$16.981,13 MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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Durante o Seminário Ibero-americano de Educação em Engenharia, realizado em julho, foi produzida uma Declaração de Belo Horizonte. Ela traz considerações sobre a formação em Engenharia e o futuro da área. A carta é reproduzida abaixo, na íntegra.

Declaração de Belo Horizonte Por ocasião de sua vigésima sexta reunião o Comitê Executivo da ASSOCIAÇÃO IBERO-AMERICANA DE INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO DE ENGENHARIA – ASIBEI, com a participação de representantes da Argentina, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Chile, Equador, Espanha, Paraguai, Peru, Portugal e Uruguai, apresenta à Região Ibero-americana o resultado de sua reflexão sobre temas de especial significado e importância para atender os compromissos com a sociedade. Sem ignorar os avanços e as realizações alcançadas nos países da Região é evidente que ainda persistem sensíveis necessidades e carências sociais, principalmente relacionadas com os temas Ambientais, Energéticos, de Infraestrutura, Saúde, Alimentação e Educação, todos eles aspectos cruciais nos quais a engenharia desempenha um papel fundamental para alcançar o desenvolvimento socioeconômico, científico, tecnológico e cultural. Para contribuir com a solução destes problemas na Região faz-se mister formar engenheiros na quantidade requerida, com padrões de qualidade internacionais e com estratégias curriculares que favoreçam a relevância local e regional de seus conhecimentos para contribuir com a urgente tarefa de reconhecer, identificar e caracterizar as prioridades que permitam diagnosticar, propor, planejar e implementar propostas sustentáveis em cada um dos temas mencionados. A ASIBEI propõe como diretrizes para criação de um Espaço de Educação Superior Latino-americano: a realização de atividades de pesquisa, desenvolvimento e transferência de conhecimentos e experiências relevantes para as necessidades da Região; a articulação de esforços e iniciativas com setores sociais, estatais e econômicos; a promoção da

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qualidade da educação nos níveis de formação básico e médio e a introdução nos programas de formação de engenheiros de aspectos tais como o incentivo à cultura empreendedora, à reflexão permanente sobre a responsabilidade social do engenheiro e sobre o impacto ambiental e social da prática de sua profissão. Este é um desafio que devemos assumir em todos os nossos países e é uma obrigação conjunta dos estados, universidades, organizações sociais e empresariais. A ASIBEI, como Associação representativa das instituições ibero-americanas de educação de engenharia, convida as autoridades políticas e acadêmicas da Região a reconhecer, fomentar e apoiar iniciativas formuladas pelas instituições dedicadas à formação de engenheiros para ter sucesso nos objetivos propostos mediante estratégias e projetos que promovam a cooperação, o trabalho acadêmico solidário e a construção e difusão de conhecimentos com propósitos de desenvolvimento regional. O ano do Bicentenário de vários dos países da Região é uma ocasião propícia para impulsionar, mediante o esforço de todos os atores políticos, acadêmicos, sociais e econômicos, a partir da história compartilhada e das forças e recursos da Região, a consolidação da formação de engenheiros altamente qualificados como fator decisivo para a solução das necessidades, carências e debilidades que retardam o acesso de nossas sociedades a níveis de desenvolvimento sustentável que promovam a equidade e o bem-estar social, favoreçam os propósitos de competitividade e inovação para contribuir com o desenvolvimento econômico e a preservação da biodiversidade dos ecossistemas e dos recursos naturais de nossa Região.

Membros da ASIBEI A ASSOCIAÇÃO IBERO-AMERICANA DE INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO DE ENGENHARIA – ASIBEI, tem entre seus objetivos, estimular a busca e geração de conhecimentos relacionados com a educação em engenharia, e é constituída pelas associações de faculdades e escolas de engenharia dos respectivos países ibero-americanos e, em alguns casos, onde tais associações não estão constituídas, por universidades que oferecem os ditos programas. A ASIBEI é composta atualmente pelos seguintes membros: Associação de Faculdades e Escolas de Engenharia, ANFEI, México Associação Colombiana de Faculdade Engenharia, ACOFI, Colômbia Associação Brasileira de Educação em Engenharia, ABENGE, Brasil Associação Equatoriana de Instituições de Educação em Engenharia, ASECEI, Equador Conselho Federal de Decanos de Engenharia, CONFEDI, Argentina Conselho de Decanos de Faculdades de Engenharia, CONFEDI, Chile Núcleo de Decanos de Engenharia,Venezuela Conselho Nacional de Faculdades de Engenharia do Peru, CONAFIP Universidade Politécnica de Madri, Espanha Universidade Politécnica de Valência, Espanha Universidade de Castilha da Mancha, Espanha Instituto Politécnico de Setúbal, Portugal Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, ISEL, Portugal Universidade da República, Uruguai Universidade ORT, Uruguai Universidade Católica do Uruguai Universidade Católica de Assunção, Paraguai Universidade Nacional de Assunção, Paraguai.   Belo Horizonte, Brasil, 8 de julho de 2010


Mercado Empreendedorismo

Torneio Tecnológico

Alunos de mestrado e doutorado certamente se tornarão pesquisadores, correto? Errado. Algumas vezes, o projeto de pesquisa desenvolvido em um laboratório pode ser a semente de um novo empreendimento e uma bem sucedida carreira no setor empresarial. É isso que estão descobrindo os alunos inscritos no Programa Mineiro de Empreendedorismo na Pós-gradu-

ação. Por meio desse Programa, eles participam de aulas teóricas, recebem orientações de empresários e realizam visitas técnicas – tudo para provar que ciência e tecnologia podem se transformar em um bom negócio. Aluir Dias Purceno, Felipe Tadeu Fiorini Gomide e Juliana Lott Carvalho, alunos de pós-graduação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG),

Estudantes de pós-graduação aceitam o desafio de encontrar soluções para problemas reais

estão vivendo essa experiência. O grupo, coordenado pelo professor do Departamento de Química, Rochel Montero Lago, desenvolveu uma pesquisa que resultou em um processo inovador de separação óleo-água. A equipe partiu de um problema da indústria petrolífera. Durante o processo de exploração de petróleo, é comum o aparecimento de água asMINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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sociada ao óleo. Embora sejam substâncias que não se misturam, elas ascendem à superfície sob a forma de uma emulsão. Essa emulsão água-óleo é caracterizada por diminutas gotas d’água dispersas no petróleo recobertas por uma fina camada oleosa. As duas substâncias devem ser separadas, pois a emulsão afeta negativamente todo o processo, desde a produção até o refino. Para isso, são utilizados desemulsificantes. A maioria dos desemulsificantes utilizados atualmente são polímeros. A equipe da UFMG testou a substituição desses polímeros por nanotubos de carbono aderidos à vermiculita, um mineral abundante no Brasil. Esse mineral tem afinidade com a água e, com a síntese de nanotubos de carbono, que possuem afinidade com o óleo, criam nanopartículas anfifílicas – material que possui em sua estrutura duas partes de polaridade diferentes associadas, uma solúvel em água e outra que recusa a água. “Uma das vantagens dessas partículas é que, ao contrário dos desemulsificantes utilizados atualmente pelas indústrias do setor, elas poderiam ser separadas da mistura magneticamente e ainda serem reutilizadas por cinco vezes, sem perder a eficiência”, completa Aluir Purceno. Segundo o pesquisador, isso é capaz de gerar uma economia de até 80% no processo. “Para uma empresa do porte da Petrobras, que gasta anualmente cerca de US$1 bilhão para fazer a separação da emulsão água-óleo, seria uma economia de US$800 milhões”. O projeto também resultou na criação da empresa Magnano. Purceno conta que se surpreendeu com a experiência. “Imaginava o embate como um curso teórico e chato. Quando cheguei lá, fui percebendo que o curso não tinha nada de teórico, muito pelo contrário, era totalmente prático. Nós vivenciamos a construção do conhecimento e o autoconhecimento empreendedor. Todos podemos ser empreendedores, todos temos características empreendedoras, só nos falta despertá-las”. Para ele, o sucesso da iniciativa vai além da metodologia, e está mais relacionado

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à qualidade e à experiência dos facilitadores, que conseguem proporcionar aos alunos da pós-graduação o contato com o empreendedor dentro de cada um. O plano de inovação do grupo foi eleito o melhor da UFMG e, agora, competirá com os planos de inovação de outras universidades pelo título de Plano Inovador Vencedor do Programa Mineiro de Empreendedorismo na Pós-graduação.

Embate

O Programa Mineiro de Empreendedorismo na Pós-graduação é uma iniciativa que busca desenvolver habilidades de empreendedorismo e inovação em alunos de cursos de mestrado e doutorado de diferentes áreas. A proposta é estimular os alunos a transformarem projetos testados em laboratórios em novos negócios, levando a pesquisa acadêmica para o mercado. “Existe uma cultura nas universidades de que os alunos que desenvolvem pesquisa devem se tornar professores ou cientistas. Com o Programa, eles percebem que também podem se tornar empresários, e se constrói uma ponte entre universidade e mercado”, defende o secretário adjunto de Ciência ,Tecnologia e Ensino Superior de Minas Gerais, Evaldo Ferreira Vilela. A Secretaria, por meio do Sistema Mineiro de Inovação (Simi) e em parceria com a FAPEMIG, o Instituto Inovação, a Fiat e a Associação Nacional de Pes-

quisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), é responsável pelo projeto, que recebeu investimento de R$1 milhão para a capacitação dos pós-graduandos. O Programa foi estruturado a partir de um método chamado Empreendedorismo de Base Técnológica (Embate). A metodologia insere equipes em situações do cotidiano de um empreendedor e do processo de inovação e as desafia a encontrar soluções para problemas reais, lidando com imprevistos e buscando resultados O Embate é um seminário vivencial, dinâmico e participativo, com duração de 20 horas, que resulta na elaboração de planos de inovação. Estes planos são o resultado de um trabalho realizado em grupos multidisciplinares com o objetivo de estruturar uma ideia ou conhecimento científico em forma de produto, serviço, tecnologia ou negócio inovador. Trata-se de um exercício que irá desenvolver nos participantes percepções, habilidades e competências. O Programa teve início em março deste ano, com a participação de 13 universidades públicas sediadas em Minas Gerais: as federais de Juiz de Fora (UFJF), de Lavras (Ufla), de Minas Gerais (UFMG), de Ouro Preto (Ufop), de São João Del Rei (UFSJ), do Triângulo Mineiro (UFTM), de Uberlândia (UFU), de Viçosa (UFV), dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), de

Foto: Marcelo Focado

Felipe Gomide, Juliana Carvalho e Aluir Purceno, alunos de pós-graduação da UFMG, desenvolveram processo inovador de separação água-óleo.


Foto: Marcelo Focado

O método desenvolvido pela equipe da UFMG, que pode gerar economia de até 80%, utiliza nanotubos de carbono e vermiculita, um mineral abundante no Brasil. Foto: Instituto Inovação/Divulgação

Alfenas (Unifal) e de Itajubá (Unifei), além das estaduais do Estado de Minas Gerais (Uemg) e de Montes Claros (Unimontes).

Novas experiências

Foto: Instituto Inovação/Divulgação

Visitas a centros de inovação (acima) e a vivência de situações típicas do cotidiano de um empreendedor fazem parte do programa.

O Programa segue algumas etapas. A primeira delas é a inscrição dos pósgraduandos. Em seguida, são realizados os Embates dentro das universidades, quando os alunos, após um seminário que mistura lições de comportamento empreendedor e gestão, elaboram um plano de inovação. Cada universidade seleciona seu plano vencedor, como foi o caso da Magnano na UFMG. Os 13 planos selecionados, um por universidade, passam para a fase seguinte, o Torneio por Universidade. O Plano Inovador Vencedor será anunciado em outubro, durante a Inovatec, feira de inovação que será realizada no Expominas. O prêmio é uma visita a um centro de inovação no exterior. O Instituto Inovação, que atua na área de gestão tecnológica, foi responsável por uma consultoria e intenso trabalho de divulgação nas universidades, com palestras de sensibilização com o tema “Inovação” para pró-reitores, coordenadores de cursos, professores, incubadoras de empresas e alunos. Em seguida, foi aberta a inscrição para mestrandos e doutorandos. Mais de 160 alunos de mestrado e doutorado se inscreveram para participar da iniciativa. Na Universidade Federal de Viçosa (UFV), foi um e-mail da Pró-reitoria de

Pesquisa e Pós-graduação que apresentou o Programa à Maíra Nicolau de Almeida, da área de Bioquímica. Ela considera a proposta de incentivar alunos a se tornarem empreendedores muito importante dentro do contexto atual. “Somos muito incentivados a fazer pesquisa e a publicar artigos científicos. Porém, se ficarmos presos a essa realidade, teremos menos opções ao terminar o curso. Ao incentivar o empreendedorismo, abrem-se portas além da docência”, opina. Junto com Arthur Sodré, Daniel Lobato e Mary Hellen Fabres, todos alunos de pós-graduação da UFV, Maíra desenvolveu o projeto Laczero, uma proposta inovadora para a retirada da lactose do leite. “Este processo é importante em processos industriais de fabricação de doces e outros produtos derivados de leite, além de possibilitar o consumo de leite pelos intolerantes à lactose”, diz. A inovação do projeto está na forma como a lactose é processada, que difere do processo atual, tornando-o mais econômico e ecologicamente correto. Esse foi o plano de inovação escolhido pela UFV como vencedor e irá representar a Universidade no Torneio final. Vale lembrar que, em todas as fases do Programa Mineiro de Empreendedorismo, há visitas a centros de referência em inovação tecnológica em Minas. Os grupos da UFV, por exemplo, visitaram a Acrotech, empresa que desenvolve e comercializa sementes selecionadas pré-germinadas de macaúba. Maíra considerou a visita muito produtiva, pois a empresa também é fruto de uma inovação científica que surgiu dentro da universidade. “Como a Acrotech é uma empresa relativamente nova, pudemos entender um pouco sobre o processo de implantação e expansão. Isso nos encoraja a iniciar um processo como esse”. Para ela, a experiência de participar do Embate foi muito enriquecedora. “Eu modifiquei bastante a forma de olhar para pesquisa e agora visualizo mais possibilidades para meu futuro”. Juliana Saragá e Vanessa Fagundes MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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Redes

Crescimento Monitorado Programa de Apoio a Redes de Pesquisa da FAPEMIG completa cinco anos e passa por processo de avaliação Nanopartículas que agem exatamente sobre as células cancerosas, tratamento personalizado contra o câncer de colo de útero, plantações mais resistentes a pragas, sequenciamento do DNA de alguns organismos. O Programa de Apoio a Redes de Pesquisa da FAPEMIG completou o quinto aniversário com resultados já visíveis. Para medi-los, a Fundação iniciou em junho um processo de avaliação que teve como primeira etapa o I Seminário de Avaliação das Redes de Pesquisa. O evento reuniu coordenadores e pesquisadores

integrantes das oito redes financiadas pela FAPEMIG a fim de que apresentassem resultados, trocassem experiências e levantassem possíveis soluções para dificuldades encontradas. Segundo o presidente da FAPEMIG, Mario Neto Borges, quando foi criado, em 2005, o Programa de Apoio a Redes de Pesquisa já previa duas avaliações: uma aos três anos de duração e outra aos cinco. Aos três anos, houve uma avaliação preliminar do Programa, feita administrativamente. Agora, aos cinco anos, a avaliação será feita pelo Depar-

Foto: Rede Mineira de Bioterismo/Divulgação

Uma das redes apoiadas pela FAPEMIG é a de Bioterismo, que busca padronizar e garantir a qualidade no tratamento de animais de laboratório.

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tamento de Avaliação da FAPEMIG e pelo próprio Conselho Curador, que o criou, para verificar se o mantém. “O Conselho Curador se debruçará sobre o Programa para fazer uma discussão cuidadosa em sua avaliação. As redes serão avaliadas individualmente e continuarão sendo beneficiadas ou não, dependendo de seu desempenho”, diz Borges. As informações levantadas durante o I Seminário de Avaliação de Redes de Pesquisa serão levadas ao conhecimento do Conselho, a fim de subsidiar a avaliação. Para o chefe do Departamento de Avaliação da FAPEMIG, Fabiano Valentim, a participação de todas as redes no Seminário, por meio de coordenadores e pesquisadores integrantes, foi muito positiva. “É uma forma da FAPEMIG interagir melhor com as redes e saber o que elas estão executando no dia-a-dia. Elas também puderam apresentar diversas sugestões, que serão estudadas, como, por exemplo, a criação de um conselho de coordenadores das redes. Além disso, o encontro serviu como introdução aos pesquisadores sobre a forma como a FAPEMIG irá avaliá-los e quais resultados a Fundação espera com o Programa”, diz. Segundo Valentim, o encontro apontou a necessidade de institucionalização da


rede, com a criação de normas internas, um estatuto, um comitê gestor e reuniões periódicas. Após o I Seminário, a avaliação das redes continuará em uma nova etapa, que deve ter início em setembro. Ela será composta por visitas técnicas às reuniões internas de cada uma. As visitas serão realizadas por um consultor, acompanhado de um técnico da FAPEMIG. “Vamos acompanhar essas reuniões e a ideia é, posteriormente, fazer um registro das atividades das redes nos últimos três anos. Vamos visitar as instalações físicas, o local onde vai ser realizada a reunião e vamos avaliar como está o andamento das pesquisas, o relacionamento entre os membros e as atividades que estão realizando em conjunto”, explica Fabiano Valentim. Conforme ele esclarece, são dois tipos de avaliação. Uma, feita pelo consultor, refere-se ao desenvolvimento dos projetos de pesquisa de cada rede. Outra é a avaliação da infraestrutura, em que se verifica se os equipamentos estão instalados adequadamente, se os técnicos estão trabalhando e se os Foto: Cristiano Quintino

bolsistas estão executando as atividades de pesquisa. Segundo Valentim, há uma proposta que prevê um registro das atividades, que vai incluir informações como a composição da rede, o que ela realizou, os resultados dos projetos que desenvolveu e todas as suas atividades. “A ideia é institucionalizar a rede e apresentar todo o seu corpo: quem são os dirigentes, quem são os componentes, qual é o desempenho operacional, quais resultados ela obteve. Pretendemos gerar um relatório a ser publicado no ano que vem, entre as comemorações dos 25 anos da FAPEMIG”, adianta. Para a coordenadora das Redes Mineiras de Bioterismo e Farmacologia, a bióloga e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Vera Peters, o processo de avaliação é muito benéfico para o desenvolvimento e organização das redes. “O encontro realizado pela FAPEMIG foi muito valioso e deveria ser o primeiro de uma série. Foi possível aos coordenadores se reunirem, discutirem os problemas existentes, conhecerem as formas de funcionamento das outras redes, buscarem ações conjuntas. Um benefício muito grande para a organização e para os rumos que serão traçados”, diz. Segundo ela, a avaliação e o acompanhamento dos trabalhos é importante, principalmente, por se tratar de um programa novo, ainda não experimentado na FAPEMIG e por muitos pesquisadores.

Experimentos de qualidade

A Rede Mineira de Pesquisas em Nanobiotecnologia, com pesquisadores renomados, é referência em sua área de atuação.

A Rede Mineira de Bioterismo, coordenada por Peters, foi uma das primeiras a receber apoio da FAPEMIG. A Rede surgiu em 1998, a partir de um levantamento feito no Estado das condições dos biotérios ou criatórios de animais utilizados em experimentos científicos. O levantamento, financiado pela FAPEMIG, foi realizado sob consultoria da argentina Adela Rosenkrand, à época, consultora da Organização Panamericana de Saúde (Opas). O levantamento revelou que em Minas Gerais não havia um biotério com todas

as condições necessárias, mas, em determinadas áreas, havia competências que poderiam se unir. Dessa forma, a Rede se estruturou inicialmente com sete biotérios que, na época, reuniam as melhores condições. “Desde então, eles vêm trabalhando para alcançar melhores resultados, melhores instalações, formarem recursos humanos, uniformizar técnicas e métodos de criação e experimentação animal”, afirma Peters. Hoje, oito instituições formam a rede, cada uma com competência especial na criação de determinada espécie animal e com uma área de domínio, como nutrição ou microbiologia. A Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), por exemplo, tem especialidade na criação de cães e a Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ) está se aperfeiçoando na criação de mini-pigs (pequenos porcos). Como a demanda maior é por roedores, outras instituições criam, cada uma, roedores de espécies diferentes. “Procuramos nos complementar de maneira que possamos nos permutar e fornecer continuamente ao Estado. Cada instituição assumiu para si a responsabilidade de aprofundar seus conhecimentos em determinada área para dar assistência aos demais biotérios participantes. É a característica típica de uma rede. Não estamos duplicando, mas reunindo competências e colocando-as à disposição do Estado e, quem sabe depois, de outros estados e regiões”, diz a coordenadora. No caso da Rede de Biotérios, o trabalho colaborativo não acontece apenas internamente. A Rede também trabalha em parceria com outras redes de pesquisa, fornecendo animais para experimentos. A colaboração também já saiu das fronteiras do Estado. Pesquisadores da Rede já prestaram consultoria em estados das regiões Norte e Nordeste e estão constantemente em contato com pesquisadores de biotérios de São Paulo. “Procuramos esse intercâmbio, fazemos trabalhos conjuntos, além de termos contato com o exterior. Mantemos contato com centros de criação de animais de países da América Latina, da América do Norte e da Europa”, revela Peters. MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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A pesquisadora destaca a importância dos cuidados em biotérios para a confiabilidade dos resultados das pesquisas. “Com melhor qualidade dos animais, gera-se resultados de pesquisa fidedignos. Passou-se por um tempo em que se questionava muito a veracidade dos dados de pesquisas feitas no Brasil, justamente pela qualidade dos animais. A partir do momento em que há o refinamento das técnicas de criação e utilização desses animais, têm-se resultados mais confiáveis nos experimentos e a credibilidade da pesquisa científica mineira e nacional aumenta”, afirma. De acordo com a bióloga, isso passa, inclusive, pela questão ética, já que a resposta fisio-biológica do animal ao experimento será refletida a partir de sua qualidade de vida. “Um indivíduo sadio, tranquilo, bem cuidado, tendo adequação do estado biológico com o meio ambiente, vai responder melhor a esse meio ambiente. Quando damos qualidade de vida ao animal, consequentemente usamos um número menor deles e evitamos a morte desnecessária de grande parte.”

Soluções nanotecnológicas

Os ensaios com animais fazem parte da rotina da Rede Mineira de Pesquisa em Nanobiotecnologia. Segundo a vicecoordenadora da Rede, a farmacêutica e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Mônica de Oliveira, os animais da Rede Mineira de Bioterismo ainda não são utilizados pela de Nanobiotecnologia, mas seminários como o de Avaliação das Redes, realizado pela FAPEMIG, têm papel essencial para proporcionar esse tipo de interação. “No caso da rede de ‘nano’, essa ferramenta é indispensável, pois precisamos de animais adequados para fazermos os ensaios. Conhecer o que as outras redes fazem foi um ponto positivo da reunião que tivemos”, diz. Para Oliveira, o encontro promovido pela FAPEMIG, além de permitir a troca de experiência entre as redes mineiras de pesquisa, foi uma oportunidade interessante de conhecer as demandas da FAPEMIG e da sociedade. “A FAPEMIG injeta verba significativa nessas pesqui-

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sas e tem que cobrar resultados. Nesse contato, temos possibilidade da FAPEMIG nos trazer a demanda da sociedade, já que a Fundação tem a visão do Estado como um todo. Esse contato é essencial tanto para prestarmos contas, quanto para colhermos ideias de emprego da competência da rede.” A Rede Mineira de Nanobiotecnologia foi criada em 2002 e hoje é composta por pesquisadores de quatro instituições: UFMG, Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais (Cetec), Embrapa Gado de Leite e Ufop. Segundo Mônica Oliveira, a avaliação interna também é procedimento da Rede. Um comitê gestor, formado por sete pesquisadores, realiza reuniões frequentes e é responsável pelas diretrizes e principais tomadas de decisão. Foi por avaliação do comitê que a Embrapa Gado de Leite passou a integrar o grupo. “Em 2007, a Embrapa entrou em contato. Avaliamos o projeto e vimos que realmente tinha afinidade com o que fazíamos e que seria interessante agregá-la”, relata. A Rede atua em duas linhas de pesquisa: terapêutica e diagnóstico. Na linha de diagnóstico, as pesquisas são voltadas para o diagnóstico do câncer e de doenças infecciosas inflamatórias. Na terapêutica, os projetos têm como objetivo o tratamento do câncer, doenças parasitárias (leishmaniose, Chagas e malária), e doenças infecciosas (mamite bovina e Helicobacter pylori). Uma das pesquisas resultou na criação Foto: Rede Mineira de Bioterismo/Divulgação

Para a coordenadora das Redes Mineiras de Bioterismo e Farmacologia,Vera Peters, a avaliação contribui para o desenvolvimento dos grupos de pesquisa.


de um medicamento contra o câncer, que deu origem a duas patentes e uma transferência de tecnologia para a empresa Europharma, que agora realiza estudos a fim de colocar o produto no mercado. “Foi um projeto com os lipossomas PH sensíveis de cisplatina, um quimioterapico usado há vários anos para tratar câncer de pulmão, cabeça e pescoço, ovário, bexiga e próstata. Como todo quimioterápico, ele tem como inconvenientes os efeitos tóxicos, por atacar não só as células tumorais como as sadias. A nanotecnologia vem no intuito de reduzir essa

toxicidade e talvez aumentar a eficácia terapêutica”, explica Oliveira. Segundo a pesquisadora, os trabalhos da Rede contribuíram muito para despertar o interesse da empresa na tecnologia desenvolvida. “A rede nos permitiu avançar nos estudos pré-clínicos. Quando uma empresa que está interessada vê que já temos os dados pré-clínicos, isso conta como ponto positivo, fortalece o interesse e a negociação”. Oliveira destaca ainda a boa influência do Programa de Apoio a Redes da FAPEMIG nos trabalhos

do grupo. “A produção científica dobrou, em termos de publicações internacionais e os pedidos de depósitos de patentes aumentaram em oito vezes. O número de orientações de mestrado e doutorado também aumentou”, ressalta. Hoje, a Rede Mineira de Pesquisas em Nanobiotecnologia também é referência em sua área de atuação, tendo pesquisadores em destaque nos cenários nacional e internacional. Ariadne Lima

Conhecimento em rede O Programa de Apoio a Redes de Pesquisa da FAPEMIG foi criado em 2005 pelo Conselho Curador da Fundação. Inicialmente, cinco redes compunham o Programa. Atualmente, são oito redes estruturadas e duas em avaliação. Nos cinco anos de Programa, foram investidos R$ 32 milhões. A cada dois anos, todas as redes precisam apresentar um projeto de pesquisa cujo valor é de aproximadamente R$ 2 milhões. Apenas a Rede Mineira de Propriedade Intelectual, pela natureza do trabalho, precisa apresentar um projeto anual, cujo valor é de R$ 500 mil. Segundo o presidente da FAPEMIG, Mario Neto Borges, são várias as razões para o investimento na pesquisa em rede. “É uma tendência nacional e mundial articular grupos e instituições de pesquisa. Isso otimiza investimentos: em vez de comprar o mesmo equipamento para três grupos diferentes, compra-se um para a rede. Articulam-se as instituições de tal forma que elas trabalhem em conjunto. Articulam-se pesquisadores, o que faz com que a ciência avance mais rápido,

já que, trabalhando sozinho, um pesquisador pode ter dificuldades que outro consiga resolver. Além disso, a rede torna o estado qualificado naquela área, de forma a ser um foco de excelência”, enumera. Para Borges, o Programa de Apoio às Redes Estaduais foi tão bem sucedido que a Fundação ampliou o apoio às redes nacionais. Hoje a FAPEMIG participa do grupo que apóia duas redes temáticas que atuam em áreas que interessam a um conjunto de estados. Elas são financiadas pelo Conselho Nacional para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde e algumas Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs). A FAPEMIG já destinou, ao todo, R$ 2 milhões às redes nacionais. A rede Nacional da Malária, com a participação de sete FAPs, entre as quais a FAPEMIG, foi a primeira a ser criada e já tem projetos em andamento. A Rede Nacional da Dengue tem a participação de 20 FAPs. “São quase todas, com exceção de apenas três, porque a dengue é um problema nacional”, observa o presidente.

Conheças as redes que contam com o apoio da FAPEMIG ESTADUAIS:

Ufla, UFV, Centro de Pesquisa René Rachou.

Rede de Pesquisa em Oncologia de Minas Gerais Integrantes: UFTM, UFMG, UFU.

Rede Mineira de Bioterismo Integrantes: UFJF, Ufla, Funed, UFMG, Centro de Pesquisa René Rachou, Ufop, UFV, UFSJ.

Rede Genoma de Minas Gerais Integrantes: Ufop, Embrapa Milho e Sorgo, UFMG, UFV, Ufla, UFU. Rede Mineira de Biomoléculas Integrantes: Fiocruz, Funed, Ufop, UFV, UFU, Fundação Hemominas. Rede Mineira de Biotecnologia para o Agronegócio Integrantes: Embrapa Milho e Sorgo, Embrapa Gado de Leite, Epamig, UFMG, UFU,

cruz, Fhemig, Epamig, Embrapa Milho e Sorgo, FAPEMIG, Biominas, Fiemg, IEL e INPI. NACIONAIS:

Rede Mineira de Nanobiotecnologia Integrantes: UFMG, Ufop, Cetec, Funed.

Rede Nacional de Pesquisa em Dengue Estados integrantes: Minas Gerais, Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, São Paulo e Sergipe.

Rede Mineira de Propriedade Intelectual Integrantes: UFV, UFMG, UFJF, UFSJ, Ufla, Funed, UFU, Ufop, Unifei, UFVJM, UFTM, Unifal, Unimontes,Uemg, Cefet, Cetec, Fio-

Rede Nacional de Pesquisa em Malária Estados integrantes: Minas Gerais, Amazonas, Pará, Maranhão, Mato Grosso, São Paulo e Rio de Janeiro.

Rede Mineira de Farmacologia e Toxicologia Integrantes: Unifenas, UFJF, UFV, Ufla, Ufop.

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Avicultura

Cuidado: frágil! Relação entre alimentação de galinhas poedeiras e qualidade e resistência dos ovos é tema de pesquisa feita por professores da Unimontes Quando você quebra alguns ovos para fazer um bolo ou preparar o café da manhã, deve, certamente, descartar as cascas, sem pensar muito - ou nada - na sua importância. Mas saiba que a qualidade e até o preço da dúzia de ovos à venda nos supermercados são influenciados, em alguma medida, pelo estado das cascas, já que a “embalagem” é responsável é por assegurar a integridade dos ovos e conservar seu valor nutritivo. Cascas quebradiças ou muito frágeis levam não apenas à perda do produto, como também podem permitir a passagem de substâncias que possam contaminá-lo. De acordo com matéria publicada na revista especializada “Avicultura Industrial” no ano passado, as perdas da produção causadas por problemas nas cascas variam entre 8 e 13% da produção total. Para garantir que os ovos cheguem em bom estado aos consumidores, os produtores devem estar atentos à alimentação das aves, já que dela dependem as características dos invólucros e do próprio produto. A relação foi tema de um estudo feito por professores do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), que investigaram como a inclusão de fontes de microminerais na dieta de aves poedeiras poderia afetar a produtividade e qualidade dos ovos. Com o título “Efeito da utilização de microminerais orgânicos na

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dieta sobre a produção e qualidade dos ovos de poedeiras comerciais”, a pesquisa, concluída no ano passado, analisou como as galinhas metabolizam os minerais que ingerem e os utilizam para formar os ovos, especialmente como o zinco, cobre, manganês e o selênio, importantes não apenas para a produção, mas também para a saúde das aves. Essas substâncias, também chamadas microminerais devido à sua baixa concentração no sangue – cerca de 0,05% - desempenham a importante função de catalisadores nas reações químicas que ocorrem nos organismos dos animais, acelerando os processos, além de contribuírem direta-

mente para a constituição de ossos, cartilagens, fertilidade e para a produção dos próprios ovos. Geralmente, os microminerais são incluídos nas dietas das aves através de sais inorgânicos, compostos formados pela reação entre um ácido e uma base, como os óxidos, cloretos, carbonatos ou sulfatos, adicionados à ração. No entanto, oferecidos desta forma, os minerais podem sofrer uma série de transformações ao passar pelo sistema digestivo dos


animais, tanto devido à acidez do meio quanto à possibilidade de eles reagirem com outros compostos, levando a uma menor disponibilidade para os processos aos quais são necessários, resultando na carência desses nutrientes. Para reverter essa situação, haveria duas soluções: a primeira seria oferecer mais microminerais às aves, mas isso poderia apenas aumentar o número de reações indesejadas. Já a segunda, a mais bem-sucedida de acordo com a literatura da área, é fornecer os minerais em sua forma orgânica, especialmente em sua forma quelatada quando são mais bem-aproveitados pelo organismo dos animais. Os minerais quelatados são minerais ligados a moléculas orgânicas, aquelas formadas por cadeias de carbono. Esses compostos têm formato de anéis cíclicos. Essa forma “fechada” tornaos menos propensos à interação com outras substâncias, sendo, assim, mais estáveis e com mais chance de chegar intactos ao intestino das poedeiras.

Experimento

A intenção dos pesquisadores, coordenados pela professora Mônica Maciel, do departamento de Ciência Agrárias da

Universidade, era averiguar se haveria algum aumento de produtividade e ganho de qualidade dos ovos, tanto da casca quanto a interna, quando as poedeiras passassem a ingerir os microminerais em sua forma orgânica quelatada. Para isso, foram selecionadas 480 galinhas, mantidas em uma granja no município de Montes Claros, cedida por uma empresa do setor alimentício, que custeou parte do estudo com o interesse de testar novas fórmulas de ração. Os animais tinham 62 semanas, idade em que começa a haver uma queda natural do ritmo de produção e também da qualidade dos ovos, até a interrupção total, por volta das 80 semanas de vida. O grupo de animais foi divido em 30 subgrupos com 16 aves, que receberam seis tipos de rações diferentes: uma apenas com os microminerais na forma inorgânica, como são geralmente usados; outra com o a combinação de minerais na forma orgânica quelatada; e outros quatro contendo cada um dos minerais isoladamente: cobre, zinco, manganês e selênio. As rações contiam 50% dos microminerais na forma orgânica e a 50%, na inorgânica. As rações foram servidas aos animais durante cerca 12 semanas, dividas em três períodos, ao final dos quais se analisava a variação da produtividade, o peso médio dos ovos, percentagem e peso da casca, perda da produção, além do consumo médio da ração e de conversão alimentar – a taxa que mede quanto do alimento foi utilizado na geração dos ovos. Segundo Mônica, os resultados apontaram um incremento da resistência da casca e adequação do peso dos ovos e de sua qualidade interna, característica medida por um índice chamado Unidade Haugh, baseado na relação entre a altura da clara e o peso dos ovos. O uso da ração com a combinação de zinco, cobre e manganês e selênio, em sua forma orgânica gerou benefícios como a redução de 22% de ovos quebrados em comparação aos minerais usados em forma inorgânica e 25% menos de ovos trincados. Houve também um incremento

de 3% no peso dos ovos e de 3% no valor da Unidade Haugh. “Os dados indicaram que os microminerais quelatados podem ser uma boa solução para evitar os prejuízos dos produtores”, diz. No entanto, esclarece a professora, ainda há divergências na literatura científica da área sobre a relação entre o salto de produtividade e a qualidade dos ovos, já que a melhora depende de vários fatores como a linhagem das galinhas, o período de teste e, principalmente, de produtos diferentes no mercado. Ela esclarece, ainda, que não há previsão de quando os resultados passarão a ser aplicados na produção de rações ou mesmo qual seriam os custos das inovações em escala industrial. Para isso, serão necessários mais estudos. Desireé Antônio

Melhores por mais tempo Como pode demorar até que ovos com cascas mais resistentes cheguem aos supermercados, vale aproveitar algumas dicas da pesquisadora para aproveitar melhor o produto: • Não lave os ovos. A lavagem tira sua proteção natural; • Não guarde os ovos na porta da geladeira, local em que aumentam os riscos de contaminação; • É possível comer ovos diariamente, apesar da ideia disseminada de que seriam ricos em colesterol. “Isso é um mito. Povos como os japoneses e os mexicanos comem ovos quase todos os dias e têm as taxas de colesterol mais baixas do mundo”, exemplifica Mônica; • Se optar por comer ovos todos os dias, tente limitar-se a apenas um, já que se trata de um alimento que favorece a formação de gases intestinais; • Para derrubar uma crença alimentada por nossas mães e avós, a professora avisa: ovos marrons, como os postos por galinhas caipiras, não são mais – nem menos – nutritivos do que os brancos. “A cor se deve à alimentação delas, rica em capim. Qualquer galinha que passar a comê-lo, botará ovos amarronzados”, explica. MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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Engenharia Sanitária

Fácil, barato e necessário Sistema de descontaminação de águas que utiliza garrafas PET é alternativa para comunidades sem serviço de tratamento de água Os três anos que geralmente duram o Ensino Médio são lembrados pelos estudantes por recordações de muitos tipos: provas, professores, amigos, conversas nos intervalos das aulas. Para a ex-aluna do curso técnico em Edificações do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), Karoline Elis Lopes, esse período será lembrado também como a época em que ela contribuiu para a melhoria da qualidade de vida de muitas pessoas. Orientada pelos professores Andréa Marques Rodrigues Guimarães, do Departamento de Biologia, e Guilherme Marques, do Departamento de Engenharia Civil, ela desenvolveu o projeto “Construção de um canal com garrafas PET acoplado ao concentrador solar: sistema de contínuo de água solarizada com alternativa para desinfecção microbiológica em estação de tratamento de água”.

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Por trás do nome extenso e complicado está uma ideia simples. A iniciativa propõe a confecção de uma espécie de tubulação, similar àquela usada para levar a água das estações de tratamento até as casas, feita com garrafas plásticas tipo PET, ligadas entre si. Essas garrafas são dispostas sobre o concentrador solar, uma estrutura de madeira em formato de “U” que serve de suporte para chapas refletoras. O objetivo é fazer com que as garrafas recebam o máximo possível de irradiação solar, tanto aquela que incide diretamente sobre a garrafa quanto a refletida pela superfície metálica. Dessa forma, a água nelas contida é aquecida e descontaminada. Para potencializar o efeito do sol sobre a eliminação de micro-organismos, as garrafas são pintadas parcialmente de preto para reter mais calor. Em linhas gerais, a tecnologia funciona assim: a água de um rio ou córrego utilizada por uma dada comunidade passa por um processo de descontaminação biológica através do aquecimento da água a determinada temperatura. A água captada passa pelas garrafas e chega a um reservatório, onde é armazenada e,


mais tarde, distribuída às casas para ser consumida. Feita de forma quase artesanal, a estação de tratamento tem custos reduzidos e ainda dá um novo destino a garrafas plásticas sem uso. O projeto foi concebido para atender populações de baixa renda que não têm acesso à água tratada. Hoje, isso corresponde a um total de 12 milhões de casas, ou cerca de 21% das residências em todo o Brasil, de acordo com dados da Pesquisa de Saneamento Básico (PNSB) de 2008, divulgada neste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Cerca de 8,6 milhões dessas casas estão localizadas na zona rural, onde os moradores têm que recorrer a poços artesianos ou ao transporte manual da água de rios e córregos próximos para suprir suas necessidades não apenas para atividades cotidianas, mas também para consumo. Sem o tratamento devido, água ingerida por essas pessoas se transforma em um veículo para a transmissão de doenças como a amebíase, a cólera e a disenteria, que, em estágios mais avançados e sem diagnóstico, podem levar à morte. A professora Andréa Guimarães conta que a ideia do projeto surgiu em 2007 graças a duas ex-alunas do curso de Edificações- Júlia Parreiras e Verônica Ribeiro -, que, em uma viagem pelo interior do Estado, repararam no uso de estruturas de garrafas PET para o aquecimento de água numa casa da cidade. O aparato, instalado no telhado do local, serviria para aquecer a água usada para banhos, como uma espécie de aquecedor solar de baixo custo, permitindo a redução da conta de energia elétrica, além de tratar a água, eliminando possíveis agentes causadores de doenças. “Elas ficaram bastante empolgadas e vieram me perguntar qual era o fundamento daquilo”, lembra Andréa. O conceito que explica o uso da tecnologia para a descontaminação é chamado método Sodis (Solar Desinfecion ou desinfecção solar, na tradução em português). A partir da curiosidade e do interesse das estudantes, a professora viu que aquilo poderia resultar em um projeto de pesquisa. À época, estavam sendo ofertadas duas bolsas para um projeto de Microbiologia, coordenado por Andréa, em parceria com outra professora do departamento. A ideia começou a ganhar forma. Foi definido, assim, o passo a passo que deveria ser seguido para a construção de um aparato que permitisse o tratamento da água, a baixo custo, por aqueles que não têm acesso a esse serviço. A primeira atividade realizada pelas alunas foi a escolha de um local que servisse de base para pensar como seria o sistema de garrafas PET a ser adotado por uma comunidade. A intenção era descobrir quais condições prévias deveriam ser

satisfeitas para que a tecnologia fosse aplicada. O lugar escolhido para o diagnóstico foi a cidade de Rio Acima, localizada na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a cerca de 34 quilômetros da capital, e banhada pelo Rio das Velhas. A pesquisa fez um levantamento do nível de escolaridade, das condições sociais e dos hábitos de higiene dos moradores, além de análises microbiológicas da água usada pelas casas e também do rio. O estudo serviu para comparar a capacidade de descontaminação do sistema quando as garrafas PET são dispostas em telhas de amianto, como se faz originalmente, e quando elas são alocadas num coletador, a principal novidade proposta pelas alunas ao método Sodis, já usado em várias partes do Brasil e do mundo para tratamento da água. Os testes constataram que o uso do concentrador garantia uma eficácia de 99% de purificação da água após duas horas de exposição solar, o que não acontecia com aquelas sobre a telha de amianto. A primeira versão do coletador desenvolvido era feita de papelão, por ser mais fácil de manusear e mais barato. Por outro lado, ele também apresentava desvantagens como a curta duração e baixa resistência a períodos de chuva, motivos pelo qual atualmente é confeccionado com madeira. O diagnóstico, que compôs a primeira fase do projeto, recebeu uma série de prêmios: o 1° lugar na categoria Ensino Médio do Prêmio Jovem Cientista, na edição de 2008; 2ª ° lugar na Mostratec, uma mostra de projeto interna do Cefet, em 2007; o 3° lugar na categoria Saúde na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace) em 2008; além do prêmio Intel ISEF (International Science and Engineering Fair), Feira Internacional de Ciência e Engenharia, promovida anualmente pela fabricante de processadores Intel.

De cara nova

Com a formatura da Júlia e Verônica e sua consequente saída do projeto em 2008, foi a vez de Karoline assuMINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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Fotos: Marcelo Focado

Maquete mostra o funcionamento da tubulação construída com garrafas PET.

mir o andamento das atividades. Mais do que apenas dar prosseguimento ao que já havia sido feito, ela deveria aprimorar o sistema, acrescentando novidades a ele. Ela explica que se interessou pelo projeto pelo seu caráter social. “Pensar que eu poderia ajudar alguém com minha pesquisa foi minha principal motivação”, justifica. No ponto em que recebeu o projeto, Karoline teve a função de construir um canal de garrafas PET que, acoplado no concentrador solar, seria capaz de manter um fluxo de água acima de 50°C por mais de duas horas a fim de que ocorresse a desinfecção biológica completa. De acordo com dados obtidos anteriormente, já se sabia que, para que a água ficasse 100% livre de microorganismos, ela deveria ser aquecida até pelo menos 50ºC por pelo menos duas horas. Para isso, Karoline teve que desenvolver uma série de cálculos e simulações matemáticas para determinar qual o fluxo de água e a vazão que atenderia essas condições e, dessa forma, definir a velocidade de filtração da água. Ela também precisou pensar em como tratar a água já utilizada antes dela retornar ao córrego de onde foi retirada. Além disso, ela precisou determinar qual a concavidade ideal do concentrador solar para que a garrafa recebesse a maior quantidade de irradiação solar possível. Essa nova fase iniciada por Karoline marca uma preocupação maior com a

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Um concentrador solar feito de madeira e chapas refletoras potencializa a ação dos raios solares que irão descontaminar a água

aplicação da tecnologia. Por isso, os cálculos para dimensionamento da estação de tratamento foram idealizados para suprir as necessidades de uma comunidade rural de dez famílias com até cinco membros, com consumo individual de 47 litros de água ao dia, 55 litros por dia para os animais e outros 309 para uma horta comunitária. Todos os aspectos matemáticos foram orientados pelo professor Guilherme Marques, que explica que muitos dos conceitos empregados já existiam na literatura da área e que tiveram apenas que ser adaptados para esse caso específico. De posse dos resultados, foi possível construir uma primeira versão do sistema e realizar os testes iniciais. O protótipo foi composto por quatro garrafas PET unidas umas às outras: o fundo de uma tinha um furo, que foi conectado à tampa de outra, também com um pequeno orifício, por onde passaria a água. Essas garrafas ficavam sobre o coletador de madeira, coberto de chapas metálicas. Um tanque d’água simulou o córrego que alimentaria o sistema. O protótipo foi testado durante os meses de maio e junho do ano passado no campo de futebol do campus I do Cefet, período em que ocorre a transição do outono para o inverno. O objetivo era analisar qual o risco de que o sistema fosse prejudicado pela ocorrência de dias nublados. “Os resultados que tivemos, mesmo nessa

época, foram muito positivos. Vimos que seria possível a sua utilização mesmo em dias mais frios”, afirma Marques. Chegou-se à conclusão de que, para garantir a total descontaminação da água, ela deveria ser mantida por cerca de seis horas nas garrafas. Para assegurar a qualidade da água devolvida ao curso d’água após o uso, foi incluído um tanque de macrófitas, plantas aquáticas que auxiliariam o processo de purificação da água através do consumo de material orgânico utilizado por bactérias. O projeto ainda não foi aplicado em nenhuma comunidade, mas Karoline e seus orientadores acreditam que ele poderá ser utilizado em breve. “Os testes que fizemos ainda são em escala laboratorial, precisamos realizar outros em escala-piloto. Para isso, precisamos de mais investimentos”, explica. Mas, pelas estimativas preliminares, já foi possível determinar que, para uma pequena comunidade com cerca de 500 pessoas, seriam necessárias 144 garrafas e o custo total da implantação do sistema seria em torno de R$ 10 mil reais. A confecção da estação seria feita pelos próprios moradores, que aprenderiam a técnica por meio de cursos promovidos pelos responsáveis pelo estudo. Elas também receberiam lições de educação ambiental e de hábitos de higiene.“O sistema está apto para o uso, mas ainda há muitas possibilidades de aprimorá-lo. Ideias não faltam”, diz Marques. Sobre o futuro do projeto, adianta


que, em breve, um novo bolsista dará continuidade ao projeto do ponto em que parou Karoline, que concluiu em 2009 o segundo grau pelo Cefet-MG.

Futura cientista

O impacto da experiência de gerar um produto com finalidade social por meio da pesquisa foi tamanho que Karoline nem pensa antes de dizer a carreira que deseja seguir: a científica. Seu plano é continuar ligada à área de edificações, cursando a graduação em Engenharia Civil, curso para o qual prestará vestibular no final do ano para a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e para o Cefet. “Não tenho preferências, mas gostaria de voltar para o Cefet e, se possível, continuar envolvida com a pesquisa”, revela. O projeto foi fundamental para sua opção pela ciência, e em especial pela área de exatas, mas a vocação já vinha de muito antes - de casa, mais precisamente. Sua mãe é professora de matemática e sempre lhe incentivou a estudar. A oportunidade de aliar estudo, prática e responsabilidade social veio com a oferta da bolsa

do Programa Institucional Bolsa de Iniciação Científica Júnior (PIBIC Jr.) da FAPEMIG. No Cefet, vários editais de pesquisas são lançados, e os alunos escolhem de quais gostariam de participar. São oferecidas anualmente 180 bolsas da modalidade, voltada para os estudantes do Ensino Médio, que mantêm atividades de pesquisa com a carga horária de 20 horas semanais. A bolsa tem valor de R$ 100 e duração de 12 meses. “Isso dá aos estudantes a oportunidade de se envolver com algo com que se identifiquem de fato”, diz Andréa Guimarães. E envolvimento é algo crucial para o sucesso da pesquisa, como aprendeu Karoline. Seus orientadores faziam questão de reuniões de acompanhamento semanais e que cada ação fosse registrada no “diário de bordo”, um caderno com todos os materiais, discussões e referências utilizadas no projeto. “Ficamos extremamente satisfeitos com o desempenho dela e com seu comprometimento. É muito importante esse contato entre professores e alunos porque nenhum dos dois faz nada sozinho”, avalia Guilherme Marques.

Fotos: Marcelo Focado

Maratona de prêmios Durante o ano em que esteve à frente do projeto, Karoline participou de uma verdadeira maratona de feiras e eventos para expô-lo. Saiu de muitos com um prêmio em mãos. Foram 15 premiações, nacionais e internacionais. Um deles foi o Prêmio Google, no qual a estudante recebeu o primeiro lugar e o valor de US$ 10 mil, além de ter tido a chance de conhecer os Estados Unidos. Karoline revela que usará o dinheiro do prêmio para aprimorar seu inglês. “Eles disseram que deveria gastá-lo com algo que aumentasse meu conhecimento de alguma forma, e o curso será algo muito bom”. Confira as principais premiações: • 1° lugar na categoria Engenharia e suas aplicações e Prêmio Sustentabilidade Ambiental na XXI META (Mostra específica de Trabalhos e Aplicações) do Cefet –MG 2009

1º Lugar em Engenharia (Categoria Projetos Individuais) e 3º Lugar em Destaque Rigor Científico, na Febrace 2010; •

Prêmio Estudantil para Excelência em Geociências da Association for Women Geoscientists e Student Awards for Geoscience Excellence; •

• 3º lugar na Categoria Engenharia Ambiental na Intel ISEF (Internacional Science and Engineering Fair), em 2010 • Prêmio especial “National Collegiate Inventors and Innovators Alliance / The Lemelson Foundation” ;

Menção honrosa do “International Council on Systems Engineering – INCOSE”

Karoline Lopes entre seus professores Andréa Guimarães e Guilherme Marques: os vários prêmios recebidos são reconhecimento ao esforço da equipe e à qualidade do trabalho.

Prêmio Google. Desireé Antônio MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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Segurança Pública Aos 74 anos, Salvador Tomé da Silva, ou simplesmente “Seu Salvador”, como é conhecido, tornou-se exemplo de servidor público. Foram 47 anos de prestação de serviços no sistema prisional em Minas Gerais. O saldo: muitas histórias, homenagens e uma família de agentes penitenciários. Além dele, já aposentado, a mulher, seis dos oito filhos e dois dos 14 netos atuam no sistema. O trabalho como agente começou em 1956, mas, muito antes disso, aos cinco anos de idade, Seu Salvador já frequentava a então Penitenciária Agrícola de Neves (hoje José Maria Alckmin) para participar das festas e sessões de cinema abertas à comunidade. O aposentado implantou e atuou nos Serviços de Saúde e Radiologia das penitenciárias José Maria Alckmin e Nelson Hungria. Aposentou-se oficialmente em 1988, mas continuou na ativa até 2006, quando completou 70 anos e teve de se afastar. Para ele, o saudosismo é natural, já que a convivência com os internos sempre foi muito amigável e, na penitenciária, eram comuns as atrações culturais abertas à população. “A penitenciária sempre foi muito boa para se trabalhar. Com 47 anos de trabalho, não tem como não sentir falta do que eu fazia. Principalmente, porque eu nunca tive problemas com isso. Criei toda a minha família em torno da penitenciária”, afirma. A história de Seu Salvador e sua mulher foi um dos destaques do documentário “Sobre a gente”, lançado em junho deste ano. Com 1h15 de duração, o filme é composto por entrevistas com agentes penitenciários e socioeducativos (que trabalham com menores infratores) de Minas Gerais, revelando a realidade desses profissionais, suas alegrias, expectativas e mazelas. O documentário faz parte do projeto “Batendo a Tranca”, desenvolvido por professores e alunos do curso de Gestão em Segurança Pública do Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH), com apoio da FAPEMIG. Segundo a coordenadora do projeto, Sheila Venâncio, que também coordena o curso no UNI-BH, o “Batendo a Tranca” teve o objetivo de valorizar a categoria dos agentes penitenciários e socioeducativos, transformando-a em objeto de pesquisa. Além do filme, o projeto incluiu uma série de pesquisas desenvolvidas por alunos do curso; um relatório sobre as tendências do sistema prisional brasileiro, gerado pela consultoria dos especialistas Luiz Flávio Sapori e Julita Lemgruber; e um livro sobre o projeto, que tem previsão de lançamento para março de 2011. Para Venâncio, o documentário “Sobre a gente” foi a obra-prima do projeto. “Nunca se produziu e nunca se pesquisou sobre o agente penitenciário e socioeducativo no país. Eles são olhados como os vilões do sistema e

Agentes da cidadania Projeto cria Observatório de Segurança Pública e transforma categoria de agentes prisionais em objeto de pesquisa

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nós quisemos mostrar como essas pessoas Observando de perto trabalham, quais são seus dilemas, suas Também sob coordenação da dificuldades e o quanto elas necessitam professora Sheila Venâncio e apoiado de atenção e qualificação. No Brasil, se pela FAPEMIG, foi criado no Centro pesquisa sobre o preso, sobre as prisões, Universitário o “Observatório de mas pouca atenção se dá aos agentes. E isso Segurança Pública”,que acaba de entrar é fundamental porque eles são as pessoas em funcionamento e lançará um site que têm contato mais direto com os presos em breve. Trata-se de um laboratório, e podem ressocializá-los ou não”, diz. composto por três ambientes, com o Segundo o diretor do filme, Guilherme objetivo de ser um espaço para que os Penido, o material filmado foi tão rico e alunos interajam com a comunidade, extenso que o que estava previsto para ser um pesquisem e divulguem o curso e curta acabou se transformando em um longaseus projetos, bem como publiquem metragem. “Tínhamos 60 horas de material reportagens relacionadas à segurança para transformarmos em uma”, conta. Foram pública. De acordo com Venâncio, a quatro profissionais envolvidos, duas semanas proposta central do Observatório e meia de filmagens, seis unidades prisionais é trabalhar a interdisciplinaridade visitadas, além do Comando de Operações e a conexão da segurança pública Especiais, e 22 entrevistas selecionadas. “O com outras áreas do conhecimento, resultado superou as expectativas, ficou realizando intervenções no meio muito bom. Além disso, foi um aprendizado social com campanhas educativas e de de vida entrar em contato com pessoas que prevenção à criminalidade. cuidam de uma parcela da sociedade com a O projeto piloto, fruto de uma qual ninguém se importa, pessoas que têm uma parceria com o curso de Pedagogia, história de vida bacana e acreditam realmente vai intervir na Escola Municipal na reinserção dos presos”, diz Penido. O filme Onorinda de Barros, localizada no está passando por uma reedição, com pequenos conjunto IAPI, em Belo Horizonte, ajustes, e a proposta agora é inscrevê-lo em onde será lançada uma cartilha de mostras de cinema e divulgá-lo para a imprensa. prevenção à criminalidade e ao uso Além do documentário, o “Batendo a Tranca” de drogas, abordando o Estatuto englobou pequenos projetos, desenvolvidos por da Criança e do Adolescente. alunos do curso de Gestão em Segurança Pública. “Queremos criar um resgate de Um deles propõe a elaboração de um estatuto cidadania, mostrando a essas para elencar direitos e deveres do servidor crianças que elas, ao mesmo prisional.“Percebemos que precisávamos trabalhar tempo, têm direitos e deveres em um documento que apresentasse direitos nas suas mais diversas áreas de e deveres desses servidores. É uma categoria convivência: na comunidade, na que trabalha sob tensão o tempo todo, sujeita à escola, com os pais. Queremos corrupção e a doenças ocupacionais, e que vive trabalhar uma série de temas pressões para o cumprimento de metas. A ideia do com o objetivo de mostrar a estatuto é que ele possa definir limites. Isso valoriza elas o quanto suas atitudes a categoria e a fortalece”, afirma Venâncio. Segundo contribuem para uma a coordenadora, o próximo passo será elaborar o sociedade ordeira, de boa estatuto como trabalho acadêmico e submetê-lo à convivência e redução da avaliação da Assembleia Legislativa, a fim de verificar criminalidade”, adianta a a possibilidade de transformá-lo em lei. professora. A ideia é que, Para Venâncio, os projetos desenvolvidos com posteriormente, outros cursos como Jornalismo, apoio da FAPEMIG terão papel importante no Produção de Multimídia, desenvolvimento do sistema prisional no Estado. Letras, Eventos e Gestão “Vamos, inclusive, propor outros projetos relacionados de Recursos Humanos ao sistema prisional, que, em ultima instância, venham sejam incorporados à fortalecer a categoria. Isso é inédito em Minas Gerais. parceria. Nunca se pensou no agente. Nos últimos anos, recebemos muita infraestrutura: viaturas, armamentos, construção de unidades. Agora é hora de investir no material humano. Precisamos investir no conhecimento desses operadores da segurança pública para ver como eles podem efetivamente ressocializar os presos e gerirem as unidades prisionais, de forma que não haja fugas e rebeliões”, diz. Ariadne Lima MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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Energia

Consumo sob controle

Equipamento possibilita monitorar gastos de aparelhos e ambientes em tempo real via web

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A descoberta das formas de utilização da eletricidade pelo homem pode, quase literalmente, ser comparada à descoberta do fogo. Das experiências incipientes do filósofo grego Tales de Mileto com a eletricidade à sistematização do seu emprego como fonte de alimentação de geradores e máquinas, a energia elétrica percorreu um longo e revolucionário caminho. Hoje, é item imprescindível para as atividades humanas, desde o uso residencial, responsável pelo consumo de 20% da energia no Estado de Minas Gerais, à utilização na indústria, que responde por cerca de 60%, passando pelo comércio e outros setores. Conseguir otimizar sua utilização representa, então, vantagens econômicas, além de ser um pressuposto para a melhoria de aspectos ambientais do planeta. Partiu de um grupo de pesquisadores mineiros uma proposta capaz de contribuir para o controle direto dos gastos de energia elétrica em residências, instituições e empresas. Eles desenvolveram um equipamento que indica,em tempo real,o consumo de energia de cada aparelho ou ambiente. O Centro de Monitoramento de Usos Finais (CMUF) é resultado de uma parceria entre a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), responsável pelo desenvolvimento do hardware e software da plataforma; o Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet MG), que trabalhou nas ferramentas de análise dos dados e de avaliação dos potencias de eficientização de energia; e a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) que definiu as melhores formas de apresentação dos resultados aos usuários, bem como as edificações a serem monitoradas nos testes.

Foto: Marcelo Focado

O circuito permite o monitoramento do consumo de energia elétrica e fornece dados para identificar desperdícios.

a cada momento, o impacto na conta de energia de cada aparelho ou área monitorada, entre outras. De acordo com um dos coordenadores da pesquisa,o professor do Departamento de Engenharia Eletrônica da UFMG, Fábio Jota, uma das questões que a nova tecnologia mais evidencia é onde e em que horários se concentra o maior gasto de energia. “Normalmente, os dados obtidos derrubam crenças”, diz. “Temos observado que o desperdício ocorre onde menos esperávamos e a medição é única forma de comprovar e quantificar isso”, completa. O pesquisador explica que eles subdividiram as cargas por classes, atentando para as que mais consomem

energia, a fim de criar condições de fazer um “Pareto”, ou seja, identificar os 20% das cargas que consomem 80% da energia total. Assim, é possível verificar aquelas que mais provocam impacto na redução. Os resultados variam em cada edificação monitorada, mas ele cita o exemplo da sede do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-MG) – parceiro na implantação dos medidores pilotos –, onde se constatou que o ar condicionado representa 70% da conta de energia. Segundo Jota, a plataforma foi concebida para criar um sistema de medição e atuação de baixo custo. Em uma residência, por exemplo, os sensores são instalados na caixa de distribuição de energia elétrica, as Foto: Marcelo Focado

Precisão e baixo custo

O equipamento permite medir o gasto de energia de forma distribuída, tanto por setores (andares e salas) quanto por aparelho ou conjuntos deles. Os dados são disponibilizados ao usuário em tempo real, via internet. O CMUF possibilita análises detalhadas, como a verificação imediata da carga que esteja consumindo mais energia

Fábio Jota (direita), professor da UFMG, e equipe que trabalhou no desenvolvimento do CMUF. MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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DER conseguiu, nos últimos cinco anos, reduzir em 45% os gastos com energia elétrica.Isso representou uma economia de cerca de R$1,5 milhão. “Deste percentual, 20% corresponde ao que conseguimos economizar no consumo mesmo, graças ao monitoramento e conscientização”, constata Batista. O órgão se destaca como um dos que mais conseguiram cumprir as metas do Programa de Gestão Energética Estadual e o engenheiro eletricista considera que o apoio da UFMG, Cefet e Cemig foi substancial para o alcance desses números.

Foto: Marcelo Focado

unidades de medição são conectadas entre si por meio de uma rede de comunicação de dados e interligadas a um servidor de web, que envia as informações ao banco do CMUF na UFMG 24h por dia. “Utilizando um navegador convencional, os usuários cadastrados acessam as páginas do Centro de Monitoramento e podem visualizar por meio de gráficos o seu consumo, analisando seus dados de diversas maneiras”, conta. Além disso, é possível acionar recursos como ligar ou desligar cargas remotamente, via aparelho celular ou internet. A viabilidade técnica e financeira do CMUF é um elemento importante tendo em vista o objetivo do grupo de atender às necessidades de redução de desperdício de energia em qualquer edificação, seja comercial, industrial ou residencial. “Por ser de baixo custo, acreditamos que possa, e até deva, ser usado inclusive em residências de baixo poder aquisitivo”, diz Jota. Inicialmente a instalação foi feita apenas em escritórios, escolas e hospitais porque os pesquisadores precisavam demonstrar como a energia é usada em setores de maior consumo e alta diversificação. Edificação pioneira na utilização dos equipamentos de teste, a sede do DER, em Belo Horizonte, apresenta dados que comprovam a eficiência do CMUF. Segundo o engenheiro eletricista da instituição,Fernando Gomes Batista,que acompanha o projeto desde a instalação no local, em 2005, além de apontar questões técnicas, ajudando a perceber e localizar falhas no uso de energia, o monitoramento ajudou a conscientizar as pessoas sobre a necessidade de economia. Entre outras vantagens, ele cita a possibilidade de localizar perdas, identificar equipamentos ligados fora do horário de expediente, detectar equipamentos que estavam apresentando falhas ou gastando mais. No DER,eles descobriram,por exemplo, que alguns modelos de ar condicionado consumiam energia mesmo desligados e já estão sendo adotadas medidas para solucionar o caso. Com o monitoramento e outras medidas adotadas, relacionadas à mudança de contrato, entre outras, o

Da faísca à luz

O projeto tem um longo histórico e, em um trabalho multidisciplinar,já envolveu dezenas de alunos de nível técnico, da graduação e da pós-graduação (mestrado e doutorado), além de profissionais das instituições onde estão sendo feitas as medições, sob coordenação de Fábio Jota, da professora do Cefet, Patrícia Romeiro e do engenheiro da Cemig, Eduardo Carvalhaes, hoje aposentado. Jota conta que a ideia começou a se delinear a partir da constatação de que não existia, no mercado nacional ou internacional, equipamento versátil e barato para aplicações em medições distribuídas nas edificações. Diante desta demanda, visualizou-se a possibilidade de desenvolver, com base nas ideias dos sistemas de controle distribuído implementados em sua tese de doutorado defendida em 1987, uma

plataforma de sistema de baixo custo para monitoramento e controle do consumo de energia elétrica. Aprovado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), em 2002, o projeto teve sua implementação em 2004. Nesse intervalo de tempo foram concebidos todos os elementos da plataforma. Assim, logo que os recursos foram liberados, iniciaramse as montagens que resultaram no CMUF. Em agosto de 2005, os pesquisadores fizeram a primeira instalação fora dos laboratórios da UFMG e do Cefet, no prédio do DER. Instalações em outras 13 edificações foram se sucedendo e hoje a equipe conta com mais de 400 milhões de medidas acumuladas no banco

Foto: Marcelo Focado

Erro comum: a utilização de várias conexões em um mesmo ponto contribui para o aumento do consumo de energia elétrica.


Palavra-chave

AS FAPs E O SISTEMA NACIONAL DE C,T&I Mario Neto Borges*

de dados do CMUF, abrangendo grandezas elétricas e ambientais. Os coordenadores já entraram com pedido de patente nacional e internacional e trabalham pela produção do equipamento em escala comercial. “Este tipo de projeto tem um grande impacto no cenário nacional, já que coloca o Brasil no mesmo patamar dos países desenvolvidos na proposição de equipamentos que suportam a implantação do chamado smart grid ou redes inteligentes”, avalia Patrícia Romeiro. Com a participação do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e da Inova, incubadora de empresas da UFMG, foi feito um estudo de viabilidade técnica e financeira do produto e também um modelo de negócios. “A proposta de incubação de uma empresa na Inova apresentada pelo CMUF foi aprovada em primeiro lugar. Em breve, teremos uma como atender as demandas em escala comercial”, adianta Jota. O grupo também prossegue com os estudos visando desenvolver e implantar uma versão para monitoramento e controle de câmaras de refrigeração em hemocentros, a ser instalada no Hemominas, em Belo Horizonte. Além disso, está sendo proposto o desenvolvimento de um “cabeça-desérie”– teste em laboratório, anterior ao preparo para produção industrial – da plataforma CMUF com apoio técnico e financeiro da própria Cemig e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

As Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (FAPs) têm a missão de fomentar a ciência, a tecnologia e a inovação em seus estados de origem. São órgãos ligados ao governo estadual, com orçamento definido em constituição. Em 2009, a soma desses orçamentos resultou em um valor maior que o orçamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para o mesmo período. Isso demonstra a força e a importância destas Fundações para o setor científico brasileiro. As modalidades de apoio variam de estado para estado, mas podemos dizer que as FAPs atuam em quatro eixos principais. O primeiro é o da pesquisa, ou seja, o financiamento de projetos em todas as áreas do conhecimento. O segundo é o da formação de pesquisadores, que é feita por meio da concessão de bolsas em todos os níveis de formação. O terceiro é o da inovação, que vem sendo incentivada por meio de programas e editais que associam pesquisadores e empresas. O quarto é o da divulgação, que significa levar para a sociedade em geral os resultados alcançados por esses trabalhos. Em outras palavras, as FAPs desempenham em cada estado um papel triplo equivalente ao da Capes, do CNPq e da Finep juntos. Elas se reúnem no Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap). O Confap é um conselho novo, com apenas quatro anos de existência, mas que já avançou em muitos aspectos. Entre eles, podemos destacar o fortalecimento da articulação entre as 23 FAPs hoje existentes no Brasil e a inserção do Conselho nos órgãos e entidades de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) nacionais. Entre os exemplos concretos dessa articulação estão as redes nacionais de pesquisa. Em 2009, foram lançados, em parceria com o CNPq e o Ministério da Saúde, editais para duas redes de pesquisa, uma sobre malária e outra sobre dengue, com a adesão de sete e 15 Fundações, respectivamente. As FAPs em particular e o Confap no geral têm investido em diversas áreas estratégicas. Podemos destacar algumas cujas pesquisas têm apresentado uma expressiva produção científica nacional e internacional e que têm se transformado em avanços do setor empresarial como energias renováveis, biotecnologia, saúde e engenharias especialmente aquelas relacionadas com o potencial dos recursos naturais do Brasil. Também existem algumas bandeiras defendidas pelo Conselho. A primeira é a consolidação do Sistema Nacional de C,T&I aperfeiçoando e fortalecendo as relações entre as diversas FAPs e entre estas e as agências federais de ciência, tecnologia e inovação. A segunda é estabelecer uma proposta de política que considere este trinômio C,T&I como uma política de estado. Dessa forma, e como terceiro aspecto, assegurar mais recursos e um arcabouço legal e de controle moderno e adequado a estas atividades que são essenciais para assegurar o desenvolvimento sustentado e a competitividade do país no cenário mundial. Ao realizar investimentos em ciência, tecnologia e inovação, as Fundações contribuem para a diminuição da dependência tecnológica, para o fortalecimento da economia e a melhoria da qualidade de vida da população. Com isso, promove o desenvolvimento dos estados e do país. Os investimentos maciços e perenes em educação, ciência, tecnologia e inovação são capazes de gerar riqueza e oportunidades para as nações. Assim, é importante que a sociedade, os dirigentes e os políticos valorizem cada vez mais o trabalho que as FAPs têm a cumprir neste contexto. *Presidente da FAPEMIG e do Confap

Virgínia Fonseca MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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Bioinformática

Excelência em biotecnologia Minas Gerais inaugura primeiro centro de bioinformática do país; local dará bases para o desenvolvimento da indústria de biotecnologia no Estado

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Minas Gerais deu um passo importante para a produção científica mineira e também nacional com a inauguração, em junho deste ano, do Centro de Excelência em Bioinformática (CEBio), local dedicado à produção, análise e armazenamento de informações biológicas por meio do uso de computadores de alta performance. O Centro, fruto de uma parceria entre a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Minas Gerais (Sectes-MG), a Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG) e o Centro de Pesquisas René Rachou, unidade da Fiocruz em Minas Gerais, é o primeiro centro de excelência em bioinformática do Estado e do Brasil. Localizado no terceiro andar de um prédio da rua Araguari, no bairro Barro Preto, região centro-sul de Belo Horizonte, o Centro tem como ponto principal de seu trabalho o sequenciamento do genoma de organismos com possíveis aplicações nas áreas de saúde, biotecnologia e agropecuária. O sequenciamento genômico, que consiste no desvendamento do código genético dos seres vivos, é a base para uma série de processos. Ele permite desde o melhoramento genético de espécies, visando seu fortalecimento, até a descoberta de partes do genoma que podem ser responsáveis por determinada doença, o que auxilia na busca por formas mais adequadas de diagnóstico e tratamento. O trabalho executado pelo CEBio consiste em receber o material enviado por universidades e centros de pesquisas que realizam pesquisa genômica e utilizar a infraestrutura local – as máquinas e o conhecimento dos profissionais - para a análise informatizada dos dados gerados. Um dos principais parceiros no que diz respeito ao envio de informação para processamento é a Rede Genoma de Minas Gerais, criada em 2001. A Rede, que reúne sete universidades, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Centro de Pesquisa René Rachou, atua no estudo, produção e interpretação de dados genômicos. “Com o avanço da pesquisa genômica impulsionado por novas tecnologias, o volume de

informação aumentou muito, assim como a demanda para tratamento desses dados”, explica Guilherme Oliveira, pesquisador do René Rachou e coordenador do CEBio. Também são firmadas parcerias com empresas privadas, interessadas na utilização da tecnologia disponibilizada pelo Centro. São geralmente indústrias da área de biotecnologia ou de outros ramos ligados indiretamente a ela, como a agroindústria ou organizações de saúde, que buscam comercializar um produto já pronto, quando a fase de desenvolvimento foi concluída. Oliveira ressalta que há empresas, ainda que em menor número, que preferem participar do processo de pesquisa desde estágios iniciais, geralmente através de financiamento, dividindo as responsabilidades com o Centro. Nesse aspecto, o coordenador adianta que há vários acordos em andamento e que tem percebido um interesse crescente por parte das empresas. Por isso, nada de esperar que o setor privado venha até o CEBio: o pesquisador acredita que é importante ter uma postura ativa e ir até essas organizações para apresentar a estrutura do Centro e as suas possibilidades. “Uma das coisas que mais tenho feito ultimamente é visitar esses colaboradores ou clientes em potencial, tanto organizações isoladas quanto via entidades como a Federação

das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), em função do trabalho dos APLs de Biotecnologia”. Arranjos Produtivos Locais (APL) são grupos de empresas que atuam em um mesmo segmento ou de setores relacionados localizadas em uma mesma região, objetivando o fortalecimento daquelas indústrias. A ideia por trás da iniciativa é possibilitar que a proximidade entre as empresas e a exploração das potencialidades do local produza um efeito em cadeia positivo, levando ao surgimento de novas indústrias e à formação de mão de obra especializada, gerando mais renda e empregos. Em Minas Gerais, são três os APLs de biotecnologia, situados na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em Viçosa e na Região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, totalizando cerca de 120 empresas e receitas da ordem de milhões de reais. Foi observando esse dinamismo do cenário da biotecnologia no Estado, tanto de empresas quanto da pesquisa acadêmica, que Oliveira, em conversas com a Sectes-MG, notou que havia uma disparidade entre o ritmo de crescimento do setor e a estrutura para a obtenção de informação genômica, uma importante fonte de inovação. O conhecimento proporcionado pela pesquisa genômica gera bases para o desenvolvimento de novos produtos e soluções, permitindo novas possibilidades de ganhos comerciais.

Foto: Marcelo Focado

Os computadores de alta performance permitem o tratamento de grandes pacotes de dados, como o sequenciamento de partes do código genético de seres vivos. MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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O resultado dessas primeiras conversas, que aconteceram em 2007, foi o lançamento de um edital para a instalação de um centro de biotecnologia, que teria a missão de aproximar a indústria de biotecnologia da informação genômica. O grupo formado pelo atual coordenador, em parceria com o Centro de Pesquisas René Rachou, venceu a concorrência e o Centro começou a ser instalado em 2008. A obra recebeu R$ 2,5 milhões, investidos pelo Governo do Estado na construção do CEBio entre 2008 e 2010.

“Quando foi instalado o Centro, houve grande interesse e apoio por parte do meio acadêmico do Estado, que queria trabalhar de modo integrado conosco, como parceiros em seus projetos”, explica Oliveira. Uma das manifestações desse interesse é a criação de dez núcleos de bioinformática em vários pontos de Minas, formando um trabalho sincronizado e de ajuda mútua entre seus integrantes, que incluem universidades, centros de pesquisa e uma empresa privada. Financiados

pela FAPEMIG, os núcleos estão em fase de instalação. Mais do que um espaço de auxílio à produção científica, o CEBio se configura, na visão de seu coordenador, como uma instância em que a transferência de tecnologia ocorre de forma mais facilitada. “Temos muita gente competente trabalhando com biotecnologia aqui. O que não temos, com um volume suficiente, é a aquisição dessa tecnologia por parte das empresas. A pesquisa genômica ainda está pouco presente na iniciativa privada”, diz.

Fotos: Marcelo Focado

O CEBio se destaca pela infraestrutrua e também pela equipe de profissionais, que conta com programadores, webdesigners e bioanalistas, geralmente biólogos e bioinformatas.

Desvendando genomas

Um procedimento complexo e até pouco tempo bastante demorado, o sequenciamento do genoma gera uma imensa quantidade de dados para serem interpretados e armazenados, já que a análise busca definir qual a sequencia das bases presentes nas moléculas de ácido desoxirribonucléico (DNA). Essas bases, compostos formados por nitrogênio associado a outros elementos, existem em quatro tipos: a adenina, a timina, a guanina, a citosina, que se ligam em pares respeitando sempre a seguinte ordem: a adenina se associa à timina e a citosina à guanina. Cada sequência de ligações específicas e diferentes de bases nitrogenadas dão origem a um gene, responsável por determinar a

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produção de uma proteína específica e que, em conjunto, fornecem as características do ser em que se encontram. No caso do código genético humano, os esforços para seu desvendamento deu origem a uma grande iniciativa que envolveu cientistas de todo o mundo, inclusive do Brasil. O Projeto Genoma Humano mostrou que o homem possui cerca de 30 mil genes, totalizando bilhões de pares de bases nitrogenadas para análises. É aí que se nota a importância de bioinformática, ramo da informática aplicada à geração e análise de informação biológica. Com o emprego de computadores de alta capacidade e softwares específicos para tal, é possível reduzir o tempo e os custos de leitura dessas bases.

A comparação feita por Guilherme Oliveira ilustra bem a dimensão do avanço proporcionado pela bioinformática: o mesmo trabalho feito pelo projeto Genoma Humano, que consumiu dezenas de milhões de dólares e mais de uma década de estudo, seria feito em poucos meses e com o investimento de pouco mais de cem mil dólares com a tecnologia que hoje dispõe o CEBio. Este custo, segundo o pesquisador, tende a cair muito em breve. A infraestrutura do Centro inclui vários computadores de alta performance, com destaque para um cluster, um aglomerado de máquinas cujos processadores atuam de forma sincronizada. O cluster do local tem a capacidade de processamento equivalente a 250 computadores trabalhando juntos. A


Projetos

Atualmente, o CEBio dá andamento a 13 projetos nas áreas de saúde e agronegócio. Um dos de maior projeção é o sequenciamento de duas raças do gado zebu, a Gir e a Guzerá, com o objetivo de descobrir quais traços genéticos são responsáveis por características como a produtividade do animal e a qualidade do leite. Iniciado no ano passado e executado em parceria com a Embrapa Gado de Leite, Universidade Federal de Minas Gerais, Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) e dos Polos

Foto: Marcelo Focado

capacidade de armazenamento chega a 24 terabytes, essenciais para armazenar o volume de dados gerados. Para abrigar o computador de alta performance, cujo gabinete tem dois metros de altura, 1,5 metro de profundidade e um metro de largura, há uma sala especial com climatização e ar refrigerado para evitar seu superaquecimento. Também há um cuidado especial com a segurança e manutenção dos dados, como a adoção de um sistema de no-break, que permite que haja tempo para os computadores sejam desligados sem que ocorra perda de informação em caso de quedas de energia. Medida parecida é tomada com o backup dos dados, feito regularmente. Todos os equipamentos juntos somam quase duas toneladas e custaram cerca de US$2 milhões, de acordo com o coordenador do Centro. Aliado à estrutura física, há também o cuidado com a formação dos profissionais que nele atuam. A equipe hoje conta que com programadores, responsáveis pelo desenvolvimento de softwares, webdesigners, que cuidam da interface gráfica para visualização dos dados, e bioanalistas, geralmente biólogos, e bioinformatas, que possuem uma formação híbrida, mesclando informática e biologia. Oliveira conta que, à exceção dos bioinformatas, os demais profissionais não conheciam biologia nem bioinformática, motivo pelo qual foi montado um curso especial contendo noções dos dois assuntos e seus pontos de contato. Aberta à comunidade, a capacitação, que inclui módulos teóricos e práticos, já foi promovida em duas edições.

Guilherme Oliveira, coordenador do CEBio: dinamismo do setor de biotecnologia impulsionou a criação do Centro, que hoje possui vários projetos em desenvolvimento e parcerias com a iniciativa privada.

de Excelência (Genética Bovina e do Leite), o projeto visa ao melhoramento genético das raças, com o objetivo final de gerar animais melhores produtores de leite e carne, além de permitir sua rastreabilidade genética. O estudo encontra-se na primeira fase, que consiste no sequenciamento genético.A ela, se seguirão análises com um grupo maior de animais e, mais tarde, a definição de marcadores genéticos, uma espécie de “sinalizador” que permite dizer em que região do DNA estão os genes que determinam certos atributos de um ser vivo. Outro trabalho em andamento é a caracterização molecular de bactérias, um processo que visa determinar qual micro-organismo está causando uma dada doença e, a partir disso, definir qual soro deverá ser usado para tratála. O modo tradicional de fazê-lo é usar um soro que, ao proporcionar a reação entre anticorpos e antígenos, permite dizer de que patógeno se trata. No entanto, essa técnica costuma ser demorada, o que é um problema quando se trata de uma epidemia, por exemplo. A proposta do Centro é usar uma abordagem diferente, baseada na análise de parte do genoma das bactérias e compará-lo com os sorotipos já mapeados através de um programa de computador. A tecnologia poderá dar origem tanto a um software específico para a análise quanto a um kit para a realização dos testes. Os clientes potenciais seriam laboratórios que fazem esse tipo de exame. Ainda entre as iniciativas em andamento no CEBio, Oliveira cita a prospecção de enzimas de microorganismos e de substâncias que não são cultiváveis, como a terra ou a água,

por exemplo. O método consiste em extrair o DNA desses microorganismos a partir de amostras ambientais a fim de descobrir atividades enzimáticas que possam ter alguma aplicação. “Isso alarga muito o nosso horizonte porque 95% dos organismos são nãocultiváveis”, explica. O centro também está dando prosseguimento ao sequenciamento do Schistosoma mansoni, agente causador da esquistossomose, iniciativa empreendida desde 2001, em parceria com o Centro de Pesquisas René Rachou e com a Rede Mineira de Genoma. Um banco de dados do genoma do organismo está disponível para consulta da comunidade científica em www.schistodb.net. Já na linha de pesquisas aplicadas ao agronegócio, há o sequenciamento de fungos causadores de ferrugem da soja, do eucalipto e do café e de patógenos que atacam peixes, como a Streptococcus sp., que são patógenos de animais e humanos. As pragas são responsáveis por grandes prejuízos para os produtores do Estado. Em breve, revela o coordenador, a cartela de projetos poderá ser dobrada. “Apenas neste ano, já submetemos mais de 20 projetos a editais de agências de fomento. Estamos aguardando os resultados.” À comunidade acadêmica do Estado e de fora dele, o coordenador avisa que o Centro está aberto às propostas de vários tipos de parceria, desde a utilização dos equipamentos até o envolvimento mais direito com o estudo, desde seu início. Os interessados em conhecer a estrutura do local podem acessar a página www.cebio.org.br. Desireé Antônio MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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Ciência da Informação

Hora do Lanche Software desenvolvido por empresa mineira auxilia gestão de refeições escolares, permitindo controle mais preciso e reduzindo desperdício O desperdício de alimentos é um dos problemas mais graves enfrentados pelo Brasil. De acordo com dados do Instituto Akatu, organização não-governamental que atua na defesa do consumo consciente, cerca de um terço da comida comprada no país é jogada no lixo. A informação, por si só aterradora, torna-se ainda mais grave se a contrastamos com outra: mais de 14 milhões de brasileiros passam fome, segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2004. Toneladas de alimentos são descartadas diariamente em casas, restaurantes e até escolas, particulares e públicas, ocasionando prejuízos ao Estado e, indiretamente, a toda a população de contribuintes. Para tentar reduzir perdas de alimentos utilizados na produção de merendas escolares, a Teknisa, empresa especializada no desenvolvimento de softwares sediada em Belo Horizonte, criou um programa voltado para a gestão de merendas escolares. Com o nome de SchoolMeals, o software é destinado a prefeituras que desejam administrar melhor a produção e distribuição dos alimentos usados no preparo das refeições dos estudantes e também a empresas do ramo de alimentação escolar. O projeto foi desenvolvido com o apoio da FAPEMIG dentro de seu Programa de Apoio à Pesquisa em Empresas (Pappe), iniciativa que financia projetos de inovação em diferentes áreas. Segundo Cíntia Rios, diretora de negócios da empresa, cerca de 200 escolas em Minas Gerais e São Paulo já implantaram o programa. A utilização da ferramenta possibilita mensurar com mais precisão o consumo mensal de alimentos de cada escola, evitando o desperdício e permitindo o planejamento de compras. “Devido ao processo de licitação, muitas prefeituras optam por fazer grandes compras. O software oferece uma estimativa de quanto deve ser adquirido de cada gênero”, explica a agente de negócios da empresa Arabelle Menezes.

Benefícios

O software funciona assim: após seu uso ou aluguel da licença, ele é instalado na “central de merendas”, local a partir de onde serão distribuídos os alimentos.

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Lá, são cadastrados todos os produtos adquiridos para as merendas e elaborados os cardápios que serão servidos nas escolas e creches abastecidas. O cadastro é discriminado de acordo com níveis dos pratos – saladas, sopas, pratos principais, sobremesas e sucos – incluídos nas merendas. O banco de dados que acompanha a versão principal do programa inclui cerca de 4.500 produtos, aos quais podem ser acrescentados outros ou retirados aqueles não utilizados. É possível incluir uma série de dados sobre os itens, como a sua safra, origem da compra e preço. Saber quais são os vendedores tem importância especial para os gestores, já que desde 2009 eles são obrigados a adquirir 30% do total de gêneros alimentícios de agricultores familiares. Além dos produtos usados no preparo das refeições, há também 1500 receitas. A intenção é contribuir para a padronização das refeições oferecidas nas instituições de ensino, mas deixando uma brecha para que o cliente consiga adequar a ferramenta de acordo com suas necessidades, acrescentando ou retirando pratos. Uma das principais funções do programa é o controle dos estoques de alimentos disponíveis nas escolas e creches. Para isso, um profissional designado por cada um desses locais instala um aplicativo do programa em um notebook, que é conectado ao computador da central de merendas para transferência desses números. O controle também pode ser feito manualmente, quando as escolas entregam o inventário das quantidades restantes à central de merendas. Dessa forma, a prefeitura consegue saber quais gêneros estão em falta, qual o consumo médio total e per capita e determinar qual deve ser a velocidade da reposição. O SchoolMeals também permite a emissão de relatórios de vários tipos, instrumento importante para as escolas na hora de prestar contas do uso do dinheiro repassado. Outros dois importantes recursos do software é a possibilidade de se propor refeições de acordo com um limite de gasto por aluno definido pela prefeitura, e com os valores de nutrientes adequados. O nutricionista vai elaborando o cardápio na tela e, quando o valor é ultrapassado, o sistema avisa, destacando os números. Arabelle Menezes, nutricionista de formação, conta que essa foi uma das principais preocupações da empresa ao desenvolver o software. “Por se tratar de alimentação escolar e pelo fato de que nem sempre as escolas têm uma nutricionista à sua disposição para balancear os cardápios, achamos que seria importante oferecer essa possibilidade”, revela. Justificando sua preocupação, há inúmeros estudos que relacionam a ocorrência da obesidade em crianças e adolescentes a hábitos alimentares, mantidos em casa e na escola. Apesar da orientação de médicos, muitos colégios continuam a vender salgadinhos, doces, refrigerantes e outras guloseimas, que costumam ser os preferidos dos meninos, como mostrou pesquisa feita por professores da Universidade Federal de Juiz de Fora, publicada na edição de julho e setembro de 2008 da HU Revista. Feita com alunos com idade média de dez anos de idade, a pesquisa constatou que cerca de 45% deles comprava os lanches em vez de consumir os oferecidos pela escola. Em MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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resposta ao questionário aplicado pelos pesquisadores, as crianças reconheceram que as refeições eram mais saudáveis do que as que disponíveis na lanchonete, mas ainda assim mantinham a compra.

Desenvolvimento

Cíntia Rios, diretora de negócios da Teknisa, conta que o SchoolMeals começou a ser desenvolvido em 2006, quando notaram que as soluções oferecidas pelo mercado para a administração de cozinhas industriais não contemplavam particularidades do setor de alimentação escolar, cujo controle é mais complexo e o volume de informações, muito maior.

A elaboração do programa durou seis meses e começou com um levantamento das estratégias de controle de estoque utilizadas por clientes que atuavam no segmento de merendas escolares. Dessa maneira, a equipe investigou que opções poderiam ser contempladas pelo sistema em desenvolvimento. Houve também alguns ajustes ao longo do processo como a substituição do aplicativo, que deveria ser usado inicialmente em Palm Tops, para outros usados em netbooks, mais adequados para a quantidade de dados gerada pelo trabalho. De acordo com Menezes, o software passa constantemente por evoluções a fim de que não se torne obsoleto.

A agente de negócios destaca que a utilização do programa é simples e demanda pouco tempo de treinamento. Já a implantação depende de como a contratante deseja que o procedimento aconteça: se a instalação for completa, um profissional vai à cidade e toma todas as providências, inclusive o cadastro dos produtos, levando tempo um pouco maior. Desireé Antônio Projeto: “Software de merenda escolar” Modalidade: Programa de Apoio à Pesquisa em Empresas (Pappe) Coordenador: Wilson Lima de Paula Valor: R$34.500,00

Merenda escolar: entenda como funciona O repasse das verbas para a aquisição de merendas escolares é feito pelo governo federal desde de 1954, ano em que foi criado o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), direcionado à promoção da alimentação de estudantes do ensino público. A iniciativa visa assegurar que a merenda tenha pelo menos 20% dos nutrientes necessários à dieta diária dos alunos, com o objetivo de possibilitar melhor aprendizado e o desenvolvimento de hábitos alimentares mais saudáveis. Até 2009, o valor repassado por aluno era de R$ 0,22. No fim do ano ele foi reajustado para R$ 0,30 por criança. Creches, escolas indígenas e quilombolas passaram a receber R$ 0,60 e colégios de ensino integral, R$ 0,90. Segundo dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento de Educação, 47 milhões de estudantes são beneficiados pela medida, somando um investimento de R$ 3 bilhões. Uma parte do gasto com as refeições é

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custeada pela União, e o restante fica a cargo dos governos estaduais e municipais. A verba é repassada diretamente aos estados e municípios proporcionalmente ao número de alunos do ano anterior. Sua utilização é fiscalizada pela sociedade civil através dos Conselhos de Alimentação Escolares (CAEs), em conjunto com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o Tribunal de Contas da União (TCU), a Secretaria Federal de Controle Interno (SFCI) e o Ministério Público. Inicialmente, o processo era de responsabilidade da administração federal, até que, em 1994, a gestão dos recursos passou a ser feita de forma descentralizada, por estados e municípios. Outra importante alteração apresentada pelo programa aconteceu em 2009, com a Lei n° 11.947, quando o benefício foi estendido também aos alunos das escolas de ensino médio.


Mercado Reaproveitamento

Arte pelo meio ambiente Resíduos da siderurgia são utilizados para criação de obras de arte Limalha de ferro, sucata de cobre, areia de canal, grafite granulado. Os itens, que compõem a lista de descartes das indústrias siderúrgicas, quem diria, foram parar em obras de arte. Eles serviram de matéria-prima para as obras do artista plástico e professor da Escola de Guignard da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), Eymard Brandão. As telas, montadas sobre portas de madeira em estado bruto, compuseram a exposição “Arte em Resíduos”, instalada nos meses de junho e julho no Centro Mineiro de Referência em Resíduos, da Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM), e que terá itinerância por Minas Gerais e outros estados. O trabalho, apoiado pela FAPEMIG, foi resultado de dois anos de pesquisa, a fim de identificar as melhores matérias-primas e seus possíveis usos. O artista descobriu, por exemplo, que é possível pintar com limalha de ferro oxidada. O suporte em porta de madeira, chamado de prancheta no estado bruto, também foi uma inovação. “A porta de madeira possui uma estrutura que impede que ela empene. Como lidei com materiais novos, que molham, umedecem, têm ácidos, colas e vernizes, eu precisava de uma material mais resistente”, explica Eymard Brandão. Segundo o artista, “a intenção da exposição, no sentido social, é mostrar que o resíduo é um material extremamente rico. A partir do momento em que ele pode ser usado como obra de arte, também poderá ser utilizado na arquitetura, na decoração, na construção civil. Em vez de poluir a natureza, ele retorna para o consumo e é re-

Foto: Marcelo Focado

O artista plástico e professor da Escola de Guignard, Eymard Brandão.

aproveitado”. Para o pesquisador, a busca dos novos materiais é uma etapa que desperta o interesse para outras pesquisas. “A arte em resíduos é uma tendência contemporânea, como é tendência contemporânea usar os mais diversificados materiais da sociedade de consumo e da natureza no sentido ecológico. A arte contemporânea utiliza os mais diversificados tipos de materiais, inclusive aqueles que são gerados pela indústria.” Os resíduos utilizados na coleção foram cedidos pela Mannesmann, onde o artista realizou visitas, a fim de conhecer os processos de geração de resíduos. “A minha intuição, o meu conhecimento e uma série de fatores me levaram a escolher determinados resíduos. Muitos deles contêm em si uma beleza plástica intrínseca”, conta Brandão, que trabalhou apenas com resíduos não-tóxicos. A exposição inclui amostras dos materiais utilizados e todas as suas caracterizações. “É importante para que o público se situe

e saiba como aquele resíduo virou a obra que está exposta”, diz. O acervo “Arte em Resíduos” seguirá para exposição em outros lugares. A Mannesmann é uma das instituições que abrigarão temporariamente a coleção, que ainda deve percorrer o interior de Minas. “Temos várias solicitações. Ainda vamos escolher o próximo local que vai acolher o evento. As peças hoje fazem parte de um patrimônio do Estado de Minas Gerais e não serão colocadas à venda. Uma equipe vai analisar as propostas recebidas e fazer um cronograma da itinerância”, explica Brandão. Ariadne Lima Projeto: “Arte em resíduos” Modalidade: Demanda Endogovernamental Coordenador: Demerval Alves Laranjeira Valor: R$80.000,00

Foto: Marcelo Focado

As peças produzidas hoje pertencem ao Estado de Minas Gerais, que vai utilizá-las em exposições itinerantes. MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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Farmácia

Quando a forma importa Pesquisadores investigam como mudança no arranjo de compostos afeta propriedades físico-químicas de fármacos usados no tratamento de doenças degenerativas Um dos princípios básicos da Matemática é que a ordem dos fatores não altera o resultado da soma ou da multiplicação. Já na Química, a história é bem diferente. O modo como os compostos se organizam é capaz de determinar as suas propriedades físico-químicas, como o ponto de ebulição, de fusão, solubilidade e refração da luz. Isso vale inclusive para substâncias que tenham exatamente a mesma fórmula molecular, a mesma “receita”. Essa versatilidade das substâncias químicas está na base de um importante fenômeno chamado polimorfismo.A palavra, que vem do grego (poli = vários e morfos = forma), indica a propriedade de um composto de existir em duas ou mais formas de arranjos sólidos, graças a modos distintos da conformação de suas moléculas ou

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átomos em uma rede cristalina, estrutura que se assemelha a uma infinita fila de cubos enfileirados. As quinas desses cubos seriam os átomos ou moléculas, mantidos nessa condição devido às forças de interação entre elas. A existência do polimorfismo foi constatada, em 1788, pelo químico alemão Martin Heinrich Klaproth, considerado por muitos como o pai da química analítica. Ele identificou duas formas cristalinas diferentes do carbonato de cálcio: a calcita e a aragonita. Como as formas polimórficas diferentes de uma substância têm características diferentes, o polimorfismo desperta interesse especial da indústria farmacêutica. Isso porque muitos compostos utilizados como princípio ativo de medicamentos podem apresentar variações em seus arranjos cristalinos e, em consequência, ter um comportamento diferente do desejado, resultando possivelmente na redução ou mesmo na completa ineficácia de sua ação. Foi com o objetivo de tentar compreender melhor como surgem e como se comportam as variações polifórmicas que professores do Departamento de Química da Universidade Federal de Alfenas (Unifal) investigaram manifestações das formas polifórmicas cristalinas de medicamentos utilizados na prevenção e tratamento de doenças crônico-degenerativas, como o Mal de Alzheimer e o Mal de Parkinson. Durante o desenvolvimento da pesquisa, outras enfermidades passaram a ser alvo de estudos, como insuficiência cardíaca, hipertensão arterial, angina crônica, diabetes, Aids e doenças infecciosas. O projeto foi financiado pela FAPEMIG dentro do Programa Pesquisa para o SUS (PPSUS), iniciativa que busca apoiar estudos e pesquisas voltados para a promoção do desenvolvimento tecnológico em saúde, o fortalecimento da gestão e a maior eficiência do Sistema Único de Saúde. Mais do que saber qual a dinâmica das formas polimórficas, a pesquisa teve ainda o propósito de buscar novas variações das formas cristalinas


desses medicamentos que fossem mais eficazes e propor uma metodologia de rotina para o controle de qualidade dos polimorfos de fármacos. Os resultados já obtidos mostraram que é possível verificar a qualidade de medicamentos e matérias-primas de fármacos por meio de um procedimento relativamente simples, de baixo custo e rápido.

Pesquisa

O coordenador do trabalho e professor da Unifal, Antônio Carlos Doriguetto, explica que para executar o projeto, a equipe escolheu um grupo de 13 substâncias, de tipos e complexidades diferentes. Entre elas estão desde o mebendazol, um conhecido vermífugo usado contra vermes que atacam especialmente o sistema gastrointestinal, até a didanosina, substância usada no combate ao vírus HIV. Todas as amostras foram obtidas em indústrias farmacêuticas ou laboratórios. O trabalho teve início em 2006 e foi concluído dois anos depois. No começo das análises para verificar a qualidade de medicamentos, a pesquisa estava centrada no estudo do mebendazol, que possui três formas polimórficas conhecidas, sendo apenas uma terapeuticamente ativa. A próxima substância analisada foi a clortalidona, um diurético receitado em casos de hipertensão, passando pela ticlopidina, indicada para o tratamento de tromboses por inibir a agregação de plaquetas que impedem o fluxo sanguíneo, e a bromocriptina, usada para aliviar sintomas do Mal de Parkinson. A pesquisa seguiu por duas linhas: a procura por um método para detectar as formas polimórficas e a busca de sua “fabricação”. Ambas foram desenvolvidas ao mesmo tempo, o que possibilitou aos pesquisadores uma visão mais complexa do fenômeno. Para a determinação das formas polimórficas foram utilizadas técnicas de difração de raios X, análises microscópicas e térmicas e espectroscopia, ou seja, a análise dos processos de absorção, transmissão e difração da luz através dos corpos. Uma vez determinadas, a equipe tentou produzi-las em laboratório a partir de técnicas como subli-

mação (passagem do estado sólido diretamente ao líquido), recristalização a partir da evaporação de solventes, difusão de vapor, tratamento térmico, cristalização a partir do estado líquido, mudança da acidez de soluções, moagem e pulverização a seco. Segundo Doriguetto, o principal desafio no estudo de compostos polimórficos é a instabilidade dessas formas.“Fatores como a variação de temperatura, pressão e acidez do meio podem favorecer a passagem de uma forma cristalina a outra, alterando as propriedades físico-químicas. Ao obter informações sobre os mecanismos de mudança das formas, é possível entender em que condições são obtidos os polimorfos a fim de produzi-los em laboratório, buscando variações mais estáveis e potenciais aplicações específicas”, justifica.

Banco de dados

Segundo Doriguetto, a novidade do estudo é investigar se essas técnicas são adequadas para a análise dos polimorfos tanto nos insumos farmacêuticos como no medicamento, uma vez que elas já são utilizadas para o mesmo fim com compostos de outras naturezas. O resultado foi positivo. O pesquisador conta que foi possível comprovar a eficácia do método e também produzir, em laboratório, outras formas de compostos como o mebendazol, a clortalidona e a ticlopidina.

“Conhecer o comportamento e a melhor forma de produção das variações dos polimorfos nos possibilita manipular as fórmulas conforme nosso objetivo. Isso pode resultar em medicamentos que cumpram melhor seu propósito e, eventualmente, apresentem custos mais baixos, se produzidos em grande escala”, avalia. O conhecimento gerado pela pesquisa está sendo armazenado em um banco de dados que conterá informações sobre as propriedades dos polimorfos de fármacos. Por ora, a base de dados é alimentada e utilizada apenas pelos

Foto: Arquivo Pessoal

Antônio Carlos Doriguetto, professor da Unifal (a direita), e equipe que participou do desenvolvimento do projeto. MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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pesquisadores da Unifal. “É possível que, no futuro, ele seja disponibilizado comercialmente para outros pesquisadores ou laboratórios”, projeta. Os resultados para determinação de polimorfos podem ser empregados, ainda, no controle de qualidade dos fármacos, principalmente aqueles relacionados à bioequivalência e à biodisponibilidade. Durante a pesquisa, a equipe encontrou formas cristalinas inadequadas de medicamentos utilizados em doenças crônico-degenerativas. No entanto, para fazer afirmações mais incisivas sobre a necessidade de uma regulamentação mais rigorosa por parte da Anvisa ou sobre o estado dos remédios comercializados, seriam

necessários testes com vários lotes do produto, como um controle de qualidade, o que ainda não é feito. A sugestão do pesquisador é que os laboratórios analisem os lotes o mais próximo possível da data de comercialização, pois os compostos empregados nos medicamentos podem sofrer transformações depois de já estocados e prestes a serem consumidos. “Isso evitaria transtornos para o consumidor”. O projeto resultou, ainda, na publicação de um artigo em periódico científico sobre o trabalho com o mebendazol, em que foi possível manipular as formas cristalinas no laboratório. No caso desse vermífugo, o pesquisador

Foto: Gláucia Rodrigues

conta que os exames da qualidade de sua matéria-prima apresentaram dados preocupantes quanto à forma polimórfica encontrada e, consequentemente, sua eficácia. Por isso, está nos seus planos comunicar tais resultados aos órgãos fiscalizadores. A pesquisa com a clortadilona também resultou em artigo, que foi publicado no periódico Crystal Growth & Design. Recentemente foram publicados outros três artigos de novas formas polimórficas de substâncias usadas no combate ao vírus HIV: lamivudina e didanosina. Outros dois textos deverão ser veiculados em publicações especializadas, um sobre o fluconazol, um fungicida, e outro sobre a mistura de uma das formas cristalinas do mebendazol com a nimesulida, um anti-inflamatório. Outros três projetos com o tema polimorfismo em fármacos foram desenvolvidos com o apoio da FAPEMIG, dois deles coordenados por Doriguetto: “Estudos do comportamento térmico de materiais e moléculas orgânicas e inorgânicas”, aprovado no edital de apoio a Grupos Emergentes, e “Sólidos farmacêuticos: caracterização estrutural e polimorfismo”, aprovado no edital Universal. O terceiro, aprovado no programa de infraestrutura para Jovens Pesquisadores, é coordenado por Person Pereira Neves, membro da equipe. “Esses projetos têm possibilitado a continuidade das pesquisas nesse fascinante tema”, diz. Por ora, o professor já sabe que o projeto deverá se estender com novas substâncias nos próximos anos. “Os esforços para o estudo de fármacos podem proporcionar uma série de benefícios, como medicamentos mais eficientes, a custos mais baixos, além de enriquecer nossa produção científica e formar recursos humanos na área”, conclui. Desireé Antônio

A equipe investigou como surgem e como se comportam as variações polimórficas de alguns compostos utilizados em medicamentos. Os resultados podem ajudar no controle de qualidade dos fármacos.

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Projeto: “Estudo de polimorfismo em fármacos para o controle de doenças crônico-degenerativas” Modalidade: Programa de Pesquisa para o SUS (PPSUS) Coordenador: Antônio Carlos Doriguetto Valor: R$ 51.534,47


Mercado Especial

Fundo de capital semente realiza primeiro investimento O Fundo de Investimento em Empresas Emergentes Inovadoras (HorizonTI) foi o primeiro fundo de capital semente de Minas Gerais a aportar recursos a uma empresa de seu ramo de atuação. O investimento, anunciado em junho, foi em favor da e-Prime Care - Gestão de Cuidados S/A, que atua no desenvolvimento de softwares para operadoras de planos de saúde, a fim de otimizar custos assistenciais da carteira de clientes, reduzir custos operacionais e melhorar a qualidade da assistência prestada, melhorando também os indicadores de saúde da população. O HorizonTI, gerido pela Confrapar, tem patrimônio aproximado de R$ 20 milhões e investe em empresas nascentes do setor de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) no Estado. Ele foi criado dentro do programa Inovar Semente, iniciativa da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) que conta com parceiros locais em cada Estado – em Minas Gerais, a FAPEMIG é um deles. A meta é investir em mais dez empresas nos próximos três anos. No evento em que foi anunciado o investimento, Bernardo Portugal, da Confrapar, destacou que o HorizonTI é resultado da visão de agentes públicos de Minas Gerais que acreditaram na ideia. “A FAPEMIG é a primeira FAP do país a investir em um fundo de capital semente. Conjugamos ciência, tecnologia e inovação com empreendedorismo e fizemos acontecer. Os investidores que acreditaram na ideia certamente colherão os frutos”, disse. Paulo Kleber Duarte Pereira, diretor de planejamento, gestão e finanças da FAPEMIG, destacou a importância da iniciativa. “É importante lembrar que fundos como esse foram as principais molas propulsoras para empresas inovadoras nos Estados Unidos. No Brasil, até 2004, era proibido usar recursos de agências

públicas para investir em empresas. Hoje, temos a Lei Mineira de Inovação, que foi um marco e prevê a constituição dos fundos. Estamos em um bom momento e o sucesso dessa iniciativa vai mostrar o quanto ela é importante e pioneira”, disse. Segundo o secretário de ciência e tecnologia de Minas, Alberto Duque Portugal, ações como os fundos de capital semente contribuem para preparar Minas para ser o Estado líder na economia do conhecimento. “Temos realizado um conjunto de ações e decisões coerentes neste sentido e a FAPEMIG tem sido um importante aliado”, disse o secretário, que destacou iniciativas como o Sistema Mineiro de Inovação (Simi), os Centros de Vocação Tecnológica (CVTs) e o projeto Tecnologia, Empreendedorismo e Inovação Aplicados (TEIA).

Tecnologia e saúde

Segundo Felipe Moleda Godoi, gestor do HorizonTI, o mercado de saúde suplementar tem crescido bastante no Brasil nos últimos anos, devendo faturar mais do que R$ 60 bilhões em 2010. Nos últimos anos as grandes e médias operadoras têm investido na redução do custo administrativo e maior eficiência gerencial, porém pouco tem sido feito para diminuir o impacto do custo assistencial que representa uma média de 75% das receitas da indústria. “Com o novo rol de procedimentos imposto pela Agência Nacional de Saúde (ANS), por meio da Resolução Normativa n° 211 de 2010, a pressão por maiores custos será mais forte,” disse Godoi. “Portanto, por uma questão de sobrevivência, o mercado precisará investir de forma robusta para otimizar esses gastos, e neste cenário nos chamou atenção a proposta da e-Prime Care, com metodologias clínicas padronizadas e sistemati-

zadas, softwares desenvolvidos em plataformas modernas, uso de vários meios de comunicação como SMS, integrados em uma plataforma tecnológica que configura-se em um verdadeiro sistema de inteligência em saúde”. A expectativa é que essa solução represente uma redução de até 20% no custo assistencial das operadoras de saúde. Segundo Leonardo Florêncio, um dos fundadores da e-Prime Care, os recursos aportados pelo HorizonTI serão fundamentais para o desenvolvimento das atividades da empresa, pois uma ideia boa não é suficiente para se tornar um negócio de sucesso. “Empreender demanda persistência, conhecimento técnico, múltiplas habilidades, liderança motivacional, expertise em práticas de gestão, finanças, gestão de projetos, habilidade comercial, paciência e muita sola de sapato. Uma ideia é considerada boa, se, quando colocada em prática, trouxer resultados sociais, econômicos e ambientais satisfatórios,” disse. “Com a ajuda do HorizonTI, incorporamos ao nosso dia-a-dia questões como plano de negócios, metas de resultados, alinhamento institucional, capacitação continuada, práticas de governança corporativa, conselho de administração, tudo com um só objetivo, fazer cada vez mais e melhor”. “Antes de receber o investimento do HorizonTI, a e-Prime Care recebeu recursos da FAPEMIG por meio do Programa de Apoio a Pesquisas em Empresas (Pappe). Isso significa que a Fundação, atualmente, tem condições de apoiar todas as etapas do desenvolvimento tecnológico. É um ciclo virtuoso que começa com as incubadoras tecnológicas, passa pelo apoio à pesquisa em empresas e chega aos fundos de capital semente”, finaliza Paulo Kleber Pereira. MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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Aquecimento Global

Futuro preservado Pesquisa investiga as consequências do aumento da concentração de CO2 para espécies da flora O aquecimento global é um dos problemas ambientais mais discutidos na atualidade. O aumento da temperatura média provoca um desequilíbrio do planeta, com consequências preocupantes. O derretimento das geleiras polares, o aumento do nível da água do mar, o aparecimento de novas doenças e a transformação de regiões hoje produtivas em impróprias para a agricultura são apenas alguns exemplos do que significa um mundo mais quente. Várias pesquisas estão sendo desen-

volvidas a fim de entender e buscar soluções que, no mínimo, minimizem esses efeitos. Uma delas está sendo desenvolvida no Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O trabalho, coordenado pelo pesquisador do Departamento de Biologia Geraldo Wilson Fernandes, investiga os efeitos do aquecimento global na flora e fauna. “Os dados climáticos são amplamente divulgados, mas não

O tema é polêmico e nem todos os cientistas concordam sobre suas causas e consequências. Mas para um grande número deles, o homem está diretamente relacionado às mudanças no clima do planeta. Essa é a opinião dos pesquisadores que fazem parte do Painel Intergovernamental em Mudança de Clima (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU). Um estudo produzido por esse grupo mostrou que o século XX foi o mais quente dos últimos cinco séculos: a temperatura média aumentou entre 0,3º C e 0,6º C. Pode parecer pouco, mas é o suficiente para modificar o clima de uma região e afetar todas as formas de vida. O grupo advertiu também que, se a poluição da atmosfera continuar crescendo, a temperatura média do planeta subirá 4 graus até o fim do século.

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conhecemos as consequências reais do aumento da concentração de gás carbônico (CO2) para os organismos tropicais. Por isso, esse é um projeto pioneiro não só no Brasil, mas no mundo”, explica. O ponto de partida para o estudo foi a definição de uma planta que serviria como modelo. A escolhida foi a Baccharis dracunculifolia, conhecida como alecrim-do-


Foto: Juliana Saragá

campo. Os motivos são vários. Essa é uma planta encontrada em todo o país, com mais de 500 espécies do mesmo gênero no Brasil e em outros países da América do Sul. Ela também apresenta um grande potencial invasor, ou seja, são plantas colonizadoras de ambientes degradados, já que o seu crescimento é rápido. Além disso, esta espécie possui uma enorme biodiversidade associada - ela serve como hospedeira a diversos tipos de insetos e fungos. “Por tudo isto, o alecrim-do-campo tem um importante papel social no ecossistema”, destaca Fernandes. Os experimentos foram realizados nos laboratórios da UFMG, na Serra do Cipó e também na porção Sul da Serra do Espinhaço, regiões que podem servir como termômetros para as mudanças climáticas. Como explica o pesquisador, os efeitos da variação de temperatura são observados primeiro em lugares montanhosos, onde as altitudes são mais elevadas. Na UFMG, foram instaladas quatro câmaras de CO2, duas com a concentração ambiente atual do gás e duas com o dobro desta quantidade, simulando a atmosfera prevista para o final deste século. Hoje, a concentração gira em torno de 360 ppm (partes por milhão) e a previsão para o ano 2100 é de cerca de 720 ppm. MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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As câmaras possuem equipamentos com sondas que medem a temperatura, umidade e concentração do gás. Os dados são registrados continuamente no computador através de um programa específico e avaliados diariamente. O estudo foi dividido em subprojetos: crescimento, fisiologia, nutrição e organismos associados à planta modelo, cada um sob responsabilidade de um pesquisador da equipe.

Crescimento

O primeiro experimento realizado teve como objetivo verificar as respostas de crescimento do alecrim-docampo em atmosfera enriquecida por CO2. As plantas foram cultivadas nos dois tipos de câmaras. “Trabalhamos com um número grande de plantas e, periodicamente, medimos o seu crescimento. Foram examinadas a altura, número de ramos, massa seca de raiz, caule e folhas”, explica Camila Mendes de Sá, pesquisadora responsável por esta etapa do projeto. A planta, após a coleta, era dividida em caule e folhas. O material é então secado em estufa para identificação do peso seco. “Isso mostra o quanto de matéria vegetal foi produzida pela planta, ou seja, o seu real crescimento”, completa. As coletas foram realizadas e avaliadas durante quatro meses e os resultados foram surpreendentes. Observouse que as plantas expostas à atmosfera enriquecida com CO2 cresceram bem

mais do que as expostas à atmosfera com concentração atual do gás. Segundo a pesquisadora, isso acontece porque o aumento do dióxido de carbono afeta diretamente o processo de fotossíntese. “A planta precisa absorver CO2 para realizar fotossíntese e produzir as substâncias nutritivas, como os açúcares. Se há um aumento da disponibilidade deste gás, este processo será ampliado e, consequentemente, o crescimento de ramos e flores será maior”, esclarece a pesquisadora. Mas com esse crescimento acima do normal, a planta terá uma qualidade nutricional menor, já que o carbono incorporado por ela, em forma de CO2, faz com que a produção de fibras aumente e a proteína fique mais diluída, ou seja, em menor disponibilidade. “Isto prejudicará os organismos associados, como por exemplo, os insetos que dela se alimentam. Eles podem ficar mal nutridos e precisarão comer uma maior quantidade para suprirem esta deficiência. Isso causará um provável efeito em cadeia, que deve afetar outros níveis tróficos, como os animais que se alimentam deste inseto e assim por diante”, prevê.Além disto, a pesquisadora explica que o aumento do carbono faz com que as folhas e caule fiquem mais duros, reação que dificultará a decomposição do vegetal, alterando a ciclagem de nutrientes no ambiente. A ciclagem é o processo responsável por recolocar os nutrientes das plantas, decompostas por fungos e bactérias nova-

mente no ambiente, disponibilizando-os para outros organismos.

Fisiologia e nutrição

A fisiologia vegetal é a área da botânica que estuda os mecanismos pelos quais as plantas crescem, se desenvolvem, percebem e interagem com o ambiente em que estão inseridas. Para esta etapa do projeto, ainda em andamento, estão sendo analisadas duas plantas do mesmo gênero: a Bacaris dracunculifolia, cujo perfil é invasor, e a Baccharis platypoda, restrita a grandes altitudes, portanto sem comportamento invasor. O estudo pretende responder a pergunta: o que torna uma espécie invasora e a outra não, já que elas são parentes tão próximas? “As plantas com perfil invasor têm grande capacidade de disseminação em ambientes naturais, ou mesmo nos modificados pelo homem. Elas podem dominar pastagens, áreas de agricultura, terrenos baldios e bordas de estradas, causando prejuízos, por exemplo, na colheita”, esclarece Newton Pimentel, pesquisador responsável pelas avaliações fisiológicas. Absorção de CO2, água e taxa de respiração são alguns dos itens avaliados e registrados em um aparelho chamado canalizador de fotossíntese portátil. Outro equipamento, o fluorômetro, capta o nível de clorofila existente na planta através de feixes de luz. Os resultados devem ser concluídos nos próximos meses.

Fotos: Juliana Saragá

Canalizador de fotossíntese portátil, equipamento que mede, entre outros, a absorção de CO2. Ao lado, professor Geraldo Fernandes (centro) e equipe envolvida no desenvolvimento do projeto.

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Fotos: Juliana Saragá

Câmaras de CO2 construídas na UFMG testam o comportamento das plantas com diferentes concentrações do gás na atmosfera. Ao lado, testes com fungos endofíticos presentes no alecrim-do-campo.

Geraldo Fernandes explica que o conhecimento a ser obtido é fundamental para medidas sólidas de conservação e manejo tanto das espécies com potencial invasor como daquelas raras e em perigo de extinção.“O domínio da paisagem por espécies invasoras pode deixar o ambiente empobrecido e produzindo menos recursos para as comunidades, inclusive o homem.A utilização deste conhecimento mais aprofundado permite a adoção rápida de medidas de controle mais precisas”. Outra importante parte do estudo foi a análise nutricional das plantas relacionada ao solo, já que este também deve ser afetado pelo aumento do CO2. As mudanças climáticas acarretarão uma deposição de compostos tóxicos na terra através das chuvas, associadas à poluição. “O objetivo foi investigar a reação da nossa planta modelo aos tipos extremos de solo. Para isso trabalhamos desde o solo mais pobre, com poucos nutrientes e grande quantidade de compostos tóxicos, como os campos rupestres (cerrado), até solos muito ricos com grande capacidade de fertilidade, encontrados em campos agriculturáveis”, explica o pesquisador Daniel Negreiros. O resultado observado foi uma clara relação negativa entre sobrevivência e crescimento. Com o solo pobre, a planta cresce pouco, mas sobrevive por mais tempo. Em solo fértil ela tem um crescimento maior e menos tempo de sobrevivência. “O vantajoso é que esta espécie apresenta adaptações e pode colonizar desde o ambiente mais pobre até o mais fértil”,

ressalta Negreiros. Segundo o pesquisador, este resultado também serve com um alerta para o futuro, pois é provável que muitas espécies rígidas (não-adaptadas ou menos plásticas) sejam as primeiras a serem extintas. Outra hipótese é que plantas adaptadas, como o alecrim-do-campo, dominem os ambientes e até se tornem pragas, transformando paisagens, atualmente diversificadas, e mudando os perfis ambientais.

Fungos endofíticos

Os fungos endofíticos são organismos que vivem nos tecidos internos da planta sem causar nenhum tipo de dano. Eles têm despertado interesse dos pesquisadores devido ao seu potencial no controle biológico de pragas e doenças ou mesmo como alternativas de melhoramento da resistência de plantas, especialmente aquelas de interesse econômico (café, soja, mandioca, cacau, morango). Isso porque eles protegem a planta hospedeira contra os herbívoros, organismos patogênicos e condições ambientais consideradas prejudiciais ao crescimento, tais como a estiagem e elevadas temperaturas. “Estamos investigando os fungos presentes no alecrim-do-campo porque acreditamos que em um cenário com aumento de CO2, a diversidade destes organismos diminua”, explica a pesquisadora Yumi Oki, responsável pelo estudo. O objetivo é avaliar quais destes fungos resistiriam ao aumento deste gás e como eles podem beneficiar os vegetais no ambiente futuro. “É possível que encontremos algum tipo de fungo

que maximize a resistência das plantas”, observa. A pesquisadora explica que as plantas reconhecem estes organismos como parte delas, então será possível inocular, ou seja, inseri-los nos vegetais sem causar danos. “É um processo com baixo custo e uma alternativa de preservação da espécie”, sugere. Os trabalhos da equipe não param por aí. Uma etapa futura do projeto é investigar o efeito direto do aquecimento global sobre a fauna. Para isto pretende-se verificar se as plantas que estão crescendo em ambiente enriquecido pelo CO2 são mais atacadas pelos insetos. Outra questão a ser analisada é a atuação benéfica dos componentes químicos das plantas, já que existem várias substâncias que as protegem contra radiação “É importante observar que o projeto buscou cercar o problema, desde os aspectos nutricionais, de desenvolvimento, fisiologia e organismos associados, até simulações de ambientes futuros. Tudo isto nos fornece um bioindicador ambiental de mudança climática, muito importante para tomarmos medidas preventivas”, finaliza o coordenador. Juliana Saragá Projetos: “Dimensões ecológicas e climáticas da biodiversidade em Baccharis: de moléculas a organismos” e “Mudanças climáticas globais: efeitos do enriquecimento com o CO2 na biodiversidade” Modalidade: Edital Pronex e Demanda Universal Coordenador: Geraldo Wilson Fernandes Valor: R$551.715,62 MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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Mercado Notas

FAPEMIG MARCA PRESENÇA NA 62ª REUNIÃO DA SBPC

NÚCLEO DE DIFUSÃO CIENTÍFICA COMEÇA A SE ESTRUTURAR Divulgar a ciência, a tecnologia e a inovação para o público leigo por meio de diferentes meios de comunicação que incluem rádio, TV e internet. Essa será a missão do Programa de Comunicação Científica, Tecnológica e de Inovação (PCCT) da FAPEMIG. O primeiro passo para sua implantação foi dado em julho, com o lançamento do edital do Programa que convidava profissionais da área a se candidatar a uma vaga na equipe. Ao todo, 58 propostas foram recebidas para análise. Os candidatos já realizaram uma prova prática, que simulou uma coletiva com pesquisadora. A equipe de julgamento irá avaliar a capacidade de síntese, correção e o uso dos elementos textuais próprios de cada veículo de comunicação. A previsão é que o resultado seja divulgado em outubro para que o grupo comece seu trabalho ainda em 2010. “A divulgação da ciência, dos avanços proporcionados por ela e também dos conflitos gerados faz parte da missão da FAPEMIG. Essa nova equipe de profissionais formará um núcleo de produção em jornalismo científico que irá contribuir para a democratização do conhecimento”, opina a assessora de comunicação social da FAPEMIG e coordenadora geral do PCCT,Vanessa Fagundes.

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oportunidades de bolsas para estudantes e seu programa de divulgação científica Minas Faz Ciência, composto por revista e vídeos. Neste ano, a FAPEMIG também apresentou em seu estande o projeto “Animais peçonhentos – conhecer e não temer”, da Fundação Ezequiel Dias (Funed). O projeto, que recebeu apoio da FAPEMIG dentro de seu edital de popularização da ciência, é composto por banners explicativos e réplicas de serpentes que ajudam a demonstrar a diferença entre cobras peçonhentas e não peçonhentas. Além disso, o projeto é ponto de partida para falar sobre a importância desses animais para a ciência e alguns dos resultados já obtidos a partir de seu estudo, como medicamentos para hipertensão.

Foto:Vanessa Fagundes

Estande da FAPEMIG na reunião da SBPC apresentou as modalidades de apoio e o programa de divulgação científica da Fundação.

PARCERIAS COM EMPRESAS JÁ TÊM RESULTADOS A indução e o fomento à inovação também fazem parte da missão da FAPEMIG. Para isso, a Fundação mantém um diálogo com empresas que têm interesse em investir em ciência e tecnologia. O resultado é que, em 2010, quatro editais, frutos de parceria entre o governo e o setor empresarial, foram lançados pela Fundação: a chamada de proposta 01/2010, em parceria com a Vale; os editais 11/2010 e 12/2010, em parceria com a Whirlpool; e o edital 13/2010, em parceria com a Fiat. Por meio deles, será investido cerca de R$45 milhões para o desenvolvimento de projetos com foco em inovação. A novidade foi a realização de seminários técnicos para esclarecer dúvidas e orientar a elaboração de propostas. Os pesquisadores das áreas tema dos editais que possuíam cadastro na FAPEMIG foram convidados a participar. Neste encontro, após uma apresentação dos parceiros e do edital, um grupo formado por representantes da empresa e da Fundação colocavam-se à disposição dos presentes para responder as perguntas. De acordo com Mario Neto Borges, presidente da FAPEMIG, o objetivo geral dos seminários técnicos é estimular a apresentação de propostas e divulgar as parcerias. “Esse trabalho conjunto é importante porque incentivar a articulação entre três elos - empresa privada, meio acadêmico e governo - que historicamente têm deficiências de comunicação”, opina. O seminário mais recente teve como tema o edital da Fiat. “O sucesso do Seminário surpreendeu nossas expectativas. Mestres e doutores renomados se mostraram engajados no projeto, apresentando questionamentos e intenções de propostas extremamente relevantes e em sintonia com o que esperamos”, conta João Ciaco, diretor de Publicidade e Marketing de Relacionamento da Fiat Automóveis. Ele completa: “A parceria com a FAPEMIG possibilita a aproximação entre a Fiat e as instituições de ensino do Estado, o que nos permite fomentar a geração do conhecimento aplicado, promovendo a inovação”. Atualmente, os editais em parceria com a Vale e a Whirlpool encontram-se em fase de análise e julgamento enquanto o edital com a Fiat ainda recebe propostas – o prazo máximo é 30 de setembro. Seminário técnico Fiat. Após apresentação, pesquisadores tiraram dúvidas com a empresa.

Foto:s Divulgação FIAT

De 25 a 30 de julho, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) realizou sua 62ª reunião, que teve como tema central as Ciências do Mar. O encontro foi realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal (RN). Durante esses cinco dias, estudantes, pesquisadores e outros profissionais ligados à área da ciência, tecnologia e inovação participaram de palestras, apresentações de trabalhos, entre muitas outras atividades. Durante a reunião, foi realizada a feira Expotec, uma grande mostra de ciência e tecnologia. Pelo segundo ano consecutivo, a FAPEMIG esteve presente na feira, que registrou uma média de seis mil visitantes por dia. Em seu estande institucional, a Fundação apresentou suas linhas de apoio, as


RUMOS E DESAFIOS PARA UMA POLÍTICA NACIONAL DE CT&I Qual deve ser a política científica brasileira para os próximos dez anos? O que fazer para torná-la uma política de estado, e não de governo? Como envolver os diferentes setores da sociedade nessa discussão? Essas foram algumas das questões que orientaram os debates realizados durante a 4ª Conferência Nacional de Ciência,Tecnologia e Inovação (4ª CNCTI), evento que reuniu, em Brasília, no mês de maio, mais de 3.500 participantes entre políticos, gestores, pesquisadores, empresários, atores da sociedade civil organizada e estudantes. As conferências são organizadas como arenas consultivas. As três primeiras foram realizadas nos anos de 1985, 2001 e 2005. A 4ª edição trouxe como novidade a introdução do tema da sustentabilidade e o papel da ciência na busca por um desenvolvimento equilibrado. A 4ª CNCTI foi dividida em quatro grandes eixos: Sistema nacional de CT&I; Inovação na sociedade e nas empresas; Pesquisa, desenvolvimento e inovação em áreas estratégicas; e CT&I para o desenvolvimento social. Entre os temas mais debatidos pelos participantes estão a necessidade de um arcabouço legal adequado para a área e a importância do investimento em educação para a construção de uma cultura científica. Agora, o desafio é dar prosseguimento aos debates e às propostas apresentadas, de modo que as discussões não se limitem à Conferência. O secretário geral da 4ª CNCTI, Luiz Davidovich, acredita que isso é fundamental para garantir que os anseios de diversos setores sejam contemplados. Ele conversou com a revista MINAS FAZ CIÊNCIA durante o Fórum dos conselhos nacionais de Secretários Estaduais para Assuntos de CT&I (Consecti) e das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), realizado em junho, no Rio de Janeiro. Em sua opinião, quais foram os principais pontos positivos da 4ª CNCTI? Um grande ponto positivo desenvolvido, durante a Conferência, foi a

arte da soma. Durante os três dias de evento, contamos com a presença de pessoas de vários setores da sociedade: da indústria, da área acadêmica, representantes de comunidades indígenas, pessoas ligadas a sindicatos e a movimentos sociais. Enfim, todos esses agentes tiveram a inteligência coletiva de buscar consensos para subsidiar uma futura política de estado na área de CT&I. Acho que foi positiva essa formação de consensos e a conscientização dos agentes de que é importante focar em temas que podem ter forte apoio de vários setores da sociedade. Isso já está tendo reflexos positivos. Se olharmos as últimas ações de governo vamos perceber que elas estão fortemente relacionadas a questões que foram debatidas nos últimos meses. Por exemplo, a questão da autonomia universitária, dos marcos legais para a área de CT&I e da biodiversidade, que já foi motivo de problemas no passado devido a vários conflitos que dificultavam a pesquisa científica, por exemplo, na Amazônia. O poder de compra do estado foi uma outra questão debatida na Conferência que já está sendo atacada pelo governo. Ou seja, antes mesmo da preparação do documento final da Conferência, já estamos tendo respostas para questões colocadas durante o encontro. Isso também é um sucesso, um ponto extremamente positivo. Qual é o próximo passo? Temos que trabalhar, agora, para que esse sucesso se estenda para os próximos anos e para que esse consenso criado durante a Conferência contribua para a formação de uma política de estado. Eu estou bastante otimista, pois não é todo dia que as propostas conseguem apoio da comunidade cientifica, de empresários, da comunidade indígena, de movimentos sociais... É preciso aproveitar isso para elaborar uma proposta forte. Vamos criar, agora, um mecanismo

de consulta à sociedade e aos participantes da Conferência, de modo que a construção do documento final seja um empreendimento coletivo. Esse documento será uma referência, vamos divulgá-lo amplamente. Se ficar pronto antes das eleições, certamente será entregue aos candidatos. Ele vai ser divulgado para toda a sociedade brasileira, vamos colocálo na internet e disponibilizá-lo para consultas. Nós esperamos, evidentemente, que os futuros presidentes, governadores e prefeitos levem em consideração o que foi proposto na Conferência. Qual sua sugestão para que os debates sobre um plano nacional de CT&I continuem? Em primeiro lugar, vale dizer que tanto o Consecti quanto o Confap são muito importantes nesse processo de consolidação das propostas. Sabemos que os dois conselhos vão participar ativamente e, ao fazer isso, não só vão trazer para os estados os resultados das discussões como vão alimentar essas discussões. É isso que ocorrerá em um primeiro momento. Chegaremos, então, ao documento final. Quando pronto, é importante a atuação das entidades para que as recomendações coletivas sejam de fato seguidas e realizadas pelos futuros governos. O mecanismo é esse. A mobilização posterior é importante.

A Conferência reuniu mais de três mil participantes que discutiram a política de CT&I para a próxima década. MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAIO / 2010

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Cientistas brasileiros O pesquisador Sérgio Danilo Junho Pena é conhecido internacionalmente por seus estudos sobre variabilidade genética e diagnóstico a partir da análise do DNA. Professor titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia da UFMG, ele também se destaca pelo trabalho de divulgação científica: desde 2006, publica na página da Ciência Hoje (http:// cienciahoje.uol.com.br/colunas/ deriva-genetica) a coluna “Deriva Genética”, em que aborda temas sobre ciências da vida, especialmente genética e evolução. Pena participou de uma discussão sobre os desafios da ciência básica durante a Conferência Nacional de Ciência,Tecnologia e Inovação, realizada em maio em Brasília. Após sua palestra, concedeu entrevista à MINAS FAZ CIÊNCIA. Em sua palestra, o senhor falou de um modelo criacionista atualmente seguido pelas agências de fomento. O que significa isso? Na natureza, a vida evolui por seleção natural. Se você olhar as formas de vida existentes, até parece que alguém as desenhou, mas, na verdade, elas evoluíram por processos aleatórios e de seleção natural. E acho que esse modelo deveria ser aplicado na ciência. Atualmente, as agências de fomento à pesquisa pedem que o projeto seja encaminhado já com objetivos extremamente bem definidos, cronograma e, muitas vezes, os resultados esperados. E isso não faz sentido, pois a pesquisa se baseia na descoberta. Como você poderia saber o que vai descobrir? A ideia do químico Linus Pauling, um dos maiores químicos do século XX, exemplifica isso muito bem. Perguntaram como ele tinha boas ideias e ele respondeu que tinha várias ideias e descartava as ruins. Esse é um processo tipicamente evolucionista darwiniano: ele tem geração de diversidade (um monte de ideias) e seleção natural (descarta as ruins). Mas como descartar as ruins? A única maneira é por experimentação. E para isso é necessário dinheiro. As agên-

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cias devem estar prontas, assim, para oferecer financiamento para teste de todas as ideias, mesmo que não exista certeza sobre os resultados. Quais as consequências desse modelo criacionista? Ele gera uma ciência de baixa inventividade. Se você já tem que prever o resultado, como ela será inventiva? Existe um astrônomo americano que fala isso em contexto de evolução. Ele diz a evolução por seleção natural é uma filosofia de inteligência e que o criacionismo é uma filosofia de ignorância. Eu acho que isso se aplica à ciência. Para a ciência ser inteligente, ela tem que ser evolutiva. Fiquei satisfeito de ver que algumas agências já estão apostando nisso, financiando projetos de longo prazo, de 11 anos, cujo final pode ser bem diferente do previsto inicialmente. Então não existem grandes obstáculos para que as agências sigam um outro modelo, correto? Correto. As agências, obviamente, lidam com dinheiro público e isso exige uma grande responsabilidade. Ela não pode sair custeando ideias loucas. Por isso, acredito que é importante a agência analisar não só aquela proposta, mas a trajetória do cientista. Ver se é um cientista em que vale a pena apostar porque já demonstrou criatividade no passado. Hoje, as agências olham o projeto atual e não verificam a história pregressa do cientista, não olham o relatório técnico de seu último projeto, não conferem o que ele fez ou deixou de fazer. Elas se baseiam apenas naquele projeto ali e no currículo Lattes, no número de publicações (o que não avalia também a qualidade). É muito importante apostar nos cientistas que já se mostraram talentosos no passado. O senhor comentou em sua fala que um dos problemas da ciência básica, hoje, é a baixa criatividade e inovação. O que poderia ajudar a solucionar tal problema? Uma maneira é a mudança de critérios para avaliação de artigos, o que muda os critérios de ciência. Hoje, no Brasil, todo mundo se queixa de falta de dinhei-

Foto: Charles Damasceno

ro. Mas houve uma grande pulverização de recursos e pessoas que em outros países jamais receberiam dinheiro para pesquisa aqui estão recebendo. As agências têm que exigir qualidade da pesquisa e concentrar um pouco mais os recursos. Elas querem dar um pouquinho para todos, mas existem grupos que precisam de muitos recursos para fazer ciência de alta qualidade para, quem sabe, alcançarmos o sonho do Nobel brasileiro. Além disso, nossa pesquisa tem sido baseada exclusivamente na pósgraduação, em alunos de mestrado e doutorado. Por outro lado, se tivermos mais alunos de pós-doutorado, conseguimos fazer mais pesquisas de risco. É o que se observa nos Estados Unidos e na Europa: pesquisa baseada principalmente em pós-doutorado.Tem uma história interessante que eu vivi, com um novo catedrático de bioquímica da Universidade British Columbia na década de 1980. Ele observou que a qualidade da produção científica do departamento estava ruim. O que fez? Fechou o programa de pós-graduação por um tempo e só contratou pósdoutorandos. Deu certo. Mas o pósdoutorando não pode ser aquele que continua no mesmo laboratório, fazendo a mesma tese. Tem que trocar. O Brasil é um mosaico científico: zonas de alto desenvolvimento, de baixo desenvolvimento... As agências não precisam substituir o modelo atual por um novo, e sim adicionar alternativas novas ao modelo do passado que tem funcionado bem.



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