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Sumário Teatro

Inovação O diretor do Instituto Tecnológico Vale, Luiz Mello, fala sobre os desafios e as vantagens de se investir em inovação dentro das empresas.

Uma peça sobre a vida do cientista italiano Galileu Galilei é ponto de partida para divulgar conhecimentos da física e discutir a relação entre teatro e ciência.

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Lembra dessa?

Nanotubos Grupo investiga aplicações para os nanotubos de carbono, especialmente na confecção de dispositivos eletrônicos e nanocompósitos destinados ao setor aeroespacial brasileiro.

Tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Ufop para medir a radiação no tratamento de icterícia neonatal agora está sendo utilizada para aferir equipamentos de radioterapia. 32

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Edifícios

Proteção radiológica Buscando otimizar o diagnóstico, pesquisadores do CDTN desenvolveram projeto que inclui a avaliação dos serviços de mamografia do Estado e a capacitação de mão de obra.

Metodologia busca estimar a vida útil de estruturas de concreto a partir de ferramentas que detectam patologias típicas de construções.

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Plantas medicinais

Criminalidade

Pesquisadores da Funed comprovam a ação de plantas medicinais contra o rotavírus e a dengue, doenças ainda responsáveis por inúmeras mortes em todo o país.

Estudo desenvolve metodologia estatística voltada para o acompanhamento de eventos de criminalidade, com possibilidade de controle e análise em tempo real.

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Reputação de empresas Pesquisa realiza estudo comparativo entre empresas brasileiras e internacionais em três dimensões: relações de trabalho, responsabilidade social e governança e ética.

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Bactérias Pesquisa da Embrapa Gado de Leite identifica microrganismos no leite e no queijo Minas frescal que podem causar doenças.

23 Contenção de encostas

Plano diretor

Estudo caracteriza os tipos de desmoronamentos nas proximidades de rodovias e propõe técnicas de plantio de determinadas espécies vegetais na contenção de encostas.

26 Inclusão

Com recursos do Amitec, ONG desenvolve uma carteira escolar inclusiva que alia design, inovação e inclusão, facilitando a integração social de crianças com deficiências físicas.

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Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais

40 Protótipo irá disponibilizar, via internet, informações geo-cartográficas para os municípios de Minas Gerais a fim de subsidiar a elaboração do plano diretor municipal com eficiência e baixo custo.

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Cientistas brasileiros Jacob Palis, presidente da Academia Brasileira de Ciências, fala sobre os investimentos em ciência, tecnologia e inovação e o papel das Fundações de Amparo à Pesquisa.

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MINAS FAZ CIÊNCIA tem por finalidade divulgar a produção científica e tecnológica do Estado para a sociedade. A reprodução do seu conteúdo é permitida, desde que citada a fonte.

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Ao leitor

Expediente MINAS FAZ CIÊNCIA Assessora de Comunicação Social e Editora: Vanessa Fagundes (MG-07453/JP) Redação: Vanessa Fagundes, Ariadne Lima (MG09211/JP), Juliana Saragá e Raquel Emanuelle Dores (estagiária) Colaboração: Desiree Antônio, Guilherme Amorim, Letícia Orlandi e Virgínia Fonseca Ilustrações: Beto Paixão Revisão: Aline Bahia Projeto gráfico/Editoração: Fazenda Comunicação & Marketing Montagem e impressão: Lastro Tiragem: 15.000 exemplares Fotos: Beto Oliveira, Marcelo Focado e Fernando Barosa Agradecimentos - Agradecemos a todos os colaboradores desta publicação Redação - Rua Raul Pompeia, 101 - 12.º andar São Pedro - CEP 30330-080 Belo Horizonte - MG - Brasil Telefone: +55 (31) 3280-2105 Fax: +55 (31) 3227-3864 E-mail: revista@fapemig.br Site: http://revista.fapemig.br

Capa: Planta Medicinal Foto: Banco de imagem Nº40 dez. a fev. 2010

GOVERNO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Governador: Aécio Neves SECRETARIA DE ESTADO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR Secretário: Alberto Duque Portugal

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais Presidente: Mario Neto Borges Diretor Científico: José Policarpo G. de Abreu Diretor de Planejamento, Gestão e Finanças: Paulo Kleber Duarte Pereira Conselho Curador: Presidente: Paulo Sérgio Lacerda Beirão Membros: Afonso Henriques Borges Anna Bárbara de Freitas Proietti Evaldo Ferreira Vilela Francisco Sales Horta Giana Marcellini João Francisco de Abreu José Cláudio Junqueira Ribeiro José Luiz Resende Pereira Magno Antônio Patto Ramalho Paulo César Gonçalves de Almeida Rodrigo Corrêa de Oliveira

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Inovação. De acordo com o dicionário, a palavra significa renovar ou introduzir novidade em. E, de acordo com a entrevista desta edição da MINAS FAZ CIÊNCIA, significa também um bom negócio. A inovação é encarada, hoje, como essencial para a competitividade de produtos e de empresas, para o desenvolvimento econômico do estado e do país e para a melhoria da qualidade de vida da população. Mas ainda existem obstáculos a serem superados, entre eles a criação de uma legislação adequada e de uma cultura propícia à inovação. Sobre esse assunto, a jornalista Ariadne Lima conversou com o diretor do Instituto Tecnológico Vale, Luiz Mello. Ele, que durante a maior parte de sua carreira atuou como pesquisador em instituições de ciência e tecnologia, agora se encontra “do outro lado”, trabalhando dentro de uma empresa. Por esse motivo, tem uma visão interessante sobre as desavenças entre academia e indústria, sobre os mecanismos de proteção do conhecimento atualmente vigentes e sobre os riscos e as vantagens de se investir em inovação. Outro destaque é o trabalho de pesquisadores do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN) com nanotubos de carbono. Hoje, Minas Gerais possui um dos maiores grupos de estudiosos com pesquisas focadas nesse tema, fato que culminou na constituição de um Instituto Nacional de Nanomateriais de Carbono. A reportagem do jornalista Guilherme Amorim aborda uma vertente dos trabalhos, que investiga o potencial dos nanotubos de carbono na indústria aeroespacial brasileira. A idéia é utilizar esse material, que se destaca pela resistência, leveza e propriedades condutoras, para substituir estruturas em veículos lançadores de satélite e nos próprios satélites. Na área da saúde, esta edição traz reportagens sobre dois projetos de grande impacto social, ambos desenvolvidos com recursos do Programa de Pesquisa para o SUS – PPSUS. O primeiro deles é um trabalho da Fundação Ezequiel Dias, que investigou a ação de plantas medicinais no combate ao rotavírus e ao vírus da dengue, ainda responsáveis por inúmeras mortes no Brasil. De 20 espécies estudadas, duas apresentaram grande potencial, inibindo completamente a replicação do vírus. Isso abre portas para o desenvolvimento de novos medicamentos. O outro trabalho, também do CDTN, avaliou o serviço de mamografia oferecido em Minas Gerais.Além da verificação dos equipamentos utilizados, foram ministrados treinamentos para os profissionais envolvidos – médicos e técnicos que operam os mamógrafos. Entre 2006 e 2009, a equipe avaliou todos os serviços de mamografia do Estado – cerca de 340 – e treinou mais de 500 pessoas. O trabalho resultou, ainda, em um banco de dados sobre esse serviço, na implantação de novas resoluções pela Vigilância Sanitária e no desenvolvimento de um software que permite a avaliação automática das imagens produzidas pelos aparelhos, eliminando a subjetividade do processo. Não deixe de conferir, também, reportagem sobre uma pesquisa desenvolvida na UFU que avalia patologias típicas de construções. A equipe desenvolveu uma metodologia que, por meio de exames específicos e da retirada de amostras (ou microtestemunhos), determina a vida útil da construção e a durabilidade das armações de concreto. Outro trabalho propõe solução para um problema que já se tornou comum em época de chuvas: o desmoronamento de encostas de rodovias. Pesquisadores da Univale realizaram um estudo que avaliou o tipo de solo e a utilização de determinadas espécies vegetais na contenção das encostas. Entre as mais indicadas estão algumas leguminosas, pelo rápido crescimento e arquitetura adequada. A revista, como você já sabe, não termina por aí. Trazemos muitas outras matérias, que mostram a riqueza e diversidade da produção científica e tecnológica de Minas Gerais. Boa leitura!

Vanessa Fagundes Editora


Cartas

“Sou estudante do Curso de Biomedicina (Unifenas) em Belo Horizonte. Conheci a revista MINAS FAZ CIÊNCIA e fiquei encantada com o teor das matérias. Parabenizo a todos pela publicação. Fiz meu cadastro e espero receber em casa os próximos exemplares. Desde já agradeço.” Maria Clara Monteiro Vieira Maciel Estudante / Unifenas Belo Horizonte/MG Publicação trimestral da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais - FAPEMIG nº 39 - set. a nov. 2009 MINAS FAZ CIÊNCIA informa que as cartas enviadas à Redação podem ou não ser publicadas e, ainda, que se reserva o direito de editá-las, buscando não alterar o teor e preservar a ideia geral do texto.

“Tive a oportunidade de conhecer a revista MINAS FAZ CIÊNCIA e fiquei interessada em recebê-la gratuitamente, uma vez que a publicação traz assuntos atuais e de extrema importância principalmente para mim, que ainda não ingressei em uma universidade. Por isso, necessito a cada dia de mais conhecimentos, pois a luta pela conquista de uma vaga em uma universidade pública é muito difícil.” Bárbara Alves Gandra Estudante Montes Claros/MG “Recentemente, tive a felicidade de conhecer e ler pela primeira vez a revista MINAS FAZ CIÊNCIA. Quero parabenizar todos os profissionais envolvidos na produção da revista pela excelente qualidade da mesma. Aproveito a oportunidade para solicitar, se possível, o recebimento das edições futuras.” Luciana de Paula Naves Bióloga Lavras/MG

“Olá, pessoal da revista MINAS FAZ CIÊNCIA. Em primeiro lugar, agradeço a atenção pelo envio dos exemplares de 2008, pois havia feito a inscrição e não havia recebido nenhum exemplar. Em segundo, gostaria de saber se é possível conseguir os números anteriores das revistas já publicadas, pois para mim, como pesquisador iniciante, é de grande valia ter revistas que demonstrem as pesquisas de outros estados, inclusive para contatos profissionais.” Gilmar Oliveira Silva Senhor do Bonfim /BA Resposta: Caro Gilmar, as edições anteriores da revista MINAS FAZ CIÊNCIA estão esgotadas. Mas é possível acessar todas as matérias já publicadas, na íntegra, no nosso site: http://revista.fapemig.br. Confira e boa leitura! “Gostaria de receber a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, li e achei muito interessante e vai me ajudar em muitas dúvidas e curiosidades que tenho no dia a dia.” Laissa Brandão Pedroso Pedagoga Belo Horizonte/MG “Trabalho no Incra-MG e acabei de conhecer a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, pela qual me interessei muito.Gostaria, se possível for, de receber os números anteriores e também os próximos a serem publicados.” Rogério Carvalho de Castro. Engenheiro agrônomo/Incra Minas Gerais

“Parabenizo pela excelente publicação. Sou Defensor Público da União e me interesso muito pela literatura científica e tecnológica, por isso que lhe peço fazer constar o meu nome como assinante desse veículo, aliás muito bem confeccionado e elaborado.” Adhemar Marcondes de Moura Defensor Público Valparaíso de Goiás/GO “Primeiramente gostaria de parabenizar pela publicação. Conheci a revista MINAS FAZ CIÊNCIA através da biblioteca da Faculdade UNA, pelo exemplar de número 32. Fiquei maravilhado com a qualidade da revista. Caso seja possível gostaria de receber as próximas publicações.” Leonardo J. Gallo Estudante/UNA Belo Horizonte/MG “Gostaria de agradecer pelos exemplares enviados e parabenizá-los por esta iniciativa, que nos mantêm informados de todos projetos científicos que acontecem em Minas Gerais.” Rodrigo da Silva Evangelista Estudante de Química Divinópolis /MG “Sou artista plástica e ganhei de um amigo a revista de nº 30 por ser ceramista. Gostei muito da matéria sobre tintas ecológicas. Gostaria de receber a revista em minha casa.” Marilene Castanha Ceramista “Conheci a MINAS FAZ CIÊNCIA através de uma palestra em minha turma de faculdade, proferida pela editora da revista,Vanessa Fagundes, que falou sobre o tema Jornalismo Científico. Gostaria muito de receber a publicação em minha casa.” Suelen Régia dos Santos Ogando Estudante de jornalismo Belo Horizonte/MG

Para receber gratuitamente a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, preencha o cadastro no site http://revista.fapemig.br ou envie seus dados (nome, profissão, instituição/empresa, endereço completo, telefone, fax e e-mail) para o e-mail: revista@fapemig.br ou para o seguinte endereço: FAPEMIG / Revista MINAS FAZ CIÊNCIA - Rua Raul Pompéia, 101 - 12.º andar - Bairro São Pedro - Belo Horizonte/MG - Brasil - CEP 30330-080 MINAS FAZ CIÊNCIA - DEZ. A FEV. / 2010

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Entrevista

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assinou com a Vale um acordo que prevê R$ 40 milhões, a serem disponibilizados no prazo de três anos. O primeiro edital da parceria FAPEMIG-Vale foi lançado este ano e recebe inscrições até 23 de junho. Além de Minas Gerais, a iniciativa inclui parcerias com as Fundações de Amparo à Pesquisa dos Estados de São Paulo (Fapesp) e Pará (Fapespa). Ao todo, serão destinados R$120 milhões às propostas aprovadas, sendo R$40 milhões aplicados somente em Minas Gerais (R$20 milhões da FAPEMIG e R$20 milhões da Vale). Em 21 de maio, um Seminário Técnico, realizado em Belo Horizonte, reuniu pesquisadores e empresários interessados em concorrer ao edital, a fim de esclarecer dúvidas e melhor direcionar as propostas. Após o encontro, o diretor do Instituto Tecnológico Vale (ITV), Luiz Mello, conversou com a MINAS FAZ CIÊNCIA e falou sobre os principais desafios e vantagens de se praticar a inovação nas empresas.

Luiz Mello é médico, formado em 1982 pela Escola Paulista de Medicina, hoje Unifesp, mestre e doutor em Biologia Molecular pela mesma instituição e pós-doutor em neurofisiologia pela Universidade da Califórnia (UCLA). Chegou à área de mineração, assumindo a direção do ITV, em fevereiro de 2009. Mello também passou pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico eTecnológico (CNPq), onde dirigiu o Comitê de Fisiolo-

gia, Farmacologia, Biofísica e Bioquímica, e foi coordenador adjunto da diretoria científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). “Agora, entrando na empresa, tento separar o fosso enorme que separa esses elementos e fazer com que alcancemos um modelo de sucesso para que essa parceria contribua para o desenvolvimento desses setores”, diz o pesquisador. Confira a entrevista.

Foto: Ariadne Lima

Inovação é sem dúvida uma das palavras do momento. A aproximação entre Ciência e Tecnologia (C&T) e o ambiente empresarial, no entanto, ainda é um processo que precisa vencer obstáculos. Nesse contexto, a aliança entre instituições governamentais e empresas é fundamental. Em Minas Gerais, a FAPEMIG tem investido nessas parcerias e realizado ações que objetivam promover a aproximação entre pesquisadores e empresários. R$ 135 milhões é o que a Fundação investiu no setor empresarial, de 2001 a 2009, por meio de programas e ações especiais. No ano passado, a política de aproximação com a indústria tornou-se ainda mais intensa. Foi em 2009 que a FAPEMIG lançou um edital em parceria com a FPT, do grupo Fiat, no valor de R$ 1,1 milhão e outro com a Whirlpool, no valor de R$ 2 milhões. Foi o primeiro edital de uma parceria que prevê a destinação de R$ 10 milhões, ao longo de cinco anos. No mesmo modelo, a Fundação

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me refiro como criação de uma cultura: um ambiente que seja permissivo e no qual o “como fazer as coisas acontecerem” seja compartilhado. Gosto de citar um exemplo: em 1999, depositei uma patente no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), autarquia federal brasileira responsável pelo registro de marcas, depósitos de patentes, entre outras questões relativas à propriedade intelectual. Tive uma dificuldade enorme em redigir essa patente. Eu sabia redigir um artigo científico, sabia orientar teses, mas nunca tinha escrito uma patente. Busquei a ajuda do Inpi e mesmo o Instituto tinha menos experiência em patentes na área em que eu estava trabalhando. Quando você é um pioneiro, está fazendo uma coisa que poucos antes de você fizeram, nesse caso uma patente na área biológica, você enfrenta as dificuldades de estar desbravando um caminho. Mas, por outro lado, ao fazer isso, você estabelece a trilha. É quase uma obrigação mostrar aos outros um caminho possível, que não é o único, mas é uma alternativa para as coisas começarem a acontecer. Qual o perfil de uma empresa inovadora? A empresa precisa ter uma cultura inovadora. A inovação acontece em vários níveis. Existe inovação em gestão, por exemplo. O Brasil é muito bom nisso. A globalização das nossas empresas acontece porque elas têm uma gestão muito boa e também flexibilidade. Isso em todos os casos recentes de sucesso, que são vários nos últimos anos: no setor de alimentação, no setor aeronáutico, no setor de mineração, no setor de engenharia. São empresas que têm atuação globalizada porque têm gestão muito eficiente, com padrões globais. A inovação de base tecnológica também é importante para o sucesso das nossas empresas e requer um grupo com capacidade de absorver. Se eu não tiver engenheiros e técnicos especialistas que consigam aplicar o que está despontando lá fora, pode haver a produção que for em outros países que não vou conseguir incorporá-la aqui. De qualquer forma, não basta incorporar o que há de novo lá fora. É importante desenvolvermos interna-

Foto: Ariadne Lima

Recentemente, uma pesquisa realizada pela Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação, Software e Internet de Minas Gerais (Assespro), com financiamento da FAPEMIG, voltada para o setor de Tecnologia da Informação (TI), revelou o atual quadro de inovação nas empresas do ramo em Minas Gerais. Alguns dados interessantes foram apresentados. A pesquisa revelou, por exemplo, que 58,1% do crescimento das empresas é explicado pelo investimento em P&D. Por outro lado, a maior parte das empresas entrevistadas investe apenas 5% em pesquisa. Na sua opinião, o que é preciso para que as empresas percebam a importância da P&D para seu crescimento? Eu diria que é a criação de um ambiente, de uma cultura. Certamente, o investimento em P&D é um investimento de risco. Não há garantia, à priori, de que as coisas vão funcionar e vão dar certo, mas há a possibilidade de que você saia com uma coisa nova, além do que tinha em mente no começo. Eu costumo usar como exemplo a situação que era marcante em Governador Valadares (MG). Havia um grande número de pessoas que migravam dessa cidade para os Estados Unidos. E por que de Governador Valadares e não de outros lugares? Porque provavelmente existiu um pioneiro que foi para lá, fez o caminho, deu certo e inspirou outras pessoas. Ele criou uma cultura, foi um modelo. Como um modelo, o que parece faltar no país é esse ambiente. É essa história de “caminho das pedras”. É preciso ensinar aos outros como as coisas podem acontecer. Uma das vantagens de se montar, por exemplo, um parque de C&T ou uma incubadora de empresas é que isso possibilita que quem já tem experiência a passe adiante e as coisas cresçam. Haverá replicação desse modelo quando as empresas que estão inovando e investindo em P&D tiverem apresentado o sistema à imprensa ou mostrado aos seus pares que isso funciona, que é o caminho do futuro. Os outros naturalmente vão querer seguir o caminho que parece ser promissor. É a isso que

mente também. Além de incorporar o que há de excelência no exterior, estar sempre antenado e buscando as novas tendências, é preciso ter uma cultura de desenvolvimento interno. Muitas ideias e iniciativas surgem internamente e podem constituir inovação. A empresa precisa ter canais de comunicação com os seus funcionários. É o funcionário que está no dia a dia, vendo os problemas de operação. Ele pode ter soluções brilhantes, de aplicação imediata, de baixo custo e que tenha um ganho enorme para a empresa.A empresa tem que ter programas para estimular as iniciativas internas e fazer com que elas se tornem uma inovação. Há também a inovação que nasce fora da empresa, por meio de iniciativas como a chamada que a Vale está lançando com as FAPs e as parcerias com outros grupos, universidades e empresas. O senhor citou que a inovação oferece riscos para a empresa. Quais riscos seriam esses? Você está investindo dinheiro que não tem certeza se vai voltar. Se, por exemplo, eu investir em uma operação, em uma mina, em um trilho de trem, no salário de um novo funcionário ou em uma máquina de beneficiamento, eu tenho certeza de que aquilo vai gerar mais produção. É um investimento


certo. O investimento em pesquisa, por sua vez, pode não dar certo. Pode ser que, no final de todo o estudo, concluase que ele é inviável economicamente. Nesse caso, na verdade, fechou-se uma porta. Isso significa que aquele processo, aquela rota tecnológica, não funciona. Então, em vez de tentar desenvolvê-la em larga escala e ver que não funciona, é preciso tentá-la em escala pequena. Se não deu certo, eu a abandono e testo uma variante, uma alternativa que talvez tenha mais chances de sucesso e que se demonstre viável econômica e tecnologicamente. Não há garantia de sucesso, é um risco. É quase equivalente à prospecção e exploração mineral. Quando qualquer empresa tem minério embaixo do chão, é preciso fazer um furo. Esse furo pode ou não encontrar minério. Há várias evidências que sugerem as chances de se encontrar o minério: a formação geológica, a conformação em várias outras regiões, algumas medidas, a existência de depósitos em áreas vizinhas... mas nenhum deles é garantia de que ali, exatamente na área em que se está prospectando, será encontrada alguma coisa. Tendo por base suas experiências, como o senhor descreveria a relação entre inovação e crescimento da empresa em questões como produção, faturamento e redução de custos? É muito fácil demonstrar que uma inovação de gestão, de produto ou de processo contribuiu para uma economia ou melhoria de eficiência. É possível demonstrar isso numericamente. Podemos, por exemplo, comprovar que um depósito mineral não poderia ter sido explorado se a nova tecnologia não tivesse sido construída. É possível estabelecer parâmetros numéricos para demonstrar o retorno do investimento. Esse é um esforço que precisa estar sempre presente porque, afinal, você precisa balizar: “Quanto vou investir? R$1 milhão, R$10 milhões, R$100 milhões, R$1 bilhão? Quanto é razoável investir?” É preciso fazer essas contas antes. É preciso saber, por exemplo, do montante de recursos disponível, quanto será investido em quê. O cenário razoável é aquele em que se coloca mais

dinheiro hoje, no que você tem certeza; um pouco menos naquilo que você sabe que vai te trazer retorno em médio prazo e tem risco intermediário; e menos ainda no que é de longo prazo e tem um risco maior. Digamos que esse longo prazo e maior risco seja um limitante central. Por exemplo, se uma jazida está se esgotando e, a partir dali, tenha-se um único minério e não haja nada para fazer com ele, é preciso mudar de negócio ou descobrir uma técnica para trabalhar esse minério. Isso existe. Nesse caso, por mais arriscado que seja, justifica-se o investimento de longo prazo porque a questão é: ou eu tenho um investimento de longo prazo e tento uma solução nova ou fico fora do negócio. Essas contas e ponderações precisam ser feitas o tempo inteiro para que se saiba em que vale a pena arriscar muito, porque o prêmio é alto, ou em que vale a pena arriscar pouco, porque a incerteza é maior. Como o senhor acha que o cliente pode ser envolvido nos processos de inovação? Acho que é importante envolvermos não só o cliente, como também o fornecedor.A Vale, por exemplo, trabalha o envolvimento do cliente o tempo todo, até porque ela quer ter o melhor produto para entregar para o cliente. Isso é feito por outras áreas de inovação dentro da empresa, de P&D. Quando a Vale entrega o minério de ferro para uma siderúrgica, ela quer entregar o minério que tem a melhor especificação. Minério de ferro não é sempre igual. Minério que a gente tira na mina de Brucutu não é igual ao que a gente tira em Itabira, em Conceição ou em Carajás. Para nós, é importante que o cliente receba o produto mais adequado para as suas necessidades. É preciso trabalhar isso, tentando entender quais as necessidades dele e especificar o produto de acordo com o que ele precisa. É uma questão de mercado. Além disso, é importante que a empresa entenda que ela tem uma rede de fornecedores e que esses fornecedores têm interesse em continuar sendo fornecedores. É o sentido inverso. Se esses fornecedores não têm esse olhar inovador, a empresa deveria estimulá-lo. A Vale compra um monte de coisa. Bilhões de reais por ano. Com cada um desses

fornecedores, ela tem que buscar trabalhar intimamente para poder falar: olha, o produto que você está me entregando não está na especificação que eu quero. Se você precisa fazer pesquisas para isso, vamos trabalhar de forma compartilhada. O senhor tocou na questão das patentes. Na sua opinião, quais os pontos positivos e os gargalos dos atuais mecanismos de proteção intelectual? No Brasil, hoje, temos leis que são muito particulares, temos leis que se assemelham às de outros países e que, por outro lado, são diferentes de tantos outros países. Há algumas questões que facilitam. Temos uma dimensão pública, uma dimensão social, uma dimensão privada. Quando olhamos para produtos médicos, vemos que o Brasil quebrou patentes de antiretrovirais. Isso é muito importante porque estamos falando de saúde humana, de pessoas que não teriam poder aquisitivo para comprar essas drogas. Muitas delas, inclusive, são compradas pelo próprio governo e distribuídas para quem precisa da medicação. Por outro lado, houve o investimento feito pela indústria. A indústria talvez não se sinta motivada a investir se ela não tem garantia do retorno, mas, o governo, por sua vez, questiona o tamanho do retorno que a indústria quer. É uma disputa que se estabelece no mundo todo. Para o Brasil, que é um país que tem grande parte das patentes no exterior, eu diria que é uma situação de vulnerabilidade. Afinal, o poder aquisitivo da nossa população é menor e temos uma

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relação que não é a que gostaríamos com as empresas estrangeiras. É um quadro complexo. Temos que tentar entender sempre o lado da sociedade e o lado empresarial. No Brasil, temos uma situação híbrida. Para a Vale, a questão da propriedade intelectual não é delicada, trabalhamos em uma situação de conforto, semelhante a parâmetros do resto do mundo. Os parâmetros de proteção intelectual são relevantes para nossas operações, novos processos, novas formas de desenvolvermos qualquer atividade. O Brasil tem uma cultura muito aquém da cultura do resto do mundo em termos dessas inovações. O número de patentes depositadas pelo país no exterior ainda é muito baixo em comparação com países que gostaríamos de alcançar. Temos que crescer muito nos investimentos em P&D para alcançarmos esses patamares. As indústrias no Brasil que são mais fortes, por exemplo, a indústria de extração de óleo e gás e a indústria de extração mineral, não são indústrias que se notabilizam por muitos depósitos de patentes no país e no mundo. As grandes empresas patenteadoras estão em outras áreas da indústria: eletrônica, farmacêutica, tecnologia da informação. E mesmo nessas áreas nossas empresas estão em outro patamar de desenvolvimento. Temos muito potencial, mas certamente não estamos no primeiro nível de competição mundial. É uma questão menos crítica para a Vale, mas muito crítica para outras empresas. É crítica para a Vale, quando ela limita as nossas ações. Por exemplo, se vamos fazer um novo processo e a patente está nas mãos de outra empresa, precisamos negociar, trabalhar e, por isso, buscamos ter uma área de propriedade intelectual forte. Quais as principais expectativas com relação a parcerias com agências estaduais de fomento a pesquisas, como a recém-estabelecida com as Fundações de Amparo à Pesquisa dos Estados de Minas Gerais, São Paulo e Pará? Estamos entrando nisso de peito aberto. É evidente que estamos trabalhando com a FAPEMIG, que é uma

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instituição de excelente qualidade. Os projetos contratados terão mesma excelência e qualidade do sistema mineiro de C&T. Temos alguma expectativa porque conhecemos as áreas fortes em Minas Gerais, mas gostaríamos de ser surpreendidos por grupos que não conhecemos, por projetos que não imaginávamos que estavam sendo construídos. É difícil acreditar que um grupo vai fazer uma proposta naquilo em que ele não seja bom. Ele vai propor algo naquilo em que ele tem competência. A Vale não tem um mapeamento exaustivo e completo de todas as competências em Minas Gerais. Esse edital vai nos permitir ter esse mapeamento vindo do próprio proponente. É ele que vai falar: sou

Na universidade, nas décadas de 1960 e 1970, falar de uma relação com a empresa era quase pecado para excomunhão. Hoje, isso é visto como uma possibilidade importante. bom nisso, acho que essa proposta é interessante e relevante. Então, vamos avaliar, os técnicos da FAPEMIG e os da Vale, para tentarmos aproximar os interesses das três partes. Qual a melhor forma de adaptar a realidade da pesquisa acadêmica às necessidades empresariais? Eu diria que esse tipo de chamada (Vale-FAPs) é uma delas. Tem um outro tipo, as chamadas dirigidas, em que se colocam perguntas específicas e é possível ver quem pode prover soluções para elas. Existem algumas possibilidades de se desenvolver uma colaboração. É evidente que a universidade tem uma dinâmica própria, uma velocidade de resposta e um objetivo central, que é a produção de recursos humanos. Mas, ao cumprir esse objeti-

vo, ela também desenvolve pesquisas e é tido como verdade que ensino e pesquisa são indissociáveis. Nesse caso, se a pesquisa está vinculada à atividade de ensino, de um lado, ela pode ser ruim para empresa, por ser mais lenta e demorada, mas, por outro, pode ser benéfica, porque produz recursos humanos mais qualificados. Temos que trabalhar o que é a pesquisa puramente acadêmica e o que é a pesquisa industrial. Algumas são 100% cabíveis na universidade, algumas são 100% cabíveis na empresa e outras estão entre as duas. Temos que tentar construir a melhor forma de produzir isso, estar entre as duas, não sendo objeto central nem na empresa nem na universidade. E, por ser um objeto acessório, também precisamos trabalhar para que ele ganhe prioridade. O senhor é pesquisador, viveu na área acadêmica e hoje está na empresa. Como alguém que esteve nos dois lados, o senhor acha que a dificuldade de diálogo entre academia e empresa é mito ou realidade? Não é mito. Ele é complicado porque cada um olha para o seu interesse. Eu tenho meus problemas na universidade para resolver, tenho meus problemas na empresa para resolver e os objetivos de um não são os objetivos de outro. A questão é construir essas pontes e tentar fazer que essa relação seja destituída de preconceitos, mitos e inverdades. Em parte, a empresa olha para a universidade e fala: “a universidade é muito lenta, não trabalha na velocidade que eu preciso”. Do outro lado, a universidade olha para a empresa e fala: “a empresa é míope, só tem objetivos de curto prazo, não trabalha com possibilidades de longo prazo”. A universidade falava assim: “a universidade é só para formar alunos e produzir pesquisa básica; pesquisa aplicada não tem que ser feita na universidade e o dinheiro da empresa é sujo”. Na universidade, nas décadas de 1960 e 1970, falar de uma relação com a empresa era quase pecado para excomunhão. Hoje, isso é visto como uma possibilidade importante.


ceitos. No meio acadêmico, as pessoas me enxergam como um sujeito puro, limpo, certinho, porque é de fato como eu levei a minha vida até entrar na empresa e continuo levando minha vida desse jeito. Não é porque entrei na empresa que mudei. Meus pares na universidade me enxergam como uma pessoa de princípios e eu continuo assim. Adquiri, inclusive, outros valores, que são valores que estão presentes na empresa e que não são tão importantes na universidade. Acho que esses dois atores estiveram distantes durante muito tempo. O meio governamental, traduzido pelas fundações de apoio, os órgãos de fomento, tem tido várias iniciativas para buscar aproximar esses lados. Algumas delas ainda são muito custosas. A lei do bem está muito longe de funcionar como a gente gostaria.Vários incentivos à inovação ainda são muito burocratizados, o país como um todo é muito burocratizado, você precisa ter um grau de detalhamento, de papéis, o que afasta as empresas e ainda é tido como um risco, visto como inaceitável em algumas situações. Temos que caminhar para eliminar esses entraves, eliminar esses preconceitos, de ambas as partes. Vivemos um momento em que o Brasil tem tido destaque no cenário sócio-econômico mundial.

O senhor acha que isso pode influenciar os investimentos em inovação? Acho que sim. As empresas do exterior enxergam méritos aqui. Temos vários editais de empresas estrangeiras que vêm e colocam dinheiro no Brasil, para projetos com pesquisadores daqui, porque eles entendem que há uma base de C&T instalada no país. Acho que o país só está se tornando uma potência em razão dessa base. Só plantamos soja no cerrado porque temos uma Embrapa. Só temos sucesso em nossa pecuária porque temos várias organizações, além da Embrapa. A Embraer só surgiu porque existia o ITA. A própria Vale surgiu porque existiam a Universidade Federal de Ouro Preto, a Universidade Federal de Minas Gerais e tantas outras instituições. Nada surge no vácuo. Essas coisas têm uma base que começa onde o conhecimento foi produzido. Conseguir extrair benefícios onde o crescimento já está consolidado é de maior interesse da empresa e de interesse também da comunidade. Se a empresa cresce, ela tem mais dinheiro para investir. Se uma parte desse investimento acontece na comunidade, a comunidade também cresce. É um ciclo virtuoso. Ariadne Lima Foto: Angelo Paulino

Existe um caso recente, de uma universidade importante no Brasil, em que um grande doador resolveu dar recursos para que se construísse uma nova sala, que levaria o seu nome. O fato gerou grande polêmica, com protestos sobre a privatização do ambiente acadêmico. O interessante é que isso acontece nos Estados Unidos com frequência, nas melhores instituições: em Harvard, no MIT. Onde haja uma boa instituição, encontram-se doadores, beneméritos, que contribuem para o crescimento da universidade. Isso é raro no Brasil porque aqui as leis de tributação não incentivam essa iniciativa e porque muitas vezes existe uma restrição da universidade. Muitos veem a placa de uma empresa como propaganda, olham como se fosse um pecado, uma heresia. Acham que a universidade tem que ser pura, imaculada, que o dinheiro da empresa é um dinheiro sujo. Eu diria que não há nada mais longe da verdade. Afinal de contas, a universidade está lá, claro, para atender os seus interesses, mas, ao fazer isso, ela contribui para seu próprio crescimento. A gente precisa trabalhar para reduzir esse preconceito. O fato de eu vir da universidade, ter uma trajetória acadêmica e estar na empresa hoje talvez contribua. Talvez eu seja um embaixador que contribui para dissipar esses mitos e precon-

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Nanotecnologia

Tecnologia brasileira no espaรงo Pesquisa aponta possibilidades de uso dos nanotubos de carbono no setor aeroespacial

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Foto: Marcelo Focado

Tecido de fibra de carbono utilizado em compósitos na área aeroespacial. A equipe testa a introdução dos nanotubos para melhorar a condutividade do material, preservando sua leveza

da tecnologia. Isso porque os nanotubos de carbono estão entre os nanomateriais mais promissores devido à sua versatilidade e utilidade, não só em dispositivos eletrônicos, mas também em compósitos, sensores, dispositivos eletromecânicos, emissores de elétrons, entre outros exemplos. “Os nanotubos de carbono são considerados os materiais com maior resistência à tração específica. Além de serem muito leves, possuem elétrons desemparelhados em sua camada, o que permite condução de eletricidade”, explica a pesquisadora do Centro de Desenvolvimento de Tecnologia Nuclear (CDTN), Clascídia Furtado. Ela destaca as propriedades do material, que tem capacidade de condução tanto elétrica quanto térmica. Como

parte de materiais compósitos (ou seja, materiais com combinações ou novas propriedades obtidas pela mistura de dois ou mais tipos diferentes de materiais), o efeito de transferência das propriedades dos nanotubos ao material final é promissor. “Os nanotubos são interessantes como reforço em materiais compósitos, pois multiplicam as propriedades mecânicas e, principalmente, condutoras de outros materiais”, observa. Em geral, os nanotubos de carbono são estruturas cilíndricas, formadas apenas por átomos de carbono, com diâmetro e comprimentos bem reduzidos. Suas propriedades (mecânicas, eletrônicas, catalíticas, etc.) dependem de como eles são produzidos. Como a ligação entre átomos de carbono é conFoto: Marcelo Focado

Imagine receber uma caixa de presente. Ao abri-la, mais uma caixa. Dentro, outra. E assim por diante, até chegar ao limite, à menor parte dessa estrutura física perceptível aos olhos humanos. Pois essa brincadeira, aparentemente com um final conhecido, dificilmente terminaria na menor caixinha “possível”, se imaginássemos o processo sob o olhar da nanociência. O estudo das moléculas, suas propriedades, dimensões e seus limites tem progredido de tal forma que, se antes o átomo era a fronteira final, hoje, já há milhares de “caixas” dentro dele, estruturas que ultrapassam os limites microscópicos e que têm despertado cada vez mais a curiosidade dentro do universo científico (e também fora dele). Reduzir o tamanho de estruturas e dispositivos e trabalhar de forma controlada com proporções na escala nanométrica, ampliando cada vez mais suas propriedades e funções, são os princípios da nanotecnologia. Os produtos eletrônicos talvez sejam, atualmente, o exemplo mais prático para se entender como o avanço das técnicas e dessa ciência tem interferido na realidade que nos cerca. Os computadores, por exemplo, estão cada vez menores, assim como seus componentes. As baterias, por sua vez, duram cada vez mais. Mas como explicar a aparente controvérsia de que, quanto menores ficam tais estruturas eletrônicas, maiores as suas propriedades de armazenamento, resistência e possibilidades de aplicação? A resposta está no estudo e desenvolvimento de novas estruturas, que assumem novas propriedades ou maior desempenho. Em outras palavras, está no controle cada vez maior dos materiais dentro da escala molecular.

Nanotubos de carbono

O avanço do conhecimento nas áreas de nanociência e nanotecnologia tem gerado novas descobertas, produtos e caminhos para ampliar a qualidade das estruturas e suas possibilidades de utilização. Fruto dessa busca, os nanotubos de carbono já são apontados, por alguns pesquisadores, como os protagonistas de uma nova revolução

O material se destaca por suas propriedades de condução, tanto elétrica quanto térmica. MINAS FAZ CIÊNCIA - DEZ. A FEV. / 2010

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Foto: Marcelo Focado

Clascídia Furtado e equipe de pesquisadores do CDTN: no setor aeroespacial, os nanotubos de carbono podem originar materiais mais resistentes e leves para aeronaves, além de garantir alto desempenho, confiabilidade e resistência à corrosão.

siderada a mais forte da natureza e por serem estruturas ocas, os nanotubos de carbono se apresentam como material de alta resistência, flexibilidade e elasticidade.Além de serem estirados, podem ser torcidos e dobrados, sem risco de rompimento, se comparados às fibras de carbono. Por tudo isso, é considerado um “super fio” ou “fio perfeito”. Minas Gerais abriga a maioria dos grupos do país focados no estudo e desenvolvimento de tecnologia com os nanotubos de carbono. Por exemplo, no Departamento de Física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) há uma equipe considerada referência mundial em estudos de propriedades ópticas. Existem, ainda, grupos pioneiros em investigações experimentais e teóricas desse material. Em 2000, os pesquisadores mineiros obtiveram a primeira evolução no que diz respeito à pesquisa aplicada com nanotubos de carbono no Brasil: a sua síntese em escala de laboratório. A MINAS FAZ CIÊNCIA publicou uma reportagem sobre o tema em sua edição nº 22. A partir da síntese do material no país, as pesquisas puderam ser ampliadas, pois ficou mais fácil obter a matéria-prima para os estudos. Hoje, a equipe do CDTN desenvolve pesquisas que nasceram de uma

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demanda da Agência Espacial Brasileira (AEB), dentro do Programa Uniespaço, criado para identificar, no país, grupos, universidades e centros de pesquisa que tivessem competência para trabalhar e desenvolver tecnologias estratégicas de interesse da área espacial. Os nanotubos de carbono estão entre elas. “Como são tecnologias de ponta, de fronteira, sua importação não é fácil, o que obriga cada país a desenvolver suas próprias tecnologias”, destaca. Segundo a pesquisadora, já existem registros de avanços significativos, a partir do uso dos nanotubos de carbono, relacionados às propriedades de dissipação de carga eletrostática e de proteção contra efeitos de interferência magnética. Os grupos, agora, buscam desenvolver técnicas para garantir ganhos em propriedades mecânicas e de condução térmica. “No CDTN, estamos pesquisando as melhores formas para introduzir os nanotubos na matriz e processar o material compósito.Além disso, buscase produzir amostras de nanoestruturas de carbono com alto controle composicional”, aponta Furtado.

No espaço

O grupo do CDTN direcionou os trabalhos para o processamento químico e a confecção de nanocompósitos,

conforme a demanda do setor aeroespacial brasileiro. O doutorando Kássio Lacerda passou cinco anos estudando a modificação química das paredes dos nanotubos para incorporação em resina epóxi, a preparação de filmes de nanotubos e as propriedades mecânicas de compósitos confeccionados com esses materiais. Segundo ele, a proposta é garantir rigidez estrutural em veículos espaciais e aeronaves, aliando resistência e leveza, características que o material compósito poderá permitir. Clascídia lembra que, em veículos lançadores de satélite e nos próprios satélites, a estrutura é feita de alumínio e as soluções metálicas ainda são as mais utilizadas. “A ideia, com os compósitos de nanotubos, é substituir as estruturas já existentes por outras mais leves, porém sem perder as propriedades mecânicas e condutoras”, enfatiza. “Economizando em massa (peso), os satélites que levam materiais para o espaço poderiam reduzir combustível e custos de operação, além de transportar uma carga útil muito maior”. Nesse contexto, o nanotubo de carbono, aplicado em um sistema compósito, poderia ser aproveitado em partes específicas de veículos espaciais brasileiros, garantindo alto desempenho, resistência à corrosão e ao


desgaste e mantendo o alto grau de confiabilidade. Dentro do Programa Uniespaço, o grupo do CDTN possui parceria com uma empresa de São José dos Campos (SP) especializada no desenvolvimento de protótipos e fabricação de componentes e equipamentos industriais em materiais compósitos para emprego aeroespacial. “Mas como ainda não chegamos à confecção de um protótipo, a parceria com o setor empresarial precisa ser reforçada na continuação do projeto”, diz a coordenadora.“Agora, precisamos otimizar a preparação dos materiais, testar outras funções e melhorar o processamento em escala laboratorial, para, então, verificar se os Foto: Marcelo Focado

Foto: Marcelo Focado

A equipe também testa outras aplicações para os nanotubos de carbono, como em painéis solares e na composição de biossensores

resultados são reprodutíveis e se isso poderá ser produzido em uma escala maior”, pontua.

Outras aplicações

Durante as pesquisas para obtenção de nanotubos de carbono mais puros e com atributos favoráveis à sua manipulação química, o grupo desenvolveu alguns caminhos para a utilização do produto gerado. Em colaboração com a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), por exemplo, estudos sobre a aplicação em dispositivos fotovoltaicos (painéis solares) estão sendo desenvolvidos. Já na Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ), os nanotubos modificados estão sendo testados como biossensores enzimáticos para determinação de contaminantes em formulações farmacológicas. Tão logo sejam alcançados os resultados, muitos setores poderão valer-se da tecnologia para aprimorar seus serviços. “Já existem, no mercado, produtos que trazem incorporada a tecnologia do nanotubo de carbono”, destaca Clascídia. “Raquetes de tênis, tacos de golfe e aros de bicicletas são alguns exemplos e já mostram que é possível manter resistência, mesmo com um produto final mais leve”, avalia. De acordo com Furtado, os nanotubos têm potencial aplicação como reforço estrutural em qualquer outro setor (o nuclear, por exemplo), além de revestimento adesivo pontual em tubulações (que sofrem grande pressão). Baterias com maior vida útil e que precisem de menor tempo de recarga, computadores e materiais eletrônicos são outros exemplos. Hoje, a tecnologia ainda é cara porque a produção de nanotubos é limitada. Para se ter uma ideia, o preço de um grama de nanotubos de carbono pode variar de US$ 20 a US$ 2 mil, a depender do nível de pureza. No entanto, é certo dizer que com o aumento da produção o material se tornará mais acessível. Em 2008, os pesquisadores de Minas Gerais que trabalham com o tema e também dos estados Bahia, Maranhão, Pará, Paraná, Rio de Janeiro, Rio

Grande do Sul e São Paulo se juntaram para formar o Instituto Nacional de Nanomateriais de Carbono. A iniciativa se insere dentro do programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT), do Ministério da Ciência e Tecnologia. O INCT é coordenado pelo professor Marcos Pimenta, do Departamento de Física da UFMG. “Há, ainda, um grande esforço para a criação do Centro de Tecnologia em Nanotubos em Minas Gerais. Os objetivos do Centro seriam, inicialmente, a produção de nanotubos em maior escala e o investimento no desenvolvimento de materiais compósitos e em estudos de segurança/toxicologia”, finaliza Furtado.

História Os nanotubos de carbono integram uma linha de pesquisa recente da nanotecnologia. Foi no início da década de 1990, no Japão, que cientistas conseguiram, pela primeira vez, sintetizar em laboratório cilindros nanoscópicos de átomos de carbono, com diâmetro aproximado de um nanômetro, ou seja, um bilionésimo do metro. Para se ter uma ideia dessa dimensão, um fio de cabelo tem aproximadamente 50 mil nanômetros. Esses nanotubos revelaram, na época, algumas propriedades peculiares, como a extrema resistência à tração (20 vezes mais fortes que o aço), leveza e promissoras propriedades eletrônicas, podendo ser metálicos (condutores de eletricidade) ou semicondutores, dependendo da forma como os átomos estão dispostos. Guilherme Amorim Projeto: “Processamento pós-síntese de nanotubos de carbono para fabricação de compósitos para os setores de energia e aeroespacial” Modalidade: Edital Universal Coordenador: Clascídia Aparecida Furtado Valor: R$93.948,70 MINAS FAZ CIÊNCIA - DEZ. A FEV. / 2010

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Saúde

No alvo da ciência Buscando otimizar o diagnóstico, pesquisadores orientam serviços de mamografia de Minas Gerais

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Estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca) indicam que, apenas em 2010, 49 mil novos casos de câncer de mama serão registrados no Brasil. Este tipo de tumor é o segundo mais frequente no mundo e o mais comum entre as mulheres. Embora as taxas de mortalidade pela doença ainda sejam elevadas no país, sabe-se que o diagnóstico e tratamento precoces aumentam consideravelmente as chances de um prognóstico positivo. Assim, tendo em vista a necessidade de se garantir resultados cada vez mais precisos nos exames capazes de detectar o câncer mesmo em sua fase inicial, pesquisadores do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN) trabalham, desde 2006, em um projeto de avaliação e treinamento dos serviços de mamografia do Estado. Os pesquisadores atuam em parceria a Secretaria de Estado de Saúde e com as Secretarias Municipais, que fazem as fiscalizações dos serviços de mamografia em Minas Gerais. “Já estávamos realizando as avaliações desde o final de 2003, inicialmente como apoio e também nos treinamentos. Com o edital do PPSUS, lançado pela FAPEMIG em 2006, concorremos para montar o laboratório com alguns equipamentos que o CDTN não tinha”, conta a coordenadora do projeto, Maria do Socorro Nogueira. Além da aquisição dos equipamentos para montagem do Laboratório de Radioproteção Aplicada à Mamografia (Laram), o grupo obteve recursos que possibilitaram fazer a avaliação dos serviços do interior. O projeto não ocorre apenas em Minas Gerais. Em outros estados existem trabalhos similares, seguindo a mesma metodologia, que é adotada pelo Inca e tem o apoio do Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR). A pesquisa desenvolvida no CDTN, entretanto, envolve três vertentes. Além da avaliação dos serviços de mamografia, os cientistas se propuseram a desenvolver um completo banco de dados

com os resultados e um equipamento que pudesse auxiliar nas avaliações, tornando-as menos subjetivas.

Busca pela qualidade As avaliações dos serviços de mamografia do Estado foram feitas por

equipes constituídas de técnicos do CDTN e da Vigilância Sanitária (Visa). A partir de um protocolo a ser seguido, 14 itens eram avaliados, desde a compressão da mama, ao tamanho de campo, dose de radiação e, principalmente, qualidade da imagem.

Foto:Virgínia Fonseca

Foto:Virgínia Fonseca

Acima, o pesquisador Luiz Cláudio Belo e, abaixo, o bolsista Marcelino de Almeida Dantas. O software desenvolvido pela equipe permite a avaliação automática da imagem, garantindo resultados mais confiáveis. MINAS FAZ CIÊNCIA - DEZ. A FEV. / 2010

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Histórico Com base nos relatórios desenvolvidos para cada serviço durante as avaliações, o grupo construiu um banco de dados em que a Visa aloca todos os resultados. “A base é no CDTN, mas a Vigilância Sanitária trabalha alimentando esse banco, já que eles continuaram com as inspeções”, explica a pesquisadora. O sistema criado permite inclusive a emissão de e-mails e comunicados para os serviços. Em função do trabalho desenvolvido, foi implantada pela Visa uma resolução segundo a qual cada serviço precisa enviar, mensalmente, uma imagem para avaliação. Esta imagem é gerada a partir de um simulador que todos eles possuem (objeto que reproduz uma mama em acrílico, com pontos que imitam tipos de câncer). Isto permite manter um controle sobre quais serviços estão conformes e até mesmo uma estatística e acompanhamento da evolução de cada um. “Se o SUS quiser, pode acessar informações, já que ele credencia serviços de mamografia para a rede pública”, acrescenta. Ela ressalta que a cada mês é publicada no site da Secretaria de Estado de Saúde a relação de serviços que estão em dia com os critérios. Foto:Virgínia Fonseca

“Para fazer os testes é utilizado um simulador que contém itens capazes de fornecer indicação sobre a qualidade da imagem, concluindo, assim, se o serviço tem ou não condições de dar um diagnóstico correto”, explica Maria do Socorro. Após a verificação dos equipamentos, foram ministrados treinamentos para os profissionais envolvidos – médicos e técnicos que operam os mamógrafos.Tomando como base as 27 regionais da Visa em Minas, a cada 20 serviços avaliados era ministrado um curso de cerca de 12 horas, repassando teoria e orientações para que pudessem corrigir os pontos não conformes detectados. Os fiscais da Visa também emitiam um documento, no qual era estabelecido um prazo para corrigir as não conformidades. A pesquisadora conta que os serviços fizeram as correções indicadas, mas, de toda forma, ainda há muito a ser melhorado.“Achamos valores baixos em alguns critérios. A imagem, por exemplo, em 50% deles foi considerada não satisfatória”, esclarece. Entre 2006 e 2009, a equipe avaliou todos os serviços de mamografia do Estado – cerca de 340 – e treinou mais de 500 pessoas. O trabalho agora tem continuidade através da Visa, que dá sequência às avaliações, utilizando a mesma metodologia.

Maria do Socorro Nogueira, coordenadora do projeto. O laboratório conta com equipamentos similares aos encontrados nos serviços de mamografia do Estado.

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Qualquer pessoa pode consultar a listagem no endereço www.saude. mg.gov.br/politicas_de_saude/copy_ of_programa-estadual-de-controlede-qualidade-em-mamografia-pecqmamo. De acordo com o técnico da Vigilância Sanitária, Márcio Alves de Oliveira, o intuito é um processo educativo para que, em longo prazo, as próprias clínicas consigam avaliar a qualidade da imagem dos seus serviços. “Aqueles que estão há mais tempo neste projeto já apresentam melhorias consideráveis, com um índice de adequação por volta de 90%”, comenta.

Objetividade As imagens do simulador geralmente são avaliadas visualmente, com auxílio de uma lupa. “Isto significa que o processo, de certa forma, está sujeito à subjetividade do avaliador. A mesma pessoa, em diferentes circunstâncias, pode ter percepções distintas da imagem”, comenta o pesquisador Luiz Cláudio Meira Belo, um dos colaboradores do projeto. A proposta do grupo foi eliminar essa subjetividade, construindo uma instrumentação que permitisse a avaliação automática. O equipamento, que foi desenvolvido com base na utilização de laser e de um sistema computadorizado, agora está sendo aperfeiçoado. “Isso também facilitará o trabalho da Visa, já que estão recebendo imagens mensais para avaliar”, acrescenta Maria do Socorro. “Existem quatro estruturas ou pequenos objetos dentro do simulador, que são grades por meio das quais conseguimos determinar um parâmetro importante, que é o ponto focal – se elas estiverem visíveis em uma mamografia, o ponto focal do aparelho está adequado”, explica Meira Belo. A partir do conceito de visibilidade, que é a razão entre a intensidade do objeto que se deseja ver e o seu fundo ou seu entorno, os pesquisadores transformaram a


mensuração em um número, que varia de zero a um, onde zero é ausência de visibilidade e um é a melhor visualização possível. Eles geraram, então, um padrão visual da grade de testes, que pode ser comparado com aquele obtido da imagem a ser avaliada, submetida a um laser. O software desenvolvido identifica o padrão gerado, determina os pontos claros e escuros, compara o fundo com o brilho do ponto e determina a visibilidade. “Se o padrão está presente, é porque existe uma grade. Mas se ela não se formou direito, há uma indicação de que o aparelho de raios X que gerou a imagem pode estar com algum problema”, simplifica o pesquisador. Segundo ele, cada resultado obtido possibilita identificar alguma providência a ser tomada. “É possível ver o processo todo, desde o aparelho até a revelação, porque tem que estar tudo adequado para se obter a radiografia”, diz.

Atualização O projeto irá se estender, agora, para a avaliação dos serviços que

adotaram processador digital de imagem. Até então, as avaliações foram feitas em processadores analógicos, mas a equipe constatou que há cerca de dois anos começou a haver uma atualização e hoje mais de 30% dos serviços já migraram para um sistema de radiografia computadorizada. No semestre passado, foi feita avaliação prévia dos serviços digitais de Belo Horizonte e os resultados apontaram que a qualidade da imagem continua basicamente a mesma. “Isso demonstra a necessidade de seguirmos com os treinamentos”, conclui Maria do Socorro. Segundo ela, a tecnologia digital tem a vantagem de permitir a edição da própria imagem, se ficar muito escura, por exemplo, evitando que a paciente precise repetir o exame. “Mas, mesmo assim, precisamos ficar atentos se o critério de obtenção dessa imagem está adequado”, alerta. O laboratório no CDTN será readequado e todos os serviços digitalizados passarão por novo treinamento. A pesquisadora destaca que o intuito é manter um serviço de ma-

mografia com qualidade, para que o médico consiga diagnosticar precocemente o câncer. “É um objetivo geral de saúde publica no país e estamos tentando contribuir com isso, pois os resultados ainda deixam a desejar, às vezes por questões simples, como falta de conhecimento na operação do equipamento. Daí a importância de fazermos também este trabalho educativo”, avalia. Ela acrescenta que existem no CDTN outros grupos trabalhando com estudos similares, voltados para radiologia geral, radiologia odontológica, tomografia, entre outras áreas. Virgínia Fonseca Projeto: “Desenvolvimento de técnicas e métodos para avaliação do desempenho, atendimento aos requisitos de proteção radiológica e de qualidade de imagem nos serviços de mamografia no Estado de Minas Gerais” Modalidade: Edital PPSUS Coordenador: Maria do Socorro Nogueira Valor: R$477.218,65

Diagnóstico precoce é arma contra o câncer de mama Evitar a obesidade, através de dieta equilibrada e prática regular de exercícios físicos, é uma recomendação básica para prevenir o câncer de mama, já que o excesso de peso aumenta o risco de desenvolver a doença. A ingestão de álcool, mesmo em quantidade moderada, também é contraindicada, assim como a exposição a radiações ionizantes em idade inferior aos 35 anos. Ainda não há certeza da associação do uso de pílulas anticoncepcionais com o aumento do risco para esse tipo de tumor. Podem estar mais predispostas mulheres que usaram contraceptivos orais de dosagens elevadas de estrogênio, que fizeram uso da medicação por longo período e as que usaram anticoncepcional em idade precoce, antes da primeira gravidez. Fatores genéticos também estão

associados à maior probabilidade de desenvolvimento da doença. A prevenção primária ainda não é totalmente possível devido à variação dos fatores de risco e às características genéticas que estão envolvidas na etiologia do câncer de mama. Quanto ao diagnóstico, as formas mais eficazes para a detecção precoce são o exame clínico e a mamografia. O Inca não estimula o autoexame como método isolado de detecção precoce do câncer de mama – a recomendação é que este exame faça parte das ações de educação para a saúde que contemplem o conhecimento do próprio corpo. Mas, a avaliação feita pela própria mulher não substitui o exame clínico realizado por médico/ enfermeira qualificados para essa atividade. Recomenda-se que seja feito uma vez por ano pelas mulheres en-

tre 40 e 49 anos. Além disso, deve ser realizado em todas as mulheres que procuram o serviço de saúde, independente da faixa etária, como parte do atendimento à saúde da mulher. Já a mamografia (radiografia da mama) permite a detecção precoce ao mostrar lesões em fase inicial, muito pequenas, medindo milímetros. Deve ser realizada a cada dois anos por mulheres entre 50 e 69 anos, ou segundo recomendação médica. A Lei 11.664/2008, que entrou em vigor em abril de 2009, estabelece que todas as mulheres têm direito à mamografia a partir dos 40 anos. Para as mulheres de grupos populacionais considerados de risco elevado (com história familiar da doença em parentes de primeiro grau), recomendamse o exame clínico da mama e a mamografia, anualmente, a partir de 35 anos. Fonte: Inca - www.inca.gov.br

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Foto: Marcelo Focado

Plantas Medicinais

Remédio do Cerrado

Pesquisa comprova ação de plantas contra rotavírus e dengue e pode resultar em novos medicamentos 20

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As substâncias presentes no extrato bruto das plantas são fracionadas e analisadas nos testes in-vitro.

o desenrolar da pesquisa, as análises incluíram a ação das plantas contra o vírus da dengue. Inicialmente, o trabalho identificou e selecionou 20 espécies de plantas, por meio de critérios etnofarmacobotânicos, ou seja, levando-se em consideração questões como o uso popular, a composição e os estudos científicos já realizados a respeito. Das 20 espécies analisadas, quatro tiveram atividades contra o rotavírus e o vírus da dengue. Uma quinta planta teve ação apenas contra o vírus da dengue. Das cinco, duas foram selecionadas para fazer o fracionamento de seu extrato bruto. “O extrato bruto reúne uma série de substâncias e o Alzira Batista Cecílio mostra o extrato bruto fracionamento biomonitorado dá a ava- de uma das plantas utilizadas nas análises. liação do que há em cada parte desse dualmente, a ação de cada substância composto”, explica a pesquisadora. As duas plantas selecionadas para presente no composto, tais como flao estudo aprofundado são das famílias vonóides, terpenos e taninos. “Fracionamos a maioria das substâncias que de duas espécies bastante conhecidas, estão presentes no extrato. Se ele tem principalmente na região do cerrado A, B, C, D, E e F, o fracionamento nos brasileiro. Uma delas é da família Malpermite analisar a substância A, ou a phighiaceae, da gabiroba, e a outra é da fração A; a substância B, ou a fração família Anacardiaceae, da aroeira. Além B, e assim por diante. Nossa intenção delas, as outras três plantas que apresené, se possível, identificar qual princípio taram atividades contra os vírus são das ativo está agindo contra o vírus. O exfamílias Fabaceae, do jatobá; Myrtaceae, trato bruto agiu com 100% de inibição. da cagaita, e Dilleniaceae, que teve ativiQuando fracionamos, isso varia de 70 dade apenas contra o vírus da dengue. a 90%”, explica Alzira. Segundo ela, as “Embora outras plantas apresentassem primeiras análises mostraram que os atividades contra os vírus, precisávamos flavonóides têm importante função. direcionar a pesquisa para algumas delas, “Já era, inclusive, indicado na literatura pois não tínhamos condições de fazer que o flavonóide tem ação antiviral.” com todas. Escolhemos as duas porque De acordo com Alzira, a respeito são as menos estudadas”, justifica Alzira. da forma de ação da planta sobre o Depois de selecionadas, as plan- vírus, a hipótese é de que ela impeça tas foram caracterizadas e tiveram as sua entrada. “Ainda não temos essa folhas trituradas e moídas. O extrato confirmação. Nas próximas pesquisas, bruto foi extraído com etanol e dilu- para as quais estamos tentando finanído para ser utilizado nos experimen- ciamento, pretendemos estudar e ver tos. “Cultivamos as células e, nelas, qual foi a ação das substâncias em recolocamos o vírus e o extrato. Quan- lação à diminuição ou ao bloqueio da tificamos o vírus e, usando biologia replicação do vírus”, adianta. molecular, detectamos se o genoma O trabalho foi realizado com a pardo vírus está presente ou não após o ceria de pesquisadores da Universidauso do extrato bruto”, detalha Alzira. de Federal de Minas Gerais (UFMG) Segundo ela, os extratos brutos das e da Universidade Estadual de Montes plantas estudadas apresentaram 100% Claros (Unimontes), que foram resde inibição da replicação do vírus, ou ponsáveis por toda a parte da pesquisa seja, após sua aplicação, nenhuma par- relacionada à botânica, como a identitícula viável de vírus foi detectada. ficação e a caracterização das plantas. O fracionamento do extrato bru- A obtenção do extrato bruto foi reato teve o objetivo de avaliar, indivi- lizada nos Laboratórios do Serviço de Foto: Marcelo Focado

A dengue e o rotavírus são dois velhos conhecidos da população. O que muita gente não sabe é que um bom combatente contra esses dois inimigos pode estar bem próximo, talvez até mesmo no quintal de casa. Um grupo de pesquisadores da Fundação Ezequiel Dias (Funed) comprovou, por meio de testes in vitro, a ação de plantas medicinais na inibição dos vírus causadores dessas doenças. O rotavírus provoca, principalmente, febre, vômito e diarreia e é a principal causa de mortalidade por diarreia em crianças com menos de cinco anos em todo o mundo. A dengue clássica, entre outros sintomas, causa febre, vômito, dores no corpo, de cabeça e nos olhos e pode evoluir para um quadro mais grave, a dengue hemorrágica, que pode levar à morte. Segundo a coordenadora da pesquisa na Funed, Alzira Batista Cecílio, o trabalho surgiu a partir de uma demanda apresentada pela FAPEMIG em um edital do Programa Pesquisa para o Sistema Único de Saúde (PPSUS). Uma das linhas temáticas do edital, publicado em 2006, direcionava-se a áreas da saúde com índices preocupantes de mortalidade. “A pesquisa tinha que ser aplicada para melhorar a qualidade de vida da população. Como no Norte de Minas e no Norte do país há alta mortalidade causada pelo rotavírus, decidimos estudá-lo, aplicando as plantas medicinais”, conta Alzira. Com

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Biosprospecção Farmacêutica da Funed. A parte virológica, por sua vez, foi realizada no Laboratório de Virologia Molecular da instituição.

Medicamento

Na próxima etapa do estudo, os pesquisadores pretendem realizar as análises in vivo, ou seja, em animais vivos e, posteriormente, passar para testes clínicos. “Estamos fazendo o planejamento dos testes com animais, mas ainda precisamos do financiamento e da aprovação do Comitê de Ética da Funed”, diz Alzira. O objetivo final é a produção de um medicamento contra o rotavírus. “É um medicamento importante porque há uma taxa de mor-

talidade alta em crianças menores de cinco anos, principalmente no Norte de Minas e no Norte do país. É uma aplicação muito importante para essa população. No caso da dengue, não temos hoje nenhum antiviral. Como o rotavírus é uma infecção oral-fecal, talvez o medicamento saia na frente, pois seria mais fácil produzi-lo e teria ação direta por via oral”, afirma. A expectativa do grupo é conseguir financiamento para terminar o produto. “Com o resultado que já temos, podemos dizer que é um produto pouco tóxico em células e tem grande potencial para atender a comunidade que precisa desse medicamento”, diz Alzira. Para desenvolver o medicamento, a pesquisa-

dora adianta que pretende utilizar a biotecnologia na reprodução das plantas. “Queremos pegar uma planta doadora no cerrado e fazer sua micropropagação no laboratório. Ou seja, não vamos fazer coleta na biodiversidade. Usaremos apenas o exemplar doador”.

Ariadne Lima Projeto: “Atividade in vitro de plantas medicinais utilizadas no tratamento de diarreias causadas por rotavírus” Modalidade: Edital do PPSUS Coordenadora: Alzira Batista Cecílio Valor: R$62.070,00

Pesquisa para a sociedade A pesquisa com plantas medicinais da Funed foi financiada pelo Programa Pesquisa para o SUS (PPSUS), fruto de uma parceria entre a FAPEMIG, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG), o Ministério da Saúde e o Conselho Nacional para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Criado em 2001, o Programa tem o objetivo de apoiar estudos e pesquisas que promovam o desenvolvimento tecnológico em saúde, fortalecendo a gestão e a eficiência do SUS. Outro objetivo é descentralizar as pesquisas em saúde no país, ou seja, distribuir melhor os investimentos e criar condições de fomento à pesquisa em cada região brasileira. Para isso, com a participação de instituições estaduais, como a FAPEMIG, são lançadas versões regionais do Programa. Na primeira etapa, participaram dez estados: Alagoas, Bahia, Ceará, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Santa Catarina e Sergipe. Além do financiamento de pesquisas, foram desenvolvidas ações destinadas ao fortalecimento da gestão de ciência e tecnologia nas Secretarias de Estado da Saúde. Essas ações resultaram na criação de Núcleos de Ciências e Tecnologia dentro das Secretarias de Saúde dos estados do Ceará, Minas Gerais, Paraíba e Sergipe. Os bons resultados alcançados nos primeiros anos fizeram com que o Ministério da Saúde ampliasse a iniciativa. Assim, em 2004, o programa transformou-se em “Programa Pesquisa para o SUS: gestão compartilhada em saúde” e foi estendido a todas as regiões do país, passando a contar com o apoio do CNPq. Em Minas Gerais, o PPSUS teve, até então, cinco edições e já destinou R$ 29 milhões a pesquisas no Estado. Para o presidente da FAPEMIG, Mario Neto Borges, a abrangência social do programa é considerável, pois se trata de uma ação

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da ciência e tecnologia a serviço da saúde pública, visto que o SUS é o programa de saúde que atende à maioria da população brasileira. Em março deste ano, a SES-MG realizou a quarta edição do Seminário Mineiro de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde, que acontece anualmente com o objetivo de avaliar os resultados do PPSUS, aproximar gestores e pesquisadores da área da saúde, bem como divulgar para a população os avanços obtidos. Este ano, foram apresentados 77 projetos desenvolvidos dentro do Programa. “Houve participação maciça de pesquisadores, além de profissionais do próprio serviço de saúde. Tentamos mesclar pesquisadores, gestores do SUS, funcionários, coordenadores de áreas de saúde. Enfim, reunimos Academia e Serviço para avaliar os resultados de projetos que visam atender o SUS. Isso foi muito positivo”, diz o coordenador do Núcleo de C&T da SESMG, Nery Cunha Vital. Para Vital, o PPSUS oferece oportunidade para o surgimento de novos grupos de pesquisa, contribuindo muito para o desenvolvimento da Ciência e Tecnologia. “Em Minas Gerais, o Programa está em uma fase madura, consistente, e agora precisa avançar em inovações. Estamos conversando com o presidente da FAPEMIG e, em breve, conversaremos com o Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde (Decit) sobre a necessidade de possibilitarmos que certos projetos tenham continuidade. Por exemplo, no caso de pesquisas que podem resultar em medicamentos ou kits de diagnóstico. É uma demanda dos próprios pesquisadores. Ainda não há modelo, nem definição clara, mas é uma proposta que já está sendo pensada e discutida”, adianta o coordenador.


Mercado

Reputação

empresarial A reputação de uma empresa é a representação coletiva das ações passadas e dos resultados da organização, por meio dos quais a corporação demonstra sua habilidade de gerar valor para clientes, acionistas, empregados, fornecedores e outros públicos interessados. Vai muito além da marca e propicia um diferencial competitivo importante no atual cenário de concorrência acirrada, globalização, aumento da oferta de produtos e serviços, novas legislações e regras comerciais. Mas quais são as semelhanças e diferenças entre as grandes empresas? A reputação deve ser reforçada, estrategicamente, a partir de características setoriais?

Pesquisa sugere que empresas devem avaliar seu desempenho junto ao público dentro de sua área de atuação

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Para fazer essa análise, inédita no Brasil, um grupo de pesquisadores realizou o estudo “Reputação de grandes empresas: um estudo comparativo entre empresas brasileiras e internacionais em três dimensões – relações de trabalho, responsabilidade social, governança e ética”. A pesquisa foi uma parceria entre a FAPEMIG, o Programa de Pós-Graduação em Administração da PUC Minas (PPGA) e o Reputation Institute, empresa de consultoria e pesquisa com representação em mais de 20 países. Foram selecionados cinco conglomerados brasileiros e utilizadas três das sete dimensões da metodologia RepTrak™, instrumento de avaliação desenvolvido pelo Reputation Institute (veja quadro).

Foi comparada a percepção da população em relação a cinco empresas brasileiras e suas concorrentes no mundo, de acordo com a área de atuação: Embraer e Bombardier; Itaú e ABN Amro; Pão de Açúcar e Mercadona; Petrobras e StatoilHydro; e Vale e BHP Billiton. As brasileiras escolhidas estão presentes na pesquisa global sobre reputação, conduzida anualmente pelo Instituto, e as dimensões selecionadas na metodologia são diretamente ligadas à percepção sobre a competitividade setorial. Segundo o coordenador do trabalho, Antonio Carvalho Neto, também coordenador do PPGA, a reputação ainda é uma questão nova para as organizações nacionais. “Mas a comparação dos grupos de capital prioritariamente

brasileiro com suas maiores concorrentes mundiais mostrou que temos, sim, organizações capazes de disputar com seus players internacionais, apresentando nível avançado de gestão e estrutura corporativa”, explica. A co-coordenadora do trabalho, professora Ana Luísa Almeida de Castro, explica que o RepTrak™ é um modelo que pode ser aplicado em empresas, indústrias e países. Ele envolve uma série de 23 atributos-chave, agrupados em sete dimensões que formam as bases da reputação e são avaliadas pelo público segundo sentimentos de simpatia, estima, admiração e confiança.“Os atributos e dimensões podem ser mensurados e priorizados para se compreender quais são mais influentes na construção de uma reputação e na criação de comportamentos de apoio por parte do público”, explica a professora. A pesquisa envolveu posteriormente uma fase qualitativa, em que foram realizadas entrevistas com profissionais responsáveis pelas políticas e práticas de Comunicação, Governança, Relações de Trabalho e Responsabilidade Social Empresarial em três das cinco empresas brasileiras selecionadas – Itaú, Petrobras e Vale. A seleção das empresas e de suas concorrentes envolveu critérios de porte, setor de atuação, tipo de produto e/ ou serviço e mercado consumidor.

Elemento decisivo

Três das sete dimensões da metodologia RepTrak foram utilizados como instrumento de avaliação na pesquisa

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Segundo Antônio Carvalho Neto, a crescente importância da reputação empresarial como recurso estratégico tem possibilitado a melhor inserção das empresas nos mercados globais, já que a percepção que os agentes econômicos têm a seu respeito influi nas decisões mercadológicas, com impactos dentro e fora do ambiente organizacional. Assim, a reputação é percebida como fundamental para a geração de vantagem competitiva sustentável que torne a empresa ainda mais atrativa, porque as organizações são forçadas a uma avaliação constante de suas políticas corporativas. Ana Luísa Castro conta que, durante o trabalho, observou-se a tendência de que empresas brasileiras de um mesmo setor (indústria ou serviços) apresentem atributos (por exemplo, ambiente de trabalho e cidadania)


com valores semelhantes. “Essa tendência se mantém quando analisamos empresas brasileiras e estrangeiras em conjunto. O resultado sugere que sejam realizados estudos posteriores para compreender se a construção da reputação de empresas de setores diferentes deve ser trabalhada também de maneira diferenciada, propondo modelos específicos de mensuração”. Para a pesquisadora, é possível afirmar que a busca pelo reforço da reputação a partir de características setoriais parece ser a opção estratégica mais interessante para as empresas. “Mais especificamente, as empresas do setor de serviços precisam ser mais cautelosas para garantir uma boa reputação no que tange à cidadania organizacional do que as empresas do setor industrial. A pesquisa indicou que organizações dessa área correriam maior risco de terem suas ações de Responsabilidade Social Empresarial mal interpretadas pelo público”, detalha. Com as conclusões da pesquisa, as empresas podem observar em quais atributos elas mais se parecem ou diferem de seus concorrentes. Dessa maneira, podem aprimorar esses atributos, construindo um diferencial competitivo e, consequentemente, reforçar a reputação corporativa. “O valor das ações de empresas está cada vez mais vinculado a ativos intangíveis (ligados à percepção), como a reputação. O mercado se encontra cada dia mais competitivo e a reputação ganha cada vez mais importância para a diferenciação perante clientes e consumidores. Este é um fenômeno mundial e bastante recente, e as grandes empresas brasileiras já estão fazendo parte desse movimento”, reforça a professora. Segundo ela, o reflexo é que, cada vez mais, espera-se um comportamento ético das corporações. “Cabe, portanto, às empresas brasileiras aprofundarem o conhecimento sobre quais práticas e atributos da reputação são mais valorizadas em seus setores de atuação e como comunicar seus esforços corretamente ao público. Somente por meio desse entendimento é que o gerenciamento da reputação corporativa se tornará estratégico nas organizações nacionais”, conclui a professora.

Carvalho Neto destaca que os benefícios estratégicos de uma reputação corporativa positiva já foram apontados por diversas pesquisas e a maioria dos entrevistados concorda que, quando os bens e serviços de diferentes empresas são parecidos em qualidade e preço, é a reputação que determina a decisão de compra. A reputação também está relacionada com a cultura e a identidade da empresa. Os valores culturais e o senso de identidade não apenas definem o significado da organização, mas também guiam e justificam as estratégias dos gestores para lidar com os diversos públicos.“O entendimento sobre a atribuição de valor de cada um dos públicos relevantes das empresas é importante, mas insuficiente para uma gestão completa da reputação. As vantagens competitivas sustentáveis são mantidas por meio de um constante gerenciamento de atributos que devem ser primeira-

mente identificados pela organização”, explica o pesquisador. Existe a intenção de dar continuidade à pesquisa, com o intuito de gerar conhecimento sobre Reputação Corporativa no Brasil. “O apoio da FAPEMIG contribuiu para integrar o grupo de pesquisadores brasileiros, que trabalhou em cooperação com a Erasmus University de Rotterdam, na Holanda, e o Reputation Institute. A pesquisa foi uma bem sucedida parceria do mercado e do meio acadêmico”, finaliza Carvalho Neto. Letícia Orlandi Projeto: “Reputação de grandes empresas: um estudo comparativo entre empresas brasileiras e internacionais em três dimensões - relações de trabalho, responsabilidade social, ética e governança corporativa” Coordenação: Antônio Carvalho Neto Modalidade: Edital Universal Valor: R$14.052,00

A RepTrak™ Anualmente, o Reputation Institute realiza o projeto Global RepTrak™, que consiste na mensuração das reputações corporativas das maiores empresas do mundo. Para se ter ideia, em 2009, foram pesquisados mais de 70 mil consumidores em 32 países, obteve-se a avaliação da reputação de 600 empresas e, com isso, criou-se um ranking em escala mundial. Na pesquisa, é pedido aos entrevistados que avaliem tanto os atributos centrais do modelo RepTrak™ – estima, admiração, confiança e respeito – quanto as sete dimensões que o compõem: Desempenho – retorno aos investidores, resultados financeiros, perspectivas de crescimento. Produtos e serviços – qualidade percebida, relação custo-benefício, suprimento das necessidades do consumidor. Inovação – incentivo a ideias, pioneirismo, poder de adaptação a mudanças. Ambiente de trabalho – recompensa ao mérito e igualdade de oportunidades, promoção do bem-estar e saúde dos empregados. Governança – transparência e disponibilidade das informações, ética empresarial, idoneidade nos negócios. Cidadania – responsabilidade ambiental e desenvolvimento social, apoio às causas comunitárias.

Liderança – organização, líderes carismáticos e eficientes, excelência gerencial, visão clara e compartilhada do futuro. Os pesquisadores da PUC Minas utilizaram os dados de 2007, em que foram analisadas cerca de 175 mil avaliações, feitas por 60 mil respondentes de 29 países, utilizadas para compor resultados sobre a reputação de mais de mil empresas. Todas elas são companhias conhecidas e foram avaliadas em seu país de origem. Cada entrevistado analisava no máximo cinco empresas e, em cada país, a estratificação demográfica da amostra refletiu a distribuição da população com acesso à Internet. A escolha dos respondentes também foi ponderada quanto à idade e ao gênero, com nível de instrução de médio a superior. A pesquisa de 2007 foi a segunda avaliação das maiores empresas do mundo, com o objetivo de oferecer aos executivos um mapeamento da reputação de suas organizações. O estudo coordenado pelo professor Antônio Carvalho Neto, na análise dos grupos nacionais, circunscreve-se às dimensões “ambiente de trabalho”, “ética e governança” e “cidadania empresarial”, estreitamente relacionadas à temática da responsabilidade social empresarial.

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Estrada verde Pesquisa propõe técnicas de plantio na contenção de encostas em rodovias No verão, com o aumento das chuvas, o desmoronamento de encostas é ainda mais comum nas rodovias, gerando transtornos e ocasionando acidentes, em alguns casos, com soterramento. Aliando conhecimento e técnica, no entanto, é possível encontrar maneiras simples e baratas para resolver a questão. Pesquisadores da Universidade Vale do Rio Doce (Univale), em Governador Valadares (MG), desenvolveram um estudo que caracteriza os tipos de desmoronamentos nas proximidades de rodovias e propõe técnicas de plantio de determinadas espécies vegetais na contenção de encostas. A pesquisa, que teve início em 2004 e contou com apoio da FAPEMIG, resultou na caracterização dos tipos de solo encontrados ao longo das rodovias de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Segundo o engenheiro agrônomo e coordenador dos trabalhos, Alexandre Sylvio Vieira da Costa, essa caracterização é uma etapa importante. “Na pesquisa, mostramos sistemas que

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Arquivo Alexandre Vieira

Ciência dos solos

As plantas utilizadas para controle da erosão devem ter crescimento rápido e arquitetura favorável.

não deram certo por desconsiderarem as características do solo. Os solos apresentam grande diversidade de características físicas e químicas, fatores importantes que devem ser considerados durante a construção dos taludes e o processo de implantação das espécies vegetais que serão utilizadas na proteção deles”, diz. O Brasil apresenta uma grande diversidade climática, topográfica e de rochas de origem. Essa diversidade gera solos também com características diversas em relação a seus aspectos físico-químicos, como textura, porosidade e cargas elétricas.Além disso, as grandes áreas montanhosas estão sujeitas ao movimento de massa das encostas. Ao longo da malha rodoviária brasileira, é possível encontrar variados tipos de solos e relevos. Minas Gerais possui a maior malha rodoviária federal do país, construída em re-

levo predominantemente ondulado, o que obriga que as construtoras façam cortes nos morros, a fim de planejar o percurso. Isso resulta na exposição de perfis de solos ácidos, de estrutura frágil, pouco férteis e, consequentemente, mais sujeitos a deslizamentos. A proposta dos pesquisadores mineiros é que, para a contenção dos deslizamentos de terra, sejam adotadas técnicas de plantio em linhas adensadas de plantas herbáceas e arbustivas, gramíneas e leguminosas, como Capim Brachiaria, Crotalaria, Guandu, Leucena e Feijão de Porco. A proposta não aconselha, na


maioria dos casos, soluções como a construção de muros de contenção e a hidrosemeadura, técnica adotada para recuperação de áreas degradadas que utiliza insumos agrícolas de fonte mineral e orgânica, mais cara que a apresentada na pesquisa. Segundo os pesquisadores, também é comum que algumas empresas façam ranhuras transversais nos taludes para reduzir a velocidade da água da chuva, o que resolve o problema apenas em curto prazo. O uso das plantas pode ser uma solução rápida, de baixo custo e com efeito paisagístico. A economia gerada pela técnica proposta, porém, não se limita aos custos de implantação. É comum que o transporte de carga seja prejudicado pelo deslizamento de encostas. Caminhões ficam retidos ou são obrigados a passar por desvios mais longos, o que pode comprometer a qualidade da carga, aumentar os custos de transporte e, até mesmo, o preço do produto para o consumidor. Por outro lado, os gastos com a recuperação de vias danificadas também costumam ser elevados. Alexandre Costa ainda alerta para o risco de acidentes. Segundo ele, é comum encontrar partículas minerais do solo (areia, silte e argila) no asfalto, o que reduz a aderência e aumenta o risco de acidentes, além da já conhecida queda de blocos de terra, que chegam a obstruir as estradas.

O que plantar

As plantas utilizadas para controle da erosão devem apresentar rápido crescimento e arquitetura adequada. Plantas baixas e densas são mais eficientes que as que não têm essas características. Segundo Alexandre Costa, as leguminosas são bastante indicadas, por serem de fácil implantação e crescimento rápido, além de terem características interessantes, como raízes robustas, profundas e grande capacidade de produção de massa vegetal. A parte aérea das plantas (caule e folhas) protege o solo contra o impacto da chuva, evitando que ela atinja o solo diretamente e provoque a desagregação de suas partículas. “Na região do médio Rio Doce, verificamos que o

guandu apresenta melhor desenvolvimento vegetativo, tanto da parte aérea quanto do sistema radicular (referente às raízes) provavelmente pela sua característica arbustiva e de grande capacidade de rebrota após o período seco, característica importante em uma região na qual este período pode durar seis meses ou mais”, relata. Na pesquisa, foram realizados experimentos na região Leste de Minas Gerais, às margens da BR 259 e BR 381, em Governador Valadares. Foram utilizadas leguminosas de porte arbustivo e herbáceo - guandu (Cajanus cajan), leucena (Leucaena leucocephala) e crotalaria (Crotalaria juncea) - , além de uma gramínea, a braquiaria (Brachiaria decumbens).Após a implantação do experimento, foram avaliados o armazenamento e a disponibilidade de água, a porosidade do solo e o desenvolvimento das espécies. Outras análises químicas e físicas dos solos também foram realizadas. O trabalho mostrou que o perfil do solo da encosta da BR 381, classificado como Argissolo Vermelho Amarelo, apresentou maior instabilidade devido aos altos teores de areia e silte, nas camadas inferiores, apesar de apresentar densidade mais elevada. A encosta da BR259 (Latossolo Vermelho amarelo) por sua vez, apresentou menor densidade, com maior teor de argila, indicando boa estabilidade, tendo, porém, baixos teores de nutrientes. A pesquisa também apontou que a presença das plantas beneficiou, de modo geral, as características físicas do solo. “O desenvolvimento das raízes do guandu (Cajanus cajan) associado à gramínea (Brachiaria decumbens) apresentou os melhores resultados em relação às características físicas do solo da região, como redução da densidade aparente, aumento da macroporosidade e retenção de água. Algumas culturas, como a Crotalaria juncea, não resistiram ao período seco da região sucumbindo antes de atingir o desenvolvimento pleno”, explica Alexandre Costa. Na próxima etapa da pesquisa, a Univale contará com a parceria da Embrapa Solos, que contribuirá com o trabalho de pesquisadores e recursos financeiros. De acordo com Costa, o De-

partamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) recebeu um relatório da pesquisa e também demonstrou interesse no trabalho. “Já estamos conversando a respeito e acredito que a parceria vai dar certo”, adianta. O pesquisador antecipa que, na nova etapa, além das espécies já testadas, serão avaliados os plantios de outras espécies vegetais nesse sistema de manejo. Em dezembro de 2009, o projeto recebeu o segundo lugar no 18° Prêmio de Ciência e Tecnologia da Sociedade Mineira de Engenheiros (SME). A premiação foi concedida aos estudantes que atuam na pesquisa, Daniela da Silva Coelho Braga, que é bolsista da FAPEMIG e está no sétimo período do curso de Agronomia, e Amando de Pinho Aguiar, que concluiu o curso em 2009. Além de troféu, os alunos receberam um cheque no valor de R$5 mil. Segundo Costa, este foi o quarto prêmio do grupo recebido por um projeto que tem apoio da FAPEMIG. Arquivo Alexandre Vieira

A pesquisa de campo foi realizada em encostas das BRs 259 e 381, em Governador Valadares.

Ariadne Lima Projeto: “Uso de técnicas vegetativas utilizando leguminosas na recuperação encostas degradadas às margens de rodovias” Coordenador: Alexandre Sylvio Vieira da Costa Edital: Universal Valor: R$ 27.051,24 MINAS FAZ CIÊNCIA - DEZ. A FEV. / 2010

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Design

DESIGN p ara i n c l usão

Carteira Escolar Inclusiva facilita a integração social de crianças com deficiências físicas Você já se deparou, alguma vez, com dificuldades para utilizar determinado tipo de espaço, serviço ou produto? Uma embalagem complicada de abrir, um local de difícil acesso, um serviço que não lhe atende. Encontrar ambientes e produtos que não resolvem a necessidade das pessoas é mais comum do que se imagina, principalmente quando estas possuem mobilidade física reduzida. No Brasil, existem mais de 24 milhões de pessoas que possuem algum tipo de deficiência, segundo dados do Censo (2000). Ainda estão incluídos na categoria “mobilidade reduzida” idosos, crianças, gestantes, um cidadão com um filho de colo e até mesmo um jovem com a perna temporariamente engessada. Considerando esta realidade surge o conceito de design inclusivo, cuja premissa é o respeito à diversidade humana. O design inclusivo ou universal é a concepção de espaços, produtos e serviços utilizáveis com eficácia, segurança e conforto pelo maior número de pessoas possível, independente das suas capacidades. A definição é da Design for All Foundation (www.designforall.org), ou Fundação Design para Todos, criada, em 1995, com o objetivo de promover, difundir, desenvolver e gerenciar o design para todos na sociedade.

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Hoje, o termo já é conhecido e utilizado mundialmente. “Equidade e justiça social através do design estão inseridos na busca por uma sociedade inclusiva que valorize o respeito pela diversidade humana”, ressalta a designer industrial e arquiteta para crianças Érika Foureaux. Ela coordenou um projeto que resultou em um produto pioneiro, que alia design, inovação e inclusão: a Carteira Escolar Inclusiva (CEI). A CEI não é destinada apenas a crianças portadoras de deficiência: ela pode ser utilizada por todos os alunos da classe, tenham eles mobilidade reduzida ou não. A cadeira proporciona bom posicionamento, estabilidade e segurança intelectual na realização de tarefas escolares. “A ideia surgiu a partir da experiência de minha segunda filha, Sophia, quem tem deficiência física. Em seu primeiro dia de aula, ela observou que com o mobiliário existente em sala, mesmo os ‘adaptados’, seria difícil desempenhar suas tarefas em igual condição com as demais crianças”, relembra.

Inovação

De acordo com dados do censo escolar de 2005, mais de 34 milhões de crianças estavam matriculadas no ensino fundamental regular nas esco-

las da rede pública e privada de ensino no Brasil. Desse total, 220 mil eram portadoras de deficiência física. Em Belo Horizonte, conforme o mesmo censo, mais de dois mil alunos deficientes físicos estavam matriculados em escolas regulares. Segundo Foureaux, até então não existia no mercado de mobiliário escolar uma carteira que atendesse a todas as crianças, sejam elas deficientes ou não. Para o desenvolvimento da CEI foi feito um trabalho de pesquisa que envolveu 27 instituições de ensino em Belo Horizonte. “Selecionamos escolas públicas regulares do ensino fundamental que praticam a inclusão e possuíam ao menos um aluno deficiente em classe regular. Formamos, então, sete equipes multidisciplinares compostas por arquitetos, designers, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, sociólogos e pedagogos”, explica a designer. O passo seguinte foi a realização de diagnósticos, como relatórios de acessibilidade arquitetônica, de mobiliário e áreas externas, escritos com foco nas atitudes percebidas pelo grupo frente a comunidade escolar. Para a próxima etapa, foram importantes os recursos do Programa Amitec (ver quadro) “A partir do Programa, conseguimos o incentivo financeiro que


precisávamos para contratar uma equipe de engenharia mecânica. Sem esta etapa, o produto não se viabilizaria”. Oito profissionais se dedicaram por cerca de um ano ao desenvolvimento de soluções, que abordaram desde a mecânica até os processos de fabricação, materiais e logística de produção da carteira. O fato de um mesmo equipamento poder ser utilizado por todas as crianças é o diferencial da CEI. “Isso reforça o sentido real de igualdade, de oportunidades e de direitos. Normalmente, o mobiliário adaptado reforça o sentimento de exclusão por sua aparência vinculada à doença e pelos materiais utilizados, como pedaços de madeira e ferragem aparente, nada lúdicas e funcionais”, acredita Foureaux. “A Carteira Escolar Inclusiva é regulável em altura, profundidade e inclinação. Além disto, é bonita, de fácil manutenção e principalmente funcional, pois serve

também aos cadeirantes, já que respeita as normas estipuladas pela ABNT para este usuário”, finaliza.

Projeto premiado

Érika Foureaux é também fundadora da ONG Noisinho da Silva, de Belo Horizonte (www.noisinhodasilva.org. br). A entidade foi criada, em 2003, para promover a inclusão de crianças e adolescentes deficientes físicos via design de produtos, equipamentos e objetos, sobretudo no ambiente escolar. “Trabalhamos a inclusão social da criança portadora de deficiência física, desenvolvendo projetos na área do design inclusivo e atividades educacionais, culturais e assistenciais, conscientizando a sociedade quanto à importância destes projetos no processo de inclusão social e, sobretudo, na melhoria da qualidade de vida destas crianças”, explica a designer. A Carteira Escolar Inclusiva foi desenvolvida nesse ambiente. Foto: Arquivo Érika Foureaux

Antes mesmo de seu lançamento, o produto conquistou o reconhecimento público. O projeto recebeu inúmeros prêmios, inclusive no exterior. Entre eles, o “Top Social – Relevância” oferecido pela Associação dos Dirigentes deVendas e Marketing do Brasil (AdvB), em 2005. Foi finalista do “Prêmio Criança 2006”, da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos do Brasil (Abrinq) e do Prêmio IF Awards, entregue na Alemanha, em 2007. Também foi premiada pelo Handite, feira de produtos para deficientes realizada em Paris.

Programa Amitec A Carteira Escolar Inclusiva foi desenvolvida com o apoio do Programa Amitec. Fruto de uma parceria entre a FAPEMIG, o Instituto Euvaldo Lodi (IEL), do Sistema Fiemg, e o Sebrae/MG, a iniciativa tem como principal objetivo estimular a melhoria e a inovação tecnológica das empresas de Minas Gerais através de subsídio financeiro. As empresas solicitantes de serviços de informação, suporte tecnológico, consultoria e inovação devem estar devidamente cadastradas na Rede Tecnologia de Minas Gerais (Retec), que conta em sua base cadastral com técnicos e especialistas, prontos para resolver problemas tecnológicos das empresa. Cada entidade parceira é responsável pelo aporte de 1/3 do total de recursos financeiros para a execução dos serviços apoiados pelo Programa, que possui quatro linhas de apoio: consultoria, informação, suporte e inovação tecnológica. Para saber mais sobre o programa, acesse o site www.fiemg.com.br/retec.

Juliana Saragá

A CEI pode ser utilizada por todos os alunos da classe, tenham eles mobilidade reduzida ou não.

Projeto: “Carteira Escolar Inclusiva” Modalidade: Programa Amitec Coordenador: Érica Foureaux Valor: R$22.500,00 MINAS FAZ CIÊNCIA - DEZ. A FEV. / 2010

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Divulgação científica

Galileu em cena Peça teatral sobre vida do cientista italiano aborda a relação entre teatro e ciência “Muros e casas, tudo parado! Há dois mil anos a humanidade acreditou que o sol e as estrelas do céu giram em torno dela. O tempo antigo acabou e agora é um novo tempo. E a Terra rola alegremente em volta do sol, e as mercadoras de peixes, os comerciantes, os príncipes, e mesmo o papa, rolam com ela.”

Foi com essa frase, dita mais ou menos dessa forma há quase 500 anos, que Galileu Galilei, astrônomo italiano que viveu 1564 e 1642, mudou a história da ciência ao anunciar sua descoberta de que a Terra não era o centro do universo, como se acreditava à época, mas sim o sol. A constatação, contrária às ideias defendidas pela Igreja, quase custou a vida do cientista, que chegou a ser processado pela Inquisição. Para livrar-se da fogueira, Galileu foi obrigado a renegar sua posição, sendo punido com uma prisão domiciliar numa vila nos arredores de Florença até sua morte. A vida do astrônomo, marcada pelas acusações de heresia pela Igreja

(que só o perdoou em 1992) e de covardia por muitos que esperavam que ele defendesse suas convicções até as últimas consequências, está sendo recontada pelo Teatro Galileu, grupo formado por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). O trabalho, iniciado no ano passado, é baseado na remontagem da peça “A vida de Galileu” do dramaturgo alemão Bertold Bretch, publicada em 1938. Partindo do texto original do autor, o grupo, do qual faz parte um elenco de sete atores e quatorzes profissionais da organização e apoio, tem representado a trajetória do cientista para alunos do curso de Teatro e à comunidade acadêmica da Universidade.

Baseada no texto de Bertold Bretch, a peça conta a vida do astrônomo italiano que marcou a história da ciência.

Foto: Beto Oliveira

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Como os ensaios também são abertos ao público, a peça chega a ser encenada em média duas vezes por semana, além das apresentações formais. No ano passado, o grupo esteve mais envolvido com a montagem da peça, por isso o número de exibições foi reduzido, mas, para este ano, está previsto uma quantidade maior. “Queremos chegar a 20 exibições anuais”, conta o coordenador do projeto e professor do curso de Teatro da UFU, Luiz Humberto Arantes. Também está prevista uma adaptação do texto, considerado denso, para que ele possa ser apresentado a uma plateia mais jovem como os alunos do ensino médio. Arantes explica que o projeto foi motivado pelo desejo de investigar a relação entre arte e ciência. “Queríamos um teatro de qualidade para falar de ciência, e a peça que se afinou com a ideia foi esta”. A inspiração para o estudo veio do próprio ambiente acadêmico, que propicia o encontro de diversas áreas de conhecimento, intensificada pelas comemorações de marcos importantes para a ciência como o aniversário de 400 anos do aprimoramento do telescópio por Galileu e de 40 anos da chegada do homem à lua, eventos que fizeram de 2009 o Ano Internacional da Astronomia. Mais que a adequação da temática às festividades do ano, a obra tem uma relação especial com o esforço de divulgação científica, já que o próprio Galileu Galilei dispersava o conhecimento que produzia através da publicação de livros como “Sobre a Revolução das Orbes Celestes”, de 1543. “O teatro é uma boa forma de divulgação científica porque, ao contrário dos laboratórios, sai às ruas e consegue se aproximar mais das pessoas.”

Acima de tudo, humano

Uma das peculiaridades da peça de Brecht é a forma como Galileu foi retratado. Mais do que apenas tratar do cientista, o texto tenta representá-lo em sua totalidade: seus dilemas, o embate entre as suas ideias e a mentalidade vigente no período, seu apreço por prazeres como a comida e a bebida e até alguns momentos de arrogância.

“Existem vários Galileus além do cientista, e essa representação dele como alguém com qualidades e defeitos é algo que surpreende as pessoas.Temos tido um retorno bem interessante das apresentações”, diz Arantes. A visão dos cientistas como seres cheios de conflitos é algo que geralmente contraria a imagem que a maioria das pessoas têm desses profissionais. Segundo o professor, a população em geral tende a perceber os cientistas e a ciência de modo idealizado, como se essa fosse uma atividade impessoal, livre da interferência de emoções, interesses humanos. “A vantagem de estudar a relação entre arte e ciência é perceber que elas têm muito em comum. Elas se cruzam em vários pontos: ambas lidam com inovação, mas na arte chamamos isso de criatividade”, compara. O professor lembra ainda que tanto a atividade artística quanto a produção científica são movidas pela curiosidade e inquietação humanas. “Nossa intenção com o projeto é mostrar que existe um método e experimentos na forma de fazer arte e que também há sensibilidade no fazer científico”.

Pesquisa e ensino

Paralelamente à montagem do espetáculo, o grupo dedicou-se a pesquisas para melhor compreensão do texto, com estudos teóricos, visitas a laboratórios de física da universidade e palestras com professores de filosofia. Os esforços serviram para prepará-los melhor para o projeto, já que o trabalho com divulgação científica era uma novidade para seus membros. Apesar da pouca familiaridade com o tema, Arantes avalia que a iniciativa tem sido bem-sucedida, especialmente no que concerne aliar diversão e aprendizado. Para o professor, o próprio teatro de Brecht oferece lições que vão além do conteúdo científico formal e passam também pela educação em sentido mais amplo. “Trabalhamos com uma dramaturgia que tem esta dimensão. Brecht acreditava num teatro científico, que mostrasse o contraditório. A peça mostra que ninguém nasce gênio tanto na arte quanto na ciência, que se exige muito

trabalho e disciplina”, diz. Ele acredita que a diversão seja uma consequência natural de poder assistir à peça. “Só o fato de sair de casa e ir ao teatro já gera uma significativa mudança de postura e exercício da cidadania”, conclui. O grupo foi constituído especificamente para a montagem desta atração, mas, segundo o coordenador, poderá assumir novos projetos no futuro.

Ficha Técnica Coordenação: Luiz Humberto Arantes Direção Artística: Yaska Antunes Elenco: Ana Flávia Felice, Breno Maia, Cássio Machado, Lilia Pitta, Narlo Rodrigues, Umberto Tavares, Valéria Gianechini. Direção de ator: Cássio Machado Figurino: Rodrigo Salviano Cenário em Processo: Lu de Laurentiz e equipe Adereços e objetos cênicos: Lucas Dillan Trilha sonora: Andrigo de Lázaro Luz: Marcos Prado Captação de Imagens: Otávio Mello Produção: Maria Amélia Elenco de apoio: Talita Valarelli, Maíra Rosa, Guilherme, Rodrigo Salviano Foto: Beto Oliveira

Grupo durante ensaio da peça, que também é aberto ao público.

Desiree Antônio Projeto: “Teatro e popularização da ciência: vida de Galileu” Modalidade: Edital de Popularização da Ciência Coordenador: Luiz Humberto Martins Arantes Valor: R$60.793,28 MINAS FAZ CIÊNCIA - DEZ. A FEV. / 2010

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Lembra dessa?

Semáforo inteligente

Foto: Ariadne Lima

Um adesivo, aparentemente simples, afixado na fralda do recém-nascido é suficiente para indicar se ele recebeu a dose exata de radiação no tratamento da icterícia neonatal. A doença é caracterizada pelo excesso de bilirrubina no sangue do bebê e pode trazer consequências ao sistema nervoso. O adesivo é na verdade um dosímetro, dispositivo de material orgânico luminescente que, em contato com a radiação da luz, produz uma reação fotofísica, indicada pela mudança de cor. Ele vai do vermelho ao verde, sinalizando que a criança já recebeu a dose mínima de tratamento. A inovação, desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), foi tema da matéria “Sinal

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MINAS FAZ CIÊNCIA - DEZ. A FEV. / 2010

verde para a saúde”, publicada na revista MINAS FAZ CIÊNCIA nº34. Desde então, a pesquisa evoluiu com boas novidades para a área médica. O selo ganhou o nome de “semáforo inteligente” e já é fabricado em escala laboratorial. Os testes hospitalares também já são realizados em um hospital de Pouso Alegre. “O interessante é que saímos do contexto de ciência básica e física para o contexto hospitalar”, diz o coordenador da pesquisa, Rodrigo Bianchi. Os pesquisadores têm desenvolvido um trabalho de conscientização da importância do tratamento da icterícia e do controle de qualidade dos equipamentos hospitalares. Para isso, estão sendo ministradas pales-

Rodrigo Bianchi, pesquisador da Ufop e coordenador do projeto.


tras em escolas de primeiro e segundo graus, além de órgãos de classe, como o Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais. “Depois da reportagem da MINAS FAZ CIÊNCIA, talvez até pela própria reportagem, o trabalho tomou grande proporção, principalmente do ponto de vista de sair do meio acadêmico e conquistar o interesse da sociedade e dos meios hospitalares, o que era nosso maior objetivo”, diz Rodrigo Bianchi. Para proteger a invenção, foram depositadas as patentes nacional e internacional, com apoio da FAPEMIG. “A segunda foi uma patente ‘guardachuva’. Ela fechou totalmente a possibilidade do uso desses materiais para controle de radiação ou para monitoramento da dose”, diz Bianchi. Segundo ele, duas empresas do ramo de equipamentos hospitalares, uma brasileira e outra canadense, estão interessadas na patente do produto. Os próprios pesquisadores também pretendem fabricá-lo e comercializá-lo. Para isso, visam criar uma empresa incubada em Ouro Preto, com a participação de alunos do curso de Engenharia de Produção.

Novos rumos

O sucesso dos selos adesivos acabou despertando a atenção dos pesquisadores para outros usos da tecnologia. Uma delas já está sendo testada em uma nova vertente da pesquisa. Trata-se do uso de materiais luminescentes para aferição de equipamentos hospitalares. O estudo foi retomado, voltado agora para o controle de equipamentos utilizados durante a radioterapia em pacientes oncológicos. Para isso, foi estabelecida uma parceria com o Hospital do Câncer de Muriaé, que já realiza testes nos seus equipamentos. O grupo hoje também conta com a participação de um médico, Marcelo Saraiva, e sua equipe. A parceria com o Hospital do Câncer surgiu a partir de uma das palestras do pesquisador no Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais. “O pai de um de nossos alunos é membro do CRM e diretor do Hospital do Câncer. Ele assistiu a palestra em Juiz de Fora, conversamos, ele falou da neces-

sidade do hospital e, então, fizemos o contato”, relata Bianchi. Segundo o pesquisador, os médicos têm atentado para as potencialidades do dosímetro no controle da radiação. “Alcançamos boa aceitação entre médicos pediatras e alguns, inclusive, estão nos apoiando”, diz. A radiação emitida pelos aparelhos do hospital é medida por meio de uma ampola que muda de cor de acordo com a radiação absorvida. Segundo Bianchi, a ideia é futuramente trocar a ampola pelo adesivo. “Começamos com a ampola porque precisamos saber se a dose prescrita é realmente condizente com a operação e ela é o caminho mais fácil para controlar a dose”, diz. Bianchi explica que, com relação ao trabalho dos selos, o das ampolas muda principalmente no que se refere à composição química do material. “Tivemos que fazer algumas modificações a fim de que o material respondesse a uma determinada radiação de forma conveniente”, justifica. Para a aferição, os pesquisadores desenvolveram um dispositivo eletrônico, uma espécie de colorímetro, para investigar a cor do material e, consequentemente, fornecer ao usuário realmente a radiação que o

equipamento está informando ao paciente. “As ampolas mudam abruptamente de cor e a resposta muda basicamente em função do material luminescente. A gente parametriza cor com dose e temos um software que faz esse controle”, descreve o coordenador da pesquisa. Segundo Bianchi, normalmente, esses equipamentos são controlados apenas por computador, o que dificulta a correção de irregularidades em tempo hábil. “A proposta é que, ao prescrever determinada dose a um paciente, seja realizado, antes do tratamento, o teste com uma ampola, que determinará se o equipamento está fornecendo a dose correta de radiação”, diz. Desde a matéria publicada na revista MINAS FAZ CIÊNCIA, as pesquisas receberam dois primeiros lugares em prêmios nacionais: um do Ministério da Saúde e um da empresa Siemens, ambos na categoria Inovação Tecnológica. “No ano passado, fomos convidados a participar de um congresso da área de materiais, que é o maior congresso da área no mundo. Nosso trabalho foi apresentado em Negócios e Nanotecnologia e muito bem aceito”, completa Bianchi.

Foto: Arquivo Pessoal Rodrigo Bianchi

O “semáforo inteligente” consiste em um adesivo fixado à fralda do bebê, mudando de vermelho a verde, de acordo com a radiação recebida. MINAS FAZ CIÊNCIA - DEZ. A FEV. / 2010

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Engenharia Civil

A vida

secreta dos prédios Pesquisadores da UFU aprimoram métodos para determinar vida útil de edificações 34

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É muito comum ouvirmos o termo “patologia” para designar doenças ou males que acometem algum ser vivo. Mas a palavra também é utilizada pela Engenharia Civil para se referir ao ramo que estuda sintomas, origens e soluções dos problemas apresentados por edificações. Como ciência que se dedica a tratar da “saúde” de imóveis, a Patologia das Construções possui meios de examinar o estado das edificações. Além de detectar possíveis problemas que possam ser apresentados pelas estruturas, essas técnicas também ajudam a determinar qual a vida útil do prédio, definido pela Norma Técnica NBR 6118, de 2003, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), como o tempo pelo qual as estruturas desempenham a sua função sem a necessidade de grandes reparos. Agora, um projeto de professores da Faculdade de Engenharia Civil da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), batizado de “Previsão de Vida Útil” (PREVIU), está propondo métodos de determinação da vida útil da construção, a partir das ferramentas de detecção de patologias e confiabilidade estrutural, que analisa o ciclo de vida dos equipamentos. A determinação da vida útil de um objeto, móvel ou imóvel, tem grande importância em ramos como a indústria de bens eletrodomésticos, máquinas e automóveis e vem ganhando crescente atenção no ramo de construção civil. No entanto, o coordenador do projeto e professor do curso de Engenharia Civil, Turibio da Silva, explica que a NBR 6118, que é uma norma para projeto, recomenda a análise apenas em casos de surgimento de algum problema das estruturas. Com a intenção de estabelecer um método para mensurar a durabilidade das armações de concreto antes das manifestações de “doenças”, a equipe do PREVIU, iniciado em 1997, trabalhou com a associação de três ferramentas de análise do estado dos prédios: a extração de microtestemunhos, que são fragmentos retirados de várias partes do edifício; a esclerometria, ou medição

da resistência do concreto; e a ultrassonografia, para analisar o estado das estruturas por meio de imagens internas.

Fotos: Arquivo Turíbio da Silva

Análise preventiva

Uma das inovações proporcionadas pelo projeto é possibilitar que a análise seja feita logo após a conclusão da obra e não anos depois, como prega a maior parte dos métodos. “O nosso método é para ser aplicado ao final da construção. Portanto, se existir algum problema, ele poderá ser sanado rapidamente e a vida útil será atingida conforme planejada”, afirma Silva. A agilidade para a análise permite a redução de possíveis custos com a correção de erros que poderiam ir se agravando com o passar do tempo. A técnica leva em consideração dados sobre o cimento, o agregado (formado por rochas, brita, areia e outros materiais similares que dão mais estabilidade à massa) e o aço que compõe as estruturas armadas. O exame de esclerometria, uma das ferramentas de análise, consiste na produção de um impacto sobre a su-

A ultrassonografia mostra o estado interno das estruturas.

A pesquisa detecta problemas nas estruturas de prédios, como na foto, em que se verifica um processo de corrosão.

O exame de esclerômetria consiste na produção de um impacto sobre a estrutura, a fim de avaliar sua resistência.

Os “testemunhos de concreto” são fragmentos retirados dos edifícios para análise.

perfície do concreto para analisar sua “resistência” e homogeneidade. Já a ultrassonografia refere-se ao exame das estruturas para verificar o comportamento das estruturas de concreto armado, homogeneidade, fissuras internas ou concreto com variações internas de comportamento. Tudo é a realizado com o que os pesquisadores chamam de “corpos-de-prova”, que são esses fragmentados das edificações. A extração de testemunhos é uma técnica tradicional já muito utilizada e prevista por outra norma técnica, a NBR 7680, de 2007. Porém, os professores da UFU propõem a adoção de diâmetros menores do que aqueles definidos pelo documento, de, no mínimo, 100 milímetros. Assim, ao invés de “pedaços” de 50, 100 e 150 mm, utiliza-se o corte de outros de 22, 32 e 38 mm. Extraídos na direção horizontal dos blocos de concreto, das partes inferior e superior da construção, os testemunhos são usados para obter informações sobre a resistência, composição, contaminação do concreto, entre outros. MINAS FAZ CIÊNCIA - DEZ. A FEV. / 2010

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Silva explica que os microtestemunhos podem ser comparados a uma espécie de biópsia da construção. “Para o diagnóstico é necessário obter uma amostra. O local de retirada depende de um estudo de especialistas para não comprometer a segurança”, diz. Como a retirada desses “pedaços” do prédio possui um caráter destrutivo, é recomendável que se extraia um menor número possível de fragmentos e dos menores tamanhos possíveis. Antes de tudo, é necessário que a extração seja muito bem-planejada, seguindo um procedimento previamente determinado. Para avaliar a técnica, foram recolhidas, durante seis meses, cerca de 240 amostras extraídas de edificações recém-construídas, como o edifício 5E do Campus Santa Mônica, concluído em 2003, onde foram realizadas as primeiras inspeções. As informações recolhidas serviram para alimentar o banco de dados de um software de análise estatísticas chamado Statgraphics, que ajuda a definir regularidades em se tratando das estruturas. Mais tarde, a técnica foi aplicada novamente na análise de outros quatro prédios, concluídos em 2005, nos quais foram feitos ensaios de esclerometria e ultrassonografia e, em um deles, extração de testemunhos.As informações foram utilizadas para ajudar a definir padrões de comportamento das variáveis que afetam a estrutura e a probabilidade de falha das vigas da estrutura ao longo do tempo, relação que é graficamente representada por uma curva ascendente, indicando que as chances vão aumentando ao longo dos anos, graças ao desgaste dos materiais. “Toda a atividade que se realiza tem um risco. Os bens móveis ou imóveis também têm embutidos uma probabilidade de falhar. No caso dos edifícios, as normas de cada país definem qual será, aproximadamente, essa probabilidade de falha”, diz o professor para justificar a importância da previsão de erros na fase de projetos. No Brasil, as normas que tratam das estruturas de concreto armado estimam que a chance de falha seja de 1 em 1 milhão. Essa é a base de cálculo usada

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para a elaboração do projeto estrutural. Após sua execução, a probabilidade aceitável pode aumentar. Para a pesquisa, foi adotada a relação de 1 em 1 mil, considerando o edifício já concluído. A diferença entre as taxas, explica o professor, se deve ao fato de que, quando o prédio já foi construído, muitos erros que eram apenas possíveis de ocorrer já podem ter sido concretizados devido a equívocos da mão de obra ou da qualidade do material empregado. A fim de que as análises sejam o mais plausível possível, Silva conta que é importante ampliar ao máximo o número e a variedade de dados disponíveis para que se possa definir com mais segurança o que há de fixo em relação ao desgaste das edificações. “Cada estrutura construída é única e dificilmente se repetirá, mas, se for anotado o resultado de vários tipos de estruturas e situações, após vários anos será possível obter padrões que permitirão diminuir o número de testemunhos necessários para a avaliação de uma estrutura”, diz.

Patologias

A maioria dos prédios pode apresentar algum tipo de patologia com o passar dos anos. Por isso, o mais adequado é que a preocupação com esse tipo de problema se inicie ainda na fase de elaboração do projeto, quando se deve atentar para as normas técnicas de construção. Segundo o coordenador do projeto, as orientações foram atualizadas de modo a propiciar uma vida útil estimada em 50 anos para os edifícios. “É importante lembrar que um edifício é composto de várias partes e algumas durarão poucos anos, mas o mais importante é a estrutura”, revela. Apesar da possibilidade de se antecipar, o pesquisador conta que, apenas depois de concluída a obra, será possível tentar determinar sua vida útil. O principal causador de “doenças” para as construções, de acordo com ele, é a umidade, que pode levar as armaduras (barras de aço) do concreto armado à corrosão, em sua manifestação mais grave. Isto ocorre devido a

ação de gás carbônico, resultante da queima de combustíveis fósseis, e de cloretos, substâncias compostas por cloro associado a outro elemento, na atmosfera. Temperatura e qualidade do concreto são outras variáveis que afetam a saúde dos edifícios. As patologias de incidência mais comum são aquelas relacionadas aos elementos de vedação como paredes, revestimentos e instalações, todas de natureza menos grave, ao passo que aquelas apresentadas pelas estruturas custam a se manifestar. “Elas são as mais prejudiciais ao edifício e poderão levar ao colapso, caso não sejam tratadas a tempo”, alerta. Mesmo com sua relevância para a manutenção das edificações e a contribuição para a redução de gastos de manutenção ou com reformas, o professor conta que o estudo das patologias e mensuração da vida útil das edificações ainda não tem avançado muito porque esbarra em pontos como a resistência do construtor em fornecer dados durante a construção e a falta de informação da sociedade em relação à importância desses aspectos técnicos. Para ilustrar a incoerência, ele compara os cuidados que precedem a compra de um carro e a de um imóvel. “Quando se pretende comprar um carro, vários itens são verificados como desempenho, garantia, segurança e, se for um carro usado, ainda levase a um mecânico de confiança para verificar seu estado. No caso do imóvel, que custa muito mais, simplesmente olha-se os cômodos, acabamento e financiamento. Se depois de alguns anos aparece um problema, ainda encontramos pessoas que dizem que ‘é assim mesmo’ e que ‘sempre ocorre este problema’. Aí, ou se recupera e arca com os prejuízos ou a questão será decidida na Justiça”, conclui. Desireé Antônio Projeto: “Desenvolvimento de método para estimar a vida útil de estruturas de concreto durante a construção visando atender à NBR 6118:2003” Modalidade: Edital Jovens Doutores Coordenador: Turibio José da Silva Valor: R$12.991,00


EstatĂ­stica

Em tempo real Projeto desenvolve metodologia para acompanhamento de eventos de criminalidade

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Fotos: Gustavo Costa

Equipe envolvida na pesquisa. Em destaque, o coordenador Marcos Antônio Santos, da UFMG.

A velocidade na transmissão e recepção de informações tem tornado cada vez mais ágil a troca e disponibilidade de dados. A interconexão entre culturas, economias e países acelerou a resposta e ampliou, no mesmo ritmo, o alcance de causas e efeitos, sejam eles provenientes de eventos positivos ou não. Isso possibilita, por um lado, o trabalho em escala global pela busca de curas e novas vacinas, com diálogo aberto entre pesquisadores e centros de referência em todo o mundo. Por outro, a queda de barreiras permite, por exemplo, a disseminação acelerada de uma epidemia. O vírus H1N1, surgido no México, rapidamente se alastrou por todo o globo, transformando-se em um problema de saúde mundial. O ritmo das transformações e mudanças tem desafiado especialistas na construção de alternativas para cercar a evolução desenfreada das informações. No campo estatístico, os grupos de pesquisa têm se empenhado no estudo de ferramentas e técnicas para agilizar a coleta de dados e, na era da velocidade, ajudar na construção de soluções que permitam o domínio de acontecimentos e fatos relacionados à saúde, segurança pública, economia, educação, entre outras áreas. Desenvolver uma metodologia estatística direcionada ao acompanha-

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mento de eventos, com possibilidade de controle e análise em tempo real, é a proposta de uma pesquisa conduzida por pesquisadores do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Financiado pela FAPEMIG, o projeto é coordenado pelo professor Marcos Antônio Santos. Intitulado “Metodologia para Monitoramento e Controle Estatístico em Tempo Real de Taxas de Criminalidade”, o trabalho tem por finalidade criar um sistema adaptável e dinâmico de controle de dados.

Metodologia dinâmica

Partindo de eventos de criminalidade como objeto de referência, a equipe buscou desenvolver uma metodologia dinâmica, que permitisse não só maior agilidade no acesso a esses dados, mas também um monitoramento on-line, como forma de viabilizar o controle seguro e eficaz de um processo em observação. Para a inserção na rede, foi considerada a utilização de um programa de computador que abarcasse velocidade, precisão e disponibilidade, com menos restrições. O objetivo principal foi o desenvolvimento de um programa de fácil implementação em ambiente computacional (software livre), voltado para a detecção de aglomerados espaço-temporais. Basicamente, de acordo com

Santos, a metodologia visa identificar se o aparecimento de eventos próximos no espaço e no tempo é atípico ou se eles estão, com maior probabilidade, associados a um padrão esperado de ocorrências. Tudo isso a partir dos dados lançados no sistema e que, tão logo sejam inseridos, permitirão tirar conclusões conforme o comportamento dos dados na história recente. “Por enquanto, temos um software protótipo que trabalha com um banco de dados inserido previamente pelo usuário, com dados sobre um período anterior”, descreve o professor. Para os testes, os pesquisadores utilizaram dados da Polícia Militar de Minas Gerais, cedidos para fins de pesquisa e acompanhamento. “Testamos a técnica com dados da região metropolitana, apenas para os casos de furtos e roubos a estabelecimentos comerciais”, contextualiza. Na Polícia Militar, as informações foram coletadas a partir dos registros das ocorrências policiais. Como destaca Santos, determinar se um aglomerado de eventos é atípico é uma informação útil, pois permite aos agentes envolvidos no monitoramento verificar se há novas causas possíveis para o aumento do número de ocorrências em uma área geográfica. “Este tipo de metodologia, dentro da estatís-


tica espacial, é conhecido como ‘sistema de alarme’. Neste contexto, podemos dizer que o nosso projeto procurou desenvolver um novo método para um sistema de alarme”, aponta. “No futuro, será possível a utilização de dados à medida que forem coletados pelos agentes envolvidos”, completa.

Desafios para aplicação

Atualmente, existe grande interesse na pesquisa recente em Estatística e áreas afins quanto à utilização de métodos estatísticos para análise de dados georeferenciados, isto é, dados com informação sobre a posição geográfica em que os eventos ocorrem. Por isso, desenvolver um novo método de análise na área, com possibilidade de uso on-line, parecia um ótimo desafio para a equipe de Marcos Antônio Santos. “Há vários métodos disponíveis para análises estatísticas deste tipo que, naturalmente, apresentam suas vantagens e limitações”, diz. Por isso, para ser mais que uma ferramenta para análise de dados espaciais, chegou-se à proposta interativa, com a disponibilidade do método no ambiente computacional e que pudesse ser experimentada também por usuários não-especializados. “Há um benefício direto para a sociedade, já que pretende-se disponibilizar mais uma ferramenta para análise de dados espaciais, voltada para uso especializado ou não”, enfatiza o coordenador. O programa pode ser utilizado, por exemplo, por profissionais que atuam em políticas públicas. Nessas áreas,

de acordo com o professor,“o controle de eventos, acompanhado de mapas geográficos, análise de padrões de ocorrências, é de grande interesse”. Apesar de pretender que o software alcance o público em geral, o professor lembra que para experienciar o programa é necessário algum conhecimento básico no uso de ferramentas estatísticas. “O programa atenderá aos objetivos de profissionais de instituições ou órgãos governamentais, por exemplo, que estão mais familiarizados com as possibilidades (e limitações) de análises deste tipo”, ressalta. “Para o público mais geral, interessado em análises do gênero, é importante citar o software TerraView, que utiliza metodologias similares, algumas desenvolvidas e implementadas pelos pesquisadores do Laboratório de Estatística Espacial”, exemplifica. Além de ser gratuito, o TerraView apresenta várias funcionalidades como sistema de alarme, atributos que podem orientar o cidadão comum na descoberta das aplicações e da utilidade desse sistema de monitoramento.

Aplicativo multiuso

O diferencial do software está, justamente, em suas múltiplas possibilidades de aplicação. Para Santos, em princípio, o software poderá ser utilizado para controle e monitoramento de qualquer tipo de banco de dados e de padrões de ocorrências, desde que existam dados suficientes disponíveis sobre o tema. Embora o objeto de análise neste projeto, que ainda se encontra em

Foto: Gustavo Costa

O software indica se o aparecimento de eventos próximos no espaço e no tempo são atípicos ou têm padrão esperado de ocorrências.

fase de testes, seja o banco de dados específico de criminalidade, o grande propósito da equipe é criar uma metodologia adaptável para aplicação geral. “Este produto poderá ser utilizado para análise de dados de outras áreas do conhecimento, como epidemiologia, por exemplo”, destaca. “Para aplicação direta, preferimos ter como foco a questão da detecção de tendências de agravamento no número de ocorrências em dados de criminalidade, em função de nossa experiência com análise de dados dentro desse contexto, principalmente devido a trabalhos já desenvolvidos em parceria com o Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp) da UFMG”. Segundo o professor, um dos destinos pensados pela equipe para a nova metodologia é a incorporação em um projeto maior, que permita a análise de dados espaciais, com uso desta e de outras metodologias, por meio da web. “Ou seja, a ferramenta poderá permitir a consulta e a realização de cálculos pelo usuário, com o auxílio do computador”, caracteriza. “Esse é um exemplo de produtos nos quais estamos interessados em desenvolver juntamente com a pesquisa acadêmica do tema”, complementa. A observação, até o momento, sugere resultados promissores. “O projeto se encontra em fase de teste da metodologia para uso mais geral e no desenvolvimento de uma versão do software para uso de público não-especializado, de outras áreas do conhecimento”, contextualiza. “O método também deverá ser implementado em futuras versões do software livre TerraView, desenvolvido pelo Leste, em parceria com o Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe)”, sinaliza. Outras informações sobre TerraView e suas aplicações podem ser observadas no site do Leste: www.est.ufmg.br/leste. Guilherme Amorim Projeto: “Metodologia para monitoramento e controle estatístico em tempo real de taxas de criminalidade” Modalidade: Edital Universal Coordenador: Marcos Antônio da Cunha Santos Valor: R$17.129,00 MINAS FAZ CIÊNCIA - DEZ. A FEV. / 2010

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Microbiologia

Caça às bactérias Pesquisa identifica microrganismos no leite e no queijo Minas frescal que podem causar doenças Todos os dias, em nossas rotinas, somos expostos a uma diversidade de bactérias. Algumas são inofensivas, outras nem tanto. Entre as principais fontes de transmissão destas bactérias estão a água e os alimentos, essenciais para nossa sobrevivência. A ingestão de bebidas e alimentos contaminados pode causar as denominadas “doenças transmitidas por alimentos”, conhecidas como DTAs. Existem mais de 250 tipos de DTAs, e a maioria são infecções causadas por bactérias e suas toxinas, vírus e parasitas. Os sintomas mais relatados são falta de apetite, vômitos, náusea, diarreia, e algumas vezes febre. As DTAs sobrecarregam o sistema de saúde e são mais comuns em idosos, crianças e indivíduos imunodeprimidos (portadores AIDS, neoplasias e transplantados). Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que mais de dois milhões de crianças nos países em desenvolvimento morrem todos os anos devido a doenças relacionadas a diarreias, e que a água e os alimentos são o veículo para a maioria dessas doenças. Alguns surtos de DTAs têm distribuição e consequências de caráter local, mas outros, como no caso de infecções pela bactéria Salmonella, podem assumir proporções internacionais,

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causando prejuízos ao comércio dos países envolvidos. Dados do Ministério da Saúde mostraram que entre 1999 e 2008 ocorreram no país mais de seis mil surtos de doenças transmitidas por alimentos, a maioria delas (84%) causadas por bactérias. Os surtos de etiologia bacteriana também respondem por 60% das hospitalizações e por aproximadamente 70% das mortes. Alimentos de origem animal são os grandes vilões das DTAs. Por exemplo, uma carne mal passada ou o ovo que não foi cozido na temperatura ideal. Boa parte também se deve ao consumo do leite não pasteurizado e de seus derivados, especialmente queijos. No Brasil, muitos surtos de intoxicações são associados ao consumo de queijo do tipo Minas frescal, tradicionalmente consumido pelas famílias mineiras. Este tipo de queijo não sofre cura e possui alta umidade, o que favorece o desenvolvimento de microrganismos. Diante disto, pesquisadores da Embrapa Gado de Leite, localizada em Juiz de Fora (MG), desenvolveram um estudo para identificar e caracterizar os patógenos bacterianos contaminantes do leite cru e pasteurizado e do queijo Minas frescal bem como suas fontes de contaminação. “O estudo buscou analisar a segurança do leite e seus de-


rivados e saber se as fontes de contaminação se encontravam na ordenha, no processo produtivo ou no varejo”, relata um dos coordenadores do projeto, José Renaldi Feitosa Brito.

Fotos: Fernando Barbosa

Vilão microscópico

Patógenos são organismos capazes de atacar outros organismos vivos (plantas e animais) e causar doenças. São, geralmente, bactérias, fungos ou vírus. O projeto da Embrapa buscou identificar especificamente os seguintes patógenos bacterianos: Escherichia coli O157:H7, Listeria monocytogenes, Salmonella spp. e Staphylococcus aureus no leite cru e pasteurizado e no queijo Minas frescal comercializados na cidade de Juiz de Fora (MG) e região. A equipe buscou durante dois anos nas padarias, mercearias e supermercados amostras de leite pasteurizado e queijo Minas frescal. Numa primeira etapa foram analisadas 100 amostras de cada produto. Staphylococcus aureus foi o único patógeno a ser encontrado no leite. A bactéria foi também foi encontrada em 36 amostras de queijo (seis marcas positivas, de um total de 10 marcas pesquisadas). A bactéria Listeria monocytogenes foi isolada de quatro amostras de queijo, todas da mesma marca (foram analisadas 10 marcas), no período do inverno. Já as bactérias Salmonella spp. e E. coli O157:H7 não foram encontradas em nenhuma das 100 amostras de queijo

Os coordenadores do projeto, Carla Lange e José Renaldi Feitosa MINAS FAZ CIÊNCIA - DEZ. A FEV. / 2010

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da em 27% delas. Já a Listeria monocytogenes foi encontrada em 1,7% das amostras. “O S. aureus é problemático em alimentos prontos para consumir. A contaminação geralmente vem da pessoa que manipula o alimento. A pessoa pode ser portadora e não ter sintomas, aí esta o grande problema”, explica o pesquisador.

Foto: Fernando Barbosa

Pesquisa x soluções

e 100 amostras de leite pasteurizado analisadas nos dois períodos (inverno/ verão). Com esse resultado, a equipe optou por trabalhar apenas na análise do queijo Minas frescal, pesquisando a prevalência de duas bactérias: Staphylococcus aureus e Listeria monocytogenes. Esta foi a segunda etapa do projeto, que analisou 632 amostras de queijo comercializados na região. Estas duas bactérias podem causar diversas doenças infecciosas. No caso de Staphylococcus aureus, meningite, pneumonia, infecções urinárias, intoxicações alimentares, entre outras. Já a bactéria Listeria monocytogenes é ainda mais perigosa e um dos principais agentes de doenças transmitidas por alimentos, pela alta taxa de mortalidade (20 a 30%) e pela severidade dos sintomas que causa, especialmente em alguns grupos de risco (fetos, recémnascidos, idosos, e pessoas com o sistema imune enfraquecido devido a doenças crônicas ou seus tratamentos, como AIDS e câncer). Das 632 amostras de queijo analisadas, a bactéria S. aureus foi encontra-

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Foto: Fernando Barbosa

As bactérias isoladas foram analisadas e todas elas apresentaram o mesmo perfil genético

A terceira etapa do estudo foi investigar as fontes de contaminação do queijo Minas frescal. Com este objetivo foi escolhido um laticínio produtor de uma marca que apresentou contaminação por L. monocytogenes.“É importante ressaltar que todos os queijos analisados eram inspecionados, nenhum deles era produzido no mercado informal”, destaca o pesquisador. No caso do laticínio onde foi encontrado a bactéria Listeria monocytogenes, o queijo era inspecionado pelo Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA). Após a identificação do patógeno no queijo adquirido no comércio, a Embrapa Gado de Leite entrou em

contato com o IMA. A equipe do projeto, juntamente com um representante do Instituto, foi até o laticínio para coletar amostras do queijo que estava sendo produzido, bem como amostras do ambiente do laticínio e do leite cru utilizado para a fabricação dos queijos. Na ocasião, o produtor foi orientado e aceitou interromper a fabricação até que o problema fosse resolvido. As análises laboratoriais apontaram a presença do patógeno no queijo pronto para o consumo, no refrigerador usado para armazenar os queijos e em outros locais (piso, formas, bancada) após a passagem do queijo ou sua massa pelo refrigerador. Todos os pontos de processamento anteriores à refrigeração da massa do queijo (incluindo o leite cru, que é a matéria-prima) foram negativos para o patógeno. “As bactérias isoladas foram analisadas e todas elas apresentaram o mesmo perfil genético, o que indica que elas tinham uma origem comum. Concluímos então que a fonte de contaminação era o refrigerador usado para armazenar os queijos”, relata Brito.

As bactérias isoladas estão armazenadas na Coleção de Microorganismos da Embrapa Gado de Leite


A partir deste resultado, a equipe da Embrapa e o IMA desenvolveram um trabalho inédito de consultoria para este laticínio. O produtor foi orientado pela equipe do projeto a fazer a desinfecção do local. Foi também realizada uma reforma das instalações e do refrigerador contaminado, sob orientação do IMA.Todas as melhorias sugeridas foram realizadas pelo produtor, inclusive modificações no layout do local. Após a reabertura do laticínio, foram analisados periodicamente, durante um ano, os queijos produzidos por eles e vendidos no comércio. Foram feitas quatro visitas ao estabelecimento, com coletas de amostras do ambiente e dos queijos produzidos, para pesquisa de L. monocytogenes. Segundo o pesquisador, todas as amostras examinadas foram negativas para L. monocytogenes, concluindo-se que a reforma e a desinfecção das instalações resolveu o problema de contaminação dos queijos. “O estudo chama a atenção para a necessidade de um maior controle sanitário na industrialização e produção do leite e seus derivados. É um problema nacional e até mesmo mundial. Além disto, o projeto mostrou que a pesquisa pode ir além de apenas identificar o problema, mas apontar a solução”, finaliza. Outro resultado positivo foi que as bactérias isoladas estão mantidas na Coleção de Microrganismos da Embrapa Gado de Leite e podem ser utilizadas para a realização de estudos comparativos, em associação com outros grupos de pesquisa nacionais e internacionais, possibilitando o melhor entendimento da epidemiologia e do papel desses patógenos na cadeia alimentar. Juliana Saragá

Projeto: “Identificação e caracterização molecular de patógenos bacterianos isolados de leite cru, pasteurizado e de queijo Minas frescal, e identificação de fontes de contaminação desde a produção primária até o produto final” Modalidade: Edital Agronegócios Coordenadora: Carla Christine Lange Valor: R$154.800,40

Palavra-chave

DESAFIOS PARA A 4ª CNCTI Mario Neto Borges*

A 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (4ª CNCTI) é terreno fértil para a reflexão e decisões que podem mudar a realidade nacional, garantindo (ou não) o desenvolvimento social e econômico sustentável que tanto se busca e que o país merece. Para isso destacam-se alguns pontos cruciais para sucesso desta importante iniciativa nacional. O Brasil tem a oportunidade, nos próximos 10 anos, de consolidar-se no cenário mundial como um país de produção competitiva e portador de política arrojada. Para isso, precisará garantir a perenidade das Políticas de Estado que regem a definição e o investimento nas atividades de CT&I. É importante priorizar o aumento dos investimentos na área e a integração entre os órgãos de governo, como os Ministérios da Ciência e Tecnologia, Educação, Agricultura, Indústria e Comércio, entre outros, para que componham uma agenda estratégica nacional e proporcionem robustez aos recursos aplicados. Como meta para os próximos 10 anos, a proposta é o aumento gradativo dos investimentos para o patamar de 2% do PIB. As ICTs e as Agências de Fomento se ressentem do tratamento que lhes é dispensado pelos órgãos de fiscalização e controle externo. Diferentemente dos demais órgãos que integram a administração pública, tais instituições requerem, pela especificidade de sua atividade fim, trato diferenciado. Nesse aspecto, há muito se identifica a necessidade da reforma do arcabouço legal que rege os mecanismos de fomento à CT&I, em especial no que se refere às transferências de recursos, ao controle externo (TCU, CGU, AGU, MPU e correspondentes na esfera estadual) e à condição do pesquisador sujeito ao Regime Jurídico Único. A legislação que rege os repasses de recursos entre os órgãos públicos e sua execução orçamentária precisa ser simplificada. Muitos dos arranjos estratégicos entre órgãos governamentais, e desses com entidades privadas, encontram obstáculos na Lei federal nº 8666/93, na Instrução Normativa nº 01/97 da SRF/ MF, na Portaria Interministerial 127/08, entre outras. A legislação inviabiliza a parceria com empresas quando proíbe a extensão de imunidades e isenções, por não considerar as peculiaridades e o dinamismo da pesquisa científica. Assim, considerando que uma das metas é a ampliação da inovação nas empresas e a consolidação do sistema nacional de CT&I, entende-se que a 4ª CNCTI é oportunidade de discussão sobre a flexibilização da atual legislação e o aprimoramento dos sistemas de controle. As Leis de Inovação federal e estaduais estabelecem medidas de incentivo à inovação e à pesquisa no ambiente empresarial, com vistas à capacitação, ao alcance da autonomia tecnológica e ao desenvolvimento industrial brasileiro. O desafio do Brasil é o aprimoramento dessa relação, que já se provou dinâmica e consistente, entre os setores empresarial, governamental e científico/tecnológico. Em especial, a política industrial brasileira deverá estar integrada com a política de CT&I. As empresas precisam crer que a inovação tecnológica proporcionará maior competitividade e que a aliança com órgãos governamentais de fomento à pesquisa e com os próprios pesquisadores tem muito a colaborar para esse sucesso. Todas essas proposições implicam a sensibilização do Poder Legislativo quanto às peculiaridades das atividades de CT&I. Os trabalhos de discussão, elaboração e aprovação do orçamento anual, por exemplo, precisam ser prontamente assistidos com informações que exponham as necessidades de desenvolvimento dos instrumentos de gestão de CT&I no Brasil. As ações que promoverão essa sensibilização precisam ocorrer em todos os níveis de governo. A articulação entre o setor científico/tecnológico nacional e o Poder Legislativo promoverá a sintonia necessária para o estabelecimento de ações e políticas que estimulem e apóiem o desenvolvimento científico e tecnológico. O grau de sucesso da CNCTI está intimamente relacionado aos avanços que serão conseguidos na abordagem destas questões.Vamos a luta! Presidente da FAPEMIG e do CONFAP

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Planejamento

Diretrizes de Minas IGA prevê a disponibilização de informações cartográficas para a elaboração dos planos diretores no Estado

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Construir estradas, elaborar estratégias de segurança, planejar o fornecimento de água e energia elétrica, cabear redes de dados e telefonia, detectar focos de doenças, definir áreas de agricultura. Para esses e diversos outros fins, é fundamental o conhecimento do espaço sóciogeográfico. É nele que se baseiam os planos diretores dos municípios, documento que, por determinação do Ministério das Cidades, são de elaboração obrigatória para cidades com mais de 20 mil habitantes, que têm grande importância turística ou que irão realizar projeto industrial de grande porte. O plano diretor é o planejamento para o crescimento do município, estabelecido por meio de discussão pública, que prevê as normas para a ocupação ordenada da cidade. Isso é feito pela identificação e análise das características físicas do município, suas principais atividades econômicas, problemas e potencialidades.O objetivo principal é garantir a qualidade de vida da população e a preservação dos recursos naturais. Uma vez elaborado, o plano diretor deve ser aprovado pela Câmara de Vereadores e sancionado pelo prefeito. O resultado, formalizado como Lei Municipal, é a expressão do pacto firmado entre a sociedade e os poderes Executivo e Legislativo. Muitos dos municípios obrigados a terem um plano diretor, no entanto, esbarram em dificuldades no levantamento de informações. Alguns itens obrigatórios no plano nem sempre são facilmente obtidos. São exigências, por exemplo, que ele inclua o mapa do município mapas de caracterização e distribuição da população, mapas de uso de solo, mapa de infra-estrutura urbana, atividade econômica, entre outros. Foi pensando em questões como essa que a geógrafa do Instituto de Geociências Aplicadas (IGA) Maria Elizabeth Torres e sua equipe criaram o programa computacional PDirAC – Plano Diretor Assistido por computador.

O programa computacional PDirAC vai disponibilizar na internet o acervo de dados geo-cartográficos para todos os municípios de Minas Gerais. De acordo com Elizabeth o principal objetivo do trabalho é oferecer uma ferramenta para subsidiar a elaboração dos planos diretores de Minas, em especial para os municípios com população abaixo de 20 mil habitantes. Isso porque 80% dos municípios mineiros possuem menos de 20 mil habitantes e, portanto, não são obrigados a elaborar um plano diretor. Assim, pequenos municípios, a não ser por meio de ações de empresas privadas, não chegavam a ter acesso a informações detalhadas sobre seu território. “Eles não têm obrigação de fazer o plano diretor, mas, se a cidade crescer ordenada, é muito melhor,” diz Elizabeth. Para ela, a disponibilização do acervo de dados cartográficos do IGA em formato digital beneficiará principalmente os gestores públicos, mas também pesquisadores e a população, que terá acesso à plataforma. A pesquisadora explica que o IGA é responsável pela cartografia básica do Estado e já reunia, portanto, uma série de mapas. “Precisávamos disponibilizar isso e esse foi um dos motivos que nos levou a fazer o projeto. É muito importante para o serviço público dar retorno à sociedade disponibilizando os trabalhos realizados”, diz. Para isso, foi feito inicialmente o levantamento e a recuperação de dados que estavam registrados apenas em papel. Tais dados foram digitalizados e inclusos no programa, que foi idealizado pelos pesquisadores e desenvolvido por um consultor. Segundo Elizabeth, a pesquisa também utilizou informações já levantadas em sua dissertação de mestrado sobre a mensuração da qualidade de vida. “A pesquisa fez um levantamento dos principais itens a serem considerados para medir a

qualidade de vida nas cidades, o existe e onde se localizam no município, determinando uma nota para eles. Por exemplo, se um quarteirão não tem infra-estrutura (telefonia, luz, esgoto, calçamento) ele vai ter nota zero”, explica. Para ela, o banco de dados é, sobretudo, uma excelente ferramenta de planejamento e gestão. “É um levantamento para que se veja o que existe na cidade, como são feitas as coisas e onde elas estão. Quando você faz esse levantamento, associando cartografia e informações geográficas, você obtém uma visão bem detalhada do município o que possibilita elaborar e estruturar um excelente planejamento. Em gestão, isso é fundamental para fazer planejamento.”

Facilidade

A inovação do projeto está em disponibilizar online mapas que, até então, não estavam digitalizados. O programa computacional PDirAC permite que os municípios tenham acesso a várias informações sem precisarem construir um sistema de dados próprio, cujo custo é muito MINAS FAZ CIÊNCIA - DEZ. A FEV. / 2010

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elevado. “Com a nossa ajuda, o município consegue manter atualizada uma série de dados, mesmo se for pequeno. Nossa intenção é essa: que ele tenha acesso a essas informações mesmo se não tiver recursos”, diz Elizabeth. O PDirAC disponibiliza dois bancos de dados: um com dados quantitativos sobre a população e outro com dados geográficos, que inclui as bases cartográficas. Inicialmente, apenas Belo Vale (MG), localizada no quadrilátero ferrífero, teve todos os dados inseridos. “Belo Vale foi o nosso município piloto. Os demais municípios mineiros possuem acesso a diversas informações, contudo a pesquisa completa, como foi realiza no município de Belo Vale, somente será realizada por meio de convênio a ser firmado com o IGA e a prefeitura do local”, adianta a coordenadora do projeto. Por enquanto, informações sobre os demais municípios do Estado existem, mas não estão detalhadas. Já é possível, por exemplo, visualizar todo o mapa de solos do Estado. Um outro exemplo é o mapa de biomas

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de Minas, que é dividido por cores e contém legendas explicativas. Em Belo Vale, por exemplo, é possível obter informações sobre cada elemento de sua infra-estrutura, como abastecimento de água, energia elétrica, telefonia fixa, gás canalizado, coleta de esgoto, redes de TV e dados, telefonia móvel, entre outros. Também é possível verificar questões como características da via urbana, iluminação pública, revestimento, coleta de lixo, padrão de edificações e arborização. O sistema de atualização das informações do programa computacional PDirAC é online realizado por pessoal credenciado pela prefeitura. Além disso, um plano diretor é constantemente revisto e está relacionado a uma série de leis, como o código posturas e o zoneamento da cidade. “O programa já foi feito pensando que informações poderiam ser acrescentadas”, conta Elizabeth. Segundo a pesquisadora, quando os dados reunidos são imediatamente disponibilizados, há a segurança de que o que já foi feito não se perca. O PDirAC está disponível para toda a população no endereço eletrônico http://consoft.dnsalias.org:8080/ mapsrv_iga. “Já estamos tendo requisições de alguns municípios, não só pequenos como grandes, porque essa é uma ferramenta inovadora e eficiente, pois auxilia os gestores públicos de modo geral bem como aos pesquisadores. Na medida em que os convênios forem sendo assinados, acrescentaremos outras informações.”, afirma a pesquisadora. Por enquanto, a plataforma é gerenciada pelo consultor que a desenvolveu, mas a proposta é que passe para a responsabilidade da Companhia de Tecnologia da Informação do Estado de Minas Gerais (Prodemge). Segundo Elizabeth, alguns órgãos do governo já consultam o banco de dados, como é o caso da Secretaria de Estado Desenvolvimento Regional

e Política Urbana (Sedru). O trabalho também foi apresentado a outras secretarias estaduais, para as quais representa potencial de aplicação imediata, como as Secretarias de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Sectes), de Transportes e Obras Públicas (Setop) e de Planejamento e Gestão (Seplag). Para a coordenadora da pesquisa, o uso da ferramenta representa a possibilidade de inovação nas metodologias da gestão estadual e na articulação de ações integradas na administração pública. “Conhecendo melhor o território, é possível planejar melhor”, afirma. Ariadne Lima e Raquel Dores

Projeto: “Construção de um protótipo para subsidiar, via internet, o plano diretor dos municípios mineiros” Modalidade: Demanda endogovernamental Coordenadora: Maria Elizabeth Leite de Oliveira Quintão Torres Valor: R$147.648, 97


Especial

Casa nova para a ciência FAPEMIG dá início à construção de sua sede própria Em junho, será realizada a Concorrência Publica nº 001/2010 da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais, destinada à contratação de empresa especializada para a execução de obras e serviços de engenharia necessários à construção da nova sede da FAPEMIG. Com isso, o projeto de uma casa própria para a Fundação, com toda a infraestrutura necessária para abrigar a equipe e para o bom desempenho de suas tarefas, começa a se concretizar. A nova sede será construída no bairro Horto, região leste de Belo Horizonte. Ela terá como vizinhos a sede da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), a Fundação Centro Tecnológico de Belo Horizonte (Cetec), o Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG, um campus da Universidade Estadual de Minas Gerais (Uemg) e a Fundação Biominas, incubadora de empresas da área de biotecnologia. “A região, com esse conjunto de instituições ligadas ao conhecimento e à pesquisa, já está sendo chamada de cidade da ciência”, conta o presidente da FAPEMIG, Mario Neto Borges. Ele explica que a necessidade de uma nova sede tornou-se mais forte especialmente a partir de 2007, quando a Fundação ganhou nova estrutura organizacional a partir da publicação da Lei Delegada nº 138/2007. A Lei criou novas unidades, como a Gerência de Propriedade Intelectual, o Departamento de Avaliação e o Departamento de Planejamento, além de efetivar outros setores que já funcionavam, mas não constavam no organograma da instituição. Com isso, a FAPEMIG passou a ter uma configuração de agência completa de fomento à ciência, tecnologia e inovação. O repasse do orçamento integral pelo Estado, equivalente a 1% da receita orçamentária corrente, também teve influência na decisão. Desde 2007, a FAPEMIG recebe os recursos previstos na constituição estadual. Com essa garantia, a Fundação conseguiu fortalecer os programas já existentes e criar novas modalidades, de modo a oferecer um leque completo de opções de financiamento aos pesquisadores minei-

ros. “Isso significa mais trabalho para a equipe, que já é enxuta. Foi necessário contratar novos profissionais e os andares alugados que atualmente nos abrigam acabaram ficando muito pequenos”, diz Borges. O projeto da nova sede prevê cinco blocos interligados, com salas adequadas para todos os departamentos da Fundação. Também estão previstas salas de reunião para avaliação dos programas e editais – atualmente, a FAPEMIG possui apenas duas salas de reuniões, constantemente em uso, o que torna mais demorado o processo de análise das propostas. Além disso, o prédio contará com estacionamento para funcionários e visitantes. Anexo à sede será construído um centro de convenções, dotado de auditório com capacidade para mil pessoas, quatro salas para reuniões de menor porte e toda infraestrutura necessária para a realização de eventos. Isso permitirá à FAPEMIG uma economia significativa na modalidade organização de eventos científicos, pois normalmente os grupos precisam utilizar os recursos aprovados para alugar auditórios e salas em hotéis da capital mineira. O novo vizinho trará benefícios também para as instituições de CT&I do entorno. O presidente da FAPEMIG acredita que a proximidade facilita a interação e a identificação de demandas. “É interessante para quem aprova os recursos, para quem é usuário e para aqueles que desejam conhecer um pouco do que se faz em Minas na área de ciência, tecnologia e inovação”. Para Mario Neto Borges, uma sede própria significa, ainda, a valorização do trabalho e da autonomia da instituição. “Nos últimos anos, a FAPEMIG cresceu muito e tem se destacado no cenário nacional e até mesmo internacional, tornando-se referência para outras agências de fomento. A casa própria é mais uma conquista que na certa irá contribuir para o aprimoramento das suas atividades, beneficiando toda a comunidade científica do Estado”. A previsão de duração da obra é de 18 meses. Se tudo acontecer como previsto, os funcionários da FAPEMIG se mudarão para a nova sede no fim de 2011.

O projeto da nova sede prevê cinco prédios interligados e um centro de convenções com auditório para mil pessoas

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Notas

A FAPEMIG foi uma das instituições convidadas para participar do debate público “Ciência, Tecnologia e Inovação em Minas Gerais”, organizado pela Assembleia Legislativa do Estado em maio. O objetivo foi realizar um diagnóstico da produção científica em Minas e no Brasil, além de elaborar um documento como contribuição à 4ª Conferência Nacional de Ciência,Tecnologia e Inovação. Além da FAPEMIG, participaram do debate a Finep, a UFMG, deputados e interessados no tema. No decorrer do encontro, transmitido ao vivo pela TV Assembleia, os expositores enfatizaram a importância do investimento em CT&I para o desenvolvimento econômico e social do país e ressaltaram a importância da participação das empresas neste processo.

Relógio de sol interativo Desde março, as pessoas que passam pela Faculdade de Educação da UFMG, no campus Pampulha, podem “operar” um grande relógio de sol. O trabalho é parte do projeto Pop Astronomia, que busca desenvolver ações de popularização e divulgação da ciência. Construído com recursos FAPEMIG, o relógio de sol, além de apontar o horário, permite que se façam projeções sobre as órbitas dos planetas.Além disso, serve para atrair estudantes e despertar o interesse para a astronomia e a observação do céu. Para consultar o relógio, basta posicionar-se na linha central da escala, com os meses marcados e a data. Depois, é só esticar os braços que a sombra faz o resto do serviço.

Está localizado na Praça da Liberdade o mais novo museu interativo de ciências de Belo Horizonte. O Espaço TIM UFMG do Conhecimento possui cinco andares repletos de experimentos que abordam o surgimento da vida na Terra, a preservação do meio ambiente, a cultura dos povos, entre muitos outros. A primeira exposição temporária, Demasiado Humano, traz como destaque o crânio de um homem que viveu em Minas Gerais há mais de 11 mil anos. O crânio pertenceu a um integrante dos primeiros grupos humanos caçadores-coletores que viveram no estado. Ele teria pertencido ao mesmo grupo populacional de Luzia, cujo esqueleto é considerado o fóssil humano mais antigo das Américas. A interatividade é a principal característica do Espaço – vários experimentos funcionam sob o toque ou comando do visitante. Em um

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Foto:Wellington Pedro/Imprensa MG

Novo museu de ciências de BH já recebe visitantes

Inauguração do Espaço TIM UFMG do Conhecimento: experimentos interativos ensinam e despertam o interesse pela ciência

deles, por exemplo, a pessoa tira uma foto e indica a um monitor com quais características físicas – tais como cor dos olhos e da pele e tipo de nariz – gostaria de se ver. No último andar, um planetário, com capacidade para 60 pessoas, oferece aos visitantes filmes com imagens do céu, astros e planetas. O teto deste andar é retrátil, permitindo a utilização de telescópios, lunetas e outros instrumentos para observação celeste. Em eventos específicos, a fachada frontal do Espaço se transforma em um grande painel de projeção, que

transporta para o exterior do prédio os conteúdos científicos e culturais expostos em seu interior sob a forma de imagens, vídeos e atividades interativas. Além das visitas, o Espaço oferecerá uma variada gama de atividades de formação, como cursos, oficinas e palestras, grupos de estudo para educadores, entre outras. A iniciativa é fruto de uma parceria entre o governo do Estado, a UFMG e a TIM, que investiram, ao todo, R$13 milhões. O museu fica aberto para visitações de terça a domingo, das 11h às 17h.

Foto: Diogo Domingues

FAPEMIG participa de debate público sobre CT&I


Foto: Diogo Domingues

Plantel de animais peçonhentos é utilizado na produção de soros e em pesquisas Para a maioria das pessoas, cobras, aranhas e escorpiões representam perigo. Mas para a ciência e a saúde, eles são fundamentais. O veneno extraído desses animais é matéria-prima para a produção de soros, que são aplicados no tratamento das vítimas de acidentes com animais peçonhentos. Além disso, pode originar novos medicamentos para problemas como hipertensão, isquemia, ou mesmo inseticidas naturais para uso na lavoura. Em Minas Gerais, a Fundação Ezequiel Dias (Funed) é responsável pela produção dos soros antiofídicos e antiescorpiônicos distribuídos pelo Ministério da Saúde no país. E é a manutenção de um criadouro de serpentes, escorpiões e aranhas na instituição que permite a continuidade dessa produção e a garantia dos soros nos hospitais credenciados. Para manter a produção em níveis elevados, são mantidas parcerias com órgãos como as Vigilâncias Municipais de Saúde. Segundo o chefe do Serviço de Animais Peçonhentos da Funed, Rômulo Righi de Toledo, apesar de não existir nenhuma norma que determine a entrega dos escorpiões e aranhas encontrados nas residências durante as visitas realizadas pelos agentes

comunitários de saúde, a Funed tem contado com a colaboração das prefeituras com a realização desse envio. Prova disso é que, somente no primeiro trimestre de 2010, a Fundação já recebeu cerca de 1.200 escorpiões. “Apenas no mês de março, em um trabalho conjunto com os agentes de campo das secretarias municipais de saúde de Ituiutaba e Uberlândia, no Triângulo Mineiro, foram recolhidos cerca de 900 escorpiões. Isso nos permite ter hoje um plantel com 2.100 escorpiões da espécie Tityus serrulatus, a mais comum”, explica. Outro resultado importante dessa parceria foi a captura de 18 aranhas Phoneutria nigriventer, popularmente conhecida como armadeira e utilizada em diversas pesquisas. O plantel atual da Fundação é de 49 animais. Na Funed, o veneno dessa espécie é estudado desde 1983 e várias descobertas importantes já foram feitas, como a relatada na reportagem “Veneno que pode curar”, publicada na edição nº 29 (http://revista.fapemig.br). É preciso cuidado para lidar com esses animais. A equipe do Serviço de Animais Peçonhentos da Funed alerta que, ao encontrar um escorpião, a pessoa jamais deve tentar capturá-lo

com as mãos. É preciso usar luvas e uma pinça longa (com cerca de 20 cm) ou uma pá. Após a captura, o animal deve ser acondicionado vivo dentro de um pote plástico, com furos na tampa em um algodão úmido, para permitir respiração. No caso de cobras, é preciso habilidade e conhecimento. Caso contrário, o indicado é acionar os bombeiros, policiais ambientais ou técnico da área. Para apanhar uma cobra é necessário usar um gancho de cerca de 50 cm, botas ou perneiras e uma caixa com tampa. A cobra deve ser acondicionada dentro da caixa que, de preferência, deve conter local de captura e data. Os animais capturados podem ser entregues na portaria da Funed (Rua Conde Pereira Carneiro, 80, Gameleira), inclusive nos finais de semana e feriado.

Pesquisadores mineiros conhecem propostas do CNPq para 2010 A FAPEMIG foi anfitriã, em abril, de um encontro entre o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a comunidade científica mineira. O objetivo principal da reunião foi apresentar aos reitores, pesquisadores e diretores de instituições ligadas ao ensino e à pesquisa do Estado as principais ações do CNPq para o ano de 2010. A FAPEMIG foi a primeira FAP a receber a agência federal para um encontro do gênero. O CNPq foi representado por seu diretor de Engenharias, Ciências Humanas, Exatas e Sociais, Glaucius Oliva. Segundo ele, os investimentos nas áreas aplicadas e tecnológicas estão crescendo e cerca de 11 mil doutores são formados por

ano no país. Oliva também destacou o aumento dos recursos destinados a bolsas. Os valores de algumas bolsas foram reajustados e, segundo o diretor, a meta é chegar a 90 mil bolsas concedidas por ano, até dezembro de 2011. Entre as ações que são fruto de parcerias entre o CNPq e os estados, Oliva citou o Programa de Apoio a Grupos de Excelência (Pronex), o Programa Primeiros Projetos (PPP), o Programa Pesquisa para o SUS e os editais conjuntos com temas induzidos como malária, dengue e museus de ciência. O diretor destacou os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, que, com recursos do CNPq e das FAPs, criou institutos de

excelência em áreas estratégicas, unindo pesquisadores de diferentes instituições. São 122 em todo o país, 13 deles em Minas Gerais. “Estudamos a possibilidade de aprovar mais um ou dois INCTs em áreas que consideramos fundamentais. O pré-sal é uma delas”, adiantou. Uma das novidades nos projetos em parceria é o Programa de Apoio a Grupos Emergentes (Pronem). “Ele apoia grupos que estão começando. É uma espécie de incubadora do Pronex”, explicou. Segundo ele, a previsão é que sejam investidos R$ 20 milhões no Programa, em 2010, e R$ 20 milhões, em 2011. Em Minas Gerais, este ano a FAPEMIG entrará com uma contrapartida de R$ 2,9 milhões.

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Cientistas brasileiros Foto: Arquivo ABC

O avanço da ciência brasileira tem sido notável. Há um crescimento vigoroso em qualidade e quantidade de produção científica, sem dúvida nenhuma. E existem números que comprovam esse fato. O impacto da produção científica brasileira, por exemplo, cresceu de 0,53, no período 1997-2001, para 0,63, no período 2004-2008. Segundo a Capes, o número de doutores titulados pulou de 2 mil, em 1995, para 11.500, em 2009, um crescimento anual de mais de 12%. Ou seja, é possível comprovar que esse crescimento é vigoroso. É preciso, agora, acelerar esse processo, especialmente no que se refere à formação de pessoal, mas sem perder a qualidade que conquistamos.

O matemático Jacob Palis Junior é professor titular do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) e atual presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Nascido em Uberaba, no Triangulo Mineiro, ele é referência em sua área de estudo, os sistemas dinâmicos, que modelam fenômenos da natureza e de atividades sócio-econômicas. Durante a 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada em Brasília no mês de maio, Palis coordenou uma sessão plenária sobre ciência básica, cuja proposta era discutir os desafios para a produção do conhecimento no Brasil. Para o matemático, o maior deles será multiplicar por três, até 2020, o contingente de pessoal envolvido com ciência, de técnicos de laboratório a doutores. “Temos que acelerar esse processo sem perder qualidade”, ressaltou. Qual sua avaliação sobre a evolução da área de ciência, tecnologia e inovação no Brasil, especialmente nos últimos anos?

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Na 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, foi proposto aumentar para 2% do PIB o investimento em CT&I até 2020 (hoje, esse investimento equivale a pouco mais de 1%). Essa não é uma proposta muito ambiciosa? É ambiciosa sim, mas também é viável. Isso é importante, inclusive, para sustentar a projeção de crescimento para o país nos próximos anos. Há um quadro, uma perspectiva favorável, e precisamos aproveitar o momento. Em sua opinião, quais são os principais entraves para a produção de ciência básica? Nós precisamos de mais candidatos a futuros pesquisadores do que temos hoje. Ou seja, precisamos descobrir talentos e tratar muito bem estes talentos. Na minha opinião, este é o maior obstáculo. Ao mesmo tempo, acho que o país pode se abrir a fim de aumentar esse contingente de pesquisadores, investindo mais na cooperação internacional. Por exemplo, dentro da Europa existem pesquisadores em início de carreira que buscam melhores condições em termos de

remuneração e também um ambiente talvez mais animador. Eles poderiam reforçar nosso quadro de jovens pesquisadores. Hoje, fala-se muito em ciência aplicada, em investir naquilo que trará resultados. Mas como fica a ciência básica? Não há aí um conflito? Não há este conflito não. Acho que já somos maduros e fortes o suficiente para equilibrar este jogo muito bem. Hoje, a própria Academia Brasileira de Ciências defende a interação entre pesquisadores e empresas, estamos inclusive organizando um encontro sobre isso em Minas Gerais. Já temos condições de encarar esse desafio e aceitar que parte da nossa ciência deve se dirigir a aplicações e inovações, sem detrimento da pesquisa básica. O senhor destacou o papel das Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs). Qual a importância dessas agências? Elas são componentes relativamente jovens do sistema nacional de CT&I, mais novas, por exemplo, do que o CNPq, a Capes, a Finep, enfim, do que outros instrumentos fundamentais dos Ministérios para apoio à área. Mas as FAPs aparecem com grande vigor e hoje desempenham papel muito importante. Elas se destacam pela integração entre si e pela apresentação de propostas de políticas públicas envolvendo órgãos federais. As três maiores do momento são as FAPs do Rio de Janeiro (Faperj), de Minas Gerais (FAPEMIG) e de São Paulo (Fapesp). Mas várias outras estão desempenhando um papel fundamental, inclusive absorvendo o financiamento de um número significativo de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, projeto importante para a produção de conhecimento em áreas estratégicas no Brasil.


Minas Faz Ciência 40  

Nanotubos- Inclusão - Proteção radiológica- Inovação - Criminalidade