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Sumário Lembra dessa?

Divulgação científica Histórias infanto-juvenis que também ensinam sobre ciência e meio ambiente. Conheça o trabalho do médico, entomólogo, ambientalista e escritor Ângelo Machado.

Carol e Fapê, primeiros bezerros de proveta de Minas Gerais, foram um marco na utilização de técnicas de fertilização in vitro que, hoje, fazem do Brasil referência no uso de biotécnicas reprodutivas. 33

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Pigmentos minerais

Esquistossomose Trabalho coordenado por pesquisadores do René Rachou mapeia a ocorrência de espécies de moluscos hospedeiros do Schistosoma mansoni em cinco estados, entre eles Minas Gerais.

Trabalho com tintas fabricadas a partir de terra resulta em uma cartilha que foi distribuída a escolas da rede pública de Belo Horizonte, Betim, Contagem e Jaboticatubas. 36

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Animação

Identificação genética Software livre para captura digital de movimento em tempo real é ferramenta para uma produção audiovisual de alta qualidade.

16 Câncer

Empresa desenvolve kit nacional para identificação genética humana que apresenta vantagens como a alta eficiência e o baixo custo.

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Fungo do bem Pesquisa identifica tipo de fungo que pode ser utilizado no controle de microorganismos prejudiciais à qualidade do café.

Banco Mineiro de Tumores Humanos é fonte para estudos diversos sobre a doença, proporcionando o avanço do conhecimento na área.

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Fratura ortopédica em animais

Resistência à insulina Projeto pioneiro determina indicadores que podem predizer a resistência à insulina em homens adultos, auxiliando na prevenção e tratamento.

Nova tecnologia de implante ortopédico em animais associa duas modalidades de fixação óssea e garante, além de maior eficiência, recuperação mais rápida.

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Tecnologia assistiva

Especial

Projetos em desenvolvimento no Estado auxiliam pessoas com algum tipo de deficiência, garantindo maior autonomia nas tarefas cotidianas e melhor qualidade de vida.

26 Opinião

Descomissionamento O fechamento de uma mina de urânio em Caldas (MG) origina importantes trabalhos para recuperação de áreas degradadas, que servirão de modelo para outras regiões do país. 30

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais

Em 2009, a FAPEMIG assinou acordos de cooperação com instituições de diferentes países, abrindo a possibilidade de intercâmbio e projetos conjuntos para pesquisadores do Estado. 48

Paulo Beirão, pesquisador e presidente do Conselho Curador da FAPEMIG, fala sobre as propostas e os desafios da 4ª Conferência Nacional de C&T

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MINAS FAZ CIÊNCIA tem por finalidade divulgar a produção científica e tecnológica do Estado para a sociedade. A reprodução do seu conteúdo é permitida, desde que citada a fonte.

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Ao leitor

Expediente MINAS FAZ CIÊNCIA Assessora de Comunicação Social e Editora: Vanessa Fagundes (MG-07453/JP) Redação: Vanessa Fagundes, Ariadne Lima (MG09211/JP), Juliana Saragá e Raquel Emanuelle Dores (estagiária) Colaboração: Carolina Jardim, Desiree Antônio, Letícia Orlandi e Virgínia Fonseca Ilustrações: Bruno Vieira Revisão: Aline Luz Projeto gráfico/Editoração: Fazenda Comunicação & Marketing Montagem e impressão: Lastro Editora Tiragem: 15.000 exemplares Fotos: Glênio Campregher, Marcelo Focado e Lila Alves Agradecimentos - Agradecemos a todos os colaboradores desta publicação Redação - Rua Raul Pompeia, 101 - 12.º andar São Pedro - CEP 30330-080 Belo Horizonte - MG - Brasil Telefone: +55 (31) 3280-2105 Fax: +55 (31) 3227-3864 E-mail: revista@fapemig.br Site: http://revista.fapemig.br

Capa: 787 da Boeing Foto: Divulgação Boeing Nº38 jun. a ago./2009

GOVERNO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Governador: Aécio Neves SECRETARIA DE ESTADO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR Secretário: Alberto Duque Portugal

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais Presidente: Mario Neto Borges Diretor Científico: José Policarpo G. de Abreu Diretor de Planejamento, Gestão e Finanças: Paulo Kleber Duarte Pereira Conselho Curador: Presidente: Paulo Sérgio Lacerda Beirão Membros: Afonso Henriques Borges Anna Bárbara de Freitas Proietti Evaldo Ferreira Vilela Francisco Sales Horta Giana Marcellini João Francisco de Abreu José Cláudio Junqueira Ribeiro José Luiz Resende Pereira Magno Antônio Patto Ramalho Paulo César Gonçalves de Almeida Valder Steffen Júnior

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MINAS FAZ CIÊNCIA - JUN. SET. AA NOV. AGO.// 2009 2009

Minas Gerais tem um grande potencial na área da ciência, tecnologia e inovação. Aqui estão reunidas, por exemplo, 12 universidades federais, o maior número por Estado, além de duas universidades estaduais e centros de pesquisa importantes. Já estão em funcionamento, também, 13 Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, centros responsáveis por pesquisas de ponta em temas considerados estratégicos. Ferramentas como a Lei Mineira de Inovação e editais específicos servem de incentivo para que empresas invistam em inovação, alimentando um ciclo de desenvolvimento. Por esses e outros motivos, o Estado vem ganhando reconhecimento e visibilidade. A matéria de capa desta edição apresenta um trabalho que é exemplo da liderança de Minas Gerais na área científica. O estudo, coordenado por pesquisadores do Centro de Pesquisas René Rachou, irá mapear a ocorrência de caramujos hospedeiros do Schistosoma mansoni, causador da esquistossomose, em cinco estados brasileiros. A doença é considerada, hoje, como de categoria 2 entre as doenças negligenciadas – ou seja, uma enfermidade persistente, apesar de haver estratégias de controle. Somente no Brasil, estima-se que existam cerca de cinco milhões de pessoas infectadas. O trabalho permitirá conhecer melhor a distribuição da doença e, com isso, possibilitará um planejamento mais eficaz das formas de controle e tratamento. Outro trabalho de peso é a implantação do Banco Mineiro de Tecidos e Tumores, uma iniciativa pioneira no país. Por meio da coleta e armazenamento de amostras, o Banco pretende oferecer condições para pesquisas e produção de conhecimento sobre o câncer. Dessa forma, será possível buscar tratamentos mais eficazes, definir melhores rotinas de diagnóstico e realizar estudos genéticos. O Banco já reúne mais de 200 amostras de diferentes tumores de maior incidência no Brasil – gástricos, prostáticos, intestinais, mamários, renais, de pele e de bexiga.A proposta, agora, é ampliar a coleta e estabelecer novas parcerias com instituições e laboratórios de pesquisa, de forma a permitir o aprofundamento dos estudos. Na área de Tecnologia da Informação, pesquisadores da Fumec e da UFMG desenvolveram um software livre para captura de movimentos, semelhante ao utilizado para desenvolvimento de jogos como o Fifa Soccer ou para a realização de filmes como o recente Avatar. O trabalho promete ter grande impacto no mercado brasileiro: além de não existir no mundo um software livre com essa funcionalidade, até então era preciso importar essa tecnologia. Os estudos, voltados para animação de personagens e jogos, são pioneiros no país. No Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), um trabalho irá orientar as atividades do país no que diz respeito ao descomissionamento (fechamento) e recuperação de regiões degradadas pela mineração de urânio. A pesquisa utiliza como modelo uma lavra de urânio localizada no município de Caldas, a primeira a ser implantada no país. Suas atividades foram encerradas após 15 anos de operação e, agora, os pesquisadores testam métodos de recuperação que levam em conta a presença de elementos radioativos e de outros tipos de metais. E como a ciência não deve ficar guardada na gaveta, conheça o trabalho de divulgação científica realizado pelo médico, entomólogo, ambientalista e escritor Ângelo Machado. Ele é conhecido por sua paixão pelas libélulas (descreveu 48 novas espécies do inseto) e por seu trabalho como divulgador, quando contribuiu com revistas como a Ciência Hoje e a Ciência Hoje das Crianças. Atualmente, ele se dedica aos livros infanto-juvenis, nos quais mistura ficção e lições sobre a Mata Atlântica, animais e história do Brasil. Estes são apenas alguns exemplos do que aguarda por você nesta edição. Boa leitura! Vanessa Fagundes Editora


Cartas “Sou jornalista e gostaria de estar por dentro da produção científica realizada em Minas Gerais. Recentemente, tive o primeiro contato com a revista MINAS FAZ CIÊNCIA. Lia a entrevista com o pesquisador da Universidade Federal de Alagoas, Luiz Carlos Molion, sobre o aquecimento global e achei seu pensamento bastante pertinente. Me interessei pela revista e gostaria de recebê-la”. Stênio Costa Aguiar Jornalista Montes Claros/MG

Publicação trimestral da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais - FAPEMIG nº 38 - junr. a ago. 2009 MINAS FAZ CIÊNCIA informa que as cartas enviadas à Redação podem ou não ser publicadas e, ainda, que se reserva o direito de editá-las, buscando não alterar o teor e preservar a ideia geral do texto. “Sou professor do Curso de Técnico em Química da Escola Municipal Governador Israel Pinheiro de João Monlevade/MG (EMIP – QUÍMICA) e venho por meio deste agradecer pelas informações através dos artigos e reportagens que esta revista proporciona. Parabenizo pela entrevista com Luiz Carlos Molion (edição n° 38) - excelente abordagem. Uso as reportagens e os artigos como tema para os alunos fazerem resenhas e discutirem em sala de aula e vejo que são muito produtivas. Muito obrigado por incentivar a Ciência através da MINAS FAZ CIÊNCIA”. Huita do Couto Matozo Professor/EMIP João Monlevade/MG “Os artigos publicados me ajudam muito até para lecionar, colocando os conhecimentos atuais das pesquisas ao alcance dos meus alunos. Estou querendo fazer um trabalho de pesquisa com plantas medicinais para desenvolver um mestrado e nas edições encontro tópicos muito importantes para me direcionar”. Nereida da Silva Costa Cataguases/MG

“Agradeço à FAPEMIG pela minha inclusão na lista dos destinatários da revista MINAS FAZ CIÊNCIA. Aqui em terras goianas passei a ser uma “formiga divulgadora” dos importantes trabalhos e matérias impressas. Amigos e colegas de trabalho ficam surpresos ao ver o esforço em prol da ciência traduzido na qualidade de cada edição”.   Benicio Araújo Goiânia/GO “Meu nome é Fabiane, sou técnica em Biotecnologia e estudante de Gestão Ambiental. Conheci a revista MINAS FAZ CIÊNCIA através de uma professora de genética e gostei muito. Por isso estou enviando este e-mail para solicitar as edições futuras”. Fabiane do Espírito Santo Ribeirão das Neves/MG “Olá, pessoal da MINAS FAZ CIÊNCIA! Eu recebo essa ótima revista há quase dois anos. Agora mudei de endereço e gostaria de continuar tendo acesso ao valioso conteúdo de vocês. Meu novo endereço, juntamente com meus dados, está citado a seguir. Um grande abraço para todos, muita força, entusiasmo e mais sucesso ainda!” Leandro Elias Morais Viçosa/MG “Agradeço pelo envio das revistas, gostei muito do conteúdo e achei a impressão muito boa. Fico orgulhoso do nosso Estado ter uma revista tão boa assim”. Adriano Inácio de Oliveira Uberaba/MG “Conheci a revista MINAS FAZ CIÊNCIA e gostei muito. Aproveito para parabenizar a todos.Tem reportagens bastante interessantes e instrutivas, tenho certeza de que ela será muito útil para mim e para minha filha que está em idade escolar”. Luzia Pires Caeté/MG “Recebi os exemplares na manhã deste sábado e fiquei muito satisfeito com a riqueza

de assuntos e a grande competência nas interpretações de uma gama diversificada de temáticas. Parabéns a toda equipe da revista pela qualidade do trabalho, conduzido de forma impessoal e republicana!” Rodrigo Graziani Oliveira Ipatinga/MG “Estou de fato satisfeito com a atenção a mim dispensada e agradeço a maneira como fui atendido. O trabalho de vocês tem uma qualidade indiscutível e nem é necessário comentar a importância das informações veiculadas pela revista. Parabéns e obrigado por me incluir em seu rol de assinantes”. Jefferson Vieira Cruz Lagoa Santa/MG “Recebo há tempo a revista dessa Fundação, o que me proporciona conhecimento e satisfação. Minas Gerais cria oportunidade para pesquisas importantíssimas. Gostaria de continuar recebendo os exemplares que são muito interessantes e que trazem conhecimentos atualizados”. Maria das Dores Lima Franca/SP “Sou estudante de Engenharia Ambiental. Portanto, muito me interessa receber em minha residência essa revista trimestral. Soube que suas matérias abordam publicações e pesquisas e que são muitíssimo importantes, tanto do ponto de vista científico e cultural como, no meu caso, profissional. Agradeço a atenção e, em especial, por me proporcionarem um enorme aprendizado e crescimento profissional.” Natália Cristiane M. dos Anjos Ferreira Sete Lagoas/MG “Sou funcionária da Prefeitura de Belo Horizonte e tive oportunidade de ler a revista MINAS FAZ CIÊNCIA. Gostei muito da forma como expõem as realizações do Governo do Estado e, assim, gostaria de assinar tal publicação, pois isso será útil em minha vida profissional.” Izabela de Souza Alves Torres Arquiteta Belo Horizonte/MG “Obrigada pela atenção e pelas revistas enviadas. É de extrema importância pra mim o conteúdo de publicações que enfatizam o crescimento científico de Minas Gerais, uma vez que sou aluna de Biologia, residente no Estado. Garanto que farei bom uso das revistas.” Danielle Tanise Fagundes Matozinhos/MG

Para receber gratuitamente a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, preencha o cadastro no site http://revista.fapemig.br ou envie seus dados (nome, profissão, instituição/empresa, endereço completo, telefone, fax e e-mail para o e-mail: revista@fapemig.br ou para o seguinte endereço: FAPEMIG / Revista MINAS FAZ CIÊNCIA - Rua Raul Pompéia, 101 - 12.º andar - Bairro São Pedro - Belo Horizonte/MG - Brasil - CEP 30330-080 MINAS MINAS FAZ FAZ CIÊNCIA CIÊNCIA -- JUN. SET. A AGO. NOV. / 2009

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Entrevista

Ciência, literatura e libélulas

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Ao chegar na única casa cheia de árvores e plantas de uma das avenidas mais movimentadas de Belo Horizonte, já nos esperava na varanda uma das figuras mais simpáticas e divertidas do meio científico brasileiro. Bem disposto e muito receptivo, nosso entrevistado nos conduziu até o escritório, onde aconteceria a conversa para a MINAS FAZ CIÊNCIA. Pelo caminho, a paixão de infância do médico, entomólogo, ambientalista e escritor Ângelo Machado é perceptível nos quadros e esculturas de libélulas em todos os tamanhos e formatos.


Foto: Gustavo Costa

Médico de formação, Ângelo Machado não chegou a exercer o ofício – em suas palavras, “por falta de vocação”. Passou, então, a lecionar na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Depois de sua aposentaria, prestou concurso novamente e voltou à UFMG, desta vez como professor do Departamento de Zoologia. Durante todo esse tempo, continuou pesquisando sobre as libélulas, que lhe despertam interesse desde os 15 anos de idade. Chegou a escrever mais de cem artigos científicos sobre neurobiologia e entomologia e descreveu 48 novas espécies e quatro gêneros desse inseto. Aos 50 anos tornou-se escritor. Hoje, possui 33 livros infantis publicados e em todos eles existe a preocupação de despertar o interesse para a ciência através de histórias que falam sobre o meio ambiente, a fauna e a flora brasileiras. Também adaptou algumas de suas obras para o teatro – uma das mais populares é Como sobreviver em festas e recepções com bufê escasso, há anos em cartaz na capital mineira. E o que era para ser uma entrevista se tornou um bate-papo, regado a muito bom humor, no qual Machado contou sobre sua carreira literária, a importância da divulgação científica e sua paixão pelas libélulas.

Suas histórias misturam literatura e ciência. Como é possível juntar as duas áreas, a princípio tão distintas? Alguns críticos literários acreditam que somente a ficção pode existir nas histórias para crianças. Mas eu acho que, às vezes, a realidade é mais extraordinária que a ficção, especialmente quando falamos da natureza. Por isso eu misturo realidade e ficção. O grande desafio do cientista é saber adaptar a linguagem científica para a literária. Escrevi meu primeiro livro, O menino e o rio, há 22 anos. Comecei a escrever e achei que não ficou bom - sem querer, estava complicado demais. Então gravei a história como se estivesse contando para uma criança, passei para o computador, trabalhei em cima e no fim deu certo. O objetivo principal do escritor infantil é despertar o gosto e o prazer pela leitura. Se ele atingiu isso, sucesso. Mas ele também pode ensinar alguma coisa. É o que eu faço na maioria dos meus livros. E é um desafio levar a criança a aprender sem que ela saiba que está aprendendo. Se ela perceber que o livro é didático, já passa a não gostar porque é coisa da escola. MINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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Footo: Gustavo Costa

Literatura e ciência: em suas histórias para crianças e jovens, Machado mistura ficção com curiosidades e informações sobre a natureza e a história do Brasil.

Como a ciência aparece em suas histórias? A idéia, é misturar realidade e ficção. Em O velho da montanha, por exemplo, eu apresento minha experiência numa tribo indígena. Esse livro chegou a ganhar o prêmio Jabuti de Literatura. Aprende-se nele muita coisa sobre o costume de índios, antropologia, línguas - mas não deixa de ser uma história de aventura. Já o livro Os fugitivos da esquadra de Cabral aborda a história do Brasil. A inspiração veio de uma frase na carta de Pero Vaz de Caminha sobre a história de dois degredados: “Creio, senhor, que com esses dois degredados ficam mais dois grumetes, que saíram do navio esta noite”. Ou seja, dois adolescentes que estavam na esquadra de Cabral realmente fugiram, mas ninguém sabe o que aconteceu com eles. No livro, eu conto essa história, digo porque eles fugiram, para onde foram. E, dessa forma, apresento a história e a mitologia dos índios.

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No final é que vem o que é realidade ou não. Ou seja, os meus livros viram divulgação cientifica no fim. Quando as crianças lêem, não sabem se estou inventando e nem quero que elas saibam. E quando chegarem no final é que vão pensar: “Ah é!”. Esse livro deu certo. Fui ao Programa do Jô Soares na época do lançamento e ele começou a vender muito, ficou uns dois meses na lista dos mais vendidos. Mas foi por engano. Por engano? É, porque não existe lista dos mais vendidos para livro infanto-juvenil. Mas estava vendendo tanto que as pessoas achavam que era não-ficção, que era história real. Ele realmente é o meu maior livro, muito bem ilustrado, com descrição de como era a Mata Atlântica, os bichos que existiam e as línguas indígenas. Outra coleção de sucesso é Que bicho será? Eu considero essa coleção a coisa mais importante que já fiz na minha vida.

Por que? Bem, um mundão de crianças, a partir dos três anos, está lendo essa coleção. Sabe, criança tem muito a ver com cientista - os dois são movidos pela curiosidade, eles querem conhecer o mundo, descobrir para que servem as coisas. Só que o cientista procura na literatura, na internet, e a criança pergunta. Às vezes, a família se irrita: “Que menino chato!”, “Que menino curioso!”, “Você já me perguntou isso!”. Essa acaba sendo uma fase de inibição da curiosidade. Se a criança sobrevive a ela, ou vai ser cientista ou vai ser alguém com a mente inquisitiva, sempre questionando as coisas. Eu fiz essa coleção para despertar o raciocínio e aumentar a curiosidade. Um dos livros que faz muito sucesso é Que bicho fez o buraco? Esse livro já foi traduzido para o espanhol e só o governo mexicano comprou 80 mil exemplares. Aqui no Brasil já foram vendidas três remessas de 120 mil para o Ministério da Edu-


cação. A compra para distribuição nas escolas impulsiona as vendas. Como surgiu esse interesse pela literatura? Eu fui muito influenciado pela minha família. Meu tio, Aníbal Machado, é um escritor famoso. A minha tia Lúcia Machado de Almeida é uma escritora de literatura infantil, muito conhecida por suas obras publicadas na Coleção Vagalume, como O escaravelho do diabo. Minha prima, Maria Clara Machado, mais conhecida pelas peças de teatro, também me influenciou. Meu pai também escrevia. Eles é que não sabem como é que surgiu um cientista na família. Sempre tive vontade de escrever, mas o cientista possui uma autocrítica muito grande. Eu sempre achava que ainda não estava bom. Mas uma das coisas que me levaram a escrever foi pensar o seguinte: o cientista e o escritor precisam ter criatividade, só que a criatividade do cientista é limitada por aquilo que ele acha verdade. E eu queria criar o absurdo. Por exemplo, no livro A barba do velho da barba existe um velho que mora no 10º andar e sua barba vem até o chão. E tem outro velho com uma barba de dois quilômetros, ele mora no alto do Pico da Neblina. Como cientista eu não posso ter um velho de barba desse tamanho, mas, como escritor, o velho é meu, eu ponho a barba do tamanho que eu quiser.Você libera a sua criatividade. Como surgiu a inspiração para o primeiro livro? Foi muito interessante porque, na época em que comecei, eu já ia às escolas para falar com as crianças sobre ecologia, bichos e meio ambiente. E conversando com as crianças em uma escola, me perguntaram: “Por que todos os rios são sujos?” Aquela criança achava que na natureza todos os rios eram sujos e que o homem é quem limpava. E por que isso? Porque o único rio que ela conhecia era o Rio Arrudas, um esgoto a céu aberto. Naquela época, a Copasa estava anunciado o quanto custava para limpar a água do Rio das Velhas e levá-la até a torneira

das casas. Na cabecinha dela, na natureza, os rios são normalmente sujos e o homem é quem limpa. Meu primeiro livro, O menino e o rio, começa com a pergunta do menino para o professor: “Por que todos os livros são sujos?”. Mas antes de ser escritor o senhor já era cientista. Como começou a carreira nesta outra área? Eu me formei em Medicina, mas não tinha vocação para médico. Então fui fazer ciência básica e dava aula de Neuroanatomia, ensinava como o cérebro é, como ele funciona. Como hobby, eu estudava insetos - as libélulas eram as que eu mais gostava. Quando me aposentei como professor de Neuroanatomia, fiz concurso novamente e voltei para a Universidade para ensinar Zoologia. Ou seja, o hobby virou profissão. Tornei-me professor de Entomologia, que é a ciência que estuda os insetos. Daí eu fiquei sem hobby. E como a gente não pode viver sem hobby, comecei a escrever livros. Hoje, tenho 33 livros publicados. No tempo de estudante, participei do Show Medicina junto com o Jota D’Angelo. Com a experiência adquirida naquela época, comecei também a adaptar meus livros para o teatro. Tem uma peça minha em cartaz nesta 36º Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, chama-se A Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Guará. Inclusive, o primeiro papel da atriz Débora Falabella foi de Chapeuzinho Vermelho, nessa peça. O senhor tem um estudo sobre o imaginário das crianças. Como foi esse trabalho? Eu fiz um estudo sobre a imagem que as crianças têm da floresta. Entrevistei muitas crianças e cheguei à conclusão de que a imagem é muito ruim. Se você perguntar a uma criança o que é floresta ela responde que é o lugar onde moram os bichos maus, como o lobo mau. E o que mais que tem lá? “Só lobo. Ah... floresta é onde vive a vovozinha também”, dizem. Eles misturam as histórias infantis. Percebi que, se dependesse da decisão das crianças de até quatro anos, todas as florestas do

mundo seriam destruídas. Mas, se pararmos para pensar, tudo de ruim está na floresta: Joãozinho e Maria se perdem na floresta; em Branca de Neve, a madrasta má manda o caçador matar a menina na floresta; Chapeuzinho Vermelho encontra o lobo na floresta. Eu estudei muito isso. Inclusive coleciono as histórias da Chapeuzinho Vermelho, tenho umas 50 versões. E as de antes de Charles Perrault são muito piores. Em uma delas, o lobo mata a vovozinha, tira o sangue dela, faz uma sopa e dá pra a menina tomar. Chega a ser macabro... Pois é. Na Amazônia, entrevistei uma menina sobre histórias da floresta. E ela me contou: “A floresta é muito perigosa. Uma vez, a menina queria andar na floresta e a mãe falou: não entra que o bicho vai te pegar. Daí a menina entrou na floreta, o bicho pegou e ela ficou dentro da barriga dele falando assim: Meu pai, me salva que o bicho mau me pegou. E o pai: Não, bem feito porque você entrou na floresta. A menina: Mãe, me salva que o bicho mau

“O objetivo principal do escritor infantil é despertar o gosto e o prazer pela leitura. Se atingiu isso, sucesso. Mas ele também pode ensinar alguma coisa. É um desafio levar a criança a aprender sem que ela saiba que está aprendendo. Se ela perceber que o livro é didático, já passa a não gostar porque é coisa da escola.”

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Alguns artigos indicam um desinteresse dos jovens pela ciência. Qual o problema, em sua opinião? É difícil dizer porque comparado, por exemplo, com Matemática, em geral eles gostam mais de ciência. Se você analisa comparativamente, a ciência é

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“Quando se fala de divulgação científica, é preciso lembrar que quem paga a ciência no Brasil é o povo. A maioria das descobertas são feitas pelas universidades públicas. Então, acho que o cientista tem a obrigação de divulgar a ciência para a população em geral.” bem aceita. Depende muito do professor. A principal qualidade dele é despertar na criança o interesse pela ciência. E quem lhe despertou esse interesse? O professor Henrique Marques Lisboa, catedrático da Faculdade de Medicina. Chegou na escola de aperfeiçoamento, quando eu tinha oito anos, para nos ensinar ciência. Nos levou para a Fazenda Velha pra colher bicho na água, para criar maria sapuda, para ver metamorfose. Foi ele quem despertou o meu interesse pela ciência. Depois vieram outras pessoas. Mas naquele momento eu fui atraído pelo bom professor que o Marques Lisboa era. Mais tarde, comecei a gostar de insetos.Vale falar um pouco dele, que é um dos maiores divulgadores de ciência que conheço: o professor Newton Dias dos Santos. Eu devia ter uns 15 anos quando peguei um inseto enorme na fazenda do meu pai. Minha tia Lúcia Machado de Almeida me disse que tinha um professor no Instituto de Educação, o Newton Santos, que daria o nome das libélulas se eu as levasse lá. Eu, menino de 15 anos, cheguei meio trêmulo, com as cinco libélulas na mão, e falei: “Professor, a tia Lúcia disse que o senhor podia dar o nome dessas libélulas pra mim”. Ele olhou

Footo: Gustavo Costa

me pegou. A mãe: bem feito, você entrou na floresta. Daí vem a madrinha, passa o terço na barriga do bicho, que explode, e ela salva a menina”. Fui perguntar para a mãe da criança porque ensinou aquela história, já que eles trabalham na floresta. E ela me disse: “Depois ela aprende, doutor. Elas não agüentam carregar castanha, elas não agüentam andar na floresta. Vão atrasar a gente. Eu tenho que deixar eles dentro de casa e eles não podem sair senão se perdem, então preciso colocar medo mesmo”. Quando esses contos de fada surgiram, provavelmente também era para criar medo de floresta nas crianças. Eu não sou contra os contos de fada, mas alguns podem mudar. Eu mudei. O meu Chapeuzinho Vermelho e Lobo Guará é completamente diferente, nele o lobo é bonzinho. Um exemplo de quando o Ângelo zoólogo ajuda o Ângelo escritor. Um amigo meu descobriu que a alimentação do Lobo Guará é mais fruta que carne. 76% de fruta. Então eu mudei isso na minha história. No final, o lobo entra na casa pra comer a vovozinha e Chapeuzinho Vermelho pergunta: “Lobo Guará, pra quê esse nariz tão grande?” E o Lobo Guará: “Chapeuzinho Vermelho, pra quê essa melancia tão grande?”. Ela: “Pra você comer”. Daí ele come a melancia, percebe que gosta de frutas e os dois ficam amigos. Neste livro, aprende-se um montão de coisas sobre o lobo, o cerrado, as plantas do cerrado... Eu, como cientista, descobri uma peculiaridade da biologia do Lobo Guará que me permitiu, como escritor, fazer uma história diferente. Aí me perguntam: por que você nunca fez um livro sobre libélulas? Porque nunca arrumei uma história muito excitante que tivesse como protagonista a libélula. Meu compromisso é com os meninos, e não com o bicho que gosto.

e falou: “Não vou dar nome de libélula nenhuma não”. Fiquei apavorado. Ele continuou: “Você é que vai achar os nomes”, e me deu o manuscrito da tese dele sobre libélulas da região de Lagoa Santa. Ele disse: “Vai pra casa, tenta identificar, amanhã você volta e vamos ver se você acertou”. No dia seguinte eu voltei. Havia acertado alguns nomes, outros não, e ele me mostrou porque eu tinha errado. Nas férias, seis meses depois, eu estava no Museu Nacional, estagiando com o professor Newton Santos. Notem que ele sabia muito bem o nome das libélulas. Mas se me respondesse eu teria cinco nomes, como ele não fez isso eu estudo libélula a vida inteira. E hoje, aos 75 anos, descobri a importância das libélulas. Sabe qual? Fazer do Ângelo Machado um velho feliz. Eu passei a maior parte do meu tempo me divertindo com libélulas, trabalhando em pesquisa. Depois também conheci o padre Pereira, da Igreja de Lourdes, que estudava besouros. E comecei a sair com ele toda semana para pegar insetos. Com ele, fiz pelo menos 10 grandes viagens à Amazônia. Dei aulas de Neuroanatomia durante 30 anos e de Zoologia por 22 anos. Hoje estou aposentado, mas continuo indo ao Departamento. Hoje, se me perguntam o que sou, digo zoólogo, ambientalista e escritor. Mas na área científica trabalho em duas linhas:


com libélulas e com espécies ameaçadas de extinção. No segundo, trabalho com a Fundação Biodiversitas. Tenho nesta área uns seis livros, como autor e como editor, sempre ligados à Biodiversitas. (Pega um livro de capa vermelha) Este é o último editado, o Livro vermelho da fauna brasileira ameaçada de extinção no Brasil. São 1400 páginas, 627 espécies, cada uma tem um capítulo. Eu fiz alguns capítulos. E o que o senhor acha do atual mercado de publicações sobre ciência para crianças e jovens? Não acompanho muito este mercado, mas destaco o trabalho de duas revistas: a Ciência Hoje, que é da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que considero como divulgação científica de altíssimo nível, e a Ciência Hoje das Crianças, que é um sucesso. A Ciência Hoje para adultos vende bem, mas tem concorrentes, como a Superinteressante. Já a Ciência Hoje das Crianças é para um público infantil, tem jogos, brincadeiras, entre outros. O senhor já escreveu para a Ciência Hoje das Crianças, não é? Durante vários anos trabalhei como coordenador da sucursal da Ciência Hoje em Belo Horizonte. Assim, ajudei a criar e escrevi para a Ciência Hoje das Crianças. Só depois comecei a fazer divulgação através da literatura. Também ganhei o prêmio José Reis, na categoria divulgação científica, assim como o Roberto Carvalho, jornalista que trabalhava comigo, ganhou o prêmio na categoria jornalismo cientifico. Quando começamos a Ciência Hoje para Crianças, um problema que prevíamos é que os cientistas não saberiam escrever para esse público. Mas, apesar de não ser muito comum, existem sim cientistas que conseguem fazer essa transposição e, por isso, a revista tem dado certo. Outra coisa que sempre perguntam: porque que prefiro os livros para crianças? É porque acho mais importante. Foi o que falei para um escritor que me indagou sobre isso: “Olha, o

menino vai aprender a gostar de ler conosco. Se a gente fizer um livro chato, ele vai deixar a literatura de lado”. Então temos a responsabilidade de criar o leitor, e é uma responsabilidade enorme para o escritor infantil. É mais difícil ainda quando a literatura faz divulgação científica porque o risco de chatear é maior. Por exemplo, depois da Conferência ECO-92, muita gente passou a cobrar livros para a conscientização ambiental das crianças. E saiu muito livro ruim. O defeito principal é a mensagem muito direta, como por exemplo, “vamos salvar as florestas”. Saiu um agora que dá a mensagem antes da literatura, então, atrapalha tudo. O fato de eu ser cientista me atrapalhou no começo - por definição, cientista é chato. Não liam meu livro, mas já taxavam de chato. Lembro que a primeira vez que fui no Programa do Jô Soares, tive esse problema. Ele me anunciou como professor, cientista. Aí eu pensei: nossa, vai ser uma chatice. Ele me perguntou: “Por que você gosta de libélula?” Daí eu falei, “Olha, Jô, no começo eu não gostava só de libélula, eu gostava de tudo quanto era inseto. Foi minha mãe que descobriu que eu gostava de inseto. Quando eu tinha um ano e meio, me achou debaixo da cama comendo uma barata. Você está rindo, Jô, mas eu não como mais barata não. As baratas de hoje não são como as de antigamente.” Daí ele disse, “Ah, você tem razão. Acho que você não deve mais comer barata. No máximo um grilo ou uma formiga.” E isso desanuviou tudo. O que o senhor acha da cobertura jornalística sobre ciência que é realizada hoje? Antigamente, cobriam mais ciência e meio ambiente. O Estado de Minas, por exemplo, tinha um caderno só para essas áreas. Hoje, a seleção é muito sensacionalista. Já o trabalho de revistas como a Ciência Hoje valoriza o cientista brasileiro. Quando se fala de divulgação científica, é preciso lembrar que quem paga a ciência no Brasil é o povo. A maioria das descobertas são feitas pelas universidades públicas. Então, acho que o cientista tem a

obrigação de divulgar a ciência para a população em geral. Isso nem sempre é fácil. Por exemplo, às vezes vejo uma revista da academia sobre matemática e não consigo entender absolutamente nada. Mas é possível divulgar a maioria dos trabalhos. Acho que deveria ser uma obrigação mesmo. Não só o público poderia entender mais o mundo, mas também valorizar mais a ciência. Quem manda é o povo através de seus representantes. Então o povo deve votar e cobrar de seus representantes a divulgação de temas da ciência e do meio ambiente. E o povo só vai exigir se tem noção da importância da ciência – está aí um dos papeis da divulgação científica. Qual a importância da divulgação científica para os jovens? Eu diria que o mundo em que eles vivem está cheio de informações científicas. Por exemplo, estou vendo essa mata, mas para valorizá-la, preciso entender para que ela serve, o que é a clorofila, para que serve o gás carbônico e o oxigênio. O que quero dizer é que o mundo é tecnológico e é importante que as pessoas conheçam um pouco de ciência para entender melhor o que está acontecendo a sua volta. O jovem gosta de entender aquilo que é do cotidiano dele. Na minha área, a Zoologia, é mais fácil porque os meninos gostam muito de bichos, e os jovens que adquirem essas informações serão adultos com um conhecimento mais profundo do mundo em que vivem. Eu ensino Entomologia para os alunos de Biologia. Meu aluno pode não se tornar um entomólogo, mas quando ele for à Serra do Cipó vai entender mais sobre os insetos, o que aquele besouro está fazendo, porque aquele bichinho está fazendo armadilha para caçar outro. Então, acho que a vida é uma curtição maior quando a gente sabe um pouco de ciência. Sem falar que as ciências ambientais são mais do que curtição, a preservação do planeta passa pelas ciências ambientais.

Raquel Emanuelle Dores MINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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Mapeamento

O trabalho busca registrar a ocorrência de espécies de moluscos do gênero Biomphalaria, hospedeiros intermediários do Schistosoma mansoni, agente causador da esquistossomose.

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Alvo encontrado


A fim de tomar medidas mais efetivas para o controle de uma doença é fundamental conhecer bem o mecanismo de transmissão e disseminação da enfermidade. Parece óbvio, mas para algumas doenças consideradas negligenciadas – um conjunto de enfermidades associadas à situação de pobreza, a precárias condições de vida e a disparidades em saúde -, nem sempre é fácil o caminho para desenvolver estudos na área. Apesar de serem responsáveis por quase metade da carga de doença nos países em desenvolvimento, os investimentos em pesquisa, tradicionalmente, não priorizaram esse tipo de trabalho. O quadro se agrava quando se observa que, até a década de 70, as patentes dos medicamentos mais utilizados no mundo eram de universidades e/ou de institutos públicos de pesquisa e, a partir daí, progressivamente, elas passaram para as mãos do setor privado. O Brasil, neste cenário, se destaca por manter diversos projetos envolvendo doenças negligenciadas. A produção de conhecimento sobre uma doença como a esquistossomose, classificada, segundo a Organização Mundial de Saúde, na categoria 2 de negligenciadas (enfermidade persistente, apesar de haver estratégias de controle), ganha ainda mais relevância. O projeto “Complementação da Carta Planorbídica nos estados de Minas Gerais, Paraná, Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte” é um exemplo de produção de conhecimento para ampliar estratégias de controle. Seu objetivo é registrar a ocorrência de espécies de moluscos do gênero Biomphalaria, hospedeiros intermediários do Schistosoma mansoni, agente etiológico da esquistossomose. O coordenador da pesquisa, Omar dos Santos Carvalho, pesquisador e chefe do Laboratório de Helmintologia e Malacologia Médica (LHMM)

do Centro de Pesquisas René Rachou (CPqRR/ Fiocruz Minas), explica a necessidade do mapeamento. “O principal problema é que ainda não conhecemos, de forma ampla, a distribuição dos três hospedeiros intermediários do S. mansoni no Brasil. Algumas espécies que são refratárias ao parasita são muito semelhantes às espécies epidemiologicamente importantes e poucos são os pesquisadores que sabem fazer esta diferenciação”, afirma. No Brasil, segundo Carvalho, existem 11 espécies e uma subespécie dos caramujos do gênero Biomphalaria. Dessas, B. glabrata, B. straminea e B. tenagophila são hospedeiras intermediárias do Schistosoma mansoni. De acordo com o pesquisador, a capacitação dos técnicos responsáveis pelas atividades do inquérito em cada estado é muito importante. “Com o mapa de distribuição das espécies do gênero Biomphalaria em mãos, as autoridades de saúde poderão direcionar melhor as medidas preventivas e de controle da esquistossomose, com economia de recursos financeiros e humanos, uma vez que teremos disponível a localização dos moluscos suscetíveis ao S. mansoni”, explica o coordenador.

Esquistossomose no Brasil

A esquistossomose mansônica é uma doença infecciosa parasitária e sua evolução clínica varia desde a forma assintomática até aquelas extreMalacologia é o ramo da biologia que estuda os moluscos. Os estudos malacológicos incluem a taxonomia, a fisiologia e a ecologia destes animais. Uma das razões para estes estudos é que algumas espécies de caramujos são hospedeiros de parasitas humanos. Outras espécies, como muitos cefalópodes (lulas, polvos e escargot,por exemplo) têm importância econômica e nutricional, sendo objetos de pesca ou de cultivo.

Foto: Marcelo Focado

Georreferenciamento de criadouros de moluscos auxiliam no combate à esquistossomose

Omar dos Santos Carvalho, pesquisador do René Rachou e coordenador do estudo

mamente graves, constituindo um dos mais importantes e graves problemas de saúde pública para o país.“A esquistossomose acomete, sobretudo, a população mais necessitada, já fragilizada por outras patologias decorrentes da falta de saneamento básico, de educação sanitária e de alimentação adequada”, explica Omar Carvalho. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 52,2% dos municípios brasileiros contam com serviços de esgotamento sanitário e apenas 33,5% dos domicílios são atendidos por rede geral de esgoto. Dos 5.507 municípios existentes em 2000, 2.630 não eram atendidos por rede coletora, utilizando soluções alternativas como fossas sépticas e sumidouros, fossas secas, valas abertas e lançamentos em cursos d’água. Estima-se que a esquistossomose ainda esteja presente em mais de 50 países, totalizando cerca de 200 milhões de casos no mundo. Endêmica em várias regiões tropicais e subtropicais do planeta, calcula-se que seja responsável por mais de 200 mil mortes por ano, além de trazer sofrimento aos pacientes, por se manifestar de forma MINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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crônica. No Brasil, a transmissão ainda ocorre em 19 estados e constitui uma das endemias mais importantes, pois, apesar do esforço do sistema de saúde, estima-se que ainda existam cerca de cinco milhões de casos. Segundo Omar Carvalho, os dados mais abrangentes publicados sobre a prevalência da esquistossomose datam de 1950 e foram realizados por Pellon & Teixeira em 1950. O Ministério da Saúde já está desenvolvendo um projeto para atualizar as informações através de um novo inquérito de prevalência da doença. No Brasil, a enfermidade ocorre em uma grande extensão do território, com número expressivo de formas graves e óbitos. Agrava este quadro

Nos cinco estados que participam do trabalho, os moluscos são colhidos nas margens e no fundo de cursos d’água. Depois, são examinados em laboratório para detectar a presença do S. mansoni Foto: Marcelo Focado

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o fato de ser uma endemia de difícil prevenção, uma vez que os moluscos possuem hábitos aquáticos. “Esse fato, associado às inúmeras localidades sem saneamento ou com saneamento básico inadequado, são fatores relevantes para manutenção da transmissão e do ciclo do parasita”, explica o pesquisador.

Trabalho de campo

Os levantamentos da distribuição dos moluscos do gênero Biomphalaria vêm sendo realizado nos estados de Minas Gerais, Paraná, Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Segundo o coordenador do projeto da carta planorbídica, esses são os estados que estão mais avançados nesta atividade e possuem pessoal já treinado para coleta, exame e identificação dos moluscos. “Este é o primeiro projeto visando conhecer a distribuição destes moluscos no Brasil. Seu financiamento foi uma decisão política do Ministério

da Saúde (MS) a partir de recomendação do Grupo Assessor do MS para o Controle da Esquistossomose”, explica. A ideia é que estas atividades sejam, posteriormente, estendidas para outros estados. O projeto piloto está sendo desenvolvido na região da Estrada Real, em Minas Gerais, pelo LHMM/CPqRR, em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG). Cinquenta e oito municípios desta área, que ainda não possuem dados sobre moluscos, estão sendo pesquisados. A escolha da região para implantação do projetopiloto foi feita em acordo a SES-MG, por meio do Programa de Controle da Esquistossomose, e possui duas vertentes. A primeira é uma preocupação antiga, uma vez que o Projeto Estrada Real engloba inúmeros municípios do estado, com prevalência variável da esquistossomose, sendo que alguns destes municípios exibem nas propa-


Você sabia? A esquistossomose é uma doença que ocorre em diversas partes do mundo de forma não controlada. No Brasil, ela é conhecida popularmente por xistossomose, xistosa, doença dos caramujos, moléstia de Pirajá da Silva e barriga d‘água. O agente causador da infecção varia conforme a região do mundo. No nosso país, a esquistossomose é causada pelo Schistossoma mansoni. A descrição completa do trematódeo foi feita em 1908, pelo cientista baiano Pirajá da Silva, que realizou suas primeiras observações em 1904, quando estudou os ovos do parasita eliminados por um doente em Salvador. De forma resumida, o ciclo da enfermidade se dá a partir de ovos eliminados

com as fezes do hospedeiro humano. Quando atingem a água, os ovos liberam as larvas, denominadas miracídios, que se desenvolvem e nadam por meio de cílios, até eventualmente encontrar um caramujo, que lhe serve como hospedeiro intermediário. É no interior desse molusco que o miracídio se desenvolve até a fase de cercária, que é capaz de penetrar a pele de seres humanos, alojando-se nas veias do intestino e fígado. Em muitos casos, há obstrução da circulação, sendo esta a causa da maioria dos sintomas da doença, que pode ser crônica e levar à morte. As áreas mais atingidas são pés e pernas e os locais de maior transmissão são as valas de irrigação, açudes e peque-

nos córregos. O desenvolvimento do parasita no homem leva aproximadamente seis semanas (período de incubação), quando atinge a forma adulta e reprodutora já no seu habitat final, o sistema venoso.A liberação de ovos pelo homem pode permanecer por muitos anos. O diagnóstico é feito por exame de fezes ou sorológico e o tratamento com medicamentos antiparasitários, substâncias químicas que são tóxicas ao parasita. Naqueles casos de doença crônica, as complicações requerem tratamento específico. As formas de prevenção são o saneamento básico, a educação sanitária, o tratamento dos doentes e o combate ao molusco.

gandas turísticas forte apelo para utilização de rios e lagos. “E muitos destes cursos d’água estão povoadas por moluscos infectados”, explica o pesquisador. A segunda vertente foi a decisão política das autoridades estaduais de saúde em iniciar o treinamento dos seus técnicos mesmo antes da implementação do projeto. “O piloto inclui capacitação de profissionais de saúde em coleta, embalagem, exame e identificação de moluscos. Os trabalhos de campo já foram realizados em oito municípios”, esclarece. A técnica de coleta do molusco no campo consiste em raspar, com uma concha de metal perfurada, a vegetação submersa, as margens e o fundo dos cursos d’água identificados como possíveis criadouros das espécies. Na superfície, o material recolhido é cuidadosamente analisado à procura dos moluscos. Os profissionais observam as folhas e os pequenos gravetos, onde os espécimes jovens ou pequenos costumam ficar presos. À medida que encontram os moluscos, eles são transferidos para um recipiente plástico sem água. O frasco recebe uma etiqueta com o número de identificação referente às anotações da caderneta de campo. As equipes, após o reconhecimento do local, vão identificar, assi-

nalar e georreferenciar os criadouros, caracterizando aqueles de importância epidemiológica em relação à frequência da população ao local. A busca dos moluscos é realizada em diferentes pontos de cada criadouro, para se obter uma boa amostragem da malacofauna presente. Os moluscos são levados, então, aos laboratórios de cada município investigado, onde será feita a pesquisa de larvas de S. mansoni, por dois métodos: exposição à luz de lâmpadas incandescentes ou esmagamento das conchas entre placas de vidro. Munido com pinças de pontas finas ou estilete, o profissional retira os pedaços da concha e examina cuidadosamente o molusco sob microscópio. Em seguida, uma amostra dos moluscos será identificada através da morfologia dos órgãos internos (aparelho reprodutor masculino e feminino) e da concha.

volvimento de técnicas de biologia molecular, utilização de ferramentas de geoprocessamento e formação de pessoal. O tempo previsto para a conclusão da carta nos cinco estados é de dois anos. No último dia 15 de dezembro de 2009, uma reunião convocada pela Coordenação de Doenças Transmitidas por Vetores (CDTV/MS), em Brasília, apresentou o projeto aos gerentes dos programas de controle da esquistossomose dos estados, esclarecendo diversos pontos, principalmente a estratégia de treinamento e a utilização de instrumentos de localização por satélite, por exemplo. Segundo Omar dos Santos Carvalho, que também é coordenador do Programa Integrado de Esquistossomose da Fundação Oswaldo Cruz (PIDE/Fiocruz) e membro do Comitê Assessor do Ministério da Saúde para o Controle da Esquistossomose, o fato de Minas Gerais assumir a coordenação demonstra que o estado possui pessoal qualificado para coordenar e executar as atividades, além do reconhecimento de que Minas possui massa crítica de pesquisadores voltados para o estudo da malacologia.

Perspectivas

A “Complementação da Carta Planorbídica nos estados de Minas Gerais, Paraná, Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte” conta com financiamento do Ministério da Saúde (MS) e obteve apoio da FAPEMIG por meio de diversos projetos, como o desen-

Letícia Orlandi MINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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Tecnologia

Iniciar novo jogo?

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Software livre para captura de movimentos e animação de personagens é novidade no mundo dos games Ronaldinho Gaúcho dribla o primeiro, o segundo, aproxima-se da pequena área e dispara o chute certeiro. Depois do gol, é só sair para comemorar. O personagem desta jogada corre como Ronaldinho, dribla, faz gol e comemora como ele. Mas a diferença está nas proporções bem mais compactas assumidas pelo craque neste jogo, já que se trata do Fifa Soccer, um game digital que reproduz equipes de futebol do mundo todo, com caracterização precisa dos seus atletas. O “milagre tecnológico” que possibilita a qualquer jogador do Fifa Soccer ser Ronaldinho, Beckham ou Cristiano Ronaldo por um dia chama-se captura de movimento. Os gestos do personagem são tão parecidos com os desses atletas porque, na verdade, são seus próprios movimentos, captados por um programa de computador e armazenados em bancos de dados acessados na medida em que os comandos do videogame são acionados. Essa tecnologia, utilizada em praticamente todos os jogos digitais recentes, poderá em breve ser empregada também por desenvolvedores brasileiros, a partir de um software livre criado por meio de uma parceria entre pesquisadores da Universidade Fumec e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

O projeto é conduzido pelo coordenador do curso de Tecnologia em Jogos Digitais da Fumec, João Victor Boechat Gomide, e pelo professor Arnaldo de Albuquerque, do Departamento de Ciência da Computação da UFMG. O passo inicial foi dado cerca de dez anos atrás, quando Gomide trabalhava como finalizador de efeitos na Rede Globo, no Rio de Janeiro. Ele realizou os estudos preliminares para aplicação da técnica na animação dos personagens do Sítio do Picapau Amarelo, mas, por fim, optou-se por fazer o trabalho em Nova Iorque, já que não havia no país alguém que trabalhasse com a tecnologia. “Ao voltar para Belo Horizonte e para a vida acadêmica, procurei parcerias na UFMG para desenvolvermos o projeto que, inicialmente, era um produto comercial. Depois, resolvemos abrir o código e hoje trabalhamos para que seja um software livre”. O produto final será disponibilizado em um portal para desenvolvedores do mundo todo. João Victor Gomide acredita que a iniciativa terá um grande impacto neste campo, pois, atualmente, não existe no mundo um software livre com esta funcionalidade. No mercado nacional, os efeitos podem ser ainda mais diretos, pois, embora a ferramenta seja amplamente utilizada no mundo todo, gerando uma produção audiovisual de alta qualidade, no Brasil existem ape-

nas dois equipamentos deste tipo. Os estudos, voltados para animação de personagens e jogos, são pioneiros no país. “Praticamente não há um histórico de pesquisas nesta área”, conta o pesquisador.

Revolução digital

A utilização da captura de movimentos no desenvolvimento de jogos é uma realidade com a qual os usuários atuais encontram-se familiarizados. Mas representa uma evolução que os jogadores dos antigos videogames talvez sequer imaginassem – no clássico PacMan dos anos 1980 os pixels eram tão grandes que eram visíveis na tela, sob forma de “quadradinhos”. “Atualmente é possível trabalhar com uma resolução bem maior, que torna a imagem muito próxima da original e as animações também podem ser feitas em tempo real”, diz Gomide. Segundo o professor, o mercado de animação para jogos digitais está entre os grandes patrocinadores das pesquisas na área de captura de movimento. Trata-se de uma tecnologia em evolução, mas já bastante amadurecida, utilizada no mundo todo, nos principais jogos e também no cinema. Entre os exemplos recentes estão os filmes Avatar e Os fantasmas de Scrooge. A técnica permite “colocar” os personagens onde for necessário, inclusive em cenários reais. O personagem Gollum,

Cena do Fifa Soccer, jogo criado a partir da captura de movimentos dos jogadores. O software criado possibilitará aos desenvolvedores brasileiros acesso a essa tecnologia MINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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Foto: Marcelo Focado

do filme O Senhor dos Anéis – O retorno do rei (2003), tornou-se famoso por ser construído desta maneira. O ator Andy Serkis fez os movimentos, que foram aplicados no personagem, e este foi inserido em cenas gravadas, nas quais ele interagia com outras pessoas.

Brasil entra em campo

Mocap (abreviatura da expressão em inglês Motion Capture) é a denominação comum aos softwares de captura de movimentos existentes no mercado. Por isso, o programa desenvolvido pelos pesquisadores da Fumec e UFMG está sendo chamado de OpenMoCap. Ele possibilita desde a captura do movimento de uma pessoa que esteja atuando até a transmissão deste movimento para o personagem virtual. “Antes, o Brasil era apenas consumidor desta tecnologia, utilizávamos o que vi-

João Victor Gomide, da Fumec: iniciativa de grande impacto no mercado brasileiro.

nha praticamente pronto. Agora, não só teremos a tecnologia, como será um software livre”, comenta Gomide. Atualmente, a técnica mais utilizada baseia-se em marcadores, pontos refletores afixados na pessoa que será origem dos movimentos a serem captados. Os locais específicos para disposição dos marcadores são as articulações, sobre uma roupa preta utilizada pelo ator. Para fazer a captura em si, pode-se usar vários princípios, baseados no mapeamento do campo magnético ou em câmeras, por exemplo. No caso do OpenMoCap, a equipe optou por câmeras, o que proporciona inclusive mais liberdade de ação para o ator. Leds (luzes) de infravermelho são posicionados para iluminar todo o set. E na frente da lente da câmera é colocado um filtro para o infravermelho. Assim, o equipamento de filmagem capta, na verdade, apenas os pontos brilhantes no corpo do ator (marcadores). O software entra, então, em ação, mapeando as coordenadas desses pontos e seguindo-os ao longo dos quadros do vídeo. Gomide conta que o desenvolvimento do programa exigiu trabalho intenso, pois envolve conhecimentos interdisciplinares que associam questões como visão computacional, física, processamento de imagem, entre outras. Nesse sentido, ele destaca que tem sido fundamental a colaboração

de outros professores da Fumec e da UFMG, além dos alunos iniciação científica e de mestrado, como David Flam, cuja dissertação colaborou diretamente para a construção do código do programa. O projeto tem o apoio da FAPEMIG desde 2006 e, a partir de 2007, também do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Luzes, câmeras, ação

O OpenMoCap já está pronto e os pesquisadores seguem trabalhando em aprimoramentos. Eles estudam, ainda, em que instituição de licenciamento de software livre farão o seu registro, para que fiquem definidas as regras de utilização. A equipe está satisfeita com o resultado atingido até o momento e espera ter, até o final de 2010, o programa disponível em um portal, para livre acesso pelos interessados. “A nossa proposta era desenvolver um produto que fizesse captura de movimento e estamos dando um passo além, que é tentar disponibilizar isso para o público em geral e chamar desenvolvedores para colaborar”, comemora Gomide. O professor acredita que, em um futuro não muito distante, a convergência entre essa e outras tecnologias permitirá que uma pessoa, talvez mesmo em sua casa, possa criar seu próprio jogo ou desenho animado. “É preciso saber apenas como construir os pontos refletores e ter câmeras. Atualmente, temos testado algumas

Uma ideia na cabeça e a tecnologia na mão A história da captura de movimento surgiu na década de 1990, em cinema e comerciais. Na medida em que a tecnologia foi crescendo, despertou, em um primeiro momento, certa rejeição – alguns animadores alegavam que a técnica não poderia ser vista como arte. Em 1999, o programa Donkey Kong, uma série de animação dos Estados Unidos, foi proibido de disputar o Emmy sob alegação de que ele não era arte

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(animação). Curiosamente, alguns anos depois, quando surgiu o personagem Gollum, do filme O Senhor dos Anéis, cogitou-se até mesmo criar uma nova categoria no Oscar para o ator que animava esse tipo de personagem. A tecnologia na área de animação segue evoluindo e atualmente é possível captar o movimento de várias pessoas que estejam atuando. Isso possibilita que em filmes como

Os Fantasmas de Scrooge e no campeão de bilheteria Avatar o cenário possa ser, em determinados momentos, simplesmente uma sala com os atores em ação. Atores e diretor precisam ter muita concentração e saber exatamente o que se pretende. Posteriormente, o resultado é inserido em um cenário virtual e são feitas as finalizações. Uma nova maneira de se fazer cinema, em que a arte é indissociável da tecnologia.


No cinema e na vida real A tecnologia de captura de movimentos não é exclusividade do ramo de entretenimentos. Há algum tempo, ela vem sendo usada com sucesso também em outras áreas, como medicina e esportes. Nas últimas Olimpíadas, a equipe australiana, por exemplo, utilizou um sistema de captura de movimentos para monitorar e aperfeiçoar o desempenho dos seus atletas. “Os esportistas são colocados em uma esteira para correr, andar ou realizar outros gestos que são captados e avaliados. A partir daí, pode-se ver o padrão de movimentos e estudar formas de melhorá-lo, através de diferentes posturas”, esclarece o professor João Victor Gomide. Sistema similar pode ser usado em hospitais para diagnosticar doenças com Mal de Parkinson e outros problemas neurológicos, através do exame da forma como o paciente caminha. Neste sentido, existe no país um software produzido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para estudos acadêmicos na área médica. No caso do grupo da Fumec e UFMG, a princípio o programa foi pensando apenas para animação, mas Gomide adianta que existe interesse por parte de professores do Departamento de Educação Física em desenvolver um trabalho interdisciplinar. “Já que vamos ter a tecnologia, por que não ampliar as aplicações?”. webcams. Elas ainda são muito ruidosas, mas estão chegando novas tecnologias neste sentido”, antecipa. Enquanto isso, existem também outros projetos para utilização do software. Um deles, já em andamento, é fazer um curta-metragem com o grupo de teatro Galpão. Gomide conta que já existe o roteiro, fotografias, personagens e o OpenMoCap deverá ser usado para animar os personagens.

Palavra-chave

EXEMPLOS A SEGUIR? José Policarpo Gonçalves de Abreu Tem sido divulgado à exaustão o avanço que nosso país teve nestes últimos anos em termos de geração de conhecimento, tendo o Brasil subido para o décimo terceiro posto no ranking mundial que contabiliza o número de publicações em periódicos indexados internacionais. Isto, todavia, não tem sido acompanhado pari passu do aumento de depósitos de patentes em nível internacional, levando muitos analistas à inevitável comparação entre Brasil e Coréia do Sul. Alguns pesquisadores discordam dessa comparação mostrando graves incongruências na mesma. À parte essas considerações, não há como negar o grande fosso existente entre os resultados mostrados por ambos indicadores. Vale dizer, não há como ignorar a dicotomia existente entre geração de conhecimento e obtenção de produtos derivados. Apesar da promulgação de Leis de Inovação, a federal em 2004, e algumas estaduais em anos subsequentes, há ainda muitas dificuldades para que se atinja a salutar interação entre o setor acadêmico, em grande parte responsável pela geração de conhecimento e o empresarial, na maioria das vezes aquele que produz inovação. Desconfianças, embora bem menores do que em passado recente, ainda teimam em existir em ambas as partes. Ao entender a grande importância dessas leis para nação, a FAPEMIG tem perseguido uma real aproximação entre ambos os setores, de forma a reduzir o abismo existente entre os indicadores mencionados. Para tal, no papel de agência indutora – como consta em sua missão – vem lançando editais, em parceria com empresas (Fiat,Whirlpool,Vale), que visam obter resultados concretos que possam conduzir a desenvolvimento verdadeiramente sustentável para nosso país. Desenvolvimento este de difícil existência sem um verdadeiro equilíbrio entre Ciência, Tecnologia e Inovação, vale dizer, sem a real integração entre universidade e empresa. Esse é um exemplo a ser seguido, o qual na verdade não é uma novidade em si. O Brasil, à frente de muitos outros países, deu um enorme salto através da promulgação da Lei n° 9.991 de 2000, a qual sabiamente estabelecia um melhor caminho para construir um sistema elétrico de alta eficiência através da pesquisa e do desenvolvimento inovador da tecnologia. Houve no início, como natural, alguns titubeios, mas os programas de P&D de muitas concessionárias acabaram por se afirmar como geradores de tecnologias e aplicações práticas, além de ter permitido às empresas, em parceria com universidades e centros de pesquisa, desenvolver e capacitar seu pessoal, preparando-o para os novos desafios que a modernidade tem lhes imposto. Por outro lado, as oportunidades e os recursos colocados à disposição das Instituições de Ciência, Tecnologia e Inovação (ICTs) produziram nos últimos anos um salto, tanto qualitativo quanto quantitativo,

Virginia Fonseca MINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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Saúde

Na batalha contra o

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Pele clara, exposição ao sol em excesso e um diagnóstico: o comerciante Eduardo Augusto Lana, 51 anos, estava com câncer de pele. Ele se preparava para a cirurgia de retirada do tumor quando decidiu contribuir para o avanço da ciência. Lana foi um dos 200 pacientes a doar parte do tumor e do tecido afetado para o Banco Mineiro de Tecidos e Tumores (BTT). “Foi uma oportunidade de colaborar com a evolução da medicina e dos estudos sobre a doença e de ajudar pessoas que estão na mesma situação que a minha. Sinto-me honrado”, declara. Embora o câncer de pele seja o mais frequente no Brasil, correspondendo a cerca de 25% de todos os tumores malignos, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), quando detectado precocemente, apresenta altos percentuais de cura. Esse foi o caso de Lana. O paciente, que já havia removido dois tumores superficiais, nas costas e no nariz, reagiu bem à cirurgia e encontra-se em perfeito estado de saúde. A implantação do BTT e a coleta das primeiras amostras de tecidos e tumores tiveram início em julho de 2007, a partir da atuação conjunta entre o Hospital Alberto Cavalcanti (HAC), da Fundação Hospitalar de Minas Gerais (Fhemig), e a Fundação Ezequiel Dias (Funed). Segundo o coordenador do projeto, o cirurgião oncológico, Alberto Julius Alves Wainstein, a criação do Banco é uma

Fotos: Arquivo Alberto Wainstein

Banco de tumores ajuda na produção de conhecimento sobre a doença e os possíveis tratamentos

Análise macroscópica de amostras de tecido e tumores. A imagem ampliada 400 vezes mostra um adenocarcinoma (tumor maligno) ovariano.

resposta à necessidade de produzir mais conhecimento sobre as células tumorais. “Com a busca de tratamentos mais eficazes para pacientes com câncer, definição de melhores rotinas de diagnósticos e prognósticos mais precisos. Pretendemos beneficiar não apenas os pacientes oncológicos, mas a população como um todo”, ressalta. A coleta da amostra é simples e rápida. Ocorre durante a cirurgia de retirada do tumor, mediante autorização do paciente, sem nenhum procedimento adicional (leia mais na pág.

seguinte). “Dos 200 pacientes incluídos no estudo, alguns doaram mais de um tipo de tecido, acumulando 206 amostras de diferentes tumores de maior incidência no Brasil – gástricos, prostáticos, intestinais, mamários, renais, de pele e de bexiga”, informa a biomédica e subcoordenadora do projeto, Karine Sampaio Lima.

Incremento à pesquisa

A instalação do Banco é um trabalho pioneiro no Estado e recebeu todo apoio da FAPEMIG, que liberou recurMINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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Medicina personalizada, benefícios individuais Com o mapa genético dos pacientes em mãos e informações contidas no DNA, especialistas indicam o tratamento mais adequado para o controle de doenças e até a adoção de hábitos que evitem problemas aos quais o paciente tem predisposição. Esse é o mundo da medicina personalizada. A criação do Banco Mineiro de Tecidos e Tumores vem a atender a esta nova realidade em que diagnósticos são adaptados à genética de cada um. O estudo detalhado das mutações dos tumores levará a diagnósticos mais precisos, tratamentos mais específicos e medicamentos mais eficazes aplicáveis a cada um, considerando as particularidades de sua doença.“Os tumores tem uma impressão digital própria. Porém, muitos pacientes são tratados com o mesmo medicamento. Com a análise do perfil genético de cada tumor, podemos descobrir comportamensos da ordem de R$712,7 mil para o projeto. No Brasil, existem apenas dois centros desse tipo, o gerenciado pelo Hospital A.C.Camargo e o do Instituto Nacional de Câncer (Inca), ambos na capital paulista. O projeto é considerado uma fonte incremental, sendo o ponto de partida para outras frentes de pesquisa. “Um banco ativo em Minas Gerais é essencial para o desenvolvimento de outros estudos. Por meio dele, pesquisadores podem utilizar os tumores e obter informações de grande valor científico”, explica Lima. As amostras dos tumores de câncer de mama têm sido de grande utilidade para o mastologista e doutorando em Saúde da Mulher, Henrique Lima Couto. “Sem o Banco, não seria possível dar andamento à minha pesquisa, cujo tema é a relação entre a alteração da proteína folistatina com a sobrevida das pacientes”, destaca. “A disponibilidade das amostras me permite testá-las e analisá-las a qualquer momento”, acrescenta. De acordo com Wainstein, a possibilidade de fazer testes nos tumores é um fator que garante mais agilidade na fabricação de medicamentos contra o câncer. “Geralmente, demora em média 12 anos para um remédio ser comercializado. Com a possibilidade de fazer testes nos tecidos, esse tempo se reduz significativamente”, complementa.

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tos biológicos diferenciados e desenvolver tratamentos baseados nessas alterações”, explica Wainstein. Segundo ele, pacientes com o mesmo tipo de tumor, como o câncer de mama, apresentam diferenças como fatores de crescimento, alterações nos receptores de membrana e nos marcadores de superfície da célula tumoral. “Graças a essas informações é possível saber quem se beneficia mais com determinado medicamento”, ressalta. Um dos grandes desafios da medicina, segundo o pesquisador, é definir tratamentos que eliminem somente as células tumorais do paciente, já que a quimioterapia ataca células normais importantes para o organismo. “E essa é a nossa missão: buscar alternativas que nos ajudarão a vencer a batalha contra o câncer e a beneficiar o maior número de pacientes possível”, almeja.

Doação e coleta

Após consentimento do paciente por escrito, os tecidos e tumores são coletados durante a cirurgia, realizada no Hospital Alberto Cavalcanti. Toda amostra é encaminhada para a Funed, onde é codificada, processada – quando são retirados os tecidos adjacentes –, e armazenada a -80°C. Parte do tumor é separada para extração de DNA e RNA e criação de acervo de biomoléculas. O restante é usado no estabelecimento de cultura celular primária. Segundo Luciana Maria Silva, biologista celular da Fundação Ezequiel Dias, o próximo desafio é estabelecer linhagens celulares. Dessa forma, o tumor permanece vivo, pronto para ser utilizado em testes de medicamentos, quantas vezes for preciso. “Atualmente, compramos linhagens do exterior a custos altos. Com o Banco, vamos estabelecer culturas primárias com características brasileiras, favorecendo os estudos e beneficiando a população nacional. Todo este material poderá ser utilizado, posteriormente, para diversos estudos incluindo a determinação do perfil genético de cada tumor”, adianta. Durante o período de implantação do BTT, foram padronizados os protocolos e procedimentos de rotina para a coleta de dados e armazenamento das amostras. “Sendo piloto, o proje-

to vai incentivar outras instituições a aproveitar as amostras. O ideal seria que todos os hospitais criassem um banco. A nossa pesquisa é o pontapé inicial”, destaca Silva. “Outros futuros bancos podem aproveitar esse conhecimento e aplicá-lo”, observa. A equipe pretende continuar com as atividades do BTT, aprofundar os estudos, padronizar novos procedimentos, ampliar a coleta para outras unidades hospitalares da Rede Fhemig e estabelecer novas parcerias com instituições e laboratórios de pesquisa. “A implantação do Banco foi o início de um trabalho grandioso. Confiamos na amplitude do projeto e no potencial de trazer avanços científicos para a área da medicina oncológica”, pontua Lima, destacando a relevância da coleta de mais amostras. “Quanto mais tivermos, melhor para os estudos e mais precisão nos resultados”, aponta.

Carolina Jardim Projeto: “Implantação do Banco Mineiro de Tumores Humanos – projeto piloto” Modalidade: Edital Gestão em Saúde para o SUS Coordenador: Alberto Julius Alves Wainstein Valor: R$712.763,64


Prevenção

O corpo fala Pesquisadores propõem método de baixo custo para prever resistência à insulina a partir de medidas corporais A saúde do corpo humano depende do equilíbrio de uma série de substâncias que circulam por ele, dentre elas a glicose, principal fonte de energia para o organismo. Obtida a partir do consumo de alimentos ricos em carboidratos ou açúcares, como pães, massas e doces, sua falta ou excesso no sangue pode causar problemas de saúde como fraqueza, desmaios, e até doenças cardíacas e diabetes. O controle da quantidade de glicose no sangue depende da ação de várias substâncias, destacando-se dois hormônios produzidos pelo pâncreas: a insulina e o glucagon, que agem, res-

pectivamente, diminuindo e aumentando sua concentração. No entanto, há casos em que a atuação desses hormônios é prejudicada porque o corpo desenvolve uma espécie de resistência a eles, o que pode desencadear males graves. Para prevenir esses males, é preciso conhecer o quanto antes a situação do indivíduo, o que é feito com a realização de alguns exames específicos que são caros e, muitas vezes, indisponíveis para utilização rotineira. Foi pensando em oferecer uma solução de menor custo que professores do Departamento de Nutrição e Saúde da Universidade Federal de Viçosa (UFV) estão avaliando métodos alter-

nativos para a predição da resistência à insulina, uma resposta anormal do corpo à ação do hormônio sobre os músculos e tecido adiposo, que pode resultar em aumento da concentração de gordura corporal e sanguínea, diabetes, elevação da pressão arterial, entre outras alterações. Os fatores, juntos ou combinados, impulsionam o risco de diabetes, doenças renais, cardíacas e cerebrais, como o derrame. A pesquisa foi feita por um grupo que vem se dedicando aos estudos sobre a saúde masculina e, por isso, tem a peculiaridade de ser voltada apenas a homens. Mas além da adequação à linha de trabalho da equipe, que inMINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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cluiu seis professores e um aluno de pós-graduação sob a coordenação da professora Lina Rosado, o método é em especial pertinente, já que uma das principais causas da resistência à insulina, o acúmulo de gordura na região do abdômen, é freqüentemente constatada entre indivíduos do sexo masculino. A proposta consiste em determinar indicadores antropométricos e metabólicos que poderão ser utilizados para analisar a probabilidade do organismo se tornar menos sensível ao hormônio. Entre os indicadores antropométricos, considerou-se para o estudo medidas de peso, altura, perímetro da cintura e do quadril, diâmetro abdominal sagital e percentual de gordura corporal. Os indicadores metabólicos incluem níveis glicêmicos e perfil lipídico sanguíneo (colesterol e frações e triglicérides). O trabalho se apoiou no conceito de que medidas corporais podem fornecer informações sobre o estado de saúde do indivíduo, especialmente nas correlações encontradas entre algumas dessas medidas e a incidência da resistência à insulina. O perfil da distribuição de gordura, por exemplo, é um indicativo de que o organismo pode ser menos sensível à ação do hormônio pancreático, como acontece com

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indivíduos que tendem a acumulá-la na região do abdômen ou mesmo que estejam muito acima de seu peso ideal. Fatores como altas taxas de colesterol no sangue, especialmente do LDL-c, o colesterol “ruim”, taxas reduzidas de HDL-c, o colesterol “bom”, e envelhecimento também apresentaram relação com a presença de resistência à insulina e são prenúncios de possíveis doenças cardíacas. A base para o estudo, explica Lina, foram relatos científicos que apontavam a relação entre alterações das medidas corporais e metabólicas e a prevalência de doenças crônicas. Os dados foram coletados por nutricionista responsável pelo atendimento e, para isso, foram necessários apenas aparelhos como balança eletrônica, fita métrica inelástica, antropômetro (usado para medir a altura ou partes longas do corpo), calíper (para medição do diâmetro abdominal sagital), aparelho de bioimpedância elétrica (para avaliação da gordura corporal) e uma mesa, onde o paciente possa se deitar. Segundo a professora, o método pode ser uma alternativa do Sistema Único de Saúde (SUS) para a realização de exames para a determinação de resistência ao hormônio em substituição aos disponíveis, que possuem as desvantagens de serem técnicas invasivas,

caras e não serem totalmente adequadas para o uso clínico. Um dos mais usados, o índice HOMA-IR, (da sigla em inglês Homeostasis Model Assessment of Insulin Sensitivity), uma fórmula matemática que leva em consideração os níveis de insulina e de glicose no sangue após período de jejum, não possui um padrão para avaliações individuais, além de ser oneroso. Na ausência de um método eficiente e barato, muitos postos de saúde não realizam os testes para predição da resistência à insulina e pessoas que podem apresentar a característica desconhecem o fato. Isso pode contribuir para o agravamento do quadro, já que, com as informações sobre o seu estado, médicos e nutricionistas poderiam prescrever cuidados com a alimentação e a prática de exercícios físicos ao paciente para impedir doenças futuras.

Análises

Para testar o método e avaliar quais dentre as variáveis seriam mais eficazes para predizer a resistência à insulina, os pesquisadores realizaram um estudo com 150 homens, moradores de Viçosa (MG), com idade entre 20 e 60 anos, que não tinham manifestado doenças cardiovasculares, dia-


Cuidando deles A técnica desenvolvida pelos pesquisadores da UFV pode ser um aliado valioso na luta contra problemas crescentes entre a população masculina como as doenças cardíacas e o diabetes, que em 2025 irá atingir 4,5 milhões de brasileiros, segundo levantamento de 2006 da Federação Internacional de Diabetes. Apesar dos números, muitos portadores desconhecem que possuem o mal, o que dificulta a adoção de medidas adequadas para uma vida mais sadia. Como o surgimento de doenças está relacionado ao sedentarismo e sobrepeso, a professora aconselha a prática de exercícios físicos e alimentação equilibrada, que inclui cereais integrais e grãos, leguminosas, como feijão e vagens, frutas, verduras e leite e derivados com baixo teor em gordura. O cardápio deve ainda contemplar carnes, principalmente a de peixes. Devese também evitar o consumo excessivo de sal, café e álcool. “Também se deve utilizar o óleo vegetal para o preparo dos alimentos, evitando-se frituras e preparações à milanesa”, alerta.

betes, problemas de pressão arterial ou consumido medicamentos que influenciassem no controle glicêmico. O levantamento, feito entre agosto e setembro de 2007, incluiu questionários sobre o histórico de saúde deles e de familiares e hábitos como fumo, consumo de bebida alcoólica e sedentarismo, além das medições propostas pelo método. Eles também tiveram as taxas de glicose e de insulina medidas para análise pelo índice HOMA-IR, pelo qual seria detectada a resistência à insulina e seriam considerados os parâmetros de comparação. A partir dos resultados encontrados foram propostos pontos de corte: 89,3 cm para o perímetro da cintura, 20 cm para o diâmetro abdominal sagital, 23,1 de percentual de gordura corporal e 24,8 para o Índice de Massa Corporal, calculado pela divisão do peso pelo quadrado da altura. Segundo Lina, os resultados foram bastante positivos, em especial das variáveis perímetro da cintura e diâmetro abdominal sagital, que tiveram os melhores desempenhos. A professora ressalta, no entanto, que ainda são necessários mais estudos considerando a utilização desses indicadores também em mulheres, adolescentes e idosos. “Espera-se que,

futuramente, tenhamos condições de avaliar melhor a saúde dos indivíduos considerando as particularidades inerentes à idade e sexo”, diz. A expectativa é de que a avaliação antropométrica, que já rotina no atendimento realizado por nutricionistas, possa ser utilizada não apenas para avaliação do estado nutricional dos indivíduos, mas também fornecer outras informações sobre a saúde dos mesmos e do risco de doenças. A garantia desse diagnóstico pelo SUS poderia acarretar redução de gastos com o tratamento de doenças, já que ela serve como subsídio para agir na prevenção dos males. Lina lembra dado da Organização Mundial da Saúde de que entre 2005 e 2015 cerca de R$50 bilhões serão gastos com tratamento a doenças do coração, diabetes e derrames. Desireé Antônio Projeto: “Determinação de indicadores antropométricos e metabólicos para predição da resistência à insulina em indivíduos do sexo masculino” Modalidade: Edital Gestão em Saúde para o SUS Coordenador: Lina Enriqueta Frandsen Paez de Lima Rosado Valor: R$26.896,00

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Tecnologia assistiva

A órtese é uma luva robotizada, feita com material antialérgico e flexível. “Tendões artificiais” são ligados a um motor e, por meio de sinais elétricos, o movimento de abrir e fechar a mão pode ser realizado.

Mais autonomia

Novas tecnologias proporcionam independência a deficientes visuais e a quem perdeu os movimentos das mãos Segurar um copo para tomar água, recortar uma folha de papel, tomar o ônibus para ir para casa ou ao trabalho. Coisas simples, que a maioria das pessoas faz todos os dias, mas verdadeiros desafios para aqueles que, por algum motivo, perderam os movimentos das mãos ou a visão, total ou parcialmente. Foi pensando em dar mais autonomia a quem tem alguma dessas características que dois projetos foram desenvolvidos por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG): uma órtese, espécie de luva com dispositivos eletrônicos que

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simulam tendões, permitindo o movimento voluntário de abertura e fechamento da mão; e um sistema de sinalização eletrônica, que facilita o acesso de deficientes visuais a ônibus e táxis sem depender de outra pessoa. Criada por membros do Laboratório de Bioengenharia (Labbio) da UFMG, sob a coordenação do professor Marcos Pinotti, a órtese possibilita que pessoas que perderam os movimentos das mãos voltem a realizar ações simples, como abri-las, fechá-las e segurar objetos. Ele revela que a expectativa é que o produto, que ainda é

um protótipo e está em fase de testes, esteja no mercado até o final do ano. A órtese foi desenvolvida, inicialmente, pensando em pessoas que sofreram lesões no plexo braquial, conjunto de nervos que parte da região cervical e originam as ligações nervosas que permitem os movimentos dos membros superiores. O dano é muito comum entre aqueles que sofreram acidentes de moto, em sua maior parte jovens e, muitas vezes, de baixa renda. “A luva seria uma forma de restituir parte da rotina que essas pessoas tinham antes do trauma”, justifica Pinotti.


Fotos: Marcelo Focado

Na parte posterior da luva, os tendões são conectados a uma mola que produz uma força contrária ao movimento “ditado” pelos eletrodos, permitindo a abertura dos dedos da órtese. Segundo o engenheiro mecatrônico Daniel Rocha, um dos responsáveis pela elaboração de luva, a mola também tem a função de aumentar a vida útil da luva. Para que a órtese funcione, eletrodos são postos sobre dois músculos superiores ativos, que podem ser os ombros ou mesmo a face. Ao se moverem, eles emitem sinais elétricos de baixa intensidade. Os estímulos são captados por um microcontrolador ligado a um pequeno motor, que aciona os tendões. Dessa forma, o movimento, que deverá ser feito pela mão, é “comunicado” à luva. O equipamento é movido à bateria recarregável, colocada numa pequena bolsa levada pelo usuário. Pinotti conta que é preciso treino para o uso do equipamento, mas isso é algo bastante rápido e simples. “Duas sessões de uma hora são suficientes para se familiarizar com a tecnologia”, diz. O treinamento consiste em reaprender a controlar os movimentos da mão e a sincronizá-los com o do músculo que fornecerá os sinais. A fim de facilitar a adaptação, os usuários utilizam, durante as sessões, um sistema formado por duas pequenas lâmpadas LED - uma vermelha, outra verde - que se acendem conforme o movimento feito. Dessa forma, a pessoa sabe como e com intensidade deve mover o músculo para que a luva funcione corretamente.

Evolução

Equipe do Labbio/UFMG, com o pesquisador Marcos Pinotti (à direita): tecnologia inovadora já tem depósito de patente

O equipamento consiste em uma luva robotizada, feita com material antialérgico e flexível, que se assemelha a uma lycra. Ele possui estruturas que atuam como tendões presentes no antebraço e são conectadas a um

motor que funciona com base em sinais mioelétricos, isto é, emitidos pelos músculos durante os movimentos de contração ou relaxamento. São ao todo dez tendões, sendo um par para cada dedo das mãos.

As pesquisas para a criação da órtese começaram em 2005 e envolveram uma equipe de sete pesquisadores do Labbio de diversas áreas, incluindo engenheiros mecânicos, mecatrônico, eletricista e uma terapeuta ocupacional. Nesta fase inicial, o projeto contou com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A FAPEMIG também apoiou o projeto em sua MINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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fase clínica por meio de bolsa de pósgraduação, segundo Pinotti essencial para a obtenção dos resultados. Até chegar ao modelo atual, concluído em 2009, foram produzidos outros dois modelos de luvas, mais pesados por causa da bateria e do material que a compunha. De acordo com o pesquisador, a meta era chegar a uma órtese que assegurasse maior liberdade de movimentos e que fosse confortável e esteticamente agradável, características que ainda faltam à maioria dos produtos disponíveis no mercado. Alguns modelos ainda utilizados têm funcionamento mecânico e são formados por hastes que “puxam ou empurram” os dedos. Além de pouco prática e até incômoda, a órtese mecânica é pesada e desperta certa resistência nos usuários pela sua aparência. “Muitas pessoas não usam as órteses porque elas se assemelham a garras e destoam muito do corpo”, conta Daniel Rocha. Vários experimentos foram realizados em laboratório para determinar as condições de operação da luva, dentre elas qual a fonte de energia mais adequada e qual material mais agradável para sua confecção, antes de serem iniciados testes clínicos, em 2007. Quatro pacientes com lesões no plexo braquial do Centro Geral de Reabilitação (CGR), em Belo Horizonte, testaram a eficácia da luva na realização de pequenas tarefas do dia a dia como segurar copos e mover objetos. Segundo Daniel, os resultados foram bastante satisfatórios. “Eles se adaptaram bem e rapidamente à órtese, até mais do que esperávamos.” A reação desses primeiros usuários em relação ao equipamento foi objeto da tese de doutorado da terapeuta ocupacional Kátia Meneses, integrante do grupo que o desenvolveu. No estudo, similar a uma pesquisa de satisfação, foram avaliados itens que vão desde a facilidade de manejo na realização de tarefas até a apreciação estética. Atualmente, novos testes estão sendo feitos no Hospital Universitário de Pernambuco, desta vez com um grupo de 20 pacientes que tiveram

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Acidente Vascular Encefálico (AVE), um tipo de derrame no qual ocorre a interrupção de fluxo sanguíneo para o cérebro, impedindo que alguns músculos recebam sinais nervosos e fiquem paralisados. O trabalho é parte da tese de doutorado de um dos pesquisadores do Labbio, Rodrigo Cappato, que atualmente leciona na universidade pernambucana e transferiu a sua pesquisa para lá. Ele conta que o número de pacientes que sofreram um AVE é maior do que os que apresentam lesão do plexo braquial e, por isso, essa aplicação poderia beneficiar um número maior de pessoas. A disseminação do uso da luva entre os pacientes pode ocorrer a partir da prescrição médica ou das indicações dos terapeutas ocupacionais. “Eles ainda não indicam porque não conhecem a tecnologia, mas podem vir a prescrevê-la como um auxílio à terapia”, diz. Além de ser mais leve e confortável que os modelos antigos, a órtese proposta pela UFMG é mais barata do que suas correspondentes importadas. As luvas devem custar, segundo projeções da equipe, entre R$2 mil e R$2,5 mil. As estrangeiras, por sua vez, custam em torno de R$5 mil (modelos mais simples) e R$10 mil (as mais elaboradas). Como a tecnologia envolvida na produção da órtese é inédita no Brasil, o pedido de sua patente foi depositado em 2005 no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), órgão responsável pelo registro. Para viabilizar sua produção, alguns dos pesquisadores planejam fundar uma empresa, que provavelmente será incubada na Inova-UFMG, a incubadora de empresas da universidade. “Ainda temos que passar por uma série de trâmites burocráticos para obter as certificações dos órgãos de saúde, como o Ministério da Saúde e a Agência de Vigilância de Saúde (Anvisa). O que temos ainda é um protótipo, mas estamos correndo atrás disso”, finaliza. Desireé Antônio

Direito de ir e vir Outro projeto que tem como foco a tecnologia assistiva (que visa à melhoria da qualidade de vida de pessoas que possuem algum tipo de deficiência) é um sistema de sinalização eletrônica, o DPS 2000, que possibilita a deficientes visuais usarem o transporte público de forma independente. O equipamento, cujo funcionamento é baseado na tecnologia da transmissão de informação por radiofrequência, é composto por um transmissor que fica com o usuário e um receptor, instalado nos ônibus. O transmissor é previamente programado com informações sobre as linhas de transporte mais usadas. Equipado com um único botão e com instruções de mensagens de voz, o aparelho pode ser operado totalmente pelo próprio deficiente visual sem ajuda de outra pessoa. Quando se está no ponto de ônibus, a pessoa seleciona a opção que deseja e um sinal de rádio é continuamente enviado até o automóvel se aproximar do local. Quando está a cem metros do ponto, o receptor nele instalado capta o sinal e o motorista é informado, através de luzes e sons, que há um deficiente visual no ponto. Ao chegar, um autofalante integrado ao receptor informa o número da linha e dá instruções de embarque ao passageiro. “O protótipo já está pronto e em fase de testes”, conta Júlio de Melo, professor do Departamento de Engenharia Mecânica da UFMG e um dos responsáveis pelo projeto. O sistema foi instalado em caráter experimental na linha interna de ônibus da Universidade durante o mês de janeiro para avaliações iniciais. O atual modelo, concluído em setembro, é uma evolução de outros que começaram a ser elaborados em 2002, quando o projeto recebeu recursos do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), e em 2006, quando teve início a participação de pesquisadores da Universidade. A partir daí, foram


Foto: Marcelo Focado

O DPS 2000, que funciona a partir da transmissão de dados por radiofrequência, promete facilitar a vida dos portadores de deficiência visual.

feitos aprimoramentos como a substituição do visor com a programação pelo uso de som, o aumento do raio de alcance da transmissão e a troca de um chip produzido por um único fabricante por outros encontrados mais facilmente. A bateria de nove volts foi trocada por uma recarregável. Outra realização dos pesquisadores foi a criação de um design adequado às necessidades do público-alvo. Para definir o melhor formato para o transmissor, os responsáveis fizeram uma pesquisa com alunos do Instituto São Gabriel, escola de Belo Horizonte especializada no ensino para deficientes visuais, a fim de descobrir como gostariam que fosse o aparelho. O pedido mais recorrente foi que não houvesse quinas pontiagudas, que poderia machucá-los, mas sim arredondadas. O projeto foi elaborado pela empresa de design Criativina, incubada na Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG). De acordo com Melo, o produto deve começar a ser fabricado em larga escala ainda neste ano por uma empresa criada pelos cientistas que desenvolveram a tecnologia, a Geraes Tecnologias Assistivas. O transmissor deve custar R$250 e o receptor a ser instalado no ônibus, cerca de R$650. A adoção do sistema nas cidades,

no entanto, ainda pode demorar algum tempo porque isso depende da autorização e adesão de órgãos de trânsito e da administração pública. “Agora que já temos o sistema pronto, pretendemos marcar algumas reuniões com a prefeitura e com a BHTrans”, adianta o professor. Antes da implantação, os pesquisadores pretendem realizar um teste maior com um grupo de alunos do São Gabriel e algumas das linhas que servem o local. A previsão mais próxima de instalação do sistema é em Jaú, município de São Paulo com 840 mil habitantes, onde as negociações já estão bem adiantadas. Segundo Adriano Assis, engenheiro elétrico da equipe do DPS 2000 e sócio da empresa, a adequação do trânsito local está sendo realizada e a instalação deve ocorrer até maio deste ano.

Belo Horizonte, ele encontrou um deficiente visual e se ofereceu para avisá-lo quando seu ônibus chegasse. Enquanto aguardavam, um carro da linha usada por Dácio passou, mas ele permaneceu no lugar para ajudar o senhor cego. Algum tempo depois, outro ônibus de sua linha passou. Quando o terceiro ônibus chegou ao ponto, Dácio pediu licença ao seu conhecido e partiu. Minutos após sua saída, começou a chover. “O único pensamento do Dácio durante sua volta para casa era como o deficiente faria para pegar seu ônibus, sozinho e na chuva”, lembra Júlio de Melo, que contou a história. A partir desse dia, Dácio buscou formas de dar mais liberdade a deficientes visuais para usar o transporte público. Antes de propor a ideia do DPS, ele pensou num sistema de placas e outros parecidos. Já com o conceito do sistema em mente, mesmo sem sua tecnologia, ele foi a uma mostra de projetos promovida pelo Sebrae na Pontifícia Universidade Católica (PUC), em Belo Horizonte, para apresentá-lo. Apesar de não ser aluno e não estar inscrito no evento, ele pôde apresentá-lo e acabou entre os aprovados, recebendo recursos e orientações da instituição para dar continuidade ao projeto, o que fez por conta própria até procurar a UFMG. Hoje aposentado, aos 80 anos, ele é detentor de parte da patente do DPS 2000, cujo nome, formado por suas iniciais, é uma homenagem ao seu envolvimento com a causa.

Retribuição

O DPS 2000, cuja patente foi depositada em 2001 e contemplado com o Prime 120, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), foi criado graças à inspiração de uma pessoa que não tem nada a ver com a área de engenharia elétrica, o vendedor de produtos farmacêuticos Dácio Pedro Simões. Em 1996, numa noite em que esperava pelo ônibus na praça da Liberdade, em

Projeto: “Aperfeiçoamento de equipamento eletrônico para comunicação entre portadores de deficiências visuais e meios de transporte coletivo e individual” Modalidade: Projeto Inventiva Coordenador: Júlio Cézar David de Melo Valor: R$18.000,00

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Meio ambiente

Mais energia, menos impactos para o ambiente Projeto de recuperação de áreas degradadas inédito no país é desenvolvido em Minas Gerais No início da década de 1980, o município mineiro de Caldas, no sul do Estado, recebeu um empreendimento pioneiro: a implantação da primeira lavra nacional de urânio. A mina operou por quase 15 anos e teve suas atividades encerradas em 1995, mas reassumiu, nos últimos anos, um papel importante nas pesquisas ambientais do Brasil. Lá estão sendo realizados, com a participação de pesquisadores do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), estudos que deverão orientar as atividades do país no que diz respeito ao descomissionamento (fechamento) e recuperação de regiões degradadas pela mineração de urânio. A cadeia produtiva do urânio no Brasil, da mineração à fabricação do

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combustível para as usinas nucleares, é atualmente de responsabilidade das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Ao contratar um Plano de Recuperação de Área Degradada (PRAD) na iniciativa privada para o descomissionamento da mina de Caldas, a INB solicitou paralelamente ao CDTN um programa de pesquisa para dar suporte a estas atividades. “O objetivo é que tenhamos um grupo fortalecido capaz de tratar essa questão, pois é sabido que teremos mais minas – não só as de urânio e as que apresentam material radioativo associado, que exigem tratamento diferenciado – para passar pelo processo de descomissionamento”, conta a professora Ana Cláudia Queiroz Ladeira. Ela trabalha no projeto em parceria com o Setor de Meio Ambiente do CDTN, representado pelo pesquisador Otávio Eurico de Aquino Branco. Os estudos têm o apoio da FAPEMIG e estão inseridos, também, no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Recursos Minerais, Água e Biodiversidade. Caetité, na Bahia, foi a segunda mina de urânio implantada no Brasil e é atualmente a única em funcionamento, abastecendo as usinas Angra 1 e Angra 2. Há previsões de que entre em operação uma terceira, na reserva Santa Quitéria, Ceará. Segundo Otávio Eurico Branco, o programa nuclear do país está passando por uma reformulação com vistas a atender a demanda


energética e a tendência é o aumento da capacidade de produção de urânio para novas centrais nucleares. “Este projeto de fechamento de mina de urânio em andamento no município de Caldas é pioneiro, principalmente por se tratar de um sítio com material radioativo, e possibilitará experiência para lidar com as outras minas”, pondera.

Contornando efeitos colaterais

De acordo com os pesquisadores, as minas de urânio exigem um comportamento diferenciado, pois envolvem elementos radioativos e também outros metais. Embora a extração em Caldas tenha sido interrompida há mais de 15 anos, permanecem no local cerca de 100 milhões de toneladas de resíduos sulfetados depositados durante o período de operação ao redor da cava ou nos 14 “bota-fora” – espécies de depósitos de material de baixo teor retirado da antiga mina. Além dos problemas comuns de áreas degradadas, existe a questão da drenagem ácida, gerada em dois desses bota-fora, devido a presença de sulfetos. “Esse material, quando exposto ao ar e ação de bactérias do próprio meio, produz ácido sulfúrico. A água da chuva ou mesmo de nascentes que passe por ele torna-se ácida”, explica Ladeira. Em Caldas, tem-se uma vazão que varia de 150m³ a 300m³ por hora de água ácida que contém urânio, manganês, ferro, alumínio e outros metais. Há alguns anos a professora vem estudando as formas mais viáveis de promover o tratamento deste efluente. A INB trata hoje a drenagem ácida com cal, elevando o pH, para que haja a precipitação dos metais, dentre eles o urânio. Assim, a parte líquida é liberada no meio ambiente, dentro dos padrões, e o precipitado gerado, contendo urânio e os outros metais, volta para a cava da mina. Isso tem ocorrido há mais de 12 anos. Estima-se que, desde então, dentro da cava da mina já foram depositadas mais de 150 toneladas de urânio. O custo deste processo, entretanto, é elevado, com o consumo mensal médio de 350 toneladas de cal. Um dos primeiros estudos desenvolvidos por Ladeira, em parceria

com pesquisadores da área de Biologia, buscou utilizar bactérias sulfato redutoras isoladas do próprio ambiente para tratar a drenagem. A ideia era reverter o processo da natureza por meio da ação desses microrganismos, convertendo o sulfato da água ácida de volta em sulfeto, como ele era anteriormente. “Ao precipitar o sulfeto, leva-se junto o manganês e o ferro, por exemplo, pois os sulfetos são compostos de metais e enxofre”, esclarece a pesquisadora. A proposta esbarrou, entretanto, na questão dos volumes a serem tratados. “Como a vazão é grande, seria necessário uma área muito extensa para a ação das bactérias, o que tornou o processo pouco atrativo”, comenta. Atualmente, a equipe tem concentrado as pesquisas em métodos químicos capazes de acelerar essas transformações. A professora explica que o manganês constitui um problema, porque sua separação requer que o pH da água fique em torno de 11. “Isso é que aumenta o consumo de cal e a geração de precipitado, pois não podemos só fixar o pH em 7, na neutralidade, e descartar para o ambiente, porque o manganês não é removido neste pH e o efluente não atenderá ao padrão de lançamento”, conta. Assim, ela trabalha na utilização de um catalisador que possibilite retirar o manganês com o pH neutro. Um dos principais trabalhos tem sido ainda no sentido de retirar o urânio da água ácida e mesmo do precipitado depositada na cava da mina e reaproveitá-lo na cadeia de produção do combustível nuclear. “Além de tentar recuperar o urânio, que tem valor agregado, isso ajudaria a resolver a questão relativa a um dos passivos ambientais”, complementa Otávio Branco. O processo para retirada do urânio no efluente ácido já está bastante adiantado, em fase semi-industrial. A opção adotada pelos pesquisadores em parceria com a INB foi utilizar um tipo específico de resina de troca iônica que é colocada em colunas, funcionando como um filtro. “A água passa e o urânio fica retido na resina. Quando esta satura, usamos um líquido próprio para remoção do metal e MINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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Um mineral promissor

Cava da mina de urânio, em Caldas (MG), e um bota-fora, espécie de depósito de material de baixo teor radioativo situado próximo à bacia de recolhimento de água ácida.

o resultado é uma solução concentrada de urânio que pode ser reaproveitada”, explica Ladeira. No início do procedimento, a água ácida apresenta em torno de 14mg do metal por litro e, ao final, podem ser obtidos de 3g a 10g de urânio por litro. Quanto ao precipitado da cava, a recuperação do urânio tem sido estudada por meio de técnicas hidrometalurgicas como a lixiviação alcalina, seguida de resina de troca iônica e precipitação para obtenção do concentrado de urânio denominado yellowcake. O grupo já concluiu também um estudo sobre a estabilidade química do precipitado da cava e sua completa caracterização. Os sedimentos e solos da região também passarão por uma análise. “Vamos avaliar a migração do urânio, para saber qual a possibilidade de ele estar saindo do sítio para as redondezas”, adianta Ladeira.

Recuperação integrada

O Plano de Recuperação previsto para Caldas contempla quatro passivos ambientais: a cava, os bota-fora, a

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Descoberto pelo químico alemão Martin Klaproth em 1789, o mineral urânio (U) é o mais pesado entre os elementos naturais. Do final do século XIX e até meados do século XX, estudos permitiram desvendar sua propriedade de emitir partículas radioativas (radioatividade) e controlar a quebra dos seus átomos. O calor produzido por essa fissão produz o vapor que movimenta as turbinas das usinas nucleares, gerando energia elétrica. A principal aplicação comercial do urânio é, portanto, na geração de eletricidade, mas ele também possui usos na medicina e na agricultura. O mineral encontra-se, em estado natural, nas rochas da crosta terrestre. Não tem uma cor característica, pode ser amarelo, marrom, ocre branco, cinza e outras cores relacionadas à terra. Após a extração, a rocha é submetida a um procedimento chamado lixiviação, para retirada do urânio. Daí resulta um licor, que é levado à usina de beneficiamento, onde passa por uma série de processos químicos até se transformar em um sal de cor amarela, o concentrado de urânio, cuja composição química é o diuranato de amônio, conhecido como yellowcake ou concentrado de U3O8. Até a geração de energia elétrica, o urânio passa por outras etapas do chamado “ciclo do combustível nuclear”: a conversão em gás, o enriquecimento isotópico, a produção de pó de UO2, a fabricação de pastilhas e a montagem do elemento combustível. O Brasil possui uma das maiores reservas mundiais de urânio, ocupando a sétima posição, e a única mina em operação da América Latina (Caetité), com capacidade de produção de 400 toneladas/ano de concentrado de urânio. Fonte: INB (www.inb.gov.br)

bacia de rejeitos e a área industrial da antiga mina. A recuperação dessas áreas será trabalhada de maneira integrada, de forma a se perceber a soma dos efeitos e como um processo interfere no outro. “Existe um esforço de trabalhar conjuntamente, não só na área ambiental, mas dentro dos problemas como um todo. Esse projeto nos possibilitou unir diversos trabalhos que vinham sendo desenvolvidos de maneira isolada, agora com a parceria também da INB e UFMG, no âmbito do INCT”, afirma Branco. Alguns aspectos nos arredores da mina estão sendo acompanhados, como a avaliação da concentração de elementos contaminantes nas bacias hidrográficas que drenam a região, bem como no solo e plantas. “Esse e outros trabalhos complementam uma base avançada de informações que já temos”, diz o pesquisador. Ele lembra que o CDTN detém conhecimentos sobre todo o histórico da mina, pois tem acompanhado as atividades no local desde os estudos iniciais de implantação.

O PRAD deverá estar pronto até 2011, mas os pesquisadores esclarecem que a sua execução levará de 10 a 15 anos, sob contínuo monitoramento, seguindo a experiência de casos semelhantes acompanhados por eles no exterior. Será feito um plano integrado, envolvendo todos os aspectos e estabelecida a ordem de execução. “As ações apontadas para cada caso vão passar por estudos de avaliação, levantamentos de dados específicos, modelagem ambiental, hidrológica, climatológica, análises para calcular os riscos e custos de cada possibilidade, elegendo, a partir daí, as melhores opções”, detalha Branco. Virginia Fonseca Projeto: “Reversão da acidez da água gerada em mina descomissionada de urânio” Modalidade: Programa Jovens Doutores Coordendor: Ana Cláudia Queiroz Ladeira Valor: R$12.390,00


Lembra dessa?

Bezerros de proveta Brasil é destaque na produção de embriões bovinos por fertilização in vitro Carol e Fapê. Assim foram batizadas as bezerras de proveta que, quando nasceram, há 10 anos, simbolizaram um importante avanço no desenvolvimento científico e tecnológico de Minas Gerais. Carol foi a primeira bezerra de proveta da raça holandesa, concebida por meio de técnica totalmente desenvolvida no Estado. Fapê, a primeira bezerra da raça Gir, também nasceu a partir da técnica de Fertilização In Vitro (FIV). O nome foi uma homenagem à FAPEMIG, financiadora das pesquisas desenvolvidas pela equipe de reprodução da Embrapa Gado de Leite, de Juiz de Fora (MG). A novidade foi tema de reportagem da edição nº 4 da MINAS FAZ CIÊNCIA e deixou os produtores rurais mineiros ouriçados. Afinal, era uma possibilidade futura de aumentar significamente a produtividade do rebanho. A diferença é expressiva: uma vaca saudável, que gera um bezerro por ano, pode produzir em torno de

40, no mesmo período, através da fertilização in vitro.A técnica permite que embriões obtidos de uma vaca de bom potencial genético sejam transferidos para o útero de uma outra vaca, denominada barriga de aluguel, onde a gestação se desenvolve. Até a época em que o projeto começou (1998), a FIV ainda era uma técnica de uso restrito e comercialmente inexpressiva no Brasil. A partir de 2000, os avanços em seu desenvolvimento possibilitaram o início da aplicação comercial com sucesso e, em poucos anos, a FIV se tornou a técnica mais utilizada na multiplicação de fêmeas bovinas geneticamente superiores. Graças à FIV, o Brasil é hoje o país com o maior número de transferências de embriões bovinos no mundo, líder e referência no uso de biotécnicas reprodutivas, principalmente em zebuínos. “O Brasil deixou de ser importador para ser exportador de genética bovina, assim como de tecnologias e

serviços associados”, afirma o médico veterinário João Henrique Moreira, que, desde 2001, faz parte da equipe de pesquisadores em reprodução da Embrapa Gado de Leite. A Embrapa teve expressiva contribuição para o desenvolvimento e aplicação comercial da técnica no Brasil, contribuindo com trabalhos de pesquisa, cursos, treinamento de recursos humanos e parcerias com empresas e produtores no desenvolvimento e validação de tecnologias. Hoje, não se concebe mais o mercado de bovinos de alto valor sem a fertilização in vitro. A utilização da técnica é quase uma premissa para quem investe em genética de ponta. “O que mais nos impressionou foi a velocidade com que a técnica foi incorporada no setor produtivo, se tornando um sucesso comercial e quebrando o paradigma do ‘conservadorismo’ do produtor rural. Atualmente, mais de 75% dos embriões bovinos transferidos no Brasil são produzidos em laboratório. Mas mesmo com este cenário, a FIV ainda tem limitações técnicas que precisam ser solucionadas pela pesquisa, como o caso da criopreservação (congelação), cujos resultados ainda são insatisfatórios”, relata o pesquisador. O Brasil responde atualmente por 85% da produção mundial de embriões bovinos por FIV. Existem laboratórios operando em praticamente todas as regiões do país, assim como filiais em países como o Paraguai, Colômbia, Venezuela, México, China e Austrália. Além dos laboratórios de produção de embriões, a fertilização in vitro possibilitou o desenvolvimento de um mercado associado de materiais e serviços e boa parte dos equipamentos e insumos utilizados, que antes eram importados, já estão sendo desenvolvidos e produzidos no país. Em 2010, Carol e Fapê comemoram seu aniversário de 10 anos. Elas continuam como doadoras da Embrapa Gado de Leite, responsável pelo Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro, que está completando 25 anos e tem especial interesse em estudos nesta raça, incluindo o desenvolvimento e adaptação de diferentes biotécnicas reprodutivas. MINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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Foto: Ronaldo Guimarães

Notas

FAPEMIG reajusta valor de bolsas

Conferência de Ciência, Tecnologia e Inovação Em maio, será realizada em Brasília a 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (4ª CNCTI). A educação de qualidade, a contribuição brasileira para a ciência e a inovação no mundo e o papel da ciência, da tecnologia e da inovação na redução da desigualdade social são alguns dos assuntos a serem debatidos no encontro. Até o fim de março, conferências regionais acontecerão em todo o Brasil. A do Sudeste está marcada para os dias 30 e 31 de março no Centro de Convenções de Vitória, no Espírito Santo. O encontro reunirá gestores públicos, pesquisadores, professores, alunos, trabalhadores e empreendedores para a discussão dos desafios e oportunidades na área de CT&I. A conferência regional funciona como uma preparatório para a nacional. Inscrições e outras informações no site http://www.crcti-sudeste.com.br/

A FAPEMIG reajustou, em março, os valores de suas bolsas de Iniciação Científica e Pós-doutorado. O reajuste foi feito para acompanhar os valores praticados pelas agências nacionais de fomento, que também tiveram um aumento. Os novos valores têm validade a partir de 1º de março e a diferença retroativa será repassada às instituições na próxima remessa trimestral. Com isso, a Bolsa de Iniciação Científica (BIC) teve reajuste de 20%, passando de R$300 para R$360. As bolsas de Pós-doutorado, modalidades Júnior e Empresarial, subiram de R$2.218,56 para R$3.200, um reajuste de 44%. A modalidade Sênior passou de R$3 mil para R$4 mil, 33% de acréscimo.

Rede para pesquisas em tuberculose Depois do lançamento da Rede Dengue e da Rede Malária, Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) estão discutindo a criação de uma rede para pesquisas sobre tuberculose. Representantes da FAPEMIG e das Fundações de Amparo à Pesquisa dos Estados do Amazonas (Fapeam) e do Rio de Janeiro (Faperj), além de pesquisadores dos três Estados, reuniram-se em março para delinear uma parceria que prevê investimentos de cerca de R$6 milhões. As características do edital ainda estão sendo discutidas, mas a previsão é que a chamada para apresentação de propostas seja aberta no final do mês de abril.

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Ciclo de palestras de CT&I já tem datas marcadas O Ciclo de Palestras Ciência, Tecnologia e Inovação terá continuidade em 2010. Organizado pela Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Sectes), o projeto tem como objetivo promover o debate e difundir temas ligados à área. Já em seu terceiro ano, o Ciclo de Palestras definiu as datas dos encontros de 2010. Eles acontecerão em 19 de março, 16 de abril, 21 de maio, 18 de junho, 16 de julho, 20 de agosto, 17 de setembro, 15 de outubro, 19 de novembro e 10 de dezembro. O convidado de março será o professor William Dietrich, da Universidade de Berkeley, Califórnia (EUA). Ele irá proferir a palestra “Towards a unified science of the Earth’s surface: opportunities for synthesis among hydrology, geomorphology, geochemistry and ecology”. Para receber informações e convite para os próximos eventos, escreva para ciclodepalestras@tecnologia.mg.gov.br

Amapá cria sua Fundação de Amparo à Pesquisa O Amapá aprovou a criação de sua Fundação de Amparo à Pesquisa. A Fundação Tumucumaque, como será chamada, estará vinculada a Secretaria Estadual da Ciência e Tecnologia (Setec) do Estado e terá como finalidade promover o desenvolvimento científico, tecnológico e de inovação no Amapá. Inicialmente, o quadro funcional da nova FAP será composto por 16 pessoas e a Fundação terá orçamento de R$300 mil. Um conselho superior terá a finalidade de julgar e orientar assuntos de interesse da instituição com o apoio de Câmaras Científicas que serão formadas por pesquisadores e doutores daquele Estado. Na opinião do presidente do Conselho Nacional das Fundações de Amparo à Pesquisa, Mario Neto Borges, que também é presidente da FAPEMIG, a criação dessa FAP será uma motivação para que Roraima, Rondônia e Tocantins também façam suas agências de fomento à ciência, tecnologia e informação. Segundo ele, a iniciativa do Amapá é uma “demonstração da crença de que ciência, tecnologia e inovação são vetores importantes para o desenvolvimento social e econômico do país”.

Produto apoiado pela FAPEMIG tem pedido de patente aprovado pelo INPI Uma mini-estação de tratamento de esgoto que despolui utilizando radiação solar e ainda possibilita a reutilização da água na agricultura. Assim é o Sistema de Tratamento de Água Residuária, um produto inovador desenvolvido pela Intec Ambiental, empresa viçosense vinculada à Incubadora de Empresas de Base Tecnológica do Centev/UFV. A Intec acaba de receber a comprovação do depósito  do pedido de patente. “A conquista de uma patente para a empresa é a consagração de um árduo trabalho de pesquisa e comercial, possibilitando a inserção segura de um produto validado para atender às necessidades da sociedade”, ressaltou o diretor técnico da empresa, Rafael de Oliveira Batista.  O produto foi desenvolvido com o apoio financeiro da FAPEMIG, dentro de seu Programa de Apoio à Pesquisa em Empresas (Pappe). Esta é a única mini-estação de tratamento de esgoto doméstico do mundo que utiliza radiação solar no processo de desinfecção de bactérias patogênicas. A vantagem desta tecnologia é o baixo custo  e a redução de impactos ao meio ambiente. “Os outros tipos de estação existentes no mercado utilizam processos de tratamento químicos ou que envolvem consumo de energia elétrica”, explica o diretor técnico. MINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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Divulgação

Inspiração que vem da terra Cartilha ensina a aproveitar os recursos naturais na produção de tinta

Fotos: Arquivo Valéria Oliveira

O colorido estampado nos muros da Escola Municipal Paulo Rodrigues de Águila, em Jaboticatubas, cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte, revela o apreço dos alunos pela natureza e indica o despertar de uma vocação artística. Sobre o concreto, a tinta ganha forma de rio, árvores e animais, até se transformar em uma floresta. A pintura é o resultado de um mês de empenho dos alunos de terceira e quarta séries do ensino fundamental, que se dedicaram à produção de tinta a partir de pigmentos minerais, extraídos do solo do próprio município. Com o guache e pincéis em mãos, eles celebraram o experimento e se consagraram como os pequenos cien-

tistas da escola, aptidão que nem mesmo eles conheciam. O procedimento não é tão complexo quanto parece. Quem comprova isso são as pesquisadoras Joice Saturnino, Claudina Maria Dutra Moresi, Juliana Alves dos Santos Oliveira e Onice Maria de Sousa, autoras da cartilha “Arte e ciências: os pigmentos minerais”. O material ensina como aproveitar os recursos naturais na produção de tinta e serviu de base para o trabalho desenvolvido pelos alunos de Jaboticatubas. “Todos podem fazer. É um processo artesanal, que proporciona maior contato com a terra, de onde é retirada a matériaprima”, explica Joice. A cartilha, produzida com o apoio da FAPEMIG através do Programa de Popularização da Ciência e Tecnologia, cumpriu seu propósito. Além de disseminar conhecimentos científicos, serviu para apurar a disciplina dos alunos, conforme descreve Valéria Soares de Oliveira, professora e coordenadora da escola Paulo Rodrigues de Águila. “Escolhi as turmas mais agitadas, pois queria trabalhar a concentração e observar qual seria a reação dos alunos”, relata. “Todos ficaram interessados, participando de tudo e colaborando entre si. A escola ganhou outra cara depois que pintamos o muro. E os alunos também”, conta.

Pesquisa

O material surgiu de uma extensa pesquisa desenvolvida pela equipe da Escola de Belas-Artes (EBA) e do Departamento de Química do Instituto de Ciências Exatas (ICEX) da Universidade Federal do Estado de Minas Gerais (UFMG), da qual as autoras da Oficina realizada com os alunos de escola de Jaboticatubas (MG). A cartilha produzida ajuda a disseminar conhecimentos e estimula a criatividade.

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Em sua edição nº 30, a MINAS FAZ CIÊNCIA trouxe uma reportagem sobre projeto da Universidade Federal de Viçosa (UFV) que também trabalha com a tinta feita a base de terra. O trabalho de extensão, batizado “Cores da Terra”, reúne professores, alunos, pintores e a população local. O grupo já recuperou igrejas e casas da região, além de realizar oficinas no Estado e no Espírito Santo. A matéria está disponível no site da revista: http:// revista.fapemig.br cartilha fazem parte. O trabalho foi iniciado em novembro de 2006 e consistiu no levantamento, coleta e análise dos pigmentos encontrados nas cidades mineiras de Rio Acima, Ouro Preto, Itabirito e Belo Vale. Em seguida, a equipe trabalhou no desenvolvimento da cartilha e na organização de oficinas com os professores da rede pública de ensino. “A educação artística ainda é carente nessas instituições. Nossa intenção foi introduzir conceitos interdisciplinares para os alunos e despertar um novo olhar sobre a terra”, diz a pesquisadora Joice Saturnino. “A cartilha, destinada a alunos do ensino médio e fundamental, proporciona um encontro da arte com a ciência e coloca novas possibilidades ao alcance de todos que querem enriquecer suas experimentações com o uso de recursos minerais”. Com uma abordagem didático-pedagógica, a cartilha também já foi utilizada por professores de escolas de Belo Horizonte, Betim e Contagem. O material detalha a composição dos pigmentos naturais, sua ocorrência na natureza, formas de extração, conceitos de cor, luz, tinta, classificação dos solos e curiosidades sobre técnicas antigas de pintura. As escolas que receberam a cartilha tiveram três meses para desenvolver algum projeto com os pigmentos e demonstrar o aprendizado obtido com o estudo do material. “Foi muito enriquecedor. Depois da produção da tinta, todos os alunos queriam repetir a dose”, conta Valéria. O objetivo ago-

O objetivo da equipe é distribuir mais exemplares da cartilha em bibliotecas e centros de pesquisa

ra é distribuir mais cartilhas em outras instituições de ensino, bibliotecas e centros de pesquisa.

Arte e ciência

Encontrados nas regiões mais ricas em depósitos naturais de ferro, os pigmentos minerais variam de amarelo-ocre até o preto, passando pelo vermelho, o verde e o roxo e são utilizados em telhas, pisos, vidros, cerâmicas e tintas diversas. Além disso, os pigmentos podem ser utilizados para a arte. Essa aliança entre a produção científica e o fazer artístico está expressa na obra de Maria Luiza Cerqueira. A artista plástica participou da exposição de lançamento da cartilha, em maio de 2009, na galeria da Escola de Belas-Artes da UFMG. A partir dos pigmentos minerais, ela criou placas de papel reciclado nos tons de vermelho e amarelo. “A minha ideia foi simular a textura do barro”, explica a artista, que valoriza a utilização de métodos caseiros em suas obras. “Os recursos naturais estão aí, na terra, à nossa frente. É só transformar torrão em pó”, ressalta. Carolina Jardim Projeto: “Artes e ciências - os pigmentos minerais” Modalidade: Edital de Popularização da Ciência Coordenadora: Claudina Maria Dutra Moresi Valor: R$31.750,05 MINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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Identificação Genética

Identificação genética Produtos de alta eficiência e menor custo ”made in Brazil” podem facilitar a identificação humana e animal Estima-se que, no Brasil, o nome do pai não figure em pelo menos 25% dos registros de nascimento, o que corresponde a quase um milhão de crianças por ano. Em alguns locais do país, a situação é ainda pior. Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em Maceió, por exemplo, 42% dos registros civis são feitos sem a indicação do nome pai. Os registros incompletos causam diversos danos sociais, morais e psicológicos e o CNJ pretende lançar, ainda no primeiro semestre de 2010, uma campanha nacional pela “paternidade responsável”, convocando as mães para que identifiquem o suposto pai. Para isso, parcerias com tribunais de Justiça devem ser fechadas nos estados nos próximos meses e o CNJ tem como argumento a decisão do Superior Tribunal de Justiça, de julho de 2009: desde então, a negativa do suposto pai em realizar o exame de DNA é definida como uma presunção de paternidade. Esse exemplo da confiança depositada no teste de DNA revela outros aspectos. Para as análises de paternidade e de Identificação Genética Humana, muitos laboratórios brasileiros ainda utilizam kits comerciais importados. Com a crescente demanda do mercado, o elevado custo e as difi-

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culdades de importação, tornaram-se mais frequentes os casos de descumprimento dos prazos de entrega pelos fornecedores e, consequentemente, de atrasos da entrega do resultado do exame. O principal reagente utilizado neste exame é produzido por poucos laboratórios e sua comercialização é regida por extensa lista de mecanismos. A importação normalmente é feita dos Estados Unidos e da Inglaterra e as dificuldades de acesso são consideradas um entrave tecnológico, uma vez que existem no Brasil pessoas e laboratórios capacitados. A chance de oferecer um produto de alta eficiência e menor custo, possibilitando a redução de prazos e ampliando o acesso a essa tecnologia, motivaram uma empresa da capital mineira, a Biocod, a desenvolver kits nacionais de identificação genética. O projeto contou com financiamento do Programa de Apoio à Pesquisa em Empresas – Pappe, parceria entre a FAPEMIG e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). O teste de paternidade consiste em comparar pequenas regiões do DNA, repetitivas e variáveis, entre os indivíduos envolvidos e avaliar, através de índices e probabilidades estatísticas, as possibilidades de parentesco. O kit desenvolvido pela Biocod

utiliza a genotipagem destas pequenas repetições de DNA após amplificação pela técnica da reação em cadeia da polimerase (PCR) e análise em sequenciador automático. Atualmente essa é a metodologia mais difundida para a verificação de parentesco. Segundo estimativas dos pesquisadores, utilizando os kits desenvolvidos pela empresa, é possível gerar uma economia de até 70% na realização dos testes. “Para análises diagnósticas em laboratórios comerciais e estudos científicos, onde um grande número de pessoas é avaliado, testes rápidos, econômicos e que utilizam a estrutura operacional básica de um laboratório de biologia molecular são altamente desejáveis, uma vez que essa economia e rapidez são repassadas ao cliente final”, explica a bióloga Cristiane Lommez de Oliveira, coordenadora do projeto. Atualmente, os kits desenvolvidos estão sendo utilizados dentro da própria Biocod e a ideia é viabilizar a comercialização para outros laboratórios interessados. “Os preços já estão definitivamente mais acessíveis à população de maneira geral. Mais importante que a necessidade de adequação do registro civil, a identificação da paternidade determina a responsabilida-


Fotos: Marcelo Focado

Equipe da Biocod, empresa que trabalha com o desenvolvimento de métodos de identificação genética humana e animal.

de conjunta na criação dos filhos. Além de privações materiais, as pessoas sem registro paterno muitas vezes sofrem com a ausência de referências afetivas e culturais e enfrentam diversas formas de preconceito. Observa-se ainda que, com a evolução da medicina, torna-se cada vez mais importante conhecer a origem genética dos indivíduos no que tange à prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças e a busca por melhor qualidade de vida”, acredita Cristiane.

Identificação genética animal

Além da paternidade humana, o projeto considerou também o crescimento explosivo da demanda de identificação genética animal, devido à inserção no país das práticas internacionais para registro genealógico implementadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Além disso, os criadores de bovinos têm investido recursos substanciais no aprimoramento genético de seus rebanhos, tendo em vista o grande potencial do Brasil como exportador de carne. Segundo o grupo de pesquisadores, no que diz respeito à identificação gênica de animais como

bovinos e equinos, o benefício maior é a legitimação genética dos rebanhos, agregando valor ao patrimônio dos criadores e contribuindo para um maior desenvolvimento da pecuária e equinocultura nacionais. A importação de kits para a realização de exames genéticos neste segmento é considerada inviável, devido à possibilidade de realização dos mesmos com tecnologia nacional, a baixo custo. “Kits comerciais para identificação genética humana e animal nacionais não existiam. Entretanto, alguns poucos laboratórios já realizavam testes de identificação genética humana utilizando estratégias próprias. Na genética animal isso não acontecia e o projeto desenvolvido pela Biocod nessa área foi pioneiro”, explica Cristiane. O mercado é tão promissor que levou à criação de uma outra empresa, vinculada à Biocod: a Linhagen, gerando 18 postos de trabalho, com especialização na identificação genética de equinos e bovinos, credenciada pelo MAPA e que também realiza testes genéticos relacionados ao aumento da produtividade de leite e carne. Na criação animal, a estimativa de valor genético dos reprodutores depende diretamente de dados precisos sobre genealogia, para que haja suces-

O trabalho, que já recebeu prêmios, contou com financiamento da FAPEMIG por meio do Programa de Apoio à Pesquisa em Empresas. MINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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so dos programas de melhoramento genético e para que se evite a endogamia excessiva (alto grau de parentesco entre os animais do rebanho), o que pode trazer consequências como o surgimento de anomalias. Os primeiros testes para confirmação de genealogia em animais domésticos surgiram ainda no início do século XX, por volta de 1930, quando soros para tipagem sanguínea de bovinos foram produzidos. Associações norte-americanas de criadores queriam confirmar os pedigrees dos produtos submetidos a registro, tendo em vista programas de melhoramento genético na bovinocultura. Outras espécies animais foram posteriormente estudadas. No Brasil, somente para bovinos e equinos a tipagem sanguínea é normatizada pelo Ministério da Agricultura e exigida para registro de reprodutores, doadoras de embriões e principalmente dos produtos de transferência de embriões. Também em alguns casos de dúvida em produtos de inseminação artificial o teste é solicitado por associações de criadores. Os exames seguem padrões mun-

diais e isso permite que, por exemplo, no caso de um reprodutor testado na Europa e que tenha seu sêmen exportado para o Brasil, não haja problemas na verificação de parentesco de seus produtos feita aqui. Basta que se solicite uma cópia do teste de DNA do reprodutor para que a verificação seja concluída. “A importação de sêmen, embriões e até mesmo de animais há muito vem ocorrendo no Brasil, o que justifica a necessidade da introdução efetiva de tais exames. Sem essa possibilidade, o rebanho brasileiro pode ficar estagnado no que diz respeito à introdução de programas realistas de avaliação genética. Também há o risco de fraudes em pedigrees de alguns animais, lesando os compradores”, explica a bióloga.

Regulação

A determinação de vínculo genético através do DNA vem sendo utilizada há vários anos como ferramenta jurídica, principalmente em ações de filiação. Atualmente, esses exames são realizados em laboratórios públicos e privados, com a utilização de diferen-

tes metodologias e regras que, geralmente, são adaptadas de protocolos internacionais. Devido à falta de normas nacionais que estabeleçam regras para a realização dos exames, o Ministério Público do Estado de Minas Gerais iniciou, desde o final do ano de 2006, o estudo de uma proposta de lei para a regulamentação e padronização desses exames, que tem por objetivo estipular parâmetros para a coleta de material, a execução e a liberação de resultados, acarretando um grande ganho de qualidade e confiabilidade nos testes para determinação do vínculo genético. Um protocolo técnico e uma cartilha já foram lançados, em 2009, com o resultado das discussões dos trabalhos conduzidos por um grupo de estudos liderado pelo Ministério Público Estadual (MPE), com a participação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Instituto de Criminalística da Polícia Civil, Vigilância Sanitária Estadual, Secretaria de Estado de Saúde e vários laboratórios e entidades privadas de Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Distrito Federal.

O DNA e os testes DNA é a abreviação do ácido desoxirribonucleico, considerado o “tijolo” de construção genético da vida. Ele é encontrado no núcleo das células, dentro de pequenos pacotes genéticos chamados cromossomos. O DNA é formado no momento da concepção e não sofre alterações, mesmo depois da morte do indivíduo. Ingestão de medicamentos e tratamentos com radiação, por exemplo, não produzem mudanças no DNA que possam alterar o resultado de um teste de parentesco. É a extrema variabilidade no DNA que supera a variabilidade de outros sistemas utilizados anteriormente. Através de sua análise, é possível diferenciar um indivíduo do outro, já que todas as pessoas apresentam um padrão único em seu DNA, menos os gêmeos idênticos (univitelinos). Existem outros tipos de exames de sangue que tentam resolver casos de dúvidas sobre parentesco. Esses exames variam desde a tipagem dos grupos sanguíneos ABO, tipagem dos Antígenos Leucocitários Humanos (abreviação em inglês = HLA), até o DNA, considerado o mais exato. O exame de HLA, muito utilizado no passado e ainda hoje quando não se dispõe da tecnologia do DNA, vem sendo rapidamente substituído. Os métodos de exame em DNA requerem quantidade menor de sangue do

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que os testes de paternidade tradicionais, além disso, as células do sangue não precisam permanecer vivas do momento da coleta até o início da fase analítica. Isto torna o procedimento de coleta mais rápido e ordenado. O DNA é uma molécula estável e pode ser extraído e congelado por períodos prolongados. A maior vantagem é, sem dúvida, a precisão do exame. A tipagem sanguínea ABO só consegue excluir 13 em cada 100 indivíduos falsamente acusados e o HLA, nos melhores laboratórios do mundo, só consegue excluir 95 em cada 100 indivíduos falsamente acusados. A chance do teste em DNA por PCR detectar, por exemplo, um homem que esteja sendo falsamente acusado de ser o pai biológico, é superior a 99,99%. Em todos os casos, sejam os que serão posteriormente enviados a um laboratório de referência, ou que sejam coletados no próprio laboratório em que o teste propriamente dito será realizado, é imprescindível que se tenha uma série de controles da qualidade do exame, desde a etapa de identificação dos indivíduos, até a elaboração e entrega do laudo. O exame de DNA para fins de identificação pessoal e determinação de paternidade é considerado o maior avanço do século na área forense.  


Fotos: Marcelo Focado

A meta da equipe era desenvolver um kit de identificação genética de alta eficiência e baixo custo, alternativa ao produto importado. A economia prevista é de até 70%. Na área de genética animal, o projeto da empresa foi pioneiro.

A Biocod participou deste estudo que, além do projeto de lei (PL) 1.497/2007, em tramitação no Congresso Nacional, gerou um regulamento técnico elaborado com o objetivo de garantir parâmetros de qualidade para coleta, execução e liberação de exames. O projeto dispõe sobre uma série de questões, dentre elas os requisitos para que o laboratório possa realizar exame de DNA no Brasil, exigindo que possua certificação válida de proficiência ou atestado de garantia de qualidade. Também trata das metodologias admitidas para o exame e da capacidade técnica dos peritos que firmam o laudo. Estipula a forma de identificação das partes e dos laboratórios, o procedimento da coleta do material e sua devida identificação, o número mínimo de marcadores que devem ser analisados para cada tipo de exame, o Índice de Paternidade Combinado (IPC) exigido para o caso de inclusão de paternidade, os requisitos exigidos para a elaboração do laudo pericial e

o prazo de armazenamento das amostras e da documentação. “A normatização do exame pode representar um grande auxílio para os cidadãos que o utilizam e para a sociedade de modo geral, uma vez que melhorará a fiscalização deste procedimento e certificará, de forma padronizada, a qualidade dos resultados obtidos nos diferentes laboratórios que estarão habilitados para a realização dos exames de DNA no país”, afirma Cristiane. Em relação aos animais, a vantagem da regulação poderá ser a oportunidade de oferecer tais exames para espécies, até então, fora do alcance dos testes para verificação de parentesco e identificação individual. O trabalho com o desenvolvimento de kits nacionais para identificação genética e as demais atividades da Biocod renderam à empresa mineira, em 2009, o prêmio José Costa, uma das mais significativas condecorações empresariais de Minas Gerais, concedida pelo jornal Diário do Comércio e pela Fundação Dom Cabral. A cada dois anos, o prêmio homenageia empresas e empreendedores mineiros. “Na área de atuação da empresa, a biotecnologia, o investimento constante em inovação é fundamental. Foi através do apoio e de recursos financeiros de instituições de fomento, além de investimentos próprios, que a Biocod estruturou o setor de pesquisa e desenvolvimento, que atualmente conta com diversos projetos em andamento, com uma equipe de profissionais altamente qualificados, além de um moderno parque tecnológico”, avalia Cristiane Lommez. Letícia Orlandi

Projeto: “Produção de kits para identificação genética e insumos estratégicos para biologia molecular” Modalidade: Programa de Apoio à Pesquisa em Empresas – Pappe Coordenadores: Cristiane Lommez de Oliveira Valor: R$140.592,55 MINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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Cafeicultura

Protetor do bom cafezinho Pesquisa identifica fungo associado à bebida de boa qualidade Cladosporium cladosporioides. A primeira vista, esse nome não passa de um conjunto de sílabas difícil de soletrar, até mesmo para cientistas e etimólogos. Porém, conhecê-lo é apenas questão de tempo, principalmente para aqueles que apreciam um bom café ou estão envolvidos, direta ou indiretamente, com a produção cafeeira. O ano era 1989 quando a agrônoma Sara Maria Chalfoun, pesquisadora da Empresa de Pesquisa Agropecuária

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de Minas Gerais (Epamig), começou sua investigação sobre a influência dos microrganismos na qualidade do café. Ela partia do pressuposto que condições ambientais específicas como temperatura e umidade relativa do ar favoreciam o desenvolvimento de bactérias, fungos e leveduras no fruto. A pesquisa de campo levou a uma descoberta revolucionária para a cafeicultura: foi verificado que um dos microrganismos, ao contrário dos


Foto: Divulgação livro PII Lavras

demais, estava associado a bebidas de boa qualidade. Para a surpresa da estudiosa, tratava-se de um fungo, o Cladosporium cladosporioides. Daí em diante, o anônimo microorganismo tornou-se objeto de estudo, ganhou identidade e até apelido: fungo do bem. Era o início de um trabalho promissor. Sara, em parceria com o professor Carlos José Pimenta, da Universidade Federal de Lavras (Ufla), e com o então doutorando Marcelo Cláudio Pereira, atualmente bolsista de pósdoutorado do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Café (INCT Café), identificou que a antibiose é um dos mecanismos de atuação do C. cladosporioides. “Ele impede o desenvolvimento de outros microrganismos pela capacidade de parasitá-los e de produzir metabólitos tóxicos. Além disso, o ‘fungo do bem’ não promove fermentações lática e butírica típicas de outros fungos que prejudicam a qualidade final do produto”, explica a estudiosa. Os pesquisadores também descobriram que em plantações de café que recebiam tratamentos fitossanitários (uso de defensivos agrícolas para combate de pragas), o C. cladosporioides sofria redução drástica ou deixava de existir, não exercendo, assim, seu papel de bioprotetor. “Com isso, sentimos a necessidade de desenvolver uma formulação contendo o fungo, visando reintroduzí-lo ou equilibrar a sua população nas áreas cafeeiras”, explica Sara. O primeiro passo foi isolar o C. cladosporioides, que, segundo a pesquisadora, possui o status de GRAS (Generaly Regarded Air Safe), isto é, não causa mal nem à planta nem ao homem. Em seguida, a equipe trabalhou no desenvolvimento e teste de formulações com o agente biológico, prolongando a vida sob condições de armazenamento e o estabelecimento no campo.

Fotos: Juliana Queiroz

O fungo identificado parasita outros microorganismos que prejudicam a qualidade final do café

Para manipulação e seleção do fungo foi criada uma biofábrica, iniciativa importante para a transformação do conhecimento científico em inovação tecnológica. MINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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Foto: Divulgação livro PII Lavras Foto: Divulgação livro PII Lavras

Sara Maria Chalfoun, da Epamig

Carlos José Pimenta, da Ufla

O desenvolvimento da fórmula poderá atender a uma grande demanda de produtores que perdem qualidade no café, com problemas graves em diferentes regiões do país. “Ele pode ser uma ferramenta única, capaz de substituir o uso de produtos químicos que têm um apelo extremamente negativo”, argumenta. A fazenda Santa Helena, em Alfenas, testou o produto em março do ano passado. Margeada pela represa de Furnas, a lavoura sofria com alto teor de umidade e, consequentemente, com a proliferação de pragas. O uso de defensivos agrícolas acabou levando à extinção do C. cladosporioides. “Depois da aplicação do produto em 50 plantas verificamos a multiplicação do fungo, já ajudando no combate dos microrganismos prejudiciais à qualidade do café e na melhora do gosto da bebida”, relata Paulo Sérgio da Silva, técnico em Agropecuária da fazenda. “Deixamos de estourar algumas xícaras”, conta Silva, se referindo a bebidas de qualidade inferior, expressão típica da cultura cafeeira. O produto ainda não está à venda. A invenção foi patenteada em 2004 e está disponível como uma tecnologia em fase de transferência. Mediante pagamento de royalties para as instituições criadoras, empresas podem

adquirir o direito de exploração e comercializá-lo. “Nossa expectativa é que o produto já esteja no mercado pronto para ser utilizado na safra de café de 2011”, diz.

Biodefensivo

Os microrganismos prejudiciais à qualidade do café pertencem a vários gêneros. Na década de 50, pesquisadores já citavam o fungo Fusarium concolor como agente causador da pior bebida do café. Além de influenciar no sabor, cor e odor do produto, alguns microrganismos lançam toxinas prejudicais à saúde humana, as chamadas micotoxinas, como os das seções Circumdati (Aspergillus ochraceus, principal representante) e Nigri (A. carbonarius e A. niger). Para o controle dos microrganismos, existem tratamentos com produtos à base de cobre e de cloreto de benzalcônio, porém, sem muita eficácia, conforme descreve Sara. “Para que se atinja um bom resultado, são necessárias várias aplicações, o que torna a medida sem eficiência prática”, explica. O agente bioprotetor surge como uma nova alternativa de tratamento. “Não existe produto similar, com possibilidade de proteger continuamente a qualidade do café”, diz. De acordo com a pesquisadora, em 1,4 mil fungicidas (produtos que destroem fungos)

Ouro negro Descoberto por um pastor de ovelhas na Abissínia, no início do século XV, o café conquistou o mundo rapidamente. Ao lado da cerveja, é a bebida mais popular e apreciada do planeta. No Brasil, o fruto chegou no ano de 1727 e passou a ter forte influência na economia. O país é o maior produtor mundial de café, sendo responsável por 30% do mercado internacional, volume equivalente à soma da produção dos outros seis maiores países produtores. É também o maior exportador e o segundo mercado consumidor, atrás somente dos Estados Unidos. Somente em Minas Gerais, é produzida mais da metade do café nacional. Segundo estimativas da Companhia

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Nacional de Abastecimento (Conab), o país deverá colher para a safra de 2010, entre 45,89 e 48,66 milhões de sacas de 60 quilos de café (arábica e conilon) – um acréscimo de 16,3% a 23,3% em relação a 2009. Apesar da posição de liderança, a cafeicultura brasileira não é uma das mais competitivas do mundo. As plantações de café localizadas próximas às grandes massas de água (rios, represas) são as mais afetadas por pragas e apresentam problemas constantes de perda de qualidade. Estima-se que 30% da cafeicultura nacional, constituída de 25 milhões de hectares e 300 mil produtores de café, encontra-se nessa condição. A média histórica de desvalori-

zação do café de pior qualidade em relação ao de melhor qualidade é de 30%. Nesse contexto, segundo a pesquisadora, o produto gerado pelo “fungo do bem” torna-se ainda mais promissor. “A tecnologia permite preservar ou introduzir o agente protetor, permitindo que pelo menos um terço dos frutos presentes nos cafeeiros e que secam na planta antes da colheita não sejam comprometidos pelos fungos prejudiciais”, ressalta. Sara atenta para a exigência dos próprios consumidores. “A utilização crescente de produtos naturais, inócuos à saúde humana e meio ambiente atende a demanda mundial dos consumidores cada vez mais conscientes desses benefícios”, diz.


registrados no país, apenas 16 são biológicos - 1,1% do total de defensivos. Para ela, a tendência é a redução cada vez maior do uso de fungicidas sintéticos, o que vem ao encontro de relevantes preocupações com a saúde e com o meio ambiente.

Uma fábrica de inovações Para a manipulação e seleção do fungo, foi instalada, em 2007, uma biofábrica no Sistema de Incubadoras da Universidade Federal de Lavras (Ufla). Sua função é gerar produtos inovadores para serem empregados na agropecuária, na indústria alimentícia e no meio ambiente. Existem outras biofábricas em Itapetininga (SP) e em Vitória da Conquista (BA) que trabalham, principalmente, com produtos derivados do fungo Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana. Na de Minas, já foram identificados microrganismos capazes de garantir a proteção de cultivos, o controle de doenças e pragas, a absorção de metais existentes no solo, a solubilização do fosfato, a produção de enzimas e até a purificação da água utilizada na agricultura. “Estamos empenhados no desenvolvimento de métodos sustentáveis de melhoria de processos e produtos, com preocupações prioritárias como a segurança alimentar e preservação do meio ambiente”, ressalta a estudiosa. Para a implantação, os pesquisadores contaram com recursos do Programa de Incentivo a Inovação da Universidade Federal de Lavras (Ufla) e da FAPEMIG, além da assessoria do Instituto Inovação. Também apoiaram a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) e a Prefeitura Municipal de Lavras. Recentemente, a biofábrica recebeu recursos do INCT Café e do Programa Prime – Primeira Empresa Inovadora, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). A biofábrica funciona como uma

empresa, gerida pelos setores de Marketing e Vendas; Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação; Recursos Humanos e Finanças; Compras; Produção e Controle de Qualidade, que se desdobram em outros departamentos. A área de produção é composta por um setor de isolamento, identificação e multiplicação dos microrganismos e é equipada com microscópio, incubadoras e estufas de secagem. Os microrganismos identificados com potencial para aproveitamento são mantidos em sala climatizada. A empresa conta, ainda, com um espaço para equipamentos de precisão entre os quais balanças, microscópios óticos e cromatógrafo líquido de alta precisão. Outro setor destina-se a embalagem, rotulagem e coleta de amostras para controle de qualidade. “Muitos profissionais já nos procuraram interessados no modelo. Estamos dispostos a dividir experiências, orientar e multiplicar tudo o que aprendemos”, conta. Na avaliação da pesquisadora, a criação da biofábrica é um grande salto para a transformação do conhecimento científico em inovação tecnológica. “Tudo isso foi proporcionado por instituições de fomento à pesquisa que nos deram total suporte para a criação de produtos inovadores. Pela biodiversidade, nosso país e Estado são laboratórios a céu aberto. Temos que aproveitar esse potencial”, ressalta. A meta dos pesquisadores é que outra biofábrica, num futuro próximo, seja instalada no parque tecnológico de Lavras (MG), promovendo a geração de renda e emprego e levando a pesquisa até a utilização pelo produtor. Carolina Jardim Projeto: “Otimização de processos de produção em escala industrial de agentes bioprotetores e enzimas pectinolíticas em uma empresa de base tecnológica” Modalidade: Projeto estruturador Coordenador: Sara Chalfoun Valor: R$181.963,00 MINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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Medicina Veterinária

Somando forças Novo tipo de implante ortopédico para cães combina técnicas de fixação óssea e promete mais eficácia A fratura de um osso é uma experiência difícil para os animais de estimação – e também para os donos deles. Além da perda temporária de movimentos e da dor provocada, que deixa o animal inquieto, o processo de recuperação é mais delicado. Dependendo da lesão, o cão ou gato deve passar por uma cirurgia para a fixação

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óssea do local afetado, uma técnica em que o osso é imobilizado com algum tipo de material para que ele se reconstrua. Geralmente, usa-se nas operações um pino dentro do osso ou uma placa para proporcionar maior estabilidade ou algo como uma tala que envolve a pata e imobiliza a área lesionada. Com o objetivo de tornar a recuperação mais eficaz, professores do Departamento de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Lavras (UFLA) criaram um novo método de implante ortopédico para tratar fraturas em ossos longos de cães: o fêmur e a tíbia, localizados nas patas traseiras, e o úmero, nas dianteiras. A técnica foi desenvolvida por uma equipe composta por dois professores do Departamento, um aluno de graduação e uma de pós-graduação, liderados pelo professor Leonardo Muzzi. O grupo, dedicado à clínica cirúrgica animal, já realizou outros estudos nas áreas de ortopedia e de cirurgia de tecidos moles, mas é o primeiro traba-

lho com o tema fixação de fraturas. O novo método consiste na combinação entre duas modalidades de fixação óssea, em que uma haste de aço cirúrgico é colocada dentro do osso e uma placa ortopédica é colocada acima dele, ambas ligadas entre si por parafusos ortopédicos. O objetivo do estudo foi desenvolver um sistema de fixação óssea que desse maior estabilidade às fraturas mais fragmentadas, com ossos que se partem em pedaços menores, especialmente aquelas que ocorrem no corpo de ossos longos. Segundo Muzzi, o sistema, que ganhou o nome Plate-Nail por associar as técnicas da haste bloqueada e da placa óssea, tem melhor desempenho na recuperação porque sua rigidez impede a movimentação prematura das partes do osso. Quando ocorre a fratura, explica o professor, o osso fica sujeito à ação de várias forças - de compressão, rotação, angulação (encurvamento) e de afastamento entre as partes (cisalhamento) -, o que pode dificultar a recuperação. O novo sistema neutraliza de forma eficaz essas forças que prejudicam o processo de reparação do osso. Por essa característica, o método é indicado especialmente para casos em que a lesão é mais complexa, quando há ossos que podem se quebrar em mais de um local ou mesmo caso de perda óssea. “A rigidez proporcionada pelo sistema favorece a junção dos fragmentos do osso”, explica o veterinário. Após o tempo de recuperação, que varia conforme a lesão e as condições de saúde do animal, o material pode ser retirado ou mesmo continuar no corpo do animal, já que o aço cirúrgico é inerte. Também por causa dessa propriedade, o risco de rejeição é teoricamente nulo.

Resultados

O método está sendo desenvolvido desde 2007 e, de acordo com Leonardo Muzzi, tem apresentado bons resultados tanto nos testes com máquinas quanto com animais. Os primeiros experimentos foram baseados em ensaios biomecânicos, com aparelhos que simulavam as condições de implantes nos cães. Mais tarde, foram re-


Fotos: Arquivo Leonardo Muzzi Acima, radiografia do fêmur de um cachorro com fratura . O osso foi estabilizado cirurgicamente com o implante Plate-Nail para fixação óssea.

Cuidados com seu amigo Prevenir é o melhor remédio. Por isso, a mestranda em medicina veterinária pela UFLA, Luciana Mesquita, alerta para o cuidado especial com a possibilidade de atropelamentos, que correspondem a cerca de 80% dos acidentes com animais domésticos.Também podem gerar fraturas por quedas de locais altos - com altura igual ou superior à do animal -, ferimentos por armas de fogo, brigas com outros animais ou mesmo maus tratos. Para evitar que eles se machuquem, Luciana e o professor do curso de Medicina Veterinária da PUC Betim, Alysson Lamounier, dão algumas dicas: • Evite deixar os animais soltos na rua. Ao levá-los para passear, mantenha-os com coleira e com um guia. Segure firme a coleira, pois eles podem correr ao ver outros animais, momento em que pode ocorrer o atropelamento. • Quem vive em apartamento ou casa com sacada deve instalar telas nas janelas e evitar colocar móveis próximos a elas para que eles não subam e caiam de lá. • Para quem tem crianças pequenas, evite que elas passem muito tempo com o animal no colo porque podem deixá-los cair. “Muitas vezes, a criança acha que o animal é um brinquedo e o aperta ou mesmo o joga no chão”, justifica Lamounier. • Caso o animal tenha caído ou se machucado, uma dica para saber se o dano foi grave é observar se ele está miando muito ou ganindo ou se ele deixa de apoiar alguma das patas no chão. • Se o animal tiver sofrido uma fratura, deve-se ter cuidado ao abordá-lo porque ele pode se tornar agressivo por causa da dor. Para levá-lo ao veterinário, você deve se aproximar dele falando suavemente, tentando tranquilizálo. Se julgar necessário, use uma focinheira. • Evite tocar o membro fraturado; não faça talas ou outros tipos de imobilizações e não puxe o membro ou tente recolocar algum osso no lugar. Caso seja uma fratura exposta, coloque apenas um pano limpo sobre o local e vá para o veterinário. • Não dê medicamentos aos animais sob hipótese alguma. Analgésicos e antiinflamatórios de uso humano podem causar problemas como gastrite nos cães ou gatos. alizados testes em cadáveres e, depois, em animais vivos que sofreram algum tipo de fratura, em sua maioria vítimas de atropelamentos por carros, e que foram levados ao Hospital Veterinário da Universidade para tratamento. Apenas no hospital da UFLA são feitas, em média, quatro operações por semana de fraturas em animais de pequeno porte, como cães e gatos, além de outros casos de problemas ortopédicos. “Ainda estamos fazendo testes biomecânicos e coletando dados para comparação com outras técnicas, mas o desempenho tem sido ótimo”, avalia o pesquisador. Também há previsão de que, ainda neste ano, a técnica seja testada em outras espécies como cava-

los ou mesmo em humanos, mas isso depende de algumas modificações nos implantes. Por se tratar de um método inédito, a universidade depositou um pedido de patente no ano passado no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi). Segundo o professor, o método está sendo comercializado, desde o ano passado, por uma empresa que produz as hastes para estabilizar os ossos. “O custo é um pouco mais elevado se comparado às técnicas comumente utilizadas, mas o ganho em eficácia é grande”, diz.

Desireé Antônio MINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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Além das montanhas

Foto: Angelo Paulino

Especial

A área de mineração é uma das que serão beneficiadas pelos acordos internacionais assinados pela FAPEMIG

FAPEMIG passa por processo de internacionalização, estabelecendo parcerias com instituições de fomento e pesquisa de outros países Mineração, Engenharia Mecânica, Ciências Biológicas, Hematologia e Biocombustíveis. Essas são apenas algumas das áreas a serem beneficiadas pela internacionalização da FAPEMIG. Em 2009, a Fundação estabeleceu parcerias nacionais e internacionais, levando a pesquisa mineira para além das fronteiras do estado. “Ciência não tem fronteiras”, destaca o presidente da FAPEMIG, Mario Neto Borges. Para ele, a internacionalização é de extrema importância. “Primeiro, porque amplia as possibilidades para pesquisadores e instituições de pesquisa mineiros interagirem com outras instituições do mundo. Segundo, porque marca a consolidação da FAPEMIG como agência de porte, que não fica restrita ao Estado ou ao País, beneficiando o desenvolvimento científico e tecnológico”. Entre as ações realizadas em 2009 estão o lançamento de um edital em parceria com o Instituto Nacional Francês para Pesquisa em Ciência da Computação e Automação (Inria) e acordos com o Instituto Politécnico de Torino, da Itália, e o Intercâmbio Acadêmico Brasil-Alemanha (DAAD). Foi também no ano passado que a FAPEMIG lançou o Programa de Iniciação Científica Internacional, destinada a alunos da graduação, e regulamentou a realização de estágio sanduíche para bolsistas dos cursos de doutorado com conceitos 6 e 7 pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Em 2010, outras parcerias estão em etapa avançada de negociação e algumas, que já foram estabelecidas, serão executadas. É o caso do acordo assinado com a Fundação Alemã para a Pesquisa Científica (DFG), que prevê o desenvolvimento de pesquisa conjunta entre a Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e a Universidade de Heidelberg na área de Ciências da Vida e Computação Biológica. Serão destinados cerca de 57 mil euros para o projeto, a serem investidos meio a meio pelas duas instituições.

Experiência internacional

O primeiro acordo internacional da FAPEMIG para financiamento de projetos foi firmado com o Inria, em março de 2008, durante a visita de representantes do Instituto Francês à FAPEMIG. “Esperamos que este seja o começo de uma sólida cooperação e que possamos desenvolver diversos projetos em parceria”, afirmou, na ocasião, o presidente do Inria, Michel Cosnard. No ano passado, a união das duas instituições resultou em um edital que contemplou quatro projetos de pesquisa em Minas, destinando a eles R$ 500 mil

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ao todo. Um deles, na área de mineração de dados, é coordenado pelo pesquisador Wagner Meira Júnior, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Para ele, a cooperação científica com outros países é muito importante por unir diferentes perspectivas e dar aos alunos uma experiência internacional. “Temos boa capacidade de formação mas é perceptível que o aluno que tem uma experiência internacional volta com outra visão, bem mais ampla, de como funciona a pesquisa”, diz o pesquisador, que destaca a grande afinidade técnica entre Brasil e França. Atualmente, outras duas instituições francesas negociam parcerias com a FAPEMIG. Uma delas, que envolve também a Universidade Federal de Itajubá (Unifei), visa à qualificação e ao treinamento de engenheiros para aplicação na indústria de helicópteros. Outra parceria está prevista com a Agence Nationale de la Recherche (ANR), situada na região francesa de Nord-Pas-de-Calais, considerada similar a Minas Gerais pelo desenvolvimento avançado na área de mineração. Na Itália, a instituição mineira também conseguiu bons aliados. A relação com o Instituto Politécnico de Torino já possibilitou o intercâmbio de pesquisadores e estudantes e prevê avanços em 2010. Além das bolsas, a parceria deve incluir o financiamento de uma pesquisa conjunta na área de Engenharia Mecânica entre o Instituto e a Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Outra entidade parceira é o órgão de fomento à pesquisa Finpiemonte, com o qual a FAPEMIG negocia um acordo para financiamento de pesquisas sobre biocombustíveis, no valor de 1 milhão de euros. A montadora de automóveis Fiat também integra a lista de parceiros italianos. Em 2009, foi lançado um edital conjunto entre a Fundação e a empresa e a nova proposta é trazer para Minas o Centro de Pesquisas da Fiat. Ainda na Europa, um acordo com a Romênia pode ser firmado este ano. O alvo serão projetos de pesquisa em Engenharia Mecânica, envolvendo a UFU. Em outro continente, com a Austrália, os planos são de assinar com a Universidade de Queensland um acordo que contemple o financiamento de pesquisas e o intercâmbio de pesquisadores. Não é apenas do outro lado do Atlântico, porém, que a FAPEMIG tem buscado aliados. Um projeto de grande porte está sendo planejado com o National Institute of Health (NIH), dos Estados Unidos, para pesquisas relacionadas a sangue e pulmões. A iniciativa envolverá os trabalhos do Estudo Multicêntrico Internacional em Doadores de Sangue (REDS), que já envolve pesquisadores de Minas Gerais, São Paulo, Pernambuco e, mais recentemente, do Rio de Janeiro.


Foto: Divulgação Fundação Zoo-Botânica

Notas

O maior aquário de água doce do Brasil já está aberto para visitação na Fundação Zôo-Botânica de Belo Horizonte. Inaugurado em março, o espaço possui cerca de três mil metros quadrados e é o primeiro a retratar exclusivamente a vida na Bacia do São Francisco. Nele, os visitantes terão a oportunidade de conhecer diferentes espécies de peixes e obter informações sobre o “Velho Chico”. Entre os destaques da ictiofauna estão surubins, dourados, curimatãs e matrinxãs. Resultado de uma parceria entre a Prefeitura e o Ministério do Meio Ambiente, as obras do aquário começaram em 2006, com a meta de promover a conservação da vida aquática do Velho Chico por meio de exibições dos ecossistemas e de sua interpretação, educação e pesquisa.Ao longo dos últimos três anos, outros parceiros adotaram esta idéia como Cemig, Codevasf, Copasa, Epamig, Instituto Estadual de Florestas (IEF), Sesc, Prefeitura Municipal de Pirapora, Sociedade dos Amigos da Fundação Zoo-Botânica e Instituto Terra Brasilis. O Aquário da Prefeitura abriga 22

recintos (tanques) que, em seus variados tamanhos e formatos, contam com mais de um milhão de litros de água. Esses recintos foram ambientados de forma a representar o rio São Francisco propiciando as condições adequadas para exibição de espécies em cativeiro. A maior atração do complexo é o Aquário São Francisco, com capacidade para 450 mil litros de água representando um “braço” do Velho Chico, onde o visitante poderá conhecer uma cenografia que apresenta tanto a sua “margem”, quanto o “fundo” do rio. A diversidade da vida também é representada através das relações complexas e dependentes da fauna, da flora e do homem. A proposta é que o aquário seja um espaço para lazer, entretenimento e, principalmente, para a difusão do conhecimento e defesa da preservação ambiental. O horário de funcionamento do aquário é de 9h às 16h, de terça a domingo.

O aquário em detalhes

• 1.200 peixes de 50 espécies

Foto: Divulgação Fundação Zoo-Botânica

Belo Horizonte ganha maior aquário de água doce do Brasil

• 22 tanques nos dois pavimentos com 1 milhão de litros de água. • Espécies como pirambeba, piau-trêspintas, mandi prata, cascudo e surubim. • Aquário São Francisco, com capacidade para 450 mil litros de água, representando um “braço” do Velho Chico, com uma cenografia que apresenta tanto a margem quanto o fundo do rio. • Auditório, espaços de exposição lúdicos, jardins, laboratório, lagoa marginal, lanchonete e lojinha. MINAS FAZ CIÊNCIA - SET. A NOV. / 2009

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Opinião

Conferência Nacional de CT&I: desafios Foto: Gláucia Rodrigues

Paulo Sérgio Lacerda Beirão*

Políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) para serem eficazes precisam ser continuadas, sem riscos de mudanças bruscas de rumo. É uma situação peculiar, pois, conquanto dependam dos governos, essas políticas precisam ter durações que frequentemente ultrapassam os mandatos dos governantes. Para se alcançar a necessária continuidade é imprescindível buscar consensos na sociedade para conseguirmos encontrar programas suprapartidários lastreados nos mais legítimos interesses locais e nacionais. Em suma, políticas de CT&I devem ser políticas de estado e não apenas de governo. É com esse mote que se está organizando a 4ª Conferência Nacional de Ciência Tecnologia e Inovação (4CNCT&I), a ser realizada em Brasília, de 26 a 28 de maio. Espera-se nessa conferência auscultar todos os setores da sociedade, principalmente aqueles envolvidos na produção e na utilização de conhecimento. O Brasil vem experimentando um expressivo avanço na área de CT&I. Alcançamos recentemente a 13ª posição no ranking de países produtores de conhecimento científico, com a publicação em 2008 de 2,63% de todos os artigos científicos publicados em revistas internacionalmente indexadas. Nada mal para um país que produziu apenas 0,52% das pu-

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blicações mundiais há 20 anos. Crescemos em produção científica mais do que o resto do mundo e já somos responsáveis por mais da metade da produção científica de toda a America Latina. Em 2008, superamos a marca de 10 mil doutores titulados por ano, o que representa mais do que o dobro dos titulados em 2000. Esse é um exemplo do bom resultado de políticas consistentes e continuadas. Se temos razões para comemorar, também temos fragilidades que precisam ser superadas. As estratégias para essa superação deverão ser um ponto central da 4CNCT&I. Primeiramente, é importante entendermos que existe um Sistema de CT&I em construção. Em um passado recente havia uma completa desarticulação nas ações de CT&I em todos os âmbitos. Questões importantes como a de energia nuclear e sistemas de vigilância aérea foram decididas comprando “pacotes” tecnológicos sem ouvir os nossos especialistas. Havia pouco diálogo entre as diferentes agências de fomento, bem como entre as agências estaduais e federais de CT&I, que executavam isoladamente suas políticas. A dissociação entre a produção de conhecimento e o setor empresarial ainda era mais acentuada. Felizmente esse quadro está se revertendo - em algumas áreas mais do que em outras -, mas ainda muito se precisa avançar. Há de se destacar a atuação da FAPEMIG nesse sentido. Embora apenas a partir de 2007 ela tenha passado a receber integralmente os recursos orçamentários constitucionalmente definidos, ela já vem promovendo um notável salto qualitativo da nossa pesquisa. Mais que isso, ela vem se articulando com programas do governo federal de forma a trazer mais recursos para apoiar grupos de pesquisa de excelência, sem prejuízo de ações voltadas para problemas mais específicos do estado. Com o decisivo apoio da FAPEMIG, constituímos em Minas Gerais 13 Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, programa criado no ano passado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia. Paralelamente, foram revigorados

programas de qualificação de pessoal ligado à CT&I e à educação superior em Minas Gerais. Programas de estímulo à inovação nas empresas foram criados, permitindo apoio a projetos de Pesquisa e Desenvolvimento e à colocação de doutores nas empresas. Graças ao conjunto dessas ações, recursos internacionais e privados vêm sendo atraídos para atividades de CT&I no nosso Estado. Além da consolidação do Sistema Nacional de CT&I, a 4CNCT&I irá abordar outros três eixos: a interface entre a produção de conhecimentos e a inovação nas empresas; ações estratégicas, principalmente voltadas para a nossa política industrial e comércio exterior; e ações para o desenvolvimento social. Algumas questões e desafios perpassam todos os eixos. Destaco a questão da educação como um dos mais sérios gargalos a serem superados. Dar oportunidade às nossas crianças e jovens a uma educação de qualidade, que estimule a criatividade e a capacidade de resolver problemas, é uma tarefa enorme para a qual nenhum esforço será grande demais. O país não poderá realizar um desenvolvimento baseado em CT&I sem vencer esse desafio. Outra tarefa essencial é estabelecermos marcos legais condizentes com as necessidades desse desenvolvimento. O controle burocrático e processual atualmente existente, além de arcaico, é pesado e ineficaz, de tal ordem que retarda ou até inviabiliza o prosseguimento de muitas pesquisas, nos colocando em desvantagens em relação a pesquisadores de outros países. Mais grave ainda, a carga burocrática frequentemente recai sobre o pesquisador, roubandolhe precioso tempo. Dessas discussões espera-se que seja consolidado um sistema de CT&I socialmente responsável, comprometido e articulado com o desenvolvimento sustentável, econômico e social do Brasil. * Pesquisador, professor titular da UFMG, presidente do Conselho Curador da FAPEMIG


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Divulgação científica- esquistossomose- identificação genética-animação-câncer-fungo do bem