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Sumário Lembra dessa?

Gripe

Carro econômico e de design inovador criado dentro do Projeto Sabiá, da Uemg, conquista primeiro lugar em competição internacional.

Técnica ainda pouco utilizada no Brasil pode fornecer respostas sobre a ação de patógenos e ajudar a combater doenças como a gripe suína.

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6 Hidropólio

Lixo Trabalho avalia o potencial energético do lixo domiciliar produzido em Belo Horizonte para que, num futuro próximo, esse resíduo possa ser transformado em fonte renovável de energia elétrica.

Equipamento desenvolvido na Unifei aproveita a correnteza de rios de pouca profundidade para gerar energia elétrica, beneficiando especialmente comunidades ribeirinhas. 34

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Controle

Bactéria Método avalia, de forma rápida, a presença de resíduos de carrapaticidas no leite e em produtos lácteos, fornecendo dados sobre qualidade e parâmetros para o manejo sanitário dos rebanhos.

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Anemia

Grupo da UFU é referência no estudo de bactéria que ataca o sistema gastrintestinal do homem e está relacionada a síndromes que afetam o sistema nervoso.

36 Cachaça A fim de garantir a qualidade da bebida, pesquisadores identificam compostos presentes no aroma da cachaça, separando os desejáveis daqueles que comprometem o sabor. 40

Pesquisa procura caracterizar o vírus responsável pela anemia infecciosa das galinhas, doença que ataca o sistema imune e acarreta prejuízos significativos aos produtores.

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TPM

Educação A chegada da escola em aldeias da etnia Xakriabá e as consequentes transformações no modo de vida da comunidade são foco de estudo de um grupo multidisciplinar.

As mulheres conhecem. Os homens não entendem. Duas médicas analisam os sintomas e formas de tratamento da TDPM, uma versão mais grave da TPM que afeta 5% da população feminina.

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Inovação

Empresas propiciam a aproximação entre academia e mercado, contribuindo para que os resultados de projetos de pesquisa cheguem à população na forma de produtos ou processos inovadores. 26

Especial

Em cerimônia que reuniu pesquisadores de todo o país, FAPEMIG se torna membro institucional máster da Academia Brasileira de Ciências (ABC), o que abre portas para novas parcerias. 46

Cientistas brasileiros

Flores Pesquisas com espécies tropicais avançam na fazenda experimental da Epamig, transformando a região em um polo estratégico e competitivo de floricultura.

Lucilia de Almeida Neves Delgado, historiadora, escritora e cientista política, fala sobre a evolução da FAPEMIG e o cenário nacional de ciência e tecnologia.

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Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais

MINAS FAZ CIÊNCIA tem por finalidade divulgar a produção científica e tecnológica do Estado para a sociedade. A reprodução do seu conteúdo é permitida, desde que citada a fonte.

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Ao leitor

Expediente MINAS FAZ CIÊNCIA Assessora de Comunicação Social e Editora: Vanessa Fagundes (MG-07453/JP) Redação: Vanessa Fagundes, Ariadne Lima (MG09211/JP), Patrícia Teixeira (ES-01020/JP), Juliana Saragá e Raquel Emanuelle Dores (estagiária) Colaboração: Letícia Orlandi, Thaís Pontes e Virgínia Fonseca Ilustrações: Bruno Vieira Revisão: Aline Luz Projeto gráfico/Editoração: Fazenda Comunicação & Marketing Montagem e impressão: Lastro Editora Tiragem: 15.000 exemplares Fotos: Lucas Prates, Marcelo Focado e Thaiane Andrade Agradecimentos - Agradecemos a todos os colaboradores desta publicação Redação - Rua Raul Pompeia, 101 - 12.º andar São Pedro - CEP 30330-080 Belo Horizonte - MG - Brasil Telefone: +55 (31) 3280-2105 Fax: +55 (31) 3227-3864 E-mail: revista@fapemig.br Site: http://revista.fapemig.br

Capa: Flores Foto: www. sxc.hu Nº37 mar. a mai/2009

GOVERNO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Governador: Aécio Neves SECRETARIA DE ESTADO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR Secretário: Alberto Duque Portugal

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais Presidente: Mario Neto Borges Diretor Científico: José Policarpo G. de Abreu Diretor de Planejamento, Gestão e Finanças: Paulo Kleber Duarte Pereira Conselho Curador: Presidente: Paulo Sérgio Lacerda Beirão Membros: Afonso Henriques Borges Anna Bárbara de Freitas Proietti Evaldo Ferreira Vilela Francisco Sales Horta Giana Marcellini João Francisco de Abreu José Cláudio Junqueira Ribeiro José Luiz Resende Pereira Magno Antônio Patto Ramalho Paulo César Gonçalves de Almeida Valder Steffen Júnior

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MINAS FAZ CIÊNCIA - DEZ. MAR./2008 A MAI. A /FEV. 2009 / 2009

Por trás do nosso cafezinho ou do pão de queijo mineiro existem anos de estudos e o esforço de vários pesquisadores para garantir a qualidade e a competitividade desses produtos, sem perder o gostinho da tradição. A ciência, a tecnologia e a inovação estão presentes em todos os momentos de nossa vida, mesmo que, às vezes, isso não seja tão óbvio. Um exemplo é o cultivo de flores na região do Campo das Vertentes, uma atividade praticada há anos que, com a ajuda de centros de pesquisa, está ganhando o mercado nacional e internacional. A Minas Faz Ciência já havia publicado uma reportagem sobre os estudos nessa área em sua edição nº25. Esses trabalhos evoluíram e culminaram na implantação, pela Epamig, de um Núcleo Tecnológico de Floricultura dentro da Fazenda Experimental Risoleta Neves (FERN), em São João del Rei. O órgão pioneiro visa a estimular o segmento, tanto na produção de pesquisas quanto na difusão de tecnologias, proporcionando novas alternativas para a geração de emprego e renda. No local, são realizadas pesquisas sobre diversas espécies, entre elas flores tropicais, típicas de região quente e de aspecto exótico. O resultado é que, hoje, Minas Gerais é hoje o segundo maior Estado em área plantada para cultivo de flores no Brasil. Também é destaque dessa edição um trabalho realizado na Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais (Cetec) que investiga o potencial energético do lixo domiciliar produzido em Belo Horizonte. Um estudo preliminar já mostrou que esses resíduos são capazes de gerar, em média, 3.500 kcal/kg de energia diariamente. Isso equivale a 9,6 milhões de kWh/dia, o suficiente para alimentar 30 milhões de lâmpadas de 100 watts durante seis horas. Dividido em etapas que incluem um estudo socioeconômico da população da capital mineira e a determinação do poder calorífico do lixo, o trabalho promete, também, garantir uma destinação mais adequada a esses resíduos, que hoje são descartados em aterros sanitários, aterros controlados e lixões. Mulheres e homens, não deixem de conferir, ainda, reportagem sobre uma condição que afeta 5% da população feminina mundial: o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual ou TDPM, uma forma grave da já conhecida TPM. Nesse caso, os sintomas comuns da TPM, como mau-humor, irritabilidade ou depressão, são significativamente acentuados, trazendo desequilíbrios para a vida pessoal, familiar e profissional das pacientes. Duas médicas estudaram a ação de uma nova droga para o tratamento do transtorno, com resultados preliminares promissores. Enquanto o uso desse novo medicamento aguarda para ser incorporado à rotina médica, elas ensinam que a melhor forma de combater os sintomas e a discriminação é a divulgação do tema e o autoconhecimento. Em tempos de gripe suína, vale conhecer o trabalho de um grupo de pesquisa mineiro, que colocou o Estado no centro dos debates sobre formas de contenção e prevenção da doença. Desenvolvido pelo Centro de Pesquisas René Rachou e pelo Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, o estudo promete fornecer respostas para a compreensão do agente infeccioso e a produção de uma vacina eficaz. A base é a técnica conhecida como genética reversa, que permite mapear e manipular o vírus, atenuando ou potencializando algumas de suas características. A técnica é utilizada de forma pioneira pelo grupo e motivou o convite para reunião com o Ministério da Saúde, a fim de discutir a intensificação e aceleração das pesquisas sobre a influenza no país. Por fim, um convite. Em outubro, será realizado em Belo Horizonte o X Congresso Brasileiro de Jornalismo Científico com o tema “Jornalismo Científico e Desenvolvimento Sustentável”. O evento, que acontece a cada dois anos, já é tradicional da área e, este ano, contará com o apoio da FAPEMIG. Essa será uma oportunidade valiosa para conhecer os profissionais envolvidos com a cobertura da área de C&T, conhecer os projetos que estão sendo desenvolvidos em outros estados e discutir questões relevantes para a área. Vanessa Fagundes Editora

Cartas entidade com as universidades. Por essa razão, é possível apresentar enfoques das mais variadas áreas da ciência.Tomei conhecimento da revista através de um amigo, que é engenheiro agrícola e recebe trimestralmente um exemplar da conceituada publicação. Como sou professor de Biologia e Ciências no Ensino Médio e Fundamental, gostaria de ter a honra de recebê-la também, para que eu possa estar atualizado das conquistas de Minas Gerais no campo acadêmico-científico e, dessa forma, repassar tais informações para meus alunos nas escolas onde trabalho.” Gleisson Araújo Nunes

Professor Piumhi/MG

“Ao ler a revista durante uma visita à casa de um amigo fiquei muito interessado no conteúdo. Conclui que é de grande importância para minha vida acadêmica e profissional, uma vez que apresenta a produção científica e tecnológica do Estado para a sociedade.”

Marcílio Gomes da Silva

Publicação trimestral da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais - FAPEMIG nº 36 - dez/2008 a fev. /2009 MINAS FAZ CIÊNCIA informa que as cartas enviadas à Redação podem ou não ser publicadas e, ainda, que se reserva o direito de editá-las, buscando não alterar o teor e preservar a ideia geral do texto. “Recebi a revista 35 e meu neto de 9 anos veio a minha casa ontem à noite. Ele mora em Ribeirão Preto, estuda no Colégio Ideal e é muito interessado em pesquisas (ele lê desde 4 anos, sabe muito sobre dinossauros e sobre astros). Não preciso dizer para vocês o que aconteceu... Juro que não vou falar que perdi minha revista, mas mostrei mais um caminho (a FAPEMIG) para uma criança que se interessa e que já fala em pesquisa... Me surpreendi: ele com a revista na mão fazendo contato com vocês, passou o endereço dele em Ribeirão, da escola dele. Venho fazer dois pedidos: 1) uma atenção especial para essa criança (Lucca ), ele promete; 2) não li a revista e gostaria de receber outra. É uma duplicata, mas tenho certeza que trará frutos.” Maria das Dores Lima

Franca/SP

“Primeiramente, gostaria de parabenizálos pelo conteúdo da revista editada pela FAPEMIG, pois o mesmo mostra como o povo mineiro apresenta conhecimento acadêmico de ponta, graças à parceria da

Estudante do curso de Ciência e Tecnologia de Laticínios/UFV Viçosa / MG “Alguns meses atrás tive o privilégio de conhecer a MINAS FAZ CIÊNCIA e os conteúdos abordados me interessaram, assim como ao meu coordenador de Proteção Radiológica e Ambiental. Com muita alegria, ele constatou que os temas abordados são muito importantes e de uma contribuição enorme para nosso trabalho e para nosso dia-a-dia. Parabenizo e aplaudo todos que contribuem para esse trabalho de grande valia.”

Maria Aparecida R. Claudino

Auxiliar de Administração/ Indústrias Nucleares do Brasil (INB)

“Gostaria de receber gratuitamente as edições da revista MINAS FAZ CIÊNCIA, pois tenho interesse nas reportagens publicadas. As notícias divulgadas, para mim, são de muita importância.”

Eliana Rocha

Estudante de Ciências Biológicas/ Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) Cruz das Almas/BA “Sinto-me privilegiado e feliz por receber a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, que tem contribuído para a formação de minha cidadania e a divulgação científica no grande Estado de Minas Gerais. Aproveito e parabenizo o antigo e o novo presidente da Fundação, Sr. Mario Neto Borges.”

Daniel Marques

Historiador Virginópolis-MG

“Recentemente tive a oportunidade de conhecer a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, uma publicação muito interessante e da qual gostei muito. Fiquei sabendo, também, que sua distribuição é gratuita, e para recebê-la basta cadastrar-se. Por isso envio a vocês este e-mail, para solicitar calorosamente que me incluam na lista dos beneficiados de tal recebimento. Seria um grande prazer poder ler regularmente uma publicação sobre o fascinante mundo da ciência publicada pela FAPEMIG e que, com certeza, contribuiria, e muito, para enriquecer meus conhecimentos científicos.” Fernando Augusto Gouvêa Reis

Estudante de Química/Cefet-MG Belo Horizonte/MG

“Conheci a revista editada por esta instituição e gostei muito da qualidade do trabalho realizado por vocês. Gostaria de recebê-la, porque será de grande ajuda para trabalhar com meus alunos temas atuais sobre Ciências, pois nosso papel hoje como educadores é fazer com que nossos alunos façam uma leitura de mundo de forma atualizada e responsável. Sei que o conteúdo desta revista irá proporcionar estes momentos em sala de aula.” Moacir Alves Moreira

Professor Contagem/MG “Quero agradecer o envio regular das edições da revista, que muito tem sido útil para meus trabalhos de Saúde Comunitária e Saúde Ambiental. Estamos produzindo e ensinando crianças e jovens a produzir as tintas a base de terra, ensinada em um dos exemplares. Particularmente me foi útil a Edição Especial de nov.2008: Bioética. Fui membro de duas bancas de mestrado em Bioética na Univás - Pouso Alegre (MG) e a leitura dos artigos publicados muito contribuíram para este trabalho junto aos mestrandos.” Maria Lígia Mohallem Carneiro

Professora universitária Belo Horizonte/MG

“Agradeço-lhes pelo envio da edição de nº 36, a qual abrange vários assuntos muito importantes como Doença de Chagas, Própolis, Eucalipto, Suinocultura, etc. Parabenizo o novo presidente da FAPEMIG, sr. Mário Neto Borges, pelo trabalho que já está prestando ao nosso Estado e ao nosso país, e também por liderar o Confap. Minas faz, mostra, renova e lidera a Ciência.” Roselé Fernando de Andrade Universidade de Itaúna. Itaúna - MG

Para receber gratuitamente a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, preencha o cadastro no site http://revista.fapemig.br ou envie seus dados (nome, profissão, instituição/empresa, endereço completo, telefone, fax e e-mail para o e-mail: revista@fapemig.br ou para o seguinte endereço: FAPEMIG / Revista MINAS FAZ CIÊNCIA - Rua Raul Pompéia, 101 - 12.º andar - Bairro São Pedro - Belo Horizonte/MG - Brasil - CEP 30330-080 MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAI. / 2009

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Precaução,

sim.

Pânico, não.

“Um vírus mortal está se espalhando rapidamente. De origem animal, ele pode ser transmitido por meio de uma simples tosse. Os cientistas, agora, correm contra o tempo para encontrar uma solução e evitar uma tragédia de proporções mundiais”. O parágrafo acima poderia ter sido tirado de um jornal da última semana, mas, na verdade, trata-se do enredo do filme “Epidemia”, uma produção americana lançada em 1995. Não é coincidência que a situação se pareça com a enfrentada atualmente pela disseminação do vírus H1N1, responsável pela gripe suína. Afinal, a possibilidade de aparecimento de uma doença altamente virulenta, capaz de se propagar rapidamente e causar uma infinidade de mortes, sempre assombrou a humanidade. Hoje, a chance de algo parecido acontecer não é pequena. Afinal, a facilidade e velocidade de deslocamento das pessoas tornam quase impossível conter um vírus. A configuração das cidades modernas, repletas de espaços pequenos e fechados onde dezenas de pessoas convivem diariamente, também facilita a propagação. Isso sem falar na constante exploração de novos ambientes, o que provoca a migração de vetores e o aparecimento de doenças até então desconhecidas ou restritas a determinado perímetro. Foi o que aconteceu com o H1N1. Os primeiros casos foram divulgados em abril e, quatro meses depois, o mapa da doença inclui até mesmo ilhas mais isoladas. A população respondeu com medo: escolas adiaram o início das aulas, alguns governos sugeriram evitar locais fechados ou de grande concentração de pessoas, máscaras cirúrgicas se tornaram comuns especialmente em aeroportos. A comunidade científica, por sua vez, respondeu com uma mobilização mundial para descoberta de tratamentos e formas de prevenção.

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Um desses trabalhos está sendo desenvolvido no Centro de Pesquisas René Rachou (CPqRR), unidade da Fundação Oswaldo Cruz em Minas Gerais, em parceria com outras unidades da Fiocruz e com o Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB - UFMG).O grupo, formado por cinco pessoas entre pesquisadores e alunos, utiliza, de forma pioneira, uma técnica chamada genética reversa para obter, a partir do mapeamento do código genético do vírus, uma vacina eficiente para a influenza A. O estudo é coordenado pelo pesquisador Alexandre Vieira Machado, membro do grupo de vacinas chefiado pelo pesquisador Ricardo Tostes Gazzinelli, do CPqRR e da UFMG). Machado teve contato com a técnica há seis anos, durante o doutorado em Virologia no Instituto Pasteur, na França. Os primeiros resultados são promissores. “O objetivo é que, futuramente, uma pessoa que vá a um posto de saúde consiga se vacinar, ao mesmo tempo, contra gripe e contra doença de Chagas, por exemplo”, diz. Recentemente, o pesquisador e o diretor do CPqRR, Rodrigo Corrêa, foram convidados para uma reunião no Ministério da Saúde a fim de apresentar os estudos que estão sendo desenvolvidos em Minas Gerais. Nesta entrevista, Machado fala sobre seu trabalho pioneiro com a genética reversa e a importância da interação entre pesquisadores de diferentes grupos e instituições. E faz um alerta: a situação é preocupante, mas não justifica o pânico.

Há cerca de três anos, o mundo entrou em alerta devido a gripe aviária, provocada pelo vírus H5N1. Esse assunto deixou de ocupar as manchetes e, agora, enfrentamos problema parecido com a gripe suína (vírus H1N1). Será que vamos continuar a ser surpreendidos com o aparecimento de novas doenças? Não há forma de prever ou controlar o surgimento de enfermidades desse tipo? Primeiro, é importante dizer que não tivemos o problema da gripe aviária, nós ainda o temos. A questão é que essa gripe não se espalhou pelo mundo da maneira que imaginamos. Isso se deveu, principalmente, ao fato de que a transmissão da ave para o homem é difícil e a do homem para o homem, até o momento, é nula ou praticamente inexistente. Diferentemente da gripe suína, que se adaptou ao ser humano. Mas com relação ao vírus da influenza aviária, felizmente ela está

controlada. Se olharmos na página da Organização Mundial de Saúde (OMS - http://www.who.int/), vez ou outra vemos alguns casos que, normalmente, são fatais. Lembrando que, quando falamos em vírus aviários, temos que pensar que o H5N1 tem diferentes tipos de virulência, que variam entre moderadamente e altamente virulentos. Com a gripe suína temos o oposto: um vírus altamente transmissível, mas cuja virulência é de moderada a branda. O que está acontecendo é a mudança do perfil das pessoas infectadas com o vírus. Até pouco tempo atrás, achávamos que ele atingia as pessoas com o perfil clássico: asmáticas, idosas, com problemas cardíacos e imunossupressão, seja natural ou induzida por medicamentos. Hoje, o perfil é diferente. A gripe suína ataca pessoas obesas, grávidas. Isto é preocupante. Mas é importante considerar que o número de mortes ainda é pequeno se comparado com outras doenças,

Fotos: Juliana Saragá

Fotos: Juliana Saragá

Entrevista

As pesquisas sobre influenza desenvolvidas no ICB/UFMG contam com o apoio da FAPEMIG e do CNPq e envolvem uma equipe de cinco pessoas, entre professores e alunos.

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de dez anos. Inicialmente, trabalhava na França, onde fiz meu doutorado e aprendi a técnica. No Brasil, posso dizer seguramente que o nosso grupo é o precursor da técnica. Nós começamos a trabalhar com o influenza em 2004 e posso dizer que essa área guarda muitas promessas. É importante salientar que este é um trabalho de grupo, chefiado por Ricardo Gazzinelli, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais e do Centro de Pesquisas René Rachou. Ele nos deu apoio moral, logístico e financeiro e, se não fosse isso, não teríamos conseguido começar o projeto, pois é muito difícil para um pesquisador iniciante conseguir financiamento e estabelecer uma linha de pesquisa. A técnica da genética reversa permite reconstituir o vírus e alterar suas características. Uma forma atenuada do agente infeccioso, por exemplo, é o que irá compor a vacina.

até com a própria gripe sazonal.Temos, até agora, uma média de 800 mortes no mundo provocadas pela gripe suína, sendo que morrem de 100 a 500 mil pessoas de gripe sazonal por ano. Sim, a situação é muito preocupante, mas não há nada que justifique o pânico. O vírus precisa ser monitorado não somente pela circulação no território nacional, mas pelos possíveis derivantes ou mutações. Por exemplo, há uma maior mortalidade na Argentina. É o caso de saber se há um vírus mutante por lá, ou se algum fator climático da região aumenta sua letalidade.

humano?

Ainda há o problema das pessoas que não vão aos hospitais, que ficam em casa. Os sintomas clássicos da gripe são conhecidos, mas cada paciente é um paciente. Da mesma forma, no caso da gripe aviária, seguramente aquele quadro de óbitos não corresponde à realidade de infecção. Se forem feitos exames de soroprevalência para anticorpos contra H5N1, o número possivelmente será muito maior.

Como isso funciona dentro dos laboratórios, com as pesquisas científicas? Os pesquisadores tentam antecipar os tipos de doenças que podem surgir e, nesse caso, já pensar em formas de prevenção e tratamento?

Mas como um vírus especificamente animal pode ser transmitido ao ser

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É o que chamamos de transposição de barreiras de espécies. O vírus vai se adaptando. Pense o seguinte: em uma população temos duas forças, a mutação e a seleção natural. A mutação acontece a todo o tempo e em todos os organismos. Então vem a seleção daqueles que são mais adaptados. Evidentemente, existem várias mutações do influenza que não chegam a lugar algum. No caso da gripe suína, ocorreu uma mutação que, ao entrar no ser humano, se adaptou bem a ele.

Sim. O nosso grupo, por exemplo, trabalha com uma técnica chamada genética reversa. É basicamente uma técnica de biologia molecular, popularmente chamada de engenharia genética. Eu trabalho com engenharia genética de vírus influenza há cerca

Podemos dizer que influenza é uma denominação geral para o tipo de vírus? Existem três tipos de influenza A, B e C, que pertencem a uma mesma família de vírus. Em se tratando de doenças humanas, o que interessa basicamente é o influenza A. O influenza B causa doença em um quadro mais brando e está restrito ao ser humano, enquanto o influenza C, do ponto de vista de doenças, é muito brando. Temos vários subtipos de influenza A. Quando falamos H1N1, H5N1, o que é isto? São duas proteínas de superfície, a hemoglutinina (H) e a neuraminidade (N) . Existem diferentes tipos de proteínas H e N, que podem se rearranjar de maneira teoricamente aleatória. Dentro de cada subtipo de influenza temos as variantes. Exemplos de subtipos: o H5N1, o H3N2 que apareceu em 1968, o H2N2 que apareceu em 1957. O H1N1 não é um subtipo novo. Na verdade, existem vírus H1N1 humanos que circula rotineiramente, a vacina que tomamos este ano também o previne. Mas o H1N1 que está provocando essa pandemia é suíno e só agora entrou na população humana.

As vacinas que tomamos para o vírus H1N1 humano não são capazes de proteger contra o vírus H1N1 suíno. A existência de variedades dificulta a tarefa de prevenção, não é? Exatamente. Por isso é de importância fundamental que os centros de referência do Brasil e do mundo façam o mapeamento genético do vírus, de tal forma que seja possível tentar antecipar as variantes que podem aparecer, e assim desenhar as vacinas para os anos seguintes. Com relação ao vírus da gripe suína, ainda não podemos prever o que irá acontecer. Esse é um vírus que vai circular e depois desaparecer? Ou ele irá se adaptar ao ser humano e será mais um vírus contra o qual teremos que vacinar? Nós não sabemos, são apenas possibilidades.

Como funciona a técnica de genética reversa? Chamamos de reversa porque é como se nós fizéssemos o trabalho de trás para frente. A gente manipula o genoma do vírus e o reconstitui a partir dos clones moleculares. Basicamente, você trabalha com o genoma do vírus e o manipula, nos limites da natureza, da forma como quer. Quer fazer um vírus carregando a proteína de outro patógeno? Quer fazer um vírus mais atenuado? Você faz. Uma forma atenuada do vírus, aliás, é o que irá compor a vacina. Aqui no laboratório, nós trabalhamos no desenvolvimento de vacinas, usando um modelo de camundongos, com vírus adaptado. Quer dizer, ainda estamos em escala de laboratório, tentando estabelecer um protocolo de

vacinação para doenças negligenciadas, como toxoplasmose e doença de Chagas. O nosso objetivo é, futuramente, usar o vírus influenza neste protocolo, de tal forma que possamos vacinar ao mesmo tempo contra gripe e contra uma doença de interesse. Dessa forma, a pessoa iria a um posto de saúde para vacinar contra a gripe e vacinaria também contra doença de Chagas ou toxoplasmose. No caso do influenza, já temos projetos aprovados para desenvolver vacinas bivalentes contra influenza e toxoplasmose no modelo suíno. Pois a gripe é também um problema da suinocultura, provoca perda de peso do animal, algumas vezes até a morte, trazendo prejuízos econômicos para o pecuarista. Além disto, ao evitar a toxoplasmose no animal, evitaríamos também sua transmissão para

Para o mapeamento genético, é importante também que os diferentes centros de pesquisa interajam. A ciência não pode ser encarada como um

A letra H, de H1N1, é a inicial de hemoglutinina, uma proteína localizada na superfície externa do vírus e que ele utiliza para se fixar nas células humanas. O nome vem da aglutinação das células do sangue. Já a letra N é a inicial de neuraminidase, uma proteína que quebra os açúcares da célula sob ataque para liberar novos vírus. Como as duas proteínas localizam-se no lado externo do vírus, são elas que o sistema imunológico detecta e que os cientistas procuram alvejar na busca por formas de matar o vírus.

feudo, no qual cada um se torna um suserano do seu domínio e não conversa com os outros. É muito importante que os pesquisadores de Minas Gerais interajam com pesquisadores de outros estados e de outros países. Essa é uma questão de saúde pública não só nacional, mas mundial. Para haver resultados, temos que trabalhar em equipe. MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAI. / 2009

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Quais as vantagens desse método? Existem algumas vantagens. Atualmente, a vacina para influenza é obtida utilizando como substrato o ovo embrionado. Mas cada ovo resulta em, no máximo, duas doses de vacina – é muito pouco se compararmos com a febre amarela, em que cada ovo resulta em 300 doses. Assim, para uma doença de risco populacional grande, você tem de prever uma demanda de vacinas. No caso da gripe suína, temos que vacinar a população em geral. O ideal seria vacinar o maior número de pessoas possível, pois um infectado pode transmitir a doença para um grande número de pessoas. A propagação do vírus acontece em escala geométrica. Na genética reversa não é necessário o ovo embrionado, é possível utilizar cultura celular, o que facilita no aumento da escala. Outro aspecto vantajoso é que a genética reversa elimina a necessidade de manusear vírus altamente patogênicos nos laboratórios. Caso contrário, não conseguiríamos trabalhar com um vírus muito virulento em um laboratório como esse, de nível de proteção dois. Com essa técnica, é possível manipular o genoma do vírus antes de criar o recombinante. Além disso, usa-se o plasmídeo como ferramenta. Plasmídeo é uma pequena molécula de DNA, fácil de ser manipulada. Nós colocamos o material genético do vírus ali e, rapidamente, conseguimos um material idêntico. Para um vírus altamente virulento - que não é o caso do vírus da gripe suína - a genética reversa conseguiria fornecer uma resposta em tempo muito menor. O senhor teve o primeiro contato com a técnica de genética reversa na França. Outros grupos brasileiros já trabalham com ela?

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Somos o primeiro grupo do Brasil, e talvez da América do Sul, a trabalhar com genética reversa. Somos pioneiros e, até onde sei, os únicos a trabalhar com a técnica no país. Mas acho que o saber deve ser difundido. É importante ter mais gente trabalhando com esses objetivos, pois temos observado uma sobrecarga no sistema de saúde. O inverno no nosso país é brando, mas onde faz mais frio a situação está complicada, como no caso da região Sul. E esse é um vírus de virulência branda a moderada, se aparecer um vírus do tipo que provocou a gripe espanhola, como ficará a situação do sistema de saúde? Uma coisa é lidar com um surto de gripe, outra coisa é lidar com uma pandemia. A própria OMS já está tendo dificuldades de acompanhar a evolução dos casos. No fim de julho, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde (MS) convocou o senhor e o diretor do Centro de Pesquisas René Rachou, Rodrigo Corrêa, para uma reunião sobre os estudos conduzidos em Minas Gerais sobre o vírus H1N1. Como foi a conversa? Isso aconteceu porque eu já tinha um projeto em andamento com o BioManguinhos (Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos - Bio-Manguinhos – é a unidade técnico-científica da Fundação Oswaldo Cruz que produz e desenvolve imunobiológicos para atender às demandas da saúde pública). Ironicamente, foi na semana em que a gripe suína começou a se alastrar que nós assinamos a carta compromisso. O objetivo não é fazer vacina para gripe suína. Caso existam empresas capazes de produzir o vírus vacinal, nós podemos gerar os recombinantes para elas, sabemos que existem institutos no Brasil capazes de fazer isto. Mas é até onde vamos: usar o nosso know-how para gerar recombinantes. Introduzir lotes vacinais pilotos, isso

Foto: Angelo Paulino

o ser humano, já que o principal foco de transmissão desta doença é o consumo da carne de porco mal cozida.

O objetivo do grupo é, futuramente, obter vacinas bivalentes, de forma que uma pessoa, ao buscar um posto de saúde, consiga se vacinar ao mesmo tempo contra a influenza e uma outra doença de interesse

nós não temos condições de fazer. Seria um projeto para mais de três anos. Assim, nossa proposta é otimizar a técnica de genética reversa usando isolados humanos de gripe sazonal. A pessoa gripada vai ao centro de saúde, onde é coletado o material. Realizado os testes, envia-se o vírus, extrai-se o RNA, clona-se o plasmídio, gerando um recombinante. Feito isto, enviaríamos para o Bio-Manguinhos para produção em reator de 14 litros. Mas as coisas andaram mais rápido do que imaginávamos e a pandemia chegou mais cedo. Tivemos um alerta amarelo para a gripe aviária e agora, com gripe suína, um alerta laranja. Temos um vírus moderadamente virulento, mas altamente transmissível. Uma pandemia que se propaga em grande velocidade. Em questão de três meses o vírus já atingiu mais de 150 países.

para, futuramente, se uma situação parecida voltar a ocorrer, não ficarmos na situação que nos encontramos, dependendo de ajuda estrangeira. O Brasil já assumiu: vacina contra a gripe suína só na metade do ano que vem. Devemos agir como os Estados Unidos: mandar as amostras vacinais, gerar recombinantes, fazer nossas próprias vacinas e imunizar a população. Volto a dizer: não queremos competir com nenhuma instituição de pesquisa. Nosso objetivo é trabalhar em colaboração com quem desejar colaborar e minimizar as consequencias negativas no caso de uma outra pandemia. O que esperamos é que este projeto não seja somente da Fiocruz, mas um projeto nacional.

E não há mais como isolá-lo?

Não dá para dizer falar. Qualquer coisa que eu dissesse seria um blefe. O que posso dizer é que, se isso fosse uma caminhada de uma milha, ainda estaríamos nos primeiros passos. Ainda vai demorar para termos uma vacina, mas esperamos poder contribuir com o Brasil nessa tarefa.

Se você olhar o mapa da doença, não só países, mas também ilhas mais isoladas já tem seus casos da nova gripe. O vírus está globalizado, não tem como controlar. O nosso objetivo é implementar a técnica de genética reversa

O senhor arrisca uma previsão? O que pode acontecer daqui pra frente?

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Energia que vem do lixo

Pesquisadores desenvolvem estudo para avaliar a viabilidade de implantação de tecnologias sustentáveis em BH Na segunda parte da trilogia “De volta para o futuro”, de 1989, o Dr. Emmett Brown (personagem de Christhoper Lloyd) utiliza o lixo doméstico como matéria-prima de energia para o De Lorean, sua máquina que viaja no tempo. No filme do diretor Robert Zemecckis, o ano em questão é 2015. O que parecia somente ficção científica nos anos 80, na verdade, antecipava possibilidades reais para o presente. Em um estudo preliminar, pesquisadores do Centro Tecnológico de Minas Gerais (Cetec) obtiveram dados significativos: o lixo produzido pelas nove regionais da cidade de Belo Horizonte é capaz de gerar, em média, 3.500 kcal/kg de energia diariamente. São 9.600.000 kWh/dia, aptos para alimentar 30.000.000 lâmpadas de 100 watts durante seis horas. Esses resultados fazem parte do projeto que vai calcular o potencial energético do lixo domiciliar produzido pela população da cidade, para que esse resíduo possa ser, num futuro próximo, transformado em fonte renovável de energia elétrica. A transformação do lixo doméstico em energia elétrica pode parecer algo novo para a sociedade brasileira. O processo de conversão, no entanto, já é amplamente utilizado em diversos países europeus, além de países como China e Índia, que também se destacam no aproveitamento. Com o agravamento dos problemas ambientais em todo mundo, o uso de fontes renováveis de energia torna-se uma alternativa urgente para reduzir o impacto dos dejetos produzidos pelo homem e para poupar a natureza. “A implantação de novas tecnologias para a reutilização sustentável do lixo depende de estudos de viabilidade”, observa o engenheiro civil e sanitarista Cláudio Jorge Cançado, que coordena o projeto intitulado “Levantamento do potencial energético dos resíduos

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domiciliares e comerciais urbanos do município de Belo Horizonte”. A cidade enfrenta hoje o problema de falta de área para a implantação de aterros sanitários. O estudo, por sua vez, poderá possibilitar o aproveitamento energético do lixo sem a necessidade de aterrá-lo. “O projeto, apesar de não ser tão complexo, é muito importante porque vai oferecer uma informação que não existe. Trata-se de uma pesquisa de levantamento básico, para se começar a pensar que tipo de tecnologia é mais adequado ao município”, diz.

O projeto

De acordo com Cançado, o projeto começa com um estudo sócioeconômico da população de Belo Horizonte. As nove regionais da cidade foram estratificadas de acordo com dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que divide a cidade em mais de 2.500 setores censitários – unidades individuais de planejamento para a aplicação de pesquisas que, em conjunto, fornecem informações para a composição do Censo. Outra fonte de dados foi a Empresa de Informática e Informação do Município de Belo Horizonte (Prodabel). Nesta primeira parte do projeto,

Foto: Raquel Dores

Meio Ambiente

Gisele Andrade, Cláudio Jorge Cançado e Viviane Lopes, pesquisadores do Cetec

que já foi concluída, foram recolhidos dados referentes à renda e à população. “O levantamento foi feito por domicílio ou instituição focalizando a renda porque sabemos que os resíduos sólidos variam de acordo com o poder aquisitivo das pessoas”. Na divisão seguida, renda A equivale a mais de 20 salários mínimos, renda B, 12 a 20 salários, renda C, 6 a 12 salários, renda D, 2 a 6 salários e renda E, 0 a 2 salários mínimos. Como explica o coordenador do projeto, observa-se que quanto maior o poder aquisitivo, maior é a ocorrência de embalagens, plásticos, entre outros, alternando a composição do lixo. Sabendo disso, a análise do lixo, tendo como base a renda, busca obter a maior representatividade da composição do lixo em função da renda de sua população para cada região. Hoje, aproximadamente 60% do volume de resíduos sólidos gerados pela cidade é material orgânico, como capina e poda de árvore, mas, principalmente, comida. Esse lixo também é classificado como lixo úmido, que possui menor potencial de energia. “Para que se entenda a implicação da umidade, basta que pensemos na situação: quando queremos secar uma roupa, temos que gastar energia para secá-la. Da mesma forma ocorre com os resíduos sólidos”, diz. A partir dos dados levantados, foram elaboradas cartas (veja a figura) com a estratificação sócio-econômica por renda das nove regionais, utilizando-se o apoio de softwares de geoprocessamento. Estas foram finalizadas com a colaboração da bióloga e bolsista da FAPEMIG, Viviane Marcelina Barbosa Lopes. “As cartas são importantes para se identificar os setores censitários, a população e a renda dentro das regionais de Belo Horizonte e, a partir disso, também a representatividade da composição do

lixo por cada classe social”, diz. O objetivo da análise dos resíduos sólidos é a concretização da segunda parte do projeto: a realização de coletas por regional e de acordo com faixa de renda de cada população. “Com a estratificação, poderemos recolher amostras que sejam realmente representativas de cada área. A região Centro-Sul da cidade, por exemplo, possui um percentual de pessoas com um salário muito alto. Logo, a maioria das amostras colhidas nessa área será da renda A, que é predominante e que é bastante representativa da regional. Outro exemplo é a regional Barreiro, que possui 80% de sua população enquadrada na renda D. Então, 80% das amostras serão da renda D, porque 80% das pessoas que moram no Barreiro vivem com essa renda”, diz o coordenador do projeto. A terceira e atual etapa consiste em determinar como será feita a coleta das amostras de resíduos sólidos. Com os nove mapas prontos, já existe um plano de ação. A ideia é fazer um contato com a população de cada região e combinar a coleta. Cançado estima a coleta de 50 amostras por regional, que dariam no final, 450 amostras em cada uma das quatro campanhas ou estações do ano. O objetivo é obter o potencial de cada regional, fazer uma média por época do ano e, finalmente, a média da cidade, levando em conta as épocas de chuva que, naturalmente, aumentam a umidade do lixo, um dos principais fatores para a determinação do poder calorífico dos resíduos.

Etapa laboratorial

As amostras recolhidas serão levadas para o Setor de Análises do Cetec (Laboratório de Ensaios Orgânicos), onde serão determinados o Poder Calorífico Superior (PCS) e o Poder Calorífico Inferior (PCI), respectivamente o potencial máximo e o potencial mínimo de energia que a porção pode gerar. Cada amostra será homogeneizada, estratificada dentro de uma metodologia, triturada e encaminhada para a realização de ensaios químicos em laboratório. Além do processo realizado para a obtenção do PCS e do PCI, será também feito outro ensaio que reduzirá os resíduos a seus componentes: carbono, oxigênio, nitrogênio, hidrogênio e enxofre. O objetivo é obter o poder calorífico através de equações matemáticas, que também oferecem o resultado do potencial. De acordo com a química Gisele Carolina da Fonseca Andrade, que atua no laboratório de química orgânica do Cetec, o PCS será obtido pela queima dos resíduos MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAI. / 2009

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na presença de oxigênio em um equipamento chamado calorímetro. Já o PCI será obtido através de cálculos matemáticos, dos componentes da amostra, da umidade e de seu PCS. “O setor de Análises Químicas determinará o carbono, hidrogênio, oxigênio (CHN) das amostras”. De acordo com Cançado, será possível chegar a dois resultados que aumentarão ainda mais o rigor dos resultados. “Nós teremos o poder calorífico obtido experimentalmente, aqui no laboratório e este ainda poderá ser comparado com o resultado obtido a partir de modelo matemático. Poderemos assim, verificar se os dois resultados são próximos. Esses dados ainda permitem avaliar se o resíduo e a coleta que fizemos estão adequados ao resultado obtido”. O coordenador ainda ressalta a importância de todas as etapas do projeto devido ao tamanho da amostra que vai efetivamente para o equipamento, que é de um grama. “A ideia é que o laboratório faça um número grande de amostras. Para cada amostra serão feitas de 10 a 15 determinações de poder calorífico, para a máxima representatividade do resultado que se está buscando”. Ainda de acordo com Cançado, as 3.500kcal/ kg de energia produzidas pela cidade revelam um valor considerável, apesar de existirem perdas de energia no processo de conversão. “Quando o lixo é transformado acontecem perdas de energia. No entanto, podese dizer que o potencial energético do lixo de Belo Horizonte é bem alto e interessante”. O pesquisador ainda pondera: “Trata-se de um dado preliminar e esse estudo financiado pela FAPEMIG está sendo feito justamente para levantarmos esse potencial ao longo do ano e com maior precisão para que ele possa viabilizar investimentos na área”.

Lixo domiciliar

De acordo com Cançado, a ideia do projeto surgiu de estudos ligados à implantação de Planos de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos (PGIRSU), uma iniciativa do Cetec que existe desde 1994 e engloba vários projetos em cidades mineiras. “Com o Plano, observou-se que a questão da gestão dos resíduos sólidos urbanos é complexa, sendo que, mais de 500 municípios de Minas Gerais trabalham com lixão, uma das piores alternativas do ponto de vista ambiental”, diz. De acordo com dados do último censo do IBGE, todo o país despejou 200 mil toneladas de resíduos por dia em lixões, o equivalente a 73 milhões de toneladas por ano. Para se ter uma ideia, enquanto Europa e EUA reciclam 40% de seu lixo, o Brasil chega à marca de 2%. Hoje, o lixo domiciliar possui, basicamente, três destinos no país: aterros sanitários, aterros controlados e lixões. A adequação ou não dos três sistemas se baseia na forma como cada um protege o meio ambiente dos dois resíduos que o lixo produz, o chorume, resíduo liquido extremamente tóxico, e o gás metano, resíduo

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gasoso altamente inflamável em contato com a atmosfera, podendo gerar riscos de acidentes. Dos três, o aterro sanitário é a solução mais adequada, pois o solo é impermeabilizado utilizando-se materiais como a argila e a manta de polietileno de alta densidade, protegendo-o da infiltração do chorume, além de possuir drenos para os dois resíduos e vários outros sistemas de proteção ligados à questão ambiental. No aterro controlado, o lixo é compactado e coberto com uma camada de terra, sem qualquer tipo de tratamento. E finalmente no caso do lixão, os resíduos são simplesmente jogados a céu aberto, ficando expostos a diversos animais vetores de doenças, além do risco ambiental ligado ao chorume e ao gás metano. Em São Paulo, o uso do lixo de aterros sanitários para a produção de energia elétrica já acontece. No aterro Bandeirantes, as sete mil toneladas diárias de lixo foram convertidas em uma economia de R$ 3 milhões por mês em conta de luz pelo banco brasileiro Unibanco, que investiu R$ 48 milhões na construção de uma central de geração elétrica. A iniciativa chegou a gerar créditos de carbono – créditos que podem ser vendidos para empresas de países desenvolvidos, obrigados a reduzir suas metas de poluição para a empresa Biogás, que instala e administra os equipamentos, e para a Prefeitura. O aterro São João, também na cidade de São Paulo, possui um projeto para captação e transformação do gás bioquímico em energia elétrica. O uso do gás do aterro evita que ele seja despejado na atmosfera e contribua para o aquecimento global. No entanto, permanece o problema do consumo de área para aterramento, pois o sistema trabalha com células ou valas que são ocupadas longitudinalmente. No caso de Belo Horizonte, por exemplo, o lixo é enviado para a cidade de Sabará, por falta de espaço para aterrar. “A melhor solução depende do contexto de cada município”, diz Cançado. Para Belo Horizonte, a coleta com caminhões para o aterro é um

O mapa mostra o resultado do estudo sócio-econômico realizado na regional Pampulha, em BH. A renda familiar é um indicativo da composição do lixo produzido na região

investimento necessário, mas acaba tornando-se caro. “São muitos caminhões, em várias áreas da cidade, a qual é imensa. Os caminhões amarelos são da Prefeitura e os brancos são terceirizados. São 2.400 toneladas coletadas por dia e para que o lixo seja recebido no aterro de Sabará, a prefeitura paga por tonelada, ou seja, paga para a retirada do lixo aqui na cidade e também para que o lixo seja recebido lá”. Como observa coordenador do projeto, o estudo realizado pelos pesquisadores do Cetec possibilita um aproveitamento diferente do que já é feito em São Paulo. “Será medido o potencial de energia que poderá ser gerado pelo lixo através da gaseificação do resíduo sem aterrá-lo. Essa gaseificação, dependendo do processo escolhido, irá gerar um gás sintético e calor que podem ser utilizados para geração de energia elétrica. Existem vários tipos de processo nesse sentido, como a incineração, muito usada na Europa, a pirólise e o plasma”.

Perspectivas

A implantação de novas tecnologias para conversão do lixo em energia demanda investimentos, tanto privados como públicos. Estes, por sua vez, também dependem de estudos para a viabilidade econômica. É basicamente isso que o projeto do Cetec irá proporcionar ao mensurar as 2.400 toneladas de lixos produzidas, por dia, pela

capital. Mas as referências técnicas para os empreendedores são apenas o começo. Outros benefícios futuros, como a solução para impactos ambientais da poluição gerada pelo lixo e a criação de uma opção para gerar energia elétrica também são evidentes. Existe uma discussão sobre os benefícios da utilização de novas tecnologias e do consequente impacto para a atividade dos catadores de materiais recicláveis, um dos responsáveis pelos R$ 7 bilhões por ano que a reciclagem rende, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente. Para Cançado, essa ponderação não leva em conta o real objetivo dos processos de tratamento de resíduos sólidos. “O que não pode ser aproveitado e reciclado é que será destinado para a geração de energia”. Aliás, para o pesquisador, um dos benefícios diretos que podem advir do uso do lixo como fonte de energia é o incentivo à reciclagem e ao correto armazenamento dos resíduos, que passam a ser matéria-prima. Segundo o Plano Decenal de Produção de Energia 2008/2017, existe potencial para isso, pois o lixo das 300 maiores cidades brasileiras pode produzir 15% da energia elétrica consumida no país. Hoje, existe uma série de propósitos positivos para o que se tornou um problema ambiental. O lixo pode ser utilizado como matéria-prima em indústrias de reciclagem, evitar gastos com o próprio saneamento básico e ainda, se reciclado e manuseado corretamente, poluir menos a atmosfera. No entanto, “não existe uma solução mágica”, como observa o coordenador do projeto. “Antes de pensar na implantação de soluções de aproveitamento energético do lixo, é preciso estudar e entender o assunto, pois os investimentos são muito altos para que se realizem sem dados precisos”. Raquel Emanuelle Dores

Projeto: Levantamento do potencial energético dos resíduos domiciliares e comerciais urbanos do município de Belo Horizonte Coordenador: Cláudio Jorge Cançado Modalidade: Edital de Resíduos Sólidos Valor: R$ 119.402,05

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Qualidade

Alimento seguro Método rápido e preciso monitora a presença de agrotóxicos em alimentos De um lado, produtores preocupados em manter a qualidade do rebanho e evitar pragas. De outro, a possibilidade de contaminação dos alimentos por resíduos dos produtos usados para manejo sanitário. Essa é a equação que motiva uma pesquisa do Laboratório de Química Analítica do Departamento de Química da Universidade Federal de Viçosa (UFV) sobre métodos para avaliação rápida e adequada da qualidade dos alimentos. Além disso, o estudo busca criar condições para se verificar tendências no uso de agrotóxicos, fornecendo dados para que medidas preventivas e de controle possam ser efetuadas. Um dos principais parasitas que atinge o gado bovino brasileiro é o carrapato Boophilus microplus. As doenças associadas a esse tipo de ácaro, com sintomas de febre alta, prostração, falta de apetite e anemia, causam prejuízos estimados em mais de US$1 bilhão por ano. Para combatê-lo, são utilizados carrapaticidas, mas seu uso intensivo nos rebanhos aumenta a possibilidade de acúmulo de resídu-

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Vacina combate carrapatos As consequências da praga do carrapato nos rebanhos bovinos e as alternativas de prevenção à infestação são tema de estudo de um outro grupo de pesquisadores da UFV. O projeto, coordenado pelo professor Joaquín Hernán Patarroyo, resultou no desenvolvimento de uma nova vacina, com alta eficiência e mais barata do que as existentes no mercado, e foi tema da revista Minas Faz Ciência nº 3 (junho a agosto de 2000). A equipe do Departamento de Veterinária do Instituto de Biotecnologia Aplicada à Agropecuária (Bioagro) trabalhou em cooperação com o Instituto de Inmunologia del Hospital de San Juan de Díos, em Bogotá, na Colômbia, e contou com o apoio da FAPEMIG. Existem hoje apenas vacinas recombinantes originadas de uma proteína imunogênica (formadora de anticorpos) produzida em leveduras. Com pesquisas registradas desde a década de 30, as primeiras vacinas chegaram ao mercado nos anos 70, com tecnologia australiana. Na década de 80, pesquisadores cubanos também desenvolveram o produto, fabricado em escala industrial. O professor Patarroyo explica que o alto custo de produção e a relativa eficiência levam os produtores rurais a optar pela aplicação de carrapaticidas, que, conforme descrito também no trabalho do professor Antônio Neves, se usados indiscriminadamente, podem aumentar a resistência dos carrapatos e causar danos ambientais e à saúde pública. A pesquisa, desenvolvida desde 1993, se baseou no estudo de uma proteína retirada do intestino do carrapato – a Bm86. Proteínas são moléculas gigantescas, compostas por um grande número de unidades menores, chamadas aminoácidos. A equipe estudou os 650 aminoácidos que compõem a Bm86 e descobriu que a combinação de

43 deles era suficiente para criar a imunidade nos animais. A técnica é similar à de outras vacinas: os aminoácidos são injetados nos bovinos e induzem a reação do sistema de defesa do organismo, que cria anticorpos. Ao picar o animal, o carrapato ingere os anticorpos que vão atacar suas células intestinais, provocando sua morte ou limitando a reprodução e alimentação. O desenvolvimento da vacina sintética foi motivado pelas vantagens da técnica em si – não necessitar de meios de cultura ou organismos vivos para sua produção, custo mais baixo e grau de pureza mais elevado, ausência de contaminantes proteicos e processo de produção mais simples - mas também pela necessidade de um produto nacional, que evitasse a importação e o pagamento de royalties, já que a tecnologia é estrangeira. Os primeiros testes em animais apontaram uma eficiência de 80% sobre a população dos carrapatos, correspondendo às expectativas dos pesquisadores. Quando a matéria original foi publicada, iriam começar os testes em campo, em parceria com a Embrapa Gado de Leite, no município de Coronel Pacheco, na Zona da Mata. Hoje, nove anos depois, o professor Patarroyo conta que os testes em campo com o peptídeo sintético demonstraram eficiência de 60%, aferida em três aplicações. Mais testes devem ser realizados, por um período de dois anos consecutivos - dois períodos de primavera e um de verão. Em junho de 2003, os direitos de produção e comercialização da vacina foram transferidos para o Laboratório Hertape, com sede em Juatuba (MG), e a expectativa era de que o produto estivesse disponível no mercado a partir de junho de 2005. Entretanto, o processo de produção da vacina em escala in-

dustrial ainda não obteve sucesso e o processo de transferência de tecnologia foi extinto. “Existe grande dificuldade para as empresas na síntese química ao nível industrial, seja pela falta de capacidade de investimento ou pelo desconhecimento do potencial de mercado que a síntese química representa entre os produtos veterinários”, ressalta Patarroyo. Os pesquisadores se voltaram então, para alternativas no processo de produção. “Tendo em conta a relevância do produto, resolvemos desenhar genes sintéticos que codificassem a vacina sintética, para que ela pudesse ser produzida por fermentação”, explica o professor. Os testes foram feitos com duas leveduras - Pichia pastoris e a Kliveromices lactis. O peptídeo sintético foi produzido em fermentação pelas duas leveduras, tendo maior quantidade na Pichia. “Os resultados foram excelentes em camundongos e o produto da fermentação – peptídeo recombinante - foi reconhecido por soros de bovinos que tinham sido vacinados com o peptídeo sintético, indicando que os produtos são idênticos”, explica Patarroyo. No segundo semestre de 2009, será iniciada a produção, em escala piloto, do peptídeo recombinante. Em seguida, serão feitos testes em bovinos. Essa nova etapa da pesquisa também conta com apoio da FAPEMIG, dentro do Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex). A vacina sintética contra carrapato bovino foi a primeira patente na história da FAPEMIG e da UFV. O depósito de patente foi requerido no Brasil, Austrália, Estados Unidos, México e os países da União Europeia. Patarroyo conta que a carta-patente já foi concedida na Austrália e, até o final de 2009, a comunidade europeia e o México também deve concedê-la. MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAI. / 2009

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Foto: Antônio Augusto Neves

A equipe analisou amostras de leite e produtos lácteos comercializados na região para identificar resíduos de carrapaticidas.

os e de sua eliminação por meio do leite e de tecidos adiposos. Para o coordenador da pesquisa, o professor Antônio Augusto Neves, a contaminação do leite, em especial, é um fator extremamente preocupante, uma vez que se trata de um alimento essencial à saúde humana e muito consumido nos estágios iniciais da vida. O uso intensivo de carrapaticidas na pecuária leiteira requer atenção especial dos produtores e dos técnicos que os orientam, pois seu uso inadequado e excessivo pode causar problemas de ordem ambiental e de saúde pública, que vão desde desequilíbrios ecológicos e surgimento de novas pragas até a possibilidade de deixar resíduos tóxicos nos alimentos. Alguns trabalhos desenvolvidos na UFV tem foco justamente nesse campo: desenvolver metodologias de extração de poluentes orgânicos em diferentes matrizes: solo, água, leite, vegetais e alimentos.

Carrapaticidas

O manejo sanitário de rebanhos bovinos é constituído por um conjunto de práticas tecnológicas. Quando adequadamente adotadas e gerenciadas, elas criam condições para ganhos na produtividade porque propiciam bemestar aos animais e índices mais elevados de reprodução e de produção de leite de qualidade, ou seja, isentos de resíduos e contaminantes que podem

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prejudicar a saúde dos consumidores de produtos lácteos. A aplicação de carrapaticidas é um exemplo dessas práticas. Os mais utilizados atualmente fazem parte da classe dos piretroides, compostos sintéticos que apresentam estruturas semelhantes à piretrina, substância isolada das flores do Pyrethrum ou, como é conhecido popularmente, o crisântemo (Chrysanthemum cinerariaefolium). Os mais comuns são aletrina, resmetrina, deltametrina, cipermetrina e fenpropanato. A elevada eficácia antiparasitária dos piretroides tem resultado no aumento de sua utilização. No organismo humano, o contato e o acúmulo de piretroides podem provocar náuseas, vômitos, irritações alérgicas na pele, paralisia muscular e, em casos graves de intoxicação, até a morte. Antônio Neves explica que, apesar de não haver fiscalização no Brasil sobre a presença de resíduos de piretroides no leite para consumo humano, o Codex Alimentarius - fórum internacional de normalização sobre alimentos, parte de um programa conjunto da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), estabelece que o máximo aceitável para deltametrina e cipermetrina no leite de vaca é de 20 e 50 µg/L, respectivamente. Esses dois produtos foram selecionados para o trabalho por serem in-

seticidas muito utilizados na pecuária da região da Zona da Mata de Minas Gerais. “A busca de novos métodos para monitorar resíduos de pesticidas deve ser estimulada tanto sob o ponto de vista ambiental como de saúde pública. Além do aspecto de risco à saúde, o monitoramento constante se faz necessário porque o nível de resíduos acima de limites tem se apresentado como uma importante barreira comercial no mercado internacional de alimentos”, explica o coordenador.

Análise

O problema de grande parte dos métodos de extração de resíduos utilizados atualmente é que eles retiram, além das substâncias de interesse, alguns componentes dos alimentos que acabam influenciando os resultados. É o caso do leite, uma matriz considerada complexa por ser gordurosa. Neste caso, a dificuldade é ainda maior, sendo necessário um processo de limpeza dos extratos antes da análise. Em seu projeto de pós-graduação, Simone Machado Goulart, sob orientação de Antônio Neves e da professora Maria Eliana Lopes Ribeiro de Queiroz, buscou desenvolver um método de extração em que a amostra (leite) é misturada com um solvente de baixo ponto de congelamento. A mistura é resfriada em freezer e, com a redução da temperatura, a água, as proteínas e as gorduras são congeladas e separa-

das do solvente, que contém, portanto, apenas as substâncias de interesse para estudo – os piretroides - que permanecem na fase líquida. Por esta metodologia, os extratos não precisam ser submetidos a etapas adicionais para a remoção de interferentes gordurosos. Segundo Antônio Neves, o método desenvolvido se mostrou bastante eficiente, com taxas de recuperação acima de 90% para cipermetrina e acima de 80% para deltametrina. “Além de eficiente, é simples e de fácil execução, exigindo pequeno volume de solvente extrator", comemora o professor. Depois de otimizado e validado, o método foi empregado na determinação de resíduos dos piretroides em amostras de leite e de bebida láctea comercializadas em Viçosa. A equipe observou que algumas amostras colhidas apresentaram contaminação, mas em níveis residuais abaixo dos limites máximos estabelecidos pelo Codex Alimentarius. "No entanto, os resultados comprovam a presença desses compostos no leite, o que sugere a necessidade de ação por parte dos órgãos responsáveis pela saúde pública, no sentido de monitorar a presença de drogas veterinárias neste e em outros produtos de origem animal", conclui o coordenador. Além disso, esse tipo de estudo pode promover maior conscientização quanto à necessidade da utilização adequada dos carrapaticidas e agrotóxicos em geral. O laboratório da UFV tem adaptado a metodologia para análise em diversas matrizes, como água, solos, alimentos e bebidas em geral. Já foram realizados trabalhos em manteiga, mel, tomate, maçã, carne bovina, batata, água e solos. Atualmente, estão sendo desenvolvidos trabalhos com agrotóxicos em café, abacaxi, sucos de frutas e bebidas lácteas, entre outros. Letícia Orlandi

Projeto: Desenvolvimento de metodologia de extração, separação e quantificação de carrapaticidas em leite e manteiga Modalidade: Edital Jovens Doutores Coordenador: Antônio Augusto Neves Valor: R$13.000,00

Palavra-chave

Momento virtuoso José Policarpo G. de Abreu*

A área de ciência, tecnologia e inovação cresceu bastante não só em Minas Gerais, mas no país como um todo. Recentemente, foi divulgado o grande salto na publicação de artigos em revistas indexadas. O Brasil passou de cerca de 20 mil artigos publicados para mais de 30 mil no último ano, de tal forma que subiu do 15º para o 13º lugar, ultrapassando potências como a Rússia e a Holanda, respectivamente. Minas teve papel de destaque nessa conquista, especialmente em função da firme atuação da FAPEMIG. O apoio crescente às instituições de ensino e pesquisa do Estado está relacionado à alocação devida de recursos orçamentários: de 2004 a 2009, o orçamento da FAPEMIG foi multiplicado por dez. Os resultados dessa política governamental estão aí para quem quiser ver. O objetivo, agora, é uma melhora nos índices de inovação, amparados nas Leis Federal e Estadual de Inovação, e ainda no Decreto 44.784, que regulamenta o Fundo de Incentivo à Inovação Tecnológica (FIIT). Vale lembrar a criação da Gerência de Propriedade Intelectual, através da qual a FAPEMIG apoia inventores e orienta na transferência de tecnologia. Dessa forma, a agência tem se tornado vetor fundamental para o avanço de Minas não só em ciência e tecnologia, mas também em inovação. Nos próximos anos, a proposta da Fundação é consolidar seu crescimento e promover a internacionalização, transformando-a em uma agência também respeitada no exterior, uma vez que hoje ela já o é nacionalmente. Como exemplos recentes, podemos citar que o presidente da FAPEMIG passou a ser também o presidente do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) e que a Fundação foi uma das primeiras FAPs a se tornar membro da Academia Brasileira de Ciências. A política da atual direção é a de que só não será feito aquilo que não for legal. Tudo o que puder ser feito para o engrandecimento da ciência e tecnologia, bem como para a consolidação da inovação do Estado, será feito. O principal desafio é avançar a passos largos porque é nosso objetivo, nossa meta, colocar Minas na liderança desse setor. Assim, estaremos colaborando para que o próprio país venha a se firmar como um dos líderes no contexto mundial. Faz-se mister ressaltar que esse momento virtuoso da área de CT&I, com a ação firme e segura da FAPEMIG, só foi possível porque o atual Governo do Estado reconheceu a importância do papel da fundação como agência indutora e, já pelo terceiro ano consecutivo, aplica 1% do orçamento do Estado na mesma. Antes, por melhor que fossem as ideias, era difícil implementá-las, pois não havia recursos para tal. Portanto, é fundamental manter esta conquista, que levou duas décadas para ser efetivada. O preço desta conquista é a eterna vigilância. Mas se conseguirmos demonstrar para a sociedade a importância desses investimentos em Ciência, Tecnologia e Inovação, a própria sociedade se incumbirá de cobrar do Governo, qualquer que seja ele, essa manutenção. Por fim, importante lembrar que o investimento em ciência, tecnologia e inovação não é “um caminho” para se enfrentar a crise mundial, mas “o caminho”, pois não há nada mais sólido que isso. O que se fez durante muito tempo foi investir em papel, que é algo extremamente volátil. Ações hoje valem X e amanhã valem Y, depois de amanhã valem Z. Seu valor é algo que varia conforme os humores do mercado. Uma conquista científica e tecnológica ou um invento são definitivos, independem de como o mercado está se comportando. Aí está a solidez de qualquer desenvolvimento. O desenvolvimento sustentável só se faz com base em investimentos sólidos, e esses são aqueles feitos em Ciência, Tecnologia e Inovação. *Diretor Científico da FAPEMIG

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Combate ao oportunismo

Foto Marcelo Focado

Caracterização de vírus que causa anemia em galinhas pode fornecer informações importantes para o controle da doença e reduzir perdas do produtor

Uma doença com consequências severas para aves jovens e capaz de causar danos para a avicultura industrial é o foco do estudo de pesquisadores da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que pode subsidiar estratégias de controle sanitário. A anemia infecciosa das galinhas é uma doença causada por um vírus conhecido pela sigla CAV e causa, como o próprio nome diz, anemia e imunodepressão em aves jovens, da espécie das galinhas (Gallus gallus domesticus). De acordo com o professor e coordenador da pesquisa, Nelson Rodrigo Martins, a importância dessa enfermidade está exatamente nessa característica de atingir o sistema imune e inviabilizar plantéis industriais que necessitam de saúde plena para expressar a produção no momento certo, com ganho de peso, crescimento e postura de ovos, por exemplo. A imunodepressão provoca diversos transtornos no equilíbrio do organismo das aves, que se tornam suscetíveis a infecções oportunistas e tem dificuldade de formação de uma flora bacteriana intestinal saudável. A transmissão ocorre de duas formas: vertical - via reprodução, de galinha e galo infectados; e a partir do ambiente de criação contaminado, por ser vírus de alta resistência. Nas aves jovens, faixa etária em que a doença clínica ocorre, há palidez, anemia, atrofia da medula óssea e dos órgãos do sistema imune, permitindo a entrada de infecções por outros vírus, bactérias, fungos e protozoários. As dificuldades para controle estão muito ligadas a essa característica. Entretanto, a infecção por CAV pode não apresentar sinais aparentes em aves com mais de quatro semanas de vida, e os pro-

Foto Marcelo Focado

Avicultura

A equipe buscou a caracterização molecular do vírus da anemia infecciosa das galinhas, o que ajudará a delinear estratégias de controle da doença

blemas para o sistema imune dos animais só são notados tardiamente. “Isso favorece a alta disseminação da doença e, junto com ela, vêm outras preocupações, como a coinfecção por outro agente que deprime o sistema imune das aves, o vírus da doença infecciosa bursal”, completa Bruna Cypreste Michell, que foi orientada por Martins em seu mestrado em Ciência Animal. São várias as infecções favorecidas pela anemia, a exemplo das colibaciloses (Escherichia coli), clostridioses (bacterias do gênero Clostridium), micoses (especialmente as aspergiloses, infecções por fungos do gênero Aspergillus), coccidioses (protozooses por esporozoários) e outras viroses, como as adenoviroses. A depressão imune impede a formação de resposta protetora adequada às vacinações contra agentes de grande relevância, como o vírus da doença de Newcastle, de notificação e erradicação obrigatórias para a conformidade ao comércio internacional. As falhas nos programas de vacinação e os custos da terapia antibacteriana, somadas aos maiores custos de produção e menores índices de produtividade configuram um quadro de despesas extras para os produtores. A anemia infecciosa das galinhas tem, portanto, grande relevância para a avicultura industrial, embora seja difícil quantificar o impacto no aspecto econômico. “Em plantéis jovens clinicamente afetados a

Nelson Rodrigo Martins, da UFMG

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perda da viabilidade atinge em torno de 100% das aves. Entretanto, as infecções subclínicas podem deprimir a produtividade com impacto mais disseminado por toda a avicultura, seguramente com perdas de rentabilidade significativa”, explica o professor. Esta conclusão deriva da alta prevalência, maior que 90%, da infecção na avicultura industrial brasileira, embora a doença clínica ocorra em índices muito menores, atualmente inferiores a um 1% no Brasil. As perdas econômicas nos plantéis portadores podem ser de 2 a 2,3% comparados a plantéis não infectados. Atualmente, as estratégias de prevenção para a avicultura industrial articulam-se por meio de normas de biossegurança e pela aplicação de vacinas nos plantéis de reprodução. O objetivo da vacinação dos reprodutores é evitar a transmissão para os filhotes, que serão, no futuro, os frangos de corte ou as poedeiras. A caracterização molecular do vírus realizada durante o projeto da UFMG será útil para a manutenção de um banco de dados epidemiológicos sobre a ocorrência da anemia infecciosa das galinhas em Minas Gerais, essenciais para delinear estratégias de controle, além de constituir objeto de estudo de programas de iniciação científica, mestrado e doutorado.

Descobertas

A anemia infecciosa das galinhas é mais descrita em avicultura industrial. Mas o estudo viabilizado com auxílio da FAPEMIG e do CNPq apontou, de forma inédita no Brasil, que a infecção MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAI. / 2009

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Foto: Arquivo Geduc

Educação Importância da avicultura mineira Pesquisas cujos resultados podem resultar na melhora nos índices de produtividade da avicultura mineira significam também aumento das divisas e benefícios para a balança do agronegócio mineiro. Em abril de 2009, o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) colocou em funcionamento o Grupo de Atenção Veterinária Especial em Avicultura (Gavea), com o objetivo de melhorar o sistema de atenção veterinária, a capacidade de resposta a emergências sanitárias e elevar o status sanitário avícola de Minas, atualmente classificado como “C”, ou intermediário. A classificação é feita pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) por meio de auditoria nos estados que aderiram ao Programa Nacional de Sanidade Avícola (PNSA). Para definir a classificação, o Ministério avalia critérios como dados descritivos da avicultura, sistema de atenção veterinária, condições para respostas a emergências sanitárias e adequação às normas do PNSA. Atualmente, nenhum estado brasileiro possui classificação “A”. O PNSA tem como objetivo certificar a sanidade dos plantéis avícolas do Brasil, expandir os mercados internos e externos, controlar e/ou erradicar as principais doenças avícolas, prevenir a introdução de doenças exóticas no Estado, manter sob vigilância as doenças avícolas, monitoramento sanitário em estabelecimentos que alojem aves de produção. Recadastramento de granjas avícolas, atendimento a suspeitas de doenças de notificação obrigatória, cadastro de estabelecimentos que comercializam aves vivas e está presente em cerca de 30% das criações de subsistência. “A presença do CAV nessas populações de galinhas tem implicações para a medicina veterinária preventiva. Os dados mostram que há necessidade de se adotar medidas de biossegurança e promover o isolamento entre a criação industrial e a de subsistência”, explica a doutoranda Priscilla Rochele Barrios, professora da Universidade Federal de Lavras, que desenvolveu tese de doutorado junto ao projeto. Além disso, o estudo demonstrou que o CAV esteve presente como contaminante de vacinas vivas e inativadas até meados dos anos 1990. “Isso significou a disseminação da infecção entre os plantéis vacinados por quaisquer vacinas vivas usadas na avicultura”, atestam os pesquisadores. Devido a essa alta prevalência, as boas condições para diagnóstico e pesquisa

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cadastro de outras explorações avícolas são algumas das atividades do grupo. Um exemplo da importância desse setor está na exportação de ovos de galinha. De acordo com dados divulgados em 2009 pelo Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Minas Gerais confirmou sua condição de líder nacional nas vendas internacionais desse produto - ovos de galinha em casca refrigerados para consumo -, alcançando receita de US$28,4 milhões no balanço de 2008. Além disso, o Estado teve receita de US$1,2 milhão com a comercialização de ovos de incubação no exterior. Segundo a secretaria de Estado da Agricultura (Seapa), Minas está também dentre os maiores produtores de aves, ocupando o quinto lugar, com 401 milhões de frangos produzidos durante o ano passado. Os mineiros responderam, em 2008, por 62% do valor total das exportações brasileiras de ovos para consumo, que alcançaram US$46,5 milhões. Ainda segundo a Seapa, Minas Gerais é o segundo produtor de ovos do país, com um volume de quase 200 mil toneladas em 2008, sendo o Sul de Minas o maior polo de granjas de postura do Estado. Na comparação dos volumes negociados, o Estado vendeu quase 20 mil toneladas, enquanto a soma do Brasil é de cerca de 33,2 mil toneladas. O levantamento do MDIC demonstra que os Emirados Árabes são líderes absolutos na aquisição de ovos para consumo produzidos em Minas Gerais. O país comprou, no ano passado, cerca de 11,8 mil toneladas do produto, possibilitando uma receita de US$ 16,6 milhões.

com o vírus se tornam cruciais para permitir maior agilidade nas respostas e recomendações relacionadas com o controle da anemia infecciosa das galinhas. “Outra descoberta interessante, em estudo preliminar, foi que o CAV pode ter infectado ave da fauna brasileira, situação que pode também recomendar para o maior isolamento entre criatórios conservacionistas e a avicultura comercial de galinhas”. Existem vacinas comerciais contra a anemia infecciosa das galinhas disponíveis no mercado brasileiro, embora haja algumas controvérsias, principalmente relacionadas ao custo econômico, por serem produtos de alto custo, e também devido à potencialidade da disseminação do vírus CAV por meio das próprias vacinas. Nelson Rodrigo Martins explica que os estudos nessa área vão continuar, ampliando a população estudada, principalmente entre a

população que integra a avicultura de subsistência e industrial em Minas Gerais. “O controle da anemia infecciosa das galinhas pode resultar em melhora dos índices de produtividade e redução dos custos de produção, o que poderia refletir, em tese, em menores preços de produtos avícolas”, levanta o pesquisador. Os trabalhos nessa área podem, portanto, facilitar a vida do produtor, mas também beneficiar o consumidor. Letícia Orlandi Projeto: Caracterização molecular de isolados do vírus da anemia infecciosa das galinhas do Estado de Minas Gerais Coordenador: Nelson Rodrigo da Silva Martins Modalidade: Edital Universal Valor: R$29.820,00

Oralidade X Escrita Grupo analisa impactos do letramento em uma comunidade indígena do Norte de Minas A Constituição de 1988 é um marco para as comunidades indígenas brasileiras. Com sua promulgação, os índios deixaram de ser considerados uma categoria social em vias de extinção e passaram a ser vistos como grupos étnicos diferenciados, com direito a manter sua organização social, costumes, línguas e crenças. Ela também assegura às comunidades indígenas o direito a uma educação escolar diferenciada, com a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem. A coordenação das ações de educação indígena é responsabilidade do Ministério da Educação, cabendo aos estados e municípios a sua execução. Do encontro entre a alfabetização e a tradição oral característica dessas comunidades nascem múltiplos conflitos, criando um terreno fértil para investigações no campo da educação. Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Grupo de Educação Indígena, formado por pesquisadores de diferentes áreas e instituições, estuda a transformação das comunidades indígenas a partir da

chegada da escola. Criado em 2000, o grupo é coordenado pela professora Ana Maria Rabelo Gomes, da Faculdade de Educação (FAE) da UFMG. Os primeiros trabalhos acompanharam duas etnias, Maxacali e Xakriabá, as maiores de Minas Gerais. A hipótese que orientava o estudo era a de que a escolarização não acontece de forma uniforme, ela passa por um mecanismo de negociação com as práticas culturais tradicionais. “Os integrantes da equipe acompanhavam o dia-a-dia da aldeia, registrando suas observações em diários de campo. Essa primeira pesquisa originou três teses de doutorado, cinco dissertações de mestrado e várias monografias em áreas como Educação, Ciências Sociais e Economia”, lembra a professora. Ao fim da investigação sobre os processos de apropriação da escrita e de escolarização, a equipe reuniu dados sobre as formas de criação, armazenamento e transmissão do conhecimento entre as comunidades indígenas. MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAI. / 2009

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Foto:Vanessa Fagundes

Fotos: Arquivo Geduc

Os professores Ana Maria Rabelo, Carlos Henrique Gerken e Marildes Marinho fazem parte do Grupo de Educação Indígena

Outros estudos

Os rituais tradicionais, como a reza de São Benedito, também foram modificados com a chegada da escola. A equipe acompanhou o dia-a-dia de duas aldeias da etnia Xakriabá, a Caatinguinha e a Barreiro Preto.

gumas pessoas, geralmente as mais jovens, acompanhavam as rezas utilizando-se de anotações escritas. Os textos eram uma tradução do que se ouvia e, lidos isoladamente, não tem sentido. “Essa foi uma transformação motivada pela introdução da escola. Os membros alfabetizados da comunidade, especialmente as mulheres, tentam escrever as ladainhas para acompanhar os ritos”, acredita Gerken. Dessa forma, a escola, que poderia significar a perda da identidade pela introdução de novos temas e práticas, representa, na verdade, uma retomada da cultura tradicional. “Os costumes são ensinados em sala de aula, o que garante sua continuidade, uma preocupação constante dos mais velhos”, diz. Para ele, outra consequencia interessante da escola é que, atualmente, todas as crianças aprendem desde cedo que são índias, e o que isso significa. Todas essas manifestações culturais foram gravadas em áudio e vídeo. Depois, foi realizada a transcrição para partituras e a descrição das melodias e cantos. O professor lembra que, para a observação dos rituais, a equipe precisou se integrar à rotina da aldeia. “Esse tipo de trabalho requer uma participação distanciada, foi necessário seguir

Fotos: Arquivo Geduc

Cultura preservada

Os Xakriabá são considerados a maior nação indígena de Minas Gerais, com aproximadamente sete mil habitantes, distribuídos em 29 aldeias, localizadas em um território de 53 mil hectares no Norte do Estado. Para realizar o estudo, foi feito um recorte no universo de investigação. Os trabalhos se concentraram nas aldeias da Caatinguinha e do Barreiro Preto. Como conta Gerken, os Xakriabá se diferenciam por uma história marcada por quase 300 anos de contato com outras culturas. As aldeias conviveram primeiro com os bandeirantes, depois com pecuaristas e também com garimpeiros. Como resultado, alguns elementos externos foram incorporados à sua cultura. A Festa de Santa Cruz e a Via Sacra, por exemplo, duas das festas mais tradicionais entre os Xakriabá, são representações de celebrações da religião católica. A pesquisa concentrou-se na análise da Via Sacra. Este ritual integra as festividades da Semana Santa e realiza-se no cemitério da aldeia. Na preparação do espaço para celebração, são assinaladas 14 estações ao longo do perímetro interno do cemitério, em cartazes escritos à mão e pendurados nas cercas. Os rezadores são responsáveis por entoar os benditos e as ladainhas, formas melódicas caracterizadas pelo ritmo e pela repetição em diferentes vozes. As ladainhas soam como uma mistura de latim e português. Em cada uma das estações, canta-se um trecho do ofício (tipo especial de ladainha que conta a história da Paixão de Cristo), realiza-se uma leitura e canta-se um bendito. As leituras são realizadas a partir do livro “Cartilha da Doutrina Cristã”, que data do início do século XX e incorpora tanto lições de catequese como de primeiras letras e aritmética. Mas o interessante, como aponta o pesquisador, é que o rezador que conduz a festividade não domina a linguagem escrita. Ele conhece os seus conteúdos pela participação em práticas anteriores, nas quais assumiu o papel de ouvinte. Mas a equipe notou algo diferente: durante o ritual, al-

publicação, daqui a cerca de dois anos, de um livro com a compilação de todos esses trabalhos e resultados. Um outro projeto futuro é disponibilizar esse material para uso dos próprios Xakriabá.

Desde 2005, a UFMG realiza um vestibular específico para professores indígenas. Entre as etnias beneficiadas estão os Maxacali, Crenaque, Pataxó, Caxixó, Xucuru-cariri, Pancararu e Xacriabá. O processo seletivo é realizado de forma diferente: os candidatos entregam memorial e carta de apresentação, escrita por representantes da comunidade indígena, realizam atividades de leitura e escrita, e se submetem a entrevistas. Em 2009, será realizado um processo seletivo diferenciado para um curso regular de Licenciatura Intercultural para Professores Indígenas, com 35 vagas disponíveis. A proposta é que, no futuro, sejam disponibilizadas também vagas para outros cursos, especificamente na área de saúde, cuja demanda é grande.

Fotos: Arquivo Geduc

Com base neles, o pesquisador Carlos Henrique de Souza Gerken, do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ) e membro do grupo de pesquisa, deu início a outro projeto: “Produção e transmissão do conhecimento na cultura tradicional Xakriabá: contradições do cenário contemporâneo”. “A proposta era observar as transformações que ocorriam junto com o processo de apropriação da escrita, especialmente no caso das práticas culturais”, explica o professor. A etnia Xakriabá foi escolhida porque passaria pelo processo de escolarização pela primeira vez – as tentativas anteriores, segundo Gerken, não seguiram as características da educação indígena propostas pelo Ministério e não atingiram a comunidade como um todo. A partir da observação de um evento de letramento, a equipe procurou analisar diversos aspectos, como, por exemplo, a construção da escrita em uma comunidade pouco letrada, a interação entre a oralidade e a escrita e a articulação entre os valores e as representações construídas em torno do uso da linguagem oral e escrita.

O grupo também analisa a emergência de um novo ator social dentro das comunidades: o professor indígena.

as regras de etiqueta locais. As diferenças de gênero, por exemplo, são muito fortes. O ritmo de vida e a dinâmica de sala de aula, por sua vez, são lentos. A abordagem é feita de forma cuidadosa”. Todo o material produzido compõe, hoje, o acervo do grupo de pesquisa da UFMG. A equipe também prevê a

A análise da influência da escola nos rituais tradicionais é apenas uma das vertentes estudadas pelo grupo de pesquisa. Como ele é composto por professores de diferentes áreas, vários temas foram investigados. Por exemplo, o professor Rogério Carvalho de Godoy, da UFSJ, trabalhou com a retomada da produção de cerâmica com os Xakriabá. O trabalho se estendeu para a produção de materiais de construção, como telhas e tijolos, que os membros da comunidade utilizam em suas obras. Um outro trabalho, da área de Economia, analisou o consumo e a produção de farinha de mandioca nas comunidades. Apesar do grande consumo, percebeu-se que menos de 200 famílias produziam a matéria-prima. Com a introdução de novas técnicas de produção e a construção de “casas de farinha” comunitárias, onde o produto é fabricado, a produção cresceu e, hoje, funciona como opção de renda para os Xakriabá. A equipe tem observado, também, a emergência de um novo ator social dentro da reserva: os professores indígenas, que aparecem com a chegada das escolas. Para Gerken, esse é um aspecto interessante de ser estudado, pois eles são representantes da cultura letrada dentro de um grupo cuja cultura ainda é predominantemente oral. “Em algumas aldeias, como a Caatinguinha, quase não existiam sujeitos alfabetizados. Por isso, houve certa resistência dos pais em tirar os filhos do trabalho na roça. Mas, aos poucos, a escola foi se tornando parte da vida local e os professores, membros de destaque das aldeias”, diz. Na UFMG, o Grupo de Educação Indígena participa, ainda, das discussões sobre o projeto pedagógico para formação dos professores indígenas. Como explica Gerken, existe uma proposta para Minas Gerais, mas as práticas pedagógicas são adaptadas ao contexto de cada etnia. Um dos problemas discutidos atualmente diz respeito à avaliação das escolas indígenas, que ainda segue os mesmos critérios das outras instituições de ensino. “Existe uma demanda da comunidade por uma avaliação diferenciada, assim como o ensino é diferenciado”, completa Ana Maria Rabelo. Vanessa Fagundes Projeto: “Produção e transmissão de conhecimentos na cultura tradicional Xakriabá: contradições do cenário contemporâneo” Coordenador: Carlos Henrique de Souza Gerken Modalidade: Edital Universal Valor: R$18.799,44 MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAI. / 2009

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Iniciativas de transferência de tecnologia aproximam centros de pesquisa e empresas

balhando para que o desenvolvimento tecnológico aconteça, por meio da transferência de inovações para o mercado. Em conjunto com a Fundação, o Instituto faz um estudo da viabilidade mercadológica das patentes e entra em contato com empresas interessadas em comercializar as novidades. “Buscamos o Instituto porque eles tem uma grande experiência em prospecção tecnológica. Essa parceria aumenta nosso potencial de transferência, permitindo que tenhamos um número maior de tecnologias transferidas e levando, portanto, mais produtos para a sociedade”, afirma o diretor científico da FAPEMIG, José Policarpo G. de Abreu. Ainda em 2009, dez contratos de transferência serão assinados. O escopo inicialmente definido foram os pedidos de patente e de proteFoto: arquivo Instituto Invoação

Gustavo Mamão, diretor do Instituto Inovação, empresa que realiza a prospecção de tecnologias para o mercado

O Brasil possui mais de 180 universidades, além de diversas instituições e empresas empenhadas no desenvolvimento constante de pesquisas e inovações. Diariamente, um número incalculável de ideias e soluções surge nesses ambientes. Entretanto, grande parte delas não chega, efetivamente, a se transformar em técnicas ou produtos adotados pelo mercado. O longo caminho a ser percorrido por uma invenção entre a sua criação e sua disponibilização para uso em escala comercial é uma dificuldade que historicamente assola pesquisadores. Em Minas Gerais, algumas empresas e programas tem desempenhado o importante papel de facilitar esse processo, atuando como “ponte” entre pesquisadores e mercado. Uma parceria firmada entre a FAPEMIG e o Instituto Inovação vem tra-

Filtro permeável

Houve dois momentos na parceria com a Fundação. Os primeiros passos foram dados em 2007, com estudos que ajudaram a definir inclusive o formato do projeto atual, iniciado em 2008.Ao longo desse tempo, 94 tecnologias já protegidas com a ajuda da FAPEMIG foram analisadas. Atualmente, o Instituto trabalha diretamente com cerca de 20 nas quais identificaram maior potencial de comercialização. Dessas, 12 resultaram em contratos de licenciamento, sendo que nove estão em fase avançada de negociação e três já foram assinados. “Essa filtragem que fazemos não é estática, existe uma permeabilidade, algumas tecnologias vão saindo e outras entrando ao longo do processo”, explica a gerente do Instituto, Janayna Bhering. Ela conta que algumas foram descartadas até mesmo por não haver interesse do pesquisador em comercializar seu projeto naquele momento, preferindo avançar antes no desenvolvimento. O estágio de desenvolvimento é um dos principais critérios de filtragem das tecnologias a serem transferidas. Outro quesito fundamental é o potencial de inovação tecnológica. “Adotamos esse filtro porque era necessário definir prioridades, mas não significa que os projetos que não foram selecionados nesse primeiro momento não tenham potencial, pode ser que voltemos a trabalhar com alguns deles”, avalia Bhering.

Ponte com o mercado

O trabalho de organizações como o Instituto Inovação é justamente promover a aproximação entre um poten-

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cial interessado e uma tecnologia que já foi ou pode ser desenvolvida. A atuação costuma ocorrer nos dois sentidos: é possível prospectar no mercado a demanda por um produto e encaminhá-la a um pesquisador ou instituição que tenha competência para solucionar a questão; ou, por outro lado, parte-se de ofertas tecnológicas que são qualificadas e apresentadas a empresas interessadas em investir no seu desenvolvimento e comercialização. Esse segundo caso é a base da parceria entre a FAPEMIG e o Instituto. Elimar Vasconcellos, analista de Inovação do Instituto, destaca que não se trata apenas de aproximar ciência e mercado, mas, sobretudo, de gerir essa interação. “Embora não se trate de um negócio com um fluxo de caixa, é possível uma análise que vá nortear e viabilizar a progressão dessa tecnologia rumo ao mercado, é o que chamamos Diligência da Inovação”, explica. São desenvolvidos modelos de negócios para que a transferência ocorra, gerenciando as várias facetas do processo, como precificação de royalties e da própria tecnologia. “No primeiro momento, o que está à venda é algo bastante intangível. É preciso fazer a avaliação disso, para que a pessoa que está comprando perceba o valor e o ganho que ela poderá ter”, complementa Bhering. O primeiro contato com os interessados é feito pelo Instituto, que inicia a abordagem explicando o que é a tecnologia, as oportunidades de licenciamento, as possibilidades para a empresa de reduzir custo ou lançar um novo produto, dependendo de cada caso. Apenas posteriormente, quando já se identificou o interesse, são agendadas reuniões com o pesquisador, para esclarecimentos. Antes disso, entretanto, há a assinatura de um acordo de confidencialidade, para que possam ser comentados detalhes sobre a tecnologia. Na sequência, a discussão se estende a outras áreas da empresa, sendo acordadas questões como valores, tempo de direito de exploração e outras. “Sempre pensamos nisso como um modelo de parceria efetivamente, onde todos vão ganhar, de forma a gerar inclusive novas patentes, novas tecnologias”, afirma Bhering.

Foto Marcelo Focado

que move o mercado

ção intelectual de uma forma geral que já existiam na FAPEMIG. Segundo o diretor de Transferências de Tecnologias do Instituto Inovação, Gustavo Mamão, a inovação tecnológica – que gera riquezas para empresas e centros de pesquisas, e benefícios diversos para a sociedade – presume a transferência. “Acreditamos que quando a tecnologia apoiada pela FAPEMIG é transferida para uma empresa, ela reforça sua missão de gerar desenvolvimento por meio da inovação científica e tecnológica”, opina.

Foto Marcelo Focado

Inovação

Galpão da Verti Tecnologias, localizado no campus da UFMG: no local, as empresas parceiras podem realizar testes pré-piloto e piloto, incluindo testes e experimentos. MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAI. / 2009

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De lixo a lucro

Novidade no setor alimentício

O primeiro contrato para comercialização de produto viabilizado pela parceria FAPEMIG e Instituto foi fechado em dezembro de 2008. Trata-se de uma tecnologia para desidratação de alimentos por meio de micro-ondas. O equipamento, que faz a secagem de legumes e frutas em menor tempo e com menos consumo de energia do que as técnicas convencionais, já foi licenciado para venda pela empresa Negócio Tecnologia e Inovação (NTI). Segundo o coordenador de Transferência de Tecnologia da Diretoria de Extensão do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), professor Anderson Rabello, que idealizou a tecnologia, o custo com energia elétrica chega a ser 12 vezes menor e a secagem ocorre de maneira uniforme. “O tempo de desidratação da banana, por exemplo, é de cerca de 12 horas no método tradicional, com o aparelho é de no máximo 30 minutos”, compara. De porte compacto, a máquina permite fácil operação, apontando o ajuste para desidratação conforme o produto. O objetivo é que ela possa ser utilizada pelos próprios produtores ou cooperativas agropecuárias, de forma a eliminar o desperdício, agre-

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gar valor e contribuir, assim, para a geração de renda. Rabello trabalha agora um projeto para incentivar a formação de cooperativas de pequenos produtores em determinadas regiões do Estado, que poderiam se beneficiar da tecnologia. “Em Matias Cardoso, eles poderiam passar a comercializar também banana passa, em Bambuí e Barbacena, o mesmo poderia ser feito quanto ao morango, e assim em várias localidades. A ideia é levar esta inovação a quem realmente precisa”, conta. A previsão é de que o equipamento comece a ser comercializado a partir do segundo semestre deste ano. “No momento, estamos refinando detalhes para iniciar, alinhando questões legais, verificando o custo da produção em série, entre outras questões práticas”, explica o engenheiro de alimentos Christiano Guirlanda, diretor-presidente da NTI. No mês de junho, foi concretizado acordo também para o projeto de um amortecedor radial e uma suspensão compacta, duas patentes que tem uma aplicação única, transferidas para a empresa E-MX, que trabalha no desenvolvimento de software embarcado (mobilidade) para automóveis.

mentos e análises em laboratório, com a produção de protótipos e plantas de funcionamento para testes. “Nosso trabalho e o de empresas como o Instituto Inovação, que é nosso parceiro, se complementam. Enquanto eles prestam um serviço de consultoria estratégica e organizacional, pensamos o operacional da tecnologia”, conta o economista Euler Santos, diretor- executivo da Verti. A empresa tem capacidade para desenvolver projetos desde o estágio em bancada até uma fase piloto.A fase intermediária (pré-piloto) tem como objetivo testar em escala maior os processos já experimentados em laboratório, sem a necessidade de realizar grandes investimentos e otimizando procedimentos. Os projetos em escala pré-piloto e piloto, incluindo os testes e experimentos, podem ser feitos no próprio galpão da Verti, localizado nas proximidades da UFMG, exceto nos casos que envolvem níveis de complexidade muito grande, ou capacidade de produção elevada, em que às vezes a própria empresa interessada cede espaço.

Tecnologia verde

Uma das soluções trabalhadas pela Verti em parceria com a Universidade Federal de Lavras (Ufla) está ligada ao reaproveitamento dos rejeitos produzidos durante o curtimento do couro. Para a pele do boi se transformar no couro utilizado habitualmente em roupas e sapatos, ela precisa ser limpa e a seguir curtida em processo à base de cromo.Antes de ser repassado para a indústria, é feita ainda uma raspagem e são aparadas as beiradas no material – essas aparas e raspas viram um rejeito perigoso justamente devido à ação do cromo. Hoje, para se livrar desses resíduos, os curtumes precisam enviá-los para aterros, em sua maioria localizados em São Paulo, o que é bastante dispendioso. “Encontramos uma maneira de retirar esse cromo dos rejeitos, devolver para reutilização no curtume, e essas raspas que sobram, que são colágeno, podem ser usadas como um fertilizante especial para agricultura”, revela Luiz Carlos Alves Oliveira, pesquisador da Ufla. Uma planta piloto foi construída na Foto Marcelo Focado

O equipamento para desidratação de alimentos por meio de microondas foi o primeiro produto a ser transferido para a indústria por meio da parceria Instituto Inovação e FAPEMIG. Mais eficiente e econômico, a proposta é eliminar o desperdício e gerar renda para pequenos produtores do Norte de Minas.

Transformar um rejeito, que até então representava custo para a empresa, em dinheiro. Essa é a filosofia da Verti Ecotecnologias, empresa que surgiu inspirada em pesquisas de tecnologias ambientais desenvolvidas no Departamento de Química da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e que também exerce o papel de unir ciência e mercado, atuando na área ambiental. “Não queremos apenas dar uma destinação, nos livrar do lixo, para isso já existem soluções convencionais. Nosso foco é transformá-lo em um produto que possa ser vendido, reutilizado, gerando receita”, reitera Rochel Lago, professor do Departamento de Química e sócio-consultor da Verti. “A área ambiental está muito forte e essa é uma tendência que veio para ficar. As empresas precisam ficar atentas à sustentabilidade, à responsabilidade ambiental, há uma pressão não apenas legal, mas social e mercadológica”, avalia. Segundo ele, a indústria tem uma série de problemas para serem resolvidos e busca também oportunidades. Enquanto a universidade, por sua vez, possui patentes e estudos de grande potencial para aplicação na indústria. Daí a ideia de intermediar esse importante diálogo. Atualmente, estão em análise 13 trabalhos, entre patentes, projetos e tecnologias a serem transferidas para o mercado – a principal fonte de prospecção, inicialmente, tem sido a UFMG, além de alguns contatos com as Universidades Federais de Ouro Preto (Ufop) e Lavras (Ufla). Mas a empresa, que tem apenas oito meses de criação, pretende estender o contato oficial a outras universidades e instituições de pesquisa. Além do aspecto socioambiental, outros três pontos são avaliados nos projetos: tecnológico e científico; mercadológico; e relativo ao negócio. Com isso, é possível identificar os parceiros mais atrativos para viabilização do projeto. A consultoria prestada pela Verti abrange o nível operacional, com experi-

Um dos projetos que une a Verti e a Ufla busca o reaproveitamento de rejeitos produzidos durante o curtimento do couro.

cidade de Divinópolis, no CentroOeste do Estado, e os primeiros contatos com empresas interessadas em comercializar a tecnologia já estão em andamento. “A empresa que fizer vai ganhar em dois momentos, no recebimento do rejeito e na venda do cromo e do fertilizante”, explica o diretor de Pesquisa da Verti, Fabiano Magalhães. Eles reiteram que para o curtume também há benefícios, além dos ganhos ambientais. Por exemplo, o custo de destinação pode ser reduzido, uma vez que unidades próximas aos curtumes podem diminuir o custo associado ao transporte do rejeito. Outro projeto é o desenvolvimento de um fotocatalisador flutuante, capaz de destruir contaminantes orgânicos não-biodegradáveis em barragens de rejeitos e outros líquidos resultantes de processos químicos – como as águas poluídas por corantes da indústria têxtil e água de lavagem de embalagens de defensivos agrícolas. Segundo Magalhães, os atuais processos oxidativos para matéria orgânica não-biodegradável são muito caros, tanto para instalação quanto para operação, inviabilizando sua aplicação em um volume muito grande de água. A ideia se baseia em aplicar o fotocatalisador, ativado pela luz solar, em um substrato flutuante ao longo da superfície de uma lagoa contaminada, por exemplo, cobrindo praticamente toda sua extensão. “Aproveitaremos o sol para ajudar nesse processo, utilizando elementos que, através da radiação solar, vão degradando lentamente esses contaminantes”, detalha Lago. O licenciamento do catalisador flutuante já foi concedido pela UFMG ao grupo, que agora está em negociações para uni-lo a outra patente, da FAPEMIG, de um catalisador ainda mais eficiente e barato, otimizando custos e resultados em grande volume de material. O objetivo é chegar a uma qualidade de água que possa ser descartada com segurança no ambiente ou reutilizada em processos da empresa.

Virgínia Fonseca MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAI. / 2009

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Em

saudável

crescimento Núcleo Tecnológico em Floricultura impulsiona o segmento a partir da produção científica e da difusão de novas tecnologias Com o clima diversificado, que vai do tropical ao temperado, Minas Gerais é hoje o segundo maior Estado em área plantada para cultivo de flores no Brasil. São mais de 1,1 mil hectares, um número surpreendente em relação aos 118 hectares dedicados a essa cultura dez anos atrás. Mas o clima não é o único fator favorável ao desenvolvimento da floricultura mineira. Nos últimos anos, uma série de ações de incentivo tem sido empreendidas e pesquisas coordenadas pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) resultaram, inclusive, na criação de um Núcleo Tecnológico específico para o setor. O Secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Gilman Viana Rodrigues, avalia que a floricultura em Minas Gerais se introduz gradativamente no contexto do agronegócio. “Os eventos deste segmento realizados no Estado estão cada vem mais expressivos, assim como a participação nas vendas internacionais do agronegócio mineiro”, pondera. Ele acrescenta que a Secretaria de Estado de Agricultura (Seapa) participa ativamente também do setor de pesquisas, acompanhando e apoiando as atividades da Epamig. Os trabalhos da Epamig começaram em 2004, com a implantação do

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Projeto de Ação para o Desenvolvimento da Floricultura e Plantas Ornamentais na Fazenda Experimental Risoleta Neves (FERN), em São João del Rei. As pesquisas evoluíram rapidamente, ajudando a impulsionar os resultados do setor. Inicialmente criado com foco principal na introdução do cultivo de flores tropicais em Minas Gerais, o projeto originou o Núcleo Tecnológico de Floricultura, um órgão pioneiro que visa estimular o segmento, tanto na produção de pesquisas quanto na difusão de tecnologias, proporcionando novas alternativas para a geração de emprego e renda. “O local se tornou uma referência para avaliação da eficiência e do desenvolvimento da floricultura mineira”, avalia o Secretário de Estado de Agricultura. De acordo com a engenheira agrônoma Thyara Ribeiro, pesquisadora do Núcleo e integrante do Departamento de Transferência e Difusão de Tecnologia da Epamig, na ocasião do início do projeto, as flores temperadas já eram tradicionais em Minas, então, o objetivo era adaptar o cultivo das tropicais, próprias de regiões mais quentes.“Mas, com o tempo, introduzimos outras variedades a partir da demanda, como o copo de leite, que é uma flor temperada”, conta. Dos 100m² e três espécies de flores cultivadas no primeiro

Foto:Thyara Ribeiro

Floricultura momento, houve uma progressão para 0,5 hectare, onde agora são exploradas mais de 15 variedades diferentes, entre flores tropicais e temperadas, em três estufas, três telados e a céu aberto.

Progressos

Para apoiar as ações do Núcleo, a FERN, que funciona como uma unidade demonstrativa quanto às técnicas desenvolvidas, possui infraestrutura constituída por bancos de germoplasmas (canteiros de onde são retirados rizomas e outros materiais para produção de mudas) de algumas espécies de flores temperadas e tropicais, áreas experimentais de manejo, condução e produção de mudas. Até setembro deste ano, deve ser inaugurado um laboratório de micropropagação para flores e plantas ornamentais, que irá proporcionar a produção mais rápida das mudas por meio de processos mais sofisticados, possibilitando o cultivo em maior escala para comercialização. De acordo com a pesquisadora, o Núcleo vem recebendo recursos que são utilizados prioritariamente na modernização e adequação das instalações e são, na sua maioria, provenientes de fundações públicas de apoio à pesquisa. A FAPEMIG é um dos parceiros. “A demanda dos floricultores confirma a pertinência do programa. Apoiado em pesquisas científicas, o setor tende a crescer ainda mais, o que se traduz em uma nova opção de renda para a região e em desenvolvimento para o Estado”, justifica o presidente da Fundação, Mario Neto Borges. Thyara acrescenta que a unidade ainda possui várias parcerias com a iniciativa privada, promovendo o desenvolvimento e transferência de tecnologia para o setor produtivo. Além das flores tropicais - helicônias, bastão do imperador, sorvetão, musas, antúrios, bromélias -, flores temperadas também são estudadas, dentre elas copo de leite, rosas, violetas, orquídeas. As mudas são utilizadas prioritariamente para pesquisas. Os trabalhos, que inicialmente eram focados nos aspectos de adaptação das plantas ao solo, clima e umidade, hoje abrangem outras linhas, como: produção de mudas de alta qualidade; nutrição mineral; conservação pós-colheita; estudo da cadeia produtiva do Estado; introdução e adaptação de novas espécies; manejo de plantas envasadas e de

flores de corte; produção integrada de flores; controle de pragas e doenças. A equipe envolvida também cresceu e conta com cinco pesquisadores, coordenados pela engenheira agrônoma Simone Reis. “Muitos desses estudos são executados em parceria com as Universidades Federais de Lavras, São João del Rei e Viçosa. Temos inclusive bolsistas auxiliando na execução dos projetos”, comenta Ribeiro.

Interação com o mercado

Dentre as espécies cultivadas, existem apenas duas, tropicais, cujas mudas são comercializadas, a Helicônia Golden Torch, Helicônia rostrata. “No caso dessas, o processo de adaptação está totalmente concluído, outras seguirão o mesmo caminho na medida em que tenhamos informações suficientes também sobre elas”, explica a pesquisadora. As mudas são vendidas principalmente para produtores e compradores particulares de Minas (Barbacena, Grande BH, Governador Valadares, Oratórios, Manhuaçu, Viçosa) e, eventualmente, Bahia e Espírito Santos. A pesquisadora avalia que São João del Rei encontrase em um posição estratégica entre os grandes centros produtivos de flores e plantas ornamentais do Estado – Barbacena e Região Central. Os trabalhos contam com uma importante participação dos produtores do setor, que além de visitarem o Núcleo para conhecer de perto os trabalhos, contribuem na identificação das demandas, orientando a Epamig quanto às linhas de estudos relevantes. Antônio Jaques Taroco, que há mais de 30 anos trabalha com floricultura e cultivo de flores de corte em São João del Rei, e a esposa, Maura Teixeira Taroco, visitam a fazenda para assistir palestras e cedem espaço para realização de projetos experimentais em suas plantações. “É uma parceria mesmo, procuramos acompanhar sempre, colaborando e aprendendo”, conta Maura Taroco. Segundo ela, desde o início das pesquisas, é perceptível a melhoria para o setor. “Antes o comércio de flores não era tanto. O trabalho da Epamig tem ajudado a expandir o conhecimento sobre a floricultura na própria região, através de palestras, exposições. Isso ajuda muito”, afirma.

Esforço conjunto

Apesar do crescimento da área e das evoluções apresentadas nos últiMINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAI. / 2009

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Foto:Thyara Ribeiro

mos anos, Thyara Ribeiro lista alguns problemas que os produtores ainda enfrentam: a baixa profissionalização e a desqualificação da mão-de-obra operacional; falta de conhecimentos para assistência técnica; falta de material didático; carência de produtos fitossanitários específicos; inexistência de normas e padrões de qualidade para os produtos; inadequação dos meios de apoio logístico. Questões tributárias e de financiamento também são apontadas, além do baixo consumo per capta nacional; concorrência com os produtos importados; desconhecimento do mercado nacional e internacional; carência de ações de promoção e marketing. A partir do conhecimento dessas

dificuldades, a Epamig e outras entidades incentivadoras da atividade tem implementado ações de desenvolvimento que nos últimos anos resultaram em ganhos para o setor. De acordo com Thyara Ribeiro, uma das principais foi a criação pela Seapa, em 2005, da Câmara Técnica de Floricultura, formada por entidades da iniciativa privada e estaduais, como a própria Epamig, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater), o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e associações de produtores de flores. A Câmara tem como missão fortalecer e nortear as políticas, programas e ações para o desenvolvimento da floricultura mineira, criando instrumentos para expandir a comercialização, a competitividade e a organização em associações, além de estimular a diversificação dos produtos cultivados. Quanto às colaborações do Núcleo para a expansão do setor, além das pesquisas, agrônoma cita os trabalhos de divulgação, nos principais meios de comunicação, da produção e técnicas de cultivo de flores e plantas ornamentais. A transferência de tecnologia é constantemente trabalhada. “Já realizamos mais de 120 palestras, cursos, reuniões técnicas e treinamentos desde 2004”, contabiliza. Em maio deste ano foi lançado o Segundo Informe Agropecuário da Epamig de Floricultura, com artigos científicos que servem de orientação para produtores atuantes na área, o primeiro livro, lançado em 2005, é referência internacional em trabalhos científicos. Desde 2006, é realizado em Belo Horizonte o Seminário Mineiro de Floricultura. A 4ª. edição ocorrerá no segundo semestre deste ano. O encontro, que conta com o apoio da FAPEMIG, reúne renomados pesquisadores e especialistas do país e do mundo na área de floricultura, com a finalidade de integrar e atualizar os produtores, estudantes, pesquisadores, professores e profissionais quanto às novidades do setor. Quase 300 pessoas participam anualmente. Virgínia Fonseca

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Foto:Todd Radwell

Lembra dessa? Produção de flores no Estado A produção se propaga por várias regiões do Estado, de acordo com as características locais, mas de modo geral, os maiores produtores encontram-se na região central. Cerca de 120 espécies são produzidas no Estado e dentre as mais cultivadas estão:

Criadores e criatura – Equipe responsável pelo desenvolvimento do Sabiá 6: Mariana Rayane Pereira Ambrosio; Júnio Luiz Lima de Oliveira; Josimar Júnio de Souza; Lívia Galvão Fiúza; Frederico Guerra Albergaria de Carvalho; Sarah Soares Carvalho; Jairo Jose Drummond Câmara; Rita Engler;Thayana Cordeiro de Meneses e Gilson Pereira Junior

• Flores de corte: rosas, semprevivas, crisântemos, copo de leite, cravo, áster, gladíolos • Flores envasadas: orquídeas, plantas suculentas, bromélias, antúrios e crisântemos. • As mudas de jardim são as que ocupam maior área cultivada (43,33%), seguidas das plantas de corte (25,15%) e das mudas arbóreas (19,23%), o restante do cultivo se divide em mudas de palmeiras, plantas envasadas, grama e bulbos. • A comercialização é feita não só na região produtora, mas no Estado e outras regiões do Brasil, além de países da Europa, Ásia e América do Norte. Os principais produtos exportados são rosas de corte, orquídeas de corte, sempre-vivas e bulbos de lírios. • Atualmente, cerca de 430 produtores trabalham na produção de flores e plantas ornamentais, empregando, em toda a cadeia produtiva até a comercialização, mais de 5mil pessoas. Quase metade (48%) desses produtores atua no ramo entre 4 e 10 anos e 69% deles enxergaram na floricultura uma lucratividade maior que os demais setores agrícolas. A atividade pode ser explorada em pequenas propriedades, representando uma alternativa para a agricultura familiar, e proporciona retorno relativamente rápido em relação a outras culturas. Fonte: Universidade Federal de Lavras/2008

Protótipo da Uemg vence maratona na Califórnia Inovador e arrojado. Assim é possível qualificar o protótipo batizado de Sabiá 6, que ganhou o primeiro lugar na categoria de Design Inovador da competição Shell EcoMarathon Américas, realizada no dia 18 de abril, na Califórnia, Estados Unidos. A equipe do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design e Ergonomia da Universidade Estadual de Minas Gerais (Uemg), coordenada pelo professor Jairo Drummond, recebeu da Shell Oil Company um cheque no valor de US$ 500 por ter desenvolvido um modelo inspirado em carros Bugattis da década de 30 e no herói norte-americano das histórias em quadrinho, o Homem de Ferro. Neste ano, mais de 500 alunos se inscreveram para a competição, formando 44 equipes de seis escolas de ensino médio e 29 universidades da América do Norte e Sul, incluindo Brasil, Canadá, México e Estados Unidos. Além disso, participou também uma equipe convidada da Índia. “O prêmio representou um atestado de qualidade e de capacidade da Uemg e de Minas Gerais. Conseguimos mostrar nosso produto em escala mundial”, comemora Drummond. O projeto Sabiá teve início em 1993 e, desde aquela época, o objetivo das equipes envolvidas era desenvolver um carro econômico e com design diferenciado, que se destacasse não só pela estética, mas também pela aerodinâmica, o que permite melhores condições de deslocamento do automóvel. A primeira participação do carro em competições foi em 1994. Neste ano, a equipe brasileira buscou criar um modelo com desempenho superior aos protótipos anteriores. Deu certo. Pintado na cor laranja califórnia, o Sabiá 6, além de mais bonito, foi mais competitivo do que as outras versões.

Composto por um controle para ligar e desligar e por um motor que é um cortador de grama e foi trabalhado para render mais, o modelo ficou muito menor e mais leve do que o anterior. A conquista na Shell Eco-Marathon Américas está entre as mais de quarenta que os alunos do centro de pesquisa já ganharam em 15 anos. Desde a época em que foi tema de reportagem da Minas Faz Ciência (edição nº 8), o projeto Sabiá da Uemg vem aperfeiçoando veículos para competir em maratonas de economia energética. Esta é a quarta vez que o professor Drummond e seus alunos participam da maratona - as outras foram em 1994, 1995 e 2000. Em duas delas, foram premiados. Em 94, o Sabiá 1 recebeu o Prêmio de Honra do Design e, há dois anos, o Sabiá 3 foi escolhido o mais bonito pelo júri e condecorado com o Prêmio Especial de Design para Equipe Estrangeira. No entanto, além das premiações que são de extrema relevância para os currículos de todos os alunos envolvidos nesse trabalho, o professor afirma que “formar cérebros” é a grande importância desse projeto. “Fomos capazes de chegar lá e mostrar um projeto inovador com relação a todos os demais”, acrescenta ele. A FAPEMIG é um parceiro constante do projeto. Este ano, a parceria com a Fundação proporcionou apresentações internacionais e um excelente retorno científico. O projeto já foi apresentado na Croácia, em Mônaco e na França. Os próximos destinos serão Bueno Aires, no mês de julho, e China (IEA 09), em agosto. “O evento na China é considerado um dos maiores do mundo na área”, destaca o professor. Ainda em 2009, está confirmada a participação do projeto na Inovatec, que é considerado o maior evento brasileiro de divulgação e incentivo às inovações tecnológicas, a ser realizado em outubro, em Belo Horizonte. MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAI. / 2009

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Hidráulica

para quem

precisa Sem impacto ambiental e de baixo custo, nova tecnologia garante energia elétrica para comunidades ribeirinhas

Um equipamento de baixo custo que aproveita a correnteza dos rios para gerar energia elétrica. A novidade foi desenvolvida no Laboratório Hidromecânico para Pequenas Centrais Elétricas da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), o principal centro de máquinas hidráulicas do país. Batizado de Hidropólio, o aparelho foi criado para atender às comunidades ribeirinhas e funciona com base no mesmo princípio que as asas de um avião. Segundo o professor Geraldo Lúcio Tiago Filho, coordenador da pesquisa, não há nada parecido no mundo com o Hidropólio. “A concepção é única, pioneira, e o registro de patente do produto já foi solicitado. O levantamento feito pelo programa Luz para Todos mostra que 12 milhões de brasileiros não tem acesso à energia elétrica. Destes, três milhões vivem em comunidades isoladas, na Amazônia ou no Vale do São Francisco, em Minas Gerais - eles são os potenciais beneficiários da iniciativa. O objetivo é gerar energia elétrica aproveitando os rios de planície”, diz.

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Foto: Geraldo Filho

Energia

No Brasil, as grandes usinas hidrelétricas são as principais geradoras de energia elétrica. O diferencial do aparelho é que ele utiliza a energia hidráulica da correnteza dos rios, o que não resulta em impacto para o meio ambiente já que não é preciso formar uma represa nem alterar o regime de vazões e quantidade de água. “O Hidropólio aproveita a energia cinética de trechos de rios sem profundidade. Na região Norte do Brasil, a grande maioria dos rios é de planície”, lembra o professor. O equipamento aproveita baixas velocidades da água. Normalmente, a velocidade mínima necessária para a geração de energia é de 1,2 a 1,5 metros/segundo (m/s). O aparelho pode ser usado com 0,7 a 0,8 m/s. A energia gerada é alternada: pode carregar uma bateria ou ser levada diretamente ao consumidor. O custo é outra vantagem: estimado em cerca de R$10 mil, o valor é inferior ao dos modelos convencionais para geração de energia em comunidades isoladas, como é o caso da turbina hidrocinética. Uma vez no mercado, o professor acredita que haverá interesse das concessionárias de energia em adquiri-lo. “Por lei, é a concessionária que tem a obrigatoriedade de oferecer gratuitamente a instalação da energia elétrica para a população. O custo de um quilowatt (kw) em centrais elétricas varia de R$ 3 mil a R$ 5 mil, investidos em construção e trans-

O movimento sobe e desce das pás do Hidropólio aciona um gerador que fornece eletricidade para o consumo doméstico

Ciência, Tecnologia e Ensino Superior em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), universidades, centros de pesquisa e prefeituras. O Princípio de Bernoulli prega que “se a velocidade de uma partícula de um fluido aumenta enquanto ela se escoa ao longo de uma linha de corrente, a pressão do fluido deve diminuir e vice-versa”. Ou seja, se a velocidade de um fluido aumenta, então haverá um decréscimo na pressão. É esse o princípio utilizado na construção de aeronaves. Como a asa do avião é mais curva na parte de cima, o ar passa mais rápido na superfície superior que embaixo. Assim, a pressão do ar em cima da asa é menor que na parte de baixo, criando uma força de empuxo que sustenta o avião no ar.

missão da energia. Para que o brasileiro possa tomar banho quente utilizando 4 kw a 5 kw, o governo investe de R$ 12 mil a R$ 20 mil para cada chuveiro elétrico”, afirmou. Os impactos para as comunidades beneficiadas vão desde o aumento da qualidade de vida, percebida a partir dos seis primeiros meses de utilização da energia, até o uso produtivo da energia elétrica, gerando renda. De aço inox e galvanizado, o protótipo gera potência suficiente para atender até cinco casas, cada uma com aproximadamente seis lâmpadas, uma geladeira, um rádio, uma televisão, uma antena parabólica e um ferro elétrico. Sua instalação e manutenção também tem custo reduzido, o que o torna ideal para regiões de pouca infraestrutura. A expectativa é que o produto seja produzido em escala industrial já em 2010. O Programa de Incentivo à Inovação (PII) aportou recursos para os estudos de viabilidade técnica, econômica e comercial. “Os recursos do PII foram disponibilizados e a empresa que vai construir o primeiro protótipo comercial já foi contratada. O protótipo comercial deve ficar pronto em aproximadamente três meses e até o ano que vem o Hidropólio estará no mercado”, prevê Geraldo Filho. O PII tem como objetivo transformar projetos de pesquisa em inovações tecnológicas para benefício da sociedade e é uma iniciativa do Governo de Minas, por meio da Secretaria de Estado de

Funcionamento O Hidropólio é composto por dois tipos de pás. A água que passa por elas tem velocidade maior na parte superior e, consequentemente, menor pressão. Na parte de baixo, onde a velocidade é menor, a pressão é maior. Desta diferença de pressão surge a força de sustentação, segundo o princípio de Bernoulli. A força de sustentação faz com que as pás subam. Quando estão na superfície, essa força se inverte e o equipamento desce, dando início a um novo ciclo. Esse movimento de pás é usado para acionar um gerador que fornece a eletricidade para o consumo doméstico. “Para aumentar a potência gerada, basta aumentar o tamanho do aparelho, aumentar a área. É interessante aproveitar quase totalmente a largura do rio”, garante. O produto é resultado de estudos desenvolvidos na Unifei já há dois anos. Geraldo Lúcio Filho também é secretário executivo do Centro Nacional de Referências em Pequenas Centrais Hidrelétricas (CERPCH), programa dos ministérios da Ciência e Tecnologia e do Meio Ambiente e Recursos Hídricos. O Centro, que funciona na Universidade, opera no desenvolvimento de projetos básicos, estudos de inventários, projetos de recapacitação e repotenciação de centrais antigas. A experiência no Centro foi útil no desenvolvimento do protótipo. Por meio dele, o pesquisador realizou uma série de trabalhos para atendimento a comunidades do Pará e Rondônia. “Foi essa experiência que nos motivou a buscar um dispositivo que atendesse a essas comunidades, que geralmente estão às margens de rios com pouco declive”. Thaís Pontes MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAI. / 2009

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microscópica UFU é referência em pesquisas sobre bactéria que é uma das principais causadoras da gastrenterite Todo bom churrasco é assim: família, amigos, bebida gelada e a carne, centro da festa, em versões para todos os gostos. A picanha mal passada, avermelhada ou sangrando, é uma delas e sempre tem seus apreciadores. Talvez eles não saibam que o prato suculento pode esconder uma inimiga microscópica: a Campylobacter jejuni, bactéria do gênero Campylobacteriaceae, que pode atacar o sistema gastrintestinal do homem e está relacionada a síndromes que afetam o sistema nervoso. Em muitos países, como os Estados Unidos, ela é a principal causa de gastrenterite. No Brasil, ainda não há dados oficiais a respeito, mas estima-se que ela também seja importante causa da doença. No país, os estudos sobre a bactéria ainda são poucos e a maioria é incipiente. Diante disso, há cinco anos, uma equipe do Laboratório de Biotecnologia Animal Aplicada (Labio) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) começou a investigar a C. jejuni, seu comportamento biológico e as principais formas de contaminação. Hoje, a equipe coordenada pela bióloga e médica veterinária Daise Rossi é referência no assunto, com trabalhos publicados em revistas nacionais e internacionais, além de prêmios na área. Recentemente, membros do Ministério da Agricultura manifestaram

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interesse de que os pesquisadores da UFU realizassem intercâmbio com seus profissionais, a respeito da bactéria. Hoje a equipe é formada por três alunos de graduação, três de mestrado, uma de doutorado e tem a participação dos professores Marcelo Emílio Beletti e Paulo Lourenço da Silva. As carnes em geral, principalmente a de frango, são os principais focos da C. jejuni. Porém o leite não pasteurizado e seus derivados também tem alto índice de contaminação. A bactéria também pode ser encontrada em verduras e frutas que tiveram contato com animais contaminados e na água não tratada. A boa notícia é que a bactéria não resiste a altas temperaturas e ao cozimento bem feito, a fervura ou a pasteurização, no caso do leite, são suficientes para eliminá-la. A higiene adequada das mãos e dos utensílios de cozinha também é importante na prevenção da campilobacteriose (nome dado à doença), uma vez que a carne crua pode contaminar talheres e vegetais que serão consumidos sem cozimento. Os sintomas da contaminação por Campylobacter jejuni podem durar de um a quatro dias e incluem diarreia, dor abdominal, dores de cabeça e musculares, febre e vômito. Normalmente, o próprio organismo infectado

cria respostas imunológicas capazes de curar a doença, mas, se necessário, o tratamento pode ser feito com antibióticos usados para tratar outras doenças do sistema gastrintestinal. Crianças, idosos e pessoas com sistema imunológico fragilizado, como portadores de HIV e pacientes com câncer, podem apresentar sintomas mais graves, principalmente se a bactéria atingir a corrente sanguínea. Nesses casos, o quadro clínico pode até mesmo evoluir para a morte. Outra preocupação dos pesquisadores é com o fato de que a campilobacteriose pode estar relacionada a síndromes que causam alterações no sistema nervoso, como a de GuillainBarré, caracterizada por sintomas de paralisia neuromuscular aguda. “Todas essas síndromes tem tratamento e são na maioria das vezes reversíveis, mas é um tratamento lento, que frequentemente demanda internação”, diz Rossi. Segundo a pesquisadora, uma das possíveis explicações para a relação entre a síndrome de Guillain-Barré e a campilobacteriose é a de que a síndrome é causada por substâncias produzidas pelo organismo na tentativa de combater a bactéria. “Toda vez que é atacado, para se defender, o organismo gera uma resposta que em alguns casos pode ser exacerbada e prejudicar o próprio organismo gerando uma resposta autoimune”, diz. No caso da síndrome de Guillain-Barré, isso pode acontecer até três meses depois da contaminação por Campylobacter e diarreia.

estudos. Eles são muito importantes, pois, quanto mais se sabe sobre os pontos críticos relacionados à infecção de humanos por um organismo e os fatores relacionados à sua presença, mais fácil fica a prevenção”, diz. Os pesquisadores da UFU estudam principalmente a ação da C. jejuni em frangos, principal reservatório da doença, que é uma zoonose, ou seja, é transmitida do animal ao homem. No frango, no entanto, a campilobacteriose não apresenta sintomas visíveis. Os motivos ainda são desconhecidos. Na tentativa de descobri-los, pesquisadores do Laboratório de Microscopia Eletrônica da Universidade, sob coordenação do médico veterinário Marcelo Beletti, estudam a biologia da bactéria dentro das células. “Queremos saber por que a bactéria, quando penetra na célula, causa enterite em humanos e nas aves não. Uma possível explicação é que ela ainda não foi encontrada na mucosa das aves, apenas nas células de revestimento, onde não gera reação inflamatória”, explica Beletti. Segundo ele, a Fotos: Glenio Campregher

Inimiga

Fotos: Glenio Campregher

Saúde

Conhecendo o inimigo

Diante dos riscos causados pela C. jejuni, a equipe da pesquisadora Daise Rossi tem se debruçado em trabalhos que buscam conhecer melhor a bactéria. Segundo ela, no mundo já são muitas as pesquisas sobre o tema, mas, no Brasil, ele ainda tem pouco destaque. “Estou bastante satisfeita de estar trabalhando com essa linha. No mundo inteiro só se fala de campilobacteriose, mas no Brasil ainda temos poucos

No Laboratório de Microscopia Eletrônica da UFU, os pesquisadores estudam a biologia da bactéria no interior das células. MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAI. / 2009

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É possível evitar a contaminação por C.jejuni e outras bactérias usando medidas simples.Veja algumas: • Lave bem as mãos e os alimentos antes de consumi-los. Frutas e legumes podem ser deixados por alguns minutos em solução de água e vinagre e lavados em seguida. • Lave bem as mãos após usar o banheiro, ter contato com carne crua ou animais, inclusive cachorros e gatos. • Não corte legumes e verduras que serão consumidos crus na mesma tábua usada para tratar a carne, nem use os mesmos talheres para manipulá-los. • Em trilhas e passeios ecológicos, não beba água de rios e cachoeiras. • Não consuma leite e derivados (como queijo, manteiga, doce e maionese) sem que sejam pasteurizados. • Se o leite não for pasteurizado, ferva-o bem antes de beber. • Carnes devem ser adquiridas de estabelecimentos sob inspeção e devem ser cozidas adequadamente antes do consumo.

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Fotos: Glenio Campregher Fotos: Glenio Campregher Fotos: Glenio Campregher

Prevenção

var mais de dez dias para ser obtido pelo método tradicional. “Da forma convencional, o provável positivo vem em três ou quatro dias. Depois disso, eu tenho que iniciar a identificação bioquímica para saber qual é a espécie e, se for necessário quantificar, é ainda mais complicado. Quando uso esse aparelho, em 90 minutos, ele me dá a espécie e a quantidade de cada uma”, diz. Na análise de ovos comerciais, que não geram pintos por terem sido produzidos pela galinha sem a participação do macho, uma importante descoberta rendeu à equipe o segundo lugar no Simpósio IAFP América Latina, da International Association for Food Protection (IAFP), realizado em Campinas no ano passado. Daise Rossi e seu grupo constataram que a Campylobacter jejuni não contamina ovos destinados ao consumo. “Tentamos de várias formas. Inoculamos, colocamos os ovos em contato com água contaminada, em ambiente contaminado e realmente não conseguimos encontrar a bactéria dentro do ovo”, diz Rossi. Resultados diferentes, que serão publicados em breve em artigos científicos, foram obtidos no trabalho com ovos de matrizes reprodutoras (ovos embrionados capaz de gerar pintinhos) e de matrizes LPE, tanto frescos como embrionados. Com relação ao ovo comercial, a hipótese é que a clara seja capaz de destruir a bactéria dentro do ovo. “Imaginamos que a clara destruiria a bactéria porque ela possui enzimas bactericidas e pH básico, inadequado para a sobrevivência da bactéria”, diz a pesquisadora. A surpresa, no entanto, foi que, nos experimentos in vitro, a clara inoculada não foi capaz de destruir a bactéria. “Acho que in vitro o pH e as enzimas estavam muito ativas. Pode ser que in vivo a composição da clara seja diferente”, esclarece. Na análise de animais vivos, os pesquisadores da UFU fizeram outra descoberta importante. As análises comprovaram que há transmissão vertical da bactéria, ou seja, da galinha LPE para os pintos. “Conseguimos ver, por exemplo, que a bactéria é capaz de passar para dentro do ovo, pelos poros”, conta Belchiolina Fonseca. As bactérias foram colocadas na maravalha, espécie de cama onde as galinhas colocam seus ovos, e inoculadas nos

Fotos: Glenio Campregher

Fotos: Glenio Campregher

A bióloga e médica veterinária Daise Rossi coordena boa parte das pesquisas sobre a C.jejuni

ideia é que, em breve, sejam iniciadas pesquisas sobre a ação da bactéria em intestinos humanos. Para isso, serão utilizados fragmentos saudáveis de intestinos retirados em cirurgias. No Laboratório, é acompanhado todo o processo de reconhecimento da bactéria e os movimentos que ela faz em torno da célula. “Em humanos, o processo é parecido, mas é uma doença clínica com problemas secundários graves”, ressalta. Segundo Daise Rossi, entre os objetivos principais dessa linha de pesquisa estão o de verificar se a contaminação pela C.jejuni, embora assintomática, gera perda econômica ao longo da cadeia produtiva, quais os riscos do consumo de alimentos contaminados e se a bactéria provoca alguma alteração no funcionamento intestinal da ave. No Labio, as pesquisas são em torno da epidemiologia da bactéria nos animais, com o objetivo de melhor identificar as formas de disseminação e controle. Na pesquisa são utilizadas aves e ovos férteis (que vão gerar pintos) e inférteis (para consumo humano), todos cedidos por empresas e laboratórios parceiros. Uma das aves utilizadas é a galinha Livre de Patógenos Específicos (LPE).“Isso evita que outros microorganismos atrapalhem a pesquisa”, explica a doutoranda e pesquisadora do Laboratório, Belchiolina Beatriz Fonseca. O material biológico, incluindo ovos e frangos, é inoculado, ou seja, contaminado propositalmente com a bactéria, a fim de verificar suas formas de disseminação. Os testes para verificar se o animal foi contaminado normalmente são feitos nas fezes de animais vivos ou em órgãos do sistema digestivo de animais mortos (baço, fígado e intestino). Nesses casos, o material segue para o Laboratório de Microscopia Eletrônica, onde é verificada a forma da bactéria. O Laboratório de Biotecnologia Animal Aplicada conta com um equipamento inovador, o aparelho BAX-Q7PCR - real time, que permite diagnóstico muito mais rápido e tão preciso quanto os realizados por meios convencionais. Quando há grandes quantidades de amostras a serem analisadas, ele tem papel fundamental. Com este equipamento, é possível obter em 90 minutos um resultado que poderia le-

Nos laboratórios da UFU, os pesquisadores estudam, entre outros, a ação da bactéria em frangos, principal reservatório da doença.

animais por via oral. “Achamos, em algumas situações, a bactéria dentro do ovo, tanto em técnica de PCR como por isolamento em cultura tradicional e encontramos, por microscopia eletrônica, dentro do intestino dos embriões”, relata Daise Rossi. As pesquisas terão continuidade em outros trabalhos, alguns em parcerias com outros laboratórios da UFU, como o Laboratório de Genética. Segundo Belchiolina Fonseca, há, por exemplo, a intenção de desenvolverem um kit de diagnóstico rápido, para detectar a presença da bactéria, e uma vacina.“No Brasil, não há vacina contra a Campylobacter e, se existe em outros países, ela ainda não é funcional”, diz a doutoranda. Pesquisas com outros animais também vêm sendo realizadas no laboratório. Em breve, uma nova pesquisa vai analisar o papel de animais domésticos, cachorros e gatos, em contato com crianças, na disseminação da bactéria. “Acho que é algo que precisa ser investigado até mesmo para orientar as mães. É possível que eles tenham papel importante nessa disseminação também”, afirma Daise Rossi. Em outro estudo, os pesquisadores estão verificando a epidemiologia em suínos. Os porcos são acompanhados desde o criadouro até se transformarem em carne para o consumo. “Os animais chegam com uma positividade muito alta no frigorífico”, diz Daise Rossi. Ela explica que os processamentos de abate são capazes de diminuir os índices de contaminação, embora não sejam capazes de zerá-lo. Para a pesquisadora, o controle adequado da C.jejuni depende de esforços conjuntos e de vigilância sanitária. No Brasil, ainda não há normatização a respeito, nem exigências para análise de alimentos quanto à contaminação por Campylobacter. “Teria de ser um trabalho semelhante ao que é feito com a Salmonella. É preciso trabalhar na cadeia inteira: desde o campo ao frigorífico, exigindo boas práticas, para que tenhamos índices aceitáveis, que não tragam problemas à saúde da população”, opina. Ariadne Lima MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAI. / 2009

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Foto Marcelo Focado

formalidade”, informa o presidente da Associação Mineira de Produtores de Cachaça de Qualidade (Ampaq), Alexandre Wagner da Silva. O faturamento do setor é superior a US$ 600 milhões, e a exportação da cachaça movimentou US$ 12,5 milhões em 2005, apenas 2% do montante. Alemanha, Suíça e Portugal são alguns dos maiores importadores. “Mas é a cachaça de coluna a mais exportada”, apontou Patterson de Souza, pesquisador associado da UFMG e consultor técnico da associação mineira de produtores de cachaça, referindo-se ao produto industrializado. Outro entrave, para ele, é a diferença do imposto da bebida. A mesma opinião tem o presidente da Ampaq: “O imposto da cachaça industrial é de R$ 0,14 por garrafa e o da cachaça artesanal atinge R$ 2,23. A exportação é insigni ficante”, diz.

Cachaça tipo exportação

Substâncias nocivas

Pesquisa analisa componentes do aroma para garantir a qualidade do produto “Atenda-se que o brasileiro é devoto da cachaça, mas não é cachaceiro”. A definição de Luís da Câmara Cascudo em seu “Prelúdio da Cachaça” é confirmada pela produção nacional da bebida, superior a 1,3 bilhão de litros/ano. No entanto, apenas 2% desse volume é exportado. Segundo a pesquisadora Zenilda Cardeal, do Departamento de Química da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o baixo volume de exportações está diretamente relacionado ao controle de qualidade do produto. Com o objetivo de estabelecer parâmetros para uma produção de qualidade e aumentar os negócios no exterior, uma equipe de pesquisadores desenvolveu trabalho que busca determinar os compostos presentes no aroma da cachaça por meio da cromatografia bidimensional abrangente. Essa técnica analisa os compostos voláteis em uma mistura e resulta em uma “im-

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pressão digital” do produto. Centenas de componentes do aroma da bebida são detectados, inclusive as substâncias que comprometem a qualidade e causam danos à saúde. Além disso, a cromatografia possibilita verificar se os compostos voláteis detectados são provenientes da cana-de-açúcar, do processo de fermentação ou da madeira utilizada no processo de envelhecimento da bebida. Os componentes são identificados através de um espectrômetro de massas que fornece a massa molecular e os fragmentos de massa dos compostos que foram separados por duas colunas do sistema de cromatografia gasosa, principalmente de compostos que estão ao nível de traços. “São poucos pesquisadores no mundo utilizando a técnica – na Suiça, por exemplo, ela é usada na produção de perfumes e na França no controle de qualidade de vinhos. Com a cromatografia bidimen-

sional, nós podemos dar ao produtor o reconhecimento técnico, realizando a comprovação tecnológica da qualidade”, diz a pesquisadora, primeira brasileira a estudar a técnica em outro país (Austrália) e precursora na utilização do método em Minas Gerais. Essa comprovação da qualidade pode ajudar na exportação do produto. Hoje, Minas Gerais é referência em cachaça de qualidade, sem produto químico e totalmente artesanal. O Estado tem produção de cachaça de alambique estimada em 240 milhões de litros por ano, o que responde a 60% da produção nacional. “Houve uma demanda de produtores para entender e melhorar o produto”, afirma Zenilda Cardeal. Em todo o Brasil, são 40 mil produtores de cachaça. Em Minas, dos nove mil produtores de cachaça de alambique, apenas 900 marcas são registradas. “Somente 10% são legalizadas, as demais estão na in-

A cromatografia bidimensional abrangente detecta os compostos que devem e os que não podem estar presentes no produto. “Após a destilação, a cachaça é dividida em três partes – cabeça, coração e cauda. A cabeça é rica em compostos mais leves e apresenta um teor alcoólico muito elevado. Nessa fase, o produto pode apresentar componentes nocivos à saúde como o metanol”, explica Zenilda Cardeal. São controlados também metais pesados e

Para exportação Para apoiar os produtores da cachaça de alambique, a Central Exportaminas lançou a cartilha “Como Exportar Cachaça de Alambique”, disponível no endereço http://www. exportaminas.mg.gov.br/pdf/CartilhaCachaca.pdf. O guia é resultado da parceria com a Ampaq, Cooperativa Central dos Produtores de Cachaça de Alambique e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, e apresenta os procedimentos para iniciar um processo de exportação de cachaça de alambique, com informações e contatos das instituições de apoio atuantes em Minas.

Foto Marcelo Focado

Química

Zenilda Cardeal, pesquisadora da UFMG.

o carbamato de etila, composto formado naturalmente no processo de produção da cachaça, mas com origem ainda discutível - uma das vertentes é a de que o cobre dos alambiques possibilita sua formação. Segundo a pesquisadora, existem dois processos que são utilizados para a retirada dos compostos nocivos: passar por uma resina de troca iônica e por um filtro de carvão orgânico. O pesquisador Patterson, utilizando a técnica GCxGC durante um estágio na Austrália para seu trabalho de doutorado verificou que “a resina de troca iônica introduz os ftalatos que são compostos nocivos e que podem causar infertilidade.” O método, portanto, não deve ser usado isoladamente. Com os dois processos sendo usados na produção, todos os aromas são preservados, os componentes nocivos são eliminados e os compostos interessantes são mantidos. Segundo Patterson, apenas um produtor já utiliza a tecnologia correta, com os dois processos. “O primeiro passo da pesquisa foi identificar o problema, agora é que vamos difundir o resultado”, esclarece.

O aroma

Na opinião de Zenilda Cardeal, o aroma da cachaça é inigualável. “É mais rico que o do whisky, rum, vodka e tequila, e só perde para o gim, que de tão perfumado fica enjoativo. O aroma da cachaça é considerado mais agradável”. Na produção da cachaça de alambique, os produtores envelhecem a bebida

em tonéis de madeira como os de umburana, jequitibá ou carvalho para aprimorar esse aroma. “O carvalho, madeira mais utilizada, é rico em compostos aromáticos. Mas seu custo é elevado porque não é uma árvore nativa e a madeira precisa ser importada”. A fim de expandir o estudo, a equipe de pesquisadores tenta a compra de um novo equipamento, avaliado em US$220 mil. A universidade já possui o software necessário. Com a aquisição, os grandes beneficiados serão os produtores da cachaça. Na UFMG, o equipamento de análise existente, o Trace-GC (Thermo-finnigan) é de cromatografia unidimensional (GC) e identifica apenas cerca de 30 compostos, enquanto a cromatografia bidimensional abrangente (GCXGC) faz a separação detalhada de centenas de compostos. No Brasil, a minuciosa análise de compostos é realizada somente nos estados detentores do aparelho: Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, que o adquiriu para teste antidoping nos jogos pan-americanos. O trabalho dos pesquisadores também foi desdobrado em um estudo sobre como verificar falsificações, sejam elas decorrentes de processos químicos ou por adição de colorantes e serragem. Além da cachaça, também foram identificados os compostos no aroma da pimenta rosa, conhecida no exterior como pimenta brasileira (ou brazillian pink pepper).A técnica da cromatografia é ainda utilizada para diversas análises toxicológicas, ambientais e de alimentos, dentre outros. Thaís Pontes MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAI. / 2009

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Saúde

(irritabilidade + ten são + mau-humor)

Tensão Pré- Menstrual (TPM). Ao pensar neste termo, a primeira imagem que vem à cabeça é a de uma mulher descontrolada, nervosa ou histérica. Popularmente, a sigla virou até sinônimo de piadas e definições bemhumoradas como “Todos Problemas Misturados”, “Totalmente Pirada e Maluca”, “Tente Permanecer Mudo” e até “Tendência Para Matar”. E mais. Dizem que “a diferença entre uma mulher na TPM e um sequestrador é que, com o sequestrador, ainda existe uma possibilidade de negociação”. Mas, por trás das piadas e de todo este bom humor, esconde-se uma condição médica que atinge uma porcentagem significativa de mulheres em todo o mundo. Estudos demonstram que até 80% das mulheres apresentam algum tipo de sintoma físico e/ou psíquico no período pré-menstrual, o que é considerado, segundo especialistas, fisiologicamente normal. Os principais sintomas físicos são cólica, inchaço, dores nas mamas, sensibilidade, enxaqueca e dores nas articulações. Entre os sintomas psicológicos, os mais relatados são

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irritabilidade, humor depressivo, compulsão alimentar, tensão e até mesmo agressividade. O termo TPM é o mais usado popularmente para definir este período, mas, academicamente, não seria o mais correto, pois a letra “T” corresponde à tensão, que representa apenas um dos sintomas relatados pelas mulheres. Em função do grande número de sintomas descritos na literatura médica (mais de 150), o termo mais indicado para esta definição seria Síndrome Pré-Menstrual (SPM). Diversas teorias tem sido propostas para as causas da Síndrome Pré-Menstrual. Entretanto, ainda não há consenso para explicar a causa exata. A teoria mais atual indica que tal síndrome é causada por uma sensibilidade anormal às variações típicas dos hormônios femininos ao longo do ciclo menstrual. Assim, no organismo das mulheres portadoras da SPM, as oscilações normais dos níveis de estrógeno e progesterona que ocorrem mensalmente são capazes de desencadear alterações em diversas funções de seu corpo. Particularmente, os sintomas psicológicos pré-menstruais parecem decorrer de alterações em neurotransmissores centrais, como a serotonina. Um neurotransmissor é a substância química que atua na transmissão dos impulsos nervosos de um neurônio para o outro. Para muitas mulheres, a SPM traz consigo inúmeros problemas, pois durante “aqueles dias” elas mudam completamente. Estas mudanças afetam não só a vida destas mulheres, mas a dos seus namorados, maridos, filhos, amigos, colegas de trabalho, que, assim como ela, acabam tendo que conviver mensalmente com este problema. Uma pesquisa realizada em 2008 pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revelou que cerca de 50% das mulheres percebem os “estragos” da Síndrome Pré-Menstrual nos relacionamentos familiares e também seu impacto no trabalho. Ainda segundo as mulheres, mais de 50% dos homens tentam entendê-las nessa fase sem

brigar, mas 11% deles ficam irritados e impacientes. Duke Chargista

Pesquisa investiga novo tratamento para forma grave da síndrome pré-menstrual, condição que atinge 5% da população feminina

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Descontrole

A funcionária pública, Santuza Barbosa, tem 38 anos e é casada há três. Em um dia comum estava preparando o almoço em sua casa e, segundo ela, “o arroz não ficou bom”. Resultado: chorou a tarde inteira. “Não conseguia parar de chorar. Meu marido não entendia porque um simples arroz me causou tanta comoção”, conta. A funcionária pública então começou a notar que estas alternâncias entre sensibilidade e irritabilidade ocorriam sempre no período pré-menstrual. A professora, Marília de Dirceu, também perdia o controle neste período. “Tinha literalmente vontade de matar alguém. Esse alguém era quase sempre o meu namorado”, desabafa. A falta de paciência ainda vinha acompanhada de dor nos seios e nos quadris. “Quando eu sentia que estava ficando muito descontrolada, olhava no calendário e percebia que era a TPM”, relata. O descontrole também já fez com que a operadora de telemarketing Josiane Cristina, de 22 anos, deixasse um cliente na linha e saísse correndo. “Estava tão nervosa que tive que ir embora para casa”, conta. Santuza, Marília e Josiane são personagens de uma versão mais grave da Síndrome Pré-Menstrual, que atinge cerca de 5% da população feminina: o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual (TDPM). O nome é mais complicado, mas a diferença é simples. Quando os sintomas pré-menstruais se tornam incontroláveis, a ponto de desequilibrar a vida social, familiar e/ou profissional destas mulheres, pode ser identificado o transtorno. O diagnóstico preciso só pode ser feito por profissionais, pois, para confirmação de que a paciente é portadora do TDPM é preciso observar alguns padrões. Quem explica é a psiquiatra e pesquisadora, Melissa Guarieiro Ramos. “Os critérios para diagnóstico do TDPM são rigorosos e excluem muitas mulheres com SPM”. MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAI. / 2009

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Duke Chargista

O fundamental é a determinação de um padrão de sintomas, que seguem um ciclo regular e repetitivo. São sintomas físicos, comportamentais e de humor que aparecem ou ficam mais graves depois da ovulação, duram até o dia anterior à menstruação (fase lútea), e desaparecem com o início do fluxo. Este padrão inclui um intervalo livre de sintomas na fase folicular, que começa no dia da menstruação e termina com a ovulação. “Para confirmar o diagnóstico é preciso que a paciente passe por uma avaliação prospectiva, feita através de um registro diário dos sintomas”, explica a psiquiatra. Este registro é feito em uma espécie de diário, onde a mulher deve marcar diariamente os sintomas experimentados, sua gravidade, se está ou não menstruada e observações que considerou importante registrar naquele dia. Sintomas como variação do humor, tristeza ou depressão e ansiedade recebem nota de 1 a 6, de acordo com o grau de intensidade. O diário deve ser preenchido durante dois ciclos menstruais. No final, é possível visualizar um gráfico com as alterações. Quando há uma variação nas pontuações de sintomas na fase lútea no mínimo 30% maior em relação à fase folicular, deve-se diagnosticar o TDPM.

Investigação

Conforme o último Censo (2000), existe cerca de 47 milhões de mulheres na faixa etária de 15 a 49 anos,

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considerada idade fértil. Se 5% delas possuem o TDPM, significa que mais de 2 milhões de mulheres no país sofrem deste transtorno. Se a mulher portadora do TDPM sofre estes sintomas, em média, dos 14 aos 50 anos (da primeira menstruação até a menopausa), equivaleria a 459 ciclos menstruais. Como a média é de 6 dias sintomáticos por ciclo, seriam 2800 dias com os sintomas, ou sete anos de sua vida sofrendo o transtorno. O impacto que o TDPM pode causar na vida das mulheres fez com que a psiquiatra Melissa Ramos investigasse o uso de uma nova droga para seu tratamento. Melissa, orientada pelo professor Fábio Lopes Rocha, do Departamento de Psiquiatria do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais (IPSEMG), desenvolveu um estudo sobre a eficácia e segurança da duloxetina, novo tipo de antidepressivo, no tratamento de pacientes com o TDPM. Como a maioria das mulheres com o transtorno experimentam predominantemente sintomas como variação do humor e irritabilidade, o uso de antidepressivos no tratamento destes sintomas é comprovadamente eficaz. Em geral, mulheres com o TDPM tem níveis mais baixos de serotonina no sistema nervoso central. A serotonina é um neurotransmissor, isto é, uma molécula envolvida na comunicação entre os neurônios. Na realização deste processo, uma pequena quantidade de neurotransmissores é enviada

de cada vez, de um neurônio para outro. Após o envio e recebimento desta quantidade, o neurotransmissor que ficar "sobrando" no espaço entre um neurônio e o outro é absorvido pelo que o liberou. Esse processo recebe o nome de recaptação. Os antidepressivos comuns agem como inibidores de recaptação da serotonina, ou seja, fazem com que esta molécula siga em fluxo contínuo e sentido único. O que levou a pesquisadora a avaliar o uso da duloxetina em relação à outros antidepressivos é que ela pertence a uma classe de drogas conhecidas como duplos inibidores de recaptação, o que significa que inibe a recaptação de dois neurotransmissores. Neste caso, a serotonina e a noradrenalina, neurotransmissor que influencia o humor e ansiedade, e potencialmente sintomas dolorosos, como enxaquecas e dores no corpo.

Metodologia

A primeira etapa da pesquisa foi selecionar candidatas com perfil que as indicasse como portadoras do transtorno. Para isso, foi feito um intenso trabalho de divulgação através de anúncios no serviço de assistência médica do IPSEMG e na comunidade, durante o período de um ano. Para serem selecionadas, as mulheres precisariam preencher os seguintes critérios: ter de 18 a 45 anos, possuir ciclos menstruais regulares, queixa de sintomas em pelo menos nove dos últimos 12 ciclos e ter uma boa saúde. Segundo Melissa, esta fase do projeto foi a mais trabalhosa, pois muitas mulheres confundem alterações constantes de humor com sintomas de TPM. “É mais fácil e socialmente mais permitido dizer que está com TPM do que dizer que tem depressão”, opina. Das 500 mulheres interessadas, foram selecionadas 98, mas somente 33 seguiram com o tratamento. Estas levaram o diário de registro de sintomas para a casa, preencheram durante um mês e voltaram para nova avaliação. Para as mulheres cujo diário apontasse maior variação dos sintomas na fase pré-menstrual era dado um placebo, substância inerte que funciona como uma terapia "de mentira". As outras eram descartadas da pesquisa. “O estudo foi estruturado para que em nenhum momento a paciente pu-

desse diferenciar o momento em que tomaria placebo ou duloxetina.13 das 33 pacientes melhoraram com o placebo, o que significa que, para muitas mulheres, a motivação de buscar um tratamento foi o suficiente para melhorar”, relata a psiquiatra. As pacientes que melhoraram com o efeito placebo também eram excluídas do estudo. Sendo assim, do universo de 500 mulheres, somente 20 possuíam o perfil desejado para a pesquisa. Elas iniciaram o tratamento com a duloxetina, administrada diariamente durante três ciclos menstruais. As mulheres com TDPM também se queixam de alterações do funcionamento cognitivo e alterações neuropsicológicas como redução da capacidade de concentração, alterações da memória, perda de confiança na tomada de decisões e lentidão motora. Como parte do estudo, as pacientes selecionadas eram encaminhadas para uma avaliação neuropsicológica

realizada em três etapas: com o uso placebo (na fase lútea), com uso da duloxetina (na fase lútea) e na fase folicular (fora do período pré-menstrual) sem uso de nenhum medicamento. Em cada uma das três avaliações foi aplicada a mesma bateria de testes, que avaliaram as funções de atenção e impulsividade. “Do ponto de vista neuropsicológico, as mulheres apresentaram pior desempenho da atenção e do controle da impulsividade na fase pré-menstrual”, relata a psicóloga Eliana Gonçalves Vasconcelos, responsável pela aplicação dos testes. Após três meses de tratamento com a duloxetina, houve melhora de desempenho nesta fase em alguns testes. Das 20 pacientes, duas tiveram intolerância à droga, cinco saíram da pesquisa por outros motivos, e 15 completaram a terapia. “Logo no primeiro mês houve uma melhora significativa de praticamente todos os sintomas”, afirma a pesqui-

TPM X Alimentação Uma das grandes razões que fazem o chocolate ser tão consumido pelas mulheres durante a TPM é que ele, entre outras coisas aumenta a produção de serotonina, substância do cérebro ligada à sensação de prazer. Com isso, a sensação é de alivio da depressão e da ansiedade. A serotonina desempenha importantes funções no sistema nervoso central, tais como a liberação de hormônios, a regulação do sono, da temperatura corporal, do apetite, do humor, da atividade motora e das funções cognitivas. Alguns estudos demonstram que níveis centrais de serotonina em mulheres com síndrome pré-menstrual são mais baixos do que em mulheres saudáveis, o que explicaria os sintomas comumente relatados pelas mulheres neste período: ansiedade, irritabilidade, choro fácil, alterações no humor, aumento do apetite, desejo por doces, insônia, confusão mental. Quimicamente, a serotonina é um produto da transformação do aminoácido triptofano, presente em alimentos ricos em proteínas, como carne, peixes, aves e laticínios. Assim, a ingestão de alimentos que aumentem a sua disponibilidade para os neurônios poderá estimular a sua taxa de conversão em serotonina. “É importante estabelecer modificações dietéticas para aumentar os níveis de triptofano, que têm resultados na melhora dos sintomas prémenstruais emocionais. Pode-se aumentar o consumo de alimentos fontes de triptofano, como arroz integral, pão integral, leite, tâmara, iogurte, soja, nozes, lentilha, entre outros”, explica a nutricionista Josiane Nascimento. Ela alerta que o consumo excessivo de carboidratos que contenham açúcares simples (chocolates, doces açucarados, balas) tem sido associado com distúrbios no humor, inchaço e fadiga. Dessa forma, é recomendado que, durante o período pré-menstrual, as mulheres consumam refeições pequenas e frequentes, ricas em carboidratos integrais, com o objetivo de melhorar alguns sintomas, como tensão e depressão. A nutricionista ainda aconselha que na fase pré-menstrual a mulher deve reduzir o consumo de sal (devido ao inchaço), açúcar, cafeína, álcool, preferir frutas a doces, consumir verduras e legumes.

sadora. Como resultado final, 65% das mulheres que tomaram o remédio melhoraram da metade dos sintomas. As antes descontroladas Santuza, Marília e Josiane foram algumas das pacientes que chegaram ao final do tratamento, que durou cerca de um ano e meio. Elas relatam uma melhora considerável dos sintomas pré-menstruais e, consequentemente, da qualidade de vida. Algumas delas continuam a usar o medicamento, mas para a maioria ele já foi suspenso. “Antes do tratamento eu não tinha vontade de conversar, nem de namorar. Hoje me sinto muito mais tranquila até na hora de dizer: gente, estou naqueles dias, então, por favor, não me perturbem”, brinca Santuza.

Impacto social

Estudos demonstram que o período pré-menstrual também pode ser propício ao aumento da procura por serviços de saúde, atendimento em emergências, uso abusivo de cigarros e outras drogas, acidentes e até tentativas de suicídio e crimes violentos. Além disto, as limitações funcionais causadas pela Síndrome Pré-Menstrual ocasionam queda da produtividade e faltas ao trabalho. Só para se ter uma idéia, uma pesquisa americana demonstrou que os prejuízos indiretos deste impacto somam mais de U$4 mil por paciente todos os anos. “A população precisa saber que este transtorno não é frescura. É um problema sério que atrapalha a vida de muitas mulheres, causando brigas conjugais, prejuízos sociais e profissionais”, alerta a psicóloga Eliana Vasconcelos. Ela ainda ressalta que há um desconhecimento geral da gravidade deste problema, que precisa ser melhor divulgado por ginecologistas e também nas escolas. Enquanto o preconceito ainda existe, a psicóloga dá dicas para evitar os prejuízos. “É fundamental a mulher se conhecer, trabalhar o autocontrole e sinalizar ao seu círculo social que está com um problema. Neste período ela deve se poupar, não aceitando provocações, cuidando da alimentação e do corpo. Em casos mais graves, ela precisa principalmente reconhecer que tem um problema fisiológico e procurar ajuda de um profissional”, alerta. Juliana Saragá MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAI. / 2009

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Especial Foto:Vanessa Fagundes

Foto:Vanessa Fagundes

Opinião

Aptidões de um bom pesquisador Magno Antonio Patto Ramalho* Adriano Teodoro Bruzi**

Jacob Palis, presidente da ABC, entrega diploma de Membro Institucional Master ao presidente da FAPEMIG, Mario Neto Borges

Paulo Kleber Duarte Pereira, diretor de Planejamento, Gestão e Finanças, Mario Neto Borges e José Policarpo G. de Abreu, diretor Científico, representaram a FAPEMIG na reunião magna da ABC

FAPEMIG se torna membro da ABC A FAPEMIG agora faz parte da seleta lista de instituições-membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC). As boas-vindas foram dadas durante a reunião magna de 2009, realizada em maio no Rio de Janeiro. Perante cientistas e gestores da área de ciência e tecnologia de todo o Brasil, a Fundação recebeu o diploma de Membro Institucional Máster, entregue pelo presidente da ABC, Jacob Palis. “Estamos muito felizes com a entrada da FAPEMIG na ABC. Ela foi pioneira entre as FAPs e, após sua associação, outras se interessaram. Esse apoio será muito importante para as atividades da Academia. A cooperação irá resultar, por exemplo, na discussão de temas regionais específicos. Já temos uma lista de assuntos que serão abordados ainda 2009”, diz Palis. O presidente da FAPEMIG, Mario Neto Borges, destaca a importância do título: “Este fato representa o reconhecimento da FAPEMIG no cenário nacional pela comunidade científica brasileira, demonstrando que a nossa Fundação tem desenvolvido um papel líder nas ações de ciência, tecnologia e inovação no Brasil”. Ele lembra que, recentemente, a FAPEMIG foi eleita presidente do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), o que demonstra seu prestígio no cenário nacional. Os Membros Institucionais são entidades que se interessam em se associar à ABC em prol do desenvolvimento da ciência brasileira. Os Membros também participam de decisões das temáticas e da programação do evento anual da Academia. Entre os primeiros Membros Institucionais da Associação estão a Petrobras, Eletrobras,Vale, IBM e Companhia Brasileira de Alumínio. Durante sua fala, o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Resende, destacou a participação da FAPEMIG e da Faperj, que também recebeu o título de membro institucional, nos programas nacionais de C&T, como os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia. O ministro da Educação, Fernando Haddad, mencionou o resultado

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de estudo da Capes que mostra que o Brasil subiu para a 13ª posição no ranking mundial de produção científica, ultrapassando a Holanda e a Rússia. “Essa nova e merecida posição representa o investimento do país em C&T. Se manter esse ritmo, em um futuro próximo, o Brasil estará entre os 10 primeiros do mundo”.

Novos membros

Entre os membros da Academia Brasileira de Ciências que também tomaram posse na reunião magna de 2009 estavam quatro pesquisadores de Minas Gerais. Na área de Ciências Biomédicas, Mauro Martins Teixeira e Robson Augusto Souza dos Santos, ambos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); na área de Ciências Agrárias, Elizabeth Pacheco Batista Fontes, da Universidade Federal de Viçosa (UFV); e na área de Ciências da Engenharia,Virginia Sampaio T. Ciminelli, da UFMG. A Academia Brasileira de Ciências é uma entidade independente, não governamental e sem fins lucrativos, que atua como sociedade científica honrosa e como consultora do governo, quando solicitada, para estudos técnicos e de política científica. A Academia recebe contribuições de seus membros individuais e corporativos e apoio financeiro de agências governamentais, principalmente as pertencentes ao Ministério da Ciência e Tecnologia: a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Com um quadro atual de 620 cientistas, a ABC tem sido reconhecida pelos pesquisadores em história da ciência como uma das mais antigas associações de cientistas no país e reconhecidamente a mais prestigiosa dessas entidades. Ela publica dois periódicos (Anais da Academia Brasileira de Ciências e Pesquisa Antártica Brasileira), organiza eventos científicos, desenvolve programas e projetos especiais e mantém intercâmbio com academias científicas estrangeiras, bem como com outras organizações nacionais e internacionais.

Quais seriam as aptidões desejáveis de um bom cientista? É evidente que elas podem variar em função de fatores como área de atuação, local de trabalho e região de atuação. Mas existem algumas aptidões essenciais: Paixão pelo conhecimento: O cientista deve procurar ampliar os seus conhecimentos. Ou seja, nunca deve estar satisfeito com seu conhecimento. Segundo um ditado popular, “quanto mais se estuda mais se tem certeza de que seu conhecimento é pequeno”. A procura do conhecimento deve ser realizada diariamente durante toda a vida profissional. Criatividade: É outra aptidão fundamental na vida de um cientista. Aquele que não inova só irá repetir o que os outros já executaram. Em alguns casos isso até é importante. Contudo, o profissional não se realiza. O bom pesquisador é aquele que está sempre procurando alternativas, seja na metodologia utilizada, no modo de análise e interpretação e ou saindo da rotina. Saber ver e delimitar um problema relevante: Poucos pesquisadores possuem essa habilidade. Não basta identificar o problema - é preciso ter a visão de que você e seu grupo são capazes de resolvê-lo. E, mais ainda, saber avaliar se a solução será obtida em tempo hábil. Ou seja, não adianta solucionar um problema quando ele não mais existe. Persistência: Em toda atividade, persistir é fundamental para o sucesso. Mas, para o pesquisador, a persistência é indispensável. Muitos pesquisadores, a qualquer insucesso ou aparecimento de uma novidade, paralisam seu trabalho e migram para novas áreas. Muitos atuam como verdadeiros surfistas, sempre procurando uma nova onda. A ciência, na

verdade, é repleta de ondas. As novas trazem status e recursos. Os pesquisadores são assim, sempre atraídos por mudanças. Capacidade administrativa: Na condução de uma pesquisa está envolvida uma série de recursos como pessoal, infraestruta e material. Assim, o pesquisador quase sempre atua como um gerente. O bom gerente é aquele que é capaz de manusear os recursos do modo mais eficaz possível. Liderança: A solução de problemas quase sempre envolve um grupo de pessoas. Para se atingir o objetivo o mais rápido e com maior eficiência possível, é necessário liderança. A liderança envolve mais a habilidade de conviver com pessoas do que propriamente conhecimento. Ninguém exerce liderança sobre outro porque domina mais o assunto. Habilidade de expressar resultados: A ciência sobrevive dos resultados. O pesquisador não é diferente: só continuará obtendo recursos e sendo reconhecido perante a comunidade científica se manter ativa sua produção de conhecimento. Assim, é indispensável que ele possua habilidade de comunicar o produto de suas pesquisas. Há profissionais que possuem excelentes resultados, porém nunca chegam ao usuário por falta de comunicação. Quando isto ocorre, há desperdício de tempo e recursos. E, mais ainda, o grupo envolvido sentese frustrado. Espírito empreendedor: O pesquisador deve ser empreendedor. Aqueles que simplesmente repetem as pesquisas já realizadas dificilmente terão sucesso em longo prazo. É necessário ser arrojado no sentido de propor ideias novas que poderão contribuir para o avanço científico ou para o bem da sociedade.

Trabalhar em equipe: O pesquisador deve ter flexibilidade para ser liderado, aceitar a opinião dos outros, valorizar o trabalho do grupo e ter humildade para reconhecer a importância de todos os envolvidos na pesquisa. Não significa deixar de expor suas ideias: a única atitude que não funciona é aceitar tudo o que é proposto. O pesquisador que não valoriza suas ideias é um “peão científico”. Vocação para formar discípulos: Ninguém é eterno. Por isso, é necessário preparar os substitutos. Esse preparo deve ser iniciado o quanto antes, tendo em mente que o discípulo deve ser mais completo cientificamente que o mestre. Somente assim ocorrerá avanço científico. Há alguns pesquisadores que guardam segredo de tudo. Estão sempre com o medo de suas ideias serem “roubadas”. Mas um dia eles se aposentam ou morrem, e o conhecimento se perde com eles. Sensibilidade social e política: Todo pesquisador, especificamente os do setor público, devem ter uma visão clara de que seu trabalho visa o bem estar da sociedade. Ele é pago por ela. Embora muitas vezes não seja cobrado, ela espera retorno do investimento. Muitos pesquisadores fazem pesquisa com o objetivo, primeiro, de equipar os seus laboratórios, e esquecem de procurar uma idéia nova. Gostar do que faz: Só tem sucesso quem gosta do seu trabalho. Essa é a primeira condição para que os demais itens sejam exercidos em sua plenitude. Na vida, o ato de gostar de algo é um aprendizado. A esperança é que o pesquisador a cada momento tenha mais prazer no que está realizando. (*) Professor da Universidade Federal de Lavras (Ufla) e membro do Conselho Curador da FAPEMIG (**) Doutorando em Genética e Melhoramento de Plantas da Ufla

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Notas

Pesquisa revela opinião de pesquisadores sobre a FAPEMIG 75%

67,9%

50% 31,1%

25%

1,0% 0%

Transmite muita credibilidade

Transmite credibilidade

Transmite pouca credibilidade

0,0% Não transmite credibilidade

Fonte:

Credibilidade e eficiência são os conceitos que melhor caracterizam a FAPEMIG. Esta é uma das conclusões da pesquisa que avaliou o grau de satisfação dos clientes da agência, realizada no período de 2 a 10 de março de 2009. Foram 520 entrevistas, aplicadas com pesquisadores de 19 municípios, representantes das diversas regiões e instituições do Estado. “Já há algum tempo a FAPEMIG queria realizar uma pesquisa para saber como seus clientes avaliavam os programas de apoio oferecidos e as novidades implementadas, especialmente no que se refere à submissão e contratação de projetos”, lembra Vanessa Fagundes, assessora de comunicação da FAPEMIG. “Os índices de aprovação mostram que o trabalho que vem sendo realizado pela Fundação tem o respaldo da comunidade científica. Além disso, os dados levantados nos indicaram pontos que podem ser aprimorados dentro dos departamentos”, completa. A pesquisa mostrou que a maior parte dos clientes da FAPEMIG é formada por homens (62,3%), tem entre 35 e 60 anos, trabalha há mais de dez com pesquisas cientí-

ficas (59%) e tem o doutorado como escolaridade mínima (92,5%). Mais de 88% dos entrevistados consideram que a FAPEMIG contribui para o desenvolvimento de Minas Gerais, principalmente nos setores científico e tecnológico. A Fundação também transmite credibilidade ou muita credibilidade para 99% da amostragem, que, em sua maior parte, considera credibilidade e eficiência os conceitos que melhor caracterizam a instituição. A qualidade do atendimento da FAPEMIG também foi bem avaliada, recebendo nota média de 3,9 em uma escala de 1 a 5. Mais de 88% dos pesquisadores consideram o site da Fundação organizado ou muito organizado e 82,2% acredita que ele disponibiliza todas as informações necessárias. As ações de informatização também foram bem avaliadas. A maior parte dos entrevistados (91,4%) já utilizou e considera seguro (91,8%) o termo de outorga eletrônico, além de acreditar que ele agilizou o processo de liberação do apoio (81,3%).A maioria (83,1%) também já usou o sistema de submissão eletrônica Ágilfap, o considera de fácil acesso (94%) e acha que ele contribui para a agilidade do processo (95,8%). No que se refere às modalidades de financiamento oferecidas, 68,1% dos pesquisadores acham que a Fundação disponibiliza todas as modalidades demandadas; 27,5% responderam que não e 4,4% não souberam ou não responderam. Na avaliação específica dos programas oferecidos, todos foram considerados importantes ou muito importantes pela maioria dos entrevistados, com índices acima de 77%. De modo geral, o índice de satisfação com os serviços prestados pela FAPEMIG está acima de 8,5, em uma escala de 1 a 10. Para o presidente da FAPEMIG, Mario Neto Borges, o resultado da pesquisa indica que “a FAPEMIG está no caminho certo no seu processo de revitalização iniciado em 2004 e a decisão do atual Governo do Estado, de cumprir o dispositivo constitucional repassando os recursos integrais desde 2007, tem o reconhecimento da comunidade científica e tecnológica mineira”.

Pesquisadores e estudantes de todo o país se reuniram, entre os dias 12 e 17 de julho, no campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em Manaus. Eles participaram da 61ª reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Além de assistir à apresentação de trabalhos e a debates sobre temas variados, os visitantes tiveram a oportunidade de conhecer os programas de instituições diversas na feira ExpoT&C. A FAPEMIG teve um estande na feira. Uma equipe da Fundação apresentou as linhas de apoio, principais programas e ações, além do projeto Minas Faz Ciência, de divulgação científica para o público leigo. Ao todo, foram distribuídos 2.300 exemplares da revista Minas Faz Ciência e mais de 5 mil folders com detalhes sobre a atuação da agência de fomento mineira. A reunião da SBPC, um dos eventos mais tradicionais da área, é realizada anualmente.

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Foto:Vanessa Fagundes

FAPEMIG apresenta seus programas na SBPC

Santo de casa faz... tecnologia

Uma inovação pode ser resultado de demandas diretas do mercado ou de possibilidades visualizadas pelo idealizador para solucionar determinada situação. Mas outro fator, algumas vezes, também pode ser a inspiração: a necessidade do próprio pesquisador. É o caso dos engenheiros Luiz Sérgio Ribeiro e Tadeu Lyrio Junior, proprietários da empresa EM-X, especializada no desenvolvimento de software embarcado (mobilidade) para automóveis. Praticantes de esporte off-road com motocicletas, eles desenvolveram um computador de bordo com mais de 15 funções, destinado a esportes como trilha, enduro, motocross ou até mesmo motos de rua. “Começamos a ver as necessidades que tínhamos como praticantes, pensamos então em fazer nossos próprios equipamentos”, conta Ribeiro. Segundo ele, o computador de bordo, inicialmente bem simples, foi sendo melhorado na medida em que era desenvolvido. Os engenheiros trabalharam no projeto por mais de dois anos, realizando vários testes para garantir o perfeito

funcionamento do produto. O resultado é um aparelho que auxilia na navegação e funcionamento da motocicleta. Ele possui duas entradas de dados: é ligado ao sinal de pulso da ignição para informações como Rotações por minuto (RPM), Shift Light e tempo de motor (horímetro); e em um sensor magnético com um imã instalado na roda dianteira na motocicleta, que gera informações para outras funções no equipamento. “Suas vantagens são a precisão nos dados obtidos, auxílio na manutenção do veículo e o fato de ser destinado a dois mundos dos esportes em duas rodas off-road, os amantes de trilhas e enduro e os praticantes de motocross. O produto, que será comercializado pela própria EM-X, foi desenvolvido com apoio da FAPEMIG dentro do Projeto Inventiva, que apoia o desenvolvimento de protótipos de produtos ou processos inovadores. Atualmente, a empresa está cuidando da finalização da embalagem e do manual, além de acerto de detalhes comerciais. A previsão é que o produto esteja no mercado até o final do ano ou no início de 2010.

Pesquisa analisa cobertura de C&T pela mídia nacional A Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep), em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a FAPEMIG e a Secretaria de Estado da Ciência,Tecnologia e Ensino Superior (Sectes), está produzindo um estudo sobre a cobertura da Ciência e Tecnologia pela mídia brasileira. O projeto “Ciência,Tecnologia e Inovação na Mídia Brasileira” é uma iniciativa inédita e está sendo realizado pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), que tem experiência na análise de cobertura da mídia. Iniciado no fim de 2008, o trabalho envolveu a análise de 57 jornais e revistas de todo o Brasil. Foram avaliadas as matérias sobre ciência, tecnologia e inovação publicadas ao longo de dois anos (2007-2008). Com os resultados preliminares em mãos, será realizado um encontro para a discussão do conteúdo feita por profissionais da imprensa e por órgãos e instituições estratégicos. Essa reunião está marcada para agosto. “O principal objetivo é traçar o perfil quantitativo e qualitativo dos veículos de comunicação a fim de viabilizar um diálogo mais claro entre pesquisadores e população. Pretende-se, ainda, elaborar novos caminhos para a cobertura da Ciência, Tecnologia e Inovação através de diretórios de fontes de informação, recomendações para a mídia e pesquisadores e sugestões de pauta para incentivar a qualificação e a ampliação da cobertura”, diz Cristina Rocha Guimarães, da assessoria de comunicação da Fundep. O estudo terá como resultado a publicação de um livro. MINAS FAZ CIÊNCIA - MAR. A MAI. / 2009

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Foto: Gláucia Rodrigues

Cientistas brasileiros

“Memória e transmissão de experiências são faces diferentes de um único cristal que inclui a História. A memória é retenção do passado atualizado pelo tempo presente”. A definição é da historiadora, escritora e cientista política Lucilia de Almeida Neves Delgado. Nesta entrevista, ela compartilha suas memórias sobre os anos em que atuou na FAPEMIG, período em que pôde vivenciar experiências diversas. Ela fala também sobre a importância das agências de fomento, a contribuição da iniciação científica para a formação de pesquisadores e os desafios que permanecem para a Fundação. A senhora foi membro e coordenadora da Câmara de Ciências Sociais, Humanas, Letras e Artes (SHA), membro e presidente do Conselho Curador, e acompanhou grande parte da história da FAPEMIG. Que momentos considera mais importantes e marcantes? Na década de 1990, fui convidada a integrar a Câmara SHA e ali atuei até 1999. Foi um período de rica experiência, pois a SHA é composta por pesquisadores de diferentes áreas, o que propicia o exercício de compreensão e a aceitação da pluralidade. Tal prática torna as pessoas mais generosas, pois diminui a tendência de olhar o mundo com a cultura própria de sua especialização. Também contribui para a solidificação de uma consistência erudita, pois supõe competência para compreensão e análise de propostas elaboradas segundo a lógica específica de diferentes áreas de conhecimento. Essa realidade é muito forte no contexto da

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Câmara SHA, talvez a mais múltipla das câmaras da FAPEMIG. Minha experiência na SHA foi uma das mais instigantes de minha trajetória profissional. Também foi um período difícil, pois o repasse para a FAPEMIG não cumpria o preceito constitucional de 1% do orçamento do Estado. Com isso, a demanda era maior que a capacidade de atendimento. Cabe ainda ressaltar que essa experiência de convivência construtiva com a diversidade foi ainda mais desafiadora e estimulante durante o período em que estive no Conselho Curador. Com certeza, meu pensamento ganhou em universalidade e heterogeneidade. No Conselho, tive oportunidade de vivenciar uma fase muito rica, que foi a passagem de um período de escassez para outro de maior liberdade para definição de programas estratégicos. Isso aconteceu quando, de forma gradativa, o governo do Estado aumentou o repasse de recursos para a Fundação até atingir o 1% constitucional. Quanto aos momentos mais importantes, destaco dois: o da fundação, em 1986, e o da definição do governo de destinar 1% do orçamento para as políticas de fomento da casa. Essa decisão foi inédita, pioneira e visionária. A Ciência, Tecnologia e Inovação (C,T,I) são fundamentais para o desenvolvimento de um país. Neste contexto, qual a importância das agências de fomento? A revolução tecnológica é uma realidade inexorável do mundo e do tempo no qual estamos inseridos. Em ritmo frenético, processos de inovação tem transformado, de forma contínua, o cotidiano da vida em sociedade. É, portanto, fundamental que instituições de fomento destinem parte substantiva de seus orçamentos para apoio à inovação tecnológica. Essa política institucional não deve, todavia, ser mais importante que a do investimento em pesquisas de base, cujo aplicativo não é visível de início. Os dois enfoques devem estar contemplados na atuação dessas instituições. E qual o papel da comunidade acadêmica no fortalecimento das agências de fomento ? A maior parte dos pesquisadores brasileiros são vinculados a universidades. São eles, de forma simultânea, professores e pesquisadores. Essa realidade não pode ser desconhecida e nem minimizada, pois são nas universidades que se formam os jovens pesquisadores que darão continuidade à tarefa de produção do conhecimento. Nesse sentido,

os pesquisadores acadêmicos devem estar atentos para a preservação de um relacionamento em mão dupla com as agências de fomento. Ou seja, além da apresentação de demandas, precisam estar disponíveis para contribuir na definição das políticas a serem implementadas e também na seleção e avaliação dos projetos financiados. Em todo o tempo no qual atuei na FAPEMIG, foram raras as ocasiões em que um pesquisador se recusou a colaborar com esta Fundação. Eles contribuem para mantê-la viva e cada vez mais eficiente. Qual a importância do investimento destas agências em projetos de iniciação científica? A iniciação científica é um dos mais relevantes programas da FAPEMIG e de outras instituições de fomento. Além da oportunidade de introduzir um jovem no mundo desafiador da produção do conhecimento, a orientação aos bolsistas é muito gratificante. Sinto-me, como professora, muito realizada quando um aluno que orientei na iniciação científica dá continuidade à sua formação, chegando ao doutorado e depois ingressando, como profissional, em instituições de ensino e pesquisa. Afirmo também que os bolsistas de iniciação científica, na maior parte das vezes, são ótimos alunos de mestrado e de doutorado, pois incorporam a lógica e a importância da pesquisa em sua formação. São eles que manterão acesa a chama do saber num futuro não muito distante ao da sua formação. A FAPEMIG passou por três fases: a de criação (1986-1992), a de transição (19993-2002), e a fase de consolidação, que se firmou em 2006, com seus 20 anos. Como seria denominada a fase atual? Fase da plena realização de seus objetivos matriciais. Desde a sua criação, é a primeira vez que o governo está cumprindo a determinação constitucional. Os resultados dessa política são transparentes e eficazes. Além dos editais de demanda universal, a FAPEMIG tem publicado editais de demanda induzida, orientados pelas prioridades governamentais e pela sensibilidade em relação a importantes pleitos da comunidade científica de Minas Gerais. O principal desafio que permanece é o de consolidar como política de Estado, e não de um governo, o respeito ao preceito constitucional de que 1% dos recursos do orçamento de Minas seja sempre a ela destinado.


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