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77 OS CONHECIMENTOS GEOGRÁFICOS E O ENSINO DE GEOGRAFIA José Marcos Sinhorini,1 RESUMO: A curiosidade do homem, aliada aos registros sobre os lugares por onde passavam, foram as primeiras intenções de constituir conhecimentos geográficos. A expansão e o domínio de novos territórios levaram os impérios europeus a organizarem suas escolas geográficas, a fim de produzirem uma Geografia voltada aos interesses do poder. No Brasil, esta tendência serviu aos interesses dos governos autoritários na fundamentação da política nacionalista. As transformações do Pós - Segunda Guerra Mundial, também atingiram a Geografia, que buscou a renovação do seu objeto. Com isso, a Geografia Tradicional, vai dando espaço para uma nova forma de pensar e produzir o conhecimento geográfico, a denominada Geografia Crítica, a qual passa a entender a sociedade através de seus conceitos básicos, renovados e ressignificados: espaço, paisagem, lugar, território e região. A geografia passa a se preocupar com a dinâmica da sociedade na construção do espaço geográfico. Tendência que chega ao Brasil no final dos anos 1970, desde então, passa a permear a produção geográfica e consequentemente o ensino desta ciência em seus diferentes níveis. Com isso, a produção geográfica e seu ensino passam a ter um papel fundamental na orientação de um homem com base para construir uma sociedade participativa e mais justa. Palavras-chave: Conhecimentos Geográficos; Espaço Geográfico; Geografia; Ensino de Geografia. ABSTRACT: The man curiosity, allied to the registers about the places where they passed, were the first intentions of building geographic knowledge. The expansion and the dominium of new territories took the European empires to organize their geographic school, in order to produce a geography back to the interest of the current power. In Brazil, this tendency served to the interest of authoritarian governors in the fundamentation of nationalist policy. The changes of the Post –second world war, also reached the geography, that south the renew of its object. The traditional Geography, gives space to a new way of thinking through its basic concepts, renew and remaining ; space, landscape, place, territory, region. The geography starts to worry with the dynamic of the society in building the geographic space. A tendency that arrives in Brazil in the end of 70s, since then it starts to establish the geographic production and consequently the teaching of this science on its different levels. So the geographic production and its teaching has a fundamental role in the orientation of a man based to build a participative and also fairer society. Key words: Geographic knowledge; Geographic Space; Geographic Teaching.

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Mestre em Geografia pela FTC/UNESP, professor das disciplinas de Metodologia do Ensino da Geografia (Pedagogia) e Administração de Cooperativas (Administração), na Faculdade de Ampére – FAMPER. Também atua como professor da rede pública de ensino do Estado do Paraná. E-mail: profjmarcos@hotmail.com


78 1. APRESENTAÇÃO O enfoque principal deste texto é apresentar uma breve reflexão sobre a ciência geográfica e seus conceitos básicos, relacionando com o Ensino da Geografia e sua relevância na formação de um cidadão crítico, com bases para entender as contradições da sociedade contemporânea. Não pretendemos fazer uma discussão mais aprofundada sobre a evolução do pensamento geográfico, mas de produzir material didático para contribuir com o debate, embora superficial, sobre a ciência geográfica, na abertura da disciplina Metodologia do Ensino da Geografia, no curso de Pedagogia da FAMPER Faculdade de Ampére, a qual já está ministrando em sua 3ª edição. 1.1 Breve histórico do Pensamento Geográfico O homem sempre teve curiosidade acerca de conhecer os lugares, principalmente com o intuito de alcançar seus interesses. Observar a dinâmica da natureza foi fundamental para os povos que dominaram a agricultura; as civilizações mesopotâmicas, perceberam a importância da água (rios Tigre e Eufrates), para o seu desenvolvimento; ou ainda, a civilização egípcia obteve grande fortalecimento ao explorar as terras férteis às margens do rio Nilo; entre outros. Essas observações iniciais foram fundamentais na ampliação dos conhecimentos geográficos. As descrições de áreas conquistadas, sua localização, o acesso, a extensão e sua representação através da elaboração de mapas, possibilitaram melhor organização política e econômica dos impérios, da Antigüidade clássica. Segundo Moraes (1987), a esfericidade da Terra, sua forma e tamanho, a distribuição das terras e das águas, o diâmetro da Terra, além de cálculos sobre a latitude e estudos climáticos, foram alguns conhecimentos que também marcaram esse período. Com a Idade Média, alguns conhecimentos geográficos já constituídos foram abandonados, pois contrariavam o poder estabelecido. “[...] Surgiram, da interpretação do texto da Bíblia, dúvidas e contestações à idéia de esfericidade da Terra, procurandose justificar outras formas pára o planeta que não contrariassem a interpretação do livro sagrado”. (p. 34)


79 O mesmo autor também afirma que, desde o século XII, as questões cartográficas foram retomadas, pois os mercadores precisavam representar os detalhes das rotas (localização, distâncias, riquezas, etc.) por onde passavam, mais tarde, os dados levantados deram sustentação as grandes navegações. Com isso, as expedições terrestres passaram a descrever e representar o espaço: rios, lagos, montanhas, desertos, planícies e as relações homem-natureza em diferentes sociedades, distintas e desconhecidas até aquele momento. Desde sua sistematização e institucionalização, os conhecimentos Geográficos serviram como instrumento de dominação, tanto na constituição e expansão do Estado alemão, quanto na instrumentalização da conquista colonialista dos impérios europeus. Os dados levantados sobre as riquezas dos territórios coloniais serviram aos Estados colonizadores, na expansão de seus interesses2, explorando e dizimando as populações autóctones. Segundo Santos (1980), os países colonizadores não só utilizou a Geografia como instrumento de conquista colonial, como possuía Geógrafos empenhados nesta tarefa (Paul Vidal de La Blache, em sua obra: ‘A colonização francesa no Sudão’, às vezes, deu a impressão de apreciar a obra colonizadora). A Geografia servia aos interesses das classes dominantes, que subsidiaram o surgimento das escolas nacionais de pensamento geográfico, destacando a alemã (Ratzel 1844-1904, as condições naturais do meio, determinavam o nível de vida do povo que ali vivia) e a francesa (Vidal de La Blache 1845-1918, o homem tinha possibilidade de se adaptar ao meio onde vivia). No Brasil, segundo Vlach (2004), as idéias geográficas foram inseridas no currículo escolar apenas no século XIX, apareciam de forma indireta nas escolas de primeiras letras. No atual Ensino Médio, os Princípios da Geografia foram inseridos no Colégio Dom Pedro II, com objetivo de enfatizar a descrição e a dimensão do território, destacando suas belezas naturais.

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Segundo Moraes (1987), os interesses dos impérios europeus eram justificados como: Para Ratzel “conquistas cultas” e para Vidal de La Blache “missão civilizadora”.


80 A Geografia brasileira ganha status cientifico a partir da década de 1930, com a criação do primeiro curso a nível universitário na USP e da Associação de Geógrafos Brasileiros – AGB, em 1934. Inicialmente, com forte influência da Geografia Francesa, mais tarde, também contou com a presença de geógrafos alemães. A necessidade de dominar, conhecer e expandir os interesses do capital leva à criação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, em 1937, com o objetivo de mensurar a construção do espaço brasileiro. As pesquisas geográficas buscavam descrever as características físicas (solo, clima, relevo, hidrografia, riquezas minerais, etc), com o objetivo de servir aos interesses políticos do Estado e sua política nacionalista. Principalmente até o final da década de 1970, a Geografia caracterizava-se na escola, pelo caráter decorativo, focado na descrição do espaço, era fragmentada e distante da realidade. As belas paisagens ilustradas nos livros didáticos, ufanizavam um mundo belo e sem problemas aos nossos educandos. Fundamental na formação e fortalecimento do nacionalismo, tendo um papel significativo na consolidação do Estado Nacional brasileiro, principalmente nos períodos de governos autoritários. Essa corrente metodológica é conhecida como Geografia Tradicional. Com o movimento de renovação da Geografia (Geografia Crítica), debatido na academia a partir do final dos anos de 1970, registrou-se segundo Spósito (2004), uma nova vertente nos estudos geográficos, de inspiração dialética ou marxista, resultante de discussões metodológicas e ideológicas da Geografia, provocadas pelo texto de Yves Lacoste, “A Geografia: Isso serve antes de mais nada, para fazer a guerra” e pelo retorno ao Brasil de Milton Santos com seu trabalho “Por uma Geografia Nova”, publicado em 1978. Para Oliveira (2002), estas obras formaram o material básico a partir dos quais se passou a repensar a Geografia e com ela passou-se a repensar o Brasil. Para Corrêa (2003), a Geografia como ciência social, tem como objeto de estudo a sociedade que, no entanto, é objetivada via cinco conceitos-chave (espaço, paisagem, lugar, região e território) que guardam entre si forte grau de ligação, pois todos se referem à ação humana modelando a superfície terrestre. Estes conceitos são


81 fundamentais para o entendimento da dinâmica sócio - espacial a partir de uma abordagem geográfica. Destacamos, ainda, que, para nós, sucintamente, o objeto de estudo da Geografia é a formação do espaço geográfico. Evidentemente, para compreendermos coerente o espaço, precisamos apreender a dinâmica social, que se concretiza no espaço geográfico. 2 Conceitos básicos da Geografia O espaço é um conceito chave da geografia e trata-se de um termo muito utilizado em nosso dia-a-dia com significações distintas. Corrêa (2003) afirma que, é com a Geografia teórico-quantitativa, a partir de 1950, que o espaço aparece como um conceito-chave. Já na década de 70 com a geografia crítica o espaço reaparece concebido “como lócus da reprodução das relações sociais de produção, isto é, reprodução da sociedade”. (p.26). O espaço geográfico é resultado da dinâmica social, da reprodução das relações sociais, de dominação e subordinação. Segundo Santos (1980), sua definição é árdua, porque a tendência é mudar com o processo histórico, uma vez que o espaço geográfico é também o espaço social, é a natureza modificada pelo homem através de seu trabalho. “O espaço deve ser considerado como um conjunto de relações realizadas através de funções e de formas que se apresentam como testemunho de uma história escrita por processos do passado e do presente” (p.122). Também afirma que, o espaço é, então, um verdadeiro campo de forças cuja aceleração é desigual. O que explica porque a evolução espacial não se faz de forma idêntica em todos os lugares. Para Saquet (2002), o espaço geográfico é um produto da dinâmica socioespacial, ou seja, das relações sociais que os homens mantêm entre si, com a natureza nata e consigo mesmo. Este espaço é dia-a-dia reproduzido através do trabalho e demais atividades do homem e revela as contradições e desigualdades sociais, o espaço geográfico é, simultaneamente, resultado e condição dos processos sociais. Assim, espaço e sociedade condicionam-se mutuamente.


82 Sobre o processo de apropriação e construção do espaço geográfico, Saquet (2000) afirma que, o novo não chega a todos os lugares no mesmo momento histórico, pois: “É das desigualdades sócio-econômicas e político-culturais, no espaço, que o capitalismo se renova cada vez mais forte, integrando ao movimento de reprodução do capital não só atividades capitalistas clássicas como também atividades não especificamente capitalistas” (p.110). Assim temos “o espaço como acumulação desigual dos tempos” (SANTOS, 1980, p.209).

Desse modo, o processo de construção do espaço geográfico registra os diversos momentos da dinâmica da sociedade e, as peculiaridades dos lugares. Os agentes desta dinâmica materializam-se e marcam os tempos, os quais estão subordinados às forças do modo de produção capitalista. A caracterização destes momentos faz com que o espaço geográfico seja: “Produto, resultado e condição da contraditória dinâmica, sócio espacial”. (SAQUET, 2002, p.26). Outro conceito fundamental na Geografia Humana brasileira é o de território. Em sua reflexão, este mesmo autor afirma que o território é expressão concreta e abstrata do espaço produzido, a partir da multidimensionalidade de uma rede das relações sociais, econômicas, políticas e culturais, ligado ao processo de produção do espaço. Ainda, conforme o mesmo autor, o território é trabalhado como um elemento fundamental à constituição e expansão do Estado - Nação, e na Geografia Política de Ratzel esta noção é um elemento fundamental. E continua, referindo-se à abordagem ratzeliana: O território é compreendido como Estado-Nação, a partir do momento em que há uma organização social em sua defesa.[...] O território, desta forma, é entendido como substrato para a efetivação da vida humana sinônimo de solo/terra e outras condições naturais. O território aparece como palco. (SAQUET, 2003a, p.9).

Segundo Santos (1994), antes, era o Estado, afinal, que definia os lugares, o território era o fundamento do Estado-Nação que, ao mesmo tempo o moldava. Hoje, quando vivemos uma dialética do mundo concreto, evoluímos da noção tornada antiga, de Estado Territorial para a noção pós-moderna de transnacionalização do Território.


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Ao analisar o conceito de território, Spósito (2004) afirma que o mesmo estava “ausente das preocupações geográficas até recentemente, retorna com insistência na última década do século XX, como elemento que condiciona as relações de produção”.(p.119) Entendendo o território como relação de exercício de poder, Raffestin (1993), afirma: “o território é a prisão que os homens constroem para si”. (p.144). Para Saquet (2004), “os territórios são construídos espaço-temporalmente pelo exercício do poder. Desta forma podem ser temporários ou permanentes e se efetivarem em diferentes escalas”. (p.123) Um dos elementos que legitimam a formação dos territórios é o poder econômico, seja ele material ou imaterial. Desta forma, Raffestin (1993) nos afirma, temos a construção de malhas, nós e redes, que dão vida ao território e mobilidade aos homens que relacionam-se entre si, produzindo novas territorialidades. Para Santos (1994), em o “Retorno do Território”, o território, hoje, pode ser formado de lugares contíguos e de lugares em rede. São, todavia os mesmos lugares que formam redes e que formam o espaço banal. São os mesmos lugares, os mesmos pontos, mas contendo simultaneamente funcionalizações diferentes, quiçá divergentes ou opostas. (p. 16).

Buscando conceituar território, Andrade (1994), afirma que se deve ligar sempre a idéia de território à idéia de poder que se faça referência ao poder público, estatal, quer ao poder das grandes empresas que estendem os seus tentáculos por grandes áreas territoriais, ignorando as fronteiras políticas.

Conforme Raffestin (1993), o espaço é anterior ao território, ou seja, ao apropriar-se de um espaço, concreta ou abstratamente, o ator territorializa o espaço. Concordando com a idéia, Corrêa (1994) afirma que o território é uma apropriação por parte de instituições ou de grupos sobre um dado segmento do espaço. A territorialidade, por sua vez, refere-se: “[...] ao conjunto de práticas e suas expressões materiais e simbólicas capazes de garantirem a apropriação e permanência de um dado território por um determinado agente social, o Estado, os diferentes grupos sociais e as empresas”. (p. 251 e 252).


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Para Saquet (2004), o território é formado desde pequenas habitações, pontes, estradas, plantações, automóveis, antenas parabólicas, até grandes empreendimentos públicos ou privados, que o consubstanciam constantemente a partir das relações que envolvem e estas relações são políticas, econômicas e culturais, portanto, sociais, que efetivam diferentes redes e um determinado campo de forças sustentando o território. Ou seja, dependendo de cada momento histórico e lugar, há elementos econômicos, políticos ou culturais preponderantes na organização territorial, o que possibilita diferentes abordagens geográficas. A configuração do território ocorre num palco de lutas. Quando um determinado grupo de pessoas ou empresa (as) dominam um território é porque se apropriaram de determinado espaço, no qual, estabelecem relações de poder para manter a territorialidade. Ao perder tal domínio, ocorre a desterritorialização, se voltar a dominar aquele ou outro espaço conseguiu sua reterritorialização. Com o movimento da geografia crítica no Brasil, o conceito de paisagem foi, aos poucos retomado e ressignificado. O aspecto empírico herdado da geografia tradicional foi mantido entendendo a paisagem como: “[...] O domínio do visível, aquilo que a vista abarca. Não formada apenas de volume, mas também de cores, movimentos, odores, sons, etc” (SANTOS, 1988, p. 61). Geograficamente, a paisagem é tudo aquilo que podemos perceber por meio de nossos sentidos (audição, visão, olfato e tato), mas o que mais destaca é a visualização da paisagem. Em alguns casos, em sala de aula, costuma-se considerar como paisagem somente os elementos naturais, tais como montanhas, rios, mares, florestas entre outros, entretanto, paisagem também abrange as construções humanas como pontes, ruas, edifícios, além das relações humanas como feiras, estádios de futebol, nesses casos ocorre uma variação das paisagens, pois se trata de uma composição momentânea. Ou seja, a paisagem constituída por um conjunto de elementos dinâmicos criados pela natureza e pelo homem. Como exemplo, vamos considerar a observação de uma paisagem onde é visível o favelamento, tão comum nas grandes cidades é reveladora dos processos sociais


85 ocorridos, como, o êxodo rural, o desemprego e a má distribuição de renda. A construção das favelas transforma o ambiente natural de morros, rios, matas, alterando equilíbrios físicos e biológicos em prejuízo da própria condição da natureza e do homem. A paisagem é formada por objetos materiais e não-materiais e está em constante transformação, resultado das relações sociais e sua materialização. Para Santos (1980), a paisagem é diferente do espaço, “[...] é a materialização de um instante da sociedade. [...] O espaço resulta do casamento da sociedade com a paisagem. O espaço contém o movimento. Por isso, paisagem e espaço são um par dialético” (p.72). A observação e descrição da paisagem servem como ponto de partida para as análises do espaço geográfico, mas são insuficientes para a compreensão do mesmo. Saquet (2003), ao interpretar a realidade concreta, afirma que “descrever já é pensar, [...] descrever já é começar a apreender as contradições porque a aparência não está separada da essência”. (p. 17) Porém, diante das transformações que ocorreram na história do homem, principalmente a partir da segunda guerra mundial, quando a nova Divisão Internacional do Trabalho incorporou e subordinou novas áreas do planeta à lógica da expansão e reprodução do modo capitalista de produção, aumentando a interdependência entre as economias nacionais, a regionalização torna-se específica e particular. Os argumentos da globalização, da homogeneização dos espaços, exigiu uma ressignificação do conceito de região para além da diferenciação de áreas, “[...] as regiões são o suporte e a condição de relações globais” (SANTOS, 1994, p.196), ou ainda, “[...] nesta nova relação espacial entre centros hegemônicos e as áreas sob suas influências tenham surgido novas regiões”. (GOMES, 2003, p. 72) Santos (1988) nos afirma que, não há como considerar uma região autônoma, estudá-la significa penetrar num mar de relações, formas, funções, organizações, estruturas, etc; com seus mais distintos níveis de interação e contradição. Além disso, compreender uma região passa pelo entendimento do funcionamento da economia no nível global. Esta, aparece como distintas formas da mundialização, quanto mais os lugares se mundializam, mais se tornam singulares e específicos, paradoxalmente. “[...] Enquanto os processos modernos de produção se espalham por todo o planeta, a produção se especializa regionalmente”. (p.46).


86 A região torna-se importante categoria de análise, importante para que se possa captar a maneira como uma mesma forma de produzir se realiza em partes específicas do planeta ou dentro de um país, associando a nova dinâmica às condições preexistentes. (SANTOS, 1988, p.47).

Ainda de acordo com Milton Santos, um estudo regional deve detalhar sua composição como organização social, política, econômica e cultural, para reconhecer como a área se insere na ordem econômica internacional, levando em conta o preexistente e o novo, para captar o elenco de causas e conseqüências do fenômeno. Ainda afirma que, o mundo encontra-se organizado em subespaços articulados em uma lógica global.

Na escola, a exploração do conceito de região deve ir além de uma abordagem tradicional, de uma divisão regional cristalizada e imutável. A dinâmica das regiões atuais é marcada por determinações políticas e econômicas que influenciam a particularizam os espaços regionais. Sendo assim, região “[...] é a especificação de uma totalidade da qual faz parte através de uma articulação que é ao mesmo tempo funcional e espacial”. (CORRÊA, 1986, p.46) O conceito de lugar é um dos mais ricos do atual período histórico. O lugar é o espaço onde o particular, o histórico, o cultural e a identidade permanecem presentes. Segundo Carlos (2007), o lugar é a base da vida e pode ser analisado pela tríade habitante – identidade – lugar. As relações que os indivíduos mantêm com os espaços habitados se exprimem todos os dias nos modos de uso, nas condições mais banais. “[...] É o espaço possível de ser sentido, pensado e apropriado e vivido através do corpo”. (p.17). Santos (1980), conceitua lugar como “porção discreta do espaço total identificada por um nome”. (p. 121) O mesmo autor também afirma que, o lugar é a porção do espaço apropriável para a vida, é o bairro, é a praça, é a rua, e nesse sentido poderíamos afirmar que não seria jamais a metrópole ou mesmo a cidade latu sensu a menos que seja a pequena vila ou cidade, aquela vivida/ conhecida/ reconhecida em todos os cantos. Na qual, motoristas de ônibus, bilheteiros, são conhecidos e reconhecidos como parte da comunidade, cumprimentados como tal, não como simples prestadores de serviço. As


87 casas comerciais são mais do que pontos de troca de mercadorias, são também pontos de encontro. Na atualidade, o lugar é considerado tanto como produto de uma dinâmica que é única, ou seja, resultante de características históricas e culturais intrínsecas ao seu processo de formação, quanto como uma expressão da globalidade. Neste sentido, o lugar se apresentaria como “o ponto de articulação entre a mundialidade em constituição e o local, enquanto especificidade concreta e enquanto momento” (CARLOS, 2007, p. 16). Os lugares, como espaços produtivos, se destacam e se diferenciam pela concentração de objetos técnicos e ações. Com isso, as empresas negociam diretamente com os lugares onde querem se instalar ou de onde vão se retirar, influenciando a organização sócio - espacial. Pois a qualquer momento, outro lugar pode oferecer mais atrativos para sua reprodução e expansão. Assim, é no lugar que a globalização acontece, pois, cada vez mais ele participa das redes e deixa de explicar-se por si mesmo. Essa relação local-global traz em suas contradições próprias, a possibilidade, tanto dos lugares tornarem-se reféns dos interesses hegemônicos quanto de se contraporem a eles, organizando-se e fortalecendo sua singularidade. Para Santos (1994), frente à democracia de mercado o lugar “[...] é a sede dessa resistência da sociedade civil” (p.19). 3 Considerações sobre a Geografia e o Ensino Atualmente a Geografia precisa preocupar-se e tem condições para isso, de fazer uma analise do conjunto de relações que atuam no processo de construção do Espaço Geográfico, “a Geografia é uma ciência que nos possibilita o entendimento do movimento contraditório da sociedade contemporânea” (SAQUET, 2002, p. 16). Assim nosso educando terá uma visão de mundo e das forças que agem e configuram diferentes territórios, podendo interagir e interferir como cidadão ativo e atuante na busca de transformações na sociedade. “É preciso fazer uma Geografia comprometida com os interesses sociais”. (OLIVEIRA, 2002, p. 1).


88 A partir dessas considerações, cabe hoje a geografia e ao ensino de geografia, o papel de formar cidadãos capazes de realizarem a interpretação da totalidade mundo e de perceber os caminhos possíveis para tornar o mundo mais justo e humano. Para Callai (2003), o ensino da geografia deve incorporar o estudo do território como fundamental para que possa entender as relações que ocorrem entre os homens, estruturadas num determinado tempo e espaço. Também afirma que no período das séries iniciais do Ensino Fundamental, deve-se construir os conceitos básicos da área, e que são básicos para a vida. “[...] São os conceitos de grupo, espaço e tempo que permitem responder: Quem sou eu? Onde vivo? Com quem? Ao dar conta destas perguntas, estamos definindo a nossa identidade, reconhecendo a nossa história, identificando o espaço e o pertencimento ao mundo”. (p.77) Para isso, o mesmo autor, aponta a importância do estudo do município para esse período escolar. Nesta escala de análise, teremos próximos de nós os elementos que condicionam as relações sociais, econômicas e políticas do nosso mundo. Lembrando que a organização do espaço local, não se explica apenas a partir do próprio local, é importante estabelecer ligações e buscar explicações em nível regional, nacional e muitas vezes até internacional. O estudo do município permite que o aluno constate a organização do espaço e perceber nele a influência e interferência dos diferentes atores sociais ali existentes e também as decisões externas ao município, confrontando-se com os interesses da sociedade local. Diante da realidade em que vivemos, marcada pela intensificação dos fluxos de informações, muitas vezes manipuladas e carregadas de intencionalidades, precisamos agir no sentido de mediar a interpretação destes conteúdos a fim de contribuir para a formação de um cidadão atuante e preocupado com a construção de um espaço mais igualitário. Nas palavras de Milton Santos: “Devemos nos preparar, a fim de tentar fornecer as bases de reconstrução de um espaço geográfico, que seja realmente o espaço do homem, o espaço de toda gente e não e espaço a serviço do capital e de alguns”. (1980, p. 218)


89 REFERÊNCIAS ANDRADE,

M.

C.

de.

Territorialidades,

desterritorialidades,

novas

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