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A DESMITIFICAÇÃO DO COTIDIANO DO ALUNO: Uma discussão sobre os fatores externos que interferem em sua aprendizagem, sob o ponto de vista dos professores. Janaina Ribeiro dos Reis1, Karla Vello Meyrelles Barcelos2 ¹ Aluna do curso de Licenciatura em Pedagogia da Faculdade Método de São Paulo (FAMESP). 2 Professora Doutora do curso de Licenciatura em Pedagogia da Faculdade Método de São Paulo (FAMESP).

RESUMO Este artigo busca Investigar os fatores que interferem na aprendizagem do aluno sob o ponto de vista dos professores pesquisados, averiguar como os professores pesquisados pensam e lidam com o fracasso escolar do seu aluno, o que sabem e pensam os professores pesquisados sobre o papel da escola perante o fracasso escola. Desta forma, este estudo também auxilia os profissionais que lidam com crianças com dificuldade de aprendizagem, explicando com embasamento teórico, de acordo com autores como: Nádia Bossa, Gabriela Carrera, Margaret Pires Couto, Raimundo Ségio de Farias Júnior, Sione Maschio Felipe; Zilma Sansão Benevenutti, Regina C. Ellero Gualtieri; Rosário Genta Lugli, entre outros, como os diversos fatores externos que podem interferir no processo de aprendizagem. Trata-se de uma pesquisa de campo e o instrumento utilizado foi um questionário com perguntas abertas aplicado aos professores da rede estadual de São Paulo. Os resultados obtidos mostram que alguns professores entrelaçam as dificuldades dos alunos apenas com fatores internos, tais como biológicos, genéticos e psicológicos, onde o meio pouco interfere na aprendizagem do educando. Palavras- chaves: Fatores externos. Fracasso escolar. Aprendizagem.

INTRODUÇÃO O presente artigo tem como objetivo uma discussão referente aos fatores externos que interferem na aprendizagem dos alunos, tais como: fatores sócioeconômicos,

alimentação,

exclusão

familiar,

escolaridade

dos

pais

e

responsabilidade dos familiares no processo de ensino aprendizagem, renda familiar, moradia, pré-conceito e bullying. Busca mostrar o ponto de vista dos professores sobre este assunto. A palavra “desmitificação” neste trabalho tem o sentido de abolir o mito de que o cotidiano do aluno não interfere na aprendizagem e mostrar que o seu fracasso pode ser proveniente também de aspectos que estão além da sua vivência na escola.


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Busca uma maior compreensão destes fatores externos que culminam no fracasso escolar, explica que, o mau desempenho não é exclusivamente responsabilidade do aluno, que também há diversos fatores que interferem na aprendizagem. Revela um caminho para pensar na solução destas situações, que acontece fora do ambiente escolar, entretanto, interfere na aprendizagem das crianças, levando- as ao fracasso escolar. Apresenta qual é o papel da escola perante estas situações e quais seriam as atitudes necessárias a serem tomadas diante disto, uma vez que, a escola tem o papel importante em formar os alunos para o exercício de sua cidadania plena, sem exclusão ou preconceito. Processo de aprendizagem A aprendizagem pode ser considerada um processo que acontece no interior do ser humano e que desenvolve mudanças no comportamento, internalizando o conhecimento adquirido. Piaget, concebia a aprendizagem como sendo subordinada ao desenvolvimento, sendo que esta vem em um movimento de dentro pra fora do sujeito, pois, em um primeiro momento, está o desenvolvimento operário (cognitivo) caracterizado como individual a construção do conhecimento. Para que isso ocorra, a interação docente deve ser minimizada, isto é, o educador deve atuar como um provocador/ problematizador das hipóteses do aprendiz, criando contextos significativos capazes de levá-lo a cair em contradição com suas hipóteses e formular sínteses mais adequadas, pelo processo de equilibração (MOREIRA, p.49, 2010).

Conforme

as

idéias

de

Piaget,

a

aprendizagem

está

ligada

ao

desenvolvimento, é um processo de dentro para fora do indivíduo, cabe ao professor proporcionar situações pedagógicas onde o aluno possa se sentir desafiado. De acordo com Vygotsky a aprendizagem centra- se na transmissão dos conteúdos escolares (saberes culturais), dando grande importância à construção social e à intervenção do educador no processo de aprendizagem; para ele, a aprendizagem interage com o desenvolvimento, sendo que o ensino adequado é aquele que se antecipa ao desenvolvimento, sendo prospectivo, produzindo abertura no desenvolvimento para a construção de zonas de desenvolvimento proximal, onde o professor deverá atuar (mediação) (MOREIRA, 2010, p.49).

Para Vygotsky a aprendizagem ocorre por meio da interação, o indivíduo


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aprende e se desenvolve, são etapas que acontece simultaneamente, ou seja, de fora para dentro. O desenvolvimento e a aprendizagem estão inteiramente ligados, considera que o aparato biológico possa não ser suficiente para que ocorra a aprendizagem. Ele estabelece a zona de desenvolvimento proximal (ZDP) onde o educador deve atuar como mediador da aprendizagem do aluno. A hipótese de zona de desenvolvimento proximal, isto é, a distância entre o nível de desenvolvimento real (determinado pela capacidade do sujeito de resolver sozinho os seus problemas) e o nível de desenvolvimento potencial (determinado pela resolução de problemas sob a orientação de alguém) (MOREIRA, 2010, p. 50).

Moreira (2010) observa que Piaget acreditava que a aprendizagem ocorre de dentro para fora, primeiro o indivíduo internaliza e depois ocorre a aprendizagem. Vygotsky acreditava que a aprendizagem ocorre de fora para dentro, que a partir da interação com outros indivíduos e com o mundo ocorre o aprendizado. Seria apenas uma dessas concepções corretas? Existiria apenas uma resposta absoluta em relação à como ocorre o processo de aprendizagem? O recomendado seria que os educadores soubessem mesclar as duas teorias, utilizá-las de acordo com o perfil de seu aluno, analisar o que é necessário ser feito para que verdadeiramente haja a aprendizagem. Dificuldades de aprendizagem Não há uma resposta precisa referente à definição de dificuldades de aprendizagem, porém estudiosos já pesquisam novas possibilidades de defini-la. Segundo Felipe e Benevenutti (2013) [...] o termo dificuldades de aprendizagem está focado no indivíduo que não responde ao desenvolvimento que se poderia supor e esperar do seu potencial intelectual e, por essa circunstância específica cognitiva da aprendizagem, ele tende a apresentar desempenhos abaixo do esperado. (p.62).

Percebe-se que dificuldades de aprendizagem é um termo muito utilizado nas escolas, embora os diferentes profissionais que lá se encontram não saibam o seu verdadeiro significado. Alguns educadores rotulam os alunos como: “Têm dificuldades de


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aprendizagem”, mas não procuram saber se têm necessidades especiais, síndromes ou até mesmo se é de fator biológico ou genético de sua existência, apenas rotulam para ter como provar no final do ano o porquê o aluno não evoluiu, colocando assim, somente a culpa no aluno pelo seu fracasso (FARIAS, 2008). Segundo Bossa (2008, p. 22), “[...] os problemas de aprendizagem, ao longo da

história,

foram

explicados

por

concepção

médicas,

psicométricas

e

sociopolíticas”. Outros educadores usufruem das deficiências, transtornos, síndromes e doenças para justificarem que o aluno tem dificuldade na aprendizagem por decorrência desses fatores. Dentre todos estes fatores autores como Coutro (2012) mostram que crianças que apresentam dificuldades na aprendizagem, em alguns casos, são de classe sociais minoritárias, talvez pela falta econômica de recursos ou por não terem de seus pais presentes em sua vida escolar desenvolveram dificuldades escolares. Conforme afirma Couto As dificuldades de aprendizagem são concebidas como conseqüências desses conflitos e se manifestam preferencialmente em crianças oriundas de famílias problemáticas. A patologia relativa ao relacionamento dos membros da família é ainda mais acentuada quando a personalidade da criança é caracterizada por condutas agressivas, nervosismo e imaturidade (2012, p.27).

A presença da família é de suma importância para a aprendizagem do aluno, o auxílio dos pais faz com que ele se sinta motivado, entretanto, quando isso não ocorre, quando além de não receberem incentivos não são reconhecidos como “sujeito” da família e são deixados pelos pais, como resposta desta realidade de seu cotidiano nasce a rebeldia, onde o indivíduo se revolta à sociedade. Na escola é muito comum observarmos um comportamento agressivo de um aluno ou imaturidade em algumas situações (GUALTIERI; LUGLI, 2012). Magda Soares (2000) descreve em sua pesquisa a dificuldade de aprendizagem, tanto no discurso oficial da educação quanto no discurso pedagógico, à pobreza do contexto cultural dessas crianças e às deficiências que resultariam daí: carências afetivas, dificuldades cognitivas e déficit lingüístico (apud COUTO, 2012, p.39).

O fracasso escolar, atribuído à pobreza do contexto cultural da criança por decorrência da ausência de recursos, foi um ponto de vista que prevaleceu num dado momento histórico. Dentro deste entendimento acreditava-se que crianças sem


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incentivos, com pobreza no contexto cultural encontram dificuldades para se desenvolverem e acabavam desencadeando dificuldades em sua aprendizagem. Pode-se dizer que na falta de apoio familiar a criança busca em seu professor um ponto de referência, onde ele possa buscar tudo que não tem em sua família (COUTO, 2012). Muito se tem discutido sobre dificuldades de aprendizagem, porém é comum vermos pessoas confundirem dificuldades de aprendizagem com transtornos. Entretanto, é importante explicitar que, as duas expressões são diferentes e se manifestam de formas distintas. As dificuldades de aprendizagem estão diretamente relacionadas com os fatores externos que acabam modificando a forma do educando de aprender, elas vão desde a vida pessoal do aluno, a relação social da criança com seus colegas e a metodologia utilizada pela escola e pelos professores (BOSSA, 2008). Diante disso, as principais manifestações que ocorrem com crianças que apresentam dificuldades de aprendizagem, são: Dislexia: tem por características dificuldades na aprendizagem da leitura, Disgrafia: tem por caracteristica dificuldades na escrita (podendo ou não associar-e à dislexia), Disortografia: tem por característicaa dificuldade de transcrever corretamente a linguagem oral, Dislalia: tem por característica dificuldades na fala, Discalculia: tem por característica dificuldades para cálculos e números e TDHA: tem por característica atividade excessiva e impulsividade (RIBEIRO, 2012 apud FELIPE; BENEVENUTTI, 2013, p. 63).

Os transtornos estão inteiramente ligados a disfunção biológica do ser humano, pode ser adquiridos ou hereditários. De acordo com a definição atual de transtornos específicos da aprendizagem (TEA), estes implicam um rendimento na área acadêmica abaixo do esperado para a idade, o nível intelectual e o nível educativo,cujas manifestações se estendem para as outras áreas da vida somente naqueles aspectos que requerem a leitura, a escrita ou cálculo; o que deixa fora deste diagnóstico o atraso mental, os transtornos de linguagem e os déficits sensoriais primários (déficits visuais e auditivos) que afetam de forma global a vida cotidiana (CARRERA, 2012, p. 93).

É importante que o educador saiba diferenciar dificuldades de aprendizagem de transtornos, pois é muito comum vermos crianças com dificuldades de aprendizagem sendo rotuladas e adquirindo laudo de transtornos, sendo medicadas sem necessidade.


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Fatores externos que desencadeiam o fracasso escolar Atualmente nas escolas nem sempre ocorre o sucesso e a aprovação dos educandos. Muitas vezes, no decorrer do ensino, nos deparamos com problemas que levam os alunos ao fracasso de seu processo de aprendizagem sendo eles rotulados pela própria família, professores e colegas. “Os

aspectos

culturais,

sociais,

familiares,

pedagógicos,

orgânicos,

intrapsicológicos e a maturação biológica não existem de formas isoladas, ou seja, não há nada que interfira em algum deles que não envolva os demais (BOSSA, 2008, p. 35)”. Existe uma visão da criança ideal, que a escola acaba adquirindo para responder suas demandas, ocorrendo uma exclusão para os alunos que não se encaixaram nela. O que resta para essas vítimas, que têm alguma defasagem por decorrência de algum dos fatores citados anteriormente, são: os estigmas, por não conseguirem acompanhar a turma, o preconceito; por terem dificuldades na aprendizagem e principalmente à exclusão; pelo fato de que, os educadores já os excluírem, não somente das atividades, mas também do convívio dos colegas (FARIAS, 2008). Psicologicamente, essas crianças acabam tomando para si o pensamento de ser um ser incapaz, internalizando essa teoria, acabam em um abismo cada vez mais fundo, em alguns casos mais graves, o fracasso escolar pode desenvolver distúrbios ou até mesmo à depressão (CARRERA, 2012). A visão de criança ideal deixa bem claro que a criança real é a culpada pela sua impossibilidade de aprender ou acompanhar o desenvolvimento da sala, ou seja, o aluno que não aprende o que a escola determina suporta toda a rejeição destinada a aqueles que questionam o ideal aluno (FARIAS, 2008) . Podemos esperar que, um dia, alguém se aventure na elaboração de alguma patologia das comunidades culturais, talvez possamos também nos familiarizar com a ideia de existirem dificuldades ligadas á natureza da civilização, que não se submeterão a qualquer tentativa de reforma (FREUD,1980, p.169 apud BOSSA, 2008, p.17).

Embora haja uma defasagem na cultura das crianças que apresentam dificuldades de aprendizagem, ainda não há como explicar fisiologicamente como o fracasso acontece, não há uma causa reconhecida, exceto quando há fatores que


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interfere na maturação biológica do indivíduo. O que se pode afirmar é que em fase de desenvolvimento (infância) o meio interfere na construção do “eu” do ser humano (SCOZ, 1994). “Não podemos esquecer também aquela situação em que crianças e jovens têm abaladas sua autoestima, em sua suposta incompetência e contra a qual julgam que pouco há para fazer. Essa situação, geralmente, acompanha todas as outras” (GUALTIERI; LUGLI, 2012, p.11). Decorrente do fator ambiental, das situações já vividas pelo indivíduo, possivelmente

aparecerão

sintomas

como:

baixa

autoestima,

depressão,

agressividade e sentimento de impossibilidade na realização das tarefas escolares, isso se desenvolve com rapidez nesses alunos, pois já estão fragilizados e tomaram para si o discurso que o culpado pelo seu fracasso é somente ele. Fatores sócio- econômicos

“A escola tem como principal função formar cidadãos capazes de serem críticos para exercício de sua cidadania sem exceções ou discriminação” (VAN, 2008, p. 46). É possível interpretar essa definição diante a questão socioeconômica atual onde a formação do indivíduo economicamente ativo e capaz de tomar suas decisões conscientemente faz com que ele colabore com o desenvolvimento da nação. Aqueles que não participam ou participam informalmente da economia do país são excluídos, simplesmente deixam de fazer parte da sociedade por não gerar renda. A seleção informal ocorre nas classes minoritárias, onde a exclusão é evidente entre as categorias. De acordo com as análises já feitas por Marta Helena Souza Patto (1990, 1997), “[...] pesquisas demonstram que o fracasso escolar das crianças das camadas mais empobrecidas foi predominante explicado no Brasil, durante os anos de 1970-1980, utilizando-se como referência a teoria da carência cultural” (apud COUTO, 2012, p. 29).

A teoria da carência cultural surgiu no Brasil no período de 1970-1980 para afirmar que, as crianças de classe social inferiores, desenvolvem dificuldades para aprender na escola e não conseguem acompanhar os demais. A teoria seguia a linha de raciocínio de que, uma criança sem estímulos, sem uma bagagem cultural


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da classe dominante não conseguiria aprender e que seria necessário introjetar a cultura da classe superior para haver o sucesso escolar. Perante isso, Couto afirma que: [...] A teoria foi produzida pela psicologia educacional norte-americana nos anos 60 e 70, para explicar o problema das desigualdades sociais e suas teorias, como um fato social naturalizado, a cultura popular, como pobre de estímulos necessários ao desenvolvimento psíquico, e a criança pobre, portadora de deficiências de toda ordem. Assim, negros e minorias latinas seriam portadores de deficiências físicas e psíquicas adquiridas em seu ambiente familiar, considerando insuficiente nas práticas de criação dos filhos (2012, p.29).

De acordo com a teoria o fracasso escolar era inevitável para as famílias de classes desfavorecidas de recursos financeiros, eles acreditavam que, apenas existia

uma

cultura

absoluta,

da

classe

dominante,

desconsideravam

o

conhecimento das outras culturas existentes, alegando que eram pobres e que esse seria o motivo do fracasso dos alunos nas escolas. [...]Para a teoria da carência cultural, as crianças das camadas populares apresentam um déficit linguistico, resultado da privação linguística que sofrem no contexto cultural e familiar em que vivem. Esse déficit linguistico produz um déficit cognitivo e torna-se o principal responsável pelas dificuldades de aprendizagem da criança na escola (COUTO, 2012, p. 40).

Apesar da ausência dos estímulos, da privação linguística, de apenas conhecer e vivenciar os mesmos hábitos, de seguir a mesma cultura, acredita-se que não há uma cultura absoluta a se seguir, e nenhuma cultura deve ser introjetada em nossos alunos. O que pode ser feito é buscar na rotina pedagógica do professor abranger diversas culturas, procurando unir os alunos da sala, para que troquem conhecimentos de sua cultura. Renda familiar e moradia

Condições precárias, a falta de recursos ou até mesmo a classe social familiar interferem no processo de aprendizagem dos educandos. Em ambientes precários das classes sociais minoritárias, sem recursos e estímulos dos pais, provavelmente as possibilidades de ocorrer o fracasso escolar é frequente. O ambiente familiar geralmente é descrito como pobre ou precário em termos das condições que oferece ao desenvolvimento psicológico da


9 criança; barulhento desorganizado, super populoso e austero são termos frequentes usados para qualificá- lo. Além disso, é constante a referência à falta de artefatos culturais e de estímulos perceptivos que favoreçam o desenvolvimento da prontidão para a aprendizagem escolar, destacando- se a pobreza e a desorganização dos estímulos sensoriais presentes. (PATTO, 1997, p. 260, apud COUTO, 2012, p. 29).

O espaço onde se mora, que as vezes nem existem lugares onde o aluno possa estudar, ou até mesmo, pela super população familiar em apenas uma casa dificulta na continuidade das tarefas realizadas na escola. A ausência de recursos culturais transmitidos pelos pais para seus filhos desfavorecem o conhecimento prévio do aluno, deixando-o sem referências, sem a noção de seu próprio conhecimento de mundo. Segundo Couto: [...] ainda são a criança pobre, sua família e suas condições de vida as grandes responsáveis pelas dificuldades escolares. Responsabiliza a desestruturação familiar, a falta de apoio dos pais, o desinteresse destes pela vida escolar de seus filhos, a falta de estimulação em casa para o estudo (COUTO, 2012, p.36 apud CABRAL; SAWAYA, 2001, p.146 ).

Diante destes fatores familiares e sociais, pode-se observar que, para aprender e se desenvolver o aluno necessita ir muito além do ensino tradicional em sala de aula, precisa ter em sua vida escolar os aparatos que talvez não são vivenciados em seu cotidiano, necessita dos estímulos que em casa não são realizados para que ele possa efetivamente evitar o seu fracasso escolar. Freire, (1996) em um de seus relatos, expõe a sua opinião dizendo que: quanto mais pobre for o aluno (em termos materiais), mais rica deverá ser sua escola, sendo que a riqueza aqui mencionada não é somente aquela de valores materiais, como recursos tecnológicos, materiais didáticos de qualidade, ou coisas do gênero; riqueza de intenções, relação afetiva com o aprendiz (aquela que afeta e não a hipócrita), alegria e esperança (do verbo esperançar) (apud MOREIRA, 2010, p.24).

Embora o pedagogo tenha encontrado dificuldades na aprendizagem do aluno, é necessário buscar diversos recursos para que ele possa aprender a verificar a sua metodologia e não rotular o aluno. Talvez por falta de instrução, de pesquisar, alguns professores não saibam lidar com quem não aprende, apenas o excluem de toda a rotina escolar, com medo de chegar perto pelos seus trajes, odores ou até mesmo pela falta de materiais. Como o professor é modelo em sua sala de aula, os outros alunos reproduzem o mesmo comportamento, ambos no mesmo ambiente,


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mas separados pelo preconceito.

Alimentação Diante dos alunos que enfrentam todos esses fatores em seu cotidiano, a falta de alimentos em sua casa é inevitável, já que a ajuda de custo do governo é insuficiente para manter uma família e nem todos que necessitam recebem. Conforme a análise feita por Farias, (2008) é um fator permanente nas escolas crianças que não se alimentam em casa por não terem o que comer, vão para a escola pensando na merenda da hora do recreio. Nesta situação, a escola acaba atribuindo outra função, de fornecer alimentos que possam combater a fome das crianças, contribuindo para melhor aprendizagem, pois se uma criança não se alimenta, compromete o seu aprendizado. Ao priorizar na concepção de aluno a carência e a fome, a merenda deveria até evoluir de complemento alimentar para uma refeição, porque ela significaria para a maioria das crianças a refeição principal do dia e a única garantida, contribuindo para o aumento da importância da escola. Enfim, uma questão de sobrevivência (BEZERRA, 2009, p. 108).

É evidente que, a merenda escolar é planejada por profissionais competentes que buscam proporcionar às crianças alimentos ricos em vitaminas para que elas possam crescer saudáveis, porém muitas vezes, essa refeição é elaborada como lanche da tarde e não como refeição. Para os professores, a merenda escolar é uma atividade essencial na escola, um importante complemento com função tríplice: ajudaria a recuperar a deficiência alimentar do aluno; determinaria a frequência do aluno; e contribuiria para melhor aprendizagem (BEZERRA, 2009, p. 109).

Se as escolas adotassem a merenda escolar como refeição principal, reconhecendo o importante valor que a alimentação têm perante a aprendizagem do aluno por consequência as beneficiaria na frequência do aluno, a sua atenção para a aprendizagem melhoraria. Sabemos que não é de total responsabilidade garantir a refeição para essas famílias, porém o que fazer se não há quem ampara estas famílias que tanto precisam? Escolaridade dos pais e responsabilidade dos familiares no processo de


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ensino aprendizagem Hoje em dia, algumas das mulheres se tornam mães na adolescência, sem preparo e sem condições financeiras para criar uma criança, se amasiam e vão morar em lugares de alto risco com poucas condições para a sobrevivência. [...] diante do argumento da família desestruturada ou dos conflitos familiares como causadores do fracasso escolar, do modo como se entende o sintoma e sua relação com a estrutura familiar e com a fundação paterna na psicanálise de orientação lacaniana (COUTO, 2012, p. 55).

Com a formação de pais adolescentes, sem instrução, imaturos para as responsabilidades que uma família exige, ocorre a construção de um desarranjo familiar, formando uma família desestruturada, incapaz de resolver os conflitos familiares O sintoma, nessa concepção, é tomado com uma disfunção proveniente de um desarranjo familiar que, assim, precisam ser eliminado. Opera-se então, uma verdadeira exclusão da condição de sujeito da criança, ao supô-la como um mero objeto do outro, vítima das condições ambientais de sua família, que têm como efeito empurrá-la cada vez mais para a situação de fracasso (COUTO, 2012, p. 55).

O desarranjo familiar faz com que os sujeitos que a compõe se sintam vítimas das situações que enfrentam em seu cotidiano, colocando a culpa nas condições ambientais em que a família vive. Talvez, estas mudanças sejam decorrentes a nova estrutura familiar, a mudança de união entre casais. A família moderna é resultado de uma contração da instituição familiar, que sofreu um profundo remanejamento até sua forma atual, movida, principalmente, pelas mudanças ocorridas na instituição do casamento, ou, melhor dizendo, no regime de aliança (COUTO, 2012, p.73).

Por decorrência da desestruturação familiar, sem dúvidas o membro mais afetado são as crianças, que mesmo sem seu consentimento se tornam reféns das situações ambientais que cercam as suas famílias. Sendo ainda imaturas, acabam tornando-se vítimas das situações em que vivem, esta reflete em sua vida escolar com comportamentos agressivos, desinteresse em aprender, rebeldia ou de mesmo ausência na interação com o grupo. Uma das estratégias utilizadas por alguns professores, quando os alunos apresentam problemas para aprender, é entrar em contato com os pais. Muitas vezes elas mesmas convocam e dirigem as entrevistas: perguntam sobre a vida da criança, informam sobre as dificuldades de aprendizagem


12 apresentadas e, eventualmente, solicitam algum tipo de providência ou ajuda (SCOZ,1994, p. 114).

Ocorre nas escolas reuniões de pais ou responsáveis, entretanto, o que se pode analisar é que somente os responsáveis dos alunos com bom rendimento na escola, estão presentes nessas reuniões e quando vão, não buscam soluções para a melhoria da aprendizagem da criança. Os alunos que têm dificuldades, que realmente necessitam de parceria da escola com a família, em alguns casos, não se há contato com os responsáveis, e quando há, ocorre por contato de convocações onde sem a presença dos pais fica suspensa a entrada do aluno na escola (COUTO, 2012). […] é importante que as professoras estejam preocupadas em rever a própria atuação tenha a oportunidade de um contato mais próximo com as famílias dos alunos. Entretanto, a falta de sistematização desses contatos acaba interferindo na rotina diária de trabalho e prejudicando as atividades pedagógica, principalmente porque a carga horária em sala de aula, já pequena, mal dá conta do dia a dia de trabalho na escola (SCOZ,1994, p. 115).

Nesses encontros de convocação os responsáveis acabam indo à escola conversar com a professora em momento de aula dos alunos, prejudicando os horários estabelecidos pela professora das atividades. “A falta de contato com os pais dos alunos que apresentam dificuldades para aprender foi apontada pelas professoras como empecilho para que suas dificuldades sejam solucionadas” (SCOZ,1994, p.143). A ausência dos pais na vida escolar dos alunos prejudica em sua aprendizagem, o acompanhamento no processo de ensino-aprendizagem deve ser realizado não somente participando das reuniões, mas tomando para si a responsabilidade da formação de seu filho. A família hoje está cada vez menos responsável pela educação de seus filhos. […] é preciso resgatar a responsabilidade da família porque ela acha que a gente tem de assumir tudo. A família está cada vez com menos compromissos e a escola assumindo tudo (COHEN, 2006, p.144 apud GUALTIERI; LUGLI, 2012, p.64).

É essencial a família ter conhecimento de que também é de sua responsabilidade a educação de seu filho, necessita assumir o compromisso de educá-lo e de proporcionar a ele situações que o faça progredir em seu desenvolvimento.


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Exclusão familiar (maus tratos e abuso) Hoje em dia, existem casos de algumas mulheres abandonarem seus filhos, quando isso não ocorre há uma exclusão da criança, ela é criada como um estorvo na família, algo não planejado, que não necessita de cuidados. As características adquiridas, em última instância, nas experiências vividas no ambiente familiar nos primeiros anos de vida resultariam num retardamento ou deficiência na aquisição de habilidades perceptivas, perceptivo-motoras, verbais e na formação de padrões motivacionais e de atitudes incompatíveis com o desenvolvimento intelectual e com o sucesso escolar (COUTO, 2012, p.30 apud PATTO, 1997, p.262).

Essa exclusão pode causar retardo no desenvolvimento da criança, ela não consegue entender o porquê desta rejeição e por este motivo acaba se excluindo também da realidade e da aprendizagem. A família humana desempenha um papel primordial na transmissão da cultura. A família prevalece na primeira educação, na repressão dos instintos, na aquisição da língua chamada materna. Ela preside os processos fundamentais do desenvolvimento psíquico e transmite estruturas de comportamento e de representação cujo jogo ultrapassa os limites da consciência (COUTO, 2012, p.73).

Quando acontece a exclusão a criança perde toda a função cultural que a família tem, pois é nela em que o indivíduo tem contato pela primeira vez a educação, ela não evolui nos processos psíquicos e não adquire comportamentos desempenhados pelos membros familiares. Sem o contato familiar, com esta exclusão, o aprendizado do aluno se dificultará cada vez mais. Quando ocorre o abuso sexual da criança, além do trauma e da frustração ela sofre retardação em seu desenvolvimento, por receio do que possa acontecer com ela, se isola do contato com o grupo. As crianças vítimas de abuso sexual que apresentam dificuldades de aprendizagem, geralmente, não têm as respostas educativas de que precisam, o que as torna alunos excluídos mesmo que presentes no contexto de sala de aula (LOPES; TORMAN, 2007 apud MARMITT; LOPEZ, 2008, p. 04).

Em alguns casos, nem o contato com o educador é permitido pela criança, que em seu pensamento irá fazer mal. Em outros, a professora é o ponto de equilíbrio onde a criança se sente a vontade para desabafar a sua situação.


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É evidente que o abuso sexual interfere na aprendizagem do aluno, pois por decorrência do fato, que envolve fatores físicos, emocionais e psicólogos ela não se sente mais parte do grupo e acaba se excluindo. Diante desta situação, o que nós pedagogos que temos contato com esta criança podemos fazer? Por ter este contato, quase que diário, com a criança, a escola pode e deve ser um agente de proteção, e pode chegar a ser o único refúgio da criança abusada (FARINATTI e FONSECA, 2000). A escola, muitas vezes, é a única a zelar pela proteção do aluno, como nos casos em que a própria família da criança é a responsável pela violência (INOUE; RISTUM, 2008 apud MARMITT; LOPEZ, 2008, p. 04).

Não podemos ser omissos a essa situação, o abuso infantil é crime e causa sérios danos as crianças, nós como pedagogos, além de prezar pela aprendizagem do educando devemos cumprir com a nossa função de cidadãos ativos na sociedade e denunciar situações como esta. Pré- conceito (bullying, etnias, estereótipos e estigma) É muito comum situações de bullying na escola, alunos ofenderem alunos ou até mesmo professores ofenderem alunos, porém o bullying para a pessoa ofendida atrapalha muito em seu processo de aprendizagem, pois de tanto ser maltratado o aluno internaliza e toma para si como uma verdade absoluta, se retraindo cada vez mais. Há casos mais graves de até desencadear doenças como a depressão. O bullying é um comportamento agressivo repetido que pode se revestir de várias formas e que ocorre no âmbito de um desequilíbrio de poder físico ou psicólogo entre o agressor e a vítima. Aquilo que Olweus (1993: 10) designa como uma ''relação de poder assimétrica'' . É uma forma de violência que envolve uma diferença ou desequilíbrio de poder entre agressor e agredido. [...] Portanto, o bullying consiste na violência física e/ou psicológica consciente e intencionalmente exercida por um indivíduo ou um grupo sobre outro indivíduo ou grupo incapazes de se defenderem e que, em consequência de tal agressão, ficam intimidados, podendo ter afetada a sua segurança, autoestima e personalidade (VENTURA; FANTE, 2013, p. 22 ).

Conforme a definição da palavra bullying é possível perceber que estas situações acontecem diariamente nas escolas, que necessita das intervenções do pedagogo para que elas sejam eliminadas do cotidiano escolar.


15 O sofrimento provocado pela perseguição do bullying reflete-se também em dificuldade de concentração, queda do desempenho escolar e medo de ir à escola: a criança implora para faltar do colégio, com a esperança de escapar dos que a atormentam. Com a persistência dos ataques, quase todas as vítimas se isolam, chorando com frequência, evidenciando claros sinais de angústia (MALDONADO, 2011, p.17).

O exercício do bullying na escola prejudica a aprendizagem do aluno, além de se isolar, a criança acaba se sentindo insegura, com baixa autoestima, falta de concentração nas atividades e rejeição ao ambiente escolar. Esta situação acontece também pela etnias do aluno, somente pelo fato, por exemplo, de ser negro ou até mesmo oriental a criança sofre na interação com os seus

colegas,

eles

não

se

relacionam.

Pelos

estereótipos existentes hoje na sociedade, modelos prontos, os indivíduos que não se encaixam são excluídos, são como padrões exigidos pela sociedade, que levam os alunos a terem estigmas que são marcas que levarão em sua vida para sempre por decorrência do trauma, que não os possibilitam de aprender (VAN, 2008). A figura da criança como um todo, não nasce com preconceitos, ela adquiri com o tempo, nas interações existentes com as pessoas de seu cotidiano. O trabalho de conscientização à preservação e da integridade infantil deve ser realizada nas escolas, para que cada vez mais os educandos entendam e possam conviver com as diferenças (MOREIRA, 2010). O papel escolar na formação social e pessoal dos educandos A escola é uma das instituições de socialização da criança. Logo quando a criança entra para a escola, ela estabelece condutas novas e reproduz novos comportamentos na interação com os outros. Tais que, são essenciais para a formação pessoal do educando. Está descrito na Lei de Diretrizes e Bases (LDB, Lei nº 9.394, 1996) que “ a escola tem como principal função formar cidadãos capazes de refletirem para o exercício pleno de sua cidadania sem exceções ou discriminação de qualquer indivíduo” (BRASIL, 1996). Dos Princípios e Fins da Educação Nacional: [...] “A educação, é dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (BRASIL, 1996)”.


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O professor também é de extrema importância na formação do aluno, pois é de sua responsabilidade estabelecer regras e transformá-los a serem capazes de refletir sobre nossa sociedade. Segundo Vygotsky, “a escola tem um papel essencial na promoção dos indivíduos e o professor um papel central na trajetória dos mesmos (MOREIRA, 2010, p. 46)”. Diante do que a lei prevê e da função escolar de fazer com que o aluno avance em sua aprendizagem pode-se analisar algumas questões, pois se está previsto nas diretrizes e é função da escola fazer com que o aluno se desenvolva e aprenda, como ainda existe o fracasso escolar na aprendizagem de muitas crianças? O que seria válido rever nesta falha de comunicação entre a lei e o que realmente acontece com a aprendizagem dos educandos? Interferência escolar na socialização

A escola como instituição de socialização, tem como função proporcionar a interação entre os alunos, o convívio com outras crianças e adultos ensinando normas, regras, valores e diferentes culturas impostas pela sociedade. Para Durkheim [...] a socialização está relacionada com a ação exercida pelas gerações adultas sobre aquelas que ainda não estão maduras para a vida social e tinha como objetivo suscitar e desenvolver na criança um certo número de estado físicos, intelectuais e morais exigidos dela e da sociedade política em seu conjunto e do meio especial ao qual ela está particularmente destinada (1973, p.51 apud VAN, 2008, p.127).

Em nossa sociedade, nossos valores, condutas, normas e culturas vêm se passando à gerações, tudo para fazer com que a criança se mantenha em sua vida social e de acordo com o meio em se vive. Estudando as relações entre as famílias populares e a escola, verificou que as práticas de socialização das famílias podem não convergir com a lógica que organiza o cotidiano escolar, uma vez que aquilo que a escola exige como comportamento “natural”, expresso na tão repetida frase “a educação se traz de casa”, frequentemente é feito de outra forma pelas famílias populares (THIN, 2006 apud, GUALTIERI; LUGLI, 2012, p. 62).

Em decorrência a diversos fatores, sejam ambientais ou inatistas a estrutura familiar vem sofrendo grandes mudanças e com isso se estabelece novos modelos


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sociais de comportamento e valores morais para seus filhos. Este acontecimento acaba pondo em conflito a socialização escolar, uma vez que, se há duas práticas no mesmo indivíduo completamente diferentes, ele se confunde e acaba não se desenvolvendo, levando não somente a sua aprendizagem ao mau desempenho, mas acarretando a um dos fatores para desencadear ao fracasso escolar. Outro fator que também contribui para o fracasso escolar, segundo a autora Couto é : O fracasso da escola pública elementar, de acordo com ela, de má qualidade, é o resultado inevitável de um sistema educacional que reproduz as condições de produção dominantes na sociedade com suas relações hierárquicas de poder, segmentação e burocratização do trabalho pedagógico (2012, p.34).

Vivemos em um país capitalista, onde a classe dominante mantém os dominados como reféns. Na situação escolar não é diferente, muitas vezes as instituições de qualidades são as escolas privadas, os que fazem parte das classes desfavorecidas não têm acesso por motivos financeiros. Com este acontecimento fica evidente que o sistema educacional reproduz o comportamento capitalista, é óbvio que, os dominantes não querem o sucesso escolar destas crianças “pobres”, pois se terem uma educação de qualidade, se tornar assim como está previsto na LDB, ascenderão socialmente e concorrerão com os dominantes. Analisando o fracasso escolar e suas representações em pais, alunos e professores, Sirino e Cunha (1997) verificaram que os professores têm uma visão pessimista quanto ao desempenho dos alunos da escola pública, pois a veem como “pobre” passando um ensinamento “pobre”, perpetuando, assim o ciclo de reprodução desse fracasso (apud MOREIRA, 2010, p.21).

Muitos educadores que atuam em escolas públicas fazem o possível para que o direito do aluno de aprender seja cumprido com excelência, porém esta é a minoria, mais da metade acredita que, pelo fato não ter muitos recursos para ensinar, serem desvalorizados, salas com super lotação de alunos e serem oriundos das classes minoritárias é impossível em escolas públicas evitar o fracasso do aluno e da escola. Não se trata, entretanto, de atribuir ao professor à culpa e a responsabilidade isolada pelo fracasso escolar, pois há razões muito maiores (externas à escola) que causam e/ou sustentam o insucesso acadêmico do aluno de classes populares. Seria ingenuidade acreditar que somente ao educador cabe toda a responsabilidade pelas dificuldades de aprendizagem do educando (MOREIRA, 2010, p.22).


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Os educadores têm uma importante posição e responsabilidade no processo de ensino- aprendizagem dos alunos, entretanto, o sucesso e o insucesso vai muito além dele, há diversos fatores ambientais e inatistas relacionados na aprendizagem do aluno. Para que ele progrida é necessário que haja uma conexão no tripé: escola, família e aluno. Pesquisa de Campo Objetivos  Investigar os fatores que interferem na aprendizagem do aluno sob o ponto de vista dos professores pesquisados;  Investigar como os professores pesquisados pensam e lidam com o fracasso escolar do seu aluno;  Investigar o que sabem e pensam os professores pesquisados sobre o papel da escola perante o fracasso escolar.

Metodologia

A pesquisa foi realizada com cinco (5) professores, ambos fazem parte da rede Estadual de São Paulo e atuam no Ensino Fundamental I na escola Professora Maria Odila Guimarães Bueno. Utilizou-se um questionário com quatro (4) perguntas estruturadas de caráter qualitativo sobre a interferência dos fatores externos na aprendizagem dos alunos. Os entrevistados foram escolhidos de forma aleatória sendo os mesmos da rede Pública Estadual atuantes na mesma escola. A aplicação foi realizada individualmente onde cada educador assinou o termo de consentimento, ciente da utilização das respostas para a análise deste trabalho.

Sujeitos


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Participaram da pesquisa professores atuantes do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental I da rede Pública Estadual do ensino de São Paulo, com idade entre 25 e 55 anos de idade. Seu tempo de formação no magistério, descrição de idade e sexo é demonstrado abaixo por meio de uma tabela e para preservar a identidade dos professores foram nomeados com algarismos romanos.

Tabela 01.Perfil dos sujeitos. Professores

Magistério/ Pedagogia

Idade

Sexo

I

25 anos

50 anos

Feminino

II

16 anos

39 anos

Feminino

III

28 anos

55 anos

Feminino

IV

3 anos

25 anos

Feminino

V

9 anos

27 anos

Feminino

Fonte: Autoria própria.

Apresentação e análise dos resultados A primeira questão de análise qualitativa foi apresentada aos professores para saber o conhecimento deles sobre os fatores que interferem na aprendizagem dos alunos: Em sua opinião, o que interfere no processo de aprendizagem dos alunos? Diante dessa pergunta, a professora I e IV seguiram a mesma linha de raciocínio, ambas responderam que a falta de interesse dos pais, a ausência deles na vida escolar de seus filhos prejudica no aprendizado do aluno, que " Um sistema social onde há de uma certa forma uma inversão de valores, onde é dado mais valor a quem se dá bem passando os outros para trás a desestrutura familiar e a violência são fatores que interferem na aprendizagem dos alunos". A professora II declara que, o meio social em que a criança vive, o cotidiano, o baixo nível de cultura e a condição sócio-econômica interfere no processo de aprendizagem. A professora V descreve que "as condições sócio- ambientais do aluno e a parceria da família com a escola interfere na aprendizagem". A professora III acha que somente o despreparo escolar, metodologias desatualizadas, profissionais despreparados


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interfere na aprendizagem, relata que, a escola necessita realizar um planejamento de acordo com a sua clientela. De acordo com as respostas das professoras I, II , IV e V nota- se que alguns educadores têm conhecimento sobre os fatores externos que interferem na aprendizagem dos alunos, consideram a criança como um ser social, onde as suas situações vividas não são excluídas quando chegam a escola, sabem que, a vida social, o cotidiano e a desestruturação familiar possivelmente levam os educando ao fracasso escolar. Entretanto, a resposta da professora III mostra que existem educadores que desconsideram a existência desses fatores, não acreditam que a vida e o meio social em que a criança está inserida interfere no aprendizado. Ela descreve que a tarefa de ensinar é função exclusiva da escola e que para um aluno avançar na aprendizagem a escola necessita replanejar a sua metodologia. A resposta desta professora (III) não está fora do contexto, porém, vimos na literatura deste artigo que […] Os aspectos culturais, sociais, familiares, orgânicos e biológicos interferem no aprendizado dos alunos (BOSSA, 2008). Quanto à segunda questão descrita, ela pretendeu abordar o que o educador faria com o aluno que fracassa na escola para que ele avance na aprendizagem. A pergunta foi repassada da seguinte forma: em sua opinião, o que fazer quando o aluno fracassa na escola para que ele possa avançar em sua aprendizagem? A professora IV respondeu que ‘’diversificar a sua metodologia ajuda para se trabalhar com alunos que apresentam dificuldade na aprendizagem, que utilizar letras móveis, parlendas, músicas e atividades relacionadas com a sua vivencia é importante para que o processo de aprendizagem aconteça’’.

A professora V

apresenta uma proposta de ‘’trazer o aluno para sentir-se parte da escola, procurar conhecê-lo, saber de suas vivências, pois o fracasso escolar se reproduz pelo fato dos alunos não se sentirem parte da escola, por não acharem significado nela’’. A professora II acha que ‘’não tem muitas opções, pois não tem autonomia nem flexibilidade para lidar com os alunos de acordo com as necessidades de cada um, que isso vai muito além da função de professor, que envolve a escola, a família e a sociedade’’. Conforme os relatos observados, é evidente que cada educador enxerga o fracasso escolar de sua maneira e que isso modifica na forma de se trabalhar em sala de aula com os alunos que apresentam dificuldade de aprendizagem. Contudo, a resposta da professora V mostra que apesar dos obstáculos citados pela


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professora II, o fracasso escolar pode ser superado. A terceira questão foi aplicada com o objetivo de investigar o que os professores pensam sobre o que faz o aluno fracassar na escola. Foi apresentada da seguinte forma: Em sua opinião, porque o aluno fracassa na escola? A professora I respondeu que ‘’o que faz os alunos fracassarem nas escolas são os problemas psicológicos’’. Ela ressalta que ‘’os pais não procuram laudos para se obter um documento clínico’’ e relata que, ‘’cada vez mais é difícil de trabalhar com esses alunos’’. A professora V explica que ‘’o aluno fracassa na escola por vários motivos’’, ela expõe exemplos como ‘’descomprometimento dos professores, falta de ajuda dos pais, por não terem um lugar para estudar em casa, por traumas e principalmente por carregarem outras responsabilidades fora da escola’’. No entanto, com o discurso da professora I pode-se observar que ainda há educadores que pensam que diante do fracasso da criança não há nada o que fazer para que ela se desenvolva. Porém, de acordo com a autora Couto, sabemos que o aluno fracassa na escola por diversos fatores ambientais que interferem em sua aprendizagem, o fracasso não esta diretamente ligado a problemas psicológicos (2012). Quanto a quarta questão descrita: Em sua opinião, qual o papel da escola perante o fracasso escolar? Foi proposta para investigar se os professores conhecem o dever da escola diante do fracasso escolar, e até que ponto ela pode interferir neste processo. A professora IV relatou que o dever da escola é ‘’oferecer aos alunos aulas de reforço, recuperação contínua, orientar os pais se caso necessário encaminhar seus filhos a psicólogos e médicos’’. A professora V menciona que ‘’é essencial promover um ambiente acolhedor para que os alunos se sintam bem, para ocorrer uma aprendizagem significativa’’. A professora I descreveu que ‘’ fazendo um replanejamento, levantando itens a serem superados para melhor aprendizado do aluno’’. A professora III apontou que, o dever da escola é ‘’criar relações em torno da prática pedagógica no desenvolvimento da aprendizagem, acolhendo o aluno como um todo’’. Analisando as respostas dos professores é evidente afirmar que o fracasso escolar para alguns educadores está diretamente ligado a uma disfunção biológica, onde é necessário o acompanhamento médico. Isto acontece pela falta de conhecimento entre os termos dificuldade de aprendizagem e de transtornos que


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são diferentes e se manifestam de forma distintas (CARRERA, 2012). Outros educadores, quando perguntados qual o dever da escola em relação ao fracasso, afirmaram que o caminho apresentado por eles é de considerar o aluno como ser social, procurar o motivo que o fez fracassar e apresentar novas propostas pedagógicas para que ele avance. CONSIDERAÇÕES A escola tem como função a formação do aluno, transformá-lo em um ser crítico e pensante. É dever da instituição escolar interferir na socialização, ensinar novas culturas, valores morais e comportamentos sociais para que, desta forma, o educando possa exercer sua autonomia pertencendo a sociedade. Na pesquisa de campo foi possível constatar que, ainda existem educadores que relacionam as dificuldades dos alunos apenas com fatores inatos, onde o cotidiano e o meio social pouco interfere no aprendizado do educando, Alguns professores consideram que apenas a ausência dos pais na vida escolar do aluno interfere em sua aprendizagem, outros educadores acham que as condições socioeconômicas interferem na aprendizagem do aluno e ainda há profissionais que acham que somente o despreparo escolar, metodologias desatualizadas interfere na aprendizagem dos educandos. Percebe-se que alguns professores não sabem lidar com o fracasso escolar, ignoram os fatores externos, relacionando as dificuldades dos alunos com síndromes e transtornos. Para eles a razão do fracasso escolar está diretamente ligado aos fatores internos, à maturação biológica, tendo necessidade de acompanhamento médico e psicológico, desconsiderando todas as situações que o fizeram chegar ao fracasso escolar. Com a elaboração deste artigo pude perceber ainda mais quanto o meio interefe na aprendizagem dos alunos, que os educadores devem considerar o cotidiano do educando e tentar amenisar os conflitos que acontecem em sua vida e que dificultam a aprendizagem do aluno na escola, levando- os ao fracasso escolar. Enchergar as dificuldades dos alunos e reconhecer a existência dos fatores externos seriam sugestões para a elaboração de novas intervenções para solucionar o fracasso escolar. A escola como parte da formação pessoal e social da criança e uma das


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instituições de socialização do educando deveria promover e executar as diretrizes previstas na Lei de Diretrizes e Bases proporcionando assim o direito da crinça de aprender independente se suas dificuldades. Referências BEZERRA, José Arimatea Barro. Alimentação e escola: significados e implicações curriculares da merenda escolar. Revista Brasileira de Educação. 2009. Disponível em:http://scholar.google.com.br/scholar?q=rferencia+da+alimenta %C3%A7%C3%A3o+na+aprendizagem+do+aluno&hl=pt-BR&as_sdt=0,5>.

Acesso

em: 29 out. 2014. BOSSA, Nádia A. Fracasso Escolar. Um olhar psicopedagógico. Porto Alegre: Artmed, 2008. BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases - LDB 9.394. Brasília: MEC, 1996 CARRERA, Gabriela (coord.). Dificuldades de Aprendizagem. Brasil: MMXI, 2012. COUTO, Margaret Pires. O fracasso escolar e a família: o que a clínica ensina? Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012. FARIAS JÚNIOR, Raimundo Ségio de. O Fracasso escolar e a realidade educacional da Vila da Barca. Belém: Açaí, 2008. FELIPE,

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Disponível

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<http://psicologia.faccat.br/moodle/pluginfile.php/197/course/section/100/Vanessa_.p df>. Acesso em: 28 out. 2014. MOREIRA, Ivanilde. Fracasso escolar e interação professor-aluno. 3 ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2010. SCOZ, Beatriz. Psicopedagogia e realidade escolar. 13 ed. Petrópoles RJ: Ed.


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Vozes, 1994. VAN HAECHT, Ane. Sociologia da educação: a escola posta à prova. 3 ed. Porto Alegre: Artmed, 2008. VENTURA, Alexandre. FANTE, Cléo. Bullying-intimidação no ambiente escolar e virtual. Belo Horizonte MG.Editora: Conexa, 2013.

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Desmistificacao do cotidiano do aluno uma discussao sobre os fatores externos que interferem em sua  

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