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Poesias Ocultas Ediçþes

Controladores do

Universo


– Estamos cercados por lixo, intermináveis montanhas de lixo. E não falo somente dessas montanhas ao relevo que você pode percebe muito bem, se chocar completamente e ficar sem palavras se perguntando em pensamentos: “Como?”. Estou falando das pessoas, dessas que caminham entre nós e respiram esse ar contaminado, e nem sequer questionam–se porque o ar está contaminado, elas simplesmente não pensam. Foi assim que Júlio me apresentou seu mundo, após a passagem temporal pelo CEETT (Globo Central de Energia Essencial para Tele Transporte). – Fomos formados pela tecnologia, literalmente, submetidos a um processo de aprendizado computacional, de formar que a importância de um professor foi abolida e sua presença substituída por representações visuais de razoável qualidade, maquinalmente humanizadas. Você reconhece esse lugar? – Parece ser a Universidade onde estudo, aqui eu tenho aula de didática. – Certo! O governo vai transformar essa área num aterro sanitário, em outras palavras, num lixão. – Porque isso não me surpreende? – Porque de certa forma, você percebe que os problemas sociais que nos abalam hoje, foram acarretados por acontecimentos que ocorreram na sua época, principalmente depois dos anos 90, se agravando depois de 94. Permanecíamos parados, desde o inicio, deslumbrados ainda com as gigantescas montanhas de lixo que transbordavam sobre os muros da Universidade. As pessoas que ali permaneceram, ex-funcionários, ex-estudantes e outros “zumbis”, nome que eu mesmo os classifiquei, não faziam parte da resistência, resistência a qual eu nem sabia realmente se existia, mas nas circunstancias, fantasiei. Eram apenas zumbis, que vagavam com uma característica em comum. Todos usavam fones de ouvido externos, caminhavam mexendo bem o quadril e cantavam bem alto. A Universidade já estava


interditada há meio ano e a não ser pelos zumbis, ninguém mais se encontrava em suas dependências. Júlio me convidou para um passeio, queria me apresentar seu laboratório. – Desenvolvemos a tecnologia, mas ao mesmo tempo nos destruímos com ela, nos tornamos acomodados demais. Não precisávamos mais ocupar nosso valioso tempo e perder nossos programas especiais na televisão, estudando e construindo um novo conhecimento para proporcionar uma vida melhor. Porém, existiam ainda pessoas do Antigo Mundo que se preocupavam com o bom desempenho do universo, os Pensadores Profundos, Anfitriões do CTC (Centro de Tecnologia Central). Velhos malucos que gostavam de tocar e cantar Rock and Roll dos bons aos sábados, que também tinham uma banda chamada Pensadores Profundos. Esses senhores passavam a maior parte do seu tempo desenvolvendo softwares inteligentes, inovações para a humanidade, tentando concertar o que estava destruído, modelando o mundo do jeito deles baseado no que acreditavam ser bom, e, nos últimos anos, desenvolviam um projeto secreto sobre sustentabilidade e soluções para o lixo do mundo. O tempo passou, os velhos ficaram mais velhos e aos poucos, foram deixando nosso mundo. Quando o último Pensador morreu, ninguém sabia mais o que fazer. Alguns jovens, os “Aprendizes de Feiticeiros”, como os chamávamos, tomaram conta por um tempo dos projetos ou em outras palavras “fizeram um monte de merda”. Quando o REI (Reator de Energia Interminável) deixou de funcionar por alguns instantes e um apagão na cidade deixou muitas pessoas irritadas por estarem perdendo o último capitulo da novela e as fofocas no Facebook, todo mundo parecia ter despertado, piscado os olhos e pensado: “Meu Deus! Que dia é hoje?”, mas infelizmente a energia voltou e todo mundo pode voltar a sua HPC (Hipnose Profunda Coletiva). As pessoas não pensavam mais, não tinham conhecimento sobre nada, eram alienadas e totalmente controladas pela mídia. Para que exercer a capacidade de julgar, se a televisão e a internet te acomodavam lhe dizendo tudo o que você precisava fazer sobre as últimas tendências da moda, beleza corporal, alimentação,


etc. Então um pouco da herança tecnológica se tornou suficiente, não para mudar o mundo ou melhorar alguma coisa, mas para tocar em diante, sem muito esforço. Bastava agora, simplesmente encaminhar alguns códigos existentes a um computador e ele fazia o resto, modificava, comparava, calculava e mandava fabricar, caso fosse necessário fabricar alguma coisa. Dessa maneira, os Aprendizes foram tocando. Não acredito que o DNA daqueles babacas tinha se degenerado daquela forma, porque você já podia imaginar, não é? Eles eram filhos dos Pensadores. Eu não sei, nunca entendi, mas deve ter acontecido alguma mutação genética. O gene ruim do lado da família da mãe deles talvez. Eu não encontro outra explicação. – Você também é um aprendiz, certo? – perguntei. – Sim! Filho do último Pensador Profundo e único ainda com alguma consciência ecológica na cabeça. Meu pai era um grande cara e minha mãe, sua fiel companheira, era a pessoa mais maravilhosa na face da terra. Quando ela nos deixou, meu pai de certa forma enlouqueceu e começou a estudar e trabalhar em alguns projetos complexos sobre a Teoria da Relatividade e a Viajem do Tempo. Ele falava em mover-se para trás e para frente através de pontos diferentes no tempo. Queria construir um dispositivo que fosse capaz de mudar a história da humanidade. Meu pai não acreditava mais que as pessoas poderiam mudar, e ele, mesmo no auge da sua loucura, tinha razão, as pessoas não mudam mesmo. Com isso, acreditava que a única forma de fazer alguma mudança, seria ir direto ao ponto onde o problema tinha começado. Enquanto caminhávamos pela Universidade, minha humanidade se tornava complexa, a ponto de me sentir só mais um pouco de lixo naquele lugar. Um sonho não seria tão real. Por alguma razão, lembrei–me de um dia, no início do semestre, que ao sair do Bloco 35, visualizei uma multidão no Centro de Convivência. Naquele local, se encontravam os mais diversos tipos de perdedores, regressos do Ensino Médio. Eles não eram totalmente culpados, da forma que me expressei “perdedores”, mas vinham de um sistema de ensino muito


medíocre, constituído por uma base de educadores incapacitados, o que os tornavam incapacitados também. O governo não investia no que não lhe dava lucro e eu por um instante pensei em questionar Júlio sobre o Sistema de Saúde Público, mas desisti. As escolas realmente não tinham capacidade de esclarecer a vida de um aluno e os professores mal remunerados, se sentiam humilhados diante de um governo que só pensa no próprio rabo. Coloco-me ao lado desses perdedores em uma parede de fuzilamento, que ao término de um Ensino Médio Público, foi parar em uma Universidade Particular. As oportunidades não são as mesmas para todos. Quem sabe, se tivéssemos a chance desses playboys que ganham carro zero todo ano, que estudaram em escola particular e que agora estão lá em uma Universidade Federal graças a um cursinho caro que fizeram pago pelo papai, que no mínimo ganha entre 10 e 20 mil por mês, quem sabe, nossas vidas não seriam mais medíocre ainda. Dinheiro nos abre portas, muitas portas, mas o que importa dinheiro quando não se tem nada por dentro. Minha revolta aumentava diante daquele monte de lixo, que deixei a emoção tomar conta e apedrejei aqueles pobres jovens, sem um julgamento justo. Porém, eu tinha medo daquela juventude. Eu que acreditei por um bom tempo que as crianças poderiam mudar o mundo, havia me desviado daquela ideia, Júlio havia facilitado tudo. – É por aqui. – disse Júlio apontando um elevador. – Meu pai gostava de trabalhar em segredo e o mais subterrâneo possível. Não fique com medo, nós vamos descer muitos andares. Melhor colocar a mascara de ar. Em alguns andares, não existe Oxigênio. Júlio apertou um botão e o elevador começou a descer numa velocidade incrível. Senti-me numa montanha russa e como não era muito adepto a parques de diversão, vomitei do inicio ao fim do trajeto. – Chegamos! Você está bem? – perguntou–me Júlio. – Vou sobreviver! Tem outro caminho para voltar? – Não vamos voltar.


– Como não? – Você é que precisa voltar agora para o seu tempo. – Mas ainda preciso de mais alguns esclarecimentos, você não acha? Você acredita que se pode mudar alguma coisa mesmo? Meu presente é o ano de 2012 e você disse que os problemas acarretados foram muito antes dessa época. O que mais preciso saber? – Sabe o que os zumbis estavam ouvindo? – perguntou– me Júlio. – Sertanejo Universitário? – chutei alto. – Você acertou! – disse Júlio indignado, enchendo os pulmões e desabafando. – Essa praga musical se espalhou como um vírus se espalha pelo ar. Foi a pior epidemia já relatada na história da humanidade. Até hoje não encontrei uma vacina contra essa doença, a não ser o extermínio direto das colônias. Foram epidemias assim, que tornaram as pessoas mais burras. Escute bem o que vou lhe dizer e tome cuidado. Essas músicas são viciantes, são de fáceis interpretações, ou melhor, não precisa de interpretação nenhuma. Você não precisa pensar. Você escuta uma vez, o vizinho escuta uma vez, a televisão lhe apresenta outra vez e ela cola em você e depois você já começa a cantar sozinho, involuntariamente. Em fim, ela já te contaminou e você acabar se tornando parte dela. Os desprovidos de esperteza foram às primeiras vítimas. Frágeis e totalmente influenciáveis, eles simplesmente a tornaram quase uma religião. As pessoas intelectuais se contaminaram em seguida por ondas de poluição sonora. No final, todos se tornaram vítimas dessa epidemia. As canções de antigamente, muitas que aprendi com meu pai, eram formadas de pensamentos, de frases que necessitavam de interpretação e que abordavam algum sentido para nossa vida. Essas outras não, elas são lixo, lixo, lixo, lixo o que torna a gente lixo. Depois do desabafo, Júlio se sentou no chão, encostouse contra a parede e desabou-se em lagrimas. – A verdade é que as pessoas estão ficando mais burras e não podemos fazer nada a respeito. - disse-me.


Júlio tirou do bolso um controle remoto e pressionou um botão azul. – O futuro só está começando! Utilize com sabedoria o que aprendeu – foi a ultima frase que ouvi de Júlio, antes de uma luz branca surgir por cima de mim e me engolir, me tele transportado de volta.


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