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Boletim Informativo da Faculdade de Medicina da UFMG Nº 35 - Ano IV - Belo Horizonte, dezembro de 2013

Presentes que salvam

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onheça histórias de pessoas que receberam doações decisivas para suas vidas. Do outro lado, doadores contam o que os levou a ajudar desconhecidos e psiquiatra explica porque doar gera benefícios para todos os envolvidos.

Páginas 3, 4 e 5

HOMOFOBIA Agressão contra LGBT terá registro no SUS

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PESQUISA Trauma dentário é mais comum do que cárie em jovens

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Ilustração: Carina Cardoso

INSTITUCIONAL Salão Nobre reabre as portas após revitalização

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Editorial Boas notícias No final de ano, o espírito de generosidade fica mais aflorado entre as pessoas. Mas há quem pratique boas ações cotidianamente e esteja disposto a abrir mão até mesmo de parte do próprio corpo para salvar, quem sabe, um desconhecido. Mesmo quando se faz algo sem esperar nada em troca, os benefícios são garantidos. Pessoas altruístas são mais felizes, garante a especialista ouvida na reportagem especial desta edição. Destacamos também a medida que promete melhorar a notificação de casos de violência contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT) que buscam atendimento na rede pública de saúde. Confira ainda, na seção de Divulgação Científica, a pesquisa que avaliou a prevalência de traumatismos dentários entre mais de 600 adolescentes. E uma boa notícia para encerrar o ano: o Salão Nobre, palco de momentos históricos da Faculdade de Medicina, reabre suas portas para receber eventos, totalmente revitalizado. Boa leitura e boas festas!

Publicação

Homenagem

Retrato de Gilberto Belizário Campos figura na galeria de professores eméritos da Faculdade de Medicina

Emergências médicas O livro tem como temática central as unidades de atendimento de emergência no país e também aborda outras áreas, como Centros de Terapia Intensiva(CTIs), dentre outras. A proposta é auxiliar estudantes de Medicina e residentes e suprir uma carência de publicações sobre o assunto. De autoria dos professores da Faculdade de Medicina da UFMG Marco Túlio Baccarini Pires, Enio Roberto Pietra Pedroso e José Carlos Serufo, da médica Maria Aparecida Braga, chefe da CTI da Unimed BH, com colaboração de profissionais de outros estados. Editora MedBook

Opinião Sua participação é muito importante para o Saúde Informa. Envie críticas e sugestões para jornalismo@medicina.ufmg.br

No último dia 9 de novembro, morreu, aos 80 anos, o professor emérito Gilberto Belisário Campos. Nascido em 9 de agosto de 1933, em Belo Horizonte, formou-se pela Faculdade de Medicina da UFMG em 1958 e iniciou sua formação em Neurologia e Neurocirurgia na UFMG. Em 1959, foi aprovado como bolsista na Universidade de Wisconsin, EUA, onde se formou em Ciências Neurológicas Básicas, em Neurologia e em Neurocirurgia. Retornou ao Brasil no final de 1963, e iniciou então suas atividades docentes no Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG. Em 1964, juntamente com José Geraldo Albernaz, organizou o Serviço de Neurologia e Neurocirurgia em Minas Gerais. Foi presidente da Academia Brasileira de Neurologia (biênio 1984-1986). Aposentou-se em 1991 e em 1997 foi eleito professor emérito da UFMG. “Sua importância para a Faculdade de Medicina, Hospital das Clínicas e Neurologia mineira em geral é muito grande por várias razões. Especificamente em relação ao seu legado para a Faculdade de Medicina: ele determinou a autonomia da Neurologia como uma disciplina”, lembra o professor Francisco Cardoso, do Departamento de Clínica Médica, que foi da última turma de alunos de Campos. “Era um clínico exímio, que inspirava seus alunos, residentes e assistentes. Ele estimulou toda uma geração de estudantes a prosseguirem sua formação no exterior, inclusive eu. Creio que muito merecidamente a Congregação da Faculdade outorgou-lhe o título de professor emérito”, afirma Francisco.

Expediente

Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais – Diretor: Professor Francisco José Penna – Vice-Diretor: Professor Tarcizo Afonso Nunes – Coordenador da Assessoria de Comunicação Social: Gilberto Boaventura – Editora: Alessandra Ribeiro ( Reg. Prof. 9945MG) – Redação: Jornalistas: Larissa Rodrigues, Mariana Pires e Rafaella Arruda – Estagiários: Jordânia Souza, Karla Escarmigliat, MIlton Guimarães, Tayrane Corrêa e Willian Campos (Nescon). Projeto Gráfico: Ana Cláudia Ferreira de Oliveira e Leonardo Lopes Braga. Diagramação: Luiz Lagares - Atendimento Publicitário: Desirée Suzuki – Impressão: Imprensa Universitária – Tiragem: 1500 exemplares – Circulação mensal – Endereço: Assessoria de Comunicação Social, Faculdade de Medicina da UFMG, Av. Prof. Alfredo Balena, 190 / sala 55 - térreo, CEP 30.130-100, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil – Telefone: (31) 3409-9651 – Internet: www.medicina.ufmg.br; facebook.com/medicinaufmgoficial; www.twitter.com/medicinaufmg e jornalismo@medicina.ufmg.br. É permitida a reprodução de textos, desde que seja citada a fonte.

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SOLIDARIEDADE

Doar faz bem

Pessoas altruístas costumam ser mais felizes que as outras Larissa Rodrigues

Colaboração: Milton Guimarães e Rafaella Arruda

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oar alimentos, brinquedos, dinheiro ou roupas é comum, e muito bem-vindo para quem precisa. Mas há pessoas que vão além e doam algo cujo valor não pode ser mensurado: órgãos, medula óssea, sangue, leite, cabelo e até mesmo o próprio corpo – neste último caso, uma promessa de doação póstuma, para fins científicos. Várias são as entidades que buscam doadores diariamente. Para se ter uma ideia, em dez anos, o número de doadores de órgãos no Brasil dobrou, segundo o Ministério da Saúde, passando de 6,5 para 13,5 por milhão de pessoas. Porém, ainda há mais de 38 mil pacientes aguardando por um transplante no país. Em 2000, existiam 12 mil pessoas inscritas no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome). Atualmente, há mais de 3 milhões de pessoas cadastradas, o que faz do Brasil o detentor do terceiro maior banco de dados deste tipo no mundo. Entretanto, as chances de encontrar um doador compatível no banco podem variar de uma a cada 100 mil ou até mais, dependendo da miscigenação genética de quem vai receber a medula. Altruísmo A psiquiatra Tatiana Mourão, professora do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, explica que as pessoas fazem doações por inúmeros motivos. “Uma razão importante, entre outras, é a sensação de felicidade que é descrita por algumas pessoas após um ato de generosidade e de ajuda a outras pessoas”, diz. Os chamados altruístas são aqueles cujas ações beneficiam os outros, sem esperar nada em troca. Na verdade, mesmo quando não há interesse subentendido, o retorno emocional é garantido. Tatiana Mourão afirma que os altruístas costumam ter mais felicidade que as pessoas em geral. “Existe o relato que, após uma ação generosa, a pessoa se sente aliviada, com a sensação de bem-estar e melhora da autoestima. Enfim, o gesto generoso se volta para nós mesmos, nos deixando mais contentes e satisfeitos com nossa vida”, explica. Espírito natalino Tatiana Mourão lembra que a véspera de Natal é um período no qual se espera que os sentimentos cristãos se encontrem mais presentes nas pessoas. “Nesta fase natalina, mesmo sem notarmos, existe uma tendência maior para comportamentos generosos e de desapego”, constata.

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Porém, é importante lembrar que a boa ação pode ser feita a qualquer momento. “No final de ano, o espírito de generosidade fica mais aflorado. Mas fica a pergunta: não deveríamos tentar fazer diariamente a prática do Natal no nosso cotidiano?”, sugere a psiquiatra.

Herança do bem Mais do que um dom, a generosidade é uma virtude que pode ser aprendida. Segundo Tatiana Mourão, o exercício da generosidade é um aprendizado cultural – existem culturas mais ou menos generosas. “Como psiquiatra vejo o quanto o exemplo dos pais, quando eles são generosos, os filhos tendem a ser mais generosos no futuro”. A secretária Leonise Nunes Silva, mais conhecida como Léo, é exemplo disso. Nas horas vagas, ela atua como voluntária em um projeto social que ajuda meninas carentes vítimas de abuso sexual a vencerem o trauma. Léo conta que sempre gostou de ser voluntária e já ajudava a cuidar de idosos em um asilo na cidade de Lagoa Santa. Ela acredita ter herdado este comportamento dos pais, que também eram muito caridosos.

“Eu doo o meu tempo, aquilo que eu posso para aquelas pessoas que estão lá, abandonadas pela família e pelos amigos. Costumo falar que eles são meus velhinhos. Acho que isso é genético. Meu pai era assim, minha mãe era assim. E eu acho que tenho que dar continuidade a essas coisas pois, se doarmos um pouquinho de nosso tempo para os necessitados, isso já será muito para eles”. 3


Sem saber da importância da doação de leite materno, a consultora Maria Tereza Cabral, 37, jogava fora o excedente depois de amamentar o filho João Felipe. Até que uma amiga sugeriu que ela ligasse para o banco de leite da maternidade Odete Valadares. O retorno foi imediato: ela recebeu o kit e as instruções de como tirar o leite sem contaminá-lo. A cada 15 dias, o leite era recolhido e o kit substituído.

“Doei aproximadamente um vidro de 500 gramas de leite por semana, durante 11 meses. São muitos os bebês que precisam do leite: mães que não têm leite ou que não podem amamentar (soropositivas, em tratamento com câncer, depressão pós-parto e outros motivos), além de recém-nascidos órfãos. Com todos estes bebês precisando do leite, eu com tanto leite, me achei na obrigação de ajudar”. Doação de leite: Maternidade Odete Valadares - 3298-6008

Fios de ouro

Sem medo A estudante Luiza Alves, 23, sempre teve vontade de doar sangue, mas tinha medo. Até uma amiga pedir doação de sangue para um primo de apenas três anos, também pelo Facebook. Mesmo não sendo do mesmo tipo sanguíneo do garoto, ela resolveu doar, com o objetivo de ajudar alguém em situação semelhante. Desde então, ela prometeu doar sempre, respeitando o prazo de três vezes ao ano, estipulado para mulheres.

“A sensação de fazer o bem ao próximo é incrível. Nas duas vezes que doei, saí de lá com o sentimento de ter sido útil e torcendo pela melhora de quem fosse receber o sangue, por mais que eu não fizesse ideia de quem seria. Acredito que muitas pessoas possam ficar receosas em doar devido ao medo também, mas garanto que o incômodo é mínimo perto do bem que este ato fará a alguém e a sensação de dever cumprido como cidadão”.

Fotos: Arquivos pessoais

Amor que alimenta

Doação de sangue: Fundação Hemominas - 155

A estudante Ludmila Cordeiro, 23, soube da campanha de doação de cabelo para pacientes com câncer do Hospital Mário Penna por uma amiga, através da rede social Facebook. Depois de ver a emoção de uma mulher que recebia uma peruca em um vídeo, ela foi direto para o salão e cortou 27 centímetros de cabelo.

“Quis expressar um pouco de amor por estas mulheres guerreiras que, muitas vezes, além de terem seus seios mutilados, acabam por ficarem sem seus cabelos também. E só nós, mulheres, sabemos como nos faz falta um cabelo e como esta parte do nosso corpo nos proporciona uma maior autoestima”.

Em prol da ciência

A doação de corpos é uma maneira legal e ética para que as faculdades de Medicina obtenham cadáveres que serão utilizados como objeto de ensino de seus alunos. O doador assina um termo e recebe instruções sobre o processo. Após o falecimento, algum responsável deve comunicar a Faculdade para que sejam tomadas as providências legais. Por isso a importância dos familiares do doador terem conhecimento sobre a vontade dele. O superintendente da Faculdade de Medicina da UFMG, Maurílio Elias, aderiu à campanha de doação de corpos para a Unidade em agosto de 2009. Ele compõe a equipe que orienta doadores e atende as famílias desde que o programa foi implantado.

Doação de cabelo: Hospital Mário Penna - 0800 039 1441

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“Como envolv import decidi d só para mas pe corpo s da mor na form médico


Vida nova

Mais forte que sangue Mariana Neto,(à direita), 32, descobriu que estava com anemia de Fanconi, uma doença rara, aos 10 anos de idade. A única saída era o transplante de medula. Para alívio da família, a irmã, Daniele, era compatível. Apesar das complicações provocadas pela agressividade da quimioterapia usada na época, hoje Mariana leva uma vida normal, “com saúde 100%”.

“Qual a sensação de ser ajudada por alguém? Principalmente em se tratando da minha irmã, sinto que devo minha vida a ela. Ela salvou minha vida! Tenho uma ligação com ela muito além de ser irmã, como um dia ela me disse: sangue do meu sangue, medula da minha medula”. Doação de medula: Fundação Hemominas - 155

Laços de família

o um dos vidos nesta tante missão, doar também, não a dar exemplo, elo fato do meu ser útil até depois rte física, ajudando mação de novos os”.

Doação de corpos: Faculdade de Medicina da UFMG: 3409-9739

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“Uma pessoa que nunca vi em minha vida um dia se dispôs a ir a um hemocentro para se cadastrar como um possível doador, e agora tinha a possibilidade de salvar a vida de um garotinho de sete anos. Meu filho renasceu graças à generosidade de uma pessoa que nem conhecemos. Deve ser inexplicável a sensação de poder doar vida, sou cadastrada e quero muito ser chamada um dia”. Doação de medula: Fundação Hemominas - 155

Foto: Bruna Carvalho

Há dez anos, o jornalista Samuel Santos, 23, passou por um transplante de rim. Ele nasceu com um rim atrofiado e tinha insuficiência renal crônica no outro. Foram anos de controle médico para tentar recuperar o rim doente. Ele chegou a fazer hemodiálise por seis meses, antes da cirurgia. O órgão foi doado pelo tio, que passou pelos testes de compatibilidade.

João Victor foi diagnosticado com aplasia grave da medula óssea quando tinha seis anos de idade. A chance de resposta a um tratamento com medicação era pequena e ninguém na família era compatível para um transplante. João foi cadastrado no Registro Nacional de Receptores de Medula Óssea. A mãe, Ana Beatriz, conta que exatamente duas semanas depois recebeu a ligação da médica do garoto, dizendo que tinha sido encontrado um doador 100% compatível. No último dia 30 de outubro, João foi submetido ao transplante e a nova medula já está começando a funcionar.

Doação de órgãos: MG Transplantes - 0800 2837 183

“Não tenho palavras para agradecer o tamanho do gesto dele. Apenas desejo toda saúde do mundo para ele e para todos da sua família, já que o ato dele mudou minha vida de forma radical. Hoje, posso fazer praticamente tudo. Levo uma vida normal, coisa que não seria possível sem a intervenção da minha família e dos competentes médicos do Hospital das Clínicas da UFMG”. 5


CIDADANIA

SUS passa a registrar violência contra LGBT Fichas de atendimento das unidades de saúde ganham campo para notificar ocorrências Jordânia Souza e William Campos Viegas (estagiário do Nescon)

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que, entre 2011 e 2012, as denúncias de agressões e crimes homofóbicos aumentaram de forma significativa no Brasil. Segundo os dados do levantamento, em 2012, o poder público recebeu 3.084 denúncias, o que corresponde a um crescimento de 166% em relação a 2011, quando foram registradas 1.159 reclamações. A avaliação da Secretaria é que os números refletem um maior

(Sinan), que já registra casos de violações contra crianças, adolescentes, mulheres e idosos. A intenção é ampliar o registro dos casos para gerar informações que possam subsidiar políticas públicas de prevenção e combate à homofobia. Um relatório sobre violência homofóbica, divulgado no último mês de julho pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH) aponta

reconhecimento da sociedade de que esse tipo de discriminação fere os direitos humanos e uma maior disposição para denunciar. Com a implantação da medida, ao atender uma vítima de violência associada à homofobia, o profissional de saúde deve identificar na ficha de atendimento do SUS o nome social do paciente (se houver), sua identidade de gênero e orientação sexual. “Isso vai nos ajudar bastan-

Foto: REUTERS/Gleb Garanich

partir de janeiro de 2014, o Ministério da Saúde pretende notificar, em todo o Sistema Único de Saúde (SUS), os casos de violência contra o público LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais). Desde agosto de 2013, os estados de Minas Gerais, Goiás e Rio Grande do Sul já iniciaram um projeto piloto integrado ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação

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te para o próximo relatório, pois também teremos dados mais claros sobre mortes violentas. Muitas vezes, os profissionais de saúde não sabem ou têm receio de perguntar à família sobre questões relativas à sexualidade da vítima”, afirma o coordenador geral de Promoção dos Direitos LGBT da Secretaria, Gustavo Bernardes. Violência psicológica e física O relatório da SDH revelou que os jovens entre 15 e 29 anos são os mais vulneráveis às agressões. Essa faixa etária representa 61% dos casos e, entre as denúncias recebidas, a violência psicológica é a principal queixa, aparecendo em 83% das ocorrências. As vítimas são alvos de humilhações, hostilizações e ameaças, além de calúnia, injúria e difamação e, em grande parte dos relatos, os agressores são conhecidos. Para o pesquisador do Núcleo de Saúde e Paz da Faculdade de Medicina da UFMG, Paulo Ceccarelli, a violência psicológica começa a partir do momento em que a pessoa descobre sua orientação sexual. “Qualquer sexualidade que fuja ao padrão heterossexual é discriminada. Desde o início, o indivíduo se sente inferiorizado, internaliza isso e, em muitos casos, se exclui. Esse problema recai na família, muitos pais humilham ou renegam o filho, e isso pode gerar conse-

quências maiores, como a expulsão de casa ou até mesmo suicídios”, alerta. O levantamento também mostrou que, depois da violência psicológica, a discriminação e as agressões físicas são as mais cometidas, com 74% e 33% dos casos, respectivamente. Para o coordenador geral de Promoção dos Direitos LGBT, Gustavo Bernardes, a situação é ainda mais preocupante nas ocorrências que envolvem travestis e transexuais, já que eles estão mais expostos a violências de maior gravidade. “Esse grupo é mais suscetível, pois a questão da identidade de gênero está manifesta no próprio corpo. Fizemos uma campanha no início deste ano em parceria com o Ministério da Saúde para que elas denunciem até mesmo as violações mais leves, porque, geralmente, os xingamentos não são denunciados e isso pode evoluir para uma agressão física, chegando até a uma tentativa de assassinato”, diz. O pesquisador Paulo Ceccarelli defende que a violência contra o público LBGT seja enfrentada também com mudanças na legislação. “A luta deve ser contra a discriminação. O preconceito existe, mas ele não pode servir de justificativa para alguém discriminar. Na França, por exemplo, o preconceito é o mesmo, a homofobia também é muito forte, mas lá, as leis são mais severas. No Brasil, estamos caminhando a passos lentos”.

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DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

Trauma dentário é mais comum do que cárie em adolescentes Consumo de álcool é um dos fatores que aumentam risco de acidentes traumatismo é a maior causa de problemas bucais entre os jovens. Quem faz o alerta é a dentista Paula Cristina Pelli Paiva, autora de tese de doutorado defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente da Faculdade de Medicina da UFMG. “A incidência de trauma já é superior ao da cárie dentária e da doença periodontal, que é a infecção nas estruturas de suporte dos dentes, como osso e gengiva”, explica. As fraturas podem afetar apenas o esmalte, ou simultaneamente esmalte e tecido do dente, coroa e raiz , ou ainda provocar luxações. Além dos danos físicos, as lesões podem afetar a aparência e dificultar a mastigação e emissão de sons compreensíveis. Segundo Paula Paiva, esses acidentes precisam ser prevenidos, pois podem provocar problemas funcionais, estéticos, psicológicos e sociais. “O tratamento das sequelas, por exemplo, é de alto custo. Por isso, a importância de conhecer a etiologia para planejamento de programas de prevenção e controle”, avalia. Segundo a pesquisa, adolescentes que consomem álcool têm maior risco de sofrer traumatismo dentário, principalmente se forem do sexo masculino. Outras variáveis também influenciaram nos elevados índices de lesões: sobressaliência, que são os dentes superiores anteriores muito proeminentes com relação aos dentes anteriores inferiores; e proteção labial, quando o lábio superior não cobre adequadamente os dentes anteriores superiores. “Se o dente não estiver adequadamente protegido, poderá sofrer maior impacto durante um acidente”, explica Paula. Causas Para analisar a prevalência de traumatismos, foi realizado estudo com 633 escolares de 12 anos de idade, matriculados em escolas públicas e particulares da cidade de Diamantina, na Região Central de Minas Gerais. De acordo com a pesquisadora, a idade escolhida representa o período em que o indivíduo está mais vulnerável aos traumas, além de já ter a dentição completa. Os resultados apontaram que 29,3% do total de adolescentes entrevistados estavam com algum tipo de traumatismo dentário. A pesquisadora enfatiza que o percentual corresponde a um terço da população, índice superior ao de países como Irlanda, Itália e Espanha, onde a média é de 17%. A prevalência do consumo de bebida alcoólica relatada pelos adolescentes foi de 45,6% e seu consumo excessivo correspondeu a 22,64%. “O uso de álcool vai de encontro a uma lei que fala que é proibido o uso de bebida alcoólica por menores de 18 anos de idade. Então é preciso trabalhar mais as questões sociais”, pondera. Em todas as variáveis, o sexo masculino apresen-

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Ilustração: Carina Cardoso

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Karla Scarmigliat

tou maior prevalência de lesões, representando 51% dos traumas. Para a autora do estudo, o sexo é um dos fatores mais conhecidos, uma vez que meninos são mais suscetíveis a acidentes ocasionados por práticas esportivas, como o futebol. Capital social Outro aspecto analisado na pesquisa foi o socioeconômico. Dados como o grau de escolaridade da mãe e itens de posse foram coletados por meio de um questionário. “Construímos um instrumento só para medir o capital social em adolescentes”, conta a dentista. Ela explica que o questionário foi constituído por 12 itens, divididos em quatro domínios: coesão social na escola; rede de amigos na escola; coesão social no bairro e vizinhança; e confiança dos adolescentes na escola, bairro e vizinhança. Entretanto, não houve associação entre o capital social e o traumatismo dentário na população estudada. “Embora a associação não seja estatisticamente significante, desenvolvemos um questionário que permitiu uma análise importante do capital social e das interações que podem repercutir na saúde. Realmente foi uma proposta nova para ser aplicada em adolescentes escolares de uma forma geral, e não somente na odontologia”, avalia. Título: Prevalência do traumatismo dentário e fatores associados em escolares de 12 anos de idade: estudo de base populacional Nível: Doutorado Programa: Saúde da Criança e do Adolescente Autora: Paula Cristina Pelli Paiva Orientador: Joel Alves Lamounier Defesa: 30 de outubro de 2013

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INSTITUCIONAL

Acontece Telessaúde

Para reunir novas histórias Palco de momentos históricos e solenes, Salão Nobre tem a primeira reforma completa do seu espaço concluída, desde a inauguração, em 1960. Mariana Pires

A revitalização durou pouco mais de um ano. As obras foram iniciadas em outubro de 2012 e o espaço é agora reinaugurado, em dezembro de 2013. O projeto, que estava pronto desde 2009, só começou a ser executado no ano passado, por causa de um acordo entre a Faculdade e o Ministério da Saúde. O convênio destinou cerca de um R$ 1,5 milhão para adequação do Salão Nobre e do Laboratório de Simulação, no 6º andar. De acordo com a arquiteta Eneida Ferreira, um dos principais focos foi a melhoria da acústica. Os sistemas de climatização, áudio e vídeo, que estavam obsoletos, também foram substituídos. O auditório conta agora com um sistema de vídeo com tela retrátil de 300 polegadas, e projetor com resolução full HD. “O palco foi aumentado; os camarins e instalações, reformados. Um novo sistema de iluminação também foi ins-

talado, além de substituição e adequação de redes elétricas e hidráulicas”, enumera. A arquiteta lembra que outra preocupação foi manter o máximo de elementos já existentes no Salão, para aproveitar os materiais em boas condições de uso, reduzir custos para as obras e a preservar a memória do auditório. “O mezanino, mantido, ganhou uma cabine para tradução simultânea. Houve preocupação com acessibilidade para deficientes e obesos, com lugares para cadeiras de rodas e plataforma de acesso ao palco. O piso e poltronas originais também permaneceram, com a restauração das cadeiras”. O Salão Nobre está pronto, agora, para receber eventos científicos, sociais e acadêmicos, que fazem parte do calendário da Faculdade de Medicina da UFMG, tais como jornadas, seminários, congressos, formaturas, homenagens e jubileus.

Piso e poltronas originais foram preservados na reforma

O coordenador do Centro de Tecnologia em Saúde da Faculdade de Medicina da UFMG, professor Cláudio de Souza, foi designado como presidente do Conselho Brasileiro de Telemedicina e Telessaúde. A nomeação foi realizada durante o sexto congresso da entidade, realizado em novembro, na cidade de São Paulo.

Novo site O portal do Centro de Educação e Apoio para Hemoglobinopatias (CehmobMG), parceria entre o Núcleo de Ações e Pesquisa em Apoio Diagnóstico (Nupad) e Fundação Hemominas, foi reformulado e já está no ar. O canal de comunicação traz novos recursos para pacientes e familiares, profissionais de saúde, estudantes e público em geral, com mais informação e interatividade. Um variado acervo com materiais multimídia e acadêmico está disponível para visualização e download. Acesse: www.cehmob.org.br.

Foto: Luiz Romaniello

Jornada de Anatomia

Medalha Cícero Ferreira

IMPRESSO

Criada em 2011 como uma das ações comemorativas do centenário da Faculdade de Medicina, com o objetivo de homenagear professores e funcionários pelos serviços prestados à Faculdade, a Medalha Cícero Ferreira, antes entregue em evento anual, passa a ser concedida uma vez a cada gestão da Diretoria da Faculdade, de acordo com nova resolução da Congregação. Este ano, a entrega da medalha ao professor Nassim Calixto, emérito da UFMG, integrou a sessão solene de inauguração das obras de revitalização do Salão Nobre, no dia 5 de dezembro. A exposição fotográfica Novos Tempos, que reúne as obras mais recentes da Faculdade, também foi aberta no saguão da Faculdade, onde ficará até o dia 20 de dezembro.

O programa de ex-alunos da Universidade, o Sempre UFMG, que completou 13 anos em 2013, está realizando uma pesquisa com os egressos da instituição. Os resultados do levantamento serão utilizados para subsidiar a elaboração de produtos e serviços a serem oferecidos aos ex-alunos e a reformulação dos já existentes. O questionário está disponível no site https://qplprod. grude.ufmg.br/copi_2013/. Informações: sempreufmg@ copi.ufmg.br ou pelo telefone 3409-1404.

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