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Boletim Informativo da Faculdade de Medicina da UFMG

Foto: Ana Lúcia Chagas

Nº 28 - Ano IV - Belo Horizonte, maio de 2013

Quem somos?

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ados da Copeve revelam o perfil dos estudantes que ingressaram na Faculdade de Medicina da UFMG no primeiro semestre de 2013. No curso de Medicina, prevalecem alunos brancos, oriundos de escolas privadas. Nos cursos de Fonoaudiologia e Tecnologia em Radiologia, pardos e negros e egressos de escolas públicas já são maioria. Páginas 4 e 5

TRABALHO Cresce registro de acidentes e doenças

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TABAGISMO Por que é difícil parar de fumar

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GENÉTICA Mitos e verdades sobre criopreservação

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Perfil em mudança

A fotografia oficial da turma que começou o curso de Medicina no primeiro semestre de 2013 poderá ser bem diferente do perfil dos estudantes que ingressarão no próximo ano. É o que se espera com o fim do vestibular tradicional na UFMG, que aboliu a segunda etapa do concurso e aderiu ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu), além do impacto da lei das cotas. Em Fonoaudiologia e Tecnologia em Radiologia, o perfil já reflete de forma bastante fiel a sociedade brasileira: a maioria dos estudantes veio de escolas públicas e se autodeclarou parda ou preta. Além da análise sobre quem são nossos alunos, o Saúde Informa divulga nesta edição uma pesquisa relacionada à saúde do trabalhador, que reforça a importância do registro de informações sobre acidentes e doenças do trabalho. No mês das mães, ouvimos também especialistas sobre os reais benefícios do armazenamento de sangue do cordão umbilical, serviço oferecido por diversos bancos privados e em fase de implantação na rede pública. Confira ainda dicas para abandonar o cigarro e um estudo nacional sobre o risco de doenças cardiovasculares em adolescentes. Boa leitura!

ERRAMOS

Publicações

Na edição 27 do Saúde Informa, na matéria Pacientes entram na Justiça para garantir direito à saúde, publicada na página 3, onde se lê: “Do total de ações no período estudado, 71% dos casos foram deferidos. Em 30% destes, o deferimento ocorreu no mesmo dia, assim como em 737 dos 751 pedidos de liminar”, o correto é: “Do total de procedimentos solicitados, 78,8% foram deferidos, sendo que dos 751 processos em que houve pedido de liminar, 183 (24,3%) foram deferidos no mesmo dia”. As informações também foram representadas de forma equivocada no gráfico exibido na página.

Viagens do naturalista Saint-Hilaire por toda Província de Minas Gerais Publicação bilíngue, com textos em português e francês e cerca de cem fotografias e imagens. A proposta do livro é refazer o trajeto do naturalista francês Saint-Hilaire em Minas Gerais e apresentar um registro do Brasil dos anos 1800 em contraponto com os dias atuais. O enfoque é relacionado à biologia, história, geografia, antropologia, dentre outros temas. A autoria é do professor do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG, Eugênio Marcos Andrade Goulart, com apoio do Projeto Manuelzão. Editora Legraphar

Human Reproduction A edição de abril de 2013 da revista científica traz um guia com novas orientações para médicos e profissionais de saúde sobre a endometriose. As recomendações foram elaboradas por meio de um consórcio organizado pela Sociedade Mundial de Endometriose, com a participação de 56 especialistas, representantes de 34 instituições internacionais. O professor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da UFMG, Fernando Reis, foi um dos três brasileiros envolvidos na elaboração das novas diretrizes. Universidade de Oxford

Biblioteca doa livros

Foto: Bruna Carvalho

Editorial

A Biblioteca J. Baeta Vianna disponibilizou em sua página eletrônica (medicina.ufmg. br/biblio) uma lista com 2.582 livros para doação. A maioria das obras foi publicada na década de 1980 a 1990 e se concentra na área da Saúde, mas também há títulos das áreas de Educação, Literatura, Ciências, dentre outras. Instituições de ensino públicas e particulares, estudantes, professores e demais interessados podem retirar os exemplares. Os pedidos devem ser encaminhados para o e-mail bibadm@ medicina.ufmg.br com cópia para ehah@medicina.ufmg.br. As obras ficarão disponíveis até outubro de 2013 no Setor de Processamento Técnico de Livros da Biblioteca, de segunda a sexta-feira, das 7 às 16 horas. Aqueles que quiserem levar exemplares têm que arcar com o transporte e assinar um termo de doação da instituição.

Opinião Sua participação é muito importante para o Saúde Informa. Envie críticas e sugestões para jornalismo@medicina.ufmg.br

Expediente

Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais – Diretor: Professor Francisco José Penna – Vice-Diretor: Professor Tarcizo Afonso Nunes – Coordenador da Assessoria de Comunicação Social: Gilberto Boaventura – Editora: Alessandra Ribeiro ( Reg. Prof. 9945MG) – Redação: Jornalistas: Larissa Rodrigues e Mariana Pires – Estagiários: Karla Scarmigliat, Jordânia Souza, Tatiane Rezende e Victor Rodrigues. Projeto Gráfico: Ana Cláudia Ferreira de Oliveira e Leonardo Lopes Braga. Diagramação: Luiz Lagares - Atendimento Publicitário: Desirée Suzuki – Impressão: Imprensa Universitária – Tiragem: 2.000 exemplares – Circulação mensal – Endereço: Assessoria de Comunicação Social, Faculdade de Medicina da UFMG, Av. Prof. Alfredo Balena, 190 / sala 5 - térreo, CEP 30.130-100, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil – Telefone: (31) 3409-9651 – Internet: www.medicina.ufmg.br; facebook.com/medicinaufmgoficial; www.twitter.com/medicinaufmg e jornalismo@medicina.ufmg.br. É permitida a reprodução de textos, desde que seja citada a fonte.

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Saúde Informa - Maio de 2013


DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

Acidentes e doenças do trabalho devem ser registrados Pesquisa destaca importância do preenchimento das fichas de notificação para melhorar qualidade dos serviços de atendimento à saúde do trabalhador

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Fonte: Sinan – Betim – 2007-2011

ntre 2007 e 2011, o polo industrial de Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, registrou mais de 2 mil casos de doenças e agravos relacionados à saúde do trabalhador. Desse total, 45,6% das ocorrências foram de acidentes graves, 26,2% de Lesão por Esforços Repetitivos e Doença Osteomuscular Relacionada ao Trabalho (LER/Dort), e 14,6% de acidentes com exposição a material biológico. A lista inclui ainda intoxicações, doenças de pele, perda auditiva provocada por ruído, transtornos mentais, doenças causadas pela inalação de poeiras e câncer, que somam 13,5%. O que chama mais atenção, no entanto, foi o crescimento abrupto dos casos no período. Para se ter uma ideia, enquanto em 2007 foram registrados 68 agravos, em 2011 esse número chegou a 1.134 casos.

Número total de registros de agravos relacionados ao trabalho

E

Victor Rodrigues

780 214 149 68 2007

2008

2009 Ano

A terapeuta ocupacional Juliane Katie Alvares ficou surpresa com a adesão ao preenchimento das informações Foto: Bruna Carvalho

Os dados foram registrados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). A qualidade das informações transmitidas pelo sistema local de vigilância epidemiológica em saúde do trabalhador foi objeto de análise de dissertação de mestrado defendida pela terapeuta ocupacional Juliane Kate Alvares na Faculdade de Medicina da UFMG. Se por um lado o salto na quantidade de casos aparenta um fator de preocupação, por outro, na avaliação da autora do estudo, revela melhoria na capacidade de identificação dos agravos e, também, do preenchimento das fichas de notificação usadas para o abastecimento de dados do Sinan. A pesquisa mostra que o preenchimento dos campos obrigatórios dessas fichas teve índices elevados, superiores a 87%, enquanto o número de registros duplicados e de informações inconsistentes foi pequeno (0,6% e 7%, respectivamente). Os resultados surpreenderam a pesquisadora. “Esperávamos uma realidade diferente, que necessitasse de um trabalho de sensibilização e capacitação para funcionar adequadamente” afirma. Mas a avaliação da utilização do sistema foi positiva. “Em Betim são preenchidos campos que em nível estadual e nacional apresentam preenchimento precário, ao mesmo tempo em que dados incoerentes apresentam baixos índices”, compara Juliane.

Saúde Informa - Maio de 2013

2010

2011 Ilustração: Carine Cardoso

Importância da informação Um dos maiores problemas apontados pela terapeuta ocupacional é a falta de importância dada aos serviços e sistemas de informação em saúde no país. “Existe a préconcepção de que fazer o médico ou outro profissional de saúde preencher uma ficha de notificação é sempre muito complicado, optando-se por um preenchimento superficial e incompleto”, afirma. Segundo Juliane Kate, este descaso ocorre tanto no preenchimento das informações quanto no uso posterior dos dados. Exemplo disso é a grande dificuldade no planejamento de ações a serem tomadas para prevenção e resposta a possíveis epidemias em determinados locais. “Produzir e utilizar corretamente essas informações é fundamental para sermos capazes de melhorar a qualidade dos serviços”, destaca a autora. Esta realidade foi justamente uma das motivações do estudo, que apresenta um retorno prático para o serviço de saúde. Além de identificar os pontos fracos do sistema, como o não preenchimento de alguns campos importantes, mas não obrigatórios, a pesquisadora também fez um trabalho de mapeamento das ocorrências, por unidades básicas de saúde de referência para os endereços de residência de cada trabalhador e das empresas em que trabalhavam, quando disponíveis na ficha de notificação. “Os dados já existem, mas o serviço de saúde muitas vezes nem tem ideia do potencial de aplicação que eles possuem”, ressalta a autora. Título: Avaliação do Sistema Nacional de Notificação de Agravos Relacionados ao Trabalho em Município Polo Industrial Brasileiro - 2007-2011 Nível: Mestrado Programa: Saúde Pública Autora: Juliane Kate Alvares Orientador: Tarcísio Márcio Magalhães Pinheiro Defesa: 05/02/2013

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Quem são os alunos da Faculdade de Medicina da UFM Dados da Copeve mostram diferenças entre o perfil dos estudantes de cada curso Larissa Rodrigues

essoas do sexo feminino, belo-horizontinas, brancas e que estudaram integralmente na rede privada de ensino. Estas são as características da maioria dos aprovados em 2013 para o curso de Medicina da UFMG, segundo dados da Comissão Permanente do Vestibular da UFMG (Copeve). O perfil está longe de espelhar a sociedade na qual a Faculdade de Medicina está inserida. “A imagem refletida pelo perfil dos ingressantes não é a de nossa sociedade e constituiu-se em grupo seleto de alunos que, mesmo tendo tido ótimas oportunidades, certamente ainda renunciaram de boa parte da adolescência para se dedicarem ao vestibular,” analisa o pró-reitor adjunto de Graduação da Universidade Federal de Minas Gerais, André Cabral. Ele lembra que políticas de inclusão, a exemplo da Lei das Cotas, foram adotadas por várias universidades. Entretanto, em cursos concorridos, como o de Medicina, os efeitos ainda não foram percebidos Gabriela Marques, aluna do primeiro período de Medicina, se enquadra no perfil predominante. Além de ter estudado em escola particular, ela é de Belo Horizonte e se autodeclarou branca. Para Gabriela, a tão sonhada vaga na UFMG não veio fácil. “Desde pequena, me preparei muito bem e consegui passar no vestibular assim que saí do ensino médio. Às vezes, não basta você estudar um ou dois anos, já que o que é cobrado vem de uma preparação que exige ensinamentos de uma vida inteira”, diz. A coordenadora do Colegiado de Medicina, professora Alamanda Kfoury, pensa de maneira semelhante. “Eu percebo que o aluno que entra na Universidade batalhou muito por essa vaga, teve que se preparar e estudar bastante. E para conseguir passar no vestibular ele foi selecionado com diferença de décimos entre outros candidatos”, ressalta. Mudanças Nos próximos anos, espera-se que haja uma mudança efetiva no perfil do estudante da UFMG como um todo, em decorrência do fim do vestibular tradicional. Em 2011, a Universidade substituiu a primeira etapa do 4

concurso pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Já para o processo seletivo de 2014, a instituição decidiu aderir ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu) do Ministério da Educação, no qual os estudantes fazem o Enem como única fase do vestibular e se inscrevem nos cursos com base na nota obtida no exame. Com a adesão ao Sisu, a segunda etapa do processo seletivo da UFMG também foi abolida. Em tese, isso poderia facilitar a vinda de estudantes de outras cidades e estados, já que a seleção deixa de ser presencial. Mas, para o próreitor adjunto de Graduação, André Cabral, com a implantação desse sistema, haverá menos estudantes de outros estados para cursos mais concorridos. Isso porque, com o Sisu, o estudante só pode escolher duas universidades ou dois cursos. “Quem é de outro estado possivelmente irá escolher uma do seu próprio Estado natal. Antes ele podia optar por essas duas faculdades e ainda fazer a prova da segunda etapa da UFMG. Podíamos supor que nos cursos mais concorridos, o nosso vestibular era nacionalizado. Agora, Fonoaudi essa nacionalização tende a cair, embora, é fato, que o bom aluno irá poder escolher onde quer estudar”, explica. Atualmente, 24% dos estudantes que cursam o primeiro período de Medicina na UFMG vie14% 86% ram de outros estados. Rafael Greco é um deles. Natural de São Paulo, ele prestou vários vestibulares em sua cidade, além de outros municípios e estados. “Em São Paulo passei apenas em particulares. Eu e meus pais decidimos que seria mais Idade * vantagem vir estudar na UFMG, por ser uma Mínima Máxima Universidade de renome no mercado”, conta. 17 anos

39 anos

Fotos: Bruna Carvalho

Mais homens na Fono O curso de Fonoaudiologia costuma chamar a atenção pelo grande número de mulheres nas salas de aula. De acordo com a Copeve, dos 50 alunos que ingressaram no início de 2013, 43 são mulheres e sete são homens. “Ter sete homens cursando fonoaudiologia é quase um recorde”, destaca Érica Couto, coordenadora do Colegiado. Gustavo Mattiello, do primeiro período, representa essa minoria e não vê problemas de convívio. “Todos os homens se dão muito bem com as mulheres, não há essa diferença dentro da sala de aula”, afirma. Na nova turma de Fonoaudiologia, grande parte se autodeclarou “preta” ou “parda”. São 23 alunos pardos, o equivalente a 46% do total, e nove negros, o que representa 18%. Érica Couto lembra que há apenas uma aluna negra na turma que se forma neste semestre, por isso, esses números são bastante significativos.

Saúde Informa - Maio de 2013

Infografico: Luiz Lagares

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GRADUAÇÃO

MG? Perfil dos alunos da Faculdade de Medicina Medicina 13,8%

45,3% 54,7%

2,2%

84,1%

Escola Pública

46,2% 22,8%

Escola Particular Escola Pública e Particular Pardos

61,3%

Idade

iologia

*

Mínima

Máxima

16 anos

34 anos

Brancos

50% Escola Pública

30%

Escola Particular Escola Pública e Particular Pardos

6%

Pretos Não responderam

18%

Brancos Residem em Belo Horizonte Oriundos de outras cidades

O curso superior de Tecnologia em Radiologia parece agradar todas as gerações. No último vestibular, foram selecionados estudantes entre 16 e 53 anos. Segundo o sub-coordenador do Colegiado de Tecnologia em Radiologia, Rodrigo Gadelha, alguns alunos já têm outras graduações e, por isso, a faixa etária é mais alta. “Há estudantes formados em Odontologia ou Medicina Veterinária que vêm cursar Tecnologia em Radiologia com o intuito de se especializarem nessa área que tem crescido cada vez mais. Esses estudantes mais velhos já chegam com um foco na formação”, explica.

Tecnologia em Radiologia 2,5% 15,2%

62%

82,3%

21,5%

Escola Pública Escola Particular

41,8%

Escola Pública e Particular Pardos

60,8%

Idade* Mínima

Máxima

16 anos

53 anos

Saúde Informa - Maio de 2013

58,2%

16,5% 1,3%

Pretos Amarelos Brancos Residem em Belo Horizonte Oriundos de outras cidades

Aos 42 anos, o estudante do primeiro período, Roberto de Oliveira, já tem for mação técnica em eletrônica e desenho projetivo. “Tomei conhecimento do curso de Tecnologia em Radiologia e ele tem muito a ver com minhas outras formações. O curso está superando minhas expectativas e estudar na UFMG engrandece o currículo de qualquer um”, avalia.

Foto: Arquivo Pessoal

Experiência na Tecnologia em Radiologia

64%

38%

Não responderam

Oriundos de outras cidades

28%

46%

2,5%

10,3%

Pretos Amarelos

Residem em Belo Horizonte

8%

50%

3,1%

53,8%

* A idade foi calculada a partir da data de nascimento dos candidatos, considerando o primeiro dia do Vestibular de 2013 5


QUALIDADE DE VIDA

Por que é tão difícil parar de fumar? De um modo geral, as pessoas só conseguem vencer a dependência à nicotina depois de duas ou mais tentativas, afirmam especialistas Karla Scarmigliat

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tabagismo é a maior causa de morte evitável no mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Entretanto, mesmo conscientes dos malefícios, para muitos fumantes abandonar o vício de vários anos parece uma barreira instransponível. Lucas Miranda, 22, decidiu abandonar o hábito, depois de seis anos. O funcionário da Faculdade de Medicina se sentia incomodado com efeitos indesejáveis do cigarro, como a dificuldade de respirar ao fazer exercícios físicos. Porém, os sintomas provocados pela abstinência decretaram o fim da tentativa. “A ansiedade, impaciência e irritabilidade me fizeram desistir. Não consegui ficar dois dias sequer longe do cigarro”, reclama. A chamada “síndrome da abstinência” sentida por Lucas é provocada pela ausência da nicotina no corpo. Segundo a professora Maria Aparecida Martins, integrante da Comissão Multidisciplinar de Controle do Tabagismo do Campus Saúde da UFMG, a crise começa poucas horas após a cessação, podendo durar até alguns meses. “O desejo intenso de fumar, agressividade e dificuldade para se concentrar, além das associações automáticas que o fumante faz, por exemplo, tomar café e fumar, ligar o computador e fumar e muitas outras dificultam o êxito da tentativa”, explica. Segundo o Ministério da Saúde, a cada ano, cerca de 80% dos fumantes tentam parar de fumar, mas somente 3% conseguem sem ajuda profissional. “O tabagismo é uma doença crônica e o fumante deve ser tratado como um dependente”, afirma o pneumologista Luiz Fernando Pereira, coordenador do Ambulatório de Cessação do Tabagismo do Hospital das Clínicas da UFMG. Dicas

Após uma tragada de cigarro, a nicotina atinge o cérebro em, no máximo, 20 segundos. A partir daí, estimula a liberação de Foto: Banco de Imagens sxc substâncias que causam sensações de prazer, bem-estar, relaxamento, redução da ansiedade, aumento da atenção, da concentração e diminuição do apetite. Tudo isso faz com que a satisfação em fumar suplante o incômodo de continuar fumando. Para vencer essas sensações, é preciso se distrair e fugir das situações de risco. “A fissura, ou seja, o forte desejo de fumar, não leva mais de cinco minutos para passar”, revela Luiz Fernando Pereira. Por isso, aos que sonham em ver seus pulmões livres da fumaça, o médico recomenda mudar os hábitos, preenchendo o tempo com mais atividades desassociadas ao cigarro. 6

Lucas Miranda sofreu a síndrome da abstinência Foto: Bruna Carvalho

Marcar uma data para iniciar o controle do vício é outro fator importante. Segundo a pneumologista responsável pelo Programa de Controle do Tabagismo da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, Maria das Graças Rodrigues de Oliveira, essa data deve estar dentro dos 30 dias após a tomada da decisão de parar. “É necessário que os fumantes conheçam os mecanismos da dependência à nicotina e desenvolvam habilidades para a prevenção de recaídas, como a prática de exercícios físicos e uma alimentação saudável”, recomenda. Também é necessário o acompanhamento de um profissional da saúde capacitado, além do uso de medicamentos, para reduzir o sofrimento na fase da abstinência e aumentar o índice de sucesso no tratamento. Os remédios, normalmente, são indicados para pacientes que fumam mais de dez cigarros por dia ou que tiveram insucessos em tentativas anteriores. Os principais são em forma de adesivo e goma de mascar, classificados como repositores de nicotina; os antidepressivos, como bupropiona e nortriptilina; além da vareniclina, que age sobre os receptores de nicotina. “Esses medicamentos são indicados por meio de avaliações individuais, que levam em consideração os efeitos colaterais, as interações medicamentosas e até mesmo os preços. De modo geral, são utilizados durante os três primeiros meses do tratamento”, explica Maria das Graças. Ambiente livre de tabaco A Comissão Multidisciplinar de Controle do Tabagismo do Campus Saúde da UFMG, em processo de reativação, pretende capacitar profissionais da saúde para desenvolver ações de apoio aos fumantes que queiram abandonar o vício. Também está prevista a realização de inquéritos no Hospital das Clínicas da UFMG para avaliar a prevalência de fumantes. A partir das informações, os adeptos do cigarro que desejem parar serão encaminhados para tratamento na unidade. A meta da comissão é que o campus se transforme em um “ambiente 100% livre do tabaco”. “Por se tratar de um ambiente onde se cuida da saúde, devemos dar o exemplo”, enfatiza Maria Aparecida Martins.

Saúde Informa - Maio de 2013


GENÉTICA

Cordão valioso Médicos explicam os reais benefícios do armazenamento de sangue do cordão umbilical e placentário em bancos privados

G

uardar ou não guardar? Eis a questão que muitos pais e mães têm enfrentado diante da oferta de bancos e laboratórios privados para armazenar o sangue do cordão umbilical e placentário de seus filhos recém-nascidos para utilização autóloga. Isso significa que as células-tronco provenientes desse sangue são criopreservadas, ou seja, são conservadas através do congelamento a temperaturas muito baixas, para uso terapêutico da própria criança, caso ela desenvolva alguma doença posteriormente. Esse serviço é regulamentado pela Agência Nacional da Vigilância Sanitária (Anvisa) e, segundo o órgão, o número de bolsas armazenadas tem aumentado desde 2003. Entre os anos de 2009 e 2010, por exemplo, a quantidade passou de 8.866 para 11.456 bolsas. Em média, as famílias contratantes desembolsam cerca de 2 Técnica da Hemominas em procedimento no Banco de Medula Óssea.

Jordânia Souza

vida da criança. Segundo o professor, mesmo que a célula mantenha a sua vitalidade criopreservada, ainda são desconhecidos os efeitos dessa criopreservação sobre as características genéticas das mesmas. “O ideal para fazer um tratamento utilizando células-tronco seria com células armazenadas em períodos curtos”, esclarece. Alternativas Além dessas questões, o professor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da UFMG, Rubens Tavares, salienta que as células-tronco também podem ser extraídas da medula óssea e do sangue de outras partes do corpo. Aliás, essas são atualmente as principais fontes para o tratamento de doenças do sangue. O médico também explica que, dentro da medicina regenerativa, já existem vários estudos em andamento utilizando outras fontes de células-tronco, como do tecido adiposo e cerebral, da pele, pâncreas, fígado, polpa dentária, placenta, líquido amniótico e células-tronco embrionárias. “Acredita-se que praticamente todo tecido tenha possíveis mecanismos regenerativos através de suas células-tronco específicas, e cada vez mais têm sido detectadas novas fontes”, afirma Tavares.

Importância dos bancos públicos

Foto: Adair Gomez/Hemominas

mil a 7 mil reais na coleta, além da manutenção anual que varia entre 500 e 700 reais. Um custo elevado para poucos benefícios cientificamente comprovados, alerta o professor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da UFMG, Antônio Carlos Vieira Cabral. “Na verdade, a única comprovação existente desse tipo de célula-tronco com resultados positivos é para tratar as anemias hereditárias e as leucemias. Muitas vezes é divulgada uma amplitude terapêutica que ainda não tem comprovação na literatura médica”, explica. Mesmo no caso de tratamento das leucemias, o uso das células-tronco do próprio cordão umbilical nem sempre é a melhor opção terapêutica. “A maioria das leucemias é de origem genética, então, se a pessoa faz o tratamento com suas próprias células, a possibilidade de recorrência da doença é maior do que se fosse com células de um indivíduo com características genéticas diferentes”, explica Antônio Cabral. Outro problema apontado pelo médico é o longo período em que essas células ficam guardadas, caso não haja a necessidade de usá-las ainda nos primeiros anos de

Saúde Informa - Maio de 2013

Para Antônio Cabral, a exemplo do que já acontece com os bancos de sangue, a melhor medida, em vez do armazenamento privado, seria a implantação efetiva de bancos públicos de cordão umbilical e placentário para utilização heteróloga. No Brasil, já existem 12 bancos desse tipo que fazem parte da rede Brasilcord, criada em 2004. Segundo a Anvisa, até 2014, o país deve ganhar mais cinco espaços para fazer esse armazenamento. Um desses bancos será na cidade de Lagoa Santa e fará parte do Centro de Tecidos Biológicos de Minas Gerais (Cetebio) da Fundação Hemominas. Além de sangue de cordão umbilical e placentário, esse espaço contará com outros cinco bancos responsáveis por armazenar medula óssea (já em funcionamento), materiais sanguíneos raros, pele, tecidos músculos-esqueléticos e valvas-cardíacas. A implantação desses bancos beneficiaria mais pessoas em tempo hábil e o material coletado teria vantagens, como um período menor de armazenamento e características genéticas que podem ser mais efetivas em tratamentos das leucemias de origem genética. “Nas cidades que já possuem o banco, as mulheres devem manifestar o desejo de doar o sangue umbilical de seu filho a partir da metade do pré-natal. É feita uma série de exames nessas mães para que haja segurança nessa doação”, esclarece o médico. 7


PEDIATRIA

Acontece Tutoria

Para os corações adolescentes Atenção aos hábitos e diálogo com os jovens são fundamentais na prevenção de doenças cardiovasculares Mariana Pires

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Depressão Conhecida como o mal da contemporaneidade, a depressão é tema do projeto Quarta da Saúde, em maio. A especialista convidada para falar do assunto é a professora do Departamento de Saúde Mental, Tatiana Mourão, que depois responderá perguntas da plateia. A palestra, gratuita e aberta ao público, será no dia 15 de maio, às 12h30, na sala 150 da Faculdade de Medicina da UFMG. Informações: medicina. ufmg.br/quartadasaude

Doutorado O Programa de PósGraduação em Saúde Pública abre inscrições para o processo seletivo do doutorado, de 1º de junho até 15 de julho. As inscrições devem ser feitas no Centro de PósGraduação, sala 533 da Faculdade de Medicina da UFMG. A seleção inclui análise de currículo e do projeto de pesquisa, além de apresentação e arguição. Informações: medicina.ufmg.br/cpg

IMPRESSO

rivação do sono, experimentação predos fatores sociais e ambientais, a genética coce de álcool e cigarro, uso de drogas, pode ser outro indicativo de risco cardiovasobesidade e sedentarismo. Hábitos e práticas cular. “Em uma família onde as pessoas são presentes nas rotinas dos adolescentes, esses obesas ou apresentam hipertensão, a atenção fatores são considerados de alto risco para o tem que ser dobrada”, alerta. Nestes casos, desenvolvimento de doenças cardiovasculaela recomenda que seja dada prioridade às res. condições passíveis de serem modificadas, como a alimentação adequada e o abandono A preocupação com problemas de cirdo sedentarismo, para proporcionar uma adoculação e coração costuma ser mais comum lescência e idade adulta mais saudável. na população adulta. Entretanto, a professora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG, Cristiane de Freitas, Diálogo chama a atenção para a possibilidade de conDe acordo com a professora Cristiasequências graves, ne, é preciso ouvir como os acidentes o adolescente para vasculares cerebrais descobrir porque e infartos, aconteceele, mesmo ciente rem ainda na adolesdos riscos assumidos cência. com determinados Cristiane conc o m p o r t a m e n t o s, ta que a obesidade, não muda os hábitos. cada vez mais co“São vários motivos mum, é considerada a particulares. É premaior vilã dos riscos ciso trabalhar com o cardiovasculares. “O adolescente questões consumo de alimencomo mídia, escotos industrializados la, políticas públicas, e a redução de ativimas sempre preserdades físicas e horas vando um lugar de de sono são os prinescuta”, acredita. O Estudo de Riscos Cardiovasculares em cipais responsáveis”, Cristiane acreAdolescentes (Projeto Erica), coordenado alerta. Para a profesdita que conversar pela Universidade Federal do Rio de Jasora, a situação pode com o adolescente é neiro (UFRJ) e financiado pelo Ministério ser ainda pior quanfundamental para que do esses fatores são da Saúde, vai buscar o perfil dos fatores ele possa construir interligados. “Um de risco para doenças cardiovasculares em suas próprias referênobeso pode não conadolescentes de escolas de todo o país. cias. “A adolescência seguir praticar um esé um momento de No total, serão avaliadas as condições de porte, por exemplo. mudanças, de transisaúde de cerca de 75 mil estudantes entre Se esse adolescente ção, mas isso não é 12 e 17 anos, de todas as regiões do Brasil. se alimenta inadequanegativo. É preciso A professora Cristiane de Freitas é coordamente, os riscos mudar a ideia de vuldenadora do projeto em Minas Gerais. A aumentam muito”, nerabilidade para enpartir do dia 6 de maio serão iniciadas as explica. xergar a oportunidavisitas às 56 escolas, públicas e particulaA pediatra lemde de aprendizado”, res, de 11 municípios mineiros. Leia mais: bra ainda que, além conclui Cristiane. www.erica.ufrj.br

O IV Seminário da Tutoria, sobre álcool e drogas, será realizado no dia 22 de maio, às 18h, na sala Amílcar Vianna da Faculdade de Medicina. Organizada pelo Napem, a atividade é voltada para estudantes e professores da Unidade. Foram convidados palestrantes das áreas de psicologia, antropologia e medicina preventiva. Não é necessário fazer inscrição prévia.

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Saúde Informa nº 28