Issuu on Google+


Revista AcadĂŞmica da Faculdade 2 de Julho Ano 1 NĂşmero 1 Fevereiro de 2007 Salv ador - Bahia


1981-1098

FACULDADE 2 DE JULHO Avenida Leovigildo Filgueiras, 81 Bairro do Garcia, CEP - 40.100-000 Salvador - Bahia - Brasil Tel.: (71) 3114.3400 www.f2j.edu.br


Diretor de Administração e Finanças Prof. Sergio Miranda Souza Coordenação Pedagógica e Acompanhamento Acadêmico Profa. Tecla Dias de Oliveira Mello Assessor de Comunicação Jornalista Silvio César Tudela Secretário Acadêmico Fabiano Peixinho Coordenadora da Biblioteca Rosane Rubim Coordenador do Curso de Administração Prof. Adriano Rocha Coordenador do Curso de Comunicação Social Prof. Derval Gramacho Coordenador do Curso de Direito Profa. Valnêda Cássia Carneiro Editor Derval Cardoso Gramacho e Benito Muiños Juncal Conselho Editorial Adriano Santos Rocha Silva Alexandre Rocha Benito Muiños Juncal Derval Cardoso Gramacho Isabella Fadul José Henrique de Freitas Santos Juarez Duarte Bonfim Sebastião Heber Vieira Costa Tecla Dias de Oliveira Mello Valnêda Cássia Santos Carneiro Projeto Gráfico e Diagramação Vinícius Silva Carvalho

EXPEDIENTE

Diretor Geral Prof. Josué da Silva Mello


Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista IndependĂŞncia


02

Educação e Contemporaneidade: Alguns elementos para reflexão Gustavo Roque de Almeida ..................... 33

03

Mundo tecnológico: mudanças significativas no “fluxo” de informações? José Carlos Ribeiro ........................... 43

04

Rádio: de meio de comunicação de massa a veículo de inclusão social Derval Cardoso Gramacho ................... 47

05 06

Sílvio Romero: O pensamento mestiço José Henrique de Freitas Santos ............... 55

As filigranas da dor em “Contos cruéis de guerra”, de Ibéa Atondi Lívia Natália ...................................... 67

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

SUMÁRIO

01

As escolas de comunicação e os novos paradigmas da comunicação de massa Verbena Córdula Almeida ........................ 11


SUMÁRIO

10

07

11 08

“O canto do negro veio lá do alto... é belo como a íris e os olhos de Deus...” Sílvio César Tudela ............................... 75

Pedro Batista, o criador de Santa Brígida Sebastião Heber Vieira Costa .................. 101

12 09

A importância da educação na formação do jovem engajado em movimentos de comunicade Sérgio Miranda ................................... 111

10

A fala e o gesto na fenomenologia de Merleau-Ponty Márcia Saievicz ............................... 117

11

Humor: uma estratégia comunicacional do movimento literário Padaria Espiritual Júlio Vitorino Figueroa ........................ 133

12

6

História Empresarial Vivida Juarez Duarte Bomfim ...................... 145

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


A história da humanidade é a história da comunicação, pois o homem é um ser comunicante. De tal modo que o racionalismo de Descartes, “penso, logo existo”, pode ser melhor entendido como: comunico, por isto existo. Desde o instante em que nosso mais antigo ancestral encontrou um outro semelhante nasceu a necessidade de se criar mecanismos e meios de se comunicar, de se fazer entender e compreender o desejo do outro. Daí se originaram as linguagens. Com o passar do tempo, a comunicação – o ato de tornar a ação comum, compartilhar as idéias –, aperfeiçoou-se e estimulou o desenvolvimento social e tecnológico do ser humano. O advento da escrita foi, sem dúvida, um dos maiores feitos e conquistas da humanidade. Inevitavelmente esta descoberta chegaria a ter aproveitamento tecnológico, o que ocorre na metade do século XV, quando Johann Gensfleish Gutenberg cria a imprensa e inicia uma nova fase na comunicação social. Em 1790, 250 anos após a invenção de Gutenberg, o engenheiro francês Claude Chappe desenvolve o primeiro sistema de telégrafo, cuja sistematização é feita por Samuel Morse, em 1838. O século XIX foi marcado por uma avalanche de descobertas na área das comunicações. Em 1832, Joseph Plateau cria o primeiro aparelho a produzir a ilusão de movimento em um desenho que serviu de base às pesquisas que resultaram na criação do cinema, em 1895, pelos irmãos Auguste e Louis Lumière. Em 1876, Alexandre Graham Bell inaugura um novo meio de comunicação: o telefone. Alicerçado nos estudos de Heinrich Rudolf Hertz, Guglielmo Marconi, nos suspiros finais do século XIX, apresenta o rádio à humanidade. Do rádio, evoluímos para a televisão e, na última década do século XX, vimos surgir a Internet e com ela o romper de todos os limites da comunicação. A evolução dos meios também se processa no sentido de aperfeiçoar a comunicação ao ponto de conseguir realizar a proeza de a informação ocorrer em tempo real, não só na velocidade do som, mas da luz.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

EDITORIAL

Mundialização do conhecimento


O mundo mudou. Vivemos em uma nova realidade onde a imagem e o movimento fazem parte do cotidiano de cada ser vivo. Em um mundo cada dia mais globalizado a mundialização do conhecimento se faz necessária. Sem isto, ele está fadado a desaparecer, a se anular. A proposta da Faculdade 2 de Julho de criar a revista Independência surge desta necessidade: propiciar um espaço aberto à manifestação de todos os saberes de modo a contribuir para a construção de um conhecimento coletivo e nômade como é a informação em nossa época. Assim, entregamos à sociedade o primeiro número desta obra, que se pretende semestral, e busca reunir as mais diversas correntes de pensamentos, porque o ser humano é plural.

Derval Cardoso Gramacho Editor Chefe

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Josué da Silva Mello Diretor Geral

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

APRESENTAÇÃO

A Faculdade 2 de Julho, ao publicar o primeiro número de sua REVISTA INDEPENDÊNCIA, o faz como resultado de sua caminhada acadêmica e como sinal de seu compromisso como futuro. Por isso, INDEPENDÊNCIA é o seu nome. Emerge inspirada nos ideais maiores do 2 de Julho, na perspectiva histórica de ampliação de horizontes de liberdade, de vivência democrática e de fortalecimento de cidadania. A Revista é um marco. Assinala o amadurecimento da academia, o avanço de seu projeto pedagógico, a consolidação de seus cursos, a consciência de que a educação superior não está circunscrita apenas à sala de aula. Urge produzir, criar, gerar novas idéias, construir e divulgar os novos conhecimentos, produzidos no processo acadêmico. É um passo eficaz para a academia atuar como instrumento de transformação. Como nos lembra Albert Einstein: a mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original. A Faculdade deve ser antes um Centro de Pensamento, de busca permanente da verdade, espaço de debate e de pesquisa, de reelaboração e construção do conhecimento novo, com que se há de aprofundar e amadurecer um padrão e um valor. A ação acadêmica pressupõe uma responsabilidade, que se exprime no pluralismo de idéias, na convergência das divergências, no prevalência do senso crítico, investigativo, que singulariza o homem, sujeito de todo o processo. Pretende-se uma REVISTA acadêmica, institucional, de vanguarda, aberta a todos os Cursos e a todos os campos do saber. Um veículo onde a geração de idéias, de beleza literária e de verdade esteja a serviço da liberdade, da aventura do espírito humano, da pedagogia da qualidade e da construção de esperanças na formação de uma cultura da paz, da solidariedade e dos direitos da pessoa humana. Nesse sentido, a REVISTA INDEPENDÊNCIA há de ser, para a Faculdade 2 de Julho, como semente que germina, sempre geradora de idéias, pensamentos, produções culturais e científicas e, como espelho a refletir o processo de construção do saber, a obsessão de uma Faculdade em busca da excelência, de uma comunidade universitária ativa, reflexiva, produtora de conhecimento novo e compromissada com a construção de um novo futuro.


Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista IndependĂŞncia


Ano 1, nº 0, Outubro de 2006

Revista Independência

01

Título As escolas de comunicação e os novos paradigmas da comunicação de massa Autor Verbena Córdula Almeida Doutora em Comunicação pela Universidad Complutense de Madrid e professora dos cursos de Jornalismo, Propaganda e Marketing da Faculdade 2 de Julho. E-mail: profeverbena@yahoo.combr

Resumo Os meios de comunicação de massa, majoritariamente, não refletem os anseios e perspectivas da maioria da sociedade. Imersos no contexto do sistema capitalista tendem a reproduzir o discurso dominante e, conseqüentemente, a ocultar as verdadeiras demandas sociais, reduzindo ao máximo o espaço que deveria ser destinado às discussões entre Estado e sociedade civil. P resentes incontestavelmente no cotidiano das sociedades, apresentam-se, aparentemente, como espaços democráticos, sobretudo se compararmos suas características contemporâneas com aquelas verificadas no período entre guerras. Mas, na verdade, em vez de se configurarem como via de expressão de idéias, valores e opiniões diversas, de maneira equilibrada, encontram-se voltados a propagar idéias, valores e opiniões a partir da ótica dos detentores do poder econômico. O presente trabalho pretende levantar essa discussão, partindo de uma retrospectiva histórica, buscando induzir a uma reflexão acerca do papel que devem exercer as escolas de comunicação na busca da superação desta performance dos meios, possibilitando a edificação, manutenção e consolidação de um outro modelo de comunicação, de caráter popular, priorizador da construção da cidadania e possível instrumento impulsionador da transformação estrutural da comunicação de massa. Palavras-chave: comunicação, democracia, escolas, cidadania.


Muitos estudos têm sido realizados acerca dos meios de comunicação de massa (MCM) mostrando a importância que estes vêm adquirindo, ao longo dos séculos, no âmbito social. É incontestável sua importância no contexto das sociedades contemporâneas. Já não se pode conceber uma sociedade sem os meios de comunicação. Já não há mais retorno. Entretanto, pensá-los no âmbito social nos remete – ou deveria nos remeter – a um questionamento que parece imprescindível: de onde partirá ou de que maneira se dará a mudança na práxis dos meios de comunicação de massa? No processo evolutivo dos estudos sobre comunicação, encontramse teorias sugerindo vários prismas para analisar o processo de construção e recepção das mensagens, partindo da teoria da Agulha Hipodérmica1 e da Teoria do Espelho2, passando por outras abordagens que contemplam os aspectos psicológicos, históricos, antropológicos e sociológicos, sustentando teses mais críticas e reflexivas acerca desse processo comunicativo. Considerar os constrangimentos organizacionais, as ideologias – tanto hegemônicas quanto não-hegemônicas – abre uma discussão bastante interessante e, sobretudo, madura, para se tentar compreender, com bases mais amplas, a comunicação de massa nas sociedades contemporâneas. Neste trabalho se pretende suscitar uma reflexão sobre o papel dos MCM nas sociedades, sobretudo, direcionar tal reflexão para a necessidade de se reformular a práxis dos mesmos, ressaltando a função que deve exercer as escolas de comunicação no processo de formação dos profissionais. Neste sentido, se partir-se-á de uma retrospectiva histórica no intuito de conduzir a reflexão acerca do processo de evolução da comunicação, principalmente a partir da utilização dos mesmos como instrumentos de propaganda ideológica.

12

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


1. O uso propagandístico da comunicação O assentamento, no século XX, dos modernos MCM, como o cinema, o rádio e a televisão, se completa, nas últimas décadas, com o advento de novas tecnologias, entre as quais notadamente podemos destacar a Internet. Na contemporaneidade, o ser humano dispõe de um volume de informações e de uma rapidez para consultá-la, como nunca havia acontecido. Vale salientar, no entanto, que tal desenvolvimento veio também acompanhado de sua utilização para mobilizar populações inteiras, levando-as, inclusive, à guerra entre nações industrializadas3, em cujos conflitos a comunicação foi convertida em uma frente na qual as balas e os canhões foram substituídos por discursos, lemas, frases, desencadeando os piores horrores ou serviram – e ainda servem – para legitimá-los contra populações civis indefesas. As implantações de sistemas autoritários, a manutenção de guerras sob o exercício indiscriminado do terror se apoiaram – e continuam se apoiando – freqüentemente no controle ferrenho e na manipulação da informação, monopolizada por quem pretendia – e continua pretendendo – tamanha atrocidade em nome de conceitos abstratos como fé, pátria ou etnia, dotados normalmente de uma máxima que ocultava – e oculta – atrás de si o sofrimento de milhões de seres humanos em todas as partes do planeta4. Os novos meios de comunicação como o cinema e o rádio, mais adequados para atingir a uma massa de receptores, além de não trazerem como pressuposto básico o domínio da leitura, acabaram servindo como instrumentos auxiliadores de ações manipuladoras, dominadoras, totalitárias. Exemplo claro foi o fascismo que, surgido como movimento na Itália, não demorou em ser copiado e redimensionado com a

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

13


competência digna de alunos aplicados como Adolf Hitler, na Alemanha. Houve, naquela época, a combinação de ideologias reacionárias e ultra-conservadoras do século XIX com aquelas relacionadas ao moderno modelo baseado no automatismo próprio das sociedades de massa. Tal combinação deu suporte à extensão do discurso fascista, que por sua vez andou junto com o estrito controle dos meios de comunicação tradicionais, como a imprensa, além de uma exploração inescrupulosa desses novos meios surgidos para se dirigir às massas: o rádio e o cinema. Aqui no Brasil temos o exemplo do primeiro modelo de controle dos meios massivos de comunicação como suporte à sedimentação de uma “sociedade corporativa, com ênfase na objetividade tecnocrata e no autoritarismo paternalístico” (JAMBEIRO, 2003, p. 11) levado a cabo por Getúlio Vargas, sobretudo a partir do período conhecido como Estado Novo (1937-1945). Da mesma forma como na sociedade liberal capitalista, viu-se também o controle e a utilização dos meios de comunicação como armas propagandísticas, por parte do mundo comunista, que de igual forma serviu para controlar as massas e tentar convencê-las da suposta legitimidade da atuação – muitas vezes atroz – daqueles que estavam à frente do dito sistema. Pode-se citar como semelhante referência as atrocidades praticadas pelo regime stalinista perpetrado na antiga União Soviética, onde a propaganda foi massivamente utilizada para dar suporte àquele sistema autoritário, responsável pelo extermínio de milhões de seres humanos, em nome da manutenção do poder hegemônico. Foram tempos muito difíceis, não só pelo controle desses meios pelos dirigentes políticos dos respectivos regimes, mas de cerceamento

14

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


das liberdades, da imposição da censura propriamente dita, que fizeram dos MCM controlados as únicas fontes de informação disponíveis aos cidadãos. 2. A democratização da comunicação de massa Passado esse período, parece que os MCM vêm sofrendo freqüentes metamorfoses e, nessa perspectiva, na sua configuração atual, contemporânea, apresentam-se como mecanismos de fácil acessibilidade e, sobretudo, trazem, aparentemente, um status de democráticos, de participativos, especialmente se comparamos a performance destes nos dias atuais em relação ao período de entre guerras. Não cabe a menor dúvida o processamento de uma visível transformação. Entretanto, cabenos ressaltar o fato de essa democratização ainda se distar das reais necessidades das sociedades ditas democráticas. Conforme José Marques de Melo, é necessário melhorar o nível da comunicação que abastece a população brasileira e a capacita a tomar decisões cotidianas. Nesta perspectiva expõe como algumas das metas prioritárias:

Democratizar o acesso à propriedade dos meios de comunicação. Neutralizar o monopólio hoje desfrutado pela burguesia, que dispõe do capital necessário à sua implantação e manutenção. Criar mecanismos jurídicos para distribuir as concessões radiofônicas ou as facilidades editoriais com as outras forças atuantes na sociedade: sindicatos, movimentos sociais, sociedades culturais ou científicas. Assim, introduzindo no mercado fatores de competição, alternativas de qualidade, matrizes plurais de percepção ideológica (MARQUES DE MELO, 1986, p. 82).

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

15


Ao contrário do que defende o comunicólogo, os MCM estão menos a serviço da massa do que deveriam. Em vez de se configurarem como via de expressão de idéias, valores e opiniões diversos, de maneira equilibrada, estes se encontram mais voltados ao papel de condicionadores de mentalidades, em cujas idéias, valores e opiniões influem cada vez mais diretamente. Não se trata de defender um frankfurtianismo dogmático, para o qual as resoluções dos problemas referentes à democratização da comunicação de massa se dariam a partir da introdução do pensamento socialista em contraposição à lógica capitalista. O tema é muito mais complexo. É necessário, porém, a garantia da heterogeneidade de pensamento e parece que esta é a direção apontada por Marques de Melo na sua defesa da democratização dos meios. Vale salientar, porém, a necessidade de cautela referente às idéias que, incondicionalmente, atribuem aos MCM o poder supremo de “injetar” mensagens sem a possibilidade de reação consciente e ativa por parte do receptor. Contudo, necessário se faz ressaltar um fator importante: em uma sociedade automatizada, repleta de mazelas, como a falta de um sistema educacional eficiente, falta de incentivo à cultura, dentre outras, os meios acabam se configurando como formadores de opiniões com um peso bastante considerável. Há vários condicionantes para explicar esta afirmação e, um deles, talvez o mais importante, seja o fato de os MCM estarem mais voltados para o caráter mercantil do que propriamente preocupados com a função que lhes seria primordial, qual seja a de informar e educar. Se se retorna à atividade comunicacional de massa na sociedade ocidental, nos séculos XVIII e XIX – neste período reduzida ao jornalismo impresso –, por exemplo, deparar-se-á com uma atividade, na maioria

16

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


das vezes, com a intenção direta de discutir questões políticas, econômicas e sociais que estas sociedades enfrentavam – fosse no sentido de questionar a ordem vigente ou de estabelecer a defesa da sua continuidade. Apesar da diminuta abrangência da penetração destas idéias por meio da imprensa, por motivos óbvios, não podemos desprezar o fato de a atividade jornalística ter contribuído para a ampliação de idéias e ideais que deram uma outra configuração às realidades vigentes. Exemplo desse tipo de imprensa esteve presente nas colônias hispano-americanas, onde os jornais serviram como instrumentos de propaganda ideológica para desestabilizar a ordem vigente ou mesmo para defender a hegemonia do poder constituído. Já no século XVII começaram a circular jornais e folhetos com críticas referentes aos problemas dos grandes núcleos populacionais. Embora a população em geral não se encontrasse preparada para compreender as teorias sobre liberdade nem os conceitos de nação, compreendia as críticas feitas à concentração de riquezas e de cargos públicos nas mãos dos europeus colonizadores. Por outra parte, os monarquistas também utilizaram a imprensa tradicional para defender a legitimidade do governo colonial. Na confusão de idéias que deram a conhecer esses escritos do século XVII, nas colônias hispano-americanas, há um fio condutor que nos permite observar duas tendências: uma liberal e outra anti-liberal ou realista (NAVARRETE, 1998). Sem nenhuma dúvida, é flagrante o papel desempenhado pelos jornais para a difusão das idéias contrárias e/ou favoráveis ao sistema colonial. Analisando o caso brasileiro, embora a imprensa tenha chegado tardiamente e com o agravante de ter sido implantada para servir como porta-voz da autoridade constituída5, também se pode observar que no âmbito do seu processo evolutivo o jornalismo se constituiu,

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

17


gradativamente, em importante instrumento de difusão dos ideais de Independência, de República, de abolicionismo. Em que pesasse a censura, as tentativas de silenciar os defensores da quebra da hegemonia do poder constituído; em que pesasse a existência de uma sociedade majoritariamente iletrada, não se pode negar o importante papel desempenhado pela imprensa na divulgação dos ideais e das ideologias que contrastavam com os ideais e ideologias hegemônicos que, por sua vez, também faziam uso do jornalismo como veículo propaganda. Estava claro, estava explícito o papel panfletário do jornalismo, a defesa de bandeiras. Seguindo uma tendência mundial, no final do século XIX a atividade jornalística no Brasil sofre uma metamorfose, conseqüente do seu processo evolutivo. O jornalismo deixa de ser uma atividade de cunho artesanal e converte-se em empresa. Com essa transformação a atividade ganha novas características e, uma delas, é a separação entre notícia e opinião. E, gradativamente, para atender aos interesses de cunho comercial, que em primeira e última instâncias significava ampliar cada vez mais a abrangência na sociedade, empunhou-se a bandeira da imparcialidade. Mas essa defesa da imparcialidade não significa afirmar que os jornais se tornaram imparciais, pelo simples fato de que a imparcialidade não existe. Mencionar a imparcialidade é incorrer no erro de desprezar a historicidade dos indivíduos, o seu processo cognitivo e, portanto, menosprezar a capacidade de interferência dos sujeitos no processo histórico no qual estão inseridos. A defesa de dita imparcialidade precisa ser vista sob um olhar crítico, que remete a enxergar além das aparências. Conforme Marques de Melo (1986, p. 39), “se a comunicação é um processo de reprodução simbólica, evidentemente a arbitração dos

18

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


símbolos que representam a realidade e que dão sentido à interação humana configura uma operação ideológica”. Assim sendo, a atividade jornalística é eminentemente ideológica, já que apreender os fatos e relatá-los através de veículos de difusão coletiva significa projetar visões de mundo. E qual a visão de mundo projetada pelos meios de comunicação em nossa sociedade? É desnecessário responder a esta indagação, pela obviedade. Partindo deste pressuposto se encontra um conflito explicitamente estabelecido entre o conteúdo oferecido à sociedade pelos meios de comunicação e aquilo que seria – do ponto de vista dos que analisam as necessidades da maioria da população – o ideal de conteúdo a ser veiculado por estes. O que há, no âmbito dos meios de comunicação, é, senão, uma reprodução do conflito de interesses existentes no seio da sociedade de classes: os conflitos nas favelas, o tráfico de drogas, a violência policial, a ocupação de terras pelos sem-terra, a discriminação social, étnica, de gênero, etc., tudo isso sem uma maior reflexão acerca dos porquês desses fatos ocorrerem tão cotidianamente em nossa sociedade. Os porquês são desprezados no cotidiano da produção da notícia, como se fossem elementos desnecessários. Os conteúdos disseminados pela comunicação de massa, em sua maioria, não são desenvolvidos de maneira a suscitar na sociedade questionamentos e uma conseqüente mudança de comportamento frente aos maiores problemas que afligem os indivíduos que compõem dita sociedade. Não se preocupam, tampouco, em ampliar o grau de educação dos receptores, tome-se como exemplo a esmagadora maioria da programação televisiva, cujo objetivo primordial é promover o merchandising desenfreado para impulsionar cada vez mais o consumo compulsivo.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

19


As empresas de comunicação parecem preferir promover o sensacionalismo desmedido a informar à sociedade e conseqüentemente fazê-la refletir sobre os problemas que a cercam. Exemplos nítidos desta prática foram os atentados contra as torres gêmeas nos Estados Unidos, em 2001, o atentado contra o trem, em Madrid, em março de 2004, a catástrofe ocorrida na Ásia no final de 2004 (Tsunami) e tantas outras catástrofes e calamidades que são utilizadas de forma sensacionalística nos mais variados espaços dos veículos, sejam eletrônicos ou impressos, para atrair expectadores, ouvintes e leitores sem, contudo, promover uma reflexão crítica acerca destes fatos. No caso da catástrofe ocorrida no continente asiático, publicouse nos meios o fato de os países atingidos não possuírem mecanismos tecnológicos capazes de diagnosticar, prever e, portanto, viabilizar ações que reduziriam as conseqüências – sobretudo do ponto de vista humano. Falou-se na pobreza dos países do chamado Terceiro Mundo, quando, em realidade, se deveria falar na pobreza da maioria da população destes, uma vez que os países não são pobres. Deixaram de ponderar que a Índia possui um arsenal nuclear avaliado em bilhões de dólares e que, em lugar disso poderia ter viabilizado todos os mecanismos tecnológicos necessários e capazes de apontar a chegada de cataclismas, ou que com o dinheiro gasto em programas nucleares se mataria a fome de milhões de pessoas naquele país. Isto poderia induzir a sociedade a questionar, por exemplo, os gastos do governo brasileiro, que priorizam, muitas vezes, o supérfluo, em detrimento de investimentos em setores essenciais à qualidade de vida da população. Os gastos com publicidade institucional podem servir como exemplo clássico. É flagrante a falta de interesse dos meios em aprofundar a maioria das discussões e, ao contrário, também é nítido o interesse em chamar

20

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


a atenção pela dimensão catastrófica de determinados acontecimentos ao invés de, por exemplo, fazer a sociedade conhecer certos dados que possivelmente suscitariam outros tipos de reações. Aceitar o caráter ideológico da atividade jornalística – e comunicacional de massa como um todo – é o primeiro passo para a aceitação de que esta, ao assumir característica empresarial, vai responder aos interesses únicos e exclusivos da classe social que detém os meios para mantê-la em funcionamento. A configuração dos MCM em nossa sociedade cada vez menos atende a essa formatação de ideal de democracia. E para estes meios as escolas de comunicação estão formando centenas e mesmo milhares de jovens: estão sendo formados profissionais que, no mercado, serão especializados em vender produtos disfarçados de notícias, de informação. Analisando sob esta perspectiva, pode-se perguntar: é possível trilhar por outro caminho? E qual caminho seria este? 3. Fragmentação e descontinuidade O jornalista e professor da Universidade Fluminense, Felipe Pena, chama a atenção para a necessidade de colocar em prática o que ele chama de “jornalismo de resistência”. De acordo com o comunicólogo, este jornalismo consistiria na aplicação prática de preceitos ligados à função social da atividade, ou seja, a resistência da concepção mercadológica de jornalismo, refutando assim a classificação da notícia como simples mercadoria ou as limitações das rotinas produtivas (PENA, 2005). Ele defende a possibilidade de construção social da realidade através da atividade jornalística e a profissão de jornalista como importante nesta dinâmica. Há quem advogue que a democratização da sociedade somente

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

21


se viabilizaria a partir da democratização dos meios de comunicação, mas, se damos por certo que estes reproduzem a divisão de classes e os respectivos conflitos de interesses existentes na sociedade, seria incoerente defender esta tese. É demasiadamente utópico pensar a possibilidade de conciliar os interesses econômicos que o sistema capitalista pressupõe com o bem-estar das pessoas. Se assim o fosse, como ressalta Montoya (2004), estaríamos esperando o sistema capitalista se autodemocratizar, ou seja, a destruição do capitalismo. O certo é que os meios e o jornalismo vêm desempenhando o papel de advocacy dos pressupostos básicos do sistema capitalista e não das causas sociais. Deste modo, é imprescindível a consciência de que o caminho a ser traçado é justamente o inverso, ou seja, partir da democratização da sociedade à democratização dos MCM. Os meios de comunicação pertencentes aos burgueses não incentivarão a diversidade do pensamento, a análise e a reflexão generalizada, mas, ao contrário, tenderão a agir cada vez mais no sentido de contribuir para a conformação de uma sociedade pautada na sedimentação dos valores burgueses. Tomando como exemplos práticos as matérias jornalísticas veiculadas diariamente nos meios – tanto eletrônicos quanto impressos –, vemos claramente o que prevalece. Apesar de aparentemente ultrapassada, a Teoria do Espelho parece encontrar adeptos e defensores na esmagadora maioria das empresas de comunicação e, conseqüentemente, de muitos jornalistas. Na contemporaneidade a comunicação está presente em todos os âmbitos. Desde que se levanta o homem é “bombardeado” com tal volume de informações, notícias e mensagens, a ponto de sua capacidade cognitiva ser obrigada a realizar um acelerado processo de seleção, um

22

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


vertiginoso crivo para descartar tudo aquilo que carece de interesse de acordo com os seus próprios critérios. Nesta perspectiva, geralmente prevalece a visão da mídia como competente dispositivo de mediação.

São os “agentes de midiação” que têm o encargo de “dar uma estrutura representativa” a fatos ocorridos, dotando essa sua proposição de um sentido e a ofertando à recepção de um público extenso, mas fragmentado e descontínuo [...] (POLISTCHUK e TRINTA, 2003, p. 149).

Assim sendo, a implementação de um jornalismo mais próximo à sua função social, seja ele de resistência, como defende Felipe Pena, ou cívico; a refutação da objetividade e o conseqüente combate aos enquadramentos viciados; bem como a atuação do jornalista como ator político, entre outros (PENA, 2005). Recentemente o jornalista brasileiro Ulisses Capozzoli escreveu artigo intitulado As reflexões que o jornalismo não faz – ponderações imprescindíveis para qualquer comunicólogo e estudantes de Comunicação, bem como para qualquer cidadão – onde citou como exemplos reportagens realizadas sobre massacres de indígenas no Brasil, o tratamento dado pela imprensa na Espanha sobre o atentado de 11 de março de 2004, entre outros, ressaltando a abordagem superficial e distorcida que o jornalismo geralmente dispensa aos fatos. Para Capozzoli, os jornalistas têm a obrigação de tratar a realidade com a inteligibilidade e a ética necessárias e que é preciso haver um filtro crítico. Na maioria dos casos, esse filtro crítico referido por Capozzoli atingiria frontalmente os interesses dos controladores dos meios de

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

23


comunicação. Quando, por exemplo, o receptor se depara com matérias jornalísticas se reportando aos acidentes automobilísticos, por acaso ditas abordagens trazem algum aspecto crítico? São limitadas, quase que exclusivamente, às estatísticas, a elencar o consumo de bebidas alcoólicas, bem como o excesso de velocidade como os principias causadores de ditos acidentes e, quando se referem à velocidade, jamais questionam o porquê desta excessiva velocidade. Não se lê ou se assiste nestas reportagens nenhuma menção ao fato de haver uma preocupação cada vez maior, por parte da indústria automobilística, em aprimorar e dotar seus veículos com motores cada vez mais potentes e velozes e colocá-los no mercado à disposição do consumidor, fato que incide de maneira marcante nas estatísticas de acidentes de trânsito. Quando o receptor lê ou vê uma reportagem a respeito dos acidentes de trânsito, a reflexão que é sugerida não é outra senão a da irresponsabilidade dos condutores dos veículos provocadores dos ditos acidentes, mas nunca é direcionado a questionar, por exemplo, qual a parcela de culpabilidade de quem fabrica, comercializa e de quem permite a comercialização de veículos capazes de desenvolver uma velocidade completamente inadequada e incompatível com os códigos de trânsito e, sobretudo, com a preservação da vida nas vias urbanas e rodovias do mundo afora. Mas esse tipo de reflexão põe em xeque o sistema capitalista, entra em choque com o que há de mais “sagrado” em dito sistema, que é indução ao consumo sem a reflexão quanto às conseqüências que isso pode implicar. No tocante às questões sociais brasileiras, ocorre exatamente o mesmo. No século XX, o Brasil foi o país que apresentou a melhor média de crescimento no mundo e, no entanto, esse crescimento não se viu refletido na melhoria das condições de vida da maioria da sua população.

24

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


No último ano, o governo brasileiro vem se vangloriando do crescimento do superávit da balança comercial. Mas, a despeito disto, continua-se com as políticas assistencialistas, com os altos índices de desemprego, enfim, com a concentração gritante da renda, onde as cinco mil famílias mais ricas do País detêm 45% do PIB nacional. O raciocínio lógico remete à conclusão de que a solução para a maioria dos problemas do Brasil estaria na distribuição eqüitativa desses recursos, de modo a proporcionar condições dignas de vida à população em geral. No entanto, os meios de comunicação limitam-se apenas e tão-somente a divulgar os números da balança comercial. A reflexão aqui proposta – e a menção feita às matérias sobre os acidentes e às questões político-sociais brasileiras são apenas exemplos ilustrativos – é que os meios de comunicação, de um modo geral, não auxiliam na ampliação da margem de reflexão da sociedade sobre os problemas que a afligem. Ao contrário, têm-na direcionado para um alheamento massivo, não contribuindo para o aprimoramento da capacidade reflexiva dos cidadãos, buscando reduzir estes a meros decodificadores de mensagens, a maioria delas transmitidas de forma limitada, propiciando uma visão unilateral, fragmentada e descontínua dos fatos e acontecimentos. 4. As escolas e a mudança de foco Embora muitos já estejam identificando nos meios de comunicação essa falta de atuação conscientizadora, incentivadora de uma práxis reflexiva da sociedade, não se vê claramente propostas de como solucionar dito problema. Sendo assim, fica a pergunta: de onde deve partir essa ação de redirecionar a práxis dos meios de comunicação, especialmente a jornalística, e quais as possibilidades de que esse

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

25


redirecionamento realmente se efetive? Retomando a indagação feita anteriormente, considerando o rumo que vêm seguindo os MCM, há saída possível capaz de remeter a atividade comunicacional de massa à outra direção? As gerações futuras poderão conhecer outro tipo de direcionamento da atividade comunicacional de massa, que em vez de priorizar o incentivo do consumo, o sensacionalismo, a superficialidade, passe a adotar como objetivo primordial a informação, a formação, a reflexão, o debate? Ou seria utópico imaginar a possibilidade de uma mudança de rumo neste sentido? Por agora, talvez o mais coerente seja afirmar quão difícil seria alcançar mudanças – melhor dizendo, transformações –, tão significativas. Entretanto, é importante notar que nem tudo está perdido. Exemplos disso são algumas iniciativas acadêmicas surgidas pelo País afora, onde diversos trabalhos, inclusive de conclusão de curso, de estudantes de comunicação, sinalizam o desejo de mudança dessa direção assumida pela maioria dos MCM. Essas iniciativas, ainda que bastante incipientes, vêm demonstrando a necessidade de o estudante e o profissional da comunicação redimensionar seus olhares e ações, direcionando seu foco de atenção para além dos limites dos grandes grupos e conglomerados de comunicação. Ou seja, há vida profissional – ainda no momento sem estrutura – fora das grandes mídias, a exemplo de comunidades carentes, de organizações não-governamentais e outras entidades, potenciais a serem explorados no campo da comunicação, talvez os responsáveis, no futuro, por uma mudança e/ou transformação estrutural nos MCM. Este redirecionamento colocaria à prova a vaidade pessoal de muitos postulantes à carreira de comunicador social, que vêem nesta a possibilidade de terem suas imagens e/ou assinaturas estampadas nas grandes mídias, “invadindo” os espaços de milhares ou milhões de

26

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


receptores. Talvez fosse responsável por uma significativa redução do número de candidatos às vagas oferecidas nas diversas escolas de comunicação distribuídas pelo País. Mas, provavelmente, seria responsável também pela mudança de paradigma do cenário comunicacional de massa. A futura configuração estaria baseada na “fórmula” menos glamour, mais compromisso social. E é, sobretudo, importante ressaltar o papel que têm ou devem ter os professores atuantes nas escolas de comunicação, no sentido de incentivar e promover esse tipo de discussão, de iniciativas, deixando clara a existência de alternativas, objetivando o rompimento desse modelo superficial de comunicação predominante, distante do papel que deve desempenhar. A atuação dos docentes deve residir, sobretudo, no objetivo de proporcionar aos estudantes de comunicação uma visão mais ampliada acerca do papel da comunicação de massa nas sociedades, possibilitando a aproximação dos futuros profissionais com realidades que lhes permitam entrar em contato com a comunicação popular, não somente para estudála, mas interferir, na prática, para a sua efetivação, no seu fortalecimento e na sua constituição em uma alternativa que, futuramente, force as grandes mídias a redimensionarem a sua atuação. Reunir esforços para implantar rádios e TVs comunitárias, impressos alternativos – e fazê-los funcionar obedecendo esse caráter realmente comunitário e popular, tudo isso acompanhado da participação efetiva das comunidades – é condição sine qua non para a construção de uma comunicação engajada, cidadã e democrática. Sem dúvida um grande passo rumo à construção de uma massa mais crítica, mais exigente, consciente do papel que deve desempenhar no processo de construção de sua própria cidadania, deixando de enxergar a realidade

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

27


e de se comportar de acordo com a perspectiva dos detentores do poder econômico. Talvez as escolas de comunicação devessem se preocupar menos em formar profissionais para ocupar espaços no mercado já demarcado e mais em suscitar nesses futuros profissionais o desejo de construir uma sociedade democrática, de fato, onde os meios de comunicação possam refletir os anseios da maioria, possam discutir as reais necessidades sociais, dando espaço e voz aos que realmente necessitam, sem cristalizar estereótipos, preconceitos – como costuma fazer cotidianamente –, mas sobretudo servindo como uma “tribuna democrática” (RODRIGUES, 2002), na qual o debate público entre o Estado e a sociedade civil possa se realizar. A partir desse poder de transformar a realidade midiática e tendo como base novas práticas e novos modelos de comunicação, talvez fosse responsável pela estruturação de novo modelo baseado na cibercultura, proposto pelo sociólogo Pierre Lévy . […] um mundo novo no qual o conhecimento e a informação seriam a principal riqueza, poderíamos mesmo dizer sua “moeda corrente”. Um mundo que, dispensando as mediações tradicionais – sendo, nesse sentido, pós mídia – e construído pela multiplicidade de vozes que pulsam no campo social […] (LÉVY apud RODRIGUES, 2002, p. 213214).

Em uma sociedade sem democracia, de fato, os meios de comunicação de massa tradicionais jamais refletirão os anseios da maioria. Daí a necessidade de uma mudança na práxis das escolas de comunicação se se quer instituir uma mudança na prática

28

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


comunicacional, considerando que a instituição e consolidação de formas alternativas de comunicação levadas a cabo pelos futuros profissionais da comunicação social poderão significar uma “forçosa” transformação na práxis da comunicação de massa como um todo. O objetivo primordial seria deixar clara e exposta a heterogeneidade de pensamento tão presente no contexto da sociedade, mas atualmente camuflada na visão predominante da mediação realizada pelos MCM tradicionais. Estar-seia, desta forma, garantindo o direito à expressão coletiva, o que substancialmente concorreria para a construção e efetivação da cidadania como expressão mais importante da vida em sociedade. Assim, o jornalismo estaria, verdadeiramente, cumprindo com sua função social.

Referências bibliográficas: CAPOZZOLI, Ulisses. As reflexões que o jornalismo não faz. Observatório da Imprensa, 11 de maio de 2004. Disponível em:< http: www.observatoriodaimprensa.com.br>. Acesso em 20 fevereiro de 2005. MELO, José Marques de. Comunicação: direito à informação. São Paulo: Papirus,

1986.

_____________________. Comunicação: Teoria e Política. São Paulo: Summus, 1985. MONTOYA, Ancízar. Cultura política, cultura mediatica: esfera publica, intereses y códigos. In: Revista de Economía Política de las Tecnologías de la Información y Comunicación. Vol. VI, número 1, enero-abril 2004.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

29


NAVARRETE, Laura. La prensa en Mexico (1810-1915). México: Longman, 1998. PENA, Felipe. Teoria do Jornalismo. São Paulo: Contexto, 2005. POLISTCHUK, Ilana, TRINTA, Aluizio Ramos. Teorias da Comunicação: o

pensamento e a prática da comunicação social. São Paulo:

Campus, 2003. QUINTERO, Alejandro Pizarroso. Historia de la Propaganda. Madrid: Eudema, 1993. RODRIGUES, Valter A. Poder e [im)potência da mídia: a alegria dos homens tristes.In: FILHO, Clóvis Barros (org). Comunicação na pólis: ensaios sobre mídia e política. Petrópolis, Vozes, 2002. SODRÉ, Werneck Nelson. História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad,

1999.

Notas: 1

A Teoria da Agulha Hipodérmica punha em relevância o papel desempenhado pela fonte emissora das mensagens, relegando o receptor à condição de mero sujeito passivo, como se os meios de comunicação de massa funcionassem como uma seringa que “injeta” informações, sem nenhuma possibilidade de resistência por parte de quem as recebe. Foi o primeiro modelo criado para explicar os efeitos causados pelas mensagens ao público receptor. 2 Teoria do Espelho foi a primeira que buscou explicar o porquê de as notícias serem como são, baseada no pressuposto de que as notícias são o espelho fiel da realidade,

30

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


desconsiderando, assim, a subjetividade como fator inerente à atividade jornalística. 3 Sobre este tema um amplo estudo se encontra em QUINTERO, Alejandro Pizarroso: Historia de la Propaganda . Madrid: Eudema, 1993. 4 Vide I e II Guerras Mundiais, a Guerra do Vietnã, a Guerra de Kosovo, a invasão do Afeganistão pelos EUA, a guerra dos EUA e aliados contra o Iraque, entre outros conflitos. 5 Sobre este tema consultar SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa do Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 1999.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

31


32

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista IndependĂŞncia


Ano 1, nº 0, Outubro de 2006

Revista Independência

02

Título Educação e Contemporaneidade: Alguns elementos para reflexão Autor Gustavo Roque de Almeida Sociólogo Doutor em Educação pela UFBA e professor da UNEB, UFBA, UNIFACS e 2 de Julho. E-mail: gutalmeida@uol.com.br

Resumo O autor aponta alguns aspectos da contemporaneidade na perspectiva de que sua apreensão pode contribuir para demarcar como a educação, notadamente aquela patrocinada pelo Estado, tem se pautado pelas premissas do neoliberalismo vigente no momento atual e, de resto, contribuído para propiciar a exclusão de contingentes cada vez maiores da população dos postos de trabalho de maior remuneração. Para tanto, aponta alguns dos pressupostos do capitalismo contemporâneo, como contribuem para diminuir o poder do Estado e como tem ocorrido a concentração de riqueza nas últimas décadas. Parte integrante desse processo, a educação é tratada como elemento essencial à consecução dos desígnios neoliberais, na medida que busca manter e ampliar as desigualdades socioeconômicas, por um lado, e, por outro, adestrar profissionalmente trabalhadores para atender aos interesses do grande capital.

Palavras-chave: Educação, Estado, escola, exclusão, neoliberalismo.


O século XX foi pródigo em “métodos educacionais”, que prefiro chamar de abordagens, buscando apresentar-se como a possibilidade de não só educar com um grau de eficiência bastante elevado, como também possibilitar sua utilização com o fim de atingir imensos contingentes populacionais. Durante a fase do pós-guerra, na qual vultosos investimentos foram realizados pelos EUA e pela URSS (através do Plano Marshall e do COMECON) em alguns países palco do conflito, perceberam estes a importância da educação, no que se refere à preparação de trabalhadores qualificados para operar com as tecnologias aplicadas aos setores mecanizados da produção. O Japão e a Alemanha são exemplos marcantes disso. Para discutir melhor tal questão, entretanto, é preciso situá-la historicamente para, compreendendo suas nuanças políticas e econômicas, tentar explicar suas razões e seus erros e acertos. A década de setenta, do século passado, trouxe para o mundo capitalista um grande susto, que foi a crise deflagrada pelos países árabes exportadores de petróleo, ora diminuindo a oferta do produto, ora elevando-lhe os preços. Como se sabe, tais países são de tradição majoritariamente muçulmana e isso os coloca, do ponto de vista cultural, em uma outra posição em relação aos ocidentais, o que, não raro, tem conduzido a graves conflitos envolvendo a comunidade internacional, a exemplo do eterno “affair” entre judeus e árabes. Essa década representa também o início de uma nova fase do capitalismo internacional, caracterizada pela concentração cada vez maior do capital em poucas mãos, através do processo de fusão ou compra de grandes corporações, maior agilidade em investimentos de curto prazo no mercado financeiro, criação de acordos de comércio visando a quebra

34

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


de barreiras alfandegárias, passando, inclusive, pela tentativa de unificação de moedas (o caso do euro), implantação de unidades fabris em países onde o binômio “incentivos fiscais e mão-de-obra barata” fosse mais atrativo; é o que se tem caracterizado como mundialização da economia ou, globalização. Fator importante que não se pode deixar de considerar é representado pelo avanço das tecnologias computacionais e a rapidez da comunicação propiciada pela rede eletrônica que ligou os países em tempo real, a Internet. Associe-se a isso as questões de ordem estratégico-militar que apontam para os riscos da concentração da produção industrial em uma mesma região geográfica. Com essas características, assiste-se a uma nova expansão da economia mundial, mais espalhada geograficamente e que demanda um novo perfil de trabalhador, com níveis mais elevados de escolarização, e de um consumidor menos resistente aos apelos da mídia publicitária. Pressionados pelo endurecimento das regras de comércio internacional, cada vez mais ditadas pelos países mais ricos (G-7), os “países em desenvolvimento” buscam atrair investimentos e empréstimos que lhes permita superar não só seu imenso atraso tecnológico como, também, garantir emprego a parcelas cada vez mais amplas de sua população. Nesse afã, têm sido obrigados a aceitar a implantação em seu solo de transnacionais que lhes exigem a concessão de pesados incentivos para sua instalação. Não obstante isso, para viabilizar sua ação administrativa, são pressionados a aceitarem empréstimos (FMI, Banco Mundial etc.) sob a condição de adotar políticas que interessam àqueles organismos a exemplo da diminuição da ação estatal nos mais diversos campos de sua atuação, como saúde, segurança, educação etc.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

35


O caso do Brasil é mais um dos que se deixam levar por uma administração que, na tentativa de promover a aceleração do processo desenvolvimentista a qualquer custo, adotou o receituário preconizado por tais organismos e tem aberto mão, para os investidores internacionais, de parcelas das mais significativas de sua economia, a exemplo de setores estratégicos como siderurgia, telecomunicações, geração e distribuição de energia elétrica, insumos agrícolas e o setor financeiro. À semelhança do que já havia acontecido antes, por exemplo, em relação ao tecnicismo vigente no período da expansão industrial do pósguerra, a educação começa a sofrer mudanças no sentido de atender aos ditames do mercado. Vejamos agora como isso se dá. Com uma população que ultrapassa os 180 milhões de pessoas, majoritariamente jovem e concentrada em centros urbanos, o País não consegue garantir o direito ao trabalho a essa população, haja vista que as novas tecnologias aplicadas ao setor produtivo são, quase todas, supressoras de mão-de-obra, embora criem novos empregos no setor de serviços. Em paralelo, a educação que até então se vinha pondo em prática, pelas suas características de destinação no âmbito de uma sociedade de classes era, para os filhos das classes burguesa e pequeno burguesa, avalizadora de sua inserção nos postos superiores e médios da hierarquia do mundo do trabalho, e, para os filhos da classe trabalhadora, propiciadora apenas de inserção em nichos de mercado onde os saberes escolares não fossem tão amplamente exigidos. Isso aponta para o fato de o País ter convivido ao longo dos últimos cinqüenta anos com um sistema educacional de dupla vertente: uma para os ricos, propedêutica, conduzindo à universidade; outra para os pobres, elementar e profissionalizante, direcionando ao trabalho

36

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


subalterno. Saliente-se que, no Brasil, sempre que se utiliza o termo profissionalizante em relação à educação invariavelmente se está referindo à educação de nível médio que qualifica profissionais para atuar em funções ditas técnicas, sem que isso signifique necessidade de formação universitária. A primeira, bancada pela iniciativa privada, a segunda, pelo Estado. Nas duas últimas décadas do século XX, a situação educacional do País se torna mais contundente com as políticas governamentais de contenção de recursos e, conseqüentemente, de desvalorização dos servidores públicos - aí incluídos os docentes - através da manutenção de salários baixos. Com vistas a atender as recomendações de organismos como o Banco Mundial e, também, como meio de fazer crer à sociedade sua preocupação com a educação do povo, o governo passa a dotar as escolas de equipamentos eletrônicos, como televisor, videocassete, antena parabólica e computadores, sob a alegação de que proporcionariam aos estudantes um aprendizado mais consentâneo com a realidade tecnológica vigente. E, em alguns casos, importam e implantam modelos educacionais calcados em teorias cognitivas pouco conhecidas e de eficácia ainda não suficientemente provada. Em paralelo, depara-se a sociedade hoje com um sério problema: as novas tecnologias de produção e armazenamento de alimentos, novos medicamentos, melhores condições de higiene e saneamento têm propiciado um aumento da expectativa de vida concomitante à diminuição da taxa de mortalidade infantil, o que tem feito crescer a demanda social pelos serviços a que constitucionalmente se obriga o Estado, entre eles a educação. É preciso, entretanto, que essa educação possa não só contribuir

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

37


para a formação mais ampla do cidadão/sujeito como garantir-lhe as habilidades necessárias à sua inserção no mercado de trabalho, posto que é através do exercício profissional que o mesmo terá condições de satisfazer suas necessidades existenciais por conta de sua remuneração. Convém lembrar que, originalmente, os indivíduos primevos se associaram objetivando garantir sua integridade e seus direitos aos territórios de caça, pesca e coleta e, mais tarde, aos seus campos de cultivo. Com o passar do tempo e com a prática da acumulação, desenvolveram comportamentos consuetudinários, mais tarde transformados em princípios e normas jurídicos que, assumidos pela organização do Estado, passaram a garantir o direito à propriedade e a manter a diferenciação entre os sujeitos sociais. Desde a Revolução Francesa a afirmação do Estado burguês tem se mantido até nossos dias, dividindo os homens a partir de suas características de posse de bens materiais. Para tal mister, tem-se valido tanto dos “aparelhos repressivos” quanto dos “aparelhos ideológicos”, como bem os caracterizou Althusser (1974). No caso desses últimos, situa-se a educação, sendo de cabal importância considerar que esta tem dado valiosa colaboração na manutenção do “stablishment”, mantendo vasta parcela da população vivendo em função do que lhe permite a classe hegemônica. E isso se dá na medida que “[...] a Escola ensina também as regras dos bons costumes, isto é, o comportamento que todo o agente da divisão do trabalho deve observar, segundo o lugar que está destinado a ocupar: regras da moral, da consciência cívica e profissional, o que significa exatamente regras de respeito pela divisão social-técnica do trabalho, pelas regras da ordem estabelecida pela dominação de classe.” (Althusser: 1974 – 21).

38

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Surge então a pergunta: em que bases se deve assentar a educação, na perspectiva de permitir uma convivência mais justa e fraterna entre os sujeitos? É o que buscarei analisar agora, partindo de um exercício de caracterização do sujeito contemporâneo em suas interações com outros sujeitos no tempo e espaço. Apesar de por conta dos avanços da ciência já se poder garantir ao homem uma longevidade antes inimaginável, a sociedade desse início de século se caracteriza por uma temporalidade real de momentos fugazes, nos quais as relações entre os sujeitos têm sido mediadas por interesses estreitos, mesquinhos mesmo, na medida que a cultura vigente, por conta do alto nível de competitividade, tem apontado para um perfil de sujeito cada vez mais individualista. Tal característica encontra lastro no típico cidadão das sociedades de capitalismo avançado, nas quais parece ser a cidadania, nada mais do que o exercício da capacidade de escolha e aquisição de bens disponíveis no mercado. Assim, esse tipo de mentalidade vem sendo ampliado – e assumido – pelas sociedades em fase de desenvolvimento, na vã tentativa de equiparar-se àquelas. Nessas circunstâncias, o sujeito passa a mediar suas relações a partir do perfil de consumo seu e dos outros. Passa a valer pelo que possui e não pelo que é ou poderia representar em termos de contribuição à construção social, política e cultural da humanidade de que é parte. No que concerne à espacialidade onde ocorrem as interações entre os sujeitos tem-se hoje um processo de desterritorialização, por conta do qual os sujeitos vivem cada vez mais nos “não-lugares”, ou seja, aqueles onde as relações se dão entre anônimos iguais, ou aparentemente iguais, assemelhados que são por certos aspectos identitários de condições. Observe-se, a esse respeito, os saguões dos

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

39


aeroportos, os “shopping-centers”, as lojas de “fast-food”, os “nightclubs”, os parques temáticos, as salas de bate-papo virtual. Verifiquese como as relações, nesses espaços, ocorrem de modo tão superficial, sem aquilo a que se poderia chamar de uma relação verdadeiramente interativa, carregada de sentimentos. Em certo sentido isso ocorre também pela falta de preparo dos sujeitos em lidar com alteridades, quer dizer, ser capaz de apreender o outro na plenitude de sua diferença; competência que a escola tem se furtado a desenvolver nos seus educandos pela própria tendência que prevalece de domesticar o outro, fazer dele um igual a nós, posto que é mais fácil, para a maioria, conviver com a própria sombra do que com o diferente e o divergente. Concernente a isso, Paulo Freire, meados do século passado, já condenava a estrutura de ensino no Brasil na medida que esta se fundava nessa concepção. Na frase, “o professor ensina e o aluno aprende”, não só se percebe uma idéia de tradição, de manutenção do status quo, como se revela toda uma atitude de desrespeito para com os que não são iguais a nós, reside todo um preconceito, toda uma segregação em relação àqueles que, não tendo tido os mesmos privilégios – ou direitos assegurados – são considerados sujeitos de linhagem inferior e, como tais, tratados de modo autoritário, desrespeitoso, indigno. Sem querer dramatizar demais essa situação, reporto-me ao artigo de Jeffrey Jerome Cohen (2000;23-60) intitulado “A cultura dos monstros: sete teses”, no qual baseio alguns comentários a seguir. O ensaio trata do que tradicionalmente se convencionou chamar de monstro, ou seja, o que é contra a ordem regular das coisas, o inesperado. Podendo ainda significar o vocábulo aquilo que está fora da convenção, o que não encontra respaldo na habitualidade, o diferente.

40

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Em suas primeiras três teses o autor refere-se ao corpo do monstro, à sua fugacidade e à sua capacidade de escape. Busco aqui uma aproximação com a maneira com que a maioria das pessoas encara o diferente. Esse “encarar” nada mais reflete do que uma construção culturalmente sedimentada a partir da convivência em instituições eivadas de tradições, entre elas a escola, cuja finalidade é reproduzir a ordem social. Desse modo, o diferente se constitui em uma incerteza, um deslocamento da centralidade costumeira, assombrando os que com ele cruzam. Concomitante a isso, e provavelmente por isso mesmo, o diferente é impossível de ser apreendido em sua totalidade por representar possibilidades que podem fugir ao controle e, como tal, só permitir aproximações no campo das teias que os geram. Daí serem, os monstra arautos da crise de categorias, ou seja, por serem únicos escapam a qualquer enquadramento conceptual, sendo portanto, sua geografia um território ameaçador. Indago-me: Não tem sido assim no campo educacional, onde os educandos têm sido tradicionalmente tratados como verdadeiros monstra? E como tais, merecedores do exorcismo patrocinado pelos métodos e práticas que deverão docilizá-los? Mais adiante, Cohen, (op.cit) em suas quinta, sexta e sétima teses aborda as questões referentes ao controle de fronteiras do permitido e de como se situam no limiar do tornar a si. No aparelho educacional de nossas sociedades percebe-se nichos de inacessibilidade, salvo para aqueles que se submetem a seus ritos iniciáticos, posto que há uma permanente vigilância no sentido de garantir certos espaços à minoria hegemônica. Por outro lado, sendo uma criação cultural, nossa, portanto, por mais que os expulsemos para

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

41


longe de nossa geografia e discurso, os monstros retornam. E ao fazêlo, vêm prenhes de “um conhecimento humano e um discurso ainda mais sagrado na medida que ele surge de fora”. Seguramente, é isso que nos permite nos indagarmos a respeito de nossa percepção do mundo e de como temos representado mal aquilo que tentamos situar. Daí a importância de reavaliarmos tudo, sempre. Como meio a nos permitir outras aproximações, exegeses, a respeito da educação. Não mais é possível continuarmos presos às tradições que, durante tantas décadas, mantiveram alijada do processo educacional a maioria da população brasileira. A necessidade de favorecer a contingentes cada vez mais amplos dessa população a possibilidade de, através do desenvolvimento de seu potencial educativo, via processo de escolarização, uma participação política consentânea com a dignidade humana, sem que haja distinções de qualquer natureza, é o fator primordial que deve nortear a ação de todos aqueles que, buscando conhecer melhor, se preparam para intervir de modo adequado nesse politicamente perigoso terreno denominado de educação. Convém, portanto, refletir sobre isso. Referências bibliográficas: ALTHUSSER, Louis. Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado. Lisboa, Editorial Presença, 1974. COHEN, Jeffrey Jerome. Pedagogia dos monstros – Os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte, Autêntica, 2000. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 5ª ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.

42

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Ano 1, nº 0, Outubro de 2006

Revista Independência

03

Título Mundo tecnológico: mudanças significativas no “fluxo” de informações? Autor José Carlos Ribeiro Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela FACOM/UFBA. Professor da Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC) e da Faculdade 2 de Julho E-mail: j.c.ribeiro@terra.com.br

Resumo O presente texto traz reflexões sobre as possíveis mudanças na “produção” e no “consumo” de informações proporcionadas pelas Tecnologias Contemporâneas de Comunicação. A base dos argumentos está ancorada na premissa de que a interatividade, potencializada pelos dispositivos digitais, viabiliza uma transformação dos padrões tradicionais de fluxo das informações. Com isto em vista, apresenta algumas considerações, buscando ampliar as discussões relacionadas ao tema.

, Palavras-chave: comunicação, interatividade, novas tecnologias


No mundo contemporâneo, somos recheados - já há algum tempo - de inúmeras ofertas de produtos e de serviços automatizados que apresentam de modo efusivo as últimas novidades do mundo digital. Desde a presença de “máquinas espertas” que dialogam com os respectivos usuários, ensinando-os, na maioria das vezes, a seqüência correta de determinadas funções ou tarefas, até as chamadas “casas inteligentes” que mapeiam e gerenciam de maneira competente os diversos comportamentos e gostos habituais dos seus habitantes, o que se evidencia é a gradativa adoção de modos de existência que priorizam cada vez mais um refinamento na clássica relação homem-máquina. Nos últimos anos, entretanto, tal situação parece ter sido ampliada de maneira significativa tanto no que se refere à diversidade de expressões propostas, quanto no ritmo acelerado em que as mudanças se apresentam. Neste sentido, acompanhamos uma verdadeira maratona de inovações tecnológicas, onde buscamos nossas “atualizações” constantes dentro desse universo mutante. Através de uma análise mais acurada, podemos perceber que essas diversas situações seguem uma lógica centrada essencialmente na noção de interatividade, ou seja, no conjunto de mecanismos proporcionados pela computação interativa capazes de promover a intervenção (direta ou indireta) do usuário na geração ou no desenvolvimento de produtos ou de processos. Queiramos ou não, somos impelidos a vivenciar uma dinâmica regida pela participação, pelo contato, pela interferência. Por outro lado, também na atualidade, testemunhamos uma particular profusão de estímulos sensoriais bastante expressiva, cuja característica principal se reveste na multiplicidade e simultaneidade na articulação de códigos lingüísticos e comunicacionais. Propagadas

44

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


por complexos e interessantes sistemas hipermidiáticos, as compilações de narrativas audiovisuais paralelas, as conjunções de mídias distintas e as estruturas hipertextuais superpostas propiciam, em última instância, uma liberdade maior na organização e na recepção dos conteúdos veiculados. Todavia, ao mesmo tempo em que revelam novas possibilidades exploratórias de “consumo” de informações, tais configurações solicitam uma prática diferenciada por parte do leitor / espectador / usuário neste processo, haja vista que demandam um engajamento maior na composição dos blocos informacionais a serem absorvidos dentro do vasto leque de opções disponíveis. Mais uma vez, a dinâmica da participação ativa na construção e desenvolvimento dos processos se faz presente. Diante desse importante aspecto recorrente, evidenciado nas duas situações apresentadas, sugerimos – como proposta reflexiva – de que um novo perfil de “consumidor” de informações esteja se moldando. Esta proposição se apóia nas diversas vivências experienciais cotidianas que sugerem mudanças nas formas de constituição de sentidos e nas articulações de conteúdos através de participações cada vez mais ativas, principalmente naquelas constituídas pelas intervenções diretas (escolhas de caminhos, ângulos de percepção, seleção de cenas, dentre outras). Desta forma, o que está “em jogo” é uma participação mais efetiva do “consumidor” na geração e na circulação das informações que ele próprio receberá, ocasionando assim um fluxo diferenciado, onde se destaca a presença de dados cada vez mais personalizados e circunstanciais. Não entraremos aqui em especulações mais “ousadas” sobre eventuais mudanças na forma de estruturação dos processos cognitivos nas atividades de apreensão das informações; mas não há como negar que alterações mais significativas estão se insinuando; talvez em um nível

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

45


ainda não completamente perceptível, porém com vários indicativos de sua presença, pelo menos, no que se refere aos aspectos sóciocomportamentais envolvidos nas situações cotidianas e à capacidade de articulação das diversas informações paralelas, comumente presentes nestes processos. Tais constatações ficam mais evidentes quando nos atemos a acompanhar, de modo sistemático, as gerações mais novas, criadas dentro de ambientes essencialmente interativos e hipermidiáticos. Em linhas gerais, as condutas observadas nos credenciam a supor que algo está realmente em mutação; cabe-nos, enquanto analistas dos cenários contemporâneos, detectar o grau, a profundidade e as repercussões que tais alterações trazem. Para finalizar esses apontamentos reflexivos, vale a pena ressaltar que tudo indica estarmos apenas vislumbrando a ponta do iceberg das mudanças proporcionadas pelo advento das tecnologias digitais. Vamos acompanhá-las.

46

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Ano 1, nº 0, Outubro de 2006

Revista Independência

04

Título Rádio: de meio de comunicação de massa a veículo de inclusão social Autor Derval Cardoso Gramacho

Bacharel em Comunicação (UFBA) e Especialista em Docência do Ensino Superior pela Universidade Candido Mendes (RJ). Coordenador dos cursos de Jornalismo e Propraganda e Marketing da Faculdade 2 Julho E-mail: derval@pop.com.br

Resumo Desde a sua invenção o rádio mostrou forte tendência para a comunicação de massa. Esta capacidade levou o meio a ser explorado por Hitler e Mussolini na propagação das ideologias nazi-fascistas. No Brasil, os dois foram imitados pelo ditador Getúlio Vargas. O advento da televisão, em 1950, tirou do rádio os seus principais profissionais e sua grade de programas de auditório, radionovelas e os noticiosos, como o Repórter Esso. Apesar de tudo isso, o rádio preservou a sua característica de ser um veículo de inclusão social e o único capaz de atingir a população do Brasil habitante de rincões aonde a TV não chega e a mídia impressa nada significa devido ao elevado índice de analfabetismo. Palavras-chave: Rádio, comunicação de massa, propagação, radiojornalismo, meios de comunicação.


Nenhum outro veículo apresenta vocação tão natural quanto o rádio em ser um meio de comunicação de massa. Desde o seu nascimento o rádio contrariou pesquisadores e cientistas que buscavam torná-lo um sistema de comunicação seletivo, capaz de realizar a comunicação pontoa-ponto, como a telefonia. Aliás, sistema de telefonia sem fio era a forma que o denominava nos seus primórdios. A sua natureza, no entanto, tornou infrutíferas todas as iniciativas no sentido de inibir a sua característica abrangente. Isso inviabilizava os interesses dos governos em conseguir o aproveitamento do rádio para fins menos dignos e mais estratégicos, a exemplo da utilização militar em períodos de guerra. Esta impossibilidade fez com que os estudos se voltassem para tentar descobrir quais os meios de aproveitamento daquela invenção que mobilizou tantos homens notáveis, como Popov, Marconi, padre Landell de Moura e tantos outros que se debruçaram por décadas sobre as teorias de Hertz e suas descobertas sobre as ondas capazes de transportar, através do éter, o som. Era finda a Primeira Grande Guerra, na segunda década do século XX, onde o novo sistema de comunicação foi testado, quando se começou a operar este veículo com o intuito de promover entretenimento e levar informação às populações das áreas mais distantes. Começava assim, neste primeiro passo, a caminhada da humanidade rumo ao que mais tarde se chamaria de processo de globalização. O advento do rádio levou o homem a repensar alguns conceitos de comunicação em todos os seus sentidos, inclusive o temporal. Da mesma forma que o uso do cavalo1 (até hoje reverenciado e referenciado pela Mecânica), pelas sociedades mais antigas fez também em relação a uma série de conceitos, a exemplo de tempo, distância, velocidade, força etc. O meio logo se consolidou como um veículo de longo alcance e boa

48

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


aceitação e assimilação pelo público. Tal constatação levou à manutenção das pesquisas para aprimorar o rádio, não mais como sistema de comunicação, mas a indústria produtora dos aparelhos receptores que corria para tornar os equipamentos mais baratos e acessíveis ao poder da população. Se no início as emissoras apareciam como empresas de pequeno porte, de maneira meio tímida, logo surgiu quem percebesse o potencial da mídia e procurasse fazer dela um instrumento de propagação de ideologias políticas. O primeiro foi Adolf Hitler2, logo seguido por Benito Mussolini3, imitados pelo brasileiro Getúlio Vargas, cuja vocação ditatorial o tornava admirador dos líderes nazista alemão e fascista italiano. Os dois – Hitler e Mussolini – foram os primeiros a tirar proveito da potencialidade do rádio para a propagação4 das suas ideologias. Ambos decidiram usar os recursos do rádio e fecharam jornais e emissoras de televisão para evitar que os demais meios atrapalhassem a missão do rádio de ampliar a base popular dos dois regimes. Tornar o nazismo e o fascismo melhor aceitos pelas populações não só dos seus países, mas de boa parte da Europa. Era o ano de 1926. Os fascistas italianos perceberam que poderiam transformar o rádio em um instrumento de propaganda. Desta maneira se iniciou a elaboração de um projeto para levar a radiodifusão à popularização. Nenhum esforço foi poupado no sentido de utilizar o meio da melhor maneira possível em favor da propagação da filosofia fascista. Essa iniciativa se fortaleceu ao se inspirar, pouco tempo depois, na direção que os nazistas liderados por Hitler tinham imposto ao setor de informações na Alemanha. Ali, o número dos jornais foi reduzido de 2.700 para 1.200, livros foram queimados e o rádio foi escolhido como o instrumento para a coerção coletiva das consciências. Isto é, procurou-

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

49


se impedir as pessoas de saber e de pensar uma vez que o regime pensava por elas. O principal articulista de todo o projeto foi Paul Joseph Goebbels5, a quem se atribui a escolha do rádio como veículo privilegiado para tal missão. No Brasil, em paralelo ao crescimento do nazifascismo na Europa, Vargas tomava a iniciativa de usar o rádio para difundir a sua teoria sobre o Estado Novo. Assim, buscou exercer o poder do Estado sobre as emissoras com a criação da primeira legislação que reconhecia o rádio enquanto empreendimento – a lei regulava a quantidade de reclames que cada emissora deveria veicular durante a programação diária, criando desta forma, o respaldo necessário para consolidar a mídia como integrante do sistema de veiculação de propaganda. Naquela época, as emissoras tentavam se articular enquanto empresas economicamente ativas e não mais as rádios clubes e sociedades pertencentes a pequenos grupos sociais ou familiares e que, portanto, não tinham o lucro como objetivo. A iniciativa do governo caiu como uma luva e Vargas ganhou, com a sua iniciativa, um forte aliado para os seus projetos políticos. Definiu toda uma estratégia populista cujo objetivo central era atrair para si a opinião pública. Com essa intenção, a música brasileira predominante na época, a exemplo das marchinhas de carnaval, foram estimuladas pelo ufanismo getulista até início dos anos 40. Das emissoras surgidas naquele período pode-se destacar a Rádio Nacional, a PRK-30, em 1936, que viria a se constituir no grande marco na história do rádio no Brasil, e a Rádio Globo, em 1938. A força de comunicação do rádio foi avaliada em diversas pesquisas em variados momentos da história. Durante a Segunda Guerra

50

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Mundial ele foi de grande importância para as Forças Aliadas que encontrou neste meio o instrumento fundamental para sua orientação e organização. A história registrou a importância da escuta clandestina das emissoras de Londres durante os anos de luta contra o fascismo e o nazismo. Atualmente o Brasil conta com mais de quatro mil emissoras. Nos Estados Unidos são mais de nove mil. No território brasileiro, isto significava no final da última década do século XX, 115 milhões de radiouvintes6, número este superior aos 85 milhões de telespectadores e os menos de oito milhões de leitores de revistas e jornais. O meio, de acordo com o Ibope, lidera o ranking de consumo per capita com três horas e 45 minutos diário de audição, contra três horas e 24 minutos da TV, 57 minutos do jornal e 54 minutos da revista 7. Durante o período do regime militar, implantado em 1964, no Brasil, uma grande campanha de desacreditação do veículo diante da opinião pública foi lançada pelos generais-presidentes que consideravam as emissoras AM como “elementos subversivos e não-simpatizantes do novo governo”. Ao mesmo tempo, os militares distribuíram com igrejas, políticos e empresários colaboradores e simpáticos ao sistema um número incalculável de concessões para implantação de emissoras em FM – Freqüência Modulada. O passo dos generais foi acompanhado pelos governos civis que se seguiram ao processo de abertura e, logo em seguida, a implementação do neoliberalismo orientado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Área de Livre Comércio da América (Alca), além de organismos internacionais como o Banco Mundial (Bird) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Apesar dos reveses do setor, particularmente na faixa das AM, e da queda do faturamento financeiro das emissoras que detêm uma parcela

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

51


pouco superior a 4% do volume total dos recursos do mercado publicitário e midiático, o rádio continua a ter força. Mesmo sem concretizar os investimentos necessários para o aprimoramento da qualidade técnica e do seu conteúdo, este meio continua a ser o mais eficiente no sentido da propagação das idéias. Daí o interesse que desperta em instituições como as igrejas evangélicas que se valem do seu potencial para a “difusão da fé” e conseqüente aumento do rebanho das ovelhas dos seus pastores. Também os políticos revelam grande atração pelas potencialidades oferecidas pelo rádio para garantir as suas permanências no poder. Desde João Baptista Figueiredo, o último dos generais, nenhum Presidente da República deixou escapar a oportunidade de ter o seu programa no rádio. É que em muitos rincões deste País este é, até hoje, o único meio de comunicação capaz de fazer com que milhares de famílias sem acesso à televisão e indiferentes à mídia impressa pelo simples fato de não saberem ler se conectem com o mundo exterior, a civilização. Para estes, e pensando nestes, é que durante muitos anos o governo incentivou a produção de programas educativos, a exemplo do “Projeto Minerva”, elaborado pelo Ministério da Educação. O modelo acabou, como uma série de outros programas, sendo copiado pela televisão – Telecursos primeiro e segundo graus – e esvaziou a iniciativa, vez que os analistas elaboraram pareceres com base exclusiva no público dos centros urbanos. A suspensão de programas desta natureza no rádio fez com que o veículo deixasse de lado o seu potencial de caráter social, inspirado no lema “informar para formar”. O rádio brasileiro é o meio de comunicação de massa mais defasado em termos de tecnologia e, em muitos estados, até mesmo em nível de conteúdo. Com o advento da televisão, perdeu os

52

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


anunciantes, os programas, (que migraram para a TV), e levaram juntos os profissionais – locutores, artistas, jornalistas e técnicos. No entanto, manteve o carisma e o público. Embora nem sempre aproveitada da melhor forma, preservou as suas principais características (imediatismo, instantaneidade, interatividade etc.), ao mesmo tempo em que adaptou a sua mensagem, ao longo de meio século de atividades, direcionandoa para o atendimento às necessidades de informação, jornalismo esportivo, prestação de serviços e entretenimento das classes populares urbanas. No Brasil, este veículo se consolidou como o medium com maior capacidade de promover a inclusão social, através da informação, de todos os segmentos excluídos. O instrumento que pode viabilizar a comunicação entre todos os setores da sociedade, inclusive, os analfabetos e os deficientes visuais, pela característica da sua linguagem e da sua capacidade de aproximação e convencimento.

Notas 1

GRAMACHO, Derval e GRAMACHO, Victória. Tarô dos Animais. Ed. Madras. São Paulo, 1999. Pp. 51-52. 2 Adolf Hitler foi o criador da teoria e filosofia nazista que predominou na Alemanha e resultou no quase extermínio dos povos judeus e de origem não-ariana. Nasceu no dia 20 de abril de 1889, na cidade de Braunau, na Áustria, e morreu (suicidouse) no dia 30 de abril de 1945, em Berlim, na Alemanha, após a derrota para as Forças Aliadas na Segunda Guerra Mundial. 3 Benito Mussolini foi chefe de governo da Itália (1922-1943), fundador do fascismo. Assumiu o governo a convite do rei Vítor Emanuel III em 28 de outubro de 1922. Consolidou o regime unipartidário e totalitário com base no poder do Grande Conselho Fascista, apoiado pelas milícias de segurança nacional. Mussolini iniciou a conquista da Etiópia (Abissínia, 1935-1936), apoiou o general Francisco Franco durante a Guerra Civil e spanhola (1936-1939), aliou-se à Alemanha nazista, através da formação do Eixo Roma-Berlim (1936) que culminou com o Pacto de Aço entre os dois e stados (1939), publicou leis contra os judeus e invadiu a Albânia

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

53


(1939). O Grande Conselho Fascista destituiu e prendeu Mussolini, em julho de 1943, e assinou no mês de setembro um armistício com os Aliados que tinham invadido o sul da Itália. Mussolini tentou fugir para a Suíça, mas foi capturado e fuzilado com sua amante por membros da Resistência italiana. http:// www.imn.com.br/lideres/mussolini/ acessado em 10/10/2003. 4 HOUAISS, Antonio. Dicionário Eletrônico Houaiss de Língua Portuguesa. Edição especial, março 2002. Editora Objetiva Ltda., 2001-2002. Ato ou efeito de propagar(-se); espalhar(-se); difusão; ação de fazer chegar a um grande número de pessoas; divulgação, vulgarização < p. de uma doutrina >. etimologia propagatì,ónis “ação de mergulhar, mergulhia; aumento do território; prolongamento”, do radical de propagátum, supino de propagáre “pôr em mergulhia; multiplicar, propagar; prolongar; estender, alargar, engrandecer, aumentar, desenvolver”. 5 Paul Joseph Goebbels (1897 – 1945) foi jornalista e político nazista radical alemão nascido em Rheydt, precursor da propaganda de massa através de todos os meios de comunicação que usou com o intuito de impor ao povo alemão uma única idéia política e social, a do nazismo. Estudou literatura e filosofia nas universidades de Bonn e Heidelberg, onde se graduou (1922). Orador eloqüente, aderiu ao nazismo e foi nomeado chefe do partido nazista em Elberfeld (1924). Foi encarregado pessoalmente por Hitler para implantar o nazismo, que até então tinha suas bases predominantemente na Baviera, em Berlim. Em 1928, foi nomeado chefe da propaganda e recebeu o encargo, do próprio Hitler, de desenvolver uma ação política e psicológica sobre o povo alemão. Assim, criou o mito da infalibi lidade do Führer e estabeleceu o ritual das grandes celebrações partidárias, constante de marchas noturnas e fogueiras nas quais eram queimados livros de autores democratas e judeus. Com a ascensão de Hitler ao poder, tornou-se Ministro da Informação e Propaganda e, para atingir seus objetivos, se valeu mesmo da força do regime, impedindo qualquer manifestação de independência dos setores intelectuais. Foi o único dirigente nazista a permanecer até o fim ao lado do Führer, que o havia designado chanceler do Reich, em seu testamento. Logo após a morte de Hitler, também se suicidou, em Berlim, envenenando-se, juntamente com a mulher e os seis filhos menores. http://www.sobiografias.hpg.ig.com.br/P aulJGoe.html acessado em 01/10/2003. 6 MAGNONI, Antônio Francisco e outros. O Rádio Digital Avança no Interior de São Paulo. In: DEL BIANCO, Nélia R. e MOREIRA, Sônia Virgínia. Rádio no Brasil, Tendências e Perspectivas. Ed. UERJ/UNB. Rio de Janeiro, 1999. 7 Ibidem.

54

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Ano 1, nº 0, Outubro de 2006

Revista Independência

05

Título Sílvio Romero: O Pensamento Mestiço Autor

José Henrique de Freitas Santos Doutorando em Teorias e Crítica da Literatura e da Cultura pela Universidade Federal da Bahia. Professor da Faculdade 2 de Julho e da UNEB - Universidade Estadual da Bahia. E-mail: jhsantos@uneb.br

Resumo O artigo “Sílvio Romero: o pensamento mestiço”, a partir da análise da atuação do crítico Sílvio Romero no cenário cultural brasileiro do séc. XIX, mapeia, na atuação deste, a existência de um pensamento transdisciplinar que, mesmo tangenciado pelas correntes científicas da época, não deixou-se aprisionar por elas, dando origem ao que chamamos neste trabalho, apoiado nas considerações de Serge Gruzinski, de “o pensamento mestiço”. Palavras-chave: Sílvio Romero, mestiçagem, crítica cultural


A compreensão da mestiçagem choca-se com hábitos intelectuais que levam a preferir os conjuntos monolíticos aos espaços intermediários. Com efeito, é mais fácil identificar blocos sólidos do que interstícios sem nome. Preferimos considerar que ‘tudo o que parece ambíguo só o é na aparência, e que a ambigüidade não existe’. Os enfoques dualistas e maniqueístas seduzem pela simplicidade e, quando se revestem da retórica de alteridade, confortam as consciências e satisfazem nossa sede de pureza, inocência e arcaísmo. Serge Gruzinski

Se considerarmos o problema levantado por Gruzinski no âmbito intelectual, acerca da incompreensão da mestiçagem ante o ímpeto da coerência apaziguadora presente neste círculo, compreenderemos a dimensão da questão que se coloca a partir do título deste ensaio, ao postular a existência de um pensamento mestiço em um autor oitocentista, atravessado pelas teorias científicas de seu tempo, como o foi Sílvio Romero1. Para além da dualidade e da dicotomia, condenadas por Gruzinski, ao mesmo tempo em que revela uma visão étnica hierarquizada com o branco europeu no topo da pirâmide das três raças constitutivas do Brasil (branco, índio, negro), Romero não apenas descreve o encontro/conflito dessas etnias no Brasil, do qual originará as “mesclas raciais”, mas incorpora a contradição, presente na própria idéia de mestiçagem2, como a lógica de seu pensamento crítico indisciplinar, ao qual chamaremos de pensamento mestiço. Sílvio Romero definitivamente não foi um autor fora do texto conforme sugere o título do famoso ensaio de Antônio Cândido, que, sem dúvida, foi um dos críticos mais argutos do autor oitocentista. Se nada é a-histórico, como propõe Nietzsche, e o texto é só superfície, como nos ensina na contemporaneidade Foucault, a polêmica concepção

56

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


romeriana de obra literária, no século XIX, expressa nos seus textos historiográficos, abre espaço para uma desconstrução da margem que consolidava o extrínseco e o intrínseco na crítica literária vigente antes e depois dele, daí seu violento embate com José Veríssimo. Os críticos e historiadores literários, de Araripe Júnior a Nelson Werneck Sodré, dentre outros, reiteram a crítica de Veríssimo e somam a esta a problemática da contradição, ignorando que é exatamente a contradição que constitui o recurso mais potente da escrita desse autor. Assim, por exemplo, a História da Literatura Brasileira de Sílvio Romero é constituída simultaneamente de um modelo fechado, unitário, totalizante, a partir de um ímpeto monumental baseado em todas aquelas unidades discursivas que Michel Foucault nos convida a colocar em suspenso (origem, influência, evolução, tradição, etc. E também da contradição que permite uma revisão dialética do texto, rasurando a estaticidade da proposta inicial. José Veríssimo, além, para ele, do problema das contradições, “há 30 anos o Sr. Sílvio Romero faz a mesma coisa”. Ora, esta crítica flagra uma regularidade no discurso de Sílvio Romero, que justamente pelo ímpeto dialético, estrutura o próprio processo de sua historiografia e crítica. Ademais, Sílvio Romero não nega este aspecto em suas produções, assumindo a necessidade de retorno e da retificação de algumas de suas reflexões, demonstrando, inclusive, uma consciência acerca da importância da contradição no seu pensamento: ... a contradição supõe choque de dois pensamentos contraditórios num mesmo tempo, ao passo que tudo aquilo vem a ser apenas a normal evolução de um espírito que caminhou, que progrediu.3

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

57


Voltando a Antônio Cândido, salientamos que este, utilizando-se de um procedimento do próprio Sílvio Romero, na segunda edição de seu O método crítico de Sílvio Romero, relativiza o ímpeto que o levara anteriormente a tentar compreender um sistema coerente em um pensamento que se fez indisciplinar, portanto o que antes havia sido lido por ele, Cândido, como o problema das contradições e incoerências, deveria ser observado como o turbilhão, a força propulsora da obra romeriana, pois

...Primeiro: elas exprimem uma certa coragem de ir ao cabo, que nós freqüentemente não temos... Segundo: as suas contradições se forem tomadas em nível profundo, constituem na projeção, no seu pensamento da complexidade perturbadora de uma sociedade marcada por desarmonias e discordâncias.4

A crítica romeriana seria indisciplinar por três motivos: não obedecia aos pressupostos apolíneos para o seu desenvolvimento, conforme a abordagem da época; reclama um rigor e uma neutralidade científicos e apresenta-se ao mesmo tempo pessoal, demarcando o seu lugar de fala (o que toda crítica tenta recalcar) e, por fim, é feita com base no trânsito entre campos de saber, também, ou principalmente, “não-literários”. Este último ponto aparece como requisito básico para se tratar da mestiçagem, uma vez que o tema para ser compreendido devidamente deve ser estudado a partir de campos disciplinares em convergência: Mas uma disciplina pode, por si só, esgotar a questão das mestiçagens? Para tanto seriam necessárias ciências

58

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


“nômades”, preparadas para circular do folclore à antropologia, da comunicação à história da arte.5

Apesar de Gruzinski afirmar que essa fluidez disciplinar ainda está para acontecer, o trânsito por entre estes nichos de saber realizado por Sílvio Romero, no contexto oitocentista, uma vez que ele nos lega inclusive uma vasta obra no campo do estudo da cultura oral popular, já se apresenta como um sintoma da mestiçagem que, mais que uma temática, figura como um lógica estruturante de seu pensamento mestiço, afinal a mestiçagem relaciona-se também com o deslocamento de fronteiras. É notório que o discurso de Romero em diversos momentos figura como racialmente hierarquizante, em face de uma posição que reflete bem as correntes científicas (darwinismo, determinismo, spencerismo) de seu tempo, e, justamente por que ao lado dessa visão figura uma posição oposta, sem nenhum constrangimento, que o seu pensamento adquire uma importância no contexto do século XIX. Com o arcabouço teórico de seu tempo, ao invés de adotar uma posição “politicamente correta”, como alguns abolicionistas que depois da “libertação dos escravos” figuraram como os heróis libertários do negro no Brasil “ao lado” da princesa Isabel; ou ainda adotar uma posição ortodoxa em relação aos conceitos em que acreditava, Romero enfatiza a importância do branco europeu na formação cultural brasileira sobre as outras etnias, ao mesmo tempo em que rasura a historiografia oficial com a narrativa da auto-libertação dos negrobrasileiros, recuperando Zumbi em vez dos monumentos do discurso hegemônico:

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

59


... a raça negra foi liberta, porque merecia sê-lo, e quem a libertou foi principalmente o povo brasileiro. Não foi S. Alteza a Regente, como dizem os monarquistas; não foi o sr. João Alfredo, como dizem os pretendentes; não foi o sr. Joaquim Nabuco, como dizem os liberais; não foi o sr. José do Patrocínio, como dizem os democratas; não foi o sr. Dantas, como dizem os despeitados... Não, nada disto, a coisa vem um pouco mais de longe.6

O processo de desleitura dos nomes que figuravam o panteão abolicionista do século XIX, demarca a vontade de potência e de verdade, que são peculiares na crítica romeriana, e justamente por isso ela apresenta-se de forma tão categórica, proporcionando em nossas leituras contemporâneas a recuperação da multiplicidade das narrativas sobre os eventos que ela enfoca, e, acima de tudo, descentra. Em Romero, o instinto pessoal é posto como instrumento que conduz ao conhecimento, daí a veemência e a seriedade de sua crítica cabal com suas postulações incisivas:

No primeiro século da conquista e da colonização notamse já fortes protestos contra a escravidão. Tais protestos, que se referiam exclusivamente à raça indígena, repetiramse no século seguinte ainda tendo por alvo o selvagem tupi. Mas então a raça negra lavrava o seu primeiro e eloquentíssimo brado de libertação. Este processo foi duplo: de um lado, nessa famosa república dos Palmares, mostrava ao branco que seria livre quando definitivamente quisesse.7

Sílvio Romero, ante os “escombros” e “ruínas” culturais de um país politicamente emancipado, mas ainda sob a sombra da dependência,

60

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


não hesitará em tomar para si, no século XIX, o que ele considerará uma missão através de suas atividades de crítica e história literária: a construção de uma historiografia literária do/no/para o Brasil. Isto se dará em momento em que, pelo exposto, era difícil o soerguimento de monumentos, como requeria os modelos totalizantes da época, em face do problema que se colocava acerca de uma autêntica brasilidade e das representações românticas inverossímeis, criticadas ad nauseam por Romero, além da dificuldade do método ideal a ser utilizado para a confecção de uma historiografia literária brasileira - metonímia da uma nação letrada. Para a realização de tal tarefa, Sílvio Romero propõe um modelo historiográfico para a literatura brasileira no qual possa encontrar a força plástica necessária para não ser engolido pela história e consiga representar a dinâmica das produções anti-românticas, através das unidades do darwinismo e do positivismo que “traduz” para o método historiográfico, as quais serão largamente utilizadas por ele. A obsessão pela origem imemorial de nossa literatura; o meio e a raça como determinantes do homem e de suas produções; a evolução como um princípio vital que será coextensiva às nossas manifestações literárias são algumas premissas que percorrerão toda a obra historiográfica romeriana, uma vez que, também, ciente de seu “método inovador” no Brasil, reitera continuamente a singularidade de sua abordagem, a qual não se detém em concepção autônoma de obra literária. A literatura torna-se dependente, dentro desse esquema, dos fatores naturais e sociais, do meio e, principalmente, da raça, cujo desenvolvimento era processado em acordo com o princípio de seleção natural. Desta forma, por exemplo, as “grandes obras” tenderiam naturalmente a permanecer ad infinitum, enquanto outras pelas suas

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

61


fraquezas, seriam devoradas pelo tempo. Os abalos provocados por Sílvio Romero a uma crítica literária beletrista, através de seu ímpeto radical que terminava por cair em inversão (priorização do conteúdo, em detrimento da forma), foram fundamentais para que um outro olhar começasse a se lançar sobre a literatura “reduzida” antes e também, algum tempo depois dele, aos seus atributos estruturais: A antiga maneira de fazer a crítica literária fundada nas regras estruturais do bom gosto modificou-se de uma vez e foi obrigada a aceitar a relatividade do conceito.8

A partir de Sílvio Romero, o texto literário reivindica suas paisagens, sua intervenção social, trazendo problemas, os quais atravessam também a literatura, mas eram recalcados. Aliás na sua História da literatura, ao explicar a estruturação da mesma, tece as seguintes reflexões sobre a literatura:

Cumpre declarar, por último, que a divisão proposta não se guia pelos fatos literários, porque para mim a expressão literatura tem a amplitude que lhe dão os críticos e historiadores alemães. Compreende todas as manifestações da inteligência de um povo: política, economia, arte, criações populares, ciências... e não, como era costume supor-se no Brasil, somente as intituladas “belas-letras”, que afinal cifravam-se quase que exclusivamente na poesia.9

Mais uma vez percebe-se uma posição veemente adotada por Romero que, se por um lado apresenta uma visão míope da obra literária,

62

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


por outro, justamente por não se fechar dogmaticamente no campo dos “estudos literários”, transitando pela filosofia, direito, ciências humanas, sociais e biológicas, em sua crítica, ele nos permitirá hoje através de seus registros contraditórios, ambíguos, a possibilidade de construirmos uma história a contrapelo. Esse olhar indisciplinar permite a Romero constatar a mestiçagem como essencial à dinâmica cultural brasileira e expressar o seu desejo particular a uma fraternização das raças10 para uma “boa mistura”, a fim de que o Brasil chegasse a ter um povo etnicamente estável, que pudesse se manifestar democraticamente e exercer a democracia. Ora, Sílvio Romero, ao trazer uma questão deste porte para a cena literária, tratando-a de forma ambígua, o que não deixa de ser um avanço se pensarmos no contexto histórico dogmático em que faz suas especulações, assume um ato que requer potência, principalmente se somarmos a tudo o que já foi dito o fato da mestiçagem ser vista de forma negativa no século XIX, do Brasil a essa época estar investindo oficialmente na imigração européia para branquear o povo brasileiro. É sem exagero, realmente, que Antônio Cândido evidencia a influência da vasta obra romeriana em intelectuais como Mário de Andrade e, principalmente, Gilberto Freyre, cujas reflexões sobre o patriarcado brasileiro e sobre a democracia racial são debitárias. Aliás podemos traçar na historiografia e crítica literárias uma brevíssima genealogia na qual teríamos em primeiro lugar Sílvio Romero e sua concepção de obra literária que se bate contra a imitação e reivindica um mimetismo explícito, em seguida, Antônio Cândido que busca um equilíbrio entre as questões intra e extra literárias (para Cândido, ainda há em sua historiografia essa dicotomia), bem como

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

63


coloca ainda o problema da dependência cultural na literatura brasileira e, por fim, Silviano Santiago, para o qual, a obra já figura como um todo indistinto e a questão da dependência cultural já não figura mais como um fantasma, como para Cândido. Desorganizando ainda mais essa “genealogia”, se Stuart Hall quando esteve no Brasil, participando da ABRALIC, afirmou que Gilberto Freire seria o “pai” dos Estudos Culturais, não podemos nos esquecer não só da importância de Sílvio Romero para a formulação do pensamento freiriano, mas que na própria produção romeriana no século XIX, ele já demonstrava um ímpeto de uma crítica cultural com base não só na temática da mestiçagem, mas do seu próprio pensamento mestiço: Todo brasileiro é um mestiço, quando não no sangue, nas idéias.11

Referências bibliográficas: CANDIDO, Antonio. Educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1987. CANDIDO, Antonio. O método crítico de Sílvio Romero. São Paulo: Edusp, 1988. GRUZINSKI, Serge. O pensamento mestiço. Trad. Rosa Freire D´Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. ROMERO, Sílvio. História da Literatura Brasileira.Luiz Antônio Barreto (org). Rio de Janeiro: Imago; Aracaju: Universidade Federal de Sergipe, 2001.

64

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Notas: 1

Sílvio Romero escreveu diversas obras ligadas à literatura e à cultura brasileira sendo considerado pela crítica contemporânea, a qual inclusive revisita sua obra, um importante intérprete do Brasil, por ter pensado e acima de tudo polemizado acerca de questões cruciais como a mestiçagem. 2 Gruzinki levanta uma série de impropriedades acerca do uso do conceito de mestiçagem, como a idéia de mistura, como se as etnias (branca, indígena ou negra, por exemplo) não já fossem produtos de outras “hibridações”. Daí a idéia de mestiçagem não deixa de ser em si já contraditória, pois ela pressuporia o contato de raças puras para originar o “misturado”. 3 CANDIDO, Antonio. Fora do texto, dentro da vida. In: _______. Educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1987. p. 101. 4 Idem. p. 103. 5 GRUZINSKI, Serge. O pensamento mestiço. Trad. Rosa Freire D´Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p.44. 6 ROMERO, Sílvio. História da Literatura Brasileira.Luiz Antônio Barreto (org). Rio de Janeiro: Imago; Aracaju: Universidade Federal de Sergipe, 2001. p. 41 7 Idem. 8 Idem. 9 Idem. 10 Mesmo com esse desejo Sílvio Romero não deixa de registrar as tensões existentes nesses contatos étnicos no Brasil, desde suas origens. 11 Idem. p. 57

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

65


66

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista IndependĂŞncia


Ano 1, nº 0, Outubro de 2006

Revista Independência

06

Título As filigranas da dor em “Contos cruéis de guerra”, e Ibéa Atondi Autor Lívia Natália

Mestre em Teorias e Crítica da Literatura e da Cultura pelo Instituto de Letras da UFBA, Doutoranda na mesma IES. Professora de Teoria da Literatura das Faculdades Jorge Amado. E-mail: liuhenri@uol.com.br

Resumo A cineasta congolesa Ibéa Atondi registra, com seu olhar arguto e sensível, o impacto da guerra civil ocorrida no Congo Brazaville na primeira metade da década de 90 do século XX. Os confrontos armados entre os Cobras e Ninjas deixaram atrás de si um país destruído. Neste artigo se buscou oferecer uma leitura hermenêutica de alguns signos expostos na narrativa fílmica levando em conta o olhar estrangeiro e feminino da cineasta.

Palavras-chave: cinema, documentário, Congo, guerra civil


As batidas de coração, fortes e compassadas, que iniciam o filme Contos Cruéis de Guerra da congolesa Ibéa Atondi, soam, quando contrastadas com a tela totalmente preta, opressoras. A insistência em fazê-las audíveis por nós, parece querer, e, na verdade, quer, nos alertar não para a morte, mas para a vida, apesar de sua crueza e da brutalidade. Na verdade, Atondi faz, no retorno à sua terra natal, uma travessia, buscando devassar a narrativa dos sobreviventes, a fim de encontrar, ali, entre agredidos e agressores, os restos das subjetividades e da humanidade que foram soterradas pelos escombros da violência. A beleza do filme, posto que a obra de arte tem esta perversão, de retirar a sua leveza da pesada realidade, talvez resida justamente nesta peregrinação subjetiva de Ibéa Atondi que, não por acaso, representa uma travessia do povo de Congo Brazaville em busca da reconfiguração de sua identidade1. Freud nos ofereceu, como caminho para a cura das feridas indeléveis da alma, a palavra. Ao oferecer voz a todos estes sujeitos silenciados pelo horror e pelo trauma, Atondi faz uma espécie de clínica e presta socorro a pessoas que convivem com os fantasmas da guerra. Eles caminham pelas casas de paredes arrombadas pelos tiros, residem nos corpos marcados pela violência, e estão diante daquele que carrega o olhar de quem viveu entre os mortos e que precisa, de alguma maneira, saber-se vivo, mesmo que pelo relato de sua difícil sobrevivência. A diretora do documentário ocupa o lugar de uma narradora descentrada2 que, pela pluralidade dos relatos, acaba muito mais ocupando o lugar de cerzideira das falas, de mediadora de melancolias. O envolvimento com Jules Atondi Ikassis, o Mignon, oferece a ela a possibilidade de não apenas filmar um documentário sobre a guerra no Congo, mas, também, de penetrar em ínfima parte de um universo que

68

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


não era o seu: o dos milicianos. Quando chega em sua terra natal, a diretora buscava fazer um filme ficcional sobre os conflitos. Seus planos envolviam a colocação de atores semi-profissionais para representar a ação mediada por personagens de nomes hollywoodianos como Kurtz e Sneiper. Mignon, miliciano e potencial “ator” do filme de Ibéa, imediatamente questiona os nomes americanizados, e afirma ter dificuldade na leitura e compreensão do roteiro trazido, o que pode ser interpretado como sendo um descompasso entre o relato ficcional e a experiência vivida por ele. A diretora percebe, então, a impossibilidade de construir uma narrativa ficcional acerca dos conflitos, vez que ela não os experimentou e o filme que ela intentava montar mostra-se como um sintoma de que, apesar de nascida ali, não ter vivido o sofrimento pelo qual passaram aquelas pessoas, fazia de Atondi uma estrangeira. Ao escolher o miliciano Mignon para representar a sua própria vida, convertida em “papel ficcionalizado” no filme, Ibéa Atondi tenta reduzir a dinâmica das forças ambíguas que operam na experiência vivida de um miliciano à ordem de uma narrativa linearizada e centralizada de um filme. Sabemos que a arte explora as potencialidades do real, entretanto, a força dos depoimentos é importante para a construção do filme, vez que eles têm o poder de fazer audível um discurso que os mass media e a historiografia deixam escapar. Atondi opera, ao democratizar o lugar de fala (às vezes de maneira até desconfortável, vez que os depoimentos são expostos a interrupções e intromissões dos ouvintes), aquilo que Walter Benjamin chamou de leitura a contrapelo. A imagem surge da comparação da escovação da crina de um cavalo às avessas, retirando os pelos de sua linearidade e homogeneidade e fazendo vir à tona as sujeiras mínimas, a poeira, desrecalcando aquilo que foi silenciado. A historiografia tradicional tende,

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

69


conforme afirma Michel Foucault, estabelecer linhagens, relações de causalidade, homogeneidades, origens e linearidades, abandonam novidade e a dissensão que o acontecimento pode produzir, silenciando a sua potência discursiva, em favor dos grandes cortes e grandes períodos históricos. Ou seja, o filme de Ibéa oferece a possibilidade de subverter o discurso oficial com a constatação de uma outra versão sobre a história. Em lugar de representar-se no seu filme, a fala da congolesa, agora estrangeira, ou a visão dos mass media, dos políticos envolvidos ou dos antropólogos, historiadores e estudiosos em geral, o que se destaca na cena discursiva do filme é o lugar dado ao sofrimento individual, à fala do sujeito, buscando oferecer, através de um microfone e uma câmera, a possibilidade de fazer-se ouvir em todo o mundo. E esta é a grande riqueza do filme. Mas Contos Cruéis de Guerra toma este direcionamento apenas após a violenta morte de Mignon. O miliciano é pego em emboscada e torturado por quatro dias antes de sua morte. Com isto, a diretora imagina poder fazer um filme onde se veja o que um “homem pode fazer a um homem”. Podemos embasar toda a nossa interpretação do texto fílmico a partir de uma fala de Ibéa: “E o que me espantava é que eu sabia que ele falava a verdade”, isto ela declara sobre o seu espanto diante das narrações de Mignon sobre o seu tempo de guerra. Podemos imaginar que, após a morte dele, o que resta à diretora é recolher as outras verdades silenciadas e, neste investimento, constrói-se o documentário. Hypokrités, esta é a tradução grega para a palavra ator, ele seria o hipócrita que finge sofrer aflições e padecer em combate ao qual permanece infenso, este é o sentido que pode ser atribuído também aos atores que representariam um sofrimento que, apesar do que nos dizem

70

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


as notícias que circulam nos jornais do mundo inteiro, ainda permanece presente na vida dos congoleses. Hipócritas, na melhor acepção da palavra, são os governos americano e francês que, conforme coloca o documentário, mediados pelas sua respectivas indústrias petrolíferas, são os patrocinadores deste conflito que se inicia em plena eleição presidencial na qual confrontar-se-iam Pascal Lissouba, “dono” da milícia dos Cocóias, e Denis Sassou-Nguesso, atual presidente do Congo Brazaville e chefe dos “Cobras”. Após a expulsão de Lissouba, Nguesso passa a confrontar-se com Bernard Kolelas, prefeito da capital, Brazaville, e dono da milícia dos “Ninja”. Vencedor dos combates, Nguesso chega à presidência caminhando sobre os escombros de um Congo desolado, deixando como marca de sua caminhada, um rastro funesto de 10.000 mortos e 800.000 desaparecidos, números que aumentaram para 25.000 mortos quando, ao fim do conflito, em lugar de pagar a seus milicianos o presidente, ofereceu, como recompensa a estes, dois dias de livre pilhagem nos bairros da capital. A ficção que, inicialmente, era pretendida por Atondi, entraria no circuito de narrações assépticas que cercam as histórias contadas sobre os países do continente africano. A construção ficcional da narrativa apenas resvalaria, tocando muito de leve nas feridas daquela população. A estrutura escolhida para o documentário favorece ao espectador que, diante dos testemunhos, interroga a face daqueles indivíduos buscando caçar, ali, as lágrimas dos filmes de Holywood. E a ausência de lágrimas nos parece estranha, alguns parecem ainda mergulhados no torpor, em anestesia que, depois compreendemos, só o sofrimento tamanho pode oferecer. A narrativa dos milicianos, certamente por conta da posição

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

71


ocupada por eles no conflito, é das mais difíceis de ser aceita e compreendida. Entretanto, se há um elemento que perpassa não apenas as suas ações durante os confrontos, mas também o momento mesmo da narração, é o entorpecente, seja ele o álcool, a maconha ou a heroína. O próprio Mignon era um miliciano toxicômano. Muitos destes indivíduos que participaram das milícias se utilizavam e se viciaram em psicotrópicos a fim de, talvez, conviver com o trauma da morte e sofrimento que eles não apenas promoviam, mas representavam. A consciência embotada, esmaecida sob a força do entorpecente, evita que o sujeito pense na sua própria humanidade e dilua a força destruidora dos seus gestos nas drogas, que burlam a mente e oferecem às ações ares de filmes de tv. Ao entrar na milícia muitos forjam uma identidade, um alter ego violento no qual a crueldade e a capacidade de matar se adicionam a um novo nome e ao entorpecente, a fim de criar este novo personagem que será ou um “cobra” ou um “ninja”. Ao dedicar o filme a Mignon Árabe, codinome utilizado Jules Atondi Ikassis, Ibéa Atondi busca nos mostrar a humanidade que ainda restava sob a máscara do miliciano. Penso que, neste investimento de revelar esta humanidade, mediado, certamente, pelo enlace amoroso que, conforme se mostra no documentário, uniu o miliciano e a diretora do filme, Atondi finda por deixar escapar um grave problema de seu filme. A excessiva subjetividade, da qual não escapa nenhuma narrativa, apesar de dar, a esta em específico, o valor de construir-se ouvindo as histórias contadas por vários sobreviventes, ludibriou a sua mão no momento de colocar na balança a fala de vítimas e algozes ou, por outro lado, adotando uma outra interpretação que ora me assalta, em Contos cruéis de guerra os algozes não estão presentes, apenas as vítimas. Os verdadeiros algozes são os governos dos Estados Unidos da

72

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


América e da França, que alimentaram, com cifras milionárias, os confrontos. Os algozes são também o FMI e a União Européia, que após o anúncio do presidente Nguesso da adesão do Congo Brazaville à iniciativa de transparência para as indústrias de exportação com o objetivo de favorecer a “reestruturação da economia, promoção da transparência e do bom governo”, retiraram todas as sanções sobre o país. O algoz foi Jacques Chirac, presidente da França, que, em 1997, recebe o presidente do Congo para parabenizá-lo pela bela “eleição” à presidência. Quando finalmente descobrimos que, conforme o próprio FMI, entre 1999 e 2002, desapareceram US$ 248 milhões da venda de petróleo e outros US$ 150 milhões por motivos governamentais, quando ficamos sabendo que Denis Sassou-Nguesso é um dos homens mais ricos da África, enquanto 70% dos 3,5 milhões de congoleses vivem abaixo da linha de pobreza, tendo uma expectativa de vida de apenas 50 anos e que tudo isto se passa no Congo Brazaville, o país mais endividado do mundo, compreendemos perfeitamente quem são os algozes.

Referências bibliográficas: BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas II. São Paulo: Brasiliense, 1996. DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença. São Paulo: Perspectiva, 2002. FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

73


FOUCAULT, Michel. A microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979. FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas. São Paulo: Imago, 1997. ROSA, Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

Notas: 1

A travessia, referida no texto, evoca a imagem de Riobaldo, de Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, que, na obsessiva narrativa sobre a sua vida de jagunço busca, pela reconstrução mnemônica dos fatos, soerguer a sua identidade fraturada negociando, com os fantasmas do passado, a paulatina interpretação de sua vida. 2 Refiro-me aqui ao conceito derridiano de descentramento que, pode ser percebido na construção polifônica do documentário.

74

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Ano 1, nº 0, Outubro de 2006

Revista Independência

Título

07

“O canto do negro veio lá do alto... é belo como a íris dos olhos de Deus...” (Daniela Mercury / Pérola Negra)

Autor Sílvio César Tudela-Vieira Jornalista, Especialista e Mestrando em Cultura e Sociedade pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (FACOM/UFBA) e professor de Assessoria de Comunicação para os cursos de Jornalismo e de Produção Cultural na FACOM/UFBA. E-mail: silviotudela@terra.com.br

Resumo Este trabalho tem como objetivo destacar a contibuição da mestiçagem como elemento de integração nacional, tomando como ponto de partida alguns aspectos apontados por Gilberto Freire em “Casa grande & senzala ”. Além disso, procura interpretar o papel do negro no futebol como forte instrumento de democratização racial na sociedade brasileira, a partir dos anos 30 do século XX. Palavras-chave: Identidade, Sujeito, Mestiçagem, Racismo, Futebol


Canto das três raças (Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro) Clara Nunes

Ninguém ouviu um soluçar de dor No canto do Brasil. Um lamento triste sempre ecoou Desde que o índio guerreiro Foi pro cativeiro e de lá cantou. Negro entoou um canto de revolta pelos ares No Quilombo dos Palmares, onde se refugiou. Fora a luta dos Inconfidentes Pela quebra das correntes. Nada adiantou. E de guerra em paz, de paz em guerra, Todo o povo dessa terra Quando pode cantar, Canta de dor. Ooooooooooooooooooooooo... E ecoa noite e dia: é ensurdecedor. Ai, mas que agonia O canto do trabalhador... Esse canto que devia ser um canto de alegria Soa apenas como um soluçar de dor. Ooooooooooooooooooooooo...

Samba da benção (Vinícius de Moraes / Baden Powell) É melhor ser alegre que ser triste Alegria é a melhor coisa que existe É assim como a luz no coração Mas pra fazer um samba com beleza É preciso um bocado de tristeza É preciso um bocado de tristeza

76

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Senão, não se faz um samba não (Senão... é como amar uma mulher só linda E daí? Uma mulher tem que ter Qualquer coisa além de beleza Qualquer coisa de triste Qualquer coisa que chora Qualquer coisa que sente saudade Um molejo de amor machucado Uma beleza que vem da tristeza De se saber mulher Feita apenas para amar Para sofrer pelo seu amor E pra ser só perdão) Fazer samba não é contar piada E quem faz samba assim não é de nada O bom samba é uma forma de oração Porque o samba é a tristeza que balança E a tristeza tem sempre uma esperança A tristeza tem sempre uma esperança De um dia não ser mais triste não (Feito essa gente que anda por aí brincando com a vida Cuidado, companheiro A vida é pra valer Não se engane não É uma só Duas mesmo que é bom ninguém vai me dizer que tem Só se provar muito bem provado com certidão passada Em cartório do Céu e assinado embaixo: Deus! E com firma reconhecida! A vida não é de brincadeira, amigo A vida é arte do encontro Embora haja tanto desencontro pela vida Há sempre uma mulher à sua espera Com os olhos cheios de carinho e as mãos cheias de perdão Ponha um pouco de amor na sua vida, como no seu samba) Ponha um pouco de amor numa cadência E vai ver que ninguém no mundo vence A beleza que tem um samba não

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

77


Porque o samba nasceu lá na Bahia E se hoje ele é branco na poesia Se hoje ele é branco na poesia Ele é negro demais no coração (Eu, por exemplo, o capitão do mato Vinicius de Moraes Poeta e diplomata O branco mais preto do Brasil Na linha direta de Xangô, Saravá! À benção, Senhora A maior ialorixá da Bahia Terra de Caymmi e João Gilberto À benção, Pixinguinha Tu que chorastes na flauta Todas as minhas mágoas de amor À benção, Sinhô, à benção Cartola, À benção, Ismael Silva Sua benção, Heitor dos Prazeres À benção, Nelson Cavaquinho À benção, Geraldo Pereira À benção, meu bom Cyro Monteiro Você, sobrinho de Nonô À benção, Noel, sua benção, Ary À benção, todos os grandes Sambistas do meu Brasil Branco, preto, mulato Lindo como a pele macia de Oxum À benção, maestro Antônio Carlos Jobim Parceiro e amigo querido Que já viajaste tantas canções comigo E ainda há tantas a viajar À benção, Carlinhos Lyra Parceirinho cem por cento Você que une a ação ao sentimento E ao pensamento, à benção À benção, à benção, Baden Powell Amigo novo, parceiro novo Que fizeste este samba comigo À benção, amigo À benção, maestro Moacir Santos

78

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Não és um só, és tantos como O meu Brasil de Todos os Santos Inclusive meu São Sebastião, Saravá! À benção, que eu vou partir Eu vou ter que dizer adeus) Ponha um pouco de amor numa cadência E vai ver que ninguém no mundo vence A beleza que tem um samba não Porque o samba nasceu lá na Bahia E se hoje ele é branco na poesia Se hoje ele é branco na poesia Ele é negro demais no coração

O jogo do equilíbrio das diferenças Quem é o povo brasileiro? Podemos falar de uma unidade nacional e pressupor a existência de uma cultura brasileira? Se esse perfil de respostas corresponde às exigências da civilização ocidental, pode o Brasil figurar no concerto geral das nações? Estes questionamentos levantados pela socióloga Elide Rugai Bastos são, de certa forma, respondidos pela autora a partir da análise da obra “Casa grande e senzala” (1933), em que o pernambucano Gilberto Freire ganha espaço nacional ao penetrar no âmago desta discussão enfocando a formação nacional a partir da região Nordeste, em especial Pernambuco. O trabalho de Freire foi pioneiro por apresentar propostas que superaram as explicações sociobiológicas como código competente para dar conta das questões sociais, desmontando as argumentações fundadas no determinismo geográfico e por colocar em novo patamar analítico as interpretações do Brasil. Sua concepção sobre a sociedade brasileira funda-se na articulação de três elementos: o patriarcado, a interpenetração de etnias e culturas e o trópico. Esta correlação de forças levou a uma sociedade singular,

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

79


derivada do modelo econômico em que se estabelece a dominação patriarcal, não apenas sobre a família e os escravos, mas também sobre os agregados e os homens livres. Da escassez de mulheres brancas resultou a possibilidade de “confraternização entre vencedores e vencidos”, gerando-se filhos do senhor com a escrava, operando a miscigenação como corretor social entre “a casa-grande e a mata tropical; entre ela e a senzala”. Para Gilberto Freire, o ambiente colonial transformou-se em sistema de contemporização entre tendências aparentemente conflitantes. Neste sentido, a casa-grande funciona como centro de coesão social, representando o todo de um sistema econômico, social e político, e age como ponto de apoio para a organização nacional. Freire coloca, em linhas gerais, algumas características sobre o branco português: um povo indefinido entre a Europa e a África, bicontinentalidade esta que permite um “bambo equilíbrio de antagonismos”, e também uma deficiência de volume humano para o triunfo do empreendimento português na colonização de tão vasto território como o Brasil. Com isso, pode-se dizer que a grande herança lusitana deixada para nós é a adaptabilidade do colonizador aos indígenas nativos e negros africanos via mestiçagem racial e cultural. Marcada desde o inicio pela importância da família, a vida política brasileira se equilibra entre duas místicas. De um lado, a ordem e a autoridade decorrentes da tradição patriarcal; de outro, a liberdade e a democracia, desafios da sociedade moderna. Esta dualidade, conforme o autor, não deveria criar oposições, pois a formação brasileira tem sido “um processo de equilíbrio de antagonismos”. Com relação ao índio, Freire encaminha sua análise no sentido de demonstrar que as relações sociais no Brasil constituíram-se

80

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


harmonicamente, sem conflitos de caráter violento, uma espécie de reciprocidade cultural, em que a mulher indígena foi incorporada à sociedade cristã, tornando-se esposa e mãe de família e transmitindo valores aos herdeiros, através de um caminho convergente entre a degradação da “raça atrasada” e da assimilação pela “raça adiantada” da cultura dominada – termos utilizados aqui de acordo com a complexidade das culturas e não com aspectos de valor. Em seu diálogo com o povo negro, Freire parte da tese que são deles as melhores expressões de vigor ou de beleza física em nosso País e mostra ser anticientífica a afirmação da superioridade ou da inferioridade de uma raça sobre outra, definindo que todo brasileiro é racial ou culturalmente negro. Além de reverenciar a plasticidade do negro e sua grande adaptabilidade, Freire alega que ele é o verdadeiro filho do trópico, conservando, nesse ambiente, suas características eugênicas. O fato de estar mais adaptado por raízes fisiológicas e psíquicas resultou em traços psicológicos mais extrovertidos, alegres e bondosos, ao contrário do índio, resistente ao colonizador. O sociólogo contrapõe também afirmações racistas que vêem como amoralidade o excesso de sexualidade dos negros como uma característica psíquica e levanta que não há escravidão sem depravação e, portanto, a acusação não se realiza pela condição da pele, mas pela influência da escravidão, da estrutura social sobre a racial e o meio físico, conforme a tese de Boas. Em termos comportamentais, para Freire, o negro é ainda o responsável pelo traço dionisíaco do caráter brasileiro; é ele quem ameniza o apolíneo presente no ameríndio, marca tão patente em seus rituais. Exemplifica que a dança negra é marcada pelo caráter sensual,

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

81


enquanto nos segundos é puramente uma representação dramática. A alegria do africano contrabalançou o caráter melancólico do português e a tristeza do indígena. Das três raças à geléia geral Em artigo publicado no jornal Tribuna da Bahia, de Salvador, a presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Consuelo Pondé de Sena, explica que muitos dos selecionados para a colonização do território brasileiro eram indivíduos sem responsabilidade familiar. Diz a historiadora: O fato é que, ao chegarem ao território brasileiro, logo após 1500, os portugueses integravam contingentes de aventureiros, náufragos, marinheiros, desertores, degredados, banidos pela pátria por crimes, questões políticas ou religiosas, jovens ambiciosos escolhidos pela aptidão física e livres de laços familiares para servir na guarnição da colônia. Vinham ainda nobres empobrecidos, alguns funcionários, jesuítas, clero secular, judeus expulsos pela Inquisição, ciganos, prostitutas e órfãs enviadas pela Coroa, em número reduzido, para que se casassem com os colonos, e alguns desses acompanhados de suas famílias, fossem de Portugal, dos Açores ou de Cabo Verde1 .

De acordo com a autora, convém mencionar que a intermistura racial favoreceu, ainda no período colonial e imperial, um grupo intermediário que possuía melhor condição que a de seus antepassados negros, circunstância que lhes permitia a ascensão social através de atividades domésticas mais delicadas e exigentes, tais como mucamas, moleques de recados e outros serviços que os diferenciavam dos escravos.

82

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Silvio César Tudela

Revista Independência


Embora o mestiço brasileiro fosse considerado marginal por muitos, alguns deles conseguiram certa notoriedade, como Gonçalves Dias, Olavo Bilac, Tobias Barreto, Machado de Assis etc. A miscigenação é uma articulação de processos que foram acontecendo simultaneamente, de forma natural e progressivamente, mesmo que lenta. Nos primeiros tempos da colonização, a índia se tornou primeiramente amásia e, depois do extermínio da população nativa por armas ou moléstias trazidas pelos europeus, ganhou o papel de mãe de família, incorporando elementos da gastronomia e da farmacêutica. Já o processo de aproximação das culturas negras e européias começou a se construir através da religião, de uma espécie de catolicismo místico tradicional entre as famílias cristãs e os rituais pagãos. Vivendo dentro da casa-grande, a mucama começou a exercer forte influência na educação das crianças. Com isso, a língua portuguesa foi perdendo sua pureza na interpenetração das falas e ganhou contornos das linguagens atlânticas absorvendo, principalmente no Brasil, elementos indígenas em termos de referência espacial (Sorocaba, Anhangabaú, Abaeté etc.) e africanos, notadamente no âmbito da cultura (acarajé, macumba, samba etc.). Pode-se dizer, em certa medida, que o período colonial acabou sendo economicamente definido pela ociosidade do indivíduo branco. Nesta fase de nossa História, os negros trabalhavam ininterruptamente e criaram praticamente tudo o que se consumia nos quatro primeiros séculos de nossa colonização – de alimentos, tecidos, armas a habitações, para ficar apenas nestes exemplos. Entendida a partir do conceito da produção de bens e mercadorias para uso e troca, é inegável reconhecer que a cultura brasileira nasceu das mãos e do talento do negro . A partir da leitura do autor, bem como de diversos de seus críticos,

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

83


Gilberto Freire foi muito otimista (para não dizer conivente ou ingênuo) por acreditar que “somos duas metades confraternizantes que se vêm mutuamente enriquecendo de valores e experiências diversas...”. Poderíamos pensar, equivocadamente, a partir disso, que somos atualmente uma democracia social porque temos como base histórica uma “democracia racial” alicerçada em uma pacífica mestiçagem. Por sua vez, o antropólogo Roberto DaMatta considera que os traços de aproximação intercultural entre negros, índios e lusitanos não são resultado de uma característica cultural portuguesa. Para ele, esta foi uma das poucas possibilidades de enfrentar os dilemas do trabalho escravo em um sistema hierarquizado: “Onde cada um tem um lugar determinado, não há espaço para a igualdade”, pontuou. As oportunidades nunca foram iguais para brancos e negros e é fato conhecido que o indivíduo é mais aceito socialmente a partir do momento em que se aproxima dos padrões arianos, o que vem denunciar a falsidade do mito da “democracia racial”. Na verdade, esta tese funciona como obstáculo ao enfrentamento da questão racial no Brasil e de suas imensas desigualdades. No contexto da política atual e do crescimento das ações afirmativas, é importante levar em consideração depoimento do sociólogo e professor Milton Moura, no qual: ... Ninguém está dizendo que a humanidade é branca... seria ostentação afirmar continuamente o traço diferente. Os negros não querem ser iguais? Pois então, a insistência e a provocação de falar nisto a toda hora não seria racismo dos negros? Não seria o caso de o negro se acostumar com a pertença ao conjunto dos cidadãos numa sociedade democrática? Já não acabou a escravidão? Para que, então, acentuar a cor? Em vez de aceitar essa incorporação como

84

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


uma dádiva ou como um reconhecimento, um número expressivo de jovens e adolescentes negros quer não apenas que a negritude seja reconhecida como humana, mas também que a humanidade seja reconhecida como negra .2

Dando razão a Freire, DaMatta e Moura, é preciso incluir nesta reflexão, que apenas aparentemente se mostra antagônica, um relatório da ONU, divulgado em novembro de 2005, que ataca o mito da democracia racial no Brasil: “Quanto mais se avança rumo ao topo das hierarquias de poder, mais a sociedade brasileira se torna branca”. Conforme o documento, os negros representam 64,1% dos pobres brasileiros e a taxa de desemprego é 23% maior que o índice de brancos sem emprego entre 1992 e 2003. “Ações afirmativas, incluindo as políticas de cotas, são necessárias no Brasil porque mulheres, negros e povos indígenas foram deixados em secular desvantagem na sociedade brasileira... Tratar igualmente desiguais pode, no entanto, agravar a desigualdade, em vez de reduzi-la”, afirma o relatório. Enfim, o mestiço como sujeito nacional O sociólogo Florestan Fernandes, ao tratar da questão racial no Brasil, afirmava que o brasileiro tem o preconceito de não ter preconceito. O escritor Sílvio Romero chega a denunciar o descaso com o negro através de sua completa ausência no plano literário até a Abolição - o que diferencia o nosso Romantismo do europeu, que se volta para o passado glorioso. Mas que glória esperar dos negros se eles são uma espécie de “sujeitos ausentes” da cidadania? Carlos Guilherme Mota, em seu livro “Ideologia da Cultura Brasileira”, considera que os anos 30 foram decisivos na reorientação

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

85


da historiografia brasileira ao analisar “Casa grande e senzala”, de Gilberto Freire (1933), “Evolução política do Brasil”, de Caio Prado Jr. (1933), e “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda (1936). Juntas, estas obras eliminam uma série de dificuldades colocadas anteriormente a respeito da herança atávica do mestiço ao passar do conceito de raça para o da cultura. Mas é, principalmente, em Freire que a temática transcende e evolui ao transformar a negatividade do mestiço em positividade. O mito das três raças torna-se então plausível e pode se atualizar como ritual. A ideologia da mestiçagem, que estava aprisionada nas ambigüidades das teorias racistas, ao ser reelaborada pode difundir-se socialmente, tornarse senso comum e ritualmente celebrada nas relações do cotidiano, ou nos grandes eventos como o Carnaval e o Futebol. O que era mestiço torna-se nacional. (ORTIZ, 1985, p. 41).

Neste sentido cabe entendermos como a continuidade do pensamento tradicional se inscreve na descontinuidade dos anos 30, época em que parte do povo brasileiro se debatia ainda com as ambigüidades de sua própria definição. Ao positivar a condição do negro, Gilberto Freire oferece ao brasileiro uma carteira de identidade, como diz Ortiz, tornando incompatível a imagem do Ser Nacional forjada pelos intelectuais do século XIX, que atribuíam as características que determinam a racionalidade do espírito capitalista à raça branca. Ao retirar do mestiço estas qualidades, acabavam negando, naquele momento histórico, as possibilidades do desenvolvimento real do capitalismo no Brasil.

86

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Renato Ortiz justifica que o mesmo processo dos intelectuais dos anos 30 pode ser identificado na ação cultural do governo Vargas através de iniciativas como a de promover o samba ao título de música nacional, esvaziando sua especificidade originariamente negra. Na medida em que a sociedade se apropria das manifestações de “cor” e as integra no discurso unívoco da nacionalidade e do desenvolvimento, elas perdem sua essência e deixam de ser o que inicialmente eram, completa Ortiz. Memória ancestral ou criação ideológica Em um contexto mais amplo neste instante de “redescoberta do Brasil”, o nacional se definiria como a conservação “daquilo que é nosso”, isto é, a memória nacional seria o prolongamento da memória coletiva popular, de acordo com o posicionamento de Ortiz. Ele usa como exemplo o Candomblé, que ao definir um espaço social sagrado, o terreiro, possibilita a encarnação da memória coletiva africana em determinados enclaves da sociedade brasileira. Neste sentido, a origem é recorrentemente relembrada e se atualiza através do ritual religioso. Completa Ortiz dizendo que a memória coletiva se aproxima do mito e se manifesta portanto ritualmente enquanto a nacional é da ordem da ideologia, como produto de uma história social, não da ritualização da tradição. ...Um seminário sobre a noção de identidade, coordenado por Lévi-Strauss, afirmava nas conclusões do trabalho que a identidade é uma entidade abstrata, sem existência real, e que não pode ser apreendida em sua essência, muito embora seja indispensável como ponto de referência , enquanto desvenda o projeto que se vincula às formas sociais que a sustentam, o que nos leva a pensar que a

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

87


identidade assim como a memória nacional são elementos que derivam de uma construção de segunda ordem. (ORTIZ, 1985, p. 137)

Na história intelectual brasileira, vários autores tentaram chegar a uma essência da cultura e definir a identidade do brasileiro em termos de caráter: cordialidade (Sérgio Buarque de Holanda), tristeza (Paulo Prado), bondade (Cassiano Ricardo). A “brasilidade” também foi buscada no Carnaval ou na Malandragem. Muitos dos componentes da “brasileirice” que nós nos imputamos são bem mais recentes do que se acredita e nasceram no Brasil quando o País já tinha quase quatro séculos de existência. Em artigo publicado na Folha de S. Paulo3 , o sociólogo Antônio Flávio Pierucci afirma que o Catolicismo, por exemplo, só se estrutura entre nós depois da Proclamação da República (1889), o samba emerge nas décadas de 10 e 20, mas se impõe nos anos 30, assim como os desfiles das escolas de samba. A temática do negro, por sua vez, teve que esperar até 1960 para ser enredo de uma agremiação carioca, na qual o Salgueiro foi o pioneiro. Mas considerar o homem nacional a partir de determinados conceitos corresponderia a atribuir-lhe um caráter imutável, à maneira de uma substância filosófica. Essa procura, na opinião de Ortiz, tornase então um falso problema, pois a pergunta fundamental seria: quem é o artífice desta identidade e desta memória que se pretendem nacionais? A que grupos sociais elas se vinculam e a que interesses eles servem? Idéia de construção e o sujeito da mediação Ainda em Ortiz, se existem duas ordens de fenômenos distintos o popular (plural) e o nacional - é necessário um elemento exterior a

88

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


essas duas dimensões que atue como agente intermediário. Dito de outra forma, o processo de construção da identidade nacional se fundamenta sempre em interpretação. Colocar o intelectual como mediador simbólico implica apreendermos a mediação como possibilidade de reinterpretação. E é por meio deste mecanismo que o Estado, através de seus intelectuais, acabou se apropriando das práticas populares para apresentá-las como expressões da cultura nacional, como manifestação da “brasilidade”. Foi assim com o Samba, com o Carnaval e depois com o Futebol: ícones imbatíveis de nossa identidade e reconhecidos em qualquer parte do mundo como tipicamente brasileiros. Qualquer um destes fenômenos se apresenta como um palco extremamente revelador das relações raciais estabelecidas entre nós ao longo do último século. Futebol, um Brasil de cores na Pátria em preto e branco Diferentemente do Candomblé que, para Ortiz, se inscreve como a atualização de uma memória coletiva, o que dizer do futebol, um esporte que teve suas configurações oficias na Inglaterra, mas que possui origens ainda na China? Como dizer, a partir deste raciocínio de Ortiz, que o futebol é brasileiro? Em que medida e de que forma a reconfiguração deste esporte planetário conseguiu emplacar como patrimônio imaterial brasileiro se ele não se inscreve como fruto de uma memória coletiva? O futebol foi introduzido no Brasil através do brasileiro Charles Miller, em 1894, quando este voltava de seus estudos na Inglaterra, e seguiu restrito inicialmente aos grupos elitizados e próximos dos ingleses, até os primeiros anos do século XX, quando parcelas populares, ávidas em aprender o jogo, começaram a se organizar a fim de disputar o esporte bretão em que as bolas e os uniformes eram importados e as regras eram ensinadas em língua inglesa.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

89


A popularização do futebol se deu, de uma certa perspectiva, através da criação de estratégias de distinção das elites, e da apropriação do esporte elitizado pelas classes populares.(...) O enquadramento moral desse esporte acabou culminando na manutenção do futebol como um dos índices expressivos de identidade nacional. (TOLEDO, 1999, p. 146)

Nas duas primeiras décadas do século passado começam a se formar os primeiros times de futebol, muitos deles ligados a tradicionais clubes de elite formados por profissionais liberais, intelectuais e, sobretudo, brancos. O esporte de público aristocrático (e considerado, na época, pouco másculo para a população que identificava como símbolo de virilidade as atividades ligadas ao remo e às regatas) foi se deslocando para as periferias urbanas e ganhando contornos mestiços, fossem de negros, mulatos ou imigrantes estrangeiros que chegavam em grande número ao Brasil. Mas a entrada dos negros no futebol brasileiro não se deu de forma tranqüila... Através dos fatos levantados pelo jornalista Mário Filho em “O negro no futebol brasileiro”, considerado um dos clássicos da literatura sobre este esporte no País, podemos perceber como o futebol serviu, em relevante medida, como um instrumento democratizante das relações entre raças no Brasil. Assim como nos círculos intelectuais que redefiniam a noção de ser brasileiro, dois tipos de posicionamento público se confrontaram neste movimento. Um deles louvava as características supostamente negras e mestiças do nosso futebol, como a ginga, a malícia e a arte. Em sentido contrário, as reacionárias idéias de inferioridade negra e da incapacidade mulata pintavam os diálogos através da utilização de termos como instabilidade emocional, fraqueza moral, covardia e imprestáveis,

90

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


para ficar na terminologia do médico Nina Rodrigues. As conquistas e as derrotas brasileiras nos campos de futebol marcavam os avanços e os recuos deste processo. Se o negro ou o branco ou o mulato marcassem o gol da vitória não havia tanta diferença. Mas o inverso não era verdade. Bastava uma derrota, uma jogada malfeita, para os mulatos e negros serem violentamente desqualificados e se levantassem insinuações que eles estivessem “vendidos”. Nenhuma suspeita de suborno recaía sobre os jogadores brancos. Trajetórias de alguns atletas servem de parâmetro para entender o processo. O baiano Manteiga (América-RJ, anos 20) nunca pisou no hall social do seu clube e sofreu toda série de preconceitos. Carlos Alberto (Fluminense, 1916) passava pó-de-arroz no rosto para disfarçar o tom de pele antes de cada partida. Miranda (América-RJ, anos 20) usava um gorro durante os jogos para esconder os traços negros de seu cabelo. O historiador e escritor Édison Carneiro, em 1964, em texto publicado na 2ª edição de “O negro no futebol brasileiro”, diz que tão deliberada era essa atitude racista dos grandes clubes ligados à elite da capital federal (Flamengo, Fluminense e Botafogo) que nem mesmo se importavam com o risco de derrota em partidas internacionais. O preconceito não poupava ninguém. Primeiro grande ídolo da Seleção Brasileira, o próprio Artur Friedenreich, filho de alemão com uma negra, ficava horas antes de uma partida passando gomalina nos cabelos a fim de alisá-los, com o objetivo de parecer um pouco branco. Foi através dele que uma grande parcela de torcedores e do povo em geral começou a perceber que o futebol não precisava ser de apenas uma cor, nem só da elite. Para alguns estudiosos, Friedenreich representa o ponto-chave

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

91


na identificação do futebol com o ethos nacional. Com ele, o esporte e a cultura, como um todo, começam a se entrelaçar de forma quase inextricável em torno de uma idéia de mistura, de um país mestiço, formado pela conjunção de múltiplas raças. Depois de Friedenreich, ainda nos anos 20 e 30, muitos outros negros e mulatos conseguiram brilhar no futebol graças a uma revolução protagonizada pelo Vasco da Gama que foi campeão carioca, em 1923, jogando de forma arrasadora com uma equipe praticamente formada por negros e mulatos. A reação dos grandes clubes à vitória do time suburbano foi imediata e causou uma cisão interna no futebol do Rio de Janeiro com a fundação de uma outra entidade que reunisse os clubes grandes e que lutava contra a profissionalização – processo que vinha facilitando o acesso de mais negros aos clubes, uma vez que eles se tornavam empregados e não sócios das associações esportivas. Os clubes finos, de sociedade, como se dizia, estavam diante de um fato consumado. Não se ganhava campeonato só com times de brancos. Um time de brancos, mulatos e pretos era o campeão da cidade. Contra este time, os times de brancos não tinham podido fazer nada. Desaparecera a vantagem de ser de boa família, de ser estudante, de ser branco. O rapaz de boa família, o estudante, o branco, tinha de competir, em igualdade de condições, com o pé-rapado, quase analfabeto, o mulato e o preto, para ver quem jogava melhor. (FERNANDES, apud FILHO, 2003, p. 11).

Antes da profissionalização se efetivar de verdade, em meados dos anos 30, surgiu o negro Feitiço, alçado por Mário Filho à condição de “Imperador do Futebol” - muito antes de nosso jovem e contemporâneo Adriano ganhar o mesmo apelido -, o que representou o fato de a Europa

92

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


se curvar ao Brasil como noticiavam os jornais da época. Mas é com Leônidas, o “Diamante Negro”, que a imagem de Gilberto Freire de um futebol dionisíaco - expressando um País de excessos, da multiplicidade, da hybris, da irracionalidade -, conseguiu se fazer sentir mais claramente. Algo do tipo “o sangue negro transformando em arte o que seria um simples esporte, a diferença do futebol brasileiro com relação ao resto do mundo”. Estas representações não eram assumidas como parte de nossa identidade nacional somente por alguns eruditos, Freire incluso, mas também começaram a fazer parte do senso comum, que entendia a sociedade brasileira como fruto de uma mistura, a mesma que produzia o clássico Domingos da Guia e o dionisíaco Leônidas, os principais jogadores da década de 30, quando as concepções do que significaria ser brasileiro e a noção de Brasil estavam em redescoberta. Para além das paixões clubísticas, a democratização da prática do futebol, materializada na ascensão de jogadores negros e mestiços, permitiu que esse esporte viesse a ocupar posição central na construção da identidade nacional. Na ausência de um maior envolvimento brasileiro em guerras – matéria-prima para a construção de fronteiras de identidade na formação dos estados nacionais unificados na Europa – o futebol forneceu um simulacro de conflito bélico para o qual era possível canalizar emoções e construir sentidos de pertencimento nacional.... Do Estado Novo em diante... todos os regimes que governaram o Brasil durante o seu ciclo nacional-desenvolvimentista exploraram a chave do futebol para ajudar a construir e consolidar nossa identidade nacional.... Em oposição ao racismo aberto das velhas oligarquias, o novo discurso oficial passou a valorizar a mestiçagem, associando-a aos sucessos de uma ‘escola brasileira” de futebol que

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

93


explicaria a nossa singular maneira de ser no mundo (marcada pela criatividade, flexibilidade, informalidade e sensibilidade plástica).(FERNANDES, apud FILHO, 2003, p. 13)

Este tipo de construção, reproduzida pelos novos narradores (intelectuais e jornalistas esportivos), foi pioneiramente elaborada por Gilberto Freire no artigo intitulado “Football mulato”4, publicado no Diário de Pernambuco, em 17 de junho de 1938, por ocasião da participação do Brasil na Copa da França: Um repórter me perguntou anteontem, o que eu achava das admiráveis performances brasileiras nos campos de Strasburgo e Bordeaux. Respondo ao repórter... que uma das condições de nosso triunfo, este ano, me parecia a coragem, que afinal tivéramos completa, de mandar à Europa um time fortemente afro-brasileiro. Brancos, alguns, é certo; mas grande número, pretalhões bem brasileiros e mulatos ainda mais brasileiros... O nosso estilo de jogar futebol me parece contrastar com o dos europeus por um conjunto de qualidades de surpresa, de astúcia, de ligeireza e, ao mesmo tempo, de espontaneidade individual em que se exprime o mesmo mulatismo de Nilo Peçanha, que foi até hoje a melhor afirmação da arte política. Os nossos passes, os nossos pitu’ s, os nossos despistamentos, os nossos floreios com a bola, há alguma coisa de dança ou capoeiragem que marca o estilo brasileiro de jogar futebol, que arredonda e adoça o jogo inventado pelos ingleses e por outros europeus jogado tão angulosamente, tudo isso parece exprimir de modo interessantíssimo para psicólogos e sociólogos o mulatismo flamboyant e, ao mesmo tempo, o malandro que está hoje em tudo o que é a afirmação verdadeira do Brasil. (FREIRE, apud HELAL, 2001, pp. 30-31)

94

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Mas o caminho trilhado pela reafirmação do negro no futebol brasileiro reservava aspectos de dramaticidade e de tragédia nacional. A derrota na Copa de 1950 reverteria o quadro otimista em relação à mestiçagem, reacendendo velhos rancores racistas, em que os negros foram culpados pela derrota e pelo fracasso da própria nação, conforme o antropólogo Cesar Gordon Jr. Para Mário Filho, a prova disto estaria nos bodes expiatórios, escolhidos a dedo, e por coincidência, todos negros: Barbosa, Juvenal e Bigode. Os brancos do escrete brasileiro não foram acusados de nada na derrota frente ao Uruguai, no Maracanã,de acordo com o jornalista. No fundo, o torcedor quer que o jogador seja melhor do que ele... O jogador representa-o, representa seu clube, sua cidade, seu Estado, sua Pátria. A derrota do jogador é a derrota do torcedor. Quem perdeu em 50 foi o brasileiro. Mais o brasileiro que não jogou do que o que jogou. (FILHO, 2003, p. 17)

Mas eis que viriam Pelé, Garrincha, Didi e muitos jogadores de “cor”. E vieram as conquistas nas Copas do Mundo e a hegemonia do futebol brasileiro... Para Mário Filho, nenhum negro, no mundo, contribuiu mais para varrer barreiras raciais do que Pelé, que se tornou o ídolo do esporte mais popular da Terra. “Quem bate palmas para ele, bate palmas para um preto. Por isso Pelé não mandou esticar os cabelos: é preto como o pai, como a mãe, como a avó, como o tio, como os irmãos. Para exaltálos, exalta o preto”.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

95


Reflexões finais Para ficar no tema futebol, mesmo com tantas conquistas de nossa Seleção a partir da superação do “complexo de vira-latas”, conforme colocava o dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues, ainda é bastante comum, apesar do respeito conseguido pelos negros no futebol mundial, infelizmente, nos depararmos, na crônica esportiva e na postura torcedora com atitudes racistas. Vindas da torcida no caso do jogador Grafite (São Paulo), chamado de “macaco” pela torcida argentina, ou dos próprios atletas em campo, como recentemente demonstrou o caso envolvendo Jeovânio (Grêmio) e Antônio Carlos (Juventude), estas notícias abrem espaço para reflexão. Causa estranheza também que, questionado sobre estas atitudes racistas, Ronaldo, o craque conhecido como o “Fenômeno”, declare-se triste com isto e que se fosse negro se sentiria muito mal, quando seu genótipo é exatamente bem outro. Mas quem somos nós para criticarmos se ele é negro, pardo, mulato, moreno ou branco? Onde residem estas classificações? Muito da rivalidade entre Brasil e Argentina advém do racismo que os hermanos sempre dedicaram aos nossos jogadores, como durante a final da Copa Rocca, no final dos anos 40, que terminou com vários jogadores expulsos e feridos, após a exibição de faixas que humilhavam a nossa mestiça Seleção. Na Europa dos dias de hoje, muitos jogadores, brasileiros ou não, têm sofrido com manifestações racistas, o que levou o presidente da FIFA, Joseph Blatter, a anunciar severas punições e uma nova legislação para adotar um procedimento unificado contra o preconceito no futebol. Racismo à parte, as características singulares do futebol brasileiro e que, de certa forma, justificaram a criação de nossa identidade nacional

96

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


são formadas por categorias que recebem valorações positivas como o talento, o carisma, a visão de jogo, o oportunismo, a catimba e principalmente o drible, uma espécie de simulação ou fingimento. Estes elementos formadores do que internacionalmente se chama de “futebolarte”, mesmo positivamente, chegam a soar como racistas pelo fato de atribuir qualidades como ginga, malandragem e catimba ao negro, pois significaria imputar a ele, mais uma vez, características biológicas. No Brasil, não é preciso vencer apenas, pois a torcida quer se convencer de que está vendo o melhor futebol, digno das legítimas tradições brasileiras. Basta lembrar as exibições da Seleção Tetracampeã, que venceu a Copa de 1994, nos pênaltis, com um futebol frio e pragmático adotado pelo técnico Carlos Alberto Parreira, e a Seleção Canarinho de 1982, que o Mestre Telê Santana imortalizou mesmo na derrota, mas que encantou o mundo nos gramados da Espanha. Este estilo brasileiro de jogar talvez venha da “pelada”, daquilo que o cantor e compositor Chico Buarque nos coloca como a matriz do futebol sul-americano e, hoje em dia, mais nitidamente do africano, praticado por moleques de pés descalços, no meio da rua, em pirambeira, na linha de trem, dentro do ônibus, no mangue, na areia fofa, em qualquer terreno pouco confiável. Em suma, “pelada” é uma espécie de futebol que se joga, apesar do chão, com linhas imaginárias, onde o próprio gol é uma coisa abstrata. “O que conta mesmo é a bola e o moleque, o moleque e a bola”, completa Chico. Talvez seja mais coerente atribuir que o nosso estilo de jogar futebol é fruto de uma cobrança estética da sociedade brasileira, que formula e transmite qual deve ser a prática ideal para os nossos padrões, definindo quais são os valores dominantes que regem o nosso futebol, bem como a imagem da nação por ela representada, como coloca o

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

97


antropólogo Marcos Alves de Souza5. “Se para fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”, como lembram Vinícius de Moraes e Baden Powell, e para brincar o Carnaval é importante não perder de vista que ele é efêmero e acaba na Quarta-Feira das Cinzas, com o futebol, a alegria de jogar é a nossa maior marca. E de jogar bonito, como uma dança, um ritual. E se a alegria e a beleza, a la Gilberto Freire, vêm do negro, nosso futebol é negro e é belo, mas é também azul, branco, verde e amarelo. Somos uma sociedade arco-íris, cromaticamente bela, brilhante e opaca, como a íris e os olhos de Deus. E Deus, bem... Deus é brasileiro! Referências Bibliográficas: FREIRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala. In: BASTOS, Elide Rugai: Introdução ao Brasil: Um banquete no trópico. Lourenço Dantas Mota (org). São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2004. FILHO, Mário. O negro no futebol brasileiro. 4ª edição. Rio de Janeiro: Mauad, 2003. GORDON JR, César. História social dos negros no futebol brasileiro. In: MURAD, Maurício (et al.). Futebol e Cultura Brasileira. Rio de Janeiro: UERJ, Departamento Cultural / SR 3, 1995. HELAL, Ronaldo. A invenção do país do futebol: mídia, raça e idolatria. Ronaldo Helal, Antonio Jorge Soares, Hugo Luvisolo. Rio de Janeiro: Mauad, 2001.

98

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


ORTIZ, Renato. Cultura Brasileira & Identidade Nacional. São Paulo: Brasiliense, 1985. SOUZA, Marcos Alves de. A “nação em chuteiras”: raça e masculinidade no futebol brasileiro. Brasília: UNB / Série Antropológica, 1996. TOLEDO, Luiz Henrique de. A invenção do torcedor de futebol: disputas simbólicas pelos significados do torcer. In COSTA, Márcia Regina da (org): Futebol: Espetáculo do século. São Paulo: Musa Editora, 1999. Outras referências Folha de S. Paulo, 26.02.2006 / http://www.folha.uol.com.br/fsp/mais/ fsp2602200601.htm Notas: 1

Tribuna da Bahia, 08 /06/2005, p 05 Negritude humana, humanidade negra 3 Folha de S. Paulo, 26.02.2006 / http://www.folha.uol.com.br /fsp/mais/ fsp2602200601.htm 4 Diá rio de Pernambuco, 17.06.1938 5 Souza, Marcos Alves de. A Nação em chuteiras: raça e masculinidade no futebol brasileiro. Brasília: UNB, 1996. 2

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

99


100

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista IndependĂŞncia


Ano 1, nº 0, Outubro de 2006

Revista Independência

08

Título Pedro Batista, o Curador de Santa Brígida Autor Sebastião Heber Vieira Costa

Doutor em Antropologia, professor da Universidade Estadual da Bahia (Uneb), da Fundação Visconde de Cairu, da Faculdade 2 de Julho, Membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e da Academia Mater Salvatoris E-mail: savc@atarde.com.br

Resumo Em 1945, aparecia em Santa Brígida, lugarejo próximo a Paulo Afonso, Bahia, a figura carismática de Pedro Batista. Ele lá se refugiou, depois de ter passado por várias cidades do Nordeste. Em Alagoas, foi perseguido e preso, por conta de seus milagres. Mas aí ele encontra abrigo, sempre seguido dos seus adeptos. Pouco a pouco sua fama se espalha e, por conta do afluxo dos romeiros, as autoridades temem que se repita ali mais um episódio de Canudos. Ele é duramente acompanhado pelas autoridades. Mas vence a todos pela paciência. Até os políticos locais se rendem a ele em busca de votos. Além dos atos religiosos, ele se destaca pela ação social que empreende: mutirões, plantio, venda dos produtos na feira. Maria Isaura P. Queiroz conheceu-o pessoalmente e o menciona na sua obra clássica sobre o Messianismo. Ele faleceu em 11 de novembro de 1967. Palavras-chave: messianismo, carisma, religião, política, social.


INTRODUÇÃO Quem me falou, por primeiro, sobre os acontecimentos místicoreligiosos da cidade de Santa Brígida foi o professor Edivaldo Boaventura. Seus primeiros contatos com a cidade surgiram no tempo em que foi Secretário da Educação do Estado da Bahia. Há duas datas que são marcantes para a cidade: uma é a festa de São Pedro, dia onomástico do Padrinho Pedro Batista, e a outra é o 11 de novembro, dia do aniversário de morte do Beato, falecido em 1967. Com Bastide, podemos dizer que o sagrado constitui “a metáfora do social”, isto é, ele traduz o social sob a forma de imagens, e permite aos indivíduos “captar” o social dando-lhe uma dimensão nova, sendo ele próprio provocador de novidades1. Nesse sentido, o Padrinho Pedro Batista preenche a tipologia dos messias populares, que surgiram no Brasil, dentro da categoria do messianismo rústico, isto é, aquele que está vinculado à vida rural do povo. O PEREGRINO E SEU CARISMA Depois de tanto peregrinar, sem ser compreendido, mas, ao contrário, perseguido, preso, foi enxotado de um lado para o outro. Em 1945, fixou-se em Santa Brígida, povoado insignificante, no contexto do seu tempo, pertencente a Jeremoabo. Ele encontrou um ambiente desolador em todos os aspectos: econômico, social, moral. Claro que as reações logo começaram, vindas de três níveis: do clero, dos médicos e da Justiça. Pouco a pouco, as multidões acorrem em busca de alívio da alma e do corpo. O povo vinha de onde ele já havia passado: Sergipe, Pernambuco, Ceará e, sobretudo, Alagoas. Muitos vinham com a intenção de visitá-lo, somente pedir a bênção, ou alguma cura, mas muitos outros tinham a intenção de se instalar junto ao Padrinho. E logo ele teve que

102

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


arrendar, alugar e até adquirir roças para instalar os seus seguidores. Essa consciência dos poderes de messias em Pedro Batista, os romeiros a têm, a ponto de uma beata, vendo os resultados das realizações sócio-religiosas do Padrinho, suspirar dizendo: “Aqui é mesmo o céu”2. Por tudo isso, foi muito apropriado o título de um documentário sobre a vida do líder messiânico de Santa Brígida, realizado pelo IRDEB, em 1998, intitulado “O Conselheiro que deu certo”. O termo “carisma” foi introduzido na linguagem sócioantropológica por Max Weber para designar o poder específico de postulação e exercício de autoridade sobre os outros. Os carismas são muitos e diferentes, mas o tipo especificamente religioso é fundamental.3 A Madrinha Dodô, que fora copeira do Padre Cícero do Juazeiro, após a morte dele, em 1934, volta à terra de origem, Água Branca, em Alagoas. Lá ela conhece o Padrinho Pedro Batista. Ela é uma das primeiras seguidoras, e que, após a morte dele, em 1967, assume uma liderança espiritual até à sua morte, em 1998. ALIENAÇÃO OU MELHORIA DE VIDA DOS ADEPTOS? Hoje, a liderança espiritual do movimento está a cargo do senhor Zezito Apóstolo da Silva, que lá chegou em 1961, convidado insistentemente, desde 1959, pelo Padrinho, para assumir a função de professor, atividade que já tinha em Água Branca, onde era professor leigo. Apesar de ser analfabeto, e por isso nunca poder votar, o Padrinho tinha uma visão ampla com relação à importância dos estudos para o povo. Ele dizia: “Vamos rezar para Deus mandar alguém para cá”. Zezito me contou que não queria ir, e o Padrinho soube disso, mas afirmou que ele viria um dia. De fato, o professor se transferiu para Santa Brígida, e, pouco a pouco, veio toda a família. E ele se tornou o braço direito do

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

103


Padrinho. Há uma justa crítica ao fenômeno religioso de que, determinadas expressões, possam acarretar uma alienação do povo. Na verdade, constata Maria Isaura que Pedro Batista “tinha como finalidade a melhoria de vida de seus adeptos, e a religião se tornava o meio mais fácil de atingi-la”4. Os dons extraordinários do Beato atraíram mais e mais pessoas ao povoado. A incessante presença dos romeiros fez o povoado ir se multiplicando geometricamente e chegando a sua produção a ultrapassar o município de Jeremoabo. A feira é sempre um termômetro para uma região e a importância de um povoado se mede pela importância dela – isso vale até hoje e até para as cidades maiores. O jornal O Estado da Bahia, em 10 de julho de 1954, já dizia: “O progresso agrícola de Santa Brígida, depois da chegada do velho Pedro, basta que se diga que a produção de mandioca, de feijão e de milho, é superior ao consumo de todo o município de Jeremoabo”. Os progressos são visíveis. Além de lavoura, comércio e educação, ele chegou a doar a fazenda Gameleira ao Governo Federal para que ali fosse instalado o primeiro modelo de colonização para proporcionar aos habitantes-romeiros os ensinamentos agrícolas, visando até a mecanização da lavoura. Esse foi o primeiro embrião de reforma agrária na região. Essa fazenda lhe fora cedida pelo Coronel João Sá, que a negociou por um valor irrisório5. UM “ESTADISTA” DO SERTÃO A obra de Pedro Batista está configurada ao âmbito religioso, no social, no administrativo, mas é inegável constatar que ele construiu uma obra de engenharia política. Fez conchavos com a elite agrária do

104

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


seu tempo. Como analfabeto não votava – era Dona Bilu quem escrevia suas cartas, lia e respondia à sua correspondência. Fala-se que Getúlio Vargas o considerava o maior político brasileiro do século XX e dele disse: “Pedro Batista foi o político mais matreiro que o Brasil já teve”. No seu Museu-Memorial, organizado na gestão da prefeita Rosália Rodrigues de Freitas, e do seu sobrinho, vice-prefeito Antônio França, vê-se um telegrama de Juracy Magalhães pedindo seu apoio político. Lá também se encontra uma carta de Juscelino Kubitschek solicitando sua cooperação para a campanha do General Lott. O Beato foi até Paulo Afonso para recebê-lo. A grande dúvida que paira é com relação às origens dele – ele nunca falou e nem a revelou a ninguém. Mas Antônio França tem uma tese que ele não nasceu em Alagoas, porque, pelo seu biótipo, ele não era um nordestino, e teria nascido em Guaraqueceba, litoral do Paraná.6 Diz França: “Certa vez consegui contatar uma senhora de Curitiba, Elvira Batista, que apontou Pedro Batista como um tio seu que foi para o Nordeste e nunca mais voltou”.7 No documentário de Sérgio Muniz, “O povo do velho Pedro”, filmado em 1967, lá o Beato deixa escapar, talvez inconscientemente, já doente, o seu lado mandão. Apontando para a palma da mão, ele diz: “Aqui todos têm que passar nessa mão. É rico, é pobre, é padre, tudo tem que ter aqui”. É a sua dimensão política que, até o fim de sua vida, esteve sempre bem presente. O PADRINHO, UM MODELO A SEGUIR Na verdade, Pedro Batista foi o grande provedor do seu povo. Maria Isaura compara-o a “uma espécie de banco dos seus romeiros”8. Ele financiava o que o povo precisava, e isso sem juros. Mas toda essa

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

105


fortuna vinha das múltiplas doações dos seus romeiros. Qual a base para o seu sucesso, qual o segredo para a sua performance? A chave do seu segredo está no fato de nunca ter agido de forma revolucionária, nunca ter invadido terras. Com muita habilidade fez alianças com os líderes políticos da sua região, e pedia sempre licença para morar. Em contrapartida, favorecia com votos os seus protetores, para a perpetuação dos políticos no poder. Pode-se dizer que esse era “voto de cabresto”, sacramentado pela fé9. Havia um acordo tácito entre ele e o Coronel João Sá. Logo, ao chegar ao povoado, os romeiros tiravam seus títulos de eleitor, a ponto de Santa Brígida decidir as eleições municipais de Jeremoabo. Lindoaldo Alves de Oliveira, “Seu Lindo”, exprefeito, explica: “Aqui só eram duas urnas, apelidadas de ‘bomba atômica’, pelo poder de aniquilar os adversários. Nas eleições de 1954, foram contados mais de 300 votos em Santa Brígida, só havia dois contra o coronel João Sá”, conta ele10. Há uma conseqüência nas atitudes e hábitos, na vida moral, nos costumes dos fiéis, como resultado da pregação dos messias. Com Pedro Batista, essa tônica foi marcante. Viver ao lado do Padrinho era segui-lo como modelo. A maneira dos antigos romeiros se vestirem está em voga até os dias de hoje: as mulheres de branco, com lenço e vestidos com manga comprida. Mesmo aos homens havia essa recomendação – até hoje Zezito Apóstolo só usa camisas de mangas compridas. Como Pedro Batista era celibatário, muitos seguiam o mestre nesse costume, sendo ainda hoje, na cidade, motivo de glória alguém se apresentar como “moço ou moça velha”.

106

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


CONCLUSÂO A grande verdade de tudo que foi relatado, é que, nas expressões da religião do povo, e o messianismo de Pedro Batista é um deles, essa religiosidade ajuda os pobres a suportarem a vida – não seria criminoso tirar-lhes essa expressão de fé sem substituir e proporcionar em troca, de verdade, algo melhor?11 Pessoalmente, tenho me perguntado sobre a continuidade da obra do Beato. Já perguntei a pessoas ligadas a esse interesse quem seria a pessoa que daria continuidade a essa obra quando Zezito não puder mais desempenhar essa função. As pessoas não vêem um nome com as aptidões dele. Mas talvez essa seja uma preocupação por demais racionalista, porque, diferentemente de Canudos, pelas razões que a história mostra, há movimentos religiosos, como o do Padre Cícero, que teve autonomia após a sua morte e nunca foi dissolvido Não devemos fazer interpretações reducionistas. René Ribeiro, citando Sylvia Thrupp, relata as conclusões do estudo comparativo dos messianismos: “Em toda cultura, o pensamento em que se mantém o sonho milenarista, tem uma lógica própria, que não é reflexo automático das situações sociais” 12 Referências Bibliográficas: AUGÉ, M. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: S. Paulo,1977 CORREIO DA BAHIA. Pedro Batista – venerado em Stª Brígida, o peregrino foi um bem-sucedido ‘estadista do sertão’. Caderno Correio Repórter. Salvador, 18/11/2001

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

107


HOONAERT, E. Antônio Conselheiro, negociador do sagrado. In: História das religiões no Brasil. Org. Sylvana Brandão. Recife: Ed. Universitária da UFPE. 2001, p. 39-77 LEPARGNEUR, H. Religiosidade popular em questão. In: A religião do povo. S.Paulo: Paulinas, 1978, p.95-105 QUEIROZ, Mª Isaura Pereira. O messianismo no Brasil e no Mundo. Prefácio: Roger Bastide. 2ª ed. São Paulo: Alfa Ômega,1976 OLIVEIRA, Pedro A. Ribeiro. O catolicismo do povo. IN: A religião do povo. São Paulo: Paulinas,1978, p. 72-80 RIBEIRO, R. Antropologia da religião e outros estudos. Recife: Massangana, 1982 ROXO, Roberto M. Religião, religiosidade, secularização. In: A religião do povo.S.Paulo: Paulinas, 1978, p. 106 - 113 STRIEDER, I. Religiões: ópio ou libertação. In: História das religiões no Brasil. Org. Sylvana Brandão. Recife: Ed. UNiversitária da UFPE, 2002, p.633-666 WAACH, J. Sociologia da religião. Trad. Attílio Cancian. São Paulo: Paulinas, 1990

108

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Notas: 1

BASTIDE, R. A pud QUEIROZ, Mª I. P. O messianismo no Brasil e no mundo.2. ed. S.Paulo: Alfa Ômega 1977, p.XXI 2 QUEIROZ, op. cit. p. 305 3 WAACH, J. Sociologia da religião.Trad. Attílio Cancian.A. Paulo:Paulinas,1990, p. 404. 4 QUEIROZ, op. cit.p.308 5 Correio da Bahia, Pedro Beato. Caderno Correio Repórter, 11/11/2001, p.6 6 Informação verbal. 7 Correio da Bahia, op. cit. p. 6. 8 Id. p 3 9 Id. p 4 10 Id. p.4 11 LEPARGNEUR, H. Religiosidade popular em questão.In: A religião do povo. S. Paulo: Paulinas,1978,p. 103 12 RIBEIRO, R. Antropologia da religião e outros estudos.Recife: Massangana, 1982, p.233.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

109


110

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista IndependĂŞncia


Ano 1, nº 0, Outubro de 2006

Revista Independência

09

Título A importância da educação na formação do jovem engajado em movimentos de comunidade Autor Sérgio Miranda Administrador de Empresas, especializado em Gestão Organizacional, autor do livro A Eficácia da Comunicação, professor universitário e Diretor Administrativo da Faculdade 2 de Julho. E-mail: sergiomiranda@f2j.edu.br

Resumo Este artigo comenta sobre a importância do papel conjunto da escola e da família na formação da criança e do jovem para a vida. Destaca o valor da formação como fator muito mais importante do que a informação massiva voltada para levar os jovens a uma faculdade descomprometida com a formação cristã, com a ética e a cidadania. Mostra a preocupação com a necessidade de desenvolver nas crianças e nos jovens os princípios de solidariedade e o reconhecimento da sua responsabilidade social. Palavras-chave: Formação, responsabilidade social, solidariedade, exclusão social.


Com o desenvolvimento tecnológico que o mundo vem experimentando nas últimas décadas, as mudanças ocorrem cada vez mais em menores espaços de tempo e, sob o signo da globalização, esse desenvolvimento vem arrastando e transformando tudo que encontra pela frente. Além da tecnologia, da economia, da política, da educação, entre outros aspectos, os costumes também estão mudando. As pessoas que moram nas cidades, por mais simples que sejam, não conseguem passar ao largo sem participar, de alguma forma, da evolução dos tempos (e aqui abrimos um parêntese para salvaguardar as pessoas simples do campo que parecem ainda viver na idade média, longe da civilização e de tudo que lá ocorre). A juventude, como instrumento de transformação, vivendo em contínuo processo de mudanças, não poderia estar fora desse contexto. O episódio das manifestações dos estudantes secundaristas contra o aumento das passagens de ônibus, em Salvador, parecia uma reedição dos “caras pintadas” lutando por seus direitos. Mas, infelizmente, nem todos estavam ali com os mesmos propósitos. Muitos queriam apenas o ôba-ôba, a farra e a suspensão “oficial” das aulas. O novo tempo requer um jovem engajado, participativo, cidadão, consciente dos seus direitos e deveres, que seja coerente, posicionado frente aos problemas políticos do nosso País e do mundo, que esteja ligado com as questões ambientais e, sobretudo, que reconheça a sua responsabilidade social, mantendo-se alerta diante da realidade das pessoas que vivem às margens da sociedade e excluídos por ela. Para desenvolver um assunto como este, é necessário que façamos uma contextualização da educação recebida pelos nossos jovens, a preocupação familiar e escolar com a sua formação ética e moral e o compromisso pessoal com a realização de trabalhos sociais e solidários.

112

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Essa realidade nos remete ao importante papel do educador e da escola na formação do jovem para a vida, e não somente para o vestibular. Do que vale ser um bom profissional com um excelente curso de graduação e pós sem que exista uma preocupação com a formação ética e moral? De que adianta ser um profissional liberal abastado ou um grande comerciante ou empresário, se a visão está deturpada pelo lucro excessivo ou pela gana de levar vantagem em tudo? Visões do tipo “é necessário alguém perder para outro ganhar”, ou “meu pai paga a escola, por isso eu faço o que quero aqui dentro” são formas altamente combatidas pela ética, porém, alimentadas em muitas famílias da nossa sociedade, no momento em que não impõem às suas crianças, adolescentes e jovens os limites necessários, transformando-os em futuros sonegadores de impostos ou em marginais, como os filhinhos de papai de Brasília que queimaram vivo o índio Galdino. Muitas escolas, hoje, se preocupam muito mais com a parte estética, o luxo e instalações que mais parecem um shopping na expectativa de atrair alunos das classes sociais mais altas, demonstrando uma visão muito mais empresarial que educacional. Nesse viés, voltamse muito mais para o ensino e o preparo dos jovens para enfrentar a concorrência do vestibular, achando que isso é suficiente e necessário para a sua educação do que com a importância da formação global do indivíduo. Desligam-se da importância da formação do caráter, da disciplina, da necessidade de imposição de limites, do respeito ao próximo e à família e da orientação religiosa, tão importante e que tanto contribui para que o jovem possa perceber e internalizar a necessidade de se integrar, solidarizar, se envolver e se comprometer com movimentos sociais que visam reduzir as diferenças entre as pessoas, desenvolvendo, assim, a sua responsabilidade social.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

113


A conscientização solidária do jovem deve começar dentro da própria família, mas, infelizmente, a célula mais importante da sociedade está cada vez mais degradada. As estatísticas revelam que, cada vez mais, casais se separam e marido e mulher tornam-se inimigos, promovendo verdadeiras batalhas, destruindo o pouco que restava do espírito de integração familiar. Filhos são criados sem a presença importante e fundamental do pai ou da mãe, gerando indivíduos muitas vezes desequilibrados emocional, sexual e socialmente, impedindo o desenvolvimento do espírito de agregação e unidade familiar na mente da criança e do jovem. Como um jovem pode internalizar aquele princípio se não o vivenciou? Dificilmente ele vai querer se engajar em movimentos comunitários ou solidários porque a sua mente não está aberta nem preparada para esse tipo de atividade. Muito pelo contrário, ela estará susceptível a receber e acatar idéias que confrontem ou desafiem a família, porque se considera vítima do que sobrou dela e então se torna totalmente vulnerável às drogas, ao crime e a outras desgraças. Nesses tempos de adversidade, quando os próprios pais não têm afinidade ou nunca participam de movimentos comunitários, mesmo porque a maioria abandona a igreja logo após a realização da “primeira comunhão”, como, então, orientar os filhos a participarem? A maioria dos jovens, por falta de uma formação religiosa, acha que participar de trabalhos sociais seria, na linguagem deles, “pagar mico”. Daí a importância do trabalho de formação feito pela escola, até para compensar o desconhecimento religioso desses pais. O distanciamento entre a família e a igreja e, conseqüentemente, da formação religiosa, seja qual for o credo ou a denominação, tem sido um ponto de vulnerabilidade para os filhos em relação às drogas e ao crime. As pessoas que têm vivência em movimentos familiares cristãos,

114

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


grupos de jovens, escolas bíblicas, entre outros, dificilmente enveredam por caminhos que levam à marginalidade. Nesses ambientes, os jovens estão muito mais preparados e disponíveis para a realização de um trabalho solidário porque desde crianças são conscientizados da necessidade de amar e ajudar ao próximo e cumprir a orientação do próprio Cristo que diz, no Evangelho segundo Mateus: “Sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. A Bíblia está recheada de citações que estimulam o trabalho comunitário, a solidariedade e a responsabilidade social. Citaremos apenas duas delas, que nos mostram a necessidade de uma tomada de consciência e um questionamento pessoal: a primeira está na epístola de Tiago que afirma: “Mostra-me o tamanho das suas obras e eu te direi o tamanho da sua fé”; e, a outra, na carta do apóstolo Paulo aos efésios: “A salvação não vem das obras, para que ninguém se glorie, mas somos criados por Deus, em Cristo, para praticarmos boas obras”. É muito cômodo e prático colocar a culpa de toda essa situação no Governo e achar que ele tem obrigação de resolver todo o problema social do país e ficar esperando o resultado. E a nossa consciência, onde é que fica? Sabemos que a solução está muito distante e que o governo não tem condições de gerar emprego e renda para uma população tão grande e despreparada para o trabalho. Há gente pobre e necessitada espalhada por todos os estados da Federação, principalmente na nossa sofrida Região Nordeste, tão maltratada pela seca. O Governo Lula iniciou a campanha do Programa Fome Zero abrindo campos de ação e espaços para qualquer pessoa ou organização que queira ajudar os necessitados. É necessário, porém, um envolvimento de toda a nação, não só daqueles que têm financeiras para fazer alguma coisa, mas todos os que têm disponibilidade no coração para ajudar uma pessoa que passa fome. E

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

115


não é só contribuir financeiramente, mas doar um pouco de si, do seu trabalho, seja em que área for, qualquer que seja o seu esforço será bem vindo. É preciso arregaçar as mangas e começar já. Muitas comunidades religiosas de várias denominações, escolas, associações de bairros, centros espíritas, confrarias, organizações do terceiro setor (ONG), entre outras, vêm promovendo trabalhos comunitários em diversas áreas da sociedade, principalmente nos bairros de periferia e junto a populações carentes das cidades e da zona rural, atuando em diversas áreas como saúde, educação, alimentação, abastecimento de água, saneamento, higiene, mercado de trabalho formal e informal, moradia. Não importa a cor, o credo, o sexo, a raça ou o que for, o importante é que o jovem e todos nós possamos estar engajados, de alguma forma, com qualquer disponibilidade de tempo ou de recursos, em qualquer tipo de programa ou projeto, em qualquer entidade do seu agrado, que vise a reduzir a diferença existente entre os seres humanos ou que possa amenizar a fome daquela parcela mais excluída da sociedade ou a dor daqueles que sofrem qualquer tipo de discriminação, doença ou problemas sociais. Educadores: façamos a nossa parte preparando as nossas crianças e nossos jovens para a vida, formando cidadãos conscientes, pacíficos e solidários, dispostos a lutar pela igualdade social no Brasil e no Mundo. Jovens! Adolescentes! Crianças! Homens e mulheres! Unamos as nossas mãos por um mundo melhor, mais justo e mais igual.

116

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Ano 1, nº 0, Outubro de 2006

Revista Independência

10

Título A fala e o gesto na fenomenologia de Merleau-Ponty Autor Márcia Saievicz Especialista em Educação Estética, Semiótica e Cultura. Professora da UNEB – Campus IX, Barreiras / BA e da Faculdade 2 de Julho. E-mail: saievicz@ig.com.br

Resumo O artigo é de teor estritamente filosófico. Elaborado como apresentação de um projeto de estudo, seu objetivo é situar a questão da relação entre fala e gesto na proposta fenomenológica de Merleau-Ponty. O texto apresenta uma breve introdução acerca da tríade fundamental da obra do autor; articula três noções fundamentais da sua fenomenologia – comportamento, corpo e carne; assinala nesse amálgama a emergência de uma “ciência da expressão” que parte da descrição do gesto e da fala; destaca as idéias elementares de Merleau-Ponty acerca da linguagem como expressão. Observa-se, na consideração final desse estudo preliminar, que a obra de Merleau-Ponty só se deixa aprender no movimento de conjunto, fazendo valer o princípio estrutural: “cada parte só tem sentido quando atuando em conjunto com as demais”. Palavras-Chave: Linguagem, corpo, gesto, fala, signo.


Nossa visão sobre o homem continuará a ser superficial enquanto não remontarmos a essa origem, enquanto não encontrarmos, sob o ruído das falas, o silêncio primordial, enquanto não descrevermos o gesto que rompe esse silêncio. A fala é um gesto, e sua significação um mundo. Merleau-Ponty, 1999

No livro A Estrutura do Comportamento (1942) se encontra exposto o eixo temático do pensamento merleau-pontyano; os conceitos aí examinados determinam o solo de ancoragem das significações primordiais que opera na sua fenomenologia. Na introdução dessa publicação, Merleau-Ponty escreve: “Nosso objetivo é compreender as relações entre a consciência e a natureza, – orgânica, psicológica, ou mesmo social” (Merleau-Ponty, 1975: 29). Desse modo anuncia a preocupação fundamental do seu pensamento que será a temática central de toda a sua obra, a saber: as relações entre homem e mundo. Merleau-Ponty na publicação de 1942 elege a noção de comportamento como ponto de partida de sua investigação, pois ao seu ver essa é uma noção neutra frente à distinção do “psíquico” (alma) e do “fisiológico” (corpo) – e, portanto, escapa às amarras do idealismo e do empirismo. O exame do comportamento humano é feito, então, a partir da “descrição” científica e filosófica da experiência. Merleau-Ponty apresenta várias concepções da Psicologia – behaviorismo, gestaltheorie, psicanálise, para demonstrar a fragilidade de seus pressupostos epistemológicos. Sua crítica se dirige tanto às tendências empiristas da ciência quanto ao idealismo das filosofias da consciência. Essa é uma das marcas características da fenomenologia merleau-pontyana: negar as polaridades do pensamento (objetivismo, subjetivismo / idealismo, empirismo) e privilegiar os enigmas e

118

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


paradoxos, isto é, o caráter ambíguo da experiência2. A recusa radical às concepções do comportamento como um processo mecanicista de causa e efeito (crítica ao behaviorismo), a recusa à experiência científica como ponto de apoio para as teorias psicológicas (crítica a gestaltheorie) e, juntamente, a recusa às tendências filosóficas idealistas que pressupunham a natureza como uma unidade objetiva constituída face à consciência, levam Merleau-Ponty a descrever o comportamento como possuindo intenção e sentidos, e a elaborar a noção de estrutura, a partir da qual o comportamento humano será compreendido na complexidade de seu enraizamento na experiência vivida. Na sua estrutura, o comportamento humano não prevê as minuciosidades dos seus gestos, não se orienta conforme uma representação clara e distinta dos movimentos que o definem. O comportamento determina-se na sua “familiaridade perceptiva” com o mundo, pelo modo como se está “instalado nele”. Compreendido a partir da noção de estrutura e não de uma “consciência instituinte”, o comportamento revela a ordem da gestualidade natural, solo de onde emerge a “gesticulação cultural”. O exame do “comportamento” dá lugar ao exame da percepção na obra mais célebre de Merleau-Ponty, Fenomenologia da Percepção (1945). No Prefácio, o autor esclarece o propósito da fenomenologia: compreender a relação homem e mundo a partir de sua “facticidade”, isto é, tal qual aparece no “mundo vivido” – neste, aparência e essência não se distinguem; aliás, aí “as coisas mesmas” mostram sua essência. Nesse sentido, a fenomenologia tal como a descreve Merleau-Ponty é uma filosofia “para a qual o mundo já está sempre ‘ali’, antes da reflexão, como uma presença inalienável” (Merleau-Ponty, 1999: 02). Destarte, a

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência Márcia Saievicz

119


descrição na Fenomenologia da Percepção volta-se para a “experiência natural e ingênua” (não mais para a experiência científica), pois seu esforço todo consiste em reencontrar o “contato ingênuo com o mundo”. Merleau-Ponty recorrerá ainda às teorias da psicologia, entretanto, não mais para criticá-las e, sim, como fontes de confirmação de seu próprio pensamento. No capítulo da Fenomenologia da Percepção dedicado ao tratamento do tema da linguagem, o título enuncia O Corpo como Expressão e a Fala. O tema da linguagem é deslocado de uma compreensão representativa intelectual e situado ao lado dos fenômenos do corpo, colocando-o em uma dimensão existencial. A idéia sumária de MerleauPonty é afirmar que as palavras são fundamentalmente um prolongamento do corpo, assim como os gestos: “A fala é um verdadeiro gesto e contém seu sentido, assim como o gesto contém o seu” (MerleauPonty, 1999: 49). O uso da linguagem é descrito por Merleau-Ponty do mesmo modo que o emprego do corpo na experiência do “mundo vivido”. Do mesmo modo como corpo é usado espontaneamente, sem necessidade de que cada gesto venha acompanhado da explicitação de seus detalhes, assim também são empregadas as palavras. Destarte, na gestualidade (movimento do corpo) descobre-se a expressão originária que constitui toda linguagem. O importante nessa breve apresentação das duas primeiras publicações de Merleau-Ponty é mostrar que entre ambas há uma articulação essencial, “um reenvio de análise e fundação”. J. de A. Correa refere-se ao pensamento nelas contido como “filosofia do corpo” que revela “o ser-humano em sua originalidade de ser-no-mundo e o corpo próprio como expressão desta nova realidade” (Correa, 1975: 14). O

120

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


“corpo vivido” ou “corpo próprio” diz respeito ao modo pelo qual estamos instalados no mundo, recebendo e doando significações. A noção de corpo próprio, na publicação de 1945, expressa a compreensão da “consciência perceptiva solidária com o corpo” que já aparecera na publicação de 1942. Correa comenta que a Estrutura do Comportamento e a Fenomenologia da Percepção elaboram “uma fenomenologia que já contém em si o movimento que possibilitará sua releitura, sua ‘explicitação ontológica’ tal como Merleau-Ponty nota em O Visível e o Invisível” (Correa, 1975: 14). O livro citado, O Visível e o Invisível (1964), reúne os últimos escritos de Merleau-Ponty e nele o autor enuncia seu objetivo nos seguintes termos: “O que nos importa é precisamente saber o sentido de ser do mundo” (Merleau-Ponty, 1971:18). O livro, publicado postumamente, inicialmente se intitularia “ A Origem da Verdade ” e destinava-se a ser um livro “sobre a ontologia pré-reflexiva, mundo do ser bruto ou selvagem”. Nesse escrito, a noção de corpo dá lugar à noção de carne entendida como “uma interioridade que não se reduz à imanência da consciência, mas que não se explica pela exterioridade de mecanismos físico-fisiológicos” (Chauí, 1989: XI). A carne é expressão do fenômeno da reversibilidade “corpo–mundo” que revela a peculiaridade das relações perceptivas: a ambigüidade. Corpo–mundo constitui o “campo de presença” onde emergem todas as relações da “vida perceptiva” e do “mundo sensível”. Escreve Merleau-Ponty: Antes da ciência do corpo – que implica a relação com outrem –, a experiência de minha carne como ganga de minha percepção ensinou-me que a percepção não nasce em qualquer lugar, mas emerge no recesso de um corpo (1971: 21).

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

121


A relação “corpo sensível – mundo sensível” constitui o campo da expressividade. Ao entrelaçamento corpo-mundo Merleau-Ponty outorga o “poder doador de significados”. A partir do desenvolvimento da noção de carne, a potência de significar é descoberta no imbricamento da expressão e do silêncio. Lê-se em “O Visível e o Invisível”: “Esta nova reversibilidade e a emergência da carne como expressão constituem o ponto de intersecção do falar e do pensar no mundo do silêncio” (MerleauPonty, 1971: 140). Segundo o próprio Merleau-Ponty o livro “O V isível e o Invisível” se destinaria a “elaborar com todo o rigor” os fundamentos filosóficos dos seus trabalhos anteriores numa “teoria concreta do espírito que o mostrará numa relação de troca com os instrumentos de que ele se vale” (In: Lefort, 2002: 08). Lefort ao comentar essa intenção expressa de Merleau-Ponty indica que essa “teoria concreta do espírito devia se organizar em torno de uma idéia nova de expressão e da análise dos gestos ou do uso mímico do corpo, bem como de todas as formas de linguagem, até as mais sublimadas da linguagem matemática” (Lefort, 2002: 08).

Merleau-Ponty pretendia elaborar uma filosofia e ciência da expressão que começasse por tratar da dimensão gestual da linguagem; que abordasse os signos encarnados no movimento de significação. A linguagem é descrita por ele como “encarnação de significações”, “campo ilimitado de possibilidades de expressão”, onde “a palavra não é a tradução de um sentido mudo, mas criação de sentido”. O compromisso da palavra não é com uma significação já dada e, sim, com uma que está por se fazer.

122

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Destarte, a tarefa da filosofia fenomenológica é perseguir o que Merleau-Ponty denomina a “ordem da espontaneidade” do ser da qual toda expressão busca libertar o que aí se encontra cativo e, para ele a fenomenologia da palavra e do gesto é, entre todas as outras, a mais apta para revelar-nos essa ordem. Em A Linguagem Indireta e az Vozes do Silêncio o autor escreve:] Se o próprio do gesto humano é significar para além de sua simples existência de fato, inaugurar um sentido, daí resulta que todo gesto é comparável a qualquer outro, que se prendem todos a uma única sintaxe, que cada um deles é um começo (e uma seqüência), anuncia uma seqüência ou recomeços [...] na medida em que vale mais do que sua mera presença, e nisso é de antemão aliado ou cúmplice de todas as outras tentativas de expressão. (Merleau-Ponty, 1991: 71)

A compreensão fenomenológica da linguagem como expressão está alicerçada em três importantes idéias: 1) a idéia de que as palavras não ganham seu sentido como elementos isolados e, sim, como atos convergentes de expressão carregados de significação; 2) a idéia de que a expressão nunca é total; 3) a idéia de que o ato de expressão não é apenas uma operação secundária, ou um mero meio de comunicação, mas é a aquisição que nós fazemos das significações. Na exposição “Sobre a Fenomenologia da Linguagem”, publicada em Signos, de 1960, Merleau-Ponty afirma que a fenomenologia institui uma nova concepção do ser da linguagem, uma concepção que é “lógica encarnada”. Com isso se compreende que a fenomenologia se ocupa mesmo da linguagem no espaço da contingência, onde os acasos se coadunam em um sistema orientado, como se estivesse realizando uma

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

123


continuação do ocasional em uma totalidade que possui sentido. Na parte do texto intitulada Quase-corporalidade do significante, Merleau-Ponty novamente explora a idéia de que a significação veiculada por cada signo só diz respeito a sua diferença em relação aos demais, porém não é a simples soma deles que constituem o valor expressivo da fala. O valor expressivo de uma língua não é dado pelo mero encadeamento verbal dos elementos que essa língua reconhece como seus, mas se constitui pelo modo como os signos da língua dirigem-se a uma significação que sempre os ultrapassa. É como se as palavras surpreendessem o sujeito mesmo que fala e lhe ensinasse o seu próprio pensamento, na medida em que uma ponte se instaura entre a intenção muda e a própria palavra em um domínio da significação encontrado no vivido. Do mesmo modo que temos uma certa “consciência significativa” dos nossos gestos e corpos quando nos dirigimos ao mundo, ainda que não tenhamos a representação explícita de todos os elementos que nos circundam, a palavra também contém uma significação que é encontrada na “própria textura do gesto lingüístico”, ou seja, a palavra está circunscrita em um contexto que a engloba e ultrapassa (como o corpo no mundo), bastando apenas uma hesitação na voz ou uma mudança na sintaxe para modificar a significação que aí jaz. Escreve Merleau-Ponty: A significação anima a palavra como o mundo anima meu corpo: por uma surda presença que desperta minhas intenções sem se mostrar abertamente diante delas. A intenção significativa em mim (assim como no ouvinte que a reencontra ao ouvir-me) não é, no momento em que ocorre – mesmo que depois venha a frutificar em ‘pensamentos’ –, senão um vazio determinado a ser

124

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


preenchido por palavras; o excesso daquilo que quero dizer sobre o que é ou o que já foi dito. (Merleau-Ponty, 1991: 94).

O que se realiza no fenômeno da fala, na experiência de seu uso, é que ao fazer uma intenção significativa ainda muda ganhar corpo em uma palavra, revestindo-a de um sentido, a expressão mostra o pensamento não só ao ouvinte, mas ao próprio falante, que só o conhecia na sua mudez. Desse modo, a palavra (a fala) é compreendida como o momento da encarnação de uma intenção de significar em uma cultura, lembrando que é preciso “admitir a ordem da cultura ou do sentido como uma ordem geral do advento” ((Merleau-Ponty, 1991: 71). É em A Prosa do Mundo (1969) que o propósito de tratar dos problemas da expressão aparece claramente. Essa coletânea de ensaios sobre a linguagem, publicados postumamente, se destinavam a uma obra que Merleau-Ponty deixou inacabada. Conforme Lefort, existem razões para se acreditar que “o autor a abandonou deliberadamente e que não desejou, em vida, levá-la a seu termo”, porém, a interrupção desse trabalho não diminui sua importância na compreensão da obra do autor, ao contrário, os escritos que estão aí reunidos podem lançar uma luz sobre os problemas da linguagem e da expressão. Merleau-Ponty declara pretender “mostrar que a linguagem jamais é a simples vestimenta de um pensamento que se conhece a si mesmo com toda a clareza (In: Lefort, 2002: 08). Seu estudo denuncia o “fantasma de uma linguagem pura” como instrumento de designação e prossegue por uma reflexão sobre a expressão e a característica indireta de toda linguagem. A linguagem é sempre alusiva e nisso reside seu enigma: nela a significação sempre ultrapassa o significante, e este sempre engendra novas significações. Toda operação expressiva busca “recuperar

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

125


o ser do mundo”, porém, “a idéia de uma expressão completa é um contra-senso”. O caráter indireto da linguagem é o principal tema do artigo que Merleau-Ponty extraiu de sua obra inacaba e publicou sob o título A Linguagem Indireta e as Vozes do Silêncio (1952). Partindo da consideração de Saussure acerca dos signos que só adquirem um sentido quando relacionados a outros signos, explora a idéia de que as palavras teriam pouco ou nenhuma significação se tomadas isoladamente. A fala aparece como uma tessitura de palavras onde se entrelaçam os “gestos lingüísticos”, sendo que o sentido emerge apenas “na interseção e como que nos intervalos das palavras” (Merleau-Ponty, 1991: 42). Para apreender a linguagem é necessário deixar-se envolver por seu “movimento de diferenciação e de articulação, por sua gesticulação eloqüente” (Merleau-Ponty: 1991: 43). Ao referir-se ao poder da linguagem de ir “além dos ‘signos’ rumo ao sentido deles”, Merleau-Ponty fala de uma “opacidade da linguagem”, porém, é a própria linguagem que “desvela seus segredos” e, nesse sentido “é inteiramente mostração”. Para compreender as palavras basta deixar-se envolver por sua vida, “instalando-as no entrecruzamento dos gestos lingüísticos como aquilo que estes mostram de comum acordo” (Cf. Merleau-Ponty, 1991, 43). Escreve Merleau-Ponty: Muito mais do que um meio, a linguagem é algo como um ser... O sentido é o movimento total da palavra, e é por isso que nosso pensamento demora-se na linguagem. Por isso também a transpõe como o gesto ultrapassa os seus pontos de passagem. (Merleau-Ponty, 1991: 43).

126

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


A Linguagem Indireta e as Vozes do Silêncio o fenomenólogo apresenta uma comparação entre o modo de expressão literário e o pictórico que faz transparecer com agudeza a gestualidade testemunha e cúmplice de toda expressão. A palavra como o gesto, na descrição merleau-pontyana, aparecem como “modulação de uma certa maneira de existir, que é originariamente sensível” e como modos de expressão (“experiências reveladoras”) da latência e da transcendência do real. Aparece assim o enlace da percepção e da expressão que, na perspectiva fenomenológica, constituem atos primários da instituição cultural. Qualquer percepção, qualquer ação que a suponha, em suma, qualquer uso humano do corpo já é expressão primordial (...) operação primária que de início constitui os signos em signos, faz o expresso habitar neles apenas pela eloqüência de sua disposição e de sua configuração, implanta um sentido naquilo que não tinha, e que assim, longe de esgotar-se na instância em que ocorre, inaugura uma ordem, funda uma instituição, uma tradição... (Merleau-Ponty, 1991: 70).

Esse artigo e A Prosa do Mundo, que lhe deu origem, constituem um importante núcleo do pensamento de Merleau-Ponty onde a linguagem e a sua dimensão gestual figuram como o solo mesmo das descrições fenomenológicas que buscam compreender a relação homem e o mundo a partir da sua facticidade. A fenomenologia da percepção e da expressão não só “reinstala” o homem no mundo sensível como “restaura” o corpo como expressão espontânea. O segredo da ação expressiva já se mostra nos gestos mais simples e se prolifera nas diversas expressões da cultura. Merleau-Ponty escreve:

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

127


Digamos mais genericamente que a tentativa contínua da expressão funda uma única história – como o domínio do nosso corpo sobre todos os objetos possíveis funda um único espaço. (Merleau-Ponty, 1991: 73)

A compreensão do fenômeno da palavra e do gesto proposta por Merleau-Ponty implicará em importantes conseqüências tanto para a filosofia da linguagem quanto para as ciências semiológicas. O estudo da gestualidade da linguagem, a partir da relação “palavra” e “gesto” mostra a peculiaridade filosófica do movimento do pensamento fenomenológico que consiste em se instalar “na ordem da espontaneidade ensinante” para, a partir daí, compreender as relações que se estabelecem entre a própria presença e a presença do mundo e do outro, respectivamente, problema para uma teoria da verdade (semiótica) e problema para uma teoria da intersubjetividade (ética). Conclusão A obra do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty tem suscitado, desde suas primeiras publicações, algumas controvérsias. As críticas recaem ou sobre o conjunto da obra (colocando dúvidas acerca do próprio estatuto da fenomenologia da percepção como método para o conhecimento filosófico), ou sobre parte de seus escritos (colocando dúvidas sobre a propriedade filosófica de alguns de seus textos, caso específico do livro Estrutura do Comportamento e das publicações póstumas – em especial, A prosa do Mundo e O Visível e o Invisível). O estudo acerca da dimensão gestual da linguagem na teoria da expressão de Merleau-Ponty mostra, de início, que uma correta abordagem desse tema requer a compreensão da unidade essencial do pensamento do autor, aliás, disso depende qualquer articulação conceitual

128

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


que se pretenda em relação à sua proposta, sob pena de dar-lhe um tratamento incompleto e/ou equívoco, e não alcançar sua “tópica” essencialmente filosófica3. Pode-se dizer que a fenomenologia de Merleau-Ponty mostra sua desenvoltura metodológica na medida mesmo em seus escritos surgem e vêm a público, revelando aí um movimento próprio do pensamento desse autor que se desvela / se esclarece pela passagem de um conceito a outro, uma noção à outra, um termo a outro, demonstrando que nela “conteúdo e método, com efeito, não se encontram separados”. Perseguindo o movimento de articulação das temáticas que compõe a obra merleau-pontyana, visualiza-se um traço característico do seu esforço e mérito filosófico: o poder de deixar a obra instituir-se a partir do fluxo que ela mesma instaura em uma interrogação constante e isso sob o crivo severo de uma auto-reflexividade. Nesse sentido, acredita-se que a conexão dos caminhos conceituais trilhados pela filosofia de Merleau-Ponty é passível de ser alcançada retomando e congregando suas idéias-mestra, as quais encontram uma exposição axial já na sua primeira obra publicada, Estrutura do Comportamento, desenvolvem seu motivo fundamental na sua obra mais célebre, Fenomenologia da Percepção, e adquire seu corpus ao longo de uma intensa produção que ora se deixa vir a público, ora se guarda para a póstuma idade – ou por opção do autor, caso dos ensaios que compõe A Prosa do Mundo, ou da natureza, como se sabe, a morte “prematura” de Merleau-Ponty encerra o projeto de O Visível e o Invisível.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

129


Referências Bibliográficas: MERLEAU-PONTY, M. Estrutura do Comportamento. Belo Horizonte: Interlivros, 1975. ______. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999. ______. O Visível e o Invisível. São Paulo: Perspectiva, 1971. ______. A Prosa do Mundo. São Paulo: Cosac & Naify, 2002. ______. A Linguagem Indireta e as Vozes do Silêncio. Sobre a Fenomenologia da Linguagem In: Signos. São Paulo: Martins Fontes, 1991. ______. Elogio da Filosofia. 3 ed. Lisboa: Guimarães Editores, s/d. CHAUÍ, M. Merleau-Ponty. Vida e Obra. In: MERLEAU-PONTY, M. Textos Selecionados. São Paulo: Nova Cultural, 1989. (Os Pensadores) CORREA, José de A. Prefácio. In: MERLEAU-PONTY, M. Estrutura do Comportamento. Belo Horizonte: Interlivros, 1975. GRANGER, Gilles-Gaston. Por um Conhecimento Filosófico. São Paulo: Papirus, 1989. LEFORT, C. Prefácio.. In: MERLEAU-PONTY, M. A prosa do mundo. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

130

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Notas: 2

O que levará Ferdinand Alquié (em 1947), e depois Alphonse de Waelhens (em 1949), denominá-la “uma filosofia da ambigüidade”, expressão que Merleau-Ponty não rejeita. Ver o Elogio a Filosofia de 1952. 3 A necessidade de uma ‘tópica transcendental” é apontada por G-G. Granger como condição incontornável do exercício filosófico. Sobre essa exigência o autor escreve: “Compreendemos com isso que todo trabalho filosófico deve mais ou menos explicitamente delimitar e articular os domínios do vivido, onde se exerce o ato de construir significações, e por conseguinte indicar o estudo de diferentes planos onde cada conceito introduzido desenvolve seu sentido” (Granger, 1989, p. 208).

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

131


132

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista IndependĂŞncia


Ano 1, nº 0, Outubro de 2006

Revista Independência

11

Título Humor: uma estratégia comunicacional do movimento literário Padaria Espiritual1 Autor Júlio Vitorino Figueroa Bacharel em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará. E-mail: saievicz@ig.com.br

Resumo A Padaria Espiritual constituiu-se num movimento literário dos mais originais que sacudiu o meio intelectual da sociedade cearense no final do século XIX com sua verve humorística. De grande importância dentro da agremiação, o humor era o veículo pelo qual os chamados padeiros criticavam incisivamente as estruturas sociais tradicionais da província. Esse mesmo humor foi também transformado em instrumento de aproximação com a sociedade na medida em que possibilitou ao movimento penetrar nos debates literários e conquistar a aceitação do público com sua excentricidade e ousadia. Este artigo pretende analisar - baseando-se nos estudos históricos e literários desse movimento e nas propriedades conferidas ao cômico - as facetas que o humor tomou no processo de reconhecimento público e intelectual desse curioso grupo. Palavras-chave: Comunicação, estratégia, publicidade, humor, Padaria Espiritual.

1

Artigo apresentado no VIII INTERCOM NORDESTE.


QUESTÕES PRELIMINARES Este artigo procura, a partir da observação do grupo literário chamado Padaria Espiritual, movimento dotado de um humor peculiar à sua época, compreender alguns dos aspectos relacionados à agremiação que possivelmente não constariam em estudos literários ou históricos. Como território de análise, tomamos os aspectos decorrentes da presença do humor no seio do movimento. Diversos estudos se ocuparam em entender o que representou de fato essa agremiação, dentre eles merecem destaque os de Sânzio de Azevedo, Gleudson Passos e José Ramos Tinhorão. Visando expandir as possibilidades de compreensão do assunto, esse artigo, sob a ótica da comunicação e dos estudiosos sobre o fenômeno humorístico, analisa a parcela de contribuição dessa forma de expressão chamada humor para o êxito do movimento. Inicialmente, porém, precisamos informar o leitor sobre o assunto específico do qual estamos tratando, apresentando a Padaria Espiritual. Com essa noção já adquirida, esboçaremos, então, um breve panorama da época em que nasceu o movimento, assim como aprofundaremos um pouco mais suas características peculiares. Só após esses momentos, é que abordaremos diretamente o papel do humor na agremiação, observando atentamente as cores que ele toma. PADARIA ESPIRITUAL: O MOVIMENTO O século XIX se despedia em nosso País com a instituição do regime republicano e a chegada das novas relações sociais trazidas pelo avanço dos valores capitalistas, conjuntura que pretendia remodelar a realidade social ao novo pensamento, visando a tornar ainda mais concreto o plano de desenvolvimento do capitalismo.

134

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


A Padaria Espiritual - que não é um estabelecimento onde se compra pães, tampouco um centro espírita com sede no mesmo estabelecimento comercial - consistia em uma agremiação literária, um grupo bastante irreverente de talentosos jovens letrados de classe média com um bom repertório de leituras e conhecimentos artísticos e literários. Tais instrumentos intelectuais os dotaram de considerável senso crítico, cuja utilização, acompanhada de um ácido senso de humor nada convencional, não tardou a aparecer. Em pouco tempo, ficaram conhecidos por suas excentricidades e críticas a diversos setores da província. Todos exaustos da pacata Fortaleza, os padeiros - escritores, músicos e pintores - lançaram a máxima de fornecer “pão de espírito” aos que estivessem famintos por idéias. Obviamente essa era uma metáfora bem humorada e, ao mesmo tempo, uma forma de esclarecer o interesse do movimento em contribuir para uma maior capacidade de reflexão da sociedade, levantando o debate intelectual na província. Na Padaria, as funções estavam dividas em um Padeiro-mor, o presidente; dois Forneiros, os secretários; um Gaveta, o tesoureiro; um Guarda-Livros, o bibliotecário; um Investigador das coisas e das Gentes, ou o O Olho da Previdência, que era o responsável por colher informações do dia-a-dia. Os membros em geral eram os amassadores, que trabalhariam a massa (idéias), oferecendo, aos que se interessassem, o “pão de espírito”. Antônio Sales dividiu a Padaria em duas fases: a primeira, cheia de espírito, timbrando acima de tudo pela pilhéria, era a época em que, da sacada do segundo prédio que serviu de sede ao grêmio, um dos ‘padeiros’, de barbas postiças, fazia conferência para o povo na rua, tempos em que o Mané Côco embandeirava o Café Java, distribuía aluá aos fregueses, e soltava um imenso balão com o letreiro ‘Padaria Espiritual’ (...) a segunda, a partir de 1894 (...) menos boêmia,

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

135


mas nem por isso alheia às brincadeiras e às anedotas, caracterizou-se por maior seriedade nos trabalhos e sobretudo pela publicação de quase todos os livros da sociedade. (AZEVEDO, 1996, p.76) Como AZEVEDO (1996) nos fala, a primeira fase foi marcada pela despreocupação, em que os membros do grêmio abusavam da extravagância e boemia. Este foi o momento em que se fez o possível para atacar de forma irreverente, ao passo que a segunda fase, de 1894 até o fim da agremiação, representava o momento mais sério da existência do grupo. O órgão oficial da Padaria Espiritual era o jornal “O Pão”, prometido no artigo 35 do Programa de Instalação. O “ HUMOR ESTRATÉGICO” DA PADARIA Talvani Lange, professor da Universidade Metodista de São Paulo, estudioso do humor no âmbito da publicidade, aponta que “em nossa sociedade competitiva, em que até mesmo o tratamento dado à informação possui reflexos da concorrência acirrada, procuram-se maneiras de estabelecer mecanismos publicitários capazes de seduzir o receptor diante do caos informacional em que vivemos. Tal engrenagem é enfocada, assim, para cativar o consumidor através dos aspectos emotivos e psicológicos que ofereçam prazer no ‘consumo’ dos anúncios publicitários” (LANGE, www2.usp.br ). De certa forma, podemos relacionar o que Lange investiga com aquilo que investigamos, posto que é possível encontrar determinada similaridade entre o humor que estimula o consumo dos anúncios publicitários” e o humor da agremiação de que tratamos, na medida em que ela estimulou e despertou o interesse da sociedade, através de suas pilhérias e de seu comportamento. Ambas as instâncias são marcadas pela tentativa de fisgar o público a partir dos artifícios de atração do humor.

136

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Cabe, neste momento, diferenciarmos os dois tipos de “humor estratégico” que agora já se delineiam. Despertar o interesse, atrair a atenção, causar empatia são características gerais do humor que seduz, o “humor estratégico”. No caso da Padaria, essas duas formas foram utilizadas de modo parecido, apesar de se distinguirem quanto à finalidade. Identificamos um “humor estratégico-promocional” e o “humor estratégico-crítico”. O “humor estratégico-promocional” se aproxima em alguns aspectos de um “marketing empático” promovido pela Padaria, no sentido de que tenha sido também uma estratégia que adotou o humor como forma de causar determinada empatia no público, com vistas a facilitar um contato com este. A Padaria, com seu Estatuto cheio de gracejos, caracterizada pelo comportamento irreverente e despreocupado de seus membros, não demorou a “utilizar a emoção e o humor para atingir um grande número de pessoas” (LANGE, www2.usp.br ). O autor observa essa capacidade magnética contida no humor, conferindo-lhe a propriedade de “desarmar”. Por um lado, tem-se um mundo sufocado de produtos e imagens em um ritmo acelerado, onde se necessita de um diferencial; por outro, tem-se um grupo de jovens que planeja sacudir o meio intelectual e artístico, também em busca de demonstrar originalidade em suas manifestações. Tendo em vista os aspectos levantados, é possível considerar que um movimento como o que foi a Padaria Espiritual era dotado de uma parcela de caráter publicitário. Antônio Sales foi o padeiro que mais se preocupou com a publicidade do grupo, a divulgar O Pão, distribuindo números do periódico com o inusitado programa, a emitir homenagens e estabelecer contato da Padaria com os escritores mais

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

137


conhecidos da Capital Federal. Essa publicidade do grêmio, que serviu em grande medida pra imortalizar a agremiação na historiografia literária brasileira, contribuía para tornar Antônio Sales reconhecido na imprensa do Rio (CARDOSO, 2002, p. 51). No padeiro, verificamos uma tendência que aproxima as características identificadas na utilização do humor pela Padaria a um tipo de estratégia publicitária. Obviamente não podemos falar aqui de um “marketing” propriamente dito, visto que seu conceito só começou a se popularizar nos Estados Unidos dos anos vinte. Todavia, as bases do marketing se encontram diluídas nas idéias dos “grandes economistas ingleses dos séculos XIII e XIX, contemporâneos da Primeira Revolução Industrial” (GRACIOSO, 1998, p. 10). O que pretendemos neste ponto é demonstrar que é possível uma aproximação do que foi feito por Antônio Sales e pela Padaria - tanto no âmbito da divulgação do jornal e da agremiação quanto na conhecida irreverência dos integrantes do grêmio - com os princípios do marketing e da publicidade. Interessante é perceber a mobilização de Antônio Sales e dos demais padeiros em torno do objetivo de fazer com que o lançamento do Programa de Instalação da Padaria Espiritual e conseqüentemente do próprio grêmio fosse bem-sucedido, no sentido de que se tornasse uma novidade excitante. A idéia do Estatuto de Instalação, torna possível uma aproximação das ações dos padeiros, reservando-se aqui algumas limitações, com a esfera do marketing, em vias do lançamento de um novo produto: “Nem é preciso dizer que jamais outra associação cultural apresentou um programa de instalação com tanto humor (...) Daí o estrondoso êxito do grêmio cearense” (AZEVEDO, 1996, p. 65). É válido observar que não estamos refutando a faculdade mediúnica dos padeiros de serem alegremente embalados pelo “espírito boêmio”,

138

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


mas afirmando que a absoluta espontaneidade de seu humor é questionável, assim como chamamos atenção para a evidente preocupação da agremiação em divulgar seus feitos extravagantes. Por este motivo é tão difícil afirmar categoricamente que a Padaria Espiritual se utilizou do poder de penetração do humor para se promover e se destacar. Não podemos afirmar isso e descartar a idéia de que os padeiros eram conscientes da atmosfera apaziguadora e lúdica provocada pelo humor e, por isso, tenham enveredado por ele a fim de despertar e resgatar a criticidade adormecida na população leiga. Devemos, portanto, passar ao outro tipo de humor. Esclarecemos o “poder de penetração” do humor, ao que chamamos de “humor estratégico”, assim como falamos do humor que se utiliza desse mesmo poder para fins de divulgação, ao que demos o nome de “humor estratégico-promocional”. Definiremos agora aquele tipo de humor que, através da capacidade de penetração, tanto abre uma ponte de diálogo com os desinteressados em assuntos intelectuais, quanto é responsável por corrosivas críticas à sociedade. A este, atribuímos o nome “humor estratégico-crítico”, caracterizado pelo ataque a estruturas de dominação, por muita pilhéria, pela rejeição a comportamentos enquadrados na norma e pelo despertar da atenção. Este humor teria um distanciamento em relação àquela essência cômica medieval, descrita por Bakhtin em Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento (1976), que cuspia na lógica e queria repensar o mundo a partir da desestruturação das suas bases falhas. Lipovetsky(1983), por sua vez, entende o humor, como o filhos conformado do riso, encaixotados em seguros recipientes não prejudiciais à saúde do organismo vigente. Esse riso contemporâneo não é mais transgressor, ativo, modificador ou impiedoso como o da Idade Média,

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

139


mas é calmo e leve. Nessa perspectiva, a Padaria teria, sim, contribuído para a contestação de valores e para o aprimoramento intelectual de sua época, mas seria em nome de outro quadro de valores nos quais se acreditava. Apesar disso, no paulatino “abrandamento de costumes” descrito por Lipovetsky(1983), em que se inclui o humor, processo gradativo que se iniciou desde o fim da Idade Média, a Padaria pode ter representado um humor ainda preocupado em assanhar alguns cabelos bem penteados. Josimey Costa da Silva entende que o humor sedutor também atrai o interesse para questões que conscientizam para discussões e idéias, que, tratados geralmente sob uma atmosfera rude e excessivamente séria, dificultam um primeiro contato. Em seu artigo Um Humor Nada Objetivo e um Jornalismo Muito Sério, acrescenta que “quando se ri sem se saber por quê, corre-se o risco de, excluindo o elemento intelectual do ato de rir, impossibilitar a leitura do seu potencial crítico e ignorar qualquer nível de consciência que nele esteja contido. Em outras palavras, ao se privilegiar o emocional incluso no riso, escamoteia-se o seu potencial crítico e se reduz a sua importância” (SILVA, 2002, p. 122). Inserido em um contexto comunicacional, podemos destacar o humor não como mero agente alavancador de atenção ou como uma simples representação banal de algo (às vezes o é, de fato), que pôde ser percebido pelo talento ou pela sensibilidade. Seria, sim, um artifício de aceitação e manipulação - politicamente correta, talvez - ,com o objetivo de tornar o assunto de certa forma mais atraente, abrandando a rejeição do público. A Padaria Espiritual, que supomos, em certa medida, consciente desse pontecial, e cujo exame revelou considerável aproximação com as classes subalternas, perspicazmente adotou as

140

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


faculdades do humor estratégico de caráter crítico. Defendemos essa afirmação haja vista os efeitos no campo magnético sob o qual o humor atua. Nesse campo, as idéias pré-concebidas se enfraquecem, inexistem formalidade e repreensão, ao passo que as esferas do novo e do diferente são impulsionadas pela atmosfera livre e aparentemente despreocupada que paira. HUMOR ESTRATÉGICO-PROMOCIONAL x HUMOR ESTRATÉGICOCRÍTICO De certa forma, podemos afirmar que o humor, considerando as idéias aqui discutidas, representa um recurso a que os padeiros recorreram para conquistar visibilidade e cultivar a imagem de intelectuais dotados de uma fina ironia, assim como para alfinetar o conservadorismo sepultado e sério que regia a harmonia vesga dos fatos. No nosso caso específico de dedicação à compreensão do humor na Padaria, não se pode constatar um evidente divórcio entre aquele que seria o “humor estratégico-promocional” e o “humor estratégicocrítico”. Afirmamos isto tendo em vista que em ambos os casos existe determinada estratégia de conquista e empatia pautada pela atmosfera humorística, seja ela para abrandar um discurso crítico, tornando-o mais atraente e inteligível; seja para, por meio da mesma estratégia, conquistar popularidade, visibilidade e a empatia, destacando-se frente aos demais. CONSIDERAÇÕES FINAIS Empenhamo-nos em nos aproximar do objetivo de compreender de que maneira a Padaria Espiritual se utilizou do humor. Durante a pesquisa, algumas idéias principais emergiram e tomaram uma forma

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

141


mais nítida, constituindo nosso local de chegada. Verificamos, de um lado, indícios de mecanismos de caráter promocional no conjunto de ações da Padaria. Valemo-nos, para tal, de uma observação centrada na figura de Antônio Sales e nos novos ângulos de observação que o lançamento do seu Programa de Instalação nos proporcionou. Identificamos, por outro lado, também as vantagens de se tratar um conteúdo sério dentro de uma atmosfera humorística, considerando tanto sua facilidade de aproximação com o público quanto seu potencial transgressor. Assim, entendemos que estes dois tipos de “orientações humorísticas” que percebemos se encontram e se entrelaçam, mas não se confundem. Ambos compõem um mesmo conjunto, mas têm características diferentes, assim como conservam sua individualidade. As duas expressões estão inseridas na esfera do humor estratégico, como já foi dito, mas não há qualquer espécie de relação hierárquica entre elas. A discussão parece ser bem mais profunda, sem dúvida. Se analisada por outros ângulos, certamente se tornará ainda mais clara. Inviável, senão impossível, é oferecer respostas lapidadas e reluzentes frente a um tema como o humor, repleto de poeira teórica e densas contradições. Mais complexo ainda é satisfazer todos os campos de conhecimento de cujas idéias nos valemos, como o campo da Filosofia, da História, da Literatura, da Comunicação e da Publicidade. Desta forma, são inúmeras as possibilidades de abordagem que se podem desenvolver em relação a este assunto tão rico, com base em diferentes pontos de partida.

142

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Referências bibliográficas: AZEVEDO, Sânzio de. A Padaria Espiritual e o Simbolismo no Ceará. 2ª Edição. Fortaleza: Casa de José de Alencar Programa Editorial, 1996. BAKHTIN, Mikhaïl. Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo: Hucitec. Brasília: Editora UNB, 1976. CARDOSO, Gleudson Passos. Padaria Espiritual: biscoito fino e travoso. Fortaleza: Museu do Ceará/Secretaria da Cultura e do Desporto, 2002. (Coleção Outras Histórias – 8) GRACIOSO, Francisco. 4ª Edição. Marketing. São Paulo: Coleção Contato Imediato, 1998. LANGE, Talvani. O humor na publicidade comparativa. Disponível em: <http://www2.usp.br/portugues/uspfacil/buscausp/ frame.busca.lateral.php?fields=q&num=20&q=Talvani+Lange>. Acesso em 19 fevereiro 2005. LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio. Lisboa: Antropos/Relógio D’Água Editores Ltda, 1983. SILVA, Josimey Costa da. O humor nada objetivo e um jornalismo muito sério. Revista Communicare. São Paulo, v. 2, n. 2, p. 117-124, 2º sem. 2002. TINHORÃO, José Ramos. A província e o Naturalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

143


144

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista IndependĂŞncia


Ano 1, nº 0, Outubro de 2006

Revista Independência

Título

12

História Empresarial Vivida Autor Juarez Duarte Bomfim Professor da Faculdade Dois de Julho. Mestre em Administração pela UFBA E-mail: juarezbomfim@uol.com.br

Resumo Este artigo visa a apresentação de uma atividade acadêmica desenvolvida com alunos de Administração em Gerência de Negócios, na forma de trabalho de pesquisa, utilizando-se a metodologia de estudo de caso / história de vida, através de entrevista com um empreendedor de sucesso. No depoimento do empreendedor são tratadas questões relacionadas à sua origem, o surgimento da empresa, conceito de si, o trabalho como empreendedor, energia, relações, liderança, criatividade e imaginação. Ao final do artigo, percebemos que na fala desse ator social são encontradas as características de alguém com espírito empreendedor. Porém, o que esse depoimento traz de original, típico e exclusivo é a singularidade da sua própria história de vida, onde nos é transmitido lições e “dicas”, que se tornam conselhos úteis a todos aqueles que aspiram à condição de empreendedor ou desejam se manter no seu negócio. Palavras-chave: Empreendedorismo, estudo de caso, entrevista com empreendedor.


Introdução A pesquisa acadêmica sobre empreendedorismo é relativamente recente e está ligada à grande importância que as pequenas empresas exercem na atividade econômica nacional e global. Representando aproximadamente, conforme dados do SEBRAE, 90% do total das empresas, 75% da mão-de-obra ocupada e contribuindo com 70% do valor bruto do produto industrial e 35% do PIB1, dá-se para medir a dimensão de tal setor empresarial. O empreendedorismo, não sendo (ainda) uma ciência social, estando no campo de estudos da Administração, enquanto ramo de conhecimento vive uma fase pré-paradigmática, já que não existem padrões definitivos, princípios gerais ou fundamentos que possam assegurar de maneira cabal o conhecimento na área. A perguntas como “é possível ensinar alguém a ser empreendedor?”; “Quais as características determinantes no empreendedor de sucesso?”2 não existem respostas definitivas e os estudiosos da matéria ficam sempre com um que de desconfiança sobre as respostas provisórias. Essas dificuldades são vividas / vivenciadas em sala de aula nas disciplinas de empreendedorismo. Empreendedorismo é uma livre tradução que se faz da palavra de origem francesa entrepreneurship e pode ser definida como atividade daquele indivíduo que assume riscos e começa algo novo3. O empreendedor ( entrepreneur) já foi considerado o agente responsável pela transformação e desenvolvimento econômico (Schumpeter); pessoas possuidoras de elevada motivação, que preferem executar tarefas difíceis e não rotineiras e assumem responsabilidades pessoais pelo seu trabalho (McClelland); um tomador de riscos (Peter

146

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Drucker); e uma pessoa que imagina, desenvolve e realiza visões (Filion) 4. Ele, o empreendedor, é quem tem e namora a idéia do negócio, implementa e acompanha até adquirir vida própria. Identifica-se emocionalmente com a empresa, concentrando a sua atenção nas fases iniciais do empreendimento5. Diferencia-se do empresário, que se preocupa mais com a segunda fase do ciclo de vida de uma empresa – a sobrevivência e o crescimento. Sendo os dois maiores responsáveis pela criação, desenvolvimento, consolidação, sucesso ou insucesso das empresas, o empreendedor e o empresário se completam. Percebe-se, no entanto, que a partir de determinado ponto o empresário “cresce” mais do que o empreendedor. O empreendedor é um homem de muita iniciativa, personalidade agressiva, eterno farejador de oportunidades, fazedor de negócios e muito trabalhador, porque tudo gira em torno dele. Ele faz e gosta de fazer tudo sozinho6. O empresário tem outras características, mesmo carregando dentro de si a chama do empreendedor. No empresário, conforme Aquino 7, destaca-se sua motivação e capacidade para “crescer” e se “desenvolver”, conduzir profissionalmente a administração dos seus negócios e dotar suas empresas de uma estrutura organizacional, inclusive a administração profissional, como meio de perpetuar o seu sucesso, libertando-se da condição convencional de “dono”. Enquanto que o empreendedor, por mais notável que seja, jamais poderá se responsabilizar, eternamente, pela perpetuidade do seu empreendimento8. Feita essa ressalva, e esses papéis – de empreendedor e empresário - não sendo impermeáveis, pois o empreendedor pode tornarse empresário e vice-versa, nessa comunicação não faremos distinção

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

147


de um e outro. Sendo as qualidades pessoais do empreendedor mais enfatizadas do que coisas como o conhecimento do ramo, ou do processo em si, um dos campos centrais da pesquisa na área do empreendedorismo concentra-se no estudo de ser humano e dos comportamentos que podem conduzir ao sucesso, sendo o restante (tecnologia, ferramentas gerenciais...) visto como uma conseqüência do processo de aprendizado de alguém capaz de atitudes definidoras de novos contextos – o empreendedor9. História Empresarial Vivida Entre os anos 1980-90, na Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo ( FEA/USP), o prof. Cleber Aquino organizou um programa acadêmico denominado de “História Empresarial Vivida”, baseado em depoimentos de empreendedores e empresários brasileiros onde, usando a metodologia de estudo de caso / história de vida, visava proporcionar informações e lições de pioneiros e empresários de processos de gestão bem-sucedidos dentro do contexto brasileiro. Resumidamente, os objetivos perseguidos no programa eram de a) estabelecer um diálogo permanente e interação entre a classe empresarial e todos os públicos nacionais, especialmente o acadêmico; b) repassar a experiência empresarial e de negócios brasileira sobre a vida, a obra e o tempo dos vitoriosos homens de negócios, isto é, dos empreendedores, pioneiros e empresários; c) proporcionar aos estudiosos e interessados lições vividas de negócios e de gerência; d) despertar no estudante o espírito empresarial etc. Tudo isto através do “tempo” (pano de fundo histórico) e do “contexto” (pano de fundo cultural e ambiental) dos empreendedores e empresários brasileiros ou atuantes no Brasil10.

148

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Lecionando a disciplina Lógica do empreendedor para o curso de Administração com habilitação em Gerência de Negócios, este autor sentiu a necessidade e anteviu a oportunidade de usando uma metodologia própria, desenvolver com os seus alunos uma atividade acadêmica que suscitasse nestes a vocação para a pesquisa, juntamente com o aprendizado, em trabalho de campo, de experiências empreendedoras, através de coleta de informações, na forma de entrevista estruturada, de depoimentos de pessoas que assumiram o desafio de “abrir o seu próprio negócio” e “mudar de vida”. Acreditamos que, para estudantes de Administração que aspiram à condição de futuros gestores e empreendedores, um trabalho desse tipo (a entrevista) surge como forma de preparação para a ação real, porque através dele se pode ter um discernimento mais profundo das razões, estratégias, abordagens e motivações do empreendedor para iniciar ou manter um negócio. O entrevistado, com o seu exemplo pessoal, transmite informações e “dicas” sobre o mundo dos negócios, com a sensibilidade e intuição de quem está no “front”. A metodologia escolhida foi a seguinte: uma vez identificado um empreendedor, escolhido como informante pelo critério amostral de acessibilidade-tipicidade, o aluno deveria realizar uma entrevista com o mesmo, a ser apresentada na forma de relatório de pesquisa. O método de procedimento praticado foi de estudo de caso / história de vida, não sendo feita a distinção entre história de vida completa ou focada, uma vez que o roteiro da entrevista já direcionava para os objetivos. A estrutura da entrevista sugerida contempla blocos de perguntas que consideram questões relacionadas à origem do empreendedor, surgimento da empresa, conceito de si, visão do empreendedor, o trabalho

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

149


como empreendedor, energia, relações, liderança, criatividade e imaginação11. Os resultados têm sido considerados positivos tanto pelo produto em si, como pela experiência adquirida pelos alunos com esta atividade investigativa e inovadora, inclusive como forma criativa de avaliação discente. Para exemplificar esta afirmação, apresentaremos uma entrevista com um empreendedor, realizada pelo estudante José Adauto Ribeiro, do sexto semestre de Administração com habilitação em Gerência de Negócios, sob orientação do professor Juarez Duarte Bomfim, em 2004.1. A entrevistada foi a senhora Helena Torres, proprietária do Empreendimento: Serve Saúde Cozinha Industrial, localizado na cidade de Campinas, estado de São Paulo. A ENTREVISTA José Adauto - Existe algum empresário em sua família? Helena Torres - Não. Eu sou a pioneira. J. A. - Tem alguém como modelo? Helena Torres - O modelo que tenho são o caráter e honestidade de meus pais e a força e a coragem de minha mãe, uma mulher que sempre encarou a vida positivamente e nunca a vi de baixo astral. J. A. - O que os seus pais fazem? Helena Torres - São professores aposentados. Dedicaram suas vidas a essa profissão tão nobre e tão mal compreendida no Brasil, mas minha mãe nunca reclamou.

150

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


J. A. - Você poderia falar um pouco sobre a sua formação? Helena Torres - Formei-me em pedagogia por influência de meus pais, mas nunca exerci minha profissão. Casei logo após me formar. Meu marido, em razão de seu trabalho, nunca ficava mais de três anos em uma cidade. Isso tornou inviável uma carreira profissional. J. A. - Foi boa aluna? Gostava de estudar? Como você aprende mais? Helena Torres - Sempre fui boa aluna e gostava de estudar, afinal tinha dois professores em casa. O que era um privilégio. Freqüento palestras e cursos, mas tenho aprendido mais sozinha, com leituras. Aliás, quando estamos lendo, nunca estamos sozinhos. No mínimo estamos conversando em silêncio com o autor. J. A. - Como você se vê como pessoa? Helena Torres - Eu me vejo como uma pessoa que teve a felicidade de ter uma educação familiar extremamente correta, que me ensinou a ser ética, a respeitar as pessoas, a respeitar compromissos. E o que é mais importante, minha família sempre me deu muita liberdade. Com a liberdade eles me ensinaram a ser responsável. J. A. - Quais, na sua opinião, são as suas características pessoas mais importantes para sua empresa? Helena Torres - Não sou um pessoa castradora, controladora das ações das pessoas. Além disso, sou muito comunicativa, tenho muitos amigos e muita disposição para o trabalho. J. A. - Como surgiu a idéia de ser empreendedora? Helena Torres - Sempre cozinhei muito bem. As pessoas elogiavam muito.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

151


Já fui arrendatária de um pequeno bar dentro de um clube. Lá dentro eu não tinha concorrentes. Isso facilitava minha vida. Mas durou pouco tempo. Meu marido foi transferido para outra cidade. Já aposentado, morando em Campinas, ao lado de uma praça onde tinha aproximadamente 60 camelôs, surgiu a idéia de fazer marmitex para vender para este público. J. A. - Como sua empresa começou? Helena Torres - Dirigi meu negócio inicialmente para os camelôs, que trabalhavam ao lado de minha casa. No primeiro dia ofereci 10 marmitex gratuitamente para os camelôs, deixei um panfleto de propaganda do produto e informei que a partir do dia seguinte estaria vendendo de segunda a sábado. No dia seguinte vendi 15 marmitex. Com aquela pequena vitória fiquei muito feliz. Foi um bom começo. J. A. - Você pensou sobre isso por muito tempo, antes de realmente começar o negócio? Já havia considerado a possibilidade de abrir um negócio como uma opção de vida? Helena Torres - Sempre tive este sonho e acalantei por muito tempo. Até que surgiu a oportunidade ideal. Sempre pensei em abrir um negócio, mas as freqüentes transferências, sempre me obrigaram a adiar meu sonho. Quando meu marido se aposentou, senti que tinha chegado a hora de agir mais decisivamente. J. A. - Conte-nos sobre seus primeiros tempos. Helena Torres - Os primeiros tempos foram difíceis. Eu comecei sozinha, preparando o cardápio, comprando os ingredientes, preparando os alimentos e vendendo. Era uma equipe de uma pessoa só. Era cansativo,

152

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


mas era também realizador e gratificante. Se tivesse que recomeçar, faria tudo de novo. Logo em seguida comecei a receber a ajuda de meu filho André e depois de meu outro filho formado em nutrição, Alexandre. J. A. - Como você identifica oportunidades? Helena Torres - A primeira oportunidade que identifiquei, ela estava na minha frente, quase caiu na minha cabeça. Havia 60 camelôs que trabalhavam na praça ao lado e não havia um restaurante mais próximo que a minha casa. Antes, os camelôs ou traziam marmita de casa ou almoçavam nos bares locais sem adequada condição de higiene. Depois com a pequena cozinha industrial já instalada em um endereço próprio, quase todo fim de semana andava pela cidade vendo se tinha um canteiro de construção civil iniciando uma obra nova. Toda minha família também ficava atenta para estas oportunidades. Pois elegemos como nosso público alvo os operários da construção civil. O motivo desta escolha é que este público não interessava para as grandes cozinhas industriais. Hoje o nosso público está mais diversificado. J. A. - Como você aprende hoje? Tem um método próprio? Helena Torres - Sempre que posso faço um cursos no SEBRAE, vou a palestras dirigidas ao pequeno empresário e todo ano vou a uma feira de cozinha industrial, em São Paulo, ver as novidades. Tenho vários amigos que são donos de outras cozinhas industriais, sempre faço visitas a eles para trocar idéias e informações. Temos um relacionamento muito cordial.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

153


J. A. - Tem um sistema para solução de problema? Helena Torres - Meu método, se é que se pode chamar de método, é matar o problema na hora. Não gosto de postergar a solução. O problema que não é resolvido na hora corre o risco de se multiplicar em outros problemas ou aumentar de tamanho. E pode virar um monstro. Se eu tenho um problema hoje não deixo para reunir amanhã ou pensar em sua solução depois. São pouquíssimos problemas que você não possa resolver na hora ou deixar bem encaminhado sua solução. Se você não fizer isso, será soterrado por problemas. J. A. - Como lida com o fracasso? Helena Torres - Na vida há dois tipos de pessoas: há o que, quando leva um golpe da vida, se fecha, abaixa a cabeça e se encolhe como se estivesse se protegendo para não ser golpeada de novo. E aí fica mais frágil e vulnerável. E há outro que, quando recebe um golpe da vida, levanta a cabeça e parte com força redobrada para o contra-ataque como quem tenta virar o jogo. A queda serve de alavanca, como um estímulo, como um ponto de inflexão para uma virada, uma mudança, uma transformação. E essa transformação nada mais é do que o aprendizado com o fracasso. Meus pais me disseram certa vez, quando fui reprovada no vestibular, que o fracasso é uma oportunidade de aprendizado e de crescimento. Esta é uma maneira positiva que meus pais me ensinaram de ver o fracasso. É importante que a gente não internalize a negatividade do fracasso. Agora, só aprenderá e crescerá com o fracasso quem souber aproveitar essa oportunidade. J. A. - Qual é o seu trabalho na empresa? Helena Torres - Eu controlo a compra junto aos fornecedores e gerencio o serviço de cozinha.

154

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


J. A. - Quais são as áreas onde você gosta de se concentrar? Helena Torres - As duas áreas sensíveis em meu negócio são a qualidade e preço dos ingredientes e o padrão das refeições. Por isso, me envolvo mais intensamente com esses dois setores. Até porque são minhas especialidades. O meu filho, que é formado em nutrição, dá suporte técnico com relação à manipulação, estocagem e preparo dos alimentos. J. A. - Você se envolve com a rotina, com as operações do dia-a-dia? Você tem quantas pessoas que se reportam a você? Você delega? Helena Torres - Nossa empresa é relativamente pequena. Além de gerenciar e investir, temos que botar a mão na massa. Eu vou diariamente ao Ceasa e a outros fornecedores e escolho pessoalmente os ingredientes. A qualidade final depende da qualidade dos ingredientes. Uma boa refeição envolve estética, sabor, aroma e, principalmente, saúde. Higiene e limpeza são uma obsessão em nossa empresa. Cobro higiene dos meus fornecedores também. Estou sempre na cozinha acompanhando o processo de manipulação e estocagem dos alimentos. Disso, nós não abrimos mão. Vendemos higiene, limpeza, saúde e prazer alimentar. Porque uma refeição deve ser também um ato de prazer. Nossos clientes esperam tudo isso de nós. Quando não pudermos atendê-los, buscarão outros fornecedores. Como a empresa é pequena, nós temos uma comunicação constante. Um de meus filhos cuida das vendas, o outro da administração e eu da produção das refeições. Temos também uma equipe de cinco cozinheiras e ajudantes e um motorista. No atual estágio em que estamos, com vendas de 1.200 refeições por dia, não há tanta necessidade de delegação, mas mesmo assim procuro estimular minhas companheiras de trabalho a serem mais autônomas.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

155


J. A. - Você tem parceiros no negócio? Helena Torres - Nós temos uma relação muito construtiva com nossos fornecedores e clientes, por isso considero-os meus parceiros. J. A. - Como é que você obtém informação sobre o que está acontecendo na empresa e como é que você controla as coisas? Helena Torres - Tem um ditado que diz: o olho do dono é que engorda o gado. Só que esse ditado serve apenas para empresas de pequeno porte. Não acontece nada na empresa que a gente não toma conhecimento. Fazemos uma reunião semanal com todos, às sextas-feiras, para avaliar como foi a semana. Todos tomam conhecimento como está indo o negócio. Inclusive as dificuldades. Dedicamos um tempo especial para reclamações e sugestões dos clientes. Outro grande controle é a contabilidade, principalmente os relatórios que recebemos. Nosso contador é excelente. Ele não se limita à rotina contábil. Seus relatórios são muito esclarecedores. J. A. - Qual o percentual de solução representado pela tecnologia do produto? Ou seja, a tecnologia do produto representa qual percentagem do sucesso da sua empresa? Helena Torres - Se você der uma mesma receita para dez pessoas fazerem um prato, ao final você terá 10 pratos diferentes. Nesse sentido, eu entendo que a tecnologia é fundamental em meu negócio. Pois o nosso modo de preparo é único. E para preservar essa tecnologia temos que estar atentos aos padrões. A batata frita tem que estar sempre sequinha, crocante e com o sabor agradável. Mas, para isso tem uma técnica precisa e que não pode ter variações, porque a expectativa de nossos clientes não muda. E, se muda, muda para exigir mais. Nunca menos.

156

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Juarez Duarte Bomfim

Revista Independência


J. A. - Quantas horas você trabalha por dia? Sábado e domingo? Helena Torres - Como só servimos o almoço, trabalho, em média, 10 horas por dia. Meus clientes não demandam nos finais de semana. Por isso, nos sábados e domingos, além de lazer e descanso, eu me dedico ao planejamento da semana seguinte. J. A. - Você tira férias? Helena Torres - Férias? O que é isso? Como antes eu era apenas donade-casa, nunca tirei férias. Agora sou dona-de-casa e empresária e continuo a não tirar férias. Mas não acho isso normal, considero uma deficiência. Preciso corrigir isso. J. A. - Você pensa em se aposentar? Helena Torres - A idéia de botar um pijama, ficar lendo em casa ou dando milho aos pombos na praça não me atrai. Gosto de estar produzindo e de ser útil sempre. J. A. - Qual a importância que você dá às relações internas e externas na empresa? Helena Torres - As relações são um meio de ligação entre o sonho e sua realização. É através de contatos e uma boa rede de relacionamentos que se chega a novos clientes, a novos fornecedores, a novas tecnologias. Enfim, é através dos relacionamentos que você fica conhecido, que tem acesso a pessoas importantes para o seu negócio e que fazem as coisas acontecerem. J. A. - E para você, qual a importância das relações externas? Quais contatos são mais importantes: fornecedores, clientes, pessoas influentes?

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

157


Helena Torres - Os clientes, garantia de nossa sobrevivência, podem se tornar nossos vendedores mais eficientes, na medida em que estiverem satisfeitos. E quando estão encantados com o atendimento que recebem, vendem sua marca e seus produtos de maneira muito mais entusiasmada e convincente. Os fornecedores são importantes, mas de alguma maneira a gente está no controle. Eles é que tem que nos manter satisfeitos. Já os nossos clientes são os nossos reis, a quem devemos reverenciar e encantar sempre. J. A. - Como você faz para que as pessoas realizem os seus sonhos? Helena Torres - O ideal seria perguntar para elas, mas acho que é o entusiasmo, o brilho nos olhos e o acreditar sempre. Ser positiva e otimista todos os dias. E você mostra que é verdadeiramente otimista e positivista quando as coisas não vão bem. Quando o cenário está ruim, quando as possibilidades de dar errado são maiores na visão dos outros. Acreditar mais no sucesso que no fracasso, procurar ver o lado bom das coisas, acreditar na capacidade das pessoas, procurar mais os acertos do que os erros. Elogiar os acertos e tolerar erros. Evitar ficar criticando previamente qualquer idéia, negando a possibilidade de sucesso. Tem pessoas que você convida para um piquenique e elas logo lembram das formigas. Então convida para ir a praia, aí levantam a possibilidade de chuva. Da mesma forma dizem, em uma reunião de trabalho, que a estratégia não vai dar certo, que o produto na terá aceitação do mercado ou que a idéia já foi tentada antes. São pessoas negadoras, que tem a cultura do não. O negativismo e o criticismo são doenças comportamentais que podem matar uma empresa, um projeto. Acreditar firmemente que hoje será melhor que ontem e que amanhã será melhor ainda. Este é meu mantra. Tanto o negativismo como o positivismo são contagiosos. Fuja das pessoas negativistas e espalhe otimismo por onde passar.

158

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


J. A. - Como você descreveria a si próprio como líder na sua companhia? Helena Torres - Sou uma pessoa entusiasta, otimista, procuro ser coerente e ética. Sou rigorosa no cumprimento de meus compromissos e procuro ter um relacionamento sem barreiras com meus colegas de trabalho. Faço questão de elogiar sempre que há superação. E também comemoramos todas as nossas vitórias. As grandes e as pequenas. J. A. - Você poderia explicar como a sua equipe se desenvolveu? Helena Torres - No principio comecei sozinha. Depois meus dois filhos começaram a me ajudar. Depois que estávamos vendendo quase 100 refeições/dia procuramos uma casa para instalar a cozinha industrial. Contratei cozinheiras e ajudantes que já conhecia seu trabalho e que tinha confiança. J. A. - Quais métodos você desenvolveu para encorajar as pessoais a serem mais criativas? Helena Torres - Quem trabalha em negócio de alimentação está sempre a procura de inovações, principalmente no cardápio. Como estímulo, todo mês a gente faz um concurso. Cada ajudante e cozinheira são desafiadas a preparar uma receita nova. Convidamos um grupo de clientes para almoçar na cozinha. Neste almoço há uma experimentação das receitas. O prato mais elogiado ganha um prêmio e passa a ser servido no mês seguinte com o nome da criadora. A gente notou que o fato de fazer parte do cardápio no mês seguinte, dando nome ao prato, é que dá mais realização e alegria ao funcionário do que o prêmio. Temos tido surpresas maravilhosas.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

159


J. A. - O que você diria que é diferente na maneira como você comanda seus negócios? Helena Torres - Em duas palavras: objetividade e simplicidade. J. A. - Para onde você direciona seus esforços ao comandar a empresa? Helena Torres - Para a cozinha, que é a área mais sensível de meu negócio. Higiene, limpeza, sabor e saúde. Hoje as pessoas estão preocupadas com obesidade, colesterol etc. A comida tem que, antes de tudo, ser saudável. J. A. - Você vê as coisas de forma diferente, mudou seu estilo de gerenciamento, desde que fundou sua empresa? Helena Torres - Sou mais cuidadosa com o controle de custos e com o capital de giro. Certa vez ouvi no Sebrae que o capital de giro é o oxigênio da empresa. Não há expressão mais certa. Quando você não tem capital de giro, toma empréstimo no banco. Aí precisa de mais capital de giro para pagar os juros do banco, entrando em uma espiral de endividamento rumo à insolvência e a falência. J. A. - O que lhe dá mais satisfação ao comandar uma empresa? Helena Torres - Ver a satisfação dos meus clientes quando nos elogiam e ver a alegria dos meus empregados quando temos uma vitória. J. A. - O que você pensa sobre o poder como um instrumento de comando? Helena Torres - Quando você precisa de poder para comandar então você não tem o verdadeiro poder. Outro dia li um livro que tinha a seguinte frase atribuída a Margarett Tatcher: “Ser líder é como ser uma dama, se você precisa dizer que é, então você não é”.

160

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


J. A. - O que você acha do erro? Como trata os colaboradores que erram? A sua empresa erra muito? Helena Torres - Como eu já disse o erro é uma oportunidade de aprendizado e crescimento. E o melhor dos erros é quando você erra porque foi ousado e corajoso. Significa que não é conformado com a mesmice. Nesse sentido, sou tolerante com os erros. Mas isso não significa empurrá-los para baixo do tapete e fingir que não foi percebido. Com relação à pergunta se minha empresa erra muito, a resposta é não. As que erram muito estão na estatística de mortalidade de empresas do IBGE. J. A. - O que é que lhe dá mais prazer no processo de empreender? O que é que a torna criativa? Helena Torres - É lidar com pessoas tanto interna quanto externamente. O que me torna mais criativa é estar de bem com a vida, com as pessoas e comigo mesma. J. A. - O quanto você diria que a imaginação é importante para o sucesso? Helena Torres - No meu ramo de negócio a criatividade e imaginação são fundamentais. Sou daqueles que um bom prato é sempre uma obra criativa, mesmo para uma pequena cozinha industrial como a minha. J. A. - O que é intuição para você? Qual a importância da intuição para o seu negócio? Helena Torres - Intuição para mim é decidir sem nenhum dado, evidência ou tendência consistente, mas no íntimo você se sente segura para seguir um caminho. Prefiro mais a razão à intuição.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

161


J. A. - Como você lida com a incerteza, ambigüidade? Helena Torres - Com certeza não sou conservadora com relação a riscos. Empresariar é a arte de correr riscos e gerenciar as incertezas. Quando você abre uma loja todas as manhãs, nada garante que entrarão clientes, muito menos que comprarão. No entanto, você abre a loja todos os dias. É exatamente o risco de não vender que faz com que muitas pessoas não abram lojas. Vendo desta forma, o risco na realidade se converte em oportunidade. Quem vê o risco apenas como uma ameaça, certamente não é empresário. J. A. - Qual o fator mais importante para o sucesso de sua empresa? Helena Torres - São alguns valores e princípios que cultivamos. Temos atenção permanente com a qualidade, estamos sempre buscando informações do mercado, temos um clima de trabalho muito favorável. Mas o principal fator é a cultura muito forte de valorização de nossos clientes. J. A. - Quais são as principais potencialidades e fraquezas de sua empresa? Helena Torres - Vou começar por nossas fraquezas. Nós não temos escala para competir com as grandes cozinhas. Outra fragilidade é a carência de capital para investimentos. Com a taxa de juros que está aí não vale a pena buscar recursos nos bancos. Além disso, não ha muito recurso para investimento. Há mais para capital de giro. Preferimos crescer devagar, mas com segurança. Por isso chegamos até recusar clientes de médio e grande porte. Nossa força é nossa equipe de trabalho, o diferencial de nosso produto é a imagem que temos junto aos nossos clientes. Nosso lema: se não podemos ser os maiores, seremos os melhores.

162

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Juarez Duarte Bomfim

Revista Independência


J. A. - Quais critérios você utiliza na seleção de pessoal? Helena Torres - O principal é conhecer as pessoas que você escolherá para fazer parte desta família. Só contrato pessoas conhecidas. É lógico que isso é possível porque somos uma equipe pequena. J. A. - Fale de seu sistema de gestão. Ele é baseado em alguma ideologia? Helena Torres - Nas decisões importantes a gente procura envolver todos. Decisões que exijam mais agilidade, decidimos eu e meu filho. No final das contas gerenciar é fazer escolhas e decidir. Quanto mais você decidir certo, melhor você gerencia. Não há um sistema formal propriamente dito. Mas com certeza, há um jeito de gerir que é só nosso, que decorre de nossos valores e princípios e está nas nossas condutas e comportamento gerenciais. J. A. - Você tem descrição escrita dos trabalhos e políticas da empresa? Helena Torres - Embora cada um saiba muito claramente o quer tem que fazer, não temos isso escrito no papel. Mas temos na consciência de cada um e de todos e isso é checado diariamente pelas nossas ações. Pois quando você deixa de fazer algo sempre alguém te lembra. J. A. - Você estabelece metas? Helena Torres - Nas nossas reunião gerais fixamos nossas metas de comum acordo com todos. Além de fixarmos metas de produção, vendas e de custos, fixamos principalmente metas de satisfação de nossos clientes. J. A. - Qual é a posição de mercado de seus produtos/serviços? Helena Torres - Nosso produto é diferenciado em relação à concorrência,

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência Juarez Duarte Bomfim

163


principalmente pela variedade, qualidade e sabor. Se entendermos que o atendimento faz parte do produto, então temos um diferencial. Nós vendemos 1.200 refeições/dia, nossos concorrentes produzem em média 12.000. Há quem atinja a faixa de 30.000. O fato de ter uma escala menor nos permite ter maior controle de todo o processo, agregar valores e diferenciais competitivos e cobrar por isso, fixando um preço um pouco maior para os nossos produtos. Só faz sentido agregar valor ao produto se os clientes estiverem dispostos a pagar por eles. A aceitação de nossos produtos tem sido tão boa que a nossa demanda tem crescido além de nossa capacidade de crescer. Nossa evasão de clientes tem sido quase nula. Temos sempre agregado novos clientes. J. A. - Quais argumentos você utiliza para persuadir os seus clientes a comprar seus produtos? Helena Torres - Em cinco palavras: ética, higiene, limpeza, saúde e sabor. J. A. - O que você diria a alguém que está pensando em iniciar um negócio? Helena Torres – Tudo começa com um sonho. Depois do sonho vem a informação: conheça profundamente o ramo e o negócio que você vai operar. Busque o máximo de informação sobre o público alvo, concorrência, fornecedores, legislação e o melhor ponto de venda. Visite vários negócios em funcionamento e procure identificar que diferenciais vai acrescentar à sua oferta. Só informação não basta, também é necessário emoção. Você precisa gostar ou ter paixão pelo que pretende fazer. Uma pessoa apaixonada pelo que faz não conhece limites ou barreiras. E ser empreendedor é superar obstáculos e gerenciar a

164

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


escassez. É preciso sonhar, sonhar grande para o futuro, mas na hora de realizar no presente procure evitar a megalomania. O ideal é começar pequeno para poder ter uma margem para corrigir os rumos, pois cada desvio de rota tem um custo. Todo início de negócio, por mais estudado e pensado que seja, é um experimento de alto risco. A máxima “não devemos colocar todos os ovos em uma única cesta”, é valida e útil para todo empreendedor. Conheço muita dona de loja de confecções que foram sacoleira antes. Enquanto vendiam para as amigas e de porta-em-porta, estavam testando e conhecendo o mercado. Também é fundamental cultivar a humildade e ser um eterno aprendiz, mantendo acesa a chama da curiosidade e da busca incessante pelo conhecimento. Por fim, é preciso ter um objetivo claro, manter o foco no negócio e ser otimista, positivista e acreditar no sucesso sempre. Quando mentalizamos intensamente o sucesso em nossa consciência, significa que ele já começou a existir. Essa é a base onde se assentam todas as vitórias. J. A. - Há algo mais que você gostaria de dizer que nós não abordamos? Helena Torres - Deus e a família são o canteiro onde florescem todas as nossas conquistas. Ninguém, absolutamente ninguém, vence só.

Conclusão Percebemos que na fala dos empreendedores, como da senhora Helena Torres, são encontradas as características gerais do indivíduo que além de ter o perfil de empreendedor, na sua história de vida demonstra essa vocação, com o seu exemplo prático. Comuns aos empreendedores são as características de ter gosto pelo desafio, ousadia, coragem para enfrentar riscos, ter prazer no trabalho, capacidade

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

165


gerencial, determinação, visão de futuro, visão global, talento no relacionamento com pessoas, habilidade com as comunicações, responsabilidade, persistência e muitos outros aspectos que podemos enumerar. O que então podemos encontrar de original, peculiar e único nos depoimentos como este que acabamos de apresentar? No que pese de semelhante nas respostas, em conseqüência da metodologia utilizada (entrevista estruturada), o que encontramos de típico, especial e exclusivo do depoente é a singularidade da sua própria história de vida, onde nos são transmitidas lições como: que sistema de gestão utiliza, processo de seleção e recrutamento, política de recursos humanos, captação de recursos, parcerias... e tudo o que foi narrado ao longo do texto. Chama a atenção também, em um exercício acadêmico como este, e isto é reconhecido pelos estudantes que desenvolvem tal atividade, que este é o momento de (no jargão deles) comparar a “teoria” com a “prática”, isto é, cotejar os paradigmas administrativos aprendidos no decorrer do curso com as atividades reais de gestão. Portanto, “dicas”, análise de conjuntura, como aproveitar as oportunidades, como lidar com o fracasso... se tornam conselhos úteis a todos aqueles que aspiram à condição de empreendedor ou desejam se manter no seu negócio. E o que verificamos de mais singular em uma conversação como esta, é a capacidade inovadora e a criatividade do empreendedor, já apontadas por Schumpeter na primeira metade do século anterior, e que permanece atual até os dias de hoje.

166

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Referências bibliográficas: ALBAGLI NETO, Isaac. A revolução do espírito empreendedor. O capital de risco na pequena empresa. Salvador: Bureau Gráfica e Editora, 1998. AQUINO, Cleber. História empresarial viv ida. Depoimentos de empresários brasileiros bem sucedidos. Volume V. São Paulo: Atlas, 1991. DOLABELA, Fernando. O segredo de Luíza. 14ª ed. São Paulo: Cultura Editores Associados, 1999. DORNELAS, José Carlos Assis. Empreendedorismo. Transformando idéias em negócios. Rio de Janeiro: Campus, 2001.

Notas: 1

ALBAGLI NETO, Isaac. A revolução do espírito empreendedor. O capital de risco na pequena empresa. Salvador: Bureau Gráfica e Editora, 1998, p.13. 2 DOLABELA, Fernando. O segredo de Luíza. 14ª ed. São Paulo: Cultura Editores Associados, 1999, p. 37. 3 DORNELAS, José Carlos Assis. Empreendedorismo. Transformando idéias em negócios. Rio de Janeiro: Campus, 2001, p. 27. 4 ALBAGLI NETO, 1988, p. 21-22; DOLABELA, 1999, passim. 5 ALBAGLI NETO, 1988, p. 19. 6 AQUINO, Cleber. História empresarial vivida. Depoimentos de empresários brasileiros bem sucedidos. Volume V. São Paulo: Atlas, 1991, p. 20-21. 7 Idem, p.22. 8 Id, ibid, p.22. 9 DOLABELA, 1999, p. 37. 10 AQUINO, op cit, p. 16-17. 11 Uma referência dada pelo professor para elaboração do roteiro de entrevista encontra-se em DOLABELA, Fernando. Op cit, p. 87-89.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

167


168

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista IndependĂŞncia


JULHO, indexada no ISSN, que tem como missão fomentar a produção e a disseminação do conhecimento das Humanidades. O público-alvo da REVISTA INDEPENDÊNCIA é composto por acadêmicos – professores, pesquisadores e estudantes – assim como todo público interessado em conteúdo de profundidade analítica na área de Humanidades. O principal requisito para publicação na REVISTA INDEPENDÊNCIA consiste em que o artigo represente, de fato, contribuição científica. O tema tratado deve ser relevante, ter linguagem clara e objetiva, instigar perspectivas provocativas e inovadoras, ter referencial teóricoconceitual, ser consistente, e conclusão clara e concisa. A REVISTA INDEPENDÊNCIA tem interesse na publicação de artigos de desenvolvimento teórico, trabalhos empíricos, ensaios e resenhas. A REVISTA INDEPENDÊNCIA está aberta a colaborações do Brasil e do exterior, sendo a pluralidade de abordagens e perspectivas incentivada. ENCAMINHAMENTO DE ARTIGOS Os artigos deverão conter, no máximo, 15 páginas e ser encaminhados para a Editoria com as seguintes características: Formatação:

NORMAS PARA PUBLICAÇÃO

A REVISTA INDEPENDÊNCIA é uma publicação da FACULDADE 2 DE

Folha: A4 Editor de texto: Word for Windows 6.0 ou posterior Margens: esquerda, direita, superior e inferior de 2 cm. Fonte: Times New Roman, tamanho 12. Parágrafo: espaçamento anterior: 0 pontos; posterior: 12 pontos; entre linhas: duplo; alinhamento à esquerda.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

169


NORMAS PARA PUBLICAÇÃO

Texto: a primeira página do artigo deve conter: Título, com, no máximo, oito palavras, em maiúsculas e negrito. Resumo em português, com cerca de 150 palavras, alinhamento à esquerda, contendo campo de estudo, objetivo, método, resultado e conclusões. Cinco palavras-chave, alinhamento à esquerda, em português. Resumo em inglês e/ou espanhol, com cerca de 150 palavras, alinhamento à esquerda, contendo campo de estudo, objetivo, método, resultado e conclusões. Cinco palavras-chave, alinhamento à esquerda, em inglês e/ou Espanhol. Em seguida, deve ser iniciado o texto do artigo. Referências: devem ser citadas no corpo do texto com indicação do sobrenome, ano e página de publicação. As referências bibliográficas completas deverão ser apresentadas em ordem alfabética no final do texto, de acordo com as normas da ABNT (NBR-6023). Notas: devem ser reduzidas ao mínimo necessário e apresentadas ao final do texto, numeradas seqüencialmente, antes das referências bibliográficas. Diagramas, quadros e tabelas: devem apresentar título e fonte e ser colocados ao final do texto, após as referências. Sua posição deve ser indicada no próprio texto e também deve constar referência a eles no corpo do artigo. Deve-se evitar que repitam informações contidas no texto. Informações complementares: em separado, o autor deverá enviar: Página 1: título do artigo; seguido da identificação do(s) autor(es) – nome completo, instituição a qual está ligado, cargo, endereço para correspondência, fone, fax e e-mail.

170

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


30 palavras. Os artigos podem ser enviados em português, inglês ou espanhol. Excepcionalmente, a critério do editor, serão aceitos artigos em outras línguas. Os artigos são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es). AVALIAÇÃO O processo de avaliação da REVISTA INDEPENDÊNCIA consta de duas etapas: ·

primeiro, uma avaliação preliminar pelo editor, que examina

a adequação do trabalho à linha editorial da revista; ·

segundo, revisão técnica pelo conselho editorial.

Os autores serão comunicados dos passos do processo por e-mail. Os avaliadores da REVISTA INDEPENDÊNCIA devem apresentar, quando necessário, além do parecer quanto à publicação, sugestões de melhoria quanto ao conteúdo e à forma, inclusive aos artigos não aceitos. RESENHAS A seção de resenhas tem como objetivo apresentar aos leitores os lançamentos nos campos da Administração, Comunicação Social e Direito, contribuindo, assim, para a disseminação dos referidos

NORMAS PARA PUBLICAÇÃO

Página 2: resumo indicando a contribuição do texto com cerca de

conhecimentos. As obras escolhidas para preparação das resenhas devem ser recentes e apresentar conteúdo inovador e consistente, de interesse para o público da REVISTA – INDEPENDÊNCIA. As resenhas devem conter, no máximo, cinco páginas e podem ser enviadas em dois formatos: Resenhas de um livro, analisando um lançamento, nacional ou estrangeiro, e resenhas múltiplas, analisando

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência

171


NORMAS PARA PUBLICAÇÃO 172

duas a cinco obras, com as mesmas características de formatação dos artigos. Os arquivos devem ser encaminhados para a Editoria da REVISTA INDEPENDÊNCIA, através do e-mail: revistaindependencia@f2j.edu.br.

Ano 1, n. 1, Fevereiro de 2007

Revista Independência


Revista Independência 2007