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Revista Científica da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda Vol. 01, N 01 DEZEMBRO 2016


TRAVESSIA. Olinda Faculdade de Ciências Humanas de Olinda: ed. 1999 - 2016. XVIII. Anual ISSN 1517-039X 1. Administração 2. Ciências Contábeis 3. Enfermagem 4. Letras 5. Pedagogia 6. Psicologia. CDU – 400 CDU – 801


Revista Científica da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda Vol. 01, N 01 DEZEMBRO 2016


EDITORAS Joelma G. dos Santos Cheng de Andrade (FACHO) Maria de Lourdes Dias de Araújo (FACHO)

EQUIPE TÉCNICA Joelma G. dos Santos Cheng de Andrade

EXPEDIENTE Diretora Geral: Profª. Ma. Ana Cristina Fonseca Diretora Executiva Acadêmica: Profª. Esp. Maria de Lourdes Dias de Araújo Diretora Executiva Administrativo Financeiro: Irmã Rita Maria Tavares Assessora da Direção: Profª. Ma. Ladjane de Fátima Caporal Procurador Institucional: Profº. Drº Frederico José Machado da Silva Coordenadora do ISE: Profª. Esp. Maria Luiza Maranhão Coordenador do Curso de Letras: Profº. Drº Frederico José Machado da Silva Coordenadora do Curso de Pedagogia: Profª. Ma. Jesica Barbosa Dantas Coordenadora do Curso de Psicologia: Profª. Ma. Verônica Carrazzone Coordenadora do Curso de Enfermagem: Profª. Ma. Patrícia Rejane Ribeiro Bispo Vice-coordenadora do Curso de Enfermagem e Coordenação do Estágio Curricular: Profª. Ma. Josicleide Maria Guedes Alcoforado Coordenador dos Cursos de Administração: Profº. Me. Itamar Bezerra de Souza Filho Coordenadora do Curso de Ciências Contábeis: Profª. Ma. Priscila Dantas Coordenadora da Clínica de Psicologia: Profª. Esp. Ana Izabel Corrêa Coordenadora do Núcleo de Pós-Graduação: Profª. Ma. Norma Pinheiro de Vasconcellos Coordenadora do Núcleo de Projetos Sociais: Profª. Esp. Maria da Penha Passos Coordenadora do Núcleo de Estudo e Pesquisa: Profª. Dra. Ana Paula Sampaio Feitosa Coordenadora Do Núcleo de Acessibilidade e Inclusão: Profa. Esp. Verônica Belfort e Profª. Ma. Mônica Vieira de Souza Núcleo de Empreendedorismo e Inovação: Profª Ma. Ladjane de Fátima Ramos Caporal Núcleo de Relações Étnico-Raciais e de Gênero: Profª. Dra. Suelany Christinny Ribeiro Mascena Secretária Acadêmica: Stéphane Diniz Maia Barreto Sampaio Bibliotecária: Emília Fernanda Borba Rocha Assistente Social: Kátia Neves Pimentel


CONSELHO EDITORIAL Amara Cristina Botelho (UPE – Brasil) Angela Maria Oliveira Santa-Clara (UFRPE – Brasil) Ana Bernarda Ludermir (UFPE – Brasil) Ana Cristina Emerenciano Fonsêca (FACHO – Brasil) Ana Izabel Correa (FACHO – Brasil Ana Paula Monteiro Ferreira Ximenes (FACHO – Brasil) Eraldo Batista (FACHO/ FBV DeVry – Brasil) Fabíola Mônica da Silva Gonçalves (UEPB – Brasil) Frederico José Machado da Silva (FACHO/ UFPE – Brasil) Glaucia Renata Pereira do Nascimento (UFPE – Brasil) Iaraci Fernandes Advincula (UNICAP – Brasil) Inocência Mata (Universidade de Lisboa – Portugal/ Universidade de Macau – China) Joelma G. dos Santos Cheng de Andrade (FACHO/ FAFIRE – Brasil) Luis Kandjimbo (Instituto Superior Politécnico Metropolitano de Angola - IMETRO – Angola) Luiza Bradley (FAFIRE – Brasil) Manoel Severino Moraes de Almeida (UNICAP – Brasil) Marcus Túlio Caldas (UNICAP – Brasil) Maria de Lourdes Dias de Araujo (FACHO – Brasil) Mércia Melo Silva (FACHO – Brasil) Norma Pinheiro de Vasconcelos (FACHO – Brasil) Rita Chaves (USP – Brasil) Rosiane Xypas (UFPE – Brasil) Sandra Patrícia Ataíde Ferreira (UFPE – Brasil) Sylvia Regina De Chiaro Ribeiro Rodrigues (UFPE – Brasil) Suelany C. Ribeiro Mascena (FACHO – Brasil) Tícia Ferro Cavalcante (UFPE – Brasil) Thiago Antonio Avellar de Aquino (UFPB – Brasil) Zirlana Menezes (FACHO/ UNICAP – Brasil)

PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Karla Vidal e Augusto Noronha (Pipa Comunicação - http://www.pipacomunica.com.br)


POLÍTICA EDITORIAL


Política Editorial A Faculdade de Ciências Humanas de Olinda – FACHO, em 1999, criou a revista científica Travessia, com o intuito de alcançar os seguintes objetivos: • Fomentar a escrita acadêmica de autoria dos professores pesquisadores nas áreas de atuação desta instituição de ensino superior; • Servir de veículo para a circulação da escrita acadêmica em língua materna como resultado de nossas pesquisas; Adiciona-se a esses objetivos primordiais, em sua trajetória de atualização: • Favorecer o conhecimento e fortalecimento de nossa Instituição e o intercâmbio de nossas produções acadêmicas em meio a outras da autoria de docentes de outras IES do Brasil; • Permitir o acompanhamento da produção científica docente por meio da qualificação permanente desta publicação. A revista Travessia é uma publicação anual que se propõe a divulgar trabalhos acadêmicos, de cunho teórico e aplicado, realizados por professores de todo o país. Todos os trabalhos enviados para publicação e que atendam aos requisitos de submissão aos gêneros (vide normas ao fim do volume), são ainda submetidos à avaliação de pareceristas. Os pareceres são enviados aos autores. Somente serão publicados os trabalhos aceitos por pelo menos dois pareceristas. É divulgada anualmente a chamada de publicação para cada edição.


APRESENTAÇÃO


Apresentação A Revista Travessia é uma publicação impressa da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda - FACHO que tem por objetivo divulgar artigos, ensaios, entrevistas e resenhas de seus professores e pesquisadores além de outras universidades brasileiras e estrangeiras. Com a finalidade de publicar a produção científica do corpo docente, a Revista Travessia é anual, com pesquisas na área de administração, ciências contábeis, enfermagem, letras, pedagogia, e, psicologia; apresentando conexões entre os diversos campos do saber. A Revista Travessia é um passo importante para a efetivação da pesquisa da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda - FACHO. Esperamos que os textos publicados contribuam para a formação intelectual e a reflexão crítica dos nossos alunos, professores e demais leitores. Os conceitos e afirmações contidos nos artigos são de inteira responsabilidade dos autores, assim como a(s) imagem(ns) inserida(s) nos artigos. Equipe editorial


SUMÁRIO

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DE PÉ NO CHÃO TAMBÉM SE APRENDE A LER: UMA EXPERIÊNCIA INVULGAR Adailson Medeiros

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CONHECIMENTO DO IDOSO INSTITUCIONALIZADO SOBRE O RISCO DE QUEDAS Ana Carmem da Costa Aurora Daniel José Victor Gomes Emilly Anne Cardoso Moreno de Lima Flávia Maria Barros Lavra Julyanne Nunes Medeiros

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AVALIAÇÃO DE PARÂMETROS AMBIENTAIS DE RATOS WISTAR ALBINOS (RATTUS NOVERGICUS) DO BIOTÉRIO DE EXPERIMENTAÇÃO ANIMAL DA FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS DE OLINDA Ana Karolina de Santana Nunes Ana Patrícia de Oliveira Martins Ana Paula Monteiro Ferreira Ximenes Luana Caroline da Silva Feijó Sura Wanessa Santos Rocha


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DESENVOLVIMENTO DE SÍNDROMES HIPERTENSIVAS NA GESTAÇÃO Ana Paula Belizário Alves Coutinho Danielle Cássia de Oliveira Elisiê Rossi Ribeiro Costa

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A TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL E A RESILIÊNCIA NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE MENTAL Ana Paula Monteiro Ferreira Ximenes Patrícia Guimarães Interaminense

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TECNOLOGIA, INOVAÇÃO E COMPETITIVIDADE Ítalo de Medeiros Brito

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A FÓRMULA DA HESITAÇÃO E O TRIUNFO DA IMPOSSIBILIDADE: JOÃO MELO E O CONTO ANGOLANO, DO LADO DE DENTRO Joelma Gomes dos Santos


Resumo

O objetivo do presente artigo é relatar parte da história do projeto “De pé no chão também se aprende a ler”, realizado em Natal, Rio Grande do Norte, nos primeiros anos da década de 1960. Definido como política de governo popular pelo então Prefeito Djalma Maranhão, foi implementado pelo seu Secretário de Educação Moacyr de Goes e tinha como objetivo erradicar o analfabetismo na capital potiguar, tendo beneficiado cerca de 40.000 alunos. O autor deste artigo, então jovem seminarista em Natal, foi testemunha da extraordinária e invulgar experiência. Palavras-chave: educação, Djalma Maranhão, Moacyr de Goes, Germano Coelho, Paulo Freire. Abstract

The aim of this article is to report part of the history of the project “Standing on the ground also learns to read”, held in Natal, Rio Grande do Norte, in the early 1960s. Defined as a popular government policy by then Mayor Djalma Maranhão, was implemented by his Secretary of Education Moacyr de Goes and had as objective to eradicate illiteracy in the capital of Potiguar, having benefited about 40,000 students. The author of this article, then young seminarian at Christmas, witnessed the extraordinary and unusual experience. Keywords: education, Djalma Maranhão, Moacyr de Goes, Germano Coelho, Paulo Freire.


DE PÉ NO CHÃO TAMBÉM SE APRENDE A LER: UMA EXPERIÊNCIA INVULGAR Adailson Medeiros1

Introdução A década de 1960 – conhecida como os anos rebeldes – se caracterizou por uma acentuada efervescência política, ideológica, econômica, social e cultural. Este artigo vai se centrar nos seus anos iniciais. No Brasil, especificamente, a década é iniciada com a inauguração de arrojada e futurista capital, Brasília (21.04.1960). A concepção e construção da capital sinaliza a crença, em novos tempos, de desenvolvimento do interior do país, de um novo despertar de fé e esperança. É o Brasil olhando e plantando o seu futuro. Apenas dois anos depois – 1962 – é realizada a Copa do Mundo de Futebol no Chile. O Brasil torna-se bicampeão mundial, ratificando o inesquecível título de quatro anos atrás e enchendo de orgulho a futebolística alma do brasileiro. No dizer rocambolesco de Nelson Rodrigues, o Brasil superava o “complexo de cachorro vira-latas”, reinante desde a perda da Copa de 1950 em pleno Maracanã. A nação acompanha admirada avanços notáveis obtidos noutras plagas, mas com significativas reverberações em todos os países, consequentemente, também aqui. Se em 12 de abril de 1961, o russo Yuri Gagarin torna-se o primeiro homem a entrar no espaço, sinalizando uma arrojada conquista para a humanidade, já em agosto do ano seguinte, ocorre a construção do Muro de Berlim, dividindo violentamente uma mesma nação. No plano sul-americano, em 1961 os Estados Unidos rompem as relações diplomáticas com Cuba, com grandes repercussões no país. O Brasil, tradicionalmente alinhado aos Estados Unidos, passa a “flertar” com dirigentes

1. Mestre em psicologia cognitiva. Professor aposentado do Departamento de Psicologia da UFPE. Assessor da Direção Geral da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda - FACHO. adailsonmedeiros@hotmail.com. 13


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revolucionários da ilha caribenha. Jânio Quadros (1961), certamente para demonstrar independência na política externa, condecora em pleno Palácio do Planalto, o carismático líder guerrilheiro Ernesto Che Guevara. Já o presidente que o substitui devido à sua intempestiva renúncia, João Goulart (1961-1964), estreita os laços com o governo cubano. O êxito da revolução cubana e sua política de alfabetização em massa da população passam a fascinar muitas nações sul-americanas, inclusive, o Brasil. A experiência “De pé no chão também se aprende a ler” é uma delas. O apoio do governo Goulart a essas experiências e a leniência do seu governo em outros contextos, sobretudo, a proposta das reformas de base que incluíam as reformas agrária, tributária, administrativa, bancária e educacional com uma configuração claramente de esquerda, desperta a elite e outras forças conservadoras. E, com velado apoio americano, em 31 de março de 1964 desencadeia-se um golpe militar no Brasil, tirando do poder o presidente João Goulart. Instala-se uma ditadura militar e que muito teve a ver com o término das experiências de alfabetização de Natal e Recife, como a seguir será visto.

RIO GRANDE DO NORTE NA DÉCADA DE 60: SOLO FÉRTIL PARA EXPERIÊNCIAS DE ALFABETIZAÇÃO O pequeno Estado do Rio Grande do Norte, situado no “nordeste da Região Nordeste”, com apenas 52.811 km², era um Estado periférico e pouco desenvolvido. Por volta da eclosão dos movimentos de alfabetização que se está relatando, a capital Natal não passava de modesta capital nordestina. Entretanto, seu papel estratégico na 2ª Guerra Mundial, quando serviu de base americana (chegando a abrigar mais de 10.000 soldados) para o transporte de tropas, armas, munições e suprimentos para as operações travadas na África e sul da Europa – daí o epíteto “Trampolim da Vitória” – propiciou o contato dos natalenses com outras nacionalidades, outras línguas, outros costumes e modos de vida. Ou seja, uma mentalidade de modernidade se instalava e novas demandas iam surgindo.

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Aos poucos tais demandas iam sendo dirigidas aos detentores da política local e um político que soube, como ninguém, detectar os novos ventos foi o jovem jornalista Aluízio Alves (pai de Henrique Eduardo Alves, deputado federal por 11 mandatos consecutivos). Aluísio, ligado originalmente aos setores oligárquicos, empunhou nas eleições de 1960, a bandeira da força modernizadora que se tentava impor no Nordeste. Eleito governador do Estado o qual governou de 1961 a 1966 ao derrotar o velho cacique e ex-padrinho político Dinarte de Medeiros Mariz que o tinha precedido (1956 a 1961), abriu a possibilidade de fazer um governo inovador e progressista. Aluizio Alves (1921-2006) instalou no RN um estilo de gestão populista, (sendo posteriormente cassado pelo governo militar) dando prioridade ao atendimento das pressões populares. Secundarista em Natal nos primeiros anos da década de 1960, pudemos vivenciar parte desses efervescentes anos. O autor deste artigo foi testemunha, nessa época, de três criativas experiências no âmbito da educação popular e que muito tem a ver com essa mentalidade, essa demanda e esse contexto.

1ª experiência: escolas radiofônicas de Natal Esta experiência foi gestada no âmbito da Igreja Católica. O surgimento do modelo das Escolas Radiofônicas do Rio Grande do Norte foi baseada na experiência do Bispo da Colômbia, Monsenhor Salcedo, que no início queria apenas comunicar-se com os seus paroquianos. A partir dessa experiência, ampliou sua aplicação, passando a ensinar a ler e a escrever, alcançando resultados estimulantes, no enfrentamento do grave problema do analfabetismo então reinante. Dom Eugênio Sales, natural de Acari-RN e Bispo Auxiliar de Natal, tinha uma ativa participação nos programas sociais da Arquidiocese e era diretor-presidente da Emissora de Educação Rural sediada em Natal. Em 1957 fez uma viagem por diversos países da América Latina, conhecendo de perto o trabalho com as Escolas Radiofônicas. Ao retornar, inicia uma campanha para colocar em prática a experiência, buscando os recursos necessários e estimulando as comunidades rurais para esta modalidade de educação. 15


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O trabalho intenso de Dom Eugênio, apoiado por alguns padres da Arquidiocese e homens e mulheres leigas, garantiu a aceitação e implementação da ideia. O projeto era capitaneado pela Emissora de Educação Rural, popularmente conhecida como Rádio Rural, que transmitia as aulas para as chamadas Escolas Radiofônicas situadas em vários municípios do Estado, quer na sede das cidades, quer na zona rural. As aulas eram captadas por rádios especiais, pois eram programados para sintonizarem apenas a Rádio Rural de Natal e, por isso, receberam o apelido um tanto irônico de “rádios cativos”. O objetivo de seus dirigentes era, certamente, evitar “desvios de função” do precioso aparelho. Com efeito, foi através dessa rádio que surgiu o projeto de alfabetização pelo Rádio no país. Algo pioneiro no Brasil. A partir do projeto das Escolas Radiofônicas, surgiu o Movimento de Educação de Base (MEB), de forte presença no país. O elo de ligação entre a professora-locutora (profissional de Educação que passara por treinamento específico) do estúdio da Emissora de Educação Rural e os alunos, era a figura da monitora (também portadora de treinamento específico). Esta sintonizava o rádio, ouvia a aula juntamente com os alunos e, com eles, desenvolvia as tarefas indicadas usando recursos pedagógicos tais como as cartilhas fornecidas pela Arquidiocese de Natal, cartazes, quadro negro e giz. Via de regra, as salas de aula funcionavam nas próprias casas das monitoras e o público alvo era formado, preponderantemente, por trabalhadores rurais, fossem adolescentes ou adultos. A escolha desse perfil de público usuário muito tinha a ver com as características da época: alto índice de analfabetismo, sobretudo na população adulta (70%), e predominância da população rural. A experiência exitosa capitaneado por Dom Eugênio Sales, se espraiou por diversos outros Estados. Em Sergipe, por exemplo, a diocese de Aracaju vai seguir o exemplo de Natal, com a educação pelo rádio. Em 1960, nessa capital, realiza-se o Encontro de Educação de Base e o surgimento da RENEC (Rede Nacional de Emissoras Católicas). O “Movimento de Natal”, como passou a ser conhecido, era constituido por um conjunto de atividades sócio-religiosas que, tendo por base a Diocese de Natal e fermentadas por um laborioso Administrador Apostólico Dom Eugênio Sales (1920-2012) cujo ministério nessa capital foi exercido de 1943 a 1964. O movimento se irradiou 16


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pelo Nordeste brasileiro e algumas de suas atividades foram encampadas pela CNBB (1964) como a Campanha da Fraternidade, ainda hoje exitosa a nível nacional. Os objetivos do “Movimento” e suas práticas eram difundidos nas paróquias e propagados pela já referida Emissora de Educação Rural, inaugurada em 1958, e pelo jornal “A Ordem”, pertencente à Arquidiocese de Natal e no qual o autor deste artigo teve a satisfação de estagiar. Hoje, a continuidade desses veículos de comunicação (2016), é um atestado da fecundidade desse Movimento.

2ª experiência: a alfabetização de Paulo Freire em Angicos Paulo Régis Neves Freire, nascido no Recife em 19 de setembro de 1921, é considerado um dos mais fecundos educadores brasileiros. Como gostava de relatar, foi alfabetizado pela mãe, que lhe ensinava a escrever com pequenos galhos de árvore no quintal da própria casa. Tinha 10 anos de idade, quando a família mudou-se para a cidade de Jaboatão dos Guararapes, cidade limítrofe com Recife. Ainda adolescente, começa a desenvolver um grande interesse pela língua portuguesa. Com 22 anos de idade, Paulo Freire vai cursar Direito na Faculdade de Direito do Recife. Ainda estudante, casa-se com a professora primária Elza Maia Costa Oliveira, com quem tem cinco filhos, e passa a lecionar no Colégio Oswaldo Cruz, em Recife. Aos poucos foi-se consolidando seu nome no âmbito da educação recifense. Com apenas 26 anos, em 1947, passa a dirigir o Departamento de Educação e Cultura do SESI, onde entra em contato com a alfabetização de adultos. Em 1958, em um congresso de educação no Rio de Janeiro, apresenta um significativo trabalho sobre educação e princípios de alfabetização, quando defende que a alfabetização de adultos deve estar diretamente relacionada ao cotidiano do alfabetizando. Para tanto, o adulto aprendiz deve conhecer a realidade que o cerca, condição para inserir-se de forma crítica na vida política e social. Nos primeiros anos da década de 1960, participa ativamente de uma das mais significativas experiências de educação popular empreendida no Brasil: o MCP, ou Movimento de Cultura Popular. O MCP, criado pelo então prefeito do Recife, Miguel Arraes, floresceu nos primeiros anos da década de 60 – fundado em 13 de maio de 17


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1960 - e que teve no professor Germano Coelho o seu “ideólogo”, como diziam os jornais da época, representou a mais ampla e articulada experiência de educação popular através de escolas convencionais, de lugares alternativos como salões paroquiais e clubes de dominó, de escolas radiofônicas, da TV, de jornais, do teatro, do folclore, da literatura de cordel. O objetivo era transformar a estrutura da educação municipal. Funcionando no Sítio da Trindade, histórico e libertário Arraial do Bom Jesus, o MCP, no dizer dramático e contundentemente belo de seu fundador Germano Coelho, ao apresentar o “Livro de Leitura para Adultos”, da autoria de Josina Godoy e Norma Coelho (Godoy, 1962), e popularmente conhecido como “A Cartilha”, assim escreveu: — O Movimento de Cultura Popular nasceu da miséria do povo do Recife. De suas paisagens mutiladas. Dos seus mangues cobertos de mocambos. Da lama, dos morros e alagados onde crescem o analfabetismo, o desemprego, a doença e a fome. Suas raízes mergulham nas feridas da cidade degradada. —

Paulo Freire é figura relevante na formulação de métodos e processos de alfabetização de adultos no MCP. Mas o MCP é plural e congrega um conjunto de notáveis colaboradores, como Argentina e Paulo Rosas, Anita Paes Barreto, Abelardo da Hora, Ariano Suassuna, Sylvio Loreto, Liana Coelho, Aluízio Falcão, Hermilo Borba Filho, Maria José Baltar, Fernando Coelho, Mário Câncio, Auxiliadora Moura, Silke Weber e muitos outros. Por esse tempo, 1962, Paulo Freire recebe um convite – quase um desafio – do Governo do Rio Grande do Norte para implementar o seu original método de alfabetização de adultos na cidade de Angicos, berço do então governador, Aluizio Alves. Angicos, distante 171 kms, de Natal e situada no centro do Estado, é uma pequena cidade potiguar que testemunhou, pela primeira vez, Paulo Freire por em prática o seu famoso método de alfabetização de adultos. Assim, o trabalho, que até então era desenvolvido de forma embrionária no Recife, ganhou notoriedade no país e no exterior. 18


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Em 24 de janeiro de 1963, houve a primeira aula regular do projeto e em 2 de abril, ocorreu a 40ª e última aula, contando com a presença do presidente da República João Goulart. Concluiram o projeto pioneiro 300 trabalhadores, de um total de 380 inscritos. O projeto ficou conhecido como as “Quarenta horas de Angicos”. Como se sabe, para Paulo Freire primeiro vem a leitura do mundo e. só depois, a formação e derivação das palavras. O diálogo é parte essencial do processo educativo, predominando sobre a aula expositiva. A educação é vista como um processo de conscientização. Já no mês seguinte à formação da 1ª turma, ocorre a primeira greve em Angicos. Latifundiários e fazendeiros, já ouriçados pela campanha das famosas “Reformas de Base” do Presidente João Goulart, passam a combater a experiência de Paulo Freire, chamando-a de “praga comunista”. A experiência de Angicos repercute nacionalmente e passa a ser implementada em outras cidades como “projeto-piloto” do Programa Nacional de Alfabetização do Governo Federal. Mas vem o golpe de 1964 e põe um fim a esse promissor projeto. Paulo Freire foi exilado no Chile e Suiça; retornou ao Brasil em 1979, com a Lei da Anistia prestando, ainda, significativas contribuições à educação brasileira como, por exemplo, publicando consistentes obras na área de educação ou sendo secretário da Educação da Prefeitura de São Paulo na gestão de Luiza Erundina. Faleceu nessa cidade, em 1997.

3ª experiência: de pé no chão também ser aprende a ler Djalma Maranhão, nascido em 1915, foi um político potiguar que por duas vezes foi prefeito da cidade de Natal. A primeira, na década de 1950, por nomeação do então governador Dinarte Mariz; e a segunda, em 1960, na primeira eleição direta para a prefeitura da capital. A sua trajetória política sempre se caracterizou por uma postura de esquerda, abraçando e defendendo as causas nacionalistas e populares. Foi militante do Partido Comunista e, posteriormente, do Partido Socialista. Na sua segunda eleição obteve dois terços dos votos válidos, integrando uma frente política de centro-esquerda denominada Cruzada da Esperança, tendo Aluízio Alves como candidato a governador do Estado do Rio Grande do Norte. Foram ambos eleitos. 19


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Em um plano mais geral, e como já visto anteriormente, em muitos países da América Latina, nos anos sessenta se disseminavam variados projetos de alfabetização de adultos. E, tendo por base a revolução cubana liderada por Fidel Castro, que estava erradicando o analfabetismo na ilha, inspirou muitas outras experiências populares na área. Sintonizado com a tendência revolucionária da experiência, Djalma Maranhão elegeu como programa de governo uma ação educativa absolutamente inovadora: “De pé no chão também se aprende a ler”. A campanha “De pé no chão também se aprende a ler” foi implementada, na prática, a partir de reivindicações populares formuladas, sobretudo, na campanha política de 1960, que elegeu Djalma Maranhão como prefeito de Natal. A resposta foi a inventiva formulação de uma escola desburocratizada que atendesse à alfabetização de crianças e adultos. O inovador ambiente físico também originou-se de sugestões populares. Tratava-se de escolas feitas de madeira e cobertas com palha de coqueiro. O ambicioso projeto de erradicar o analfabetismo em Natal, extrapolou, e muito, essa rústica e, ao mesmo tempo, revolucionária ambientação arquitetônica. E a Prefeitura de Natal, não dispondo de recursos financeiros para a construção de edificações escolares, apelou então para a população organizada e o povo em geral: onde fosse cedida gratuitamente uma sala, seria instalada uma escola. E assim, sindicatos, sociedades beneficentes, cinemas de bairros, igrejas, clubes de futebol e até residências particulares, se engajaram no projeto, cedendo as suas salas. Era o início da Campanha de Educação Popular, sendo instaladas cerca de trezentas “Escolinhas” nos mais variados bairros da capital, sobretudo os mais carentes. Há de se registrar que grande parte do êxito do projeto deve-se a um Secretário de Educação jovem e empreendedor: Moacyr de Góes. Buscando atender à demanda popular por mais educação e faltando os recursos financeiros para atendê-la, optou-se por soluções criativas. Se erguer escolas de alvenaria era muito caro, erguiam-se escolas de palha e acampamentos escolares; se não havia professores diplomados, qualificavam-se os professores já existentes. Em alguns dos galpões de palha não havia eletricidade, sendo iluminados por candeeiros; noutros, o chão era de terra batida e aluno sem uniforme ou sem sapato não era excluído pois, de pé no chão também aprendia a ler... 20


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CONSIDERAÇÕES FINAIS A experiência “De pé no chão também se aprende a ler” implementada em Natal de fevereiro de 1961 a abril de 1964, foi expressiva não apenas pelo caráter inovador e pedagogicamente revolucionário, mas também pelo seu alcance quantitativo. Natal, na época, era uma cidade de 160 mil habitantes; e a campanha, em três anos, atingiu uma matrícula acumulada de 34 mil alunos, envolvendo cerca de 20% da população nessa experiência! Mas os tempos mudam; e mudaram muito com o golpe militar de 1964! Em Natal ocorreram muitas prisões, dentre elas a do seu prefeito Djalma Maranhão e do seu secretário de Educação Moacyr de Góes, acusados de subversão. Afinal, a direção intelectual da “Campanha” era exercida por marxistas e cristãos de esquerda, que assumiam uma postura ferrenhamente nacionalista e de libertação popular. Moacyr de Góes ao ser solto, radicou-se no Rio de Janeiro onde lecionou em colégios e na Universidade Federal do Rio de Janeiro, chegando a ocupar o cargo de secretário de Educação do Rio, no final da década de 80. É autor de vários livros e faleceu em 2009, aos 78 anos. Já quanto ao prefeito Djalma Maranhão, foi deposto do Executivo Municipal pelo mesmo golpe militar e teve seu mandato cassado. Ficou preso em quartéis do Exército em Natal, na ilha de Fernando de Noronha e no Recife. Foi libertado por força de um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal, tendo se exilado no Uruguai. Telúrico, bonachão, saudosista e muito familiar, faleceu nesse país em 1972; morreu de “puro banzo” conforme nos relatou, tempos depois, o professor Paulo Rosas. E amigos enfatizavam o seu pungente mea-culpa: “meu crime maior foi alfabetizar 25.000 crianças”.

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REFERÊNCIAS BARBOSA, Letícia Rameh. Movimento de cultura popular: Impactos na Sociedade Pernambucana. Recife: Ed. do Autor, 2009. COELHO, Germano. MCP – História do movimento de cultura popular. Recife: Ed. do Autor, 2012. FÁVERO, Osmar (org.). Cultura popular e educação popular: memória dos anos 60. 2 ed, São Paulo: Graal, 2001. GODOY, Josina M. L.; COELHO, Norma P. C. Livro de leitura para adultos. Movimento de cultura popular. Recife: Gráfica Editora do Recife S.A., 1962. LYRA, Carlos. As quarenta horas de Angicos: uma experiência pioneira de educação. São Paulo: Cortez, 1996. MEDEIROS, Adailson. De pé no chão também se aprende. Artigo. In: Jornal do Commercio. Recife, 26.05.2009. MEDEIROS, Adailson. Paulo Rosas: uma questão de ética e competência. In: Travessia, FACHO, Olinda, Ano IV, n. 4, 2002. p. 11-22. PAIVA, Marlúcia Menezes de (org.). Escolas radiofônicas de Natal: uma história construída por muitos (1958-1966). Natal, UFRN, 2009. ROSAS, Paulo. Dos serviços de seleção e orientação profissional à formação acadêmica em psicologia. In: Paulo Rosas (org.). Memória da psicologia em Pernambuco. Recife: EdUFPE, Conselho Reg. de Psicologia, 2001. p. 155-159.

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ANEXO Acervo de fotos Apresenta-se, a seguir, um conjunto de quatro fotos da época e ilustrativas da experiência “De pé no chão também se aprende a ler”. Todas as fotos tem como fonte o endereço: http:dhnet.org.br/educar/penochao/index.htm.

Foto 1. Galpão de palha.

O ambiente escolar era dos mais simples e o mais próximo possível dos alunos, os quais eram crianças pobres, residentes em bairros populares. Várias dessas escolas eram de chão batido e cobertas de palha, como também eram as moradias das famílias desses bairros. A foto mostra um desses galpões de terra batida, pau a pique e cobertura de palha. Em seu interior dá para visualizar rústicas carteiras escolares; já na parte exterior em uma grande faixa de pano se lê: “De pé no chão também se aprende a ler”.

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Djalma Maranhão (1915-1972) foi um político potiguar que, por duas vezes, foi prefeito de Natal. A primeira, na década de 1950, por nomeação do então governador; e a segunda, em 1960, na primeira eleição direta para a prefeitura da capital, quando ocorreu a implementação do projeto. A sua trajetória política sempre se caracterizou por uma postura de esquerda, defendendo as causas nacionalistas e populares. Há de se registrar que grande parte do êxito do projeto deve-se ao seu jovem e empreendedor Secretário de Educação, prof. Moacyr de Góes. Foto 2. Prefeito Djalma Maranhão.

Era praxe nos grandes projetos de alfabetização da época, a produção e utilização de cartilhas específicas. A experiência de Natal não fugia à regra com o seu “Livro de Leitura”. A diferença é que este informava na capa que tratava-se de uma “Adaptação do Livro de Leitura para Adultos do Movimento de Cultura Popular do Recife”. Na apresentação interna esclarecia que essa adaptação decorria da necessidade de se aproveitar experiências válidas e que ambos os movimentos (Recife e Natal) tinham o mesmo objetivo, a “libertação popular, através da educação”. Foto 3. Livro de Leitura para Adultos.

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Criança participa de aula em um dos galpões de ensino, em teto de palha e chão batido. No quadro negro está escrito: “Acampamento da Conceição em Natal, 10 de Agôsto de 1962” E logo abaixo a tarefa de “aritmética” que solicita: “Escreva os números pares que você conhece”. Aparentemente o menino está se saindo muito bem na tarefa – o projeto alfabetizou 25.000 crianças - e o mais significativo da foto é que ele está descalço, comprovando que “De pé no chão também se aprende a ler”. Foto 4. Criança na escola.

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Resumo

É comum observar alterações fisiológicas, na crescente população idosa, que leva ao declínio do equilíbrio e instabilidade corporal, podendo favorecer à queda, classificada como uma das síndromes geriátricas mais comuns que pode provocar graves lesões. Através da pesquisa do tipo descritiva, exploratória de abordagem quantitativa, objetivou-se verificar o conhecimento dos idosos institucionalizados sobre o risco de queda. Foram entrevistados 43 idosos de duas Instituições de Longa Permanência (ILP’s) do Recife/PE. 72% da amostra conhecem os fatores de risco para queda, 31 dos 43 idosos já sofreram queda na instituição, no entanto, 55% destes não apresentam sentimento de insegurança ou medo de novas quedas. Sendo as ILP’s os locais mais comuns de queda em idosos, ações que visem a prevenção devem ser instituídas. Palavras-chave: Fatores de risco; Idoso; Saúde do idoso. Abstract

It is common to observe physiological changes in the growing elderly population, which leads to the decline of balance and body instability, and may favor the fall, classified as one of the most common geriatric syndromes that can cause serious injuries. Through a descriptive, exploratory, quantitative approach, the objective was to verify the knowledge of the institutionalized elderly about the risk of falling. We interviewed 43 elderly people from two long-stay institutions (ILP’s) in Recife - PE. 72% of the sample know the risk factors for falls, 31 of the 43 elderly people have already suffered a fall in the institution, however, 55% of them do not present feelings of insecurity or fear of further falls. Since ILP’s are the most common sites of falls in the elderly, actions aimed at prevention should be instituted. Keywords: Risk factors; Old man; Health of the elderly.


CONHECIMENTO DO IDOSO INSTITUCIONALIZADO SOBRE O RISCO DE QUEDAS Ana Carmen da Costa Aurora1 Daniel José Victor Gomes2 Jullyane Nunes Medeiros3 Emilly Anne Cardoso Moreno de Lima4 Flávia Maria Barros Lavra5

INTRODUÇÃO A longevidade, hoje comum no ciclo de vida, pode trazer aspectos positivos, mas também preocupantes, uma vez que o processo de envelhecimento vem acompanhado por um declínio funcional em virtude da diminuição da reserva fisiológica e do surgimento de doenças crônicas, o que torna o ser humano mais suscetível a quedas, podendo levar, por exemplo, à dependência funcional (MACHADO et al., 2010). Define-se idoso o individuo que tem 65 anos ou mais (em países desenvolvidos) e com 60 anos ou mais (em países em desenvolvimento) (BRASIL, 2015). No Brasil, contamos com um contingente de aproximadamente 21 milhões de pessoas com idade igual ou superior a 60 anos, e estima-se que em 2025 esse número passará

1. Graduada em enfermagem, Faculdade de Ciências Humanas de Olinda – FACHO, carmenenf2011@gmail.com. 2. Graduado em Enfermagem, Faculdade de Ciências Humanas de Olinda – FACHO, danielgomesvictor@gmail.com. 3. Graduada em Enfermagem, Faculdade de Ciências Humanas de Olinda – FACHO, jullyanemedeirosenf@gmail.com. 4. Mestre em Enfermagem, Professora da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda – FACHO, emillymoreno@hotmail.com. 5. Especialista em Psiquiatria na modalidade Residência, Professora da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda – FACHO, proflavialavra@hotmail.com. 27


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para 32 milhões, quando o país ocupará o sexto lugar no mundo em população idosa segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2015). Sabe-se que o envelhecimento é um processo natural, dinâmico, irreversível e progressivo, relacionado intimamente a fatores biológicos e sociais. Alterações psíquicas também são perceptíveis em decorrência de fatores como enfrentamento do abandono muitas vezes associado à institucionalização e aos hábitos sedentários, limitando à prática de atividades diárias. O envelhecimento pode variar de indivíduo para indivíduo, sendo gradativo para uns e mais rápido para outros (CAETANO, 2006). Contudo, a idade traz consigo mudanças que podem afetar diretamente a saúde dos idosos, comprometendo sua capacidade física e mental em desempenhar determinadas atividades da vida diária. As quedas não devem ser consideradas consequências inevitáveis do envelhecimento, no entanto, quando ocorrem, sinalizam o inicio de fragilidade ou anunciam uma doença aguda, além de causarem lesão incapacitante e até a morte (PAPALEO NETTO; CARVALHO FILHO, 2006). A queda pode ser definida por um deslocamento não intencional do corpo para um nível inferior a posição inicial, com incapacidade de correção em tempo hábil, determinada por circunstâncias multifatoriais que comprometem a estabilidade (PEREIRA, et al. 2001). Alguns fatores contribuem para esses acontecimentos, tais como a alimentação inadequada, o tabagismo e a falta de exercício físico, entretanto Perracini (2011) aponta idade elevada, declínio cognitivo, inatividade, fraqueza muscular, distúrbios do equilíbrio e da marcha, imobilidade, histórico de quedas, dependência funcional e polifarmacoterapia como os fatores mais relevantes. Por ser uma fase da vida que surgem alguns distúrbios de saúde, o idoso muitas vezes regride emocionalmente, acentuando os sentimentos de fragilidade, dependência e de insegurança. Segundo Leite (1995) a dependência significa uma condição do idoso caracterizada por degenerescência decorrente de doenças crônicas ou de outras patologias, que lhes ameaçam a integridade física, social e econômica, diminuindo ou impedindo a capacidade do indivíduo para atender suas necessidades.

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O idoso, por apresentar diversas dificuldades de locomoção e poucos acessos adaptados para essas limitações, sofre mais quedas, o que pode agravar a sua saúde. Para Ribeiro et al. (2009), o menor envolvimento em prática das atividades diárias sujeita o idoso a uma deterioração muscular, e, por conseguinte, diminui a capacidade de marcha do mesmo. A queda pode ser de característica biológica, comportamental, ambiental e socioeconômica, e contribui de múltiplas maneiras na vida dos idosos. Dentre os fatores que podem potencializar a queda estão a ingestão de vários medicamentos, o abuso de bebidas alcoólicas, o sedentarismo, a dieta irregular e o uso de calçado inadequado (ROSE, 2010). Os fatores de riscos intrínsecos estão relacionados às alterações fisiológicas do organismo que comprometem a independência do idoso como déficit visual, auditivo, motor, cognitivo, marcha e efeitos colaterais de fármacos que podem fragilizar o idoso. Já os fatores de riscos extrínsecos estão diretamente relacionados ao ambiente que também podem comprometer a autonomia do idoso, sendo eles: piso escorregadio, tapetes, escadas sem corrimão, má iluminação, distribuição inadequada dos mobiliários ocasionando o aumento do risco de quedas nas instituições (CARVALHO FILHO; PAPALEO NETO, 2006). A queda é um evento que leva um dano à saúde, podendo causar uma simples lesão ou até o óbito. Nos idosos, o índice de quedas é crescente, causando graves comprometimentos, uma vez que pode causar traumas deixando o idoso fragilizado e incapaz de desempenhar as atividades diárias (FREITAS et al., 2011). As taxas de quedas verificadas entre os idosos institucionalizados são superiores aos que residem na comunidade (CEREPRI, 2004) e uma das consequências mais graves da queda para essa população, é a fratura do quadril (NORTON et al., 1999). Dessa forma, o presente estudo teve o objetivo de verificar o conhecimento dos idosos institucionalizados sobre o risco de queda, contribuindo dessa forma para o declínio desse acontecimento nas instituições, promovendo assim uma melhor qualidade de vida aos idosos.

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Desenvolvimento Processo de envelhecimento O envelhecimento é o processo que todo indivíduo deverá passar, é um período natural do desenvolvimento humano, um processo dinâmico, progressivo, inevitável, com ritmo e características específicas em cada pessoa (MACHADO et al. 2010). Segundo Mendes et al (2005), envelhecer é um processo natural que caracteriza uma etapa da vida do homem e dá-se por mudanças físicas, psicológicas e sociais que acometem de forma particular cada indivíduo com sobrevida prolongada, é comum em todo ser vivo, diferenciada de acordo com o estilo de vida e os hábitos individuais, podendo ser um processo saudável quando vivido de maneira ativa. Segundo Cardoso (2009) senescência é o envelhecimento fisiológico do organismo marcado por um conjunto de alterações orgânicas funcionais e psicológicas e a senilidade se caracteriza por afecções que acometem o indivíduo idoso, mas o envelhecimento e a doença não devem estar interligados, pois, o que ocorre é uma predisposição para o idoso desenvolver alguma patologia devido à fragilidade e perda da reserva de energia. O envelhecimento fisiológico é o efeito exclusivo da idade sobre o organismo, que modifica as funções orgânicas e mentais do indivíduo, desregula o equilíbrio homeostático e leva ao declínio das funções vitais (COSTA, 2008).

Família e institucionalização De acordo com a Organização Mundial de Saúde (2010), o Brasil não tem suporte para proporcionar uma boa qualidade de vida à população idosa, devido a problemas financeiros e péssima qualidade na assistência à saúde do idoso, além disso, as famílias vêm enfrentando dificuldades para cuidar da pessoa idosa, como condições financeiras desfavoráveis, pouca disponibilidade de tempo e inadequação do espaço para a segurança do idoso, fatores esses que podem ocasionar o aumento da institu-

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cionalização. Na ausência da participação da família no cuidar, o idoso se depara com a solidão, podendo perder qualidade de vida e levá-lo ao isolamento social. Comumente o idoso institucionalizado vai perdendo sua identidade e autonomia, devido à rotina de atividades estabelecidas e sob uma única coordenação, tornando-se um padrão indiferenciado de atividades, não se atentando para a individualidade e a história de vida (CALDAS, 2002). As residências destinadas ao domicilio coletivo de pessoas com 60 anos ou mais têm a função de integrar a rede de assistência social à rede de assistência à saúde (CAMARO; KANSO, 2010), no entanto, muitos idosos identificam a institucionalização como perda da liberdade, abandono pelos filhos e sentimento de ansiedade devido ao tratamento oferecido (BORN, 2002). No entanto, a institucionalização, muitas vezes, é a única opção para o idoso e a família, não significando um abandono e preservando o vínculo familiar e social.

Fatores de riscos A institucionalização pode representar um fator de risco para ocorrência de quedas (FERREIRA; YOSHITOME, 2010) pois uma vez institucionalizado, o idoso se depara com um ambiente totalmente diferente do seu lar. Além da ausência dos familiares, a perda de autonomia e a inatividade física são comuns nas instituições. Segundo a Organização Mundial de Saúde (2015) alguns fatores de risco estão envolvidos em quedas de idosos institucionalizados, entre eles, aspectos cognitivos, visuais, de mobilidade, fisiológicos e/ou patológicos. Os idosos institucionalizados convivem com fatores de risco e queda diariamente, porém muitos não conhecem esses fatores e suas consequências. A queda é um evento gravíssimo devido a severos transtornos, incluindo fraturas, declínio funcional, medo de novas quedas, hospitalização ou até mesmo o óbito (PERRACINI, 2011). Para Carvalho Filho e Papaleo Neto (2006) a institucionalização é vista como um fator de risco extrínseco para queda em idoso, porque este passa a conviver em um ambiente desconhecido e diferente do seu lar, afetando diretamente a qualidade

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vida do idoso institucionalizado tornando cada vez mais o idoso inseguro, com medo de cair e de desempenhar suas atividades diárias.

Metodologia Estudo descritivo, exploratório e observacional com abordagem quantitativa. A pesquisa descritiva possibilita estudar as características de grupo como distribuição por idade, sexo, procedência, nível de escolaridade, estado de saúde. O estudo exploratório tem como propósito trazer maior familiaridade com o problema (GIL, 2008). Para Gil (2008), a pesquisa quantitativa tem como objetivo quantificar os dados e generalizar os resultados da amostra para a população-alvo; a coleta de dados é estruturada e os resultados recomendam uma linha de ação final. A pesquisa foi realizada em duas Instituições de Longa Permanência (ILPs) da cidade do Recife/PE, ambos com mais de 10 anos de funcionamento, mantidos pela renda dos idosos e doações. As ILP’s possuem espaço físico amplo e arborizado, espaço de convivência, estacionamento, terraço, sala, quartos individuais e coletivos, além de cozinha, banheiros adaptados com corrimão e vaso sanitário elevado; sala da administração e consultório médico presente em apenas uma das ILPs. Em ambas instituições os idosos são atendidos duas vezes por semana por acadêmicos de fisioterapia, nutrição, psicologia e terapia ocupacional, contando também com uma equipe multidisciplinar composta por 01 médico generalista voluntário, 01 enfermeiro, 02 técnicas de enfermagem, 01 cozinheira, 01 auxiliar de cozinha, 01 auxiliar de higienização variando o quantitativo do pessoal de acordo com a necessidade por número de idosos (segundo relato da administração). A amostra corresponde a população do estudo. As duas instituições atendem um total de 61 idosos, sendo 54 do sexo feminino e 07 do sexo masculino. Dentre os critérios de inclusão destacou-se ter idade igual ou superior a 60 anos, conforme critério estabelecido para países em desenvolvimento (BRASIL, 2015). Foram excluídos os idosos com capacidade cognitiva alterada, dificuldade de compreensão e os que não verbalizavam com clareza, pois impossibilitaria responder à entrevista; essa avaliação foi realizada juntamente com a equipe multiprofissional da ILPs. 32


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Nenhum dos idosos recusou participar do estudo, sendo a amostra final composta por 43 participantes. Para coleta de dados foi realizada entrevista estruturada com questões objetivas, contendo perguntas que caracterizam os dados sociais, demográficos e da institucionalização e apresentados através de tabelas e gráficos. A pesquisa atendeu a Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde, tendo parecer favorável do Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) da Faculdade de Medicina de Olinda, CAAE 1.545.911, e realizada após leitura, explicação e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Resultado e discussão A feminização do envelhecimento é resultado de vários aspectos que favorecem a longevidade da mulher como, busca pela prevenção de morbidades, menor consumo de álcool e outras drogas, entre outros (BRASIL, 2015). Dentre os 43 participantes do presente estudo, 84% eram mulheres, 83% referiram ser solteiros ou viúvos, e 68% não possuíam filhos, como mostra a tabela a seguir. Tabela 1. Distribuição da amostra, segundo sexo, estado civil e número de filhos. Recife-PE, 2016. Variável

n

%

Feminino

36

84

Masculino

7

16

Solteira

24

54

Viúva

12

29

Casada

4

10

União Estável

3

7

Sim

13

32

Não

30

68

Sexo

Estado Civil

Filhos

Fonte: Arquivo do autor.

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Para Freitas (2011) estar só na fase idosa, sem um cônjuge, e não ter filhos é um dos fatores que mais contribui para a institucionalização. No entanto, muitas vezes o idoso busca a institucionalização para não provocar modificações na vida dos familiares, visto que é uma fase que requer cuidados, e isso, representa uma inesperada quebra do equilíbrio, estabelecendo mudanças na organização familiar dos envolvidos. Em uma pesquisa realizada por Paulo Filho e José Fernando Filho (2002) foi observado que os principais motivos da admissão de idosos em abrigos é a falta de vínculo familiar, dificuldades financeiras, distúrbios de comportamento e precariedade nas condições de saúde. Mesmo não havendo relação direta entre idosos sem filhos e institucionalização em asilos, reconhece-se que a presença das famílias contribui para a vivência mais tranquila e busca de autonomia. Outro fator que pode limitar a autonomia e independência da pessoa idosa, mesmo que por pouco tempo, é a queda. Segundo Carvalho Filho e Papaleo (2006), a queda traz consequências graves como: fraturas, imobilidade, aumento do risco de institucionalização, insegurança e medo de sofrer novas quedas. No presente estudo, 31 idosos já sofreram queda anterior, no entanto, o sentimento de insegurança e medo não foi associado. Gráfico 1 - Distribuição da amostra de acordo com o sentimento de insegurança após queda. Recife-PE, 2016.

Fonte: Arquivo do autor.

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Apesar de já terem sofrido queda na área externa da casa e durante o dia, eles não apontam fatores que levam ao risco de quedas e 55% diz que o fato não o deixou inseguro quanto à deambulação no mesmo local. Tabela 2. Distribuição da amostra, segundo sexo, estado civil e número de filhos. Recife-PE, 2016. Variável

n

%

Sim

31

72

Não

12

28

Área externa da casa

17

55

Área interna da casa

14

45

Dia

20

65

Noite

11

35

Conhecimento dos fatores de risco

Local da queda

Horário

Fonte: Arquivo do autor.

Atualmente, os idosos têm orientações de saúde, principalmente no que tange a prevenção, pois existe uma preocupação das políticas públicas para a população idosa, devido o envelhecimento populacional. O conhecimento dos idosos sobre os riscos da queda, pode não impedir que ele caia, como mostra o presente estudo, mas pode ajudar a entender os possíveis fatores que podem provocar esta ocorrência, tornando esse idoso uma pessoa mais cuidadosa nas suas ações (CAMARO; KANSO, 2010). Aproximadamente 30% dos idosos caem uma vez por ano, portanto medidas de prevenção e promoção à saúde do idoso são importantes instrumentos para diminuir ocorrência de quedas e minimizar as complicações secundárias (BRASIL, 2015).

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Considerações finais As ILP’s são os locais mais comuns de queda em idosos. Os idosos que moram nesta instituição já sofreram queda, no mínimo uma vez, porém os próprios, não atribuem esta ocorrência unicamente aos fatores externos, mas também e principalmente às alterações fisiológicas do envelhecimento do corpo que os tornam vulneráveis a cair, como por exemplo as alterações nos órgãos do sentido; no tecido ósseo. É de extrema relevância que os idosos e cuidadores formais e informais conheçam as mudanças fisiológicas que acontecem no ser humano com o avançar da idade, assim como os efeitos e interações medicamentosa na fisiologia humana, para que estejam sempre atentos aos cuidados à saúde, colaborando, com a prevenção de acidentes como as quedas, que podem ter consequências graves na vida do idoso.

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Resumo

Esta pesquisa teve o objetivo de analisar e caracterizar os parâmetros ambientais de ratos Wistar albinos (Rattus novergicus) do biotério de experimentação animal da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda - FACHO, no município de Olinda. Os fatores ambientais de um biotério podem afetar diretamente respostas biológicas, fisiológicas e comportamentais de animais. Utilizou-se equipamentos específicos na coleta dos dados e foram monitorados os seguintes fatores: temperatura, umidade do ar, ruídos, gases, ventilação, luminosidade/ fotoperíodo, os cuidados com animais através da observação de gaiolas, alimentação e ingesta de água, no biotério de experimentação onde são alojados os ratos. Com base nas análises dos resultados, foi possível realizar a elaboração de medidas emergentes e preventivas para melhorar a qualidade de vida e desempenho dos animais nas atividades práticas-pedagógicas. O resultado dos exercícios que avaliam o comportamento esclareceu a compreensão na prática de toda dinâmica que ocorre no método de aproximações sucessivas, Palavras-chave: biotério; fatores ambientais; cuidados de animais; comportamento de animais. Abstract

This research had the objective of analyzing and characterizing the environmental parameters of albino Wistar rats (Rattus novergicus) from the animal experimentation laboratory of the Faculdade de Ciências Humanas de Olinda - FACHO, in the city of Olinda. The environmental factors of a vivarium can directly affect biological, physiological and behavioral responses of animals. Specific equipment was used to collect data and the following factors were monitored: temperature, air humidity, noise, gases, ventilation, luminosity/ photoperiod, caring for animals through observation of cages, feeding and water intake in the vivarium where the mice are housed. Based on the analysis of the results, it was possible to carry out the elaboration of emergent and preventive measures to improve the quality of life and performance of the animals in the practical-pedagogical activities. The results of the exercises that evaluate the behavior clarified the comprehension in practice of all dynamics that occurs in the method of successive approximations, as well as, to verify its effectiveness in the search for the acquisition of the desired behavior. Keywords: bioterium; environmental factors; animal care; behavior.


AVALIAÇÃO DE PARÂMETROS AMBIENTAIS DE RATOS Wistar albinos (Rattus novergicus) DO BIOTÉRIO DE EXPERIMENTAÇÃO ANIMAL DA FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS DE OLINDA Ana Patrícia de Oliveira Martins1 Luana Caroline da Silva Feijó2 Ana Paula Monteiro Ferreira Ximenes3 Sura Wanessa Santos Rocha4 Ana Karolina de Santana Nunes5

INTRODUÇÃO A contínua evolução do conhecimento humano, especialmente o da biologia, bem como das medicinas humana e veterinária, repercute no desenvolvimento de ações envolvendo a criação e experimentação animal, desencadeando a constante e necessária atualização de suas técnicas e procedimentos. Estudos de anatomia, fisiologia, imunologia, virologia e psicologia, dentre outros, realizados em animais

1. Aluna do curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda. E-mail: felicidadeepaz@yahoo.com 2. Aluna do curso de Enfermagem da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda. E-mail: luanacarolainefeijo@gmail.com 3. Professora Drª do curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda. E-mail: apmf.x@terra.com.br 4. Professora Drª do curso de Enfermagem da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda. E-mail: surawanessa@gmail.com 5. Professora Drª do curso de Enfermagem da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda. E-mail: nunes.aks@gmail.com 39


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de laboratório, permitiram um avanço considerável no desenvolvimento da ciência e tecnologia (NATIONAL RESEARCH COUNCIL, 1996). Devemos considerar que fatores como a origem dos animais e meio ambiente em que estão vivendo, podem afetar diretamente suas respostas biológicas, fisiológicas e comportamentais (WHO, 2001; CHORILLI et al, 2007). Instalações adequadas para os padrões necessários à criação e manutenção de animais de laboratório devem possuir programas de gerenciamento das condições físicas e ambientais, garantindo cuidados que favoreçam o desenvolvimento e a reprodução dos animais, mantendo a sanidade e bem-estar, bem como minimizando as variações que podem interferir nos resultados dos ensaios (NIH, 2002). Embora um ambiente constante em todos os parâmetros recomendados seja o ideal, isso é difícil de ser alcançado (DE LUCA et al, 1996). Entende-se como microambiente o espaço físico mais próximo ao animal, ou seja, a gaiola, com parâmetros próprios para temperatura, umidade relativa, composição de gases e partículas do ar. Segundo Lang & Vessel (1976) e Besch (1980), os fatores físicos ambientais que mais influenciam as respostas biológicas dos animais são a temperatura, umidade relativa, ventilação, iluminação, fotoperíodo ruídos, gases e substâncias particuladas. A maioria dos animais de laboratório tolera a mesma faixa de temperatura do homem, sendo em sua maioria, homeotérmicos, porém a temperatura do macroambiente deve ser mantida ideal para os animais em detrimento do conforto dos bioteristas. Segundo Majerowicz (2005), a temperatura no interior das gaiolas geralmente é superior em alguns graus à do ambiente e varia em função da área e número de animais alojados. Variações extremas de temperatura são mais prejudiciais do que temperaturas constantes próximas ao limite de tolerância, que resultam em alterações metabólicas compensatórias, as quais afetarão os padrões normais de circulação, excreção além de alterações comportamentais (CLOUGH, 1982; DE LUCA et al, 1996; MAJEROWICZ, 2000a). Por vezes, a exposição dos animais às temperaturas desfavoráveis, sem acesso a abrigos ou outras formas de proteção, podem induzir enfermidades, conferindo risco de mortes. Alguns animais conseguem se adaptar às

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interferências térmicas, porém, estas alterações fisiológicas ou morfológicas requerem tempo e nem sempre são eficazes, o que provavelmente afetará os resultados dos ensaios (LANG; VESSEL, 1976). A maioria das espécies de animais de laboratório é incapaz de promover sudação, o excesso de calor é eliminado com o aumento da frequência respiratória. Caso não haja um ajuste adequado na ventilação da sala de manutenção destes animais, certos produtos metabólicos começarão a se acumular no ambiente, prejudicando a saúde deles. O acúmulo de amônia, por exemplo, produto nitrogenado oriundo da ação de bactérias urease positivas sobre as excretas dos ratos, pode afetar o sistema respiratório destes animais, favorecendo a incidência de infecções secundárias (MAJEROWICZ, 2000). O controle da umidade relativa do ar é outro parâmetro fundamental na manutenção de um ambiente ideal, embora não interfira de modo tão rigoroso no metabolismo dos animais (NRC, 1976; DE LUCA et al, 1996). Variações e extremos na umidade relativa podem, além de favorecerem o aparecimento de doenças, alterarem o consumo de ração e água, gerando conflitos entre os animais (CLOUGH, 1982; DE LUCA et al, 1996). Os roedores, em sua maioria, são mais sensíveis a altas intensidades luminosas por possuírem hábitos noturnos. Os ratos albinos, por exemplo, são mais ativos nos períodos menos iluminados do dia e podem ficar cegos quando expostos a muita luz (NRC, 2003). Segundo Majerowicz (2005), uma iluminação que propicie boa visibilidade, seja uniforme e o mais próxima possível da luz natural, na ordem de 200 lux, é adequada à reprodução e assegura um comportamento normal para a maioria dos roedores. Durante as pesquisas, é fundamental manter-se os períodos de claro-escuro sem interrupção, pois do contrário, os animais podem sofrer estresse que desencadeará alterações metabólicas e comportamentais, tais como modificações do ciclo circadiano, ciclos reprodutivos, efetividade de drogas (MAJEROWICZ, 2005). Além disso, segundo Clough (1982), variações no fotoperíodo, em função da duração dos dias ou estações do ano, influenciam o comportamento reprodutivo, tempo de duração do parto e podem aumentar a incidência de tumores. É recomendável que

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o controle do iluminamento nas salas seja feito de modo automático e programado, pois o controle manual, invariavelmente, pode resultar em uma pequena variação nos períodos de claro/escuro (MAJEROWICZ, 2000a). O que também pode interferir na quantidade e intensidade de luz que chega aos animais e prejudicar os resultados dos experimentos, é a localização das gaiolas nas estantes e confiar que a iluminação obtida através de janelas ou vidraças é natural. Este tipo de luz apresenta um espectro mais vermelho, para o qual os animais são insensíveis, e que, além de elevar a carga térmica do recinto, aumenta os custos com equipamentos de ventilação (USA, 1971). Segundo Clough (1982) e De Luca et al (1996), outros dois interferentes importantes do bem-estar dos animais são a intensidade e frequência dos sons no ambiente do biotério. Segundo dados do National Research Council (1976), a exposição a sons acima de 85 dB pode causar tanto efeitos auditivos quanto sistêmicos, tais como: eosinopenia, aumento do peso das supra-renais, fertilidade reduzida em roedores e aumento de pressão arterial em primatas não humanos. Além dos sons na faixa audível, os animais de biotérios estão expostos a ruídos ultrassônicos, da ordem de 80 kHz, como, por exemplo, telefones, rangidos de portas, gotejamento de torneiras, ventiladores, aparelhos de ar-condicionado, constituindo fatores de estresse (SALES et al, 1998). Além dos fatores físicos, outro fator importantíssimo para a manutenção de um ambiente saudável para os animais são os insumos alimentares e os produtos utilizados para a higienização dos materiais e do ambiente. A aquisição, transporte, estocagem e manipulação dos alimentos devem ser feitos cuidadosamente, de maneira a evitar riscos de contaminações químicas ou biológicas nas instalações do biotério, que poderiam conferir quadros de doenças ou intoxicações (NRC, 1976). Além disso, o bioterista deve estar sempre atento às quantidades de ração e água nas gaiolas, para evitar conflitos e disputas entre os animais. A maravalha, ou cepilho, subproduto do beneficiamento da madeira, é o material mais utilizado para forrar as gaiolas, com a finalidade de absorver a umidade proveniente das fezes e urina, bem como manter o equilíbrio térmico do ambiente, devendo ser isenta de compostos químicos nocivos, sejam eles naturais ou não, como por exemplo, os hidrocarbonetos aromáticos

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desprendidos pelo cedro. Uma alternativa bastante simples para eliminar tanto as substâncias químicas tóxicas quanto os microrganismos, além de diminuir o conteúdo de resinas e óleos essenciais, é a esterilização. A gaiola é outro ponto fundamental para se obter as condições ideais de conforto e bem-estar dos animais. O material de construção varia de acordo com a espécie animal alojada, sendo preferencialmente de material leve, durável e isolante térmico, evitando-se materiais que dificultem a higienização e esterilização, como a madeira. Além disso, a arquitetura deve facilitar o acesso dos animais à água e ao alimento, evitando competição entre indivíduos. Diante disso, a presente pesquisa teve como objetivo geral: avaliar os parâmetros ambientais de ratos Wistar albinos (Rattus novergicus) mantidos no biotério de criação e experimentação da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda. Sendo os objetivos específicos: verificar a temperatura ambiente do biotério; analisar os índices de ruídos do biotério; avaliar luminosidade/ fotoperíodo do biotério; caracterizar tipos de alojamento e gaiolas do biotério; utilizar os conceitos da Análise Experimental do Comportamento para descrever e explicar fenômenos; redigir documentos específicos relativos às atividades práticas de laboratório; executar e orientar as manutenções de caráter emergente no biotério. Os roedores têm sido os animais mais utilizados pelos centros de pesquisa, sendo importantes para estudos científicos em diversas áreas, por possuírem características fisiológicas e genéticas semelhantes à dos humanos (HARKNESS; WAGNER, 1993). Além da pesquisa, o uso de animais tem finalidade didática, promovendo aos alunos a possibilidade de observar e analisar processos fisiológicos e comportamentais. A análise experimental do comportamento é um exemplo da importância do estudo dos animais para os alunos, especialmente do curso de psicologia, pois possibilita através da observação empírica o desenvolvimento de habilidades de observação, registro, sistematização, análise e interpretação de dados coletados através de exercícios experimentais (ZICARDI; CLEMENTINO, 2009). Considerando as relações funcionais entre sujeito e ambiente, o uso do laboratório de psicologia experimental, com sujeitos experimentais permite aos alunos a vivência da psicologia na perspectiva de

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uma ciência experimental, fundamental para a formação do psicólogo, ao dar suporte científico a várias formas de atuação, em diferentes campos nos quais compreender o comportamento humano seja importante. Contudo, resultados de pesquisas desenvolvidas com animais de laboratório podem ser influenciados pelas condições ambientais, proporcionadas durante as fases de reprodução e de crescimento e por agentes infecciosos (CLOUGH, 1982; PAKES et al., 1984; HOMBERGER; THOMANN, 1994). Assim, para garantir a confiabilidade do experimento, devem ser usados animais criados e produzidos sob condições ideais e mantidos em um ambiente controlado, com conhecimento e acompanhamento dos padrões sanitários (ANDRADE, 2002). Em suma, a realização desta pesquisa, visou a melhoria da sanidade e de padrões fisiológicos relacionados aos benefícios das condições ambientais dos animais mantidos no biotério de criação e experimentação da instituição Faculdade de Ciências Humanas Olinda.

METODOLOGIA E RESULTADOS Local de estudo Trata-se de estudo de natureza descritiva de caráter exploratório com abordagem quantitativa, onde foi realizado no biotério de experimentação da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda, estado de Pernambuco. O referido biotério é mantido para execução das disciplinas: Fundamentos do Behaviorismo no Curso de Psicologia e Fisiologia Humana e Patologia no Curso de Enfermagem. O uso de animais na atividade práticas dessas disciplinas é de extrema importância para compreensão dos conteúdos ministrados em aulas teóricas, promovendo um melhor desempenho e aprendizagem dos alunos, ao articular os conteúdos estudados com a vivência empírica, ressaltando a importância de lidar com a imprevisibilidade dos comportamentos de um rato real.

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População Incluiu-se neste estudo a observação de 16 animais (8 fêmeas e 8 machos), divididos em quatro grupos, sendo dois grupos experimentais e dois grupos de controle, mantidos no biotério de experimentação da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda. Durante 4 semanas, foram coletados os dados de medição de parâmetros ambientais. Os animais do grupo experimental foram mantidos em gaiolas apropriadas e com ração e água adequada para os animais. Foi utilizado como referência o biotério de experimental animal do Instituto de Pesquisa Aggeu Magalhães – Fiocruz, para aquisição de gaiolas, ração e água de beber.

Procedimentos técnicos A coleta de dados foi realizada através de fichas de avaliação diárias, durante trinta dias, seguindo os parâmetros ambientais do biotério em que são mantidos os animais. Os animais são ratos Wistar albinos nascidos em 30 de maio e 05 de julho. Os animais foram distribuídos por sexo. A quantidade total de animais mantidos no biotério são 43, os quais 24 são machos e 19 são fêmeas. Foram separados dois grupos descritos abaixo: Grupo controle (n=8) – Animais com ração, água e gaiolas utilizadas no biotério da FACHO. Grupo experimental (n=8) – Animais com ração, água e gaiolas conforme manual de comitê de ética do uso de animais. Os grupos incluíram machos e fêmeas e seguiram esse protocolo durante 4 semanas. Diariamente foram coletados dados para determinação dos parâmetros.

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Avaliação da umidade relativa do ar Umidade relativa do ar é a quantidade em percentagem da pressão da massa de vapor d’água contida no ar atmosférico e onde, de acordo com a temperatura ambiente, essa quantidade máxima (saturação) varia. Esse fator é indicado como alvo de stress na qualidade de vida dos animais. Esse monitoramento foi realizado diariamente com utilização de um termômetro com recurso de medição: umidade relativa do ar. A produção de amônia depende do número de animais dentro da gaiola e da sala. Elevações excessivas do nível de amônia também estão relacionadas com o aumento exagerado da umidade, por exemplo, devido ao vazamento de bebedouros, pois o excesso da umidade influência na dissipação de calor do ambiente. Foi obtido uma média de 69,4% da umidade relativa do ar do biotério. De acordo com o Manual de Cuidados e Procedimentos com Animais de Laboratório, a percentagem ideal seria de 55±10%.

Avaliação de temperatura e ventilação A avaliação da temperatura da sala de acondicionamento dos animais foi realizada diariamente uma vez ao dia (final da tarde), com o uso de um termômetro específico. A análise da ventilação foi realizada através da observação de sensação térmica, caracterizada como abafadiça. Como ocorre com os animais em seu hábitat natural, mudanças da temperatura ambiental dos biotérios levam a respostas adaptativas, com alterações comportamentais, fisiológicas e metabólicas. Para evitar situações de estresse térmico que levariam à invalidação de um experimento científico, os animais de biotério devem ser mantidos constantemente em sua zona de conforto térmico, o que implica no controle rigoroso desse parâmetro. O número de animais e tamanho do espaço deve ser levado em consideração, pois a temperatura da gaiola ou caixa é consideravelmente superior à da sala.

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Por estarem constantemente perdendo calor e umidade e eliminando resíduos metabólitos, é ideal que se tenha um mecanismo de renovação de ar, como exaustores e condicionadores de ar, evitando complicações respiratórias nos animais devido ao acúmulo de substâncias tóxicas no ambiente. Obteve-se a média de 29,2°C, sendo o ideal 22±2°C, de acordo com o Manual de Cuidados e Procedimentos com Animais de Laboratório.

Verificação de ruídos e alojamento de animais Para a realização da verificação diária de ruídos existentes no biotério, foi utilizado equipamento de medição de som Decibelímetro Sound Meter aferido de acordo com as especificações do fabricante. A média do local em decibéis esteve em 55 dB. Seguindo instruções do Manual de Cuidados e Procedimentos com Animais de Laboratório, a faixa auditiva dos ratos compreende 0,1 a 65 dB. O alojamento de animais foi realizado através de coleta de dados observacionais. Gaiolas, alimentação, maravalha, peso e ingesta de água foram analisados conforme a Diretriz Brasileira para o Cuidado e a utilização de Animais para fins científicos e didáticos - BDCA/ CONSELHO NACIONAL DE CONTROLE DE EXPERIMENTAÇÃO ANIMAL - CONCEA. Após a classificação, foi comprovada a eficácia de medidas preventivas tais como: medidas de proteção coletiva; de organização do trabalho; de proteção individual; de higiene. Por fim, será elaborado o mapa de riscos do biotério de criação e experimentação animal da FACHO, de acordo com a classificação de riscos ambientais que será fixado em locais apropriados para a visualização dos usuários destas instalações.

Avaliação de luminosidade/fotoperíodo A luminosidade é um responsável por transtornos no comportamento, incluindo a ansiedade (MARTINEZ et al, 2005). A intensidade luminosa influencia no metabolismo e altera as respostas biológicas dos animais especialmente animais albinos, por

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serem mais sensíveis. Para avaliar esse parâmetro, utilizou-se o aplicativo Luz Lux Medidor. O monitoramento foi realizado no período vespertino diariamente. Foi observado a média de 20 lux dentro das gaiolas e de 200 lux a um metro do chão, sabendo que essa média não deve ultrapassar 60 e 300 lux respectivamente. Entretanto o Manual de Cuidados e Procedimentos com Animais de Laboratório preconiza a iluminação adequada por lâmpadas fluorescentes em fotoperíodo de 12 h de claro por 12 h de escuro, controlado por um temporizador digital. O período de claro iniciado às 6 h, e o de escuro, às 18 h. Com isso, é recomendado o isolamento total do biotério em relação à luz natural, permitindo o controle da intensidade luminosa e do fotoperíodo, implicando em salas sem janelas em que a luminosidade seja totalmente artificial e uniforme, de preferência luzes fluorescentes brancas.

Caixas e gaiolas No laboratório de experimentação da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda – FACHO, os animais são mantidos em gaiolas. De acordo com o Manual de Cuidados e Procedimentos com Animais de Laboratório, o ideal ambiente para habitação destes seria caixas de policarbonato, pois a estrutura do local tem efeitos fisiológicos e comportamentais nos animais. Estas caixas devem ser forradas pela maravalha (serragem de madeira grossa), devido a sua alta capacidade de absorção. O número de animais dependerá do tamanho dos mesmos e da gaiola. Superpopulação provocará desconforto e dificultará a absorção das excretas. Um local que oferece conforto e estabilidade aos animais influenciará em uma dada resposta biológica em um experimento.

Água e ração A água ofertada no biotério da FACHO é fornecida pela companhia de água que abastece a região. A ração oferecida aos animais é a específica para coelhos.

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De acordo com o Manual de Cuidados e Procedimentos com Animais de Laboratório, a água ofertada aos animais deve ser filtrada e/ou destilada, em mamadeiras com acúleos de metal, que possam ser sugados. É ideal a utilização de ração adequada a roedores, com os requisitos nutricionais necessários, livre de qualquer tipo de agentes químicos, como herbicidas ou suplementos. Foi observado no primeiro dia do experimento, que os animas alimentados da forma adequada tinham a massa corporal ideal para seu estereótipo. De acordo com os objetivos propostos pelo presente estudo, a massa corpórea foi avaliada novamente para conclusão dos dados.

Análises estatísticas Os dados foram analisados através do teste de variância ANOVA-one way, seguido por pós-teste de Dunnet e Tukey para comparações múltiplas, utilizando o programa GraphPad Prism (San Diego, CA, USA). Foram consideradas significativas as diferenças com p < 0,05. Os dados foram apresentados como a média ± desvio padrão.

Análise experimental do comportamento dos animais Esses dados foram coletados no Laboratório de Psicologia Experimental utilizando os conceitos da análise experimental do comportamento através de: • Exercícios de manejo do processo experimental com sujeitos experimentais; • Implementação de situação de laboratório para o controle de variáveis que afetem os fenômenos comportamentais tais como: aprendizagem, condicionamento, modelagem, discriminação, generalização, efeitos de condições aversivas e extinção; • Análise dos resultados dos experimentos, através da confecção de tabelas, gráficos e sínteses analíticas;

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Essa avaliação das atividades práticas foi realizada no período de 19 de outubro a 13 de novembro de 2015. Associando a teoria estudada na disciplina de Fundamentos do Behaviorismo com a prática no laboratório ao avaliar o desempenho do sujeito experimental quanto ao comportamento de cheirar o bebedouro. Foram utilizados 16 ratos Wistar albinos (Rattus novergicus), sem experiência ou vivência laboratorial. Os animais ficavam no biotério da FACHO divididos em quatro grupos: um grupo experimental de machos e um grupo experimental de fêmeas (que ficaram em caixas adequadas para essa espécie); um grupo controle de machos e um grupo controle de fêmeas (que ficaram em gaiolas). Em cada grupo ficaram 04 indivíduos. Os exercícios propostos foram de observar o sujeito quanto ao comportamento de cheirar o bebedouro sem e com o reforço da gota d’água (para avaliar a eficácia do reforço no condicionamento operante) dentro da caixa de Skinner. O primeiro exercício realizado foi o nível operante, onde observou-se a resposta voluntária do sujeito experimental em cheirar o bebedouro. Não havia privação de água prévia e durante trinta minutos os dezesseis indivíduos foram observados individualmente, sem reforço da gota d’água. Essa fase tem o objetivo de demonstrar como é o comportamento sem reforço e sem manipulação de variáveis. Houve momentos de curiosidade onde os ratos cheiravam e percorriam toda a caixa, até momentos que ficavam parados, como se estivessem cansados. As respostas variaram de quatro a dez no tempo de 30 minutos. Já no segundo exercício, todos os sujeitos experimentais estavam com vinte e quatro horas de privação de água. Esse exercício é chamado de treino do bebedouro, onde foi colocado uma gota d’água antes da entrada do sujeito na caixa de Skinner. Depois o sujeito recebeu o reforço à medida que se afastava do bebedouro em direção ao fundo da caixa. Ao final do exercício, o animal estava condicionado a ir até o fundo da caixa e receber o reforço da gota d’água. Esta técnica na nomenclatura da Psicologia é chamada de método das aproximações sucessivas, onde inicialmente se determina o padrão final de comportamento que queremos que o sujeito adquira e mantenha. Para a Psicologia Clínica segundo Whaley e Malott (1980, p. 84 e 85):

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— É nesse momento onde está em jogo o bem-estar de seres humanos, a seleção do comportamento final é sempre feita tendo em vista a recuperação mais rápida do paciente, sendo esse comportamento final chamado de comportamento terminal ou de resposta terminal. Agindo como uma espécie de alvo que o psicólogo deseja atingir durante seu programa de tratamento (WHALEY E MALOTT, 1980, p. 84 e 85). —

No experimento do laboratório de treino do bebedouro que foi realizado, o sujeito experimental entrou na caixa de Skinner já com uma gota d’água a sua disposição. Quando ingeriu essa gota seis reforços iniciais sucessivos eram concedidos. A partir desse momento o animal recebeu um reforço a cada momento que se afastava mais do bebedouro. Esse exercício durou 60 minutos tendo recebido o máximo de 53 reforços e o mínimo de 32 reforços nesse tempo. Percebemos a manutenção de um padrão mais regular sobre o comportamento esperado, onde o animal vai ao fundo da caixa, recebe o reforço, bebe a água e retorna para o final da caixa. Observou-se a eficácia do reforço, pois o sujeito experimental estava condicionado e ágil. Já os animais que não receberam o reforço para a aquisição e manutenção do comportamento, entravam na caixa com uma gota d’água, depois 06 reforços eram dados sucessivamente e não recebiam mais nenhum reforço. Ao final dos 60 minutos as respostas variaram entre de 12 e 8 respostas e o animal não foi condicionado. As respostas dos sujeitos experimentais que receberam o reforço variaram de trinta e dois a cinquenta e três num período de sessenta minutos. Já os que não receberam reforço tiveram suas respostas variando entre oito e doze respostas no período de sessenta minutos. Esses resultados demonstram a importância do reforço para aquisição e manutenção do comportamento.

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Confirmando dessa forma, com o que diz Whaley e Malott (1980, p.87), “o método de aproximação sucessivas desempenhou um papel importante para tirar o sujeito do comportamento inicial, que já era realizado com uma frequência mínima”. O comportamento de cheirar o bebedouro foi escolhido como comportamento inicial, pois foi ele que condicionou o comportamento terminal desejado, de ir até o fundo da caixa. O comportamento de afastar-se do bebedouro foi positivamente reforçado e sua frequência e distanciamento cada vez maior. No momento que ele chega até o fundo da caixa ele é sucessivamente reforçado. Cada comportamento reforçado, no método de aproximações sucessivas, pode ser visto co-mo um elo numa cadeia que tem um único propósito último, que é a ocorrência da resposta terminal. O experimentador seleciona cada elo cuidadosamente e confia muito em sua experiência e conhecimento das inter-relações, pré-requisitos e associações dos comportamentos que devem ser condicionados para que se obtenha o comportamento terminal. Usando reforçamento positivo, ele dirige o organismo desde o comportamento inicial, passando pelos comportamentos intermediários, até que, finalmente, a resposta terminal seja emitida e possa ser reforçada e condicionada diretamente (WHALEY; MALOTT, 1980, p.89). Os resultados desses dois exercícios esclarecem a compreensão prática de toda dinâmica que ocorre no método de aproximações sucessivas, assim como, constatam sua eficácia na busca da aquisição do comportamento desejado; sendo o reforço positivo e o condicionamento operante ferramentas fundamentais nesse processo.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente estudo avaliou a influência dos fatores ambientais tais como temperatura, ruído, luminosidade em respostas biológicas, fisiológicas e comportamentais de animais. Os resultados das análises demonstraram que alguns dos fatores estavam alterados em relação as condições do biotério utilizado como controle. Fatores como luminosidade, temperatura, condições de alimentação, ração e água estavam fora do padrão ideal. Esses resultados foram encaminhados para a direção da instituição para que fossem solucionadas as dificuldades encontradas. No que se refere a análise comportamental, foi demonstrado a compreensão prática de toda dinâmica que ocorre no método de aproximações sucessivas, assim como, comprova sua eficácia na busca da aquisição do comportamento desejado; sendo o reforço positivo uma excelente ferramenta nesse processo. Diante disso, podemos concluir que as condições ambientais na acomodação dos animais são necessárias para um bom desempenho de atividade física, comportamental na prática do ensino. O experimento em situação de laboratório é uma atividade bastante enriquecedora para os estudos de Psicologia, pois o aluno pode iniciar um processo de conhecimento e vivência dos princípios teóricos estudados na disciplina de Fundamentos do Behaviorismo, bem como para estudos da Fisiologia e Patologia, onde podem ser compreendidos processos fisiológicos. A disciplina de Fundamentos do Behaviorismo é de grande importância na prática profissional do psicólogo, pois possibilita o desenvolvimento de condições para o ensino e pesquisa experimental. As contingências para a formação de pesquisador tornam-se mais claras, exigindo dos estudantes repertórios que se iniciam com a revisão da literatura e aplicação dos conceitos estudados, a seleção dos sujeitos experimentais, até o relato dos resultados dos exercícios experimentais, através da confecção de tabelas, gráficos e sínteses analíticas do desempenho do sujeito experimental, articulando teoria e dados obtidos nos exercícios experimentais. Também é enriquecedor para o entendimento do comportamento humano, a relação que existe

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entre resposta desejada e reforço positivo, podendo esse profissional aplicar os ensinamentos às causas terapêuticas patológicas e preventivas, e aos comportamentos divergentes do olhar de normalidade, através de uma percepção humanizada. A oportunidade de vivenciar a Psicologia Experimental com animais reais é de insubstituível valor, uma vez que treina e ensaia o psicólogo para as inconstâncias dos comportamentos, assim como a subjetividade humana. Além disso, a manutenção adequada do biotério pode influenciar nas condições de execução dos exercícios propostos para o entendimento do comportamento animal.

REFERÊNCIAS ANDRADE, A.; PINTO, S.C.; OLIVEIRA, R.S. Animais de Laboratório: criação e experimentação [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2002. 388 p. ISBN: 85-7541-015-6. BESCH, E.L. Environmental quality within animal facilities. Lab Anim Sci. 1980; 30(2):385- 406. CHORILLI, M.; Michelin D.C.; Salgado, H.R.N. Animais de laboratório: o camundongo. Rev Ciênc Farm BásicaApl. 2007; 28(1):11-23. CLOUGH, G. Environmental effects on animals used in biomedical research. Biol Rev 1982; 57:487-523. DE LUCA, R.R. et ali. Manual para Técnicos em Bioterismo. 2. ed. São Paulo: WinnerGraph; 1996 HARKNESS, S.E.; WAGNER, J.E. Biologia e Clínica de coelhos e roedores. 3. ed. São Paulo: Roca Ltda., 1993, 238p. HOMBERGER, F.R.; THOMANN, P.E. Transmissionofmurinevirusesandmycoplasma in laboratory mouse colonieswithrespecttohousingconditions. Laboratorial Animal Science, 1994, 2:113-120. LANG, C.; VESSEL, ES. Introduction. In: Environmental and genetics factors affecting laboratory animals: Impact on biomedical research. 59th annual meeting of the Federation of American Societies for Experimental Biology. New Jersey; 1976. MAJEROWICZ, J. Procedimentos de segurança envolvendo animais de laboratório. In: Teixeira P, org. Curso de Aperfeiçoamento em Biossegurança. Rio de Janeiro: EAD/ Ensp; 2000a. Cap. 18, p.1-10. ______ Risco biológico e níveis de proteção. In: Teixeira P, org. Curso de Aperfeiçoamento em Biossegurança. Rio de Janeiro: EAD/Ensp; 2000b. Cap. 18. p.11-26.

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______ Procedimentos de biossegurança para as novas instalações do laboratório de experimentação animal (Laean) de Bio-Manguinhos. [Dissertação] Rio de 27 Caracterização de biotérios Janeiro: Instituto Oswaldo Cruz, Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos; 2005. PAKES, S.P.; LU, Y.S.; MEUNIER, P.C. Factors that complicate animal research. In: FOX, J.G.; COHEN, B.J. & LOEW, F.M. (Eds.) Laborator, 1984. SALES, G.D.; WILSON, K.J.; SPENCER, K.E.V.; MILLIGAN, S.R. Environmental ultrasound in laboratories and animal houses: a possible cause for concern in the welfare and use of laboratory animals. Lab Anim. 1998; 22:369-75. ZICARDI, Érica; CLEMENTINO, Anna Clara. Utilização do programa sniffypro x laboratório didático com animais vivos: comparação dos relatos de estudantes. Disponível em: <http://www.inicepg. univap.br>. Acesso em 20 dez. 2015.

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Resumo

Analisar o desenvolvimento de Síndromes Hipertensivas em gestantes de um hospital público de Recife e observar a sua interferência sobre parâmetros maternos e perinatais. Métodos: estudo transversal retrospectivo do ambulatório de gestação de alto risco, do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (CISAM) do período de janeiro a dezembro de 2008. Resultados: a população compreendeu 76 pacientes. Quanto ao estado nutricional pré-gestacional: 26,3% sobrepeso e 39,5% obesidade; o estado nutricional gestacional: 31,6% com sobrepeso e 51,3% obesas. Das intercorrências gestacionais a mais prevalente foi a hipertensão arterial (23,7%). Tendo uma correlação positiva no desenvolvimento da síndrome hipertensiva e o estado nutricional das gestantes: no estado pre-gestacional (<0,001) e o estado gestacional (<0,001). Conclusão: Observou-se que o excesso de peso pré-gestacional, gestacional, predispuseram as mulheres a desenvolver síndromes hipertensivas e outras comorbidades. Palavras-chave: estado nutricional; intercorrências maternas; síndromes hipertensivas. Abstract

Analyze the development of hypertensive syndromes in pregnant women of a public hospital in Recife and observe their interference on maternal and perinatal parameters. Methods: A retrospective cross-sectional study of the high-risk gestation clinic of the Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (CISAM) from January to December 2008. Results: the population comprised 76 patients. Regarding pre-gestational nutritional status: 26.3% overweight and 39.5% obesity; gestational nutritional status: 31.6% were overweight and 51.3% obese. Of the gestational intercurrences, the most prevalent was hypertension (23.7%). There was a positive correlation in the development of the hypertensive syndrome and the nutritional status of the pregnant women: pre-gestational state (<0.001) and gestational status (<0.001). Conclusion: It was observed that pre-gestational, pre-gestational excess weight predisposed women to develop hypertensive syndromes and other comorbidities. Keywords: nutritional status; maternal intercurrences; hypertensive syndromes.


DESENVOLVIMENTO DE SINDROMES HIPERTENSIVAS NA GESTAÇÃO Danielle Cássia de Oliveira Ana Paula Belizário Alves Coutinho Elisiê Rossi Ribeiro Costa

INTRODUÇÃO A hipertensão arterial (HA) é uma doença considerada problema de saúde pública pelo seu elevado custo médico social. Diferente dos países desenvolvidos, a HA na gestação permanece a primeira causa de morte materna direta no Brasil (37%), sendo a proporção maior nas regiões Norte (56,9 %) e Nordeste (62,8%) (NAKIMULI et al, 2014). A prevalência varia conforme a faixa etária, sexo, raça, obesidade e presença de patologias associadas, como diabetes e nefropatias. Nas mulheres em idade reprodutiva a prevalência vai de 0,6 a 2,0%, na faixa etária de 18 a 29 anos, e de 4,6 a 22,3%, na faixa etária de 30 a 39 anos (NAKIMULI et al, 2014). A hipertensão arterial gestacional (HAG) é considerada uma das mais importantes complicações do ciclo gravídico puerperal, com incidência em 6 a 30% das gestantes, e resulta em alto risco de morbidade e mortalidade materna e perinatal (ASSIS et al, 2008). O Ministério da saúde ressalta que as Síndromes Hipertensivas da Gestação (SHG) acometem mais as primigestas e mulheres com história pessoal e/ou eclâmpsia, com gestação gemelar, doença cardiovascular pré-existente, lúpus, o que corresponde aos principais fatores de risco para esta patologia (MOURA et al., 2010). As síndromes hipertensivas na gestação merecem especial destaque no cenário da saúde pública mundial. Atualmente, representam a terceira causa de mortalidade materna no mundo e a primeira no Brasil. Em países desenvolvidos, aproximadamente de duas a oito em cada 100 gestantes vão desenvolver o evento, enquanto no Brasil pode-se chegar a 10% dos casos. Assim, devido à gravidade da doença, é conside57


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rada como importante causa de internamento em unidade de terapia intensiva e, por vezes, incluída como critério de morbidade materna grave (NETO et al., 2010). As doenças hipertensivas na gestação são classificadas por: Hipertensão crônica (HC); Pré-eclâmpsia (PE)/ Eclâmpsia (E); Pré-eclâmpsia superposta à hipertensão crônica (FREIRE, TEDOLDI, 2009). No Brasil, verificou-se entre grávidas com síndrome hipertensiva incidência de 38,3% de pré-eclâmpsia, 43,8% de hipertensão arterial crônica e 17,7% de hipertensão arterial crônica com sobreposição de pré-eclâmpsia (CARVALHO, et al., 2008). Existem vários fatores que aumentam o risco de desenvolver as SHG, como diabetes, doença renal, obesidade, gravidez múltipla, primiparidade, idade superior a 30 anos, antecedentes pessoais ou familiares de pré-eclâmpsia e/ou hipertensão arterial crônica e raça negra (ASSIS et al., 2008). As gestantes portadoras de hipertensão arterial são mais propicias a desenvolver complicações, como deslocamento prematuro da placenta, coagulação intravascular disseminada, hemorragia cerebral, falência hepática e renal. Entre as complicações fetais destaca-se prematuridade, baixo peso ao nascer, redução do suprimento do oxigênio e nutrientes, e o maior risco de desenvolver doenças pulmonares agudas e crônicas (CARVALHO et al., 2008). A hipertensão gestacional além de acometer a mãe, traz repercussões mais freqüentes para o concepto como: restrição do crescimento intrauterino, baixo peso ao nascer e prematuridade (CHAIM et al., 2007). Como alterações tardias, crianças pequenas para a idade gestacional, frequentemente associadas ao diagnóstico de hipertensão gestacional, podem apresentar maiores níveis de pressão arterial e dislipidemia precocemente na fase adulta (FERRÃO, 2006). Hipertensão crônica (HAC) é a que está presente antes da gravidez ou diagnosticada antes de 20 semanas de gestação. É considerada quando a pressão arterial sistólica (PAS) é ≥ 140 mmHg e/ou a pressão arterial diastólica (PAD) ≥ 90 mmHg, medidas em duas ocasiões com 4 horas de intervalo. A definição dos níveis de 140/90 mmHg como ponto de corte para hipertensão deve ser avaliada com cuidado em pacientes jovens abaixo de 18 anos, onde os valores podem ser menores (FREIRE,

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2009). Este tipo acomete em torno de 5% das gestações, sendo considerada como fator de risco para a PE. A taxa sobreposta em pacientes hipertensas crônicas é de 15 a 25% (OLIVEIRA et al., 2006). A Pré-eclâmpsia (PE) é definida por uma pressão sanguínea sistólica de 140 mmHg ou mais ou uma pressão sanguínea diastólica de 90 mmHg ou mais e proteína urinária de 300mg ou mais em uma amostra de urina 24h a partir da 20ª semana (SILVA et al., 2011). Pode se manifestar com presença de edema na face, mãos, membros inferiores ou edema generalizado (MOURA et al., 2010). A prevalência de PE é normalmente descrita como 5 a 8%, apresentando amplas variações na literatura. Em gestação gemelar a prevalência de (PE) é de 14%, podendo chegar a 40% em pacientes com PE prévia (OLIVEIRA et al., 2006). A PE é o tipo de hipertensão que determina o mais alto índice de cesariana, ou seja, aproximadamente 55%, seguida da hipertensão crônica (15%) e da hipertensão gestacional (9%) (CARVALHO et al., 2008). O princípio do tratamento da pré-eclâmpsia consiste na redução da pressão sanguínea materna e aumento do fluxo sanguíneo placentário. A hidralazina e a metildopa são drogas usadas comumentemente como anti-hipertensivos durante a gestação, promovendo o relaxamento do músculo liso das arteríolas periféricas e a redução da resistência vascular (FERRÃO, 2006). Eclâmpsia é definida pela manifestação de uma ou mais crises convulsivas tônico-clônicas generalizadas e/ ou coma, em gestantes com hipertensão gestacional ou pré-eclâmpsia, na ausência de doenças neurológicas. Pode ocorrer durante a gestação, na evolução do trabalho de parto e no puerpério imediato. Raramente se manifesta antes da 20ª semana de gestação (PERAÇOLI; PARPINELLI, 2005). A maioria das convulsões eclâmpticas ocorrem antes do parto (67%) e, entre as que ocorrem após o parto, cerca de 79% surgem depois de 48 horas (3-14 dias) (FREIRE, TEDOLDI, 2009). A eclâmpsia é comumente precedida pelos sinais e sintomas de eclampsia iminente, isto é, distúrbios do sistema nervosos central (cefaléia frontal/ occipital, torpor, obnubilação e alterações do comportamento), visuais (escotomas, fosfenas,

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visão embaçada e até amaurose) e gástricos ( náuseas, vômitos e dor no hipocôndrio direito ou no epigástrico) (PERAÇOLI; PARPINELLI, 2005). Além desses sintomas existem outros como vertigem, edema facial, e anorexia, (MAHAN, STUMP, 2010). Esta síndrome é responsável por uma parcela significativa dos casos de mortalidade materna e perinatal sendo frequentemente associada à complicações de órgãos vitais como Sistema Nervoso Central (SNC), o fígado e os rins (ANGONESI; POLATO, 2007). A eclâmpsia pode ser evitada com assistência obstétrica adequada e resolução sensata da gestação (PERAÇOLI; PARPINELLI, 2005). O tratamento e a prevenção da eclâmpsia é feito com a droga sulfato de magnésio em uma dose de ataque de 4-6g IV em infusão por 20 minutos, seguida por infusão contínua de 1-2 g/h e mantida até 24 horas após o parto. As convulsões recorrentes são tratadas com novo bolus de 2g IV ou aumento da infusão para 1,5-2 g/h (se a dosagem estiver em 1 g/h). Durante o uso, a paciente deve ser monitorada em relação ao débito urinário, reflexos patelares, freqüência respiratória (FREIRE; TEDOLDI, 2009). Pré-eclâmpsia superposta à hipertensão crônica está associada aos piores resultados, maternos e perinatais (PERAÇOLI; PARPINELLI, 2005) e deve ser suspeitada quando a paciente sem proteinúria antes das 20 semanas de idade gestacional (IG) passa a apresentar proteinúria ≥ 0,3 g/24h, ou aquela com proteinúria patológica prévia que após as 20 semanas apresenta aumento importante da PA (mesmo que previamente controlada com medicações), associada a sintomas tipo cefaléia, visão borrada, dor epigástrica e/ou alterações laboratoriais, como aumento de enzimas hepáticas e trombocitopenia (FREIRE, TEDOLDI, 2009). As complicações perinatais são maiores com hipertensão crônica do que na população obstétrica em geral (a mortalidade perinatal aumenta em 3-4 vezes) e são agravadas com o desenvolvimento de PE sobreposta (LAURENTI et al., 2004; FREIRE; TEDOLDI, 2009). A síndrome de HELLP é uma grave complicação da gestação caracterizada por: (H) hemólise, (EL) enzimas hepáticas elevadas e (LP) baixa contagem de plaquetas. Algumas gestantes desenvolvem somente uma ou duas dessas características da síndrome de HELLP. Esse quadro é denominado de SH parcial (ANGONESI, POLATO, 2007). 60


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São consideradas de maior risco, para o desenvolvimento desta complicação, as mulheres com pré-eclâmpsia grave/ eclâmpsia remota ao termo e em especial, aquelas em manejo expectante, com idade superior a 25 anos, multíparas e de etnia branca (PERAÇOLI; PARPINELLI, 2005). As manifestações clínicas podem ser imprecisas, sendo comuns queixas como: dor epigástrica, mal estar geral, náuseas, vômitos, cefaléia, dor na parte superior do abdômen, e até sintomas semelhantes a uma síndrome inespecífica. Em gestações normais esses sintomas se asemelha aos sintomas de outras doenças, sendo assim difícil de diagnosticar esta síndrome. O diagnóstico precoce é iminemtemente, laboratorial e deve ser pesquisado de maneira sistemática nas mulheres com pré-eclâmpsia/ eclâmpsia e/ou dor no quadrante superior direito do abdômen. (ANGONESI; POLATO, 2007). Embora a causa da síndrome de HELLP ainda não seja completamente entendida, a síndrome pode levar à insuficiência cardíaca e pulmonar, hemorragia interna, hematoma hepático, insuficiência renal aguda, acidente vascular cerebral, eclâmpsia e outras complicações graves que podem levar à morte fetal. Outras complicações para o feto incluem crescimento uterino restrito e síndrome da angústia respiratória. Aproximadamente 2% das mulheres com a síndrome de HELLP e 8% dos recém nascidos morrem em decorrência da síndrome. (ANGONESI; POLATO, 2007). As complicações da DHEG afetam sistemas orgânicos, como os sistemas cardiovasculares, renal, hematológico, neurológico, hepático e uteroplacentário; tais como: deslocamento da placenta, prematuridade, retardo do crescimento intra-uterino, morte materno-fetal, oligúria, crise hipertensiva, edema pulmonar, edema cerebral, trombocitopenia, hemorragia, acidente vascular cerebral, cegueira, intolerância fetal ao trabalho de parto e a síndrome de HELLP (ANGONESI; POLATO, 2007). A orientação dietética esta intimamente associada a prevenção e tratamento dessas patologias. Recomenda-se que as características da dieta sejam: normocalórica, hiperprotéica (≥ 2g/Kg/dia), normolipídica, adequada em vitaminas e minerais, rica em cálcio (2g/dia), normossódica (6g de NaCl/dia), rica em peixe, frutas e outros vegetais (VADILLO-ORTEGA et al., 2011; ACCIOLY et al., 2009).

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Gonçalves; Fernandes; Sobral (2005) estudando a prevalência das SHG e suas complicações em um Hospital Público de São Paulo encontrou que 3,64% dessas mulheres tiveram esse diagnóstico, como também foi identificado a eclâmpsia 01 (4,54%), a crise hipertensiva 03 (13,63%), óbito fetal intrauterino 06 (27,27%), o óbito neonatal 01 (4,54%), o sofrimento fetal crônico 01 (4,54%) e a prematuridade 03 (13,63%). Amadei e Merino (2010), investigando a prevalência de hipertensão e fatores de riscos em gestantes atendidas em uma Unidade Básica de Saúde na cidade de Cianorte, Paraná, em seus resultados mostrou que (15,38%) apresentou hipertensão. Em relação aos fatores de riscos, observou que os mais freqüentes entre as gestantes foram: nuliparidade, obesidade, herança familiar, sedentarismo, e raça negra. Em outro estudo onde o objetivo foi avaliar o impacto do sobrepeso e obesidade no início da gestação com desenvolvimento de patologias e os seus resultados neonatais e perinatais, encontrou desvio ponderal em 43% das gestantes estudadas, sendo essas as com maior probabilidade de desenvolver pré-eclâmpsia (ATHUKORALA; RUMBOLD;CROWTHER, 2010). Portanto, sabendo que as síndromes hipertensivas da gestação permanecem sendo um problema de saúde pública, este artigo teve como objetivo analisar o desenvolvimento destas síndromes em gestantes de um hospital público de Recife. Visando os cuidados especiais que exigem e o seguimento pré-natal diferenciado, em vista dos riscos maternos e fetais associados. É importante reforçar também a importância do nutricionista na equipe pré-natal para um melhor controle dessas patologias trazendo assim benefícios para mãe e seu filho.

Métodos Este trabalho foi desenvolvido no Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (CISAM), em Recife-PE. O estudo foi do tipo transversal retrospectivo, baseado nos dados coletados, durante o ano de 2009, em prontuários e fichas de avaliação nutricional do ambulatório de gestação de alto risco desta maternidade. Foram incluídas

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apenas as pacientes com diagnóstico de diabetes gestacional, do período de janeiro a dezembro de 2008, e que receberam orientação nutricional. Foram excluídas as pacientes que não tiveram consulta com o nutricionista. A avaliação nutricional foi composta de dados sobre a história clínica e nutricional, exames físicos e laboratoriais e medidas antropométricas baseada nas informações coletadas nos documentos analisados (fichas de avaliação nutricional e prontuários médicos), bem como as complicações perinatais e maternas. A classificação do estado nutricional das gestantes foi obtida através da Curva de Atalah8, baseado no Índice de massa corpórea (IMC) atual e o IMC pré-gestacional classificada pela IOM9. Para a análise estatística dos dados foram utilizados os Softwares SPSS 13.0 para Windows e o Excel 2003, em que todos os testes foram aplicados com 95% de confiança. Os resultados estão apresentados em forma de tabela com suas respectivas freqüências absoluta e relativa. O teste aplicado para as variáveis quantitativas foi o de Kolmogorov-Smirnov, com Coeficiente de Correlação de Pearson (Distribuição Normal) e Spearman´s (Não Normal).

Resultados A população estudada foi composta de 76 gestantes, destas todas apresentaram Diabetes Mellitus Gestacional, com média de idade de 29 anos, e idade gestacional média de 30 semanas. Em relação à paridade, as gestantes avaliadas apresentavam média de duas gestações. No que diz respeito a ocupação, apenas 25,4% trabalhavam, possuindo renda máxima de até dois salários mínimos. Quanto ao estado nutricional pré-gestacional da amostra estudada, destaca-se que tanto no período pré-gestacional e gestacional as gestantes tinham em sua maioria excesso de peso (27,3% e 41,5% sobrepeso + 31,2% e 53,2% obesidade) respectivamente. No que concerne sobre as intercorrências gestacionais, ressalta-se que a mais prevalente foram as síndromes hipertensivas e anemia, como pode ser observado na Tabela 1.

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Tabela 1: Intercorrências gestacionais de mulheres analisadas do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (CISAM) no período de janeiro a dezembro de 2008. Intercorrências gestacionais

N

%

Anemia

3

4

Infecção do Trato urinário

2

2,6

Aborto

2

2,6

SHG*

19

25

Uso de insulina

1

1,3

Sem intercorrências

48

63,2

*SHG- Síndrome Hipertensiva da Gestação; N= número absoluto de mulheres avaliadas. Fonte: Arquivo do autor.

A correlação entre as médias do IMC pré e gestacional e o desenvolvimento das SHG está descrita na tabela abaixo (Tabela 2). Tabela 2: Correlação entre as médias do IMC pré-gestacional e gestacional com o desenvolvimento de SHG, de mulheres analisadas do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (CISAM) no período de janeiro a dezembro de 2008. Hipertensão Variáveis

IMC pré-gestacional IMC gestacional

Sim

Não

Média ± DP

Média ± DP

31,2 ±

26,4 ±

6,482

4,768

35,0 ±

30,5 ±

6,020

4,708

(*) Teste t Student. Fonte: Arquivo do autor.

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p-valor *

< 0,001 < 0,001


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No entanto na avaliação da correlação entre a classificação do estado nutricional e o desenvolvimento das SHG , observou-se que apenas o estado nutricional pré-gestacional, demonstrou correlação positiva (p=0,014) (Gráfico 1).

Gráfico 1: Correlação entre a classificação do estado nutticional e o desenvolvimento das SHG de mulheres analisadas do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (CISAM) no período de janeiro a dezembro de 2008. • p<0,05 Correlação de Pearson

Discussão Amadei e Merino (2010), investigando a prevalência de hipertensão e fatores de risco de gestantes encontrou uma média do IMC de 26,6 Kg/m² em gestantes hipertensas o que representa um risco para o agravo da doença. Estes valores demonstraram também que as gestantes que tiveram esse aumento, obtiveram hipertensão, igualmente com o presente estudo, no qual as gestantes obesas desenvolveram

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hipertensão evidenciando a importância do controle do estado nutricional para prevenção do desenvolvimento da SHG. Vittore et al. (2011), avaliando uma amostra representativa de todas as gestantes atendidas no pré-natal da rede SUS no Município do Rio de Janeiro e abordando a adequação do manejo durante o pré-natal das gestantes com hipertensão arterial e os fatores associados ao manejo inadequado, verificaram que o estado nutricional pré-gestacional encontrado de algumas gestantes foi de 74,1% de sobrepeso e obesidade numa amostra de 187 gestantes, valores próximos aqueles encontrados nesse estudo. Entre as complicações fetais encontradas nas SHG está à redução do suprimento de oxigênio e nutrientes, que pode levar a baixo peso ao nascer é um dos riscos que o RN pode apresentar. A Organização Mundial as Saúde (OMS, 1997), define como baixo peso ou peso insuficiente, um peso < 2.500g. Ferrão et. al. (2006), comparando as intercorrências clínicas materno-fetais com a efetividade do tratamento entre grupos das síndromes hipertensivas na gestação, encontraram menor peso nos RN´s (16%) nas gestantes portadoras de hipertensão gestacional em relação ao caso controle. Carvalho et. al. (2008), com o objetivo de descrever os resultados perinatais em gestantes hipertensas e normotensas atendidas em um hospital de Minas Gerais, encontraram 12% de baixo peso dos RN em gestantes portadoras de hipertensão. No estudo de Stein-Backes; Flores-Soares (2008), citado anteriormente, foi verificado também uma relevante prevalência de hipertensão gestacional (26,1%), concomitante a RN’s com baixo peso. Esses dados demonstram que a síndrome hipertensiva da gestação associa com piores resultados perinatais igualmente encontrado no presente estudo.

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Conclusão Com base nos resultados obtidos, fica evidente que os erros alimentares, consequentemente o excesso de peso pré-gestacional, gestacional e o diabetes, predispuseram as mulheres estudadas a desenvolverem síndrome hipertensiva da gestação, bem como outras patologias maternas, que podem prejudicar o prognóstico materno e fetal. Desta forma, reforça-se a importância de um acompanhamento nutricional de mulheres em períodos reprodutivos, com o objetivo de promover um peso adequado e uma alimentação equilibrada, evitando assim o aparecimento de complicações numa possível gravidez. Além disso, ressalta-se que o nutricionista deve estar inserido na equipe multidisciplinar da assistência pré-natal proporcionando a saúde do binômio mãe-filho.

Considerações finais Os dados coletados no presente trabalho, através de análises e inferências, permitem algumas considerações finais sobre o tema estudado: • A Síndrome Hipertensiva é uma desordem que acarreta múltiplas intercorrências maternas e fetais, e quando associada com o Diabetes Gestacional aumenta ainda mais a probabilidade do desenvolvimento das mesmas, portanto as mulheres portadoras dessa doença devem ser acompanhadas por uma equipe multiprofissional qualificada, para que seja realizado um acompanhamento criterioso da gestação, evitando a ocorrência de outras patologias;

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• O nutricionista inserido na equipe pré-natal deve estar atento ao acompanhamento do estado nutricional de gestantes, através de dados clínicos, antropométricos, nutricionais e bioquímicos, principalmente daquelas que possuem outros fatores de risco, prevenindo o desenvolvimento das síndromes específicas da gestação; • Torna-se importante a intervenção nesse grupo de gestantes, através de educação nutricional e em saúde por parte de toda equipe do pré-natal.

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Resumo

O presente artigo tem por objetivo investigar como a resiliência é estudada e aplicada na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) visando á prevenção e promoção da saúde mental. A pesquisa bibliográfica utilizou-se de materiais cujas temáticas versam sobre a TCC, psicologia positiva, conceitualização de casos e resiliência. No presente estudo, o conceito de resiliência foi investigado como uma habilidade a ser desenvolvida na prevenção e promoção da saúde mental, no treinamento de habilidades sócio-emocionais, a partir da psicoeducação e da conceitualização de casos na TCC. Quando a construção da resiliência é um objetivo explícito da terapia na TCC, cliente e terapeuta têm a possibilidade de desenvolver planos proativos utilizando os pontos fortes identificados, melhorando o bem-estar e promovendo a saúde mental. Nesse sentido, estudar a resiliência torna-se um desafio ao novo milênio, reafirmando sua importância no cenário de novos horizontes para as pesquisas atuais. Palavras-chave: terapia cognitivo-comportamental; resiliência; psicoeducação; saúde mental; psicologia positiva. Abstract

This article aims to investigate how resilience is studied and applied in Cognitive-Behavioral Therapy (CBT) aiming at the prevention and promotion of mental health. The bibliographic research was made using materials whose themes deal with CBT, positive psychology, case conceptualization and resilience. In the present study, the concept of resilience was investigated as a skill to be developed in the prevention and promotion of mental health, in the training of socio-emotional abilities, from psychoeducation and the conceptualization of cases in CBT. When building resilience is an explicit goal of CBT therapy, client and therapist have the ability to develop proactive plans using identified strengths, improving well-being and promoting mental health. In this sense, studying resilience becomes a challenge to the new millennium, reaffirming its importance in the scenario of new horizons for current research. Palavras-chave: cognitive-behavioral therapy; resilience; psychoeducation; mental health; positive psychology.


A TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL E A RESILIÊNCIA NA PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE MENTAL Ana Paula Monteiro Ferreira Ximenes1 Patrícia Guimarães Interaminense2

INTRODUÇÃO O presente artigo trata de um tema bastante atual, a resiliência. Este termo foi inicialmente utilizado nas ciências exatas, em especial pelo cientista inglês Thomas Young e tem por significado original “a capacidade de um material absorver energia sem sofrer deformação plástica ou permanente” (YUNES, 2003, p. 77). Entretanto, as ciências humanas e da saúde têm cada vez mais adotado este conceito para a compreensão do fenômeno humano e das habilidades desenvolvidas para a prevenção e promoção de saúde. O estudo da resiliência, nos meios acadêmicos, tem sido utilizado em linhas de pesquisa, cujo objetivo é entender a relação entre o contexto sócio-histórico, culturale como as pessoas em condições de vulnerabilidade social e precário acesso aos serviços públicos, conseguem superar tais dificuldades, mantendo-se fortes o suficiente para não sucumbir às adversidades. Contudo, o presente artigo trilha um percurso diferente. Pretende-se analisar a resiliência como ferramenta para a promoção de saúde na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). A motivação para a elaboração do presente estudo surgiu dentro

1. Psicóloga; Doutora em Psicologia Cognitiva (UFPE); Psicóloga clínica; Terapeuta Cognitivo- Comportamental;Professora e membro do Núcleo Docente Estruturante do Curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda – FACHO;Terapeuta Cognitivo-Comportamental; e-mail:apmf.x@terra.com.br. 2. Psicóloga; Mestre em Psicologia (UFPE); Psicóloga clínica; Terapeuta Cognitivo-Comportamental; Professora da Faculdade Estácio do Recife; e-mail: patricia.interaminense@gmail.com. 71


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da experiência das autoras com a modalidade terapêutica supracitada e o interesse no estudo da resiliência, chegando ao seguinte problema de pesquisa: A resiliência pode se tornar uma habilidade de promoção e prevenção da saúde mental na TCC? Segundo Beck (2013), a Terapia Cognitivo-Comportamental é uma psicoterapia estruturada, de curta duração, voltada para o presente, direcionada para a solução de problemas atuais e a modificação de pensamentos e comportamentos disfuncionais. O termo vem sendo utilizado para um grupo de técnicas nas quais há a combinação da abordagem cognitiva e de um conjunto de procedimentos comportamentais (KNAPP, BECK, 2008). O princípio fundamental da TCC, derivado do Estoicismo, é de que os seres humanos são perturbados pelos significados que atribuem aos fatos, e não pelos fatos em si, ou seja, a maneira como os indivíduos percebem e interpretam a realidade influenciará nos seus sentimentos e comportamentos. Paralelamente à TCC, o estudo da resiliência tem sido bastante explorado pela Psicologia positiva, abordagem cujo enfoque científico se aplica na focalização dos pontos fortes do cliente, dentro do desenvolvimento de um funcionamento saudável (SNYDER; LOPEZ, 2009). A partir do estudo aprofundado da TCC na interface com a Psicologia positiva, a resiliência será o objeto da presente pesquisa, cujo objetivo geral é: estudar a resiliência como habilidade de promoção e prevenção da saúde mental na TCC. Como objetivos específicos: (i) compreender o que é resiliência; (ii) investigar como a resiliência é estudada e aplicada na TCC, visando à prevenção e promoção da saúde mental; e por fim (iii) identificar possíveis relações entre resiliência e psicoeducação na TCC. Considera-se na presente pesquisa que o ser humano, ao longo do seu desenvolvimento, enfrenta desafios e dificuldades que poderão prejudicar sua saúde mental, sendo a resiliência uma habilidade do indivíduo para lidar com o estresse e as adversidadespodendo ser um instrumento de promoção e prevenção da saúde mental na TCC. Sendo assim, pretende-se contribuir no campo da psicologia e da educação no treinamento e desenvolvimento de habilidades sócio-emocionais na prevenção e promoção da saúde mental, a partir do desenvolvimento da resiliência.

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INTRODUÇÃO Contextualização da TCC: um percurso histórico Historicamente, a Terapia comportamental (TC) passou por evoluções, as quais hoje denomina-se de primeira, segunda e terceira ondas. Segundo Hayes (2004), a fase inicial do desenvolvimento da TC, ou primeira onda, surgiu dentro de um movimento revolucionário na Psicologia clínica, visto que os conceitos e fundamentos da época não tinham um embasamento científico, ou dados de pesquisa que pudessem fundamentar a terapia.Na época, a psicanálise foi bastante criticada, principalmente por suas interpretações fantasiosas que nada tinham de científicas, tendo como exemplo o caso do Pequeno Hans que poderia ter sido interpretado pelo desenvolvimento de uma fobia específica a cavalos pela criança e não necessariamente como foi elaborado pelos psicanalistas. A primeira onda da Terapia Comportamental se caracteriza, principalmente, pelos conceitos básicos do behaviorismo, condicionamentos clássico e operante da aprendizagem (BARBOSA; MURTA, 2014). A segunda onda ergueu-se à medida que os conceitos de condicionamento clássico e operante não conseguiam mais dar conta de toda complexidade da cognição humana. O foco do tratamento que antes estava centrado na modificação do comportamento agora passou a se centrar na modificação do conteúdo de pensamentos e sentimentos, sendo Aron T. Beck um de seus maiores expoentes (BARBOSA; MURTA, 2014). A TCC, inicialmente denominada Terapia Cognitiva, foi desenvolvida por Aaron Beck na década de 60 para o tratamento da depressão. É uma modalidade psicoterápica de curta duração, cujo objetivo se foca no presente para a resolução de problemas e a modificação de comportamentos e pensamentos disfuncionais (BECK, 2013; WRIGHT, BASCO, THASE, 2008). Segundo os autores supracitados, o curso de tratamento se baseia na compreensão das crenças e padrões de pensamentos do cliente, dando ênfase às mudanças dos pensamentos que são disfuncionais e dessa forma podem produzir padrões de comportamentos indesejáveis ou que geram algum tipo de sofrimento.

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O processamento cognitivo é baseado em um modelo que abarca três elementos fundamentais: (i) a situação/evento; (ii) pensamentos automáticos e a (iii) reação (emocional, comportamental, fisiológica). Esse modelo é baseado na premissa de que “[...] as emoções, os comportamentos e a fisiologia de uma pessoa são influenciados pelas percepções que ela tem dos eventos” (BECK, 2013, p. 50). Portanto, é crucial checar a interpretação que o cliente dá às situações, visto que o evento em si não é determinante para desencadear reações indesejadas, mas sim a percepção deles. A TCC parte de 10 princípios básicos. O primeiro diz que a Terapia cognitivo-comportamental “está baseada em uma formulação em desenvolvimento contínuo dos problemas dos clientes e em uma conceitualização individual de cada cliente em termos cognitivos” (BECK, 2013, p. 27). A TCC se foca em problemas. Nas sessões iniciais o terapeuta encoraja seu cliente a enumerar os problemas que o levou à terapia e conjuntamente elaborar metas específicas para a resolução de cada um desses problemas. Esse trabalho inicial tem o objetivo esclarecer, para ambos, como se dará a “caminhada” terapêutica e para onde ela se dirigirá, em termos de metas e objetivos. Entretanto, para planejar a referida caminhada, é preciso estabelecer uma aliança com o cliente que seja sólida e terapêutica. Sendo assim, o terapeuta demonstra seu interesse, afeto, atenção, empatia e a competência técnica e teórica para lidar com a demanda do cliente (BECK, 2013). A TCC é orientada para o tempo presente, ou seja, o foco se dá nos problemas atuais. Nessa mesma direção, vale ressaltar que a modalidade psicoterápica tem o objetivo de ser limitada no tempo, ou seja, há um número de sessões previamente delimitadas, não como método a ser seguido à risca, mas como um planejamento prévio que direcionará as condutas e intervenções terapêuticas. Ser limitada no tempo só faz sentido, posto que a terapia se propõe a ser educativa, portanto, ensina o cliente a ser seu próprio terapeuta e dessa forma estar sempre atento para não ter recaídas. A psicoeducação questiona os tratamentos chamados convencionais, em que o cliente é passivo para tornar-se coparticipante do tratamento terapêutico, sujeito ativo e fundamental nesse processo.

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Nessa direção, a TCC enfatiza a atuação colaborativa do cliente, encorajando-o. Nas sessões iniciais o próprio terapeuta delimita os pontos a serem trabalhados e discutidos, mas à medida que o cliente demonstra avanços, o terapeuta pode conceder mais independência ao cliente, para também participar e direcionar a terapia, elegendo as prioridades a serem assistidas em cada sessão. “A terapia cognitivo-comportamental ensina os clientes a identificar, avaliar e responder aos seus pensamentos e crenças disfuncionais” (BECK, 2013, p. 30). Vale ressaltar que a TCC propõe desenvolver sessões estruturadas. Inicialmente avalia-se o humor, um exame da semana, os exercícios de casa, dando seguimento faz-se uma discussão dos problemas, elaboração de novos exercícios e por fim um feedback, o que propicia uma adesão melhor ao tratamento (BECK , 2013). Enfim, enfatiza-se que a TCC lança mão de uma variedade de técnicas com finalidade de modificação de pensamentos, comportamento e humor. Além das conhecidas técnicas como a descoberta guiada e questionamento socrático a nível cognitivo, utilizam-se de várias estratégias comportamentais e inclusive, técnicas de outras abordagens que podem ser aplicadas e contextualizadas de acordo com a demanda terapêutica (BECK, 2013). Retomando o processo histórico, a partir dos anos 2000, compreende-se o que se chama de terceira onda das TCs. Partindo de debilidades das duas primeiras, a terceira onda foca nos aspectos cognitivos, a ênfase que anteriormente era o conteúdo muda para dar realce ao contexto dos sentimentos, pensamentos e comportamentos (HAYES, 2004; BARBOSA; MURTA, 2014). Nesse sentido, a terceira onda buscará epistemologias outras, como por exemplo, releituras do behaviorismo radical, modelos cognitivos menos lineares, construtivismo cognitivo, entre outras, que ao contrário de persistirem na modificação de pensamentos/comportamentos, partem da prerrogativa de que os pensamentos não devem controlar a ação e as pessoas devem agir de acordo com seus valores (VANDENBERGUE; SOUSA, 2006). Entre as principais vertentes da terceira onda estão a redução do estresse baseada em mindfulness, a terapia de aceitação e compromisso e a terapia do comportamento dialético (HAYES, 2004; BARBOSA; MURTA, 2014).

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Mindfulness é um método terapêutico bastante utilizado na medicina oriental e tem origem nas práticas de meditação. Na década de 90, despertou o interesse de profissionais de saúde e hoje faz parte do programa de redução de estresse elaborado pelo médico Jon Kabat-Zinn. Mindfulness é um termo que designa um estado de atenção plena, concentração no momento atual, conexão com o presente, sem estar preso ao passado ou pensamentos futuros que geram algum tipo de ansiedade (VANDENBERGUE; SOUSA, 2006). Segundo Vandenbergue e Sousa (2006), o mindfulness parte do pressuposto de que as pessoas vivem tão atarefadas que não têm tempo para conectar-se consigo mesmas. Logo, é preciso sair do “piloto automático”, fruto do estilo de vida moderno e urbano, uma vez que este estado leva a um padrão de funcionamento rígido e limitado. Um dos motivos desse estilo de vida “automático” está no fato de que as pessoas não conseguem lidar com assuntos, pensamentos ou situações que podem torná-los tristes, envergonhados ou inseguros. Muito pelo contrário, a lógica é tentar se blindar do “mal”. Na contramão desse ciclo nada saudável, há a abordagem denominada terapia de aceitação e compromisso (ACT), que propõe o desenvolvimento de atitudes para aceitação de pensamento e emoções, tais quais são e não como gostaríamos que fossem. Assim, as pessoas poderiam agir produtivamente frente aos desafios diários. Considerando que o ser humano ao longo do seu desenvolvimento enfrenta desafios e dificuldades que poderão prejudicar sua saúde mental, a resiliência enquanto habilidade do indivíduo para lidar com o estresse e as adversidades pode ser utilizada na promoção e prevenção da saúde mental. A ênfase será dada ao crescimento e desenvolvimento de habilidades sócio-emocionais, potencializando as qualidades humanas e a resiliência. Ao defender esse foco nas qualidades, não se pretende com isso, diminuir a importância e a dor associadas ao sofrimento humano, mas buscar uma visão mais equilibrada e completa do funcionamento humano, através da psicologia positiva, “que é o enfoque científico e aplicado da descoberta das qualidades das pessoas e da promoção de seu funcionamento positivo” (SNYDER; LOPES, 2009, p. 17). Esse será o tema abordado a seguir.

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Resiliência: uma discussão para o novo milênio As mudanças cada vez mais rápidas e profundas na modernidade exigem constantes esforços de adaptação, em que conflitos e dificuldades devem ser enfrentados pelo indivíduo ao longo do desenvolvimento. Segundo Taboada, Legal e Machado (2006) observa-se que no campo das ciências humanas e da saúde uma mudança de paradigma tem se erguido. Se antes o foco era voltado para as patologias, doenças mentais e carências humanas, atualmente é necessário, face à necessidade de adaptação do ser humano, o estudo para as potencialidades e habilidades visando compreender a saúde mental. Então surge uma questão: Como algumas pessoas conseguem enfrentar situações adversas ao desenvolvimento humano? Um novo constructo em desenvolvimento tem sido estudado pela psicologia: a resiliência. A noção de resiliência vem sendo utilizada há muito tempo pela física e engenharia, sendo um dos precursores o cientista inglês Thomas Young, em 1807. Nesse contexto, refere-se “a capacidade de um material absorver energia sem sofrer deformação plástica ou permanente” (YUNES, 2003, p. 77). A autora ressalta que a resiliência como um constructo psicológico é relativamente recente, sendo pesquisada há cerca de 40 anos. Segundo Yunes (2015, p. 93-94), resiliência é um constructo claramente inserido no movimento da psicologia positiva e refere-se “a um conjunto de processos de vida que possibilitam o enfrentamento de situações de sofrimento com conseqüente fortalecimento, transformação pessoal/coletiva/cultural e superação das adversidades”. Estudos mais recentes (MARTINEAU, 1999, RUTTER, 1999, citado por YUNES, 2003) concebem as bases da resiliência resultante da interação entre bases constitucionais e ambientais. É contingente e provisória, imprevisível e dinâmica. Yunes (2003) ressalta o caráter processual da resiliência, ao focar na extensão e variedade das respostas psicológicas implicadas na questão e que concordamos com a autora. Portanto, seja o foco no indivíduo ou na família, a resiliência tem sido concebida como processos e condições que possibilitam a superação de situações de crise e adversidades, em crianças, adolescentes, adultos, idosos ou grupos familiares.

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Nesse sentido, corroboramos com a visão de Yunes (2003, 2005, 2015) ao sugerir cautela no uso do termo sem que se incorra em classificações ou rotulações ideologicamente determinadas. No presente estudo, o conceito de resiliência será investigado como uma habilidade a ser desenvolvida na prevenção e promoção da saúde mental, no treinamento de habilidades sócio-emocionais, a partir da psicoeducação e da conceitualização de casos na TCC, incorporando ativamente os pontos fortes do cliente na terapia, desenvolvendo dessa forma, a resiliência (KUYKEN, PADESKY, DUDLEY, 2010). A seguir, será delimitado o conceito no movimento da psicologia positiva, reafirmando sua importância no cenário de novos horizontes para pesquisas nas áreas das ciências humanas e da saúde, tornando a resiliência um desafio ao novo milênio.

A resiliência e a psicologia positiva na prevenção e promoção da saúde mental Concebemos nesse estudo, a resiliência como a capacidade do ser humano de se recuperar psicologicamente, quando é submetido às adversidades,violência e catástrofes na vida, entendida também como a capacidade ou habilidade de construir laços afetivos e profissionais e a construção de um projeto de vida (PINHEIRO, 2004). Nessa perspectiva a resiliência pode ser utilizada enquanto habilidade de prevenção e promoção da saúde mental, visando uma melhor qualidade de vida e crescimento pessoal, através do treinamento de habilidades socioemocionais. Segundo Seligman (1998, citado por SNYDER; LOPES, 2009, p.19), “os grandes avanços na prevenção vieram principalmente da construção de uma ciência voltada à promoção sistemática da competência dos indivíduos”. O desenvolvimento de qualidades humanas como: otimismo, habilidades interpessoais, esperança, perseverança, e honestidade seriam antídotos contra a doença mental. Explicando melhor, a psicologia positiva oferece uma visão mais equilibrada e mais completa do funcionamento humano ao potencializar e focar nas qualidades humanas, no que é bom e forte na humanidade e em nossos ambientes, junto com formas de cultivar e sustentar essas qualidades e recursos. 78


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Para Tavares (2001) tornar as pessoas mais confiantes e resilientes para enfrentar as adversidades da vida implica no conhecimento e desenvolvimento de suas capacidades, aceitando-as e confirmando-as positiva e incondicionalmente. Implicaria numa abertura a novas experiências, novos valores e flexibilidade à mudança. O conceito de resiliência como força necessária para a saúde mental durante a vida, segundo Trombeta e Guzzo (2002) pode ter sua origem na teoria do Apego de Bowlby. O surgimento da resiliência teria origem nas primeiras experiências emocionais positivas da criança com a mãe, o pai e outros cuidadores, contribuindo para a formação de personalidades saudáveis e resilientes. Há um ponto em comum entre os pesquisadores que estudam a resiliência, qual seja, é processo psicológico que se desenvolve ao longo da vida, a partir do binômio fatores de risco x fatores de proteção (PINHEIRO, 2004). Podemos fazer uma analogia com uma balança equilibrada: de um lado os eventos estressantes, ameaças, sofrimento, perigos e condições adversas que podem tornar o indivíduo vulnerável, e de outro, as forças, competências, o sucesso e capacidade de reação e enfrentamento ás adversidades. Quando se trata de riscos psicossociais ou socioculturais, retomamos Yunes (2001) que sugere uma análise criteriosa dos processos ou mecanismos de risco considerando a diversidade de respostas que podem ser encontradas sem que se utilize de classificações ou rotulações ideologicamente determinadas. Os fatores de proteção, segundo Pinheiro (2004) estariam localizados: a) no próprio indivíduo: (expectativa de sucesso no futuro, senso de humor, otimismo, assertividade, estabilidade emocional, habilidades para resolver problemas, boa auto-estima, avaliação das experiências como desafios e não como ameaças); b) nas condições familiares (boa comunicação com os filhos, qualidade das interações, pais amorosos); c) nas redes de apoio do ambiente (reconhecimento e aceitação, com limites definidos e realistas e tolerância ao conflito). A autora ressalta que os estilos parentais que foquem na rotina e consistência na vida da criança com o apoio seguro e limites claros e bem definidos podem ser considerados como fatores de proteção e facilitador da resiliência.

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Uma questão interessante das pesquisas recentes sobre resiliência trazida por Pinheiro (2004) versa sobre a reflexão e interpretação dada pelo indivíduo acerca das adversidades, sendo considerada até como mais significativa que os fatores de risco. Assim, a percepção da realidade objetiva, da situação causadora de estresse associado à interação do indivíduo com o ambiente influenciará na resiliência. Podemos fazer um link com a TCC: não são os fatos em si, mas a forma como interpretamos os fatos e acontecimentos é que pode causar pensamentos e crenças disfuncionais, através das distorções cognitivas. Quando o indivíduo aprende a interpretar situações e pensamentos de forma mais realista e funcional, obtém um melhor equilíbrio emocional que irá refletir na sua vida, desenvolvendo qualidades e tornando-se resiliente, atribuindo um sentido a própria existência, através de projetos de vida e boas expectativas com o futuro. Diante do que foi exposto, ratifica-se o enfoque do presente estudo: a resiliência enquanto habilidade de promoção e prevenção da saúde mental podendo ser desenvolvida na TCC, através da psicoeducação incorporando os pontos fortes do cliente às suas dificuldades atuais, desenvolvendo assim a resiliência nas conceitualizações cognitivas. Assim, as teorias da resiliência em TCC (SNYDER; LOPES, 2009; KUYKEN et al. 2010) são destacadas e elaboradas durante o processo de conceitualização focando nos pontos fortes do cliente, que ás vezes ele próprio desconhece, desenvolvendo a resiliência, á medida em que ele transfere as habilidades das áreas fortes para manejar ás áreas de dificuldade com maior facilidade. Os autores acima enfatizam o desenvolvimento da resiliência como um objetivo da terapia na TCC, que será abordado a seguir.

Resiliência e psicoeducação na TCC Segundo (KUYKEN et al., 2010), um objetivo primário da conceitualização de caso na TCC é o desenvolvimento da resiliência, através da incorporação dos pontos fortes para se adaptarem aos desafios em busca de uma melhor saúde mental.

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A psicoeducação, ferramenta poderosa e específica da TCC, tem como principal objetivo tornar seu cliente seu próprio terapeuta, visando seu crescimento, desenvolvimento e autonomia. Corroboramos com os autores acima citados, pois o processo terapêutico pode ser mais efetivo na TCC quando os pontos fortes do cliente estiverem especificamente vinculados à resiliência. Outros autores como Mooney e Padesky (2002), Padesky (2005), Padesky e Mooney (2006) já utilizam modelos de TCC que integram a identificação dos pontos fortes e a resiliência do cliente na prática clínica da TCC. A identificação e o trabalho com os pontos fortes iniciam na avaliação juntamente com os objetivos definidos entre terapeuta e cliente e continuam em cada nível daconceitualização. Os processos comportamentais e cognitivos que se mostraram úteis no passado poderão ser utilizados novamente. A identificação das qualidades positivas ou pontos fortes podem servir como base para o desenvolvimento da resiliência, através de uma recuperação duradoura e participação integral na vida do cliente. Daí a importância de estar consciente das habilidades à disposição quando se enfrentam dificuldades. Isso é possível através da psicoeducação. A conceitualização descritiva incorporando os pontos fortes do cliente explicita como os pensamentos positivos, as emoções e as reações corporais são mutuamente reforçadores e conduzem a um comportamento adaptativo. Como os terapeutas poderiam favorecer o desenvolvimento da resiliência na TCC? Identificando valores e objetivos que lhes possibilitem levar vidas mais significativas, através do novo aprendizado, do reforço positivo dos pontos fortes, do incentivo aos valores positivos do cliente e da formação de relacionamentos sociais saudáveis, capturando pensamentos relacionados a essas situações. Também é possível o uso de metáforas, histórias e imagens provenientes do cliente visando à compreensão das crenças centrais resilientes, dos pressupostos subjacentes, das respostas emocionais e estratégias comportamentais que definem a resiliência, bem como do uso de técnicas usadas na TCC, como por exemplo, a descoberta guiada. Segundo Kuykenet al. (2010, p. 127) os terapeutas podem fazer perguntas aos clientes relacionadas á resiliência, como por exemplo: “idealmente,

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que qualidades você gostaria de apresentar diante desses obstáculos? Se você conseguisse se sair bem da melhor maneira que imaginar, o que você estaria pensando, sobre você, os outros e o mundo? Outro aspecto, também importante no desenvolvimento da resiliência, são os valores pessoais e culturais, entendidos como crenças, relativamente duradouras, sobre si e sobre o mundo e que modelam as escolhas e os comportamentos das pessoas. Estes, em geral, potencializam o funcionamento saudável do cliente, visto que funcionam como base de informação sobre o direcionamento das escolhas e do comportamento que os clientes esperam desempenhar (KUYKE; PADESKY; DUDLEY, 2010). Segundo Masten (2001), resiliência consiste em um fenômeno caracterizado por bons resultados em detrimento de sérias ameaças à adaptação ou desenvolvimento do indivíduo. A autora afirma que a resiliência não é um processo extraordinário, contudo surge dentro do desenvolvimento normativo dos sistemas adaptativos na espécie humana, sendo uma habilidade que pode prevenir o surgimento de psicopatologias. Ao realizar uma varredura nos estudos sobre o tema, a referida autora chega à conclusão de que existem características e atributos específicos para o desenvolvimento da resiliência, quais sejam, habilidades cognitivas de autorregulação, visões positivas de si mesmo e motivação para ser eficiente no ambiente. Em geral, as pessoas que enfrentam as adversidades de forma resiliente costumam ter posicionamentos mais assertivos diante dos desafios diários. As pessoas desenvolvem estratégias comportamentais como, persistir diante dos desafios, cognitivas, como ser eficaz na resolução de problemas ou buscar aceitação, emocionais ou até físicas, ao aderir hábitos saudáveis no cotidiano (KUYKE; PADESKY; DUDLEY, 2010). Dessa forma, quando a construção da resiliência é um objetivo explícito da terapia na TCC, cliente e terapeuta tem a possibilidade de desenvolver planos proativos utilizando os pontos fortes identificados para estimular e desenvolver a resiliência, melhorando o bem-estar e promovendo a saúde mental. A resiliência não se resume a ter pontos fortes. Estes são atributos de uma pessoa, suas qualidades positivas

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ou circunstâncias protetoras para resolver problemas, enquanto a resiliência é o processo psicológico em que os pontos fortes possibilitam a adaptação durante as adversidades (MASTEN, 2001).

Considerações finais Mudanças cada vez mais rápidas e profundas na modernidade exigem constantes esforços de adaptação, em que conflitos e dificuldades devem ser enfrentados pelo indivíduo ao longo do desenvolvimento. Observa-se no campo das ciências humanas e da saúde uma mudança de paradigma: se antes o foco era voltado para as patologias, doenças mentais e carências humanas, atualmente é necessário, face à necessidade de adaptação do ser humano, o estudo para as potencialidades e habilidades visando compreender a saúde mental. Daí surge uma questão: Como algumas pessoas conseguem enfrentar situações adversas ao desenvolvimento humano? Um novo constructo em desenvolvimento tem sido estudado pela psicologia: a resiliência. No presente estudo, o conceito de resiliência foi investigado como uma habilidade a ser desenvolvida na prevenção e promoção da saúde mental, no treinamento de habilidades sócio-emocionais, a partir da psicoeducação e da conceitualização de casos na TCC, incorporando ativamente os pontos fortes do cliente na terapia (KUYKENet al. 2010). O desenvolvimento de qualidades humanas como: otimismo, habilidades interpessoais, esperança, perseverança, e honestidade seriam antídotos contra a doença mental. Assim, a psicologia positiva oferece uma visão mais equilibrada e mais completa do funcionamento humano ao potencializar e focar nas qualidades humanas, no que é bom e forte na humanidade e em nossos ambientes, junto com formas de cultivar e sustentar essas qualidades e recursos. Demonstrou-se que a resiliência não necessariamente é um processo resultante de condições inatas, uma vez que o indivíduo pode aprender a interpretar situações e pensamentos de forma mais realista e funcional, obtendo-se um melhor equilíbrio emocional que refletirá na sua vida, desenvolvendo qualidades e tornando-se resiliente, atribuindo um sentido a própria existência, através de projetos de vida e

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boas expectativas com o futuro. Dessa forma, a resiliência enquanto habilidade de promoção e prevenção da saúde mental poderá ser desenvolvida na TCC, através da psicoeducação, incorporando os pontos fortes do cliente às suas dificuldades atuais, sendo desenvolvida naconceitualizaçãode casos. Portanto, quando a construção da resiliência é um objetivo explícito da terapia na TCC, cliente e terapeuta têm a possibilidade de desenvolver planos proativos utilizando os pontos fortes identificados para estimular e desenvolver a resiliência, melhorando o bem-estar e promovendo a saúde mental.

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Resumo

O tema trata da inovação tecnológica trazendo-a para o seio das organizações, sob a ótica das estratégias competitivas. Iniciando com uma retrospectiva das revoluções tecnológicas havidas ao longo da história, constata-se que a inovação representa a pedra de toque deste processo, induzindo os agentes econômicos a se moverem no sentido de se apropriar da tecnologia daí resultante e propiciando novas opções para os consumidores. A empresa que não inova apresenta baixa competitividade, sendo fundamental para a sustentabilidade de seus negócios a visão correta de quais estratégias podem levá-la a adquirir vantagem competitiva. Palavras-chave: tecnologia; inovação; estratégias competitivas. Abstract

Abstract: The theme deals with the technological innovation bringing it to the bosom of the organizations, from the perspective of the competitive strategies. Starting with a retrospective of the technological revolutions that have taken place throughout history, innovation is the cornerstone of this process, inducing the economic agents to move in order to appropriate the resulting technology and providing new options for consumers. The company that does not innovate presents low competitiveness, being essential for the sustainability of its businesses the correct vision of which strategies can take it to gain competitive advantage. Keywords: technology; innovation; competitive strategies.


TECNOLOGIA, INOVAÇÃO E COMPETITIVIDADE Ítalo de Medeiros Brito1

INTRODUÇÃO Nunca foi tão premente as organizações pensarem e maturarem a ideia da inovação. Em um mundo que caminha para a exaustão dos recursos naturais, quer decorrente do crescimento desordenado dos aglomerados urbanos, quer da falta de políticas governamentais de controle de natalidade, as organizações são instadas a responder com criatividade aos problemas decorrentes do velho dilema: demanda x suprimento. A situação é, ainda, agravada, sobremaneira, pelo fato do ser humano encarar seu papel na condução da vida na Terra de forma antropocêntrica, dilapidando o meio ambiente e exaurindo os recursos naturais. Partindo dessas premissas, este artigo aborda a ideia da inovação da tecnologia, a partir da mudança de paradigmas, ao longo da história do homem em nosso planeta, trazendo à baila a questão da inovação no ambiente organizacional e apontando formatos estratégicos que poderão ser adotadas no sentido da entropia negativa dessas organizações. Trata-se de uma pesquisa de revisão bibliográfica e o desenvolvimento do trabalho compõe-se de três partes. Na primeira delas, intitulada A tecnologia e suas (r)evoluções, traça-se um panorama das revoluções agrícola, industrial e da informação, e as mudanças de paradigmas daí resultantes.

1. Advogado e mestre em gestão pública e professor universitário da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda, e-mail: imbrito1@gmail.com 87


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Já na segunda parte, denominada Tipos e fontes de inovações organizacionais, utiliza-se da classificação elaborada por Freeman (apud TIGRE, 2006) para tratar dos tipos de inovações e elenca-se as principais fontes internas e externas às organizações de onde provêm as informações necessárias para embasar a produção de tais inovações. E, no último tópico, que recebeu o nome de Inovação e estratégias competitivas, explana-se as estratégias, singulares ou de forma combinada, adotadas pelas empresas para se posicionarem no ambiente econômico em que atuam, em vistas à manutenção do seu status quo e do improvement de sua competitividade. Nas considerações finais, ressalta-se a importância da escolha acertada de uma estratégia competitiva pela empresa, em vistas à sustentabilidade de suas atividades.

A TECNOLOGIA E SUAS (R)EVOLUÇÕES Uma tentativa de pontuar historicamente acontecimentos que levaram a rupturas de paradigmas tecnológicos identifica três marcos: o agrícola, o industrial e o da informação. Nas palavras de Christopher Freeman: — Um paradigma econômico e tecnológico é um agrupamento de inovações técnicas, organizacionais e administrativas inter-relacionadas cujas vantagens devem ser descobertas não apenas em uma nova gama de produtos e sistemas, mas também e sobretudo na dinâmica da estrutura dos custos relativos de todos os possíveis insumos para a produção. (...). (Apud CASTELLS, 1999, p. 77.). —

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As inovações trazidas por estes modelos implicaram em mudanças tão significativas nos campos: social, político, cultural, institucional e jurídico, que se costuma falar em revoluções tecnológicas2. A primeira delas, a chamada Revolução Agrícola, se deu no período neolítico, que começou por volta de 10.000 a.C. O homem passa à vida sedentária, dando início a uma agricultura rudimentar, com a utilização de alguns apetrechos como a enxada e o arado. A terra passa a ser a geradora direta da riqueza do homem, como consequência do domínio deste sobre o meio ambiente. O segundo marco tecnológico, que consistiu na passagem do sistema de produção agrária para a produção em massa, recebeu o nome de Revolução Industrial. Esta mudança ocorreu principalmente na Europa, com a descoberta de novas fontes de energia, há aproximadamente 300 anos. É tanto que a Revolução Industrial tem como ponto de partida a invenção da máquina a vapor em 1776. Darcy Ribeiro denomina este período de: — Revolução Urbana, fundada em novos progressos produtivos com a agricultura de regadio, a metalurgia e a escrita, que conduziu à dicotomização interna das sociedades numa condição rural e numa condição urbana e à sua estratificação em classes sociais, além de outras profundas mudanças na vida social e no patrimônio cultural das sociedades que atingiu. (RIBEIRO, 1985, p. 47). —

Este modelo sofreu uma ruptura a partir da década de 50, do século XX, com o surgimento dos primeiros computadores comerciais, dando origem à Revolução da Informação.

2. Definimos tecnologia como um conjunto de conhecimentos, tanto diretamente ´práticos` (relacionados com problemas e dispositivos concretos) quanto ´teóricos` (mas aplicáveis à prática, mesmo que não necessariamente já aplicados), know-how, métodos, procedimentos e experiência de sucesso e fracassos e também, naturalmente, dispositivos e equipamentos físicos. (...). (DOSI, G. apud ROSENTHAL e MEIRA, 1995. p. 77.). 89


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Neste contexto, a informação e o conhecimento passam a ser os principais meios de geração da riqueza, como o fora o capital e as máquinas na Revolução Industrial. O trabalho, proporcionado pela força física, passa a ser realizado preponderantemente pelo cérebro. É importante, desde já, conceituar informação, pois os elementos: dado, informação e conhecimento são utilizados, muitas vezes, indistintamente. A informação constitui a base das relações humanas e sociais na sua expressão mais imediata. O conceito de informação pressupõe um estado de consciência sobre fatos ou dados, ou seja, um esforço intelectual que permita transformá-los em percepção e entendimento. Já o conceito de conhecimento transcende este plano, consistindo em extrapolar os fatos e retirar daí conclusões originais. Fazendo um contraponto entre as três revoluções, em relação à velocidade com que os fatos aconteceram, Marco Antônio Melo esclarece: — Hoje, a humanidade, atônita, se vê diante da incrível velocidade das mudanças. A primeira levou um pouco mais de 9.000 anos; a segunda cerca de três séculos e agora pouco mais de 45 anos. Estamos frente a uma nova mudança, tão profunda, que arriscamos afirmar que nos encontramos diante de uma nova civilização. A civilização da Revolução Digital, tendo a América do Norte como palco principal deste novo período, chamado, por muitos, de Sociedade Pós-Industrial. (FERREIRA DE MELO, 2000, p.22) —

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TIPOS E FONTES DE INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS No Manual de Frascati 2002, elaborado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), as atividades de inovação3 tecnológica são descritas como — (...) o conjunto de diligências científicas, tecnológicas, organizacionais, financeiras e comerciais, incluindo o investimento em novos conhecimentos, que realizam ou destinam-se a levar à realização de produtos e processos tecnologicamente novos e melhores. P&D é apenas uma dessas atividades e pode ser realizada em diferentes estágios do processo de inovação, sendo usada não apenas como uma fonte de ideias inventivas, mas também para resolver os problemas que possam surgir em qualquer etapa do processo, até a sua conclusão. (OCDE, 2013, p. 23). —

Esta definição vem ao encontro da concepção schumpeteriana que associa inovação a tudo que diferencia e cria valor a um negócio, sendo adequado para tratar do tema no ambiente organizacional. (TIGRE, 2006). Sendo assim, pode-se de maneira mais direta e quanto ao seu objeto, identificar uma inovação como um produto novo, ou ainda, aquele que teve uma melhora funcional significativa; processo tecnologicamente novo ou que foi modificado pela introdução de novas técnicas de produção; ou ainda, inovações organizacionais, decorrentes de redesenho de modelos gerenciais ou pela aplicação de técnicas que visem ao aumento da produtividade ou à melhoria da qualidade do trabalho de seus colaboradores.

3. Inovação, palavra derivada do termo latino innovatio e que significa novidade ou renovação. 91


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As mudanças tecnológicas são geralmente diferenciadas por seu grau de inovação e pelo impacto que provocam no estado da arte. Na taxonomia idealizada por Freeman (apud TIGRE, 2006), são identificados quatro níveis de inovações, segundo seus impactos no meio ambiente tecnológico. O menor nível de mudanças tecnológicas diz respeito às inovações incrementais. Correspondem a melhorias em relação ao desenho industrial ou à funcionalidade de produtos, racionalização de processos organizacionais, adoção de novas práticas na gestão de produção. Este tipo de inovação é percebido em qualquer organização, especialmente as de manufaturas, e ocorrem de forma contínua, por mais lentas que pareçam, visando à sincronia entre suprimento e demanda. As práticas que daí decorrem estão muito mais ligadas à heurística, do que a investimentos na área de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Não há organização que não inove de forma incremental, por mínimo que seja. O nível subsequente é representado pelas inovações radicais que implicam em um gap em relação ao padrão tecnológico vigente. Neste caso, a atividade de P&D está presente e diferentemente da categoria incremental, há uma intermitência em se tratando de tempo e de gêneros de atividades nas quais estas inovações irão surgir. Como decorrência do investimento feito pelas organizações há um salto em termos de eficiência das operações. O terceiro nível na escala ascendente de complexidade é o das mudanças no sistema tecnológico, no qual um setor ou grupo de setores é modificado pela injunção de uma nova área tecnológica. Neste caso, os impactos daí resultantes se fazem sentir tanto no seio das organizações, quanto no meio ambiente competitivo. A crise do petróleo na década de 70, do século XX, induziu empresas a buscar novas fontes energéticas. Mais recentemente, a Internet também serve de exemplo, pois criou novos modelos gerenciais, para viabilizar a inserção das empresas virtuais no mercado de consumo. Esse tipo de inovação pode, inclusive, mudar o conceito do que se considerava, até então, como qualidade de um produto ou serviço. Finalmente, as mudanças no paradigma técnico-econômico, englobam inovações com impacto não apenas na tecnologia, mas com desdobramentos nas esferas sociocultural e econômica nos ambientes afetados. Estas inovações ocorrem em 92


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lapsos de tempos relativamente longos, porém seus efeitos são duradouros. Nestes casos, aparecem novos paradigmas tecnológicos. Pode-se citar como exemplos: o surgimento da máquina a vapor, da eletricidade, do telefone e da inteligência artificial. Na tabela a seguir, tem-se uma visão das quatro categorias de inovações trazidas por Freeman. Tabela 1: Taxonomia das mudanças tecnológicas. Tipo de mudança

Características

Incremental

Melhoramentos e modificações cotidianas.

Radical

Saltos descontínuos na tecnologia de produtos e processos.

Novo sistema tecnológico

Mudanças abrangentes que afetam mais de um setor e dão origem a novas atividades econômicas.

Novo paradigma

Mudanças que afetam toda a economia envolvendo mudanças

tecnoeconômico

técnicas e organizacionais, alterando produtos e processos, criando novas indústrias e estabelecendo trajetórias de inovações por várias décadas. Fonte: Freeman apud Tigre (2006).

Uma indagação relevante, neste momento, é saber o que induz uma mudança tecnológica no contexto de uma organização ou em um segmento de mercado. Segundo Fransman, “a geração de inovações tende a ser induzida pela oferta de novos conhecimentos, enquanto a difusão dessas tecnologias é, em larga medida, determinada pela demanda.” (apud TIGRE, 2006, p.91). Uma vez analisado que tipos de mudanças tecnológicas podem ocorrer no mundo dos negócios, é importante abordar a questão de onde se originam tais melhorias. As organizações que inovam geralmente recorrem a um mix de fontes de tecnologia, buscando informação tanto do meio ambiente interno quanto externo. O uso destas fontes para a geração de inovação tecnológica é fundamental para a organização se posicionar adequadamente no mercado em termos de competitividade.

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As fontes internas de inovação envolvem as atividades de P&D orientadas para o desenvolvimento de produtos e processos novos, bem de melhorias estéticas ou funcionais destes. São possíveis de utilização, ainda, várias práticas de gestão do conhecimento, tais como: comunidades de prática, educação continuada, mentoring, banco de competências organizacionais, mapeamento do conhecimento e melhores práticas. As fontes externas, por sua vez, englobam: a aquisição de material técnico-científico, contratação de consultores, obtenção de licenças de transferência de tecnologias por meio de contratos de know-how, uso de inteligência competitiva, prática de benchmarking, dentre outras. A seleção das diferentes fontes de tecnologia pelas empresas está associada às características da tecnologia em si, às escalas produtivas e às estratégias adotadas. (TIGRE, 2006). A Tabela abaixo sumariza as principais fontes de tecnologia utilizadas pelas empresas. Tabela 2. Fontes de tecnologia mais utilizadas pelas empresas. Fontes de tecnologia

Exemplos

Desenvolvimento tecnológi-

P&D, engenharia reversa e experimentação.

co próprio Contratos de transferência

Licenças e patentes, contratos com universidades e centros de

de tecnologia

pesquisa.

Tecnologia incorporada

Máquinas, equipamentos e software embutido.

Conhecimento codificado

Livros, manuais, revistas técnicas, Internet, feiras e exposições, software aplicativo, cursos e programas educacionais.

Conhecimento tácito

Consultoria, contratação de RH experiente, informações de clientes, estágios e treinamento prático.

Aprendizado cumulativo

Processo de aprender fazendo, usando, interagindo etc. devidamente documentado e difundido na empresa. Fonte: Freeman apud Tigre (2006).

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INOVAÇÃO E ESTRATÉGIAS COMPETITIVAS A mola da inovação é a competitividade. Hoje, pode-se afirmar que a inovação é o principal fator de aumento de eficiência nas organizações. A adequação das organizações produtivas frente à complexidade econômica induz a busca incessantemente de estratégias competitivas, especialmente nos mercados de livre concorrência. A prospecção é feita tendo em vista as avaliações decorrentes do ambiente externo (ameaças e oportunidades) e do ambiente interno (pontos fortes e pontos fracos). Na visão de Michel Porter — (...) Estratégia é a criação de uma posição única e valiosa, envolvendo um conjunto diferente de atividades. Se houvesse uma única posição ideal, não haveria necessidade de estratégia. Empresas enfrentariam um dilema simples – vencer a competição de descobrir e implementá-la. A essência do posicionamento estratégico é escolher atividades diferentes das dos rivais. Se o mesmo conjunto de atividades fosse o melhor para produzir todos os produtos, atender todas as necessidades e tipos de consumidores, empresas poderiam facilmente alternar entre elas e a eficácia operacional determinaria o desempenho. (PORTER, 1996, p. 68). (tradução livre). —

As organizações podem selecionar uma ou mais estratégias em diferentes segmentos de suas atividades e alterá-las ao longo do tempo. A escolha de uma estratégia está associada aos objetivos de seus stakeholders, especialmente dirigentes e proprietários. A forma de alavancar a estratégia vai depender da visão gerencial e da capacidade técnica e financeira para tanto. A tomada de decisão pode recair na utilização de recursos técnicos próprios, estabelecimento de joint venture, aquisição de tecnologia por meio de licença, dentre outras. A solução adotada deve levar em

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conta, portanto, os recursos financeiros e humanos de que dispõe, as características e o dinamismo do mercado em que atua e sua visão de futuro. Segundo a taxonomia proposta por Freeman (apud TIGRE, 2006), as estratégias tecnológicas estão seccionadas em seis tipos: ofensiva, defensiva, imitativa, dependente, tradicional e oportunista. Tem-se então: • A estratégia ofensiva de inovação, adotada por empresas que objetivam a liderança tecnológica no mercado, pela introdução de um novo produto ou serviço, processo ou modelo de negócios. Carrega consigo o ônus do ineditismo, pois o produto lançado pode estar eivado de defeitos. Por outro lado, pode se beneficiar da proteção jurídica da propriedade intelectual, na forma de propriedade industrial ou direitos autorais dependendo do objeto concebido, dos efeitos financeiros daí resultantes, além do aumento da visibilidade de sua imagem pelos seus pares e consumidores. No Brasil, pouquíssimas empresas adotam este tipo de estratégia, devido ao seu alto custo. Dentre elas, podemos destacar a Petrobras, que desenvolveu tecnologias pioneiras de exploração de petróleo em águas muito profundas (em lâminas-d’água superiores a 2.000 metros). (TIGRE, 2006); • A estratégia defensiva, escolhida pela empresa que apesar de optar por não ter a primazia da inovação, quer ser partícipe do processo. Este fato pode se revestir em vantagem, proporcionada pela correção de eventuais erros cometidos pela empresa pioneira, agregando qualidade e segurança ao artefato inovador. Sua intenção não é simplesmente alcançar o prógono, mas sim ultrapassá-lo. A estratégia defensiva é típica dos mercados oligopolistas e está associada à diferenciação de produtos; • A estratégia imitativa, usualmente adotada em países em desenvolvimento, principalmente em mercados em que as empresas inovadoras não possuem capilaridade. Empresas de pequeno porte que participam de setores menos vulneráveis à mudança tecnológica geralmente 96


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adotam estratégias imitativas, a exemplo da indústria de confecções. Em países em que não existe uma legislação sobre patentes ou esta se mostra ineficaz, esta estratégia é usada pela indústria farmacêutica local. (TIGRE, 2006); • A estratégia dependente, opção das empresas satélites que gravitam em torno de outras empresas dominantes. Alterações tecnológicas em seus produtos ou processos só são efetivadas a partir de demanda externa, de seus clientes ou investidores, necessitando para tal de suporte técnico de outras empresas. Há pelo menos quatro tipos de modelos de negócios que se apoiam em estratégias tecnológicas dependentes, quais sejam: a) empresas que fabricam produtos para serem comercializados sob a marca de terceiros; b) empresas que operam sob o regime de franquias, ou seja, as franqueadas; c) subsidiárias de outras empresas que mantêm controle centralizado sobre as atividades de P&D; e d) empresas que adquirem o direito ao uso da tecnologia de terceiros por meio de contratos de licença, ou seja, sem o correspondente investimento no desenvolvimento da inovação em si; • A estratégia tradicional, que quando elegida pela empresa, praticamente não modifica seus produtos, muito menos lança novos, seja porque o mercado não comporta tais mudanças ou porque a concorrência se mantém inerte. Em geral, empresas que optam por essa estratégia carecem de capacidade técnica para desenvolver projetos de produtos ou de processos, restringindo-se a inovações incrementais ou à nova formatação no design do produto. Geralmente estão inseridas em mercados onde a concorrência é intensa e a variável custo não lhes permite investimentos em pesquisa. Por exemplo, a indústria de queijos artesanais, muitas vezes produzidos em cooperativas, tem se mostrado pouca inovativa ao longo de décadas; e

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• A estratégia oportunista, que está associada à exploração de novos nichos de mercado ou a situações inesperadas. A visão empreendedora em identificar uma necessidade do mercado até então inexplorada é mais importante do que grandes investimentos em P&D. Muitas das que enxergam tal oportunidade fazem parte do segmento das micro e pequenas empresas. No início do séc. XXI, o Brasil se deparou com uma crise enérgica, o que levou fabricantes de lâmpadas a lançarem produtos com menor consumo e com sensor de presença, constituindo este caso um exemplo de estratégia oportunista. A classificação de estratégias tomando-se como parâmetro a graduação da inovação, vista neste artigo, não pode ser analisada sem levar em consideração a complexidade do panorama econômico global. As estratégias não são mutuamente exclusivas, o que leva empresas a optarem por um mix delas, levando-se em consideração a flexibilidade que deva existir, principalmente tomando-se como norte o planejamento estratégico, que envolve um horizonte de longo prazo. (TIGRE, 2006).

CONSIDERAÇÕES FINAIS A inovação tecnológica é vital para que uma organização possa ter sustentabilidade no mercado que atua. A vantagem competitiva advinda da inovação traz resultados concretos em relação às demais, especialmente no mercado de commodities, melhorando, ainda, a governança corporativa. Isto se traduz não só em melhores resultados financeiros, na diminuição de custos, como também em uma imagem fortalecida perante os consumidores. Na verdade quem inova são as pessoas, por isso faz-se necessário existir uma estratégia clara nas organizações para gerir o conhecimento, criar, portanto, um contexto ambiental capacitante, de forma que o conhecimento explícito gerado possa servir de alicerce para a inovação tecnológica.

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Não se deve pensar que só grandes corporações podem inovar, pelo fato de que elas dispõem de ativos canalizados para suas áreas de P&D. A inovação necessariamente não tem como pressuposto este fato. Cabe a cada uma descobrir qual a melhor forma de se inserir mercado econômico em que atua, a partir do leque descortinado pelas opções estratégicas.

REFERÊNCIAS CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede: a era da informação: economia, sociedade e cultura. 4. ed. São Paulo: Paz e Terra, v. 1, 1999. FERREIRA DE MELO, Marco Antônio Machado. A tecnologia, direito e a solidariedade. In: ROVER, Aires José (org.). Direito, sociedade e informática: limites e perspectivas da vida digital. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2000. ORGANIZAÇÃO PARA COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO (OCDE). Medição de atividades científicas e tecnológicas: proposta de um sistema padrão para avaliação de pesquisa e desenvolvimento experimental. São Paulo: F-Iniciativas, 2013. Disponível em <http://www.f-iniciativas. com.br/sites/default/files/Manual-de-Frascati.pdf>. Acesso em 02 ago. 2016. PORTER, Michel E. What is strategy? Harvard Business Review, nov./dez. 1996, p. 61-78. Disponível em <https://www.diba.cat/documents/175960/186321/promoeco-plans-info_web-documents_referenciawhystrategy_porter-pdf.pdf>. Acesso em 16 ago. 2016. RIBEIRO, Darcy. O processo civilizatório: estudos de antropologia da civilização; etapas da evolução sociocultural. Petrópolis: Vozes, 1985. ROSENTHAL, David; MEIRA, Sílvio (Orgs.). Os primeiros 15 anos da política nacional de informática: o paradigma e sua implementação. Recife: ProTeM-CC, 1995. TIGRE, Paulo Bastos. Gestão da inovação: a economia da tecnologia no Brasil. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006.

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Resumo

Este trabalho pretende lançar um olhar reflexivo em direção a algumas das produções do ficcionista angolano João Melo, que compõem o volume de sua autoria intitulado “Imitação de Sartre e Simone de Beauvoir”, como contista e obra representativos da virada ocorrida durante os primeiros momentos do cenário pós-independência angolana, no âmbito literário. É intuito do estudo proposto pensar em que medida suas composições acabam por conceber um mundo angolano a partir da maneira com que seus narradores lidam com as estórias que passam a contar, surgindo daí narrativas que refletem ainda sobre o ato de narrar. Partindo do pressuposto de que grandes textos plasmam um caráter, uma sociedade, assim como uma sociedade é educada por estes mesmos grandes textos, teremos sob foco algumas das produções do referido escritor, observando como o projeto estético de sua obra-texto — aqui num sentido amplo — caminha nessa relação dialética. Para tanto, contar-se-á com os estudos de Wolfgang Iser (2002), Jorge Macedo (2003), Lezama Lima et al. (1982). Palavras-chave: conto angolano; João Melo; mundo angolano; hesitação; ato de narrar. Abstract

This work intends to throw a reflective look at some of the productions of the Angolan fiction writer João Melo, which compose the volume of his work entitled “Imitation of Sartre and Simone de Beauvoir”, as a short story and work representative of the turn of the first moments of the Angolan post-independence scenario, in the literary sphere. It is the intention of the proposed study to think to what extent his compositions end up conceiving an Angolan world based on the way in which its narrators deal with the stories that they begin to tell, arising from there narratives that still reflect on the act of narrating. Starting from the assumption that great texts shape a character, a society, as a society is educated by these same great texts, we will have under focus some of the productions of this writer, observing as the aesthetic project of his text-work here in a sense broad - walks in this dialectical relationship. In order to do so, we will count on the studies of Wolfgang Iser (2002), Jorge Macedo (2003), Lezama Lima et al. (1982). Keywords: Angolan tale; João Melo; Angolan world; hesitation; narration act.


A FÓRMULA DA HESITAÇÃO E O TRIUNFO DA IMPOSSIBILIDADE: JOÃO MELO E O CONTO ANGOLANO, DO LADO DE DENTRO Joelma Gomes dos Santos1

INTRODUÇÃO Como é sabido, a literatura angolana surge de um impulso crescente levado pelo sabor das demandas sociais vinculadas às lutas pela liberdade e pela urgência do direito de voz dos povos oprimidos no território do referido país africano. Cerca de cinco séculos de exploração e o embate contra o povo português só poderia resultar em boa matéria. O crítico e poeta angolano Jorge Macedo, em volume que dedica à produção literária de seu país, transcreve fragmento importante do documento intitulado Proclamação da União dos Escritores Angolanos, assinado por trinta e três escritores em 10 de dezembro de 1975, e que flagra o compromisso daqueles intelectuais com o texto literário em seu sentido social. No momento era fundada a instituição que funcionou como a primeira editora local, berço das primeiras publicações do pós-independência. Nele lê-se o seguinte: — A história da nossa literatura é testemunho de gerações de escritores que souberam, na sua época, dinamizar o processo da nossa libertação, exprimindo os anseios profundos do nosso povo, particularmente o das suas camadas mais exploradas. A literatura angolana escrita surge assim não como simples necessidade estética, mas como arma de combate pela afirmação do povo angolano. (MACEDO, 2003, pp. 8 e 9). —

1. Doutora em Letras, revisora dos conteúdos inéditos dos escritores da União dos Escritores Angolanos – UEA e docente do curso de Letras da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda – FACHO, e-mail: joelmamj@gmail.com 101


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Com a independência estabelecida oficialmente, os intelectuais em cena repensavam que caminhos dar às formas que até então pareciam puramente seguir a linha nacionalista, como bem assinala o crítico citado (p.13), os posicionamentos ideológicos assumidos por históricos da literatura revolucionária, anticolonial e escritores de pós-25 de abril, alinhados, inauguram um novo momento, uma nova atmosfera da literatura angolana que se auto-intitulava engajada, militante, e que então se ergue sob a bandeira do nacionalismo de reconstrução nacional e de frente anti-imperialista. A literatura passa a se repensar enquanto projeto estético de representação desse mundo que passa a ser (re)construído dentro e fora do texto artístico. Este artigo pretende lançar um olhar reflexivo em direção a algumas das produções do ficcionista angolano João Melo, que compõem o volume de sua autoria intitulado Imitação de Sartre e Simone de Beauvoir — como contista e obra representativos da virada apontada no início deste estudo ocorrida durante os primeiros momentos do cenário pós-independência angolana, no âmbito literário. É intuito do estudo proposto pensar em que medida suas composições acabam por conceber um mundo angolano a partir da maneira com que seus narradores lidam com as estórias que passam a contar, surgindo daí narrativas que refletem ainda sobre o ato de narrar. Partindo do pressuposto de que grandes textos plasmam um caráter, uma sociedade, assim como uma sociedade é educada por estes mesmos grandes textos, teremos sob foco algumas das produções do referido escritor, observando como o projeto estético de sua obra-texto — aqui num sentido amplo — caminha nessa relação dialética.

Relação triádica: o real, o fictício e o imaginário Wolfgang Iser (LIMA, 2002, p. 948), em seu ensaio intitulado Problemas da Teoria da Literatura Atual: o imaginário e os conceitos-chave da época, que data originalmente de 1979, lança luz sobre a relação problemática que se realiza nas fronteiras entre imaginário, ficção e real. É de seu pensamento que partimos adentrando a veia ficcional da contística de João Melo:

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[...] Comprova-se que a ficção é a configuração do imaginário ao se notar que ela não se deixa determinar como uma correspondência contra factual da realidade existente. A ficção mobiliza o imaginário como uma reserva de uso específico a uma situação [...]. No entanto, a configuração que o imaginário ganha pela ficção não reconduz à modalidade do real que, através do uso do imaginário deve ser justamente revelado. A ficção é também uma configuração do imaginário na medida em que, em geral, ela sempre se revela como tal. Ela provém do ato de ultrapasse das fronteiras existentes entre o imaginário e o real. Por sua boa forma [...], ela adquire predicados de realidade, enquanto, pela elucidação de seu caráter de ficção, guarda os predicados do imaginário. Nela, o real e o imaginário se entrelaçam de tal modo que se estabelecem as condições para a imprescindibilidade constante da interpretação. Como pensar uma produção literária gestada num contexto de fervura política — plena guerra civil angolana —, como a de João Melo, sem reduzi-la a um engajamento político-social? Entendemos, junto com o teórico supracitado, que a ficção não pode ser validada apenas como um universo a parte, distante de seu referente, nem simplesmente como fotografia, enquanto imagem duplicadora de seu mundo, mas como elemento-espaço outro que dialoga com seu mundo instaurando um universo representativo deste e que o deformando, dá-lhe nova forma, por meio da qual o revela — seu mundo e de seu contexto — de modo a melhor dar a vê-lo. É nesse processo de atribuição de nova forma ao mundo, na criação no mundo ficcional e do ambiente literário que são combinados de dentro para fora e de fora para dentro da obra, o imaginário de um povo e a ficção, sendo esta última criação que se vale da primeira. E mais ainda claramente, é preciso explicitar que a pura criação por si só não é possível, visto que o ficcional já é produto resultante de vários elementos postos em contato — inclusive elementos que dizem respeito ao mundo empírico , que aqui já aludimos pela palavra real — como reflete W. Iser, em seu ensaio intitulado Os Atos de Fingir ou o que é Fictício no Texto Ficcional, “decorre daí que a relação triádica do real com o fictício e o imaginário apresenta uma propriedade fundamental do texto ficcional.” (ISER apud LIMA, 2002, p. 958).

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Pretende-se, nessa reflexão analítica, amparada pelo aporte teórico, observar como João Melo, assumindo feições de contista e já em sua obra inaugural que será ainda apresentada no percurso desta investigação, promove, para o gênero conto, na senda das composições angolanas em prosa, um status diferenciado, pois agora além de continuar repercutindo questões do mundo a sua volta, como é função de toda e qualquer peça de arte, o reconfigura enquanto tecido literário, anunciando novas tendências estéticas.

Imitação de Sartre e Simone de Beauvoir Imitação de Sartre & Simone de Beauvoir (2004), antologia de contos de autoria de João Melo que o inaugura como prosador no gênero, cuja primeira edição fora publicada em 1999 , traz composições nas quais, no dizer de José Eduardo Agualusa, prefaciador da edição angolana saída em 2004: João Melo, neste seu primeiro livro de ficção, dá-nos também a boa surpresa de uma nova forma de dizer ao mundo. Imitação de Sartre e Simone de Beauvoir reúne dez estórias de gente comum, estórias de gente que se encontra e, sobretudo, se desencontra, a maior parte das vezes em confronto com a realidade que de repente deixou para eles de fazer sentido. (AGUALUSA apud MELO, 2004). De fato, o exegeta dos contos de autoria de Melo presentes no referido volume, tem em mãos um texto que promove o desconforto diante das experiências de mundo vividas por suas personagens, a exemplo da sensível dona de casa, Júlia, de “E de Repente as Flores Murcharam”, que pressente a morte do marido no anúncio simbólico de suas “rosas de estimação [que] tinham murchado de repente e pendiam agora completamente inertes dos caules esverdeados.” (MELO, 2004, p.15). O automóvel brilhante no qual o marido se despede dela sai de cena calmamente já no primeiro parágrafo, acionando a notória ligação morte/ ausência. O conto, que enfatiza o laço entre a esposa e o marido, se assemelha a uma crônica do cotidiano, que remonta a vida vivida de personagens abrindo o referido volume de estórias. O marido que em momento algum é nomeado pelo narrador, num sábado, numa de suas saídas com

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os amigos ao Dondo, é pego de surpresa pela morte. As rosas murchas eram, portanto, um anúncio do elemento trágico que se aproximava para decretar o desfecho da narrativa: De repente, descobriu que estava febril. A temperatura subira meteoricamente. Foi para o quarto, deitou-se, sem despir nem tirar as chinelas, por cima da colcha, e começou a chorar baixinho, com um temor crescente de adivinhar por que o fazia. — Domingas [a empregada] ofereceu-se para chamar um médico, mas ela proibiu-a, no meio de terríveis convulsões. Quando os amigos do marido chegaram e disseram que ele tinha morrido num acidente à entrada de Catete, Júlia já o sabia. (MELO, 2004, p. 18.) —

O texto constrói uma atmosfera que proporciona ao leitor e a seu intermediário ficcional, o narratário, um prenúncio do fio condutor que percorre todo o volume de contos em questão, de autoria de Melo: o fascínio desmedido dos indivíduos por coisas ou pessoas, a insensatez e a loucura que levam o humano à ruína e o pavor ou horror diante da tragédia que parece estar na ordem do dia sempre a espreita. É importante realçar que para entendermos o trágico, mesmo trazendo-o para uma forma narrativa que não foi elaborada, ou pensada para ser encenada, como é característico do texto dramático, e neste caso no tocante ao conto, acionamos o olhar aristotélico entendendo-o como a representação duma ação grave, [mesmo sendo narrada e não encenada, como é o caso apresentado] a qual inspire pena e temor e que por seu tom opere a catarse própria dessas emoções. (ARISTÓTELES, 2005, p. 24.) Em “Até que a Morte os Juntou”, o narrador parece remontar o dito recorrente em cerimônias de casamento, mas nele apontando para o além vida. Algo que, numa leitura possível, leva o olhar analítico para um diálogo com o mito da impossibilidade da união plena (ou possibilidade, mas numa outra esfera), presente no drama elisabetano com a tragédia shakespeariana, Romeu e Julieta. No ambiente ríspido da dor da guerra, as jovens personagens apaixonadas “sorriram outra vez. E amaram-se como

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sempre o faziam: com uma intensidade verdadeiramente inaudita, radical, vinda do núcleo da carne e do espírito.” (MELO, 2004, p.22). No conto, o amor intenso das personagens contrasta com tempos de ódio e guerra, e mesmo em tal contexto controverso “militaram juntos”, “não temiam os lugares-comuns”, “e quando gozaram, pássaros antigos soltaram-se das suas bocas espantadas e foram ao encontro do sol”. (MELO, 2004, p.21-22) O destino trágico se faz presente, mas como resultado não apenas do poder dos deuses, mas ainda como reflexo do desejo, ou ações das personagens. Escolheram estar juntos mesmo em tempos difíceis, nos encanta o narrador em uma de suas analogias “a gargalhada deles era pura, como a água vital”; escolheram ir estudar no exterior, escolheram ainda ter filhos. “Eles”, os amantes sem nome, protagonistas do conto em análise, podem ser lidos como uma representação dessa impossibilidade intensificadora da alma romântica (no sentido estético do termo), e aqui já referida, das personagens: — Ele recusou-se a acreditar quando o médico disse: a sua esposa morreu; fizemos tudo para salvar a criança, mas também não conseguimos... Lamento muito!... Fazia frio, mas de onde vinha aquele calor que, subitamente, lhe toldava os olhos e paralisava os membros? Quis gritar, mas conseguiu apenas amparar-se, com muita dificuldade, a uma das paredes. Fizeram tudo, fizeram tudo. Maldito destino! ...Por que que os homens não são imortais? (MELO, 2004, p.23). —

O conto guarda ainda comoção maior em sua coda: “um dia depois da partida do corpo [seguindo um pressentimento], ele embarcou. Como poderia saber que o avião que viajava tinha um encontro marcado com a morte [...]?” (p.24). A partir do texto, podemos dizer que o papel que a ficção parece nele assumir é o de instauradora da indignação. Ou mesmo o de promotora de uma reflexão sobre o

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caráter efêmero do humano e do poder limitado de suas ações diante de algo maior que o envolve no mundo e que o amante denomina “destino”. Outro conto presente no volume supracitado que caminha na direção apontada nesta análise é “Crime e Castigo”. A narrativa apresenta-nos, pela primeira vez, (no volume investigado) a personagem masculina sendo nomeada. Pedro Domingos João, ou o camarada Tiro Infalível, como o chamavam seus companheiros de guerra, é personagem em que a hesitação, outro traço shakespeariano trágico, o coloca em evidência. Segundo o narrador, Tiro Infalível virou lenda bem antes da independência. E o revelar de sua conduta aparece na narrativa sendo associada a um procedimento literário. Segundo o narrador que parece cochichar ao pé do ouvido de quem “ouve” o relato: “[isso] é para realçar ainda mais a estranha metamorfose por que passará, nas linhas seguintes, o nosso herói.” (MELO, 2004, p.28) Há no conto o ressoar de uma discussão metanarrativa a respeito de como narrar de forma a agradar o leitor “ouvinte” da estória. E a aproximação do leitor, num diálogo ficcional, é enfatizada em momentos como: A entrada em Luanda, depois da vitória sobre os colonialistas, causou em Pedro Domingos João um impacto psicológico terrível (outros adjetivos possíveis: dramático, tremendo ou qualquer um que o leitor prefira), o que esteve na origem de uma série de inusitadas mudanças de atitudes, que não vale a pena, aqui, enumerar. Direi apenas, para resumir com uma expressão: o camarada Tiro infalível aburguesou-se. (MELO, 2004, p.28.) A postura irônica do narrador, que pode ser apreciada no fragmento, revela as escolhas de João Melo como ficcionista que dá ao conto angolano novo fôlego, quando, pelo lado de dentro da composição, consegue pensar sua escrita, ou modo de narrar, através da manipulação da voz de seus narradores. Impossível, mesmo que por instantes, não associar o narrador que ora se apresenta no conto de João Melo, com alguma tendência comportamental do narrador de outro clássico da literatura inglesa, o de Tristam Shandy, de Lawrence Sterne. O narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, também não deixa de vir a baila para diálogo instantâneo. Como explicam Cevasco & Siqueira

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(1993), referindo-se ao contexto inglês, “na forma, as considerações do[s] narrador[es] parecem prenunciar o experimentalismo do século XX. O realismo de espaço e tempo é abandonado e [...] parece[m] [os autores] estar[em] obedecendo apenas à estrutura [por vezes] ilógica do pensamento.” (p.45.) No contexto angolano, o realismo, enquanto estética, não parece ser abandonado, mas associado a outros elementos já aludidos a exemplo do traço romântico. “Crime e Castigo”, se valendo de uma mímesis de representação , o que, portanto, flagra o modo realista de ficção, consegue discutir os descaminhos da sociedade angolana deixando entrever uma crítica ao processo de decomposição (leia-se corrupção) dos homens, pelo sistema que nela se implanta: A verdade é que, depois da independência, Tiro Infalível foi nomeado para vários cargos; para falar com mais propriedade, circulou por praticamente todo o aparelho administrativo: foi duas vezes ministro, vice-ministro, uma vez, e secretário do Estado, outras duas vezes; curiosamente, ocupou sempre as pastas mais díspares umas das outras, o que poderia ser considerado um sintoma da sua multifacética capacidade, se a complacência estivesse entre as nossas virtudes... Dizem as más-línguas que, enquanto se distraía nessa verdadeira roda-vida, o camarada Pedro Domingos João teve tempo para adquirir cinco automóveis e uma quinta perto de Viana, mas isso, por certo, é politiquice, o que um narrador sensato deve evitar. (MELO, 2004, p.28) O camarada Tiro Infalível, ou Pedro Domingos João, além de trair o povo, aproveitam-se o quanto pôde de seus cargos e posições de destaque, como sinaliza satiricamente o narrador, também traía a sua esposa. Tendo descoberto “como as mulheres da capital eram diferentes da companheira que ele arranjara durante a guerrilha”, costumava deixar-se dividir, sem que sua mulher, Lemba, soubesse, entre ela e outra, considerada apenas “à condição de 2ª região”, mas com direito à apartamento e outras regalias. Quando tudo parecia tranquilo, uma hesitação lhe atormentava a cabeça, no momento em que fora acionado para uma nova nomeação (para o cargo de embaixador), o que, para ele, “trazia no bojo uma maka muito complicada: qual das duas mulheres ele levaria?, qual delas, afinal de contas, merecia ser a embaixatriz?” (MELO, 2004, p.30). O destino, junto com a ação da personagem envolvida, traria a resposta simples e crua:

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— A Lemba morreu. O quê?! Morreu, quer dizer, enforcou-se; encontramos mesmo na casa de banho, com a corda no pescoço, já não respirava mais quando lhe seguramos. [...] Tiro Infalível, numa espécie de acto falho, cobriu o corpo de Rita com o lençol e saiu. Apesar de tudo, estava contente. [...] A morte de Lemba resolvia o dilema que, nos últimos tempos, o atormentava. [...] Bendita hora, pensou, já sem escrúpulos. O suicídio de Lemba veio mesmo a calhar, agora já não teria mais problemas. Ele pensara tanto no assunto, sem saber como resolvê-lo – e eis que de repente, a solução cai-lhe do céu. (MELO, 2004, p.30). —

O destino trágico na narrativa abordada não se dá apenas pelas ações do herói, e nem por uma decisão rígida de deuses, como dito, o herói hesita e é o destino, e as consequências daquilo que o rodeia que decidem seu fim. “O Criador e a Criatura”, última narrativa a compor o quadro de análises deste estudo retoma, com novos ares, a tradição metanarrativa experimentalista já referida neste estudo. “Todos já sabem como esta história vai terminar” (p.33), anuncia o narrador, supondo que aquele que recebe a narrativa pressuponha os mecanismos de que se valerá. E sob desculpas subentendidas, pede licença para continuar: “permitam-me, no entanto, a seguinte tentativa (certamente tosca) de tornar inusitadas as redundâncias com que, na falta de maior engenho, sou forçado a compor a presente narrativa.” No conto, o narrador se comporta de tal forma experimentadora que ousa em arriscar o uso de elementos organizadores da história que quer contar. Elementos estes que dão ao leitor pistas do seu percurso conteudístico. O que parecem subtítulos a separar a narrativa em seções são apontadores dos recursos e momentos que o contador de histórias utiliza como procedimentos o expediente narrativo. O fato de o narrador decidir como contar a história ao longo da própria narrativa parece deixar o leitor o tempo todo despreparado para o que virá, apesar de sua fala inicial (a do narrador) afirmar que “todos já sabem como esta história irá terminar”, como já citado.

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Desconcertante passa a ser seu trajeto narrativo quando dispõe expressões como 1º flash back no topo da porção de texto que passa a enunciar: — Quando Carlos a conheceu, Noémia tinha medo de osgas. Costumava sonhar com osgas cheias de pêlos. Os pais dela, extremamente zelosos, não a deixavam, sair com rapazes, “a não ser que seja um menino de boas-famílias”. Carlos era uma dessas excepções. Não, não vou enumerar as características que faziam dele, supostamente, “um menino de boas-famílias”. Se o narrador não for de todo interdito (?) tomar partido, direi simplesmente: tratava-se, na verdade, de um filho da puta (MELO, 2004, p. 34). —

O tom irônico e sincero com que o narrador, diga-se, não de passagem, intruso, decide dar prosseguimento à história de Noémia e Carlos soa provocador. No conto, o recurso à digressão temporal e espacial tem um efeito pretendido: o que nos aparece, a nós leitores, por meio de quadros oferece-nos a ideia de narrativa como algo desmontável e montável. O que fica a cabo, como é evidentemente bem marcado, do narrador e do autor que o manipula. A história do casal nos é apresentada como que em cenas numa ordem por ele [narrador] escolhida. Cada momento de passagem da vida das personagens “exibido” quase numa estrutura episódica em miniatura parece justificar a ideia de que “todos já sabem como esta história irá terminar. E eis que num momento oportuno o narrador surpreende os leitores ao relatar a revolta de Noémia diante da rotina sexual de usos e abusos que vem lhe oferecendo o marido desde sempre. A reação de Noémia, aqui em suspensão por outro momento metanarrativo em que o narrador simplesmente toma a posição que é de si mesmo: a de narrar a seu modo o que lhe convier, é revelada ao longo das linhas que se seguem na seção que é precedida pela pergunta (que venham a fazer os leitores) “E depois?”, a que responde o narrador em tom seguro:

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Todos já sabem. A criatura rebela-se contra o criador, etc., etc., etc. Mas já que eu (re)inventei esta história, que me seja permitido relatar o desenlace da mesma: Noémia livrou-se das mãos perplexas de Carlos e correu para a cozinha. O homem perseguiu-a, cego de espanto, apontando para o próprio pênis, que lhe emergia da púbis não com um sintoma de paixão, mas apenas como o sombrio instrumento de um crime premeditado, um flagelo pronto a abater-se sobre o mundo, enfim, uma coisa vil. (MELO, 2004, p.37) A narrativa sob este olhar analítico em conjunto com as outras que foram analisadas oferecem aos seus leitores a marca de um novo momento das produções angolanas em prosa. Momento este em que não apenas o tema é de suma importância, como pareciam anunciar os trinta e três escritores que dão o pontapé inicial à fase pós-independência registrada no documento que proclamava a instituição da União dos Escritores angolanos, citado no início deste ensaio, mas, e principalmente, o tratamento a ser dado ao tema, este sim, ganha relevância máxima. Os vários elementos citados ao longo da análise e utilizados como procedimentos narrativos, como o efeito trágico, a hesitação e a impossibilidade como reforço do ambiente diegético, além das interferências do narrador que por meio delas acaba por colocar em evidência as várias reflexões que permitem fazer o texto literário a respeito do próprio fazer literário dão à prosa de João Melo o poder reconstituidor do universo estético-literário do pós-independência.

Considerações finais O que parece valer, se pensarmos nos contos de João Melo, como uma espécie de resposta a alguns questionamentos, no mínimo, e, sobretudo, válidos, de ficcionistas como Manuel Rui que já à época, em meio às conturbadas exigências de ordem social e enquanto projeto literário que se confundiam, afirmava com lucidez:

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— é necessário escrever para as massas (os que já sabem ler e com uma capacidade receptiva pouco imediata) e, por outro lado, se impõe à Revolução um acelerar da educação estética do povo com consequente aumento da qualidade da obra literária por respeito ao mesmo povo. (RUI apud MACEDO, 2003, p.12.) —

Da leitura e do pensar a respeito do fazer poético de João Melo, podemos afirmar como Lezama Lima (1982, p. ?), “[...] hay [...] una red de coordenadas em la [...] [literatura] que llevan al hombre a la visión de la gloria, a la resurreción. João Melo, o homem pensante, o artista. Através da peneira de seus gestos poéticos, toca-se num mundo re(a)presentado, o angolano, mas, e, sobretudo, o humano. Ler seus textos a partir da perspectiva apenas de um engajamento político é renunciar à cintilância, a candeia de toda a luz, que carregam as atmosferas ficcionais por ele construídas, à poesia neles existentes, à extrapolação dos sentidos que seu jeito de fazer poético imprime. Os mundos agudos da dor e dos conflitos, e o olhar tenso e irônico de seus narradores impõem, paradoxalmente, um fruir — no sentido barthesiano do termo —, aquele que nos incomoda a nós leitores. O projeto de ficção de João Melo bebe, portanto, do imaginário, mas o estende, por com ele dialogar dialeticamente, como dizíamos a partir de Iser no início desta incursão analítica. Como foi possível observar ao longo da análise dos textos, dos mundos impossíveis de agruras e sofrimento, — da Angola pós-independência —, se criam os mundos possíveis da ficção, e o artista, passeando pela forma de expressão então examinada, transfigurando este “real” impossível de ser aceito passivamente, faz com que nós leitores busquemos por respostas, impregnando-os de hesitação.

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Referências AGUALUSA, José Eduardo. Estórias para cinema. In: MELO, João. Imitação de Sarte e Simone de Beauvoir. Luanda: Maianga, 2004. p. 7-8. ARISTÓTELES. Arte poética. In: ARISTÓTELES; HORÁCIO; LONGINO. A poética clássica. 12 ed. São Paulo: Cultrix, 2005. p. 17-52. CEVASCO, Maria Elisa; SIQUEIRA, Valter Lellis. Rumos da literatura inglesa. 4 ed. São Paulo: Ática, 1993. ISER, Wolfgang. Problemas da teoria da literatura atual: o imaginário e os conceitos-chave da época. In: LIMA, Luiz Costa. (org). Teoria da literatura em suas fontes. vol. 2. 3 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. p. 927-952. ______. Os atos de fingir ou o que é fictício no texto ficcional. In: LIMA, Luiz Costa. (org). Teoria da literatura em suas fontes. vol. 2. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. p. 955- 987. ______. Mímesis e modernidade: formas das sobras. 2 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003. LIMA, Lezama. Las eras imaginárias. Madrid: Editorial Fundamentos, 1982. p.?. MACEDO, Jorge. Poesia angolana. 1975-2002. Apontamentos históricos. Luanda: União dos Escritores Angolanos. 2003. p. 7-18.

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NORMAS PARA PUBLICAÇÃO


NORMAS GERAIS PARA PUBLICAÇÃO NA REVISTA TRAVESSIA Os gêneros aceitos para publicação pela revista Travessia são: artigos, resenhas, ensaios, entrevistas e traduções inéditos. Os textos recebidos serão submetidos à avaliação, cabendo a decisão final sobre a publicação ao Conselho Editorial. Os textos devem estar de acordo com as novas regras da ortografia da língua portuguesa do Brasil. É de responsabilidade dos autores a revisão ortográfica do texto submetido. Os textos submetidos que não seguirem às normas não serão aceitos para publicação. Segundo as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT – todo trabalho científico (NBR 6022) deve apresentar: introdução, desenvolvimento e conclusão. INTRODUÇÃO: “Deve constar a delimitação do assunto tratado, os objetivos da pesquisa e outros elementos necessários para situar o tema do artigo”. DESENVOLVIMENTO: É a “parte principal do artigo, que contém a exposição ordenada e pormenorizada do assunto tratado. Divide-se em seções e subseções, que variam em função da abordagem do tema e do método”. CONSIDERAÇÕES FINAIS OU CONCLUSÃO: Apresenta as articulações finais do trabalho a partir dos objetivos propostos e da sequência da argumentação desenvolvida. (ATENTAR para permanente atualização da ABNT) PÁGINAS: No que concerne à quantidade de páginas, o texto submetido deve seguir as orientações, de acordo com o gênero escolhido: Artigos e Ensaios: entre 10 e 15 páginas; Resenhas: entre 3 e 8 páginas; Traduções: devem adequar-se ao gênero traduzido, não ultrapassando, porém, o limite máximo estabelecido de páginas (20 páginas). Entrevistas: entre 10 e 15 páginas.

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NUMERAÇÃO DE PÁGINAS: não deve haver. DIGITAÇÃO: em Word, fonte estilo Times New Roman, tamanho 12, espaçamento entre linhas de 1,5. Parágrafo simples com recuo de 2cm, sem intervalo entre parágrafos, alinhamento justificado. Usar itálico para palavras ou expressões em língua estrangeira. O uso de imagens deve ser bastante sóbrio e necessário à compreensão. FORMATAÇÃO: em Word, as margens esquerda e superior devem ter 3,0 cm; a direita e inferior 2,0 cm. TÍTULO: frase objetiva e concisa, contendo no máximo 10 palavras, em tamanho 14, negrito, caixa alta, podendo ser seguida de subtítulo, após dois pontos ou abaixo, em minúsculas, sem negrito, centralizado. AUTORIA: Após o título, digitar os nome(s) do(s) autore(s) (máximo de dois, dispostos em ordem alfabética). O(s) nome(s) do(s) autor(es) deve(m) estar seguido(s) de asterisco (s) (* e **, respectivamente), e estes sendo remetidos a notas de rodapé, em fonte 10, que devem apresentar atuação profissional, local de trabalho e/ou vinculação acadêmica e titulação mais alta, seguidos de endereço eletrônico. RESUMO: um só corpo de texto sem recuo de parágrafo, com até 10 linhas, em fonte 10, espaço simples, em itálico. O resumo deve obrigatoriamente conter os seguintes elementos: apresentação do tema, objetivo do estudo, aporte teórico, metodologia adotada, síntese dos resultados. Deve-se seguir um resumo em língua estrangeira (inglês) seguido das palavras-chave também em língua estrangeira. PALAVRAS-CHAVE: depois do espaço de uma linha abaixo do resumo, dispor entre três e cinco palavras-chave em minúsculas (a não ser que refira a nome próprio), separadas por ponto e vírgula e ponto final na última delas. A fonte deve ser tamanho 10, em itálico. ITENS: fonte tamanho 14, caixa alta, em negrito, alinhado à esquerda. SUBITENS: apenas a primeira letra em maiúscula, tamanho 12, em negrito, alinhados à esquerda e com separação por um espaço acima e abaixo em relação ao texto.

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NOTAS DE RODAPÉ: para dar explicações sobre determinados termos, fatos ou fenômenos. CITAÇÕES: (atentar rigorosamente para as normas da ABNT contidas na NBR 10520) se com até três linhas, deve fazer parte do texto, vir entre aspas, com a identificação do autor, ano de publicação da obra e número da página, entre parênteses. Se o nome do autor estiver entre os parênteses, este deve vir em caixa alta. Ex: (BAKTHIN, 1970, p.10). Se com mais de três linhas, a citação deve ser destacada, em espaço simples, recuo de 4cm à esquerda, em fonte 10. Ex: Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéia grandiosa e útil, a causa de minha morte, é possível que o leitor me não creia, e, todavia é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo. (ASSIS, 1992, p.514).

REFERÊNCIAS: ao final do texto, digitar a expressão REFERÊNCIAS. Qualquer tipo de referência deve seguir rigorosamente as normas da ABNT (vide NBR 6023). Os autores devem estar em ordem alfabética, sem numeração das entradas e com o espaço de uma linha entre as referências. Na segunda entrada de um mesmo autor, seu nome deve ser substituído por um traço de seis toques. LIVRO: Único autor: ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Aguilar, 1992. Dois a três autores: SANTOS, Ângela R.; FREZA, Eloísa M; CAUTELA, Lucinda. Texto e contexto. São Paulo: Ática, 2000. Mais de três autores: SANTOS, Ângela R. et ali. Texto e contexto. São Paulo: Ática, 2000.

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PERIÓDICO: NICOLAU, Rodrigues Borges. Assédio moral e a reforma na legislação trabalhista. Síntese trabalhista. Porto Alegre; v. 15. n. 179, p. 49-52, maio de 2004. TESE DE DOUTORADO E DISSERTAÇÃO DE MESTRADO: GUIMARÃES, Liliane de Oliveira. A experiência universitária norte-americana na formação de empreendimentos: contribuições das universidades de Saint Louis, Indiana e Babson College, 2002, 313f, Tese (Doutorado) – Fundação Getúlio Vargas, Escola de Administração de Empresas, Rio de Janeiro. CONTO: RAMOS, Graciliano. Conversa de bastidores. In: RAMOS, Graciliano. Linhas tortas. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1975. p. 249-252. SITE CONSULTADO: LARA, Marilda Lopes Ginez de. Recensão. Ciência da Informação, Brasília, v. 32, n.2, maio/ago. 2003. Disponível em <http://www.scielo.br>. Acesso em 02 jan. 2005. 12:30

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Revista Travessia - 2016  

A Faculdade de Ciências Humanas de Olinda – FACHO, em 1999, criou a revista científica Travessia, com o intuito de alcançar os seguintes obj...

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