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Campus Jornal-laboratório da Universidade de Brasília v

ANO 40 - Edição 347

Brasília, de 1 a 15 de junho de 2010

v www.fac.unb.br

O SILÊNCIO Faculdade de Comunicação

DE HOMENS AGREDIDOS DENTRO DE CASA

Envergonhados e vítimas do preconceito, poucos homens que apanham denunciam suas mulheres. A aplicação da Lei Maria da Penha nesses casos gera polêmica v página 3 Thalita Carrico

A arte da recuperação Deficientes mentais usam a arte da dança para melhorar sociabilidade e coordenação v páginas 4 e 5

Um cardápio diferente: apenas cru v página 7

Bullying expulso das escolas

Mobilidade em risco

Mediação em instituições evita que crianças reproduzam o preconceito v página 6

Novo calendário pode prejudicar alunos vindos de outras universidades v página 6


Enquanto os jornais comerciais privilegiam os temas do ano, como Eleições e Copa do Mundo, esta edição do Campus traz pequenas iniciativas que se converteram em grandes histórias.

Charge

Carta do editor

E para os servidores, nada?

Questão de opinião

Opinião

Ser diferente é legal

Carolina Fernandes

A matéria sobre homens agredidos por suas companheiras revela: violência dentro de casa nem sempre é doméstica, e as leis que protegem minorias podem deixar outras ainda mais indefesas. No texto sobre bullying, pais e professores se unem para conciliar relações problemáticas entre alunos. Na matéria central, pais e professores são, outra vez, personagens de uma história. Através da dança, deficientes mentais recuperam a coordenação motora, a sociabilidade e, acima de tudo, a autoestima. Unindo biologia, religião, nutrição e uma saga em busca de alimentos, os vegetarianos adeptos do crudivorismo dividem opiniões de especialistas. Fechando a edição, contamos um pouco da história de João José Viana, o Pipoka, pivô – em vários sentidos – do sucesso do time do Universo nos últimos campeonatos de basquete. Mais do que o simples “dar voz aos oprimidos”. Nessa edição do Campus tentamos mostrar que a grande reportagem não está necessariamente no que altera os rumos da História, mas também na batalha diária de pessoas (aparentemente) comuns. Boa leitura!

Campus 40 anos

A

inclusão social de deficientes, hoje abordada em novelas e filmes, sempre esteve nas páginas do Campus. A edição de janeiro de 1985 apresentou um projeto de natação para crianças excepcionais. Na edição atual, destacamos a iniciativa de professores do DF que dão aulas de dança para pessoas com deficiência mental.

Vivian Rodrigues A proposta de união civil estável entre pessoas de mesmo sexo voltou a causar polêmica. Os decorrentes direitos oferecidos a casais homossexuais estão novamente sob a mira de holofotes – ora punitivos, ora complacentes. Se a legalização do casamento gay incomoda muita gente, os debates que reforçam sua legitimidade incomodam muito mais. Em acalorada audiência pública que analisou o Estatuto das Famílias na Comissão de Constituição, Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara, o tema monopolizou atenções. Tramitando desde 2007 no Congresso Nacional, o estatuto oferece ampla reforma no sistema jurídico brasileiro a fim de modernizar o direito de família. Pelo conteúdo do projeto, a regulamentação da relação homoafetiva estável é assegurada a casais que “mantenham convivência pública, contínua, duradoura e com objetivo de constituição de família”. A adoção, a guarda e a convivência com os filhos, o direito previdenciário e o direito à herança também estariam garantidos. A legalização da adoção parece ser o ponto mais delicado entre os apresentados. Ainda assim, o recorrente argumento de que o filho adotado está exposto a todo tipo de constrangimento e trauma não justifica a limitação do direito. Não sem antes reavaliarmos os valores da educação que as crianças brasileiras estão recebendo. Não sem antes reavaliarmos os nossos preconceitos e a nossa má-fé.

Expediente Editor-chefe: Mateus Rodrigues Editores: Clara Araújo, Felipe Muller, Juliana Figueiredo, Klaus Barbosa, Mateus Rodrigues, Naiara Lemos, Raio Gomes e Vinícius Pedreira Repórteres: Cecília Garcia, Clara Araújo, Felipe Matheus Pineda, Felipe Giacomelli, Gustavo Aguiar, Lílian Pessoa, Maiara Dornelles, Marcela Mattos, Mariane Rodrigues, Milena Barros, Rodrigo Vasconcelos e Thais Regina Fotógrafos: Nayra Thyemi, Thalita Carrico e Thiago Borges Diagramadores: Nayra Thyemi, Thalita Carrico e Thiago Borges Projeto gráfico: Gustavo Aguiar, Juliana Reis, Jeronimo Calorio, Mateus Rodrigues e Vinicius Pedreira Diretor de arte: Jeronimo Calorio Ilustrações: Felipe Matheus Pineda, Carolina Fernandes e Henrique Teles Monitora: Juliana Reis Professores: Sérgio de Sá e Solano Nascimento Jornalista: José Luiz Silva Suporte técnico: Pedro França Gráfica: Palavra Tiragem: 4 mil exemplares

Ombudskivinna

Envie sua opinião para campus@unb.com.br

É frustrante notar que certas alegações contrárias à união gay se destacam pelo seu tom esdrúxulo e apelativo. Durante a audiência, o midiático Pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, comparou o relacionamento homoafetivo à necrofilia e à zoofilia. Insinuou que se trata de mais um comportamento entre outros “bizarros e loucos”. Comportamentos sexuais desse tipo não se equiparam a uma relação consentida e consciente entre dois seres humanos do mesmo sexo. Lamentavelmente, é quase sempre na esfera religiosa que o preconceito infundado contra homossexuais adquire amparo. A Igreja Católica, do alto de seus princípios medievais e de sua vista grossa frente aos próprios problemas, permanece impassível às novas dinâmicas sociais. No âmbito legal, porém, não se pode endossar o retrocesso. Não é mera coincidência que países como Holanda, Bélgica, Canadá, França, Espanha e Uruguai já tenham resolvido a questão a favor dos direitos civis para casais gays.

Vivian Rodrigues é estudante de Jornalismo da UnB e faz parte da equipe do Campus.

Ouvir para contar Mel Bleil Gallo Se uma palavra tivesse de ser escolhida para caracterizar a reportagem “Decepção na terra prometida”, emocionante talvez fosse a melhor opção. Na saga de dona Neca, Ivonete e Maria o leitor se entristece, se indigna e pede explicações. Por que o GDF retirou o banheiro químico do Monjolo? Qual a previsão para conclusão das obras? E do transporte vital aos moradores, o que será? Os responsáveis por essas respostas precisam ser apontados e ouvidos. Outra explicação que faltou ser dada é sobre o “Mapa da violência” da UnB. Apesar de muito relevante, é necessário ressaltar que ele não revela as estatísticas completas do campus. Muitas das transgressões são comunicadas apenas à Coordenadoria de Proteção ao Patrimônio (COPP) da Universidade, sem registro na delegacia, o que pode gerar distorções no gráfico apresentado.

Na matéria sobre a greve na UnB – apresentada como uma explicação do racha entre professores e servidores – faltou dar voz aos técnicos-administrativos. Enquanto seis docentes foram escutados, apenas dois membros do SintFub tiveram suas aspas publicadas, e sobre uma outra polêmica. O desequilíbrio fica ainda mais claro quando os repórteres praticamente legitimam o fim da greve dos professores como forma de evitar uma volta às aulas “unilateral” nos departamentos. São muitos os lados – e todos devem ser lembrados.

Mel Bleil Gallo é estudante do sétimo semestre de Jornalismo da UnB. Ombudskivina é o feminino de Ombudsman e tem como função criticar e analisar o trabalho do Campus


Nayra Thyemi

ELES

Violência em casa

QUANDO AS VÍTIMAS SÃO

Homens que apanham das mulheres sentem vergonha e encontram dificuldades para fazer registro em delegacias de Polícia, o que dificulta a geração de dados sobre o tema

Milena Barros

Empregado do Banco de Brasília, Paulo (nome fictício) era agredido fisicamente pela mulher depois que saía para beber com amigos, normalmente às sextas-feiras. “Quando chegava em casa, era um inferno, com ela gritando e querendo me cheirar para saber se tinha cheiro de mulher em mim.” Em meados do ano passado, no dia em que a companheira começou a quebrar objetos do quarto, ele decidiu se separar. “Ela veio em cima de mim, me estapeou, tentava me morder e me dar murros”, conta o bancário de 32 anos, que não registrou a agressão. “Fiquei todo arranhado.” Há grande dificuldade em constatar violência no âmbito familiar quando as vítimas são homens. A legislação brasileira prevê que apenas mulheres sofrem violência doméstica, portanto não há dados oficiais sobre esse crime contra eles. “No caso masculino, não fica claro no histórico da ocorrência como se deu a violência”, explica Sérgio Santos, agente de polícia da Divisão de Estatística e Planejamento Operacional do DF. “Além do mais, é muito raro homem ter coragem de ir à delegacia e relatar que apanhou da mulher.”

Nayra Thyemi

Dificuldades para registrar ocorrência e a recepção nas delegacias ao tentar fazer isso desestimulam homens

agredidos. “É uma queixa constante deles”, relata Márcia Borba, assistente social e coordenadora de grupos de acolhimento a vítimas e agressores de violência doméstica do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). Miriam Cássia Mendonça Pondaag, que pesquisou violência doméstica no doutorado em Psicologia na UnB, concorda. “Os homens são muito reservados nesse sentido. Têm vergonha de ser vítima. Fere o estereótipo masculino”, explica. Na prática, assistentes sociais e psicólogos revelam que esse tipo de violência é real e mais comum do que se imagina. Em um grupo de 12 casais atendidos por Miriam, em uma parceria com o Ministério Público, quase metade dos homens registraram ocorrência contra suas companheiras.

A discussão da lei Os casos de violência doméstica eram enquadrados na lei 90.099/84, que prevê lesão corporal. Em 2006 as mulheres passaram a ser amparadas pela lei 11.340, conhecida como Lei Maria Miriam Pondaag, doutora em Psicologia, conta que homens também são vítimas de violência no âmbito familiar

da Penha. O nome é uma homenagem à farmacêutica que sofreu duas tentativas de assassinato pelo marido – uma com arma de fogo, que a deixou paraplégica, e outra por eletrocução e afogamento. A lei visa criar mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra o gênero feminino.

A Lei Maria da Penha foi criada para amparar as mulheres, mais vulneráveis” Laís Cerqueira, promotora Dois juízes no Brasil aplicaram a lei, por analogia, em favor de homens. Em 2008, o juiz Mário Roberto Kono de Oliveira, do Juizado Especial Criminal Unificado de Cuiabá (MT), acatou os pedidos de um homem que alegou sofrer agressões por parte da exmulher. Na ação, foram anexados documentos como registro de ocorrência, pedido de exame de corpo de delito, nota fiscal de conserto de veículo danificado por ela e diversos e-mails intimidatórios e ofensivos. No Rio Grande do Sul, o juiz Alan Peixoto também estendeu as medidas de proteção definidas pela Lei Maria da Penha para um homem. Peixoto determinou que a ex-companheira permanecesse a uma distância mínima de 50 metros do ex-marido. “Foi uma deturpação da lei. A Maria da Penha foi criada para amparar as mulheres, que são mais vulneráveis”, diz a promotora de Justiça e coordenadora do Núcleo de Gênero Pró-Mulher, Laís Cerqueira. Ela afirma que a legislação brasileira não deixa de amparar homens, apenas criou um mecanismo que defende as mulheres. Áurea Rangel, chefe do Setor de Medidas Alternativas do MPDFT na unidade do Núcleo Bandeirante, acredita que a lei poderia abarcar homens e mulheres. “A vítima mulher costuma ser muito dependente, psicológica e financeiramente, por isso se submete. Mas hoje há uma inversão de papéis. Às vezes a mulher é vítima, mas também participa. Temos que analisar o contexto de cada família.” v

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Passos da su

Autoestima, coordenação motora e sociali são estimuladas por meio da dança Cecília Garcia

Às 8h30, de segunda a sexta, começam as aulas de dança. Ao som de Wilson Simonal e Guilherme Arantes, os alunos fazem o aquecimento. Alguns felizes e dispostos, outros com sono e preguiça, sem disposição para participar da classe. Depois do aquecimento vem o treino dos passos. Abraços e carinhos fazem parte do método para que os alunos do Centro Integrado Ensino Especial (Ciee), que têm deficiência mental, se sintam bem com os companheiros do grupo. Em fevereiro de 2000, professoras do Ciee resolveram ocupar os alunos com atividades extraclasse. Observando que muitos dos estudantes gostavam de dançar durante o intervalo com um aparelho de som improvisado no pátio, criaram o projeto Eu Danço. Hoje, cerca de 45 alunos com diferentes graus de comprometimento mental se revezam durante a semana nas aulas de dança, que duram duas horas. Sempre com um sorriso no rosto, a “Loira do Eu Danço”, como a pedagoga Fátima Reis é conhecida, relata com orgulho as apresentações do grupo, mostrando álbuns de fotos. Mas adverte que o objetivo do trabalho não são as apresentações. “Não queremos descobrir artistas, mas de vez em quando aparece um. Trabalhamos a partir das habilidades de cada um, não forçamos, só estimulamos suas potencialidades.” A dança do ventre feita com uma cobra de borracha é uma das apresentações em que a aluna Amanda se destacou. Sua mãe, Maria da Conceição Marques, orgulha-se das habilidades da filha. “Lógico que foi uma dança dentro das limitações dela, mas foi lindo do mesmo jeito”, orgulha-se. O líder do grupo de pesquisa Deficiência Mental e Atividade Física da Universidade de Brasília (UnB), Jônatas de França Barros, afirma que exercícios físicos voltados para pessoas com comprometimento intelectual ajudam a atenuar muitos dos problemas apontados para essa faixa

da população. “Consegue-se implementar métodos que melhorem as atividades deles na vida diária e que tenham possibilidade de independência”, diz.Reginaldo, que gosta de dançar forró e axé, entrou logo no início do projeto Eu Danço e consegue perceber as melhoras. “Eu era muito atentado, respondia às professoras, xingava”, relata. “Agora estou melhor com as professoras, descobri o que é certo e errado, tenho disciplina.” Mesmo depois de sair do centro, ele não deixa de participar das aulas. “O papel que mais gostei de fazer, de todos, foi o deus da guerra, na apresentação sobre olimpíadas”, relembra. Fatinha, como a pedagoga também é conhecida, aponta que, dentre as melhoras percebidas no grupo, estão a socialização e o desempenho dos estudantes nas outras áreas da educação. Para Álvaro Neto, estudante da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, participante do projeto, ao contrário do que muitos pensam, é o professor que se adapta ao aluno. “Quando sentem que podem confiar em nós, quando vão com a nossa cara, os alunos passam a fazer o que pedimos”, relata. Eliane faz todos os movimentos que os professores pedem. Deficiente mental e auditiva, frequenta as aulas de dança há seis anos. Apesar da adversidade que poderia ser um obstáculo a qualquer atividade musical, ela é uma das alunas mais dedicadas. A mãe Dalva Carvalho conta que a adaptação da filha foi demorada, mas, quando ocorreu, se tornou mais sociável. “Quando você vê sua filha se apresentando, apesar da dificuldade, é pra ficar feliz da vida.” Uma participante do Eu Danço que deixou saudade foi Karine, bailarina xodó da professora Fátima. Conceição Liz Teotônio diz que a filha “já nasceu dançando”. A menina morreu de leucemia, mas suas evoluções por causa da dança e do projeto ainda são lembradas por Conceição: “Ela se abriu pra vida”.

No Centro Integrado de Ensino Especial, estudantes ensaiam


Henrique Teles

superação

alização de deficientes mentais

Thalita Carrico

ensaiam coreografia de dança em homenagem a Brasília

“Eles têm a oportunidade de se expressar” Érika – O processo terapêutico é justamente o trabalho dele na área emocional, através dos movimentos da dança. No lado físico, eles melhoram muito a consciência corporal. Aprendem a andar direito, levantar de forma coerente, sentar direito. Todos os aspectos motores também vão ser atrelados a esse âmbito da terapia psicomotora. A parte artística é trabalhar o estético neles. Dar a oportunidade de pensarem Campus – O que é terapia psicomotora? “criadoramente”. O ápice de todo o crescimento artístico está na criatividade, Érika Ramos – É você trabalhar a terapia através do corpo. na abstração. Quando se fala em psicomotora, estamos trabalhando os elementos da mente, que são o bem-estar, a autoestima, a Campus – Você também afirma que os cognição, junto com a parte motora, que é a coordenação, deficientes que praticam a dança têm lateralidade, equilíbrio. Eu busco estudar a terapia melhora nítida na inserção no âmbito psicomotora por meio da dança, que é a arte na qual eu social. encontrei muita evolução com os deficientes mentais. Érika – Com a dança, isso é possível, mas Campus – No artigo “A dança na terapia psicomotora de também depende muito do professor pessoas com necessidades educativas especiais”, você que está com a turma. Ou você estimula interligou a terapia psicomotora à dança. Como ocorre muito que eles cresçam em aula, ou você essa interação? destrói a autoestima e sociabilização deste aluno, que nunca mais vai querer voltar. Érika – Fazer essa interação significa ligar os movimentos Eles têm uma dificuldade de se expor, da dança como aspecto coreográfico aos movimentos de se relacionar com a turma. Com o da terapia psicomotora, que é a parte do equilíbrio, da tempo e as dinâmicas de grupo, eles vão respiração, da coordenação de músculos etc. melhorando porque começam a sentir segurança na turma. Campus – Em outro artigo, você afirma que a dança tem valor terapêutico, reabilitacional e artístico para Campus – Existe uma média de os deficientes mentais. Como ela contribui com cada tempo para que o trabalho comece um desses aspectos? a ter resultados? Desde que estava no curso de graduação em Dança, concluído em 2008 na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Érika da Silva Ramos se dedica a pesquisar o impacto dos movimentos corporais na melhoria da vida de deficientes mentais. Seguiu os estudos numa especialização em Psicomotricidade e, para entender melhor o processo, aprendeu linguagem de sinais e ingressou no curso de Psicologia. Desde o ano passado, é coordenadora do Núcleo de Arte da Secretaria de Estado de Assistência Social no Amazonas. Nesta entrevista dada ao Campus por telefone, ela explica como a dança pode influenciar aspectos físicos e emocionais dos deficientes mentais. (C.G.)

Érika – Essa proposta que eu trago é de fazer um trabalho sistemático, com início, meio e fim. Só terá uma melhora significativa nas propostas das aulas, seja ela em desenvolvimento, seja ela em socialização, se o aluno participar direito do processo. Neste processo, a gente não pode se dar ao luxo de fazer de 15 em 15 dias, ou uma vez por mês, senão não funciona. Tem que ser sistemático. Início, meio e fim, duas vezes na semana, com acompanhamento dos pais e tudo programado. Campus – Ainda no artigo sobre benefício da dança aos deficientes mentais, você fala muito sobre a influência que a estética traz sobre a dança. Qual o limite dessa relação? Érika – A estética sempre será nociva para o deficiente, quando, a meu ver, está mascarada. Quando não é real na vida deles, quando é só uma coreografia bonitinha para apresentar e depois esquecerem pro resto da vida. O objetivo da estética com eles não está só em trabalhar os aplausos ao final da apresentação. Esses sujeitos têm que entrar na sala de uma forma, ser alcançados pelo objetivo da aula e sair diferentes de como entraram. Isso através da sensibilidade que a estética tem dentro da arte. A dança possibilita ao sujeito pensar o que ele está movimentando e entender o que ele está dançando. v

Inclusão esquecida Clara Araújo

Para alguns casos de deficiência mental, atividades físicas regulares são essenciais. Contudo, existem poucas opções de acesso a centros especializados. No Distrito Federal, são apenas 12 Centros de Integração de Ensino Especial (Ciees), em que os alunos fazem exercícios regularmente. Nas academias da Asa Norte, por exemplo, a presença deles ainda é rara. Dessa forma, os deficientes podem virar sedentários e obesos, problemas com alto índice nessa faixa da população.

Além dos benefícios sociais de conviver em grupo, as atividades físicas ajudam a contornar os maus hábitos alimentares, a difícil manutenção do peso e a execução de tarefas diárias simples, como segurar objetos ou se movimentar. Na Asa Norte, a academia D´Stak atende mais de 500 alunos, mas apenas três são deficientes. Dois deles, com síndrome de Down, estão matriculados nas aulas de natação. Como a turma é mista, a sociabilidade e a independência dos alunos são exercitadas enquanto realizam as atividades dentro da piscina. Apesar da evolução da integração nas academias, muitas ainda não estão preparadas para atender esse público. Segundo Heloísa Santana, monitora do Instituto de Dança Emmanuel Sócrates, na Asa Norte, “o maior empecilho não é a

Amanda, bailarina do Eu Danço, com a mãe, Maria da Conceição Marques

dificuldade dos deficientes de realizar os passos de dança. Como a demanda é baixa, as academias não se interessam em treinar novos profissionais”. Aquelas com profissionais especializados para tal público têm pouca procura. No centro de orientação física Em Forma, na Asa Norte, nunca houve a entrada de nenhum aluno com deficiência. “Aqui nós temos o princípio da individualidade. Temos limitações e as respeitamos. Com os deficientes o atendimento não eriadiferente”, analisa o professor de educação física João Vitor Martino. v


Sem traumas

Lição de convivência Escolas públicas promovem conciliações entre envolvidos em bullying por meio de reuniões, conversas e negociação com os pais a fim de evitar que as vítimas do constrangimento tenham de deixar as turmas Juliana Figueiredo

Lílian Pessoa

Em um canto do quadro-negro, na sala do 1º ano F da alfabetização do Centro de Aprendizagem e Integração de Cursos (Caic) Albert Sabin, em Santa Maria, um cartaz com letras de forma exibe os “Combinados da Turma”. As regrinhas escritas na cartolina, como “respeitar o colega e a professora” e “sempre usar as palavras mágicas”, foram acertadas entre os alunos e a professora Antônia Silva no início do ano. Quem desrespeitar o que foi combinado sofre as sanções que a própria turma estabeleceu. É uma demonstração do cuidado de criar e manter o clima de harmonia no ambiente escolar. Como o Caic, cada vez mais as escolas públicas têm desenvolvido trabalhos constantes para identificar, prevenir e combater o bullying. A palavra, de origem inglesa, serve para nomear aquelas pequenas – ou grandes – agressões que se sofre na escola, repetidamente. Ter um apelido constrangedor, ser ameaçado ou excluído por colegas e sofrer discriminação são alguns exemplos. “O indivíduo pode desenvolver insegurança e dificuldades de relacionamento, tornando-se apático e introvertido”, explica a psicopedagoga Aída Correia, que há dez anos atende crianças com problemas de aprendizado. Se, no passado, a alternativa para os agredidos era sair do colégio para fugir do bullying, hoje o problema virou preocupação oficial. Em 2008, a Secretaria de Educação do Distrito Federal instituiu, por meio de uma portaria, a política de Promoção da Cidadania e da Cultura da Paz. A partir dessa determinação, todas as escolas passaram a ter um Conselho de Segurança Comunitário, para tratar dos casos de agressão e violência acontecidos no colégio. Integrado por pais, professores, funcionários e, algumas vezes, representantes de turma, os conselhos fazem trabalhos voltados para a conscientização sobre o bullying, que podem ser palestras, jogos, reuniões, exibição de filmes ou confecção de cartazes. Além do trabalho preventivo, as escolas têm feito intervenções para mudar o relacionamento entre a vítima e o agressor. O trabalho inclui conversas, negociações e reuniões com pais. O objetivo é promover a conciliação entre os envolvidos.

No CAIC Albert Sabin, em Santa Maria, as crianças são incentivadas a conviver em harmonia

o verdadeiro motivo. O menino dizia ter dificuldade com as disciplinas do colégio.

Notas baixas

Daniel recorreu ao Serviço de Orientação Pedagógica (SOE) da escola. A orientadora, Sirlânia Cândida, recomendou aos alunos que fossem mais maduros. A cada nova agressão, Daniel voltava ao SOE. Depois de um mês, a situação melhorou. “Não conheciam o Daniel, simplesmente me julgavam. Hoje, todo mundo me conhece”, comemora o estudante.

No Centro de Ensino Médio (CEM) 02 do Gama, Daniel (nome fictício) sofria discriminação dos colegas por sua orientação sexual. Além de chamá-lo por apelidos ofensivos, os colegas evitavam sentar-se perto dele na sala. “Eu ficava muito deprimido. Isso afetou demais minha auto-estima”, conta o estudante de 17 anos. As notas de Daniel começaram a cair, mas seus pais não ficaram sabendo

Para prevenir que casos como o de Daniel se repitam, a professora de inglês Nalva Correia realiza com os alunos do 1º ano um trabalho sobre comportamentos destrutivos, entre eles o bullying. Os adolescentes pesquisam o assunto e produzem vídeos com os temas. “Os alunos aprendem que podem se defender”, comenta.

Com os alunos da alfabetização à 4ª série do Caic Albert Sabin, o trabalho é semelhante. Os estudantes, mesmo pequenos, usam termos como “cafezinho”, para tratar colegas de pele escura, além de expressões como piranha e prostituta. “Pergunto se eles sabem o que significa aquela palavra”, conta a diretora Domingas Oliveira. “Os alunos choram, se desculpam com o colega”, afirma. Em casos mais extremos, quando a intervenção da escola não é suficiente, a família do aluno agressor pode ser encaminhada para o Conselho Tutelar. “Os bullers (nome dado ao agressor) externam pontos fracos com a violência. Muitas vezes, vêm de famílias desestruturadas”, explica a professora de inglês do CEM 02 Nalva Souza. “No bullying, tanto o agressor como o agredido podem ser considerados ‘vítimas’, que necessitam de ajuda psicoterapêutica”, alerta a psicopedagoga Aída Correia. v

Com a definição do novo calendário, UnB busca solução para estudantes de outros estados que deveriam retornar às instituições de origem em agosto

Raio Gomes Aluna da Universidade Federal do Ceará (UFC), Sarah Coelho, 22, veio de Fortaleza para a UnB no segundo semestre de 2009 a fim de continuar o curso de Comunicação Social em uma cidade diferente. O que ela não esperava era que a UnB fosse entrar em greve. Com medo de ser reprovada por faltas na UFC no segundo semestre, Sarah está com as passagens compradas para Fortaleza e determinada a abandonar este semestre na UnB. “A minha expectativa era não atrasar em nada o meu curso, porque escolhi disciplinas que eu

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poderia aproveitar quando voltasse”, lamenta a estudante. Assim como Sarah, vários estudantes de Mobilidade Acadêmica – um intercâmbio entre instituições federais de ensino superior – se encontram em um dilema, pois suas universidades de origem iniciam o segundo semestre do ano em agosto, quase um mês antes do término do primeiro semestre da UnB, no dia 4 de setembro.

Outra solução apontada pela diretora é a extensão do período de mobilidade. “Em geral, os alunos ficam dois semestres em mobilidade. Podemos aumentar esse período em mais um semestre”. Para Nina Laranjeira, ficar mais um semestre na UnB não causaria muitos danos aos estudantes, uma vez que a maioria dos que se candidatam às vagas já possuem algum vínculo com a cidade.

Como a cearense, outros 29 estudantes que deveriam retornar em agosto para as suas universidades ainda não foram informados sobre seu futuro acadêmico. “Como o término é no dia 4, podemos negociar o abono das faltas dos estudantes com as universidades”, afirma Nina Laranjeira, diretora de Acompanhamento e Integração Acadêmica, que auxilia os estudantes em mobilidade.

Miguel de Castro, coordenador de Programação, Informação e Comunicação da UFC, setor responsável pela mobilidade acadêmica, diz que estudantes como Sarah devem se matricular normalmente e que as faltas ocorridas até o fim de agosto serão computadas dentro dos 25% de faltas permitidas pelo MEC. Nina Laranjeira acredita que essa deve ser a postura adotada pelas outras universidades conveniadas. v


Cozimento zero Thiago Borges

O CARDÁPIO

MILENAR

No prato, alimentos crus e diversificados. Essa é a receita dos crudívoros para manter o equilíbrio do organismo e a conexão com a natureza

Mariane Rodrigues

Oito horas da manhã. O estudante Victor Zani, 18 anos, coloca para secar as sementes de trigo que passaram a noite imersas em um pote com água. O objetivo é germinar as sementes para usá-las na alimentação. O capim do trigo, retirado da plantinha que cultiva em casa, pode ser misturado a frutas ou folhas para fazer suco. No almoço, o prato fica bastante colorido por vegetais. Todos crus. Além do broto do trigo, Zani aprecia os de alfafa, ervilha e rabanete. Para completar a paleta, folhas, legumes, castanhas, linhaça, aveia e gergelim. Tempera a comida só com azeite. Nos intervalos dos afazeres, lancha frutas ou barras de cereais adquiridas em lojas de produtos naturais. Nem sempre Zani foi assim. Ele mudou seus hábitos alimentares no início deste ano, quando descobriu o crudivorismo. A principal característica desse tipo de alimentação é a ingestão de alimentos crus, ou aquecidos a no máximo 42° C. Isso porque, segundo os adeptos, até essa temperatura são preservados os nutrientes e as enzimas, fundamentais para as funções do organismo e tratadas pelos crudívoros como “princípio vital”. Corrente do vegetarianismo, o crudivorismo tem seu surgimento atribuído ao líder religioso Sylvester Graham, dos Estados Unidos, em 1840. O movimento se expandiu na década de 1990. Em Nova Iorque, atual centro do movimento, há pelo menos sete restaurantes especializados. Acredita-se que, no Brasil, os primeiros seguidores foram os higienistas e essênios. Os higienistas relacionam o aparecimento de qualquer doença à má alimentação. Já os essênios, religiosos ligados ao judaísmo, defendem a teoria de que Jesus teria cultivado hábitos semelhantes ao crudivorismo e, por isso, os cristãos deveriam segui-los também.

Thiago Borges

Foi uma amiga que morou nos Estados Unidos quem trouxe informações para Roséllis Moraes, 55 anos,

nutricionista formada pela UnB e dona de restaurante que há nove anos virou adepta do crudivorismo. A empresária aprendeu a higienizar e processar sementes e castanhas e hoje dá cursos sobre isso. Um método que usa bastante em casa é a desidratação de frutas, que não afeta o valor nutritivo delas. “Fazer uma alimentação crudívora é você se voltar para a natureza, se conectar com a vida, se equilibrar”, acredita Roséllis. Para ela, a vida na cidade é um obstáculo ao equilíbrio do corpo. “O ideal seria colhermos uma fruta do pé, do jeito que a natureza nos oferece”, completa. A nutricionista diz que a mudança acabou com problemas digestivos. Vegetariana há oito anos, Clarice Gomes , 22 anos, estudante de Artes Cênicas, aderiu ao crudivorismo em fevereiro de 2009 por questões de saúde mais graves. A mudança foi imediata à descoberta da pancreatite crônica, que a fazia ter fortes dores na região abdominal e inchaços no corpo. Desde pequena, a atriz era internada duas vezes por ano por causa das crises. “Era horrível, eu passava a soro”, relata. O cardápio crudívoro fez bem a ponto de ela, até agora, não ter sentido mais nada. Na busca de alimentos Na rua, durante os afazeres, as dificuldades para os crudívoros acharem a comida adequada aparecem. É difícil encontrar uma fruta sem agrotóxico, suco de couve com água de coco, iogurte de inhame ou o molho de mostarda batida com azeite. Um queijo feito só com castanhas já iria bem. É preciso dar um jeitinho de carregar uma salada de frutas na bolsa, como faz Clarice, e ter disposição para preparar quase todos os pratos do dia. No seio familiar de Zani, Roséllis e Clarice, a cultura é carnívora. Nasceram e cresceram vendo a carne em cima da pia para descongelar. Temperos prontos, cheios de conservantes. Lembram das comidas típicas, regionais, das festas. Zani sente falta dos chás e, às vezes, abre uma exceção ao uso do fogo alto para preparar um de hortelã. Leva em consideração que, nesse caso, não há a perda de nutriente algum. Nada de açúcar, nem mesmo o mascavo. Clarice gosta de adoçar alguns pratos com mel, mas isso não é unanimidade.

Roséllis Moraes: A semente do capim do trigo é utilizada na culinária crudívora

Clarice revela que se surpreendeu ao ver a mãe se tornando vegetariana. Um membro da geração passada, ela já conseguiu mudar. Zani nem considera a possibilidade

Na falta de restaurantes especializados, Victor Zani busca aquele que tem a melhor bancada de saladas e legumes crus

de isso acontecer com os pais. “O congelador de casa é cheio de carne. Sou o estranho da família mesmo”, brinca. Agora, o novo objetivo de Clarice é apresentar as receitas ao filho. O garotinho de três anos ainda não reclama do que a mãe prepara em casa, mas frequentemente come carne com o tio, que mora com eles, ou na casa do pai. “Eu respeito a vontade dele de comer carne”, afirma. Como membro de família tipicamente mineira, ela confessa que sente muita falta de vários ingredientes que davam mais sabor à comida. “No início foi complicado, sentia falta dos temperos indianos e do sal, mas é questão de ir treinando o paladar”, comenta. A questão do uso de temperos é pessoal. A restrição se refere aos industrializados e ainda há uma exceção que alguns usam: o shoyu. Zani ainda não é radical. Começou retirando carne, derivados de animais e açúcar da alimentação. “Tem que fazer isso aos poucos, para o organismo ir se acostumando.” Clarice adotou o mesmo processo, mas confessa: “Ainda uso o açúcar mascavo, quero parar”. v

Nutrição controversa A nutricionista Renata Puppin Zandonadi, doutoranda em Nutrição Humana pela UnB, explica que a inativação enzimática, causada pelo cozimento, nem sempre é negativa. O processo de aquecimento do alimento, muitas vezes, permite o melhor aproveitamento de alguns nutrientes. Para ela, o melhor é ponderar a dieta. “Tudo depende da quantidade e da frequência de ingestão.” Daiana Mendes, dona de uma clínica de nutrição no Sudoeste, acrescenta que há várias possibilidades de se evitar perda grande de nutrientes dos alimentos, como refogá-los. “Eu não aconselho uma dieta crudívora”, afirma. Renata ressalta ainda a questão da higienização dos alimentos – já que a temperatura de 42° C não é suficiente para eliminar os microorganismos – e alerta para a carência de alguns nutrientes encontrados principalmente nas carnes e derivados. Ela sugere contornar a carência com suplementos de vitamina B12 ou levedo de cerveja. A falta da vitamina prejudica o funcionamento do sistema nervoso, causando fadiga e falhas na memória. Assim que aderiu ao crudivorismo, Zani procurou uma nutricionista. “Fiquei preocupado, porque é uma forma irresponsável começar de uma hora pra outra”, comenta. Roséllis também precisou do incremento na dieta, mas preferiu um natural ao de farmácia. Como profissional da área, aconselha mesmo os iniciantes a procurar acompanhamento nutricional. “A pessoa tem que saber o que está fazendo, o porquê de evitar o cozimento e a importância das enzimas”, explica. (M.R.)

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Na cesta

Salvando o Universo

O assistente técnico Pipoka melhora o desempenho do time de basquete da capital no torneio mais importante do país

Rodrigo Vasconcelos

Quando ainda brilhava como pivô nas quadras, o gigante de 2,04m participou decisivamente para o Universo ganhar o primeiro e único título nacional, em 2007. Em agosto do ano passado, ele voltou para trabalhar como assistente técnico, a convite do comandante do time, o técnico Lula Ferreira. Na visão de outro ídolo nacional, uma decisão acertada. “Um dos melhores pivôs com quem joguei”, comenta Oscar Schmidt, que esteve com Pipoka na seleção brasileira vencedora do Pan de 87, em Indianápolis. “O Lula é um sortudo por ter um menino de ouro como o João. A bagagem dele é algo que poucos possuem”, afirma.

A origem do ídolo Antes de se tornar o assistente técnico do clube que busca neste ano o bicampeonato nacional. Antes de crescer e virar um atleta de sucesso na seleção brasileira, na NBA e no Universo. Antecedendo tudo isso, veio a formação do pequeno Pipoka, na mesma cidade onde nasceu: Brasília. Ainda sem o apelido famoso, que teve origem tanto nos pulos quanto no costume de ele comer pipoca no recreio, João José começou no basquete aos 12 anos. Curiosamente, estava jogando futebol, quando Pedro Rodrigues, primeiro técnico dele no Minas, o descobriu. “Toda vez que passava, via um menino comprido e esguio jogando bola no parquinho ao lado do posto. Um dia o chamei para um teste contra o time A do clube que eu treinava. Ele fez logo 12 pontos, então de cara eu percebi o talento dele”, lembra o treinador.

O treinador do Universo, aliás, sabe bem do que disse o Mão Santa. “É um grande prazer, em primeiro lugar, ver um jogador como ele mudar de função. Ele trilhou um caminho bonito pelo basquete brasileiro, e agora passa os ensinamentos dele adiante como assistente. Ajuda em coisas que poucos percebem, como a forma de deslocar, o apoio do pé de pivô, a posição do arremesso, posicionamento de defesa. Dicas para aplicar no jogo e que dão resultado”, ressalta Lula.

Tal demonstração de habilidade pode ter impressionado Rodrigues, mas não era novidade para o pai de Pipoka, Flausino Vianna. “Desde que eu o vi nos jogos escolares, sabia que ele seria bom nisso, viu? Era um menino muito esforçado, muito obediente, e eu sempre ouvia o pessoal do basquete falar bem dele, principalmente o olheiro de São Paulo que veio aqui ver ele jogar. Tenho muito orgulho do João”, conta o senhor de 83 anos.

Mas a melhora no desempenho da equipe não se restringe somente a elogios ao ex-

O olheiro era do São José, primeiro clube profissional de Pi-

poka fora do DF. Depois de muitas experiências em clubes, vieram os jogos nas Olimpíadas de Seul (1988), Barcelona (1992) e Atlanta (1996), quatro Mundiais e o Pan de 87, no qual a Seleção foi campeã. Passou pela NBA e retornou ao Brasil e a Brasília, terminando a carreira brilhante com o único troféu nacional da história do Universo. Ele se aposentou antes da grande final contra o Franca. Mesmo assim, o técnico da época, José Carlos Vidal, é grato a ele. “Com a experiência e com o comprometimento com o grupo, se tornou um grande líder naquela equipe. Um dos melhores com quem já trabalhei”, confessa. Hoje, além de transmitir seus ensinamentos adquiridos com uma campanha de sucesso no basquete, Pipoka faz questão de orientar algo de valor para a vida dos atletas como cidadãos. “Ninguém incentiva o atleta a investir no futuro, no conhecimento, e isso é uma pena. Todo mundo deveria estar estudando, pois a vida nos leva mais longe do que os 30 anos de uma carreira de basquete”, ensina o atleta, do alto de sua experiência. Literalmente. v

“Não sei se eu concordo com essa onda de Ficha Limpa. Enquanto Seleção de frases notáveis publicadas Opinião sobre a aprovação do projeto Ficha no Twitter eles estiverem no Congresso não estão nos assaltando na rua” Limpa em 140 caracteres “UOL: ‘Ficha Limpa não valerá neste ano’ - Aí chega 2011 e dizem mesma coisa. É a filosofia do ‘fiado só amanha’ do governo” Oscar Filho, repórter do programa CQC, da TV Bandeirantes

Tirinha

por Felipe Matheus Pineda

“O projeto Ficha Limpa foi aprovads! Agora é só torcer pros políticos pararem de misturar Actívia com políticazis...” Twitter falso do humorista Mussum

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Luis Fernando Verissimo, escritor “O que os deputados gritaram quando foi aprovado o projeto Ficha Limpa? ‘Sujou!’” José Simão, colunista do jornal Folha de S. Paulo

“Ficha Limpa aprovado na CCJ do Senado. Já preparam a licitação fraudulenta pra comprar toneladas de sabão em pó” Maurício Ricardo, cartunista e humorista do site charges.com

Thalita Carrico

Por duas temporadas seguidas, a apaixonada torcida do Universo se entristeceu ao final do Novo Basquete Brasil, forçada a observar o Flamengo dar a volta olímpica enquanto o time do coração amargava o vice-campeonato. O principal time da capital federal, logo, se via na obrigação de chamar reforços, no intuito de não permitir que a série de derrotas para os cariocas vire uma freguesia. Para tal, ninguém melhor que um conhecedor do caminho e do gosto da vitória, uma cria da cidade: João José Vianna, o Pipoka.

jogador. É algo que as estatísticas, números essenciais ao basquete, também comprovam. Pipoka direciona seu trabalho com maior atenção aos pivôs. Exemplo perfeito é o titular Estevam, que melhorou a média de pontos, rebotes e bloqueios, fundamentos importantes para os atletas dessa posição.


CAMPUS ANO 40 - Edição 347