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O perigo da gripe comum Apesar do medo causado pela gripe suína, a comum mata mais. Só no Brasil, foram 753 óbitos no ano passado 07

SEGUNDA-FEIRA - Brasília, 25 de Maio de 2009

Jornal Laboratório da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília

WWW.FAC.UNB.BR/CAMPUSONLINE

ANO 39, EDIÇÃO Nº336

Trinta anos de perdão

FOTO: DIÁRIO DO NORDESTE

No aniversário da Lei da Anistia, o Campus localiza em Fortaleza o ex-delegado da PF José Armando Costa, recordista em acusações de tortura na ditadura militar

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CULTURA

POR AQUI

FOTO: ANA PAULA PAIVA

FOTO: ANA PAULA PAIVA

Lixo universitário atrai catadores de recicláveis

CIÊNCIA E TECNOLOGIA

Insatisfação e pressão por política cultural 06 Movimento de artistas locais

cobra do GDF diretrizes mais sólidas. Segmento questiona aplicação de recursos do FAC e quer maior participação no aniversário de Brasília

06

Pesquisas realizadas na UnB usam a nanotecnologia para tratar doenças tropicais e até alguns tipos de câncer COMPORTAMENTO FOTO: ANA PAULA PAIVA

SAÚDE

Faltam professores em escola de medicina SEM TRABALHO FORMAL, FAMÍLIAS VIVEM EM CONDIÇÕES PRECÁRIAS À BEIRA DA VIA L3 NORTE

03 Incentivados pela quantidade de

material descartado no campus Darcy Ribeiro, trabalhadores deixam casas nas satélites para morar em barracas improvisadas na UnB

07 Escola Superior de Ciências da Saúde

tem seu método de ensino prejudicado pelo deficit de docentes. Para não parar as atividades, direção coloca mais alunos nas turmas do que o previsto

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Os churrascos sem carne da UnB atraem cada vez mais estudantes com espírito empreendedor


2 Opinião ))

ILUSTRAÇÃO: IÚRI LOPES

Jornal Laboratório da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília Campus Darcy Ribeiro, Faculdade de Comunicação, ICC-Ala Norte. Contato: (61) 3307-1925 Ramal 207/241 – campus@unb.br - Caixa Postal: 04660 CEP: 70910-900

EXPEDIENTE Editora-Chefe: Camila Guedes Secretária de Redação: Anna Carolina Vilela Diretor de Arte: Bruno Silva Editores: Fabiano Bomfim (Opinião), Ana Cláudia Felizola (Especial), Taíssa Dias (Por Aqui), Amanda Gonzaga (Cultura e C&T), Marina Bosio (Esporte e Saúde), Pedro Duprat (Fotografia), Naira Gomes (Comportamento) Repórteres: Camilla Machuy, Filipe Kafino, Juliana Leão, Juliana Nogueira, Leonardo Muniz, Lucas Doca, Marciele Santos, Maria Scodeler, Mayara Reis, Naiara Leão, Sacha Brasil, Tchérena Guimarães, Verônica Honório Fotógrafos: Ana Paula Paiva, Ana Beatriz Lemos, Fernanda Neves Diagramadores: Gláucia Cristina, Izabella Miranda, Luciana Albuquerque Projeto Gráfico: Filipe Kafino, Leonardo Muniz, Lucas Doca, Naiara Leão Professor Responsável: Solano Nascimento Jornalista: José Luiz Silva Professor de Fotografia: Lourenço Cardoso Suporte Técnico: Pedro França e Mário Filho Monitores: Janine Moraes e Marina de Sá TIRAGEM: 4.500 EXEMPLARES - GRÁFICA GUIAPACK

EDITORIAL

Você custa dinheiro

Q

uando se é aprovado no vestibular de uma universidade pública, um peso é tirado das costas. “Meus pais não terão mais que gastar tanto dinheiro comigo”, é o que passa na cabeça da maioria dos felizardos. E a universidade acaba se tornando, para muitos, um paraíso em que money não tem tanta importância quanto no resto do mundo. Infelizmente, a realidade é outra. Só porque seus pais não lembram a você todos os dias que investem tantos mil pagando sua faculdade, não significa que as coisas venham de graça. Assim que alguém passa no vestibular de uma instituição pública, essa pessoa começa a fazer parte de um seleto grupo que tem os estudos custeados por toda a sociedade. É, todo mundo sabe disso. O que a maioria

ILUSTRAÇÃO:

das pessoas não sabe é quanto exatamente elas custam para o país. De acordo com a Lei Orçamentária Anual de 2009, os cofres públicos devem gastar este ano cerca de R$ 519.568.408 apenas para que os cursos de graduação da Universidade de Brasília continuem funcionando. Considerando que existem 25.775 graduandos, isso significa que o país vai gastar aproximadamente R$ 20.000 por ano para que você consiga um diploma. Pensando nisso, o Campus decidiu abordar o assunto apenas para convidar os alunos da UnB a refletirem melhor na hora em que decidirem matar uma aula, atrasar o curso ou tratar as instalações da Universidade diferentemente de como tratam sua própria casa. Afinal, pode não parecer, mas você está custando muito para o Brasil.

Carta do leitor JERONIMO CALORIO PINTO Estudante de Jornalismo

G

ostaria de reclamar sobre algo que me incomoda: a falta de abordagem dos assuntos da UnB e das eleições do DCE pelo Campus. É incoerente que um jornal universitário não enfatize os assuntos que o circundam. Atento minha crítica para a primeira edição, que mencionou vagamente as eleições em um pequeno quadro. Na segunda, deixou a desejar numa matéria que, embora escrita coerentemente, mostra-se in-completa. Fato é que o movimento estudantil

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apresenta uma vasta gama de pensamentos, e que as eleições para DCE são importantes. Ilustrar isso com uma matéria quase “rodapé”, em que dados estatísticos se sobressaem às propostas políticas, é demonstrar o quanto as editorias e a influência docente do jornal estão desligadas de sua realidade local. Isso se mostra evidente quando o jornal resolve colocar como matéria de capa um assunto que já havia sido tratado na edição de número 279, em 2003. A página 7 já exibia uma foto com um carro da FUB estacionado em vaga para deficientes.

Participe também do Campus, escreva a sua carta Envie críticas e sugestões para campus@unb.br

Conjuntura Rafael Holanda Barroso é aluno do 7º semestre de Ciência Política e coordenador-geral do DCE da UnB rafaelhbarroso@gmail.com

Desafios da qualidade

O

Brasil tem uma das menores taxas de jovens incluídos no ensino superior da América Latina. Observando os dados do Plano Nacional de Educação, o país tem menos de 12% dos jovens de 18 a 24 anos na universidade. Comparando com nossos vizinhos, a situação fica vergonhosa: Argentina tem 40%, Venezuela tem 26%, Chile e Bolívia têm 20,6%. Para nós, que entendemos a educação como meio de vencer nossa imensa desigualdade social, incluir mais jovens na universidade é uma coisa urgente, além de um direito garantido na Constituição.

Q U A L

É

A

R E C E I TA ?

OMBUDSKIVINNA

A história que embrulha peixe Ana Rita Cunha, estudante do 7° semestre de Jornalismo

J

ornalista, mesmo marcado pela efemeridade e objetividade, constrói narrativa e, como bom contador de história, não deixa o causo pela metade. Essa,porém,não é a impressão que temos ao ler a matéria sobre as eleições do DCE. Ela explica muito bem o processo eleitoral, mas peca

em falar pouco sobre a chapa vencedora, no sentido de interrogá-la a respeito das propostas. Como o DCE representa os estudantes nas instâncias políticas da Universidade, seria também interessante saber o que pensam a Adunb, a reitoria e mesmo a FUB sobre o resultado da eleição. Já a reportagem Ginásio de esporte está sem esporte não deixa claro porque ainda não exis-

tem políticas públicas de incentivo ao esporte no Nilson Nelson. Outra coisa que se deve saber é qual deve ser o tamanho de uma história. Como jornalista não é pescador, a história deve ter o tamanho exato do peixe. Cometer excessos como em Uma nova vida ao velho Chico é descuido. O assunto da matéria é interessante, mas a repórter repete informações, enche o texto de floreios e acaba perdendo o foco. Vale a intenção de se aventurar pelas ferramentas literá-

rias, só que não bastam palavras bonitas, é preciso conteúdo. Por falar em literário, há duas seções no jornal que flertam com a crônica: a coluna Chute do Campus e a editoria Comportamento. Ambas, no entanto, ainda não se encontraram e confundem a leveza com superficialidade. As duas abordam assuntos bastante falados sem acrescentar novidade ao leitor. * Ombudskvinna, feminino de ombudsman. Na imprensa, é a pessoa que analisa o jornal do ponto de vista do leitor

HÁ QUASE 40 ANOS

Mudanças na Universidade “Para onde vai a universidade brasileira?”. Não é de hoje que essa pergunta é feita. Em julho de 1972, ela abria a reportagem do Campus sobre a reforma universitária iniciada anos antes. O governo federal pretendia ampliar o número de laboratórios e bibliotecas, além de garantir dedicação exclusiva dos professores às universidades. O repórter José Humberto Netto mostrou que até aquele momento o projeto não tinha saído do papel em vários estados brasileiros.

EDIÇÃO 336 – JORNAL CAMPUS

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Leia o Campus Online www.fac.unb.br/campusonline

R E U N I ILUSTRAÇÃO: IÚRI LOPES

O último projeto de expansão apresentado pelo MEC, o Reuni, já está em curso em todas as universidades federais do Brasil e, assim, cursos já foram criados, vagas estão sendo expandidas e o processo está acontecendo. Falando disso, o que mais escutamos pelos corredores é o jargão “expansão só com qualidade!”. Essa é uma resposta óbvia. Que estudante defenderia a falta de qualidade? O problema real é: como garantir isso? A maior contribuição que podemos dar para a solução dos problemas da universidade e da expansão é o envolvimento em uma mobilização constante. O movimento estudantil precisa estar no dia-a-dia, por meio dos CAs e do DCE, garantindo as condições para o pleno desenvolvimento das atividades acadêmicas. É nossa obrigação mobilizar uma avaliação dos docentes, acompanhar os concursos dos novos professores, cobrar uma formulação participativa e antecipada das listas de oferta, entre outras coisas. A qualidade na universidade não cai do céu, ela é – e deve ser – fruto de uma construção coletiva entre professores, estudantes e técnicos-administrativos. A importância dessa mobilização é mais perceptível quando os problemas da expansão aparecem: campi sem RU, aulas sem sala, concursos de cartas marcadas selecionando professores ruins, criação de cursos sem projeto político pedagógico, etc. Essa é uma realidade em todos os campi, que têm problemas que são fruto, principalmente, da falta de planejamento e de organização. O Reuni não resolve nossos problemas, mas é só com envolvimento e mobilização que vamos trabalhar para que ele expanda nossas qualidades e não nossos problemas.


(( Por Aqui 3 Abundância de lixo reciclável atrai catadores para as redondezas da UnB. Sem informação, eles vivem sob insegurança, medo e preconceito

Esperança de uma vida reciclada TCHÉRENA GUIMARÃES

O

campus Darcy Ribeiro não é povoado apenas por alunos e servidores. Outras pessoas vivem por aqui e muitas vezes passam despercebidas. Vemos e não temos ideia de quem são. Chamados de catadores de lixo por alguns e catadores de materiais recicláveis por outros, eles são algumas dezenas de pessoas que sobrevivem do que achamos que não serve mais. Se você já passou pela L3 Norte para chegar à UnB, já os viu. Moram em barracas de lona e de papelão. Alimentamse do que acham nos lixos das ruas e de doações. Fazem co-

mida a céu aberto e as necessidades fisiológicas igualmente. Vivem às margens não só da rodovia, mas do sistema. A pesquisadora do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB (CDS) Valéria Gentil explica que a Asa Norte e as redondezas da Universidade são atrativas para os catadores porque possuem o lixo “rico”. Esse é o lixo que as indústrias recicladoras compram em maior quantidade. No caso das proximidades da Universidade, há abundância de papel, plástico, papelão e garrafas pet. Juscileine Maria, 40, recolhe lixo perto do Posto Policial da L3 Norte e da Faculdade de Tecnologia. Vaidosa, ela conta que gosta de trabalhar na

escuridão da noite, pois tem vergonha de ser vista mal-arrumada e catando lixo. “Todo mundo fica me olhando estranho, como se eu fosse gente ruim”, queixa-se. Juscileine tem cinco filhos, entre eles um com apenas dez meses. Apenas o filho de sete anos vive com ela, mas fica a maior parte do tempo distante, em uma casa que a família aluga em Brasilinha (Planaltina de Goiás). É nessa cidade que mora grande parte dos catadores de material reciclável que se fixam temporariamente no campus. Eles ficam de 15 dias a um mês recolhendo e vendendo materiais recicláveis em Brasília e depois voltam para as cidades-satélites, onde permanecem por no máximo FOTO: ANA BEATRIZ LEMOS

JUSCILEINE MARIA SENTE VERGONHA DE SER UMA DAS CATADORAS DE LIXO QUE VIVEM PRÓXIMO À UNIVERSIDADE

FOTO: ANA PAULA PAIVA

uma semana. Ednalva Oliveira, 39, tem dois filhos e explica que aluga uma casa por R$ 120 em Brasilinha. “Meus filhos precisam ficar lá estudando”, conta. E acrescenta: “Não sobra dinheiro nenhum do meu trabalho. Pago aluguel e tenho que comprar comida para deixar para os meus filhos”. Os catadores autônomos conseguem tirar, em média, R$ 400 por mês. O quilo do papelão é vendido a R$ 0,06. O da garrafa pet custa R$ 0,05 e um palmo de papel (na vertical) é vendido por R$ 0,08. Ednalva veio da Bahia para tentar sobreviver na capital. Ela foi um dos muitos imigrantes que transferiu o título de eleitor para Brasília porque ouviu de candidatos promessas de um futuro melhor. “Sei CATADORES TÊM ESPERANÇA DE MUDANÇAS E TRABALHO FORMAL que esse lugar aqui não é nosso”, diz referindo-se ao terreno que ocupam junto ao campus. da Central de Cooperativas de lhes explicar os benefícios de “Mas o que eu faço se eu pre- Catadores de Materiais Reci- formarem cooperativas. José cláveis (Centcoop) de Brasília, Alves, 34, é uma prova de que ciso trabalhar?”. dos cerca de 20.000 catadores muitos catadores continuam existentes na cidade, apenas na informalidade porque ainInclusão Para a pesquisadora Valéria 2.718 fazem parte de organi- da não possuem informação Gentil, esses trabalhadores são zações cooperativas, dentre os suficiente. “Nunca me explicaexcluídos socialmente e mal- quais não estão incluidas Jus- ram o que é cooperativa, nem incluídos economicamente. cileine e Ednalva. sei como funciona”, comenta Danilo Miura, Gerente Alves. “O governo não vê a realidade dessas pessoas e se omite”, da Centcoop, acredita que a A doutoranda Valéria Genafirma a estudiosa. Marcel inserção de um trabalhador til explica que a UnB tem Bursztyn, professor do CDS, autônomo na cooperativa mo- muitos projetos de extensão acredita que uma forma de difica a realidade. “Trabalhar relacionados com a coleta seincluí-los socialmente é atra- em conjunto traz confiança e letiva de lixo, mas esclarece vés da formalização de seus facilita a aquisição de material que é muito complicado para trabalhos, inserindo-os em (como carrinhos) e terrenos”, a Universidade ajudar os aucooperativas. “Essas pessoas evidencia Miura. tônomos que vivem da coleta No entanto, ele entende de materiais recicláveis: “A vivem à margem de benefícios da legislação trabalhista”, afir- que a Centcoop não possui Universidade de Brasília não recursos suficientes para levar vai apoiar um sistema ilegal e ma Bursztyn. De acordo com os dados informações aos catadores e informal”.

Ensino

Educação superior Inc. FILIPE KAFINO

A

compra das faculdades Juscelino Kubitscheck, do Distrito Federal, pelo grupo Anhanguera, de São Paulo, não foi só mais uma transação comercial no ensino superior do Brasil. A venda representa uma tendência nesse mercado e marca a participação finan-

ceira estrangeira, já que a Anhanguera é uma empresa de capital aberto. Apesar dos significativos investimentos estrangeiros no ensino superior brasileiro nos últimos anos, não há qualquer regulamentação no país para o ingresso de capital externo em escolas e universidades. A abertura de capital do grupo Anhanguera, que tamFOTO: ANA BEATRIZ LEMOS

NO DF, CAPITAL EXTERNO É REPRESENTADO PELO GRUPO ANHANGUERA

bém é dono das faculdades Santa Teresinha e Facnet, ambas em Taguatinga, é um dos casos mais expressivos. A oferta inicial de suas ações rendeu R$ 300 milhões à empresa, que hoje, com cerca de 250 mil alunos, nove mil só no DF e entorno, é a maior do Brasil no ramo. Com mais de 40% de suas ações negociadas na Bolsa, o grupo tem entre seus investidores internacionais fundos de investimento com sede nas ilhas Cayman e no Reino Unido. Empresas estrangeiras também expandiram seus negócios visando os estudantes brasileiros. A Laureate, segundo maior grupo educacional dos Estados Unidos, adquiriu a universidade Anhembi – Morumbi. A Whitney, também americana, comprou parte do centro universitário Jorge

Amado, da Bahia. A presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Lúcia Stumpf, defende a urgente regulamentação do setor pelo Congresso Nacional. “A educação não pode ser considerada uma mercadoria, um serviço, e sim um assunto estratégico para o desenvolvimento nacional”, afirma. Segundo ela, a UNE defende o percentual de 30% de ingresso de capital externo na educação. “Se for permitido mais do que isso, as corporações passam a definir as diretrizes do que será ensinado, quais cursos serão abertos, segundo a lógica do lucro e não de acordo com o projeto educacional nacional”, argumenta a presidente. O diretor técnico da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes) e também reitor da

Anhangüera, Antônio Carbonari Netto, defende o modelo que ajudou a implantar. “Hoje as faculdades precisam desse capital. A crise está afetando as matrículas”, explica. Para ele, há uma discussão ideológica por trás do capital. “Na década em que eu estudei em livros americanos e russos, ninguém questionava a ideologia que vinha nos livros e agora vão questionar a ideologia que vem do financiamento?”, indaga. Para o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), algumas perguntas precisam ser respondidas quanto à entrada indiscriminada de capital estrangeiro no ensino superior. “Qual a finalidade desse dinheiro? Existe a possibilidade de ser um capital volátil? O Brasil precisa se tornar uma economia do conhecimento,

eu não tenho preconceito com a origem do capital, mas tenho princípios”, afirma o político. O Plano Nacional de Educação prevê que, até o fim da década, 30% dos jovens entre 18 e 24 anos estarão matriculados em instituições de ensino superior. Hoje, esse percentual não chega a 15%. No mês passado, a Câmara dos Deputados instalou uma comissão especial para discutir os projetos que alteram as regras gerais para educação superior, a Reforma Universitária. A regulamentação do investimento estrangeiro na educação está incluída em alguns dos projetos de lei em discussão no Congresso que tratam da questão. As proposições variam entre o estabelecimento de teto para o capital externo (PL 7.200/2006) até a proibição total (PL 2.138/2003).


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Especial

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Delegado aposentado da PF do Ceará prefere esquecer seu envolvimento em torturas durante a ditadura MARIA SCODELER VERÔNICA HONÓRIO

M

esmo aposentado da função de delegado da Polícia Federal (PF), José Armando Costa, 63 anos, tem uma rotina agitada. É corregedorgeral dos Órgãos de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará, ministra palestras e cursos pelo Brasil, escreveu seis livros de Direito e é dono de um escritório de advocacia em Aldeota, bairro nobre de Fortaleza. É uma figura conhecida na cidade, com grande prestígio profissional. Porém, há partes de sua vida sobre as quais ele prefere não falar: “Já pensou se eu estivesse atrás de você por uma coisa

na Justiça Militar entre abril de 1964, logo após o golpe de Estado que deu início à ditadura, e março de 1979. O relatório inclui depoimentos de réus e de testemunhas de torturas. A partir disso, o projeto BNM elaborou uma lista com 1.026 referências a civis e militares acusados de ligação direta com a tortura, tanto por meio da utilização de instrumentos quanto em interrogatório de presos durante e após as sessões de maus tratos. Nessas referências há casos de acusados citados por mais de um réu e nomes que não permitem a identificação por estarem incompletos. Retirados esses casos, sobram na lista 249 nomes. Desses, 25 são de agentes e delegados da PF.

Em meados da década de 70, quando presos políticos sofreram torturas físicas e psicológicas em Fortaleza, José Armando Costa era delegado da Polícia Federal na cidade. Em depoimentos dados à Justiça Militar à época, presos relataram que, apesar de não operar de forma direta os instrumentos de tortura, Costa os interrogava logo depois das sessões de maus tratos e ameaçava repetilas para obter confissões. O engenheiro Lavoisier Alves Cavalcante, ao depor em 1973 sobre as torturas que sofreu, relatou uma frase de Costa: “Olha, rapaz, se você não concordar com isso que eu mandei colocar (na confissão), você pode entrar numa faixa pesada”. De

Sou uma pessoa com a vida muito limpa, não sei onde você (repórter) está querendo chegar com isso” José Armando Costa , 63 anos

que você fez há trinta anos?”. Em 1985 foi divulgado o relatório do projeto Brasil Nunca Mais (BNM). É fruto de pesquisas, que duraram mais de cinco anos, realizadas por um grupo coordenado pela Arquidiocese de São Paulo. Foram examinadas mais de 1 milhão de páginas de 707 processos contra presos políticos que tramitaram

A maioria morreu ou deixou a Polícia Federal, mas seis se aposentaram na corporação e seguem até hoje na folha de pagamento do governo. Deles, o recordista em acusações de tortura é José Armando Costa, citado por seis depoentes. Como os demais acusados, ele foi perdoado pela Lei de Anistia, que completa 30 anos em agosto.

acordo com Elizabeth Silveira, presidente do Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro, tanto o agente quanto o que permite a tortura têm a mesma responsabilidade. “Ele (Costa) não é inocente nessa história”, afirma. Localizado pelo Campus em Fortaleza, Armando Costa primeiro se mostrou receptivo, mas desconfiado.

“Você quer escrever sobre o quê?”, perguntou. Ao ouvir a menção à anistia, mudou de tom. “Sou uma pessoa com a vida muito limpa, não sei onde você está querendo chegar com isso”, disse. “Acho isso uma supersacanagem.” Ele contou que na PF “era considerado a mãe da polícia, porque era humano” e sugeriu que se pare de revirar o passado. “Eu acho que este país, em termos de jornalista, está muito atrás. Vamos olhar para frente”, propôs, encerrando a conversa em seguida.

Carreira e família

Armando Costa cursou Direito na Universidade Federal do Ceará e, assim que se formou, ingressou na Polícia Federal como delegado. Além do Ceará, onde chegou a ser superintendente da PF, atuou em Brasília, Bahia, Rio de Janeiro, Piauí, Rio Grande do Norte e Pernambuco. Foi casado durante 35 anos com Lenilza Costa, com quem teve quatro filhos: Armando Júnior, Adriano, Janaína e Andrea. Separou-se em 2004 e tem duas netas de oito anos. Incentivou os filhos a seguirem a carreira jurídica. “Os presentes para quem passasse em Direito sempre eram melhores do que se passássemos em outro curso”, conta Janaína. Assim que se aposentou da polícia, em 1993, Costa abriu um escritório de advocacia para trabalhar com os

JOSÉ ARMANDO COSTA PUBLICOU SEIS LIVROS SOBRE DIREITO E FAZ PALESTRAS PELO BRASIL

filhos, que seguiram os conselhos do pai e se formaram em Direito. Entre as funções do cargo atual de Armando Costa, de corregedor-geral de Órgãos de Segurança, está a fiscalização da conduta de policiais. De acordo com a legislação, cabe a ele “receber reclamações e denúncias contra integrantes da Polícia Civil e das Corporações Militares Estaduais e apurar o fundamento das denúncias”. Para a filha Janaína, o fato de Costa ser corregedor mostra sua identificação com a área. “É prova de que (ele) gosta de trabalhar na polícia”, disse. O delegado aposentado participa de seminários em várias partes do país e escreveu livros como Estrutura Jurídica de Liberdade Provisória e Manual de Polícia Judici-

ária. O passado de José Armando Costa não é segredo para muita gente em Fortaleza. Márcio Albuquerque, presidente da Associação Cearense 64-68-Anistia, que presta apoio a ex-presos políticos do regime militar, é um dos que sabem das acusações contra o ex-delegado da Polícia Federal. Albuquerque tenta compreender por que o assunto não é discutido de forma pública. Para ele, a sociedade tem dificuldade para fugir do maniqueísmo e entender que uma pessoa “normal” pode ter sido um torturador. “As pessoas pensam que os torturadores são diferentes, são uns monstros”, explica. “Às vezes eles são bons pais de família, bons vizinhos, mas são torturadores.”


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“Ele ficava rindo da situação da gente”

Especial

FOTO:DIÁRIO DO NORDESTE

A frase é do ex-preso político Vicente Walmick Vieira ao falar sobre a postura de Costa em interrogatórios

MARCIELE SANTOS MARIA SCODELER

G

eraldo Majela Guedes, comerciante preso em 1973, afirmou em depoimento à Justiça Militar que não via diferença, do ponto de vista do “sadismo”, entre os policiais que operavam os instrumentos de tortura e o delegado José Armando Costa, que o ameaçava e interrogava no gabinete da Polícia Federal. Costa, conforme relatos de seis presos políticos, era responsável por obter as confissões de detentos em Fortaleza. Na maioria dos depoimentos, ele aparece exigindo que os presos assinem papéis confirmando tudo o que disseram durante os maus tratos e advertindo-os

de que as torturas recomeçariam caso não obedecessem. O professor de Física Vicente Walmick Vieira, preso aos 31 anos em 1973, também foi interrogado por Armando Costa após sessões de maus tratos. As torturas renderam a Vieira cinco dentes quebrados e muitos traumas. “Uma pessoa que vai para uma temporada dessas daí fica com mil sequelas”, afirma. “Passei muitos anos em que eu não podia ver o carro deles (policiais federais e militares)”. O professor lembra-se de Costa. “Ele ficava rindo da situação da gente, ameaçava devolver a gente (para a tortura)”, conta Vieira ao Campus. O relato do universitário Ricardo Esmeraldo, detido aos 24 anos em 1973, descreve a suposta naturalidade com que Costa tratava a violência praticada pelos policiais. O delegado teria dito que, “em matéria de surra”, até ele havia apanhado de seus pais, motivo pelo qual Esmeraldo não deveria dar tanta atenção àquele tratamento. Hoje, Esmeraldo prefere não comentar as torturas. “Não quero nem tocar nesse assunto”, afirma. O engenheiro Lavoisier Cavalcante, aos 26 anos, chegou vendado e algemado à Superintendência Regional da Polícia Federal do Ceará para dar um depoimento a Armando Costa logo após ser torturado. Cavalcante não gosta de falar sobre o passado. “Nem pra mim ele colocou o que sofreu, ele sofreu muito”, justifica Clara Cavalcante,

mulher do engenheiro. Casada há 36 anos, Clara conta que o marido foi preso logo após o casamento e ficou desaparecido por um mês. Fiscal da prefeitura de Fortaleza, Cavalcante tem diabetes e problemas cardíacos. O então estudante de Química José Auri Pinheiro foi preso no dia 24 de janeiro de 1973, em João Pessoa, na Paraíba. À noite, foi encaminhado à Polícia Federal do Ceará e, na manhã seguinte, em um lugar ignorado, as torturas começaram e se estenderam por três dias. Os torturadores, segundo ele, eram policiais subordinados ao delegado José Armando Costa. “Minhas preocupações eram preservar o máximo de informação possível e

que elétrico, teve um holofote projetando luz diretamente sobre seu rosto e ficou pendurado na posição “pau-de-arara” (veja o infográfico) por duas vezes, recebendo ameaças e pancadas. “Achava que eu, provavelmente, nem sairia vivo”, relata. Pinheiro ficou com queimaduras e hematomas. O ex-preso político diz que os policiais e militares eram “especialistas em tortura”, pois sabiam machucar sem colocar a vida dos interrogados em risco. “Quando eles quebravam a pessoa, é porque eles iam matar mesmo”. O torturado ouviu de um policial que quatro presos tinham sido exterminados. A notícia veio seguida da ameaça de que, caso o detento não fizesse aquilo que os policiais deseja-

Minhas preocupações eram preservar o máximo de informação possível e sobreviver” José Auri Pinheiro, 58 anos

sobreviver”, revela Pinheiro, hoje professor da Universidade Federal do Ceará. Ele enfrentou dificuldades para conseguir falar pouco e continuar vivo. Em depoimento à Justiça Militar, relatou que, ao negar conhecer os nomes de pessoas e organizações citadas por um dos torturadores, teve suas mãos e pés amarrados, levou cho-

vam, teria o mesmo destino. Transferido para diferentes quartéis, Pinheiro só teve contato direto com seus familiares depois de 40 dias, já em um presídio. “Recebi a visita da minha mãe, foi um momento de alívio”, lembra, com a voz embargada. Lá, começou a receber assistência de advogados e ficou preso por dez meses. Doutor em

Bioquímica, diz não ter sequelas graves dos tempos de tortura. Há seis anos, porém, passou por uma experiência que lhe trouxe lembranças dos sofrimentos de 1973. Foi a uma imobiliária assinar os

papéis da venda de um de seus apartamentos e, quando chegou ao escritório do corretor, encontrou o comprador do imóvel: o ex-delegado da polícia fede-ral José Armando Costa, identificado como o chefe dos torturadores. “Parece que ele me reconheceu.”

Lei nº 6.683/79 CAMILLA MACHUY

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ontestada até hoje, a Lei de Anistia foi aprovada no dia 28 de agosto de 1979, gerando na prática um perdão a acusados por crimes políticos. Brasileiros considerados subversivos e exilados pelo regime militar conseguiram voltar a viver com tranquilidade no país, enquanto militares e policiais civis acusados de torturar presos políticos não puderam ser processados pelos crimes. A aprovação da lei foi a primeira medida significativa do governo de João Baptista Figueiredo (1979-1985) para a reabertura política do país. No ano passado, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos, órgão do governo federal, pleiteou sem sucesso no Supremo Tribunal Federal (STF) a possibilidade de processar torturadores. Também ligada ao Executivo, a Advocacia Geral da União (AGU) defendeu a manutenção da

anistia de forma irrestrita. Por sua vez, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) protocolou nova ação no STF questionando o perdão a policiais civis e militares acusados de tortura. Professores do Instituto de Ciência Política (IPOL) da UnB também se dividem em relação à revogação ou não da lei. “Em países como Argentina e Uruguai, onde o sistema de repressão foi ainda pior do que no Brasil, a questão da condenação dos torturadores gerou uma instabilidade política que se estende até os dias de hoje”, diz Ricardo Caldas. “Incriminar os torturadores agora vai ser uma medida inútil e frustrante.” Leonardo Barreto tem uma tendência prórevisão da Lei da Anistia, mas é cauteloso. “Foi uma medida muito importante para o país, mas hoje sofre severas críticas”, afirma. “Muitas pessoas acreditam que os torturadores deveriam ser condenados pelos crimes que cometeram.”


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Cultura )) Artistas locais questionam aplicação de recursos do FAC e propõem ao GDF a consolidação de diretrizes

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Confira a agenda cultural diariamente no site: fac.unb.br/campus2009

Pressão por

política cultural FOTO: fernanda neves

ficou acordado que esses pro- sicamente de uma assinatura do jetos seriam financiados com governador”, revela Sales. recursos de 2009.” O acordo estabelecia que o Próximas discussões Aplicação do FAC “A UnB será o agente artiNo último dia 29, o novo FAC de 2009 seria de R$ 24,8 FAC, que destina 0,3% da milhões, mas o edital publicado culador nesta discussão”, expõe Receita do DF a projetos de no último dia 14 estabelece R$ Beatriz Salles, coordenadora do incentivo à cultura, completou 19,5 milhões, dos quais R$ 2 Grupo de Produção Cultural da um ano de aprovação. Embora milhões são destinados a proje- UnB. Na próxima terça (26), no a receita para a cultura tenha tos específicos coordenados pela auditório da reitoria, uma audiaumentado, o segmento ques- Secretaria de Cultura.“Pergunto ência pública com representantiona que, dos R$ 15 milhões por que o acordo não foi cum- tes do governo, parlamentares disponíveis para financiamen- prido e onde estão os outros R$ e segmento cultural irá debater to de projetos no ano passado, 7 milhões da área fim do FAC”, propostas para a promoção de apenas R$ 3 milhões foram indaga o maestro e representan- políticas públicas para o setor. aplicados pela Secretaria de te do Fórum de Cultura, Rênio Entre as discussões, os passos Cultura até o fechamento do Quintas. O secretário-adjunto para a 2ª Conferência Distrital MOVIMENTO CULTURAL FOI AO BURITINGA COM REIVINDICAÇÕES ano. Outros R$ 9 milhões em de Cultura explica que já está de Cultura, as comemorações projetos aprovados naquele certo que o recurso será pago dos 50 anos da capital, a descou nove horas enjaulado em ano serão financiados com re- e que o problema hoje é me- centralização do acesso à culMayara reis ramente burocrático “A saída tura e a promoção da diversifrente ao Setor de Diversões cursos do FAC de 2009. O economista Luiz Fenelon, dos R$ 7 milhões depende ba- dade no DF. Sul, dias antes do aniversário s vésperas dos 50 anos de 49 anos de Brasília. “Junto membro do Fórum de Cultura FOTO: fernanda neves de Brasília, um mo- com deputados da Frente Pró- do DF, explica que os recursos vimento de artistas e Cultura, conseguimos uma au- de um fundo que não são emprodutores locais propõe a diência pública para questionar penhados (comprometidos) até discussão de políticas para a a falta de políticas sólidas para o final de um ano passam a integrar o caixa único do governo. cultura no DF. A insatisfação a cultura no DF”, expõe. com atrasos na aplicação de O secretário-adjunto de Cul- Com isso, não são necessariarecursos do Fundo de Apoio tura, Beto Sales, diz que políti- mente utilizados na área que à Cultura (FAC) no ano pas- cas públicas devem ser debati- seria beneficiada com o fundo. “Nós levamos muito temsado ganhou força quando, no das com a sociedade e já no ano último aniversário da cidade, os que vem o governo apresentará po discutindo para que o FAC artistas locais ficaram de fora da uma proposta consolidada. “A atendesse a todos e só pudemos festa do dia 21. posição da Secretaria de Cul- publicar o segundo edital em “Precisamos de projetos a tura hoje é ampliar o diálogo. outubro. É pouco tempo para longo prazo”, defende o ator Nossos pressupostos são de que avaliar os projetos e liberar os Adeilton Lima que, em uma o Estado deve fomentar a pro- recursos”, pondera o secretário. adaptação da obra Um Artista dução, estimular a circulação, “Para não provocar a perda de da Fome, de Franz Kafka, fi- promover o acesso e preservar a bons projetos do ano passado, PAULO OCTÁVIO PROMETE VIR À AUDIÊNCIA NA UNB NO DIA 26 cultura local”, expõe. “Para isso estamos aprimorando o FAC.”

À

ciência e tecnologia

Pequenos ímãs que podem curar Juliana nogueira

I

magine a distância de um milímetro numa régua. Agora divida esse milímetro em mil partes. O resultado é o tamanho de um nanômetro. Partículas magnéticas dessa dimensão estão sendo pesquisadas na UnB. Uma das aplicações estudadas é o depósito de remédios em células para a cura de doenças tropicais. Outra utilização é a despoluição ambiental. Desde 1998, professores da Universidade, de institutos como os de Física, Biologia, Química, trabalham com as possibilidades dessas partículas. “Nanotecnologia envolve, necessariamente, um conhecimento multidisciplinar”, diz Ricardo Bentes, professor do Instituto de Biologia. Hoje, o grupo que trabalha com nanotecnologia conta com mais de 50 professores, 250 alunos

e parcerias com outras nove universidades brasileiras. Entre as pesquisas realizadas com nanotecnologia na UnB está a do ‘carreamento de drogas’. Ela consiste no uso dos materiais nano para a ‘entrega’ de medicamentos em locais específicos do corpo. O estudo coordenado por Bentes usa a técnica para o tratamento da Paracoccidioidomicosse, mais conhecida como PB Micose. Essa doença é endêmica da América Latina, costuma atacar os pulmões e atinge principalmente trabalhadores rurais. O tratamento convencional da PB Micose tem muitos efeitos colaterais. A vantagem da terapia com nanotecnologia é que, como a exposição é localizada, o tempo que a droga leva para agir é menor e, portanto, os efeitos colaterais também. “Se serve para tratar a PB Micose, pode servir para tratar o câncer”, explica Bentes. A pesquisa se encontra na

fase de teste em animais, e o grupo de pesquisadores já começou a estudar a possibilidade de usar o procedimento em outras doenças tropicais, como a leishmaniose. Outra técnica em estudo na UnB é a magnetohipertermia, que consiste em associar nanopartículas às células cancerosas. Quando as partículas entram em contato com a célula doente, são expostas a um campo magnético. Isso faz a partícula vibrar e esquentar a célula, que ao atingir uma temperatura de 4°C a 5°C, acima da temperatura do corpo, morre. Os estudos também estão na fase de teste com animais. “Já conseguimos uma redução de 30% a 40% de um tumor grande em um camundongo. Esse é um resultado muito positivo”, explica a professora de Biologia Zumira Lacava, que coordena a pesquisa. “Baseados nos resultados em animais, podemos levar o tratamento para huma-

nos”, completa Zumira. As nanopartículas magnéticas podem ser usadas para melhorar a eficiência energética e ajudar na despoluição. Uma tecnologia desenvolvida e patenteada pela equipe da UnB foi a da limpeza de petróleo através das partículas magnéticas. Uma “farinha” com os pequenos imãs é preparada de forma a se ligar com o óleo derramado. Assim, o óleo pode ser facilmente separado da água utilizando-se outros imãs que atraiam as partículas. Apesar de ser patenteado, o pó magnético não é produzido em escala por falta de financiamento. “Fazer pesquisa é muito caro”, afirma Ricardo Bentes. “Todos os projetos que temos custam mais de R$ 1 milhão. O mais barato é de R$ 1,3 milhão”, conta Paulo César Morais, do Instituto de Física, que coordena projetos de nanotecnologia.

! Indique Por Pedro Duprat

Filme Idiocracy (EUA, 2005) O futuro da humanidade é um péssimo destino nesse filme. Uma experiência do exército que não dá certo leva o homem mais medíocre possível a encontrar um mundo onde a violência gratuita, o consumo desenfreado e a burrice cultural são regra. Uma boa crítica não só ao emburrecimento da era Bush, mas ao nosso mundo também.

Livro Desonra (J. M. Coetzee, 1999) Um professor universitário é acusado de assédio sexual e vai viver na fazenda da filha. Nesse mundo rural, o protagonista encontra não só as contradições da África do Sul, mas de sua própria mente.

Álbum Mingus Ah Um (Charles Mingus, 1959, Columbia) Nas palavras do autor, esse álbum é um “tributo estendido aos ancestrais.” As músicas têm influências que vão do gospel ao twelve bar blues, além de composições direcionadas aos amigos e, um dos clássicos do jazz, Fables of Faubus.


(( Esporte e Saúde 7 No ano passado, foram registradas 753 mortes no Brasil, apesar da subnotificação. As principais vítimas são os idosos, que respondem por 75% do total de óbitos

Gripe comum mata mais Juliana leão

A

influenza A (H1N1), conhecida como gripe suína, que matou em abril e maio deste ano 84 pessoas em todo o mundo, deixou em alerta autoridades da área de saúde. Comparados aos dados da gripe comum, os números da nova gripe não assustam tanto. Em abril e maio de 2008, a gripe comum matou 115 pessoas somente no Brasil. “A gripe é percebida, mas é uma doença comum, então não é valorizada”, diz a subsecretária de Vigilância de Saúde do Distrito Federal, Disney Antezana. “Esta doença pode complicar se não houver nenhum tipo de procura aos centros de saúde.” No ano passado, foram registradas no Datasus – banco de dados do Sistema Único de Saúde (SUS) – 753 mortes e 27.395 internações por gripe comum no Brasil. Até agora,

houve 10587 casos de gripe suína em 41 países. Segundo Pedro Tauil, professor da Faculdade de Medicina da UnB e pesquisador do Núcleo de Medicina Tropical, os dados do Datasus estão subestimados. “As estimativas no Brasil é que ocorram cerca de 30 mil óbitos por ano devido às complicações por gripe”, afirma Tauil. Os dados oficiais do SUS mostram que os óbitos por gripe são baixos no Distrito Federal. Constam no Datasus apenas duas mortes em todo o ano passado. No entanto, o chefe da Clínica Médica do Hospital Regional do Gama, Bruno de Paula Coutinho, afirma que só na instituição houve oito óbitos. “Os pacientes chegaram com gripe e o quadro evoluiu, levando à morte”, conta. De acordo com Coutinho, isso pode ser uma falha do Datasus ou até do médico que preencheu o atestado de óbito. No formulário, existem

quatro campos de preenchimento. A doença que motiva a entrada no hospital é colocada no primeiro campo, e a evolução da enfermidade é colocada nos outros campos, até chegar ao óbito. A primeira doença registrada, ou seja, a causadora, é

a que deve ser considerada responsável pela morte do paciente. Então, por exemplo, um paciente pode entrar com gripe, depois seu estado evoluir para pneumonia, agravando para insuficiência respiratória aguda e, por fim, chegar a uma parada

saúde

! Chute do Campus

Formação de médicos do GDF em risco lucas doca

U

m momento de alerta é o que vive a Escola Superior de Ciências da Saúde do Distrito Federal (Escs). Por conta de um déficit de 24 professores, a direção da instituição foi obrigada a ultrapassar o número máximo de alunos por turma para não paralisar atividades. As aposentadorias são o principal motivo da evasão de professores, e a Secretaria de Saúde não está cedendo profissionais na velo-

cidade da demanda. O enxugamento do quadro de professores começou há dois anos. O grupo foi aos poucos sendo reduzido e agora está no limite do possível, segundo o diretor-geral Mourad Ibrahim. “O caso do segundo ano é o mais crítico, no qual fomos forçados a colocar mais alunos em uma turma do que permite o nosso método de ensino”, relata. “Existe mesmo um sério risco de paralisação das atividades, que estamos controlando na ponta da faca.” No segundo ano, o ideal seria haver no máximo dez alunos por turma. Há 12. FOTO: fernanda neves

alunos se preocupam com déficit de professores na faculdade

Disney Antezana. Bruno Coutinho explica que o ciclo do vírus da gripe é de cerca de sete dias. Ele aconselha um paciente com os sintomas da gripe comum (febre alta, tosse e dores no Vacinação corpo) a usar medicamenAs mortes por gripe co- tos vendidos nas farmácias mum atingem mais os ido- durante esse período. Se os sos. A partir dos 60 anos, o sintomas persistirem ou se número de vítimas aumenta, agravarem, o doente deve fazendo da faixa compreen- procurar um profissional de dida entre 60 e 80 anos a res- saúde. ponsável por 75% dos casos A gripe suína causa medo fatais. O Ministério da Saú- em autoridades mundiais por de repassou este ano para a ser provocada por um vírus Secretaria de Saúde do DF contra o qual a humanidade vacinas e uma verba de R$ 37 não tem imunidade, enquanmil para compras de seringas to que para a gripe comum e agulhas para a imunização existe a imunidade parcial, de idosos. ou até mesmo total. O víTudo para atingir a meta rus da influenza A (H1N1) de vacinar 80% das pesso- combina genes de gripes huas acima de 60 anos contra manas, suínas e aviárias. Ao o vírus da influenza. “Em contrário da gripe comum teoria, essas pessoas não de- no Brasil, a suína mata prinveriam estar nas estatísticas cipalmente jovens entre 20 (de internações e mortes), e 49 anos. Os motivos ainda poderiam se vacinar”, diz a são desconhecidos pela Orsubsecretária de Vigilância, ganização Mundial de Saúde. cardiorrespiratória. Porém, muitos médicos registram como causa da morte a doença mais grave, em vez da primeira doença, que é a principal.

A grande preocupação da direção é em relação à manutenção do método pedagógico que consagrou a Escs. Com turmas reduzidas e inserção da prática e humanização no atendimento, os resultados da escola são visíveis. A maioria das residências do DF são conseguidas pelos alunos da faculdade. Além disso, ela obteve nota cinco, a máxima, no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), enquanto a UnB marcou quatro e a Universidade Católica, apenas três, a nota mínima. “Os números atuais nos preocupam, mas não conseguimos fazer a secretaria entender. Temos 136 professores no quadro, quando deveríamos ter 160 para atender aos 484 estudantes. A aposentadoria não é nossa única fonte de evasão, temos também os professores que saem para se dedicar à carreira. Não os culpo, mas precisamos de uma solução da secretaria”, expõe o diretor Mourad. É o caso da médica e professora Ana Maria Pedreira. “Apareceu uma oportunidade na área que eu gosto, em Sobradinho, e estou considerando sair da Escs. Existe uma contraproposta por parte da escola,

Esporte, palpites e filosofias de boteco Por Lucas Doca

mas ainda estou indecisa”, pondera. Apesar dos motivos pessoais para a saída, a professora não acredita que a função que desempenha atualmente seja ruim. “É possivel conciliar sem problemas a atividade de professora e a de médica. Há vantagens para exercer essa função singular”, revela. Segundo o coordenador do curso de Medicina da Escs, Paulo Silva, a secretaria não repassa funcionários alegando que não pode retirar médicos de hospitais, que deixariam de atender a pacientes, e que a escola precisa definir um plano de carreira. “Esses argumentos não correspondem à realidade”, diz Silva, lembrando que muitos professores atendem a pacientes enquanto orientam os estudantes. Alunos se mostram angustiados com a situação. “Isso é terrível para nossa formação. Quando vamos aprender na prática, fica mais complicado ainda”, reclama Ieda Rabelo, estudante do segundo ano. A Secretaria de Saúde e a Fundação de Ensino e Pesquisa de Ciências da Saúde (Fepecs), mantenedora da Escs, não quiseram se manifestar sobre o assunto.

Preguiça neles! O novo mascote do Universo/BRB levanta a questão: que membro da fauna melhor representa o esporte no DF?

O

jacaré do Brasiliense e o periquito do Gama, todo mundo já sabe, são os símbolos dos nossos peladeiros profissionais (Salve o eterno Iranildo). A novidade agora é o surgimento do bicho fofinho e simpático para o time de basquete Universo/BRB, que levanta mais torcida que muito time de futebol da nossa terra do quadradinho. E o escolhido é um velho conhecido e o mais sem graça do cerrado, o lobo-guará, que venceu a batalha contra o glorioso calango e a charmosa siriema. Eu proponho ir além, como um visionário que sou. Escolher o mascote de Brasília logo, que aproveito e vendo pro Paulo Octávio no aniversário de cinquenta anos da cidade. Paulo Octávio está comprando tudo mesmo. E para vertebrado digno de representar a cidade, ninguém melhor que o bom e velho bicho-preguiça. Ele representa o nosso esporte, é só olhar pra ver. A campanha do meu adorado Brasília no último Candangão? Preguiça neles. A organização da Copa do Mundo de Futsal, que deixou todo mundo de fora? Preguiça neles. A utilização do nosso aclamado ginásio de esportes Nilson Nelson mais para balada gospel que para desporto? PREGUIÇA NELES! Eu, como ex-grande atleta do piquepega, acho que o Universo/BRB é um dos poucos que carregam a glória esportiva do Distrito Federal. Que seja então o lobo-guará, para abençoar ou perdoar a preguiça do resto.


8 Comportamento )) Mais do que simples festas, os churrascos universitários servem para futuros profissionais ganharem dinheiro e experiência

FOTO: FERNANDA NEVES

Cerveja, funk, paquera e...

Bon$

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melhor qualidade para fazer valer os ingressos que custaram entre R$ 30 e R$ 70. O objetivo da festa era arrecadar dinheiro da formatura de um grupo de 15 amigos. Já o dinheiro do Eletrofest foi todo destinado ao CA da Engenharia Elétrica. O saldo da última edição se transforAlunos de elétrica no CA: computador, TV, geladeira e sofás comprados com o lucro do churrasco mou em TV de LCD, computador de última geração, armários e sofás novos, microondas, A organização, antes restrita pessoas perceberam que as geladeira e câmera de seguNAIARA LEÃO aos CA’s, hoje também é feita festas da UnB são um merca- rança. Os investimentos no por alunos que tiveram visão do fértil a ser explorado. Ago- CA também são feitos pelos letroxurras, Eletrofest, empreendedora e enxergaram ra temos tantas festas que esse alunos de Administração, que Churedes, Biovinil ou na farra alheia uma boa opor- mercado está até meio incha- promovem o churrasco Distração. “Essa é uma forma de Distração. Quem, den- tunidade de lucrar e ganhar do”, conta. tre os alunos da UnB, não experiência sem sair da UniPara driblar os concorrentes, investir na estrutura da UnB conhece as festas ou os “chur- versidade. Marconi investiu pesado no sem depender do dinheiro da rascos sem carne” promovidos O estudante de Engenharia primeiro “open bar” noturno instituição”, diz Pietro Politi, pelos estudantes e Centros Elétrica Marconi Carvalho é de grande porte da UnB, com organizador. Enquanto muitos estão de Acadêmicos da Universida- um exemplo desses alunos. whisky, vodka Absolut, tequila, de? Os eventos regados à cer- Ele trabalhou na organização espumante e energético libera- olho nos lucros em dinheiro, veja, tequila, paquera e funk dos dois últimos Eletroxurras dos. Contratou o DJ Marlboro, outros acham que o grande fazem a alegria de calouros e (Engenharia Elétrica) e da ícone do funk carioca, e gastou ganho é a experiência que adveteranos, mas também são Escova Elétrica (Engenharia quatro semanas em divulgação quirem para usar no mercacoisa séria para muita gente. Elétrica e Odontologia). “As e vendas de ingresso. Tudo da do de trabalho. Esse é o caso

E

dos organizadores da Festa da FAU, cuja 22ª edição acontece no próximo sábado, 30, no Centro Comunitário da UnB. “Na produção da festa aprendi a lidar com pessoas, com o público e negociar preços”, conta a estudante Laís Petra, que participa da gestão da festa pela 3ª vez. “Esse é o grande canteiro experimental da FAU (Faculdade de Arquitetura) porque temos um espaço para construir, projetar, trabalhar com cores e iluminação. É aqui que exercitamos Design de Interiores”, completa Luiz Eduardo Sarmento, diretor de cenografia. A preparação da Festa da FAU mobiliza alunos de todos os semestres e até alguns que já se formaram. Eles organizam um concurso que escolhe o cartaz e passam semanas com objetos de cenografia espalhados no meio da faculdade. “Incentivamos todo mundo a pintar e mexer nos obje-

tos. Com isso, os alunos vão aprendendo a lidar com um medo comum na arquitetura, que é o de projetar e errar. Assim nós já descobrimos muitos talentos”, comenta Laís. Os alunos também panfletam e doam material reciclável para a cenografia. Desde o ano passado, eles arriscam seu lado teatral e encenam uma performance durante a festa. Nas últimas semanas de organização, viram noites projetando e construindo painéis, luminárias e objetos de decoração. “Na última semana, trabalhamos tanto que até montamos uma barraca no Centro Comunitário e dormimos lá mesmo”, afirma Laís. Todo o esforço visa manter a tradição da festa que está em 27º ano e já teve shows até da Legião Urbana e Plebe Rude nos anos 80, quando músicos dessas bandas também eram alunos da Universidade de Brasília.

JOGOS E HUMOR

Onde está o Timothy? Agora, tente encontrar o Timothy em meio ao frevo de Pernambuco.

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Confira as respostas na próxima edição do Campus

sudoku

Soluções (referentes à última edição)

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Novos talentos

Se você desenha bem e gosta de contar boas histórias, envie sua tirinha para o jornal Campus pelo e-mail: campus@unb.br Contamos com seu talento!

Trinta anos de perdão  

No aniversário da Lei da Anistia, o Campus localiza em Fortaleza o ex-delegado da PF José Armando Costa, recordista em acusações de tortura...