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Sentir o frio de uma chuva que não é real é um fardo que pagamos desde muitos anos. A manhã de mais um dia surgia no céu envidrado do Bloco 02. Era sexta-feira, e para mim hoje é um dia muito especial. Pois é hoje, que durante anos que finalmente vão selecionar vinte e quatro pessoas para formar a Equipe de Buscas do nosso Bloco. Desde que nasci nunca tive a oportunidade de sair do bloco, na verdade, ninguém sai do nosso Bloco já faz alguns anos. Essa nossa situação é complicada, pois já a quatro gerações que vivemos dentro do Bloco sem manter contato físico com o exterior. Vivemos basicamente da agricultura, e por meio da tecnologia que desfrutamos. A questão é que nossos recursos estão se esgotando, e obviamente necessitamos dos recursos naturais, como: uma fonte de água potável; novas espécies de plantas e até, se possível, animais – que por sinal, nunca na minha vida toquei em nenhum animal irracional. No Centro Educacional temos imagens arquivadas de alguns animais que habitaram a terra, mas nunca pudemos ver ou tocar um de verdade. Meu nome é Paco, e tenho dezessete anos. Moro no Bloco 02, que é uma das dezessete comunidades humanas não infectadas que restaram. Já faz muito tempo em que estou esperando essa data, pois finalmente em algumas horas talvez, irei sair do Bloco! E se eu conseguir sobreviver, entrarei para a história! Isso é tudo é um sonho de vida, mas minha melhor amiga, Glenda, discorda de tudo isso. Pra ela, eu não deveria ter me alistado para fazer parte da Equipe de Buscas, pois isso é suicídio na certa. Mas eu estava completamente convencido de que ajudar o meu povo era uma das formas de me realizar nessa vida. Era por isso que eu tinha me alistado, para tentar ser alguém. Alguém que fosse notado por todos... Já eram exatamente 08h01min da manhã quando o relógiodespertador começou a miar. E rapidamente levantei vestindo minha usual roupa de camisa listrada cinza e minha calça de lã azul.


Ninguém havia acordado; Reneé dormia como uma princesa, e meu pai parecia mais saudável. Sem fazer barulho abri a porta e saí em direção a casa de Glenda, com certeza eu precisava falar com ela antes que a noite chegasse. Eu moro na área do Bloco chamado de Residencial, que é onde todos moram – exceto a família do Sindico que vive no Prédio do Sindicato. Todos possuímos o mesmo estilo de casa. Uma grande sala integrada com uma cozinha, dois quartos e um pequeno banheiro e todos os Compartimentos – como chamamos nossas casas – ficam na área Sul do Bloco. Glenda pra mim é uma irmã, se bem que meu pai sempre insiste na idéia de que nós deveríamos namorar, algo bem fora de cogitação, pois eu sempre amei mesmo a Greta. Essa sim um dia eu namorarei, pensei. A Glenda sempre me diz que a Greta é muita areia pro meu caminhãozinho, mas o amor supera qualquer barreira, e eu acredito nisso... Na verdade sou obrigado a acreditar. “Então garanhão, já se declarou?”, escutei Glenda dizer, cutucando-me atrás do meu ombro. - Fala Glenda! Eu estava indo... - Eu deveria bater muito em você por ter se alistado nessa busca pela morte, Paco. – gritou ela. Eu realmente não sabia por que ela agia daquele jeito estranho. Mas a verdade era que da ultima vez que formaram uma Equipe de Buscas, nunca mais voltaram. Talvez esse fosse o medo de que Glenda tanto tinha... Que eu morresse. - Glenda, você sabe que eles vão escolher os vinte e quatro mais capacitados para a missão... – falei com calma. - Ah!, não sei se você sabe, mais você é um prato cheio para essa “missão impossível”. – disse apontando seu dedo indicador na minha cara.


Sim. Se eu era um jovem completamente preparado para participar de equipe? É claro que sim! O Sindico Alves já havia avisado sobre a busca por recursos naturais limpos já fazia alguns anos. E em qualquer reunião dominical o Sindico sempre mencionava o Dia do Alistamento. Desde então venho me preparando e me esforçando completamente para ter uma vaga na equipe de buscas. Continuamos andando, e agora seguíamos em direção a grande praça. O cenário ia mudando conforme mudávamos de local. Em vez de prédios com compartimentos, agora tínhamos ruas de paralelepípedos, e grandes árvores verdes que produziam grande parte do oxigênio limpo que respirávamos. O Bloco 02 é o que posso associar a uma cidade, a diferença é que acima de nós está uma enorme grossura de vidro impermeável à radiação. Além do vidro, que nos cerca totalmente, temos os muros que limitam nossos espaços. É por isso que vivemos como eu chamaria de detentos. Presos. Tudo isso aconteceu há muito tempo atrás quando uma grande guerra nuclear estourou. Armas radioativas foram distribuídas pelas organizações ricas, onde guerreavam em busca de controle absoluto dos países pobres, e principalmente suas pequenas fontes naturais de petróleo. Em várias regiões do planeta a radiação devastou completamente a natureza alterando seu DNA. Acreditasse que não há sobreviventes no exterior atualmente. Mas graças a grandes homens que sobreviveram no fim da guerra, construíram em lugares que não foram muito afetados pela radiação cidades altamente protegidas para sobrevivência humana. Daí vem o nome Bloco, de prédio. Bloco de pessoas, bloco humano... Alguma coisa assim. Estudamos isso na aula de Blocania. Então, os Blocos foram feitos com grande pressa, e muita


engenharia moderna por grandes homens. Homens estes que estão consagrados em toda nossa história, como Arché Tékton, que projetou a cidade. Nahuatl Español, o inventor o vidro protetor, e Sabrina que pela perda de sua mãe, teve a idéia de fazer uma cidade impenetrável. Ela também foi a primeira Sindica do nosso sindicato. Naquele horário, a praça estava vazia. Mas como é de costume que as pessoas tomem seu banho solar, tinha algumas pessoas que já circulavam com suas roupas brancas. Chegamos até a praça, e percorremos a borda do lago artificial. Um lugar tranqüilo, e silencioso. Grandes árvores com suas folhas verdes, e vários bancos espalhados com pequenas trilhas de pedras era como eu poderia caracterizar a praça. Sentamos no primeiro banco livre que vimos. - Paco, porque não fugimos? – perguntou Glenda, segurando agora as minhas mãos. - Você e suas idéias malucas! Fugir? Você sabe que não duraríamos nada lá fora e além... - Nós iríamos conseguir! – interrompeu-me ela. - A Reneé não suporta a idéia de que eu posso ser um dos escolhidos. - Ela está certa... – disse ela olhando nos meus olhos. Eu me senti estranho, pois Glenda nunca havia olhado daquele jeito pra mim. Era como se eu fosse um peixe fora d’água que ficava sufocado. Mas eu sorri. - Você também sabe que eu não querendo isso apenas pelo povo. É pelo meu pai que estou fazendo isso, - É... Ele esta bem? – Glenda soltou minhas mãos, e notei um repentino constrangimento. - Ta... – disse baixinho. - Hoje à noite tudo pode mudar Paco. - Ou não Glenda, ou não... Apesar de toda minha boa confiança eu sentia ainda um aperto no coração. Era como se aquilo tudo de alguma forma fosse trazer coisas instáveis. Não sabia o que sentia e


às vezes tinhas duvidas sobre minhas decisões. - De qualquer forma tudo vai dar certo. - Eu só quero isso Paco, só isso! – Levantou-se num giro, e nem se despediu, correndo. Continuei sentado no banco da praça, sem reação. Glenda sabia muito bem que eu queria uma vida melhor para meu pai e para minha irmã. Eles são a minha única família viva, e meu pai não está bem de saúde. Eu e Reneé tememos perder nosso pai, e meu medo é ver como Reneé pode ficar se algo de ruim acontecer com ele.

Era uma paisagem típica aqui no Bloco. Todas as manhãs as pessoas vinham para a praça onde os raios do sol mais puros batem, e nosso corpo recebe os nutrientes necessários. Agora umas centenas de pessoas surgiam aos poucos na praça. É difícil saber quem é quem, pois com todas as roupas de mesma cor, é difícil pra distinguir. Levantei-me aos poucos, e lentamente caminhei entre as pessoas na esperança de encontrar meu pai e minha irmã, mas não os encontrei. Que estranho, pensei alto. Isso era bastante esquisito, normalmente eles vem tomar o essencial banho de sol.


Capítulo Um - (Livro ainda sem título)