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DE PAI PARA FILHO

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UMA SEGUNDA CHANCE PARA SER PAI

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MURAL

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COQUETEL MOLOTOV

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SENTIMENTO E SENSAÇÃO QUE DEVEM SER CURTIDOS

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HOMEM, MAS NÃO MILITAR

Um cavaquinho ajuda Antônio a manter viva a memória do pai Manoel

Ari perdeu tudo para o alcoolismo, mas recebeu um presente de Dia dos Pais

Os recados das famílias para o Dia dos Pais

Dicas de livros e filmes para o Dia dos Pais

Os tempos mudaram e os pais aproveitam melhor o tempo com os filhos

Quem ama e educa cobra, dá limites e sofre, mas é um sofrimento de sabedoria


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EDITORIAL

C

hega, em agosto, o quinto caderno do jornal O Açoriano. Desta vez, a data homenageada é a do Dia dos Pais – 11 de agosto -, em contraponto ao primeiro especial lançado, que homenageava as mães, em maio. Nestes meses entre um caderno e outro, a redação enfrentou diversos desafios: projetos gráficos, a procura de boas histórias e a provocação de oferecer algo novo à população taquariense. Todos os obstáculos nos fizeram aprimorar nosso trabalho. O resultado é o caderno que você tem em mãos: variado, com um visual arraigado e repleto de histórias especiais da região. É necessário, ainda, agradecermos os elogios e sugestões que recebemos. O retorno de todos é importante para sabermos quais caminhos seguir. Uma boa leitura a todos. agosto de 2013

QUEM SOMOS

DIRETORA-PRESIDENTE Daniela de Souza

JORNALISTA RESPONSÁVEL Fabrício Goulart

REDAÇÃO Pedro Harry Valmor Pereira

PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Fabrício Goulart

ARTE Roberta Nunes

jornaloacoriano.com contato@jornaloacoriano.com facebook.com/jornaloacoriano


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De pai

para filho

O

s laços de amor e carinho construídos entre um pai e um filho são muito fortes. Capazes de se manter apertados em um só nó de amizade e admiração mútuo entre as partes. Mesmo com o triste e perturbador fator da distância, seja ela em vida ou na morte, nada é capaz de apagar a educação e o exemplo de vida deixado por cada pai que por este mundo passou. Para simbolizar esse amor tão grande, muitas pessoas preferem externar os seus sentimentos paternos em forma de pequenos presentes. Gestos às ve-

Um cavaquinho ajuda Antônio a manter viva a memória do pai Manoel

zes nem tão grandiosos, mas que ficam guardados na mente de cada filho por toda a eternidade, de geração a geração. Um exemplo de lembrança paternal guardada há décadas encontra-se na residência do senhor Antônio Carlos Batista Cezimbra. Na flor de seus 66 anos de idade, Antônio ergue com vasto orgulho um cavaquinho deixado por seu pai, Manoel Valdemar Cezimbra, falecido há 47 anos. Antônio tinha uma ligação muito forte com seu pai, descendente de portugueses e açorianos. “Meu pai trabalhava

em barcos que faziam o que hoje fazem os ônibus, ou seja, transportavam passageiros de Taquari para Porto Alegre através do Rio Taquari”. Nas férias, Antônio estava sempre junto ajudando seu pai. “Ele morreu com 54 anos, recém-aposentado, e me deixou de recordação este cavaquinho. Hoje eu o guardo com maior carinho. É uma herança afetiva muito importante para mim. Até hoje essa lembrança me faz ver ele tentando me ensinar a tocar e me ajudar a aprender alguma coisa que eu nunca consegui”, recorda-se.

Juliano Bizarro Kern


5 Participante do Sindicato Nacional dos Taifeiros, Culinários e Panificadores Marítimos, Manoel era dono de um restaurante. Trabalhava como cozinheiro nos barcos que faziam os transportes no Rio Taquari. Antônio guarda consigo até hoje o diploma ganho por seu pai. “Durante o percurso, que demorava cerca de cinco a sete horas, servia-se café e almoço, pois o passageiro tinha direito na medida em que pagava a passagem”, explica. A história do instrumento é marcante tanto para o pai quanto para o filho. “O cavaquinho era o lazer de meu pai, pois o serviço que fazia era muito complicado pelo fator das viagens que eram feitas. Os barcos eram à vapor e tocados à lenha”, destaca. “Ele tinha outros colegas que já tocavam outros instrumentos, e juntos formaram um conjunto. Quando o serviço acalmava, eles tocavam chorinhos”, lembra o filho. Antônio orgulha-se de ter tamanha recordação em sua casa. “Este instrumento vai ficar comigo até eu ir embora da Terra. Pretendo deixar para meus filhos e netos cuidarem. Jamais venderia ele”, assegura. Histórias emocionantes envolvendo o pequeno cavaquinho não faltam no repertório de Antônio. A mais marcante aconteceu em sua adolescência, quando tinha por volta de 16 anos. “Era o dia do aniversário de meu pai. O barco iria chegar de Porto Alegre e o senhor Ivo Miranda, que era muito

amigo dele, me chamou em sua casa para que eu ensaiasse uma única música para tocar em sua homenagem. Eu iria tocar para ele com o cavaquinho que o pertencia”. Na época, Antônio não sabia tocar nenhum tipo de instrumento. “Ele me ensinou apenas uma música. Quando o barco chegou, o pessoal cantou parabéns e eu logo toquei a música que havia aprendido em sua homenagem. Lembro-me que ao final da apresentação ele se emocionou muito”, conta o orgulhoso filho. Manoel foi uma pessoa chave na educação do filho. “Pela seriedade que tinha, meu pai foi uma pessoa que jamais me deu um tapa. Sempre soube conversar e explicar as coisas certas. Um exemplo de ensinamento que ele me passou foi para nunca ter problemas financeiros: era necessário sempre gastar um pouco menos do que você ganha (risos). Uma coisa muito simples, mas que faz sentido na vida de todos nós.” O legado deixado por Manoel orgulha seu filho. “Meu pai deixou uma lição de seriedade, de amizade.” Segundo Antônio, um exemplo que simboliza a humildade que seu pai tinha era a solidariedade para com os demais. “Quando os barcos chegavam em Porto Alegre, muitas pessoas se juntavam em volta do barco, e ele os chamava e dava um prato de comida para cada um. As pessoas que ficavam na beira do cais ado-

ravam ele. Ele gostava muito do que fazia”, recorda-se o filho, demonstrando efusiva alegria. Antônio tem quatro filhos e três netos. Pensa em deixar algo significativo para eles futuramente. “A importância dos meus filhos no Dia dos Pais é fundamental. Todos os domingos eles se reúnem, sempre todos unidos junto com a família. Minha relação com eles é espetacular. Todas as vezes que eu precisei, estiveram juntos comigo. Meus filhos e netos são o que eu tenho de mais importante na vida.” O filho até então citado na matéria já é pai e avô, por isso, também deixa seu conselho e sua mensagem nesse Dia dos Pais. “Nós precisamos ouvir os nossos filhos. Procurar sempre estar perto, auxiliando e ajudando. Aos filhos, peço que tenham um respeito pela experiência que possuem os pais. O diálogo sempre tem que prevalecer entre os dois”, finaliza. As palavras de Antônio ecoam perante a sociedade atual. Histórias como a que vimos neste capítulo fazem com que esta data tão significativa seja mais especial e alegre. Aprendemos também que o valor de um simples objeto ou de uma simples demonstração de carinho são capazes de sustentar a mais profunda admiração entre o mais experiente e o mais jovem. Entre o professor e o aluno. Entre o pequeno e o grande. Entre o início e a continuidade. Entre um pai e um filho.


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Bruno Labres

Uma segunda chance

para ser pai

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le chegou ao fundo do poço, perdeu a família, amigos e a dignidade por causa da bebida. Agora, ele tem uma nova chance, e quer fazer tudo diferente. No olhar cansado, marcas de quem carrega uma bagagem de vida difícil. Nas mãos, calos que foram provocados por inúmeras tentativas de se livrar da situação em que se encontrava. Estas características são sinais de alguém que perdeu algo muito importante, o direito de ter uma vida digna. Nesta matéria, vamos conhecer um senhor que teve uma história muito dolorosa, foi vítima de uma doença que é capaz de destruir a própria vida e de quem o cerca, capaz de deixar mágoas incuráveis e provocar uma tristeza sem fim para quem sofre com suas consequências: o alcoolismo.

Ari Irineu Henn, 58 anos, é natural de Venâncio Aires, e conta que começou seu envolvimento com o álcool aos 15 anos de idade. Por algum tempo conseguiu controlar o consumo da bebida, alguns anos à frente conheceu sua futura esposa e logo se casaram. Ao passar do tempo, o consumo de álcool tornou-se uma rotina, a cada dia que passava a quantia que bebia aumentava. Após muitas tentativas de fazer com que o vício não terminasse com seu casamento, o cansaço foi tomando conta. Seu Ari conta que as desavenças familiares tornavam-se mais frequentes ao passar dos dias. Mesmo assim, seu casamento resistiu por 20 anos, e neste período as agressões eram frequentes. Ao mesmo tempo em que estes episódios aconteciam, seus dois filhos

Ari perdeu tudo para o alcoolismo, mas recebeu um presente de Dia dos Pais

vivenciavam uma rotina de terror. Segundo ele, no auge do vício, ele chegava a consumir dois litros de bebida alcoólica por dia. Ao passar destes anos, Ari percebeu que não tinha mais nada, chegou a morar na rua, em bancos de praças e até embaixo da ponte. Segundo ele, tudo o que fazia durante a embriaguez, tornava-se algo sem controle. No outro dia, nada de seus atos constavam em sua memória. “Eu era apontado na rua, as pessoas não gostavam de mim, tinham medo do que eu poderia fazer, vi minha família destruída, sem esperança, foi muito triste”, disse ele. Após ver o empenho de familiares para buscar a sua cura, Ari, por indicação da família e determinação da justiça, veio parar na Associação Beneficente Pella Bethânia, em


7 Taquari. Segundo ele, o pastor da entidade deu muita força para que ele se livrasse do vício. Um dia, o pastor pediu para que parasse de beber dentro da associação. Seu Ari por sua vez, já desanimado, afirmou ao pastor: “Já fiz cinco tratamentos e sempre voltei a beber, não consigo parar.” Mas o pastor insistiu e disse a ele, que para continuar ali, seu Ari precisava parar de beber. A busca pela cura

que foi superado. Com o sucesso do tratamento, ele recebeu uma segunda chance de sua família. Ao contrário de muitos idosos que são abandonados nestas clínicas, Ari teve uma batalha interna para vencer dia após dia: conseguir controlar o vício do álcool. A vitória oportunizou a ele se aproximar de sua família novamente. O reencontro com a família

meu coração”, disse. Lá, a principal mensagem que seu Ari aprendeu, foi de que nunca é tarde para corrigir os erros. Seu Ari, emocionado, também mostrou a tatuagem que fez em homenagem ao Caps. Lá ele aprendeu uma das regras principais na luta contra o alcoolismo: “Nunca tomar o primeiro gole”, lembra. Segundo ele, não existiria no mundo valor a ser pago a quem lhe ajudou. Na Associação Beneficente, os pacientes não são obrigados a realizar nenhuma tarefa, no entanto, as atividades realizadas por alguns deles, servem como estímulo e uma ocupação para o seu tempo. Ao caminhar pelas dependências do Pella Bethânia, seu Ari relembra de muitos episódios que marcaram sua memória. Hoje, diferentemente de como era visto na rua na época do alcoolismo, ele é conhecido por todos como uma pessoa amiga e divertida.

Após anos longe dos familiares, no abandono, seu Ari recebeu um preAos poucos, seu Ari foi se recu- sente do destino. Hoje curado, sua perando. Com a ajuda do Pella Be- família aceitou se encontrar com ele thânia e do Centro de Atenção Psi- novamente. Seus filhos, que agora cossocial (Caps), sua autoestima foi já formaram suas próprias famílias, se reconstruindo. Ali, ele percebeu receberam seu Ari com muito orguque seus conhecimentos adquiridos lho. De acordo com as normas do lá naquele tempo em que não tinha Pella Bethânia, seu Ari pode entrar problemas com a bebida, podiam em contato com sua família por teajudar. Mexer com a terra, lidar com lefone, visitá-los e também receber máquinas e tratar os animais, foram a visita dos familiares na associação. o combustível para recuperar tudo No mês passado, seu Ari foi visitar o que o álcool tirou da sua vida. os filhos e mais uma vez marcou a Durante os sete anos de tratamen- vida deles, mas agora de uma forma O melhor presente para um pai to, seu Ari frequentou o Caps, onde diferente do passado, presenciou o encontrou o que poderia ser a úl- batizado de seu neto, um momento Hoje, são os filhos do seu Ari que tima chance de recomeçar. Com o tão importante na família. abrem uma nova porta para a feapoio de uma psicóloga que moslicidade do pai, dão a ele a oportrou um caminho de superação, seu A gratidão tunidade de fazer tudo diferente. Ari se diz ser muito grato a toda ajuAri, com os olhos cheios de lágrida que recebeu. “A Drª Rozane me Durante a entrevista, ele falou mas conta que seu filho quer que salvou. Devo tudo isso a ela”, afirma. sobre os grandes aprendizados ad- ele volte para casa e construa uma A psicóloga Rozane Schvuchov é es- quiridos dentro do Pella Bethânia. feliz história em família. Ao final pecialista em dependência química “Sou muito grato ao asilo (Asso- da entrevista, ele conta seu maior e atende no Caps de Taquari. ciação Beneficente Pella Bethânia). desejo: “Ter uma vida feliz ao lado Hoje, ao completar 11 anos que Aqui, tive uma segunda chance, de meus filhos e netos. Que presenentrou no Pella Bethânia, Ari tra- tive um teto sobre minha cabeça te seria melhor para um pai, que ta do assunto como um problema e pessoas que levarei no fundo do pôde nascer de novo?”


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Coquetel Molotov

Sometimes You Can’t Make it On Your Own U2

Baby Daddy um pai de surpresa

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televisão, o cinema e a literatura, apesar de parecerem muitas vezes distantes da vida real, retratam principalmente as situações mais comuns do cotidiano. Entre os temas mais abordados nas telas e nos livros estão a família e as relações entre pais e filhos, muitas vezes conflituosas, mas também emocionantes. Um dos seriados americanos mais recentes que resolveu abordar o assunto se inspirou no filme clássico da sessão da tarde Três Solteirões e Um Bebê (1987). Baby Daddy estreou dia 20 de junho de 2012 pela ABC Family e conta a história de Ben Wheeler (Jean-Luc Bilodeau), que descobre que é pai quando a exnamorada abandona a filha na sua porta. Ben decide criar o bebê com a ajuda do seu irmão Danny (Derek Theler), sua mãe Bonnie (Melissa Peterman) e seus dois melhores amigos Tucker (Tahj Mowry) e Riley (Chelsea Kane). OS CAUSOS DO GURI DE URUGUAIANA Autor: Jair Kobe Ilustrações: Sérgio dos Santos Junior

Baby Daddy é simples, mas funciona. A história trata da vida de um jovem comum que trabalha como bartender e ainda não sabe o que fazer da vida. Agora ele precisa ter responsabilidade para poder cuidar da pequena Emma. O bartender abdica da vida social e precisa começar a aprender atividades como alimentar um bebê, trocar fraldas, dar banho e outras BÍBLIA DO CHURRASCO O verdadeiro manual do churrasqueiro. História, preparo, origens, receitas, dicas e corte. Editora: Escala

Você não tem que propor uma briga Você não tem que estar sempre certo Me deixe levar alguns socos por você esta noite”.

## Edição Especial de Dia dos Pais ##

livros

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Seriado conta a história de Ben, um jovem que descobre que é pai quando a pequena Emma é deixada na porta de sua casa Foto: Divulgação/ABC Family

rotinas que ocupam, e muito, a vida de quem precisa cuidar de uma criança. Um dos pontos altos da série é a transferência de aprendizado entre Bonnie e Ben. Os dois conseguem comparar experiências sem ser piegas. A fórmula de Baby Daddy não é nova, mas a série caiu no gosto do público e em março já foi renovada para a terceira temporada.

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ONDE COMPRAR? As dicas de livro dessa edição especial do Coquetel Molotov você encontra disponíveis para compra no Supercentro Certaja


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Sentimento e sensação que

devem ser curtidos

Os tempos mudaram e os pais aproveitam melhor a convivência com os filhos

Valmor Pereira

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eunião de pauta, grupo concentrado, surge a ideia de um artigo com um tema bem claro: pai. Assim mesmo, direto ao ponto. Compenetrado, levanto a cabeça e vejo que os colegas me fitam. Era o claro sinal que essa pauta era minha. Por que eu? Por uma simples razão: nenhum dos colegas passou, ou passa, pela experiência de ser pai. Penso nos colegas da sala ao lado. Também não há nenhum pai. Quem sabe na recepção? Também não. Em resumo, só agora reparo que nessa redação apenas eu sou pai. Situação oposta nos estúdios da Rádio Açoriana, um ambiente tradicionalmente masculino, onde todos são pais. Pois, então, vamos ao tema proposto. Muito se fala, e com razão, do amor de mãe com seus filhos. Não faltam exemplos de casos que comprovam essa dedicação, essa relação por demais afetuosa. Por muitos anos (quem sabe milhares) a sociedade rotulou que a composição familiar possuía um homem com a função de trabalhar. Era dele a tarefa de trazer o alimento para a esposa e os filhos. Com isso, não sobrava tempo para um relacionamento mais próximo com a prole. A mãe, em situação contrária, tinha todo o tempo de convivência com os filhos. Soma-se a isso, a relação natural entre ela e os filhos, desde a concepção, passando pela amamentação e toda a atenção que um bebê precisa, e merece.

Hoje, a situação está um pouco diferente. Homens e mulheres trabalham fora, dividem as tarefas do lar. E nesse contexto entra a criação dos filhos, a dedicação à sua formação e todos os cuidados que os cercam. Os pais passaram a se dedicar mais aos filhos, perderam a vergonha de executar tarefas que até então eram apenas das mães e assumiram a sua porcentagem de responsabilidade junto aos filhos. Dou meu depoimento pessoal em que jamais tive vergonha de trocar fraldas, dar banho, colo e ninar até o bebê dormir. Tenho três filhas e confesso que com as duas primeiras não estive tão à vontade para essas É importante que os pais não exerçam apenas o comportamento de mandar em seus filhos, mas que estes também orientem seus filhos para a vida! tarefas. Culpa, acredito de minha inexperiência. Pais de primeira viagem estão sempre propensos a cometerem falhas. Nos últimos anos vi com naturalidade a maior cumplicidade do pai. A propósito, não vejo a criação dos filhos como tarefa ou obrigação. Pelo contrário, é uma sensação, um sentimento que deve ser muito bem aproveitado. Deve ser “curtido”. Se pudesse voltar no tempo, queria retornar três décadas com a mentalidade que tenho hoje. Aproveitaria muito mais, curtiria muito mais, sem medos ou vergonhas. Queria ter recolhido mais fraldas, ter feito

mais mamadeiras e ter cantado mais canções de ninar. Queria ter ficado mais tempo em casa, ter corrido mais no pátio, ter passeado de bicicleta, dividido a pipoca e até olhado mais filmes na TV. Queria ter sido mais carinhoso, mais atencioso. E acho que esse não é um sentimento único meu. Todo pai deve sentir saudade dos seus filhos, ainda bebês, dos colos que deu, dos sorrisos e palavras que ouviu. Isso, de fato, é impagável, é situação inenarrável. É importante que os pais não exerçam apenas o comportamento de mandar em seus filhos, mas que estes também orientem seus filhos para a vida! Esta é uma relação natural e quase sempre os filhos seguem os exemplos do pai. É importante, com isso, a retidão na conduta e precisão nos ensinamentos. Independente de idade, filho é sempre filho. O pai segue se preocupando, segue se achando com a responsabilidade. A idade dos filhos altera apenas o time de preocupação. Ora é com a saúde, outra com os riscos do cotidiano, do ambiente em que vivemos, da insegurança de todos. E, quando o pai consegue interferir nisso, tem a sensação da realização. Se sente mais leve, orgulhoso de cumprir o seu papel, o papel do verdadeiro pai. Assim, nesse segundo domingo do mês de agosto, dedicado aos pais, não fique sentado à espera de um presente. Levante-se, dê um abraço no seu pai, receba o abraço e demonstre o quanto você ama o seu filho... o seu pai!


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Homem,

mas não militar

Quem ama e educa cobra, dá limites e sofre, mas é um sofrimento de sabedoria

Pedro Harry

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ntre dez irmãs mulheres, um único filho homem, e o caçula. Militar, se dependesse do pai. E, se dependesse dele mesmo, talvez sim, militar. Provável que pela influência inevitável, até irresistível. E então ele serviu, convicto: seria militar. Era o filho número onze de Aurélio Barcelos, hoje com 84 anos. Depois de dez mulheres, ele. – Meu pai queria um filho homem a todo custo, e militar. Um filho homem e militar – conta. Filho homem conseguiu. Militar, não. Irineu José Jesus Rodrigues Barcelos serviu, mas não levou a ideia adiante. Descobriu a informática e formou-se em Processamento de Dados. Hoje, somam-se a isso três especializações na área. – Quando vi que a carreira militar não era o que eu queria, optei pela informática. Logo fui convidado a trabalhar no Colégio Cenecista, de Teutônia, a fim de organizar um curso técnico de informática. Aceitei o convite – relata Irineu. Natural de São Borja, e nos últimos dez anos arrastado pela profissão para Blumenau, depois para

São Bento do Sul (como diretor de escolas da Rede Sinodal catarinense), Irineu resolveu retornar para o Rio Grande do Sul. – Quando cumpri minha missão por lá, pedi para voltar – diz ele. E voltou. Em 2012, surgiram-lhe duas oportunidades. Uma em unidade do Dohms em Porto Alegre; a outra, na unidade do Dohms de Taquari. Ele optou por cá. Por que interior, e não capital? E antes: por que voltar? Por causa da família. Pai do Gabriel Barcelos, 11 anos, Irineu quis estar perto da família. Afastado do Estado havia algum tempo, não pensou duas vezes. – Acima de tudo, eu queria voltar para a minha família – revela. E emenda: – Eu escolhi Taquari pela proximidade com Paverama, cidade de minha esposa, e também por ser interior. Eu sou mais do interior. Mas e o Irineu pai? Carinhoso, não menos exigente. “Amigo mesmo é a família”, é um conselho para Gabriel, que quer ser jogador de futebol quando crescer. Uma mensagem do Irineu pai e educador:

– Quem ama e educa cobra, dá limites e sofre, mas é um sofrimento de sabedoria, de fortalecimento das relações e das referências de vida, porque a vida está cada vez mais rígida e competitiva. Todo o crescimento exige uma desacomodação. E é essa desacomodação que temos de estimular em nossos filhos e alunos. E o Irineu filho do Aurélio? O que falar do Aurélio? Irineu responde: – Meu pai nunca teve condições de me dar presentes caros, mas nunca deixou de rezar uma noite comigo. Isso fez a diferença na minha infância. Meu pai é um exemplo de alegria e de amor para mim e para meus irmãos. Apegado à fé, Irineu sintetiza seu pai por uma só palavra: alegria. Sua relação com ele é de gratidão. A persistência inflexível do pai para conseguir um filho homem é motivo de reconhecimento eterno. Ainda que não fosse o militar sonhado, era o filho homem. Depois de dez mulheres, o filho homem! O reconhecimento vem em frase sucinta porém inevitável: – Sou grato ao meu pai.


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Acervo pessoal


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Dia dos Pais - Jornal O Açoriano