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Salve Jorge Por Fabricio Cantanhede

Terceiro Tratamento 23 de Maio de 2011

Email: Costa077@hotmail.com cantanhedefabricio@gmail.com Tel: (51) 99965833


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INT. CORREDOR 1 DOS BASTIDORES DO ESTÚDIO - NOITE MAX FRANCO, 60 anos, está com a camisa desabotoada. Ele carrega uma expressão cansada. DEDÉ, 50 anos, vestido de preto, coloca o microfone em Max Franco. MAX FRANCO Há quantos anos você põe esse microfone em mim, Dedé? DEDÉ Desde que o senhor voltou pra casa. Dezessete anos, seu Max. MAX FRANCO Dezessete anos esfregando essa mão peluda em mim... Nós gravamos o programa cinco dias por semana. Cinco vezes quarenta e oito semanas anuais... cinco vezes oito... vezes quatro... Duzentos e quarenta. DEDÉ Seu Max, desculpa interromper o senhor, mas a conta tá errada. MAX FRANCO Como errada? DEDÉ Janeiro e fevereiro a gente não grava o programa.

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INT. CORREDOR 2 DOS BASTIDORES DO ESTÚDIO - NOITE JULIA, 37 anos, vestida de preto como todos que trabalham na produção do programa, caminha nervosa. Ela usa um fone com microfone e uma prancheta. Em volta dela há muitos cabos e equipamentos de televisão. JULIA Ele já saiu? PRODUÇÃO 1 Não, acho que ainda não. Julia volta-se para as pessoas em volta. JULIA Alguém sabe se ele já saiu?


2.

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INT. CORREDOR 1 DOS BASTIDORES DO ESTÚDIO - NOITE Max Franco ajuda Dedé a abotoar sua camisa. MAX FRANCO Então são duzentos e trinta dias por ano, durante os últimos dezessete anos. DEDÉ Se o senhor diz... PEREIRA (V.O)(PELO PONTO DE MAX FRANCO) (sotaque de Portugal) Sendo que você comeu a sua mulher duas vezes a cada duas semanas, ou seja, quatro vezes por mês, no máximo nos últimos dezessete anos. Acho que o Dedé passou mais a mão em você do que sua própria mulher. MAX FRANCO Eu não seria tão otimista quanto às quatro vezes por mês, Pereira.

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INT. CORREDOR 2 DOS BASTIDORES DO ESTÚDIO - NOITE Julia segue caminhando. JULIA Alguém sabe se ele realmente tá lá dentro? HOMEM DA PRODUÇÃO Se alguém trancou a porta por dentro, quer dizer que tem alguém lá. JULIA (para Homem da produção) É só ele ter trancado por fora! (para ela mesma) Esse idiota vai estragar tudo. Julia esbarra em JORGE, 32 anos, DISFARÇADO DE INTEGRANTE DA EQUIPE DO PROGRAMA E COM UMA MAQUIAGEM QUE O DEIXA IRRECONHECÍVEL, PARECIDO COM UM NORDESTINO. A prancheta de Julia cai e os papéis se espalham. JULIA (irritada) Olha o que você fez, idiota?!


3.

Jorge se abaixa, pega a prancheta e junta os papéis. JULIA O que você tá fazendo no meio do caminho? Não olha por onde anda?! WALKIE-TALKIE (V.O) Julia? JULIA Hein? Não tem mais o que fazer além de atrapalhar os outros?! WALKIE-TALKIE (V.O) Julia?! Julia se vira para falar no walkie-talkie. Jorge vê Julia conversando de costas. Ele olha para os papéis e guarda um no bolso. Julia volta. JULIA Me dá isso! Irresponsável. Julia pega a prancheta. 5

INT. CABINE DO SWITCHER - NOITE Estão sentados em volta de uma mesa cheia de monitores e controles PEREIRA, 70 anos, português, de terno e usando um fone com microfone, e mais TRÊS PESSOAS. TODA VEZ QUE PEREIRA FALA É COM SOTAQUE DE PORTUGAL. Nos monitores, aparecem imagens do palco vazio e das pessoas na PLATEIA se arrumando em seus lugares. PEREIRA (ao microfone) Mas aposto que aquela italiana devia dar um cansaço em você. As italianas falam alto e reclamam de tudo, mas na hora do "vamos ver" elas dão no couro. MAX FRANCO (V.O) (pelo ponto de pereira) Devia, não. Ainda dá!


4. 6

INT. CORREDOR 3 DOS BASTIDORES DO ESTÚDIO - NOITE Julia encontra CORONEL, 58 anos, cabelos brancos e uma vasta costeleta. Coronel está com uma filmadora e filma tudo o que acontece nos bastidores. Julia põe a mão na lente. JULIA O que é isso? Você não pode filmar nada aqui dentro! CORONEL Eu tenho autorização para fazer o que eu quiser, minha querida. Coronel mostra para ela o seu crachá com os dizeres: JORGE PRODUÇÃO. JULIA Entendi... você é o cara que gosta mais de futebol do que de dinheiro. CORONEL Eu também gosto de menininhas que suam de baixo dos braços. Julia olha de baixo de seu braço e percebe que está sendo filmada. JULIA Para com isso seu idiota! Para de me filmar! Onde é que tá o Jorge? O programa vai começar em cinco minutos. CORONEL Jorge está onde sempre esteve quando não está em frente às câmeras. JULIA Onde? Numa clínica psiquiátrica? CORONEL Quase isso. No camarim se preparando. JULIA Faltam cinco minutos para o programa começar e ele ainda não colocou o microfone! Diz pra ele sair já do camarim. Julia vira as costas para Coronel que segue filmando tudo.


5.

CORONEL (alto para Julia) Vocês deveriam ter colocado o microfone antes dele entrar no camarim! Isso aqui é uma bagunça. POV da câmera do Coronel: zoom na bunda de Julia. Ela entra numa porta. 7

INT. CABINE DO SWITCHER - NOITE Julia entra na cabine. JULIA Seu Pereira, preciso falar com o senhor. PEREIRA Pois fale. Pereira tira o fone. Julia se aproxima dele. PEREIRA Sim. JULIA Jorge não tá respondendo no camarim. PEREIRA Quanto tempo nós temos? JULIA Quatro minutos. PEREIRA Então dá um jeito de tirar ele do camarim, urgente. Pereira dá as costas para Julia. Ele coloca o fone com microfone e se afasta um pouco dos outros em volta. PEREIRA (ao microfone) Max, você combinou alguma coisa com Jorge? Além da palhaçada no segundo bloco?


6.

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INT. CORREDOR 1 DOS BASTIDORES DO ESTÚDIO - NOITE Max Franco olha suas mãos conferindo de estão bem feitas. Ao fundo está o palco com uma mesa, um sofá e uma cortina fechada. Algumas PESSOAS da produção dão os últimos ajustes no palco e posicionam as câmeras. MAX FRANCO Do que você está falando? PEREIRA (V.O) (pelo ponto de Max Franco) Além da brincadeira no segundo bloco, você combinou outra com Jorge? MAX FRANCO Não. Um MAQUIADOR entrega um espelho para o Max Franco. Ele pega o espelho e se olha. MAX FRANCO Pereira? Pereira? PEREIRA (V.O) (pelo ponto de Max Franco) Temos um probleminha com o nosso convidado. Vou resolver isso. Vai dá tudo certo. MAX FRANCO Ok. Você é que sabe.

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INT. CORREDOR 3 DOS BASTIDORES DO ESTÚDIO - NOITE Coronel filma Julia batendo na porta do camarim de Jorge. JULIA Jorge? Você está bem? Por favor, você tem que colocar o microfone! POV da câmera do Coronel: Julia olha para a câmera e tenta dar um tapa nela. JULIA Para com isso! Idiota! Velho tarado. Pereira aparece.


7.

PEREIRA Mas o que está acontecendo aqui? JULIA Acontece que esse velho... PEREIRA Escuta aqui, olha como você fala com os convidados do programa. Por que você não está no palco? JULIA Eu tô tentando... PEREIRA Vá fazer o que você tem que fazer! Julia enrubesce. PEREIRA Quantos minutos? JULIA Dois e meio. PEREIRA Vá logo que o Max já deve estar quase pronto. Julia sai. Coronel filma Pereira. PEREIRA Você sabe o que está acontecendo? Você é o empresário dele! Nós cumprimos todas as exigências de vocês e agora vocês vão nos sacanear em cima da hora?! CORONEL (convicto) Jorge tá se preparando. Ele vai estar pronto quando o programa começar. PEREIRA (exaltado) Faltam dois minutos. E ele tem que colocar o microfone! CORONEL Vai dar tudo certo.


8.

PEREIRA Não estou tão certo assim... Pereira pega o walkie-talkie. Ele percebe que está sendo filmado pelo Coronel e se vira. PEREIRA (ao walkie-talkie) Eu quero dois seguranças no corredor três em frente ao camarim do convidado. 10

INT. PALCO DO "PROGRAMA MAX FRANCO" - NOITE Max Franco, tranquilo, caminha até a sua mesa. Ele procura alguma coisa. A cortina que separa o palco da plateia está fechada. JULIA Um minuto! MAX FRANCO Julia, onde está a pauta de entrevista? JULIA (espantada) Não tá aí, seu Max? MAX FRANCO Nós não somos apenas responsáveis pelo que fazemos, mas também pelo que não fazemos. Entendeu, Julia? Julia procura a pauta de entrevista entre os seus papéis. JULIA Espera, deve tá ali do lado. Julia caminha apressada até a entrada do corredor 1. Ela encontra Jorge, disfarçado, parado. JULIA (para Jorge) Você que não faz nada. Vai até a minha mesa e pega tudo que tiver em cima dela. Rápido.


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INT. CORREDOR 3 DOS BASTIDORES DO ESTÚDIO - NOITE SEGURANÇA 1 e SEGURANÇA 2 chegam. Coronel filma tudo. Pereira bate na porta do camarim. PEREIRA (nervoso) Jorge? Você tá bem? O programa vai começar. Jorge?! Pereira olha para os seguranças. PEREIRA (gritando) Jorge?! Se você não responder eu vou ter que entrar de qualquer jeito. Pereira faz um sinal de positivo com a cabeça para os seguranças.

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INT. PALCO DO "PROGRAMA MAX FRANCO" - NOITE Max Franco ajeita o terno e a gravata. A cortina segue fechada. JULIA (O.S)(PELO ALTO FALANTE) Atenção, o programa vai começar em quinze segundos. Por favor, fiquem atentos aos luminosos de aplauso e silêncio. Obrigada. Max Franco olha para Julia com um microfone de mão. Ela olha para um relógio e começa a fazer a contagem regressiva com as mãos para Max Franco. MAX FRANCO (para si mesmo) Dezessete anos... Depois de dezessete anos em segundo lugar um paspalho qualquer pode me levar ao topo. Julia mostra seis com as mãos. PEREIRA (V.O)(PELO PONTO DE MAX FRANCO) Isso se esse paspalho sair do camarim. Max Franco olha para Julia que conta os últimos três segundos.


10.

MAX FRANCO Se ele não sair nós vamos pagar um mico nacional... mas dessa vez eu mesmo dou um jeito de acabar com a vida dele. A cortina abre. O programa começa. APLAUSOS. MÚSICA. MAX FRANCO Boa noite. Está começando agora o Programa Max Franco! (com uma motivação forçada) O bate-papo mais franco da televisão brasileira! 13

INT. CORREDOR 1 DOS BASTIDORES DO ESTÚDIO - NOITE Julia senta numa cadeira em frente a um monitor. Ela reveza o olhar entre o palco e a entrada dos corredores. Ela pega um saquinho de balas de goma e começa comer. JULIA Tô fudida...

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INT. PALCO DO "PROGRAMA MAX FRANCO" - NOITE Max Franco apresenta o programa alternando o olhar para as câmeras e a plateia. MAX FRANCO Hoje é um programa muito especial, nós estamos completando dezessete anos de programa! APLAUSOS. MAX FRANCO E para um programa especial nos convidamos um convidado mais que especial. Uma parte da plateia VAIA e a outra OVACIONA.

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INT. CORREDOR 3 DOS BASTIDORES DO ESTÚDIO - NOITE Os seguranças recuam para invadir o camarim. PEREIRA Pode invadir.


11.

Os seguranças se olham, correm em direção à porta e esbarram nela. Segurança 2 cai. 16

INT. CORREDOR 1 DOS BASTIDORES DO ESTÚDIO - NOITE Na entrada do corredor 1, Julia, muito nervosa, come balas e olha para um monitor. Ao fundo, Max Franco segue com o programa. JULIA (para si mesma) Cadê aquele idiota com a pauta?!

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INT. CORREDOR 3 DOS BASTIDORES DO ESTÚDIO - NOITE Segurança 1 ajuda Segurança 2 a se levantar. PEREIRA Peguem o extintor de incêndio. Os seguranças recuam com o extintor de incêndio, eles se olham e, em novo movimento, batem na porta. A porta quebra parcialmente.

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INT. CORREDOR 1 DOS BASTIDORES DO ESTÚDIO - NOITE Julia, comendo balas, alterna seu olhar entre Max Franco no palco, a entrada do corredor 1 e o monitor. Um CONTRA REGRA está ao seu lado. MAX FRANCO Como vocês podem perceber, vocês aí de casa, o nosso convidado não é daqueles que agradam a todos. JULIA (para o Contra regra) Ei, você? Corre até a sala de produção e pega todos os papéis que tiverem em cima da mesa. Rápido!

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INT. CORREDOR 3 DOS BASTIDORES DO ESTÚDIO - NOITE Os seguranças recuam novamente. PEREIRA Vamos! Derruba logo essa porta! Em um novo movimento, os seguranças derrubam a porta.


12.

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INT. CORREDOR 1 DOS BASTIDORES DO ESTÚDIO - NOITE Julia olha no monitor e come balas de goma. JULIA (atônita) Mas que merda é essa?!

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INT. CORREDOR 3 DOS BASTIDORES DO ESTÚDIO - NOITE Pereira entra no camarim. Coronel filma tudo como se fosse uma matéria jornalística. PEREIRA Jorge? Não há ninguém dentro do camarim.

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INT. CORREDOR 1 DOS BASTIDORES DO ESTÚDIO - NOITE Julia olha pelo monitor Jorge entrar no palco. JULIA Eu vou matar esse cara.

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INT. PALCO DO "PROGRAMA MAX FRANCO" - NOITE Max Franco é surpreendido por Jorge. Max Franco começa a rir. MAX FRANCO Sim? Pois não? Jorge segura a pauta de entrevista na mão. Ele fica tímido. Olha para as câmeras, para Max Franco e para a plateia. MAX FRANCO Você quer alguma coisa? FADE OUT.

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INT. REPARTIÇÃO PÚBLICA - DIA (FLASHBACK) Jorge, de sapato, calça social e camisa polo verde, trabalha em sua mesa. NARRADOR (V.O) Aqui está nosso homem. O nosso herói em mais um dia de trabalho.


13.

NARRADOR (V.O) Com seu sapato, sua calça social e sua camisa polo. Hoje ele veste uma verde, por nenhuma razão especial, apenas porque ontem ele usou uma azul, anteontem uma branca, antes uma amarela. Mas sempre uma camisa polo. Jorge toma água em um copo pequeno de café. Coloca o copo ao lado de uma fileira de copos pequenos de café. Nenhum copo está manchado com restos de café. Jorge olha os COLEGAS de trabalho. NARRADOR (V.O) (CONT.) Para ele o mundo se divide entre os homens que usam camisetas, os que usam camisas e os que usam camisas polos. Os que usam camisetas não lhe agradam por serem demasiado desleixados. Além disso, a maioria das camisetas estampa algum tipo de propaganda desagradável. Jorge se levanta e caminha em direção ao corredor. As PESSOAS passam por ele mas ninguém o nota. Ele também não faz questão de olhar para ninguém. NARRADOR (V.O) (CONT.) Os que usam camisa, esses ele até respeita, mas, diz ele: - quantos usam camisa só para trabalhar e no fundo estão loucos para se libertar dos botões que os prendem em sua máscara "trabalhista" do dia-a-dia. 25

INT. CORREDOR DA REPARTIÇÃO - DIA DUAS PESSOAS olham e comentam algumas folhas nas paredes. Jorge caminha até um bebedor. Ele pega um copo pequeno de café e enche de água. Ele toma mais dois copos. Olha para um papel, descolado em uma das pontas, na parede e quando vai arrumá-lo, PAULA, 23 anos, vestindo um uniforme de servente, sai de uma despensa. NARRADOR (V.O) (CONT.) E os que usam camisa polo, essa sim, ele acha, é digna de causar respeito, é confortável e, ao mesmo tempo, agrada às mulheres.


14.

PAULA Bom dia, seu Jorge. JORGE Oi... Oi, Paula. Paula passa por Jorge. Ele a olha, enche um copo com água e caminha pelo corredor. NARRADOR (V.O) Ah, como sou um péssimo narrador! Esqueci de dizer o nome do nosso herói. É Jorge. A única pessoa que Paula chama pelo nome é Jorge, os outros ela trata de "senhor". Ela é, também, provavelmente, a única pessoa em seu trabalho que sabe o seu nome. 26

INT. REPARTIÇÃO PÚBLICA - DIA Jorge trabalha em sua mesa quando toca o TELEFONE. Ele atende. JORGE Paulo falando. Alô? Só um momento que eu vou chamar. (cobre o fone, espera um segundo e volta a falar) Pode falar... Sim, é o Jorge. Não vi aviso nenhum... Não recebi... Jorge repara que Paula está dentro da sua repartição. Ele toma a água do copo e o coloca enfileirado junto com os outros. JORGE (AO TELEFONE) Tá bem... Obrigado por avisar.

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INT. ELEVADOR DA REPARTIÇÃO - DIA O elevador está cheio de PESSOAS no fim do expediente. NARRADOR (V.O) Jorge não foi o único a receber aquele telefonema. A maioria das pessoas que trabalham na sua repartição recebeu. Um HOMEM ALTO corteja uma MULHER.


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NARRADOR (V.O) (CONT.) Esse aí parece ter reagido de forma positiva: "seja o que acontecer pelo menos vou comer alguém hoje". Uma MULHER BAIXA E GORDA não para de roer as unhas. NARRADOR (V.O) (CONT.) Essa não tem família, os pais não têm dinheiro ou já morreram, sem marido ou filhos e, sem futuro, ela pensa "Se eu for despedida vou me trancar em casa e comer sorvete até me matar. Como naquele filme italiano". Jorge carrega uma mochila nas costas, ele olha para os botões acompanhando a descida do elevador. NARRADOR (V.O) (CONT.) Outros, ansiosos, esperam por esperar o inesperado. Jorge olha para um HOMEM SÉRIO de terno, ao seu lado, segurando uma pasta. NARRADOR (V.O) (CONT.) Alguns parecem passivos a qualquer notícia. Criam uma bolha em volta de seu corpo contra qualquer tipo de energia ruim. Sorte destes... ele deve ser budista... Jorge volta a olhar para os botões. O elevador para. 28

INT. SAGUÃO DA REPARTIÇÃO - DIA A porta do elevador abre e o Homem Sério desaba em choro. Todos saem. Jorge vê um pequeno tumulto em frente a um quadro de avisos. NARRADOR (V.O) A última vez que Jorge conferiu uma lista foi exatamente quando entrou nesse emprego. Jorge se aproxima do quadro. A Mulher baixa e gorda tem um ataque histérico. Jorge procura o seu nome na lista.


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EXT. PÁTIO DO COLÉGIO - DIA Jorge está sentado em um banco. Ao fundo, um jardim. NARRADOR (V.O) Jorge foi se consultar com a única pessoa que, segundo ele, poderia lhe ajudar. LAURA, 14 anos, vestindo saia listrada, desce as escadas junto com vários ADOLESCENTES. Jorge admira Laura descendo. NARRADOR (V.O) Lembrou-se de quando Laura descia as escadas da casa da vô dela... "como ela ficava bonitinha vestindo aquela saia listrada". Laura caminha até um grupo de QUATRO MENINAS adolescentes, entre elas LÚCIA, 14 anos. Elas conversam. Jorge olha para elas. Jorge se levanta. JORGE Laura? Laurinha? Laura sorri para Jorge. Ela se despede dos amigos.

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EXT. ESCADARIA DO COLÉGIO - DIA Jorge e Laura descem uma escadaria. LAURA Não fica assim, pai. Você nem gostava do seu emprego mesmo. JORGE Quem disse que eu não gostava? LAURA Sei lá, nunca vi você falando sobre ele. NONA SINFONIA de Beethoven tocada em um piano. A música aumenta conforme eles descem a escada. JORGE Laura, quando a gente não fala sobre alguma coisa é porque a gente se sente satisfeito com ela.


17. LAURA Satisfeito ou acomodado? Estar acomodado não é estar feliz. JORGE De onde vem essa música? LAURA Que música? JORGE De piano, você não tá ouvindo? LAURA Não tô ouvindo nada. JORGE (nervoso) Essa música... acho que é Mozart... Você não tá escutando? Eu devo tá louco... Laura começa a rir. JORGE (CONT.) Laurinha, eu tô ficando louco... achar que está escutando música clássica é o primeiro sintoma de depressão pós-desemprego, o segundo é escutar chachacha e o terceiro polca... e aí não tem mais volta... é passar o resto da vida escutando polca e... LAURA (interrompendo) Pai? pai! Eu tava brincando. Eu tô escutando a música de piano... o conservatório da escola é aqui do lado. Vai dar tudo certo. (mais risada) Essas coisas ruins acontecem porque... era preciso. Na vida as coisas boas e as coisas ruins têm que estar balanceadas. Ninguém é mais triste ou mais alegre, tudo é uma questão de ponto de vista. Jorge abraça Laura. JORGE Essa é a frase mais inteligente que eu ouvi nos últimos tempos, minha filha.


18.

LAURA E não é Mozart. É Beethoven. JORGE Laurinha, você é um gênio, sabe tudo de música. LAURA Pai, essa é a nona sinfonia. Só você pra não conhecer mesmo... e eu não gosto de música clássica, gosto de rock clássico, rock antigo, dos anos sessenta. CAMPAINHA. LAURA Tenho que ir. (beija Jorge) Pai, não esquenta não que a mãe vai entender o que aconteceu. 31

INT. SALA DA CASA DE CECÍLIA - NOITE A sala é pequena com uma mesa cheia de livros em cima e um sofá. CECÍLIA, 32 anos, está exaltada. CECÍLIA (gritando) Quê?! E só você foi despedido?! JORGE Não, Cecília, outros também foram. CECÍLIA Mas não foram todos? JORGE Não, ficaram os mais novos e os mais velhos. Pelo menos eles pensaram na aposentadoria de quem tava quase lá. CECÍLIA Você não tem amor próprio, Jorge. Acho que se você tivesse que escolher entre você ficar ou um outro, você escolheria o outro. JORGE Cecília, essas coisas ruins acontecem porque era preciso. Na


19.

JORGE vida as coisas boas e as coisas ruins têm que estar balanceadas. Ninguém é mais triste ou mais alegre, tudo é uma questão de ponto de vista. Vai dar tudo certo. CECÍLIA Jorge você andou lendo o livro de autoajuda para adolescentes que eu dei pra Laura?! JORGE Quê? CECÍLIA (compreensiva) Nada. Talvez você tenha razão. Isso pode ser um sinal pra gente se mudar de vez dessa cidade. Só que a minha defesa de doutorado é só daqui a três meses, e até lá temos contas a pagar! Cecília sai da sala. 32

EXT. CEASA - DIA Um FUNCIONÁRIO carrega uma caixa de frutas e verduras estragadas. Ele joga a caixa em um container. MULHERES e CRIANÇAS disputam a comida jogada fora. Jorge passa por eles.

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INT. ESCRITÓRIO DE PEDRO - DIA O escritório de PEDRO, 42 anos, fica dentro da CEASA. O escritório é pequeno com algumas janelas que dão para o pátio interno da CEASA. PEDRO (AO TELEFONE) Quarenta e dois... não, muito caro. Vocês querem me sacanear! Quarenta e dois... isso não vale quarenta e seis... quarenta e quatro, então... sim... tá bom, quarenta e quatro e na próxima safra sai por quarenta! Pedro desliga o telefone e se levanta. Toda vez que Pedro fala "Jorge" é com sotaque castelhano.


20.

PEDRO Jorge... Jorge... Jorge... Pedro sai de trás de sua mesa. PEDRO (CONT.) Como eu posso te ajudar? As coisas não andam muito boas por aqui. Pedro passa por Jorge, sentado em uma cadeira, e entra no banheiro. PEDRO (CONT.) (O.S) Nosso quadro de funcionários tá completo. Eu poderia te colocar lá em baixo... Jorge ouve uma FUNGADA e depois um GRITO vindo do banheiro. JORGE Pedro, tá tudo bem aí? Pedro sai do banheiro e caminha até sua mesa. PEDRO ... mas acho que você merece algo melhor. Lá em baixo o trabalho é pesado e mal remunerado. Você deve ter faculdade... não tem? JORGE Na verdade, não. Quando se tem uma filha tão cedo assim, fica difícil. Pedro fica de frente para Jorge. Jorge vê uma mancha branca de pó no terno de Pedro. JORGE (apontando para sua barriga) Tá sujo aqui. Pedro se assusta. Ele olha nos olhos de Jorge. Pedro se inclina lentamente, se aproximando de Jorge. PEDRO Sujo? Pedro, num movimento brusco, revista a barriga de Jorge. JORGE Que isso Pedro? Tá ficando louco?


21. PEDRO (nervoso) Eu, louco? Cadê o microfone?! Que estória é essa que tá sujo aqui?! Jorge se afasta de Pedro. JORGE Calma aí. Eu falei que você tava sujo aqui... aí... no seu terno! Pedro olha para o terno e vê uma mancha branca. Ele se vira de costas para Jorge. PEDRO Merda, meu terno novo. Pedro passa a mão na mancha e depois passa na boca. PEDRO E Cecília, como ela tá? A gente sempre foi muito diferente. JORGE Estudando muito. PEDRO Correção: vadiando muito. Nunca entendi essas pessoas que preferem estudar a vida inteira em vez de ganhar dinheiro. JORGE Na verdade ela tá estudando pra ganhar dinheiro. É pro doutorado. O problema é que ela recebeu uma proposta para dar aula numa universidade em Recife. Pedro começa gargalhar. JORGE Que foi? PEDRO Nada... nada. Pedro olha para o relógio e se levanta. PEDRO Jorge, tenho que sair. Vou entrar em contato com alguns amigos pra ver se agilizo alguma coisa pra você.


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Os dois se cumprimentam e caminham até a porta. JORGE Não quero tomar o seu tempo... mas é que achei que você... PEDRO Mas é claro, Jorgito, venha quando você quiser, só não tráz a mala da tua mulher. JORGE Que isso Pedro... 34

INSERT DE JORNAL Uma caneta percorre a coluna da sessão de empregos de um jornal. A caneta para num anúncio de mecânico. NARRADOR (V.O) As férias, para Jorge, sempre foram muito importante. E todo anúncio que o interessava, ele se imaginava em seu período de férias.

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INT. SALA DA CASA DE CECÍLIA - DIA As unhas de Jorge estão sujas. Ele está dormindo deitado no sofá com um boné, um calção e camisa polo azul.

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INSERT DE JORNAL A caneta procura por mais um emprego e para num anúncio de trocador de ônibus. NARRADOR (V.O) (CONT.) Não que ele gostasse de fazer grandes planos...

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INT. SALA DA CASA DE CECÍLIA - DIA Jorge arruma alguns pedaços de cenoura e batata, alinhando-os em um prato. Sua unha do dedo mínimo está maior que as outras. Ele está sentado no sofá vestindo calça e uma camisa polo verde.


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INSERT DE JORNAL A caneta para num anúncio de telemarketing. Faz um "X" grande. Procura outro anúncio e para num de assistente de pizzaiolo.

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INT. SALA DA CASA DE CECÍLIA - DIA Um ventilador, posicionado nos pés de Jorge, que está deitado no sofá, espalha o vento em direção ao seu rosto. Jorge veste calção e camisa polo vermelha. Ele está roncando. Cecília e Laura estão sentadas à mesa. NARRADOR (V.O) (CONT.) Ele achava que não era preciso sair de casa para fazer o que gosta. E o que ele realmente gosta é de ficar com a família unida. Jorge PEIDA. Ele funga, faz cara feia e se vira.

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INSERT DE JORNAL A caneta percorre o jornal e para num anúncio de figuração em televisão. CECÍLIA (V.O) Jorge. Jorge!

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INT. COZINHA DA CASA DE CECÍLIA - NOITE Jorge está sentado à mesa com uma caneta na mão e o jornal aberto sobre a mesa. INSERT DO ANÚNCIO: "Procura-se homens e mulheres de todos os sexos e idades para figuração em televisão. Os interessados devem comparecer segunda-feira na Rua 7 de Setembro nº 1023/sala 1345 até às 18 horas. Cachê na hora". CECÍLIA (O.S) Jorge? JORGE (para Cecília) Oi... Fala.


24. CECÍLIA (O.S) Achou alguma coisa, amor? JORGE Assistente de pizzaiolo, mas acho que não é uma boa... CECÍLIA (O.S) Eu também acho. JORGE E até isso precisa de um curso. Acho que eu posso pegar o seguro desemprego para pagar um curso. Cecília se aproxima de Jorge. Ele rasga o anúncio de figurante e guarda no bolso antes que Cecília chegue. Cecília senta em seu colo e o beija. CECÍLIA Meu amor, talvez a gente consiga segurar as pontas até eu acabar a defesa do doutorado e, então, você procura um emprego lá em Recife. JORGE É... Talvez... 42

INT. QUARTO DE LAURA NA CASA DE CECÍLIA - NOITE Laura é beijada por Lúcia. Elas estão sentadas no chão. Laura se assusta. Elas escutam MÚSICA dos anos sessenta. LAURA Lúcia? O que você tá fazendo? Lúcia sorri. LÚCIA Eu acho que gosto de você. Laura sorri. LAURA Eu também gosto de você, mas... Laura abaixa a cabeça. LAURA Você pode me beijar de novo? Elas se beijam, param e começam a rir.


25.

LÚCIA Se um beijo fez você sorrir tão bonito assim, eu quero te beijar muito mais. Laura sorri. LÚCIA Eu adoro o seu sorriso. LAURA Para Lúcia! Você tá me deixando envergonhada na minha casa. LÚCIA Desculpa Laura, é que preciso ir daqui a pouco e... Laura beija rapidamente Lúcia. LAURA Isso é pra você parar de se desculpar. Quer ouvir algo engraçado? Eu acho que meus pais não transam em casa. Eu nunca ouvi nada e, quando eles vão para um motel, eles dizem que vão jogar boliche! As duas começam a rir sem parar. LÚCIA Eles não tinham uma desculpa melhor? LAURA Não. E o pior não é isso. O pior é que toda vez que eles VÃO-AO-BOLICHE eles são obrigados a me falar, então eu sempre sei quando eles fazem sexo! Lúcia faz cara de nojo e ri. Laura também se diverte. 43

INT. SALA DA CASA DE CECÍLIA - NOITE No sofá, Jorge e Cecília se beijam. JORGE Amor, Laurinha e a amiga dela ainda estão no quarto.


26.

CECÍLIA Eu sei. Laura e Lúcia surgem do corredor. LÚCIA (cochichando para Laura) Você não disse que eles iam ao boliche? As duas riem. Jorge e Cecília param com o momento íntimo. Eles ficam envergonhados. JORGE (disfarçando) É... cadê o jornal? CECÍLIA Acho que tá por aqui... Laura e Lúcia passam por eles. Laura abre a porta e elas ficam de frente. Laura encosta a porta. 44

EXT. EM FRENTE À PORTA DA CASA DE CECÍLIA - NOITE Laura e Lúcia se abraçam. LAURA Tchau, Lú. A gente se vê amanhã na escola. Lúcia beija Laura no canto da boca. Laura olha nos olhos de Lúcia. LÚCIA (alto para Jorge e Cecília ouvirem) Vamos combinar que jogar aquele boliche esse semana Laura, me liga. Laura arregala os olhos com a brincadeira audaciosa da amiga. LAURA Tá... tá... Tchau. Laura bate a porta.


27.

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INT. METRÔ - DIA Jorge está sentado com uma mochila. Ele veste uma polo branca, calça social e sapato. NARRADOR (V.O) Ansioso, curioso, nervoso, apoquentado! Jorge estava explodindo por dentro. Mas enganam-se quem pensa que tudo isso é aquele nervosismo que precede o momento de encarar às câmeras. Jorge não estava nervoso por causa disso, sua preocupação estava em saber o que iria acontecer depois, quem iria assistir, quem iria contar para sua mulher e quem iria acabar com Cecília de Almeida Campos e transformá-la em Cecília de Almeida, novamente.

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EXT. ENTRADA DA EMISSORA - DIA Algumas cadeiras, como se fossem de uma repartição pública, estão viradas para três televisões que passam a mesma novela. Ao lado das cadeiras, uma grade com uma roleta, e uma cabine com o PORTEIRO. Jorge está sentado ao lado de outras PESSOAS. Ele olha para a televisão e para as pessoas sentadas assistindo. NARRADOR (V.O) Jorge olhou para as pessoas hipnotizadas pelas televisões e agradeceu pela sua mulher que nunca fez questão ter uma. A única que eles tinham estava desligada desde a última copa do mundo. PORTEIRO (O.S) Próximo. CORTA PARA: CABINE DO PORTEIRO. PORTEIRO Identidade e destino?. Jorge olha para o Porteiro.


28. NARRADOR (V.O) Identidade e destino?! Quem é esse cara? O porteiro do céu?! PORTEIRO Identidade e destino? JORGE Ah, sim... É... Figurante da novela das sete. PORTEIRO O pessoal já tá esperando. Porteiro entrega um cartão de identificação para Jorge. INSERT da roleta trocando a luz vermelha por uma verde. 47

EXT. EM FRENTE AOS CAMARINS - DIA Jorge chega apressado. O lugar tem uma varanda estreita e várias portas. Em frente há uma rua de asfalto. Os FIGURANTES estão espalhados: MECÂNICOS, PORTEIROS, VENDEDOR DE PIPOCA, VLADINHO (um anão vestido de chofer). Outros mais arrumados e outros menos. JORGE (para Vladinho) Você sabe onde é a prova do figurino? VLADINHO Na sala do figurino. (projetando) Alguém sabe que horas vai ser o almoço hoje? Jorge se aproxima da sala do figurino. JULIANA PAES passa arrumada e Jorge a olha. FIGURINISTA (O.S) Próximo!

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INT. SALA DO FIGURINO - DIA FIGURINISTA, 38 anos, moreno e afeminado, arruma as roupas. FIGURINISTA Pode tirar a roupa e colocar ali. Vamos ver o que você vai ser... O Figurinista olha para Jorge tirando a camisa.


29. FIGURINISTA Deus meu! Quanto pelo! Você nunca pensou em depilar, não? Figurinista se aproxima dele. FIGURINISTA Pelo menos, uma aparadinha aqui na região no pescoço. Jorge, envergonhado, fica estático, sem reação. FIGURINISTA Não se preocupe que o momento é bom para os peludinhos... é só o que a propagandas de cervejas querem. FIGURINISTA (O.S) (projetando para fora da sala) Quantos operários têm? Operários? Dois... tá. Figurinista volta e entrega um macacão para Jorge. FIGURINISTA (batendo palmas) Vamos, vamos! Você ainda não tirou a roupa. Vamos, tira! Jorge fica sem graça. 49

EXT. CIDADE CINEMATOGRÁFICA - DIA O cenário da cidade é dividido em dois lados, um pobre e outro rico. Produtora 1 caminha na frente dos figurantes que chegam para filmar. Jorge está vestido como operário. NARRADOR (V.O) Jorge aprovou seu figurino, como operário, ele deveria fazer parte das massas. Afinal, um homem de macacão nunca será destaque de nada. CORTA PARA: Jorge e mais DOIS OPERÁRIOS estão parados. ASSISTENTE DE DIREÇÃO (O.S) (megafone) Ação figuração! Jorge e os dois operários caminham atravessando uma rua.


30.

NARRADOR (V.O) E ele logo gostou do seu novo trabalho. Sua função era meramente ilustrativa e ele... ASSISTENTE DE DIREÇÃO (O.S) (megafone) Corta! CORTA PARA: Jorge e os outros dois operários na posição inicial. NARRADOR (V.O) (CONT.) ... e ele sabia, ninguém iria reconhecê-lo vestido de operário. Talvez se... ASSISTENTE DE DIREÇÃO (O.S) (megafone) Ação figuração! Jorge e mais dois operários caminham atravessando uma rua. NARRADOR (V.O) (CONT.) ... talvez se ele fizesse o papel de um transeunte normal, vestido... ASSISTENTE DE DIREÇÃO (O.S) (megafone) Corta! CORTA PARA: Jorge e os outros dois operários sobem uma escada. NARRADOR (V.O) (CONT.) (irritado) ...vestido de camisa polo, calça social e sapato... ASSISTENTE DE DIREÇÃO (O.S) (megafone) Corta! NARRADOR (V.O) (CONT.) (acelerado) ... camisa polo, calça social e sapato, ele iria chamar mais atenção.


31.

ASSISTENTE DE DIREÇÃO (O.S) (megafone) Corta! 50

INT. REFEITÓRIO - DIA Em uma mesa FIGURANTES vestidos com roupas dos anos 20 terminam de comer. As mulheres com maquiagem pesada e os homens vestindo smoking, todos como se fossem da alta sociedade, mas comem como esfomeados. PRODUTORA 1 (V.O) (gritando) Pessoal dos "Anos de Ouro", por favor, vamos logo! O refeitório é grande com mesas e cadeiras metálicas. Os figurantes dos anos 20 saem. Todos os outros figurantes comem vestidos com seu figurino. Jorge de macacão come enquanto ouve os outros falarem. Estão na mesa com ele, um OPERÁRIO, 26 anos, um MECÂNICO, 40 anos, um EXECUTIVO, 52 anos, uma MULHER GORDINHA, 37 anos e Vladinho que come sem parar a montanha de comida em seu prato. EXECUTIVO Vocês sabem por que as gordinhas têm mais tesão que as mais magrinhas? (pausa) Porque a magra tem ponto G e a gordinha ponto GG! Todos na mesa riem menos Jorge, a Mulher Gordinha e Vladinho que come sem parar. MULHER GORDINHA Ah meu filho, mas agora as gordinhas estão por cima! EXECUTIVO Por cima do peso ideal! O Executivo ri, mas os outros comem. MULHER GORDINHA Ha. Ha. Ha. Querido, a Preta Gil acabou de ganhar o maior cachê dos artistas nacionais pra fazer aquela propaganda de cerveja.


32.

MECÂNICO E a venda de cerveja tá diminuindo junto com o peso dela desde que ela fez a propaganda! O Mecânico ri, mas os outros comem. MECÂNICO Todo mundo já "teve" por cima. Vladinho... Vladinho! O Mecânico dá um tapa de leve na cabeça de Vladinho. VLADINHO Que é, porra? MECÂNICO Como era a fala daquela propaganda de cueca que... Vladinho solta os talheres, sobe em cima da cadeira, tira o chapéu da cabeça e coloca em frente ao seu sexo. VLADINHO (representando) Se você acha que tamanho é documento, então você ainda não experimentou as cuecas Pailot! Vladinho tira a chapéu de frente de seu sexo. VLADINHO As únicas que realçam o que só elas podem ver! Caso você seja homossexual verifique no nosso site as condições da promoção: compre uma cueca e leve outra de graça. (mudando o tom para informativo) O ministério das relações interiores informa que as cuecas da promoção são em cores especiais, nada de cinza chumbo, marrom cor de pele ou bege diarreia. Todos riem. Jorge sorri. Vladinho se senta e volta a comer. EXECUTIVO E o pior é que a cueca da promoção pra veado era mais cara que duas cuecas de verdade.


33.

MECÂNICO Viu, até um anão já teve a sua chance. 51

EXT. ENTRADA DA EMISSORA - FIM DE TARDE O sol se põe e Jorge está na fila para pegar o pagamento. Todos os FIGURANTES na fila estão vestidos com suas roupas normais. Atrás de Jorge está Coronel. CORONEL (para Figurante 1) Vou pegar esse cinquenta e ir direto pra fila comprar o ingresso pro jogo de quinta. FIGURANTE 1 Vai ver o Botafogo perder? CORONEL Que perder o quê! Sabia que você tinha cara de flamenguista. Time de "zé povinho". NARRADOR (V.O) Cinquenta reais pensou Jorge. Cinquenta por dia... 350 reais por semana. JORGE (para ele mesmo) Nada mal. Jorge, ansioso e sorrindo, recebe uma nota de cinquenta reais da Produtora 1.

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INT. ESCRITÓRIO DE PEDRO - NOITE Pedro, sem o terno e com as mangas da camisa dobradas, está sentado em sua cadeira. PEDRO ... dou 300 por dúzia... onde é prefiro o mesmo

(AO TELEFONE) cada caixa de meia isso? Não, eu lugar de sempre...

Jorge, sentado, arruma, alinhando, algumas canetas em cima da mesa.


34.

NARRADOR (V.O) Jorge não sabia se estava fazendo a coisa certa, afinal, ele já havia pedido ajuda a Pedro alguns dias atrás. Jorge nunca foi muito íntimo de seu cunhado. PEDRO (AO TELEFONE) ... amanhã, nove horas lá e sem gracinha. Pedro desliga o telefone, se levanta e caminha até o banheiro. PEDRO Então Jorgito, fala aí... a Juliana Paes é realmente muito gostosa? JORGE Não sei, Pedro... é, claro... os cabelos dela são muito bonitos. PEDRO (O.S) Os cabelos, Jorge! Eu quero saber da bunda, Jorgito! Jorge ouve uma FUNGADA. PEDRO (O.S) A bunda! JORGE (nervoso) Eu não vi... Ela passou... Pedro, eu sei que você e Cecília não se dão muito bem, mas... Pedro sai do banheiro vestindo o terno. PEDRO E a Daniele Winits? JORGE Quem? Eu não sei... só vi a Juliana Paes. Pedro abre a porta do escritório. PEDRO Vamos?


35. JORGE Aonde? Como assim? PEDRO Encher a cara! Não fica bem arranjar um novo emprego e não sair para comemorar! JORGE Mas eu não bebo. Pedro se aproxima de Jorge. PEDRO Você não bebia... porque você não tinha motivo para comemorações, afinal nada mudou na sua vida desde que você entrou naquele emprego... qual era mesmo? JORGE Eu era funcionário público. PEDRO Agora você é o mais novo contratado da "Distribuidora Almeida"! Jorge se levanta. JORGE Mas eu não sou o mais novo contratado. Isso é uma invenção nossa pra agradar Cecília. PEDRO Correção: isso é uma invenção sua. Se você quer que Cecília acredite que você vai trabalhar comigo, então é melhor a gente sair logo pra encher a cara. 53

INT. CARRO DE PEDRO - NOITE Pedro dirige o carro tomando uma cerveja. Ele está sujo de sangue, sua roupa está toda amassada. Jorge está bêbado no banco do lado, e também tem as roupas amassadas e sujas. PEDRO Qual é o seu problema? Eu saio pra pegar uma cerveja, você toma duas long-neck e sai discutindo com qualquer pessoa.


36.

JORGE Acho que eu bebi rápido demais. PEDRO Você só não bebeu rápido demais, você acabou com a nossa noite rápido demais. Caralho! Você é doido. Jorge pega uma cerveja em uma sacola. PEDRO Você quer ficar em coma alcoólico?! Deixa minha cerveja aí! Jorge deixa a garrafa cair em baixo do banco. PEDRO O que você tá fazendo? Vai sujar todo o meu carro! Jorge procura a cerveja e acha um revólver. Jorge olha para o revólver. PEDRO Me dá isso! Pedro pega a arma de Jorge. Os dois ficam em silêncio. PEDRO Você tá me devendo uma. Duas até... depois dessa confusão no bar. JORGE Que confusão? 54

INT. SALA DA CASA DE CECÍLIA - NOITE Cecília estuda na mesa. Ao lado de uma pilha de livros, o telefone celular. CAMPAINHA. Cecília olha para o celular. INSERT - Relógio do celular mostrando 22:23. Cecília se aproxima da porta. Ela ouve BURBÚRIOS, mas não entende. CECÍLIA Jorge?! PEDRO (O.S) Sim, sou eu.


37.

CECÍLIA Pedro? PEDRO (O.S) Sim, sou eu. Cecília olha pelo olho-mágico e vê Jorge e Pedro. Ela abre a porta. CECÍLIA Meu Deus, o que aconteceu? Jorge? Jorge tá tudo bem? Cecília abraça Jorge. JORGE (bêbado) Sim, tudo ótimo! Maravilha! Cecília larga Jorge. CECÍLIA Você tá bêbado! Pedro o que você fez com ele? PEDRO Como o que eu fiz? Seu marido já é grande o suficiente pra ficar bêbado. CECÍLIA Ele nunca bebeu na vida. O que você tá fazendo? JORGE Eu só bebi duas... Cecília caminha em direção à sala. PEDRO É, ele só bebeu duas cervejas... e olha o estado dele! Trinta anos na cara e nunca tinha ficado bêbado. Você quer ter um retardado como marido. Cecília, irritada, se aproxima de Pedro. CECÍLIA Respeite meu marido!


38. JORGE (cantando) Eu sou um retar... retardado. CECÍLIA O que você quer? Estragar a nossa vida?! Como você estragou a sua! JORGE (cantando) Um retardado com emprego! CECÍLIA O quê? Você tá bêbado, Jorge. Jorge segura Cecília pelos braços em posição de dança de salão. JORGE (cantando) Um retardado com emprego! CECÍLIA Para, Jorge. Você tá falando sério? Cecília olha para Pedro sorrindo. PEDRO É onde eu queria chegar. Às vezes há bons motivos para se ficar bêbado. Jorge derruba Cecília no sofá. Ele fica em cima dela. JORGE Pedro conseguiu uma vaga na empresa dele. CECÍLIA Pedro? Cecília se levanta e abraça Pedro. CECÍLIA Isso quer dizer que ele pode largar o emprego a qualquer hora né? PEDRO Não sei. Que pergunta é essa? CECÍLIA Obrigada. Cecília se atira em cima de Jorge no sofá.


39.

JORGE Acho que a gente tem que comemorar. Vamos ao boliche! PEDRO Boliche?! Você acaba de conseguir um emprego e vai comemorar com sua mulher no boliche?! Depois dessa é melhor eu ir embora, antes que me convidem também... CECÍLIA (sorrindo) É... acho melhor só a gente ir ao boliche mesmo. 55

EXT. ENTRADA DA EMISSORA - DIA Jorge está sentado. Outras PESSOAS, também sentadas, olham as televisões. NARRADOR (V.O) Mais feliz que pinto no meio do lixo. Jorge estava empolgado, acreditando que sua vida rumava para um recomeço. INSERT - Mão de Jorge entrega a carteira de identidade para a mão do Porteiro que entrega o cartão de identificação para a mão de Jorge. NARRADOR (V.O) (CONT.) Nos últimos dias ele foi despedido, seu casamento foi posto a prova... INSERT - Roleta mudando de vermelho para verde. NARRADOR (V.O) (CONT.) ... conseguiu um novo emprego, desdobrou sua mulher, pois ela nunca iria aprovar seu novo emprego...

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INT. SALA DO FIGURINO - DIA Jorge veste um chapéu de cangaceiro. NARRADOR (V.O) (CONT.) ... tomou o seu primeiro porre e descobriu no seu segundo dia de trabalho...


40.

57

EXT. CIDADE CINEMATOGRÁFICA - DIA Jorge vestido de cangaceiro numa cidade tipo do interior nordestino. NARRADOR (V.O) (CONT.) ... que sua nova profissão era digna de ser realizada até de ressaca. ASSISTENTE DE DIREÇÃO (megafone) Ação figuração! Jorge atravessa a rua.

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INT. ENTRADA DO REFEITÓRIO - NOITE Jorge, vestido de cangaceiro, chega na fila para comer e se depara com o Coronel, vestido de coronel russo, discutindo com Produtora 1. Todos em volta olham a confusão. Coronel e Produtora 1 caminham em direção a Jorge. CORONEL ... eu não quero saber o que você tá fazendo! Eu quero comer no horário certo. Igual a todos aqui! PRODUTORA 1 E todos aqui vão ter que esperar o senhor? CORONEL Por culpa sua, sim! Eu quero que você pegue o meu cartão, agora! PRODUTORA 1 É só você esperar um pouquinho, por favor. CORONEL Eu quero agora. JORGE Eu posso buscar pra vocês. CORONEL Você é burro?! Você tem a chave por acaso?


41.

PRODUTORA 1 O senhor está prejudicando a todos. Produtora 1 se vira para as pessoas na fila. PRODUTORA 1 Pessoal, vocês vão ter que esperar porque eu vou ter que buscar o cartão desse senhor aqui que esqueceu no camarim. 59

INT. REFEITÓRIO - NOITE O refeitório está lotado. Boa parte das pessoas está vestida com trajes típicos RUSSOS ou de CANGACEIROS. A maioria dos russos usa uma camisa regata por baixo do casaco ou apenas a camisa regata. Jorge segura uma bandeja. Ele procura um lugar para sentar, mas não acha um lugar vazio. Ele caminha e acha um lugar na mesa em que Coronel está sentado. Jorge senta em frente ao Coronel. As pessoas em volta comem rápido e falam muito. Jorge e Coronel comem mais devagar. Eles esbarram os olhares algumas vezes enquanto comem. JORGE Qual o seu nome? Coronel percebe que a pergunta foi para ele. Ele termina de mastigar. CORONEL Pra você, jagunço que não se apresenta antes de pedir que se apresentem, é Coronel. JORGE Desculpa, foi mal, meu nome é Jorge. E o seu? CORONEL Coronel. Eles voltam a comer em silêncio. CORONEL É novo aqui? Jorge termina de mastigar.


42. JORGE Mais ou menos. CORONEL Ainda come que nem gente... não se juntou aos animais esfomeados. Jorge sorri discretamente. JORGE E você? CORONEL Eu nunca vou me juntar com esses animais. Parece que nunca viram comida na frente. A verdade é que o brasileiro não pode ver comida de graça que vai logo comendo como se fosse a última vez na vida. É um problema histórico. JORGE Eu quis dizer... você trabalha há muito tempo aqui? CORONEL Seis anos. Jorge se espanta. JORGE E você só trabalha como figurante? CORONEL Sim. JORGE E dá pra se sustentar? CORONEL Sim, mas o bom mesmo é trabalhar de carro. Se você tem um carro eles pagam mais e é só ficar dentro do carro... acelera, para, dá mais uma volta... tira um cochilo... JORGE Você tem família? CORONEL (aborrecido) Por quê? Você é metido mesmo em rapaz.


43. JORGE Perguntei porque queria saber se você aceitaria jantar lá em casa. Afinal eu não poderia convidar um desses animais esfomeados para jantar com a minha família. Coronel olha firme para Jorge. CORONEL Não, não tenho família. JORGE Melhor! Assim não precisamos passar pelas apresentações chatas, não vamos nos incomodar com crianças correndo pra lá e pra cá e nossas mulheres não vão se tornar melhores amigas e falar mal de nós pelas costas. Coronel come como se não tivesse escutado o que Jorge falou. CORONEL Você costuma inventar essas frases pra convencer as pessoas? JORGE Talvez. CORONEL Tá bom, eu gosto de pessoas que convivem bem com suas mentiras. JORGE Acho que eu tenho outras que podem te interessar. 60

INT. COZINHA DA CASA DE CECÍLIA - NOITE Cecília e Jorge cozinham. Cecília no fogão e Jorge cortando os ingredientes. CECÍLIA Pode trazer a cenoura, amor. Jorge entrega uma tábua com cenouras cortadas. CECÍLIA Amor, pega a tesoura pra mim? Jorge procura a tesoura no armário.


44.

JORGE Onde ela tá? Não tô achando. Cecília procura a tesoura numa gaveta e não acha. CECÍLIA Procura no quarto da Laura. Eu vi ela pegando esses dias. 61

INT. QUARTO DE LAURA NA CASA DE CECÍLIA - NOITE Jorge entra. O quarto está um pouco bagunçado. Há vários discos de vinil de bandas antigas espalhados. Discos e pôsteres do Roberto Carlos. Jorge procura a tesoura na mesa do computador de Laura. Ao mexer na mesa a tela do computador liga. Jorge olha uma mensagem de Lúcia piscando no MSN de Laura com os dizeres "o seu beijo é..." INSERT - Cursor do mouse abrindo a mensagem do MSN. Jorge lê a mensagem. INSERT - Mensagem: "o seu beijo é o meu despertar da primavera, e eu quero despertar ainda mais a minha primavera! EU TE AMO! Quando chegar em casa me liga. BEIJOS BEIJOS E MAIS BEIJOS". Jorge fica abismado. CAMPAINHA.

62

INT. ENTRADA DA CASA DE CECÍLIA - NOITE Jorge abre a porta. Coronel entra. JORGE Boa noite. É... esqueci de perguntar o seu nome de verdade... CORONEL Para um jagunço atrevido como você, é Coronel. Os dois riem. JORGE (alto para Cecília) Cecília! Chegou nosso convidado!


45. 63

INT. SALA DA CASA DE CECÍLIA - NOITE Jorge, Cecília e Coronel jantam. NARRADOR (V.O) Antes do jantar, Jorge contou a estória do desemprego e como ele teve que mentir para sua esposa. O Coronel achou graça e logo se tornou um velho fornecedor da distribuidora Almeida. Laura chega vestindo uma camisa que estampa a capa do disco "Louco por você" do Roberto Carlos. CECÍLIA Laura, você tá com fome filha? LAURA (O.S) Morrendo de fome. CECÍLIA Vem jantar com a gente. Temos visita. Laura se aproxima da mesa. JORGE Laurinha, esse aqui é um colega de trabalho do papai: Coronel. LAURA Você já conseguiu um emprego?! Eu sabia que ia dar tudo certo! Coronel se levanta e cumprimenta Laura apertando sua mão. CORONEL Você sabe o que é isso na sua camiseta? LAURA Claro! Quem não sabe? É o rei! CORONEL Sim, mas sabe qual é o nome desse disco? LAURA Claro! Como eu não ia saber, é o disco mais raro e caro de todos! "Louco por você". Coronel começa rir.


46.

CORONEL Jorge, sua filha tem muito bom gosto. JORGE Essa menina sabe tudo de música. CORONEL O mundo ainda tem salvação! Laura senta para jantar. Todos comem e se divertem. NARRADOR (V.O) Laura e o Coronel passaram o resto da noite falando sobre música dos anos sessenta e, principalmente, Roberto Carlos. Cecília olha para Jorge que retribui o olhar. Os dois, sorrindo, olham para Laura e Coronel conversando. NARRADOR (V.O) (CONT.) A partir desse dia os dois se tornaram melhores amigos e Jorge começou a aprender com o Coronel as artimanhas da profissão de figurante. 64

EXT. CIDADE CINEMATOGRÁFICA - DIA SÉRIE DE PLANOS: 1) Jorge e Coronel vestidos como marinheiros caem com sangue falso espalhado. CORONEL (baixo para Jorge) Nunca abaixe a cabeça para esses produtores idiotas. 2) Jorge e Coronel vestidos como executivos sentados de frente um para o outro. CORONEL (baixo para Jorge) Você não precisa ter pressa para o almoço, mas o café-da-manhã é melhor correr para pegar antes dos outros. 3) Jorge e Coronel vestidos como sambistas malandros.


47. CORONEL (baixo para Jorge) Chegue sempre meia hora depois do horário marcado pelos produtores. 4) Jorge e Coronel vestidos e maquiados como pessoas da corte de Dom Pedro. Eles também usam perucas. CORONEL (baixo para Jorge) Esqueça que você está ridículo com essas roupas e maquiagens. 5) Jorge e Coronel vestidos como russos. CORONEL (baixo para Jorge) E por último, se você quiser ganhar dinheiro de verdade não se prenda a nenhuma emissora ou programa, faça de tudo. Sexta terá uma seleção para um programa de pegadinhas. 65

INT. SALA DE ESPERA DA LD PRODUÇÕES - DIA Jorge, suado, está sentado numa sala pequena. Na parede está o logo da LD PRODUÇÕES. Outras PESSOAS, suadas, também estão sentadas. Há algumas MULHERES GOSTOSAS. NARRADOR (V.O) Jorge seguiu o conselho de seu novo amigo. O cachê das pegadinhas era o dobro e muito bem vindo. CAMPAINHA. INSERT - Letreiro com número 18. Jorge olha o seu número e se levanta. Ao mesmo tempo, um HOMEM GORDO sai da sala de testes secando o suor da testa. HOMEM GORDO Vamos acabar logo com isso. Alguém aqui pode trabalhar hoje até as onze da noite? Um HOMEM CABELUDO levanta o dedo rapidamente. Jorge levanta o dedo também. HOMEM GORDO (para o Homem cabeludo) Você. Conte uma piada.


48.

HOMEM CABELUDO Uma piada... um papagaio entra na loja de... HOMEM GORDO Tá bom. (para Jorge) Você conte uma piada. JORGE É... Eu não sei contar piadas. 66

INT. SALA DE TESTES DA LD PRODUÇÕES - DIA Homem Gordo está sentado atrás de sua velha mesa de madeira. HOMEM GORDO Muito bem, você vai fazer elenco de apoio. Sua função é parecer apenas mais um, sem chamar atenção. E lembre-se que esse programa é para a família! Nada de gestos obscenos ou falar palavrão! Jorge presta atenção nas orientações do Homem Gordo. HOMEM GORDO Você vai trocar de roupa algumas vezes e basicamente repetir as mesmas falas... NARRADOR (V.O) Tudo muito bom. Tudo muito bem. Mas Jorge parece ter esquecido o que sua conselheira oficial havia lhe dito: "Na vida as coisas boas e as coisas ruins têm que estar balanceadas". FADE OUT. DE VOLTA AO TEMPO PRESENTE.

67

INT. PALCO DO "PROGRAMA MAX FRANCO" - NOITE Jorge, disfarçado de nordestino, segura a pauta de entrevista nas mãos. Ele fica tímido. Olha para as câmeras, para Max Franco e para o público.


49.

MAX FRANCO Você quer alguma coisa? Max Franco olha para Jorge e começa rir. MAX FRANCO Ai meu Deus, essa noite promete... Jorge arruma os papéis que segura. A plateia ri. MAX FRANCO Hei? Você? Jorge olha para Max Franco. MAX FRANCO Tudo bem? Você quer me entregar alguma coisa? TODA VEZ QUE JORGE (DISFARÇADO) FALA É COM SOTAQUE NORDESTINO. JORGE (extremamente baixo e tímido) É que eu peguei a sua... MAX FRANCO Quê?! Amigo, você pode falar um pouquinho mais alto? Mas só um pouquinho senão as pessoas da plateia podem ouvir. A plateia ri. Jorge mexe nos papéis novamente. JORGE É que a moça ali... (aponta para lateral do palco) ... mandou eu pegar essas folhas, sabe... MAX FRANCO Quem mandou? JORGE Aquela moça de cabelo preto sabe... MAX FRANCO Tá bom. Tá bom. Você pode me entregar, por favor. Jorge se aproxima da mesa de Max Franco.


50.

MAX FRANCO Ainda bem que temos pessoas dedicadas na nossa equipe. E, também, muito discretas. A plateia ri. Jorge entrega os papéis. JORGE Eu posso te dar um abraço? MAX FRANCO Muito obrigado. Max Franco fica espantado. MAX FRANCO O quê? Você quer um abraço? Você não pode pedir um abraço antes ou depois do programa? PEREIRA (V.O)(PELO PONTO DE MAX FRANCO) Max? Max Franco olha acima da plateia. JORGE Eu já tentei, mas o senhor nunca para. PEREIRA (V.O)(CONT.)(PELO PONTO DE MAX FRANCO) Jorge não está no camarim. É melhor você dar um jeito. MAX FRANCO Como? O quê? PEREIRA (V.O) (CONT.)(PELO PONTO DE MAX FRANCO) Diz que Jorge vai ser entrevistado no segundo bloco. JORGE (CONT.) Terça passada quando o senhor saiu do camarim eu tentei falar com o senhor sabe... mas não consegui. Por um instante Max Franco fica pensativo. Ele mexe nos papéis. MAX FRANCO Ah, sim...


51.

Max Franco deixa cair um papel. Ele se abaixa para pegá-lo e volta. MAX FRANCO Escuta... Como é o seu nome mesmo? JORGE É José Raimundo Whitman Aparecido de Guaraciaba do Norte. MAX FRANCO Whitman é isso? JORGE Isso, sim senhor. MAX FRANCO José Raimundo Whitman Aparecido de Guaraciaba do Norte. Mas que nome bonito você tem. JORGE Não. Não. Guaraciaba do Norte é o nome da cidade de onde eu vim, sabe. Meu nome é José Raimundo Whitman Aparecido. Vindo de Guaraciaba do Norte, Ceará, Brasil. MAX FRANCO Você sabe de onde vem o Whitman? JORGE Olha... pelo o que o meu avô... MAX FRANCO Para! Para! Para! Eu perguntei se você sabe. Você sabe? Sim. E você quer ganhar um abraço? É isso? JORGE Sim. MAX FRANCO Mas tem um problema. Eu só te dou um abraço com uma condição. JORGE O que você quiser. MAX FRANCO Eu quero que você caminhe até ali... do lado da última cadeira da fileira.


52. Jorge, muito feliz, caminha até o local indicado. MAX FRANCO Aí... Tá bom. Obrigado. Jorge para. Max Franco se vira para uma câmera. MAX FRANCO (sério) Bom, seguindo o nosso programa, depois dessa interrupção, agora vou chamar o nosso primeiro convidado: Max Franco olha para os papeis em cima de sua mesa. Jorge fica apreensivo. MAX FRANCO José Raimundo Whitman Aparecido! INSERT - Letreiro de APLAUSO acende. A plateia não entende. Algumas pessoas começam a aplaudir e outras não. Jorge sorri emocionado, mas não sabe se vai ao encontro de Max Franco. MAX FRANCO Vem! Pode vir. (para plateia) E vocês podem aplaudir! Jorge caminha até Max Franco, que o abraça. MAX FRANCO Pode se sentar. JORGE Obrigado. Obrigado pelo abraço. Max Franco conduz Jorge a se sentar na cadeira. MAX FRANCO Pode se sentar. É sério. Jorge senta. Max Franco, de pé, se vira para uma câmera. MAX FRANCO Eu quero esclarecer que no segundo bloco teremos a entrevista com o nosso convidado anunciado. Jorge está atrasado. A plateia vaia.


53.

MAX FRANCO Calma... Calma... Se acalmem. Eu quero dizer que parece que ele teve um probleminha com seu cunhado. A plateia ri. MAX FRANCO Parece que finalmente o cunhado apareceu. E, como toda celebridade, já assinou um contrato para um programa: um reality show de psicopatas que não tem boa mira. A plateia ri ainda mais. MAX FRANCO Ai meu Deus. Isso já não tem mais saída. Max Franco ri enquanto se senta. MAX FRANCO Então José... Onde a gente tava mesmo? Ah, no Whitman... a gente... JORGE (interrompendo) Eu queria agradecer muito o senhor pelo o que você tá fazendo, me dando essa oportunidade de estar aqui agora com você e a sua plateia. Muito obrigado. MAX FRANCO Nós que agradecemos a sua partici... JORGE (interrompendo) Só Deus sabe tudo que eu passei até chegar aqui... agora na sua cadeira, no seu programa, sabe. MAX FRANCO Se só Deus sabe, quem sabe não está na hora de compartilhar a sua história conosco. E quem sabe você começa por onde nós havíamos começado... Whitman... De onde vem...


54.

JORGE Eu penei muito pra chegar aqui na cidade. Quando eu saí de caminhão, lá de Guaraciaba do Norte, eu vim só que chinelo de dedo, calção e camiseta. Se é que pode chamar aquilo de camiseta. Rapaz, a camiseta parecia aquele queijo... sabe aquele queijo de desenho? Todo furadinho? Pois é, era igualzinha. MAX FRANCO Ainda bem que você veio de Guaraciaba do Norte, imagina se viesse de Uruguaiana lá no Rio Grande do Sul. Ia chegar aqui um picolé de queijo suíço. A plateia ri. JORGE Mas sabe que faz frio lá também. De noitezinha sempre bate um friozinho. Mas eu tinha as "vaca" pra me aquecer. MAX FRANCO (espantado) Espera aí, você tinha as vacas pra te aquecer? Que caminhão é esse que você veio? A plateia ri. JORGE Caminhão de carrega bicho, ora. MAX FRANCO Tinha outros bichos além das vacas que você se aquecia? JORGE Tinha outros, mas eu gostava de ficar perto das vacas que eram mais mansinhas, sabe... MAX FRANCO E de noite, ficar com as vacas era melhor ainda? A plateia gargalha.


55.

JORGE É né... ajudava quando batia aquele ventinho. MAX FRANCO (rindo) Ajudava quando batia aquele ventinho... Max Franco gargalha. A plateia também ri. MAX FRANCO (para uma câmera) Bom, acho que não precisamos mais de outro convidado. (para a plateia) O que vocês acham? A plateia divide-se entre sim e não. MAX FRANCO Calma... Calma... No segundo bloco nós entrevistaremos o nosso convidado especial, Jorge. Alguns na plateia se exaltam. MAX FRANCO Mas nós vamos continuar o nosso papo aqui, nem que eu tenha que convidar o José pra ele voltar aqui na próxima semana. 68

EXT. CALÇADA - DIA (FLASHBACK) HOMEM 1, 50 anos, segura um binóculo olhando para o alto de um prédio. HOMEM 1 (para Jorge) Hei você? Dá uma olhada nisso aqui. Homem 1 entrega o binóculo para Jorge, vestindo camiseta e bermuda. Jorge pega o binóculo e olha para a mesma direção. INSERT - Imagem de binóculo: Uma MULHER GOSTOSA 1 troca o sutiã, mostrando os seios. Jorge se espanta e sorri.


56. JORGE (forçando malandragem) Que isso meu amigo! Que beleza! Jorge devolve o binóculo para Homem 1 e caminha em direção à câmera. EDITOR 1 (V.O) Pronto. Tá enrolado. Vamos lá que eu tô precisando fazer a cabeça. HOMEM GRANDE, 40 anos, vestindo terno e gravata, se aproxima de Jorge e a IMAGEM CONGELA. 69

EXT. TERRAÇO DE PRODUTORA - AMANHECER Os PASSÁROS cantam. EDITOR 1, 23 nos, e EDITOR 2, 21 anos, fumam um baseado. Eles têm olheiras profundas. EDITOR 2 Essas pegadinhas não têm a mínima graça, cara. Qual o idiota que ri dessas merdas? EDITOR 1 Se ninguém gostasse a gente não taria fumando esse baseado! EDITOR 2 É verdade... Viva as pegadinhas!

70

INT. QUARTO DE CECÍLIA E JORGE - MANHÃ Jorge, deitado, arruma os talheres alinhando-os em cima da bandeja. NARRADOR (V.O) Cecília e Jorge acharam ser um bom momento para conversar com Laura sobre sua sexualidade. Jorge embalado por sua alta estima prontificou-se a resolver a questão. Laura entra no quarto. LAURA Nossa! Tô impressionada. A última vez que mamãe levou café da manhã para você foi na última vez que vocês foram ao boliche!


57. JORGE Pois é, minha princesinha. Laura se aproxima da cama. LAURA Já disse que não sou princesa. JORGE Tá bom... Vem aqui minha bruxinha. LAURA Agora melhorou. Laura senta ao lado de Jorge que a abraça. JORGE O que você quer almoçar? Hoje o almoço é especial para minha... bruxinha. LAURA Ah, sei lá. JORGE Macarrão a carbonara! Você sempre adorou macarrão a carbonara. LAURA Você é quem gosta de macarrão a carbonara! JORGE Mas você sempre gostou. LAURA Eu gosto. JORGE Tá bom. Nós dois gostamos de macarrão a carbonara. Então será macarrão a carbonara no almoço! 71

INT. SALA DE EDIÇÃO - MANHÃ Editor 1 e Editor 2 entram na pequena sala cheia de computadores, dvd‘s e bonecos de brinquedo espalhados. EDITOR 1 Vamos acabar logo com isso pra gente fazer aquela revanche no "Counter Strike".


58. EDITOR 2 Não cansou de perder? Eles sentam. EDITOR 1 Vamos ver... Vamos ver... Editor 1 clica no mouse. A tela do computador liga. A CÂMERA SE APROXIMA LENTAMENTE DA TELA DO COMPUTADOR. Na tela, a imagem de Jorge caminhando congelada volta a passar. Homem Grande se aproxima de Jorge e agarra seu braço com força. HOMEM GRANDE (enfurecido) O que vocês tão olhando naquele binóculo?! JORGE (assustado) O quê? Nada. NA TELA DO COMPUTADOR: Jorge olha para os lados e depois para a câmera. HOMEM GRANDE Como nada? Meu filho disse que vocês tão o dia inteiro apontando essa merda de binóculo para o nosso apartamento! JORGE Calma aí... Nós estamos fazendo uma gravação... HOMEM GRANDE (interrompendo) Tão gravando o quê?! Olhando para minha casa?! NA TELA DO COMPUTADOR: Jorge se vira para olhar para Homem 1. Homem 1 está com o binóculo na mão apontando para o alto. Homem Forte olha para Homem 1. JORGE Não é isso... É que... HOMEM GRANDE Filho da puta! Tá apontando de novo aquela merda pro meu apartamento! Editor 1 olha espantado para Editor 2.


59.

EDITOR 1 (para Editor 2) Que merda é essa? NA TELA DO COMPUTADOR: Homem Grande larga o braço de Jorge e caminha rápido em direção ao Homem 1. Jorge corre desajeitado, como alguém que nunca correu na vida, em direção à câmera. JORGE Ihhhhh vai dá cocô! Vai dá cocô! Vai dá cocô! Editor 1 olha para Editor 2. Os dois começam a rir e depois param de rir. EDITOR 1 Não! Isso não pode ser verdade! Por que esse cara falou isso?! EDITOR 2 (rindo) Volta! Volta isso agora! INSERT - Tela de computador: A imagem de Jorge correndo em direção à câmera retrocede. 72

INT. QUARTO DE CECÍLIA E JORGE - MANHÃ Jorge abraça forte Laura e encosta a cabeça na cabeça dela. Jorge suspira. JORGE Minha filha, eu queria conversar um pouquinho sobre a sua amiga Lúcia. Laura se afasta de Jorge. LAURA (espantada) Que que foi?! JORGE É que sua mãe tava usando o computador dela e eu precisava mandar um email... LAURA (nervosa) Você mexeu no meu computador?!


60. JORGE Eu fui mexer e... LAURA (interrompendo) E o quê?! JORGE Eu vi uma mensagem da sua amiga Lúcia... Laura se levanta nervosa. LAURA (gritando) Vocês não me respeitam! Laura bate a porta e sai do quarto. 73

INT. SALA DE EDIÇÃO - MANHÃ TELA DO COMPUTADOR: Imagem de Jorge correndo em direção à câmera congelada. RISOS. Editor 1 e Editor 2 riem. EDITOR 2 (rindo) "Vai dá cocô"?! Manda isso pro Gordo! Agora, cara. Ele vai se cagar rindo. EDITOR 1 Já mandei! Eles param de rir e se olham. Os dois caem na gargalhada.

74

INT. QUARTO DE GORDO E DIEGO - MANHÃ DIEGO, 9 anos, brinca sentado no chão. MENSAGEM DE CELULAR. Diego olha para o celular piscando em cima de uma cômoda ao lado da cama de GORDO, 23 anos, que está dormindo. O quarto tem duas camas. Diego se levanta, caminha até o celular e o pega. DIEGO Gordo? Gordo? Diego, com o celular na mão, puxa o lençol da cama do Gordo tentando acordá-lo.


61.

GORDO Não enche o saco, Diego! DIEGO O seu celular tá tocando. GORDO E daí! Me deixa dormir! Gordo se vira, se tapando com o lençol. Diego olha para o celular. INSERT - Mensagem na tela do celular: "Olha isso AGORA!". Diego mexe no celular. INSERT - Tela de celular: "Carregando arquivo". 75

INT. QUARTO DE CECÍLIA E JORGE - MANHÃ Jorge, deitado, retira a bandeja com comida de cima dele. Cecília abre a porta e entra. CECÍLIA Eu disse que era melhor eu falar com ela. JORGE A reação seria a mesma. Só tentei evitar que você se estressasse mais ainda. CECÍLIA Tá dizendo que eu ando estressada? JORGE É... vamos dizer que ultimamente você tem mostrado os dentes com uma única intenção: a de escová-los. CECÍLIA (rindo) Que absurdo! Jorge tenta abraçar Cecília que se esquiva em tom de brincadeira. CECÍLIA Desculpa, mas eu achei, por um momento, que eu ia ter que sustentar a nossa família! Você não tá falando sério? Tá?


62.

Jorge abraça e beija Cecília no rosto. JORGE Não, tô brincando. Mas agora você sabe que tem um marido que sabe dar a volta por cima e que põe comida na mesa! E por falar em comida, temos que comprar ovos pra fazer macarrão a carbonara. CECÍLIA Ah não, Jorge! Macarrão a carbonara, não. Você sabe que eu tô evitando comida pesada. Eu não consigo me concentrar nos estudos. Além disso vamos ter que ir ao mercado pra comprar bacon. JORGE Foi Laurinha que escolheu. Acho melhor não contrariar ela hoje. 76

INT. QUARTO DE GORDO E DIEGO - MANHÃ Diego, fascinado, olha para o celular. JORGE (V.O) (SOM DE CELULAR) Ihhhhh vai dá cocô! Vai dá cocô! Diego começa a rir. PAI DE DIEGO (V.O) Diego! Diego! Você já tá pronto? INSERT - Tela de celular: "Encaminhar arquivo para todos os contatos?". Diego mexe no celular. INSERT - Tela do celular: "Encaminhando o arquivo para todos os contatos". Diego ri. PAI DE DIEGO (V.O) Vamos Diego! Você vai ficar... e não vai junto ao mercado. Diego deixa o celular em cima da cômoda e sai correndo.


63.

DIEGO Vai dá cocô! Vai dá cocô! INSERT - Tela de celular: "Arquivo enviado". 77

INT. CARRO DE CECÍLIA - MANHÃ Cecília dirige. Jorge está ao seu lado. MENSAGEM DE CELULAR. CECÍLIA Amor, pega a bolsa pra mim? Jorge pega a bolsa de Cecília e entrega para ela. Cecília põe a mão dentro da bolsa para procurar o celular. JORGE Você quer o celular? Deixa que eu pego. Jorge pega o celular. CECÍLIA Pode deixar que eu atendo. JORGE Por quê? Recebeu mensagem do seu amante? Cecília ri. Jorge entrega o celular para Cecília. CECÍLIA Amante... Você tá falando isso porque você tem uma? JORGE Eu?! Cecília olha para o celular e olha para Jorge. Jorge olha para Cecília. Cecília olha para o celular. CECÍLIA É a Laura. Ela quer sair e almoçar na casa de uma amiga.

78

EXT. TERRAÇO - MANHÃ Editor 1 e Editor 2 fumam um baseado. MENSAGEM DE CELULAR. Editor 1 pega o celular.


64. EDITOR 1 Mensagem do Gordo. EDITOR 2 Ele deve ter se cagado de tanto rir do vídeo. INSERT - Tela de celular: "Gordo lhe enviou um vídeo". EDITOR 1 Gordo sequelado, me mandou o vídeo de volta. MENSAGEM DE CELULAR. Editor 2 olha para Editor 1. Editor 2 pega o celular. INSERT - Tela de celular: "Gordo lhe enviou um vídeo". EDITOR 2 Ele também me mandou o vídeo de volta. EDITOR 1 Sequelado... Será que ele não gostou? 79

INT. SUPERMERCADO - MANHÃ Jorge e Cecília caminham com um carrinho de compras. CECÍLIA (AO CELULAR) Minha filha espera a gente chegar em casa... Eu não quero que você fique andando com a Lúcia. Então onde você vai? Diego passa correndo ao fundo. DIEGO Ihhhhh, vai dá cocô! Jorge se vira e vê Diego correndo em direção ao seu PAI, 29 anos, e sua MÃE, 28 anos. PAI DE DIEGO Você quer fazer cocô? CECÍLIA (O.S) (AO CELULAR) (impaciente) Depois você pode ir, mas antes vamos almoçar juntos. Tchau. Diego ri e olha para Jorge. Jorge olha para Diego.


65.

CECÍLIA O que que foi? JORGE Nada, vamos comprar logo isso e voltar pra casa. Eu tô com um mau pressentimento em relação à Laura. CORTA PARA: Jorge e Cecília estão na fila do caixa para pagar. CECÍLIA Tem sobremesa em casa? JORGE Não sei. CECÍLIA Acho que vou pegar um sorvete, se não estiver muito caro. Cecília sai. Jorge, impaciente e um pouco nervoso, olha para os lados. Algumas PESSOAS olham para Jorge. DIEGO (O.S) Vai dá cocô. Vai dá cocô. Jorge procura Diego com o olhar. Jorge olha Diego perto de várias televisões. Diego usa o seu relógio para trocar o canal de uma televisão para o programa de melhores vídeos da semana. Jorge olha para Diego. Diego olha para Jorge. Diego mexe no relógio e troca o canal de todas as televisões para o programa de melhores vídeos da semana. As televisões estão sem volume. Nas televisões, o programa chega ao número 1 da semana. Diego olha para Jorge. 80

EXT. TERRAÇO - MANHÃ Editor 1 e Editor 2 fumam a ponta de seu baseado. EDITOR 2 Tomara que o Gordo não tenha mandado o vídeo pra mais ninguém. EDITOR 1 Senão nós estamos fudidos. Os dois riem.


66.

81

INT. SUPERMERCADO - MANHÃ Diego olha para Jorge. Jorge olha para as televisões. NAS TELEVISÕES: O número "1" aparece na tela. O vídeo de Jorge na pegadinha começa. Jorge se espanta. Ele fica atônito. Jorge olha para os lados. Diego olha para Jorge. Ele pega uma revista e coloca em frete ao seu rosto. O vídeo de Jorge na pegadinha termina. Diego olha para Jorge. Jorge, perplexo, olha para as televisões e depois para Diego. DIEGO Vai dá cocô! Vai dá cocô! Jorge vê os pais de Diego se aproximarem dele e obrigarem ele a ficar quieto. Cecília chega. CECÍLIA Um roubo o preço do sorvete! Jorge olha para as televisões. CECÍLIA O que foi meu amor? Jorge não responde. JORGE Acho melhor a gente se apressar, Cecília. Estou com um mau pressentimento. CECÍLIA Não me assusta, Jorge. Por que você tá assim?! JORGE Não sei...

82

INT. CARRO DE CECÍLIA - MANHÃ Cecília dirige e Jorge está no banco do lado. Ele balança freneticamente a perna. Ele abre a janela e deixa o vento bater em seu rosto.


67.

JORGE Pode dirigir um pouco mais de pressa? CECÍLIA Jorge, você está me assustando. 83

INT. SALA DA CASA DE CECÍLIA/CORREDOR/QUARTO DE LAURA MANHÃ SALA DA CASA DE CECÍLIA Jorge entra em casa. Ele caminha rápido até o... CORREDOR Jorge caminha rápido e entra no... QUARTO DE LAURA Jorge entra no quarto e assusta Laura, que tira os fones dos ouvidos. LAURA (assustada) Que susto! Você quer me matar? JORGE Desculpa Laurinha... Você tava ouvindo música? LAURA Se eu tava ouvindo música? Quando? JORGE Antes... Há uns dez minutos atrás. LAURA (emburrada) Não sei... Sei lá... tava. Jorge fecha a porta. Laura põe os fones.

84

INT. GARAGEM DA CASA DE CECÍLIA - MANHÃ Cecília pega algumas sacolas do porta-malas e vai em direção à porta de entrada. Jorge chega. CECÍLIA E aí? Tá tudo bem?


68.

JORGE Sim. Cecília para e olha para Jorge. Ele caminha até o porta-malas e pega algumas sacolas. CECÍLIA Tá tudo bem mesmo? JORGE Sim. Sim. Tô um pouco estressado por causa dos últimos dias de trabalho. Cecília sai da garagem. Jorge, imediatamente, larga as sacolas e vai até um quadro de luz. Ele abre e abaixa os interruptores. APAGAM-SE AS LUZES DA CASA. A garagem é iluminada pela luz que vem das janelas e das frestas. CECÍLIA (O.S) O que foi isso? LAURA (V.O) Acabou a luz! Jorge fecha o quadro e volta a pegar as sacolas. JORGE (nervoso, projetando) Não sei. Tá sem luz aí também? Cecília aparece na garagem. CECÍLIA Sim. Jorge se assusta. JORGE Então desliga a geladeira, o micro-ondas... CECÍLIA Por que você não tenta desligar e ligar a luz na caixa? Às vezes funciona. JORGE Pode ser, mas... por isso mesmo é melhor você desligar as coisas antes.


69.

CECÍLIA Tá bem. Cecília sai. Jorge larga as sacolas e procura por alguma coisa em baixo do tapete do porta-malas. CELULAR. Jorge olha para o celular. INSERT - Tela do celular: "Número desconhecido". Jorge desliga o CELULAR. JORGE (projetando) Avisa a Laura também! Ele abre o compartimento de ferramentas e pega um alicate. JORGE (nervoso) Desliga, também, o... o... o fogão! O fogão é importante também! Jorge abre o quadro de luz e arranca os fios com o alicate. 85

INT. COZINHA DA CASA DE CECÍLIA - DIA O ambiente está escuro. Jorge, Cecília e Laura almoçam a luz de velas. Eles suam. JORGE Que maravilha! Almoço em família a luz de velas. Laura e Cecília comem. CELULAR. Jorge pega o celular e desliga. Cecília olha desconfiada para ele. LAURA Por que você queria saber se eu tava escutando música? Do que vocês estão desconfiando agora? Cecília olha para Jorge. JORGE Nada, minha filha. A gente confia em você. (olhando para Cecília) É que você mandou aquela mensagem...


70.

LAURA (interrompendo) E vocês acharam que eu ia fugir de casa?! Laura ri. LAURA Nós não estamos nos anos oitenta, eu não ficaria longe do meu computador por mais de dois dias! CECÍLIA (irônica) Claro, com o seu computador você pode ser bem mais livre do que sem ele. LAURA É... Pelo menos eu achava que sim. Laura fica envergonhada. LAURA (nervosa) Vocês não me respeitam! Laura, nervosa, sai da mesa. 86

INT. COZINHA DA CASA DE CECÍLIA - DIA Jorge, de avental, lava a louça e Cecília seca. CECÍLIA Você já ligou para a companhia elétrica? JORGE Não. Liguei pro Coronel, ele entende tudo de elétrica. Cecília olha com reprovação para Jorge. JORGE Se a gente ligar para a companhia, eles vão marcar um horário pra vir olhar. E esse horário não vai ser hoje. Cecília joga o pano na pia.


71.

CECÍLIA Você tem razão! Não vamos esperar nada. Cecília beija Jorge. 87

INSERT DE TELA DE CELULAR Tela de celular: "Você recebeu um arquivo. Descarregar?" "Sim." O arquivo começa a ser descarregado.

88

INT. COZINHA DA CASA DE CECÍLIA - DIA Jorge e Cecília terminam de se beijar. CECÍLIA Eu te amo. JORGE Também te amo, meu amor. Jorge tira o avental. CELULAR. CECÍLIA Quem é que tá ligando toda hora? JORGE Ah... é... o Coronel. CECÍLIA Por que você não atende? JORGE Ah... eu já tô indo pegar ele. CECÍLIA Tá... Vou ver se Laura tá bem. JORGE E eu vou buscar o Coronel. CECÍLIA De taxi? JORGE Sim. Cecília sai.


72.

89

INSERT DE TELA DE CELULAR O arquivo termina de carregar.

90

EXT. EM FRENTE À CASA DE CECÍLIA - DIA Jorge fecha a porta. Ele caminha até o portão. Ele abre o portão. Jorge fecha o portão e ao se virar leva um susto. LAURA (V.O) Ahhhhhhhhhh!!!!! Jorge, imediatamente, abre o portão e corre até a porta de entrada.

91

INT. SALA DA CASA DE CECÍLIA - DIA Jorge corre em direção ao quarto de Laura.

92

INT. QUARTO DE LAURA DA CASA DE CECÍLIA - DIA Jorge entra no quarto assustado. JORGE Laurinha, você está bem?! Laura e Cecília estão olhando para o celular de Laura. Cecília se vira para Jorge. CECÍLIA (gritando) O que você fez?! Como você foi parar na televisão? E na internet?! LAURA Você faz pegadinhas?! CECÍLIA Meu Deus... Era mentira... o trabalho com o Pedro! Tudo... Mentiu pra sua família sobre seu trabalho. Como você pode se expor assim desse jeito! Olhando aquela vagabunda! LAURA Pai, minha vida vai ser um inferno quando descobrirem que eu sou filha do homem do "Vai dá cocô"!


73.

CECÍLIA E ainda por cima olhando pra aquela vagabunda! Jorge fica sem reação. Ele transpira. JORGE Eu nunca vi aquela mulher na minha vida. O CELULAR de Jorge toca. 93

INT. CORREDOR DO PRÉDIO DO CORONEL - DIA Jorge toca a CAMPAINHA. Ele carrega uma mochila nas costas. Espera um tempo e toca a CAMPAINHA novamente. Jorge aproxima o ouvido da porta. BARULHO DE CHAVE. Ele se afasta da porta. Coronel abre a porta. Jorge se espanta. JORGE Coronel... Jorge, surpreso, olha para Coronel, de camisa regata e calção, com várias tatuagens do Botafogo espalhadas pelos ombros e peito. Ele usa, também, um santinho num cordão no pescoço. CORONEL Jorge. Ele tenta se concentrar na fala e não olhar para as tatuagens. JORGE Coronel. Desculpa não ter ligado... quer dizer, eu tentei ligar... mas caiu na caixa postal. É que... Você sempre teve essas tatuagens? CORONEL Não, eu só uso elas em dia de jogo. Jorge não entende e sorri. CORONEL Então? JORGE É...


74. CORONEL Sua mulher descobriu tudo sobre seu emprego e te chutou de casa? JORGE Como você sabe? CORONEL Esquece... Entra. Quando Jorge vai dar o primeiro passo, Coronel o interrompe. CORONEL Espera! Você torce para qual time? JORGE Nenhum em especial... (como se fosse agradar) Torço pela seleção brasileira. CORONEL Você não é daqui do Rio, é? JORGE Não, fui criado em Nova Friburgo. CORONEL Entre com a perna direita então. Jorge olha para sua perna e entra com cuidado. Coronel se vira, revelando outra grande tatuagem nas costas, e se dirige à sala. 94

INT. SALA DO CORONEL - DIA O apartamento é simples e cheio de coisas amontoadas: santinhos, velas, pôsteres e escudos do Botafogo. O apartamento é constituído de uma sala, uma cozinha, um banheiro e um quarto. JORGE Por quê? Coronel caminha até entrar no banheiro. Jorge olha admirado para a sala. CORONEL Porque hoje é dia de jogo. Coisa de botafoguense, Jorge. Se você fosse torcedor de outro time você teria que entrar com a perna esquerda... Coronel abre a TORNEIRA.


75.

JORGE Por quê? CORONEL (O.S) Porra, Jorge, parece criança! Por quê? Por quê? Entrar com a perna esquerda é para dar azar ao adversário. JORGE E sorte ao Botafogo! Coronel aparece na sala. Ele seca o rosto com uma toalha. CORONEL (enfático) Sorte não! O Botafogo não precisa de sorte, precisa que o azar fique longe... Coronel joga a toalha em cima de um sofá. Ele pega um pente e se penteia sem muito cuidado. CORONEL (CONT.) Se o Botafogo tivesse sorte como os outros times ele já teria ganhado um monte de campeonato. Mas não, quando o Botafogo ganha é porque merece! Ganha porque é o glorioso! O time dos poetas! (declamando) "O Botafogo tem tudo a ver comigo: por fora, é claro-escuro, por dentro, é resplendor: o Botafogo é supersticioso, eu também sou". JORGE Cheguei a me arrepiar... (mostrando o braço) Olha aqui ó... CORONEL Isso é coisa de botafoguense! 95

INT. COZINHA DO CORONEL - DIA Coronel frita rodelas de calabresas. Em outra panela é feito um macarrão. CORONEL E como ela descobriu?


76. JORGE (O.S) Foi por causa das pegadinhas. CORONEL Mas você não foi gravar ontem? Como o programa já foi parar no ar? 96

INT. SALA DO CORONEL - DIA Jorge, cabisbaixo, está sentado no sofá. JORGE O vídeo foi parar, não sei como, na internet, e depois na televisão, num programa que passa vídeos da internet. Como pode um programa de televisão passar vídeos da internet? (indignado) Se hoje em dia todo mundo tem internet! Por que alguém iria esperar para ver algo que pode ver a hora que quiser?! CORONEL (O.S) A televisão faz milagres. Tudo fica melhor e mais interessante na televisão.

97

INT. COZINHA DO CORONEL - DIA Coronel coloca algumas cebolas cortadas junto com as calabresas. CORONEL E ela te expulsou de casa por causa disso? JORGE (O.S) O quê? CORONEL Cecília te expulsou de casa só porque você apareceu na televisão? JORGE (O.S) Cecília é uma intelectual. Ela odeia televisão. Laura sempre reclamou disso. Mas Cecília é muito controladora. CELULAR TOCA.


77.

CORONEL Deve ser ela querendo resolver tudo. 98

INT. SALA DO CORONEL - DIA Jorge olha para o celular. JORGE (esperançoso) É... quem sabe... Que nada. É o pessoal da produtora, de novo. CELULAR TOCA. CORONEL (O.S) Quê?! Qual produtora? JORGE Das pegadinhas. Eles devem tá querendo a minha cabeça. Coronel entra na sala segurando uma colher. CORONEL Deixa que eu atendo esses fedelhos! Coronel pega o celular de Jorge e entrega a colher para Jorge. CORONEL (AO CELULAR) Alô? Só um momento. (para Jorge) Cuida a comida lá! Rápido! Jorge sai correndo para a cozinha. Coronel entra no seu quarto. CORONEL (AO CELULAR) (forçando seriedade) Alô? Quem tá falando?! Quem?!

99

INT. COZINHA DO CORONEL - DIA Jorge frita as calabresas e as cebolas. O óleo respinga nele e ele tampa a panela. Jorge olha para a porta. Ele caminha até a porta e ouve GRITOS incompreensíveis do Coronel. Jorge se esforça para ouvir. Ele sente cheiro de queimado.


78.

Jorge corre até o fogão, olha a água do macarrão transbordar a panela e desliga. Abre a outra panela e vê a calabresa queimando. JORGE (aumentando o tom de voz) Vai dá merda! Vai dá merda! (gritando) Vai dá merda! Irritado, desliga o fogo. Coronel entra na cozinha. CORONEL Tá ficando louco, Jorge?! JORGE (descontrolado) Eles vão querer me processar! Vão me matar! CORONEL Só se processar agora virou sinônimo de contratar. Jorge derruba a panela com água quente e macarrão no chão. JORGE Como assim? CORONEL Você acabou de fechar um contrato com os fedelhos da LD Produções! JORGE Mas esses vídeos acabaram com a minha família! Cecília quer se separar. CORONEL E você vai pagar os advogados como? JORGE (orgulhoso) Vou arranjar um emprego novo! CORONEL E você vai pagar o seu aluguel como? JORGE (receoso) Trabalhando...


79.

CORONEL E você vai pagar os advogados, as despesas do dia-a-dia e comprovar renda pra ganhar a guarda da sua filha como? Silêncio. JORGE É... acho que esse corpinho ainda pode render alguma coisa. CORONEL É aí que eu me refiro! Você conhece algum hotel? JORGE Não. Jorge fica pensativo. JORGE Posso dormir no seu sofá? 100

INT. QUARTO DE CECÍLIA E JORGE - DIA Jorge pega suas camisas polos no armário e coloca numa mala em cima da cama. Laura entra na quarto. LAURA Pai?! Laura corre e abraça Jorge. JORGE Laura! LAURA O que você tá fazendo? Mamãe te colocou pra fora? JORGE Não, Laura. Nós decidimos que vamos dar um tempo. LAURA Eu também acho errado você participar desses programas idiotas, mas você não pode deixar mamãe fazer isso com você?!


80. JORGE Laura, escuta... não foi sua mãe que me colocou pra fora. Foi uma decisão nossa. 101

EXT. CALÇADA - DIA Jorge pega o binóculo de Homem 2 e olha para cima. INSERT - Imagem de binóculo: Uma MULHER GOSTOSA 2 troca o sutiã, mostrando os seios. Jorge, com outra roupa, pega o binóculo de Homem 2. INSERT - Pessoas riem em frente à televisão e computadores. NARRADOR (V.O) É Jorge, pra quem tá afundando jacaré vira toco. Em tempos de guerra qualquer buraco vira trincheira. Em fim de festa guardanapo vira bolo. INSERT - Contrato com os dados: "Nome do contratado: Jorge Campos; Período do contrato: Quatro programas; Cachê: Cinco mil reais. Observações: O contratado deve, se for solicitado, participar de mais um programa da grade da emissora". O CONTRATO É CARIMBADO.

102

INT. PALCO DO PROGRAMA "BOA TARDE, DORA" - DIA DORA, 45 anos, apresenta o programa segurando algumas cartelas na mão. Ao fundo, o cenário estampa o nome do programa "Boa tarde, Dora". DORA Temos um convidado que está fazendo o maior sucesso em algumas pegadinhas. Em especial numa pegadinha que não deu muito certo. Bom, acho melhor ele explicar isso. Seja bem vindo, Jorge! Jorge entra. Ele está um pouco assustado, mas aos poucos sorri para as câmeras. DORA Boa tarde, Jorge. Bem vindo ao programa "Boa tarde, Dora". Pode se sentar.


81.

Jorge senta. DORA Então me conte: Por que a pegadinha que deu errado acabou dando certo? JORGE Bem... é que... apareceu um cidadão dizendo que a gente tava olhando pra filha dele, ou, filho, nem lembro... DORA Mas por que você saiu gritando "Vai dá não sei o quê! Vai dá não sei o quê"? A plateia ri, Jorge também. JORGE É que eu não podia falar palavrão. Então eu troquei o "mer..." Jorge se censura. JORGE Ops.. troquei por "cocô"! CORTA PARA: A PLATEIA, maioria MULHERES, ri. PLATEIA (rindo) Ihhh, vai dá cocô! DORA (para plateia) Como vocês tão metidas hoje! Como é que é? PLATEIA (rindo) Ihhh, vai dá cocô! CORTA PARA: DORA Impressionante, Jorge. Oitocentos e vinte mil pessoas já assistiram a esse vídeo na internet. Você esperava esse sucesso?


82.

JORGE Não. Como eu já disse foi involuntário... e ninguém sabe como o vídeo foi parar na internet. DORA Muito bem... E eu soube... um passarinho me contou... que sua mulher largou você por causa do vídeo. É verdade? Jorge fica surpreso. JORGE Como? Quer dizer... Jorge olha para as câmeras e depois para a plateia. JORGE (constrangido) Como você ficou sabendo? DORA (sorrindo) Um passarinho... Jorge fica tímido. Ele tem dificuldade em olhar no olho de Dora que o cerca com seu olhar. DORA Você pode falar o que você tá sentindo agora pra ela... Jorge olha para uma câmera. DORA Você ama ela? JORGE Sim. Claro. DORA Vocês têm uma filha. Como ela se chama? JORGE Laura. DORA Jorge, sua mulher te deixou porque você apareceu na televisão?


83.

JORGE É... ela não gosta muito de televisão, eu também não, pra falar a verdade. Mas tô gostando de participar do programa, claro. E de fazer as pegadinhas, é claro... DORA E você acha certo o que ela fez? Destruiu um núcleo familiar saudável que vocês cultivaram durante anos... Há quantos anos vocês estão juntos? JORGE Quatorze anos. Desde que a gente soube que Cecília ia ter Laura. DORA E Laura? Ela está com a mãe? JORGE Sim. Jorge se emociona. DORA E você queria estar com ela? Uma lágrima escorre pelo rosto de Jorge que, imediatamente, a enxuga. JORGE Sim. 103

INT. SALA DO CORONEL - DIA Coronel se levanta do sofá abrindo uma cerveja. Jorge está sentado no sofá em frente à televisão. Eles estão assistindo a entrevista de Jorge com Dora no programa "Boa Tarde, Dora". DORA (TELEVISÃO) Um homem sendo afastado da própria filha. Uma mulher ciumenta. Por que, às vezes, sentimos ciúmes do sucesso dos outros? CORONEL (irritado) Essa parasita não tinha que ter perguntado isso?! O que interessa


84.

CORONEL se a sua filha tá com você ou com sua mulher? Isso é golpe baixo. Coronel se vira para Jorge. CORONEL Jorge, nunca mais responda esse tipo de pergunta! Você deve ter princípios! Como quando a gente se conheceu... a gente não comia como aqueles animais, porque temos princípios... você não pode deixar niguém invadir sua vida pessoal. Eu não como igual esses animais e não me exponho como esses animais. 104

INT. ESCRITÓRIO DE PEDRO - MANHÃ Pedro está sentado com um jornal em cima da mesa. Ele faz uma ligação do seu celular.

105

INT. SALA DO CORONEL - MANHÃ Jorge dorme no sofá. CELULAR. Ele acorda e atende. JORGE (ao celular) Alô? PEDRO (V.O) (pelo telefone) E aí Jorgito! É o Pedro! JORGE (ao celular) Pedro... oi. Pedro? Jorge se assusta. JORGE (ao celular) Pedro?! Tá tudo bem com Laurinha?

106

INT. ESCRITÓRIO DE PEDRO - MANHÃ Pedro olha uma pequena nota num jornal a respeito do caso de Jorge e Cecília.


85.

PEDRO (ao telefone) Laura? Sim, claro. Acho que sim. JORGE (V.O) (pelo telefone) Cecília tá bem? PEDRO (ao telefone) Claro. Pelo que eu sei vocês é que não estão muito bem, né. (risada) Jorgito tenho uma ideia sensacional. Lembra aquela ajuda que eu te dei mentindo pra minha irmã, né? 107

INT. SALA DO CORONEL - MANHÃ Jorge senta no sofá. JORGE (ao celular) Quê? Ah, sim... PEDRO (V.O) (pelo telefone) Jorge, Jorge... Cara, você tava foda no programa ontem! JORGE (ao celular) É... valeu... Cecília... PEDRO (V.O) (pelo telefone) Não se preocupa com Cecília, ela sempre foi nervosa. Eu achei uma sacanagem o que ela fez com você cara. Não deveria ter te colocado pra fora de casa.

108

INT. ESCRITÓRIO DE PEDRO - MANHÃ JORGE (V.O) (pelo telefone) Ela não colocou, foi...


86.

PEDRO (ao telefone) Eu sei... eu sei... Seguinte, Jorgito... Tenho um amigo numa emissora de televisão e... resumindo: lembra aquele favor que você me deve, né? Então, eu tava pensando em agenciar e colocar você... 109

INT. SALA DO CORONEL - MANHÃ JORGE (ao celular) Olha, Pedro, eu tenho que te apresentar um amigo meu. Ele tá fazendo essas coisas pra mim. Vocês vão se dar bem. PEDRO (V.O) (pelo telefone) Como? Ele é seu empresário? JORGE (ao celular) Acho que sim. Pedro fica irritado. Jorge afasta o telefone quando Pedro grita. PEDRO (V.O) (pelo telefone) Traidor! Filho da puta! Eu te ajudei quando você precisava! E olha como você retribui? Cecília... Cecília tá aos prantos por sua causa. Você acabou com a vida da minha irmã, seu desgraçado! Espero que a sua filha fique com a mãe dela!

110

INT. CORREDOR DO FÓRUM - DIA Jorge, Coronel e ADVOGADO 1 caminham. NARRADOR (V.O) As pegadinhas e a entrevista deram mais ibope do que os produtores imaginavam. Mas Jorge só pensava em sua família.


87. Jorge vê Cecília ao lado de seu ADVOGADO 2. Jorge se aproxima e tenta abraçar ela que desvia abaixando a cabeça. JORGE E Laura? CECÍLIA (irritada, sem perder a postura) Você queria que ela tivesse aqui pra fazer parte do seu circo? Cecília olha para um FOTÓGRAFO que tira uma foto de longe. 111

INT. SALA DE CONCILIAÇÃO - DIA Jorge, Advogado 1, Cecília, Advogado 2, e um JUIZ estão sentados à mesa. Jorge olha para Cecília que mantêm o olhar fixo no Juiz falando. NARRADOR (V.O) Cecília e seu advogado propuseram um acordo que não foi aceito. Jorge não queria se separar de Cecília, mas caso isso acontecesse, não queria ficar sozinho, sem sua filha. E a audiência foi remarcada para outra semana.

112

EXT. SAÍDA DO FÓRUM - DIA Jorge, Coronel e o Advogado 1 saem do fórum. Um REPÓRTER, 28 anos, vai ao encontro deles. Jorge se assusta. REPÓRTER Jorge, tudo bem? Fala aqui pro programa "Boa Tarde, Dora". Como foi a audiência? JORGE Tudo bem. Tudo bem. REPÓRTER Vocês conseguiram um acordo? Laura vai ficar com você? Coronel tenta apressar Jorge. JORGE Não tem nada definido. Tudo vai ser definido semana que vem.


88. REPÓRTER E você? Como está se sentindo? Você deve estar muito deprimido por sua mulher ter deixado você? CORONEL Chega. Jorge tem que descansar. JORGE (para Repórter) Não foi minha mulher que me deixou. Foi uma decisão nossa. Coronel interfere a entrevista com o braço. CORONEL Chega! O Repórter se vira para a câmera. 113

INT. QUARTO DE LAURA NA CASA DE CECÍLIA - DIA Tela do computador: O Repórter dá a notícia com uma "faixa" em baixo com os dizeres: "Mulher de Jorge o largou porque ele apareceu na televisão!" REPÓRTER (PELO COMPUTADOR) É... e parece que Jorge não é só vítima de sua mulher, o seu empresário também não parece muito amigável. Mas a questão é: Jorge merece perder o contato com sua filha porque ele apareceu na televisão? Laura e Lúcia assistem o vídeo pelo computador de Laura. LAURA Que vergonha! LÚCIA Shhh. Vamos escutar o resto. TELA DO COMPUTADOR: Dora está no estúdio. DORA (PELO COMPUTADOR) Eu acho que não, mas quem decide é a justiça e, com certeza, a decisão vai privilegiar o bem estar da menina e não vai deixar que ela fique longe do pai. Laura se atira na cama


89.

LAURA Isso não pode tá acontecendo comigo. Não sei o que é pior: morar com a ditadora da minha mãe ou... imagina se eu for morar com meu pai?! LÚCIA Que que tem? LAURA Lúcia, não é você que é filha do "Ihhh vai dá cocô". LÚCIA Seu pai é bem mais legal que o meu. E vocês sempre se deram muito bem. Isso é preconceito seu! LAURA Preconceito! Por quê? LÚCIA Preconceito porque o seu pai tá trabalhando na televisão. Ele é um batalhador, na minha opinião. Ele é muito corajoso e provavelmente vai ganhar bastante dinheiro. 114

INT. COBERTURA DE JORGE - DIA Jorge se encosta no parapeito. Ele olha para baixo e depois para o horizonte. CORONEL (O.S) Qual o contrato mínimo? CORRETOR (O.S) Um ano. CORONEL (O.S) Um ano! Daqui um ano esse cara vai tá morando em Ipanema! Liga pro seu supervisor e pergunta se ele faz um contrato de seis meses. Coronel, vestindo camisa do Botafogo, se aproxima de Jorge. CORONEL E aí Jorge? Gostou do apartamento?


90.

JORGE Gostei, mas será que eu vou conseguir pagar? CORONEL Você tem dúvida disso?! O pessoal das pegadinhas me ligou, eles querem fechar um contrato de mais cinco programas, já marquei dois comerciais e mais dois programas de auditório. JORGE E eu vou ter que falar, em todos os programas, "Vai dá cocô. Vai dá cocô"? CORONEL Claro! Foi você quem criou isso. Isso deve ser motivo de orgulho. Jorge, "Ihh-vai-dá-cocô" é o seu mantra! JORGE Meu o quê?! CORONEL Mantra. Repete comigo: "Ihh vai dá cocôôôôôôhmmmmm". Vamos! "Ihh vai dá cocôôôôôhmmmm". Jorge olha para os lados. JORGE (envergonhado) Para com isso, coronel. CORONEL Jorge, a única coisa que você não deve falar é sobre sua vida pessoal. Esses parasitas sempre querem saber o que não devem. JORGE É, mas acho que prefiro falar da minha vida pessoal que falar "Vai dá cocô". CORONEL (irritado) Você tá de brincadeira comigo!


91.

JORGE Laurinha disse que todos os amigos dela tão fazendo brincadeiras com ela. CORONEL Isso é coisa de criança, Jorge. CORRETOR chega. A cobertura é pequena, apenas uma área sem nada em volta. CORRETOR Ok. Nos podemos tá fazendo um contrato de oito meses para o senhor. CORONEL Ótimo. JORGE (para Coronel) Eu queria agradar ela de alguma forma, comprar uma coisa que ela goste... CORONEL Acho que eu posso te ajudar. CORRETOR Você não é o cara no vídeo? Jorge olha para o Coronel. CORRETOR Aquele: (imitando Jorge) "Vai dá cocô"? Meu filho me mostrou esses dias. Quase morri de rir! Coronel olha para Jorge. JORGE É... Sim, sou eu mesmo. CORRETOR Você pode tirar uma foto comigo? Jorge sorri. CORONEL Claro que pode.


92.

JORGE Sim. Sim, claro. Corretor se abaixa para pegar a câmera na mochila. Coronel faz um gesto pedindo para Jorge se alegrar. CORONEL (muito baixo, gestos exagerados) Alegria... Engraçado... CORRETOR Tira pra nós? Coronel pega a câmera. Ele tira a foto dos dois, lado a lado, sorrindo. CORONEL Espera um pouco. Vamos tentar outra coisa... vamos fazer um vídeo! (para Corretor) Pode ser? CORRETOR Claro! Coronel mexe na câmera. JORGE Pra quê, Coronel? Tá bom. Tira outra foto, então. CORONEL Não! Vamos de novo. Junta... isso... Jorge e Corretor ficam lado a lado de novo. CORONEL Ok. Agora os dois falando a frase do cocô! Jorge olha desgostoso para Coronel. Corretor, empolgado, abraça Jorge. CORRETOR "Vai dá cocô"! "Vai dá cocô"! CORONEL Vamos, Jorge! A frase!


93.

JORGE "Vai dá cocô". CORRETOR "Vai dá cocô!" CORONEL Mais uma vez. Agora como na pegadinha! CORRETOR "Vai dá cocô"! "Vai dá cocô"! JORGE "Vai dá cocô"! "Vai dá cocô"! CORONEL Mais alto! De novo! CORRETOR "Vai dá cocô"! "Vai dá cocô"! JORGE (imitando a pegadinha) "Vai dá cocô"! "Vai dá cocô"! 115

INT. ESTÚDIO DE PROPAGANDA - DIA TELA DO MONITOR: Jorge está caminhando numa estrada isolada. JORGE (olhando para câmera) Tenha sempre seu "Carícia" por perto! Senão, você já sabe: "Vai dá cocô"! DIRETOR (V.O) Corta! Jorge, em frente a uma parede verde cromakey, desce de uma esteira.

116

INT. SALA DO APTO DE JORGE - DIA Jorge assina o contrato de aluguel do apartamento e aperta a mão do Corretor.


94.

117

EXT. ESTÁDIO ENGENHÃO - DIA Jorge e Coronel, os dois com camisa do Botafogo, comemoram um gol.

118

EXT. COBERTURA DE JORGE - DIA Coronel e FOTÓGRAFO 2 sobem um pequeno coqueiro. Jorge fica surpreso. CORONEL Acho que depois esse coqueiro vai descer direto daqui de cima. FOTÓGRAFO 2 Você não gostou dele, Jorge? JORGE É legal. FOTÓGRAFO 2 Então pode ficar. Você merece. Jorge é fotografado em frente ao coqueiro.

119

INT. PÁTIO DO COLÉGIO - DIA FOTO DE JORGE EM FRENTE AO COQUEIRO EM UMA REVISTA. Lúcia segura uma revista. Laura está sentada ao seu lado. Lúcia sorri para Laura e a abraça. Laura sorri envergonhada. Lúcia abraça Laura e deixa cair a revista. A CÂMERA SE APROXIMA DA FOTO DE JORGE NA REVISTA.

120

INT. SALA DE ESPERA DE CLÍNICA - DIA FOTO DE JORGE EM FRENTE AO COQUEIRO NA REVISTA. Cecília pega a revista. Ela olha de perto e constata que é Jorge. Cecília olha para os lados. Cecília presta atenção na manchete. INSERT - Manchete: "Jorge, entre a fama e a família". Cecília desaprova com a cabeça.


95.

121

EXT. PRAÇA - DIA REPÓRTER 2, com um microfone, entrevista Jorge. Um CÂMERA MAN filma e Coronel está em volta. REPÓRTER 2 Só pra finalizar, Jorge. Qual a frase que você não gostaria de falar depois da audiência com sua mulher? JORGE (confuso) O que eu não gostaria de falar... não sei. REPÓRTER 2 (imitando Jorge na pegadinha) "Vai dá Cocô"! Repórter 2 cai na gargalhada. Jorge sorri.

122

EXT. RUAS - DIA POV DE JORGE: dirige pelas ruas. NARRADOR (V.O) Jorge, Jorge, Jorge. Como o mundo dá voltas... não é? E assim, Jorge seguiu fazendo de sua tragédia, a sua reconstrução. Afinal, se você não consegue vencer seu inimigo, junte-se a ele. E um velho desejo de Jorge floresceu quando ele ganhou seu primeiro cachê de verdade. Jorge dirige uma moto tipo "Lambreta" pelas ruas. NARRADOR (V.O) (CONT.) Uma moto que ele sonhava ter desde os quinze anos.

123

EXT. EM FRENTE À CASA DE CECÍLIA - DIA Jorge para a moto em frente ao portão e BUZINA. Laura sai de casa e se espanta com Jorge em cima da moto. Ela sorri e corre para abraçá-lo.


96.

124

EXT. RUAS - DIA Jorge e Laura andam de moto pelas ruas. NARRADOR (V.O) (CONT.) Claro que ele não pensou apenas no seu umbigo. Jorge, com ajuda do Coronel, também preparou uma surpresa para Laura.

125

INT. SALA DO APTO DE JORGE - DIA CARREGADOR 1 entra com uma geladeira enquanto CARREGADOR 2 sai. A sala quase não tem móveis. Jorge os orienta. JORGE Vamos com calma aí rapaziada, que eu acabei de mandar lustrar o piso. CORONEL Você não deveria ter falado sobre sua vida privada para aquele reporterzinho. Coronel tenta falar com Jorge, mas ele não presta atenção, prefere orientar os carregadores. JORGE (para os carregadores) Pode levar pra cozinha. Esse outro é na sala! CORONEL Você tem que ter princípios, Jorge. Princípios! Laura, felicíssima, está ansiosa. LAURA Vamos pai, eu quero ver a surpresa! O que que é? Fala! JORGE Aqui está o meu princípio, Coronel. Essa coisinha linda aqui. Coronel se aproxima. CORONEL Mostra logo Jorge, antes que sua filha tenha um treco aqui.


97.

JORGE Tá bom. Tá bom. Vamos Laura. Laura comemora. 126

INT. CORREDOR DE JORGE/QUARTO DE LAURA NO APTO DE JORGE DIA Jorge e Laura estão em frente à porta do quarto de Laura. Jorge ameaça abrir a porta e depois a fecha. JORGE Eu não sei o que vai acontecer depois da audiência de amanhã, mas... LAURA (interrompendo) Vamos, pai! JORGE Escuta, Laura. Eu não sei o que vai acontecer depois da audiência, mas eu quero que você saiba que eu amo muito a sua mãe e quero que a nossa família fique junto. E caso fique separado, eu quero que você fique feliz tanto aqui como na casa de sua mãe. LAURA Tá pai. Vamos... Jorge gira a maçaneta. JORGE Tá com pressa? LAURA (ansiosa, desesperada) Tô! Vamos, pai, eu quero ver! Jorge abre a porta de uma vez. O quarto é pequeno e todo decorado com discos de vinil, coisas dos anos sessenta e uma jukebox. Laura pula de felicidade, abraça seu pai e entra pulando no quarto. LAURA Ahhhhhhh! Eu não acredito! Uma jukebox no meu próprio quarto!


98.

127

EXT. EM FRENTE AO FÓRUM - DIA QUATRO JORNALISTAS estão em frente ao fórum. Jorge chega dirigindo sua moto com outro capacete na mão. Os jornalistas o cercam, tirando fotos dele. JORNALISTA 1 O que você espera da audiência, Jorge? O que você est�� achando do apoio que as pessoas estão te dando? JORGE Muito bom. É sempre muito gratificante receber o carinho do povo. JORNALISTA 2 Como está seu relacionamento com sua mulher? JORGE Não posso responder nada, desculpa. Só quero o melhor pra minha família. Coronel e Advogado 1 estão esperando nervosos. CORONEL Você está atrasado. Jorge, olha pra mim. Jorge olha para Coronel, ao mesmo tempo em que sorri para as câmeras. CORONEL Não interessa qual a decisão de hoje, você não pode falar de sua vida pessoal na saída. Deixa que eles descubram. Ok? JORGE (sorrindo para as câmeras) Claro, Coronel. Você é quem manda!

128

INT. SALA DA AUDIÊNCIA - DIA Jorge se levanta comemorando a decisão do Juiz. Ele abraça Advogado 1. Cecília fica imóvel. Advogado 2 tenta consolar ela.


99.

CECÍLA Isso é um absurdo! Até a justiça nesse país abaixa a cabeça pra mídia! Todos se levantam. Laura corre para abraçar Cecília. Jorge, orgulhoso, sorri para Coronel. Coronel sai da sala. 129

EXT. EM FRENTE AO FÓRUM - DIA Jorge desce as escadas sorrindo. Coronel e Advogado 1 estão ao seu lado. Os jornalistas cercam eles. JORNALISTA 2 Pelo jeito não preciso nem perguntar quem ganhou. JORGE Isso mesmo. Não precisa nem perguntar. A minha alegria diz tudo. JORNALISTA 1 Como foi a reação de Laura? E Cecília? Ficou muito surpresa? CORONEL Jorge não vai responder nada sobre a intimidade de sua família! Vamos Jorge. JORGE (para Coronel) Calma aí. Calma... acho que eu posso responder, sim. (para os jornalistas) Se o povo quer saber eu tenho o direito de falar. Coronel fica pasmo com Jorge. Enquanto Jorge desce as escadas dando entrevistas, Coronel fica para trás. JORGE Laura ficou triste pela separação de seus pais, mas a justiça tomou a decisão certa. JORNALISTA 1 E Cecília?


100.

JORGE Ficou triste também, afinal ela sabe que não deveria ter... JORNALISTA 2 (para os jornalistas) Cecília tá saindo! Cecília e Laura saem do fórum. Os jornalistas correm em sua direção. Cecília abraça e beija Laura. Jorge caminha em direção à Cecília. JORGE Cecília? Cecília? Cecília segue abraçando Laura sem olhar para Jorge. Jorge chega perto delas. CECÍLIA Não chega perto de mim! (baixo para Laura) Vai dar tudo certo. Eu te amo. JORGE Eu queria que nada disso tivesse acontecido. Eu só queria ganhar um pouco de dinheiro para ajudar nas contas. CECÍLIA (abruptamente) Então por que você não procurou um emprego decente?! Você acabou com nossa família! Coronel vê a discussão de longe. Jorge e Laura, abraçados, se afastam de Cecília. Dois jornalistas cercam Cecília. Coronel dá as costas para eles. 130

INT. QUARTO DE LAURA NO APTO DE JORGE - NOITE Jorge e Laura caem deitados na cama de Laura. JORGE E agora minha filha? O que nós fazemos? LAURA Não sei, pai. Posso convidar a Lúcia para vir conhecer o meu quarto amanhã?


101.

JORGE Claro, filha. LAURA E o Coronel? JORGE Ele já conhece o seu quarto, Laurinha. LAURA Não, quer dizer... E o Coronel? Onde ele tá? JORGE Ihhh... Acho que ele ficou no fórum. O importante é que a gente tá junto. LAURA Eu queria que ele tivesse aqui. JORGE Eu queria que sua mãe tivesse aqui. LAURA Isso vai ser difícil. Ela tá muito chateada com você. Vamos ligar pro Coronel então? CORTA PARA: Jorge, sentado na cama de Laura, liga do celular. LAURA Diz pra ele que eu exijo que ele venha pra cá ouvir minha jukebox comigo. JORGE Estranho... ninguém atende. 131

EXT. RUAS - DIA Jorge dirige sua moto. NARRADOR (V.O) Jorge ligou para Coronel algumas vezes, sempre sem sucesso. Até que numa das tentativas apareceu uma mensagem em seu celular.


102.

CAIXA ELETRÔNICA Não estou ou não quero atender. Se for você, Jorge, me esquece. Você me decepcionou. Eu não detesto as pessoas que agem a favor de tudo que a mídia quer, detesto que ajam assim, detesto como elas o fazem. Procure outro empresário. Eu sou Botafoguense! Eu tenho princípios! 132

INT. CORREDOR EM FRENTE À PORTA DO CORONEL - DIA Jorge BATE na porta. JORGE Coronel? Coronel? Eu sei que você tá aí!

133

EXT. RUAS - DIA Jorge dirige sua moto. NARRADOR (V.O) Apesar do desespero aparente de Jorge, ele sabia quem procurar para resolver o seu problema.

134

INT. ESCRITÓRIO DE PEDRO - DIA Pedro está sentado em sua cadeira de costas para Jorge, sentado a sua frente. PEDRO Você é muito cara de pau, Jorge. Eu salvei o seu casamento te ajudando com aquela estória do emprego... JORGE (tímido) Na verdade aquilo acabou com meu casamento. Pedro se vira de frente para Jorge. PEDRO Correção: Foi você quem estragou nosso combinado. Pedro se levanta e caminha até o banheiro.


103.

PEDRO (CONT.) Salvei o seu casamento e você foi ingrato. Você tinha uma dívida e não pagou. Jorge ouve uma FUNGADA vindo do banheiro. PEDRO (O.S) (CONT.) Acabou com a vida da minha irmã, tirando a filha dela. JORGE Foi uma decisão da justiça. Pedro sai do banheiro e caminha até sua cadeira. PEDRO E agora você vem pedir minha ajuda? JORGE Pois é. PEDRO Tá bom. Eu aceito. Mas você vai ter que fazer tudo o que eu mandar. Se eu entrar nessa vai ser pra ganhar dinheiro! Eu não vou arriscar minha vida à toa. JORGE Tudo o que você quiser. Pedro, empolgado, se levanta da cadeira. PEDRO Jorge, agora você vai ficar famoso! E ganhar muito dinheiro! Mas sem bebidas dessa vez! 135

INT. PALCO DO PROGRAMA "BOA TARDE, DORA" - DIA Dora está sentada de frente para Jorge. DORA A gente tá muito feliz porque a nossa torcida para você ganhar a guarda da sua filha deu certo. Parabéns, Jorge. JORGE Obrigado.


104.

DORA E você, como está se sentindo? Como está sua vida agora? JORGE Estou bem. Tenho trabalhado bastante. DORA A gente ficou sabendo que você mudou de empresário. É verdade? JORGE É verdade, acho que meu antigo empresário gostava mais de futebol do que de dinheiro. 136

INT. PALCO DE PROGRAMA DE AUDITÓRIO - NOITE SEQUÊNCIAS DE PROVAS DE AUDITÓRIO: 1) Jorge sentado numa cadeira. Um balde de água cai em sua cabeça. Jorge sorri. CORTA PARA: 2) Jorge come um olho de cabra. CORTA PARA: 3) Jorge se arrasta no meio de cobras.

137

INT. PALCO DO PROGRAMA "BOA TARDE, DORA" - DIA Dora e Jorge estão sentados de frente um para outro. DORA E agora Jorge o que você vai fazer da vida? Agora que você ganhou a guarda da sua filha e o seu sucesso na internet já está passando? JORGE Vou continuar tentando ganhar o meu dinheirinho para dar uma vida decente para minha filha e, ao contrário do que muita gente acha, eu quero voltar a ter minha família unida.


105.

138

INT. ESCRITÓRIO DE PEDRO - DIA Pedro anda de um lado para outro. Jorge está sentado. PEDRO (nervoso) Quem é essa mulher pra dizer que seu sucesso tá passando?! (pausa) O pior é que ela tem razão, Jorge. As propostas estão diminuindo e os cachês também. JORGE E todos os programas das últimas duas semanas? PEDRO A maioria diz que o seu assunto esgotou. A gente vai ter que arranjar algo novo. (pausa) Você não tem outra frase tipo "Vai dá cocô"?

139

EXT. RUAS - NOITE Jorge dirige sua moto. NARRADOR (V.O) Não. Jorge não tinha outra frase tipo "Vai dá cocô". A inspiração não bateria, em tão pouco tempo, duas vezes seguidas em sua porta. Entretanto, Pedro tinha uma carta na manga: um reality show para celebridades instantâneas. Prêmio final: Duzentos e cinquenta mil reais.

140

INT. QUARTO DE LAURA NO APTO DE JORGE - NOITE Laura olha para a jukebox enquanto ouve Jorge falar com ela. NARRADOR (V.O) Laura, no início, não achou boa ideia, mas Jorge a convenceu...


106.

141

EXT. EM FRENTE À CASA DE CECÍLIA - DIA Jorge para sua moto. Laura e Jorge se abraçam. Ele sobe na moto e parte. NARRADOR (V.O) (CONT.) ... dizendo que seria uma boa oportunidade de ganhar um bom dinheiro para, depois, deixar de se expor na mídia para reconquistar Cecília.

142

INT. SALA DA CASA DE CECÍLIA - DIA Cecília gargalha e abraça Laura. NARRADOR (V.O) (CONT.) Cecília, é claro, não viu com bons olhos a estratégia do ex-marido. Em compensação, alegrou-se com a companhia da filha novamente.

143

EXT. RUAS - DIA Jorge chora, dirigindo sua moto. NARRADOR (V.O) (CONT.) Para Jorge: a decisão mais difícil de sua vida.

144

INT. SALA DO APTO DE JORGE - NOITE Jorge abre a porta de entrada. Pedro entra com uma mala grande. NARRADOR (V.O) (CONT.) Para Pedro: a grande oportunidade de ganhar dinheiro fácil.

145

INT. PALCO DO REALITY SHOW - NOITE APRESENTADOR 1, 40 anos, magro e animado, apresenta o reality show olhando para a câmera. APRESENTADOR 1 E agora nós vamos conhecer mais um participante. Ele que, como todos participantes, teve seus quinze minutos de fama e agora tenta


107.

APRESENTADOR 1 ganhar, pelo menos mais quinze! Jorge, cadê você? 146

INT. CASA DO REALITY SHOW - NOITE Jorge está sentado junto com mais ONZE PARTICIPANTES, entre mulheres e homens. JORGE Oi! Tô aqui. O Apresentador 1 aparece numa televisão na sala. APRESENTADOR 1 (V.O) Jorge, você ficou famoso por causa de uma frase. Alguém aí sabe qual é essa frase?

147

INT. QUARTO DE LAURA NA CASA DE CECÍLIA - NOITE Laura assiste o reality show no computador. NA TELA DO COMPUTADOR: PARTICIPANTES (V.O) (todos juntos, imitando Jorge na pegadinha) "Vai dá cocô"!!!! Laura põe a mão na testa.

148

INT. SALA DO CORONEL - NOITE INSERT DA TELEVISÃO: APRESENTADOR 1 (V.O) E você também ficou famoso por causa da sua separação. Já está tudo resolvido? Coronel assiste televisão e balança a cabeça desaprovando.

149

INT. SALA DO APTO DE JORGE - NOITE Pedro assiste ao reality show na televisão. A mala de Pedro está aberta no meio da sala.


108.

APRESENTADOR 1 (V.O) Eu vi uma moto sendo multada ali na frente da emissora. Você sabe de quem pode ser essa moto, Jorge? Pedro enrola uma nota de cinquenta reais e abaixa sua cabeça. 150

INT. QUARTO DE LAURA NA CASA DE CECÍLIA - NOITE Laura assiste o reality show no computador. JORGE É a minha moto! Eu vim com ela pra quando eu sair, sair em alto estilo. APRESENTADOR 1 (V.O) E o que você pretende fazer depois de se tornar uma celebridade e ganhar o prêmio? JORGE Minha família... LAURA (gritando, projetando) Mãe! Vem rápido! Cecília entra no quarto. NA TELA DO COMPUTADOR: JORGE Na verdade, eu quero o prêmio para deixar de aparecer na mídia. Eu quero reconquistar minha mulher e minha família.

151

INT. CASA DO REALITY SHOW - DIA Jorge deitado no sofá. Ao fundo, outros participantes fazem uma brincadeira. INSERT - Sites comentando negativamente a participação de Jorge no reality show. NARRADOR (V.O) A repercussão dos objetivos de Jorge no reality show não foi muito positiva. Logo ele foi excluído


109.

NARRADOR (V.O) pelos outros participantes que buscam o sucesso ou mais quinze minutos de fama. CORTA PARA: Todos os participantes olham atentamente para a televisão. NA TELEVISÃO: APRESENTADOR 1 (V.O) Então agora vai começar a primeira eliminação do programa! Vamos por ordem alfabética. Jorge escuta os participantes dizerem um por um, o nome dele. A CÂMERA SE APROXIMA AOS POUCOS DE JORGE. NARRADOR (V.O) Em momentos de rejeição, Pedro aconselhou Jorge a inventar alguma mentira sobre sua infância. Segundo ele “O passado é inatingível”. APRESENTADOR 1 (V.O) Jorge. Jorge, tudo bem? JORGE Sim. APRESENTADOR 1 (V.O) Bom, você foi o mais votado. Você vai enfrentar o perdedor da prova dessa semana na eliminação. Tá bom? JORGE Sim, claro. Faz parte do jogo. APRESENTADOR 1 (V.O) Também faz parte do jogo a gente investigar a vida dos participantes e a gente descobriu que você era o "mosquito" quando criança do programa "Clube do Dudu". Os participantes acham legal, se empolgam. APRESENTADOR 1 (V.O) É verdade?


110.

Jorge fica surpreso. Ele abaixa a cabeça e começa a chorar forçado. Alguns participantes abraçam ele. APRESENTADOR 1 (V.O) Tudo bem, Jorge? Aconteceu alguma coisa? JORGE É que... eu nunca falei sobre isso... eu não gosto de me lembrar disso. APRESENTADOR 1 (V.O) Por quê? Você fez parte da infância de muita gente. JORGE É que o seu Dudu, que Deus o tenha, ele... (chora mais) Ele passava a mão em nós... nas crianças. 152

INT. SALA DO APTO DE JORGE - NOITE Pedro que assiste o reality show pela televisão comemora. PEDRO Isso Jorge! Agora eu quero ver o povo ficar contra alguém que foi abusado quando criança!

153

INT. QUARTO DE LAURA NA CASA DE CECÍLIA - NOITE Laura e Cecília assistem a declaração de Jorge no computador e ficam estarrecidas. LAURA Você sabia disso? CECÍLIA Não. Quer dizer... FUSÃO PARA


111.

154

EXT. ESCOLA DE JORGE E CECÍLIA - DIA Caracteres: "Há quinze anos". Cecília e Jorge, com roupas de adolescentes dos anos oitenta, com grandes ombreiras, estão sentados em um banco. Eles se olham sorrindo um para outro. CECÍLIA Eu olhei pra você desde o primeiro dia de aula, mas você é muito tímido! JORGE Sou nada... eu até participei de um programa de televisão quando pequeno. CECÍLIA Qual? JORGE Não vou falar. Cecília faz cócegas em Jorge. CECÍLIA Fala! JORGE Não, você vai rir da minha cara. Eles se aproximam e tentam se beijar, porém as ombreiras dificultam. FUSÃO PARA

155

INT. QUARTO DE LAURA NA CASA DE CECÍLIA - NOITE Laura olha para Cecília. CECÍLIA Acho que ele me falou alguma coisa a respeito.

156

EXT. RUA - DIA REPÓRTER 3, 28 anos, questiona alguns transeuntes.


112. REPÓRTER 3 Você acha que Jorge deve sair? MULHER 1 Acho não, coitado, sofreu tanto na vida. CORTA PARA: HOMEM 3 Acho que Jorge tem que ficar. CORTA PARA: HOMEM 4 Jorge, estamos com você! 157

INT. CASA DO REALITY SHOW - NOITE Jorge é adulado pelos participantes. INSERT - Site de fofoca: "Pesquisas apontam 80% de votos para Jorge ficar". NARRADOR (V.O) A notícia do abuso se espalhou e junto com a notícia vieram às desconfianças. O acusado, já falecido, não tinha como se defender, porém sua família tratou de defendê-lo.

158

INSERT - MONTAGEM DE IMAGENS DA MÍDIA Imagens de sites e revistas com entrevistas de pessoas questionando a acusação de Jorge. As pessoas dizem não saber de nada sobre abusos, e todos dizem coisas boas em relação à Dudu, apresentador do "Clube do Dudu".

159

INT. DELEGACIA - DIA DELEGADO, 52 anos, gordo, está atrás de uma mesa. Em frente, vários JORNALISTAS se amontoam disputando espaço. DELEGADO A investigação comprovou que o acusado não teve nenhum envolvimento, seja de abuso, seja de passar a mão, nada, com as crianças que participavam desse programa.


113.

Os jornalistas perguntam todos ao mesmo tempo e tiram fotos sem parar. 160

INT. SALA DA APTO DE JORGE - DIA A sala está muito bagunçada, embalagens de comida para todos os lados. Pedro assiste televisão. PEDRO Por que esse idiota foi falar isso?!

161

INT. QUARTO DE LAURA NA CASA DE CECÍLIA - DIA Cecília, nervosa, se levanta. CECÍLIA Desliga isso, Laura! Não quero mais ver você assistindo essas porcarias. Seu pai vai pagar por tudo o que ele fez! LAURA (nervosa) Ele vai ser preso? CECÍLIA Não sei. Laura começa a chorar. CECÍLIA Não, meu amor, seu pai não vai ser preso. Mas ele vai à falência, isso ele vai! Com certeza.

162

INSERT - MONTAGEM DE IMAGENS DA MÍDIA Imagens de sites, revistas, reportagens e depoimentos de pessoas falando mal de Jorge.

163

INT. PALCO DO REALITY SHOW - NOITE Várias PESSOAS estão ocupando um espaço de um lado do palco, no outro não há ninguém. Apresentador 1 está no centro com um microfone.


114.

APRESENTADOR 1 E batendo todos os recordes de eliminação... o eliminado, com noventa e nove por cento de votos, como todos já sabem aqui fora, é Jorge! As pessoas VAIAM. Jorge sai com uma mala. As vaias aumentam. Jorge, confuso, se aproxima do Apresentador 1. APRESENTADOR 1 Você sabe por que não veio ninguém te recepcionar? Você sabe por que as pessoas estão vaiando? JORGE (confuso) Não sei, eu não fiz nada. APRESENTADOR 1 Fez sim. Você mentiu para o povo e o povo escolheu eliminar você! FADE OUT. DE VOLTA AO TEMPO PRESENTE. 164

INT. PALCO DO "PROGRAMA MAX FRANCO" - NOITE Max Franco, com os olhos marejados, presta atenção em Jorge. JORGE Tudo isso com muito esforço. Minha mãe não tinha dinheiro nem pra farinha de mandioca às vezes... e era o único alimento que a gente comia todo santo dia, sabe... MAX FRANCO É... Confesso que cheguei a me emocionar. Pelo jeito não fui o único, eu tô vendo algumas pessoas muito emocionadas aqui na plateia também. Meus parabéns. Max Franco passa a ponta de um lenço no canto dos olhos. A plateia APLAUDE.


115.

MAX FRANCO E me diz uma coisa: como você conseguiu fazer parte da produção aqui do programa? JORGE Bom... essa estória é bem mais curta. Max Franco sorri e a plateia também. JORGE Eu só precisei falar uma frase. MAX FRANCO Uma frase! Como o pessoal é exigente na contratação da equipe aqui! Brincadeira... Qual foi a frase? JORGE A frase foi... Jorge tira a peruca e a maquiagem. JORGE (imitando a pegadinha) "Vai dá cocô"! "Vai dá cocô"! "Vai dá cocô"! Max Franco se espanta. A plateia fica revoltada. JORGE (rindo) Enganei vocês! Fiz toda a sua produção de otário! HOMEM 5 invade o palco. Jorge se levanta. Max Franco se levanta e sai de trás da sua mesa. Jorge leva um soco. Segurança 1 e Segurança 2 entram e tiram o Homem 5. MAX FRANCO (para plateia) Vamos se acalmar! Nós estamos ao vivo. Vamos nos acalmar! JORGE (para Max Franco e plateia) Vocês acabaram com a minha família! Invadiram a minha privacidade! E quer saber... Vamos acabar logo com isso!


116. Jorge puxa uma arma, mas ela prende em sua roupa e cai no chão perto de Max Franco. Max Franco pega a arma e aponta para Jorge. MAX FRANCO E agora, Jorge?! E agora! Jorge olha desafiador para Max Franco. 165

EXT. RUAS - NOITE (FLASHBACK) Jorge dirige sua moto com uma mochila nas costas. Vários PAPARAZZIS o seguem em carros e motos. Eles tiram fotos. NARRADOR (V.O) Jorge estava confuso e arrependido. Por que ele mentiu? Por que ele foi se meter com a mídia? São perguntas que não saiam da cabeça dele. Tudo o que Jorge queria era voltar a trabalhar em seu antigo emprego e ao anonimato de outrora.

166

EXT. RUA EM FRENTE AO APTO DE JORGE - NOITE Jorge estaciona sua moto, desce e entra no prédio. Os paparazzis tentam falar com ele e tiram fotos.

167

INT. CORREDOR DO PRÉDIO DE JORGE - NOITE Jorge, suado, abre a porta de seu apartamento e entra.

168

INT. SALA DO APTO DE JORGE - NOITE A sala está um caos. Embalagens de comida, garrafas de bebidas alcoólicas e pratos espalhados por todos os lados. Jorge deixa sua mochila cair no chão. JORGE Pedro? Pedro? Pedro, calça social e camisa amarrotadas, chega à sala. Seus cabelos estão desalinhados e oleosos. Ele tem um pouco de sangue na manga da camisa. PEDRO O que você fez?! Que merda você foi fazer?! Estragou tudo. Você não ficou duas semanas naquela merda de programa!


117.

JORGE Sai da minha casa! PEDRO Como "sai da minha casa"?! Eu tive que sair do meu emprego pra te ajudar a ganhar dinheiro... JORGE Sai da minha casa! PEDRO Eu não tenho como sair, as minhas coisas estão aqui. E você me deve uma explicação! Você disse que eu podia morar aqui. JORGE Enquanto eu tava no programa. Jorge coloca as mãos no rosto. JORGE É tudo culpa sua, seu filho da puta. PEDRO Culpa minha?! Foi você quem estragou tudo! Jorge se abaixa, pega a sua mochila e vira as costas. JORGE Você tem até amanhã para sair da minha casa! Jorge sai. 169

EXT. RUA EM FRENTE AO APTO DE JORGE - NOITE Jorge sai do prédio. Os paparazzis tiram fotos, filmam e se aprontam para seguir Jorge. Ele liga a moto e sai.

170

EXT. RUAS - NOITE Jorge dirige sua moto. Os papparazzis seguem ele.


118.

171

INT. QUARTO DE HOTEL - NOITE Jorge desaba na cama. Ele deita com o olhar fixo para cima. De repente, ele pega o celular e liga. O CELULAR CHAMA. JORGE (ao celular) Laurinha!!

172

INT. SALA DA CASA DE CECÍLIA - NOITE Laura está no sofá. Cecília se espanta. LAURA (ao telefone) Papai! Você tá bem? Desculpa não ter ido te buscar... Laura tapa com a mão o telefone. LAURA (baixo para Cecília) É o papai! (ao telefone) Você tá bem?

173

INT. QUARTO DE HOTEL - NOITE Jorge tenta conter a emoção. JORGE (ao celular) Laurinha, meu amor. (chora) Você tá bem? LAURA (V.O) (pelo telefone) Eu tô. Eu quero saber se você tá bem? JORGE (ao celular) Ah Laurinha! Eu tô morrendo de saudade de vocês. Como eu tô feliz de ouvir a sua voz. E sua mãe, tá bem?


119.

174

INT. SALA DA CASA DE CECÍLIA - NOITE Laura chora, mas continua com a voz firme. Ela olha para Cecília. Cecília percebe que estão falando dela e se emociona. LAURA (ao telefone) Sim... quer dizer... ela tá bem, mas tá braba com você. Por que você foi mentir aquilo, pai? JORGE (V.O) (pelo telefone) Não sei, minha filha. (chora) Amanhã eu começo a resolver tudo. Te amo. LAURA (ao telefone) Também amo você. Laura desliga o telefone e Cecília a abraça.

175

INT. SALA DO APTO DE JORGE - DIA Jorge junta algumas garrafas e coloca numa sacola. Ele encontra algumas notas de dinheiro enroladas. Jorge encontra um bilhete preso na televisão. Ele pega o bilhete que tem os seguintes dizeres "Jorge, vamos resolver tudo. Ainda temos alguns contatos. A gente vai se levantar de novo e ganhar muito dinheiro. Depois eu ligo pra você. PEDRO" Jorge amassa o bilhete e joga fora. CORTA PARA: Jorge, sentado, na sala, agora um pouco mais arrumada. CELULAR. Jorge atende. JORGE (AO CELULAR) Alô? Não! Não adiantar continuar ligando! Eu não vou falar com ninguém. Jorge desliga o celular. CELULAR, novamente. Jorge hesita, mas acaba atendendo.


120.

JORGE (AO CELULAR) Alô? Pedro? Pela última vez: eu não quero mais nada com você! Não quero saber se você tem propostas ou não! Me esquece! Jorge joga o celular no chão e logo se arrepende. JORGE Laura! Jorge corre e pega o celular. 176

EXT. RUAS - DIA Jorge dirige sua moto.

177

INT. CORREDOR DO PRÉDIO DO CORONEL - DIA Jorge chega em frente à porta do apartamento do Coronel e vê uma placa com os dizeres "Aqui vive um botafoguense de princípios que foi ver seu time golear". Jorge sorri.

178

EXT. RUAS - DIA Jorge dirige sua moto. NARRADOR (V.O) Condenado a pagar uma indenização de cinquenta mil reais à família do apresentador Dudu, Jorge estava arruinado, mas mesmo assim não conseguiu esconder a alegria de saber que seu amigo estava feliz com seu time de coração. A moto começa a parar. O medidor da gasolina está no vermelho. A moto para. Jorge desce, tira o capacete e joga no chão. NARRADOR (V.O) Calma, Jorge. Calma. São apenas as coisas ruins e boas se equilibrando. CORTA PARA: Jorge caminha segurando uma sacola com gasolina. HOMEM 6 passa de bicicleta e rasga a sacola.


121.

HOMEM 6 Filho da puta mentiroso! A gasolina vaza. Jorge olha para trás e, ao se voltar para frente, leva uma paulada na cabeça de HOMEM 7 de bicicleta. 179

INT. SALA DO APTO DE JORGE - NOITE Jorge está deitado no sofá. Laura passa em sua testa um pano com gelo dentro. O único outro móvel na sala é uma estante com a televisão. LAURA Tem certeza que você não quer dar queixa na polícia? JORGE Laura, se eu entrar numa delegacia eu não saio muito cedo. Além de chamar mais ainda a atenção da mídia. TELEFONE. Jorge coloca a mão na testa. JORGE Ai. Ai. Desliga isso, por favor. Rápido. Laura se levanta. JORGE Minha cabeça... LAURA Tô indo. Tô indo. Laura atende o telefone. LAURA (AO TELEFONE) Alô? Oi. (para Jorge) É tio Pedro. JORGE Desliga! Desliga mesmo assim. LAURA Ele não pode atender agora tio Pedro. Tá. Tchau. Laura desliga o telefone.


122.

JORGE Ah! Que alívio. Não aguento mais esse telefone tocando. Ai minha cabeça... Senta aqui, minha filha, senta aqui que seu pai tá morrendo de saudade de você. Laura senta e Jorge põe a cabeça na mesma posição. LAURA Pai, como você vai pagar a indenização? JORGE Como você sabe disso? LAURA Pai, você ainda tá em todos os jornais! JORGE Não sei, Laura. Não sei se vou conseguir sair dessa. LAURA Claro que vai! JORGE Claro que vou! Ai! Minha cabeça. LAURA Fica quieto, pai. Você já pensou em como vai arranjar esse dinheiro? JORGE Já comecei a vender algumas coisas, mas não tenho dinheiro nem pra pagar o advogado. (sarcástico) Sua mãe bem que podia me apoiar de alguma forma. LAURA Mamãe tá enlouquecida com essa estória de doutorado. Acho melhor você não contar com a ajuda dela. JORGE Eu vou dar um jeito... queria poder ajudar sua mãe de alguma forma. Ela ainda tá muito braba comigo?


123.

LAURA É... acho que ela não tá mais tão braba, acho que ela tá é com pena de você. JORGE (exaltado) Pena, Laura! Pena! Eu vou mostrar pra ela. Ai minha cabeça! 180

EXT. RUAS - DIA Jorge dirige sua moto como se estivesse disputando uma corrida. NARRADOR (V.O) Pena... Pena. Pena. O pior sentimento que uma pessoa pode ter com a outra. E Jorge, decidido a arranjar um novo emprego, colocou-se a disposição do mercado...

181

INT. SALA DE ENTREVISTA PARA EMPREGO - DIA Um HOMEM 8, 53 anos, vestindo camisa e gravata olha para a ficha de Jorge. INSERT - Ficha de Jorge: Nome: Jorge Campos. Homem 8 olha fixo para Jorge. Jorge sua, sentindo-se investigado. Homem 8 pega uma caneta e escreve na ficha de Jorge. Ele entrega a ficha para Jorge. Jorge pega a ficha e vê que nela está escrito "Sai daqui. Mentiroso filho da puta". Jorge se levanta e sai.

182

INT. SALA DO APTO DE JORGE - NOITE Jorge procura emprego em um jornal. A televisão está ligada e passa os comerciais. Jorge, exausto, joga o jornal no chão e se encosta na cadeira. Ele muda de canal para um programa de debate. CONVIDADO 1 (V.O) (PELA TELEVISÃO) A minha vida ela não influencia! Nem a dos meus filhos. É tudo uma questão de educação. Acho que as pessoas deveriam ensinar os seus filhos o que é realmente importante na vida: ficar interessado na vida


124. CONVIDADO 1 (V.O) (PELA TELEVISÃO) dos outros ou se preocupar com a própria vida. Esse rapaz que saiu de um reality show com noventa e nove por cento de rejeição... Jorge se espanta e aumenta o volume da televisão. CONVIDADO 1 (V.O) (PELA TELEVISÃO) ... esse rapaz é um gênio. CONVIDADO 2 (V.O) Você está dizendo que alguém que mentiu para todo o povo e ainda acusou falsamente um apresentador de abusá-lo é um gênio?! CONVIDADO 1 (V.O) Se o senhor deixar eu falar eu explico. Esse rapaz, como é o nome dele mesmo? APRESENTADOR 2 (V.O) É... Jorge. Jorge! CONVIDADO 1 (V.O) Pois é, o tal do Jorge, o gênio, acabou por expor que existe um tipo de imprensa, que deve ser extinta. CONVIDADO 2 (V.O) Você está querendo a volta da censura! 183

INT. SALA DA CASA DE CECÍLIA - NOITE Laura e Cecília assistem ao programa de debate no computador de Laura. CONVIDADO 1 (V.O) (PELO COMPUTADOR) Não, não foi isso que eu disse. Eu defendo a educação como autocensura. As pessoas devem se censurar e censurar o que acharem convenientes para sua família. CONVIDADO 2 (V.O) (PELO COMPUTADOR) É censura de qualquer maneira. E esse Jorge é um, desculpe o termo, um idiota! Ele, o gênio, ganhou a oportunidade de ganhar dinheiro fácil e preferiu mentir e recebeu sua punição.


125.

CONVIDADO 1 (V.O) (PELO COMPUTADOR) Quando digo que ele é um gênio é pela discussão que ele trouxe no sentido da imprensa questionar os seus métodos. 184

EXT. RUAS - NOITE Jorge dirige sua moto. CONVIDADO 2 (V.O) Acho que uma frase que pode definir o que eu estou falando é "Nós podemos, mas não precisamos". E de gênio idiota a história está cheia! NARRADOR (V.O) Jorge tentou falar novamente com Coronel e nada. Jorge dirige sua moto no sentido contrário.

185

EXT. PARQUE - DIA Jorge e Laura caminham. JORGE E teve um que não quis nem olhar minha ficha porque a mulher dele gastou oitenta reais em ligação pra me eliminar. LAURA Oitenta reais! Que absurdo! JORGE É que ela tinha gastado vinte reais votando pra eu ficar e depois do que aconteceu ela queria que eu saísse de qualquer maneira. LAURA Mas oitenta reais! Eu não gastaria nem um centavo! Quer dizer... se fosse pro seu bem... JORGE Não esquenta não, minha filha, o que é passado já passou.


126. LAURA (irônica) Que filosofia bonita, pai. Nunca tinha pensado nisso antes. JORGE É porque... Jorge percebe que Laura estava sendo irônica. JORGE Você tá me sacaneando, né? Laura ri. Jorge também ri. Os dois se abraçam. Laura vê um SET DE FILMAGEM acontecendo em uma outra parte do parque. LAURA Olha pai! Não é uma filmagem? JORGE Acho que é. LAURA Vamos lá ver. JORGE Acho melhor não. LAURA A gente fica escondidinho. Vamos! Eu sempre quis saber como é uma filmagem. Laura puxa Jorge. 186

EXT. SET DE FILMAGEM NO PARQUE - DIA Jorge e Laura caminham perto do set de filmagem. Em volta, caminhões, vans, equipamentos e várias PESSOAS. LAURA Pra que tanto caminhão? JORGE Cada caminhão tem um departamento diferente. Por isso tem que ter muitos. E sempre que as filmagens são exteriores eles têm que levar o caminhão que gera energia. Eles passam por uma GRUA. Os MAQUINISTAS começam a ensaiar o movimento que Laura acompanha com o olhar.


127. LAURA Nossa! Olha o tamanho dessa grua! JORGE Como você sabe o nome disso? LAURA Eu vi num "making of". No final do movimento da grua, Laura avista Coronel sentado num banco. LAURA (surpresa) Olha! É o Coronel! Vamos lá falar com ele! Jorge olha para Coronel. JORGE Laurinha, acho melhor eu não ir. Vai você, mas finge que está sozinha. LAURA Por quê? JORGE Confia em mim. É melhor assim. Laura se aproxima de Coronel, emburrado, sentado no banco. LAURA Coronel?! Coronel finge que não ouve. LAURA Coronel?! É você? Coronel olha para Laura e sorri. CORONEL Laura! Oi. O que você tá fazendo aqui? LAURA Tava passeando. E você? Trabalhando? CORONEL É. Você tá sozinha? Sua mãe tá com você?


128. LAURA Não, eu tava... Laura olha em direção a Jorge. Jorge vira-se tentando disfarçar. LAURA Com o papai. CORONEL Ah, sei... LAURA Ele achou que você ainda ia tá brabo com ele e xingar ele. CORONEL Achou certo. (pausa) Mas e você? Escutando muito Roberto? LAURA Não muito, escutar Roberto Carlos me lembra coisas que tô tentando esquecer. CORONEL É... Ah... o amor... LAURA Vamos nos ver! Papai tá louco pra conversar com você que eu sei. CORONEL Não sei se é uma boa ideia. Laura abraça Coronel. LAURA É, sim! Tchau. 187

INT. CORREDOR DO PRÉDIO DE JORGE - DIA Jorge se aproxima da porta de sua casa e vê que ela está aberta. Jorge se assusta. Ele se aproxima com cuidado e olha pela fresta. POV DE JORGE: Ele vê Pedro sentado de cabeça baixa. Quando Pedro levanta a cabeça, ele tira um canudo de nota de dinheiro do nariz. Pedro coça o nariz. Jorge entra empurrando a porta com força.


129. 188

INT. SALA DO APTO DE JORGE - DIA Pedro se assusta ao ver Jorge entrar. JORGE (furioso) O que você tá fazendo aqui?! PEDRO Porra, você quase me matou do coração! JORGE Como você entrou? Pedro tira uma chave do bolso e mostra para Jorge. PEDRO Porra, Jorge! Você quer me sacanear?! Caralho! Eu tô atrás de você já faz uma semana e você não atende a merda do telefone. JORGE Eu só tô atendendo minha família. PEDRO E eu não sou da família, Jorgito?! JORGE Não mais, você esqueceu? Não anda lendo o jornal nos últimos meses?! PEDRO Calma Jorgito, eu tenho algumas coisas pra falar que você vai gostar. JORGE Duvido. PEDRO Eu venho recebendo várias propostas de... JORGE Pode parar! Não quero saber de propostas, não quero saber de trabalhar na televisão. PEDRO Tem um programa que quer fazer uma entrevista com você. Eu ainda tô negociando...


130. JORGE (agressivo) Você não pode negociar nada em meu nome! Você não é mais nada meu! Nem meu empresário nem meu cunhado. Nada! Sai daqui! 189

EXT. SET DE FILMAGEM NO PARQUE - DIA Coronel está pensativo. Uma PRODUTORA 2 se aproxima. PRODUTORA 2 Vamos. Vamos, tá todo mundo preparado já. Coronel nem se mexe. PRODUTORA 2 Coronel?! Coronel dá as costas para Produtora 2 e sai caminhando rápido. PRODUTORA 2 Coronel?! Nunca mais você vai trabalhar aqui! Ouviu?! Coronel?!!

190

INT. SALA DO APTO DE JORGE - DIA Jorge, nervoso, está em uma ponta da sala. Pedro continua sentado. PEDRO Você sabe pra quem é essa entrevista? Max Franco! Programa Max Franco. Pedro se levanta e se aproxima de Jorge. PEDRO (CONT.) Você sabe quanto eles estão oferecendo por essa entrevista? (intimando) Eu queria saber como que você pretende pagar a indenização que você deve? Como você vai pagar a pensão alimentícia da sua filha? JORGE Isso não é problema seu! Pedro segura Jorge pelos braços.


131.

PEDRO (desesperado) Jorge, eles ofereceram setenta mil reais! Jorge fica sem reação. Ele olha para o lado. PEDRO (CONT.) Setenta mil reais! Depois disso a gente não precisa mais se ver nunca mais. Jorge olha nos olhos de Pedro. JORGE Eu não preciso de dinheiro eu preciso da minha família de volta. E a minha família não quer me ver mais na televisão! PEDRO Jorge! Setenta mil reais! JORGE Nem por um milhão! Jorge empurra Pedro para perto da porta. JORGE Sai da minha casa, antes que eu chame a polícia. (gritando) Sai da minha casa. Agora! PEDRO Você vai fazer essa entrevista por bem ou por mal! Pedro saca um revólver e aponta para Jorge. Pedro recua de costas em direção à porta. JORGE Você quer que eles façam uma entrevista com um morto? Quem sabe você pode me fazer de boneco. PEDRO Não brinca comigo, Jorge! JORGE Jorge Berros D‘Água! (rindo, imitando um apresentador)


132. JORGE Agora entrevistaremos Jorge Berros D‘Água! Um morto muito louco! Pedro mira o revólver. Ele aperta firme o revólver, posicionando o dedo no gatilho. Pedro ATIRA, ao mesmo tempo Coronel entra chutando a porta que bate em Pedro. O tiro atinge o braço de Jorge que cai no chão. Coronel segura Pedro. Eles disputam a arma. Mais um TIRO para cima. Coronel dá uma cabeçada em Pedro. Pedro fica tonto. Pedro empurra Coronel e sai correndo. 191

INT. AMBULÂNCIA - DIA SIRENE. Jorge sangra. Ele é medicado por um ENFERMEIRO. Coronel está junto com ele.

192

INT. ESTÚDIO DO JORNAL - NOITE APRESENTADOR 3 e APRESENTADORA 1 apresentam o telejornal. APRESENTADOR 3 Jorge, o participante de reality show que foi eliminado por cento e trinta milhões de pessoas sofre um atentado. APRESENTADORA 1 E mais: a tentativa de homicídio foi de seu ex-empresário, e ex-cunhado, a quem muitos acusam de ter sido o mentor da mentira que eliminou Jorge do programa.

193

INT. PALCO DO PROGRAMA "BOA TARDE, DORA" - DIA INSERT - Imagens de arquivo de Jorge: Ele nas pegadinhas e participações no programa "Boa Tarde, Dora". DORA (S.O) Vocês estão vendo algumas imagens do Jorge. Nós aqui do programa e de toda produção do programa desejamos tudo de melhor para Jorge e que ele consiga dar a volta por cima depois de pagar pelos seus erros. E que a polícia faça um bom trabalho na captura desse bandido. Dora está sentada em sua cadeira apresentando o programa. Ao seu lado, BEATRIZ JUNQUEIRA, 46 anos.


133.

DORA Bom, estamos aqui com a psicóloga Beatriz Junqueira que vai nos explicar como é possível uma pessoa que tem tudo na mão, cair nessa desgraça. Beatriz? 194

INT. ESTÚDIO DO JORNAL - NOITE Apresentador 3 e Apresentadora 1 apresentam o telejornal. APRESENTADORA 1 A polícia ainda procura, sem pistas, o homem mais procurado do país no momento. Pedro de Almeida tentou assassinar Jorge, o participante com maior número de rejeição na história de um reality show.

195

INT. QUARTO DE HOSPITAL - NOITE Jorge está deitado numa cama de hospital com aparelhos ligados nele. Ele abre os olhos aos poucos. POV DE JORGE: Laura sorri para ele. Ao seu lado, Coronel fica sério. LAURA Ele tá acordando. (olhando para o lado) Vem rápido. POV DE JORGE: Cecília se junta a Laura e Coronel. Jorge sorri. Cecília se emociona e uma lágrima lhe escorre. Ela passa a mão na testa de Jorge e faz carinho em seus cabelos. JORGE (sorrindo) Foi preciso levar um tiro pra reunir as pessoas que eu amo. Todos sorriem.


134.

196

INT. QUARTO DE HOSPITAL - DIA Cecília dá comida na boca de Jorge. Ele, mais disposto, está com o braço enfaixado. JORGE Você vai continuar me dando comida na boca depois que eu sair daqui? CECÍLIA (sorrindo) Nem sonhando. JORGE Vou ter que cortar meus braços para isso? Que tem Eu, ter

CECÍLIA isso, Jorge? Que horror. Você muitos problemas para resolver. no seu lugar, não procuraria mais problemas.

JORGE Meu único problema é não ter minha família por perto. CECÍLIA Jorge, todos nós temos problemas, eu tenho meu doutorado, sua filha tá com problemas na escola por causa da amiguinha dela, mas o seu é um problema de cinquenta mil reais! Como você vai pagar essa indenização? JORGE Posso pagar vendendo um pouco do amor que sinto por você? Porque isso eu tenho de sobra. Cecília sorri e beija a testa de Jorge. CECÍLIA Você não muda mesmo. As coisas acontecem ao seu redor... as pessoas se aproveitam de você, tomam decisões por você, sobre a sua vida e você continua o mesmo. Aceitando tudo. Você não tem amor próprio, Jorge.


135.

JORGE Quando é a sua defesa do doutorado? CECÍLIA Daqui a uma semana. Jorge abre a boca esperando ganhar comida. 197

INT. SALA DO APTO DE JORGE - DIA Coronel abre a porta. Ele entra ajudando Jorge a caminhar de muletas. Jorge está com o braço enfaixado. Na sala, há apenas uma estante com a televisão e uma cadeira. CORONEL O que aconteceu com suas coisas? JORGE Tive que vender. Coronel ajuda Jorge a se sentar na cadeira. JORGE Não sei como agradecer, Coronel. CORONEL Não agradeça. JORGE Por que você veio até aqui aquele dia? CORONEL Não sei... Pela sua filha, acho. Coronel puxa uma arma de brinquedo, uma réplica. Jorge se assusta. CORONEL Toma. É pra você. JORGE Mas eu não sei usar isso. CORONEL Nem precisa saber. Essa arma é de mentira. Tem um maníaco atrás de você! Isso pode assustar ele. Coronel sai em direção à cozinha.


136.

JORGE Tá bem. Obrigado. Jorge brinca com a arma. CORONEL (O.S) Quanto você já conseguiu juntar para pagar a indenização? Jorge fica surpreso com o interesse do Coronel. JORGE Uns dez mil. CORONEL (O.S) Quanto vale a sua moto? JORGE Uns treze mil. CORONEL (O.S) E a jukebox? JORGE Isso eu não posso vender! Coronel volta à sala. Jorge continua brincando com a arma. CORONEL Jorge, isso não é brincadeira. JORGE Você não disse que é de mentira? CORONEL Não. Não a arma. A arma é de brinquedo. Você ir preso se não pagar a indenização. Isso não é brincadeira. Falando em ser preso, liga a televisão pra ver se prenderam aquele desgraçado. A CÂMERA SE APROXIMA DE JORGE. Ele fica pensativo. CORONEL Jorge?! A televisão! JORGE Acho que sei como conseguir o dinheiro!


137.

198

INT. TAXI - DIA Jorge e Coronel sérios. Jorge está com uma tipoia simples. NARRADOR (V.O) Jorge pediu para Coronel ligar para o produtor do "Programa Max Franco".

199

INT. SALA DE ESPERA DO PRÉDIO EMPRESARIAL - DIA A CÂMERA SE APROXIMA do TELEFONE tocando em cima da mesa da SECRETÁRIA, 29 anos. CORONEL (V.O) (PELO TELEFONE) Alô? Quero falar com Pereira. SECRETÁRIA O senhor tem hora marcada? CORONEL (V.O) (PELO TELEFONE) (gritando) Não interessa se eu tenho ou não hora marcada!

200

INT. SALA DE PEREIRA - DIA A CÂMERA SE APROXIMA DO TELEFONE TOCANDO. CORONEL (V.O) (PELO TELEFONE) (CONT.) Eu tenho um assunto urgente! Pode falar que é sobre uma entrevista com Jorge. Pereira atende o telefone. NARRADOR (V.O) (CONT.) Coronel exigiu uma reunião o mais rápido possível para tratar do contrato para uma entrevista exclusiva e ao vivo para o programa. Pereira desliga o telefone e pega novamente. PEREIRA (AO TELEFONE) Liga para o Max agora!


138.

201

INT. TAXI - DIA Jorge e Coronel. NARRADOR (V.O) (CONT.) Ficou acertado entre Jorge e Coronel que o cachê teria que ser maior. Pereira, o produtor, aceitou com a condição de que Jorge não poderia participar de nenhum outro programa nem antes nem nos próximos seis meses.

202

INT. SALA DE PEREIRA - DIA Max Franco entra na sala e encontra Pereira. Eles conversam. NARRADOR (V.O) (CONT.) E mais: Coronel poderia filmar tudo dos bastidores e os direitos sobre essas imagens seriam deles. Eles aceitaram desde que essas imagens não fossem vendidas a nenhuma outra emissora concorrente.

203

EXT. EM FRENTE AO PRÉDIO EMPRESARIAL - DIA Jorge e Coronel descem do taxi e sobem as escadas do prédio empresarial. NARRADOR (V.O) (CONT.) Pereira e Max Franco só fizeram questão de colocar uma cláusula no contrato: a de que qualquer descumprimento dos itens acima implicaria em não pagamento do cachê.

204

INT. SALA DE PEREIRA - DIA A sala tem grandes janelas de vidro que mostram uma linda paisagem do Rio de Janeiro. Espalhados pelos sofás e poltronas da sala estão Max Franco, Jorge e Coronel. Pereira anda de um lado para outro. PEREIRA Então está tudo entendido?


139.

MAX FRANCO Alguma dúvida? Jorge olha para o Coronel que faz sinal de positivo com a cabeça. JORGE Sim. Tudo certo. MAX FRANCO Pereira, o contrato. PEREIRA Essa entrevista vai ser histórica! Pereira pega uma pasta com o contrato. Max se levanta e caminha até uma janela. Pereira se senta, abre a pasta e entrega a Jorge uma caneta. MAX FRANCO Não sei... Acho que pra ser histórica a gente precisa de um tempero a mais. Jorge olha para o contrato e depois para Max Franco que olha pela janela de costa para todos. CORONEL O que você quer mais?! Ele já vai contar tudo que ninguém sabe sobre a sua vida. Tudo sobre o atentado, sobre a separação. Quer que ele fique pelado em frente às câmeras! MAX FRANCO Não! PEREIRA Isso não. MAX FRANCO A gente não quer perder audiência e sim ganhar. PEREIRA Com todo respeito ao seu corpinho, Jorge. Jorge sorri. CORONEL O que vocês querem então?


140. Jorge coloca a contrato em cima da mesa de centro. Max Franco se vira para a sala. MAX FRANCO Não sei... Quem sabe ele se infiltra na plateia e incentiva a todos vaiarem ele mesmo... PEREIRA E depois ele sai para ser entrevistado provocando a plateia. CORONEL Você tá louco?! E se alguém descobrir antes?! Max Franco, empolgado, se aproxima de Jorge. MAX FRANCO Quem sabe a gente tráz os seus pais para assistir o programa e... JORGE Meus pais já faleceram. PEREIRA Já sei! Jorge finge ter uma convulsão. Coronel balança a cabeça lamentando. MAX FRANCO Ou ele começa a se bater durante a entrevista achando que fez tudo errado na vida! PEREIRA Bom! Isso é muito bom! Jorge saca a arma de brinquedo. Max Franco e Pereira se assustam. PEREIRA Ei! Ei! Calma aí. Esquece a ideia de se bater. A entrevista pode ser... JORGE Pode ser que eu puxe uma arma de brinquedo, como essa, durante a entrevista e ameaço Max com ela. Pereira e Max Franco se olham. Coronel, surpreso, olha para Jorge.


141.

MAX FRANCO É de brinquedo mesmo? JORGE Claro. PEREIRA Por que você tá carregando ela então? JORGE Tem um assassino a solta querendo me matar. MAX FRANCO Ótima ideia! ótima ideia... PEREIRA E depois de ameaçar Max, a gente segura um pouco nessa situação e depois vocês dizem que a arma é de brincadeira. MAX FRANCO É isso! Vai ter que ser isso! Mas vamos segurar até o segundo bloco. Coronel aprova. CORTA PARA: Jorge assina o contrato e aperta a mão de Pereira. CORTA PARA: Jorge e Coronel estão saindo da sala. PEREIRA Coronel! Não esqueça da quebra de contrato. Jorge e Coronel voltam a caminhar para a porta. MAX FRANCO Jorge?! Jorge e Coronel se voltam para Max Franco. Max Franco imita, com as mãos, uma arma. MAX FRANCO Tudo tem que parecer imprevisível!


142. PEREIRA Inesquecível! MAX FRANCO (projetando) Imprevisível! Jorge e Coronel abrem a porta para sair. JORGE Você vai ter o seu programa imprevisível! 205

INT. SALA DA CASA DE CECÍLIA - DIA A impressora em cima da mesa imprime a última folha. Laura pega essa folha e coloca em cima de uma pilha. LAURA Mãe, acabou! CECÍLIA (O.S) Eu nem acredito! Finalmente! Cecília, muito feliz, chega e abraça Laura. CECÍLIA Daqui a uma semana sua mãe vai enfrentar a bancada e ser uma doutorada! MENSAGEM DE CELULAR. CECÍLIA É o meu ou o seu? LAURA Acho que é o meu. CECÍLIA Se for seu pai diz que depois da defesa a gente conversa. LAURA Hmmm. Estou vendo uma luz no fim do túnel... Laura caminha, com o celular na mão, em direção ao corredor. INSERT - TELA DO CELULAR: "Eu sei que vc tá de cara comigo, mas eu preciso de vc! Vamos juntas na entrevista do seu pai na quarta que vem?"


143.

CECÍLIA (O.S) Você não anda falando mais com aquela sua amiga, né? Laura volta para sala. LAURA Não. Que dia é a sua defesa mesmo? CECÍLIA Dia vinte e três. LAURA No dia da entrevista do papai? FADE OUT. DE VOLTA AO TEMPO PRESENTE. 206

INT. PALCO DO "PROGRAMA MAX FRANCO" - NOITE Max Franco aponta a arma para Jorge. A plateia está apavorada. Alguns seguranças estão em volta. MAX FRANCO Fala Jorge! E agora?! Max Franco começa a rir. MAX FRANCO (rindo) Quem é que vai acabar com quem?! Jorge começa a rir. MAX FRANCO (rindo) Quem sabe eu acabo comigo mesmo? Max Franco se vira para a plateia, aponta a arma para a própria cabeça e começa a rir. MAX FRANCO Na verdade... (risada) ... isso não passa de uma brincadeira. Senhoras e senhores, vocês podem se acalmar que a arma é de brinquedo. Max Franco mostra a arma para a plateia e depois aponta, novamente para a própria cabeça. A plateia se acalma.


144.

INSERT - Placa de aplauso acende. Algumas poucas pessoas sorriem e batem palmas. MAX FRANCO É de brinquedo, ó. Max Franco põe o dedo no gatilho. MAX FRANCO Mas... já que nunca se pode saber quando esse cara tá de brincadeira ou não... Max Franco aponta a arma para Jorge. Jorge abre os braços de frente para Max Franco. Ele aperta o gatilho. TIRO. 207

INT. SALA DE DEFESA DO DOUTORADO - NOITE É uma sala de palestras, nem muito grande nem muito pequena. Cecília apresenta sua defesa de doutorado. Atrás dela algumas imagens são projetadas. Laura assiste a apresentação de sua mãe.

208

INT. PALCO DO "PROGRAMA MAX FRANCO" - NOITE Max Franco olha para Jorge intacto. Jorge olha para o seu corpo e vê que nada aconteceu. As pessoas gritam. Um refletor cai ao lado da plateia sem machucar ninguém. Jorge e Max Franco olham para a plateia. Pedro, de barba e cabelo pintado de loiro, está armado segurando Lúcia como refém. PEDRO Essa daqui não é de brinquedo! Pedro, descontrolado, começa a rir. Lúcia chora. Jorge treme de nervosismo. Max Franco fica atônito.

209

INT. CABINE DO SWITCHER - NOITE Pereira olha pelo monitor o que acontece no palco. PEREIRA Puta que pariu! Que merda é essa?! Pereira, subitamente, pega o seu walkie-talkie.


145. PEREIRA (PELO WALKIE-TALKIE) Mandem todos os seguranças para o palco do estúdio três. Agora! E continuem filmando. Não parem de filmar! Pereira se levanta da cadeira e sai da sala. 210

INT. PALCO DO "PROGRAMA MAX FRANCO" - NOITE Pedro com Lúcia de refém, se aproxima do palco. A plateia fica apavorada. PEDRO Ninguém se mexe senão eu mato essa garota! MAX FRANCO Calma! Ninguém vai fazer nada. PEDRO Eu vou caminhar com ela até chegar perto dele e trocar de refém. Ouviu, Jorge?! Jorge, suado, está apavorado. JORGE Sim. Sim. Não faça nada a ela. Sou eu que você quer! Pedro, com a arma apontada para Lúcia, caminha em direção a Jorge. Segurança 1 esboça uma tentativa de se aproximar de Pedro. PEDRO (para Segurança 1) Fica quieto aí, seu merda! Qualquer gracinha e essa garota vai morrer. Pedro fica de frente com Jorge. PEDRO Vem aqui! Escora a cabeça na cabeça dela. Orelha com orelha. Jorge encosta a cabeça na de Lúcia. Pedro aponta a arma para cabeça de Jorge. PEDRO Agora pode sair garota. Lúcia sai correndo e chorando para a lateral do palco.


146.

LATERAL DO PALCO Coronel abraça ela e a ampara. Ao fundo, Pedro faz Jorge de refém. CORONEL Você está bem? LÚCIA (chorando) Sim... acho que sim... CORTA PARA: Pedro segura Jorge como refém. JORGE O que você quer? PEDRO O que eu quero? Eu quero o meu dinheiro. Fui eu que marquei essa entrevista! Eu quero o meu dinheiro. JORGE Você tá doente. Isso daqui vai tá cheio de policial daqui a pouco. 211

INT. SALA DE DEFESA DO DOUTORADO - NOITE Cecília continua sua defesa. MENSAGEM DE CELULAR. Laura olha para os lados e fica envergonhada. Discretamente ela pega o celular da bolsa. INSERT - Tela de celular: "Aconteceu uma coisa ruim com seu pai. Me liga urgente! Ou liga a televisão na entrevista" Laura fica assustada. Ela se levanta e sai da sala. Cecília, desconfiada, acompanha ela com o olhar.

212

INT. PALCO DO "PROGRAMA MAX FRANCO" - NOITE LATERAL DO PALCO Coronel olha para Lúcia com o celular na mão.


147.

CORONEL O que você tá fazendo?! LÚCIA Eu conheço a filha do Jorge. CORONEL Laura? LÚCIA É. CORTA PARA: PALCO Jorge está de refém de Pedro. JORGE O seu problema é comigo, Pedro, deixa o resto das pessoas fora disso. PEDRO Cala a boca! Quem manda aqui sou eu! (projetando para todos) Agora, sai todo mundo da plateia. O resto fica! 213

INT. CORREDOR EM FRENTE AO BAR - NOITE Laura chega correndo ao bar. As PESSOAS assistem ao "Programa Max Franco" na televisão. Todos estão espantados. Laura olha para a televisão e vê seu pai sob a mira da arma de seu tio. Ela sai correndo de onde veio. As pessoas olham para ela.

214

INT. PALCO DO "PROGRAMA MAX FRANCO" - NOITE A plateia está praticamente vazia. Jorge segue sob a mira de Pedro e Max Franco continua no palco. PEDRO Seu filho da puta! Eu tinha negociado a entrevista pra você. Por que você foi estragar tudo?! JORGE Você tentou me matar!


148.

PEDRO Cala boca! Desgraçado. Agora nos vamos sair. Pedro olha para Max Franco. PEDRO (para Max Franco) Como se sai daqui? Vamos! Responde! MAX FRANCO Por onde você entrou. PEDRO Você quer morrer?! Eu quero saber como eu saio daqui sem ser pela mesma porta! Julia, nervosa, assiste tudo na lateral do palco. Pereira chega. PEREIRA Por esse corredor. Pedro olha para Pereira. PEDRO Se você tiver me sacaneando eu vou matar geral! Vamos. JORGE Espera. Como você vai saber o caminho até lá fora? Devem ter vários corredores até lá. PEDRO Puta que pariu. Não fode, Jorge! (para Pereira) E como eu vou saber o caminho todo? Pereira olha para Julia. Julia faz sinal de que não sabe. PEREIRA Não sei... JULIA (para Pereira) Espera! As balas! Julia pega o saco de balas em seu bolso.


149.

PEREIRA (para Julia) Balas? Pereira pega o saco de balas e mostra para Pedro. PEREIRA (para Pedro) Nós vamos fazer um caminho com essas balas. 215

INT. SALA DA DEFESA DO DOUTORADO - NOITE Cecília defende seu doutorado. Laura, tremendo, entra na sala. Cecília olha nos olhos de Laura, percebe algo errado e sai caminhando na direção dela. As pessoas olham para Cecília sem entender. Cecília atravessa a sala e abraça Laura. CECÍLIA O que aconteceu? LAURA Papai... ele tá... Tio Pedro tá com uma arma ameaçando ele ao vivo na televisão.

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INT. CORREDOR 3 DO ESTÚDIO - NOITE Julia espalha o caminho de balas até uma porta com uma placa escrita "saída de emergência". JULIA (PELO WALKIE-TALKIE) O caminho tá pronto.

217

INT. PALCO DO "PROGRAMA MAX FRANCO" - NOITE Pereira se aproxima um pouco de Pedro e Jorge. PEREIRA O caminho tá feito. Pode ir. Pedro empurra Jorge e eles começam a andar.


150. 218

INT. CARRO DE CECÍLIA - NOITE Cecília dirige com Laura ao seu lado. CECÍLIA O que o Pedro tá fazendo? Maluco, desgraçado!

219

INT. PALCO DO "PROGRAMA MAX FRANCO" - NOITE Pereira vê Pedro e Jorge entrarem no corredor. PEREIRA (para todos em volta) Vamos! Ele vai demorar para sair por esse corredor. CORONEL (para Lúcia) Acho que tenho uma ideia. (para Pereira) Você tem como levar um refletor desses pra onde eles vão sair? Coronel aponta para o refletor caído.

220

INT. CORREDOR 3 DO ESTÚDIO - NOITE Pedro anda com Jorge sob a mira. Eles seguem as balas no chão. JORGE O que você pretende fazer? Você tá completamente louco! Não tem como sair daqui. PEDRO Cala a boca e anda! JORGE (olhado para as balas) Eu sempre gostei das vermelhas e você? PEDRO Cala a boca. JORGE Você vai se dar mal, Pedro. Já deve tá cheio de policial do lado de fora.


151. PEDRO Prefiro morrer que ser preso. E se eu morrer você morre também. JORGE Você quer que sua irmã e sua sobrinha sofram pro resto da vida? PEDRO Tô cagando pra minha irmã e pra pentelha da sua filha. Eles se aproximam da porta de saída. 221

EXT. ENTRADA DA EMISSORA - NOITE Cecília e Laura entram correndo.

222

INT. CORREDOR 3 DO ESTÚDIO/PÁTIO DA EMISSORA - NOITE Jorge e Pedro de frente para a porta de saída. PEDRO É... acho que chegou a nossa hora. Jorge está apavorado. Pedro respira fundo e abre a porta com violência. Uma luz extremamente forte vem diretamente nos olhos deles. CORONEL (gritando) Corre, Jorge! Corre!

223

EXT. PÁTIO DA EMISSORA - NOITE Pedro põe a mão em frente aos olhos e aponta a arma para frente. Lúcia corre em direção a Jorge. Pedro ATIRA e atinge Lúcia. Alguns FIGURANTES vestidos de soldados russos e cangaceiros pulam em cima de Pedro e o seguram. Uma multidão de FIGURANTES está do lado de fora. A maioria figurinados. Pereira está atrás de um refletor grande apontado para Pedro sendo segurado pelos figurantes. Jorge vê Lúcia caída no chão e cai em cima dela chorando. JORGE Lúcia?! Por que você fez isso?! Por quê? Cecília e Laura chegam correndo.


152. CECÍLIA Jorge! LAURA Papai! Jorge se vira para Cecília e Laura, revelando o corpo de Lúcia no chão. LAURA Lúcia! Cecília e Laura correm para abraçar Jorge. Eles se abraçam e se beijam desesperadamente. JORGE Cecília! Desculpa! Eu te amo! Laura abraça Lúcia no chão. JORGE (gritando) Uma ambulância! Rápido! Uma ambulância! Laura abraça lúcia no chão. Pedro é imobilizado. Jorge e cecília se abraçam. Pereira está no refletor. Coronel filma JORNALISTAS, figurantes e todos que estão em volta. VIATURAS POLÍCIAIS E UMA AMBULÂNCIA CHEGAM. NARRADOR (V.O) E assim o nosso heroi, o nosso gênio ou idiota, completou mais um ciclo de sua vida. Pessoas vieram e pessoas se foram, e, apesar de alguns sustos, ele conseguiu sobreviver. Enfim, algumas coisas mudaram em sua vida e na vida dos que viveram esse ciclo com ele. FADE OUT. 224

INT. SALA DE PEREIRA - DIA FADE IN. Pereira e Max Franco rasgam o contrato da entrevista de Jorge e dão gargalhadas tomando uísque e fumando charutos. NARRADOR (V.O) (CONT.) Max e Pereira lucraram o triplo do que eles imaginavam lucrar graças à quebra de contrato de Jorge.


153.

225

EXT. PRISÃO - DIA Pedro entra na prisão. NARRADOR (V.O) (CONT.) Pedro foi preso. Como estava com o cabelo pintado de loiro logo entrou em confusão. O pessoal da ala norte achou que ele era veado. Morreu três dias depois.

226

INT. QUARTO DE HOSPITAL - DIA Lúcia está sentada na cama sendo medicada por uma ENFERMEIRA. NARRADOR (V.O) (CONT.) Lúcia se recuperou rápido. O tiro atravessou o braço dela, mas milagrosamente não fez nenhum estrago, do jeito que entrou saiu.

227

INT. CARRO DO CORONEL - DIA Coronel escuta no RÁDIO um jogo do Botafogo. NARRADOR (V.O) (CONT.) Coronel conseguiu o que queria: juntou dinheiro suficiente para comprar um carro e voltou a trabalhar de figurante, dentro do carro, é claro. A locução no RÁDIO anuncia gol do Botafogo. CORONEL Gol! Gol!

228

EXT. CIDADE CINEMATOGRÁFICA - DIA Coronel sai do carro enlouquecido comemorando o gol. CORONEL Gol! Do glorioso! É do fogão!


154.

229

INT. SALA DA CASA DE CECÍLIA - DIA Cecília passa um pano na mesa da sala, agora limpa, sem os livros e papeis. NARRADOR (V.O) (CONT.) Cecília conseguiu acabar a defesa do seu doutorado uma semana depois. E... Jorge e Laura chegam à sala com flores. NARRADOR (V.O) (CONT.) ... sim, eles voltaram a morar juntos. E, a agora Doutora Cecília, recebeu, definitivamente, o seu convite para dar aulas numa universidade de Recife. FADE OUT.

230

EXT. PRAIA DE RECIFE - DIA FADE IN. Imagens de uma praia em Recife, Pernambuco. CARACTERES SOBRE A IMAGEM: "Seis meses depois".

231

INT. BAR DE JORGE EM RECIFE - DIA MÚSICA BREGA. Cecília, vestida como professora, entra no bar. Ela vai até o balcão e beija Jorge. Ele faz sinal para ela esperar e entra por uma porta que separa a copa dos outros aposentos. Cecília não entende. NARRADOR (V.O) (CONT.) Jorge conseguiu pagar a indenização e ainda sobrou dinheiro, que somado à venda dos direitos sobre as imagens gravadas pelo Coronel, ele investiu em uma nova profissão: dono de bar. A MÚSICA para. Cecília olha para Laura na jukebox escolhendo a próxima música. Começa a tocar uma MÚSICA DO ROBERTO CARLOS. Laura sorri para Cecília. Laura caminha dançando.


155.

Laura encontra Lúcia no caminho. Elas se abraçam e começam a dançar com os rostos colados. Coronel estende uma bandeira do Botafogo sobre elas. Laura e Lúcia sorriem para Cecília quando algo chama atenção de Cecília. Ela olha para copa do bar e Jorge aparece vestido como jogador profissional de boliche. Todos dão risadas. A IMAGEM DE JORGE SORRINDO CONGELA. NARRADOR (V.O) (CONT.) De que maneira pode o homem controlar o seu mundo? Fachada do bar "Salve Jorge" na beira da praia. FIM


Salve Jorge