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Número 2 Abril de 2009

Mensal

TALENTOS PORTUGUESES À CONQUISTA DO MUNDO Gonçalo M. Tavares, Rita Redshoes, Buraka Som Sistema, valter hugo mãe, José Luís Peixoto e M. Tiago Paixão são alguns dos nomes de aventureiros que se lançaram pelo mundo fora.

Cultura

Portugal

Especial

Dramaturga Ana Cristina Oliveira brilha com “Segredos do Levante”.

35 anos depois, o país não esqueceu o dia da Liberdade, 25 de Abril.

Escapar à morte quase certa e ser um sobrevivente de uma catástrofe


EDITORIAL

ARQUIVO MORTO

N

uma altura em que a justiça portuguesa revela cada vez maior incapacidade na resolução de processos polémicos, vale sempre a pena recordar casos como os de Isaltino Morais, Pinto da Costa, Fátima Felgueiras, Avelino Ferreira Torres ou até mesmo Valentim Loureiro, que pela sua especificidade e consequente desfecho se afirmam hoje como provas cabais da inércia dos tribunais. Que justiça temos afinal? Uma justiça que indicia mas nunca pune? Uma justiça que investiga e se revela incapaz de concluir? Uma justiça que cobre a corrupção e deixa a nu as suas próprias fragilidades? Essa mesma justiça que em 2003 as-

apresenta Isaltino Morais como actor principal de uma peça sem fim à vista. Indiciado pelos crimes de corrupção, branqueamento de capitais, fraude fiscal e abuso de poder, o Presidente da Câ-

Uma justiça que investiga e se revela incapaz de concluir? Uma justiça que cobre a corrupção e deixa a nu as suas próprias fragilidades? sistiu ao escândalo político protagonizado por Fátima Felgueiras, na sequência do processo “Saco Azul”, que viria a revelar-se no mínimo caricato. Recorde-se que a autarca foi acusada de corrupção e financiamento da secção local do Partido Socialista, chegando mesmo a ter sido emitida uma ordem de prisão preventiva em seu nome. De facto, a verdade é que com mestria e algum engenho Fátima Felgueiras acabou por “fintar” a justiça portuguesa, refugiando-se no seu país Natal. Regressou meses depois com o estatuto de “heroína”, voltando a ocupar o cargo de Presidente do Município, depois de ter sido indiciada por 23 crimes e condenada por três deles, com pena suspensa. Seis anos depois, por entre casos pendentes e investigações intermináveis, o fantasma da corrupção volta a assolar o país. Desta feita o palco português 2

mara Municipal de Oeiras, continua a exercer as suas funções, indiferente a todas as polémicas associadas ao seu nome. Em patamar de igualdade encontramse Pinto da Costa e Valentim Loureiro, arguidos do caso Apito Dourado, que em 2004 envolveu o futebol português numa nuvem de incerteza e ambiguidade. O Presidente do Futebol Clube do Porto é acusado pelos crimes de falsificação de documentos e corrupção e tráfico de influências no futebol português, enquanto que o ex-presidente da Liga de Clubes, Valentim Loureiro foi sentenciado a três anos de prisão com pena suspensa. Assim se faz a história da corrupção em Portugal, uma história que se resume a sentenças adiadas e penas suspensas, a relógios atrasados numa justiça cada vez menos certa. ISA MESTRE


INDICE

INDICE 7 8

Portugal 35 anos de Liberdade Polémica com o Provedor da Justiça Curiosidades

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MUNDO Bento XVI em África Joseph Fritzl: «O Monstro» Sismo devasta Norte de Itália 10 anos do Massacre de Columbine Gravidez no masculino

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CULTURA “Segredos do Levante” por Ana Oliveira 16 Teatro 17 OPINIÃO “O Cabo das Tormentas” 23 ESPECIAL Portugueses à conquista do Mundo 24 Sobreviventes de Tragédias 26 DESPORTO Ayrton Senna: 15 anos depois 28 MotoGp entre Rossi e Stoner 31 A extinção da III Divisão 34

Pág. 24 Há portu-

gueses a apostar no mercado internacional e a vencer essa aposta. Saiba quem são os talentos lusos com mais sucesso lá fora.

Pág. 26 Conheça quatro casos de pessoas que estiveram entre a vida e a morte e sobreviveram a acidentes terríveis.

Pág. 4 Há 35 anos gritou-

se “Liberdade!” em Portugal. Histórias e Estórias da época e testemunhos de quem viveu este período de enorme valor histórico para o nosso país.

36 A FECHAR

FICHA TECNICA Propietária: Profª Doutora Aurízia Anica Directora: Isa Mestre Sub-Director: Fábio Lima Redactores Principais: Adriano Narciso e David Marques Director de Arte: Fábio Lima

Portugal e Mundo: Adriano Narciso, Isa Mestre, Marta Miranda, Raquel Rodrigues e Rita Caeiro Cultura: Grethel Ceballos, Inês Samina e João Marujo Desporto: Fábio Lima e David Marques 3


PORTUGAL

Foi há 35 anos que do povo falou mais Por David Marques

“D

e m o c r a t i z a r, Descolonizar e Desenvolver”. Eram estes os fundamentos básicos de actuação preconizados pelo embrionário Movimento das Forças Armadas (MFA) quando foi formado em Setembro de 1973. Até meados de Março do ano seguinte, a meticulosa estratégia para derrubar a vigente “Velha Senhora” foi concluída. As tentativas falhadas Desde a Ditadura Militar (1926-28), passando pela Nacional (1928-32) e pelo Estado Novo, que governou o país durante 41 anos, muitas foram as tentativas para derrubar o Poder. A 4 de Julho de 1937, um grupo de anarquistas ensaiou, em vão, uma tentativa para assassinar Salazar. Este foi o último acontecimento de uma primeira fase de oposição ao Governo que se caracterizou por ser fraca e desorganizada. A partir dos anos 40 surgiram novos grupos organizados, onde se faziam representar importantes vultos que se destacaram nas décadas seguintes. Foi criado o MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista), que viria a ser rebaptizado de MUD (Movimento de Unidade 4

Democrática) e a oposição ganhava força e consenso popular para um eventual braço-deferro com os governantes em eleições presidenciais a exemplo de Norton de Matos, que em 1949 se candidatou às eleições presidenciais. Os órgãos de censura e a polícia política continham e reprimiam a propagação de ideias anti-fascistas e as manifestações em massa contra o Estado. Porém, em 1958 o General Humberto Delgado resolveu enfrentar o Salazar. Questionado em vésperas eleitorais sobre o que faria ao ditador se fosse eleito para o cargo de Presidente da República, o “General Sem Medo”, respondeu “Obviamente demito-o”. Pese embora todo o apoio das massas populares, o militar acabou derrotado devido a fraude eleitoral. Tudo foi tentado para mudar a situação de um país que o regime continuava a anestesiar usando uma compilação de estratégias, desde o sequestro de navios (Santa Maria, em 1961), revoltas estudantis, como a que se verificou em 1962 na Universidade de Lisboa e uma tentativa silenciada de golpe de Estado – também no ano de 62. Entretanto, com o avançar de uma guerra colonial que se perpetuava sem fim à vista, o regime entrou definitivamente em colapso O novo Ferrari F-60 ideológico.

A guerra, a emigração e as relações internacionais Há muito que o Estado português dava sinais de estar enfraquecido. A guerra civil, com início em 1961, mobilizou mais de 800 mil combatentes provenientes da metrópole. Raras eram as famílias portuguesas que, directa ou indirectamente, não eram afectadas pelo flagelo de uma guerra que tirou a vida a


PORTUGAL Foto: Ana Gatinho

a voz s alto

mais de 9 mil combatentes, causou mais de 14 mil deficientes físicos – 1800 amputados – e estima-se que aproximadamente 140 mil pessoas tenham regressado à pátria com traumas de guerra. Mais de um terço do orçamento anual do Estado era desviado para o Ultramar. Anualmente, os custos da guerra eram sempre muito superiores aos orçamentos disponíveis: no último ano de guerra, o orçamento extraordinário

destinado ao ultramar foi de 5 milhões de contos, contudo os gastos finais bateram no tecto dos 11 milhões. As relações diplomáticas e económicas com outros países europeus, nomeadamente os pertencentes ao bloco comunista, eram praticamente inexistentes. As pressões dos países membros da ONU, para que Portugal se desvinculasse das suas agora intituladas províncias

ultramarinas, eram cada vez mais intensas. Porém, durante a crise dos mísseis de Cuba, em 1962, o Governo nacional aproveitou-se da importância geoestratégica dos Açores. Os Estados Unidos, cientes de que a disponibilidade de Portugal poderia ser vital para as suas operações atlânticas, abstiveramse de condenar a política colonial nacional, seguindo-se França, GrãBretanha e muitos outros países membros da NATO. 5


PORTUGAL

«Foram dias foram anos a esperar por um só dia. Alegrias. Desenganos. Foi o tempo que doía com seus riscos e seus danos. Foi a noite e foi o dia na esperança de um só dia.»

Manuel Alegre

Internamente, aos poucos a situação tornava-se insustentável e, como consequência, verificouse um aumento repentino da emigração legal e clandestina a partir dos anos 60. Em 1970, o número de portugueses a sair do país foi superior a 170 mil. Pese embora algum alívio da pressão internacional, durante uma visita a Londres em Julho de 1973, Caetano foi fortemente contestado. Este acontecimento vincou definitivamente o que há muito se temia: Portugal encontrava-se isolado do resto do mundo, mas o Estado, “orgulhosamente só”, dava continuidade à sua gritante política despótica e anacrónica. A Independência

muita noite pela frente, as forças revoltosas iniciaram a ocupação de alguns pontos estratégicos de Lisboa. No norte do país a actuação foi semelhante. Depois de vários apelos à sua rendição, Caetano afirma estar disposto a render-se, pedindo, no entanto, uma reunião prévia com o General Spínola, a quem entrega o poder às 19:30, hora em que deixou o quartel sob a tutela do MFA. Terminada a resistência política, alguns elementos da polícia política disparam sobre manifestantes que tentavam entrar na sede da DGS. Quatro pessoas morreram e 45 ficaram feridas. Durante quase cinco décadas foram muitos os políticos e bravos guerreiros que ousaram fazer frente a um Estado que não raras vezes hesitou em eliminar qualquer entidade que lhe fizesse frente. Por mais armas que sejam empunhadas, por mais esforços que sejam empregues, é na vontade comum dos cidadãos que reside a esperança e o poder de mudar. Porque sempre assim o foi e sempre assim será, onde “o povo é quem mais ordena”.

O ano de 1968 foi marcado pelo adeus forçado de Salazar ao poder. O ditador caiu da cadeira e não mais se levantou, sendo prontamente substituído por Marcello Caetano. Porém, com o antigo reitor da Universidade de Lisboa a situação nacional pouco se alterou. A somar à pobreza, ao atraso cultural, à iliteracia e à repressão, o Estado recusavase a aceitar uma solução política para a guerra. Foi no dia 24 de Abril que se iniciou a mobilização final que culminaria com o cerco ao quartel do Carmo. Já na madrugada de 25 e ainda com General O novo FerrariDelgado F-60 Humberto 6

Foto: SAPO

“Estava no oeste de Moçambique, junto à fronteira com a antiga Rodésia [Zimbabué] quando se deu a revolução. A população desconhecia que estava planeada, mas alguns militares já tinham conhecimento de que algo iria acontecer. Ouvimos numa rádio da África do Sul que tinha havido uma revolução em Portugal. Senti que o que estava a acontecer nunca poderia piorar a situação vivida no país.” José Marques, antigo combatente em Moçambique entre 1972 e 74 “Estava de serviço em reforço no quartel da Pontinha, em Lisboa. Senti medo porque desconhecia o que estava a acontecer.” Venâncio Filipe Anastácio, antigo militar e combatente no Ultramar

“Estava em Benguela, Angola, a frequentar o 6º ano de liceu. A notícia do 25 de Abril só chegou ao meu conhecimento no dia seguinte, mas trouxe-me uma grande esperança na possibilidade de mudança política e cultural, quer em Portugal continental quer nas províncias ultramarinas.” Aurízia Anica, professora da Universidade do Algarve


PORTUGAL

Escolha de novo provedor pode estar para breve

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Foto: Visão

escolha de um novo prove- terços dos 230 deputados. Neste cício de um mandato cujo prazo dor da justiça pode es- caso será preciso recorrer-se a legal está longamente excedido” tar para breve. Durante uma segunda volta de forma a con- mas não considera toda esta situauma conferência de líderes dos seguir esta marca. Esta situação ção uma tragédia grega, apelidanprincipais partidos portugueses pode vir a ser difícil para o PS, do-a de ‘comédia à portuguesa’. chegou-se a um consenso e 15 de que precisa de conseguir votos de Durante todo este processo Maio é a data limite para eleição 154 deputados, que representam foram várias as afirmações que do cargo. As candidaturas devem os votos de toda a oposição, ex- Nascimento Rodrigues teceu em ser apresentadas até 24 de Abril. cepto o PSD, conseguirá eleger o relação a esta situação que o secreEmbora a decisão tenha sido provedor pela margem de um voto. tário-geral do PSD, Luís Marques chegada por unanimidade, o CDSO Provedor da Justiça, Nasci- Guedes, considerou que seria “de PP considerou como solução para mento Rodrigues, actualmente de muito mau tom” . Uma delas ceneste problema o facto de o Presi- baixa médica entrou em funções trou-se no ‘apetite’ que o partido dente da Assembleia da Republica em 2000, tendo sido reeleito em do governo nutre por este cargo. começar a funcionar como media- 2004 para continuar a exercer fun- O provedor da Justiça afirmou dor deste processo, sendo impre- ções. A primeira eleição para um que ‘percebo mal o apetite do PS scindível que se efectue alguma sucessor de Nascimento Rodrigues pelo lugar do Provedor de Justiça’ alteração no processo de escolha esteve já marcada para Julho pas- acrescentando que o partido sodo provedor. Jaime Gama prefere sado, altura em que chegavam ao cialista, que ocupa já todos os altos não interferir na escolha do cargo, fim os quatro anos de mandato do cargos públicos, faz lembrar o Zeca deixando isso a cargo dos partidos, actual provedor, mas os desenten- Afonso:’eles comem tudo’. Estas que se têm reunido com frequência. dimentos entre o PS e o PSD le- afirmações foram mal recebidas Apesar de a imposição desta varam a um adiamento da escolha pelo PS e o porta-voz do partido, data tenha sido, segundo os co- para 10 de Outubro. A verdade é Vitalino Canas, considerou-as ‘inmunistas e bloquistas, bastante que também nessa data não havia felizes’, dizendo também que não benéfica para pôr pressão sobre acordo entre os dois partidos. lhe ‘parece bem que uma pessoa o processo, a um pouco mais de Nascimento Rodrigues afir- que exerce um determinado cargo um mês da data estipulada, parece mou: “Não estou satisfeito e se pronuncie e procure condicioser muito difícil cumprir o prazo acomodo-me mal por me ver nar a escolha do seu sucessor’. acordado se as candidaturas forem obrigado a permanecer no exerrelegadas para o ultimo dia, uma vez que o Regimento da Assembleia da República impõe que o candidato a provedor de Justiça deverá ser apresentado “perante o presidente da Assembleia até 30 dias antes da data da eleição” e deverá também ser ouvido previamente pelo Parlamento entre a data da apresentação e a da eleição. Outro dos possíveis cenários é o de não se chegar a um nome durante as votações, que deverá ter uma maioria de pelo menos dois 15 de Maio é a data imposta para eleição do sucessor de Nascimento Rodrigues. 7


PORTUGAL

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Projecto de dislexia dá o primeiro lugar a investigadora da UTAD

riana Ferreira Loff, investigadora na área da Dislexia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, foi considerada a melhor entre centenas, o que a levou à vitória do concurso “Marie Curie Early Stage Researcher”, que é atribuído anualmente pela Fundação Marie Curie, em Clermond-Ferrand, ao melhor projecto desenvolvido na área da dislexia de crianças. Ariana Loff mudou-se para York, Inglaterra, onde passará os próximos três anos a trabalhar num posto de investigação da Universidade da cidade e a usufruir do seu prémio, uma bolsa de doutoramento. Através de um inevitável sentimento de orgulho, Ariana dedica este prémio aos seus pais, em especial ao seu progenitor pela ajuda e compreensão que sempre lhe ofereceu nos seus primeiros passos

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Genéricos e Medicamentos: Guerra económica ou legalidade?

Ministra da Saúde declarou que o Serviço Nacional de Saúde não irá pagar às farmácias as comparticipações dos medicamentos que forem substituídos pelos genéricos sem autorização do médico. No fim da cerimónia do dia mundial da saúde, Ana Jorge foi questionada sobre a guerra entre médicos e farmacêuticos, devido à iniciativa da Associação Nacional de Farmácias (ANF) em substituir medicamentos pelos genéricos correspondentes mais baratos, mesmo com a oposição do médico. A ministra referiu não ter conhecimento sobre tal medida, clarificando só saber que as farmácias iriam realizar uma campanha de informação so8

Foto: SAPO

como investigadora, que começaram antes de acabar o curso para se tornar professora do 1º ciclo do Ensino Básico com um projecto da Unidade de Dislexia da UTAD sobre questões Investigadora da UTAD premiada internacionalmente específicas do Português, finan- ordenado por Margaret Snowling. ciado pela Fundação para a CiênClassificando como excelente cia e Tecnologia e sob a orienta- o serviço da Unidade de Dislexia ção da docente Ana Paula Vale. de Vila Real, Ariana não esconde Seguiu-se o mestrado mas, se- o entusiasmo da mudança para gundo Ariana Loff, a sua vontade um centro de investigação de exmaior era o doutoramento e foi celência mundial, mas revela a isso que a levou a participar neste vontade de voltar para Portugal concurso e concorrer para o posto e aplicar o seu conhecimento. mais prestigiado, o de York, coRITA CAEIRO

bre os preços dos medicamentos. A legislação deste assunto determina que a alteração dos medicamentos prescritos no momento da dispensa só pode acontecer mediante o pedido do utente e com autorização indicada do médico prescritor. Contudo, desde o primeiro dia do mês de Abril que as farmácias iniciaram a substituição dos medicamentos receitados pelos médicos por genéricos mais baratos, uma medida que o Ministério da Saúde considerou “ilegítimo”, ao que a ANF responde não haver qualquer tipo de ilegalidade, uma vez que estas não estão sujeitas a aplicar a mesma metodologia que é seguida nos hospitais. Já Ana Jorge afirma que são

processos completamente distintos, que compreendem formulários específicos nos meios hospitalares e que são elaborados por uma equipa multidisciplinar. Acrescenta ainda que as receitas modificadas que seguem para as Administrações Regionais de Saúde (ARS) até ao dia 10 de cada mês vão ser devolvidas às farmácias, pois é neste dia que as farmácias entregam as receitas para receberem o valor da comparticipação que o Serviço Nacional de Saúde dá a cada fármaco determinado pelo médico. Deste modo, as farmácias não recebem o pagamento das comparticipações alegadamente falsas. RITA CAEIRO


MUNDO Foto: AFP

Bento XVI visita África e alimenta polémica

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A primeira visita oficial marcada pelo apoio de milhares de crentes e por declarações polémicas sobre o uso do preservativo.

o dia 17 de Março, o Papa Bento XVI, iniciou um périplo de sete dias pelo continente africano. Com passagem pelos Camarões e Angola, neste último país foi recebido por uma multidão festiva que o esperava ansiosamente. Começou nos Camarões a visita do Papa em África, e mesmo antes de aterrar no aeroporto de Yaounde, a polémica já estava instalada em consequência das declarações prestadas a bordo do avião, onde Bento XVI defendeu que a solução para o problema da Sida não passava pela distribuição de preservativos, acusando os seus utilizadores de agravarem o problema. O papa apelou à abstinência para combater a doença. Num continente em que a Sida tem um impacto devastador, com cerca de 22 milhões de pessoas infectadas, tais declarações tornaram-se um pouco escandalosas, especialmente porque vinham de uma pessoa que deveria zelar pelo bem-estar da população mundial e que alguns esperavam que alterasse as teses da Igreja Católica.

Polémicas à parte, a visita do Papa por terras africanas continuou. No dia 20 de Março, Bento XVI, chegou a Luanda onde foi recebido pelo chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos, e pelo primeiro-ministro, Paulo Kassoma. Mas, além destes, milhares de pessoas concentraram-se nas ruas que dão acesso ao aeroporto 4 de Fevereiro, na tentativa de conseguirem ver de perto a passagem do Sumo Pontífice. Esperaram-no, também, 30 mil jovens. A reunião no Estádio dos Coqueiros ficou marcada pela morte de duas pessoas, esmagadas pela população sedenta de ver o Papa Bento XVI ao vivo. No dia seguinte, o Papa relembrou as duas vítimas nas missas que celebrou, dizendo-se profundamente abalado com tal acontecimento. O grande dia do Papa em África foi o 22 de Março. Era Domingo e o espaço da Esplanada da Cimangola, um terreno de 20 hectares, a 14 km de Luanda, foi invadido por uma multidão de crentes, entre um milhão e uma milhão e meio, eOque rapidamente novo Ferrari F-60 fizeram esquecer os problemas do Catolicismo

em Angola, onde este sempre foi ensombrado por igrejas alternativas, de inspiração evangélica, e onde os cultos locais e práticas de feitiçaria são muito populares e bastante condenadas pelo Papa. Bento XVI procurou chamar o povo à “verdadeira” fé, não se esquecendo de alertar os líderes africanos para respeitarem os direitos humanos, a democracia e a justiça. O Santo Padre não esqueceu também a corrupção, as guerras e as mulheres africanas, que tanto sofreram de abusos e maus tratos ao longo de tantos anos. No dia 23 de Março este périplo de Bento XVI chegou ao fim, da visita fica um balanço positivo para a Igreja Africana. Apesar da polémica do preservativo que marcou o início desta viagem, esta foi rapidamente ultrapassada, quando o Papa centrou as suas atenções na pobreza africana e no apelo da comunidade internacional para ajudar este continente, apelando ainda ao fim da corrupção numa tentativa de manter a tão desejada paz. RAQUEL RODRIGUES 9


MUNDO Foto: timesonline.co.uk

O monstro de Amstetten

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oseph Fritzl, violou a sua filha mais velha, durante 24 anos. Uma cave, sem luz. Um mundo de mentiras e sufoco a que Elisabeth teve de se submeter desde os 18 anos. 7 filhos, 1 morto. 3 adoptados pelos avós, num plano delineado por Fritzl para fazer a mulher crer no poço de falsidades a que submeteu a família. 1984, 24 de Agosto. O início da longa viagem de Elisabeth Fritzl. O dia em que o seu pai a prendeu no porão da sua casa, no sul da Áustria. Drogá-la, algemála e mantê-la prisioneira eram os planos de Joseph Fritzl. Um abuso que se manteve até Abril de 2008. Actualmente, pai e avô de 7 crianças, uma delas morreu pouco depois de ter nascido, foi descoberto pelas autoridades enquanto levava a filha ao hospital por problemas de saúde. Soube-se então que Fritzl violava Elisabeth em frente às crianças e que, três destas tinham sempre vivido na prisão subterrânea, sem nunca terem visto a luz do dia. 10

Quando sequestrou o seu rebento, em 1984, explicou à polícia que ela tinha sido levada por uma seita e, como evidência, fez com que Elisabeth escrevesse uma carta, dirigida aos pais, pedindo que parassem de procurá-la. Como pai autoritário que era, proibiu todos de visitarem o porão, alegando tratar-se do seu atelier. Todas as noites, levava comida para a filha e para três dos seus filhos, enquanto que para os outros três preparou um plano para revelar a sua existência e adoptá-los como avô. Os três foram colocados, com poucos meses de vida, à porta da sua casa, com cartas anexadas escritas por Elisabeth. Uma delas, de 1993, dizia: «O bebé tem nove meses, terá uma vida melhor com os avós do que comigo.» Entre as cartas falsas de Elisabeth, supostamente desaparecida desde que tinha 18 anos de idade, a mulher de Fritzl acreditou na história encenada e viveu, durante os 24 anos do desaparecimento da filha, angustiada e a

cuidar dos seus netos supostamente abandonados, longe de pensar que esta vivia sob o mesmo chão que pisara todos os dias. Elisabeth, que agora tem 42 anos, declarou que o pai a violava desde os 11 anos e que, em 1984, a trancou no porão e que, durante os 24 anos de cativeiro, foi sistematicamente alvo de agressões e violações. Josefh Fritzl, nascido a 9 de Abril de 1935 na Áustria, já tinha sido acusado de vários crimes sexuais no ano de 1967, os quais já tinham prescrito e cujos registos foram apagados quando ele solicitou e obteve a adopção dos filhos-netos. Uma descoberta feita pelo jornal austríaco «Oberösterreichischen Nachrichten», em Maio de 2008. «Eu sabia que a Elisabeth não queria que eu fizesse o que estava a fazer. Sabia que a estava a magoar. Aquilo era como um vício. Na verdade, eu desejava ter filhos com ela», assumiu Fritzl no julgamento que o condenou a prisão perpétua. O julgamento de Josef Fritzl


MUNDO teve início no dia 16 de Março de 2009. Fritzl entrou no tribunal rodeado de seis polícias e a segurar uma pasta azul em ambas as mãos para evitar que o fotografassem. «É culpado do crime de incesto?» perguntou a presidente do tribunal. «Sim.», respondeu Fritzl. «É culpado do crime de sequestro? Sim. É culpado do crime de violação? Sim, em parte.» Inicialmente, confessou-se culpado por incesto e sequestro, mas negou a acusação de assassinato no caso da morte de um dos recémnascidos no cativeiro e, em parte das violações. No dia seguinte, após ter assistido às 11 horas de depoimento da sua filha Elisabeth, gravado em vídeo e exibido numa sessão de portas fechadas, decidiu declarar-se culpado. «Assumo a culpa de todas as acusações», disse. Contudo, a psiquiatra Adelheid Kastner, afirma que Fritzl não sofre de uma necessidade forçosamente ligada ao impulso sexual. «Ele tem de se sentir saciado, seja sexualmente seja de outro modo», explicou. «Enquanto tiver pulsões sexuais, manifestará a sua necessidade de poder, mas esta não irá desaparecer com o fim das pulsões

sexuais», disse Kastner, sublinhando que Fritzl tinha consciência de «ter nascido para violar». Nas entrevistas com a psiquiatria, o acusado também revelou ter sido vítima de maus-tratos por parte da sua mãe, durante a infância. A explicação para o facto de Fritzl ter engravidado tantas vezes a filha reside naquela necessidade de poder. «Quantas mais crianças houver, mais ele sente que controla a situação e pode exercer o poder», referiu a psiquiatra. Citando o facto de Fritzl ter tido uma infância difícil, Adelheid Kastner citou uma frase do austríaco que sintetiza toda a sua personalidade: «Escolhi Elisabeth porque era a mais parecida comigo, a mais forte. Quanto mais forte a oposição, maior o sabor da vitória.» No dia 19 de Março de 2009, após 4 dias de julgamento, Fritzl foi julgado culpado e condenado a prisão perpétua pelos crimes de incesto, violação, homicídio, sequestro e escravidão. A filha de Fritzl e os seus seis filhos, três dos quais encarcerados desde o nascimento, vivem agora numa casa cuja morada é desconhecida.

Os últimos dados do estudo do caso revelam que os planos de Fritzl para a construção do cativeiro podem ter sido iniciados em 1978, desde que Elisabeth tinha apenas 12 anos. Segundo a equipa de investigação oito portas separavam Elisabeth do mundo. Ausência da luz do dia, de pessoas, de ar puro. Mentiras e cativeiro. Foi a vida que Joseph Fritzl proporcionou à filha desde os 18 anos de idade. Segundo os estudos, Fritzl terá pensado em tudo para que a cave da casa onde sempre viveu, em Amstetten, a oeste de Viena, fosse uma espécie de prisão de alta segurança. O responsável da cadeia onde Joseph Fritzl está preso afirmou que o homem está bem. O advogado, Rudolf Mayer, defendeu que, apesar da premeditação com que Fritzl levou a cabo os seus planos, estes foram motivados por insanidade mental «Na minha opinião trata-se de um homem doente, que não é responsável pelos seus actos e que não deve estar numa prisão mas numa instituição psiquiátrica». MARTA MIRANDA Infografismo: AFP e Sapo

Joseph Fritzl e a sua “Casa dos Horrores”

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MUNDO Foto: AFP

Itália volta a tremer Doze anos depois do último sismo significativo, Itália voltou a sentir que a terra lhe fugiu debaixo dos pés. O pesadelo das 3.32h

O

anoitecer revelava-se silencioso e a grande “bota” dormia sob o escudo protector de César quando subitamente sentiu a terra tremer durante trinta segundos. Trinta segundos de caos, medo e incerteza que ficarão para sempre guardados na memória de quem os viveu. Depois disso, nada poderia ser igual. Áquila, cidade no centro de Itália, foi a mais atingida, sendo que o epicentro da tragédia se deu a apenas 10 km, numa localidade medieval próxima. O sismo que sacudiu a região assombrou não apenas Itália mas também o mundo com os seus impressionantes 5,8 de magnitude na Escala de Richter, colocando-o no topo dos maiores abalos sísmicos vividos no país. Roma, Pettino, Scoppito ou Pescara foram apenas algumas das cidades que acordaram com o “abanão” que a 6 de Abril de 2009 alertou o mundo para 12

a necessidade de criar infra-estruturas devidamente preparadas para as catástrofes naturais. Áquila, à semelhança de muitas outras cidades no país e no mundo foi apanhada completamente em contrapé e viu ruir em segundos o património que preservou durante anos. Os balanços provisórios dão-nos conta de 15 mil edifícios destruídos, numa cidade que procura desesperadamente o regresso à tranquilidade. Todavia, e acima de tudo, Áquila procura ainda tempo para chorar os seus 260 mortos (número aproximado), lutar contra os escombros por 250 desaparecidos e amparar os 1500 feridos e os 100 mil desalojados, fruto da tragédia. Recorde-se que desde a madrugada de segunda-feira que a terra continua a tremer, sendo que já se fizeram sentir 430 réplicas até ao momento, registando uma delas o valor de 5.6 na Escala de Richter e fazendo com que o pânico se instalasse novamente

por entre a população italiana. Entretanto, o Governo Italiano já garantiu que no decorrer da próxima semana os sobreviventes serão provisoriamente realojados, após terem sido erguidos 14 hospitais de campanha, 31 campos de tendas e 24 cozinhas. Os avisos Giampaolo Giuliani é o nome do homem que diz ter previsto com semanas de antecedência a tragédia. Segundo relatos, o sismologista pegou num megafone e visitou Áquila com o objectivo de evacuar a cidade, informando os seus habitantes de que estava iminente a ocorrência de um sismo. No entanto, a teoria de Giuliani, baseada na concentração de gás rádon nas zonas sísmicas activas, acabou por ser completamente menosprezada pela população e pelo próprio Presidente da Câmara que denunciou o cientista às autoridades, acusando-o de es-


MUNDO palhar o pânico entre a população. Contudo, as autoridades acusaram o “toque” e no dia 31 de Março a Protecção Civil italiana decidiu reunir-se com o objectivo de avaliar os riscos de ocorrência de um sismo de grandes dimensões. As conclusões da reunião sossegaram a população e asseguraram que não havia, na altura, motivos para alarme. Segundo os entendidos, apesar dos pequenos abalos que vinham assolando a região desde há algum tempo, tudo fazia parte de “uma sequência normal”, tendo em conta que a área em questão se tratava de uma zona sísmica. Acrescente-se que a própria Protecção Civil italiana desvalorizou as previsões de Giuliani, afirmando que “sempre que há um sismo há pessoas que dizem ter previsto o incidente”. O que é certo é que na madrugada de 6 de Abril de 2009, após um violento abalo sísmico, Itália viria a confirmar da pior forma as previsões do cientista. Portugueses no centro da tragédia Liliana Ferronha e Marta Bento, estudantes portuguesas em Áquila, ao abrigo do Programa Erasmus não poderiam começaram de pior forma o semestre académico e a experiência de estudar fora do país. Perceberam-no na madrugada da tragédia quando a terra tremeu e o coração quis regressar ao país natal. Liliana Ferronha recorda atemorizada o momento em que se apercebeu do que acontecia: “Foi horrível, acordei assustada, eram três e tal da manhã e as minhas colegas sal-

taram todas das camas, mas eu não me conseguia mexer, porque estava tudo a tremer, não sabia o que fazer”. O sismo ocorrido deixou marcas profundas nas duas portuguesas que, dois dias depois, e já em terras lusas, confessam que “o barulho, o alvoroço e o caos” não lhes saem da cabeça. Contudo, e para além destas duas alunas, havia mais 5 portugueses no centro da tragédia: Gustavo Botelho, Sílvia Fernandes, Isabel Ferreira, Rita Fouga e Paula Gomes. De entre os sete que testemunharam na passada segunda-feira o terramoto, apenas Gustavo Botelho continuará por terras transalpinas, sendo que os restantes regressarão a Portugal para retomar os estudos nas suas universidades de origem. Itália de Luto As marcas da tragédia não ficaram apenas no coração de todos os portugueses presentes no local, mas também nos de todos aqueles que em diferentes regiões de Itália ou até mesmo noutras partes do mundo tomaram conhecimento do sucedido através da televisão.

De forma a atenuar o luto de todos aqueles que sofrem, Sílvio Berlusconi, Primeiro - Ministro Italiano confirmou que será celebrado, na Sexta-feira da Paixão, um funeral colectivo solene. A cerimónia será conduzida pelo bispo de Áquila, monsenhor Giuseppe Molinari, e o dia será considerado de luto nacional. Assim se cumpre o desejo das autoridades religiosas locais de que os funerais das vítimas sejam realizados na época pascal. Num outro âmbito, também o Papa Bento XVI anunciou que visitaria nas próximas semanas a região afectada, compartilhando da dor e preocupação de todos os envolvidos. Concluindo a sua intervenção o Sumo Pontífice elogiou o esforço dos socorristas, das autoridades e dos voluntários, bem como a solidariedade demonstrada para ultrapassar o flagelo. Enquanto os funerais não se realizam, as famílias continuam a velar os seus mortos no centro de coordenação de resgates, instalado pela protecção civil a seis quilómetros do local da tragédia. ISA MESTRE Foto: EPA

Primeiro ministro, Silvio Berlusconi, visitou a zona mais afectada

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MUNDO Foto: Wiki Commons

O massacre que a América não esquece

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0 de Abril de 2009. Volvidos dez anos desde o Massacre de Columbine, no Condado de Jefferson, Colorado, nos Estados Unidos, muitos são aqueles que se revelam incapazes de esquecer o fatídico dia em que dois estudantes, Eric Harris e Dylan Klebold, foram protagonistas da morte de doze alunos e uma professora na escola Secundária do Colorado. Eric e Dylan, com 18 e 17 anos, respectivamente, eram aparentemente jovens normais. Criados no seio de famílias de classe médiaalta e usufruindo de todos os confortos, nada faria prever a tragédia. No entanto, a 20 de Abril de 1999, o Instituto Columbine, que não registrara até então qualquer caso de violência, deixaria de ser conhecido como espaço de realização pessoal de milhares de alunos e ficaria inevitavelmente manchado pelo sangue derramado pelos jovens estudantes. Eric Harris e Dylan Klebold, ambos adeptos das novas tecnologias, já haviam indiciado no seu website pessoal os planos de vingança, extravasando na internet o seu ódio através de atitudes tão 14

bizarras como: coleccionar cruzes suásticas, slogans neonazis e até mesmo fornecer instruções para a confecção de bombas. Auto-retratando-se, um dos jovens afirmara convictamente: “Mato aqueles de quem não gosto, jogo fora o que não quero e destruo o que odeio”. Foi seguindo este lema, que a 20 de Abril de 1999, data do aniversário da morte de Adolf Hitler, os dois jovens entraram no Instituto Columbine armados com duas pistolas e algumas bombas caseiras, para matar 12 pessoas e marcar o dia 20 de Abril como o inicio de uma triste caminhada de violência e crime no interior das escolas americanas. No entanto, o historial de criminalidade não remonta apenas aos últimos acontecimentos, sendo que já em 1997-98 o mundo registara 42 homicídios em escolas americanas. Que triste realidade a que vivemos? A realidade de jovens solitários que se refugiam na internet? Ou a realidade de jovens de classe média, rodeados de conforto, aos quais falta apenas atenção? Não seriam Eric Harris e Dylan Kle-

bold apenas “meninos invisíveis”? Daqueles que, esquecidos durante tanto tempo, precisam de se mostrar ao mundo, seja de que forma for? Os media especularam que o excesso de tempo em frente ao computador e as perigosas ligações à internet pudessem estar na origem do despoletar da tragédia, mas jamais foram capazes de questionarse por que motivo Eric e Dylan se refugiavam na “teia” da internet. Para combater a solidão? Para se acreditarem mais humanos e se mascararem tantas vezes sob a face obscura do desconhecido? Para se reverem em tantos outros que buscaram o mesmo caminho para fazer frente à tristeza? Não sabemos, nunca poderemos saber. Aquilo que o mundo nos mostrou foi apenas o derradeiro final de uma história da qual desconhecemos o início. O final da manhã de 20 de Abril de 1999, o final da vida de doze inocentes, o final de Eric Harris e Dylan Klebold e o inicio do pesadelo para aqueles a quem a dor da perda retirou quase tudo. ISA MESTRE


MUNDO Foto: fotografias.net

A Gravidez já não é exclusiva das Mulheres!

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os tempos que correm já podemos dizer que os rapazes já podem partilhar experiências que só as mulheres podiam ter. Engravidar. São casos raros, mas que podem acontecer. Rúben nasceu uma rapariga. Fany nunca foi sentida como uma mulher. Actualmente, por fora rapaz e rapariga por dentro. «Sinto-me como um homem, mas biologicamente sou mulher e engravidei.», Afirma Ruben. Passados oito anos de viver como uma mulher percebeu que queria ser homem e iniciou o tratamento hormonal para ter aparência masculina. O que não fez foi a mudança dos órgãos sexuais e, por isso, pode ter filhos. Hoje, com 25 anos, é técnico de som e imagem e vive em Barcelona com a sua mulher, Esperanza, de 42 anos. Foi graças a um tratamento de fertilização que conseguiu engravidar, com um óvulo seu e esperma de um dador. Ruben não tentou só agora engravidar. A sua primeira tentativa não correu pelo melhor e sofreu um aborto espontâneo. Agora, já de 9 semanas, está a espera de gémeos. Setembro será o mês em que

dará à luz os seus rebentos, mas como sofre de epilepsia e neuropatia, tem uma gravidez de risco que o pode atirar para uma cadeira de rodas. Ruben é o primeiro transexual grávido de gémeos e, por isso, a mediatização está a gerar uma onde de censura, de tal modo que até os transexuais criticam a ambiguidade da sua identidade. Com uma infância difícil, o futuro pai decidiu dar uma reviravolta à sua vida e fazer aquilo que realmente o faria feliz e com que se sentia bem. Aos setes anos descobriu que fora adoptado e durante a adolescência foi rejeitado pelos colegas de escola pelos maneirismos masculinos que exibia. Foi em Agosto de 2001 que percebeu que não podia continuar preso a um corpo de mulher se tudo o que sentia era de um homem. O momento de viragem aconteceu quando um empregado de mesa o tratou como se fosse um homem e ele se sentiu confortável com a situação. Saiu do café e foi comprar roupa de homem. Nesse dia, Fany foi enterrada e nasceu Ruben Noé.

Até os pais recusaram aceitar a nova identidade do filho. Ruben teve de mudar de localidade e, ainda hoje, o pai não atende os seus telefonemas. «Diz que quer a menina que adoptou, não eu», contou Ruben ao jornal “El País”. Confortável com a identidade que adoptou, vive feliz com a sua companheira, mãe de duas crianças, mas que já não pode engravidar novamente. A família da sua mulher também não aceita o facto de a sua filha viver com um transexual, o que impede o casal de fazer planos de casar brevemente. No registo de identificação, onde já existem cerca de mil transexuais que mudaram de identidade, Ruben continua a ser mulher, mas tenciona completar o processo de mudança de sexo logo que os filhos nasçam. «Penso, ajo e sinto com um homem», afirmou ao jornal “El Mundo”. O facto de querer passar pela experiência da maternidade não constitui, na sua opinião, uma contradição. «Estou no meu direito de ter filhos. Vamos ser um pai, uma mãe e dois filhos. Não vejo qual é o problema», acrescenta. Das mais de 160 clínicas de fertilidade de Espanha, só uma aceitou fazer-lhe o tratamento e está a ser fortemente contestada. Mas este pode ser apenas o primeiro caso, já que Ruben garante que outros 16 transexuais já lhe pediram informações sobre como engravidar. Nascido como mulher mas a viver como um homem, Ruben engravidou e vai ter o seu filho. Não á nenhuma aberração da natureza dado que, o seu corpo biológico é o de uma mulher, portanto o bebé não poderá nascer com deficiência devida a esse facto. Só o aspecto exterior de Ruben é que mudou. Exterior às acusações e às críticas de todos os que o rodeiam, Ruben Noé vai ter os seus rebentos no mês de Setembro e viver a vida como um pai feliz, com a diferença de que foi ele que as teve e não a mãe. RAQUEL RODRIGUES 15


CULTURA Foto: clubedeteatrotapetemagico.blogspot.com

Talento de Ana Cristina Oliveira ilumina palcos do Levante Segredos do Levante é a mais recente obra da mulher que revolucionou o teatro algarvio

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izem que escreve sobre “a perplexidade de um mundo dissolvido nas brisas levantinas”, dramatizando “fantasias alheias” e deixando-se encantar pelo universo que um dia deslumbrou Manuel Teixeira Gomes. O universo situado a Sul que um dia viria a conquistá-la também a si. De seu nome Ana Cristina Oliveira, esta é a mulher que “borda palavras no fio de tempos cruzados”, a mulher que em criança coleccionava imagens de grandes escritoras, ambicionando um dia poder ser como elas, poder fazer frente ao mundo com a maior arma de todas: a caneta. Nascida no ano de 1963, em Lisboa, a escritora e dramaturga Ana Cristina Oliveira estaria longe de imaginar que um dia o Algarve viesse a acolher o seu talento e ser porto de partida para um universo de descoberta e ambição. No entanto, em 1993 e na condição de professora colocada numa pequena vila algarvia para ensinar Filosofia, a autora do livro “Segredos do Levante”, deparou-se com a necessidade urgente “de vozes famintas de um texto” que desse cor ao viver das gentes e lugares e, sobretudo ao património cultural algarvio. Foi com este desejo no bolso que Ana Cristina Oliveira, licenciada em Filosofia pela Uni16

versidade Nova de Lisboa, decidiu avançar para a sua primeira aventura dramatúrgica: o Memorial do Moleiro ou Evocação das Mouras no Sítio das Fontes. A esta obra seguiram-se o Auto da Muy Formosa Madalena, Maria Adelaide e Querenças e Virtudes, entre outras obras que galvanizaram a professora Ana Cristina Oliveira no panorama teatral algarvio e nacional. A dramaturga confessa hoje que deve muita da sua evolução à província: “ O vento do Levante ensinou-me a confiar, a arriscar e a escrever textos”, no entanto, não esquece a que confessa ser a sua maior inspiração: os seus alunos. Ana Cristina Oliveira, desenvolve a par do seu trabalho como professora na Escola Secundária de Pinheiro e Rosa, a direcção do grupo teatral desta escola: o Tapete Mágico. Sem reservas e com toda a sinceridade, Ana Oliveira admite que são os alunos que lhe dão ânimo para continuar a escrever peças de teatro que muitas vezes são interpretadas por eles mesmos. Exemplo disso são peças como Andanças e Errâncias do Amor e da Discórdia (1996), Do Trágico ao Sublime (2003), Três Versões da Vida (2005), Qual a distância que vai do meu coração ao teu? (2006) e mais recentemente

A Sombra do Tempo (2008). Desde 1993 até então muitos têm sido os palcos, muitas as experiências vividas, mas na mente de Ana Cristina Oliveira apenas uma certeza, a de que “o teatro pode nascer em qualquer sítio e mostrar-se em qualquer lugar”. Assim, nasceu este ano mais um rebento do talento e irreverência da professora, com a edição de Segredos do Levante, um livro que nos mostra “o percurso de descoberta, o deslumbramento e a compreensão da mundividência e identidade das gentes algarvias”, compilando nesta obra quatro peças de teatro que prometem encantar o público e revelar-lhe os mais profundos segredos do Levante. Todavia, o lançamento do livro não esconde apenas segredos e é com toda a franqueza e os olhos a brilhar que Ana Cristina Oliveira confessa: “ Este livro que acabei de publicar é um tributo a todos os alunos que ao longo destes anos acreditaram em mim”. Nas suas palavras e auto-caracterizando-se Ana Cristina Oliveira assume-se como “distraída mas exigente, naive e apaixonada” e promete continuar a conquistar o Algarve com o doce sabor das suas palavras, as palavras do Levante. ISA MESTRE


CULTURA Foto: anadebarros.blogspot.com

«EFEITO IMEDIATO»

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Emancipação. Interesse. Machismo. Imprevisto.

ma mulher de armas. Um ex-marinheiro interesseiro e apaixonado. Um alemão disposto a qualquer situação em troca de remuneração. O inesperado. São estas as componentes para um serão agradável na companhia da ACTA (A Companhia de Teatro do Algarve), que levará ao palco do Teatro Lethes (Faro), entre 23 e 25 de Abril, a sua 47º produção – a ópera cómica “Efeito Imediato”. Guiomar Bravo (interpretada pela soprano Ana Barros), dona do bar onde trabalha, vive na mira de Bino Mota (interpretado pelo tenor João Cipriano Martins). O ex-marinheiro desempregado tenta a sua sorte entre várias manobras de sedução, com vista a juntar o útil ao agradável, casando-se e tornando-se patrão. Mas todos os esforços de conquista falham consecutivamente. Um dia, entre cervejas e piadas, acaba por conhecer o alemão Edmund Tavares (interpretado por Nuno Dias), gabador das suas proezas enquanto tropa especial. Ansioso por casar-se com Guiomar e sempre atento a toda e qualquer oportunidade de se exibir perante a jovem, Bino propõe a Edmund o plano disparatado de fingir um assalto ao bar da protagonista, sendo o alemão convidado a desempenhar o papel de ladrão, em troca de uma boa remuneração. O objectivo é assustar Guiomar e, no momento certo, Mota entrar em cena como um verdadeiro herói, salvando-a de perigo. Um acto mirabolante com vista ao casamento. Um plano que tem tudo para… dar errado. Precavida por viver sozinha, Gui-

omar tem em sua posse uma pistola e não se coíbe de usá-la. A protagonista, uma mulher emancipada, imobiliza o falso ladrão e “vira o feitiço contra o feiticeiro”. No final, é Bino Mota quem acaba por confundir ilusão com realidade. Ao invés do pub inglês do século XIX referido no texto original imaginado pela compositora e activista feminina Ethel Smyth, a ACTA coloca em palco uma colorida caravana de campismo. Igualmente improváveis, os diálogos surgem não só em português, como em inglês e alemão, de uma forma natural e compreensível. “Essencialmente, o que quisemos fazer foi um espectáculo de cariz humorístico”, revela José Lourenço, um veterano da comédia. De acordo com o encenador, um dos aspectos mais sedutores da ópera «The Boatswain’s Mate» assenta no desejo de articular teatro, música e humor. Três das armas utilizadas por Ethel Smyth na luta pelo direito de voto das mulheres na Inglaterra do princípio do século XX. «Empunhar hoje as mesmas armas pareceu fazer sentido se apontadas para comportamentos sexistas que ainda subsistem e, portanto, actualizando personagens, acções e lugares. Fazendo eco deste “ângulo de ataque” dramatúrgico, a encenação, ora ignorando a quarta parede, ora enfatizando a teatralidade ou, pelo contrário, camuflando-a, cultivou a partilha do mesmo espaçotempo por parte de espectadores e intérpretes», salienta a ACTA. José Lourenço regressará à

ACTA para estrear a 27 de Maio, em Faro, «Ensaio Aberto, Elenco Incerto», um projecto de teatro e música, a partir de Jean-François Sivadier. Até lá, resta-nos não faltar a este “Efeito Imediato” recheado de humor, música e teatro, acompanhado ao vivo pela pianista Paula Conceição. INÊS SAMINA «Os Dias Felizes»

Sugestões

Local: Teatro Garcia de Resende, Évora Dias: Até 12 de Abril de 2009 Horários: Quarta, Quinta, Sexta e Sábado - 21h30 | Domingo - 16h00 Preço: 8€ Autor: Samuel Beckett Encenador: Júlio Castronuovo Actores: Isabel Bilou e Rui Nuno «The Cachorro Manco Show»

Local: Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa Dias: De 8 a 19 de Abril de 2009 Horários: Quarta, Quinta, Sexta e Sábado - 21h45 | Domingo - 16h15 Autor: Fábio Mendes Encenador: Moacir Chaves Actor: Leandro Daniel Colombo

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CULTURA Foto: Vanessa Costa

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Houve Teatro em Albufeira!

oi no âmbito da comemoração do Dia Mundial do Teatro (27 de Março) que Albufeira acolheu aquela que foi a segunda edição do Festival Internacional de Teatro. Mapeado como capital do turismo em Portugal, o Município de Albufeira prima cada vez mais pela promoção de eventos de índole cultural, marcando assim o panorama artístico-cultural nacional. Albufeira brinda os seus munícipes e visitantes com novas opções de entretenimento de qualidade. Foi no editorial da agenda cultural do município, do passado mês de Março, que Desidério Silva, Presidente da Câmara Municipal de Albufeira (CMA), afirmou que «a aposta na dinamização de um concelho passa também pela disponibilidade em criarmos soluções que nos posicionem lado a lado com os agentes económicos e sociais locais. Em Albufeira, procurámos seguir esse caminho de forma sustentada, numa lógica de valorização desportiva, cultural e social e económica.» O Presidente acrescentou, ainda, que ao olhar para a agenda verificavase que os objectivos de trabalhar 18

de uma forma transversal a toda a sociedade foram atingidos. Quisemos comprovar isso, e ao examinar a agenda deparamonos com o evento em destaque: O Festival Internacional de Teatro de Albufeira (Festival T). Não quisemos deixar passar o evento em branco e fomos até ao município algarvio para conhece-lo de perto, e assim apresentar aos nossos leitores deste mundo contemporâneo um distinto Festival de Teatro. A maratona do Teatro No dia 27 de Março foi assinalado o Dia Internacional do Teatro. A CMA comemorou a data com uma maratona de teatro, que decorreu durante uma semana. Actores nacionais, dramaturgos algarvios e um coreógrafo italiano foram alguns dos que intervieram neste evento, transformando Albufeira no palco de uma grande festa do teatro. “Vocês sabem o que é o amor, o verdadeiro amor?” Foi com esta interrogação que se iniciou Modigliani), a peça de abertura do Festival (no dia 21 de Março), O novo Ferrari F-60 pela Companhia de Teatro Con-

temporâneo (CTC). Sem dúvida que amor à arte foi um dos ingredientes que confluiu no sucesso alcançado. O auditório encheu e os aplausos denotaram o reconhecimento do público a um teatro autêntico. A trama baseava-se na vida de Modigliani, talentoso pintor italiano, assim como a rivalidade entre este e Picasso. Dois artistas “marcados pela genialidade, pela arrogância e pelas paixões”. “Os pequeninos” não foram esquecidos, e nos dias seguintes as peças infantis Dinis no Jardim Encantado - O Segredo de Choné (C.T.C) e Peter Pan (Companhia Magia e Fantasia) levaram a este público tão especial duas histórias divertidas, onde o respeito pela Natureza, a aventura e a descoberta de sonhos foram aportados. A maratona avançou, e no dia 25, Memórias de Branca Dias (pelo CENDREV) entrou em cena. A peça trata-se de um monólogo que retratou o povo português no Novo Mundo do século XVI. No dia seguinte uma história de amor proibido, Loucos por Amor (pela companhia Cia.Paulo Lage), tratou a temática do incesto. Revelando que “o amor é mais frio que


CULTURA

a morte quando estamos loucos por amor”. A escolha desta peça (pela organização) deveu-se “ao interesse em trabalhar os conflitos do ser humano e a dificuldade e agressividade que existem nas suas relações, numa época onde tudo é tão rápido que não damos conta do quão rápida é uma relação”. O Turno da Padecida (por Os Guizos) foi a última peça apresentada. Uma comédia reflexiva onde a protagonista, Padecida, decide acabar com as injustiças e com as discriminações. Puseram-se em causa as aparências do quotidiano e as situações inesperadas que surgem quando comunicamos com outrem (que julgamos conhecer). O Festival T incluiu, ainda, um workshop denominado Bailes e Mouriscas do Renascimento, por Maurízio Padovan (um dos colaboradores da CTC, musico, professor e investigador, sendo um dos mais qualificados historiadores de dança do panorama internacional). O workshop decorreu ao longo da semana do festival e culminou num espectáculo peculiar no dia 28. Foi uma notável ocasião para revivescer a atmosfera das festas e dos espectáculos renascentistas.

Outra das novidades desta segunda edição foi a tertúlia: Noite da Dramaturgia. A conversa girou em torno de textos teatrais, onde os autores Paulo Moreira, Ana Cristina Oliveira e Sandro Junqueira e os seus actores expuseram as suas obras. Durante a noite foram discutidas múltiplas questões relacionadas com o mundo teatral.

exemplo, é notável que a CMA se tem empenhado cada vez mais em mudar este estigma. Como é que o Festival T contribui para esse feito? Sem dúvida que este foi um evento exemplar que possibilitou, de uma forma totalmente gratuita, ao público de Albufeira usufruir da arte teatral. Tal como a primeira edição do Festival T, esta segunda foi Iniciativa exemplar um sucesso. Esperamos que para o próximo ano, nos sejam daEmbora exista uma ideia quase das as boas vindas da seguinte generalizada de que Albufeira fun- forma: “Senhores e senhoras seciona exclusivamente em prol da jam bem-vindos ao Teatro!”. indústria turística, em detrimento de outras áreas, como a Cultura por GRETHEL CEBALLOS

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CULTURA

Entrevista

Luísa Augusta Monteiro Araújo de Sá

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riunda de Vila Nova de Famalicão, cidade que a viu nascer a doze de Junho de 1968, Luísa Augusta Monteiro Araújo de Sá reside no Algarve desde 1998. Licenciada em Ciências da Comunicação (pela Universidade Fernando Pessoa), pós-graduada em Comunicação e Marketing Político e em Literaturas Românicas – Modernas e Contemporâneas, é ainda doutorada em Literatura Comparada com a tese: O mito de Édipo na obra ficcional de João Gaspar Simões (Universidade Nova). Actualmente prepara o mestrado em Encenação-Teatro. Durante 17 anos dedicou-se ao jornalismo e publicou artigos literários em variadas revistas. Tem 23 obras de ficção publicadas, entre romance, novela e conto, assim como ensaio e biografia. Algumas destas obras obtiveram prémios literários, como o Prémio Florbela Espanca e o Lions Internacional, entre outros. Encenou mais de duas dezenas de trabalhos cénicos e actualmente dirige a Companhia de Teatro Contemporâneo e é encenadora residente da Companhia Guizos – Teatro. 20

Mundo Contemporâneo - Como M.C. - Qual foi o feedback do surgiu o Festival Internacional de público? Como acolheu esta iniTeatro de Albufeira? ciativa? Luísa Araújo de Sá - Surgiu da necessidade de criar em Albufeira um momento onde se celebrasse a arte do palco, de modo a oferecer ao público a possibilidade de escolha entre um variado leque de ofertas.

L.A.S. - Superou as expectativas nesta segunda edição. Casa cheia quase todas as noites. Tivemos ainda uma tertúlia em torno da dramaturgia contemporânea e um curso de Dança Renascentista com Maurizio Padovan, um dos mais ilustres mestres da área, no M.C. - Quais foram os principais qual participaram 46 pessoas. objectivos desta segunda edição? Foram atingidos? M.C. - Poderia apontar as principais dificuldades na organização L.A.S. - Melhorar em termos de um evento desta envergadura? logísticos e abarcar todo o tipo de públicos. Sim, foram. L.A.S. - Gostaríamos de ter mais recursos financeiros e uma maior M.C. - De que forma decorreu o envolvência por parte de agentes processo de escolha das peças, e que apoiassem o evento. os demais eventos que integraram este festival? M.C. - Para além de organizadora é encenadora e guionista de L.A.S. - Geralmente, vejo muito três das peças que integraram o teatro, aqui e sempre que me Festival: O turno da Padecida e desloco para fora do país, às vez- Dinis no Jardim - O segredo de es em viagens de fim-de-semana. Choné (peça infantil) e ModigliA escolha recaiu sobre duas vari- ani (nesta última deu voz a Mãe antes: preço e qualidade. de Modigliani). Poderia descrev-


CULTURA

er essa experiência e a reacção L.A.S. - Isso é verdade. O Mudo auditório em particular à es- nicípio de Albufeira tem trabalhatas peças? do arduamente para alterar alguns aspectos quase míticos do nome L.A.S. - A reacção foi excelente. Albufeira, nomeadamente, de que Para mim, não é uma experiência aqui só há bares, praias, muita pioneira. Faço teatro desde os 14 cerveja e pessoas em biquini. Não, anos de idade e com o tempo, ha- aqui há massa cinzenta, há muito bituámo-nos a trabalhar em todas trabalho e sério, e um empenho as áreas, em várias peças em si- extraordinário por parte do Presimultâneo. Seduz-me a velocidade dente, Desidério Silva, assim por dos corpos e das mentes. Também parte dos vereadores, em fazer-se se cria na velocidade que imprim- um trabalho estrutural e edificante imos ao tempo. em diversas frentes da sociedade. A Cultura deu um salto notável M.C. - Como organizadora, en- desde que Desidério Silva se colocenadora, e guionista de que for- cou à frente do Município. Claro ma vê o panorama artístico - tea- que ainda há muitíssimo a fazer tral no Algarve e, também, a nível nesta área; há, na minha opinião, nacional? questões a aprofundar, a necessitarem de um outro olhar, mas sei L.A.S. - Faz-se mais e melhor, há que está a ser planeado um grande mais público, mas as condições futuro cultural para esta cidade. E continuam muito precárias para a isto não é discurso encomendado, maioria das companhias. E isso, é a realidade, reporto-me aos facpassa-se aqui e em quase todas os tos. Com o Festival T pretende-se municípios – o de Lisboa incluí- lançar sementes para uma referdo, porque também trabalho lá, e ência teatral, não só aqui, como lá as dificuldades não são menores. fora. Já temos esse feed-back. Fui contactada por várias companhias M.C. - Existe uma ideia quase daqui, do Brasil, de Espanha e generalizada de que Albufeira Itália para poderem vir a este Fesé uma cidade exclusivamente de tival. Mas tratava-se de grandes bares e praias, que só “funciona” elencos, grandes distâncias, esno Verão. Nota-se que a Câmara pectáculos muito caros e a verba de Albufeira tem-se empenhado não chegava. Devagar, para um cada vez mais em mudar o estig- caminho mais sólido. De resto, ma de que esta localidade dá pri- ao nível teatral, as coisas estão a mazia ao Turismo, em detrimento mudar um pouco, começa a haver de outras áreas, como a Cultura um espírito cultural. É curioso por exemplo. Como é que o Festi- verificar que quando entro com val T contribui para esse feito? grupos em cafés da cidade, já vou

ouvindo, “olha, aqueles são os do teatro” e, regra geral, perguntam sempre de como decorrem os trabalhos cénicos. M.C. - Quais são os próximos projectos para o Festival T? L.A.S. - Fazer a festa em todo o município, inundarmos de teatro, a toda a hora, todos os espaços públicos, ao longo de uma semana inteirinha; um pouco como se faz em alguns estados do Brasil, e que é fabuloso. Para Albufeira, anseio algumas novidades, daqui a uns anos, como por exemplo, teatro ao domicílio para aqueles que estão impedidos por razões físicas ou financeiras, de saírem de casa. M.C. - Qual é o balanço deste curto, mas bem sucedido percurso do Festival T? L.A.S. - Muito positivo. Anseio repetir.

GRETHEL CEBALLOS

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CULTURA Foto: cm-portimao.pt

‘Dançarte 2009’ Na senda do talento Centenas de Bailarinos voltaram a encantar um Teatro das Figuras com lotação esgotada

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or, movimento, magia e muito talento. Estas são, sem sombra de dúvida as palavras que melhor caracterizam mais uma edição do Concurso Internacional de Dança do Algarve - mais conhecido por - Dançarte, que passou pelo Teatro das Figuras, em Faro, nos passados dias 3, 4 e 5 de Abril. Porque de dança se faz muitas vezes a vida, a capital algarvia recebeu, mais uma vez de braços abertos, a iniciativa destinada a jovens bailarinos de escolas nacionais e estrangeiras que têm nesta competição uma oportunidade única para mostrar o seu talento ao grande público e conquistar a tão prestigiada presença na Dance World Cup. Perante tamanha oportunidade todos quiseram marcar presença e mostrar o seu talento diante de um Teatro das Figuras com lotação máxima que assistiu durante três dias à prestação de 17 companhias de Dança, entre elas: Companhia de Dança do Algarve, Escola de Dança do Conservatório Nacional, Colégio Rainha Santa Isabel, Dutch National Ballet Academy (Amsterdão), Colégio de Artes de Saratov (Rússia) e 22

Aquarela Companhia de Dança. Os primeiros a dar mostras de talento foram os solistas femininos e masculinos que no dia 3 de Abril abriram o concurso e voltaram a iluminar uma plateia repleta de amantes desta arte. Por entre passos meticulosamente ensaiados e movimentos de pura mestria, Débora Casimiro (Companhia de Dança do Algarve) acabou por revelar o seu brilho, dançando e encantando para conquistar um lugar no pódio. Considerada a melhor solista do concurso, Débora Casimiro mostrou desde cedo a razão pela qual trabalhou arduamente durante anos e provou a todos os presentes ter qualidade mais que suficiente para conquistar um lugar ao sol na Dance World Cup, em Jersey. Também Mafalda Fideles e Ricardina Gaspar, vindas do Colégio Rainha Santa Isabel, em Coimbra, provaram estar à altura de grandes palcos conquistando a prestigiada menção de melhor dueto em prova. Por sua vez, e numa noite repleta de sucesso para a Companhia de Dança do Algarve, os bailarinos viram ser-lhes atribuído por duas vezes o prémio de Melhor Grupo,

com Caminho e Três Tempos. Contudo o engenho dos algarvios não se ficaria por aqui, sendo que de entre os 44 prémios atribuídos, a Companhia de Dança do Algarve conquistou 20 deles, mostrando uma vez mais por que razão se afirma como uma das melhores escolas de dança do país. Bailarinos como Débora Casimiro, João Martins, Inês Ferrer, Sávio Gontijo e Isis Sá começam já a ser conhecidos do grande público, afirmando-se como pedras preciosas saídas da cantera de Evgueni Beliaev, director da Companhia de Dança do Algarve. Num espectáculo em que muitos venceram, triunfou sobretudo a arte de quem dança e faz o mundo dançar, a arte de quem solta talento e agarra sonhos, a arte de quem pisa o palco como se pudesse segurar cada instante de magia. Finda a demonstração de habilidade e engenho, resta aos grandes amantes da arte, e da dança em particular, esperar pelo Dançarte 2010, que promete confirmar e revelar novos bailarinos no panorama musical nacional e internacional. ISA MESTRE


OPINIÃO

O CABO DAS TORMENTAS por DINA LAPA DE CAMPOS

É

oficial! Vamos a caminho do Cabo das Tormentas! O grande problema é que a Caravela já está velha e mete água e o Homem do Leme não se rege pelos elementos. Os instrumentos que usa já estão obsoletos. A esperança que guiou os Homens das Sete Partidas é ínfima. Já não partem na ansiedade da descoberta de novas oportunidades e horizontes, mas qual condenado a caminho do calabouço. Crise? Qual crise? Mas alguma vez, nos últimos anos, não vivemos em crise? Senão vejamos: Os mais novos quando terminam o secundário ou estudos superiores têm emprego? Os mais velhos podem usufruir de uma reforma condigna? E na doença? Recebemos cuidados de saúde com qualidade? A justiça é célere? E os seus custos são acessíveis a todos? E a Educação?...O Ministério em guerra aberta com os professores e vice-versa. E os nossos filhos – os alunos – quem os protege, quem garante a desejada qualidade no ensino? Na Saúde, as ditas reformas obrigaram mais mães a dar à luz em ambulâncias, mais casos de morte por falta de assistência atempada, mais cidadãos sem médico de família e as lista de espera infindáveis.

Nas escolas, os jovens “atafulhados” de disciplinas para poderem estar ocupados todo o dia; os professores “atafulhados” em burocracia; livros com preços exorbitantes; propinas cada vez mais elevadas. E as bolsas de estudo são para os alunos mais carentes (entenda-se carente igual a miserável), os bons alunos não merecem qualquer prémio por parte das autarquias em que vivem e estudam, pese embora o esforço das escolas em premiar os que mais se esforçam. Que dizer da Economia? Quem não está desempregado enfrenta o terror de poder vir a ficar. O crédito sem regras e o incentivo ao consumismo endividou o país. Mas socorrem-se os banqueiros agiotas e gananciosos porque esses é que precisam de ajuda do estado. Nacionaliza-se um banco mas deixam-se falir centenas de empresas. Quem produz, quem cria a riqueza de um país que vá para o desemprego, emigre ou passe fome. Que viva do subsídio de desemprego, que até já há quem ache que é demais. Conjecturas por parte daqueles que governam o nosso país com rendimentos à altura do cargo mas que desconhecem o valor do salário mínimo... E os políticos? Essa casta de seres pensantes e iluminados que confundem a nobre missão de servir o país com a missão de servir o partido. E se a tempestade precede a bonança, na política desafia-se a

lógica e facilmente se avista a bonança antes da tempestade – falo das eleições, claro! É hora de fazer promessas, de inaugurar obras e dos discursos velhos e gastos. E é vê-los num corrupio de actividades sociais, num incessante beija-mão e lisonja que desafia o estômago mais forte. Lá fora, a crise aperta. Nos EUA ameaça tornar-se uma catástrofe mas procura-se a mudança e acende-se a vontade de renascer. Por cá também se deseja a mudança mas falta-nos a inspiração. Por cá, a já alastrou às mentalidades e aos valores, deixando-nos prostrados e sem vontade. Já nos habituámos a viver com pouco, a ter pouco, a sonhar menos. Tudo pouco... menos a miséria, a inveja e o pessimismo. Depois vem a Culpa! A culpa é sempre dos outros. E vem por aí um rol de desculpas que terminam sempre em casa, no trabalho e no jogo de futebol. E já não há Fado onde caiba tanta desilusão. Mas nem tudo está perdido! Enquanto existirem homens e mulheres de boa vontade, gente que ainda não sucumbiu às vaidades e ao poder, gente que se recusa a que lhe ponham a albarda em cima, talvez se faça a diferença entre um país sem rumo e um país à procura de um rumo. São poucos, talvez, mas os necessários para desassossegar.

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Artistas Portugueses Conquistam o Estrangeiro

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uitos são os artistas portugueses que têm sido reconhecidos pelo seu trabalho em países onde não se fala a língua de Camões. Gonçalo M. Tavares na escrita, Rita Redshoes na música e Miguel Gomes no cinema são alguns dos nomes que se têm feito ouvir no estrangeiro. Na Turquia, a partir de Fevereiro, pode-se ler o melhor que se faz em Portugal no que respeita à poesia. Através de várias parcerias nasceu Cümle Frase, uma Folha Mensal de Poesia em Língua Portuguesa, projecto que visa mostrar aos leitores turcos os poetas portugueses que formam a já apelidada novíssima poesia portuguesa. Entre eles destacam-se valter hugo mãe, José Luís Peixoto e M. Tiago Paixão. Mensalmente, cada edição com uma tiragem de 1.000 exemplares (500 em Ankara e 500 em Izmir) agregará vários trabalhos de cada um dos poetas deste projecto com uma tradução para turco levada a cabo por nomes sonantes do país do ‘nobelizado’ Orhan Pamuk. M. Tiago Paixão está com grandes 24

por Adriano Narciso

expectativas em relação a esta iniciativa e em declarações ao site Rascunho, afirmou que pretende que daqui a três anos se faça uma antologia destes textos de forma a mostrar-se o que de melhor há na actual poesia lusitana. Há, de facto, uma recente incursão da poesia portuguesa por terras do Próximo e Médio-Oriente. José Mário Silva, crítico literário e escritor português tem alguns dos seus contos publicados no suplemento literário do jornal marroquino Almonataf. Gonçalo M. Tavares é outro dos nomes cimeiros da literatura portuguesa contemporânea. Com 39 anos, o escritor natural de Luanda conta com um total de 21 obras publicadas em vários países nos últimos seis anos. As obras vão desde a poesia até às tabelas literárias, um estilo bastante diferente do habitual onde o autor junta informações e frases de vários escritores dispersas por colunas. Jerusalém, o seu livro mais aclamado, que venceu o prémio Saramago em 2005 e é visto como um marco da

literatura europeia, foi incluído na edição de “1001 livros para ler antes de morrer”. Vila-Matas, crítico literário da revista francesa Magazine Littéraire considerou-o um “narrador de raça e génio de um imenso futuro” e José Saramago, durante a atribuição do prémio com o seu nome, afirmou que “Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!”. A fórmula deste sucesso prende-se sobretudo ao afastamento da escrita de Gonçalo M. Tavares em relação ao resto da cena literária portuguesa. O escritor usa-se de uma escrita precisa, quase cirúrgica, decompondo a realidade em personagens muito complexas, preterindo as já recorrentes descrições românticas das relações entre pessoas. Nas últimas décadas a música portuguesa tem sido caracterizada como uma amálgama de mágoa, tristeza, luto, morte: fado. Mariza, Mafalda Arnault e Ana Moura e são as grandes embaixatrizes do género musical mais característico do nosso país, tornando-o mais


ARTISTAS LUSOS CONQUISTAM MUNDO Foto:

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‘comerciável’ alémfronteiras com misturas de instrumentos que levam a comparações com o jazz, por exemplo. Com a mediatização de novos estilos musicais cada vez mais apreciados pelo público jovem, como é o caso do electro clash, funk e electro, têm surgido bandas que juntam à cultura musical lusa elementos que resultam sobretudo da grande diversidade étnica que existe no nosso Gonçalo M. Tavares é considerado uma das maiores promessas da literatura europeia país. Os Buraka Som Sistema são um exemplo desse funk. Numa incursão a um dos digressão pelos EUA. O filme português ‘Aquele ecletismo que se faz notar na músi- mais importantes festivais ingleses ca portuguesa do século XXI. (Glastonbury), os Buraka Som querido mês de Agosto’ é um caso A banda originária da Amadora Sistema, banda desconhecida pelo atípico na história do cinema pore criada em 2005 foi buscar a Áfri- público britânico, foram os mais tuguês, sendo reconhecido pela ca as suas grandes influências, mis- aplaudidos e este ano um jornal es- crítica internacional através de turando Kuduro com vários estilos panhol considerou o conjunto uma vários galardões. No Festival Internacional de Cinema de Buenos cada vez mais em voga, como o lufada de ar fresco na música Aires, tal como em muitos outros portuguesa. A cantora lisboeta festivais espalhados pela América Rita Redshoes, que foi Latina, foi agraciado com o prébuscar a inspiração para mio de melhor filme e foi um dos o seu apelido ao tema nomes apontados para figurar a lis‘Let’s dance’ de Bowie ta de melhor filme estrangeiro na e ao filme ‘O Feiticeiro edição dos Óscares deste ano. Funde Oz’. Começou a dar cionando como uma fusão entre nas vistas quando em- documentário e ficção, a película prestou a sua voz à can- realizada por Miguel Gomes tem ção ‘Hold still’ de Da- como tema principal as festas de vid Fonseca e em 2008, verão no interior de Portugal e foi a antiga vocalista dos nos últimos dias seleccionada para Atomic Bees lançou o o Festival de São Francisco, espeseu primeiro álbum a rando-a um novo fôlego agora na solo – Golden Era - já indústria norte-americana Fernando Pessoa tinha razão. O comparado aos trabalhos de Fiona Apple, nevoeiro que encobre o nosso país Cat Power e Goldfrapp. não é crónico. A crise económica Ainda este ano, Rita mantém-se mas a bruma cultural expandiu os seus hori- que insiste em negar uma identizontes, realizando uma dade a Portugal está a dissipar-se. 25


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Sobreviventes

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esistiram às maiores tragédias, fintaram um destino cruel e, por ironia do destino, continuam a espalhar vida perto dos que os rodeiam. São estas as histórias daqueles que escaparam ilesos às mãos da fatalidade, as histórias de Tadeu Bernardo de Araújo, Geralda Silva do Nascimento, Antonia Martínez, Rafael Vidal e Wanderley Ferreira da Silva. A sobrevivência que a uns se deve à pura coincidência do acaso é para outros a recordação de uma luta constante no momento da tragédia. Tadeu Bernardo de Araújo, engenheiro químico brasileiro que perdeu a mulher e dois filhos na tragédia do desabamento do edifico Éricka, em Olinda (Brasil), viu a sua vida poupada pelas obrigações laborais, quando na madrugada de 12 de Novembro de 1999 se deparou perante a necessidade de fazer plantão na noite do acidente. Con26

Histórias de quem fintou a morte e abraçou o destino tudo, e apesar de ter escapado ileso ao desastre, o engenheiro químico releva a dificuldade em conviver com a dor da perda e assume que se questiona muita vezes pela razão da sua vida ter sido poupada. A mesma pergunta paira na mente de Geralda Silva do Nascimento, que com 61 anos perdeu seis parentes num desabamento de terras, em Abril de 1996. Volvidos treze anos, Geralda continua a transportar consigo o calvário da morte dos seus familiares e o sentimento de culpa por ter sobrevivido. Na noite da tragédia, Geralda decidira ir visitar a irmã, e, por ocasião dessa visita pernoitar fora de casa. O acaso da saída poupou-lhe a própria vida, roubando-lhe para sempre a filha Maria Betânia e o neto Saulo, ambos vítimas da tragédia. Não menos diferente é a história de Antonia Martínez, assistente de bordo no fatídico voo MD-82 da Spanair, que se incendiou a 20 de

Agosto de 2008, ao levantar voo do aeroporto de Barajas, em Madrid. Recorde-se que a bordo viajavam 172 passageiros, dos quais apenas 19 conseguiram salvar-se. Entre o nome dos dezanove sobreviventes figura o nome da assistente de bordo, que, por ironia do destino e contrariamente ao habitual, se encontrava sentada na parte da frente do avião, facto que lhe poupou a vida. Contudo, ultrapassado o flagelo, Antonia continua a recordar nitidamente o momento do embate, revivendo o instante em que foi projectada para fora do avião, acabando por cair ao rio. Jamais poderia esquecer o tocar das sirenes, a certeza de que seria salva, a tranquilidade que por momentos se apoderou do seu corpo e lhe deu forças para continuar a lutar pela vida. Consciente e já no interior da ambulância, a sobrevivente do aci-


OS SOBREVIVENTES Foto: spiegel.de

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dente com o voo da Spanair relembra as primeiras palavras proferidas: “Mãe, não se preocupe, eu estou bem”. Na verdade, a ideia de sobrevivência representa, desde logo, estar bem, mas para muitos dos sobreviventes as sequelas corporais continuam a manifestar-se durante meses e até mesmo anos. O acidente que poupou a vida a Antonia Martinez deixou-lhe como “cartão de visita” um braço engessado, uma vértebra fracturada, um traumatismo craniano e algumas nódoas negras. A Rafael Vidal, engenheiro de telecomunicações, a sobrevivência custou-lhe duas vértebras fracturadas, um ferimento nos pulmões e nódoas negras em todo o corpo, mas jamais poderia retirar-lhe a alegria e tranquilidade do sentimento de ter “voltado a nascer”. Rafael Vidal, 30 anos de idade, viajava na manhã de 20 de Agosto de 2008 com destino à ilha das Canárias onde tencionava passar férias durante três dias, contudo, ao chegar ao aeroporto foi pron-

tamente informado de que o voo onde deveria seguir se encontrava cheio, tendo o passageiro de ingressar naquele que se viria a confirmar num voo fatídico. Contudo, o acaso que protegeu Bernardo de Araújo, Geralda Silva do Nascimento e Antónia Martínez foi também o que colocou Wanderley Ferreira da Silva no terceiro andar do prédio da TAM, atingido pelo airbus A-320. Wanderley encontrava-se em reunião no terceiro andar do prédio, quando, subitamente se viu surpreendido pela fúria do estrondo do embate e pelo clarão provo-

cado pelo choque da aeronave. Na altura, recorda Wanderley, “cada um começou a correr para um lado”, e foi então que o brasileiro de 33 anos decidiu correr em direcção das escadas, na tentativa de chegar a um laboratório com janelas, para que dessa forma pudesse respirar. Conseguiu a custo alcançar o laboratório e hoje recorda com mágoa o momento em que “olhava para aquele céu e só queria ter um pouco de oxigénio para respirar”. De recordações dolorosas e momentos dramáticos se faz a vida destes cinco sobreviventes, destes cinco “eleitos” para continuar a caminhada, para contar a sua história, para passar o testemunho da experiência em momentos de pânico. A recordação trazlhes a dor, a certeza de que nem todas as vidas puderam ser poupadas, a eterna dúvida de terem sobrevivido quando a morte bateu á porta e pediu para entrar. ISA MESTRE

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O eterno número 1

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Ayrton Senna desapareceu há 15 anos no fim-de-semana mais negro da História da Fórmula 1

os nove anos já conduzia jipes nas propriedades da sua família e aos 13 iniciou-se nos karts. Depressa foi apontado como um jovem promissor, acabando por chegar aos campeonatos europeus de Karting em 1979, ano em que esteve a competir no “Velho Continente” durante 5 meses. De feitio complicado, desde cedo assumiu uma total obsessão pela vitória e, como tal, não olhava a meios para atingir os fins. Exigia muito dos outros, mas ainda mais (muito mais) de si. A caminho do auge Firmado o seu talento nos karts, posteriormente, entre os anos de 81 e 83 ganhou todos os campeonatos em que esteve envolvido e foi sem estranheza que em 1984 chegou à categoria máxima do desporto automóvel. 28

Começou por correr na pouco mediática Toleman, assinando pela Lotus para a época de 1985, equipa com a qual, nesse mesmo ano, venceu o primeiro Grande Prémio da carreira na Fórmula 1, no Estoril. Por lá permaneceu por mais duas épocas, transferindo-se em 1988 para a McLaren-Honda, onde iria fazer dupla com Alain Prost, conhecido como “professor”. Nesse ano, o brasileiro venceria o primeiro de três campeonatos do mundo. Em 1989, os problemas com o seu colega e rival francês intensificaram-se. Prost e Senna colidiram no Japão e o brasileiro, que precisava da vitória para continuar a lutar pelo campeonato, foi desclassificado, comprometendo as suas hipóteses. No ano seguinte, novamente no Japão, Senna não se coibiu de sair de pista com Alain Prost e, com vantagem pontual

sobre o então piloto da Ferrari, recuperou o título perdido no ano anterior. Em 1991 revalidou o título, que conquistaria pela derradeira vez. Seguiu-se um modesto quarto lugar em 1992, concluindo o campeonato seguinte no segundo posto, atrás de Prost. Procurando um carro competitivo que lhe permitisse voltar aos títulos, assinou pela Williams-Renault para a temporada de 94, equipa que havia vencido as duas últimas edições. Apesar de ter conquistado duas poles em igual número de corridas logo no início da temporada, não marcou qualquer ponto. Era imperativo vencer a prova seguinte, a disputar no dia 1 de Maio, pois o jovem alemão Michael Schumacher já contava com 20 pontos de vantagem, fruto de duas vitórias.


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O trágico fim-de-semana Tudo começou na tarde de sexta-feira, durante os treinos-livres para o Grande Prémio de San Marino, quando Rubens Barrichello, na altura um novato nas andanças das velocidades vertiginosas da Fórmula 1, sofreu um violento acidente após ter perdido o controlo do seu carro numa das curvas do circuito de Imola. Apesar de se ter temido o pior, o jovem protegido de Senna saiu Primeira vitória na Fórmula 1, no Grande Prémio do Estoril em 1985 do acidente apenas com algumas escoriações, embora indisponível rton Senna, pela primeira vez na mente do resto do pelotão. À sexta para a corrida de domingo. sua carreira, desconfortável por passagem pela curva Tamburello, No dia seguinte, na sessão di- estar prestes a iniciar aquilo que a mesma onde anos antes Piquet e urna dos treinos, o impensável ele próprio considerava que fazia Berger tiveram graves acidentes, o piloto brasileiro perde o controlo aconteceu: o austríaco Roland parte do seu sangue? Ratzenberger ia a mais de 300 Adriana Galisteu, namorada do seu Williams-Renault e bate km/h quando perto da curva Vil- do tricampeão na época, confir- violentamente no muro de betão. leneuve embateu contra um muro mou que Senna se sentia apreensi- O choque foi tão violento que, ansem protecção. Seria dado como vo: “Ele visitou os locais dos aci- tes de se imobilizar, o carro voltou morto alguns minutos depois de dentes e disse que não estava com para a pista. De pescoço tombado, Senna chegar ao Hospital de Bolonha, muita vontade de correr em Imoembora se suspeite que quando la”. O seu rival de sempre, Alain estava inconsciente. Prontamente deixou o autódromo já estaria Prost, com quem o brasileiro falou chegaram o stewards e, pouco demorto. Foi a primeira morte num momentos antes da corrida, rev- pois, a equipa de assistência médiGrande Prémio de Fórmula 1 em elou que o piloto estava “frágil” ca que retirou o corpo prostrado do quase 12 anos. e “deprimido”. “Não era o Ayrton piloto. Sid Watkins, médico que o que eu conhecia. Ele estava muito assistiu no local, depressa concluiu que o estado de Senna era muito As últimas horas preocupado”, acrescentou. Às 14 horas locais, todos os pi- grave. “Quando lhe tirei o capacNo dia da corrida era possível lotos estavam ordenados na grelha ete, as suas pupilas estavam comobservar os rostos consternados à espera que as luzes vermelhas pletamente dilatadas e ele estava que eram exibidos ao longo de se apagassem. Ayrton Senna, que sem reflexos. Era um mau sinal”. toda a grelha de partida. Mas um largaria da primeira posição pela E era mesmo. Depois de 17 longos deles parecia estar mais apreensi- 65ª vez na sua carreira, teria ao minutos a ser assistido na pista, o vo. Aquele que vivia obcecado em seu lado Michael Schumacher. brasileiro foi transferido de heliganhar sempre e que afirmava que Logo na primeira volta, o safety cóptero para o Hospital Maggiore, “ser o segundo é o mesmo que ser car entrou em pista depois de Pe- em Bolonha – o mesmo para onde o primeiro dos perdedores” con- dro Lamy ter tido um aparatoso foi Roland Ratzenberger um dia templava o seu capacete como os acidente. Quatro voltas depois, os antes – contudo, às 18:05 o pior olhos vidrados, mas desta vez sem chassis voltavam a rodar à máxima foi confirmado. Ayrton Senna não a determinação que lhe era comum velocidade, com Senna e Schu- resistiu aos múltiplos traumatisem todas as partidas. Estaria Ay- macher a distanciarem-se rapida- mos cranianos sofridos. Se tivesse 29


DESPORTO sobrevivido, dificilmente voltaria a ter uma vida normal, pois a autópsia concluiu que o cérebro se liquefez quase por completo no momento do embate.

Se eu sofrer um acidente que custe a minha vida, que seja de uma vez

A 4 de Maio, o corpo de Senna chegou a São Paulo para, finalmente, poder descansar em paz. O povo saiu à rua para prestar uma última homenagem ao ídolo que fazia sonhar o Brasil quase todos os domingos. O trânsito esteve

congestionado numa extensão de 108 quilómetros e centenas de milhares de pessoas contemplaram o cortejo de 30 quilómetros até à Assembleia Legislativa. Em entrevista dada quatro meses antes, Senna disse que não seria capaz de viver com limitações causadas por um eventual acidente. “Se eu sofrer um acidente que custe a minha vida, que seja de uma vez”, confessou. No dia 1 de Maio do ano de 1994 o Números de Senna seu desejo foi concretizado e, da forma mais trágica, partiu. Presenças em Grandes Prémios: 162 Mais rápido do que qualquer Campeonatos: 3 (1988, 1990, 1991) Vitórias: 41 outro. DAVID MARQUES Pole positions: 65

Sepultura de Ayrton Senna, no Cemitério do Morumbi

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Voltas mais rápidas: 19 Pódios: 80 Pontos: 610

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Campeonato a dois...

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Começa a 12 de Abril mais uma edição do MotoGp. FIM promove mudanças para dar novo ânimo à competição

alentino Rossi, Casey Stoner, Dani Pedrosa ou Jorge Lorenzo… São estes quatro pilotos os principais favoritos à conquista do ceptro mundial de MotoGp. Valentino Rossi procurará revalidar o título e alcançar a impressionante soma de 7 conquistas na categoria rainha do motociclismo, ficando a apenas uma do recordista Giacomo Agostini. Stoner tentará recuperar o campeonato perdido na temporada passada. Pedrosa e Lorenzo procuram o primeiro título na categoria rainha. O campeonato passará por Portugal em Outubro, no circuito do Estoril. Valentino Rossi ou Casey Stoner? A luta pelo campeonato parece centrar-se em dois nomes, os dois últimos campeões, Rossi e Stoner.

A experiência, os títulos, o mediatismo e a condução irrepreensível do italiano, face à tranquilidade, juventude e espectacularidade do australiano. A julgar pelos resultados dos testes, Stoner leva vantagem, tendo sido mais rápido em três dos quatro efectuados, apenas sendo batido por Rossi no teste inicial em Jerez, por escassos 18 milésimos. Mas os testes valem o que valem, são as voltas rápidas que contam, o mesmo quer dizer que ficar na pole position não significa vitória assegurada. Até porque as diferenças entre os dois foram escassas. Na temporada passada, Rossi foi campeão a quatro corridas do fim, num campeonato que ficou praticamente decidido em Laguna Seca. A prova americana foi do mais vivo que se viu nos últimos anos, com toques entre os dois candidatos e muitas ultrapassagens,

mas no final, Stoner acabou por fraquejar. Na ressaca desta “derrota”, Stoner caiu nos dois GP’s seguintes e hipotecou o título. A história está do lado de Rossi, que procura deixar mais um marco nos livros de recordes, aproximando-se do máximo absoluto de títulos na categoria rainha do motociclismo. Resta saber até que ponto a Yamaha do “Doutor” será fiável. De facto, na temporada passada foi e nesta promete-se 10km/h a mais de velocidade de ponta, mas a Ducati não esteve parada e Stoner estará à espreita. A dupla espanhola composta por Pedrosa e Lorenzo estará sempre à procura de uma “escorregadela” dos candidatos principais. Dovizioso sai da equipa “satélite” da Honda e passa para a equipa da fábrica, prometendo muito serviço. O norte-americano Nicky Hayden terminou a temporada passada a 31


DESPORTO

Nomes como Edwards, Vermeulen, Melandri ou Gibernau serão sempre capazes de bons desempenhos, mas vencer está noutra “galáxia” e em condições normais a vitória é para as quatro equipas de fábrica.

E os outros?

Adeus Michelin!

Nos últimos tempos tem-se assistido a uma hegemonia de tal ordem nas vitórias das equipas de fábrica, que já nem se fala nas “satélite” como equipas para vencer, mas sim para conquistar pódios e pontuar. O actual campeão do mundo, Valentino Rossi, tem-se mostrado muito crítico face a esta realidade, afirmando que «até 2006 um privado como Melandri podia lutar pelo título. Mas desde 2007, com as motos de 800cc, a distância entre as equipas de fábrica e as privadas ficou enorme. O MotoGP tornou-se muito elitista e isso não é bom.»

O inicio do fim da Michelin deu-se em Brno, na República Checa. Num dos Grande Prémios mais atípicos de que há memória. Rossi venceu, nada de anormal, mas o que não é muito normal é ter que se descer até ao nono posto para encontrar o primeiro piloto a equipar com Michelin, Dovizioso a 38 segundos do transalpino. Mas mais estranho e surpreendente foi mesmo a prestação de Pedrosa, 15º posto a mais de 2 minutos de Rossi. Aliás, antes da corrida os pilotos que equipavam a marca francesa ameaçaram não competir, alegando questões de segurança.

Foto: MotoGp.com

dar boas indicações e com uma Ducati de topo pode muito bem dar que falar. Da mesma forma que, a outra equipa de fábrica, a Rizla Suzuki MotoGp tem prometido muito nos treinos, com o veterano Capirossi a dar nas vistas.

Valentino Rossi e Jorge Lorenzo, companheiros de equipa na Yamaha

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Porém, a machadada final foi dada em San Marino, quando Pedrosa anunciou que iria trocar a marca gaulesa pela Bridgestone, depois de em testes ter sido oito décimos mais rápido com os pneumáticos japoneses. Um mês depois, em Motegi, a GP Comission anuncia que por questões de “custos e segurança” o MotoGp passaria a receber apenas pneus de uma marca. No Grande Prémio seguinte, a Michelin assume em comunicado que não pretendia continuar, abrindo caminho à hegemonia da Bridgestone, que equipará as motas desta temporada. Crise, a quanto obrigas Ao que parece, nenhuma actividade é imune à tão falada crise. E o MotoGp acaba por não fugir à conjuntura global. A primeira decisão com o intuito de cortar custos foi a introdução de pneus “monomarca”, fornecidos pela Bridgestone. Por outro lado, a FIM proibiu os compostos de cerâmica nos discos e pastilhas de travão, a utilização de sistemas de potência hidráulica à pressão, o controlo electrónico de suspensão e a recirculação dos gases de escape, enquanto o óleo lubrificante do motor não pode ser usado para outro fim. Mas a verdadeira revolução é a limitação do número de motores usados por piloto na temporada. A FIM definiu um limite máximo de


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cinco, sendo que os mesmos terão de ser selados antes das corridas, treinos e/ou voltas de qualificação. Um novo motor é considerado como “utilizado” quando a moto sair das boxes. Quem não cumprir o estabelecido será punido com 10 pontos na classificação do campeonato. 125cc e 250cc, que futuro?

ção dá 60 minutos para qualquer de uma verba fixa (20.000 euros) e equipa adquirir o motor a outra eq- esta está obrigada a vendê-lo. uipa rival, mediante o pagamento FÀBIO LIMA Foto: MotoGp.com

Nas categorias inferiores, já ficou estipulada a mudança de nome das “quarto de litro” em 2011, passando a ser MotoGp2. Nesta categoria muito será mudado, começando desde logo pela cilindrada, passando a ser de 600cc, o motor deixa de ser de dois tempos, para servir de protótipo das MotoGp ao evoluir para quatro tempos. A nova categoria tem como objectivo implícito atrair as marcas europeias, terminando assim com a hegemonia nipónica. Quanto às especificações técnicas, não será permitida a utilização de travões de carbono, nem qualquer composto deste tipo nos pneus. Estes serão livres em marca, mas limitados em largura e diâmetro. O número de pneus slick disponíveis por piloto para cada Grande Prémio será limitado. Por fim, há a possibilidade de uma equipa adquirir o motor à sua rival. No final de cada prova, a organiza-

Em 2008, Lorenzo bateu Rossi no Estoril, veremos como será nesta época

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III Divisão em vias de extinção

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os últimos anos, muitas têm sido as mudanças no futebol português, mas os amantes do desporto rei estariam longe de imaginar que já na próxima temporada 2010/2011 deixarão de contar com a célebre III Divisão. A decisão foi tomada em finais de Janeiro pela Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Futebol, estando, no entanto, longe de ser unânime e contando com forte oposição, sobretudo, por parte da Associação de Futebol mais representada no referido campeonato: a AF Braga, que não se disponibilizou para dar quaisquer declarações. Na referida AG da FPF, foram a votos duas moções, uma apresentada pela AF Algarve, que contou com 312 votos a favor e 123 votos contra. No geral, a extinção da III Divisão terá efeitos após a próxima temporada, com as equipas que não garantirem subida nessa época, a desceram para os campeonatos Distritais. Por sua vez, os campeões distritais terão acesso directo à II Divisão. 34

por Fábio Lima

vencer o campeonato distrital para assegurar a ascensão. Crê-se que Com a extinção da III Divisão a decisão fará com que os clubes Nacional muitas serão as mudan- se aproximem, criem mais ligaças no actual quadro competitivo ções, ou em contrapartida venham futebolístico a nível de campe- mesmo a acabar, posição assumida onatos amadores (incluindo a II firmemente pelo Presidente da AF Divisão). De acordo com a pro- Braga. posta inicial, a II Divisão passará Campeonatos distritais a ser disputada por 48 clubes, dimais emotivos vididos por 3 séries de 16 equipas, disputada a duas voltas. Os três Uma das justificações para a primeiros classificados de cada mudança no quadro competitivo série irão disputar uma fase final, e os dois melhores sobem à Liga da “terceira” centra-se na necessiVitalis. Mas até no que diz respeito dade de recuperar a vivacidade à Liga Vitalis se fala em mudança, dos campeonatos distritais. «Basta visto que o Presidente da Liga Por- analisar a média de assistência de tuguesa de Futebol Profissional, um Farense – Louletano e a comHermínio Loureiro, afirma que pararmos com um outro qualquer está aberta uma janela para que jogo contra uma equipa de Beja, desça mais um clube da Liga Vi- Évora, Setúbal ou Santarém para se talis, o que permitiria que cada um ter uma ideia de como os Distritais dos vencedores de séries subisse poderão ficar mais vivos», defende o Dr. Alves Caetano, Presidente da directamente. No que aos campeonatos dis- Associação de Futebol do Algarve. tritais diz respeito, será mais rápida Opinião também partilhada por a ascensão à II Divisão, “bastando” Costa Lima, Presidente da AssoO que muda?


DESPORTO ciação Desportiva «Os Limianos», clube da Série A da III Divisão. Mais rivalidades, mais adeptos, mais dinheiro em caixa devido a bilheteiras, mas como será o mercado dos patrocínios? Para Alves Caetano «um clube não tem mais ou menos mercado publicitário apenas porque está um escalão acima ou um escalão abaixo», concluindo que «o principal problema são alguns dos chamados patrocínios que prevêem atribuições de verbas discriminatórias em função da divisão em que milita o clube.» Porquê tanta polémica?

Foto: Observatório do Algarve

A decisão tomada em AG da FPF fará com que a Associação de Futebol de Braga perca 10 clubes a alinhar nos campeonatos nacionais, os quais faziam da mesma a mais representada em todos os campeonatos de âmbito nacional. Para Costa Lima, «aceita-se a posição dos clubes sediados em zonas de grandes aglomerados (Lisboa, Porto ou Braga), que têm muitas equipas da mesma região e podem

continuar a ter boas assistências e pequenas deslocações» porém «no nosso caso, defendemos a extinção da III Divisão Nacional», reitera o Presidente do 6º classificado da Fase de Promoção da Série A da III Divisão. No caso do clube de Ponte de Lima, a viagem mais longa a fazer-se ao alinhar na III Divisão seriam o 520 km (ida e volta) para jogar contra o Bragança, quando a alinhar no Campeonato Distrital de Viana do Castelo seriam no máximo 200 km, mais 300 km que significam invariavelmente mais custos para cumprir os jogos. Segundo declarações do próprio Presidente «a principal diferença em termos económicos da extinção da III Divisão para nós será a diminuição de deslocações. Carlos Coutada, Presidente da AG Braga reitera que «as alterações são redutoras e levarão à extinção de um grande número de pequenos clubes», afirmando que a questão económica é «uma falsa questão» visto que «os clubes têm mais apoios se alinharem numa competição nacional». Para Amândio

Foto: FPF

A Taça de Campeão da III Divisão ficará “arrumada”

de Carvalho, Vice-Presidente da FPF, a proposta «procura aproximar os clubes uns dos outros, em termos geográficos». E haverá melhor futebol? Alves Caetano afirma que a «AF Algarve não apoia a extinção da III Divisão porque está traria menos despesas, apoiamo-la porque acreditamos que esta trará melhorias significativas para os nossos associados». Para Costa Lima os campeonatos distritais devem «obrigatoriamente ser jogados em relvados (naturais ou sintéticos) e com condições impostas iguais à III Divisão», o que acarretaria melhoria das condições de jogo e melhoria de futebol praticado, que por sua vez levaria mais gente aos estádios e cobriria qualquer redução de lucro adjacente à descida de divisão. Resta ver até que ponto esta medida terá sucesso. Se for para o bem do futebol, os adeptos do Desporto-Rei agradecem!

A direcção da Associação de Futebol do Algarve apoia a extinção da III Divisão

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A FECHAR

“É preciso encarar isto como um fim-de-semana de campismo”

Silvio Berlusconi após o sismo que assolou Itália

“O PS (...) faz lembrar o Zeca Afonso «eles comem tudo»”

Nascimento Rodrigues, Provedor de Justiça

“Nem queria vir embora, é um local tão relaxante, tão calmo e tão lindo” Miss Universo, Dayana Mendoza, depois da visita a Guantanamo

‘Yes, we can!’. Dois Obamas, o sonho da humanidade

Um Sonho Indiano a expropriação de terras para a edificação de uma nova zona industrial? * O “Nano europeu” não será exactamente igual ao produzido na Índia. O objectivo é assemelhar-se aos modelos comercializados no “Velho Continente” e cumprir os requisitos de segurança impostos Sabia que: pelas autoridades europeias. * A Tata tem o único sistema * Depois de ter investido mais de 250 milhões de euros na in- de crash test do país. * Na Índia morrem anualstalação de uma nova fábrica em Bengala, a Tata foi expulsa por um mente 20 mil pessoas vítimas grupo de camponeses que, apoia- de acidentes automobilísticos, o dos por alguns partidos políticos que corresponde a 8% do total D.M. regionais, se manifestaram contra em todo o mundo. Chama-se Nano e foi apresentado na Índia a 23 de Março, onde vai custar 100 mil rupias (cerca de 1500 euros). Sem ar condicionado, direcção assistida ou vidros eléctricos, o Nano já é apelidado de “carro do povo”. Estima-se que possa começar a ser comercializado na Europa em meados de 2010 ou 2011.

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Características técnicas Velocidade máxima: 110 km/h Motor: tracção traseira, 0,6 Litros, 33 Cavalos, 2 Válvulas por cilindro, 33hp/24Kw, 5500 rpm Transmissão: 4 velocidades Consumo: 5 litros aos 100 km Emissões de gases: menos de 100 gramas de CO2 por quilómetro Comprimento: 3 metros Garantia: 18 meses ou 24 mil quilómetros

2ª Edição Mundo Contemporâneo  

2ª Edição da revista Mundo Contemporâneo

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