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“Eu vou!”: Rogério Silva, Mauricio Romano, Henrique Alves e Raphael Silva

Quero ser Chico Buarque Eles são fãs, compram discos, ouvem as músicas, prestam atenção nas letras. E vão ao show. Eles são os homens de Chico Buarque

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a noite da próxima quarta-feira, Chico Buarque vai colocar os pés no palco do Tom Brasil vestindo “calça de seda azul marinho Armani com pulôver de algodão” – conforme previne sua assessoria –, abrindo a série de 29 músicas dos shows da turnê “Carioca” com “Voltei a Cantar”, de Lamartine Ba-

bo, e produzindo na audiência uma marola mais ou menos parecida com os efeitos provocados por Renata Maria, aquela que saía do mar deixando as ondas suspensas no ar e os pássaros cristalizados no branco do céu. Espalhados discretamente pela platéia, indiferentes ao charme sessentão do compositor e alheios às suas conexões com coisas como “a alma feminina”, lá estarão eles: os chicólatras-macho, homens que são ho-

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mens mas que, poxa, também amam o Chico. “Eu choro com as músicas dele... E quase todos os dias”, diz Rogério Silva, músico, corretor de seguros, casado, pai de dois filhos . E auto-proclamado “embaixador de Chico Buarque em São Paulo” por já ter tocado 780 horas de músicas dele – 60 delas por noite – no bar Roda Viva, um boteco na Vila Madalena decorado com 320 fotografias, capas de disco, pôsteres e cartazes que mostram o compositor aos 20 e poucos anos com cara de boa-praça, aos 30 com jeito de contestador, aos 40 com visual meio malandro, aos 50 com um charme da boemia e aos 60, com tudo isso mais os ares de escritor. (Rua Padre João Gonçalves, 162. Tel: 3815-2290). “Vou ao show e vou tentar ir ao camarim, como sempre fiz e quase sempre consegui”, diz Silva, fisgado na infância ao ver pela TV os festivais da Record e fissurado o suficiente na vida adulta para, há seis anos, ir aum campo em Itapecerica da Serra às 8 da manhã só para “ver o Chico jogar uma pelada com a equipe do show”. A rigor, fãs-homens de Chico Buarque não ligam para seu par de olhos verdes. Não estão nem aí para seu sorrisinho tímido. Não se sentem secretamente traídos quando ele é flagrado no Leblon beijando uma morenaça casada. “As fãs do Chico querem, em um sentido imaginário, claro, casar com ele, namorar com ele, fazer qualquer outra coisa do gênero com ele. A gente não. A gente se projeta nele...”, explica o designer gráfico Fabio Raphael, 24 anos, amestrado nas artes buarquianas pelos antigos LPs da mãe e futuro espectador tão animado do show que abriu no Orkut a comunidade “Chico Buarque em SP - Eu vou!”, que reúne 356 pessoas interessadas em trocar informações sobre datas, lugares na platéia e preços de ingressos. Para garantir sua ida ao show com tudo sob controle – presença da namorada no mesmo dia, lugar bom e ingressos comprados com meia-entrada – Raphael foi 3 vezes no mesmo dia à bilheteria do Tom Brasil. E faltou ao trabalho. “O esforço valeu, sim. Claro que valeu!” Raphael tem a discografia completa

FOTOS: DIVULGAÇÃO

Um quarentão (no alto) e três fãs de 20 e poucos anos: revelando que ‘mulheres’ de Chico mais admiram do ídolo, em MP3. E acha que o compositor é capaz de atrair tantas gerações porque é mais do que sua obra: “Ele é uma referência de biografia, de gente que soube se posicionar ao longo da vi-

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da. Já foi malandro, poeta, militante, boêmio, intelectual, entendedor das mulheres. Tudo o que a gente quer ser, né?”. Dono de um bar – e freqüentador do Roda Viva, onde ouve e conversa sobre músicas de Chico Buarque –, Henrique Alves, de 29 anos, concorda com Raphael em sua tese cabeça de que os chicólatras-macho, no fundo, queriam ser como o Chico-matriz. “Eu acho que é por aí! E mais: se eu fosse mulher, ia querer ficar com o Chico”. Henrique ouvia MPB na infância, mergulhou no rock durante boa parte da vida e acaba de fazer a migração de retorno para o mundo do compositor. “As pessoas dizem que a mulherada é mais fã dele. Discordo. Tem homem que gosta tanto dele quanto as mulheres – e eu sou um deles. Mas a gente é mais quieto, mais discreto”, analisa. Mulher que gosta de Chico Buarque gosta do Chico Buarque. E homens que amam o Chico Buarque também usam seus cérebros movidos a testosterona para olhar as composições como quem desmonta um motor de carro – até enxergar nelas máquinas perfeitas feitas de aliterações (repetições de fonemas), paronomásias (palavras com sons semelhantes e significados diferentes), redondilhas (versos com 7 sílabas) ou encaixes entre entre harmonias e o significado das letras. “Em Paratodos, é perfeita a matemática que ele usou até cada verso somar sete sílabas e caber direitinho na harmonia, para depois ainda dizer na letra que cobriu tudo de redondilhas. É bom de doer!”, diz Rogério Silva. “Em Moto-Contínuo ele encaixa tudo de maneira que letra e harmonia nunca terminem. É genial!”, afirma Fábio Raphael. “Em Beatriz, ele canta ‘se ela mora no arranha-céu’ colocando a palavra céu na nota mais aguda, mais alta. Em seguida, diz ‘me ensina a não andar com os pés no chão’ e coloca a palavra chão na nota mais grave, mais baixa. É uma sinfonia, é brilhante!”, diz Mauricio Lucca Romano, 26 anos, um administrador de empresas muitas vezes atraído e afastado de mulheres conforme o nível de afinidade delas com Chico Buarque – e hoje casado com uma bailarina com quem costuma se co-

Chico hoje: no material de divulgação de ‘Carioca”; e na capa de Chico Buarque vol. 3, lançado em 1968 municar por meio de referências buarquianas. Ele, funcionário, ela, dançarina, namoraram, casaram, discutem e fazem as pazes usando suas letras. “Das 650 músicas dele, sei cantar e tocar cerca de 500. Além da qualidade musical extrema, muitas vezes ele expressa tudo o que eu queria falar e não sabia como”, diz. Dentre todas as mulheres de Chico Buarque, Rogério escolhe “Januária”. Fábio fica com “Bárbara”, Maurício gosta de “Beatriz”, Henrique se derrama por “Carolina”. E, para eles, homem que é homem não tem vergonha de dizer, como resume Rogério: “A gente ama o Chico!”. (Angélica Santa Cruz)

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