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A esquerda que não teme dizer seu nome. Fábio Oliveira Santos1 (SANTOS, F.O.) Resenha. Creio que é correto quando se diz que a esquerda deve tomar outro rumo, pois, como bem disse Safatle (2012) a única forma de governo que existe foi formulada pelo liberalismo, grosso modo, as ideias são sempre liberais, nesse aspecto, Marx & Friedrich (2010) apontam que é correto afirmar que as ideias de um período histórico são sempre as ideias das forças dominantes. Daí a esquerda repensar e, além de tudo, ser minuciosa na maneira de descrever e criar novas perspectivas de governo. “A esquerda que não teme dizer seu nome”, do autor e professor da Universidade de São Paulo, Vladimir Safafler sugere que “a esquerda troque seus temores ordinários pela ousadia”. O livro divide-se em cinco pequenos capítulos: Introdução, Igualdade e a equação da indiferença, Soberania popular ou a democracia para além do Estado de Direito, Do tempo das ideias e Conclusão. Logo na Introdução, discute-se o esgotamento do pensamento da esquerda, de acordo com Safatler (2012), logo após a queda do muro de Berlim duas correntes esquerdistas expuseram-se um pouco mais, uma vez que antes disso o silêncio imperava. Talvez devido à comodidade. A primeira corrente considerava-se herdeira vitoriosa de uma época pós guerra ideológica, na verdade, o autor afirma que são herdeiros de “arremedo de autoritarismo mal disfarçado, demandas infantis de proteção, ingenuidade a respeito das violências animadas pelo mal radical e incompetência gerencial” (Safatler, 2012 p. 11). A segunda corrente afirmava que a esquerda não tem mais rumo, que após a queda do muro de Berlim nada mais resta, sobrou apenas uma dose cavalar rumo à realidade ou ao realismo. Parece-nos que as duas correntes são ressentidas de perspectiva em direção ao futuro, mais ainda, não conseguiram visualizar os efeitos positivos que a esquerda realizou, uma vez que através das pequenas revoluções ou mesmo dos atos individuais contribuíram para a conquista de direitos e fatores positivos no sentido social. Sob esse efeito, é possível dizer que a esquerda não aprendeu com seus erros, pois não se deve abandonar um projeto apesar dos fracassos, ao contrário, deve-se aprender e melhorar o que é necessário.

1 Professor da Rede Estadual de Ensino de São Paulo, Conselheiro da Apeoesp-subsede Osasco e aluno de direito.


No capítulo seguinte, Igualdade e a equação da indiferença, o autor aponta que se deve ter desconfiança quanto às políticas das minorias, uma vez que se torna pontual e esquece-se o todo, por exemplo, quando se prima por políticas que satisfaçam as necessidades de um pequeno núcleo, deixa-se de fazer o essencial, ou seja, a política no sentido social, para todos, daí, segundo o autor, a indiferença ou a igualdade e a equação da indiferença. A meu ver as políticas devem atingir a todos e não pequenos grupos, no entanto, mesmo essas políticas têm efeitos positivos socialmente, uma vez que uma vitória individual torna possível a vitória à sociedade como um todo. Mais ainda, de acordo com Plekhanov (2011), o papel do individuo é menor em relação ao processo histórico os fatos históricos aconteceriam mesmo se indivíduos, ou grandes personagens históricos não tivessem vivido, outros assumiriam e o processo histórico continuaria, o papel do individuo é antecipar ou atrasar os acontecimentos a partir da sua ideologia e sua vontade, nesse sentido, acreditamos que a vitória individual ou das minorias também contribuem para o coletivo. Para exemplo reflexivo, torna-se viável observar que Barack Obama foi reeleito como presidente dos EUA devido às minorias2, mas se esse efeito foi positivo para a política somente pode ser compreendido futuramente. Já em Soberania popular ou a democracia para além do Estado de Direito, o capítulo mais interessante do meu ponto de vista, Safatle (2012) traz à discussão sobre o sistema de governo que é único, pois foi criado pelos liberais e outro não foi discutido, nesse sentido, mais uma vez a esquerda errou e erra, pois não pensou em novos meios e maneiras de governo. Mais ainda, para formular essa discussão o Safatle utilizou-se das teorias de Giorgio Agamben (2004), esse autor trata do Estado de Exceção como bem nos orientou a professora Alessandra Devulsky. Na teoria o estado tem suas leis que em casos extremos, como por exemplo, guerra, nesse e em outros casos as leis podem ser suspensas por algum tempo, ou até ser solucionado o problema. Basta saber se após o conflito as leis realmente retornam ou são criadas outras. No caso brasileiro, ideologias e golpes para assumir o poder não são raros, também não se caracterizam como estado de exceção, mas algo muito próximo. É oportuno relembrar o que o professor Oswaldo Akamine Jr. dizia sobre a representatividade, uma vez que não representa o social, mas apenas uma pequena parte. No capítulo Do tempo das ideias, Safatle (2012), aponta que a esquerda deve aprender com o passado, para isso reflete a partir do século XX e as revoluções e novamente afirma que não se deve descartar um projeto que fracassou, mas aprender com os erros e tentar novamente, mais ainda, o autor sugere que se deve mudar a maneira de governo e distribui-lo ao povo, uma vez que é o “responsável em pagar a conta”. Hobsbawn (1995) também nesse mesmo sentido afirma que o 2 Essa discussão pode ser encontrada em: http://www.cartacapital.com.br/internacional/mulheresjovens-e-minorias-garantiram-a-reeleicao-de-obama/ Acesso em: 28/12/2012.


século XX foi o século das revoluções ou como prefere chamar a era dos extremos. Muito foi aprendido “desesperar jamais3”, como já diz o poeta. BIBLIOGRAFIA AGAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção; trad. Iraci D. Poleti; São Paulo: Boitempo Editorial, 2004. HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: o breve séc. XX; trad. Marcos Santarrita; revisão técnica Maria Célia Paoli. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. MARX, Karl & FRIEDRICH, Engels. A Ideologia Alemã: teses sobre Feuebach; Centauro Editora: SP, 2010. PLEKHANOV, Guiorgui Valentinovitch. O papel do indivíduo na História; 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2011. SAFATLE, Vladimir. A esquerda que não teme dizer seu nome; São Paulo: Três Estrelas, 2012.

3 Música de Ivan Lins, encontrada em: < http://www.youtube.com/watch?v=cW1ZnIrPAzI> Acesso em: 28/12/2012.


A esquerda que não teme dizer seu nome.