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Boletim Fabicano

Agosto de 2006

Ele está

de volta! “A vó do cu é a maionese!” entrevista com Fabio Godoh, o dadaísta do Bom Fim p. 6-7

Digitalização da TV Brasil perde oportunidade histórica de democratizar suas comunicações p. 5

Um passado de muita peleja FABICO já foi palco de muitas lutas (e conquistas) p. 8

Por que de noite não? R.U. da saúde deixa alunos da noite desassistidos p. 4

Chinelagem marginal processo é arquivado p. 4

Láurea fabicana veja como conseguir seu atestado de CDF p. 3


Editorial

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Penso, logo resisto! Ao assumirmos como nova gestão do Diretório Acadêmico da Comunicação Social da UFRGS fizemos uma breve avaliação do histórico de nosso, ultimamente, apático e desmoralizado DACOM. Ao nos depararmos com a 5ª edição do, até este momento, finado Bolefa (de dezembro de 1999), tivemos uma triste surpresa: as pedras que nos atormentavam há sete anos atrás permanecem em nosso sapato. Apesar de ainda termos os mesmos problemas, a disposição para enfrentá-los, infelizmente, mudou de forma significativa, visto a cultura do imobilismo que se instaurou no ambiente fabicano, proporcionada, em muito, pela própria inoperância de nossa entidade representativa. Todos nós, fabicanos de pouca ou longa data, que nos acostumamos a ver um DACOM muito mais parecido com um depósito para a velha mesa de sinuca, deveríamos nos propor a seguinte questão: qual a real função de um diretório acadêmico? Seria apenas mais um lugar para festas, sinuca e truco? A princípio sim, pois a partir desses momentos de integração no espaço físico do DACOM é que se angaria o respaldo dos estudantes para o diretório ser realmente a voz representativa dos discentes da comunicação. Mas, o diretório acadêmico, na concepção da nova gestão “Descarte Penso, logo resisto”, também deve ser o órgão de mobilização que articula os estudantes na resolução dos problemas que estes enfrentam. É o local aberto onde cada estudante tem o direito da livre manifestação obviamente dentro de certos limites, o que não significa necessariamente ser politicamente correto. A marca da nova gestão já está bastante clara. Nosso lema principal se tornou o prefixo “re”, já que não pretendemos nos intitular os inventores da roda, cientes de que os fabicanos já foram bem representados por antigas gestões. O que viemos combater é o marasmo instituído nos últimos tempos. Portanto, é indispensável revitalizar o espaço físico do DACOM, rearticular os estudantes para que não permitam as arbitrariedades que sofremos por parte de alguns professores e direção e, finalmente, reinserir os alunos de Comunicação Social da UFRGS no âmbito das discussões da universidade e dos grandes debates que envolvem a comunicação em todo o país. Assim sendo, poderemos assumir, na prática, o lugar que conquistamos o direito de ocupar o de estudantes

Assim sendo, poderemos assumir, na prática, o lugar que conquistamos o direito de ocupar: o de estudantes conscientes de uma universidade pública, ainda gratuita e que possamos contribuir para que seja de qualidade. Porém, todos esses desafios só poderão ser vencidos com algo imprescindível em uma faculdade de comunicação: a própria comunicação. Aos que agora chegam tal afirmação pode ser de uma obviedade desmedida, mas para quem viveu o período em que o DACOM somente se comunicava com seus representados através de cartazes minúsculos fixados em locais de pouca visibilidade, vem bem a calhar. Por isso, a reedição do tradicional Boletim Fabicano o Bolefa (velho conhecido dos fabicanos mais “idosos”), um meio de comunicação construído não só pelo diretório, mas pela comunidade fabicana, coletivamente. Por fim, a nova gestão dá as boas vindas aos bixos que agora passam a compor nossa combalida, mas amada Fabico. Também desejamos um excelente retorno àqueles que agora voltam ao convívio acadêmico. Esperamos o apoio de todos, para que juntos DACOM e estudantes através da discussão e conseqüente mobilização, possamos reavivar o orgulho de sermos fabicanos.

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O Bolefa é o espaço livre para você, fabicano, expressar-se. Mande textos, matérias, reclamaçoes, sugestões de pauta para: dacom.ufrgs@gmail.com Este jornal não tem apenas um espaço reservado aos alunos: ele é todo construído pelos estudantes! Colabore e fortaleça seu espaço de socialização de informação.

Expediente Matérias: Alexandre Lucchese, Diego Difini, Murilo Zardo, Raquel Matos, Rodolfo Mohr. Revisão: Daniele Carlini. Fotos: Murilo Zardo (da entrevista: arquivo pessoal de Fabio Godoh). Anúncios e charge “Bolefa Returns”: Fernando Freitas. Charge “chinelagem marginal”: Mauren Veras. Arte e diagramação: Alexandre Lucchese. Agradecimentos: direção da FABICO, Fabio Godoh, Mauren Veras e a todos que contribuiram de qualquer forma.

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Novo Dacom apresenta integrantes Alexandre Lucchese (Jornal - 4º semestre) André Schröder (Jornal - 8º semestre) Caio Ramos da Silva (PP - 2º semestre) Daniele Carlini (RP - 3º semestre)

Diego Difini (Jornal - 2º semestre) Fernando Freitas (PP - 2º semestre) Frederick Posselt (Jornal - 5º semestre) Liége Biasotto (RP - 3º semestre) Moacir Schneider (PP - 8º semestre)

Murilo Zardo (Jornal - 4º semestre) Raquel Matos (PP - 8º semestre) Rodolfo Mohr (Jornal - 2º semestre) Wesley Kuhn (Jornal - 5º semestre) Descarte: penso, logo resisto

DACOM

Representação discente: Conselho da Unidade - Murilo Zardo (Alexandre Lucchese suplente) Plenária do Depto. de Comunicação - Diego Difin (Fernando Freitas suplente) Colegiado do Depto. de Comunicação - Wesley Kuhn (Liége Biasotto suplente) COMGRAD - Jornal: Rodolfo Mohr (Wesley Kuhn suplente); PP: Fernando Freitas (Caio Ramos da Silva suplente); RP: Liége Biasotto (Daniele Carlini suplente) Núcleo de Avaliação da Unidade - Murilo Zardo (Wesley Kuhn suplente) Comissão de Espaço Físico da Unidade - Raquel Matos (Rodolfo Mohr suplente)

Liga-te! O DA C O M e s t á n a emergência de redigir e aprovar democraticamente um estatuto. Preste atenção, pois em breve sua participação em assembléia será fundamental.

Alunos da bibliotecono-mia estão arrecadando livros infantis e infanto-juvenis para recompor o acervo de biblioteca esco-lar incendiada em Itati (RS). Deixe sua contribuição na FA B I C O ( c a i x a s n a portaria, biblioteca escola, ou biblioteca do 4o andar).

FABICO laureada O Conselho da Unidade da FABICO em 10 de julho de 2006, entre outras deliberações e troca de gentilezas docentes, votou o regulamento que pôs em vigor a Láurea Acadêmica para os alunos de Comunicação Social, Biblioteconomia e Arquivologia que, segundo eles, “apresentarem excepcional desempenho acadêmico”. Vale ressaltar que os representantes do DACOM presentes à reunião tiveram apenas direito a voz, sendo impedidos pelo Conselho de votar. Isso ocorreu devido ao fato de a nova gestão ­ “Descarte: Penso, logo resisto” ­ ainda não ter obtido o reconhecimento da direção como tal na ocasião. Entretanto, conseguiu impedir o que seria o início e, paradoxalmente, o fim da láurea, visto a intenção de certos professores em exigirem 100% de conceitos A, o que, além de inédito, seria humanamente impossível. A impressão que se teve foi a de que certos professores desconhecem as dificuldades do cotidiano acadêmico e todas as obrigações decorrentes das atividades relacionadas a esta, como o número de créditos eletivos e os estágios. Pois bem, o Conselho da Unidade decidiu que somente concederá a Láurea Acadêmica aos estudantes que atingirem 90% de conceitos A e nenhum conceito abaixo de B (portanto, não se permite C, nem reprovação) em todas as disciplinas. Além disso, é preciso concluir o curso em 8 semestres, com extensão de mais dois semestres, caso o requerente comprove atividades comprovadamente relacionadas a sua atividade de ensino. Finalmente, o estudante deve ter obtido conceito A na monografia e no estágio curricular. O prazo máximo de solicitação da Láurea para o formando é de cinco dias após a divulgação dos conceitos e deve ser feita à COMGRAD do curso.

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Processo da “chinelagem marginal” é arquivado Quase três meses depois de aberto, o processo interno contra os alunos que participaram da “chinelagem marginal” foi finalmente arquivado. A decisão se deu no último dia 10, em reunião da comissão julgadora, formada pelo aluno de jornalismo André Schröder, e os professores Rubens Weyne e Maria do Rocio. Longe de ser apenas uma festa, como constava no processo, a “chinelagem marginal” foi uma manifestação contra a suspensão de qualquer tipo de festividade dentro da FABICO durante suas obras. Os alunos se organizaram via troca de e-mails e propaganda boca-aboca, e, na noite de 11 de maio de 2006, encontraram-se no pátio da faculdade, dirigindo-se ao diretório acadêmico, onde assinaram de iniciativa própria uma lista na qual se responsabilizavam de maneira coletiva pelo uso do espaço que lhes é destinado. Cabe deixar registrado que não ocorreu nenhuma violência contra o patrimônio ou depredação, motivo pelo qual a direção resolveu suspender as festas. Um mês depois, os alunos que assinaram a lista receberam uma intimação para apresentar defesa a um processo. As punições poderiam variar desde uma advertência verbal até a expulsão dos alunos, sendo que uma suspensão temporária também seria possível.

Por que de noite não? Parece piada, mas não é. A reitoria finalmente decidiu abrir o R.U. do Campus da Saúde à noite. Seria uma grande notícia, se não fosse à conjuntura específica e extraordinária. Devido às obras de reestruturação, o R.U. do Centro ficou fechado durante as férias. Portanto, a solução encontrada foi abrir o R.U. da Saúde durante esse período. A assistência estudantil sempre foi uma das grandes pautas de reivindicação. Somente disponibilizar disciplinas ou cursos integrais nos diversos turnos não é o suficiente na busca da democratização do acesso à educação. Isso se torna evidente quando analisada a situação em que se encontra o Campus da Saúde no turno da noite. Atualmente oferece algumas disciplinas para os cursos da Comunicação Social e o currículo integral da Arquivologia. Ainda abriga a Escola Técnica da UFRGS com cursos exclusivamente noturnos. São louváveis iniciativas quando se observa a situação do ponto de vista das pessoas que precisam trabalhar durante o dia e possuem apenas esse turno disponível para seus estudos. Entretanto, esses estudantes são praticamente desconsiderados no que diz respeito à assistência estudantil, entre outros serviços, como a secretaria, que funciona somente até às 18h30min, e a biblioteca que também fecha cedo. Por não terem um restaurante universitário a sua disposição, acabam tendo que gastar três ou quatro vezes mais do que os alunos do diurno gastam para a refeição. De que adianta disponibilizar os cursos se toda a estrutura sócio-administrativa da universidade não pode ser acessada? Outro fator fundamental para a abertura permanente do R.U. à noite é o atendimento aos moradores da casa de estudantes localizada na Rua São Manuel. Quanto às outras casas de estudantes, a do Campus do Vale e do Centro, os restaurantes universitários servem o jantar a essas pessoas.

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A conclusão que se chega vendo essa série de fatores é a de que há uma grande falta de respeito para com os alunos. A justificativa utilizada pela Secretaria de Assuntos Estudantis (SAE) é sempre a mesma, tanto para o R.U. da Saúde ter funcionamento noturno, quanto para a construção do R.U. do Campus Olímpico: falta demanda. O que não se pode permitir é que, quando forem novamente utilizar esse velho e batido argumento, não usem os dados do baixo número de usuários que vêm jantando no R.U. durante esse breve período de funcionamento, visto que os principais beneficiados por essa medida seriam os moradores da Casa do Estudante, oriundos do interior ou de outros estados, e os alunos dos cursos noturnos e da escola técnica, que em sua grande parte não moram nas redondezas do R.U., necessitando do seu funcionamento. Não podemos aceitar, acima de tudo, que subestimem nossa inteligência e capacidade de visualização dos problemas ao nosso redor.

R.U teve boa movimentação enquanto esteve aberto


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Digitalização da TV: Brasil perde oportunidade histórica

democratizar suas comunicações A implementação de um sistema de televisão digital no Brasil é um acontecimento de imensa importância. Mais do que uma melhor qualidade de vídeo e de som, além da possibilidade de interatividade, a digitalização oferece a oportunidade de mudar drasticamente o cenário da mídia nacional. Atualmente, o grupo de emissoras de TV detentoras das outorgas para a utilização do espectro eletromagnético está fechado e o Código Brasileiro de Telecomunicações (CBT), já com 44 anos, é ultrapassado, conservador e pouco rígido, exercendo apenas um pequeno controle sobre as redes de televisão do país. Como resultado, não há espaço na mídia nem para 5% do que o país produz (no ano passado apenas um dos cinqüenta e um filmes nacionais lançados foi transmitido na TV aberta), a programação é homogeneizada (apenas material importado e gerado nas emissoras é transmitido) e a produção regional e independente é ignorada. Por esse motivo, ONGs, associações e movimentos sociais demandam um amplo debate público sobre o assunto antes da tomada de qualquer decisão. É preciso definir primeiro qual TV digital queremos, não seu padrão tecnológico; regulamentar antes seu funcionamento, não torná-la operacional o mais rápido possível. É necessário, portanto, um novo marco regulatório para a radiodifusão brasileira. Para substituir o defasado, conservador e até desconexo CBT, o governo promete, desde a época de Fernando Henrique Cardoso, uma nova Lei Geral De Comunicação Social Eletrônica. Esse projeto consta, inclusive, no programa do governo Lula. No entanto, nunca foi divulgado oficialmente nenhum projeto dessa lei e se vê o governo invertendo de forma absurda o debate: primeiro será implementado o sistema de TV digital, depois será formado um conselho para definir sua regulamentação. Desse modo, o fortíssimo lobby do atual oligopólio de emissoras de TV ganha força no combate às potencialidades democratizantes da televisão digital. Além de o Brasil continuar sem regras para incentivar a regionalização da produção artística e jornalística (como existe na Europa) ou reservas de espaço para a produção independente, coloca-se em risco a redistribuição e democratização do espectro eletromagnético. Esse espectro é um bem público e finito sobre o qual o governo emite outorgas que permitem a cada emissora a transmissão de uma programação (é o que conhecemos como canal de TV). No sistema analógico de transmissão o espaço concedido é de 6MHz (suficiente para a difusão de

uma programação), mas com a digitalização do sistema essa faixa do espectro pode ser usada para transmitir até quatro canais. É uma oportunidade única para pluralizar a mídia, conceder espaço para a produção independente e democratizar a comunicação social no Brasil. Entretanto, o governo não demonstra interesse nisso. No final de julho, Lula assinou um decreto definindo o padrão de TV digital brasileiro (será utilizada a tecnologia do padrão japonês, incrementado com inovações tecnológicas desenvolvidas por universidades brasileiras, como o middleware Ginga, criado pela PUC-RJ, e o sistema de compreensão de vídeo MPEG-4) e institui nele que cada emissora receberá 6MHz adicionais para realizar a transmissão digital (as emissoras mantêm os 6MHz antigos para transmissão analógica durante o período de transição). De novo o governo promete apenas quatro novos canais públicos e duas concessões para canais privados. Mudança minúscula frente às possibilidades de aproveitamento do espectro que surgem. Também ficou definido no decreto que os governos brasileiro e japonês atuarão de forma conjunta para a formação de mão-de-obra especializada e criação de condições para a instalação de uma fábrica de semicondutores no país. Quanto à interatividade, a promessa é de acesso à internet, possibilidade de marcar consultas no SUS e educação à distância. Excelente em teoria, mas o que ninguém fala é que há a possibilidade de que os módulos adaptadores de sinal analógico para o digital mais baratos não possuam nada mais do que a capacidade de melhorar a imagem e o som, sem opção de interatividade, excluindo a parcela mais pobre da população do acesso a esses serviços. Inova-se, então, apenas na melhoria da qualidade do som e da imagem; apela-se ao fetiche da alta definição, do novo, do tecnológico; mantêm-se os velhos problemas. Os interesses comerciais ainda se sobrepõem aos interesses públicos e a falta de regulamentação incentiva o domínio da mídia por um oligopólio fechado. Sem um debate público amplo, com o governo pressionado por poderosos grupos de interesses e com a ridícula atuação do Ministro das Comunicações, Hélio Costa (ex-funcionário da Rede Globo, que se recusou a discutir qualquer assunto com os movimentos sociais, mas não encontrou nenhuma dificuldade para agendar extensas reuniões com representantes das emissoras de TV) realiza-se, mais uma vez, de cima para baixo e de forma excludente, um processo essencial para o desenvolvimento do país.

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“A vó do cu é a maionese!” Poeta em migalhas, cronista do absurdo, contista fragmentário e autor de uma das frases mais enigmáticas do universo fabicano: “a vó do cu é a maionese!”. Embora tenha nascido em Montevidéu, em 1979, Fabio Godoh, mais conhecido como "o dadaísta do Bom Fim", é na verdade um porto-alegrense. Vive na capital gaúcha, onde apresentava na rádio da Universidade o Programa Clara Crocodilo Show. Tem se dedicado ultimamente a empregos não-literários, como a pós-literatura e a produção de conteúdos, atuando principalmente na rádio Ipanema FM de Porto Alegre, onde apresenta, com Marcelo Noah, o podcast Prefácil, e em seu projeto estético-cultural chamado "Chimia Geral". Formado em Letras pela UFRGS e em Jornalismo pela PUC-RS, Fabio foi um prato cheio para iniciar nossa seção de entrevistas do Bolefa. Confira nossa conversa, que teve, entre outros temas, a universidade, poesia e comunicação . Bolefa: Como surgiu a idéia do programa Clara Crocodilo Show, como foi viabilizá-la? Fabio Godoh:Tudo começou em 2003. Eu ainda cursava a embolorada Faculdade de Letras da UFRGS, onde, através de choques sistemáticos, aqueles senhores tentavam me persuadir a renunciar às minhas leituras. Perplexo ante a imbecilidade "indocente" daquele antro, percebi que a tendência ao celibato literário entre os jovens da minha geração talvez fosse algo impossível de superar, afinal, aquele é o tipo do lugar que você pode tranqüilamente abandonar se conseguir acertar a data de hojee o nome do presidente. Então, num dia em que a poesia estava com azia, conheci o poeta e publicitário Marcelo Noah, e imediatamente sonhei com panquecas onde não havia nem papel higiênico.higiênico. Raivosos e lúcidos, subimos por trás dos pedestais e fizemos cócegas: "Através das peneiras de vossos diplomas, senhores burocratas, passa uma juventude cansada e perdida. Sois a praga de um mundo!". E partimos para a luta armada. Juntamos o nosso material poético subversivo, e apresentamos um projeto à Sra. Sandra de Deus, então diretora da Rádio da Universidade. A idéia era veicular a nossa imensa coleção de spoken words, registros em áudio de poetas falando seus próprios poemas. Ela aceitou, mas a gente não. E com o programa na mão, mudamos tudo. Fizemos do nosso espaço o mais completo carnaval literário da história desta cidade. Anarquizamos de todas as maneiras possíveis. Pornografia, gonzojornalismo, concurso de karaokê, happenings, breguice, debates sobre pecuária, metafísica e obesidade na adolescência, manifestos politicamente incorretos, entrevistas com mendigos e com estrelas do mundo pop-literário, lixos da Internet, paródias, plágios, arte de ultravanguarda, silêncios e, por incrível que pareça, até poesia. Enfim, Clara Crocodilo Show foi um grande exercício de libertação moral e estética, que durou quase dois anos, e do qual guardo enormes saudades. E aproveito este espaço para agradecer à Sra. Sandra de Deus, a intelectual mais arejada que conheci e um dos corações mais infinitos que tive a oportunidade de escutar bater. B.: Por que o programa saiu do ar repentinamente? F.G.:Bem, logo no programa de estréia, parte do corpo burocrático da Rádio da Universidade, liderada pelo então vice-diretor Marco Aurélio Benites, iniciou uma enfurecida campanha pedindo a imediata extinção do programa. As reclamações da audiência aumentavam progressivamente, e éramos repreendidos a cada semana. No entanto, nossas experimentações se tornavam cada vez mais radicais. Quem sustentava a nossa situação era a Sra. Sandra de Deus, mas a pressão do corpo burocrático aumentava na medida em que fundíamos o pouco que havia de massa encefálica em Benites. Um belo dia, resolvemos montar um poema sonoro a partir da clássica locução institucional da Rádio da Universidade. Assim, editamos a locução a partir de avançadas técnicas concretistas, adicionando elementos contemporâneos de psycotrance. Resultado: uma composição de 29 minutos e 14 segundos, que foi ao ar integralmente e que acarretou uma avalanche de reclamações. Fomos chamados para uma reunião, e a partir daí passamos a gravar sob a vigilância censora de Benites, que fazia questão de acompanhar cada detalhe de produção. Foi uma fase em que o programa recuou estrategicamente, diminuindo a inserção de peças experimentais e de happenings nonsense.

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Então, num golpe estratégico, Benites tomou o poder, tornandose o "Imperador Marco Aurélio Benites I", e, neste momento, tivemos a certeza de que os nossos dias estavam contados. Resolvemos, então, num lance de dados, fazer um programa especial sobre o dadaísmo, e decidimos entrevistar umespecialista: o meu gato de estimação. E, por incrível que pareça, essa entrevista, que foi ao ar em junho de 2005, foi o estopim da ira do Imperador Burocrata Marco Aurélio Benites, acarretando a extinção do programa. Ele argumentava que era inadmissível que uma rádio de tradição e respeito como a Rádio da Universidade veiculasse um depoimento sobre dadaísmo emitido por um animal que sequer é possibilitado de pensar. Dessa forma, nos chamaram para uma reunião definitiva, na qual nos comunicariam e expulsão. A reunião não chegou a durar 15 minutos, pois acabamos escorraçados pelos seguranças, enquanto o Imperador Benites, frente ao seu inescrupuloso espelho de mediocridade, se preocupava em arreglar o cabelo com o gel da burrice institucionalizada. B..:A universidade, assim como sua rádio, é um lugar difícil para divulgar arte? Como tu sente esse clima, em relação à direção, professores, alunos, enfim: o clima em si? F.G.: Olha, considero um verdadeiro horror que uma rádio universitária, assim como todas as suas outras estruturas, seja a mais conservadora do cenário. Os produtos universitários deveriam, pelo contrário, ser os mais experimentais, os mais radicais, porque fazem parte de um laboratórioexistencial e cultural. Mas infelizmente as nossas universidades não estimulam a capacidade de criação dos estudantes. Na verdade, querem perpetuar uma espécie de comportamento robótico-burocráitcomercadológico, de comodismo ético politicamente correto e de castração intelecto-conceitual. Por isso eu sempre digo: nossos professores, em boa medida, são incompetentes, mas os alunos são os principais culpados, pois são coniventes com esse processo de lobotomia geral. Na ossada geral brasileira, alguém


Agosto de 2006 tem de exercer as funções de chimia e ovo; e essa é a nossa função como jovens sexualizados. B.: E na imprensa aqui no sul como fica? A Ipanema abraçou vocês, mas o cenário no geral não parece tão receptivo, como tu encara isso? F.G.: Bem, assim como a MTV, a Ipanema é um veículo de vanguarda. E o Eduardo Santos é um gênio visionário. Quando fomos expulsos da Rádio da Universidade, nosso primeiro ato foi colar alguns cartazes na Fabico denunciando o autoritarismo do Benites, os quais foram imediatamente recolhidos. Nosso segundo ato foi ir até a Ipanema e apresentar o nosso case. Hoje, estamos finalizando um projeto grandioso, chamado "Trinta em Transe", que vai ser lançado na próxima Feira do Livro, e que está sendo organizado por mim e por Noah. Trata-se de uma antologia reunindo em disco o registro da voz dos principais nomes da poesia de Porto Alegre. Portanto, creio que a equação seja simples: quem faz o cenário são os atores, e quem inventa os atores são os jovens publicitários. B.: Luís Antonio de Assis Brasil, Luís Augusto Fischer, Luís Fernando Veríssimo, Sérgius Gonzaga, Eduardo Wolf: dá pra dizer que este seja o mainstream intelectual de Porto Alegre? Se de um lado temos isso, há alguma alternativa? Quem é o underground? F.G: Bem, meu principal axioma existencial intelcto-masoquista consiste, naturalmente, na heróica pregação de que só é livre quem se livra dos livros. Sempre que jovens poetas marginais se aproximam em busca de respostas acerca do sentido da vida e do papel da poesia

religiosa na construção metalingüística de um mundo melhor, eu digo, e repito, que o compromisso do poeta enquanto antena da raça é, sobretudo, livrar os livros da leitura. Seja como for, são sempre os idiotas que se revoltam contra a razão e a formalidade. Nunca os intelectuais. Isso envolve um pouco de lógica e de sabedoria que às vezes é da alçada do palhaço. Por isso, considero essa turma aí realmente muito simpática, mas incompetente. O Assis Brasil, por exemplo, talvez seja o caso mais gritante. Sua famosa Oficina de Criação Literária não passa de uma piada. Aliás, uma piada de extremo bom gosto, caso o propósito da vítima seja aprender tudo o que não deve ser executado na hora da criação de qualquer texto artístico. Em relação ao Veríssimo, imagino que enquanto ele não cursar a cadeira do Juremir Machado na PUC, não haverá qualquer possibilidade de grandes desdobramentos estéticos em sua obra. Já o Fischer, sinceramente, não consigo entender como foi parar na literatura, uma vez que seus cacoetes sociologizantes o aproximam muito mais das etnografias de um fiscal do IBGE do que da poesia. Aliás, sobre o Fischer, é interessante que eu conte um fato. Há alguns meses, tive a oportunidade de trabalhar, juntamente com Marcelo Noah, como consultor literário na produção do último longa-metragem de Beto Brant, que estréia no ano que vem, intitulado “Cão sem dono”,uma adaptação violenta do ingênuo romance "Até

“querem perpetuar uma espécie de comportamento robótico-burocráitco-mercadológico, de comodismo ético politicamente correto e de castração intelecto-conceitual: nossos professores, em boa medida, são incompetentes, mas

os alunos são os principais culpados, pois são coniventes com esse processo de lobotomia geral” o dia em que o cão morreu", do pudico poeta do mal Daniel Galera. Nossa primeira medida no filme foi imediatamente redimensionar o papel de "professor universitário", que seria interpretado pelo próprio Fischer, deixando-o a cargo do extraordinário compositor e poeta Beto Deschamps. Sabe, acho que está na hora de renovarmos nossos quadros sujos de bolso da cena literária porto-alegrense, e o Fischer, em grande medida, representa esse atraso. Quanto ao Wolf, seu filhote, eu acho que deveria silenciar um pouco a sua ingenuidade iluminista crítica e, desse modo, preservar a integridade de sua arcada mental, limitando a atuação da sua genialidade ao exercício de sua rotina diária, que, como todos sabem, se resume a ejacular bobagens na pia e a tomar o caldinho de feijão do Botequim das Letras.

dando a dica. Na verdade, "a vó do cu é a maionese" é um verso de um extenso poema que escrevi, e que integra um livro chamado "Chimia Geral", que pretendo lançar em breve. Trata-se de uma espécie de "Galáxias", de Haroldo de Campos, seguindo também na linha do "Catatau", do Leminski. Logo que comecei a escrever este livro, resolvi divulgar alguns de seus versos pelos muros da cidade, numa tentativa ingênua de instaurar o terrorismo poético. Entre outros lugares, escrevi "a vó do cu é a maionese" num muro da rua Jacinto Gomes, e nunca imaginei que isso acarretasse tanta repercussão. Quando vi aquela comunidade no Orkut, chorei de rir. Mas poesia é isso mesmo, estimular a imaginação das pessoas, e pelo que percebi lendo as interpretações do pessoal, acho que consegui atingir meu objetivo.

B.: Chomsky explica "a vó do cu é a maionese"? F.G.:Sem dúvida, e também Austin. Sabe, o maior poeta dos nossos tempos, Stewart Home, diz que "a poesia não pode ser reformada, ela só pode ser abolida". Pois bem, eu acredito que neste período histórico em que vivemos, que chamo de pós-contemporaneidade, não é concebível uma poesia que não seja "inaceitável". De qualquer forma, sob o ponto de vista da fisicalidade da matéria artística, Chomsky afirma que as gramáticas geram somente sentenças gramaticais que são "aceitáveis" pelos falantes nativos, pois são construídas de uma maneira eficaz e iluminadora: "Colorless green ideas sleep furiously", por anti-exemplo. Por outro lado, a principal contribuição de Austin para a minha poesia foi a idéia de que a linguagem deve ser tratada fundamentalmente como uma forma de ação sobre a realidade, e não como sua óbvia representação. Portanto, ao proferir pronunciados tais como "a vó do cu é a maionese", minha intenção não é a de fazer afirmações falsas sobre esta realidade nojenta, na qual todos nós somos meros companheiros de desgraça, plena e absoluta. Estes pronunciados, veja bem, não são usados para informar, mas para realizar vários tipos de ação, entre elas a anti-poesia. Aqui eu me refiro, claro, ao trabalho de Peter Burger, assim como ao envolvimento dos dadaístas de Berlim e da Internacional Situacionista com a esquerda comunista. Assim, a estratégia cultural progressista neste período póscontemporâneo deve ser tornar autônomo o negativo dentro da prática artística. Neste ponto, Chomsky, involuntariamente, acabou

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Um passado de muita peleja Sim, nossa prezada Fabico já foi, durante muito tempo, um exemplo de mobilização e luta, com conquistas concretas, para todos os estudantes da UFRGS - por mais incrível que isso possa soar nos dias de hoje. Não estamos falando aqui de anos 70 ou 80, mas de um passado muito recente, no qual a Fabico ainda constituía um real palco de debates sobre a comunicação, a política nacional e o movimento estudantil. Uma mobilização que marcou esse passado recente foi a grande manifestação fabicana do primeiro semestre de 2002, ocorrida pouco tempo depois da última greve dos docentes da universidade, contra a defasagem de funcionários e equipamentos na biblioteca (que havia passado a não mais funcionar das 12h às 15h, por falta de pessoal), no LIBIA (o qual só ficava aberto pela manhã) e no estúdio de vídeo e TV. Os estudantes da comunicação e da biblioteconomia, conscientes de que a raiz de seus problemas comuns estava no constante sucateamento das universidades públicas, resultante da falta de interesse dos governos neoliberais em investir na educação, resolveram marcar um ato unificado para reivindicar melhores condições de estudo. Ao amanhecer do histórico dia, havia somente trinta alunos postados na porta da Fabico com panelas, faixas e um equipamento de som. Contudo, já por volta das 10h as manifestação contava com mais de 300 estudantes, os quais, não contentes em apenas fazer barulho em frente ao prédio, se encaminharam para a Avenida Ipiranga e simplesmente trancaram uma das vias mais movimentadas da cidade, urrando as palavras de ordem “sem biblioteca, não dá para estudar!”. Os alunos venceram: chamaram a atenção da reitoria, que resolveu ir ao auditório da Fabico escutar as reivindicações dos estudantes, logo atendidas. Em uma semana a biblioteca voltou a funcionar normalmente, o LIBIA passou a abrir em dois turnos e foram adquiridos novos equipamentos para os estúdios da comunicação. Foi um verdadeiro show de politização e organização dos alunos da Fabico, que demonstraram, na prática, o poder dos estudantes na rua. No ano seguinte, foi a vez da tentativa da reitoria de aumentar o preço das refeições do RU em quase 100%, barrada pelos estudantes (mesmo não contando com o apoio do DCE da época) em uma série de manifestações, nas quais os fabicanos sempre compareciam em peso. Exemplo disso foi o famoso ato no qual um contingente de quase 300 alunos ocupou o gabinete da antiga reitora Wrana Pazzini para tentar barrar o aumento boa parte deles havia saído de um ônibus lotado, vindo diretamente da Fabico. Resultado: até hoje o preço do RU continua sendo R$ 1,30. Além de figurar nestas e em muitas outras lutas históricas dentro da UFRGS, a Fabico também foi, em 2004, um dos mais profícuos espaços de discussão crítica da “reforma” universitária do governo Lula, além de sempre ter sido notável ao fazer frente, através do DACOM, no movimento pela democratização da comunicação, organizando durante muito tempo o

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coletivo e as semanas de democratização da mídia lutas que hoje, infelizmente, estão sendo levadas à frente somente pelo CA da FamecosPUC. É muito triste ver um lugar de tanta tradição nos movimentos estudantil e da comunicação, como é a Fabico, tornar-se o poço seco, em termos de crítica e mobilização, que é hoje. Não foram os problemas que acabaram, é a tradicional garra dos fabicanos em enfrentá-los que não anda mais dando as caras. Talvez, olhando para trás e lembrando do que já conquistamos, possamos nos dar conta de que, se a coisa continuar do jeito que está, todos só temos a perder e, pelo visto, já está na hora de acordar.

“Após muito tempo...”

“Tempo de escuridão...”

“Ele está de volta!!!”

Reformas na FABICO Até que enfim saiu a tão esperada reforma do prédio da FABICO. Entretanto, fica a pergunta: o que vai acontecer? O terceiro andar já está sendo finalizado e, nos próximos dias, já estará em funcionamento neste espaço: estúdio de rádio, estúdio de TV, Laboratório de fotografia, Laboratório de Ensino à Distância, Laboratório de Novas Tecnologias e sala de aula. Em outubro iniciam as obras do segundo andar, com previsão de término lá por março. Neste espaço quem se deu bem foi a pós-graduação (como já era de se esperar) que vai ficar com quase todo o andar para seus núcleos de pesquisa, além de uma sala de aula. Para a graduação, ali ficam o LICO e o LIBIA (laboratórios de informática) e uma sala de aula. Quanto ao térreo e o quarto andar, ainda não se sabe o que vai acontecer. Cada andar depende de uma verba específica e de uma comissão de espaço físico que decide o que vai ser feito. Vamos se ligar galera! Se nós não participarmos de forma ativa das decisões, poderemos ter perdas importantes dos espaços de organização dos estudantes. Alguns boatos já andam rolando pelos corredores da FABICO... Ah! A previsão de término? Lá por 2008...

A vó do cu é a maionese  

Entrevista definitiva com o poeta Fabio Godoh.

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