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Revista

AGN

CORI Contos Contosreportagens Crônicas Atos

Laura Leal - Juliana Xavier - Livia de Vivo Fernanda Marques - Lucas Damião - Adriana Farias Carla de Wolf - Gabriela Tozzo - Bruno Borin Gabriel Iorio - Isabel Camara - Laura Cantal Leandro Gomes - Jéssika Bertani - Fabiana Coletta Mariane Pinho - Denis Bertoncello - Natália Senóbio Fernanda Sakaragui - Vanessa Dias - Raquel Salema


Ao leitor Leitores, regozijai-vos! Tens em mãos um insigne exemplar da revista Coringa. Uma garbosa compilação do que de melhor foi produzido na disciplina de Jornalismo e Literatura, ministrada na Pontifícia Universidade Católica pelo excelentíssimo Professor Wladyr Nader. Tenho absoluta convicção que satisfarás vossa sede intelectual com estes pequenos prazeres, fluidos literários de alguns dos terceiro-anistas. Escribas aspirantes a guerreiros da justiça; defensores da moral e da ética; heróis da democracia, templários da superficialidade, ah! os jornalistas...hi hi hi Nas páginas que se seguem, encontra-se o fruto da jornada dos nossos paladinos da informação no mundo da literatura. São contos, contos-reportagens, crônicas e atos devidamente sinalizados pelos naipes do carteado. Coringa é curinga. É certamente versátil, que possui qualidades múltiplas e variadas, que atua em diversas posições: no transporte tedioso, no divã da sala, no leito insone ou até no aposento de banho... Dentro de outras tantas situações, a Coringa é esta em vosso poder. Uma leitura esporádica e aleatória. Desfrutai! o Coringa Diagramação e Arte final

Ilustração Finalização

Bruno Borin Carla de Wolf Denis Bertoncello Fabiana Coletta Gabriel Iorio Gabriela Tozzo Laura Cantal Guilherme Amorim Denis Bertoncello Fabiana Coletta


“Saberás dar-me a razão de termos o nariz no meio do rosto? (...) Ora, é para ficarmos com um olho de cada lado do nariz, a fim de espiarmos o que não pudermos cheirar.” O Bobo de Rei Lear, William Shakespeare


Um livro no corpo errado


Sumário Crônicas Denis Bertoncello

Caetano, e a Augusta? . . . . . . . . . . . . . . . 11

Jéssika Bertani

Crônica dos sem lar . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15

Fernanda Marques

A minha margem do rio . . . . . . . . . . . . . . . 17

Leandro Gomes

Vanessa Dias

Juliana Xavier

Aniversário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20 Chuvas, estresse e o Valdemir . . . . . . . . . . 22 Detalhes tão pequenos de nós dois . . . . . . 25

Fernanda Sakaragui

“Vamos dar uma espiadinha” . . . . . . . . . . 28

Fabiana Coletta

Alienação Voluntária . . . . . . . . . . . . . . . . . 30


Contos-reportagens Adriana Farias

Gabriela Tozzo

Livia de Vivo

Lucas Dami찾o

Laura Cantal

Raquel Salema

Carla de Wolf

Alameda Edith n째102 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35

Luz negra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37 Um domingo de missa . . . . . . . . . . . . . . . . 43 Rotina em duas rodas . . . . . . . . . . . . . . . . 46 O contador . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49 Um singelo ato . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 54 Noite sem fim . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60


Contos Bruno Borin

Bodas de cinza . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67

Denis Bertoncello

Briga de casal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71

Natália Senóbio

Um anjo loiro, excêntrico e drogado . . . . . 77

Isabel Camara

Laura Leal Mariane Pinho

A Maria da Penha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82 A história de um morto vivo . . . . . . . . . . . 86 Livre Arbítrio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46

Atos Gabriel Iorio

A Confissão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .95 Bruno Borin e Denis Bertoncello

A ordem é não nascer . . . . . . . . . . . . . . . 110


Crônica

Denis Bertoncello

Caetano, e a Augusta?

C

aro Caetano, o tempo lhe pregou uma peça. E contra ele, nem os gênios como você podem. Mas relaxe, não vou aqui disparar críticas baratas contra sua obra ou colaborar com essa gente que não sabe apreciar o que você faz hoje. A crítica que escrevo não é nem crítica, é mais uma inquietação de jovem, coisa pessoal mesmo. Você já sabe o que eu quero dizer. É réu confesso. Não foi você que quando chegou por aqui não entendeu nada? São Paulo é complicada, meu caro. Cantar as belezas da Bahia? É fácil. Do Rio, então, nem se fala. Mar, areia, brisa e sol se pondo fazem qualquer paisagem por aí bonita. Mas

São

Paulo

é

complicada.

E você, gênio forte, nem ligou pra sua confusão e já foi logo musicando a cidade. Passou por cima dos que nasceram aqui, do nosso Adoniran, e escreveu sozinho a letra que hoje é a New York, New York paulistana. E ainda teve intimidade pra chamá-la simplesmente de Sampa. Isso era 1978, Caetano. Você já fazia sucesso, mas o disco 11


Coringa

Muito, lá vem um trocadilho, nem foi muito bem, não. Mesmo assim, Sampa virou um hino. Mas em 30 anos muita coisa muda. Se naquela época ninguém reclamou, hoje, 2010, posso dizer que você escolheu o cruzamento errado. O encontro das avenidas São João e Ipiranga, juro, não significa nada pra mim, que vim depois dos anos 80. Você deveria ter pensado direito. Em 78, as regiões centrais das grandes cidades já estavam decaindo. Por aqui, os hotéis, os cinemas, os bares, as sedes de empresas, os bancos, as galerias, tudo o que faz e sempre fez de São Paulo São Paulo já estava de saída do “centrão”. Mas você foi cabeça dura. Vendo tudo acabar, preferiu imortalizar a Ipiranga com a Avenida São João. Não fosse você, hoje seria só mais uma placa, não um ícone. Caetano, Caetano. Pense bem. Não dava para ter pegado um lugar que representasse São Paulo sempre? Minha sugestão é óbvia, mas funciona: a rua Augusta. Essa, sim, merecia uns versos. Tudo bem, o Roberto Carlos, os Mutantes, o Raul, o Tom Zé, todos já tinham cantado a Rua Augusta, mas no Rio também não é assim? Copacabana, Copacabana, Maracanã e Ipanema (e Copacabana). E todo mundo canta Bossa sem nem ligar para essa obviedade toda. Para mim, a Rua Augusta é o símbolo paulistano perfeito. Tem gente que gosta da Vila Madalena, outros não saem dos shoppings, muitos ainda amam o Centro,

até a Vila Olímpia tem lá os seus fãs. M as a Augusta é tudo isso numa reta só. Os cruzamentos contam 15, o que 12


Denis Bertoncello

lhe abre um grande leque de possibilidades. Mas o único clássico mesmo, daqueles com carros vindos de todos os lados, é com a Avenida Paulista. Quer cruzamento melhor? Nesse caso, se alguma coisa acontecesse com seu coração enquanto cruzava a Augusta com a Avenida Paulista, eu já estaria satisfeito. Ele sempre foi e sempre será significativo, nos anos 50 e nos anos 2000. Apesar de que, se estivesse lhe escrevendo há uns 15 anos, talvez eu não pudesse gozar de tanta certeza. A Augusta teve também seus dias de crise, principalmente no sentido Centro, que desemboca lá pra perto do Anhangabaú. Se na segunda metade do século passado as carangas de carburador envenenado e as discotecas ao estilo americano caracterizavam a via, na década de 90, eram só as casas noturnas masculinas, ou night clubs (pra dar um ar internacional), que faziam sua fama. Já o outro sentido, o do Jardins, não sofreu tanto com o tempo. No Conjunto Nacional e nos cinemas de rua, os intelectuais continuaram a consumir sua cultura. Na Galeria Ouro Fino, os “alternativos” continuaram a consumir as tendências “alternativas” (do estrangeiro). Nas lojas entre a Oscar Freire e a alameda Tietê, também os grã-finos continuaram a consumir, simplesmente por fazê-lo. Mas foi nos últimos anos, renovando o moribundo lado do Centro, Caetano, que a Augusta recuperou o ar de sua graça. Era óbvio que ela não ficaria para sempre à meia luz. Hoje, percorrendo seus três quilômetros, da rua Martinho Prado até as Estados Unidos, continuamos encontrando 13


Coringa

as prostitutas e suas boates, mas uma gama incrível de bares, botecos, pubs, lojas, teatros, cinemas, galerias e baladas para todo o tipo de público foi inaugurada pelos próprios frequentadores da rua. Agora, todas as tribos urbanas se cruzam por lá: os moderninhos, os emos, os punks, os roqueiros, os playboys, os normais (será que eles existem?), gays, héteros, ricos e pobres, daqui e do Brasil inteiro. Como São Paulo, a Augusta ganhou ares de cosmopolita, e por isso é nosso símbolo perfeito. Não é bonita, mas tudo bem, já ouvi dizer que Itapoã é melhor no papel do que na realidade. Enquanto isso, a sua Ipiranga com a avenida São João continuou mal das per nas. Não me leve a mal, eu também adoro o Centro. Na Virada Cultural, por exemplo, a gente sente um pouco do gostinho de vivê-lo, como quando você, o Chico e o Toquinho tomavam uma lá pela Olido. Até entendo por que você insistiu em retratá-lo em Sampa, mas depois de tantos anos de abandono total, uma revitalização real dessa área dependeria de uma grande vontade pública e política que, até hoje, não conseguiu muitos resultados. Mesmo assim, só porque eu gosto de você, vai uma pontinha de esperança: talvez o mesmo tempo que o derrubou, o ajude a dar a volta por cima. É que lá nas suas esquinas o Bar Brahma continua bombando. Tempos atrás, também reinauguraram o Marabá, o que despertou uma nostalgiazinha de quem chegou a aproveitar os tempos de Cinelândia. Torça, Caetano. Quem sabe você acertou mesmo, e o errado nessa história sou eu.

Mas só pra acabarmos com isso, escreve uma música pra Augusta, vai . . . . . 14


Crônica

Jéssika Bertani

Crônica dos sem lar

J

á se passara muito tempo desde que ele saíra de casa. Tanto tempo que já se esquecera das cores das almofadas ou da disposição dos pratos no armário da cozinha. Ou do nome do cachorro. Do seu latido lembrava, mas só porque Neguinho, o atual, o reproduzia com perfeição. Mesmo em situação de rua, ele se arranjava. Atualmente adormecia e acordava na marquise do açougue. Era com o proprietário, seo Luiz, que todos os dias compartilhava café e bolo quentinhos. Os monólogos intermináveis eram interrompidos apenas para que o ouvinte se pronunciasse. Não que não fosse confortável se quedar escutar sobre o jogo do último domingo, o aumento do quilo do frango ou das saudades da vida pobre e plena que levava no interior de Minas. Para ele era raro lhe falarem como amigo, ou ao menos, dirigirem-se a ele como alguém digno de respeito. Suas incursões na mendicância eram sempre dolorosas. Logo ele que sempre prezara a relevância de outrem. Que sempre achara que as implicâncias, ódios, guerras eram resultado dos não-bom-dia, não-obrigado, não-por-favor. Cada olhar de repugnância correspondia a um de pena. Ele não sabe qual detesta mais. Detesta ainda mais saber que é nada menos que uma estatística 15


Coringa

vergonhosa a qual as cidades tentam exterminar. Uma vez, uma colega de rua disse-lhe algo que ele agora, 4 anos e meio de cafezinho depois, articulava a seo Luiz: - A gente é mais ou menos assim, como formigas. Como formigas num gramado bonito e verdinho, só que ao invés de ocupar formigueiros inteiros, somos independentes. A gente se junta, sobrevive às nossas próprias custas e enquanto isso os donos do jardim se preocupam com o melhor horário pra regar, o balanço que vai ser pendurado na árvore, ou com o roseiral. Esquecem-se da nossa existência e nem percebem que estamos fazendo nossa parte no ciclo da natureza. Aí, um belo dia, quando levam alguém interessado em comprar o terreno, se dão conta que estamos lá, batalhando pra trazer nas costas 20 vezes o nosso próprio peso. Então eles se revoltam, exigem soluções rápidas e vingativas. Alguns botam fogo, a olhos vistos, impedindo qualquer chance de fuga e restabelecimento em outro lugar. Outros, ao contrário, servem-nos como cobaias para seus filhos, em experiências científicas torturantes. Mantêm-nos sitiados para criar artimanhas ainda mais sádicas. No final, vê que não podem lutar contra a natureza, e nos deixa reconstruir nosso formigueiro perto dos limites do terreno, onde não podem nos ver toda hora. Seo Luiz se despediu, já era tarde. Levantou-se, recolheu os restos, passou a mão em Neguinho e desejou boa noite, apagando as luzes. Necessitava voltar pra casa, levar pão pra patroa. No dia seguinte, ao entardecer, apareceu com as mesmas xícaras de todos os dias e dois pedaços de bolo de laranja em um prato. Dessa vez, havia passado manteiga. 16


Crônica

Fernanda Marques

A minha margem do rio

G

eografia. A professora adentrava o recinto, arrumava o material, lançava um olhar cortante para a sala que deixava os risos para o corredor. Seu braço poderoso pegava o giz e iniciava a classe com a explicação mais recente sobre a Terra e as várias camadas que a compunham. O magma, as placas, as correntes de convecção. Ar quente, ar frio. Geologia. Nunca suportei por muito tempo essas aulas, logo buscando um santuário literário para me resguardar até que sua voz metálica parasse de me causar ondas ininterruptas de dor de cabeça. As tentativas de controle e de diminuir os danos que ela protagonizava eram as mais diversas, mas invariavelmente inúteis. Já a professora de Biologia com as plantas, a Botânica, tudo muito organizado nos xilemas e floemas, mas será que a terra se dá conta disso tudo? Ela existe por si só, sem consciência interna disso. Tem-se consciência externa, ou seja, a dos seres humanos, que têm tempo gasto em estudos e dinheiro investido em percepções e em comprovações científicas que reafirmam a mesma questão: a natureza já pensou em tudo. Ou pensou mesmo? Ou existe sem relação nenhuma e sem acesso ao inconsciente coletivo? Sendo nós, produtores e receptores, seres humanos, sem17


Coringa

pre procuraremos algum sentido nas coisas, mesmo que nada realmente exista além de mecanismos de sobrevivência e adaptações geradas com a evolução. As pessoas não são, por natureza, controladas, daí as tentativas de estratégia social para gerar uma convivência mais pacífica, mais organizada, mais rentável, mais produtiva. O farol de trânsito, por exemplo. Se fosse alguma característica inata das pessoas respeitar a vez do outro e respeitar o próximo, não seria necessário ter esse aparato para decidir quem passa e quem deve frear seu meio de transporte. Já para a professora de Matemática é tudo uma questão de lógica e de estatística, facilmente posta para trás com uma equação biquadrada. Mas será que tudo pode ser reduzido a dados, a números, a documentos? E a individualidade? E aquilo do que todos os documentários do Discovery nos convencem, de que não existem duas pessoas iguais no mundo? O que traz a unicidade? Aí entra o professor de Filosofia que rearranja a sala em círculo e propõe debates, provando a existência de diferentes pontos de vista, que por um lado enriquecedores às vezes apontam para cantos diferentes da quadra, sem de fato formar um time. Esse professor também provocava posicionamento de mim e de meus colegas, se seríamos adeptos da teoria hobbesiana, de guerra entre os homens até que o estado venha propor uma opção viável, ou da rousseauniana, do bom selvagem corrompido pela sociedade. 18


Fernanda Marques

Acredito que ninguém nasça mau e uma instituição possa mudar drasticamente a índole, o caráter ou o comportamento e que ninguém nasça bom e seja corrompido. Cada um nasce de um jeito e se transforma, e isso é inevitável, porém essa não é a característica que as pessoas não gostam de ressaltar. É a falta de controle que deixa todos à beira de um ataque de nervos e sem ação diante da faceta mais primitiva da humanidade que nos habita, membros da sociedade do século XXI:

a impulsividade.

19


Coringa

Aniversário

À

s 9h da manhã toca o telefone. Ao primeiro alô, reconheci a voz de uma amiga. Atinei que era o dia de seu aniversário e fui logo cantando: “Parabéns pra você, nesta data querida...” Quando terminei minha entoação e antes que eu perguntasse pela festa, ela foi logo adiantando que decidira dedicar todo o dia para si. Polidamente, descartou qualquer intenção de visitas ou festejos. Declarou que escolhera passar seu aniversário em abstinência de prazeres mundanos e em retiro para meditação. Já vivenciei diversas formas de celebração, mas até então não havia tido a ideia (e vontade) de me isolar como fez minha amiga. Nessa data, gosto de estar com a família e os amigos mais chegados. Em anos passados, promovi diversas festinhas. Contudo, ultimamente, tenho preferido passar o meu dia de forma mais simples e natural. Festejo com o nascer do dia, com o saboreio do café da manhã, e, claro, com os carinhos recebidos de quem se lembra da data. Nem todo mundo gosta de ser homenageado no dia do aniversário. Há quem resista, se aborreça ou se deprima. Um tempo atrás, ao cumprimentar outro aniversariante, ele também pareceu incomodado. Porém a grande maio20


Crônica

Leandro Gomes

ria renasce e se emociona quando as pessoas se mobilizam, cantam e lhe rende palmas. Uma amiga minha afirma, convicta, que no dia do seu aniversário o sol brilha diferente. E quem duvida? A rigor, o dia do aniversário é uma convenção; um marco no calendário para ser especial para nós. Mas poderíamos estabelecer qualquer dia para ser o nosso aniversário. Assim, comemoraríamos o aniversário em qualquer época. Nem precisaríamos esperar um ano inteiro para isso: seria definido o dia em que se quisesse aniversariar, convidaria os amigos mais íntimos e se comprariam uns quitutes, umas bebidinhas e, ao som de boa música, a festa estaria deflagrada. E mais: se quisermos, quase tudo pode ser motivo de comemoração. Primeiro ano de casado (ou de separado)? Mudou de trabalho? Descobriu o que vai ser quando crescer? Cortou o cabelo? Fez as unhas? O motivo é o que menos importa, pois o que vale é o ato de celebrar. A

fin al

a v i da

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um

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g ran

de

ce

le br

a

çã

21

o.


Coringa

Chuva, estresse, metrô e o Valdemir

S

caos

ão Paulo já é um no dia a dia, com o trânsito intenso, ônibus lotados, anônimos correndo para todos os lados, disputando os

ços

espa-

nas plataformas do metrô e n a s m e s a s , ainda mais d o s re s t a u ra n t e s . E m d i a s d e

pico

chuva

e m horários de , a situação piora. Foi em uma quarta-feira qualquer, com o tempo nublado, que resolvo ir ao cinema, na Rua Augusta. Gosto bastante de frequentar a Avenida Paulista e suas imediações. Vê-se de tudo por lá; engravatados, estudantes, hippies e roqueiros. Ao chegar à estação Barra Funda, no final do dia, São Pedro resolveu “lavar o céu” e a quantidade de água que despencou na Cidade foi algo assustador.

correr , de um lado para o outro, mas de nada adiantou a pressa para entrar no metrô

Todos começaram a

e no trem. Logo, o cenário que se viu era de plataformas

lotadas , pessoas abarrotadasdentro dos vagões, como

sardinhas enlatadas, alguns deitados nos 22

corredores,


Crônica

Vanessa Dias

outros falando ao telefone... Ninguém saiu, por causa do forte temporal e poucos conseguiram embarcar para os seus locais de destino. Eu, em meu imenso egoísmo, estava irritada, pois iria chegar atrasada na sessão do filme. Não pensei do drama dos que estavam a minha volta, se tinha alguém com um compromisso mais importante do que o meu. Nervosa e muito cansada, por ter trabalhado durante o dia todo, eu não estava conformada de esperar e correr o risco de não chegar ao cinema. Então, decidi ingressar no metrô. Depois de quarenta minutos, consegui chegar à estação Sé e lá avistei um homem, de óculos escuros e de bengala, tentando um espaço para embarcar. Ninguém abriu espaço para que ele pudesse andar. Eu logo corri, pedi licença para as pessoas que ali estavam e peguei em sua mão. Ele agradeceu e disse que precisava chegar ir até o Jabaquara, mas, pelo fato de não enxergar, estava tendo dificuldade, pois já havia levado muitas cotoveladas. Eu, que tinha planejado o dia todo ir para a Paulista, mudei de idéia em meio minuto e resolvi que iria acompanhar aquele desconhecido, caso ele não se importasse. Valdemir, um homem calvo, de sorriso largo, agradeceu e aceitou. Pedi para um jovem se levantar e ceder o lugar ao meu novo companheiro. Durante o trajeto, ele disse que estava muito cansado, após um dia repleto de trabalho, em dois empregos. Tomada por um preconceito absurdo, pensei “Como uma pessoa cega sai de casa, têm dupla jornada e enfrenta o transporte público sozinho”? Eu, uma jovem estudante, já tenho dificuldade para enfrentar esses caos, imagine ele? Valdemir disse que atua em duas clínicas de raio X. Ele sai 23


Coringa

de casa, todos os dias antes das 6h, para chegar ao primeiro trabalho às 8h, em São Miguel Paulista, na Zona Leste, e às 14h vai para o outro, na Lapa, zona Oeste. A maratona só termina por volta das 20h, onde ele pega metrô e ônibus para chegar em casa, o que só ocorre após às 22h. Aquele moço, que eu tinha acabado de conhecer, tinha um entusiasmo pela vida de dar inveja a qualquer paulistano, estressado, que não para de almejar seus objetivos profissionais e, mesmo depois que consegue, continua correndo, mesmo sem saber ao certo o que deseja mais... Quando chegamos ao Jabaquara, ele ainda precisava de mais uma condução para ir embora. Acompanhei Valdemir até a saída e perguntei se ele queria que eu o acompanhasse até a sua casa. “Não é necessário minha jovem, faço esse caminho todos os dias, só hoje, por causa da lotação que estava no metrô, estava difícil”, foi a resposta que obtive. Despedimo-nos e ele entrou, com a ajuda de uma funcionária, no ônibus. O cinema, que para mim era tão importante, perdeu o valor. Como pode alguém não ver e ser tão ativo e feliz? Na volta para o meu lar, percebi o quanto fui pequena e egoísta, diante da imensidão da existência humana e das questões alheias. Claro que ele enxerga, mas não com os olhos e sim com através das sensações. E nós, em nossa imensa ignorância, devemos parar às vezes e olhar ao nosso redor. Podem ter muitos “Valdemiros” prontos para nos ensinar a parar, observar, valorizar e constatar as coisas belas da vida, mesmo em um dia de caos, chuva, estresse e aglomerações de São Paulo. 24


Crônica

Juliana Xavier

Detalhes tão pequenos de nós dois

E

ntre o francês aprendido com Moulin Rouge, o vinho tinto, as velas espalhadas estrategicamente pelos cantos da casa, o fondue, a lingerie de rendinha, o jantar japonês, o chocolatinho, as cartinhas e recadinhos de amor, os créditos sempre no fim, o cinema corujão de domingo, o primeiro constrangimento de levar pra casa pra passar a noite dividindo o mal estar dos pais (que sempre estão sentados no sofá, com os olhos bem abertos pra observar o seu bate cartão), as promessas de ‘sempre, nunca, alguém, ninguém’, enfim, palavras vergonhosamente definitivas, o frenesi do tesão inicial inexplicável, o bode da transa previsível e obrigatória de sábado à noite, já que não há mais – hmmm, vai, agora cabe a desculpa de falta de tempo pra disfarçar eventuais sensações de saco cheio – tempo pra ficar (sempre) disponível anytime, anywhere, e blablablabla, laugh, Love, get drunk and fuck, eu fico (sempre) com aquele primeiro impulso que (sempre) é justificado por excesso de bebida ou qualquer outra droga que te dê algum barato (pode ser até uma descarga natural de adrenalina, tanto faz). Antes de qualquer coisa, eu sou de carne, osso e coração – debocho, mas desejo secretamente todos esses clichês de amorzinho, amor & amorzão. Mas enfim, o que eu to tentan25


Coringa

do dizer, de um jeito toscamente desajeitado e com muitos rodeios, é que entre tudo isso e a vontade mais primitiva de um corpo pulsante, em que todos os delírios racionais de blefes, orgulho e dignidades próprias são jogados na lata do lixo, que te fazem ir correndo para o quarto ou banheiro mais próximos pra extravasar a tensão, não tenha dúvidas: nenhuma história é tão boa quanto o simples exercer da profissão mais antiga do mundo (e o melhor de tudo: sem pagar nada). Nenhuma história é boa o suficiente pra guardar cheiro, gosto e líquidos que não te pertencem, mas que por uma fração de segundos, minutos ou até horas, ficarão em você. Entre tudo que tá dentro e tudo que tá fora de você, eu fico, sinceramente, com o lado de dentro, sabe? Com as pequenas descobertas do toque de coito. Se você fecha os olhinhos ou faz questão de mantê-los assustadoramente abertos do começo ao fim; se a sua marca de vacina forma uma figura bizarra ou se desapareceu conforme o tempo; se as suas pintas moram em lugares pouco ortodoxos; se as suas cataporas te deixaram marcas, assim como o último sol ardente; suas unhas são do Zé do Caixão ou você rói? Importa-se com a aspereza do seu cotovelo ou a textura dos fios de cabelo? Corta os pêlos com tesourinha ou depila?! Respiração de asmático ou de bicho sufocado? Muito filme pornô na adolescência (possível explicação pros seus péssimos maneirismos viciados) ou imaginação fértil de quem supunha o que tinha por trás daquela pinup ou vizinha-mãegostosa que passava a tarde botando roupa no varal? A lista é extensa. Agora, o resto eu e o mundo inteiro fingimos adorar pra não ter que pedir desculpa ou permissão para seguir em frente no primitivismo cujas únicas preocupações transitam entre dar ou comer, ou qualquer outro verbo 26


Juliana Xavier

deliciosamente vulgar. Ah, os muros da cidade deveriam ser que nem porta de banheiro de boteco ou adesivo de telefone de orelhão:

não é o amor que é importante, porra! E sim a princípio - a porra que é importante, amor.

27


Coringa

“Vamos dar uma espiadinha”

B

ig Brother Brasil 10. Este tem sido o assunto do momento nas rodas reais e virtuais. O inegável suces-

so do programa é demonstrado pelos recordes de votação que são batidos a cada semana, pela quantidade de acesso às matérias sobre o assunto nos sites de notícias e pelo evidente interesse dos telespectadores em eliminar um candidato a cada semana. Dificilmente encontramos alguém que não veja o programa ou pelo menos não conheça

as regras do jogo. Fale bem ou fale mal, todo o mundo já viu pelo menos um “capítulo” de alguma edição do programa. Mas como entender a razão de tanta audiência? O motivo de tanto sucesso é um fator ainda desconhecido. Alguns especialistas acreditam que toda essa audiência acontece porque o programa promove a “celebrização” de gente comum. Esse culto à celebridade é um fenômeno criado pela própria mídia e faz com que o telespectador se interesse pelo programa, porque fica pensando que a fama também pode chegar para ele do dia pra noite. A influência desse reality show é tão grande que na última semana de fevereiro um dos participantes mencionou o ator Marlon Brando, o que fez com que a procura pelo ator, morto em 2004, aumentasse 50% no Google. 28


Crônica

Fernanda Sakaragui

A queda da fronteira entre público e privado é outro possível motivo para a crescente audiência do programa. As câmeras que observam tudo o tempo todo dão ao telespectador o poder do “big brother” imaginado por George Orwell, o poder autoritário que controla todos os atos individuais. Sentadas nas poltronas de suas casas, as pessoas conseguem observar e identificar as fragilidades de cada participante e se sentem capazes de julgar quem merece ganhar o prêmio e quem deve sair na próxima semana. Outra justificativa imaginada pelos especialistas é o

voyeurismo, ou seja, a obtenção de prazer sexual pela

observação de outras pessoas. Mesmo para aqueles que não adoram o programa, não é desagradável ver os participantes dançando nas festas ou tomando sol à beira da piscina. O sucesso do reality show é tão grande que a Rede Globo comprou os direitos de exibição do Oscar 2010 e ao invés de encurtar o programa de domingo (7 de março), preferiu não mostrar os primeiros prêmios da noite para manter na íntegra a formação de mais um “paredão”. O real motivo de tanto sucesso ainda é desconhecido. Seja pelo apelo sexual, seja pelo sonho de se tornar uma celebridade, o reality show é o assunto do momento. Programas desse gênero fazem parte da rotina televisiva desde 1973. No Brasil os reality shows começaram a ser exibidos em 2000 e de lá pra cá a audiência cresce cada vez mais. E não poderia ser diferente. O povo brasileiro é bastante curioso. E um programa que possibilita bisbilhotar a vida

dos outros, no conforto de sua casa e sem ser por essa atitude, só poderia ser sucesso. 29

julgado


Coringa

Alienação voluntária

Q

uando começaram a surgir, vieram aos montes. Pequenos, com poucos e restritos recursos, os aparelhinhos para tocar música eram exclusividade das classes mais abastadas. Foram ficando cada vez mais modernos, menores, até que finalmente foram incorporados aos celulares, esses, sim, bem mais populares. Hoje, qualquer um tem seu arquivo de música mp3 ou rádio FM no celular. Não importam classe social, faixa etária, gênero, preferências ou estilo: virou clichê, lugar-comum, todo mundo tem. Em qualquer orelhinha que se olhe dentro do ônibus lotado das 8 da manhã, lá está o fone preto entretendo a boa alma cansada que o carrega pra todos os lados. Confortos da vida moderna, né? Porém o que vem me chamando mais a atenção para a nova mania nacional (e internacional) é o simples fato de as pessoas nem ouvirem mais o que está em volta. Que ninguém olha ao redor pra reparar no mundo não é nenhuma novidade, mas até então pelo menos podíamos ouvi-lo. Ou éramos obrigados. A audição é um sentido humano incontornável. Se você não quer ver, feche os olhos. Não quer degustar, não come. Mas sentir (tato) e ouvir não têm como escapar, eles existem e estão aí para serem, mesmo a contragosto, sentidos, com o perdão do trocadilho. 30


Crônica

Fabiana Coletta

E não mais que de repente surge um ex-hippie apropriando-se do símbolo do pecado para criar uma marca que hoje não sai, literalmente, do ouvido das pessoas. Claro que nem todos podemos comprar o famigerado iPod, mas suas versões genéricas estão aí disponíveis no mercado em todas as cores, formatos e com capacidade de até dois chips. Agora trocamos os sons da rua pela música mais tocada na rádio jovem. Mesmo que considerem a cidade como barulhenta, ela lá tem seu valor. É ouvindo o que se passa em volta que nos sentimos integrados ao meio, participando dele. O carro ao lado que buzina porque o ônibus está congestionando a rua pode, ao menos, nos lembrar que o transporte público é de péssima qualidade e não consegue atender a todos os passageiros, causando tumulto e, consequentemente, trânsito. A senhora que reclama das pernas à primeira pessoa que espera para atravessar a rua ao seu lado não é mais ouvida nem com um simples: ah, que pena! Passamos despercebidos pelas promoções do abacaxi amarelinho que acabou de chegar do s í t i o . Esquecemos que temos coisas acontecendo em volta para simplesmente passarmos a acreditar que vivemos, sim, num musical. Seja ele sertanejo, rock ou samba, dependendo do critério do ouvinte. Não estou defendendo aqui que a música portátil deve ser abolida ou coisa do gênero. Ela veio para nos entreter e nisso se mostra mui- t o competente. A questão é que cada vez mais estamos procurando refúgios e distrações para termos um motivo pra deixar o resto de lado e nos importar somente com o fato 31


Coringa

de a música escolhida ser apropriada para uma caminhada até o supermercado. A tendência de as pessoas se afastarem e se sentirem independentes numa sociedade é algo que foge do princípio original da formação das cidades. Como um conjunto, devemos participar dela ativamente, seja na hora de pagar impostos ou contribuir não jogando o lixo na rua. Cada um cuidando de si e de sua música escancara o desinteresse pela comunidade como um todo, como se fossemos algo alheio quando na verdade, estamos intrinsecamente ligados a ela numa relação de interdependência e, por enquanto, sem saída de emergência. A cidade vive em volta, faz e acontece, e nem de sua trilha sonora estamos fazendo parte.

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Conto Reportagem

Adriana Farias

ALAMEDA EDITH Nº 102

O

apartamento era imundo. No teto, uma nítida infiltração se misturava com a cor branca da pintura. Nas paredes, além das manchas de mofo e sujeira, pedaços do papel de parede pendiam para todo lado. Na sala, havia uma mesa, o que restava de um sofá e quatro cadeiras de três pernas todas rabiscadas. Sobre o tapete sujo e rasgado em vários pontos, eram comuns as pontas marrons de cigarro atiradas a todo instante. Isso só não era pior do que o cenário na cozinha: panelas, talheres, copos e pratos empilhados, cobertos de restos de comida, formavam edifícios de sujeira e uma boa pedida para os ratos e baratas da vizinhança. E raumnojao E o banheiro? Ah, o banheiro dispensa maiores detalhes, mas era coletivo e ficava fora do apartamento, no terceiro andar do prédio. Já imaginou a limpeza e o cuidado? A rua era a Alameda Edith, situada no bairro londrino de Chelsea, na Inglaterra. O endereço poderia passar despercebido se não tivessem morado ali

três caras que fizeram história no rock mundial: Brian Jones, Mick Jagger e Keith Richards, dos Rolling Stones. 35


Coringa

A idéia da moradia partiu de Jones, que decidiu alugar o apartamento junto com o amigo Richard Hattrell. Anotado com letras garrafais num bilhete úmido entulhado no bolso do guitarrista, marcava o 2º andar de um prédio branco, malcuidado e com uma entrada estreita no número 102. Em agosto de 1962, folca trolcaalgumas semanas depois, Jagger e Richards se juntaram aos dois colegas. Na época, ambos tinham 19 anos e Mick ainda pretendia virar economista ou político estudando na prestigiada Faculdade de Economia e Ciência Política de Londres. O amigo Hattrell não aguentou morar naquela república por muito tempo e desistiu da associação. Brian, Mick e Keith precisavam encontrar alguém para dividir as despesas do apartamento e foram arranjar o sujeito no bar Ealing, a poucos quarteirões da Alameda Edith. Passava da meia noite e o Ealing estava vazio. Alguns músicos cabeludos, com suas guitarras a tiracolo, circulavam em grupo pelos andares do bar. Contar mais de 30 pessoas naquele lugar era muito. Mas os três amigos não desanimaram. Mick se esforçou para subir no palco, meteu e estufou os peitos contra o suporte do microfone e anunciou:

- Tô morando ali na Alameda Edith com mais dois parceiros. Alguém ta a fim de dividir um apê com a gente? James Phelge, um cara alto e com cabelo moptop, aceitou a oferta. Junto com os três futuros Rolling Stones, Phelge ajudou a transformar o ambiente asqueroso do apartamento em algo mais deprimente ainda. 36


Adriana Farias

Phelge se sentiu no dever de decorar o lugar e escarrou na parede da sala, assim que chegou. Ele pegou uma caneta do bolso, virou a tampa e fez um círculo na secreção e escreveu embaixo: “Este aqui se chama Yellow Humphrey”. Mick e Keith caíram na risada e resolveram fazer parte da brincadeira nojenta. Eles cuspiram ao lado do “Yellow Humphrey” e formaram criaturas gosmentas como “Green Gilbert”, “Scarlet Jenkins” ou “Polka-dot Perkins”. A “diversão” durou a madrugada toda. opaqopaqopaqopa pra As doideiras não rodavam apenas o cubículo do apartamento, se transportavam até para os pobres vizinhos. Richards teve a brilhante idéia de esconder o gravador de Jones na cisterna do banheiro coletivo. Sempre que um morador fazia suas necessidades, ele e Phelges acionavam a gravação. À noite, eles se reuniam no corredor da sala e caíam na gargalhada com os efeitos sonoros que conseguiam dos moradores defecando. Numa quinta-feira, outra idéia ridícula passava pela cabeça de Keith para atormentar os vizinhos: ele ateou fogo num dos lençóis velhos e rasgados do quarto e jogou-os pela janela gritando que o prédio estava em chamas. Não sobrou nem para o novo inquilino. A trupe Richards-Phelge amarrou uma corda de cinco metros no cabo de uma frigideira, penduraramna pela janela e balançavam a panela metálica de encontro à janela do apartamento de baixo. O barulho do metal batendo contra o vidro ecoou por toda a vizinhança que tentava dormir, pois já passava das 2h da manhã. 37


Coringa

Foi nesse ambiente insano que os três stones praticaram muita música, principalmente as influências vindas do blues e do jazz. Os únicos bens materiais de Brian eram a guitarra dele, algumas camas e um fogareiro a gás. Mick e Keith também não tinham grandes pertences. Ficavam ali tocando, compondo e ensaiando o dia inteiro. Foi naquele ambiente criativo, mas ao mesmo tempo medonho, que os músicos receberam a visita de um grupo de rapazes de Liverpool, bem vestidos, com cabelo arrumadinho e cercados de produtores. Sim! Eram os Beatles, que quase foram nocauteados com o cheiro insuportável do apartamento.

Jagger, Richards e Jones saíram daquele prédio encardido na metade de 1963.

Mick era o vocalista e Richards e Jones eram os guitarristas de uma banda chamada The Rolling Stones, junto com o pianista Ian Stewart e, posteriormente, com o baixista Bill Wyman e o baterista Charles Watts. Naquela altura, eles já tinham um disco gravado e aparecido algumas vezes na televisão. Com a saída deles, a paz voltou a reinar naquela pacata rua de Chelsea e o mundo viu surgir a maior banda de rock de todos os tempos.

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Conto Reportagem

Gabriela Tozzo

LUZ NEGRA

E

ra como se ele estivesse morto. Sua garganta e coração pesavam como nunca, os olhos ardiam e não choravam. Tudo aquilo lhe parecia irreal a ponto de uma longa e insana gargalhada ecoar em sua cabeça até finalmente explodir no rosto de sua mulher. A esposa perplexa não se mexia, apenas ouvia a risada do marido enquanto fitava o corpo ainda quente estirado no chão. O ano era 1961, nos jornais era só o que se comentava; o caso do bandido da luz vermelha. Oswaldo Enardes de Souza via o noticiário da noite com sua família e contava excitado que fora escolhido para investigar o famoso caso. Inspirado em Caryl Chesmann, João Acácio Pereira foi apelidado de “Bandido da Luz Vermelha”, pois assim como o americano, usava uma lanterna vermelha para auxiliar em seus crimes. João atacava tarde da noite, tinha preferência por moças jovens em mansões. Observava cada casa por cerca de três dias, no terceiro, esgueirava-se até o quadro de luz e cortava a energia. Coberto pela escuridão entrava pela janela, e com um lenço e uma lanterna, rendia suas vítimas. Já era a quinta casa que sofria a ação do bandido quando Oswaldo começou a investigar o caso. 39


Coringa

Todos o parabenizavam pela investigação, ele sabia que era bom, muito bom, e que ia pegar esse filho da puta mais rápido do que qualquer outro oficial. Apontava as falhas dos outros investigadores, explicando como certos procedimentos nas tangamandapio nas investigações eram óbvios, e que mesmo assim ele era o único que os fazia. Sentou em sua mesa e começou a ler e grifar informações, a cada cinco minutos, olhava para o lado e falava em voz alta para que todos ouvissem “Ninguém checou esse endereço?Não?Tá explicado por que esse cara ainda tá na rua..” Era conhecido como um policial arrogante, mas para muitos “uma arrogância justificável”.

João Acácio,até então, crescera marcado por uma infância dura e órfã em Santa Ca-

tarina - onde ficou visado por cometer pequenos furtos. No fim de sua adolescência, encontrava dificuldade para trabalhar, foi então que mudou para o estado de São Paulo, e recomeçou sua vida de crimes em Santos. João não acompanhava os passos da mídia, ao contrário do que muitos imaginavam, mas era cuidadoso o bastante para ter certeza que não o pegariam tão cedo. Queria provar que era o melhor. Enardes tinha 38 anos, bem jovem para um policial com um caso de peso desses. Chegava em casa e mal falava com sua filha e esposa, internava-se em seu escritório e ficava até as últimas horas da madrugada estudando, tentando adivinhar o próximo passo, tentando ver o que passara despercebido. Seu telefone toca, mais uma sxupim ocorrência. Chegou ao local no crime antes do sol nascer, a vítima ainda em choque contava a mesma história, homem alto e moreno com lanterna na mão na janela de moça jovem. 40


Gabriela Tozzo

Oswaldo começava a se preocupar em mostrar resultados, fazia meses que pegara o caso e ainda nada. Sabia que isso era normal, mas não para ele. Foi o último a sair e o primeiro a chegar durante todo o ano, seus colegas falavam para ele descansar e comer melhor, sua esposa, já não falava nada. Trabalhava tanto que qualquer um reparava o quão abatido estava, mas não, para ele não era suficiente. Em dois anos ganhou, além de um vício em cafeína, cabelos brancos e rugas de preocupação. Dentro dele, corria uma angústia amarga de fracasso. Sentia que perdera seu prestígio, aquela emoção, do caso ganho, desaparecera completamente dando lugar a uma obsessão. Ouvia a risada de João, sentia que ele pode ver seus passos, e não o contrário. A mídia já não citava seu nome, se não fosse para criticar. Sentia-se um investigador de segunda, preso em um filme de mau gosto sem fim.

Aquela noite saiu para percorrer as ruas em que os crimes tinham ocorrido. Sentou na fren-

te de uma das mansões e imaginou se o criminoso teria sentado ali. Acendeu seu cigarro e viu a brasa queimar; “Talvez ele que ponha um fim nisso tudo, um dia me mate, me tire de seu caminho.. Tão cansado..”Enquanto a fumaça subia desejava secretamente trocar de lugar com o bandido, assim ele não sentiria o peso da humilhação, a vergonha, a vergonha...Apagou o cigarro na calçada, jogou um último olhar para a casa e reparou como aquela, em particular, lembrava a sua própria. Arrastou-se exausto para fora do carro, destrancou a porta, a casa ainda dormia, para não acordá-la, não acendeu as luzes. Deixou a carteira e chave em cima da pequena mesa ao lado do sofá, só podia ouvir seus pensamentos que gri41


Coringa

tavam a decepção de uma carreira. Era tudo culpa dele, maldito, maldito! Ele sabia de tudo... sabia de tudo...Podia ver seu rosto desdenhoso de seu fracasso, lhe observando, zombando de suas horas de trabalho sem resultado. A gritaria fez silêncio por um segundo para dar espaço ao barulho que vinha de dentro do quarto de sua filha. Puxou lentamente a arma de trás das costas, alinhou-se com a porta e empurrou-a com a ponta dos dedos. Pela pequena fresta podia ver; Em meio à escuridão, aquele vulto, aquele maldito vulto entrando pela janela. Suas mãos tremiam, o sorriso começava a abrir em seu rosto, mirou. A emoção tomava-lhe o corpo trêmulo, aaah a felicidade, aah a felicidade! Puxou o gatilho, uma, duas vezes. A pulsação na boca, o arrepio nos pelos, o alívio, o silêncio. seo anl. Sua esposa permanecia imóvel no corredor com um olhar de pavor deformante. Voltou o rosto para o quarto da menina; Logo abaixo da janela, imersa na poça de sangue que escorria pelo quarto, a filha, agora sem vida. A mãe não se mexia, apenas ouvia a risada do marido enquanto fitava o corpo ainda quente estirado no chão.

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Conto Reportagem

Livia de Vivo

UM DOMINGO DE MISSA

U

sando uma camiseta amarela e uns tênis velhos, o garotinho andava. Entre as pedras da rua havia buracos e areia, mas ele continuava caminhando sem demora, estava cantando. Sua mochila estava pesada e cheia de roupas. Os cabelos loiros e desgrenhados já grudavam na testa sardenta. A igreja Matriz não ficava longe de casa, mas o calor começava a incomodar. Mesmo assim, a sensação era sempre a mesma. Assim que entrava naquele lugar sagrado, o silencio e o frescor do ambiente faziam com que ele se sentisse bem. Era como se pudesse sair daquela cidadezinha por algumas horas. blablablablabl Sempre observava as janelas com vitrais coloridos, as estátuas e os afrescos da construção, parando para admirar um pouco mais o desenho de um anjo no teto. Era seu preferido, pois tinha as mãos gordinhas e parecia feliz. Sempre que rezava a oração do Santo Anjo, pensava naquele. Caio amava o padre Luiz, que tinha olhos doces e o tratava como um filho. Como naquele fim de

Como sua mãe sempre dizia: “Ca-minhava ao encontro do Senhor”.

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Coringa

semana o padre estava num retiro, o sermão seria ministrado pelo diácono. Era ele quem levava doces para todos os coroinhas aos domingos: balas, pirulitos e vários tipos de chocolate. Ele também dava aulas na creche da paróquia, onde o menino tinha suas aulas de inglês. opamasquecoisalocaissonen Depois de quase um ano como coroinha, Caio não esperava mais por instruções, sabia de cor quais eram suas obrigações. Primeiro ele ia ao banheiro colocar seu uniforme, depois começava a limpar o cálice que seria usado na missa, limpava até deixá-lo brilhando. Acendia velas e preparava o altar, tudo em seu devido lugar. Raramente lhe mandavam fazer outras coisas. Mas o menino sequer imaginava o quanto aquele dia seria diferente. Ao entrar no banheiro para se trocar, percebeu que não estava só. Além dele, havia um homem velho, descansando os pés num banco. Sem se alarmar Caio tirou a camiseta amarela. Era apenas o rosto conhecido do diácono. O menino tirou também sua bermuda, deixando à mostra a pele branca e lisa de criança. Distraído, não podia perceber o olhar do velho, até que ele falou. Filho? Você sabe que, como coroinha desta igreja, você tem obrigações? Sim – Respondeu o garoto. Então, o velho diácono levantouse e trancou a porta do banheiro.

- Não faça nenhum barulho. Deus castiga quem revela os segredos de sua casa. Aproximando-se do menino, que o olhava sem enten44


Lívia de Vivo

der, o velho levou as mãos enrugadas e trêmulas a seu encontro. Tocou os braços e foi acariciando todo aquele corpinho miúdo. Demoradamente, alisou as costas, o pescoço, as coxas do garoto. Tocou lugares onde ninguém tocava. Nunca. Estranho, aquele banheiro parecia ecoar cada vez mais alto o som das carícias do diácono, o som de sua respiração ofegante. O menininho não saberia dizer o que aconteceu a seguir, só podia enxergar os azulejos antigos da parede a sua frente. Sabe que sentiu dor e medo. Durante aqueles minutos no banheiro, Caio rezou em silencio a oração do Anjo, pensando naquela figura amada. Aquela tarde de domingo estava ensolarada, era um lindo dia. Como sempre, o diácono parecia estar radiante. Fileiras e fileiras de beatas se emocionaram e sentiram a presença de Deus naquele lugar, enquanto ele começava a leitura:

“Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem mesmo se passou no coração humano as maravilhas que Deus tem preparado para aqueles que o amam...”

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Coringa

A ROTINA EM DUAS RODAS

J

orge Caldas, 28 anos, passa o dia na rua entre os carros e conhece cada bairro sem nunca ter usado um guia. Retrô, como é conhecido pelos amigos, apelido ganho em seu primeiro emprego como motoboy que nada remete à antiguidade, de antigo só a moto Titan, da Honda, de 1999. A alcunha deriva de retrovisor. “Se eu tomo uma fechada é porque o motorista não usou o retrovisor, se ele não usa, eu posso arrancar”, relata. O dia começa cedo, quanto mais tempo trabalhando mais dinheiro. Os motoboys ganham cerca de R$ 6,50 por hora, para fazer entregas (na verdade R$ 13, porque o contrato mínimo é de duas). Retrô pode ir com calma? Não, porque,

quanto mais rápido liquida a missão, mais cedo volta à base para pegar outra, uma espécie de agente secreto em duas rodas. Ao mesmo tempo, o celular vai tocando.

É sua clientela particular, passando serviço. Retrô tem oito pinos na perna direita, a clavícula esquerda deslocada, um olho que não fecha bem e um dedo estragado. Fala rápido como um motoboy no trânsito. Ele explica o duelo que trava todos os dias nas ruas e avenidas com os 46


Conto Reportagem

Lucas Damião

carros. “No duelo das ruas, cada um quer defender o seu território”, Retrô diz também que de manhã os incidentes no trânsito são mais toleráveis. “Mas no fim do dia, com a cabeça cheia, você quer matar o cara”. Ou, então, “sem querer você bate o gui-

dom no retrovisor do cara. Ele começa a gritar, aí junta o pessoal (motoboys) e já viu, né?”. Retrô trabalha numa empresa da avenida Angélica, Higienópolis. Ele e os colegas ficam na garagem, com as motos, à espera. Quando uma campainha soa, é a hora. O primeiro da fila sai rápido. Recebe o pequeno pedaço de papel com o objetivo, pensa no melhor caminho a ser traçado e segue com prontidão ao endereço. Às vezes, atende outros clientes ao mesmo tempo. Por isso todo cuidado com o toque do celular, pode ser mais uma “missão”. Os motoboys que também trabalham por conta própria tiram, dizem, uns R$ 60 por dia. imbluda Mais R$ 15 vão para a gasolina, sem contar os custos de manutenção da moto e outras despesas. Todos trabalham com moto própria. E se o motoboy se acidenta? Carlos dos Santos, 27 anos, que trabalha com Retrô diz: “se você se acidenta, vai querer o seu direito. Se não resolve, parte para a agressão. Quem está certo ou errado, eu não sei. É o meu ganha-pão que está ali”. Em relação ao tipo de trabalho, os motoboys fazem de tudo, desde uma simples entrega até retirar um envelope em um endereço, levar para assinatura de um empresário em outro local e finalmente deixar o envelope ao destino 47


Coringa

final. Mas um dos fatos mais inusitados em que Retrô se envolveu foi quando um fotógrafo pediu para que ele revelasse algumas fotos. Pelo telefone o fotógrafo disse para que o motoboy retirasse o CD com as fotos na recepção do prédio. Dentro da caixa do CD um recado, “revelar as fotos número 15, 17, 20, 21, 23, 25 e 30”. Tudo certo, procedimento padrão até então. g f d h f d h f d f d f d d f d h f d h d f h d Ao chegar na Fotóptica, entregou o CD na mão da recepcionista e esticou o pequeno papel com a outra mão. A moça prontamente colocou o CD no computador e pediu para Retrô confirmar as fotos antes de autorizar a impressão. Quando virou o monitor do computador e Retrô viu do que se tratavam as fotos, se sentiu envergonhado e pediu para a mulher imprimir os números das fotos rapidamente porque ele estava atrasado. O fotógrafo era fetichista e o que a mulher mostrou no monitor tratava de uma cena de sadomasoquismo.

“Nesse dia fiquei vermelho e falei para ela ir rápido e deixei bem claro que as fotos não eram minhas. A gente faz qualquer coisa, trabalho é trabalho e eu preciso pagar minhas contas”, finaliza o motoboy.

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Conto Reportagem

Laura Cantal

O CONTADOR

E

le desceu do ônibus e começou a contar: um, dois, três... O preço da gasolina não compensava: o preço da passagem, vezes dois (ida e volta do trabalho), vezes os 20 dias úteis que ele se deslocava até o Leme, ficava mais barato do que a gasolina. Quinze, dezesseis, dezessete... e a caminhada de 15 minutos até em casa era o tempo de exercício diário e mínimo recomendado pelo seu médico, Dr. Rocha (cuja consulta custava R$300,00, mas que com o reembolso de 70%, saía por R$90,00). Ele gostava de pensar que carregar a pasta que pesava, em 80% do tempo, 750g, fortaleceria o músculo flácido de seu braço. De três em três minutos ele mudava o braço, totalizando um exercício muscular de nove minutos por braço (ele também carregava a pasta durante mais 3 minutos, enquanto subia os cinquenta degraus até seu apartamento no segundo andar). Ele contava seus passos: cinqüenta, cinqüenta e um, e dois... Ele não gostava de admitir, mas para caminhar os 1.250 metros tinha que dar 3.000 passos, em dias normais. Será que ele tinha pernas muito curtas? Já havia repa49


Coringa

rado que homens grandes, altos, davam passadas de quase um metro. Ele, nem a metade disso.

“Flávio! Que bom que chegou! Estava prestes a dar o jantar dos meninos, você pode comer com a gente.” A voz aguda doera-lhe nos

ouvidos, habituados apenas ao som dos carros, dos seus passos e, esta noite, ao latido de dois cães. “Você e essa sua mania de vir de ônibus! Não sabe que a sua família sente a sua falta? Mal chega e já dorme de cansaço. Depois de passar o dia no trabalho, ainda anda até aqui!”. Jaqueline, sua mulher, não entendia que o preço do ônibus, vezes dois, vezes 20, compensava o carro e ajudava sua saúde e seus músculos flácidos. “Papai! Você comprou o gibi que eu pedi? Comprou, comprou?” O filho de 13 anos era insuportável. Pedia para comprar um gibi que custava R$3,50, lia em cinco minutos e o jogava num canto. Os R$3,50 eram quase 65% do que gastava de passagem por dia. O outro menino, de 15 anos, pelo menos quase não pedia gibis. Flávio sentou-se à mesa depois de dar 30 passos para ir e voltar do banheiro e todos o fitaram: o menino de 13, o menino de 15 e Jaqueline, que dava dois guardanapos para cada menino. Dois guardanapos, vezes dois meninos, vezes três refeições ao dia, vezes 30 dias no mês, dava 360 guardanapos. 360 guardanapos para meninos que não eram seus filhos. Aquelas crianças que gastavam 360 guardanapos por mês mais R$3,50 em gibis por semana eram do ex-marido. O ex era largo, negro, espaçoso, peludo, com pernas que com certeza davam passadas de 1m. Ele se casara e nem sabia o porquê. As contas eram 50


Laura Cantal

absurdas e a mulher dava mais atenção aos dois moleques morenos do que a ele, branco, pálido. Ainda assim, Flávio gostava de ter com quem conversar quando chegava em casa, gostava de se distrair com as conversas bobas, blablabla a não ser quando se irritava com as ignorâncias da mulher – dos meninos, nem se fale! Mas quando isso acontecia, ele escovava por 30 segundos cada um dos 32 dentes, os com obturações por 45 segundos, e depois ficava por 1 minuto com flúor na boca, apesar da ardência, que começava já nos primeiros 10 segundos. vai se foder llE ia dormir. Virava para a esquerda, depois de quase um minuto, para a direita e depois ficava de barriga para cima, e dormia em cima de seus dois travesseiros. Mas essa noite ele não foi para a cama. Jaqueline queria comemorar os três anos de casados. Ela gastara R$120,00 comprando quatro garrafas de vinho francês. Obviamente ela esperava beber apenas uma garrafa com o marido e o resto com suas amigas durante as tardes. Uma garrafa era o suficiente para eles ficarem levemente embriagados, preencherem a cota de sexo de uma vez por mês e irem dormir, como marido e mulher, numa vida normal e saudável, com filhos, num apartamento na Tijuca. Jaqueline demorou meia hora, 1.800 segundos, pra se livrar dos meninos. Apartou brigas, deu o dinheiro do lanche de um, levou o copo d’água para o outro. Enquanto esperava, Flávio lavou o rosto com o sabonete neutro, para evitar espinhas, passou um esfoliante, sua pele era muito sensível, e terminou com um hidratante sem óleo, sua pele era muito sensível mesmo. Despenteou51


Coringa

se, tentando dar um ar rebelde aos cabelos lisos que teimavam em ficar no lugar, e abriu a calça. Com os meninos dormindo, o casal foi para sala e abriu a garrafa de vinho. Enquanto comiam e bebiam, a mulher tagarelava sobre histórias que achava engraçadas, mas que para Flavio não faziam sentido. Ele ria, em todo caso. Quando acabaram a garrafa, a mulher já se debruçava sobre ele, com uma mão na coxa esquerda dele, quase na virilha, e a outra na taça vazia.

“Pegue mais uma garrafa”, sugeriu, com tom de ordem, o homem. Ela estranhou, mas achou bom que ele resolvesse se soltar um pouco, ele era sempre tão contido.

Ele ria alto. A cada gole a mulher ficava mais inteligente. Os lábios vermelhos eram carnudos, perfeitos. Ela passava a mão pelo seu peito, a camisa social aberta deixava à mostra seus pelos. Ela tinha quadris largos, coxas roliças. O vestido justo delineava seus peitos miúdos, mas empinados. O homem crescia, ele sabia que andaria 1.250 metros em 1.250 passos. Estava quente. Ele suava e a mulher parecia gostar do gosto salgado. Ela segurou a taça com a mão esquerda enquanto, com a direita, acariciava o homem e, num mover-se, o vinho tinto caiu sobre seu colo e escorreu por entre o contorno dos peitos para dentro do vestido. Eles não riram. Entreolharam-se e o homem puxou-a com o braço musculoso, num tranco, para o sofá, enquanto abria a calça. sab e de uma coi A mulher não sabia se se empolgava com o tesão ou se temia o marido subitamente tão macho. Ele a colocou de quatro, virada para a janela para que 52


Laura Cantal

o mundo visse que ele era o macho e ela, a fêmea. O barulho do sofá contra a parede acordou os meninos e, curiosos como são os filhos, foram explorar e espiar os perigos do horário adulto. E foi quando a mulher incauta disse, diante de toda a potência masculina: “Assim não, assim não entra nada. Eu vou por cima”. Ele lhe deu um tapa, fazendo-a se encolher no canto do sofá, amedrontada perante aquele homem nu e feroz. Ele gritou e agarrou a mulher, que nada poderia fazer para se defender daquele animal. De repente ele ficou mole. Pequeno. Fraco. E irado, ele empurrou com força a mulher que quebrou o vidro da janela e caiu 30 metros até o chão. Os 50 degraus que ele demorava para subir em três minutos, ela levara três segundos para cair. Ele passará 30 anos preso, vezes 365 dias do ano: serão 10.950 dias. Serão 164.250 minutos de caminhada que ele não fará. Serão 7.200 dias que ele faltará no trabalho. Serão 14.400 passagens de ônibus que ele não pagará. Serão 15.768.000 minutos para ele contar.

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Coringa

UM SINGELO ATO

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inal de semana em São Paulo. Dia ensolarado e trânsito relativamente livre, se comparado com o enfrentado durante a semana. Foi então que veio a ideia na cabeça dele de ir ao Museu da Língua Portuguesa. Aquele que fica numa região nevrálgica da Estação da Luz, vulgarmente conhecido como Cracolândia. Gabriel é homem de fibra, apesar do nome angelical. E, como todo homem determinado, se coloca algo na cabeça, não tem humano na face da Terra que lhe tire a idéia enquanto não realizá-la. Passou na casa de Tânia, no extremo sul da cidade. A moça é a fiel companheira de Gabriel há quatro anos, desde que a conhecera em uma festa, onde ela lhe serviu canapés. Assim que fitou os olhos de jabuticaba da garota, com seus cabelos de índia, pretos e na altura da cintura, Gabriel, branco como coalhada e com seus olhos azuis celestiais, ficou enamorado. Não demorou muito para que ele q grand merdafosse até a casa da moça, nos moldes antigos, pedir a mão de sua donzela para o patriarca da família. O homem não hesitou, afinal, sua única filha estava se unindo a um moço que poderia lhe garantir um futuro digno de uma princesa. 54


Conto Reportagem

Raquel Salema

Sob sua ótica, não havia união mais abençoada. Porém, por parte da família de Gabriel, a reação com a notícia não foi contrária. Como ele, graduado em Economia pela USP e pós-graduado em Panthéon-Sorbonne, poderia se apaixonar por uma servente de canapés? Mas, como o amor não tem idade, nem classe social e Gabriel era homem de fibra, foi contra tudo e todos. E seu sentimento pela moça dos o-lhos de jabuticaba cada dia cresce mais. Ele disse a ela: — Temos uma missão: ir até o centro da cidade. Vou lhe mostrar o Museu da Língua Portuguesa. — Museu da Língua Portuguesa amor? Você sabe que eu tenho dificuldades com a nossa língua, porque parei de estudar na sexta série — Tânia respondeu. — Mas isso não é problema nenhum. Você tem que encarar os desafios, Tânia. Se não você fica estagnada. — OK. Você tem razão. Partiram então para o ponto de ônibus. Foram até a Estação Jabaquara e viajaram de metrô até a Luz. Ao descer na estação, ficaram perdidos com a quantidade de saídas e as informações desencontradas que os transeuntes lhes passavam. Tânia apertou firme a mão de Gabriel, pois estava tonta com tanta gente passando por eles e seguiram em frente. Pediram informação para um funcionário do Metrô e chegaram ao Museu da Língua Portuguesa. Logo à entrada, Tânia começou a se sentir em um conto de fadas, com aquele elevador com a estrutura transparente, possibilitando a visualização de toda a sua engrenagem era mágico. Para Gabriel, comum, considerado até um projeto, em comparação aos elevadores monumentais que viu em suas excursões pela Europa. Logo que entraram no elevador, foram re 55


Coringa

cepcionados por um homem muito simpático que os fez com que se sentissem turistas em sua própria terra natal. Dirigiram-se até a Grande Galeria, situada no segundo andar. Localizado no centenário prédio da Estação da Luz, o Museu da Língua Portuguesa foi inaugurado em março de 2006. pqptextochatodaporra Para que pudesse ser instalado, foi necessário um apurado processo de restauro no prédio, com arquitetura inglesa do início do século XX. O resultado foi um moderno Museu dentro de uma estrutura antiga, que faz parte da história de São Paulo, a cidade com o maior número de pessoas que falam português no mundo: cerca de 11milhões de habitantes. Gabriel já conhecia a Grande Galeria, havia ido ao Museu quando estava em cartaz a exposição temporária de Machado de Assis, há cerca de dois anos. Mas, como Tânia não conhecia o local, passou primeiro no segundo andar, onde há toda a história da língua portuguesa, de maneira bem didática e detalhista. Seu objetivo real era ver a exposição “Menas — o Certo do Errado, o Errado do Certo”, em cartaz até o dia 27 de junho. Ao entrar naquele corredor nebuloso, com uma luz amarela traçando um caminho no chão, a sensação de Gabriel foi igual a da vez anterior: vertigem.

Eram tantas imagens e sons desencontrados que teve que parar por uns segundos para não cair.

Os olhos de jabuticaba de Tânia se perderam no negrume daquele corredor. Estava em estado de plenitude. Assim que saiu do elevador ouviu uma voz dizendo: “A língua está dentro de nós. É ela que nos conecta ao outro. É ela que nos conecta ao mundo”. Aquela frase penetrou Tânia, chegando até sua alma. De mãos dadas com Gabriel, foi andando lentamente, 56


Raquel Salema

com os olhos fitados nas telas do lado esquerdo, onde via depoimentos e filmes sobre algumas palavras. Gabriel, na euforia para ver o novo, foi puxando Tânia, não permitindo que a moça prestasse a atenção devida ao que estava visualizando. Então foram adentrando no novo mundo, daquele velho prédio, e tudo era lindo para Tânia. Gabriel a levou à linha do tempo, para que ela pudesse entender melhor como surgiu sua língua natal. Eram tantas informações naquele quadro gigante que Tânia se embaralhava para ler. Pedia constantemente para Gabriel ajudá-la a entender palavras difíceis, que não costumava usar em seu vocabulário. O moço, apesar de apreensivo para ver a outra exposição, a ajudava com a maior atenção. De lá, foram para o Beco das Palavras, uma sala com um jogo interativo onde a pessoa brinca com a criação de palavras, conhecendo suas origens e significados. hahahqtextoruim Tânia parecia uma criança e não queria mais sair de lá. Mas Gabriel, extremamente ansioso, disse para irem para o primeiro andar ver a outra exposição. Uma das características de Tânia era a compreensão, então não hesitou em dizer sim. Entraram no elevador conduzido pelo homem simpático e desceram no primeiro andar. Ali, tudo era novo para os dois. Então, finalmente, conseguiram ter um misto de sensações e sentimentos.

Logo à entrada, palavras e mais palavras penduradas em uma sala. Aparentemente desconectas, mas, ao serem vistas em uma espécie de lupa, se juntavam e formavam frases como “Não existem erros absolutos em língua”, “Língua é uso” e “A Língua varia no tempo e no espaço”. Os dois acharam aquilo incrível. Então foram andando em direção à próxima sala 57


Coringa

e viram várias caixas, em forma de capa de livros, anexadas na parede, com frases escritas erradas como: “Vamos se ver amanhã?”, “Isto é para mim fazer”. Em cada quadrado, havia a explicação do porquê de as frases estarem erradas. Era uma verdadeira aula de português não só para Tânia, mas para Gabriel, que estava mais acostumado com cálculos do que com palavras. Logo em frente, havia computadores com testes onde o espectador respondia como se escrevesse determinadas frases para saber se estava falando e escrevendo certo ou não. Tânia acertou mais que Gabriel. Foram andando e se depararam com um grande pano com desenho de prateleiras, representando uma biblioteca. Era a Biblioteca de Babel, inusitada já pelo nome, pois representa algo organizado e Babel, a desordem criativa. Mas esse foi o intuito dos idealizadores, colocar nesse espaço vários textos que se valem das palavras de forma livre, ampliando seu sentido e brincando com suas letras. Assim, em meio a toda a antigualha desse espaço, as palavras tornam-se novas e renovadas a cada leitura. Logo após, quatro mulheres em quatro telas de televisão conversavam. Todas se chamavam Norma, cada uma representando uma variante da norma em nossa língua. De uma maneira bem descontraída, mostravam como deveriam ser usadas em nosso cotidiano. Por fim, os dois foram para o último corredor, onde se depararam com várias frases erradas, resgatadas em anúncios de rua ou em pára-choques de caminhão. Simplesmente amaram. Tânia viu até uma frase que falava sempre: “A palavra é prata, o silêncio é ouro”. Assim, foram embora e ao sair do elevador, Gabriel perguntou para Tânia: 58


Raquel Salema

— O que você achou? — Achei excelente. Tenho até que confessar, que estou com vontade de voltar a estudar. Lembro que gostava tanto de português quando estudava... Talvez essa seja a matéria que me incentive. — Exatamente, Tânia! E você vai poder exercer a profissão com que você sempre sonhou, mas que nunca pôde por não ter terminado os estudos. — Ser professora primária! — Isso mesmo! Te amo, minha querida!te como Foi através disso que Tânia voltou a estudar. Um simples ato pode mudar toda a história de alguém. Se não fosse Gabriel chamá-la para conhecer o Museu da Língua Portuguesa, seu sonho continuaria abortado por falta de motivação para realizá-lo. A língua está dentro de nós, basta achá-la e deixála fluir livremente através da fala e da escrita.

59


Coringa

NOITE SEM FIM

É

engraçado o rumo que as coisas tomam. Eu já estava saindo de casa quando lembrei que tinha esquecido de passar o batom, e óbvio que na comemoração do seu próprio aniversário a falta de qualquer coisa minimamente imprescindível (pelo menos enquanto você ainda está sóbria) pode acabar te aborrecendo. As merdas de ser uma mulher? Talvez. Mas ainda temos nossas vantagens. putzqcoisachataessaporradminaEscolho o tom mais vermelho que encontro, pego as chaves do carro e acabo indo prum bar que a Carol acabou me ajudando a escolher. Parece que é o mais novo-e-interessante-lugar-para-se-estar-no-ano então porque não? 24 anos mesmo. Apesar de ouvir dos meus pais, da minha avó, da minha tia e até aquela minha tia-avó meio gagá que mora em São Paulo que estou na flor da idade... Não sei. Idade... É idade cara. Ganhar anos, ver sua beleza esvaindo. Não, não, o álcool conserta isso. Pelo menos hoje. Talvez essa tenho sido a idéia ruim, talvez se tivéssemos ido a outro lugar as coisas teriam tomado outro rumo, mas realmente não tenho como saber. Só sei que cheguei: cervejas, brindes, cervejas, brindes, brindes. Aniversário é foda. Parece que você simplesmente aproveita suas 24 horas de poder 60


Conto Reportagem

Carla de Wolf

sobre os outros. É o seu dia. E parece que isso faz do álcool algo absolutamente irrecusável. É a liberdade associada ao poder. É a sensação de que nada, absolutamente nada pode dar errado. Pâmela de Souza. 24 anos. Não sei, não parece mais motivo pra comemorar. Parece o começo do fim. Comemorar a idade se torna uma coisa triste pra quem gostaria de parar no tempo e desfrutar da eternidade. Não. Ninguém me deu essa opção, e eu olho no espelho e vejo aquele reflexo de olhos borrados. As luzes tão fortes demais pra continuar nessa merda de lugar. Ficar me olhando... Que porra de sentido isso faz? Que porra de ajuda isso vai me dar? Eu preciso beber mais. M-A-I-S. - Me dá o que for necessário pra parar de pensar. É meu aniversário – digo abrindo o maior sorriso que consigo, afinal ainda tenho muitas pessoas pra cumprimentar. Ah a ilusão da popularidade que uma festa não proporciona. Todos falam com você e te transformam em centro do mundo. A sensação deliciosa que não posso mais ter em ocasião alguma do ano. Como se eu me importasse. Ah caralho, eu realmente preciso beber mais.

- Por Favor, POR FAVOR, NÃO FAZ ISSO. EU TE IMPLORO MOÇO. - VAI SE FUDER SUA VAGABUNDA. OLHA O QUE VOCÊ FEZ, VOCÊ NÃO TEM CHANCE SUA FILHA DA PUTA. VAI TOMA CHUMBO VADIA.

É engraçado o rumo que as coisas tomam. Naquele aniversário eu não tinha consciência de como uma celebração poderia tomar tais proporções e atingir tantas vidas dessa maneira. Mas eu acho que você nunca sabe. Fui uma idiota. Sou. Essa é a verdade e no fim das contas não há muito sobre o que pensar. Não, foi o azar. Não. Talvez um pouco, porque eu nunca fui uma pessoa sortuda. A verdade é que depois 61


Coringa

que a porra da idade se abateu sobre mim eu não fiquei madura. Nem sábia. Fiquei velha e bêbada. E essa realidade fez com que eu perdesse noção da própria. Saí do bar e peguei as chaves na bolsa. Foi o álcool. Foi a idiotice de ser paranóica e oprimida. Foi a idade. Foi eu mesma. No fundo isso só passa do início de uma lista infinita de fatores. Mas a minha celebração, a celebração em si foi boa. Foi uma daquelas noites em que você chega completamente chumbado em casa, apoiando nos móveis para não cair com saltos tão altos... Mas se cê cai, cê só ri pra cacete. Por que a embriaguez, quando atingida, ah cara, é incrível. É o seu mundo de felicidade e foda-se. Foda-se que amanhã vão falar do vexame, da dança em cima do bar, das pegadas. F-O-D-A-S-E. Porque quando o vento bate em meu rosto e emaranha meus cabelos, eu só penso que se foda a idade e a falta de noção. Estou presa e feliz no meu paraíso particular regado à álcool. E foi aí que eu perdi. Tudo aconteceu tão rápido que, mesmo se eu não tivesse completamente retardada, graças ao meu velho companheiro, eu não saberia reagir. Porra aquela mulher tava grávida. Tipo daquelas bem grávidas mesmo. Por que mesmo naquele estado eu consegui ver isso. Só que foi tarde. Quando o carro acertou ela... cara eu não consigo lembrar a velocidade que eu tava. Eu só lembro do barulho que aquela mulher e a filhinha dela fizeram quando acertaram o chão. PORRA! PORRA! QUE QUE EU FAÇO? Eu tô FUDIDA. Tô fudida. Não tenho coragem de olhar pro chão. Será que elas morreram? Porra eu não posso ficar aqui. Olha essa merda tem sangue por todo lado caralho é meu aniversário isso não pode acontecer. POR62


Carla de Wolf

RA COMO ISSO FOI ACONTECER? Eu não posso ficar aqui. Tá começando a aparecer gente. Alguém vai vim aqui e fudeu porque eu tô retardada e mal consigo falar. PORRA que que essa mulher tava fazendo no meio da rua com essa criança? Eu preciso me mandar porque ouviram isso. Não tem como alguém não ter ouvido PORRA! Volto pro carro no instante que o desespero se apodera de mim de um jeito que me dá ânsia. Não vou pra cadeia NEM FUDENDO. Eu sou jovem demais pra passar a vida atrás das grades PORRA. PORRA! Por que isso foi acontecer caralho? Por que aquela porra daquela grávida tinha que tá na rua com aquela criança a essa HORA? Tô vazando. Tem que ser rápido. Não vou passar a porra da vida na prisão. NÃO VOU PORRA. Voltei pro carro logo após o acidente. Antes que alguém viesse. Antes que a polícia viesse. Porra como uma coisa dessas acontece? blobloblobloblobloEu acordei com o barulho da música no rádio. Consegui atropelar duas pessoas, fugir e acertar a porra do poste. Seria cômico se não fosse sério. PORRA. Minha cabeça tá sangrando. Tá difícil pensar em qualquer coisa. Porra as pessoas tão apontando pra mim. Eu tô fudida. Tudo tá doendo. Resolvi sentar no chão. Quem sabe se eu deitar só um pouquinho... Foi quando ele se aproximou. Eu acho engraçado como as pessoas se preocupam com a morte, acham que nunca vão saber como e quando vai acontecer. Nos apavoramos. A verdade é que devem existir casos em que você aceita a morte porque ela vem lentamente. Mas quando eu olhei nos olhos daquele cara, eu nem precisei olhar pra pistola dele. Aquele era o olhar 63


Coringa

de alguém que já tinha visto a morte e parecia ter crueldade suficiente para apreciá-la.

- Por Favor, POR FAVOR, NÃO FAZ ISSO. EU TE IMPLORO MOÇO. - VAI SE FUDER SUA VAGABUNDA. OLHA O QUE VOCÊ FEZ, VOCÊ NÃO TEM CHANCE SUA FILHA DA PUTA. VAI TOMA CHUMBO VADIA.

Implorar ajoelhada. Meu último gesto e minhas últimas palavras. O que se seguiu após os cinco tiros no peito eu não sei ao certo. É engraçado o rumo que as coisas tomam.

64


Conto

Bruno Borin

Bodas de Cinza

A

TV mal sintonizada, chiando, o incomodava demais. Com os olhos semicerrados, Samuel não conseguia dormir, embora tivesse tentado pelas últimas duas horas. O casamento de sua filha mais nova não saia de sua cabeça. Era para ser o grande dia de sua vida, mas ele não conseguia se sentir bem. Sempre sentira ciúmes de sua caçula, era a preferida – embora insistisse no argumento que entre filhos não havia preferência. Mas ela era sua pequena princesa desde o dia de seu nascimento, sua protegida, e todos sabiam disso.

Sempre fora amável e atencioso com a família, até

com os primos mais distantes. Talvez por isso fosse o único que comparecia em todas as festas e comemorações, não importando aonde era ou quem organizava. Samuel era muito querido por seus familiares, uma vez que não media esforços para ajudar aqueles com quem se importava, independente de quem fosse. Assim, acabou conquistando todos os membros daquela família completamente dividida. Dividida porque, após a morte de seu tio-avô, Augusto, todos os filhos e irmãos do velho brigaram com unhas e dentes pela sua herança, o que acabou diluindo a família em diversos nichos. Mas todos gostavam de Samuel – ele, inclusive, um dos poucos escolhidos pelo tio em seu testamento – e ele gostava de todos. 67


Coringa

Mas naquele momento ele não era o mesmo. “O casamento, a festa, puta merda”. Ele não conseguia tirar isto da cabeça, e nem ao menos sabia por que aquilo o incomodava tanto, mas passara a última semana inteira assim, desde que havia vindo para a Suécia. Nascido na Suíça mas naturalizado na França, Samuel havia viajado para resolver justamente os problemas referentes à herança de seu tio-avô, e tentar apartar os ânimos dos parentes que ali se encontravam. Não havia gostado muito da idéia quando reparou que o casamento seria dali uma semana, mas como achava que sua presença era necessária devido à sorte do contexto, acabou indo. É

verdade que sua paixão por voar influenciou na hora de tomar a decisão.

Filho de um veterano da Segunda Guerra Mundial, Samuel desde cedo aprendera a amar a aviação. Quando criança ia assistir seu pai em vôos pela Patrouille de France – divisão acrobática da Força Aérea Francesa – e ficava admirado com aquele show. Suas primeiras palavras, depois do nome dos pais, foram “céu” e “avião”. Era realmente aficionado pelas alturas, e sabia-se desde menino que acabaria seguindo os passos do pai. Para ele a aviação, mais que um hobby, era uma paixão, e o que o ajudava a superar os momentos mais difíceis – além, é claro, da presença de seus filhos. Talvez fosse isto o quê o assolava; a lembrança do pai, trazida pela morte do tio-avô e a presença de todos aqueles parentes. E mais do que isso, o sentimento de ausência. Ausência de sua filha, a última desgarrada, que até então morava com ele. A última a sair de casa. A última. O que seria dele agora sem a presença de suas crianças – e, mais ainda, sem a presença de sua pequena princesa. Amava sua mulher, mas não conseguia imaginar viver longe de suas filhas. Bem por isso, sofreu de ataques de depressão quando a primeira foi morar com o noivo, e ameaçou suicídio quando a 68


Bruno Borin

segunda disse que iria se mudar para a Itália. Era um cara conturbado, sim, mas mais do que isso, era apaixonado pela sua prole.

E agora, o fim tão perto! Em menos de duas semanas sua querida já não alegraria mais aquele lar, que mesmo com a presença da esposa – um casamento de 42 anos – iria ficar vazio. Vazio para ele, que não sabia como lidar com essa situação. E para piorar aqueles malditos dos seus parentes, com quem tanto se dava bem, aporrinhavam sua cabeça com assuntos monetários. Víboras, ele pensava, sempre preocupados com o dinheiro em primeiro lugar. Mas aquele não era o melhor momento para pensar nisso. O casamento não saia de sua cabeça; e quando via os familiares, só conseguia pensar em seu pai. Ah, o pai, aquele velho safado. Era um bom vivant nato, sabia como aproveitar sua vida. Tivera cinco mulheres, a última delas sua mãe – com quem parecia ter se “endireitado”. Ele era tão bom, tão companheiro; jamais havia sofrido com a partida dos filhos. Pelo contrário, apoiou-os em todo o momento, sempre estivera ao seu lado e o incentivara a seguir em frente. Por que não conseguia ser tão forte quanto o velho? Gostaria muito de alegrar-se pelo novo caminho da filha, mas aquilo o machucava demais. Doía de verdade quando pensava em separarse de sua caçula; era a única pessoa que não conseguiria perder, não conseguiria deixar, em hipótese alguma. Mas agora ele teria que lidar com isso; teria que seguir em frente e, mais importante, deixá-la seguir. Havia até cogitado não ir ao casamento, sumir por uns tempos, mas sabia que dessa forma magoaria a pessoa que mais amava nesta vida. Resolveu então fazer aquela viagem, mas no menor tempo possível, para que chegasse na celebração de sua querida. Mas ele não contava com o que aconteceria naquela tarde, e que chegaria a seu conhecimento através daquela mesma TV chiando. Abriu os olhos, meio grogue, e se levantou para resolver 69


Coringa

aquele barulho. Deu um tapa, dois, e a TV voltou a pegar. O noticiário avisava de uma tragédia muito próxima: as erupções do vulcão Eyjafjallajoekull, na Islândia, haviam encoberto o céu de fumaça – que chegava até a Península Escandinava, onde estava.

Puta merda! Ele não acreditou quando ouviu que o tráfego aéreo havia sido interrompido graças à nuvem de fumaça; faltava só um dia para o casamento! Fez alguns telefonemas para descobrir que não conseguiria ir para a França a tempo, já estava muito em cima. Foi quando se lembrou do pequeno ultraleve que seu tio possuía em sua mansão, a alguns quilômetros de onde estava. Pegou o carro e foi correndo para lá, onde encontrou alguns de seus familiares reunidos na sala de jantar. Limitou-se a dizer um “não tenho tempo” e saiu correndo para os fundos, no estábulo onde sabia que ficava o avião. Encontrou-o intacto, lindo, do jeito que seu tio deixara. “Espero que eu consiga chegar a tempo”, ele pensava. Precisava superar seu trauma, comemorar com a filha, estar ao lado dela neste momento tão importante. Ligou o motor, que demorou um pouco a pegar – o que chamou a atenção daqueles que ainda olhavam embasbacados o que ele estava fazendo. Vieram às pressas tentar dissuadi-lo, falar que o céu não estava seguro para voar, que haviam visto no noticiário. Ele sabia de tudo aquilo, mas preferia correr seu risco; tinha que ver a filha, estar com ela, e nada mudaria sua cabeça. Vestiu então o capacete de seu avô – que normalmente era o co-piloto de Augusto quando saía para voar – e entrou no aeroplano. E decolou. Seus parentes ainda gritavam seu nome quando viram o pequeno avião, a alguns quilômetros dali, voando em círculos e m dir eçã oa o c hã o 70

.


Conto

Denis Bertoncello

Briga de Casal

E

la não aguentava mais. Depois de tanto tempo calada, explodiu: “Ou ele ou eu. Você tem que escolher. Alguém vai ter que sair desta casa. Já!” Flávio ficou embasbacado. Em dez anos de casamento nunca tinha ouvido um berro feito aquele sair da boca de sua mulher. Na hora da briga, ela não expulsava de casa um cão, um cunhado, um enteado, ou qualquer outro tipo de intruso de quatro ou duas patas. O que Mariana não suportava mais era o computador. “E vou avisar: me mato, me mato se você me disser que prefere

essa merda.”

Pois é. Algumas mulheres reclamam da hora extra, outras do futebol com os amigos, outras, das “outras”. Mas era o Dell novinho – com Windows 7, webcam, microfone, blueray e tudo mais de tecnologia que eles conseguem enfiar num notebook – que infernizava sua vida. É que desde que juntaram as coisas e foram morar juntos em São Paulo, Flávio passava cada vez mais tempo na frente do computador. Era quase o estereótipo perfeito do nerd introvertido. Além da dificuldade de se expressar em conversas ao vivo, era um aficcionado por tecnologia. Amava pornografia, idolatrava a cultura americana, rejeitava de leve a brasileira e cultivava nas costas uma corcunda que posicionava seu rosto na altura exata da tela. Passava horas e horas a fio à frente dela, sem sequer levantar-se da 71


Coringa

cadeira para espreguiçar. Chegava ao ponto de sentar em cima das mãos só para não se render ao frio e correr para debaixo de um cobertor, como faria qualquer marido normal com uma TV no quarto. Ele era um viciado. Quando aquela maldita caixa do Submarino.com foi entregue pelo porteiro, com o tão sonhado note dentro, ela já pressentia que esse dia estava pra chegar. A briga. Segurou-se mais dois meses, mas, naquele dia, explodiu. Não suportaria mesmo. Já tinha problemas com o computador antigo, desktop, grandão, Windows XP.

Se sentia trocada. Com uma máquina daquela, então, novinha, não teria nem chance. Ela morria de ciúme.

Começo

Se alguém que acompanhou o início de namoro de Mari e Flávio visse a antológica briga do casal, com certeza não entenderia nada. Como ela ousava ter raiva do computador, logo do computador? Havia dez anos, os dois tinham se conhecido numa sala de bate-papo virtual! Já com uma semana de conversas pelo MSN, combinaram de se encontrar na praça da cidade que moravam no interior de São Paulo, Araras. Um mês, namoravam. Mais dois, o pedido de casamento. Deram até entrevista pra TV, afinal, eram um tipo novo de casal. O fato é que em menos de um ano, os pombinhos se conheceram, namoraram, casaram e voaram para a capital com o sonho de sempre: começar uma vida a dois. Ela trabalhava fora, secretária de escritório, ele, em casa, blogueiro. Era o jeito de não dizer “desempregado”, porque, querendo ou não, o trocado que vinha da publicidade do blog não pagava nem a conta da banda-larga. Mas Mari não ligava pra isso. A coitada não se importava por pagar as contas sozinha. E era ingênua demais para isso. Crescera sonhando com o dia de seu casamento, e o sonhava perfeito. Dez anos casada, boa parte 72


Denis Bertoncello

desse tempo desprezada e, ainda assim, não conseguia ter raiva do marido. Mariana tinha mesmo era raiva do computador. Para ela, não fosse aquela máquina, o marido seria falante, interessado, presente. Não conseguia (e não queria) ver o quão patético ele era. Mas, quanto mais o tempo passava, menos os dois conversavam. As conversas, por sua vez, ficavam cada vez mais prosaicas. A casa era um silêncio completo, um túmulo. Os vizinhos adoravam. Pra você ver, um dia, ela que acordava cedo para trabalhar, mas não deixava de pensar no marido, o avisou antes de sair: “O café tá na garrafa térmica. O almoço, na geladeira. Fiz panqueca, que você gosta. Já tá no prato, viu? Dois minutos no microondas só, já tá bom”, disse, encenando um sorriso no final. “Uhum”, se limitou a responder o cretino, que nem se virar para um beijo de tchau, virou. Mais tarde, nesse mesmo dia, Mari recebeu uma chamada no Skype do trabalho. Era Flávio faminto e nervosíssimo porque não havia comida nenhuma pronta em cima do fogão, como ela sempre deixava. Não tinha ouvido uma palavra do que ela dissera.

Começo do fim

No dia da inesperada mais previsível briga, o caso foi muito pior. Foi assim: ela chegou mais cedo do trabalho, no maior silêncio possível. Ele estava no banheiro. O Dell, mesmo sem o dono, estava lá, ligado. Quando Mari se aproximou, viu uma conversa aberta no MSN. Era outra. Uma tal de LaDy Di. Quando viu o teor da conversa, quase desmaiou. Estava sendo traída virtualmente. E ainda por cima, Flávio havia conhecido a depravada justamente no bate-papo que apresentara os dois. Só que o caso não era um relacionamento, ela sabia. Era sexo mesmo, sexo virtual. Não foi uma gota d’água, foi um tiro no peito. Suas pernas fal73


Coringa

haram, ela teve que ajoelhar. No chão, experimentou

o ódio

mais profundo de todos. Odiava aquele computador. A

culpa era dele. Não fosse ele, teria o casamento perfeito. Não estava nem aí pra outra, devia ser uma sozinha, sem amor. E naquela hora, resolveu quebrar o silêncio. Recuperou o fôlego e foi bater à porta do banheiro. “Ou ele ou eu. Você tem que escolher. Alguém vai ter que sair dessa casa. Já!” Ele, surpreendido, quase viu o coração sair pela boca. O estômago embrulhou na hora. A vista escureceu. As pernas formigaram antes de uma tremedeira tomar conta de seu corpo. Já imaginava a cena que acabara de acontecer do outro lado da porta. O jeito foi abrir. Quando ele apareceu, com os olhos mirando as pontas dos pés, ela gritou aos cuspes: “E vou avisar: me mato, me mato se você me disser que prefere essa merda”. Ele não respondeu, só chorou. Chorava como uma criança que não obedeceu a mãe, meteu a mão no fogo, e se queimou pela primeira vez. Ela não aguentou. Sentia a raiva bombeando sangue por todo seu corpo, fazendo os olhos ficar vermelhos e esbugalhados. Num movimento cinematográfico, Mari apanhou o coitado do notebook e deu com o meio dele na quina da mesa. Não satisfeita, levantou o computador acima da cabeça e o arremessou no chão com toda sua força. Pisou, sapateou, se

deliciou em cima

dos destroços. Era sua vingança. Era sua justiça.

O outro lado

O que Mariana não sabia, nem haveria de saber, era o que se passava na cabeça do marido todo aquele tempo. Filho de militar alcoólatra, ele cresceu vendo a mãe apanhar e apanhando também. Pôs na cabeça que nunca, jamais faria igual com a sua 74


Denis Bertoncello

mulher. Idealizava, também, seu casamento. Mas cresceu assim, meio reprimido, e pouco a pouco foi desistindo da vida social. Fechou-se nos estudos. Alguns achavam que era crânio, mas era mais esforçado do que inteligente mesmo. Quando descobriu a internet, lá com seus vinte e poucos anos, teve uma injeção de ânimo. Logo conheceu Mari, sua primeira e única namorada, se apaixonou e casou. Mas o tempo foi passando e ela, mudando. Quando percebeu, não tinha mais assunto com sua própria mulher. Pior, nem a reconhecia mais. Mari tinha se tornado uma mulher muito diferente daquela garota meiga e carinhosa de antes. Agia feito um robô, falava num tom de voz animado mas falso e seus carinhos eram quase mecânicos. Ele não sabia lidar com todo aquele teatro e preferindo não entrar em cena, se isolou. A idéia de que um filho salvaria o casamento alimentava esperanças de melhora. Mas, havia alguns anos, tinha se descoberto estéril. Frustrou-se, isolouse e entrou numa depressão profunda. Acabou se transformando num ser que ele mesmo odiava. Na visão dele, Mari também se distanciara. Culpava sua mulher, por exemplo, por nunca ter tentado uma aproximação virtual. O repúdio dela ao computador a fizera deletar sua conta no Orkut, inutilizar o MSN, e abandonar a caixa de e-mail pessoais. Se ele se afastou dela na vida real, ela se afastou dele no mundo virtual.

Fim de papo

Diante de seu computador destruído e de sua mulher descontrolada, Flávio não tinha mais dúvidas. Sua vida era uma desgraça. Não havia mais saída. Ouvindo os berros de Mariana e sem pronunciar uma palavra de explicação, ele andou até a cama e tirou de debaixo dela uma caixinha de madeira. Abriu-a lentamente e apanhou um revólver que seu pai lhe dera quando veio morar em São Paulo – questão de segurança para o velho. Ela, que 75


Coringa

estava vermelha, descontrolada, babando de raiva, ao ver a arma na mão do marido, calou-se novamente. Os dois se olhavam. Ela, paralisada, não conseguia mais pronunciar uma palavra. Silêncio total. Nem a respiração dos dois ousou tornar-se audível. Os dois, frente a frente. Os dois aos prantos. A mataria? Intimidaria? Foi o pior dos silêncios que aquela casa experimentou. Um silêncio de dúvida e de medo, não mais de tristeza e complacência. Nessa hora, um tiro ecoou pelo prédio, selando de vez o silêncio na casa.

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Conto

Natália Senóbio

U m anjo loiro, excêntrico e drogado

N

o verão de 1969, um dos mais quentes da década, Brian Jones, ex-guitarrista do Rolling Stones, admirava sua nova piscina. Ela era térmica e tinha iluminação noturna, um verdadeiro espetáculo. O calor estrondoso fazia com que Brian passasse grande parte do seu dia nadando e se divertindo ao lado de sua namorada, Anne Wohlin. A natação também o ajudava a recuperar a forma, que era reforçada por uma dieta balanceada. Mais calmo, empolgado e saudável. Esse era o “anjo loiro” em julho de 1969, bem diferente do Brian Jones de alguns anos atrás. Considerado o grande protagonista do Rolling Stones, ele foi o primeiro a usar maquiagem e roupas andróginas, como blusas de chifron e chapéus Ascot, e era o responsável por incorporar influências exóticas para a sonoridade da banda. Brian era o líder, a referência: para onde ele ia, os outros Stones iam atrás. Seu reinado, porém, desmoronou vagarosamente. Ao se apaixonar pela ex-atriz do Living Theater Anita Pallenberg, Brian conheceu com a amada o mundo das drogas. As noites “sexo, drogas e rock and roll” tornaram-se frequentes. Brian consumia cada

vez mais ácido. Suas músicas, seus pensamentos, suas emoções eram dominados por uma sensação gostosa, calma, deslumbrante. Enquanto Brian se esbaldava nas delícias do ácido, os stones Keith Richards e Mick Jagger roubavam a cena. A dupla começou a escrever canções com um brilhantismo e uma confi77


Coringa

ança que nunca haviam experimentado, diferenciando-se de Brian, que não conseguia compor. O carisma de Mick ficou cada vez mais evidente. O cara careta e monótono, que apenas balançava a cabeça ao cantar clássicos de Chuck Berry, criou seu estilo único e passou a agitar o público com suas próprias músicas. De olho na situação, o empresário da banda, Andrew Loog Oldham, começou a manobra para transferir a liderança do grupo para Keith e Mick. Começava assim a decadência de Brian Jones. Ao perder o posto de líder dos Stones, ele ficou cada vez mais deprimido e alienado em relação à banda. Sua tristeza foi agravada pela perda de Anita para ninguém menos que seu melhor amigo. A loira, de olhos perigosamente lindos, se apaixonou por Richard e com ele viveu uma grande história de amor embalada pelo uso de ácido e

muito rock and roll.

O golpe final aconteceu em 8 de junho de 1969. Por volta das 18h, os Stones chegaram à casa de Brian. Quando os dois carros estacionaram na garagem, o músico os aguardava. Brian deixou Anne no quarto e desceu rapidamente as escadas. Ele sabia que era chegada à hora. Sem encarar os grandes olhos castanhos do “anjo loiro”, Mick deu o veredicto: - É melhor você não ser mais um Stone. Sem hesitar, Brian aceitou as vantagens dadas pelo grupo: recebeu 100 mil libras por ano e poderia voltar a tocar com a banda no futuro e em troca teria apenas que dizer que não foi demitido. Após a saída de seus antigos companheiros, as lágrimas escorreram pelo seu rosto. Sozinho na cozinha, ele se dobrou sobre a mesa e chorou compulsivamente, como quem acaba de ser informado de seu divórcio. Brian Jones não era mais um Rolling Stones. Ao nadar tranquilamente em sua piscina, o “anjo loiro” viu passar naquela água quente e cristalina, uma espécie de resumo de sua vida. “Mas, isso não importa mais. São apenas lembran78


Natália Senóbio

ças de uma fase ruim”, pensa Brian. O ex-guitarrista agora está longe das drogas e pensa animadamente em montar a melhor banda de todos os tempos, ao lado de John Lennon. Lembranças e novos sonhos marcam o seu mergulho da tarde enso larada de 3 de julho de 1969. Depois de se divertir na piscina, Brian se dirige ao banheiro para tomar um banho refrescante. No caminho, ele encontra Anne e lhe dá um beijo carinhoso. Ao olhar para o seu belo rosto, o “anjo loiro” repentinamente pula sobre sua amada. Dissipada a poeira e passado o susto, eles se dão conta do que aconteceu. Uma viga de sustentação da casa, que estava sendo reformada por Frank Thorogood, desmoronou e quase atingiu a cabeça de Anne. Depois do susto, a raiva toma conta de Brian, que culpa o mestre de obras pelo acidente. Ele está certo que Frank tem interesse em deixar a obra rolar frouxa, pois assim poderá continuar a desfrutar de sua amizade e viver às suas custas. Frank chega a Cotchford Farm e Brian discute aos berros com ele, reclamando de tudo, desde a qualidade do trabalho, ao uso abusivo de seu bar. Frank muito calmamente se desculpa pelo ocorrido e assume a culpa. Ele diz que ajeitará a bagunça, porém iria custar um pouco mais para refazer o serviço. Brian prontamente grita como um sultão todo poderoso: “Não me importo com o preço, isto é problema seu. Tem mais, está despedido”. Durante a noite, Brian fica preocupado com Frank e então decide chamá-lo pessoalmente para um drink. Ele quer explicar as razões da demissão para que assim não fique ressentimentos entre os dois. Anne odeia a ideia, afinal ela não gosta do mestre de obras. Sempre o achou um safado, que se aproveitava da generosidade de Brian. Por volta das 20h, Frank se encontra com o músico. A noite de verão é quente e o convite para tomar uma dose de vodka se 79


Coringa

estende para um mergulho na piscina. Brian tenta brincar com o mestre de obras para relaxá-lo, enquanto explica os seus motivos. Frank continua muito tenso e acusa o ex-guitarrista de lhe dever 8 mil libras pela reforma da casa. Mesmo com a acusação, Brian continua à vontade na piscina e brinca alegremente, mexendo com o amigo e tentando fazê-lo rir. Frank aproveita a oportunidade para lhe dar um caldo e segura à cabeça de Brian abaixo da superfície da água. O músico sobe buscando ar e tossindo, mas leva tudo na brincadeira. Os dois ficam se sacaneando mutuamente, enquanto Anne conversa com uma amiga no telefone e faz companhia para a esposa de Frank, Janet. A mulher sai para caminhar no jardim e vê a piscina deserta e com a água em forte movimento. Ao se aproximar, Janet encontra o corpo de Brian no fundo e sai gritando: “Anne! Anne! Algo aconteceu com o Brian. Socorro!” Anne larga o aparelho e corre passando por Frank na sala. Ao chegar à piscina, vê o corpo de Brian estendido no fundo. Ela prontamente pula e tenta tirá-lo da água, mas ele é pesado demais. Anne grita por ajuda enquanto Janet apenas assiste a tudo, pois não sabe nadar. Frank então vem sem pressa, cai na água e ajuda a tirar o corpo. Brian ainda está vivo. Ele está inconsciente, porém há pulso. Janet é enfermeira e imediatamente tenta reavivá-lo com massagens no coração, enquanto Anne faz respiração boca a boca. Frank volta para a casa e tenta chamar uma ambulância. A mão do ex-guitarrista de repente agarra o braço de Anne bem ao seu lado. Ela insiste reanimá-lo, mas Janet já não sente mais nenhuma pulsação. “Anne, não há mais o que fazer. Acabou”, diz a enfermeira, trêmula. Morre Brian Jones. Morre um ícone do rock and roll. Nas 80


Natália Senóbio

águas límpidas de sua piscina, ele foi brutalmente assassinado. Parte o “anjo loiro”, mas fica marcado na história como um dos maiores e mais excêntricos músicos de todos os tempos. Afinal, ele foi um dos fundadores e protagonistas de uma da Rolling Stones.

81

lenda chama-


Coringa

A Maria da Penha

C

omo sempre, ela não sabia por onde começar. Pensou sobre o que fazer, mas resolveu sair. Foi ao supermercado. Entrou, escolheu um vidro de pimenta, quatro detergentes neutros, cinco saquinhos de molho de tomate pronto e seis pacotes de macarrão tipo parafuso. Nada de novo, se não fosse um detalhe que só descobriu depois que passou as compras no caixa: não havia sacolas plásticas. Ainda no caixa, já com as contas pagas, voltou para dentro do supermercado à procura de uma caixa de papelão que encontrou depois de quinze minutos. Já estava em casa quando seu filho, que estava brincando num terreno baldio, chegou correndo aos gritos. Depois de alguns instantes, ela soube do ocorrido por um amigo do menino. Eles estavam brincando em cima de um velho colchão quando avistaram ao longe, no meio do matagal, outro colchão. Como o da brincadeira já estava muito amassado e o outro estava inteiro, os meninos resolveram ir pegá-lo. Assim que seu filho se abaixou para pegar a ponta do colchão, sentiu a mão direita: ele se cortou nos cacos de vidro que estavam debaixo do colchão. Ao sentir o sangue escorrer entre os dedos, saiu correndo para casa assustado e chorando. Imediatamente, ela foi para o hospital. Após pegar uma senha, esperou vinte minutos para fazer a ficha, e, depois, mais vinte para passar por uma triagem. 82


Conto

Isabel Camara

O menino já não reclamava de dor. Parecia ser nada demais, apenas uma ferida que levaria alguns pontos. Mais vinte minutos se passaram. Quando já estava pensando em desistir, o médico a chamou. Ele apenas passou alguns medicamentos e uma injeção. Já na farmácia que acabara de abrir próxima a sua casa, o farmacêutico a abordou: um homem de corpo atlético, atencioso e jovem. A atração entre os dois foi imediata. Eles não puderam disfarçar o encanto, um pelo outro. Encabulada pela investida dele, comprou o remédio para dor e saiu, olhando sempre para trás. Ela não sabia que algo dentro de si estava para mudar. Já era tarde quando chegou em casa. Primeiro ela cuidou do filho e o colocou na cama. Desceu as escadas e preparou o jantar. Depois, tomou seu banho e foi dormir. Ela mal havia deitado na cama quando ouviu o ruído da porta. Sentiu medo, pois era o seu marido. Os movimentos dele pela casa eram acompanhados apenas pela audição: o tilintar das panelas, os passos fortes subindo as escadas, entrando no banheiro e a água caindo. Minutos depois, o silencio imperou. Ela já sabia o que ia acontecer. Sem se preocupar se a mulher estava acordada ou não, ele a arremessou para o lado e a violentou. Como sempre, ela não gritou nem relutou. Apenas

término daquela tortura.

esperou pelo

No meio da noite, virada de costas para ele, com o rosto banhado em lágrimas, ela se lembrou da sua juventude: como gostava de se pentear, suas roupas, suas amigas e tudo aquilo que se perdeu num passado que não parecia ser o dela. Por um instante, ficou inconformada consigo mesma, pois aceitava aquela situação e não tinha coragem de mudar. Talvez por não se importar mais consigo mesmo, talvez por depender financeiramente do marido. Ela não tinha forças, nem para dormir. Pensou no farmacêutico, no breve encontro naquela 83


Coringa

farmácia, e adormeceu. Tudo estava bem quando ela acordou. Uma nova semana estava para começar. Menos para ela, que não sentia os dias passar. Sempre a mesma rotina: a roupa para lavar, a casa para limpar e a comida por fazer. Seu marido gostava de encontrar a casa impecável quando voltava do trabalho. Que trabalho! Todos os dias era a mesma coisa. Depois do expediente ele sempre chegava bêbado. Um arroz salgado resultava em uma surra. Ela suspeitava que ele a traía, pois as camisas dele sempre inalavam perfume de outra mulher, além das marcas de batom. Ela mal se arrumava, vivia sempre maltrapilha e desleixada. Só se cuidou para ele no começo do casamento, mas a falta de elogios dele a desmotivou. Um pouco depois da hora do almoço, ela deixou seus afazeres e sem saber o porquê, foi até a farmácia. Mesmo sem dinheiro, olhou as bijuterias e os xampus até que se deparou com uma coleção de esmaltes. Ao vê-la o farmacêutico elogiou suas mãos e lhe deu um esmalte de cortesia. Ela apenas agradeceu com um sorriso, que resultou numa conversa. No dia seguinte, com as unhas feitas, ela foi ate a farmácia. Desta vez, comprou um batom que embalou uma longa e distraída conversa. E, assim, sua semana se passou. Ela sempre tinha um motivo para ir à farmácia. Estava apaixonada pelo farmacêutico. Ela nunca pensou que aquilo pudesse acontecer novamente em sua vida. E assim se passaram dois meses. Numa tarde, quando estava se arrumando para ir à farmácia, a campainha tocou, era o farmacêutico. Com a desculpa de que chegara uma nova linha de maquiagem, ele foi a sua casa mostrar-lhe o catálogo. Por um minuto de loucura, pois sabia que os vizinhos iriam fofocar a seu respeito, o deixou entrar. Beijaram-se, ali mesmo na sala. Nunca se sentiu deseja84


Isabel Camara

da, nem nos tempos de namoro. Ela estava decidida a sentir a felicidade mais uma vez na vida, e, assim se amaram no resto daquela tarde. Depois disto, sempre quando era violentada pelo marido, pensava no seu amante. Foi assim que ela começou a driblar a dor que sentia no peito. Numa manhã de sábado, a caminho da feira, viu seu marido no bar. Uma mulher jovem estava sentada em seu colo. Ele a beijava sem se importar com quem estava a sua volta. A traída, vendo aquela cena, aproximou-se deles. Não acreditava naquilo que estava vendo. Estava decidida a separarse dele, mas queria um motivo, e o encontrou. Todos que permaneciam dentro e fora do bar estavam pasmos: de um lado, o infiel e sua amante e, do outro lado, a esposa traída a olhá-los. No fundo ela estava feliz por aquilo que acabara de presenciar e fingiu estar magoada quando começou a chorar e gritar. Ele, percebendo que sua mulher estava ali e vendo a atitude dela, levantou-se com fúria e a empurrou no chão. Queria bater-lhe no rosto, mas não houve tempo, pois alguns homens que passavam pela rua o seguraram. E esta foi a última vez que ela o viu. Ele não voltou para casa, pois naquele mesmo dia, ela o denunciou na delegacia da mulher. Ele foi preso e da cadeia, nunca mais saiu. Durante muito tempo, ele sentiu na pele a humilhação dentro da cadeia, pois nenhum detento perdoa um covarde que tenta contra a vida de uma mulher ou de uma criança. A lei nos presídios decidida pelos próprios criminosos é muito dura. Agora, ela está feliz. Com a auto-estima recuperada, encontrou um trabalho. É informal, mas é a afirmação de sua independência. Ela está pronta para encarar a vida, recomeçar sua história, criar seu filho e viver, sem impedimentos e culpas, um novo amor. 85


Coringa

A história de um morto vivo

R

oberto acordou

um dia e decidiu que voltaria para Belo Horizonte. Sua vida em Salvador já não fazia sentido. Sem poder ver os filhos, proibição da

sua ex-mulher, não havia motivo para ficar naquela

cidade

quente. E, para piorar, tudo naquele lugar lembrava sua vida

de casado. Voltou para sua terra, para seus pais, amigos e a antiga vida de solteiro. Na verdade já completava cinco anos que estava separado, mas em Salvador não conseguia aproveitar a vida, tudo girava ao redor da sua ex-mulher, Eulália.

Queria

recomeçar longe dela, sem a expectativa de encontrá-la a qualquer momento.

Com 25 anos se apaixonou por Eulália , que era cinco anos mais velha que ele. A mulher mais cobiçada da região, viúva recente, que vivia sozinha. Roberto não acreditou quando um dia ela bateu em sua porta chamando-o para um chope. Ficaram um ano juntos em Belo Horizonte e resolveram mudar

para Salvador, era o

sonho dela morar perto do mar. Roberto foi com a promessa de voltar, Eulália com a certeza de que nunca mais pisaria em BH. Com o passar dos anos tiveram três filhos, viviam uma vida tranquila, sem grandes luxos, mas conseguiam se manter. 86


Conto

Laura Leal

Quando tudo parecia bem e Roberto planejava sua aposentadoria, Eulália partiu. Deixou um bilhete e foi embora com as crianças. Sem entender nada, Roberto achava que ela poderia voltar, mas no fundo sabia que Eulália quando decidia alguma coisa jamais voltava atrás. Já em Belo Horizonte, longe de Eulália, Roberto conseguiu abrir um negócio com um amigo de infância. Resolveu então, voltar para escola, queria terminar o Ensino Médio. Foi aí que o pesadelo começou. Na inscrição para o supletivo exigiram sua certidão de casamento e mais alguns documentos. Foi ao cartório da cidade onde um dia se casou com Eulália e nada de o documento aparecer. Lembrou que quando estava em Salvador, alguns anos depois da separação, também não acharam seu seguro-desemprego, mas na época não se preocupou. Foi então encaminhado a um juiz que de maneira fúnebre pronunciou uma espécie de sentença de morte: “Rapaz, a tua

mulher te matou. Tem que ter paciência, porque você não existe mais, e seu documento daqui para a frente é o atestado de óbito”. Depois de ler o documento descobriu que ele estava morto desde 1997 de causas naturais. Incrédulo Roberto começou a pensar

Eulália

naquela mulher que ele um dia amou tanto. Como ela seria capaz?

precisou subornar um médico, um agente funerário, um funcionário do INSS para conseguir a pensão vitalícia.

Tudo fez sentido para Roberto quando ele lembrou que Eu-

lália nunca pediu

dinheiro a ele enquanto estavam juntos, pois alegava que conseguia viver com a pensão do falecido

marido. Ficou imaginando se o primeiro 87

marido de Eu-


Coringa

lália estava realmente morto. Depois do susto inicial, Roberto voltou para Salvador determinado a encontrar sua ex-mulher, queria resolver aquilo longe dos holofotes da Justiça. Mas ele não tinha ideia onde ela morava, muito menos se ainda estava na cidade. Frustrado voltou para Belo Horizonte e foi procurar um advogado, mas percebeu que é mais complicado do que se imagina provar que estava vivo. Depois de um ano com o processo aberto, Roberto ouviu do advogado: “a Justiça achou sua ex mulher, mas agora você precisa de três testemunhas que alegam que você está vivo e ela precisa levar três outras que testemunharam sua Sempre imaginou o dia que iria rever Euseu amor , mas nunca pensou que seria num tribu-

morte”.

lália, nal, frente a frente, ele como um defunto vivo e ela como viúva pela segunda vez.

Conto baseado em artigo publicado pela Folha de S. Paulo no dia 11 de abril de 2010 88


Conto

Mariane Pinho

Livre Arbítrio

F

lash! Flash! Flash! Ele tentava abrir caminho pela multidão de fotógrafos e jornalistas locais, afoito, exausto, desesperançado. Seus olhos doíam, acompanhando a cabeça no protesto por uma noite bem dormida. Ignorava o chamado dos repórteres e andava mirando o chão. O suor encharcava seus cabelos loiros cortados à máquina, deixando-os com o aspecto de uma pasta uniforme, e escorria lentamente pela testa cheia de espinhas. Sobre a batina preta via-se pendurado um pequeno crucifixo de ouro, presente que ganhara de sua mãe quando entrara para o seminário e que nunca lhe parecera tão enfadonho e insignificante quanto agora. Quando o jovem padre finalmente chegou ao seu quarto, nos fundos da igreja, fechou a porta, ficou escorado nela por alguns minutos e suspirou, cerrando os olhos em busca de um alívio não encontrado. Há muito tempo acostumado com a sensação de desamparo, abriu os olhos e foi preparar sua dose noturna de uísque. Apagou as luzes e ficou sentado na cama, pestanejante, bebericando do copo. Não tinha vontade de dormir, achava que seus sonhos eram tão pobres e grosseiros quanto sua vida. Mantinha uma corda espessa de sisal em cima da escrivaninha, no caso de querer se enforcar um dia. Apesar do convite constante ao suicídio, ele sabia que, no fundo, não queria se matar. Tinha a convicção de que não existiria nada além da vida, por mais insignificante e espúria que ela fosse. A batina era só um emprego para ele naquele momento. Realizava 89


Coringa

missas, ouvia a confissão de fiéis e batizava crianças sem acreditar em um só mandamento. Não se definia como ateu, nem agnóstico, nem nada. Permanecia indefinido, pois achava que até a procura de uma afirmação de religiosidade era inútil. O conto de fadas que vivera desde os doze anos, quando decidiu ser padre, toda aquela hipocrisia religiosa, acabara. Ouviu um barulho do lado de fora do quarto, uma breve intervenção da realidade no seu refúgio alcoólico. Já estava inebriado, mas foi para a segunda dose e acendeu um cigarro. A semana fora a mais difícil da série de julgamentos. Não reconhecera de pronto o menino. Como ele crescera tanto em apenas quatro anos? Na mente do padre e no físico do garoto, o tempo parecia ser o dobro dele mesmo, e os dias só podiam ser medidos pelas páginas dos jornais, cujas manchetes datavam o decorrer de mais um caso de pedofilia na Igreja Católica. Diferentemente da maioria de seus colegas, ele não renunciou à batina depois de a acusação de abuso ter sido espalhada pela mídia. Deus já renunciou a mim, pensava. Não iria dar para trás. Enfim, na sessão daquele dia, fora declarado inocente. Ao sair do tribunal e encontrar a aglomeração midiática, ouviu os repórteres lhe perguntarem “como conseguira” ser absolvido, como se a decisão da Justiça fosse apenas produto de uma façanha delinquente. Não sabiam de sua verdadeira opinião sobre religião, obviamente, imagine o escarcéu que seria! Também não tinham ideia da indiferença que o abatia - o resultado não lhe importava, assim como não lhe importava se comia bem ou mal, se fazia chuva ou sol. A possibilidade de júbilo com os pequenos milagres da vida era a única mentira que não conseguia contar em suas missas. Confortavelmente entorpecido e deitado na cama, permitiu que seus olhos fechassem. Procurava controlar tudo o que podia, até o sono, pois perder a fé fora a pior escolha que não fizera. Aconteceu, simplesmente, depois de ter sido acusado. Ele até tentara provar a si mesmo que estava errado, mas evidências 90


Mariane Pinho

concretas da presença divina não são as coisas mais fáceis de se encontrar. Então acabara se acostumando, continuando na única profissão que sabia exercer. Largou o copo vazio, apagou o cigarro e virou de bruços para dormir. Não queria mais pensar em tudo aquilo, era o fim: no mês seguinte mudaria para a capela de uma cidade do interior. A corda iria consigo, só para garantir a possibilidade do mais derradeiro exercício do livre arbítrio.

91


94


A CONFISSÃO

O

General croata Viktor Jankovic caminha em direção a uma enorme igreja. Ele está uniformizado com vestimentas oficiais cinza com insígnias penduradas, um grande símbolo da suástica em seu braço direito e um símbolo em iguais proporções da organização Ustasha em seu braço esquerdo. O general porta seu rifle Mauser Karabiner 98k nas costas junto com uma pistola portátil Luger de curto alcance guardada na presilha em sua cintura. Ele está com uma aparência cansada e olhos para baixo. Jankovic entra na igreja e se benza com um grande jarro de água benta localizado a direta da entrada. A igreja está vazia. O general caminha lentamente em direção ao altar, fixa seus olhos na representação de madeira da cruz por alguns segundos, e em seguida vira a esquerda e calmamente sentase na cabine de confissão. O general fica a vontade na cabine, tira seu quepe oficial do exército e o coloca sob seu colo. 95

Ato

Gabriel Iorio


Coringa

Jankovic: Perdoe-me padre, pois pequei. Padre: Pecados de guerra? Jankovic: Pode se dizer quem sim. Padre: General, teus chamados pecados de guerra, não são pecados. Você é um instrumento de Deus para a libertação dessa área. Tu serás absolvido de todos os pecados antecedentes de vida pela vitória de sua missão divina. Jankovic dá um riso irônico em baixo tom e foca-se na imagem do Padre, que está intercalada por sombras e detalhes de mármore que dividem a cabine ao meio. Jankovic: Missão Divina, você diz? Padre: Claro. O que está acontecendo agora são as páginas da nova História. Deus está do lado do Führer. E você é um bom homem general, que defende a existência de uma raça pura. Uma raça pura que crê em Deus e sua divindade. Uma raça sem ganância, imoralidades ou pecados. Seus pecados são frutos daqueles que possuem a alma ruim. Por isso não são seus. São essas almas ruins gananciosas que destroem o homem. E você deve evitar essa ganância. Você deve limpar a maldade dessa área, e purifica-la. O Vaticano está do nosso lado. E você é a parte santa da guerra, General. A guerra contra a maldade. Jankovic fica calado por alguns segundos. Jankovic: O Senhor fala tanto em maldade, Padre. O que não te faz pensar que nós poderíamos ser os malvados? 96


Gabriel Iorio

Jankovic começa a falar em tom mais sério. Jankovic: Eu poderia te matar agora, aqui mesmo... Jankovic leva delicadamente a mão à presilha de sua Luger. Jankovic: E isso seria maldade? Eu também tenho o poder de tirar uma vida, assim como meu inimigo. E isso me faz Deus? O que lhe faz afirmar tão fortemente então Padre, que a ganância e a maldade estão do outro lado? Jankovic sussura. Jankovic: Eu poderia ser o malvado, agora mesmo, para você. Jankovic trava sua posição por alguns segundos. Em seguida tira sua mão de perto da presilha de sua Luger. O Padre aparentase ligeiramente assustado com o gesto do general, mas se acalma a medida em que Jankovic volta para uma posição relaxada e começa a discursar. Jankovic: Mas não estou aqui para debater moralismo com o Senhor. Sabe Padre, como eu já havia dito, eu pequei. E para evitarmos alguns debates, pequei sob o meu ponto de vista. Padre: Conte-me então sobre isso general. Jankovic:Acabo de sair de Jasenovac. Fui visitar o campo de concentração a pedido do ministro. Você deve conhecer bem Padre, o trabalho Ustasha feito por lá. 97


Coringa

Padre: Sim... Jankovic: Sabe Padre, antes da visita a Jasenovac, eu provavelmente não pensaria em vir me confessar para você... Jankovic pausa brevemente seu discurso. Jankovic: Deixe me explicar melhor. Eu sempre fui fiel aos Ushtasha, e acredito nos princípios levante da organização. A força Croata deve sim, em minha opinião Padre, opor-se do resto da grande Sérvia. Nosso território foi conquistado e tomado das mãos dos Sérvios. E isso me orgulha, como Croata e como homem. Um governo Sérvio que nos oprimiu por dezenas de anos sabe agora como é ser oprimido. Acredito que a força de alguns homens conseguiu provar que a Croácia é mais forte do que todos pensavam. Jankovic olha para baixo e inicia um movimento de negação com a cabeça. Jankovic: O que acontece Padre, é que as coisas fugiram do controle. A prova de força da Croácia desviou-se para um caminho obscuro. A ascensão croata já não nos garante a liberdade, mas só nos obriga a cometer cada vez mais assassinatos e torturas. Os Ustashas fazem atrocidades que chocam até o exército Alemão. As batalhas Ustashas já não são mais estratégicas, são apenas sanguinolentas. Vejo crianças croatas educadas a matarem Sérvios. É uma situação irreversível. E se a guerra serve para evitar a maldade Padre, evitar o horror...eu já estou vivendo o horror.

Jankovic se inclina próximo à divisa da cabine. 98


Gabriel Iorio

Jankovic: E foi em Jasenovac, Padre. Onde eu vi crianças subnutridas tendo que assistir as suas próprias mães serem estupradas e mortas em sua frente. Onde eu vi soldados espancando mulheres com membros decepados de seus maridos. Onde eu vi um grande buraco cavado em que estavam enfiados mais de 10 mil corpos. Onde eu vi um extermínio em massa. Foi lá, que eu finalmente percebi o meu erro, o meu pecado. Padre: Heresia! Controle suas palavras, General! Nesse momento um homem entra na igreja. Ele está com um grande casaco que cobre seu corpo todo. O homem caminha até o centro do Altar, e para na altura da cabine do confessionário, que está a alguns metros á esquerda. Jankovic percebe o homem parado do lado de fora e posiciona seu rifle ao alcance de seu braço, mas mantém seu discurso enquanto também encara o homem pelo lado de dentro da cabine. Jankovic: Meu pecado Padre, foi ter confiado e dedicado minha vida a essa organização tão maligna. E agora vejo o rumo que isso tomou. Não é uma questão de almas ruins, ou ganância Padre. Não é nem uma questão de Deus. É uma questão de humanidade, e de perceber que agora nossa existência de merda só nos reduz a matar. Posso estar louco Padre, mas algo muito certo dentro de mim me diz que eu finalmente me tornei são. Jankovic finaliza seu discurso. Jankovic: Essa guerra santa que o senhor tanto defende Padre, é o verdadeiro inferno na terra, e é batalhado pelos mais desprezíveis dos homens. 99


Coringa

Nesse momento o homem do lado de fora da cabine tira seu enorme casaco num gesto violento. Ele está portando um rifle Mauser Karabiner 98k , aponta-o na direção da cabine do confessionário e dispara uma rajada de tiros contra Jankovic e o Padre. Jankovic percebeu o gesto do homem e jogou-se para baixo, sendo atingido no ombro apenas de raspão. O Padre havia sido atingido na altura do estômago por um projétil, e soltou um grito angustiante de dor imediatamente. Após levar o tiro, em questão de milésimos Jancovic saca seu rifle, e se projeta numa cambalhota para fora da cabine. Ele acerta duas rajadas de três tiros cada no homem, seis ao total. Quatro acertam o peito do homem, e dois acertam a cabeça. O homem cambaleia morto para o lado. Jankovic se arrasta para detrás de um banco que serviria como cobertura, próximo a cabine. O Padre também se arrasta em sua direção. Jankovic: Chetniks...É um ataque surpresa... Padre: Peça ajuda! Jankovic: Espere, não se mexa. Jankovic olha atentamente para a cabine do confessionário. Padre: O que você esta esperando? Vá pedir ajuda! (Gritando). 100


Gabriel Iorio

Jankovic começa a sussurar. Jankovic: Olhe Padre, olhe para o confessionário. Consegue ver? Conte. Há quatro buracos de projéteis que atravessaram a cabine. O homem tem um rifle igual ao meu, consegui perceber. Jankovic vira-se e encara a face do Padre. Jankovic: O Rifle Mauser da uma rajada de apenas três tiros por vez. E Isso significa, que há um segundo atirador em algum canto dessa igreja. Além disso, Chetniks são estrategistas. Não executariam um plano maluco suicida com apenas um homem. Padre: E o que nós vamos fazer? Jankovic não leva nem um segundo para raciocinar, e em seguida dá um breve sorriso. Jankovic:É ai que você entra, Padre. Padre: Uhn? Jankovic: Lembra-se da missão divina que você tanto me falou? Pois é. Você agora vai fazer parte dela. Pelo bem da sua sua raça pura. Você, Padre, vai me dizer a localização do atirador. Padre: Mas como? Jankovic: Eu só preciso de um tiro. Apenas um. Para descobrir onde ele está. 101


Coringa

Jankovic encara seriamente o Padre Jankovic: Você é esse tiro, Padre. Você tem contas a prestar com Deus.

Jankovic agarra o Padre pelos ombros com ambas as mãos e brutamente joga-o para fora da cobertura que o banco os proporcionava. No breve segundo em que a cabeça do Padre ficou para fora do banco, ele foi atingido por um projétil no meio da testa. O Padre morto caiu duro para trás derramando uma onda de sangue no chão. No exato instante após o tiro, antes mesmo do corpo morto do Padre tocar o chão, Jankovic suspende seu rifle e o apoia-o no topo do banco. Levanta sua cabeça para focar-se no atirador, no mesmo mommento em que também o ouve recarregando sua arma. Jankovic usa apenas dois segundos para fazer mira no atirador. Ele sabe exatamente aonde deveria direcionar seu rifle. Jankovic olha o atirador pelo ponto de mira de sua Mauser Karabiner 98k. O atirador está a um metro do terceiro pilar à direita no andar de cima ao do altar, e com o braço apoiado no joelho para fazer mira. Ele já havia recarregado sua arma e agora estava prestes a direcionar mira para Jankovic. O Croata aida enxerga o atirador baixando seu rifle em posição de mira antes de atirar em seu pescoço. O tiro de Jankovic acerta 102


Gabriel Iorio

o atirador na parte da extrema direita de seu pescoço. O projétil atravessou direto a carne, cortando o lado direito do pescoço do atirador por ter passado quase de raspão. Apesar de ter passado longe da traquéia , o o projétil havia rompido veias e artérias do atirador, que derrubou seu rifle no chão e levou sua mão direita ao ferimento. O atirador caiu esticado no chão, e estava sangrando muito, mas não morreu imediatamente. O atirador tem agora apenas alguns minutos de vida. Jankovic coloca a alça de seu rifle em seu ombro e carrega o para trás. Levanta-se e calmamente caminha pelo corredor do altar. Vira a direita, e sobe as escadas que estão nas laterais. Caminha em direção ao terceiro pilar, onde o atirador esta jogado no chão ao lado de uma poça de sangue. O Atirador esta usando vesimentas civis, um colete de munições no peito e na cintura um cinto com doze granadas. Atirador (Gritando): Você ainda vai morrer seu nazista desgraçado! Eu juro que eu vou te encontrar no inferno! Jankovic:É, eu não duvido muito mesmo que o inferno seja meu lugar... Eu praticamente acabei de matar um padre. Atirador (Gritando): Me mate seu desgraçado! Me mate! Cada segundo olhando para você é pior que a morte! 103


Coringa

Jankovic encara fixamente para os olhos do atirador, ele está muito fraco, mas sua expressão facial é claramente furiosa. Ele também olha para o ferimento do atirador e calcula quanto tempo ainda o resta de vida. Os olhos do atirador encaram Jankovic com ódio. Jankovic tem profundidade no olhar ao ver o atirador em seu leito de morte. Atirador (Gritando): Me mate logo! Jankovic: Controle-se. Você ainda não vai morrer. Antes você vai me escutar.

Jankovic tira de seu uniforme os símbolos do Nazismo e dos Ustasha, segura os com força em sua mão e coloca-os delicadamente no chão próximo ao atirador. Em seguida o croata tira seus vestimentos oficiais do exército, embolota-os e os joga para bem longe. Ele agora está vestido com apenas calças e uma simples regata branca. Ele também joga seu rifle no chão e segura ewm suas mãos apenas sua Luger. Jankovic volta a encarar o atirador. Jankovic: Sabe...De algum jeito eu sabia que ao entrar hoje nessa igreja, minha confissão com o Padre seria sangrenta. Só não contava com o pequeno ataque de surpresa de vocês. Mas agora eu também vejo que ele aconteceu por um motivo maior, justo aqui, nesta igreja. Eu já não acredito mais nos Ustashas ou nos nazistas ou em qualquer outra organização. Eu sei dos atos que eu e meus companheiros cometemos, mas 104


Gabriel Iorio

nada pode desfazê-los. Devo dizer que a guerra muda um homem por completo. Eu posso ter mudado, mas digo que não suportaria mais viver nenhum segundo depois do que passei. Agora eu já não tenho mais dúvidas. Eu já entendi tudo que devo fazer. E você provavelmente já vai desvendar como tudo isso vai acabar, mas antes, eu só queria saber uma coisa. Jankovic inclina-se para perto do atirador. Jankovic: Sua coragem me impressiona. Vir aqui com seu colega e disparar tiros contra um general do exército Ustasha e um Padre, em plena luz do dia. Acho que você talvez seja até mais corajoso que eu. Mas me responda, por favor. O que motiva colocar sua vida a frente de um plano suicida, por apenas duas mortes? Tem que ser algo mais que apenas coragem. atirador solta uma gargalhada sem muita força e gagueja cuspindo sangue. Atirador: Você quer saber o que me motiva? Não pense que é a coragem. O que me motiva é que eu não penso que são apenas duas mortes, mas sim dois nazistas nojentos a menos no mundo. E eu entro em qualquer plano suicida para matar nazistas, apenas pelo fato de que eu os desprezo. Tenho nojo desses assassinos. Suas vidas, suas idéias e seus exércitos. Vocês ainda vão ver o fim de sua raça. Todos vocês serão dolorosamente punidos. E eu não me importo em morrer aqui na sua frente, e não me importo com qualquer arrependimento seu. Só fico feliz em saber que você também vai morrer, croata nojento. Jankovic: Nisso você esta certo. 105


Coringa

Jankovic ouve o evidente reforço croata chegando próximo à igreja. Pelo campo de profundidade de sua visão, o general observa a pequena imagem de carros estacionando e se dirigindo para a entrada da igreja. Jankovic então recolhe os símbolos da suástica e do Ustasha, e prendeos nos braços direito e esquerdo do atirador. Atirador(Gritando): Seu maldito! O que você esta fazendo? Pare!(Gritando). Jankovic fixa seriamente seus olhos no atirador, e em seguida dirige um olhar fixo para seu cinto. Jankovic: daqui a alguns segundos mais de cem homens irão ocupar essa igreja a procura dos terroristas Chetniks. Só Esses croatas Ustasha se aventuram por aí cometendo assassinatos que já nem lembram o rosto de seu general. Eles só reconhecem seus superiores pelos vestimentos oficiais. Cegos por sangue, é nisso que os Ustasha se tornaram. Jankovic pausa brevemente seu discurso por um segundo enquanto ainda olha fixamente para o cinto do atirador. Jankovic: Não me odeie por colocar estes símbolos nos seus braços. Nesse momento, eu sou seu melhor amigo. E quero que você melhore seu dia. Jankovic sorri e coloca a mão do atirador em seu próprio cinto. 106


Gabriel Iorio

Jankovic: Porque apenas duas é realmente um número baixo. Jankovic suspira e finaliza. Jankovic: Espero que você tenha entendido. O atirador se cala e olha seriamente para os olhos do general. Jankovic levanta-se, dá as costas para o atirador e fixa os olhos em direção à escada. O reforço croata já entra para ocupar a igreja. Os soldados estão se espalhando pelo meio e pelas laterais do andar térreo. Jankovic(Gritando): Ajuda! Aqui em cima! Os soldados ouvem o grito do general. A igreja já está cheia com mais de cinqüenta homens. Alguns soldados começam a subir as escadas das laterais. Antes mesmo de o primeiro soldado croata chegar ao primeiro andar, Jankovic estende a mão que porta sua Luger. O primeiro soldado vai agora dar o primeiro passo no andar de cima. Jankovic dá dois tiros em seu peito e o homem morre antes de qualquer reação. O soldado atrás do primeiro revida com uma rajada de tiros que acertam apenas uma vez Jankovic em seu braço. O general croata ainda fica firme de pé e dá um tiro certeiro na cabeça do segundo soldado. O restante dos soldados chega atirando alucinadamente. Jankovic é acertado por uma rajada de tiros, de frente e de trás. Durante o tiroteio o general ainda conseguiu dar mais 107


Coringa

dois tiros que feriram um soldado croata. Jankovic havia levado mais de trinta tiros. Seu corpo quase irreconhecível cai mole no chão. Após o tiroteio, os soldados croatas estão espantados e a igreja inteira fica calada por alguns segundos. Após o silêncio, o atirador quase sem vida solta um gemido silencioso. Um soldado aproxima-se de seu corpo e vê os símbolos das organizações em seus braços. Soldado: Temos um companheiro ferido aqui! (Gritando)

O atirador Atirador: Meu amigo...

gagueja

fracamente.

O soldado inclina-se para perto da boca do atirador para ouvir melhor suas palavras. Soldado: O que? Atirador: Meu amigo...Meu amigo melhorou meu dia. O soldado fica com uma expressão confusa. Em seguida o atirador estende a mão para entregá-lo algo. O atirador toca na mão do soldado e logo depois morre. O soldado ainda olha profundamente para o corpo do atirador, e depois abre sua mão para ver o que havia ganhado. 108


Gabriel Iorio

Eram doze pinos de granada. E a última expressão do soldado foi o esboço de um grito. A igreja explodiu violentamente, camuflando-se nas enormes chamas, e matando todos que estavam dentro dela.

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Coringa

A ORDEM É NÃO NASCEr

O

cenário é uma sala de cirurgia. Uma sala circular mal iluminada: a única fonte de luz é o refletor que mira uma cama hospitalar posicionada no centro do ambiente. A luz parece ofuscar a vista da paciente, que vira a cabeça para todos os lados tentando enxergar onde está. É uma jovem branca, de aspecto frágil e encontra-se nua, amarrada à cama. Depois de alguns segundos atordoada – pois parece ter acabado de voltar a si – identifica a silhueta de um doutor, única outra pessoa na sala, que está de costas para ela medindo o líquido de uma seringa. O doutor se aproxima da paciente e esta consegue enxergar a placa de identificação pendurada no jaleco do médico.

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Ato

Bruno Borin & Denis Bertoncello

Paciente: Doutor... Clau-cla-clauberg? Doutor: Acordada? Sempre digo que esses anestésicos não servem de nada. Clauberg, Carl Clauberg. SS-Gruppenführer da Reserva. Muito prazer. E a senhorita seria hmm..Sophie Delacroix? Esse não é um nome muito judeu. Sophie: Judeu? Como assim? O que está acontecendo?

Ela se dá conta de sua condição, amarrada por quatro grandes faixas no dorso, cintura, joelho e calcanhar e começa a se debater tentando se soltar. Sophie: Que porra é essa? O que vocês vão fazer comigo? Clauberg: Hmm, será que houve algum engano? Não é judia...

Enquanto a paciente se exaltava, o doutor – que tinha ido buscar algo num arquivo próximo – volta com uma pasta com relatórios dentro. Ele abre e começa a ler uma das folhas que retira da pasta.

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Coringa

Clauberg: Ah sim...mais uma dessas francesas que perdem seu tempo ajudando estes porcos. Que azar o seu, hein? Tantos lugares em Auschwitz e te jogam bem no meu laboratório. E só porque escondeu um rato judeu no seu porão. Sophie: Laboratório? Laboratório de quê? Mas que merda é essa? Me solta daqui agora. Quem é você? Clauberg: Já me apresentei minha cara. Professor Doutor Carl Clauberg, médico residente aqui do bloco 10, especialista em ginecologia e atualmente, graças a meu querido amigo Heinrich Himmler, pesquisador aqui em Auschwitz. Você deve conhecê-lo... Aliás, sem ele nunca conseguiria realizar este meu sonho que tanto contribui para o progresso da minha nação. Sophie: Progresso? Pesquisa? Que eu tenho a ver com isso? O que você quer fazer comigo? Clauberg: Ora, muito simples. Aqui no laboratório eu busco encontrar o melhor metódo, mais simples e barato, para a esterilização de mulheres. Esterilização em massa. É como achar a fórmula perfeita para castrar estes animais doentes. Assim evito que esta praga multiplique-se pela minha querida Alemanha. Sophie: Castrar animais doentes? Isto é um absurdo! O que você está falando? E eu? O que você vai fazer comigo? Clauberg: Oras, se você chegou até aqui é porque obviamente participará da minha pesquisa. Para isto você vai ser submetida a alguns testes e, aí sim, será esterilizada. 112


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Sophie: Esterilizada? Mas por que? Eu vim parar aqui por acidente, santo Deus, era só um amigo de família... era por pouco tempo... ele ia ficar lá por pouco tempo. Eu nem deveria estar aqui, não mereço isso. Pelo amor de deus, eu ainda nem tenho filhos. Meu namorado me espera em Paris.

Os soluços de choro e desespero fazem com que a fala de Sophie comece a embrulhar. Clauberg conversa com ela mas sempre organizando seus instrumentos. Clauberg: Calma menina. Não vamos te matar. Você só não terá filhos. Seu namorado vai ter que achar outra pra procriar. Ou será que ele gosta mesmo de você? Bom, se ele está em Paris com certeza não se meteu com os porcos de David como você. Sophie: Mas a culpa não foi minha! Pelo amor de deus não faz isso. Eu não mereço. Clauberg: Bom, isso não sou eu quem decido, desculpe. Se colocaram você aqui , quem sou eu pra dizer que você não merece? E você ainda ajudou aqueles malditos.. Sophie: Mas ninguém merece isso! Como você pode julgar alguém desta maneira? Eu só impedi que prendesse e matassem um ser humano, humano como a gente. 113


Coringa

Clauberg: Não é questão de julgar minha querida. Está mais do que óbvio que essas pessoas são um atraso para nossa civilização. Você que tanto apela para a religião deveria saber que o próprio Jesus também era contra o judaísmo. Ele foi o nosso primeiro herói ariano! E quanto ao “seres humanos”, rá! Quem disse que os judeus são seres humanos? Sophie: O que vocês fazem é um absurdo, tratam homens e mulheres como lixo. Como assim impedir uma pessoa de ter filhos? Isso é desumano. Ninguém tem que passar por este tipo de coisa, ninguém. É um horror! Clauberg: Mas isso é um ultraje! Você não vê que o que fazemos é justamente garantir o bem estar da população alemã? Controle social é fundamental, minha cara! Malthus já dizia que a superpopulação é resolvida através de guerras e doenças; é o curso natural da humanidade. Eu só quero achar o jeito mais proveitoso e humano de livrar nossa Alemanha desses parasistas, pra controlar e limpar nossa população. Sophie: Mas eu não sou parasita! Eu sou pura, assim como você. Olha a cor do meu olho, o tom da minha pele. Eu podia ser sua filha. Pura igual sua filha. Clauberg: Justamente, e bem por isto dará uma ótima cobaia para minhas pesquisas.Aliás, aproveitando a qualidade do material, não-judia, branca, acho que podemos até testar umas novas técnicas em você.

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Sophiemiraodoutor,olhoaolho.Suarespiração escancara seu nervosismo, e, por alguns segundos, ela parece buscar um novo argumento.

Sophie: Doutor Clauberg, não é? Olha aqui, você não sabe quem eu sou. Minha família tem dinheiro! Eu tenho dinheiro! Eu posso te dar o quanto você quiser. Só não faz isso comigo, por favor. Eu sou pura! Pura! Ariana! Não sirvo para testes. Só os judeus servem. Clauberg: Minha querida... olha, já disse que não tenho o que fazer. E se você não gostasse mesmo desses demônios, não teria escondido um no porão da sua casa, não é mesmo? E o seu dinheiro francês, garota, não me vale de nada. Mas, já que você reclama tanto, vou te dar o direito de escolha. Ia aplicar essa injeção ácida no seu útero, mas, vou deixar você escolher... Além dessa aqui (o doutor mostra uma seringa enorme que segura na mão direita), podemos te expor a radiação, cortar os ovários... Sophie: Você é louco? Eu não vou escolher nada! Me tira daqui seu nazista nojento! Clauberg (falando sozinho): Ah esses franceses, sempre reclamando de tudo... é impossível ter paciência com essa gente.

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A essa hora, o doutor remexia suas gavetas enquanto a paciente esperneava, desesperada. Visivelmente irritado, ele volta para perto de Sophie, ficando em pé no lado direito da cama. Clauberg: Você não entende nada, não é mesmo? Essa decisão já não cabe mais a você. O preço a ser pago por ajudar esses malditos, quem vai escolher sou eu. Até tinha simpatizado com você: francesa, bonita... Mas pelo que vi você realmente foi contaminada por esse povo asqueroso. Povo que chegou até a renegar, só pra ficar com suas trompas.

Enquanto discursava, o doutor inseria uma seringa de líquido verde no braço de Sophie, que ainda se debatia. Clauberg: Isso aqui vai te acalmar... acalmar bastante.

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Em três, quatro segundos, a garota já estava inconsciente. O doutor vai até a porta e chama o assistente do lado de fora. Quando ele entra na sala, já se posiciona na cabeceira da cama, mas não sem antes destravar as quatro rodas dos pés. Clauberg: Fritz, colete os ovários dessa daí, e depois leve para a sala de treinamento autopsial. Era pura, mas resolveu virar mais uma defensora dos porcos, e também, não soube se calar. E parece que tinha dinheiro... vai que dá algum problema depois. Mas acho que vai dar uma boa pesquisa... limpinha.

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revistacoringa@gmail.com 2010


Revista Coringa  

Leitores, regozijai-vos! Tens em mãos um insigne exemplar da revista Coringa. Uma garbosa compilação do que de melhor foi produzido na disci...

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