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AMáscárá Invictá “O que impulsiona um homem e ao mesmo tempo o paralisa?”

Uma aventura incrível. Fantástica, poética, e envolvente. Uma das melhores sagas já contadas em Eralfa agora em um único volume.


Por Eduardo Motta.

Um lampejo corta o céu. Era dia, mas se fazia visível ao olhar. Do sul, aonde outrora vieram miríades de longos anos de guerra, ouvia se um grande ruído. Não de homens, mas de uma tempestade que se avizinhava das redondezas. Ao longe, o velho dragão olhava feroz. Seus pétreos olhos pareciam vigiar toda a paisagem, porem, é certo, nada viam. As sólidas asas como que tentando ganhar o céu, nada poderia fazer. Não se ergueriam um momento sequer apenas. Reza a lenda que numa época muito distante, vivia um dragão sobre as montanhas de Delráhvia. Só que um dia. Um poderoso bruxo o havia confinado na rocha e ali permaneceria por toda eternidade a velar sobre a paisagem. Mas os anos se passam e os velhos morrem e as crianças abandonam seus sonhos na medida em que crescem e não há mais quem conte as estórias e nenhum ouvido para ouvi-las então e as lendas vão ficando cada vez mais distantes dos homens.

“Tudo nunca passou de um sonho!”. Disse uma voz de si para si mesmo. E acima, uma bandeira pendia dum azul desbotado pelo tempo. Outrora, símbolo de dignidade e poder, hoje arrancavam risos dissimulados e nada mais. O dragão dourado ao centro já não impunha respeito nem nas criancinhas de pouca idade. _Jovem mestre. Chamou uma voz perto a grande escadaria, único meio de si chegar à torre de vigia. _Teu pai, o duque, o aguarda. O jovem não volveu o olhar em direção àquela voz. Porem foi audível o seu longo suspiro. _Diga a ele que já vou. Disse mantendo o olhar fixo no velho pendão agitado pelo vento. _Não quero ser inconveniente... _Tornou a voz._... Mas ele pede que me acompanhe imediatamente. _Que seja! Exclamou displicentemente enquanto lançava um olhar frio para o velho homem junto à escada. O jovem seguiu em silencio escada abaixo acompanhado pelo homem mais velho. Era uma enorme espiral. Parecida com uma enorme serpente enroscada pelas laterais da torre. Depois de terminada a monótona descida, os dois entraram num enorme pátio e em seguida em uma porta a esquerda saindo num, salão mediano aonde um grupo se reunia cheio de excitação nas vozes.

“_ Sei que parecem estórias de camponês senhor...” _ Disse um homem ao fundo da sala enquanto Dárien e o velho Makro entravam. “_... mas dois pastores e alguns animais já desapareceram. Achamos também sangue próximo ao velho poço.” “_Uma fera senhor! Uma terrível fera bradou uma mulher”. “_Já ouvimos falar dela. Dizem que dizimou todo um povoado e agora está aqui entre nós.” 1


Havia muita tensão no ar. Várias pessoas falavam ao mesmo tempo enquanto o duque de cima do trono olhava desolado aquele burburinho a sua frente. _ Senhor meu pai, disse Dárien, mandaste chamar-me? Algo em que possa servi-lo? A despeito de toda a formalidade, o duque notara certo descontentamento na voz de Darién, mas também mantendo o tom formal: _Sim, meu filho. Estes homens trazem notícias de que uma fera estaria atacando nossa boa gente. Como hábil caçador que és, gostaria de ouvir sua opinião sobre o caso. _ O que os soldados dizem meu pai? _ Lobos meu senhor! Disse um homem usando com uma cota de malha que trazia uma longa espada à cintura. _ Nada mais que lobos. E ademais, os dois pastores não passavam de bêbados, e isto não é segredo a ninguém. Se por um lado as pessoas simples viam no caso o ataque de uma terrível besta, que contavam boatos sobre vilas destruídas e coisas parecidas, o duque via apenas estórias de gente ignorante que tende a exagerar tudo e se deixam levar facilmente pelo maravilhoso. _E então Dárien, o que me diz? _ Bem meu pai, lobos ou algum outro animal é certo que não se sabe. Mas seria prudente investigar. Se o senhor me concedesse a honra... O duque não tencionou mandar ninguém para averiguar o caso. Principalmente seu filho, mas se negasse o pedido, ainda mais na frente daqueles que ali estavam, poderia ter menos apoio quando fosse preciso e assim aquiesceu. Foi acordado que Darién levaria três homens consigo e partiriam pela manhã a fim de averiguar os fatos. E assim, na quarta hora do período de Fabus, aos primeiros raios de Álax, partiram pela velha estrada, rumo ao sul. Ao longe o antigo dragão se fazia ver magnífico enquanto a velha bandeira azul era agitada por um impetuoso vento norte.

Dárien lembraria muitas vezes daquela cena, mormente nos tempos em que a escuridão tivesse apoderado de seu ser e tudo o que houvesse vivido fosse como um sonho desvanecendo dentro da realidade, porém os presságios são apenas para o futuro e o futuro ainda estava longe, ao menos daquele dia. 2


Por Eduardo Motta.

O vento norte soprava suavemente. Em algumas épocas ele era um vento frio e veemente, mas, hoje não. Ele era calmo e reconfortante. Para alguém após uma longa caminhada ele seria neste momento como um eflúvio bem fazejo. Uma trégua ao calor que grossa em outras terras. Mas não. Não era paz que ele trazia. Havia um cheiro metálico e uma tristeza no ar. Era uma lufada lenta e pesada que oprimisse toda a paisagem. Sobre o solo, corpos espalhados de homens, mulheres e crianças. Todos mortos. _Chegamos tarde. Falou uma voz feminina. _Ao que parece, sim. Concluiu uma segunda enquanto cobria com um manto o corpo de um jovem que jazia no chão. _ A cada tempo ele se torna mais violento. Disse a primeira enquanto cobria a seu turno, o corpo mutilado de uma mulher. _A visão já não é tão boa quanto antes. Continuou ela. _Não devia se cansar tanto assim, minha irmã. Disse a outra enquanto verificava a respiração de um soldado, puxando-o para o seu colo. _Ele ainda vive! Exclamou ao mesmo tempo em que lhe dava algo para beber. Ária se aproximou. Já não tinha os cabelos dourados como a irmã ajoelhada à frente. A pele havia perdido o rosado da juventude. Da antiga semelhança entre as duas nada restava. Lorena levantou o olhar com a aproximação da irmã. Era triste vê-la andar com dificuldade. Havia envelhecido muito. Isso era o que mais doía nela. Mas, assim tinha de ser o preço da magia, o risco já havia sido calculado e cada uma aceitara sua parte. O que restava era seu forte, mesmo quando a força se escondia bem no fundo do coração da mulher, tão fundo que parecia não vir à tona nessa vida nunca mais. Ária sabia que aquele homem ali não sobreviveria a menos que fosse ajudado. Porem, como poderia? Se o curasse, talvez não pudesse dar um passo apenas e já se atrasaram por demais devido ao estado em que se encontrava. A cada dia perdido mais pessoas morreriam sem ter a mínima chance. Ela afastou se até sair do campo de visão da irmã e ali caiu num choro silencioso, porem doído. Já tinha passado por cinco vilarejos e em todos apenas a morte restava e sabia que muito em breve ela também faria parte da legião dos mortos. E foi com tristeza que o resto daquele dia e o seguinte passaram. E as duas irmãs seguiram rumo ao norte. E com elas ia o pequeno Ban, que havia se escondido no dia anterior. Ária sabia o que os esperava mais guardou em seu coração. Sabia que o sofrimento era inevitável, mas ninguém precisava sofrer antes do tempo.

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Por Eduardo Motta.

E o homem abaixou se para beber água no pequeno regato que corria por entre as rochas. Os raios de sol sobre as águas criavam um lindo cenário. Toda a natureza parecia estar em festa. Uma festa a qual não o convidaram. Estava nu e coberto de sujeira. Seu reflexo na água era horrível. Não sabia onde estava, mas, pressentiu que andara muito pela noite. Havia lembranças de gritos em sua mente. Tochas, sim. Lembrava-se delas. Havia também sangue, porem não se machucara. Pelo menos a “Cria de Bël” havia ficado longe. Onde ele estaria? Talvez preparasse mais alguma ignomia, não se importava ao menos não estava ali. O homem lavou-se no regato e seguiu em meio às árvores. Não tinha o que vestir mais ali ninguém o veria. “_Logo a noite cairá.” Pensou. Não tinha medo da noite, mas sabia que era quando a cria de Bël vinha. Ele vagou sem rumo por várias horas até que seus pés atritaram sobre algo. _Por favor, não! Ele exclamou. Abaixo de seus pés, lá estava à criatura, seu rosto projetando para fora do solo. _Não! Gritou outra vez, mas agora se ouvia aquela voz: _Mate-os. Todos. Dizia. Era horrível. Não era humano. _Não! Gritou mais uma vez “_Ele está lá! A criatura está lá”. Ouvia as vozes. “_Matem-no”. _Não! Por favor, me deixem. Não sou Cria de Bël, não estão vendo? Mas eles não viam. Tacavam pedras, tochas,... Isso machucava e a criatura ao seu lado ria dele. Ele caía sobre o chão, ninguém o ajudava. Uma lança perfurou lhe as costas. _Nãããão! Gritava mas ninguém se importava. Então aquele olhar encontrava o seu olhar. “_Mate a todos!” Dizia a criatura e ele já não estava ali. Gritos preencheram a noite. As lanças se partiram. As pedras já não havia quem as lançassem. O chão cobriu-se de sangue e as tochas se apagaram... _Oh Iévine, nãããããooo! O homem gritava e se debatia. A criatura erguia seus troféus, membros humanos. Ele não queria ver... Sobre o solo o homem se debatia parecendo lutar contra algo que só ele via. Ainda não havia chegado à noite, contudo, logo a criatura estaria ali.

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Por Eduardo Motta.

Um tenso nevoeiro cobrira tudo. Era impossível enxergar a poucos metros à frente. No entanto, o homem não se incomodava com nada daquilo. Tudo estava na mais completa paz. A voz da criatura na sua cabeça havia desaparecido. A única coisa que restara era a dor, mas não ali. O homem sabia que em algum lugar seu corpo era consumido por uma dor lacerante, mas não ali entre as brumas. Ali ele apenas caminhava, ou voava. Não sabia ao certo. Contudo, algo acontecera. As imagens eram vivas em sua mente. Em algum lugar uma batalha aconteceu, podia se ainda sentir o cheiro de sangue. Os gritos ainda reverberavam em sua cabeça, embora muito distantes. Sim. Com o auxílio da memória era possível ver os olhos da criatura a espreitar um grupo de caçadores que adentraram a floresta. “_O que procuravam ali?” Pensava. A muito já não havia o que caçar. Todos os animais se foram. Um completo silêncio que apenas a respiração do incauto grupo se insistia em se fazer ouvida. Não havia caça alguma isso era certo. Então qual o motivo daquilo? “Não se vagam impunimente por aquelas florestas”, já deviam saber. O símbolo dourado do dragão se agitava a mais leve lufada de vento, como um sinal funesto. E lá estavam todos eles. Uns dez ao todo. Não eram estranhos ao homem, mormente o mais jovem, que fora em outros tempos, seu amigo. Mas foi há tanto tempo, em uma época que não havia tanto sangue, tanta dor. Era um tempo feliz.

“_Morte a todos!” Bradou a criatura. “_Não.” Implorava o homem, mas sabia a inutilidade daquela súplica. “_Matarei todos os seus antigos amigos e por último, o jovem duque. O que me diz?” “_Não!!!” Gritava o homem proferindo várias implicações, tudo vão. Um horrível grito percorreu a mata. A fera se atirou sobre um dos atentos caçadores. Debalde tentaram socorrê-lo, mas só ficou uma grande mancha escarlate no solo e uma massa ensanguentada que outrora fora um homem. A criatura era muito rápida. Era quase impossível acompanha-lo com o olhar, sobretudo por homens dominados pelo terror. Um a um foram tombando os homens. Cada qual compondo uma parte daquele terrível repasto. Propositalmente, o jovem duque era deixado para o final. Isso tornava o homem cada vez mais angustiado. Nada podia fazer. Então, quando tudo parecia sem solução, um agradável cheiro se fez sentir, algo que lembrava casa, amor e sonhos. O coração do homem se entristeceu grandemente. Agora ele estava acuado em algum canto, semelhante a uma criança indefesa. A criatura pressentiu o perigo. De alguma parte, 5


uma figura envolta em um manto esverdeado sangue. A cabeça oculta e, no entanto um raríssimo perfume lhe indicava sua identidade. “_Ária”. Uma voz falou, já sem forças, o que chamou instintivamente a atenção do monstro. A criatura abandonou o jovem duque e foi de encontro da mulher que se apresentara. A fera urrou insanamente perturbando até o homem de maneira estranha e logo em seguida, precipitou-se sobre Ária. Ela, porém manteve-se firme. Apenas deu uns passos para trás e proferiu algumas palavras incompreensíveis e imediatamente uma fagulha brilhou entre seus dedos e tudo foi engolido por uma grande explosão. Havia chamas em toda parte enquanto o a criatura era arremessada ao longe e o homem caía junto ao solo com todo o seu corpo malferido pelas chamas. Um fogo impetuoso que penetrou até seus ossos. Toda a sensibilidade de seu corpo desapareceu enquanto o mundo ao redor se quedava numa imagem difusa. Tudo sumiu por um espaço de tempo. Contudo, como já era costume, a dor, os gritos e tudo aquilo que aflige o coração, sempre retornam. Num breve momento ele viu o jovem duque tombado ao solo com uma enorme ferida no peito sendo amparado por uma mulher. Ária, não a de tempos atrás, e sim uma já a muito castigada pelos anos. Alguém cujo impetuoso beijo da morte já lhe roubara o aspecto da vida. O homem não teve tempo para refletir muito sobre o fato, pois uma lâmina impiedosa penetrou-lhe nas costas, causando uma dor pungente. Um brilho funesto apareceu diante de seus olhos. Como um raio aquela arma cruel se projetava contra sua cabeça. Contudo, alguma coisa aconteceu. Disso o homem não guardava memoria, mas, de qualquer forma ele vagava em meio às brumas ou talvez voasse. Não sabia ao certo. A criatura havia desaparecido, mas podia sentir que em algum lugar junto ao solo, seu corpo sofria o castigo de uma dor cruel. Mas já não se importava com nada disso, uma vez que, entre as brumas nada fazia diferença mesmo.

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Por Eduardo Motta.

“_Trimi”. Ecoava uma voz por entre as velhas ruínas, junto às antigas colunas deixadas pelos primeiros homens que habitavam a região da velha torre, símbolo de poder e glória encimada pela pedra do Dragão. _Trimi, onde está você? Insistia a mesma voz aflita, cheia de cuidados. Uma voz de mãe. Lá embaixo, junto ao velho regato estava uma criança; lutava contra soldados de pedra que ela mesma criara. Um pequeno porrete, sua espada. Contudo, a voz insistia muito aflita. O menino absorto em sua fantasia não ouvia nada. Então, tudo se esvaiu como num sonho. Aqueles dias foram ficando cada vez mais distantes.

“_Onde está Trimi?” Perguntou uma voz áspera há muito temperada nas agruras da vida. Uma voz de quem aos poucos foi perdendo o afeto, os sonhos. Uma voz ao qual o dever é seu único regente. O mais impiedoso dos monarcas. O jovem está distante. Lá embaixo ouvem-se os cavalos, o barulho da multidão. Vê-se o garbo dos cavaleiros. O duque está lá. Não veio só. Sua mais nova esposa veio também. Nada como o tempo para aplacar velhos amores.

“_TRIMI.” Chama a voz. Uma voz que espalha a desgraça. Que fala aos ouvidos dos degredados, dos desesperados, de quem sofre grande vexação. E o homem, após caminhar toda a noite, em meio à colina, solitário sob a luz dos astros, encontra uma velha máscara, sua única companheira naquele isolamento. O homem em seu infortúnio zomba de si mesmo, pois sabe que, seus desejos já não conta. Não tem direito algum. Deve se calar indefinidamente. Por toda uma vida talvez. Agora ele é apenas um cão. Errante pela noite. Seus trôpegos pés o levam até o velho regato. Ele mira-se nas águas, e sem saber por qual nefando designo, o homem coloca a velha máscara.

“_Trimi, Trimi...!” Chama a voz, doce e alegre. Uma voz que afaga e aconchega. _Trimi, onde você está? Mas o menino brinca entre as ruinas. Sua luta encarniçada contra um pétreo exército está apenas começando. _ “Trimi...!” Continua a voz. Mas o menino não responde. É noite. Os astros noturnos já se mostram no firmamento. Radiantes. O homem vem vindo pelo caminho. Sobre o dorso, a caça. Uma espada curta pende em sua cintura. Ele está cansado, porem, feliz. A felicidade do dever cumprido. Ele sabe que em casa o esperam. Ter um lar onde se possa abrigar do frio. Perto da aldeia ele para. Lembra-se de um sonho. Um sonho que evocava outra vida, mas ele balança a cabeça e toma a direção de sua casa. Então ele tem uma casa... Mas como? Quando? Não se sabe ao certo. Um dia ele acordou. Vagara demasiado tempo num pesadelo. Isso sim sabia. Seu corpo ardia, mas as feridas se foram assim como qualquer outra lembrança de uma vida anterior. Dizem os aldeões que num dia, quando os homens atrás de alimentos vasculharam bem mais ao norte a floresta, depararam com vestígios de alguma batalha acontecida. E um pouco mais afastado 7


da cena, estava um homem malferido. Achavam que morreria logo, mas assim não foi e os homens decidiram trazê-lo para a aldeia embora não nutrisse a esperança de poder salvá-lo tamanha era à gravidade de seus ferimentos. Os dias transcorreram. O homem não morrera. Apegara-se a vida, a despeito de suas muitas chagas. A febre veio e se foi. Também as convulsões e os delírios. E todos os males de um corpo extenuado. Só que como por milagre todos partiram, carregando consigo até o último vestígio da memoria. O homem se recuperou, mas parte da sua memoria estava perdida, talvez para sempre. “_Qual é o seu nome?” Indagavam. Ele não o sabia. Por mãos que tentasse, era inútil. Tinha isto ao certo. Afinal não há coisa que caminhe, voe, nade, rasteje e tantas outras coisas que se possa numerar que não possua um. Por fim, deu lhe um nome cujo significado era “viajante”, pois era essa sua condição temporal e atemporal. Como não tivesse onde se alojar fora acolhido por um casal de idosos da aldeia onde era tratado como um filho pelo gentil casal. Filho este que morrera de febre anos atrás. Em retribuição, ele fazia todas as tarefas que se exigia grande esforço. Além da caça, na qual se destacava grandemente. E assim, os dias foram se passando. E pela primeira vez em muito tempo o homem se sentia parte de algo Contudo, uma sombra ainda comprimia seu coração. Em algum lugar algo o espreitava. Não sabia onde, mas o sentia. Percorria a mata a noite na certeza de encontrar, porem, não havia nada. Somente o silencio atroz. Esse sim estava presente.

Por Eduardo Motta.

Um dia, um grupo singular chegou à pequena aldeia. Uma velha e outra jovem em trajes que se diria, pronta para a batalha. Seguidas por um jovem que ostentava os símbolos da nobreza em seus trajes, acompanhado por dois guerreiros, homens forjados no calor da batalha. _O que estariam fazendo ali? Ninguém o sabia. Uma coisa era certo, algo estava por acontecer. Os viajantes pareciam cansados. Se os olhassem de perto, ver-se-iam as marcas que em outros tempos foram feridas. _Tudo poderia ter acabado ali. Dizia Lorena para si mesma enquanto procurava com o olhar por Ária que estava a alguns passos atrás. “_Não. Não conseguiria.” Ária mentalmente refletia. Parecia vagar num plano além. Seu coração parecia não lhe dar sossego. Era como se a mente de todos estivesse conectada em um mesmo ponto. Então o jovem filho do duque falou: _Era nosso dever ter feito com que isso parasse. Havia muita amargura em sua voz. Isso fez com que as palavras soassem como uma grave acusação. _Falhamos miseravelmente! Continuou,

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contudo, ao encontrar o olhar de Ária sua voz embargou. Todos sabiam seu dever, ou pelo menos o desfecho da deliberação que tomaram. Haveria sofrimento. Isto era mais que certo. Aquele dia correu lento, mas quando veio à noite, um vento impiedoso desceu e fustigou os campos com seu frio hálito. Os astros noturnos Erius e Fabus projetaram uma luz espectral envolvendo toda paisagem enquanto o silencio engolia tudo. Todavia, naquela noite um velho incauto, pega um caminho diferente indo para a floresta ao invés de ir pra casa. Estava bêbado. Balbuciava, e hora caia para em seguida reerguer-se sofregamente. Por fim recostou-se a uma pedra e ali ficou a profanar o silencio noturno que, naquela noite poderia se dizer, tinha algo quase sagrado. O tempo correu lentamente enquanto o ébrio homem cantava sua canção. Uma canção que evocava lembranças de amores fatídicos, corações lacerados e guerras acontecidas há tanto tempo que não se podia precisar ao certo. Contudo, o que o incauto homem não sabia era que a noite não era sua única plateia. Havia algo mais. Uma sombra deslizava entre a noite. Quase tão silenciosa quanto o próprio silencio. E muito mais terrível. Uma gargalhada percorreu a noite. Era terrivelmente familiar. O homem despertou de seu sono. Sonhara com a floresta aquela noite, e também com um velho bêbado. O mesmo velho que ao entardecer seguira em direção à mata com uma garrafa de hidro mel markdeno a despeito das advertências dos aldeões. O homem estava em seu leito coberto de suor. “Aquilo não poderia ser apenas um sonho”, pensava. A imagem era nítida por demais. Sem refletir, levantou-se e foi na direção que seu sonho indicava.

Noutra parte não muito retirada da aldeia, Ária estava aflita. Sabia que o momento havia chegado, mas Lorena e Dárien tinham ido até o outro lado da floresta e demoravam muito a chegar. Um terror crescia na noite e ela bem o sabia. Já o sentira há dias. Mas hoje era diferente. Estava ali e já cansada da longa espera, decidiu ir encontrar aquela terrível sombra. Envolveu se em seu manto, pegou seu cajado e começou a subir a colina acima da maneira que seu maltratado corpo permitia. Tamanha foi a sua surpresa ao vislumbrar, mesmo através da noite, um corpo, ou o que sobrara dele, um pouco a frente e junto a ele, aquele que um dia fora seu amante. “_Tenho de ser rápida.” Falava para si mesma. Se falhasse, poderia ser o vim. Pensava Ária. O homem não a percebera. Isso era uma grande vantagem. Ária concentrou-se em um ponto qualquer em algum lugar na noite. Em algo que só ela via enquanto invocava o “poder”. As palavras eram difíceis, mas já estava acostumada a pronunciá-las. Quando criança sua mãe a ensinara e ela não se confundiria agora. As palavras saíram num ritmo hipnótico e logo uma centelha brilhou em frente à Ária. Num breve instante um clarão se fez visível na paisagem e foi tudo que o homem pode ver antes de ser engolido pelas chamas terríveis. Ária olhou em volta, as chamas provocaram uma grande destruição lançando em meio às pedras o corpo do homem que ela amara em toda sua vida. O fogo o maltratara nitidamente. Já não poderia viver. Uma dor aguda se apoderou da mulher embora soubesse que era o certo a fazer. Tentou recompor-se, mas suas pernas não a obedeciam. Conjurara muito poder e pagava o preço

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por tal ato. Ela queria correr e abraçar ao menos uma vez aquele corpo e implorar lhe perdão por tudo, mas como? Era forçoso mesmo manter-se de pé. As chamas produziram um forte clarão no céu e isto chamou a atenção de Lorena e Dárien que ao perceberem tomaram aquela direção. Infelizmente eles não foram os únicos a notarem o acontecido, pois em algum lugar uma sombra foi atraída para aquele ponto e colocou-se a caminho, terrível. As forças de Ária começavam a voltar enquanto num vislumbre ela pode perceber algo que surgia da escuridão em meio aos arbustos. A criatura se fez visível. Ária ficou aflita. Não era possível conjurar o poder. Tentaria retardar a criatura, esperando que alguém mais houvesse visto o brilho da explosão.

Por Eduardo Motta.

As brumas cobriam tudo. O homem caminhava, ou talvez voasse. Não sabia ao certo. Em algum lugar seu corpo sofria. Mas não ali. Tudo a sua volta transparecia paz solenemente duradoura. Contudo, a paisagem foi se dissipando ante seus olhos e logo já não havia paz. Estava deitado sobre o solo. Percebia agora as feridas. Porém toda a sensação de dor se fora. As chamas penetraram muito fundo em sua carne. Fundo demais para que pudesse sentir algo. Seu braço direito já não o obedecia. Com muito custo, pois se de pé a tempo de perceber uma desesperada Ária que tentava se proteger dentro de um circulo de chamas que detinha a fera por um tempo. Tomado de uma força sobre humana ele começou a dirigir se para a fera. A princípio lentamente, mas, aos poucos ganhando velocidade e num instante tudo havia desaparecido. Quando pode voltar a si, a primeira coisa que percebeu foram os olhos de Ária e logo em seguida um brilho funesto que envolvia tudo. O homem fechou os olhos e esperou o golpe, mas as chamas não o feriram novamente. Tudo o que sentiu foi um forte impacto às suas costas que o lançou ao solo novamente. Ao se levantar, Ária estava a sua frente novamente. Não a velha Ária, mas uma de outros tempos. Bela e radiante a sorrir-lhe. Tudo durou apenas alguns segundos, pois a imagem foi se tornando pálida e por fim dissolveu-se ao vento. Ele tentou agarrá-la, mantê-la de alguma forma. Era inútil. Nada restava. E a voz chamou-o mais uma vez. A voz que a desgraça espalha. Ao virar-se percebeu aquele olhar hostil que o espreitava. O mesmo que por muito tempo fora seu único companheiro. A criatura estava morta pelo poder que Ária invocara, mas não aquele rosto que zombava de sua dor, aquela máscara.

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Fraco pelo pesar, o homem foi aos poucos se entregando aquele mesmo desígnio que fora dantes sua queda. Mais uma vez tinha a velha máscara em suas mãos e ao coloca-la tudo sumiu numa terrível escuridão. Já não restava pensamento algum até que uma dor pungente o trouxe de volta. Uma grande espada perfurara suas costas e agora se projetava de seu peito. Tentou tatear o lugar e então percebeu que aquela mão não era a sua, mas sim a mão da fera. Tentou gritar, mas o som que saiu foi um urro assustador e pela primeira vez compreendeu que ele próprio era a fera. A criatura. Pela primeira vez compreendeu que ele mesmo era a fera. Quando levantou o olhar lá estava Lorena Tão idêntica a Ária. Dos olhos da moça corriam lagrimas e uma palavra se formou nos lábios dela, mas logo foi engolida pelo silencio.

“_ Trimi.” Chamou a voz. O menino brincava em meio à ruinas deixadas pelos primeiros habitantes daquela região.

“_Trimi, Trimi”... insistia. E o garoto jaz em seu mundo não ouvia nada. _Trimi, aí esta você. Uma mão tocou-lhe no ombro e quando se virou viu sua mãe. Não estava sozinha. O duque estava com ela. O mesmo que outrora o havia chamado de filho.

Epílogo...

Noutro lugar... _Quem é? Perguntou uma voz áspera junto à porta. _Flecha-Rubra, respondeu o homem revelando o rosto ocultado pelo manto. Era de cor morena, com longos cabelos negros e trazia um arco nas costas. _Aproxime-se Flecha-Rubra. Falou alguém tão logo adentrara a um grande salão. _Cumpriste o que lhe foi ordenado? Perguntou. Flecha-Rubra ouviu a voz. Era estranha. Não viu o rosto de seu entrevistador, pois todos que estavam presentes usavam uma mascara assim como trajavam longos mantos que cobriam todos seus corpos. Havia ao todo quatorze pessoas no grande salão. _Sim. Respondeu por fim. _A fera está morta como me fora ordenado, senhor.

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_Alguma testemunha? _Não. Respondeu Flecha-Rubra. A mulher guerreira e Dárien estão mortos. Enquanto falava pode ver mentalmente a imagem. _Melhor assim! Exclamou alguém no outro canto do salão. _Pode se retirar-se. _Sim senhor! Flecha-Rubra deixou o recinto e tomou um caminho diferente do qual havia chegado. Um pouco distante enfiou a mão em seu manto e puxou a velha máscara. Não conseguira destruí-la, mas a guardaria longe o suficiente para que ninguém mais a pudesse usar...

Eduardo Motta

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A máscara invicta