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Fabiane Sakai Ito

Espaços de convivência: interação social no ambiente urbano | Midiateca em Jundiaí SP

Trabalho Final de Graduação Orientador Prof. Dr. Lucas Fehr Universidade Presbiteriana Mackenzie Faculdade de Arquitetura e Urbanismo São Paulo 2013


agradecimentos Este trabalho representa a realização de um sonho. Gostaria de agradecer àqueles que me acompanharam até aqui e que trouxeram alguma contribuição, direta ou indiretamente, durante meu percurso: Antes de tudo , à minha família pela base oferecida e por sempre me apoiar em busca de uma boa educação. À Liane Makowski Almeida por me oferecer a primeira experiência na área, compartilhando seu conhecimento e me motivando a seguir em frente. Nestes últimos cinco anos fui muito bem acolhida no Prédio 9 da Universidade Mackenzie. Pude crescer, tanto em relação à minha bagagem intelectual em Arquitetura e Urbanismo, quanto no meu amadurecimento enquanto pessoa. Neste lugar também pude conhecer pessoas essenciais à minha formação. Ao meu professor orientador, Lucas Fehr, agradeço pelo incentivo ao longo de todo o desenvolvimento deste trabalho, e pelas sábias reflexões em torno da arquitetura e da vida. Ao meu orientador de Projeto, professor Antonio Claudio Pinto Fonseca, pela paciência. Aos mestres que fizeram diferença na minha formação: Adhemar Pala, Antonio Carlos Sant’anna, Carlos Coelho, Carlos Leite, Eduardo Nardelli, João Sette, Juan Villà, Luiz Telles, Mario Figueroa e Renato Carrieri. Dentre os muitos amigos, meu agradecimento especial àqueles que estiveram ao meu lado em todos os momentos e tornaram mais doces as incontáveis noites em claro, dedicadas aos trabalhos da faculdade: Aline Rodrigues, Deborah Ferreira, Gilmar Lopes, Ian Scabia, Jessica Crivellari, Karina Camargo, Paula Aimi e Renata Lopes. Também agradeço aos arquitetos Nivaldo Callegari, Marcos Paulo Caldeira e Mila Strauss, pelo aprendizado adquirido na vida profissional como estagiária, e que pôde ser refletido na minha vida acadêmica. Muito obrigada.


resumo O presente trabalho tem por objetivo investigar os espaços de convivência e refletir sobre sua importância na cidade como instrumento de interação social, visando a melhoria da qualidade de vida urbana e de seus moradores. São colocadas em debate possibilidades de interpretação do projeto arquitetônico frente às transformações da cidade, analisando as implicações éticas, sociais e políticas por trás das formas, e questões relacionadas à inserção e adaptação do objeto ao seu contexto. Devido ao desenvolvimento urbano desenfreado, com valorização dos interesses privados de classes dominantes, as cidades vêm apresentando um quadro de desigualdade, segregação e discriminação social. Transformações nos hábitos das diferentes esferas do cotidiano – trabalho, moradia, consumo, circulação - geram comprometimento da vida social e segurança pública nas cidades, resultando lugares delimitados por muros, automóveis que geram caos urbano, falta de sociabilidade e insegurança. A introdução, ampliação e qualificação de espaços públicos e semipúblicos pela cidade contribui para um sistema de melhorias públicas, como nas áreas de infraestrutura e transporte, e devolve o verdadeiro caráter da cidade como lugar de encontro. Como pretexto de discussão do tema e possibilidade de resposta às questões colocadas, aplica-se através do estudo de uma área de intervenção, na cidade de Jundiaí/SP, uma proposta de projeto de arquitetura para uma Midiateca. Como organização, o trabalho foi basicamente dividido em duas etapas: Espaços de convivência e Projeto. Os espaços de convivência são estudados partindo da importância da relação homem x cidade, de que forma se deu este relacionamento ao longo da história, a apresentação do contexto atual e respostas da arquitetura contemporânea. O Projeto é decomposto em subcapítulos que tratam respectivamente do estudo do local de intervenção – apresentação de Jundiaí, sua contextualização como cidade de médio porte do Estado de São Paulo, o recorte da área de intervenção -, o uso proposto – conceito de midiateca e estudos de caso-, o desenvolvimento do exercício – intenções e estratégias adotadas-, e o resultado final – material gráfico. Palavras-chave: espaço de convivência | espaço público | espaço coletivo | cidade | arquitetura contemporânea | midiateca | Jundiaí


sumário 05

| introdução

07 | espaços de convivência

o espaço de convivência na história | a cidade hoje | a resposta da arquitetura contemporânea |acupuntura urbana |resgate da praça critérios de qualidade espacial

23 | projeto área de estudo: jundiaí: entendendo as origens |contextualização: cidades paulistas de médio porte |a cidade segregadora |criando hipóteses | área de intervenção midiateca: conceito |estudos de caso desenvolvimento proposta final

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| considerações finais

101 | referências bibliográficas 107 | anexos


introdução A cidade pode ser definida a partir da relação do público com o privado. O valor da qualidade da cidade, segundo Manoel Rodrigues Alves (2003), se dá em função de sua vida pública, portanto, do seu espaço público. Por esta razão, o aspecto social não pode ser ignorado na produção da arquitetura. Mais do que isso, Christian Norberg-Schulz (1975) acredita que o espaço arquitetônico tem que encarar o espaço como dimensão de existência urbana. Desse modo, a orientação com os diferentes objetos deve estabelecer um equilíbrio dinâmico entre o homem e o ambiente que o rodeia. Tal equilíbrio pode ser analisado através de cinco conceitos de espaço e a relação que estabelecem com o indivíduo: - espaço pragmático de ação física: promove a integração do indivíduo com o ambiente orgânico; - espaço perceptivo de orientação imediata: cria identidade do indivíduo como pessoa; - espaço existencial que forma a imagem estável do ambiente ao redor: dá ao indivíduo a sensação de pertencimento a uma totalidade social e cultural; uma parte necessária da orientação geral do homem ou “de seu estar no mundo” - espaço cognitivo do mundo físico: estimula o indivíduo a pensar acerca do espaço; - espaço abstrato de puras relações lógicas: oferece ao indivíduo instrumento para descrever os outros. Julio Pozueta diz que a hierarquia no desenho urbano parte da vida social, depois do espaço público e depois o edifício, uma ordem sequencial que nunca funciona quando se inverte. Desta forma, os edifícios devem deixar de ser considerados como um fim em si mesmo para, através do desenho de sua forma e disposição no espaço, converte-se em um instrumento para potencializar a vida social na cidade através do atrativo do espaço público, lugar onde se desenvolvem numerosas atividades sociais e a partir dele que se percebe a cidade. (GEHL, 2009) Para o campo da Geografia, a cidade é formada por espaços. Milton Santos (2002) os define como a reunião da configuração territorial junto às relações sociais, ou seja, a materialidade e a vida que a

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anima. Muitos outros autores seguem o mesmo pensamento. Jaime Lerner (2002) descreve a cidade como o cenário do encontro. “Gregária por definição, a cidade é o centro a partir do qual se criaram os códigos de convivência. Quanto mais você integrar as funções urbanas, quanto mais misturar renda, idade, mais humana a cidade ficará.” (LERNER, 2003, p. 57). No ambiente urbano, o homem tem a possibilidade de participar de duas experiências. Conforme Mongin (2009), na experiência pública, o indivíduo ao ir para fora de sua casa, se abre ao espaço público e à experiência da pluralidade humana; na experiência política, chega a algumas interrogações fundamentais de “quem pertence à cidade?”, “quem participa da cidade?”, “quem pode ser acolhido na cidade?”.

Imagem. Recorte de “Onde está o Wally?” - Autor: Martin Handford

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espaços de convivência O espaço de convivência na história A questão do espaço coletivo nos remete à Antiguidade Clássica, como descreve Benevolo (1983), período em que a urbanística grega definiu plenamente a ideia de que as cidades possuem uma esfera pública, pertencente e usada pela coletividade, e uma privada, cuja posse e manutenção respondem aos interesses de um ou mais indivíduos específicos. A cidade grega como organismo físico é a imagem do corpo social; a divisão do seu espaço caracteriza o novo caráter da convivência civil, sendo elas: zonas privadas, ocupadas pelas casas de moradia; áreas sagradas, recintos com templos dos deuses; e áreas públicas, destinadas às reuniões políticas, comércio, teatro, jogos desportivos etc. Ao longo da história, a definição clara do limite entre os espaços públicos e privados foi se perdendo. Cidades europeias medievais construíram-se através da definição desordenada de ruas irregulares, estreitas e insalubres. Enquanto as ruas secundárias serviam como simples passagens, as principais prestavam vários usos como tráfego, parada,comércio e reuniões. Os espaços públicos e privados não formam mais zonas contíguas separadas, como na cidade antiga, mas passa a existir um espaço público comum, complexo e unitário, que se espalha por toda a cidade e no qual se apresentam todos os edifícios públicos e privados, com seus eventuais espaços interno, pátios ou jardins. (BENEVOLO, 1983) Essas cidades medievais surgidas mais ou menos entre 500 e 1500 se levantaram onde havia necessidades delas, configuradas por seus habitantes em um processo direto de construção urbana. A cidade não era um objetivo em si mesmo, sim uma ferramenta modelada pelo uso. As ruas e praças estão dispostas pensando na gente que vagueia ou permanece no exterior. (GEHL, 2009) A primeira mudança radical se deu durante o Renascimento e está relacionado diretamente com a transição das cidades de crescimento espontâneo às planificadas. Um grupo especial de urbanistas profissionais assumiu a tarefa de construir cidades e desenvolver teorias e ideias sobre como deviam ser.

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As áreas entre os edifícios e as funções que aquelas abrigavam deixaram de ser os principais focos de interesse, e passaram a ter prioridade os efeitos espaciais, os edifícios e os artistas que lhes haviam dado forma. (GEHL, 2009) A escala dessas cidades, a dimensão das ruas, a distribuição dos usos ao longo das ruas e praças, a escala e o detalhamento dos edifícios estão em harmonia com os sentidos humanos e as oportunidades de movimento, e favorecem as idas e vindas dos pedestres sem interrupções. (GEHL, 2002) Com o advento do modelo urbanístico sanitarista da cidade pós-liberal, que teve inicio em Paris, em 1851, e reconhecido por todas as cidades do mundo do século XIX em diante, os ambientes privados e públicos que até então eram sempre ligados e misturados, tornam-se contrapostos entre si. De um lado, casas, laboratórios, estúdios e escritórios isolados; espetáculos e cerimônias coletivas também adquirem caráter e distinção em pequenos ambientes fechados. Do outro lado, a calçada e “via pública”, onde uma multidão de pessoas que saem dos ambientes internos se encontram e se ignoram entre si. (BENEVOLO, 1983) Em torno de 1930 produziu-se o segundo desenvolvimento nas bases do urbanismo com o nome de funcionalismo. Os aspectos físico-funcionais das cidades e dos edifícios se desenvolveram como uma dimensão de projeto, independente e complementária da estética. As exigências de edifícios isolados orientados ao sol e não, como haviam estado antes, à rua, assim como a exigência de separação entre as zonas residenciais e de trabalho, se formularam durante este período a fim de assegurar umas saudáveis condições de vida para os indivíduos e distribuir os benefícios físicos mais equitativamente. Os funcionalistas não mencionavam os aspectos psicológicos e sociais do desenho dos edifícios ou dos espaços públicos. Não se tinha em conta que o desenho do edifício podia influenciar nas atividades. Era uma ideologia de desenho orientada claramente aos aspectos físicos e materiais. Pensava-se que as extensas superfícies gramadas entre os edifícios seriam o cenário óbvio de muitas atividades recreativas e uma rica vida social. Não se questionava nem se investigava até que ponto eram corretas essas visões da função dos espaços verdes como elemento unificador dos projetos de edificação. Enquanto a cidade medieval, com seu desenho e dimensões, congregava pessoas e acontecimentos nas ruas e praças, e

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incentivava a circulação pedestrional e as permanências nas áreas externas, as zonas suburbanas e os projetos de edificação funcionalistas faziam exatamente o contrário. (GEHL, 2009) Frúgoli Jr. (1995) contextualiza as transformações dos espaços centrais e da interação social ao longo do tempo. A partir da segunda metade do século XIX, na Europa, com a industrialização e urbanização, houve uma transformação na composição da população, com a vinda de camponeses à cidade, convertidos em grandes massas de operários. Colocou-se a população em movimento, através de intervenções urbanas de aberturas de novas avenidas, ao mesmo tempo em que foram geradas, com motivações políticas, outras formas de segregação social. Também nessa época, as ruas e os espaços centrais sofreram transformações consideráveis, e as praças negaram estrategicamente seu papel como espaços de uso múltiplo e popular, enfraquecendo-se como ponto central da vida urbana; as cidades deixaram de ter um centro referencial, iniciando a dispersão e fragmentação de sua centralidade. Ao mesmo tempo em que a era industrial diminuiu consideravelmente a importância de antigos centros de referência, como as praças, impondo o princípio dos fluxos de circulação, ela passou a articular novas possibilidades, expressas em espaços que se reformulam com essas alterações e propiciam novas aventuras urbanas vitalizadas. Na experiência urbana vivida nos cafés, bares, livrarias, cinemas, entre outros espaços de convivência, gera-se uma “cultura pública”, processo de socialização vivido pelos antigos grupos de intelectuais boêmios, fundamental como forjadora de novos padrões culturais públicos de relações. Infelizmente, essa cultura pública se tornou escassa, em função de transformações havidas no campo acadêmico e na própria lógica de mercado presente em boa parcela da produção dos trabalhos, que também se relacionaria com a reestruturação urbana que criou a vida segregada dos grandes subúrbios, onde os intelectuais passaram a morar.

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A cidade hoje As críticas, reações e visões relativas à melhora das condições de vida constituem a base para um novo estudo da vida na cidade. Atualmente, as novas áreas urbanas são caracterizadas por grandes distâncias entre as pessoas, acontecimentos e funções. Os sistemas de transporte, baseados no automóvel, contribuíram ainda mais na redução das atividades externas. (GEHL, 2009) Nas cidades onde o tráfego de veículos obteve preponderância, os espaços públicos transformaram-se dramaticamente. O tráfego de pedestres mais essencial desenvolve-se entre carros estacionados e em movimento, sobrando muito pouco espaço para outras atividades.“Inúmeros espaços urbanos de encontro seguem sendo erodidos e violados pela intrusão sempre crescente e dominação inadequada do carro. As áreas públicas tornaram-se mais perigosas e poluídas que animadas e estimulantes. Os bairros são fragmentados. Os cidadãos fogem dos centros urbanos em números alarmantes. Dessa forma, a essência da cidade – sua vitalidade humana – está sendo expelida, resultando em cidades fantasmas que oferecem apenas desamparo material e exclusão social. [...] O tráfego pesado de carros não coexiste pacificamente com os usos da cidade como lugar de encontro e de comércio. Esses usos estiveram em equilíbrio por séculos e estão agora em conflito aberto“ (GEHL, 2002, p.13)

Praga, República Tcheca

Os fenômenos recentes vêm resultando deterioração da qualidade de vida. Silva e Versiani (2009) criticam a falta de espaços coletivos,

Imagem. Domínio do automóvel (Fonte: GEHL, 2009)

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chamados pelas autoras de espaços de lazer, ao expor que o direito ao lazer existente na constituição não é garantia de direito social. Essa falta de espaços públicos gera uma transformação do espaço doméstico como prática de lazer. Com a redução da jornada de trabalho, segundo Adyr Rodrigues (2002), houve o aumento de tempo disponível na vida dos cidadãos e consequentemente um vazio, uma necessidade de evasão. Por falta de espaços públicos, as soluções encontradas para o preenchimento do tempo livre se dá através de viagens físicas ou psíquicas, como entretenimento, drogas, televisão e internet. Este crescimento de atividades de lazer no interior dos lares reflete uma vida privada marcada por medo e enclausuramento e o desaparecimento da rua como lócus de sociabilidade, desaparecimento do mundo vivido. Conforme Richard Rogers, “nos espaços públicos deteriorados, a maioria das atividades sociais e recreativas desaparecem completamente, deixando apenas vestígios das atividades de pedestres mais necessárias e utilitárias. As pessoas caminham neles porque necessitam, não porque o desejam”. (GEHL,2002, p.6) Como consequência da postura de ignorar a importância social dos espaços coletivos, conforme Alves (2003), ocorre um enfraquecimento da identidade urbana; a tensão social da individualidade com a comunidade é substituída pela ação homogeneizadora de organizações empresariais, com seus próprios códigos de ética e comportamento funcional, o urbano é definido através de lógica de consumo de bens e serviços e da privatização do espaço público. A cidade que é um fenômeno cultural da identidade e da diferença, democracia e cidadania torna-se um objeto de consumo. Inicia-se uma série de produções de espaços excludentes, com a privatização do espaço público e espaços que produzem segregação pela auto segregação, cria-se guetos. A construção desses empreendimentos buscam estabelecer novos pontos focais de convivência urbana mas o fazem de uma forma totalmente redutora, uma vez que pensados como processadores de cadeiras de produção do capital imobiliário e mercantil. Ignasi de Solà-Morales (2002) define as cidades que passam por essa transformação como cidadescapital. O autor refere-se às cidades que, com a industrialização, podem entender-se no duplo sentido da palavra capital. Capital, do latim caput-itis, lugar onde se acumula a capacidade organizativa e onde se

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representa a nação; e da palavra latina capitalis-ae, que representa o fenômeno de concentração de bens e recursos que constitui um imenso capital. As cidades-capital são cenário dos interesses privados, dos capitais que buscam na concentração urbana novas possibilidades de rentabilidade. A cidadecapital é ilimitada e debilmente planejada, porque seu principal objetivo consiste em dar jogo às forças produtivas e financeiras que tem nela suas energias e seu mercado. Os empreendimentos imobiliários levam ao empobrecimento do ambiente urbano, por meio de crescente estratificação e desertificação da cidade, acabando com as atividades espontâneas que sempre integraram a experiência urbana. Alves (2003) associa essas intervenções a processos urbanos de gentrificação que originam expulsão e exclusão social. Ocorre a materialização de cidade polarizada que perde identidade e significado, tornando-a cada vez mais difícil de ser percebida como objeto público, uma vez que essa percepção requer a inclusão de todos. A perda do sentido de pertencimento do espaço urbano leva ao surgimento do descolamento, o primeiro estágio do não-lugar, e representa o fracasso da existência pública do cidadão. (ALVES, 2003) Mongin (2009) traz à tona a decomposição das cidades, através do pensamento de Vidiadhar Naipaul. O escritor descreve que, ao morrer, as cidades não sucumbem com grande espalhafato, e nem morrem somente com o abandono de sua população, mas sim quando todos sofrem com a carência de ar puro, transportes, atrativos, e espaços urbanos dignos. Infelizmente, grande parte das cidades, se já não chegaram a esta condição, caminham para este destino. Passamos por uma revolução tecnológica que vem desde os anos 60, representada por sucessivas revoluções da informática, das telecomunicações, gerações de microprocessadores e internet. Os novos meios de comunicação instantânea tendem a se desenvolver no campo do virtual e gera implicâncias sociais, como discorre Olivier Mongin (2009). A existência do virtual muda a forma tomada por nossa relação com o mundo, ela pode desvalorizar o real, uma vez que permite liberar ao infinito o campo dos possíveis, mas não por isso o anula.

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Conforme Alves (2003), os meios técnicos de comunicação libertam o indivíduo do contato humano direto. Tendências da informacionalização das sociedades geram novos processos de urbanização que conduzem a uma nova estrutura urbana de segregação social, profunda reorganização funcional, cultural e espacial, complementada por espaços coletivos privados e privatizados, dissociados do tecido urbano. Segundo Milton Santos (2002), esse mundo fluido caracterizado pela vertigem da velocidade, frequência de deslocamentos, banalidade do movimento e alusão a lugares e coisas distintas, revelam no ser humano um contraste, de se ver sensível diante de um universo difícil de apreender. Nesse aspecto, a construção de lugares vem como um intermédio entre o indivíduo e o mundo.

A resposta da arquitetura contemporânea “Ao ser desafiado o modernismo, ao redor de 1970, passou-se a discutir questões da cidade como lugar de encontro e do espaço público como lugar que possibilita esses encontros. [...]Em uma sociedade na qual cada vez mais a vida diária acontece na esfera privada – em casas privadas, com computadores e carros privados, em espaços de trabalho privados e em centros comerciais estritamente controlados e privatizados – existem sinais claros que a cidade e os espaços urbanos receberam um novo e influente papel como espaço e fórum públicos. Em contraste às várias comunicações indiretas e aos diversos espaços privados, a oportunidade das pessoas em usar seus sentidos e interagir diretamente com seu entorno vem tornando-se extremamente atrativa. A sociedade da informação está fornecendo novos sentidos e significados à cidade como lugar de encontro.” (GEHL, 2002, p. 20, tradução nossa)

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Como intervir na cidade atual? A arquitetura contemporânea se caracteriza pela criação de estratégias que enfrentem os problemas mencionados, representando “o resultado físico-espacial do encontro equilibrado e harmônico entre dois mundos: o racional e o sensível.”(ZANETTINI, apud FRACALOSSI, 2013). As soluções são estruturadas considerando alguns aspectos, conforme Zanettinni, como: respeito ao sítio onde se implantam e os programas específicos (fatores que determinam a estética da concepção arquitetônica do objeto), uso de novas tecnologias para produção qualitativamente mais controlada por processos industrializados, contínuo aprimoramento das linguagens arquitetônicas no uso das tecnologias dos materiais (considerando as condições de trabalho estrutural e às circunstâncias de como se dá a produção de cada sistema em cada região, objetivando o melhor custo-benefício) e a liberdade e expressão da individualidade do arquiteto como criador. Ignasi de Solà-Morales (2002), cita a experiência de projeto urbano que alguns arquitetos tem feito desde os anos sessenta, no qual seus edifícios formam parte de uma problemática mais ampla que é de fazer de cada intervenção uma ocasião para produzir uma parte da cidade. A arquitetura parte de dados que estão na cidade – restos, memórias, fragmentos e diretrizes – tomando-os seletivamente como vínculos do próprio projeto ao mesmo tempo que este se propõe como resposta e resolução a um estado de coisas que previamente se entende como inacabado, a resolver.Uma obra que começa a raciocinar de forma urbana é a que implanta uma arquitetura que se enfrenta com a cidade, negocia com ela, a interpreta, representa e manipula; cria conexão urbana entre o objeto e o lugar. Jan Gehl propõe intervenções na cidade baseadas na ideia fundamental de que a vida cotidiana, as situações correntes e os espaços em que se implanta a vida diária é onde se devem concentrar a atenção e o esforço. Poder mover-se facilmente e com confiança, poder permanecer nas cidades e nas zonas residenciais, poder desfrutar dos espaços, dos edifícios e da vida nas ruas, e poder encontrar-se e reunir-se com outras pessoas – de maneira informal ou mais organizada: tudo isso é fundamental para os projetos de boas cidades e edifícios atuais, como se era no passado. (GEHL, 2009)

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Acupuntura urbana “Acupuntura urbana vem do princípio de recuperar a energia de um ponto doente ou cansado por meio de um simples toque que tem a ver com a revitalização deste ponto e da área ao seu redor. [...] Assim como a medicina necessita da interação entre médico e paciente, em urbanismo também é preciso fazer a cidade reagir.” (LERNER, 2002, p.7) Uma intervenção não precisa carregar consigo a ambição de solucionar todos os problemas da cidade. No entanto, pequenos gestos em sua simplicidade são capazes não só de transformar seu entorno, como de oferecer uma nova visão e/ou possibilidade de apropriação do território, trazer qualidade de vida ao local e se tornar referência para novas propostas. Segundo Silva e Versiani (2009), assim como a comida alimenta o corpo, o lazer alimenta o espírito. Resgatando o espaço público, é possível resgatar os valores coletivos, segurança, democratização do direito ao acesso, reapropriação da cidade e qualidade de vida urbana. Alves (2003) propõe um entendimento particular para os espaços públicos, apostando em novas formas de produzir estruturas urbanas, que reconheçam a natureza do espaço urbano coletivo como espaço de experimentação. Colocando a ideia de espaço público em questão, o autor coloca que a distinção do espaço público e privado tornou-se obsoleta, o que não significa a morte do espaço público, mas a necessidade de sua reinterpretação. Seguindo este raciocínio, é apresentada a seguinte questão: os espaços coletivos não devem mais ser caracterizados pela quantidade de espaço público, mas sim pelo grau de coletivação do espaço privado.

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Resgate da praça A cidade é um espaço de convivência e a vocação das praças públicas é a de um local privilegiado em que se concretiza esse rito social. Sun Alex (2008) define a praça como expressão cultural urbana, simultaneamente uma construção e um vazio, que não é apenas um espaço físico aberto, mas também um centro social integrado ao tecido urbano. Sua importância refere-se a seu valor histórico, bem como sua participação contínua na vida da cidade. No entanto, a imagem da praça hoje em dia perdeu todo seu significado original. Segundo o autor, as novas praças são tratadas ora como equipamentos de recreação, ora como repositório de vegetação, assumindo atitudes de indiferença em relação aos padrões urbanísticos tradicionais. Esta postura acentua a fragmentação do espaço urbano e faz da praça uma barreira para as travessias ou um local ameaçador, evitado pela população. Mais do que forma, tamanho ou design, o sucesso de um espaço público é determinado pelo acesso e pelas opções de lugares para sentar, esses fatores consolidam a presença e a permanência do lugar. A maior atração das plazas são as pessoas, e elas tendem a agrupar-se o mais próximo possível onde há atividades. A acessibilidade é uma condição primordial para o uso, entrar em um lugar é condição inicial para poder usa-lo. O acesso pode ser classificado em três tipos: físico (caracterizado pela ausência de barreiras espaciais ou arquitetônicas, como construções, plantas, água etc), visual (que define a qualidade do primeiro contato do usuário com o lugar) e simbólico/social (presença de sinais, sutis ou ostensivos, que sugerem quem é e quem não é bem-vindo ao lugar). (ALEX, 2008) A estreita vinculação do uso com o acesso e a integração com o entorno são os elementos definidores mais fundamentais da praça, a articulação com o tecido urbano é um de seus papéis mais relevantes na construção da paisagem da cidade e consequentemente na construção da cidadania e democracia.

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Critérios de qualidade do espaço Caráter público “A sensação de pertencer. Esta é a sensação que um dos bons prédios antigos traz quando observado da rua. Eles pertencem à rua. Abrem-se para a rua com grandiosidade. Logo, se abrem para seus moradores com generosidade.” (LERNER, 2002, p.87) A orientação do indivíduo, seu sentimento de estar no mundo, se dá pelo espaço existencial. NorbergSchulz (1975) trata o espaço arquitetônico como concretização deste espaço existencial. O homem usualmente possui seu espaço existencial mais privado, mas é preciso ser interpretado como parte de um todo mais amplo; as propriedades básicas de sua estrutura devem ser públicas a fim de permitir a integração social, ou seja, o espaço arquitetônico concretiza um espaço existencial público que inclui muitos espaços existenciais privados. Sendo assim, arquitetura com o propósito de contribuir para integrar o individuo em uma forma comum, tem de satisfazer as necessidades individuais considerando que são formadas em um contexto mais amplo, determinando um denominador comum, para então estar a serviço do mundo público. Liberdade Para se integrar à cidade é preciso também se libertar dela. Mongin (2009) descreve essa experiência urbana como “uma experiência de libertação em vários sentidos, de fora para dentro e de dentro para fora”. Que tipo de relação um espaço deve estabelecer: estar na cidade ou olhar a cidade? A liberdade nos permite vivenciar ambas; ao entrarmos em um espaço, nos separamos de um fora, ao mesmo tempo em que podemos nos libertar desse espaço e se voltar para fora.

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Essa liberdade não se dá apenas nas dimensões de espaço público x privado, mas também entre diferentes espaços públicos, e nos leva à análise dos fixos e fluxos. Mongin (2009) trata que a existência da experiência urbana está sob a condição da associação de duas ações: a inscrição num lugar e o movimento entre lugares, é o que define o espírito da cidade. Segundo o autor, apenas o lugar não basta à vida activa, se não fornece oportunidade de tecer ligações com outros lugares; os lugares devem instituir um vínculo de força com os fluxos, onde permanecer é igualmente possível quanto partir. Os fixos e os fluxos são fundamentais no estudo do espaço para o campo da geografia. Milton Santos (2002) reforça a importância da interação entre os dois elementos, apontando o poder de transformação e evolução do espaço que eles possuem. Os fixos representam sistemas de objetos, e os fluxos os sistemas de ações, e juntos produzem uma dinâmica na organização espacial. Assim como os sistemas de objetos condicionam a forma como se dão as ações, o sistema de ações pode levar à criação de novos objetos e funções. Os fluxos trazem vida aos fixos, que sozinhos são apenas paisagem, ao agregar função social no espaço. Norberg-Schulz (1975) trata dos fixos e fluxos como centro/lugar e direção/caminho. Nesta interpretação, a essência do lugar é constituída pela tensão das forças centrípetas e centrífugas, determinando o lugar como síntese de chegada e partida, e de interior e exterior, onde experimentamos os acontecimentos mais significativos da nossa existência.A relação entre lugar e um caminho cria uma dicotomia, uma tensão entre centralização (necessidade de pertencer a um lugar) e longitudinalidade (movimento de expressão de abertura ao mundo, dinamismo que pode ser físico ou espiritual). Para Solà-Morales (2002), a justaposição de uma multiplicidade de fluxos é a primeira constatação de que a realidade em que vivemos está formada por malhas que acumulam interconexões. Em todo lugar onde se produzem cruzamentos constantes de redes de distribuição, a arquitetura tem de ter a capacidade de recortar sua forma de modo que seja, sobretudo, plasticamente receptora de qualquer tipo de

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intercâmbio. O desafio da cidade e arquitetura é cortar e recortar pelas articulações de uma rede de distribuições mas também criar as figuras e os lugares através destes cortes e recortes. Contato Partindo das possibilidades e limitações relacionadas com os sentidos, Jan Gehl (2009) estabelece os requisitos físicos para isolamento e contato, através de cinco princípios. Relações Espaciais Agrupamento: Se as atividades e as pessoas se agrupam, é possível que os acontecimentos individuais se estimulem mutuamente. O agrupamento depende da análise do território em um amplo contexto, passando por todos os níveis de projeto, e levando em consideração que as decisões de escala grande (projetos regionais e urbanos), de escala mediana (conjuntos de edifícios) e de escala pequena estão indissoluvelmente unidas. (GEHL, 2009) Integração: A integração implica que várias atividades e categorias de pessoas possam funcionar juntas, atuando e estimulando para Imagem. inibir ou incentivar o contato visual e auditivo (Fonte: GEHL, 2009)

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inspirar umas às outras. (GEHL, 2009) A diversidade de usos agrega qualidade à cidade. ”O vazio de uma região sem atividade ou sem moradia pode se soar ao vazio dos terrenos baldios. Preenchê-los seria boa acupuntura. É importante também incluir a função que falta a determinada região. Se só existe a atividade econômica e falta gente, é essencial incentivar a moradia. Se o que ocorre é a falta de atividade, o importante é incentivar os serviços.” (LERNER, 2002, p. 37) Atração: Os espaços públicos da cidade podem ser atraentes e facilmente acessíveis, e incentivar assim que as pessoas e as atividades se movam do ambiente privado ao público. Os limites flexíveis –zonas de transição que não sejam nem totalmente privadas nem totalmente públicas – poderão atuar frequentemente como elementos de conexão do ir e vir. Poder ver o que está passando nos espaços públicos também pode ser um elemento de atração. (GEHL, 2009) Abertura: O contato através da experiência entre o que está passando no entorno público e o que está passando nos edifícios pode supor um notável aumento e enriquecimento das possibilidades de ditas experiências, em ambas direções. Abrir para ter um intercâmbio de experiências em dois sentidos não é só questão de vidros e janelas, Imagem. Relações Espaciais (Fonte: GEHL, 2009)

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senão também questão de distância – rua, acessibilidade. Permanência Não basta simplesmente criar espaços que permitam às pessoas ir e vir. Gehl (2009) propõe que também deve-se fazer condições favoráveis para andar e entreter-se nesses espaços. As decisões de projeto aos níveis de cidade e conjunto de edifícios podem definir as bases para a criação de espaços externos que funcionem bem, mas somente mediante uma cuidadosa consideração no projeto ao nível de detalhe é que as possibilidades potenciais podem revelar seu valor. As exigências qualitativas do ambiente externo devem atender a atividades básicas e simples como caminhar, estar de pé e sentar-se, assim como ver, ouvir e falar. São atividades básicas que servem como uma boa base para desenvolvimento de um amplo leque de outras atividades. Caminhar: maneira de movimentar-se, mas também proporciona uma possibilidade informal e sem complicações de estar presente no ambiente público. Caminhar exige espaço, é preciso poder caminhar de um modo razoavelmente livre sem muitas manobras e interferências. Estar de pé: estar de pé mostra com muita claridade algumas importantes pautas de comportamento, característica de grande número de atividades estacionárias nos espaços públicos, como estar de pé falando com alguém ou esperando algo. Para as paradas de maior duração, o ambiente deve dar a oportunidade da pessoa desfrutar o ambiente ou ver o que se passa nele.

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Sentar-se: somente quando existem oportunidades para sentar pode existir permanência de certa duração. A existência de boas oportunidades para sentar-se prepara o terreno a numerosas atividades que são as atrações principais dos espaços públicos: comer, ler, dormir, tomar sol, olhar as pessoas, conversar, etc. O melhor lugar para sentar é nas bordas; lugares situados junto a fachadas e nos limites espaciais são preferíveis. Tendemos a buscar apoio nos detalhes do ambiente físico, como assentos dentro de nichos, extremos dos bancos ou qualquer outro ponto bem definido, e os lugares para sentar onde a volta é protegida. Um desenho espacial baseado na interação entre um número relativamente limitado de assentos principais e grande quantidade de lugares secundários para sentar-se, como escadas, pedestais, muretas, caixas, entre outros, tem a vantagem de funcionar razoavelmente bem em períodos com um pequeno número de usuários. Ver, ouvir e falar: as oportunidades para ver as outras pessoas são uma questão de distância entre o observador e o objeto. É apropriado dimensionar os grandes espaços públicos de maneira que suas bordas correspondam com os limites do campo social de visão. Deste modo, há espaço para uma ampla gama de atividades, todas elas à vista de quem usa o local. As oportunidades de falar com outras pessoas influem muito na qualidade dos espaços externos; existem três categorias distintas de conversação no exterior: com pessoas que acompanhamos, com conhecidos que nos encontramos, e possíveis conversas com estranhos. As atividades e experiências habituais, assim como os acontecimentos inesperados ou infrequentes, servem para iniciar e gerar a conversação, assim, o desenho de lugares para sentar ou estar de pé, e sua posição relativa, podem ter uma influência direta sobre as oportunidades para estabelecer uma conversação.

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projeto área de estudo: jundiaí sp Jundiaí fica entre duas regiões metropolitanas, a 60km da capital paulista e 40km do município de Campinas, e é cortada pelas vias Anhanguera e Bandeirantes, um dos principais eixos viários do país, com uma área de 432km².

Imagem. Vista geral de Jundiaí em direção ao Centro. (Fonte: Prefeitura Municipal de Jundiaí)

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“Situa-se no vetor norte de expansão urbana e industrial da macrometrópole de São Paulo, na área ‘interland’ isto é, de transição entre a metrópole de São Paulo e o interior. Suas terras ao sul e sudoeste representam um mar de morros e maciços serranos, conhecidos como Serra dos Cristais e Serra do Japi, que se interligam às serra interioranas através da mantiqueira e à Serra do Mar, formando uma barreira natural verde de entorno a metrópole de São Paulo. Ao norte e noroeste do Município, encontramos a zona de produção agropecuária que em conjunto com as áreas de outros municípios vizinhos formam o cinturão verde da macrometrópole paulista.“ (ALMEIDA; PINHEIRO; BEDIN, 1998, p.8) Jundiaí apresenta-se como cidade de porte médio, com uma população de 393.920 habitantes (População estimada para 2013 – Fonte:IBGE), e densidade demográfica de 858 hab/km². De acordo com o Censo 2010 (SEADE), a cidade apresenta 95,7% de população urbana e uma taxa geométrica de crescimento de 1,36 % a.a. Considerado centro polarizador da região, a cidade possui conurbação consolidada com Várzea Paulista, Campo Limpo Paulista, Itupeva, Cabreúva, Louveira e Jarinu, formando a chamada Aglomeração Urbana de Jundiaí, com o total de 700.000 habitantes. Imagens: Acima: Localização de Jundiaí (Fonte: ALMEIDA; PINHEIRO; BEDIN, 1998) Abaixo: Aglomeração urbana de Jundiaí (Fonte: Concurso Público Nacional Paço Municipal de Várzea Paulista)

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Entendendo as origens Rio dos bagres (“jundiá” sendo bagre e “y” sendo rio): esta é a origem tupi do nome dado à cidade. Até o fim do século XVII a região era habitada por povos indígenas que se dedicavam para a produção de milho e mandioca. Sua cultura foi parcialmente incorporada pelos brancos colonizadores, como a utilização de queimadas na lavoura.

Imagem. peixe jundiá – Fonte: Prefeitura Municipal de Jundiaí

Até o início do século XIX a economia de Jundiaí se limitava a pequenas lavouras e subsistência para moradores da vila, tropeiros e bandeirantes. Em 1865 foi elevada à categoria de cidade. Ela cresceu com a produção cafeeira para o oeste e com a inauguração da Ferrovia Santos-Jundiaí, em 1867. Os produtores rurais passaram a buscar novos trabalhadores, dando início um amplo processo de imigração, principalmente italiana, que estimulou o crescimento comercial e industrial, e do segmento de serviços e infra-estrutura urbana. Hoje, mais de 75% da população de Jundiaí é descendente de imigrantes italianos e consistem uma das maiores colônias em todo o Brasil. Na primeira metade do século XX a cidade descobriu sua vocação industrial, que perdura até hoje, pois possui um dos maiores parques industriais da América Latina. Houve um processo de industrialização que acompanhava as vias de circulação, com a concentração das indústrias próximas à ferrovia e às margens do Rio Guapeva. Um novo impulso industrial ocorreu nos anos 30 e 40, e a inauguração da Rodovia Anhanguera, em 1948, trouxe mais interesse das empresas pela cidade. A grande vocação agrícola fez a cidade despontar no cenário nacional com a produção de uvas de mesa. Em 1934 foi criada a Festa da Uva para estimular ainda mais os produtores. Em 1965 foi inaugurada a Festa do Morango. Desde então os eventos são alternados anualmente.

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Imagem. Evolução Histórica de urbanização (Fonte: Prefeitura Municipal de Jundiaí, 2013)

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Contextualização: Cidades paulistas de médio porte A partir da década de 1970, no Estado de São Paulo, passa a ocorrer um processo de desconcentração, em direção ao interior: as cidades médias tornam-se pólos mais dinâmicos, em detrimento da Região Metropolitana de São Paulo. Segundo Braga (2009), “as cidades médias tornam-se elementos de equilíbrio territorial no processo de reestruturação produtiva, num contexto em que as grandes cidades estão saturadas, e tornam-se alvos estratégicos do desenvolvimento territorial. Essa nova dimensão da urbanização faz com que tais cidades acabem por produzir processos socioespaciais típicos dos centros metropolitanos: expansão desordenada nas periferias, deterioração das áreas centrais, segregação residencial e violência urbana”. “Entre 1991 e 2000, os municípios de porte médio (entre 100 e 500 mil habitantes) do interior paulista cresceram num ritmo superior ao da Grande São Paulo: 17,7% contra 13,9% em todo o período. Isso implica uma nova visão sobre as cidades médias: se até então elas foram pensadas como Imagem. Cidades de médio porte do Estado de São Paulo (Fonte: BRAGA, 2005)

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válvula de escape e solução para a saturação das metrópoles, hoje são elas próprias objetos de um crescimento acelerado, que faz com que se reproduzam, em certa medida, os problemas das áreas metropolitanas” (BRAGA, 2009, p.8). Conforme a Tabela 1, “entre os anos de 1980 e 2000, o número de municípios com população urbana superior a 100 mil habitantes no interior do estado saltou de 22 para 36. [...] Em termos demográficos isso significa que mais da metade da população urbana do interior paulista (50,1%, em 2000) está concentrada em cidades com mais de 100 mil habitantes, num total de 8,7 milhões de pessoas, o que significa 25 % da população urbana do estado.” (BRAGA, 2005, p. 4) Outro dado relevante é a apresentação do crescimento demográfico superior ao da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) nas últimas décadas.

(Fonte: BRAGA, 2005 – Base: IBGE – Censos Demográficos)

Gráfico. Comparação do crescimento populacional entre cidades médias e RMSP (Fonte: BRAGA, 2005)

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O crescimento dos centros de porte médio implica na formação de aglomerações urbanas. Braga (2005) as define como formas de concentração urbana em nível submetropolitano que resultam em centros urbanos de maior dimensão, dando uma nova configuração à rede urbana. Foram identificadas onze aglomerações urbanas não metropolitanas no Estado de São Paulo, sendo elas de: São José dos Campos, Ribeirão Preto, Santos, Sorocaba, São José do Rio Preto, Jundiaí, Limeira/Rio Claro, Araraquara/São Carlos, Araçatuba, Mogi Guaçu / Mogi Mirim e Guaratinguetá/Aparecida.

Imagem. Aglomerações Urbanas não Metropolitanas do Estado de São Paulo (Fonte: BRAGA, 2005)

O crescimento das cidades de porte médio cada vez mais as conduz aos problemas característicos das grandes metrópoles, pode-se notar um descompasso entre a dinâmica regional e a política urbana. “As cidades de porte médio tornaram-se pólos dinâmicos da rede urbana paulista e focos do processo de reestruturação produtiva, sobretudo na Região Administrativa de Campinas. Tal condição não foi acompanhada das medidas necessárias no campo da política urbana, o que implica o desaparelhamento institucional

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para o enfrentamento dos desafios da urbanização acelerada. O advento do Estatuto da Cidade, embora tenha levado à massificação dos Planos Diretores nessas cidades, não implicou a adoção generalizada de seus instrumentos acessórios mais importantes, o que leva ao questionamento da efetividade dos Planos na condução do ordenamento urbano nesses municípios.” (BRAGA, 2009, p.22)

A cidade segregadora Como já dito anteriormente, as cidades passam por um fenômeno de produção de espaço moldados por interesses privados de rentabilidade. Jundiaí não foge deste contexto, seu desenvolvimento vem sendo marcado por uma tendência de padrão habitacional, de inclinação segregadora, através da propagação de condomínios fechados. Conforme Goulart e Bento (2011), “a expansão de condomínios fechados na cidade está relacionada às suas vantagens logísticas (proximidade da capital e de rodovias), à qualidade de vida oferecida e aos preços de imóveis e terrenos (estima-se que 15-20% mais baixos que os similares em São Paulo)”. Conforme Estudo do Mercado Imobiliário de Jundiaí, elaborado pelo Secovi-SP (Sindicato da Habitação), no período de novembro de 2009 a novembro de 2012 foram lançados 15.854 imóveis, sendo 93,12% empreendimentos verticais. Em 2012, Jundiaí teve um crescimento de quase 60% no número de lançamentos imobiliários em condomínios. Segundo levantamento, “entre novembro de 2011 e novembro de 2012, foram lançadas 6.159 unidades, enquanto nos 12 meses anteriores, foram ofertados 3.904 imóveis”.

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Imagem. Distribuição dos lançamentos imobiliários em Jundiaí. Fonte: Estudo do Mercado Imobiliário de Jundia (SECOVI, 2012)

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Unidades lançadas em Jundiaí em 2012. Fonte: Estudo do Mercado Imobiliário de Jundia (SECOVI, 2012)

“Historicamente, as cidades sempre apresentaram algum caráter polarizador por se associarem a classes e grupos que se diferenciam na apropriação do espaço urbano e do Capital econômico, social, cultural e simbólico. [...] a partir da década de 1980, o padrão segregacionista prevalece, mas de maneira espacialmente diferente da oposição centro x periferia que distingue os ciclos precedentes. Apesar deste modelo, o novo padrão dos ‘enclaves’ caracteriza-se pela proximidade entre os grupos

sociais, separados por barreiras físicas (muros e grades) e eficientes sistemas de controle e segurança que evitam a interação entre diferentes classes.” (GOULART; BENTO, 2011, p. 183) A preferência por condomínios fechados está associada a diversos fatores, como aumento da insegurança, medo e desigualdade social. “A motivação predominante, corroborada no caso de Jundiaí, é o aumento dos índices de criminalidade (violência urbana) que produz sensação de medo” (GOULART; BENTO, 2011, p. 183).

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Monta-se um cenário de alienação através de publicidade que garante qualidade de vida, segurança e status social. A proximidade com a natureza, recorrente da localização dos empreendimentos em Áreas de Preservação Permanente (áreas, muitas vezes, de menor custo para os incorporadores pela inexistência de infraestrutura), traz a falsa sensação de proteção dos problemas urbanos. Explora-se a estética de modo que, ainda que equivocada, ao conjunto seja conferida “percepção de glamour e luxo onde somente pessoas ‘distintas’ e ‘refinadas’ poderiam residir” (GOULART; BENTO, P. 185), através de arcos e elementos neoclássicos, estruturas de aço (material pouco difundido), revestimentos de paredes com pedras e texturas, vidros insul-filmados, paisagismo com plantas da moda, entre outros artifícios que criam uma simulação de realidade perfeita.

Imagem. Exemplos de propaganda de condomínios fechados em Jundiaí

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Segundo Goulart e Bento (2011),” o contato com a população adjacente aos conjuntos residenciais é praticamente inexistente, e ocorre somente quando seus moradores fazem uso do comércio local”. Ainda que “protegidas” do resto da cidade e de pessoas de diferentes classes sociais, não se identifica o senso de comunidade dentro do condomínio, as casas voltam-se para dentro, não estabelecendo contato com os vizinhos. Em suma, no plano urbanístico, a implantação dos enclaves fortificados interrompe a malha viária, desconecta bairros, uma vez que barreiras físicas (muros) criam obstruções das vias públicas às demais áreas da cidade. Dilemas ambientais ganham nova escala e complexidade, com a implantação de condomínios em áreas ambientalmente frágeis, que podem ocasionar danos graves. “Em Jundiaí, verificase uma tendência de expansão desses empreendimentos em direção ao entorno da Serra do Japi e à zona rural da cidade, regiões que possuem atributos ambientais potencialmente atrativos para possibilitar a instalação de condomínios fechados” (GOULART; BENTO, 2011, p. 192). Afora os impactos ambientais, a cidade apresenta um padrão de segregação que interfere profundamente na sociabilidade urbana. “Do ponto de vista da sociabilidade, a propagação desse modelo residencial constitui uma tendência de expansão urbana que atende unicamente às demandas das classes mais abastadas” (GOULART; BENTO, 2011, p. 192). É preciso que essas elites se abram novamente para retomar as relações com a cidade e com a população vizinha, e recuperar a experiência da vida pública marcada pela diversidade e imprevisibilidade.

Criando hipóteses A segregação, como fruto da implantação de condomínios fechados, prejudica a sociabilidade

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na cidade. Em contrapartida, na região próxima ao centro ainda é possível identificar a relação da habitação com a malha urbana. Os equipamentos de lazer são variados, ainda que escassos. Dentre os espaços culturais, podemos destacar o teatro Polytheama, o centro esportivo Bolão, o Parque da Uva e o Jardim Botânico próximos ao Centro de Jundiaí. Apesar da qualidade e fácil acesso, são lugares pouco utilizados, tendo em vista o tamanho da população da cidade. Atualmente, os espaços de maior movimento são caracteristicamente privatizados, os shoppings e o Boulevard Beco Fino, um complexo gastronômico fechado por muros. Jundiaí ainda conta com grandes parques e áreas verdes, mas seu acesso é limitado devido às longas distâncias e horários de funcionamento restritos. Diante deste quadro, podemos trabalhar em cima de uma série de hipóteses em busca do entendimento pela falta de apropriação dos espaços públicos e coletivos da cidade: - questão cultural: reflexo do medo/ insegurança, tendências consumistas da sociedade em busca de espaços privatizados e novas formas de entretenimento (televisão e internet); - questão histórica: enraizamento dos hábitos de uma população descendente de operários com poucas oportunidades de lazer; - fracasso do poder público: precariedade no incentivo aos eventos culturais e sistema de transporte público ineficaz que dificulta a mobilidade (pouca frota de veículos e longos percursos); - chácaras: espaços privados como alternativa de lazer e isolamento do meio urbano; - clubes: espaços privados destinados, predominantemente, a um grupo de pessoas de maior renda; - proximidade com metrópoles – Campinas e São Paulo – com maior oferta de espaços de lazer.

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Imagem: Localização do Centro e equipamentos próximos - Fonte: Base Google Earth

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Área de intervenção O terreno para implantação do projeto da midiateca configura-se em uma esquina, tomando três quartos da quadra, cuja topografia íngreme é de aproximadamente 10 metros de desnível. Situada entre três importantes ruas de caráter comercial – Avenida Jundiaí, Avenida Nove de Julho e Rua do Retiro, que caracterizam a área como uma centralidade, reforçada pela proximidade com o centro. A ocupação do terreno como espaço público potencializa este perfil da área como pólo social. A área é bem equipada em termos de infraestrutura; suas ruas fazem conexão às rodovias para outras cidade, tornando o local um lugar de fácil acessibilidade para diferentes tipos de mobilidade urbana. Há grande fluxo de pessoas e o transporte público é privilegiado devido à existência de corredores de ônibus e ao Terminal Central a poucos metros. As ruas lindeiras são bem movimentadas, com comércio, serviços e lazer, como lojas, mercados, bares, cafés, casas noturnas, restaurantes. Esse quadro caracteriza a área como um bom lugar de destino para um espaço que ajude a suprir a demanda cultural da cidade; a implantação de um projeto de uso público neste local tem potencial para ser um catalisador social, um ponto de encontro para as pessoas, e permite conectar os diferentes eixos e pontos de destaque da cidade já citados, trazendo a possibilidade da construção do conceito de lugar.

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O gabarito do entorno é predominantemente baixo, com edificações térreas ou assobradadas; os demais edifícios altos, pontuais, chegam a quinze pavimentos. O terreno para implantação do projeto compreende uma área de 2500m², sem construções, que atualmente é usado como estacionamento. Com a intenção de valorizar o projeto, tomando toda a frente da Avenida Jundiaí, propõe-se a demolição de uma edificação baixa ao lado do terreno, sem grande expressão arquitetônica, que funciona como uma farmácia, considerando que a empresa pode ser relocada para um terreno próximo. Optou-se pela preservação do edifício vizinho alto, com a intenção de evitar maiores impactos físicos no território. Além disso, um dos desafios da arquitetura contemporânea é lidar com as preexistências, incentivando a coexistência entre os diferentes objetos de diferentes épocas, e agregando qualidade ao espaço urbano através da diversidade de usos.

Imagem. Vista da cota mais baixa do terreno. Fonte: Acervo Pessoal

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Imagens: รก esquerda: foto do terreno escolhido. Fonte: Acervo Pessoal Imagem. Vista da paisagem loca. Fonte: Acervo Pessoal

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Diagnóstico da área: Localização do terreno de implantação do projeto – Fonte: Base Prefeitura Municipal de Jundiaí

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Diagnóstico da área: Uso do solo – Fonte: Base Prefeitura Municipal de Jundiaí

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Legislação da área – Fonte: Prefeitura Municipal de Jundiaí

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Legislação da área - Zoneamento Fonte: Prefeitura Municipal de Jundiaí

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uso: midiateca Como já foi abordado, a diversidade de usos agrega qualidade à cidade. A região de intervenção possui características residenciais e comerciais, por isso, preencher o vazio com um espaço cultural é um incentivo à sustentabilidade, à saúde da área e de sua população. Retratou-se anteriormente o desenvolvimento tecnológico e dos novos meios de comunicação como vilão, prejudicial às relações sociais na cidade. Como já dizia o ditado popular: “Se não pode com o inimigo, junte-se a ele”. A tecnologia é um grande aliado na obtenção de novos conhecimentos e a difusão do acesso às mídias é cada vez maior. Bibliotecas e centros de cultura têm de se adaptar a essa nova realidade de globalização da informação. Assim sendo, a escolha pela Midiateca como objeto de projeto representa um pretexto para se enfrentar a cidade contemporânea através de um edifício com programa relacionado às questões atuais. conceito de midiateca “Os saraus tiveram que invadir os botecos, Pois biblioteca não era lugar de poesia Biblioteca tinha que ter silêncio, E uma gente que se acha assim muito sabida.” (Trecho da música “Cálice” - CRIOLO, 2010)

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Um espaço sem pessoas é um espaço sem vida. Uma biblioteca sem pessoas é apenas um depósito de livros. De que vale um mundaréu de conhecimentos sem ninguém para desfrutá-lo? Junto ao desenvolvimento tecnológico, o conceito de biblioteca passa a ser repensado, o acesso à informação não basta pois a internet já oferece essa facilidade dentro do espaço doméstico, é preciso criar ambientes com qualidades além da funcionalidade, que desencadeiem novas experiências além do ato solitário da leitura. Devido ao contexto histórico de alfabetização tardia no país e precariedade dos espaços destinados às bibliotecas, estas instituições tornaram-se pouco atrativas e vítimas do descaso dos órgãos públicos para maiores investimentos. Com o desenvolvimento de novas tecnologias, cada vez mais torna-se evidente a queda do número de leitores e visitantes nas bibliotecas. “No tempo que a escrita era a única possibilidade de registro, a biblioteca era a coleção desses suportes da informação escrita: papiro, pergaminho, papel, livro. No instante em que novos meios surgem (rádio, televisão, cinema...), a biblioteca, mantendo-se fiel ao princípio de ser um espaço informativo, deverá incorporar esses novos meios em seu acervo como mais uma possibilidade de informação” (MILANESI, 1986, p. 180)

Pesquisa de Penetração de leitura no Brasil Fonte: Ibope Inteligência /Fundação Pró-livro

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Nos últimos anos a definição de biblioteca começou a ser questionada. Como deve ser o espaço de difusão do conhecimento do século XXI? Para Guto Requena, “Uma biblioteca não deveria ser um museu de livros. A revisão do programa deveria se dar pela origem do nome: Biblio - Livro e teca - Arquivo, Arquivo de Livro? Seria essa a função que desejamos para esse Equipamento Cultural Público? A mudança para “Infoteca” reflete a preocupação de como deveria se tratar a questão da aquisição de informação hoje. O que chamo de Infoteca seria justamente um Arquivo de Informação, independente da mídia, seja ela o livro, o computador, um mapa, uma música ou até mesmo o próprio edifício, que é em todas as suas mais diversas possibilidades, informação.”.

Pesquisa de Penetração de leitura no Brasil Fonte: Ibope Inteligência /Fundação Pró-livro

Em 1986, a informática era pouco acessível e desenvolvida,e a introdução dos computadores no Brasil foi lenta. Todavia, o desenvolvimento do rádio e da TV como novos meios já colocava em discussão a transformação do conceito de biblioteca. Em Ordenar para Desordenar, Luiz Milanesi aborda claramente esta questão: “O modelo tradicional da biblioteca não atingiu a sua potencialidade máxima de desenvolvimento. No entanto, há em circulação novos termos, até neologismos, que designam novas modalidades de informação: recursos audiovisuais, mediateca, multimeios... O videocassete passou a ser visto em poucos meses como um recurso indispensável à biblioteca pública. Essa investida eletrônica é paralela ao próprio desenvolvimento da sociedade brasileira face aos meios de comunicação. O Brasil, como tantas vezes é repetido, esteve

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praticamente quatrocentos anos sob o analfabetismo, visto como endemia de cura quase impossível. A chamada cultura letrada, como a europeia, não se fixou no país: todo o quadro mostra as deficiências nacionais no setor. (...) Os brasileiros passaram direto do analfabetismo (e as suas graduações) aos meios eletrônicos de comunicação. O fenômeno repetiu-se em relação à biblioteca: ela sempre foi vista como uma coleção de livros, o que afinal quer dizer informações na medida em que os impressos eram na prática seus únicos registros. No instante em que as novas tecnologias punham nas residências uma série de outras possibilidades de registrar e reproduzir a informação, a biblioteca não pôde ignorar tal fato. Há uma alegação contrária à nova tecnologia: se os livros são poucos, se o tratamento dado a eles é deficiente, se a população brasileira pouco lê, como incentivar o vídeo na biblioteca? (...) A resposta a todas essas perguntas deve ser buscada no conceito de biblioteca: de “coleção de livros”, passou a “centro de informação”. A partir disso, quaisquer possibilidade de informar passam a ser viáveis. Não é porque a imprensa surgiu antes da eletrônica que os meios eletrônicos deverão aguardar o amadurecimento da cultura letrada para serem chamados a cumprir o seu papel. Se democratizar a informação implica o acesso a ela por parte de todos os segmentos da população, os analfabetos e semi-analfabetizados não poderão ser excluídos.” Por muito tempo a sala de leitura foi caracterizada como local de isolamento e privacidade, ótica que nos dias de hoje se encontra ameaçada, como expõe Jorge Luis Borges no livro que apresenta o projeto da Midiateca da PUC-Rio: “Em primeiro lugar, ainda que a configuração física dos salões de leitura se mantivesse de algum modo semelhante à do modelo tradicional, seu significado seria inteiramente diverso (na verdade antagônico) do que tem sido por séculos. E isso pelo simples fato de que a conectividade de todos os usuários ali presentes à World Wide Web os transformaria, de algum modo, em ausentes. Afinal, como revela a própria terminologia vulgarmente empregada hoje, o mundo virtual se diferencia do mundo real ou presencial na medida em que, virtualmente, rompe a estabilidade física de quem está online e navega pela internet (algo bem diferente, é bom frisar, da alegada capacidade dos livros de “nos transportar” para mundos imaginários). Se acessar a internet é adentrar um universo sem barreiras, de

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acessibilidade potencialmente total, então estar online significa, virtualmente pelo menos, estar em todos os lugares do mundo exceto o espaço físico onde se está. O que seria este salão de leitura constituído por leitores desterrados? Um imenso cybercafé, onde o usuário à minha direita está acessando o acervo de uma biblioteca em Amsterdã e o da esquerda acaba de ingressar em um chat room fisicamente inexistente? (...) Parece haver motivos suficientes para suspeitar que a prática da leitura de livros no espaço físico da biblioteca não perderá seu lugar num mundo ‘internetizado’. Ler em casa, n rua e mesmo na condução sempre foi possível, e ainda assim os salões de leitura das bibliotecas sempre se mantiveram cheios. Ler em uma biblioteca é, também, uma prática social, o que confere a esse tipo de leitura característica muito especiais. Não é, de resto, improvável que hoje, com a proliferação firmem seu prestígio. Mais do que privação (do mundo online), o ingresso em um salão dedicado exclusivamente à leitura de livros pode, quem sabe, ser visto como uma experiência reconfortante e mesmo necessária, uma rara oportunidade de estar ao abrigo dos invasivos e perturbadores hiperestímulos sonoros e visuais que caracterizam a vida no mundo contemporâneo. Seja como for, é exatamente isso o que, potencialmente, torna tão fascinante a arquitetura contemporânea de bibliotecas. Com os olhos voltados para exemplos paradigmáticos do passado, os arquitetos são hoje obrigados a especular sobre o futuro das bibliotecas, e não há projeto contemporâneo que, de algum modo, não forneça uma resposta a um sem-número de incertezas.“(LEONÍDIO, 2007) Além da incorporação das novas mídias no programa para a concepção da midiateca, existe a demanda das pessoas por espaços com atividades que propiciem a convivência e o afeto que dêem prazer de estar no lugar. “A transformação da biblioteca em centro de informação abre espaço para uma nova função: a convivência. Informar exige uma ação de muitas faces, desde a leitura de um texto, a pesquisa num computador, a audição de um disco, a consulta a um vídeo até a simples informação oral. Algumas atividades podem ser desenvolvidas individualmente como a busca num catálogo, a localização de um livro, a leitura e anotações; outras pedem o coletivo, como acontece com os recursos audiovisuais. Isso

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alterna a imagem tradicional da biblioteca como local de leitura, de atenção concentrada e, portanto, de silêncio. Ir à biblioteca para assistir a um filme propiciará uma experiência diferente daquela que a leitura de uma revista permite. A proximidade física nem sempre leva à comunicação entre as pessoas. As multidões silenciosas mostram esse fato. É preciso que haja estímulo externo que, chegando às pessoas, lhes possibilite olhar e dialogar com o outro. Se a biblioteca é de fato um espaço informativo, isso já pode funcionar como um estímulo externo à comunicação interpessoal. O ver e o ouvir juntos aproximarão de tal forma que a relação humana será facilitada. A leitura é quase sempre um ato solitário. (...) A biblioteca é informação ordenada cujo fluxo direciona-se pelo interesse do usuário. Para que os dados transferidos desdobrem-se e se recriem é necessário que o fluxo continue, indo de um indivíduo para outro. É nesse sentido que a convivência adquire a importância de um instrumento que efetive a informação como um bem transformador. Na prática, a convivência é estar juntos, quer para o trabalho, quer para a discussão e para o lazer. A biblioteca então não só deve dispor de informações, mas oferecer uma série de atividades que dê sentido a elas. Após a exibição de um vídeo, é possível e desejável que as pessoas conversem sobre ele. Quando uma biblioteca pública assumir a sua nova condição de local de encontro das pessoas, um novo elemento deverá estar presente: o afeto. (...) A convivência virá a partir de uma resposta da biblioteca às necessidades da população. As pessoas vão à biblioteca porque precisam. Isso não deve existir apenas para satisfazer a uma carência específica de dados, mas em função de uma necessidade que transcende o objetivo de uma busca de informação: o gostar, o prazer.” (MILANESI, 1986) A escolha pela midiateca vem da intenção de contribuir para a demanda cultural local, representando um espaço contemporâneo para essa nova cidade em desenvolvimento. Segundo Rem Koolhas, o surgimento de novos tipos de consumo geram novas demandas e com isso são criadas novas tendências, e a arquitetura contemporânea deve ser capaz de chegar a soluções e conceitos inovadores para programas antigos. No caso, a contextualização de uma biblioteca na contemporaneidade vem sendo

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feita através da transformação de seu modelo tradicional em espaço multifuncional, com acesso a novos e velhos tipos de informação, e assim permitindo a globalização cultural; ela deve deixar de ser uma instituição totalmente dedicada aos livros para acolher todas as mídias em regime equalitário, organizando a coexistência dos meios tradicionais de informação com as novas tecnologias, para coletar, condensar, distribuir, ler e manipular o conhecimento. Diante deste contexto, a midiateca surge como um conceito de novo espaço para acesso à informação e difusão do conhecimento, estabelecendo uma sinergia no ambiente urbano. De acordo com a Comissão Executiva da Rede de Mediatecas de Angola, define-se por Mediateca: ”um centro destinado à reunião e fornecimento de informações de todos os tipos em suporte digital, armazenados em equipamentos, tais como CD, DVD, VHS, banco de dados, ou Blue Ray, acessível a toda a população através de meios tecnológicos e informáticos e pela internet. A Mediateca tem ainda componentes como a Fonoteca (espaço onde são guardados documentos sonoros e onde é possível a sua audição), a Videoteca (espaço onde se encontram disponibilizados vídeos e onde é possível a sua visualização), a Imagoteca (arquivo fotográfico onde é possível a visualização de fotografias), a Testoteca (espaços dedicados a atividades de pesquisa e investigação), e a Discoteca. Além da diversificação dos meios de comunicação, as Mediatecas também desenvolvem atividades culturais, respondendo de forma mais abrangente à ideia de uma Biblioteca aberta para todos os tipos de documentos e para todos os públicos e todas as atividades de informação e lazer”. Segundo Luiz Milanesi, “A imagem dentro da biblioteca poderá ser um estímulo para o uso mais amplo de seus serviços tradicionais. Ao lado do vídeo, talvez o elemento mais prático em termos de informação, o cinema é potencialmente útil, apesar de raro nas bibliotecas públicas brasileiras. O cinema poderá ser visto como uma forma de enriquecer a biblioteca como fonte de informação. São raras as bibliotecas que dispõem de local adequado para exibição de filmes, no entanto, ela como promotora poderá promover a exibição e discussões em qualquer espaço da cidade. Também o disco e a fita são elementos de vasto uso na biblioteca. Alem da musica, poderão ser incluídas gravações de discursos, aulas, depoimentos e

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outros. As fonotecas poderão ser serviço atrativo e útil ao usuário, quando bem organizadas. Um público que nunca frequentaria a biblioteca para ler poderia se interessar pelos registros sonoros. Vale lembrar que a música, um modo de expressão atrativo, está registrada em milhões de discos e fitas, oferecendo a possibilidade de acesso a esse imenso patrimônio artístico que abrange vários séculos.” estudos de caso Midiateca de Sendai – Toyo Ito - 2001 Com 2.933m² de área construída em um terreno de 2.948m², a Midiateca de Sendai é revolucionária em sua engenharia e estética, feita em estrutura mista de metal e concreto armado e materialidade através do vidro. A intenção de Toyo Ito foi projetar um centro de mídia cultural suportado por um sistema único que permitisse completa visibilidade e transparência à comunidade envolvente. A estrutura se dá por seis lajes que parecem flutuar, apoiadas por apenas 13 colunas de aço verticais treliçadas que funcionam como eixos de luz, bem como armazenamento de utilitários, redes e sistemas. Essas colunas remetem visualmente ao formato de grandes árvores, criando não só uma linguagem única, mas também um diálogo com as vegetação existente no entorno do edifício. No total são 7 pavimentos e mais 2 subsolos. A Midiateca de Sendai possui características interessantes como a verticalidade e programa multifuncional.

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Biblioteca Pública de Seattle – Rem Koolhas - 2004 Este projeto abriga, além da biblioteca típica, áreas de “fuga”, revolução digital e evoluções da cultura corporativa, com acesso a materiais exclusivos e arquivos, é um lugar onde os livros compartilham a atenção com outros meios de comunicação. Neste caso o espaço é transformado como um centro social de leitura. O edifício tem 34.000m² divididos em seus onze andares em vidro e aço, comportando 1.450.000 livros e outros materiais, com estacionamento público no subsolo e mais de 400 computadores disponíveis.

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Mediatheque Grand M - Atelier King Kong – 2012 A Midiateca e a esplanada fazem parte de um projeto de renovação urbana implementado pela cidade de Toulouse, com a intenção de reabilitar os espaços urbanos devolutos e de criar um forte símbolo arquitetônico proposital. A morfologia da Midiateca foi fortemente influenciada pelas restrições do terreno. Seu térreo abrange não só a biblioteca em si, mas também um pátio que se abre para o entorno, interligando-se livremente com os espaços circundantes públicos, proporcionando um ponto de encontro de convívio para os visitantes da biblioteca e os que vivem no bairro. O edifício possui área total de 1800m² em 3 pavimentos, concebido em estrutura de concreto e revestimento de vidro e alumínio. A distribuição interior do edifício visa garantir a máxima funcionalidade e conforto do usuário, concebido com preocupações como a acústica e isolamento térmico mais altos. A luz natural é cuidadosamente regulada nas áreas de leitura, incluindo as zonas centrais. O térreo é aberto e no 1º andar estão situadas a sala de conferências e áreas de escritório. Além de atender toda a funcionalidade do programa, sua implantação permite a construção de um espaço público aberto que resgata a dinâmica social urbana.

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Midiateca da PUC-Rio – SPBR – 2006 (Projeto) A Midiateca da PUC-Rio considera 2 cotas de nível que caracterizam a área destinada à sua implantação, definidas pela rua dos Diretórios, no nível 0,00, e pelo pilotis do edifício Amizade, no nível 4,00 m. A possibilidade deste duplo térreo relaciona-se com a natureza bipartida do programa proposto para a biblioteca, a primeira composta por acervo administração, e a segunda por áreas de público. No térreo debaixo, o acervo ocupa um retângulo de 1.216m² e as funções administrativas giram em torno deste núcleo fechado com vidro, fazendo com que o conjunto destas salas forme uma antecâmara que distancia o acervo das fachadas externas, colaborando assim para o rigoroso controle de temperatura e umidade necessário, e mantendo as funções administrativas periféricas se sempre próximas à luz natural. Nesta configuração o conjunto Acervo e Administração constitui um embasamento para a implantação da área de público da midiateca. Nos pavimentos acima são destinados a Praça da Biblioteca, Salão Principal, acolhimento e espaços de leitura. O edifício pousa sobre o embasamento em apenas quatro pontos de apoio, com estrutura de treliça em aço que usa em seu desenho a altura do edifício para realizar os vãos de 45 m e balanços de 15 m e 30 m; cada par de pilares é solidarizado entre si por uma viga transversa, formando dois pórticos que estabilizam as treliças transversalmente.

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Midiateca de Vénissieux – Dominique Perrault - 1999 Pensada como uma “casa grande”, um abrigo multiusos que se abre para o mundo, a midiateca se baseia no critério de simplicidade, clareza e acessibilidade. Trata-se de uma grande caixa de vidro com estrutura de aço galvanizado e piso de cimento. A biblioteca de mídia se distribui em um só pavimento de 3.200m² e suas seções são divididas pelo mobiliário. Uma torre central no edifício abriga escritórios independentes, mas ligados às atividades da midiateca, com administração, lojas e espaços especiais.

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Carré d’Art de Nimes Norman Foster – 1993 Existem muitas midiatecas nas cidades francesas, elas abraçam a tecnologia da informação – livros, revistas e jornais, bem como música, vídeo e cinema. A Carré d’Art integra essa cultura do mundo da informação às artes visuais, com uma galeria para pintura e escultura contemporânea. O edifício de 9 andares fica parcialmente enterrado abaixo do solo, para respeitar as tradições de gabarito da cidade. Nos andares inferiores localizam-se um auditório de cinema e instalações para conferências. Acima estão dois andares de biblioteca, galerias de arte nos dois níveis superiores e um terraço com café com vista para a nova praça pública criada, um espaço urbano em frente ao edifício que baniu grades e carros para sua extensão. A forma faz referência ao vernáculo da área de pátio e explora a transparência e leveza de materiais modernos para permitir a entrada da luz do dia em todos os andares.

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desenvolvimento Tinha-se como intenção inicial propor uma grande intervenção que compreendesse a parte inferior do viaduto como elemento de conexão, articulando os terrenos separados por ele e espaços das quadras adjacentes. Com o desenvolvimento do trabalho, esta idéia foi deixada para trás, visto que o desenho urbano existente já possuía qualidade e alternativas de percursos para tal. Muitas vezes, intervir numa área propondo novos fluxos pode gerar um impacto negativo. Em vez de propor passagens em diversos níveis de passarela, acredita-se, neste caso, que assumir a faixa de pedestres como uma solução, é incentivar a democracia do uso do espaço das ruas, possibilitando a coexistência de fluxos entre pessoas e veículos de forma equilibrada. Em sequência, considerando as características do sítio, tomou-se como diretriz principal a criação de um espaço de permanência capaz de direcionar e absorver em si os fluxos de pessoas, conectando as diferentes ruas de seu perímetro, e consequentemente, conectando os diferentes usos das zonas/ regiões do entorno. Foi a partir deste partido arquitetônico que se desenvolveu a ocupação do projeto. Respeitou-se os fluxos de conexão para cortar e recortar a forma. Pensando no melhor aproveitamento da insolação para o projeto, sem prejudicar os vizinhos, uma lâmina foi disposta na porção sul do terreno, acompanhando o alinhamento da Avenida Jundiaí. Seguindo o partido da permeabilidade dos fluxos, dividiu-se o edifício em dois blocos, um deles foi elevado para deixar o térreo livre, e o outro manteve-se sólido, na parte do terreno em que não era interessante incentivar a permeabilidade pois a existência de um prédio vizinho alto agia como barreira. Deste modo, a caixa de circulação e espaços de apoio foram distribuídos no bloco sólido, enquanto o bloco elevado seria destinado aos espaços principais, de acervo. Uma vez resolvida a forma respeitando os fluxos, era preciso dar solução ao desafio de atravessar o terreno não apenas horizontalmente, como verticalmente, já que a diferença de níveis entre as ruas era de 10 metros. Para isso, em um primeiro momento foi proposta uma série de blocos de diferentes

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alturas e usos, conectadas por escadas, para que fosse possível acontecer diversos eventos ao longo do percurso/travessia. Por fim, essa proposta foi substituída por um amplo espaço público, formado por praça e escadarias, cuja limpeza/simplicidade estética valorizasse o projeto ao invés de competir com o edifício principal da midiateca. Os níveis públicos são definidos então em três cotas de altura, sendo: acesso pelo térreo da Avenida Nove de Julho (nível 0,00m) às escadarias que dão para a praça intermediária (nível +4,20m) e o térreo da Avenida Jundiaí (nível +10,20m). Criou-se uma relação muito forte entre arquitetura e estrutura. Primeiramente, a estrutura foi decorrente de indagações a respeito da forma. Uma vez criado o bloco elevado, era preciso colocar pontos de apoio para estruturá-lo, sem resultar em um paliteiro de pilares. Assim surgiu a inclinação dos pilares, que com o desenvolvimento, evoluiu para uma treliça metálica que estrutura todo o conjunto de pavimentos. Desta maneira, a arquitetura passou a ser decorrente da estrutura.

Imagem. Diagrama conceitual da estética e comparação da intenção inicial com o resultado final.

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Ainda quanto ao desenvolvimento formal, a criação de vazios era muito importante para estabelecer maior relação com a cidade e novas espacialidades que estimulassem à entrada no edifício proposto. No bloco elevado, foi desenhado um vazio central que define uma perspectiva visual de dentro para fora e de fora para dentro, assim, a pessoa ao caminhar pela praça do térreo livre tem a possibilidade de enxergar o que acontece dentro da midiateca e se sentir dentro dela. Mais uma vez foi criado um problema. Como concretizar essa intenção de forma técnica? Assim, a solução adotada estruturalmente foi travar as duas treliças longitudinais através de vigas metálicas na cobertura, com alvéolos que diminuíssem seu peso próprio, e a partir delas carregar tirantes em perfil tubular rígido que sustentassem lajes steel deck.

Imagem. Diagrama conceitual do sistema estrutural e comparação da intenção inicial com o resultado final.

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Referências que trabalham a relação interior x exterior com a exposição do acervo á esq.: biblioteca brasiliana - arq. rodrigo mindlin loeb e eduardo de almeida (foto: ricardo amado) à dir. sup.: phillips exeter academy library - arq. louis kahn (foto: brian crowley) à dir. inf.: biblioteca beinecke - arq. gordon bunschaft (foto: KAALpurush)

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referências para conceito estrutural - tirantes: biblioteca brasiliana - treliça: vivaldi tower (norman foster) / viaduto new cross gate (scott wilson) - sistema de estrutura longitudinal principal (viga vierendel) + treliças na cobertura + tlajes atirantadas: centro de treinamento do banco do brasil (niemeyer)

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O programa foi organizado levando em conta as necessidades funcionais, com espaços para recepção e guarda-volumes, acervo de mídias audiovisuais e impressas, salas de leitura, terminais de computadores, estar, setor infantil, administração, sanitários, exposições, salas para oficinas, café, auditório e estacionamentos para automóveis e bicicletas. Os espaços para leitura, considerando também para os recursos multimídias, são divididos em espaços amplos coletivos, ou salas de concentração fechadas em varandas, que definem a expressão da fachada da midiateca. Complementouse essa relação de ambientes com espaços propícios para atividades sociais, como as praças que podem servir de mirante para os diferentes visuais do entorno, abrigar saraus literários, bancas e feiras de livros, com lugares para sentar, além de servir como infraestrutura urbana de conexão das ruas através das escadarias. Em todo momento a preocupação com as espacialidades guiou o projeto. No bloco da circulação, as lajes ocupam metade dos pavimentos e sempre são alternados de lado, de modo que definam pés direitos duplos; a escada age como elemento articulador e se destaca para que as pessoas façam uso dela. O auditório é independente no nível da praça intermediária. Os estacionamentos ficam abaixo de todo o conjunto, estruturado em concreto armado, e seu acesso se dá pela via secundária, Rua Francisco Pereira de Castro; assim, as outras três ruas (Av. Jundiaí, Av. Nove de Julho e Rua do Retiro) de maior movimento e caráter comercial dão prioridade ao pedestre com maior segurança, sem interferência de veículos no passeio.

Imagem. Diagrama conceitual dos espaços público x privado e comparação da intenção inicial com o resultado final.

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Imagem. Apresentação do primeiro estudo da proposta do Trabalho Final de Graduação – 1º Semestre

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proposta final área do terreno: 4.700m² área de construção: 12.190m² C.A.: 2,6 T.O. 38% lotação: 2.438 pessoas programa: 1. Praça coberta do térreo da Avenida Jundiaí: espaço de transição do público para o privado; função de mirante em direção à Avenida Nove de Julho; espaços para sentar; local para organização de saraus literários e feiras de livros.

2. Praça intermediária: área de contemplação sem uso definido para apropriação do espaço público através de acontecimentos espontâneos; patamar intermediário que conecta as escadarias para as ruas de cima e de baixo.

3. Recepção entrada

e

hall

de

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4. Acervo:

concentração;

- Mídias impressas (biblioteca): 100.000 volumes divididos em Hemeroteca/Periódicos, Banco de Imagens, Obras Gerais, Literatura, Referências e Gibiteca;

- Mesas para notebook; - Digitalização / Gravação;

- Almoxarifado 6. Sanitários

- Acesso à internet; - Espaços de estar para leitura descontraída;

7. Café

5. Administração:

8. Auditório para palestras e exibição de filmes

- Diretoria;

- Foyer

- Secretaria;

- Palco

- Setor Infantil;

- Espera;

- Plateia

- Guarda Volumes;

- Reuniões;

- Camarim

- Balcão de empréstimo;

- Serviços internos;

- Área técnica

- Terminais de consulta;

- Materiais de limpeza;

- Sanitários

- Espaços para leitura de livros;

- Entregas e envios;

- Tradução simultânea

- Terminais de computadores para leitura de mídias;

- Restauro e encadernação;

- Projeções

-

- Depósito de lixo

- Mídias audiovisuais (midiateca): 200.000 mídias divididas por Filmes, Documentários, Vídeos, Vídeo-aulas, Áudios, Músicas, Aprendizado de línguas, Enciclopédias, Cursos e Imagens.

Salas

de

estudo

de

alta

- Segurança

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9. Espaço para exposições temporárias com parede cega alta para projeções 10. Salas para capacitação

oficinas

13. Ático - Casa de máquinas - Reservatório

de

11. Circulação vertical - Escada principal central; - Elevador social; - Elevador de serviço e carga; Escada de enclausurada

emergência

- Escada de emergência aberta; 12. Estacionamento - Automóveis - Bicicletas - Bolsão para Carga/Descarga

Imagem. Distribuição do programa

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diagramas | partido arquitet么nico

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implantaçþes

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plantas

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cortes

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elevaçþes

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detalhes

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perspectivas

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maquete fĂ­sica

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considerações finais A cidade é o palco da interação social. A arquitetura tem o importante papel de estabelecer um equilíbrio dinâmico entre o homem e o ambiente que o rodeia. Desta forma, o indivíduo desenvolve um sentimento de pertencimento ao mundo. A qualidade de vida é gerada por meio da apropriação dos espaços; um espaço sem relações sociais é apenas paisagem, é um cenário morto. Desde a Antiguidade sabe-se o valor do espaço coletivo e da vida pública. Com o modernismo, a cidade foi separada por funções, desconsiderando os aspectos psicológicos e sociais, e o homem foi perdendo sua relação com a esfera pública. A situação só piorou com a dominação inadequada de automóveis e abertura de vias expressas. Com o enfraquecimento da identidade urbana, a cidade torna-se um objeto de consumo definido por interesses privados de organizações empresariais, que inicia uma série de produções de espaços excludentes e privatização do espaço público. A segregação espacial e social aumenta a violência e o medo de se viver na cidade, intensificando o quadro de seu abandono. Com o desenvolvimento da tecnologia e dos meios de comunicação, o espaço doméstico torna-se mais atraente para prática do lazer do que os espaços públicos. Como resposta a esses fenômenos, a arquitetura contemporânea vem montando estratégias para retomar a cidade como lugar de encontro. O resgate ao espaço público possibilita o resgate dos valores coletivos, e uma pequena intervenção deste tipo tem o poder de transformar a cidade, agindo como uma acupuntura urbana. Essa intervenção pode ser feita não apenas através da produção de novos espaços público, mas também com a coletivação de espaços privados. O importante é que o edifício se abra para a rua de modo que passe a sensação de pertencer à cidade e aos cidadãos. O exercício de projeto apresentado não tem a intenção de reverter o quadro de problemas da cidade, mas sim de ser uma alternativa de reflexão, de mostrar uma nova possibilidade de se viver no meio urbano. Neste trabalho, foram abordados alguns critérios de qualidade do espaço para criação de espaços de convivência. Como experimentação, tais critérios foram rebatidos no projeto proposto:

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- Liberdade: estar dentro olhando o fora, estar fora olhando o dentro, ter a liberdade de ir para dentro ou para fora, se relacionar com os fluxos e fixos, tudo isso cria condições para a apropriação do lugar, de experimentar acontecimentos e agregar função social ao espaço. Através dos recortes de vazios no projeto é possível estabelecer essa relação espacial do dentro com o fora: é possível passar pela praça do térreo superior e enxergar pelo vazio central o que acontece nos espaços internos; é possível entrar no espaço aberto do projeto para fazer uso de suas escadarias e chegar na parte de fora dos limites do terreno; é possível se deslocar do bloco de circulação vertical ao bloco de acervo, diferentes espaços fechados, através de passarelas em um espaço aberto. O projeto oferece liberdade para caminhar para dentro, para fora ou simplesmente para a permanência. - Incentivo ao contato visual e auditivo: a todo momento o projeto busca se abrir ou se relacionar com o espaço externo de modo que incentive o contato entre as pessoas, sem criar barreiras físicas, estimulando a velocidade baixa através da priorização ao pedestre e diferentes ambientes que se orientam de frente, como os acervos voltados para os salões de leitura. - Agrupamento: incentivo ao agrupamento de pessoas ao oferecer espaço para diversas atividades coletivas e espaço público. - Integração: ao relacionar atividades culturais distintos – midiateca, biblioteca, auditório, exposições, café - em um mesmo espaço, dá abertura à vinda de pessoas distintas e promove a integração entre elas. O próprio caráter difusor de conhecimento da midiateca tem o poder de atrair pessoas de interesses diferentes a um mesmo local. - Atração: O espaço público do projeto é bem aberto e acessível. A entrada aos ambientes internos se dá de maneira fácil, sempre precedida por uma grande praça que define a transição do público ao privado. Os espaços abertos são funcionais a partir do momento que servem como passagem/ transposição da quadra e mirante, atraindo as pessoas para seu uso.

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- Abertura: Vazios e uso de vidro dão transparência ao edifício, de modo que as pessoas consigam ver o que se passa no espaço e sintam interesse em entrar. O térreo se abre totalmente, integrando-se à rua de maneira acessível. - Caminhar: o partido arquitetônico baseado em direcionamento de fluxos urbanos, além da possibilidade dos deslocamentos internos entre os blocos do projeto, permitem um alto grau de liberdade para caminhar pelo projeto. - Estar de pé: a variedade de visuais internas e externas possibilitam à pessoa que está de pé desfrutar o ambiente enquanto espera algo ou alguém. - Sentar-se: O espaço público das praças conta com bancos e lugares secundários para sentar, como as escadarias e muretas que limitam os jardins. A localização dos assentos é variada, com a opção de sentar-se exposto ao sol ou em áreas sombreadas pelas árvores. A inserção na cidade parte do entendimento do sitio, seus fixos e fluxos e identificação das potencialidades de novas conexões. O edifício se projeta em conjunto com a nova topografia artificial criada em forma de escadarias. O caráter de espaços que oferecem a oportunidade de permanecer ou articular caminhos gera qualidade na cidade contemporânea definida por espaços fragmentados. Através dos vazios busca-se gerar novas espacialidades e percursos que reforcem essa interligação com o entorno. O desenho destaca a integração com a cidade ao se abrir com generosidade e convida os cidadãos a entrarem no projeto juntamente com a continuidade do passeio público.

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anexos CÁLCULO DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA RESERVATÓRIO .................... 195.040l/dia (2.438x80l) – 1000l=1m³ 30% superior: 15,5m³ 70% inferior: 180m³

CÁLCULO DE CAPACIDADE DE ACERVO - MÍDIA IMPRESSA: LIVROS E REVISTAS Imagens, Referências, Periódicos, Infantil, Gibiteca, Literatura ,Obras Gerais - MULTIMÍDIIA: Recursos audiovisuais em CDs, DVDs, Filmes, Dispositivos mutimeio (combinação de texto, arte gráfica, som, animação e vídeo), Publicações eletrônicas, Programas de computador, CD-Rom, Aprendizado de línguas. Referência para cálculo de capacidade: - Multimídia: Móvel modular de 0,70Lx1,30h – 640 mídias (280 CDs, 180 DVDs, 180 CD-Rom) - Volumes impressos: 1,00Lx2,00h – 40 livros x 5 prateleiras = 200 volumes

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EXPERIMENTAÇÃO: DIMENSIONAMENTO DE PROTEÇÃO SOLAR

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MEDIÇÃO 1 – EXTERNA: 5.610 lux

MEDIÇÃO 2 – INTERNA FRENTE – 405 lux PAVIMENTOS DE PÉ DIREITO MAIS BAIXO

MEDIÇÃO 3 – INTERNA CENTRO – 3.657 lux

MEDIÇÃO 4 – INTERNA FUNDO – 1.115 lux

POÇO ILUMINADO POR VAZIO NA COBERTURA

PAVIMENTO COM PÉ DIREITO DUPLO

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DADOS DO MUNICÍPIO DE JUNDIAÍ/SP: - PIB municipal: R$ 13,96 bilhões - Renda Per Capita estimada: R$ 32.397/ano - 46,8% da população pertencem às classes A e B - Localizada no interior de São Paulo, próximo à capital (57.7km), Campinas e Sorocaba; - População: 370.126 habitantes (dados Censo 2010 - IBGE); - Conurbação consolidada com Várzea Paulista, Campo Limpo Paulista, Itupeva, Cabreúva, Louveira e Jarinu, totalizando 700.000 habitantes (forma a chamada Aglomeração Urbana de Jundiaí); - 7º maior município fora da Grande São Paulo; - Nome Jundiaí como referência ao rio Jundiaí (signficado: rio dos jundiás, uma espécie de peixe de água doce); - 23º maior PIB do Brasil (2008); - 14ª posição em índice de desenvolvimento humano do país; - 5ª cidade com maior qualidade de vida do Brasil; - Paisagem marcada pela Serra do Japi (grande área de Mata Atlântica nativa); - Relevo muito acidentado devido à serra; - Conhecida como Terra da Uva e do Morango, com 27.000 hectares de área cultivada;

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- Instalação de parques temáticos nos municípios próximos, como incrementação da economia local, pela indústria do lazer (Hopi Hari e Wet’n Wild); - Polo de empresas de logística com armazéns, empresas de alimentação, bebidas, cerâmica, autopeças, metalurgia, borracha, plásticos, embalagens e bens duráveis, química, papeleira, centrais de atendimento e de gases. HISTÓRIA - Até o séc. XVII habitada exclusivamente por povos indígenas de origem tupi; - 1651: elevação à categoria de vila com a inauguração de uma capela dedicada à nossa senhora do desterro; - 1695: fase de estagnação da economia com o apogeu do ciclo de mineração; - 1785: fortalecimento da agricultura (cana de açúcar, feijão, cereais, algodão e café) e fruticultura; - 1865: elevação à condição de município - 1890: recebimento de grande massa de imigrantes italianos, que permanece e caracteriza a região até hoje; - inauguração da estrada de ferro Santos-Jundiaí no fim do séc. XIX; - 1ª metade do séc. XX: descoberta da vocação industrial – o município possui um dos maiores parques industriais da América Latina; TRANSPORTE - CPTM – linha rubi (estação da Luz/SP – Jundiaí);

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- Aeroporto; - Rodoviária; - Terminais de transporte urbano: terminal Eloy chaves, Colônia, Cecap, Hortolândia, Vila Arens,Vila Rami e Central; PARQUES E ÁREAS DE LAZER - Parque da Uva – Comendador Antonio Carbonari; - Parque da Cidade; - Parque do Corrupira; - Jardim Botânico; - Jardim e Parque botânico Eloy Chaves; - Reserva Biológica da Serra do Japi; EDUCAÇÃO - Faculdades públicas: Fatec, Faculdade de Medicina de Jundiaí; - Faculdades particulares: Centro universitário Padre Anchieta, Escola Superior de Educação Física de Jundiaí, Anhanguera, Pitágoras, Ciências Gerenciais, Professor Luiz Rosa, Paulista, Uninter; - Escolas Técnicas: Escola Técnica Vasco Antonio Venchiarutti, Agrícola Benedito Storani, Senai e Senac;

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ESPAÇOS CULTURAIS - Complexo educacional e cultural Argos: com a biblioteca, centros municipal de educação de jovens e adultos, formação e capacitação permanentes do magistério, informática, línguas e emissora de TV educativa; - Gabinete de leitura Ruy Barbosa: pinacoteca, biblioteca, documentos históricos, cinemateca, auditório multimídia, cybercafé e cursos; - Casa da Cultura: atividades de música,dança, pintura e literatura; - Teatro Polytheama: patrimônio histórico, cultural e arquitetônico de jundiaí; - Sala Glória Rocha: antigo mercado municipal, hoje realiza musicais e teatros e é sede do cineclube; - Atelier Casarão: espaço de teatro, música, cultura, poesia e manifestação artística; - Tradição teatral com grupos de destaque que movimentam a cena cultural da cidade: Cia Paulista de Artes, Grupo performático Éos, Cia Na Ponta da Língua; MUSEUS - Museu Histórico e Cultural de Jundiaí – Solar do Barão de Jundiaí; - Museu ferroviário – Companhia Paulista; - Museu da Energia de jundiaí; - Museu Barão de Serra Negra – fazenda n. Sra. Da conceição; - Centro de Memória do Esporte Jundiaiense (Centro Esportivo Bolão);

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- Museu Sacro Diocesano Cardeal Agnelo Rossi; - Museu do Exército – 12º G.A.C.; - Museu da Fazenda Ermida; - Espaço Cultural Museu do Vinho “Família Brunholi”; - Museu do Paulista Futebol Clube (sala de troféus) no estádio Jayme Cintra; - Adegas: Beraldo de Cale, Brunholi, Mazziero e Vinhos Castanhos.

COMÉRCIO - Centros de compras nos bairros: Centro, Vila Arens, Ponte São João, Vila Hortolândia, Avenida 9 de julho, vila rami e vila rio branco; - Shopping centers: Maxi Shopping (230 lojas + cinema), paineiras (70 lojas), Multimoda center (50 lojas) e JundiaíShopping (212 lojas); - Boulevard Beco Fino: complexo gastronômico com bares, restaurantes e baladas; EVENTOS DE DESTAQUE - Festa da uva: exposição de frutas e shows, no parque da uva, em anos pares, no mês de janeiro; - Festa do morango: como a festa da uva, mas no mês de setembro, em anos ímpares;

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- Festa italiana: no bairro da colônia, acontece desde 1987, em maio em junho, reunindo 100.000 pessoas de lugares diversos, inclusive italianos; - Baile do Havaí: festa tradicional no Clube Jundiaiense, em janeiro, para as classes média e alta da região; - Carnaval: desfile na Av. Prefeito Luis Latorre.

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Fabiane Sakai - TFG FAU-Mack