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A Viabilidade Construtiva do Bambu pela ótica do pensamento integrado e vivência da cultura construtiva da Colômbia no ritmo da bicicleta

Fabiana Ferreira de Carvalho Trabalho Final de Graduação | Escola de Arquitetura e Urbanismo | Universidade Federal Fluminense


A Viabilidade Construtiva do Bambu pela ótica do pensamento integrado e vivência da cultura construtiva da Colômbia no ritmo da bicicleta

Fabiana Ferreira de Carvalho Trabalho Final de Graduação | Escola de Arquitetura e Urbanismo | Universidade Federal Fluminense


Agradecimentos . OCAM (Laura e Lourdes) – pela oportunidade de participar do projeto para um Parque Estadual e aprofundar Aos mestres da EAU/UFF que foram essenciais na minha minha visão ambiental. Primeiramente, à minha coragem. Deixar para trás formação como pessoa e profissional. Em especial: . Equipe IBAM (Tiná, Rui Velloso, Ricarda, Jacira, Ricaruma outra carreira para me lançar numa nova faculdade . Leonardo Messentier, por ensinar sobre as cidades, do Moraes, Cristina Baratta, Helena Araújo, Jéssica Ojana foi uma arriscada, porém sábia decisão. política, sociedade, poesia e samba. e Gabriel Soares) – pela oportunidade de trabalhar com À família pelo apoio e amor incondicional nessa cami. Maurício Campbell, por sentir o encanto em projetar plano diretor e usar o conhecimento para planejar minha nhada em busca da felicidade. arquitetura e cenografia. vida. Ao Leo bici, meu amor, por ser o grande companheiro . Fernanda Sanchez, pelos ensinamentos sobre as enAo Valdo Felinto, por ser uma inspiração profissional de vida. Sinto muita gratidão por me ajudar a tornar esse trelinhas do desenvolvimento das cidades e nossa atu- desde o início da minha gradução. trabalho exatamente o que eu desejava, em especial, ação como ser-cidadão-profissional. Aos bambuzeiros do Brasil, por tanto me ensinarem, embarcar comigo nessa viagem de bike pelas terras co. Jorge Baptista, pelas deliciosas e alegres aulas de em especial: lombianas. Viver a realidade dos sonhos que se sonhápaisagismo. mos juntos é indescritível. . Lucio Ventania do CERBAMBU, por tanto me ensinar . Laura - sentimento de admiração da grandeza pessoal sobre a arte de trabalhar com bambu. A nova família que veio com o Leo. Muito obrigada e profissional. pela força. . Instituto Pindorama, pelo início desse caminho. . Sônia, professora e orientadora de pesquisa – pelo Aos amigos da arquitetura, em especial: . Vick Alves e Rita Bernabe, pela generosidade, carinho pensamento crítico, o olhar social ficou entranhado em e incentivo de trilhar esse caminho. Sinto muita gratidão. . Ivan Zanatta e Lucas Faulhauber, DACA e FeNEA – por mim. Ensinamento que guiam as escolhas de vida. me apresentar o movimento estudantil, onde me desenAos lindos e amados irmãos que o destino generosa. Werther, professor e orientador de TFG – pela visão volvi como ser humano e cidadã. Eterna gratidão mente me presenteou: Saulo, Karen, Naná, Fernanda, sobre paisagem, lugar, fenomenologia, viagens e pela . Flora Oliveira e Luana Damásio, por serem pontos Joana, Julia, Carol, Natalia -oo-, Zazá, Elisa, Thayná, Marajuda nessa importante missão de trabalho final. imensos de alegria em minha vida. celo, Broch, Dito... Aos trabalhos: . Lobão (Tiago Souza), por conversas multidimensionÀ música: Caetano e Betânia pela beleza da vida; Raul . Laboratório Arqviol – intensa experiência de comais sobre o mundo. pela lucidez, Udyana Bandha pela transcendência; Vinípreensão de políticas públicas e suas entranhas. Temas cius e Baden pelo romance. Aos amigos da turma 2009/01, em especial: muito duros, mas amaciados pela convivência dos amiÀ Colômbia, pela riqueza cultural e povo amoroso. Aos . Helena Freitas, por tantas conversas sobre as inqui- gos Juliane Baldow, Bruno Amdei, Sara Uchoa, Sonia amigos colombianos que foram preciosos nos ensinaetudes humanas, se tornou uma irmã e a melhor dupla Ferraz (orientadora) e Cristina Nacif (presença ilustre do mentos e que me ajudaram na realização desse sonho dos infinitos trabalhos. subsolo). de projeto final de graduação. . Raama Creveland, pela luz que trouxe aos meus dias. . José Costa – pela incrível oportunidade de trabalhar Ao Universo e suas sincronias. com maquete e afirmar que o trabalho manual e corpo. Thiago Miranda, pela parceria na construção dos Gratidão!!! ral é essencial pra mim. caminhos. Um breve agradecimento ao que foi primordial na realização desse trabalho.

. Patrick Kimani, pelo encanto queniano.


Sumário APRESENTAÇÃO

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INTRODUÇÃO

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VIABILIDADE CONSTRUTIVA ANATOMIA

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PROPRIEDADES MECÂNICAS

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PROTEÇÃO QUÍMICA

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PROTEÇÃO FÍSICA

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COLÔMBIA

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CONCLUSÃO

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

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APRESENTAÇÃO

“A história da arte mostra que a arquitetura sempre foi parte integrante fundamental no processo da criação artística como manifestação normal da vida. Ela engloba, portanto, a própria história da arquitetura, constituindo-se, então, por assim dizer, no “álbum de família” da humanidade. É através dela, através das coisas belas que nos ficaram no passado, que podemos refazer, de testemunho em testemunho, os itinerários percorridos nessa apaixonante caminhada, não na busca do tempo perdido, mas no encontro do tempo que ficou vivo para sempre porque entranhado na arte”. (LÚCIO COSTA, 2006, p. 17)


Ver a arquitetura como álbum de família da humanidade é um caminho para a compreensão dos tempos vividos. A partir da sua análise é possível identificar comportamentos sociais, estruturas de poder, dinâmicas econômicas, processos que permitem entender melhor uma sociedade. Numa projeção de 100 anos à frente, o que pensarão da sociedade de hoje? Que tipo de arquitetura refletirá o momento histórico atual? Para responder a essa pergunta, volto o olhar para a história e vejo uma intensa apropriação dos recursos naturais pelo homem. Desde os primeiros registos humanos há 40 mil anos, até a atualidade, das primeiras casas até a consolidação das cidades contemporâneas, a natureza foi o suporte e a fonte de materiais. Esse tipo desenvolvimento intensivo na extração de recursos vem desequilibrando severamente os sistemas naturais. Uma comparação de 12 importantes atividades humanas com os 12 principais componentes ambientais feita por um estudo de três cientistas da Stockholm University, Australian National University e International Geosphere-Biosphere Programme mostra a dimensão do impacto humano no planeta, especialmente após a década e 1950 (figura 1). Neste período houve um forte processo de urbanização, grande aumento populacional, do uso de energia e água, dos transportes, das telecomunicações, dos desastres ambientais. Percebe-se que após esta data o ritmo de extração de recursos está claramente além dos limites naturais de sua restauração, o que traz consequência graves para o planeta. A alteração dos ciclos naturais é tamanha que uma 6

Apresentação

corrente de pesquisadores sustenta a teoria de que desde 1950 entramos numa nova era geológica, o Antropoceno. A marca principal deste novo momento mundial é a constatação de que o homem se tornou uma força geológica em escala planetária. A criação desta nova era geológica para caracterizar o momento em que vivemos coloca a ação humana como a principal fonte de alterações dos ciclos da Terra. Algumas iniciativas hoje buscam mensurar e dar visibilidade ao nível de alteração que o modo de vida atual causa ao planeta. Através de uma dessas iniciativas foi gerada a metodologia da Pegada Ecológica, que relaciona o consumo de recursos e a produção de resíduos de uma pessoa ou grupo social à capacidade de regeneração dos sistemas naturais. Segundo esta pesquisa, atualmente a Terra necessita de 1,5 ano para recuperar o que foi consumido em 1 ano por seus 7 bilhões de habitantes, no que diz respeito à capacidade de suporte da biosfera, atmosfera, hidrosfera e litosfera (HERZOG, 2013). Este dado ressalta a sobrecarga dos sistemas naturais, em um processo que tende a romper os limites de resiliência 1 da Terra. “O ecossistema terrestre corre sério risco de perder a resiliência e mudar de patamar. Poderá passar a funcionar de outra maneira, chegando a se tornar extremamente hostil para manter a vida humana na terra. As previsões de aumento nas temperaturas médias do planeta variam, mas mesmo no cenário mais otimista, os prognósticos são extremamente graves. A diferença de 1 “Resiliência é a capacidade de um sistema absorver impactos e manter suas funções ou propósitos, isto é, sobreviver ou persistir em um ambiente com variações, incertezas.” (HERZOG, 2013, P.79)


temperatura média da era glacial para o presente é de apenas 3 graus Celsius. Portanto, é urgente levarmos a sério e buscarmos formas sustentáveis na quais a biosfera tenha o devido reconhecimento e valorização para manter a vida como conhecemos.” (HERZOG, 2013, p.87)

Desde a década de 70, eventos mundiais acontecem para debater esses prognósticos e tentar encontrar caminhos futuros. Dentre estes encontros promovidos pelas Nações Unidas, o principal marco na discussão do desenvolvimento sustentável2 foi a Rio – 92. Com grande participação de chefes de estado e presença massiva de ONGs (ainda que em um evento paralelo), o evento trouxe muita atenção da mídia e do público em geral para o tema ambiental. Os representantes dos 178 países presentes elaboraram a Agenda 21, na qual estão descritos 120 esboços de programas e 1000 propostas (OLIVEIRA, 2006). Esses encontros internacionais alertam sobre os possíveis futuros do desequilíbrio ambiental em prol do desenvolvimento. Eles ganham importância ao recomendarem que chefes de estado repensem a forma como estão conduzindo as práticas de desenvolvimento das cidades. Em janeiro de 2015 foi realizada a reunião anual do Fórum Econômico Mundial, que incluiu a discussão sobre a nova era “Antropoceno”. Nesse contexto penso que se nós tivermos esse entendimento global e conseguirmos fazer diferente nas nossas profissões, atitudes do dia a dia e nas políticas de governo, poderemos frear esse processo e seguir por

Figura 01: Grafico impactos ambientais da Antropoceno. The trajectory of the Anthropocene: The Great Acceleration (STEFFEN, 2014)

DATA E LUGAR

1972 - ESTOCOLMO

1983 - NORUEGA

1992 - RIO DE JANEIRO

2000 - BRASIL

2012 - RIO DE JANEIRO

2015 - SUIÇA

I CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE O MEIO AMBIENTE

ASSEMBLÉIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS

RIO - 92

PNUD + MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE

RIO + 20

FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL

DOCUMENTO ELABORADO

TESE DOS LIMITES DO CRESCIMENTO

RELATÓRIO FINAL NOMEADO “NOSSO FUTURO COMUM”

AGENDA 21

CIDADES SUSTENTÁVEIS

O FUTURO QUE QUEREMOS

PONTO RELEVANTE AO TEMA

POSSIBILIDADE DE DEGRADAÇÃO COMPLETA DO MEIO AMBIENTE BASEADO NO SISTEMA DE DESENVOLVIMENTO DO SEC XX

EVENTO

TRATADOS E ACORDOS PARA PROPORCIONAR O EQUILÍBRIO ECOLÓGICO

PROPOSTAS PARA O DESENVOLVIMENTO HUMANO PROPOSTAS PARA AVANÇAR RENOVAÇÃO DO SUSTENTÁVEL EM 6 ÁREAS, NA SUSTENTABILIDADE DAS COMPRIMISSO POLÍTICO DENTRE ELAS: MUDANÇAS NA CIDADES BRASILIERAS EM COM DESENVOLVIMENTO INDUSTRIA DA CONSTRUÇÃO 10 ANOS SUSTENTÁVEL CIVIL

NÃO DIVULGADO ATÉ O FECHAMENTO DESTE TRABALHO

DISCUSSÃO SOBRE ANTROPOCENO

Figura 02: Principais eventos ecológicos. Fonte: dados OLIVEIRA, 2006, weforum.org e rio20.gov.br Elaboração própria.

2 “Desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações. É o desenvolvimento que não esgota os recursos para o futuro.” wwf.org.br acessado em 23 de janeiro de 2015 Apresentação

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outro caminho mais equilibrado com os sistemas da natureza. Seguindo essa ótica, como está o cenário da produção arquitetônica atual? Dados da Associação Nacional de Arquitetura Bioecológica mostram que o setor da construção civil é o responsável pelo consumo de 40% dos recursos naturais, 34% da água e 55% da madeira não certificada, além de ser o gerador de 67% da massa total de resíduos sólidos urbanos (SANTANA, 2013). Um raio X da forma produtiva mais disseminada mostra que os principais materiais utilizados, como o cimento, aço, tijolo e vidro, têm como base atividades de extração mineral. Os processos produtivos destes materiais, envolvendo as atividades extrativas, são altamente impactantes ao meio ambiente, incluindo a destruição de habitats naturais, poluição do ar, água, solo e, consequentemente, causam graves impactos à saúde humana e à fauna e flora local. São processos que desestabilizam vários sistemas naturais. Os minerais brutos passam por indústrias de transformação que liberam poluentes e gases do efeito estufa, além de demandarem o consumo de muita energia até se tornarem os materiais construtivos prontos para o uso. Essas produções são realizadas numa lógica de ciclo aberto, em que os produtos transformados quimicamente não conseguem se reintegrar facilmente à natureza. Desequilíbrio semelhante ocorre com a extração de madeira, já que o ritmo de derrubada de árvores é muito superior à capacidade de regeneração das florestas. O reflorestamento, quando ocorre, em geral utiliza uma 8

Apresentação

única espécie em grandes áreas, gerando os “desertos verdes”, que poucas semelhanças guardam com verdadeiras matas diversificadas. Então, como o arquiteto urbanista pode atuar e intervir nesse modelo de produção para que não contribua com essas estatísticas ambientais? Inúmeros são os caminhos. Uma abordagem muito relevante é o exercício da visão sistêmica. Ao projetar é preciso pensar em todo o ciclo de vida e nos sistemas de suporte ao objeto de estudo. Esta forma de raciocínio induz a uma produção mais consciente dos resultados e consequências das decisões. A visão sistêmica leva a um pensamento de ciclos fechados, no qual a geração de resíduos e demanda de energia é a menor possível, seguindo o desenho permacultural, onde um resíduo vira insumo para outra atividade. Por exemplo, os materiais naturais, como o barro, palha, ceras, bambu, madeira após o uso ou em um momento de descarte, são reabsorvidos pela natureza e se decompõem, viram terra. O mesmo pensamento é válido para o tratamento das águas das edificações. Em um sistema desenhado para o reuso sempre que possível, o consumo de água limpa e a geração de efluentes se reduz drasticamente. Da mesma forma podem ser trabalhados os resíduos orgânicos, iluminação natural, ventilação etc. Bill Mollison e David Holmgren conceituaram a permacultura como as atividades que têm por ideal a preservação dos sistemas, a partir de um design para a criação de ambientes humanos (jardins, vilas, aldeias e comunidades) ambientalmente sustentáveis, socialmente justos, produtivos, harmônico com a natureza e financeiramente viáveis, com desperdício zero.


Esta filosofia trabalha com o entendimento do funcionamento do planeta como um organismo, em que todos os fluxos e ciclos naturais, somados à ação humana, mantenham os sistemas equilibrados e duradouros para as próximas gerações. Cecília Herzog aplica uma visão semelhante para o planejamento das cidades, decisões políticas, sociais e ambientais. “Hoje sabemos que não existe mais natureza intocada: os efeitos das ações humanas chegaram a todos os rincões do planeta, mesmo em lugares mais inóspitos. Por isso, é preciso ter um pensamento sistêmico, considerar que vivemos em sistemas interdependentes ecológicos e sociais. Estamos literalmente no mesmo barco, navegando no universo.” (HERZOG, 2013, p. 76)

Outro exemplo é trazido pelo arquiteto Bill Mc Donough e pelo químico Michael Braungart, que no livro Cradle-to-cradle (do berço ao berço) representam a hipótese de cidades com seus ciclos fechados, de forma que tudo o que é produzido e consumido é reaproveitado, eliminando a geração de resíduos (HERZOG, 2013). Acredito que na elaboração de um projeto, seja urbano e/ou arquitetônico, deve-se pensar quais fluxos serão gerados, desde a procedência do material desejado, passando pela escolha de terreno, localização do objeto, resíduos produzidos, cronograma, etc, até qual posicionamento sócio-político-estético-ambiental tais escolhas representam (figura 3).

Resíduos orgânicos: adubo, biogás, etc. Águas limpas e fontes locais

Comida orgânica produção local

Energia não poluente local

Biodiversidade

CIDADE REGENERATIVA Transporte limpo

Produtos insumos locais

Bairros multifuncionais

Mínima disposição de resíduos

Mínima emissão de gases efeito estufa

Esgoto tratado no local - reuso Resíduos inorgânicos: reciclagem, reaproveitamento das águas e recursos naturais

Figura 03: Cidades regenerativas - ciclo fechado. Retirado do livro Cidade para todos (re) aprendendo a conviver com a natureza de Cecília Herzog, p. 95.

E vou além, acredito que essas escolhas do campo Apresentação

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racional, influenciam nos resultados do campo sensorial, que considero um dos resultados mais interessantes da produção arquitetônica.

nas mais conturbadas. Então, conseguir propiciar o bem estar, o relaxamento e a sensibilidade através da construção é um contributo ao desenvolvimento humano.

Eu sinto fascínio por poder ter a capacidade de influenciar nos sentimentos e sensações pessoais a partir de uma construção realizada. É gratificante poder ajudar o “usuário” a desenvolver habilidades, dons e talentos próprios. Esta atuação é possível em diversos níveis: numa simples organização de ambiente interno que ajudará um escritor a compor suas obras; na construção de uma casa que inspire uma família a viver seus propósitos; num cenário de teatro que ajudará os atores a emocionar o público com suas histórias; num museu que seja um local que transborde conhecimento; num transporte eficiente que torne a rotina agradável; entre tantos outros exemplos passíveis de análise.

Portanto, se a arquitetura é um álbum de família da humanidade, vejo que a arquitetura que representa o momento atual é uma produção consciente dos desafios ambientais, que apresente soluções inovadoras com respeito a natureza e que estimule a sensibilidade das pessoas para relações humanas mais equilibradas.

Penso que esses objetivos vão além de um desenho esteticamente interessante. A escolha do material de construção faz diferença nas sensações humanas, pois como toda matéria, possui energia e memória. O lugar de onde ele foi tirado, como foi tratado, modificado, transportado, construído, são elementos que ficam entranhados no material. Seguindo essa lógica, materiais que passam por poucos processos de transformação são energeticamente mais fluidos. Portanto, os materiais naturais são mais agradáveis ao convívio humano, é gostoso tocar numa parede de barro, e bom passar a mão numa coluna de bambu, é aconchegante estar num ambiente construído com esses recursos. Em tempos de rotina acelerada como os de hoje, o estresse se tornou uma doença comum, os corpos estão cada vez mais rígidos e tensos e as relações huma10

Apresentação

É neste cenário que proponho o uso do bambu como um material construtivo. O bambu não precisa passar por indústria de transformação para ser utilizado em construções, são poucas etapas desde a sua retirada até a sua incorporação na obra e eventual descarte. A mata de bambu e o seu adequado manejo apresentam características ambientalmente benéficas. A presença de um material natural no ambiente construído, (re)estabelece o contato com a natureza, estimulando a sensibilidade. E, o valor estético do bambu, potencializa / confirma o seu uso. Com olhar arquitetônico construtivo numa ótica de pensamento integrado, abordo neste trabalho a anatomia da planta, suas propriedades mecânicas e métodos de proteção que garantam durabilidade. Esses assuntos são primordiais para as decisões de projeto e execução de uma boa obra. Como parte do processo de pesquisa, realizei uma viagem de bicicleta por três meses pela Colômbia, onde há uma cultura construtiva em bambu desenvolvida desde seus ancestrais. O estudo feito ilustra que é viável obter uma cadeia produtiva rentável com esse tipo de atividade construtiva, servindo de inspiração para o Brasil.


INTRODUÇÃO

“Um homem pode acomodar-se em uma casa de bambu sob um teto de bambu, em uma cadeira de bambu a uma mesa de bambu, com um chapéu de bambu em sua cabeça e sandálias de bambu em seus pés. Ele pode, ao mesmo tempo, ter em uma das mãos uma tigela de bambu, na outra mão pauzinhos de bambu, e comer brotos de bambu. Quando ele terminar sua refeição, que foi cozida em fogo de bambu, a mesa pode ser lavada com um tecido de bambu, e ele pode abanar-se a si próprio com um leque de bambu, tirar uma siesta em uma cama de bambu, deitado sobre uma esteira de bambu, com sua cabeça repousando sobre um travesseiro de bambu. Seu filho pode repousar num berço de bambu, brincando com um brinquedo de bambu. Ao levantar-se ele fumaria um cachimbo de bambu e, com uma caneta de bambu, escreveria em papel de bambu, ou transportaria suas coisas numa cesta de bambu suspensa por uma vara de bambu, com um guarda-chuva de bambu sobre sua cabeça. Ele pode então fazer uma caminhada sobre uma ponte suspensa de bambu, beber água de uma concha de bambu, e coçar-se com uma raspadeira de bambu”. (Ode ao bambu - Geil, 1971, p.268)


O poema ilustra, de forma quase cômica, como o bambu pode ser apropriado de diversas formas sem a necessidade de passar por processos de industrialização. Desde o uso mais simples, como um copo, até os mais complexos, como uma ponte, é possível trabalhar o recurso e transformá-lo no objeto desejado. O mesmo raciocínio é valido na produção arquitetônica, o bambu já vem pronto da natureza, só é preciso cortar, limpar e construir. Alguns cuidados podem ser aplicados para aprimorar o desempenho e aumentar a durabilidade, mas não são essenciais. Algumas sociedades ancestrais utilizavam o bambu em sua cultura, tanto como matéria prima para uma infinidade de usos quanto como símbolo de ensinamentos espirituais. Segundo, Pereria (2008): • China – o bambu é símbolo da longevidade e o “amigo das pessoas” • Vietnã – representa o símbolo de renovação das gerações

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Introdução

eram questionadas sobre a razão desse comportamento, costumavam responder “porque é bom, é gostoso” e novamente questionadas se um pilar de concreto armado dava a mesma sensação, a resposta era unânime: “não’. A sensação de aconchego pode ser explicada, cientificamente, pela presença de silício em sua composição, o que proporciona ao bambu a capacidade de ressonância. O toque de uma pessoa faz com que o bambu desperte reações químicas na pele e ossos, estimulando receptores neurosensoriais. Segundo Betty Feffer (PEREIRA, 2008), o bambu pode se tornar um instrumento de ressonância curativa e transformadora, podendo ser utilizado para fins terapêuticos. Pela visão da Yoga (PEREIRA, 2008), o bambu é uma das plantas que mais absorvem Prana, que é a força da vida que flui através da natureza e do universo. A quantidade dessa energia vital presente no ambiente construído, torna-o um lugar mais saudável de se estar.

• Japão – considerado a barreira sagrada contra o mal

Além das questões da sensibilidade construtiva, a (re) apropriação do bambu como elemento construtivo é interessante na ótica ambiental, por alguns fatores:

• Filipinas, Malásia, Japão, Havaí – sustentam o mito de que a humanidade surgiu do colmo de bambu.

• Ser um recurso com baixo impacto ambiental ao longo de sua cadeia produtiva (KUEHL1, 2012).

Do ponto de vista sensitivo, tais referências espirituais, vindas de diversas culturas, sinalizam que este é um material adequado para uma construção mais saudável. O bambu utilizado na obra carrega consigo a memória e sabedoria da natureza, que estarão vivos e presentes no espaço construído.

• Possuir rizoma ao invés de raiz. Rizoma é a trama subterrânea que sustenta o bambuzal. Constantemente, há brotação dos novos colmos oriundos da reprodução assexuada dos rizomas. Eles contêm gemas que podem originar brotos ou novos rizomas, o que faz com que o bambuzal esteja em permanente crescimento. Ao tirar

Numa obra de bambu que realizei em dezembro 2014 – janeiro 2015 era impressionante como as pessoas ficavam minutos abraçadas aos pilares de bambu. Quando

1 Publicado pela International Network for Bamboo and Rattan (INBAR), que é uma organização intergovernamental dedicada a melhorar as condições de vida dos produtores e usuários do bambu e rattan dentro do contexto de um meio ambiente sustentável.


um colmo, a planta continuará viva, pois é como se fosse um galho, é só um manejo. Portanto, o bambu é considerado um recurso renovável. • Ser um material que não necessita passar por um processo industrial para ser utilizado. Preparação para uso com baixo consumo de energia e água e sem necessidade de poluentes. • Possibilitar uma obra limpa com pouco resíduos, o pouco que gera pode ser reabsorvido pela natureza. • Ser uma planta de crescimento rápido, seu tamanho final é atingido até 1 ano após a brotação. Seu amadurecimento é em torno dos 4 anos e seu ciclo de vida é aproximadamente de 8 anos. Esse processo faz com que a captação de CO2 seja grande, ajudando na redução do efeito estufa (KUEHL, 2012). • Apresentar apresenta alto rendimento por área. Como os colmos nascem rápido e perto entre si, é grande o volume de biomassa disponível. Algumas espécies se tornam as maiores captadoras de CO2 das plantas já conhecidas (KUEHL, 2012).

I

II

III

Figura 04: CO bambu aparece em 3 regiões do planeta: I - Américas; II - África; III - Ásia. Fonte de dados: http://www.eeob.iastate.edu/research/bamboo/maps.html acessado em 11 de fevereiro de 2015

• Ser uma planta indicada para o reflorestamento, restauração de áreas degradadas e diminuição de processos erosivos do solo devido ao seu rápido crescimen-

Figura 05: Greenschool em Bali - Indonésia, Ásia. Fonte: inhabitat.com acessado em 21 de fevereiro de 2015.

Figura 06: Centro de recursos comunitários em Moçambique, África.

Fonte: Arquitectura Mixta

13 Introdução Figura 07: Catedral Provisória Nuestra Señora de la Pobreza Colômbia, América do Sul. Fonte: mom.arq.ufmg.br acessado em 21 de fevereiro de 2015.


to e a trama de raízes (rizoma) que ajuda a segurar o solo (KUEHL, 2012). Atualmente, há registros de bambu em grande parte do território do planeta e o material tem sido utilizado por diversas sociedades, segundo YANG (2010). As fotos e mapa (figuras 04, 05, 06 e 07) ilustram essa realidade. Alguns usos atuais são resquícios de saberes ancestrais que foram passados de geração em geração. Certamente, sofreram modificações, mas estão vivos até hoje, como é o caso da Colômbia e a China. A Colômbia apresenta seus primeiros registros de construção em bambu no ano 1000 com os índios Quimbayas. Na região habitada por eles, havia uma abundância de matas de bambu, então usaram esse recurso para desenvolver suas casas, pontes, utensílios domésticos. O saber construtivo foi passado para os espanhóis e chegou até os tempos atuais (LOPEZ, 2003). Nos últimos quinze anos, a arquitetura colombiana tem se destacado com a atuação de arquitetos e engenheiros especializados em obra de bambu com um olhar contemporâneo. Esse novo momento é ajudado por profissionais de pesquisa que desenvolvem o conhecimento cientifico da planta e que juntos elaboraram a norma colombiana para construção em Guadua (espécie de bambu mais usada).

dade, incentiva o homem a desenvolver um caráter nobre, a ser direito e flexível; desafiar as dificuldades e adversidades. Influencia no senso estético, na moralidade e em várias atividades como construção, agricultura, indústria, irrigação, instrumentos musicais, literatura, pintura, artesanato, jardinagem, religião, folclore entre tantas outras. A China mantém suas construções antigas em bambu, mas não há uma produção arquitetônica significativa atual. A planta tem sido apropriada pela indústria para desenvolvimento de laminados para pisos, paredes,

Figura 09: Piso laminado chinês importado por Induguadua na Colômbia. Foto: autora

A China, foi a primeira civilização a dominar o uso do bambu de que se tem registro, segundo o YANG (2010), há evidências de sua utilização que datam de 7.000 anos atrás. Recentemente, em 1954, foi achada uma poesia de 6.000 anos, em que aparece o bambu sendo utilizado por tal civilização. Nessa cultura o bambu está associado à espirituali14

Introdução

Figura 10: Andaimes na China. Foto de Juliana Alva.


móveis e de utensílios domésticos (que são facilmente encontrados no mercado brasileiro). Outra intensa utilização é em andamies nas construções. As atividades industrias de bambu são controvérsas. É uma alternativa ao uso intensivo da madeira, evitando, assim, o desmatamento de árvores que demoram muitos anos para crescer. No entanto, as plantações podem ser tornar verdadeiras monoculturas e a indústria necessita de muita energia para funcionar e muitas vezes utiliza produtos químicos agressivos no processo produtivo. O Brasil não desenvolveu uma cultura construtiva em bambu, apesar de haver um uso esse recurso como material construtivo. Diferente da região da Colômbia citada, o território brasileiro não tinha (e não tem) predominância de bambu, suas matas apresentam grande diversidade de madeiras. As técnicas construtivas eram similares nos dois países, usavam madeira ou bambu e palha até a chegada dos europeus, que incorporaram o barro nas construções. (WEIMER, 2005) Hoje em dia, por influência da China e Colômbia, vem crescendo a quantidade de arquitetos e construtores capacitados para realizar obras em bambu no Brasil. Os institutos e laboratórios acadêmicos têm tido grande importância nesse processo, os primeiros por ensinarem através de cursos as técnicas construtivas e os segundos por estudarem cientificamente as propriedades físicoquímica-mecânica das espécies presentes no território brasileiro. Acredito, que em alguns anos, o Brasil poderá desenvolver uma norma construtiva que acentuará a evolução dessa atividade através de sua regulamentação.

bambu no Brasil. Visitados: Cerbambu (Centro de Referência do Bambu) – Ravena, MG. Coordenado pelo mestre Lucio Ventania, que ministra cursos de construção e movelaria em bambu. Pindorama – Friburgo, RJ. Coordenado por Nilson Dias, que oferece curso de construção com o engenheiro Bruno Salles e de movelaria com o professor Danilo. Escola de Bioarquitetura (EbioBambu) – Mauá, RJ. Coordenada pela arquiteta Celina Llerena. TIBA (Instituto de tecnologia intuitiva e bio-arquitetura) – Bom Jardim, RJ. Coordenado pelo arquiteto Yohan Van Lengen e Peter Van Lengen. LILD (Laboratório de Investigação do Living Design) do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio com o professor Ripper. Departamento de Engenharia Civil da PUC-Rio - Laboratório do Professor Kroskow Ghavami. Não visitados: Marco Antônio dos Reis Pereira – professor do Departamento de Engenharia Mecânica da UNESP Bauru e autor do livro Bambu de corpo e alma (2008). Antônio Ludovico Beraldo – professor da Faculdade de Engenharia Agrícola da UNICAMP e autor do livro Bambu de corpo e alma (2008). Antonio Salgado – engenheiro agrônomo, pesquisador científico, consultor técnico e autor do recente livro Bambu com sal: aqui e agora, lá e então (2014).

A seguir, listo alguns institutos e laboratórios de pesquisa de grande importância para o desenvolvimento do Introdução

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VIABILIDADE CONSTRUTIVA


ANATOMIA O recurso natural sem transformação industrial é bastante heterogêneo, o que faz o trabalho com bambu exigir compreensão aprofundada da planta para que o seu comportamento seja previsto na elaboração do projeto. Bambu é uma planta considerada uma grama gigante, pertencente a família Graminae e subfamília Bambusoideae. Hidalgo Lopez (2003) mostra que existem 50 gêneros e 1300 espécies de bambu no mundo, porém há os que dizem que podem existir mais de 5000 espécies. O Brasil apresenta o maior número de espécies nativas das Américas, 134 segundo um estudo do INBAR (2010). Os três gêneros mais utilizados no país para contrução e movelaria são o Dendrocalamus (asiático), Bambusa e Phyllostachys. Já na Colômbia, o gênero mais recorrente é a Guadua. Estruturalmente o bambu é composto por rizoma, raiz, colmo, galhos e folhas (PEREIRA, 2008). •

Figura 11: Estrutura da planta. Fonte: BAMBOO the Gift of the Gods (LOPEZ, 2003). Traduzido para português.

Colmo

O colmo é o “caule” do bambu, no formato de um tronco de cone. Ele costuma ser oco (salvo algumas exceções, como o gênero Chusquea) e ter seção cilíndrica (com variações ovais e até quadradas). Na sua parede é onde estão os vasos condutores (xilema e floema) e as fibras. É segmentado por nós, que formam os internós. Viabilidade Construtiva Anatomia

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Nó e Internó

O nó é a estrutura que segmenta o colmo e cria os internós. Em cada nó está localizado um diafragma, que delimita os espaços dos internós, os ocos do colmo. Essa alternância de parede oca com diafragma é fundamental para a rigidez e resistência do colmo, o que permite, por exemplo, que o bambu suporte fortes ventanias. Dos nós saem os galhos (ramos alternados).

Broto

O broto já nasce com o diâmetro que terá para o resto de sua vida, protegido pela bainha caulinar. Todos os nós já estão presentes no broto, o crescimento se dá pelo aumento do espaçamento entre os nós, processo no qual os internos se expandem. Este crescimento acontece rapidamente, ao fim do primeiro ano o colmo de bambu atinge seu tamanho máximo. Este tempo varia de acordo com as diferentes espécies. Por exemplo, o Dendrocalamus giganteus cresce os seus 30 metros de altura até os 12 meses, a Guadua em geral atinge a altura máxima em 6 meses. Após esta fase de crescimento longitudinal, o amadurecimento passa a ser essencialmente interno, com o endurecimento da parede do colmo.

Nó Internó

Figura 12: Bambus abertos ao meio no sentido longitudinal para confecção de brise solei. Observam-se os nós que geram os internós. Pendotiba, RJ, 2014. Foto: autora. Figura 13: Broto de bambu Guadua angustifolia. Colômbia, 2014. Foto: autora

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Viabilidade Construtiva Anatomia


Rizoma

É a trama subterrânea que sustenta o bambuzal. Tem a função de armazenar os nutrientes e é responsável pela reprodução da planta. Os rizomas são nutridos pelas raízes, que puxam o alimento do solo. Os rizomas podem ser divididos em dois principais tipos (SALGADO, 2014): 1.

Figura 14: Esquema de rizoma alastrante. Fonte: LIESE, 1985

Alastrante ou monopodial

São rizomas finos e compridos, com alguns centímetros de distância entre eles. São ocos, possuem nó e diafragma. Em cada nó existe uma gema lateral que pode se desenvolver em outra gema ou em um broto. Ao se desenvolverem, se espalham em todas as direções, formando grandes áreas de bambuzal. Essa característica é interessante, pois facilita o manejo do bambuzal. No Brasil, a espécie mais conhecida desse tipo é o Phyllostachys aurea (bambu mirim). 2.

Entouceirante ou simpodial

Os rizomas são mais grossos e muito próximos uns dos outros. Sua estrutura é sólida, não apresentando nós e diafragmas. Assim como o monopodial, este possui gema lateral que pode gerar tanto um broto quanto um outro rizoma. Estes bambuzais se desenvolvem em forma de touceiras, ou seja, as varas crescem quase coladas umas das outras e em um espaço circular limitado, não se expandindo por grandes áreas. No Brasil, os mais conhecidos são Bambusa vulgares e vitata e Dendrocalamus giganteus e asper.

Figura 15: Esquema rizoma entouceirante. Fonte: LOPEZ, 2003

A Guadua Angustifolia é considerada do grupo entouceirante, porém apresenta uma distância maior entre os seus colmos.

Viabilidade Construtiva Anatomia

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Figura 16: Touceira de Dendrocalamus asper em Coletivo Bambu na Mente - Cachoeiras de Macacú, RJ, 2013.

Figura 17: Mata de Phillostachys aurea em Cerbambu - Ravena, MG, 2014. Foto:autora

Viabilidade Construtiva Anatomia Figura 18: Túnel de bambu entouceirante em Paraíso del Bambu - Colômbia, 2014. Foto:autora

Figura 19: Mata de Guadua angustifolia no sítio de Oscar Montoya - Colômbia, 2014. Foto:acervo autora

Foto: autora

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PROPRIEDADES MECÂNICAS A parede do colmo apresenta em média uma distribuição de cerca de 50% de parênquima, 40% de fibra e 10% de tecidos condutores, segundo LIESE, 1985. As fibras protegem os tecidos condutores (xilema e floema), que são os responsáveis pelo transporte de líquidos e nutrientes. O parênquima envolve esses feixes, estocam nutrientes e água - a umidade está concentrada nessa região.

Fibras

Tecidos condutores

Parênquima

A concentração de cada um desses elementos na parede do colmo é variável. As fibras (pontos escuros da figura ao lado) são as principais responsáveis pela resistência do bambu e estão bastante concentradas na parte mais externa da parede. No terço externo da parede, diâmetro de cada fibra é menor e a concentração é maior (que chega a ter 50% de fibras) do que no terço interno, onde o diâmetro é maior e a concentração é menor. O número de tecidos condutores também diminui à medida que se passa do exterior para o interior da parede. Em compensação, o volume de parênquima (tecido que permeia os feixes), varia no sentido inverso, aumentando da parte externa para interna (PEREIRA, 2008).

Figura 20: Parede do bambu com as fibras, tecidos condutores e parenquimas aparentes. Foto: autora Colômbia, 2014

A relação quantidade fibra x parênquima é um grande fator na determinação da resistência da parede e imporViabilidade Construtiva Propriedades Mecânicas

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tante na escolha de peças a serem utilizadas. Essa relação indica o grau de endurecimento das fibras e o processo de lignificação do parênquima, no qual parte das células se lignifica (endurece) e outra parte armazena amido (PEREIRA, 2008). Isso indicará o tempo certo de corte da vara para a função desejada. Por exemplo, se o bambu for pra comer, deve ser cortado ainda quando broto, em até 30 dias pra estar bem macio. Este tempo indica também o momento de se colocar a fôrma para moldar a seção, caso seja do interesse. Até 6 meses, é recomendado o uso para cestaria, pois está maleável. Aos 2 anos, é indicado o corte para ripas e esterilla (esteira), pois já está mais lignificado, mas ainda não está tão duro. Já para estrutura de construção e laminados, o corte deve ser feito entre 3 anos e 6 anos, pois é quando

a parede do colmo já está bem rígida (LOPEZ, 2003). Cada parte do colmo (inferior, intermediária e superior) tem características próprias de diâmetro do bambu e a espessura da parede. O bambu apresenta um formato de seção de cone, sendo mais grosso na base do que na ponta, o que influencia suas dimensões e outras características, como níveis de resistência e flexibilidade. Na escolha das partes da vara para o uso como elementos construtivos deve observar, portanto, essas características para casá-las com as necessidades. Para pensar na composição das peças, é possível fazer uma analogia com a própria natureza do colmo. A parte inferior do colmo deve ser localizado na parte inferior da estrutura e a parte superior do colmo na parte superior da estrutura.

Figura 21: Usos do bambu relacionados a idade. Fonte: LOPEZ, 2003.

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Viabilidade Construtiva Propriedades Mecânicas


Parte inferior: possui o maior diâmetro do colmo e a parede mais grossa. É considerada a melhor parte para resistir aos esforços de compressão, como o pilar, pois seu grande diâmetro garante um bom raio de giração (importante propriedade geométrica da seção circular) e sua grande parede compõem uma boa área útil. Parte intermediária: possui diâmetro um pouco menor e a parede um pouco mais fina, mas com internós mais longos. É considerado uma boa parte para resistir aos esforços de tração e flexão, muito usado como vigas e terças. Parte superior: possui o menor diâmetro e a parede mais fina. Apresenta a maior relação de fibras por área, o que indica muita rigidez e pouca flexibilidade. Dependendo da espécie, pela esbeltez pode ser uma boa peça para caibros. Outro ponto importante para o colmo resistir aos esforços e ter boa durabilidade é estar com baixo nível de umidade, ao redor de 13% a 20% (LOPEZ, 2003). Os colmos recém cortados apresentam umidade em torno de 50% por isso precisam passar por etapas de secagem para que sejam utilizados na umidade ideal. Para entender os esforços no colmo de bambu, pesquisas estão sendo realizadas por diversos laboratórios do país e do mundo. A realização destes estudos por universidades nacionais é essencial para gerar insumos para a criação da norma brasileira sobre o uso do Bambu. As referências mais próximas disponíveis são as normas do Peru e da Colômbia, nas quais são descritos os valores de resistência (tensão admissível) aos esforços e os cálculos necessários para dimensionar corretamente as estruturas.

Por ser um material natural, não há padronização das peças, assim como na madeira. Para isso, o cálculo dos valores de resistência é composto por fatores de redução significativos, para garantir um valor confiável e aplicável às diversas varas, já que a norma tem o papel de orientar e garantir uma construção segura. Compressão: Material Bambu Guadua angustifolia Concreto armado Madeira Peroba ou similar

Resistencia à compressão 15 MPa 20 a 40 MPa 85 MPa

Figura 22: Resistência à compressão. Dados: Norma Colombiana e REBELLO, 2005

O valor de compressão mostra uma similaridade com o concreto armado, indicando que em determinas situações pode ser uma opção de escolha. Em relação à madeira, os números apresentam diferença significativa. As madeiras usadas na construção costumam ser “madeiras de lei”, que são duras e resistente. Foram amplamente utilizadas nas construções brasileiras antes da alvenaria chegar ao mercado. Como elas possuem grande tempo de amadurecimento, hoje, pouco se encontra disponível para a comercialização. Os valores podem ser compensados com o desenho estrutural. Para elevar a resistência pode-se utilizar mais bambus na estrutura, como por exemplo, um pilar pode ser constituído por um feixe com 5 varas, e assim, suportar um esforço maior. No que tange ao rol estético e sensitivo da construção, o bambu se assemelha a madeira por terem aparência similar e serem um material natural pouco modificado. Penso que nesse campo, o bambu é uma alternativa interessante. Viabilidade Construtiva Propriedades Mecânicas

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Tração:

Módulo de Elasticidade:

Material Bambu Guadua angustifolia Aço CA25 Madeira Itaúba

Resistencia à tração 18 MPa 250 MPa 168 MPa

Figura 23: Resistência à tração. Dados: Norma Colombiana e REBELLO, 2005

Na tração, o bambu também apresenta valores inferiores ao aço e à madeira de lei. Isso não quer dizer que o bambu não possa realizar essa função, mas sim que o desenho estrutural (a mesma lógica de feixes é aplicável) é muito importante para que as cargas sejam bem distribuídas e não comprometam nenhuma peça. Na viagem pela Colômbia pude verificar que em muitas obras há composição de bambu com cabos de aço, onde o bambu trabalha sob compressão e o aço sob tração, é o caso do Pavilhão Zeri no Recinto del Pensamiento em Manizales. Gasto energético: Material Gasto Enérgetico para a produção (MJ/m³/Mpa)

Bambu

Madeira

Concreto

Aço

30

80

240

1500

Figura 24: Tabela de gasto energético. Dados de GHAVAMI 1992

Na comparação do uso do bambu com os demais materiais, um fator diferencial é o gasto energético para a produção. O baixo consumo de energia para transformação do material bruto em um elemento pronto para ser utilizado na construção é um dos fatores que tornam o bambu um dos materiais mais sustentáveis para a construção de estruturas.

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Material Bambu Guadua angustifolia Aço CA50 Concreto armado Madeira Peroba ou similar

Módulo de elasticidade 4 a 9,5 GPa 200 GPa 20 GPa 94 Gpa

Figura 25: Módulo de elasticidade. Dados: Norma Colombiana e REBELLO, 2005

O bambu possui o módulo de elasticidade baixo em relação ao aço e concreto armado, indicando que sofre mais deformações. No entanto, possui alta capacidade de se deformar antes da ruptura por apresentar uma grande fase elástica, motivo da valorização do bambu na Colômbia, onde os abalos sísmicos são constantes. Já o aço e o concreto rompem com pouca deformação do material. Observei que em muitas obras que não foram bem construídas, a estrutura estava cedendo aos poucos, as varas estavam rachadas e flambadas, porém não ocorre um colapso repentino, que seria uma situação muito mais grave. É necessário saber que cada material trabalha de uma maneira e por isso, cada um irá pedir um desenho estrutural e estético específico. Alguns arquitetos e construtores são adeptos da mistura dos materiais, utilizando as melhores propriedades de cada um. Como no já citado Pavilhão Zeri, obra de Simon Velez e Marcello Villegas, onde o aço é utilizado para tração, bambu para compressão e madeira para as compressões mais acentuadas, como ilustra a figura a seguir.


Viabilidade Construtiva

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Propriedades Mecânicas Figura 26: Pavilhão Zeri. Combinação dos materiais bambu,

aço, madeira e concreto. Foto: autora. Colômbia, 2014.


Há estudos e aplicações interessantes para o aproveitamento máximo das propriedades mecânicas das fibras do bambu, sem que necessariamente seja mantida a forma original. Um exemplo interessante é o das estruturas Grid shell. Elas estão ligadas a ideia de “High Design, Low Tech”, ou seja projeto de alto nível no desenho com baixa tecnologia. O projeto de alto nível se refere a elaborar estruturas a partir de pesquisas científicas e manter os princípios do bambu leve, elástico e resistente. A baixa tecnologia se refere a simplicidade e o baixo custo da construção, facilitando a utilização dessas estruturas (YU, 2007). Nessas obras costumam-se usar ripas ou varas de bambu formando tramas que, por seu desenho, potencializam a resistência de cada peça. A estrutura da Cozinha-escola Nestlé no Mercado Central de Belo Horizonte construída pela equipe da Bambucrus pode ser considerada uma grid sheel, pois a trama de bambus, que remete a um trabalho de cestaria, dá a forma e a resistência ao túnel.

Figura 27: Cozinha-escola Nestlé - Belo Horizonte, BH. Fonte: www.ecoeficientes.com.br acessado em 12 de fevereiro de 2015.

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PROTEÇÕES

As resistências mecânicas e durabilidade do bambu são garantidas com o cumprimento de algumas etapas referentes ao corte e ao tratamento. A resistência pode ser diminuída caso haja algum dano à estrutura física do colmo, principalmente, pela atuação aos insetos, fungos e bactérias, que em geral são atraídos pelo amido presente no interior da parede do bambu. São dois tipos de proteção, a física e a química. A proteção física tem o objetivo de evitar que as intempéries prejudiquem a parede externa de bambu, deixando o colmo vulnerável. Está relacionada principalmente ao projeto arquitetônico. Decisões projetuais como o tipo de telhado, tamanho de beiral, pé direito, fechamentos, afastamento do solo, entre outras, irão indicar a exposição da parte externa dos colmos às intempéries, e consequentemente, a durabilidade do bambu.

Agentes Insetos Fungos Sol Chuva Usos

Proteção Física X X X X

Proteção Química X X

Figura 28: Relação agentes x tipo de proteção. Fonte: Ebiobambu - https://www.yumpu.com/pt/document/view/12830399/acao-dooctaborato-ebiobambu acessado em 10 de junho.

A proteção química objetiva a redução da umidade e eliminação ou modificação do amido na parede do bambu. Está relacionada com os métodos de corte, tratamento pós corte e acabamento. Viabilidade Construtiva Proteções

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Proteção Química

O parênquima (tecido que fica em volta das fibras e vasos condutores) é uma estrutura muito rica em amido. Este amido é parte importante do metabolismo da planta, especialmente após 1 ano de idade, e sua concentração aumenta gradativamente até a fase madura do colmo, passando a reduzir após esse período. Porém, o momento ideal do corte da vara para o uso estrutural é exatamente na fase madura, momento em que a concentração de amido está relativamente alta (LIESE, 2004). O amido atrai insetos, fungos e bactérias, que causam danos (buracos) à parede do colmo, o que pode reduzir a resistência mecânica da peça. A umidade acentuada facilita a ação desses insetos e microrganismos em busca 28

Viabilidade Construtiva Proteções

do amido. Portanto, o desafio é a redução da umidade e eliminação ou modificação do amido (LIESE, 2004). A imagem a seguir mostra um corte da parede do bambu onde aparece o detalhe do parênquima (células hexagonais) com moléculas de amido em seu interior. Jorge Moran, 2002, descreve o uso das técnicas tradicionais desenvolvidas pelos povos antigos. Elas são eficientes e não são prejudicais ao meio ambiente e às pessoas. Seu uso é indicado para todas as espécies mais utilizadas para construção, como Dentrocalamus giganteus, Dendrocalamus asper, Bambusa vulgaris, Phylostachis pubenses (mossô) e Guadua Angustifolia. É dividido em 3 etapas: corte, pós corte e acabamento final.

Figura 29: Células de amido no parênquima. Fonte: LIESE, 2004


O corte: •

Figura 30: Bambu jovem. Foto: autora

Idade do colmo.

Para fins estruturais, o corte deve ser feito no colmo maduro, indicado por sinais externos como a presença de líquens claros, alteração da cor do colmo de verde brilhante para um verde escuro acinzentado e ausência de folhas caulinares. A fase madura é quando o bambu tem de 3 a 5 anos e estará pronto para o corte. Após essa fase, o bambu começa a ficar velho, identificado pela cor amarelada da parede. •

Lua minguante ou nova.

Pela influência dos ciclos da lua nas atividades metabólicas da planta e nos ciclos da água, durante a lua nova os vasos condutores estarão com menor quantidade de líquido. •

Figura 31: Bambu maduro. Foto: autora

Na madrugada ou primeiras horas da manhã.

Na parte escura do dia, o bambu estará com a atividade metabólica reduzida, logo, estará com menos líquidos nos vasos, portanto baixa umidade. •

Época seca.

Na época seca há menos umidade no solo, logo, a planta estará com esse fator baixo. Dependendo da demanda, isso pode não ser possível, então as próximas etapas de secagem devem ser reforçadas.

perdida por gravidade e por transpiração, para isso, os galhos devem permanecer (além de evitar entrada de bactérias nas partes expostas, caso eles fossem cortados). A vara deve ficar de 2 a 3 semanas no local, para que tenha o tempo necessário da ocorrência do processo de redução do amido em açúcar, que por fermentação se converte em álcool, um inseticida natural dos insetos e microrganismos. •

Imersão em água

O colmo após corte e cura na mata é limpo e em seguida é imerso em água por 3 a 4 semanas. Nesse tempo, o amido será lixiviado (lavado). A água pode ser corrente ou parada, trocando-a de tempos em tempos. •

Secagem ao sol

Após o escorrimento da água, coloca-se o bambu inclinado e apoiado em uma estrutura e deixa-se secar ao sol por 2 a 3 semanas, girando diariamente as varas para distribuir a incidência solar. Esta etapa varia de acordo com a ensolação do local onde ocorre o processo. •

Secagem a sombra

Secar em uma estrutura sombreada até atingir a umidade ideal, o que pode demorar de 1 a 3 meses. Acabamento: Com líquidos vegetais

Pós corte: • Figura 32: Bambu velho. Foto: autora

Cura na mata

Após o corte da vara, recomenda-se deixá-la apoiada o mais vertical possível no mesmo local. A umidade será

Após a secagem do bambu, é aplicado um preservante vegetal como a cera de carnaúba, cera de abelha, óleo de linhaça, óleo de mamona, garantindo proteção às intemperes e dando um brilho forte à vara.

Viabilidade Construtiva Proteção Química

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Proteção através do calor: Os bambus do gênero Philostachys, por suas características naturais, possibilitam outras formas de tratamento, mais simples. Após o corte, na fase madura, dois métodos de tratamento através do calor são possíveis: através de fogo direto (maçarico) ou por cozimento. Por meio do calor, o amido é eliminado e uma cera natural (ácido pirolenhoso) presente na parede externa é liberada, o que torna o bambu brilhoso e protegido contra os insetos. Contexto Atual Durante a viagem de campo à Colômbia e as pesquisas de campo no Brasil, pude verificar que os tratamentos realizados em diversos locais são muito similares a esse tradicionais. As mudanças feitas foram para agilizar o processo e tornar a venda de varas de bambu para construção mais viável. As etapas de corte permanecem as mesmas. A principal diferença é no pós-corte. Durante a imersão em água, é acrescentada uma solução com sais de boro, o que reduz o tempo de imersão de 4 semanas para 5 a 7 dias. Na Colômbia o produto mais usado é o pentaborato (composição de borax e ácido bórico) enquanto no Brasil, é mais recorrente o uso de octoborato de sódio, vendido como fertilizante para diversos cultivos, como o algodão. A solução pode ser reaproveitada inúmeras vezes, e caso seja descartada, deve ser bem diluída para não saturar o solo com uma concentração muito alta de sais. Guardadas essas precauções, seu uso não causa impactos significativos ao meio ambiente. Os acabamentos naturais continuam sendo usados, 30

Viabilidade Construtiva Proteção Química

mas por dificuldade de obtenção das ceras e óleos efacilidade de aplicação e manutenção, podem ser substituídos por verniz ou stain. Esses métodos químicos estão tendo uma grande importância para os dias atuais, pois tornam o bambu uma opção viável de construção para uma sociedade mais urbanizadas, que deseja a garantia de durabilidade, rapidez na construção, além de uma obra esteticamente interessante e bonita. Na Colômbia, onde a cadeia produtiva já está mais desenvolvida, há muitas empresas especializadas nesse tipo de tratamento e venda de varas de bambu, que abastecem o mercado interno e externo. Essa forma de tratamento, ainda que utilize produtos químicos em seu processo, são substâncias em geral de baixa toxicidade e que podem ser reutilizadas diversas vezes. Este fator vai ao encontro das preocupações trazidas pelos dilemas ambientais enfrentados pela arquitetura de hoje, como construir e desenvolver de maneira harmônica, equilibrada e respeitosa com a Natureza.

I

II

III

Figura 33: I - stain comercializado no Brasil; II - verniz usado na Colômbia; III - cera de abelha e carnaúba produzida por Iuri Frigoleto.


Figura 34: Limpeza do bambu em Fazenda Yarima. Colômbia, 2014. Foto: autora

Figura 35: Tanque de imersão em Fazenda Yarima. Colômbia, 2014. Foto: autora Viabilidade Construtiva Proteção Química

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Figura 37: Secagem a sombra em Fazenda Yarima. Colômbia, 2014. Foto: autora

Figura 36: Secagem ao sol em Fazenda Yarima. Colômbia, 2014. Foto: autora 32

Viabilidade Construtiva Proteção Química

Figura 38: Verificação da umidade em Fazenda Yarima. Colômbia, 2014. Foto: autora


Proteção Física

Como dito anteriormente, a proteção física é referente às escolhas de projeto. Através de decisões projetuais em relação a base, beiral de telhado e encaixes de peças obtêm-se uma construção com adequada durabilidade e qualidade. Os exemplos usados nessa parte do trabalho, incluirão além das fotos da viagem a Colômbia, duas obras em que participei. A primeira ocorreu no curso “Civilização do Bambu”, oferecido pelo Centro de Referência do Bambu (CERBAMBU), no qual foi construída a Biblioteca Pública Milton Santos, destinada às atividades educativas com os jovens

da região. O projeto foi elaborado por Eric Crevels, na época formando em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), como seu Trabalho de Conclusão de Curso1. O curso foi ministrado por Lúcio Ventania e Iberê Sansara nos dias 15 a 29 de junho de 2014, em Ravena, Minas Gerais. A segunda aconteceu em Pendotiba - Niterói, na construção de uma edícula na residência de um casal. O projeto e construção foi elaborado por mim e mais três bioconstrutores (Leonardo Soares, Guilherme Naom, e Thiago Miranda) em nome do Coletivo João de Barro. A obra durou dois meses, de novembro de 2014 a janeiro 2015.

1 AUTONOMIA E CONSTRUÇÃO: A biblioteca Milton Santos Viabilidade Construtiva Proteção Física

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Base O bambu é um material que puxa água do ambiente, por isso é muito importante que uma construção em bambu tenha “uma boa bota e um bom chapéu”. Ou seja, a base e o telhado têm de proteger o colmo do contato com água.

A base deve ficar afastada do solo, para que a umidade do chão e respingos de chuva não atinjam o colmo. O afastamento pode ser feito de várias maneiras, as mais usadas são em concreto e/ou uma peça metálica. É indicado que o corte da peça esteja perto do nó, visto que sua geometria aumenta a resistência dessa região. Esse cuidado evita possíveis rachaduras.

Figura 39: Base em concreto. Colômbia, 2014. Foto: autora

Figura 40: Base em concreto e metal. Colômbia, 2014. Foto: autora

Figura 41: Base em concreto e bambu. Colômbia, 2014. Foto: autora

Figura 42: Base em concreto e metal. Colômbia, 2014. Foto: autora

Figura 43: Base em concreto e metal. Colômbia, 2014. Foto: autora

Figura 44: Base em concreto. Colômbia, 2014. Foto: autora

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Viabilidade Construtiva Proteção Física


Beiral O beiral do telhado deve ter o tamanho suficiente para proteger o bambu de chuva e de sol. O contato com a água cria um ambiente úmido e propicio para a proliferação de fungos. A exposição ao calor, gera o movimento de dilatar e contrair, que favorece o surgimento de rachaduras, além do ressecamento do verniz ou cera na parede do colmo. Alguns arquitetos e construtores se referem a uma proporção de beiral ideal da ordem de dois terços da altura da estrutura de bambu abaixo do beiral. No entanto, o que foi observado é que essa proporção varia de acordo com a região, o posicionamento do terreno em relação aos pontos cardeais e o desenho arquitetônico.

Viabilidade Figura 45: Pavilhão Zeri. O grande beiral protege o resto da estrutura, que éConstrutiva uma combinação de bambu, madeira e aço. Projeto de Simon Vellez e MarcelloProteção Villegas. Física Foto: Leonardo Soares

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União das peças

peça apoiada na região do nó na boca de peixe abaixo dela

A união das peças de bambu costuma ser feita por 2 métodos: encaixe ou faceamento. Em ambas formas, o local de união deve ser próximo ao nó, pois pela distribuição das fibras e presença do diafragma, esta região apresenta maior resistência. Como as fibras do bambu estão orientadas longitudinalmente, não se deve usar pregos, pois estes fazem fendas que se transformam em rachaduras. O encaixe das peças é um trabalho artesanal, que tem de ser bem feito para que a transmissão de cargas seja distribuída, caso contrário fica num ponto só, que pode ceder. São diversos tipos de encaixe, um para cada situação. O faceamento é mais simples. Encosta-se um bambu no outro com o auxílio de alguma peça que transmita as cargas e que mantenha as peças unidas. Pode ser feito através de tabiques, barra rosqueada, junco natural, peças metálicas.

boca de peixe logo acima do nó

Figura 46: Boca de peixe. Fonte: LOPEZ, s.d.

Figura 47: Boca de peixe. Foto: autora

Figura 48: Encaixe 2 orelhas. Fonte: LOPEZ, s.d.

Figura 49: Encaixe 2 orelhas em Biblioteca Milton Santos Cerbambu. Foto: autora

Encaixe Para unir uma peça horizontal com uma vertical (ângulo e 90°) pode ser através da boca de peixe (ou pescado) ou com duas orelhas. Em ambos, o corte da peça de apoio deve ser feito logo acima do nó e no formato exato da vara selecionada para o encaixe. A peça que encaixa deve estar apoiada perto na região do seu nó para garantir que ela não seja rachada ou esmagada. A boca de peixe pode ser fixada com o auxílio de um gancho que una as duas peças, como mostra a figura a seguir. 36

Viabilidade Construtiva Proteção Física

Figura 50: Gancho de barra de rosca.

Foto: autora


Para ligação entre uma peça horizontal e uma inclinada, pode ser usado os encaixes chamados bisel e bico de flauta.

Para fixação da peça no encaixe, pode ser usado peça metálica, tabique (pedaço de madeira ou bambu), amarração ou barra rosqueada (a forma mais usada).

Figura 51: Bisel. Fonte:

Figura 52: Bisel em Escuela de la Vida. Colômbia, 2014. Foto: autora

Figura 55: Encaixe com auxílio de peça metálica em Biblioteca Milton Santos. Cerbambu. Foto: autora

Figura 53: Bico de flauta. Fonte: LOPEZ, s.d.

Figura 54: Bico de flauta em construção de Oscar Montoya. Colômbia, 2014. Foto: autora

Figura 56: Encaixe com auxílio de tabique em Zuarq. Colômbia, 2014. Foto: acervo autora

LOPEZ, s.d.

Viabilidade Construtiva Proteção Física

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Caso não seja possível conseguir uma peça com o nó no final, pode-se colocar um pedaço de madeira, bambu ou cimento para evitar o esmagamento. Essa técnica é chamada de embuchamento.

Figura 60: Esmagamento. Fonte: LOPEZ, s.d.

Figura 57: Encaixe com auxílio de junco sintético em Biblioteca Milton Santos. Cerbambu. Foto: autora

Figura 59: Embuchamento com peça de madeira em Zuarq. Colômbia, 2014. Foto: acervo autora

Figura 61: Embuchamento. Fonte: LOPEZ, s.d.

Figura 58: Encaixe com auxílio de barra rosqueada em Zuarq. Colômbia, 2014. Foto: acervo autora

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Viabilidade Construtiva Proteção Física

Figura 62: Embuchamento com cimento em Zuarq. Colômbia, 2014. Foto: acervo autora


Faceamento Para se obter peças com maior resistência podem ser feitos feixes de varas e assim alcançar um diâmetro maior. Pode ser usado uma peça metálica moldada para o feixe, junco natural, resina de manona, barra rosqueada.

Figura 63: Feixes de bambu em construção de Simon Velez. Colômbia, 2014. Foto: autora

Dependendo do desenho da estrutura pode ser uma opção adequada. Para o faceamento, a barra rosqueada é interessante por ser eficiente na transmissão dos esforços, como na união entre viga e pilar.

Figura 64: Faceamento entre viga e pilar por meio de barra rosqueada em Pendotiba, RJ, 2014. Foto: autora Viabilidade Construtiva Proteção Física

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Quando se deseja fazer um vão maior do que o tamanho disponível da peça de bambu, é possível ainda uní-los e obter peças mais longas. Há 2 técnicas eficientes para isso: transpassando um bambu pelo outro e fixando a parte em contato ou unir as peças com embuchamento e utilizar uma terceira vara para transmitir o esforço e garantir estabilidade da peça longa.

Figura 65: Viga longa com 2 bambus transpassados em Pendotiba, RJ, 2014. Foto: autora

Figura 66: Viga com bucha de madeira pronta para receber o 2° bambu em Pendotiba, RJ, 2014. Foto: autora 40

Viabilidade Construtiva Proteção Física

Figura 67: Viga com os 2 bambus por meio do embuchamento em Pendotiba, RJ, 2014. Foto: autora


Feixes de ripas de bambu

Figura 68: Feixe de ripas em construção de Jaime Peña, Colômbia, 2014. Foto: autora

Figura 69: Detalhe do feixe de ripas em construção de Jaime Peña, Colômbia, 2014. Foto: autora

Viabilidade Construtiva Proteção Física

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Encaixe com rizoma

Encaixes com peças metálicas

Figura 71: Detalhe do encaixe com peça metálica em feira gastronômica em Quindio, Colômbia, 2014. Foto: autora

Figura 70: Detalhe do encaixe com rizoma em construção de Simon Velez, Colômbia, 2014. Foto: autora

Figura 72: Detalhe do encaixe com peça metálica em construção de Marcello Villegas, Colômbia, 2014. Foto: autora

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Viabilidade Construtiva Proteção Física


Na obra de Pendotiba, pode-se observar: . Base afastada do solo, com bambus fixados externamente à base de concreto. Detalhe estético em sisal. . Pilares e vigas de bambu protegidos pelo beiral. . A viga dupla possui a resistência (inércia) adequada para suportar a carga do (futuro) telhado verde. . O pilar duplo possui a função de resistir à compressão e realizar o adequado encaixe para as vigas duplas. . As uniões foram realizadas por faceamento. . 5 terças de 7 metros foram executadas utilizando 2 bambus de 4 metros cada, transpassando os bambus no ponto central para atingir o comprimento desejado Figura 73: Edícula construída pelo Coletivo João de Barro em Pensotiba, RJ. Foto: Leonardo Soares

. A união das peças da terça de beiral foi feita com embuchamento.

Viabilidade Construtiva Proteção Física

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Na biblioteca Milton Santos, pode-se observar: . Base de cimento afastada do solo. . Pilares e vigas de bambu protegidos pelo beiral. . Diversos encaixes: boca de peixe, bisel, orelha, peça metálica. . Feixe de Phillostachys tabicados e unidos por junco sintético. . Telha de bambu. A meia cana da telha permite que ela se contraia e dilate sem rachar. A manutenção é o principal cuidado.

Figura 75: Telha de bambu em Biblioteca Milton Santos em Ravena, MG. Foto: Fernando Halat.

Figura 74: Biblioteca Milton Santos em Ravena, MG. Foto: Mariana Botelho

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Viabilidade Construtiva Proteção Física


Situações de falhas na proteção física

O beiral dessa estrutura não foi calculado corretamente, além de curto, ele está voltado para a direção da chuva na região. A estrutura está exposta aos efeitos do sol e da chuva. Percebe-se o ressecamento da parede do bambu através da cor esbranquiçada e das rachaduras.

Figura 76: Defeito na construção. Foto: autora. Viabilidade Construtiva Proteção Física

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O destaque dessa imagem é a boca de peixe mal fcalculada para a carga acima dela. A rachadura no pilar e as vigas esmagadas são sinais desse erro.

Figura 77: Defeito na construção. Foto: autora. 46

Viabilidade Construtiva Proteção Física


Esse beiral apresenta falhas em sua execução e uma das consequências é a infiltração nos bambus. A umidade provocou o apodrecimento da guadua de beiral, comprometendo, dessa forma, a estrutura.

Figura 78: Defeito na construção. Foto: autora. Viabilidade Construtiva Proteção Física

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Essa construção se encontra em estado crítico. A principal origem dos problemas é um desenho estrutural mal elaborado, agravado pela baixa qualidade dos bambus e pela falta de manutenção. O desenho escolhido para as mãos francesas não transmite bem as forças, além de terem sido possivelmente subdimensionados para a carga do beiral. Como a construção está em um local muito úmido, o peso acumulado na cobertura de telhas cerâmicas antigas é considerável. Dessa forma, o beiral está cedendo e trazendo consigo os pilares. No momento da visita, já estava atingindo o quiosque ao lado, comprometendo as duas estruturas.

Figura 79: Defeito na construção. Foto: autora. 48

Viabilidade Construtiva Proteção Física


COLÔMBIA


O processo de conquista do território da atual Colômbia pelos espanhóis foi muito similar ao dos portugueses no Brasil. As duas potências compartilhavam o mesmo objetivo, a busca por riquezas naturais que pudessem ser exploradas e transportadas para a Europa. Utilizavam também técnicas muito semelhantes, baseadas em subjugar ou dizimar as populações locais, obter conhecimentos sobre os caminhos e se aproveitar do trabalho escravo para o árduo trabalho de extração dos recursos naturais. Nesse processo, a maioria das sociedades que estavam estabelecidas nos territórios invadidos foi extinta e com elas, seus conhecimentos milenares.

paredes, telhados, móveis, utensílios domésticos e até pontes. Essa habilidade foi ensinada aos espanhóis, que passaram a construir suas casas usando a guadua e o barro, em uma técnica conhecida como bahareque (LOPEZ, 2003). Muitas construções da época do ínicio o ciclo do café, ainda no século XIX, erguidas com esta técnica, ainda existem até hoje.

Na Colômbia, a resistência indígena conseguiu manter vivos alguns resquícios de algumas dessas culturas. A cultura indígena pode ser notada por toda a Colômbia. Nas ruas, nas histórias, nos museus, nas feições. Os museus em particular valorizam bem a trajetória indígena e seus saberes, por vezes mostrando como eles desenvolveram soluções muito mais inteligentes que as atuais, como por exemplo, em relação ao manejo da água. Dentre as diversas regiões ocupadas pelos espanhóis, uma é especialmente relevante para este contexto. Na região hoje conhecida como Eje Cafetero viviam os índios Quimbayas, que chegaram a conviver com os espanhóis por 15 anos. Após esse tempo, os índígenas se revoltaram contra o controle europeu e nessa resistência foram praticamente dizimados (CHAVEZ, 1992). Ao longo dos anos de convivência, trocas de conhecimentos aconteceram, como como por exemplo a maneira de trabalhar o ouro e como construir com os recursos locais. Essa região possui abundantes florestas de bambu Guadua, que era, portanto, o principal elemento construtivo dos Quimbayas. Utilizavam para construir 50

Colômbia

Figura 80: Réplica de uma casa dos índios Quimbaya em exposição indígena, Colômbia, 2014. Foto: autora

Essa cultura se mantém viva até os tempos atuais, sendo comum encontrar casas feitas em bambu em toda a região, que hoje se chama Eje Cafetero. Um novo momento para essa cultura construtiva teve início em 1999, quando um terremoto fortíssimo afetou esta zona do café, mais especificamente no departamento (estado) de Quindío, com o epicentro em sua capital, Armenia. Nesse dia, milhares de casas e edifícios tombaram ou ficaram gravemente danificado, enquanto as casas de bambu, que eram consideradas mais fracas, re-


sistiram sem maiores danos. Tal fato atraiu a atenção de diversos especialistas, então estudiosos alemães e chineses foram para Colômbia pesquisar cientificamente a Guadua. Ao longo dos anos, os resultados se mostraram altamente favoráveis à utilização desta espécie de bambu para a construção, devido à sua impressionante resistência, aliada à uma flexibilidade que desempenhava um papel muito importante no desempenho das estruturas durante abalos sísmicos.

A partir desse momento, arquitetos que já estavam trabalhado com bambu, como Oscar Hidalgo Lopez, Simon Velez e Marcello Villegas, passaram a ter mais influência. Oscar Hidalgo escreveu o livro “Bamboo: the gift of the Gods”, na década de 80, com explicações aprofundadas de como manejar o bambuzal até téncicas construtivas com a Guadua. Até hoje, é considerado como sendo a bíblia para os ‘bambuzeiros’. Simon Velez é um arquiteto que projetou construções surpreendentes com esse material, foi inovador nas técnicas e na estética da obra desde a década de 90, sendo bastante conhecido internacionalmente. Em geral trabalha em parceria com o construtor Marcello Villegas, responsável pela execução das obras. Esse trio foi um impulsionador para que um grande número de profissionais optasse por trabalhar com construção e pesquisa em guadua.

Figura 81: Residência na beira de estrada com o bahareque exposto. Colômbia, 2014. Foto: autora

Hoje em dia já encontra-se consolidada uma cadeia produtiva bem articulada e completa. Há os que plantam, os que cortam, os que vendem, que constroem. Há profissões e legislações que permitem e legalizam o trabalho com Guadua, como a Norma Construtiva e órgão regulador de manejo de bambuzais. Para conhecer e entender essa cultura construtiva, passei 3 meses viajando de bicicleta pela por 5 regiões da Colômbia.

Figura 82: Antiga fazenda de café com paredes de bahareque de 130 anos em Colômbia, 2014. Foto: autora Colômbia

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Caribe

LOCALIZAÇÃO Colômbia - América do Sul

Antioquia

Eixo do café

Figura 83: Localização da Colômbia. Fonte: google.maps

Boyacá e Cundinamarca

Valle del Cauca

Legenda:

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Colômbia

Figura 84: Trajeto realizado e as regiões visitadas.


Por que viajar de bicicleta? O desejo era viver a cultura construtiva do bambu, eu queria ver de perto a quantidade de construções em bambu, queria falar com os moradores e construtores. Para isso, seria necessário ir devagar, para ter tempo de olhar, para ter mais oportunidade de cumprimentar alguém, para observar as transições de paisagem, para ver hábitos das pessoas, para ouvir melhor o sotaque, queria demorar para chegar a outro lugar para poder digerir o vivido e ter tempo para pensar. A viagem precisava ser feita devagar. Há tempos eu estava com o desejo de fazer uma viagem de bicicleta por querer viver essa experiência. Já tinha viajado diversas vezes de carro e de ônibus, mas nunca tinha percorrido longos caminho em cima de uma bike. Foi quando os desejos se cruzaram. A bicicleta iria me ajudar a viver a cultura construtiva do bambu na Colômbia.

A viagem Eu e meu companheiro (Leo - Leonardo Soares) saímos do Rio e fomos de avião para Bogotá, onde visitamos a primeira obra em bambu da viagem, uma casa que estava acabando de ser construída por um escritório especializado em guadua. Tinha sido muito bem feita, todos os detalhes estavam bem executados e o desafio estrutural era o que a deixava mais bonita. Achei interessante ver uma casa com desenho contemporâneo e bem inserida nos tempos estéticos atuais. O projeto e obra eram dos arquitetos Carolina Zuluaga e Andrés Zuleta do escritório Zuarq. Fomos também à ponte peatonal Jenny Garzon, projetada por Simon Velez. Nos encontramos ainda com o construtor de nacionalidade alemã mas que vive na Colômbia há 20 anos, Joerg Stamm, que nos contou sua trajetória profissional. Bogotá e arredores (em Cundinamarca) foram um grande presente de início dessa viagem.

O tempo da bike é o tempo do corpo e por isso eu sabia que viajaria no tempo desejado. Para somar a isso, o exercício mantém o corpo saudável, funcionando, vivo. Esse bem estar físico obviamente se reflete no bem estar mental. O raciocínio flui melhor, os órgãos funcionam sem problemas, a sensibilidade aumenta, a intuição fica aguçada, eu me sentia forte e presente. E assim foi, pude viver bem os lugares por onde estive.

Figura 85: Chegada em Bogotá. Foto: Leonardo Soares Colômbia

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Figura 86: Residência feita pelo Zuarq em Guasca, Colômbia, 2014. Foto: autora

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Colômbia

Figura 87: Residência feita pelo Zuarq em Guasca, Colômbia, 2014. Foto: autora

Figura 88: Residência feita pelo Zuarq em Guasca, Colômbia, 2014. Foto: autora


Figura 89: Ponte Jenny Garzon. Projeto de Simon Velez em Bogotá, Colômbia, 2014. Foto: autora

Colômbia

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Figura 90: Ponte Jenny Garzon. Projeto de Simon Velez em Bogotá, Colômbia, 2014. Foto: autora

Figura 91: Encontro com Joerg Stamm em Bogotá, Colômbia, 2014. Foto: acervo autora. Na foto: Autora, Leonardo e Joerg.

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Colômbia


De Bogotá pegamos um ônibus para Cali, no Valle del Cauca, ponto de partida da viagem de bike. Já na estrada, pela janela do ônibus, eu tive certeza que queria viajar em bicicleta, pois era uma agonia ver tanta construção em bambu pela estrada e não poder parar. Porém, como tínhamos data para chegar em Cali, optamos por economizar 1 semana e irmos direto para o início do percurso. Vimos auto construções em bambu nas favelas e obras feitas por arquitetos em alguns lugares da cidade. Pudemos perceber a diversidade de usos que a guadua podia proporcionar – restaurante em parque ecológico estadual, restaurante urbano, quiosque em clube, residência. Lá conhecemos os arquitetos Camilo e Karen, do escritório Guadua y Madera, além de Greta Trasserra e Andres Bapler na Fundacion Escuela de la Vida.

Figura 92: Sala de aula em Escuela de la Vida em Cali, Colômbia, 2014. Foto: autora.

Figura 93: Sala de aula em Escuela de la Vida em Cali, Colômbia, 2014. Foto: autora. Colômbia 57


Figura 94: Quiosque em Parque Estadual feito por Guadua y Madera em Cali, Colômbia, 2014. Foto: autora.

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Colômbia

Figura 96: Espaço para eventos feito por Guadua y Madera em Cali, Colômbia, 2014. Foto: Leonardo Soares.

Figura 95: Restaurante em Cali, Colômbia, 2014. Foto: autora.

Figura 97: Estrutura feita por Guadua y Madera em Cali, Colômbia, 2014. Foto: acervo autora.


Em Cali iniciamos a viagem de bicicleta pelo Vale del Cauca. Seguimos pedalando para Buga. No caminho conhecemos a fábrica Guadua Viga (de Andres Bapler) em fase final de montagem para iniciar os testes para produção de vigas maciças de bambu. Será utilizado um método que flexibiliza as fibras, para então prensá-las na forma e posição desejadas, com a adição de uma resina adesiva. Estivemos também numa estação de tratamento da guadua, a primeira de várias. O aspecto relevante da empresa CO2 Bambu é o desenvolvimento de uma técnica para acelerar a secagem a sombra por meio de um compressor de ar.

Antioquia

Risaralda Valle del Cauca

Caldas

Quindio

Figura 98: Departamentos visitados em bicicleta.

Legenda:

Figura 99: Trajeto realizado em Colômbia

59 bicicleta.


Figura 100: Fábrica Guadua Viga em Cali, Colômbia, 2014. Foto: acervo autora. Na foto: Leonardo, Andres e autora.

Figura 102: Compressor de ar na secagem à sombra do bambu em CO2 Bambu. Colômbia, 2014. Foto: autora.

Figura 101: Protótipos de vigas de bambu em Fábrica Guadua Viga em Candelária, Colômbia, 2014. Foto: acervo autora.

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Colômbia


Em Buga, conhecemos plantações e manejo da guadua com o engenheiro florestal Francisco Castaños, que trabalha há mais de 40 anos nesse tema. Uma pessoa muito acolhedora e entusiasmada com o bambu, que desenvolveu bastante conhecimento científico sobre a planta. Estivemos também com o arquiteto Jaime Peña, que nos contou sobre seu trabalho em ajudar nas autoconstruções em bambu em Moçambique, nos apresentou seu ateliê/oficina, onde desenvolve novas formas de trabalhar com a guadua, nos levou para conhecer uma casa na árvore que estava construindo, um desafio arquitetônico, sonho de toda criança e para finalizar, nos levou a uma Ecovila, onde ele construiu baseado em geometrias sagradas.1 1 São formas inspiradas nos padrões da natureza que traduzem em harmonia e equilíbrio energético do ambiente.

Figura 104: Viveiro de mudas em Buga. Colômbia, 2014. Foto: autora.

Figura 103: Francisco Castaños em Buga. Colômbia, 2014. Foto: autora.

Figura 105: Na foto: Autora, Francisco e Leonardo. Colômbia, 2014. Foto: autora.

Colômbia

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Colômbia

Figura 106: Casa del Arbol projetada por Jaime Peña em Buga.

Colômbia, 2014. Foto: autora.


Figura 107: Casa del Arbol projetada por Jaime Peña em Buga. Colômbia, 2014. Foto: Leonardo Soares.

Figura 108: Casa del Arbol projetada por Jaime Peña em Buga. Colômbia, 2014. Foto: autora.

Colômbia

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Figura 109: Casa del Arbol projetada por Jaime Peña em Buga.

Colômbia, 2014. Foto: autora.


Figura 110: Casa em geometria sagrada projetada por Jaime Peña na Ecovila em Palmira. Colômbia, 2014. Foto: autora.

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Colômbia


Figura 112: Na foto: Leonardo, eu, Jaime Peña e Francisco Castaños na Ecovila em Palmira. Colômbia, 2014. Foto: acervo autora.

Figura 111: Casa em geometria sagrada projetada por Jaime Peña na Ecovila em Palmira. Colômbia, 2014. Foto: Leonardo Soares.

Colômbia

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Colômbia

Figura 113: Teste de estrutura no ateliê de Jaime Peña em Buga, Colômbia, 2014. Foto: autora.


Seguimos adiante para Armenia, deixando o Vale del Cauca e suas construções contemporâneas com vários arquitetos jovens e entramos no Eje Cafetero. O Eje Cafetero é composto por 3 departamentos: Quindio, Caldas e Risaralda. Começamos por Quindio. Passamos por um pedágio feito em gaudua pela dupla Simon Velez e Marcello Villegas. No caminho passamos por uma escola de arquitetura, a Gran Colombia, constituída por uma edificação praticamente toda em guadua e outra com uma mescla

de concreto armado, madeira e bambu, ambas projetos dos mesmos arquitetos. Em La Tebaida, estivemos na Fundacion Amanecer com sua bela oca feita em guadua e palha, uma cozinha industrial feita em guadua e uma grande estrutura de telhado feita em bambu para um espaço de eventos e ateliês. Em Armênia conhecemos o Parque de la Vida, onde há um espaço para eventos com um palco de bambu em meio a um lago.

Caldas

Risaralda

Quindio

Figura 115: Departamentos do Eje Cafetero

Figura 114: Pedágio em La Tebaida, Colômbia, 2014. Foto: autora.

Colômbia

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Colômbia

Figura 116: Escola de arquitetura Gran Colombia em Armenia, Colômbia, 2014. Foto: autora.


Figura 117: Escola de arquitetura Gran Colombia em Armenia, Colômbia, 2014. Foto: autora.

Figura 118: Parque de la Vida em Armenia, Colômbia, 2014. Foto: autora.

Colômbia

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Figura 119: Fundacion Amanecer em La Tebaida, Colômbia, 2014. Foto: autora. 70

Colômbia


Passamos por Montenegro onde conhecemos a fazenda Paraiso del Bambu da Ximena Londoño, uma taxinomista experiente em bambus, que possui a maior coleção de espécies da planta na Colômbia, ao todo 56 espécies. Pela estrada, podemos observar o grande beiral do telhado da torre do Parque del Cafe. Depois seguimos rumo à Quimbaya para a Pequeña Granja de Mama Lulu, uma fazenda permacultural, onde todas as construções são em guadua feitas por Hernando, membro da família, e lidam inteligentemente com as questões de água e energia. No caminho, passamos por dois hotéis na beira da estrada, um era uma antiga fazenda de café que agora possui esse novo uso, e o outro era um hotel de luxo. Em ambos, pudemos entrar e analisar a arquitetura. Em Circasia, estivemos com o artista Julián, da empresa Caulinarte, que nos ensinou a técnica desenvolvida por ele para trabalhar com as folhas caulinares do bambu, criando quadros, porta retrato, brincos, tampos de mesa, etc.

Figura 120: Paraiso del Bambu em Montenegro, Colômbia, 2014. Foto: autora.

Colômbia

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Colômbia

Figura 121: Parque del Cafe em Montenegro, Colômbia, 2014. Foto: autora.


Figura 122: Pequeña Granja Mama Lulu em Quimbaya, Colômbia, 2014. Foto: autora.

Colômbia

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Figura 123: Pequeña Granja Mama Lulu em Quimbaya, Colômbia, 2014.

Foto: autora.

Figura 124: Na foto: Autora, Hernando e Leonardo em Mama Lulu. Foto: acervo autora.

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Colômbia


Figura 125: Loja Caulinarte em Circasia, Colômbia, 2014. Foto: autora. Figura 126: Na foto: Leonardo, Julián e autora. Foto: acervo autora.

Colômbia

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Figura 127: Hotel Las Camelias em Montenegro, Colômbia, 2014. Foto: Leonardo Soares. 76

Colômbia


Figura 128: Hotel antiga fazenda de café em Montenegro, Colômbia, 2014. Foto: autora. Colômbia

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Seguimos então para Pereira, no departamento de Risaralda. Paramos em Salento, a cidade dos viajantes, cheia de artesanatos e uma natureza incrível. No caminho vimos vários pontos de ônibus feitos em guadua e mais um pedágio em bambu e aço. Em Pereira estivemos com os professores/pesquisadores Juan Carlos Camaro e Jorge Augusto Montoya da Universidade Tecnológica de Pereira (UTP), onde pudemos ver como o estudo científico do tema tem avançado no país. Estivemos com um professor do Sena, um curso técnico, similar ao SENAI, que tem cursos profissionalizantes em construção com bambu. Estivemos na ponte construída em um curso ministrado por Joerg Stamm, o alemão que havíamos conhecido em Bogotá. As pontes são estruturas surpreendentes, pois alcançam grande vão livre, impressionam pelo desafio estrutural. Conversamos com Rubem Dario, profissional da Carder (órgão ambiental estadual), que nos mostrou como se dá o processo de legalização do manejo de guaduais.

Risaralda

Figura 129: Departamento de Risaralda

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Colômbia

Visitamos duas fazendas que tratam o bambu, a Ecoguadua e a Finca Yarima. A relevância da primeira é a grande produção de esterilla, usada em forro de teto, em pisos e paredes. A segunda é coordenada por Lucia Mejia, que possui um planejamento de manejo bem avançado dos guaduais. Com ela aprendemos muito sobre a gestão de uma plantação comercial de guadua e acompanhamos o corte de quase 200 varas. Fomos ao clube Comfamiliar, onde todas as edificações são em guadua, os restaurantes, as lojas, a recepção, os espaços para eventos, ponte, as casas para alugar. O clube abriga uma exposição permanente sobre as culturas indígenas colombianas. Neste lugar pude conhecer

a réplica de uma casa dos índios Quimbaya. Em Pereira, Juan Castellanos, da Ecoaldea Pachamama e empresa Bambu Kindus, nos confirmou que poderíamos conhecer o espaço em Calarcá, perto de Armenia. Como não podíamos recusar, nem tínhamos tempo para voltar o caminho de bike, resolvemos pegar um ônibus e para lá fomos. Conhecemos uma experiência interessante de empresa e ecovila, uma inspiração para o futuro. Lá se corta, trata, vende e constrói, ou seja, quase todas as etapas. Aproveitamos para conhecer o Jardim Botânico de Calarcá, onde estão três construções do arquiteto Simon Velez. Dias antes tínhamos recebido um convite para irmos fazer Canopy, que é uma espécie de arvorismo com tirolesa. Para isso, fomos até Montenegro. O Canopy Los Caracolis é de um casal que por anos trabalhou como bombeiros. Ele aprendeu a construir estações muito altas para as missões de resgate, então, ele próprio desenvolveu e construiu as estações do canopy todas em guadua, as escadas chegavam até 30 metros. A vista da tirolesa era de floresta nativa de guadua, um evento lindo. Conheci também a casa da família, que era uma antiga fazenda de café feita com a técnica bahareque (guadua e barro), construída há 130 anos (figura 82). Ele nos contou sobre o episódio do terremoto em Armênia, na época, ele era chefe dos bombeiros e comandou a ajuda. Além de tudo isso, esse era o dia do meu aniversário e do dele, então tivemos um grande almoço em família e mais comemoração à noite. Esse dia, sem dúvida foi abençoado.


Figura 130: Ponto de ônibus em Pereira, Colômbia, 2014. Foto: autora.

Figura 131: Professor Juan Carlos Camaro em Pereira, Colômbia, 2014. Foto: autora.

Figura 132: Painés sobre guadua na Universidade Tecnológica de Pereira, Colômbia, 2014.

Figura 133: Ponte na UTP, Pereira, Colômbia, 2014. Foto: Leonardo Soares.

Foto: Leonardo Soares.

Colômbia

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Figura 135: Carder em Pereira, Colômbia, 2014. Foto: Leonardo Soares.

Figura 134: Carder em Pereira, Colômbia, 2014. 80

Colômbia

Foto: Leonardo Soares.

Figura 136: Esterillas em Ecoguadua em Pereira, Colômbia, 2014. Foto: autora.


Figura 137: Mapeamento da Finca Yarima em Pereira, Colômbia, 2014. Foto: autora.

Figura 139: Na foto: Autora, Juan Castellanos e Leonardo em Pachamama, Calarcá, Colômbia,

Figura 138: Na foto: Leonardo, Lucía Mejia e autora em Finca Yarima, Colômbia, 2014. Foto: acervo autora.

Figura 140: Oca em Pachamama, Calarcá, Colômbia, 2014. Foto: autora.

2014. Foto: acervo autora.

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Figura 141: Cobertura da oca em Pachamama, Calarcá, Colômbia, 2014. Foto: Leonardo Soares.


Figura 142: Construção de Simon Velez em Jardim Botâncio, Calarcá, Colômbia, 2014. Foto: autora.

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Figura 143: Plataformas de guadua em Canopy, Montenegro Colômbia, 2014. Foto: acervo autora.

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Figura 144: Almoço de aniversário em Canopy, Montenegro Colômbia, 2014. Foto: acervo autora.


Em seguida conhecemos Manizales, em Caldas, o terceiro departamento do Eje Cafetero, onde está localizada uma das obras de bambu mais famosas e simbólicas da Colômbia, o Pavilhão Zeri, no Recinto del Pensamiento. O projeto é desafiador e belo, um lugar espetacular. Obra de Simon Velez e Marcello Villegas. De volta a bicicleta, passamos por Chinchiná, onde conhecemos a fábrica de laminados e móveis de Marcello Villegas e conversamos um pouco com ele sobre a carreira e sobre desenhos estruturais. Essa foi a última cidade do Eje Cafetero, saímos com o coração repleto de satisfação e gratidão. O povo dessa região é muito hospitaleiro e amoroso, me lembrou Minas Gerais, a nossa região do café e do povo acolhedor.

Metade da viagem foi vivida nessa zona cafeteira, por ser o lugar que originou a cultura do bambu. Ao pedalar por tantos caminhos, foi possível sentir essa cultura, pois em todas as beiras de estrada haviam construções em guadua. A arquitetura popular auto construída encantava pela simplicidade e qualidade, principalmente as com cores vivas. Haviam também construções de grande porte, como restaurantes, lojas e até curral coberto em uma fazenda de leite. Apesar do tamanho, era possível ver que tinham sido feias pelos próprios donos ou construtores locais, sem formação técnica. Não eram rebuscadas e nem tinham os melhores encaixes de peças, mas eram inteligentes e resistentes. Essas pessoas vivem o que a permacultura incentiva, a construção com materiais locais. Eles conhecem a guadua e sabem usá-la, desde a retirada da mata até o uso na construção.

Caldas

Figura 145: Departamento de Caldas.

Colômbia

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Colômbia

Figura 146: Pavilhão Zeri em Recinto del Pensamiento, Manizales, Colômbia, 2014. Foto: autora.


Figura 147: Pavilhão Zeri em Recinto del Pensamiento, Manizales, Colômbia, 2014. Foto: autora.

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Figura 148: Pavilhão Zeri em Recinto del Pensamiento, Manizales, Colômbia, 2014. Foto: autora.

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Figura 149: Pavilhão Zeri em Recinto del Pensamiento, Manizales, Colômbia, 2014. Foto: Leonardo Soares.


Figura 150: Empresa Laminado Velez e Villegas, Chinchiná, Colômbia, 2014. Foto: autora.

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Figura 152: Empresa Laminado Velez e Villegas, Chinchiná, Colômbia, 2014. Foto: autora.

Figura 151: Empresa Laminado Velez e Villegas, Chinchiná, Colômbia, 2014.

Foto: Leonardo Soares.

Figura 153: Empresa Laminado Velez e Villegas, Chinchiná, Colômbia, 2014. Foto: acervo autora.


Figura 154: Construções na beira da estrada, Eje Cafetero. Colômbia, 2014. Fotos: acervo autora.


Figura 155: Construções na beira da estrada, Eje Cafetero. Colômbia, 2014. Fotos: acervo autora.


Figura 156: Construções na beira da estrada, Eje Cafetero. Colômbia, 2014. Fotos: acervo autora.


Saindo do Eje Cafetero, entramos no departamento de Antioquia, rumo à Medellin. Passamos pedalando por La florida, La pintada, Bolombolo, Santa Fé de Antioquia, Jardin até chegar em Medellin. Em Jardin, estivemos com o engenheiro Oscar Montoya, que nos levou para conhecer suas construções e nos mostrou as técnicas construtivas que estava desenvolvendo. Um exemplo é a base dos pilares sem colocar concreto dentro do bambu, como muitos colombianos costumam fazer, e sim fazendo uma amarração externa. Em Santa Fé de Antioquia vimos mais uma ponte, esta construída por Oscar e Joerg Stamm.

Antioquia

Figura 157: Departamento de Antioquia.

Nas estradas se via a mudanças de paisagem e, principalmente, de comportamento. Essa região foi duramente marcada pela guerra entre guerrilha, exército e para-militares, que ainda era muito intensa na região há menos de dez anos. Era perceptível no semblante das pessoas a presença dessa energia. Vimos poucas pessoas e casas na beira das estradas.

mobilidade e projetos urbanos e arquitetônicos que integram a cidade. Portanto, em Antioquia vimos uma transição de uma zona com muita construção em bambu para uma zona com pouquíssimos exemplos. De lá, queríamos conhecer a costa caribenha. Como a distância era muito grande para o tempo de que dispúnhamos, seguimos em ônibus, para voltar a pedalar na costa. Lá conhecemos uma autoconstrução em bambu com referências na Permacultura, a casa Biyuca, além de uma obra na beira da praia. Pouco havia de bambu nessa região, então, aproveitamos um pouco as praias, conhecemos Cartagena e voltamos de ônibus para Bogotá.

Caribe visitado

Em Medellin já haviam poucas construções com bambu. Nos haviam dito que havia uma ponte de bambu, porém essa foi mal construída e a retiraram. Estivemos somente em uma obra, feita também por Oscar, um restaurante e loja em uma estrada. Porém, havia muito o que ver de interessante na cidade. Para mudar a imagem da cidade marcada por anos de poder do narcotráfico, muitas políticas públicas sociais estão sendo desenvolvidas, como as bibliotecas parque 1 nas favelas, planos de 1 As bibliotecas fazem parte de um projeto de renovação da cidade de Medellin a partir da cultura e educação. São bibliotecas com arquitetura contemporânea com o interior voltado para o conforto dos usuários. Além do acervo de livros, possuem um grande acervo áudio visual, caracterizando num novo modelo de biblioteca, atualizada aos tempos de hoje. Estão localizadas nas favelas de Medellin e inspiraram a criação das bibliotecas parque do RJ.

Figura 158: Região visitada do Caribe. 92

Colômbia


Figura 159: Construção de Oscar Montoya em Jardin. Colômbia, 2014. Foto: autora.

Colômbia

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Figura 160: Cobertura

de balança de caminhão. Projeto de Oscar Montoya em Jardin. Colômbia, 2014. Foto: Leonardo Soares.

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Colômbia

Figura 161: Residência.

Projeto de Oscar Montoya em Jardin. Colômbia, 2014. Foto: Leonardo Soares.


Figura 162: Ponte em Santa Fé de Antioquia. Colômbia, 2014. Foto: Leonardo Soares.

Figura 163: Restaurante

Supercerdo. Projeto de Oscar Montoya em Jardin. Colômbia, 2014. Foto: autora. Colômbia

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Figura 164: Construção na beira da praia em Mendhiuaca. Colômbia, 2014. Foto: autora.

Figura 165: Construção costeira em Mendhiuaca. Colômbia, 2014. Foto: autora.

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Colômbia

Figura 166: Cabana de hotel na praia em Palomino. Colômbia, 2014. Foto: Leonardo Soares.


De volta a Bogotá, fomos a Villa de Leyva, no distrito de Boyacá, encontrar a bioarquiteta Lucia Garzon que nos mostrou algumas construções suas em terra e nos apresentou a arquiteta Clara Ospina que realiza obras com técnicas interessantes em guadua. Sua casa é inspirada numa concha no formato de um caracol e o teto é uma abóbada. Estivemos na Ecoaldea Feliz situada no município de San Francisco (Cundinamarca), onde, para além das residências em guadua, o mais relevante foi conhecer a estrutura “social” em que vivem, inspirada no conceito da sociocracia. O cuidado com outro, com o alimento e com a terra se evidenciava na harmonia do lugar. Uma grande inspiração. E, para finalizar a viagem em grande estilo, nos encontramos com os arquitetos do Zuarq, aqueles do início da viagem. Foi um encontro rápido, mas suficiente para conversamos sobre o escritório deles e os projetos. Eles conseguiram um bom espaço no “mercado” e têm construído muitas casas e condomínios em guadua.

Figura 167: Construção em Ecoaldea Feliz em Cundinamarca.

Colômbia, 2014. Foto: autora.

Colômbia

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Figura 168: Residência projetada por Zuarq em Colômbia. Fonte: flickr.com/photos/zuarq acessado em 21 de fevereiro de 2015. 98

Colômbia


Caribe Arq. Costeira

E assim, me despedi da Colômbia, uma terra linda, com grande riqueza natural, montanhas magnificas, comida farta e pessoas adoráveis. Voltei com um mundo de conhecimento e cumpri o objetivo, viajar devagar vendo a cultura construtiva do bambu. Percebi que a cultura construtiva existia, não só porque havia construção feita em guadua, mas porque as pessoas achavam comum esse tipo de construção, é algo familiar, está na história e todos têm algum conto sobre “la casa hecha en guadua”.

Antioquia Arq. Contemporânea

Nessa vivência, pude confirmar que as construções em bambu estão presentes em grande parte do território colombiano. As cinco regiões são diferentes em suas arquiteturas, principalmente entre as construções do Eje Cafetero, em geral mais tradicionais; e as das outras regiões, mais contemporâneas. Assim, passei 3 meses, pedalando e entendendo essa cultura construtiva colombiana. Eixo do café Arq. Tradicional e Contemporânea

Boyacá e Cundinamarca Arq. Contemporânea

Valle del Cauca Arq. Contemporânea

Colômbia

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Figura 169: Olhar pessoal sobre a dinâmica construtiva do bambu no trajeto percorrido.


Conclusão Ao longo do processo deste trabalho tive a compreensão do que é lidar com um material natural. A heterogeneidade torna o bambu um recurso complexo, repleto de variáveis, por isso o pensamento integrado é essencial para a realização desta atividade. Tal lógica não se aplica somente a escolha de um material adequado ecologicamente no contexto de desequilíbrio ambiental, como também ao comportamento da planta como um material construtivo. O entendimento da anatomia, propriedades mecânicas, proteções físicas e químicas, deve estar entranhado na elaboração e execução do projeto. Para uma obra ser bem executada e durável é preciso trabalhar corretamente as uniões segundo a anatomia do bambu. É de grande importância saber que as fibras do bambu estão no sentido longitudinal, que os nós são pontos de grande resistência geométrica, que cada parte do bambu é indicada para uma função na construção. Esse conhecimento fará com que os bambus não cedam nas uniões, o que, consequentemente, leva ao deterioramento da obra. O desenho estrutural confiável deve ser baseado nas propriedades mecânicas e anatomia da planta para que a quantidade e composição das peças sejam bem ela boradas. O cálculo estrutural e o conhecimento de geometria e física são de grande importância para o posicionamento das varas e o seu comportamento estrutural. Esse raciocínio é um grande aliado no trabalho 100 Conclusão

com bambu, pois é dele que ocorrem as soluções mais interessantes para as obras, destaco aqui as construções carregadas de inteligência do arquiteto Jaime Peña, do escritório Zuarq, do engenheiro Oscar Montoya e da dupla Simon Velez e Marcello Villegas. As proteções físicas são de extremo valor, pois irão proteger os bambus dos efeitos do sol e da chuva. Quando esses cuidados não são tomados na obra, em alguns anos os bambus se mostram ressecados e esbranquiçados pelo sol. A umidade acentuada torna o bambu propício a proliferação de fungos, que diminui a resistência mecânica do bambu. As práticas de proteção física garantem a durabilidade da construção. As proteções químicas utilizadas devem ser esclarecidas no momento de compra de varas de bambu para que o profissional não use uma peça que irá atrair fungos e insetos ou que será uma fonte de liberação de toxinas para os usuários. Os produtos químicos utilizados devem ser descartados adequadamente ou reciclados para evitar a contaminação de rios e solos. O comportamento do bambu no âmbito ecológico, mostra-se como um adequado recurso a ser apropriado pela arquitetura, pois é uma fonte renovável, que não necessita de transformações industriais, com baixo gasto energético em toda sua cadeia produtiva e alto captador de CO2 (ajuda a reduzir o efeito estufa). É possível plantar em áreas degradadas e com a produção abastecer um mercado de varas de bambu. No entanto, para que esta


atividade obtenha sucesso há de ser realizado o manejo adequado, respeitando sempre os limites naturais. Na vivência da cultura construtiva colombiana pude verificar todos esses aspectos, tantos com exemplos positivos quanto negativos. A viagem me proporcionou um grande repertório de obras, análises construtivas e manejo de bambuzais. É diferente viver de perto as construções e as plantações do que observá-las pelas páginas de um livro ou por fotos na internet. A cadeia produtiva na Colômbia está amadurecida. Há profissionais trabalhando nos diversos setores, desde o corte de bambu até a construção. Este desenvolvimento se reflete na diversidade de tipos de obra: residência, escolas, hotéis, lojas, restaurantes, pontes, pedágios, pontos de ônibus, construções rurais e urbanas. Os cursos profissionalizantes em construção com bambu ajudam na formação de mão de obra. E, a norma que regulamenta a construção, é um fator de confiança para os construtores e usuários. Foi possível perceber que há uma nova geração de construtores, que realizam projetos inseridos numa estética contemporânea, e não mais, tradicional, como era há algumas décadas atrás. Nas cinco regiões visitadas havia construções em bambu realizadas nessa lógica. Esta constatação é estimulante, pois mostra que arquitetos e engenheiros colombianos já se apropriaram do bambu como uma opção de material construtivo.

CONTEXTO HISTÓRICO ATUAL

RECURSO RENOVÁVEL

CONHECIMENTO DA PLANTA (ANATOMIA)

REFERÊNCIAS PROJETUAIS (COLÔMBIA)

SENSIBILIDADE DA CONSTRUÇÃO

PENSAMENTO INTEGRADO NA ELABORAÇÃO E EXECUÇÃO DE UMA ARQUITETURA EM BAMBU PROPRIEDADES MECÂNICAS

PROTEÇÃO FÍSICA

PROTEÇÃO QUÍMICA

Penso que caminho semelhante poderão seguir arquitetos e engenheiros brasileiros. Portanto, o estudo da planta somado à experiência colombiana me provou que é possível e viável a apropriação do bambu como um material construtivo na arquitetura (brasileira) atual.

Figura 170: Mandala do pensamento integrado. Elaboração própria.

Conclusão 101


102 Conclusão

Figura 171: Registros da viagem. Colômbia, 2014. Fotos: acervo autora.


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A Viabilidade Construtiva do Bambu | TFG - UFF  

Fabiana Carvalho - Trabalho Final de Graduação

A Viabilidade Construtiva do Bambu | TFG - UFF  

Fabiana Carvalho - Trabalho Final de Graduação

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