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A lógica dos devassos 1

Ezio Flavio Bazzo

A LÓGICA DOS DEVASSOS No circo da pedofilia e da crueldade... [... ”Mostre-me todos os crimes com que você tem de lidar e eu sou capaz de lhe mostrar que, por trás de muitos deles existe uma ausência de razão. Ou seja, sou capaz de lhe mostrar que, no fundo de toda loucura, há a virtualidade de um crime e, por conseguinte, justificação do meu poder...”]*

Brasília-DF MOLOCH PUBLICADORA LTDA


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A LÓGICA DOS DEVASSOS No circo da pedofilia e da crueldade * ©Ezio Flavio Bazzo - Brasília - 2004 Moloch Publicadora Ltda * * O pensamento da página anterior é citado por Foucault em seu livro Os anormais * APRESENTAÇÃO Jorge Antunes


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“A cada porcaria que sai de minha boca eu me sinto mais limpo.” Pierre Louys “Sempre tive o pressentimento de que, pelo simples fato de respirar, eu incomodava meus vizinhos. Já no pátio da escola, meu demônio íntimo me avisava: “as aparências estão contra você? Salve-as!” No próprio momento em que nasce, o ser humano sabe por instinto que viver é um reflexo de legítima defesa.” Frédéric Schiffter


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APRESENTAÇÃO Jorge Antunes1 Domingo de carne-seca completa. Restaurante Xique-xique. Na mesa ao longe, pequenos lábios carnudos com batom carmim fascinante. Parece uma anã, linda. Mas as proporções do corpo são perfeitas. Um casal está à mesma mesa. Digo a Mariuga que vou olhar de perto … É uma menina de uns três anos de idade! Ezio Flavio Bazzo, neste instigante livro, desmascara os transtornos pessoais e a conhecida sociopatia. Ele denuncia a cumplicidade da sociedade com os pervertidos. Nessa denúncia ele vai incluir esse problema grave exemplificado pela menina do restaurante. "Não é de hoje que os abutres da indústria, do comércio e do marketing voltaram suas propagandas enganosas para o mundo infantil. Influenciadas por esses marqueteiros asquerosos e por mães imaturas e histéricas, meninas de até dois anos de idade estão cada vez mais dependentes das fábricas de cosméticos, cada dia mais vaidosas, atraentes e sedutoras. Sedutoras de quem?" Realmente, deu-me vontade de perguntar à mãe e ao pai da mesa ao longe: - Quem vocês pretendem ver seduzido pela menininha? Ezio é psicólogo clínico de grande experiência e reputação. Sua matéria de observação, estudo e análise não se resumem ao problemas de identidade, de alienação, depressão ou aos problemas «clássicos» das elites que o procuram no consultório. Ezio Bazzo costuma sair pelas ruas do mundo observando, furtiva ou descaradamente, as pessoas e as culturas "estranhas". Seus ouvidos já foram atentos e pacientes receptores de lamentações de tudo aquilo que costuma ser qualificado como escória e gentalha: histéricos, pervertidos, mendigos, putas, putos, assassinos, pedófilos, sádicos, masoquistas, pederastas, proxenetas. Suas primeiras conclusões são aterradoras: todos querem se vingar de agressões sofridas na infância e a inveja é o grande mal. Ele nos mostra que o "estranho" está por toda parte. Bazzo confessa que pretende "sugerir uma nova cara da realidade". Consegue. A toda hora vemos na televisão declarações de vizinhos de monstros que dizem frases do tipo: "Eu nunca podia imaginar que ele fosse capaz disso!"; "Seu comportamento era normal."; "Ele sempre foi muito afetuoso e cordial!"; "Era uma mãe exemplar!" Ezio, com textos, relatos, exemplos históricos e argumentos verdadeiros, cínicos e surpreendentes, nos convence de que as civilizações sempre estiveram à beira do absurdo e do caos. A nossa civilização não escapa desse tipo de avaliação. Às vezes Ezio é cruelmente pessimista e faz generalizações atrevidas e indevidas. Mas nesses momentos ele nada mais é do que um literato sedutor. Nas generalizações descabidas ele deixa de ser um psicólogo clínico para ser um psicólogo cínico e isso é, simplesmente, maravilhoso. Quando aponto aspectos cínicos no autor estou, evidentemente, me referindo à sua atitude diogenesiana de quem professa uma grande descrença, e até mesmo desdém, pela humanidade. No livro Bazzo relata suas andanças por Brasília, Rio, Madri, Granada, Sevilha, Tanger, munido de sua ácida lanterna a procura de um homem: só encontra monstros. Bazzo chega até mesmo, numa espécie de paroxismo literário, a afirmar que nossa civilização se divide em duas partes: "os bufões da ereção e o gueto militante e histeróide dos enrabados." Mas ele nunca demonstra preconceitos e aversões a opções sexuais. Pelo 1 Jorge Antunes é Físico, Professor Titular de música na UnB, membro da Academia Brasileira de Música, Presidente da Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica e Pesquisador do CNPq.


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contrário, ele respeita a tudo e a todos. Apenas faz constatações. A sordidez e a baixeza às vezes se evidenciam em suas conclusões. Mas, o quê fazer? A realidade é assim! Ele apenas nos joga na cara essas terríveis realidades. Em seu desprezo anarquista pela sociedade gerontocrática, que aniquila, deseduca, oprime, reprime, maltrata e abusa das crianças, ele vai desancar uma série de qualificações agressivas. Assim, vai desfilar aos olhos do leitor deste livro os mais interessantes comentários sobre nossa civilização: "babel de cínicos", "alienados crônicos", "mundo infame de filhos-das-putas", "comedores de crianças", etc. A crueldade que o ser humano dedicou sempre às crianças, o escritor vai identificála como eterna na história da humanidade. Sempre acobertado ou tolerado pela sociedade e pelo Estado, o infanticídio, com os mais diferentes matizes, vai se evidenciar por todo o tempo e por todo o espaço. "O incesto, a pedofilia e a prostituição infantil são apenas detalhes do desatino e do infanticídio generalizado que sempre marcou a história fisiológica e cretina do mundo" – afirma Ezio Bazzo em sua perfeita e completa visão panorâmica da história. Ele nos mostra que o infanticídio generalizado não deveria surpreender a nenhum dos crápulas detentores do poder que, via de regra, surram seus filhos em casa. Para demonstrar suas afirmações, o autor nos reporta a práticas do Baixo-Império romano e até mesmo varre a hipocrisia dos livros ditos "sagrados": "Hiel reconstruiu Jericó sobre o sacrifício de seus filhos"; "Jefté ofereceu a filha depois de obter uma vitória sobre os amonitas"; "David, para aplacar a ira de Jeová, sacrificou sete parentes de Saul";… Ezio nos mostra que agressões estúpidas contra crianças são praticadas ainda nos dias de hoje, sob a proteção de tradições culturais. Ele nos relembra o fato de que os antigos hebreus sacrificavam crianças no fogo e que os judeus ainda hoje praticam, e continuarão a praticar, a circuncisão. Práticas culturais de diferentes grupos sociais acabam por desafiar a tolerância dos mais esclarecidos. No final de 2003, e certamente também no decorrer de 2004, vamos seguindo atônitos as descobertas da Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga a exploração sexual de crianças e adolescentes. Cada um dos estados da região Norte vai sendo visitado pelos deputados da CPI. As primeiras apurações mostraram que a exploração sexual nessa área tem características próprias. Em geral os aliciadores buscam meninas de origem indígena menores de 17 anos, atendendo à demanda de turistas estrangeiros. A deputada Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) declarou à imprensa em novembro de 2003: "A situação se agrava porque, pela cultura indígena, as meninas podem ter vida sexual assim que atingem a puberdade." As culturas diferentes, que devem ser respeitadas segundo os preceitos mestiços da diversidade cultural, nos colocam em cheque, em becos sem saída. Esparta precisava de grandes guerreiros. Então, como deixar de respeitar o costume espartano de jogar na ribanceira, para a morte, seus bebês defeituosos? Respeitar essas culturas, quando elas estão longe no tempo, até que é muito fácil. Se não fosse assim, os evangélicos já teriam rasgado o Velho Testamento com suas crueldades e infanticídios. Mas quando a cultura bizarra está próxima, no tempo ou no espaço, aí então nosso amor pela diversidade cultural se revela falso e hipócrita. Em atitudes espartanas, Hitler também queria uma sociedade pura e forte, sem aleijados. Como admitir, em pleno século XXI, a infibulação e a ablação do clitóris? Como é sabido, ainda hoje a prática é usada em alguns países da África. É tradição cultural! Os amantes da diversidade cultural e da tolerância devemos respeitar essa prática? Ela consiste na ablação parcial do clitóris e dos lábios vaginais, e sua costura. Deixa-se apenas uma pequena passagem, para tornar impossível o coito. Numa


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cerimônia que é bela para os muçulmanos e aterradora para os nossos hábitos civilizados, uma mulher segura a menina pelas costas, enquanto ela se debate e grita desesperadamente. Outras duas mulheres mantêm suas pernas abertas. A própria mãe da menina usa uma faca ou um caco de garrafa, para a cirurgia sem qualquer assepsia ou anestesia. Em seguida, os grandes lábios são aproximados e costurados, de forma a vedar a ferida, deixando apenas um minúsculo orifício, no qual se coloca um pedaço de bambu para impedir o fechamento total. As pernas da criança são amarradas, para evitar movimentos que impeçam a cicatrização. A seguir ela é colocada em uma esteira até que urine. Isso prova que o orifício não está totalmente bloqueado. A cerimônia faz parte da cultura de muitos países: Afeganistão, Etiópia, Somália, Djibuti, Sudão, Egito, Tanzânia, Nigéria, Iêmem, Arábia Saudita, Senegal, Iraque, Jordânia, Síria e Argélia. Com a fuga de refugiados e as imigrações, a tradição tem sido levada para a Europa e os EUA. Tem também sido trazida ao Brasil por emigrantes muçulmanos. Infanticídio brando seria uma forma de qualificar aquela prática cultural. Outra prática cultural-religiosa semelhante é a circuncisão, que continua a acontecer nos dias de hoje. Esse rito de iniciação dos meninos, que consiste em cortar o prepúcio, é um ato simbólico da castração. O ritual acontece por ordem milenar de Abraão. Quando este tinha 99 anos de idade, Deus ordenou que cortasse seu prepúcio. Veja-se que Deus não foi tão sacana com Abraão, esse personagem santificado por Judeus, Cristãos e Muçulmanos. Deus só deu a ordem corta-prepúcio a Abraão, quando este já era senil, depois de já ter feito um filho na empregadinha de sua mulher Sara, que era estéril. A empregadinha Agar, deu Ismael à luz. Aqueles que se ocupam da exegese bíblica não usam a expressão "empregadinha". Eles preferem usar a palavra "serva", porque "escrava" é palavra muito forte. Abraão circuncisou-se quando tinha 99 anos e meteu a faca no pinto de Ismael quando este tinha 13 anos. Abraão circuncisou Isaac quando este tinha oito dias de vida e, até hoje, pintinhos e mais pintinhos têm a pele cortada em cerimônias humilhantes. É evidente que - confesso -, ao comentar dessa forma algumas passagens bíblicas, estou contagiado pela irreverência corrosiva de Ezio Bazzo. Esta é outra qualidade deste livro. Ele impregna o leitor de lucidez crítica, sendo até mesmo capaz de, através do exemplo, criar novas mentalidades sem papas na língua. O texto de Bazzo corre solto e natural como um rio calmo, corajoso e avassalador. As porradas e os socos na cara que o texto, às vezes, nos dá, se justificam: o rio calmo, caudaloso, vai acumulando energia, o leitor se sente atraído pelo abismo e nele cai, como quem cai na realidade. Parece que tudo acontece ao correr da pena, ou ao correr ágil dos dedos no teclado. O próprio autor declara que pretendeu sempre usar o mínimo de moralismos e nada de academicismos exaustivos. Ele mesmo confessa que usa apenas um método: o vagabundo e aglomerativo. Mas, convenhamos, - discordemos de Bazzo -, o livro vem a ser uma coletânea de crônicas-papers impregnadas de uma espécie de hiperacademicismo. As hipóteses, os argumentos, as revisões bibliográficas, a metodologia, as demonstrações e as conclusões estão sempre crivadas de balas mortíferas e dilacerantes. Esses torpedos são os pés de páginas que, de momento em momento, interrompem o discurso nos trazendo ramificações e reminiscências históricas. Cada nota de rodapé é um flash-back histórico que nos dá uma alfinetada, um beliscão ou um murro no estômago. Vejamos um exemplo desses socos no estômago. No texto principal o autor discorre sobre as noites no perímetro de Patpong, em Bangkok. Ele nos conta que quem passa por ali "tem cem por cento de chances de cair nas mãos de um taxista ou de um policial proxeneta que lhe oferecerá as mais extravagantes perversidades, entre elas sempre meninas e meninos ainda sem pentelhos". Até aí nada de novo, porque em mil outros cantos do mundo, como em Manaus e Rio Branco, cenas como essas são muito


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comuns. Mas Ezio Bazzo prossegue seu texto levando-nos à França do final do século XX. "Mesmo Paris, lá pelos anos 80, apesar da demagogia de Fraternité, Egalité & Liberté, mantinha na clandestinidade e no métier prostitutivo, seis ou sete mil crianças (mais meninos do que meninas)." Ao final de sua denúncia um numerozinho sobrescrito nos faz com que, curiosos, demos uma olhada no rodapé correspondente. Então recebemos o soco memorial: "No tão citado Banquete de Platão (que há muito tempo se transformou no livro de cabeceira até dos pederastas tupiniquins) se pode ver que o coito anal era comum entre professores e alunos (lá os professores enrabavam literalmente seus alunos), e que os gregos apreciavam em seus meninos o que apreciavam nas meninas: poucos pêlos, delicadeza e imaturidade. As crianças escravas, principalmente os meninos, tinham quase o dever de servir sexualmente aos velhos pederastas." O rio de palavras de Ezio avança. Às vezes o rio se mostra poluído. Mas a poluição do rio vem sendo produzida pelo próprio ser humano comedor de criancinhas cuja história Bazzo nos conta. O leitor se sente cada vez mais atraído pela imensidão que promete, a cada momento, novas paisagens e descobertas. A palavra flui, dá solavancos, encontra rochas duras no caminho, adivinhando ribanceiras, cascatas, quedas, calmarias, verdades e vergonhas que a intelectualidade em particular e a humanidade em geral, envergonhadas, tentam esconder. O homem, das mais diversas sociedades, épocas e civilizações, de que Ezio fala, é intelecto, inteligência e transcendência, mas é também, e acima de tudo, corpo. Aí está o problema. O corpo humano, segundo Ezio, é "este troço de carências, ossos e fluídos". O autor vai mais longe, afirmando que o corpo "é mais ou menos como um coágulo despencando ladeira abaixo, lançando sêmen e óvulos por todos os lados, numa tentativa desesperada de perpetuar-se e de vingar-se". Nessa ânsia desesperada de sobreviver, perpetuar-se e vingar-se, fica uma coleção enorme de perversidades seculares de cunho sado-masoquista. Nas guerras, então, as diversões cruéis dos corpos chegam a absurdos e bizarrices inimagináveis, em que o infanticídio se faz presente. O escritor nos relembra que, em pleno século XX, a humanidade ficou estarrecida com o massacre de Sabra e Chatila, em que crianças palestinas foram degoladas ou empaladas. Não é à toa que o Estado brasileiro e, em particular, o Itamaraty, não autorizam acesso aos documentos secretos da Guerra do Paraguai. No apagar das luzes do governo FHC foi decretado, apesar de legalmente já se ter cumprido o prazo de carência, que permanecem secretos os documentos referentes à guerra acontecida há mais de 130 anos. Ezio Bazzo nos relembra os relatos de José Julio Chiavenatto em seu livro Genocídio Americano: a guerra do Paraguai. São relatos impressionantes acerca dos acontecimentos do dia 16 de agosto de 1869, quando foi massacrado um exército de 3.500 crianças paraguaias. Crianças de seis a oito anos agarravam-se às pernas dos soldados brasileiros e estes as degolavam impiedosamente. No Paraguai o 16 de agosto, por essa razão, é o Dia da Criança. A criança é reverenciada, sim, pelo escritor Ezio Flavio Bazzo. Ele é um credenciado narrador das imposturas de um mundo pedófilo e infanticida. Este livro é obra de arte de um sarcasta irreverente que foi capaz de ir ao Museu do Prado, em Madri, para tentar descobrir o que se passava nas cabeças de pintores dos séculos XVI e XVII que, em seus quadros, davam tanto destaque aos "putti". Os putos, os garotos do lusitanismo popular, estão por demais presentes, sempre nus, nos quadros de Tiziano, Rafael, Del Sarto, Caliari, Gentileschi, e tantos outros. "Um exagero de nus infantis e quase só meninos, de bundinha rechonchuda e cabelos cacheados." Sem nenhuma certeza, mas com muita desconfiança, o escritor fez a visita peculiar ao Museu, apenas


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com uma curiosidade: a de "saber se houve ou não malignidade, luxúria e malícia nos quadros e nos pincéis daquele tempo". Nessa visita de Bazzo ao Museu do Prado, certamente o Paraiso Terrestre, o Jardim das Delícias e o Inferno do Músico, o famoso tríptico de Hiéronymus Bosch, ainda estavam escondidos nos porões secretos do Museu, no atelier da Dra. Rocio D'Avila, para as restaurações que duraram mais de cinco anos. Neste estonteante e maravilhoso trabalho de Bosch, que foi contemporâneo de Tiziano e Rafael, encontramos milhares de personagens bizarros, mas nenhuma criança. Lá estão cenas de homens de quatro que recebem flores no ânus, um homem que ama um porco, um adulto nu com o corpo trespassado pelas cordas de uma harpa gigante, um flautista com a flauta doce enfiada no cu, mas não existem "puttis" nos quadros. Esse fato seria um indício para possíveis conclusões. Enquanto Rafael Sanzio, à época, trabalhava para o Papa Julio II, e enquanto Tiziano pintava sob encomenda do Duque de Ferrara, Bosch estava metido em confrarias secretas, confabulando contra a acumulação de riquezas produzida pelo mundo feudal. Ou seja, Bosch estava do lado dos trabalhadores livres. Para tentar comparar montruosidades do passado com algumas daquelas outras do presente, Ezio dedica um capítulo do livro a tauromaquia. Vai a Sevilha e assiste uma tourada. Cenas abomináveis são cruamente descritas pelo escritor. Na arena, o homem faz uso da bestialidade a pretexto de acabar com o instinto bestial. A bestialidade, contida no infanticídio, na pedofilia, na zoofilia e na gerontofilia, de que o autor trata, está sempre, ainda nos dias de hoje, a levantar suspeitas sobre os instintos ditos humanos. A fabricação de monstros está sempre presente, nunca se sabe se por obra e graça da própria natureza ou se da sociedade. Seguindo o curso da história, Bazzo passa dos pintores dos séculos XV e XVI, para as associações dos compra-crianças do século XVII. Lembra que o romance O Homem que Ri, de Victor Hugo, é inspirado na impressionante e inacreditável atividade, acobertada pelo Estado, que consistia em comprar crianças para deformá-las fisicamente. Após terem cortados seus narizes, rasgadas suas bocas, os rostos deformados a ferro em brasa, quebradas suas colunas vertebrais, as crianças eram vendidas às cortes, aos sultões e aos papas, para alimentar as atividades de saltimbancos e bobos da corte. A crueldade humana para com as crianças vai chegar a um extremo no século XVII, quando a igreja proíbe mulheres de participar do coro. A solução é a castração de crianças, para que cresçam homens que farão as vozes agudas da polifonia corais. Ezio Bazzo nos leva a esse mundo masoquista e infanticida, com uma ironia e uma leveza ácida que surpreendem o leitor. Ezio não deixa por menos e clama: "Que se danem os culhões e que se salve a arte! Devia ser a premissa escamoteada dos papas, dos bispos e dos regentes daquela época." Os castrati italianos existiram, por incrível que possa parecer, até o século XIX. Aqui Ocidente e Oriente se encontram culturalmente, porque os eunucos, os homens castrados, eram os guardas dos haréns. Ezio Flavio Bazzo, apesar de toda a sua crueza e deboche narrativos, se revela um literato de primeira grandeza. Sua arte de escrever, conteudisticamente, ultrapassa a irreverência de muitos outros autores. Eu diria que ele coloca no chinelo, por exemplo, os poemas de Guerra Junqueiro, as peças teatrais de Qorpo Santo e os artigos de Léon Gambetta. O dedo em riste de Ezio está sempre apontado para o clero, mas também para o poeta, o livro sagrado, o fanático, o religioso, o toureiro, o comerciante, o industrial, o educador, o acadêmico, a família e o Estado. Se ideológica e conteudisticamente o escritor é rico, formalmente ele vai até mais longe, com uma fineza e uma maestria que deleita qualquer leitor ávido de uma boa narração e de uma boa crônica. A pena de Ezio passeia


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encantada por paisagens, praças, hotéis, becos e situações impressionantes em Sevilha, Granada, Tanger, Marrocos, Katmandu e Paris. Ao ver um menino sendo surrado pelo pai, numa cidade do Marrocos, Ezio larga o formalismo para se abraçar desesperadamente, sem meias palavras, às suas convicções e suas dúvidas. Imediatamente ele se lembra das fantasias de flagelação estudadas por Freud. Durante a surra evidenciam-se o costume da criança às porradas e o prazer dos marroquinos que olham a cena. O mundo pedófilo e infanticida precisa ser salvo! Assim, o escritor chega até mesmo a interrogar a existência humana: "Goza aquele que está apanhando ... goza aquele que está batendo … e gozam aqueles que assistem a tortura … Porra! Mas se for assim … o que é então o ser, além da mais pura e da mais legítima perversidade?" Brasília, janeiro de 2004.


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Capitulo 1 ARTIMANHAS, MENTIRAS E PICARETAGENS AMOROSAS “Teço a infâmia; urdo o crime; engendro o lodo, e nas mudanças do Universo todo, deixo inscrita a memória de meu gérmen!” Augusto dos Anjos Antes de colocar o livro de volta na prateleira, reli em voz alta a frase que nele algum leitor havia sublinhado: Dostoievski confessou a Turgueniev ter abusado sexualmente de uma menina no interior de uma casa de banho. Com a tarde em coma, o sol descamba por detrás de uma constelação de ministérios, causando um certo arrepio nas entranhas da manada que pasta dócil e complacente por aqui... alheia às promessas-da-virtude e às ilusões-de-transcendência, já que só quer aliviar seus ardores e encher o bucho... Sim, encher o bucho para ter o que ruminar durante a madrugada, driblando assim a torpeza, a infâmia orgiástica e a desonestidade. Apesar da coreografia e da abanação dos rabos dar-lhe uma aparência pomposa e homogênea de egofilia, sabemos que na realidade as coisas não são bem assim, que há paradoxos, recalques e contradições de todos os tipos no íntimo das manadas... Nefastas e criminosas contradições instaladas por todos os lados, mas principalmente, entre as virilhas... esse território ermo, anômalo e nada amistoso que continua angustiando e excindindo a civilização em duas: num extremo, a conhecida legião dos bufões-da ereção e no outro, o gueto militante e histeróide dos enrabados. Quatro policiais –sob a armadura perversa da lei- atravessam a Esplanada dos Ministérios em disparada. O mais graduado falando pelo rádio, os outros, apontando escopetas na direção da catedral. Os poucos turistas que estão por ali se assustam. Um deles pergunta ao soldado que caminha na retaguarda. -O quê está acontecendo? -Estamos no encalço de um maldito pedófilo... Acaba de abusar e de assassinar mais uma menina de oito anos... Respondeu-lhe gaguejando e com uma espécie de rancoroso desdém... -Paidóph... Paidóphilo... Paidophilia... Paidófobia... Pedófilo... Pedofobia... Ficou resmungando com ar de assombro o forasteiro, como se conhecesse algumas palavras do grego e como se elas, igual a um fio condutor, ativassem alguma coisa passional e incômoda dentro de si. Depois, por ingenuidade e querendo proteger sua prole daqueles que, como dizia Arlt, “buscam a transcendência pelo caminho do mal”, tratou de arrastar sua mulher e suas três filhinhas para o interior da catedral (Ospedale Degli Innocenti) que, naquela hora daquele dia de verão, apesar dos candelabros, lembrava uma sauna. Apesar dos tempestuosos e românticos esforços para humanizar e idealizar a carne temos que admitir: há de tudo nas fileiras dessa horda autista e inquieta que vem se lambendo o traseiro há séculos, desde o momento que acorda até a hora que claudica e desfalece, com os maxilares trêmulos e o ventre intumescido. E é impossível não diagnosticar nessa babel de extravagantes e vigaristas sem atributos, uma alienação


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crônica vinculada aos repetitivos, prosaicos e arcaicos clichês genitais. Aqueles que gostam de sexo com cadáveres; aqueles que gostam de sexo com animais; aqueles que gostam de sexo com pessoas do seu mesmo sexo; aqueles que gostam de sexo com pessoas de sexo oposto; aqueles que só sabem fazer sexo consigo mesmo e aqueles conhecidos por perversos multiplicadores que não relutam em ter sexo com qualquer coisa, com bonecas infláveis e com crianças... Também aqueles que já não gostam mais de nada disso. Que se castraram ou que foram apodrecendo nos porões tenebrosos da castidade. Que estão babando nos degraus da rodoviária, rastejando no interior de suas mansões blindadas ou focinhando na poeira dos aterros periféricos, em busca dos cacos de uma frívola inocência e de uma alma imaginária... Mundo grotesco de necrófilos! Mundo hostil de pedófilos! Mundo de homófilos e de heterófilos! Mundo estereotipado de onanistas e de punhetófilos! Mundo de canibais e de coprofilos! Mundo de infanticidas e de filicidas! Mundo de broxas e de frígidas! Mundo de invertidos e de assexuados! Mundo infame de filhos-das-putas. E você, bundão pós-moderno, mesmo com todos os teus crimes já prescritos e que ainda vive no mundo esquizóide da fantasia e da idealização, oscilando entre as Cartas do Tarôt e a Santíssima Trindade, pense bem antes de meter-se pela vereda desta leitura. Aliás, que interesse poderias ter por ela? Seria melhor que fosses assistir teu futebol ou beber tua cachaça nos funerais de fim de semana ou nos vernisages... Que fosses servir sopa na paróquia da esquina, cantar pedras de bingo na creche da Tia Ismênia ou marchar nas fileiras da TFP 2 como um apóstolo eunuco, engrossando assim as alas daqueles que mantiveram até hoje o complô de silêncio sobre esta temática. Aleluia! Aleluia! Aleluia! Levante essa tua mão leve de punheteiro e de estelionatário para o «céu» e grite Aleluia! Aleluia Senhor! Pelo menos até que um novo nazi, um novo fascista ou um new ditador latino-americano te recrute para a linha de frente. No auge do circus maximus que representa a desocultação dos abusos privados, ouço o mesmo radialista que relata eufórico a descoberta de um novo Sistema Planetário, descrevendo em detalhes os estragos da última bomba palestina num subúrbio israelense. Depois faz uma pausa, embroma, aumenta o volume da música de fundo e respira com dificuldade como se fosse noticiar a principal novidade do mundo. Limpa a garganta e vai «delatando», por ordem cronológica, a mais recente quadrilha de pedófilos nacionais. O pediatra, o publicitário, o pedreiro; o espírita, o roqueiro, o pai, o professor, o diplomata, o diretor de teatro, o fotógrafo, o padre, o pastor, o aposentado, o mendigo e uma infinidade de outros «comedores» de crianças. Sujeitos mais do que libertinos que nos últimos dias, foram flagrados em assanhamentos não consentidos com suas filhas, assediando seus clientes e estuprando alunos. Um deles chupava o «dildo» de sua vítima, depois a obrigava a enfiá-lo em seu traseiro... Um padre queimava incenso às escondidas e prometia o paraíso à pequena beata que lhe tocava uma punheta; o outro anestesiava suas vítimas antes de abusar delas; outro prometia a uma surda a passarela e a fama; outro dava “aulinhas de religião”; outro se fantasiava de papai Noel para ter as ninfetas em seu colo; outro abusava de bebês como se fossem brinquedos eróticos e outro simplesmente encostava a faca no pescoço de uma menina de doze anos, tinha sexo com ela e em seguida a encaminhava ao mercado do proxenetismo. Sexo oral, sexo vaginal, sexo anal, 3 masturbação, sexo nas coxas, via Internet, pelo buraco da chave ou até 2 Já que falei em TFP, aproveito para mencionar a denúncia de Giulio Folena em seu livro Escravos do Profeta (EMW Editores, p.140, SP, 1987) contra um professor e líder dentro dessa instituição que, numa sessão de slides tentou abusar sexualmente de seu filho de 10 anos. E esse não foi o único caso. Em outra ocasião, esse mesmo sujeito foi surpreendido atuando de mesma maneira contra outra criança de 13 anos. 3 Na Melanésia, entre o povo Sambia, é «natural» que os adultos penetrem oral e analmente suas crianças. A justificativa cultural dos farsantes protagonistas é de que como as crianças foram alimentadas de leite materno durante toda a infância agora, para


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mesmo apenas por meio de fotografias e tudo nas barbas dos ditos Conselhos Tutelares.4 Um filme de horror... Um longa metragem que transcorre na fronteira entre o público e o privado e que só agora parece ter conseguido causar espanto... Por todos os lados jornalistas, deputados, sociólogos, advogados, pediatras, psicólogos e outros pesquisadores militantes constroem hipóteses e inventam nomes pomposos para essa aberração.5 Falam em «personalidades incestogênicas», em «perturbação sexual», em «atentado violento ao pudor», em «crime hediondo», em «agressão sexual», «conjunção carnal», «assalto sexual», «vitimização sexual», «síndrome da criança espancada» 6 etc. Militância que pode até justificar seus salários, mas que na prática, não tem alterado absolutamente nada. Nem a cumplicidade da sociedade com esses pervertidos e nem as estatísticas dessa exploração desleal que continua soberana nas creches, nas escolas, nos bastidores, nos banheiros públicos,7 nos garimpos, nas sacristias, nos parques, nos vestiários dos clubes, nos elevadores, nas colônias de férias e nas próprias camas maternas e paternas.8 Estupros, incestos e crimes carnais que a «justiça», com seus «magistrados» e com seus evangelistas da propaganda enganosa, se apressa em sufocar e punir, como se precisasse livrar-se deste assunto indigesto o mais rápido possível. Tanto para não correr o risco de tomados por afetos e por experiências pessoais, simplesmente perdoar,9 como para evitar que alguém, com melhor memória, venha lembrar que «a carne não é apenas fraca mas também má». Que alguém possa lembrar que essa prática não é tão rara e nem tão nova como se pretende e que ao invés de significar um declínio da civilização revela apenas ter sido sempre intrínseca a ela. E mais, que foi historicamente tolerada e até fomentada não só nos rituais animistas de outrora, mas pelo poder em geral. Pelo Estado gerontocrático atual e do passado, por culturas exóticas como a sumeriana, a judaica10 e a cristã, 11 entre outras do diverso e complicado

tornarem-se varões adultos era necessário fazê-los se alimentarem também de leite (sêmen) masculino. (Ver Gilbert Herdt, citado por Guasch, p.21) 4 “Nos finais de 1793, -relata A. Schmidt em La situation á Paris pendant l’époque revolutionaire 1789-1800- era possível ver as galerias do teatro Montansier cheias de meninas e meninos de doze a quinze anos masturbando-se e succionando-se os órgãos sexuais, como se realizassem o ato mais natural do mundo” 5 Curiosamente, tanto o pediatra-pedófilo de São Paulo, aquele que anestesiava suas vítimas antes de abusar delas como o guitarista inglês do The Who, igualmente acusado de pedofilia, disseram à polícia que estavam pesquisando. 6 Na Universidade Autônoma de Barcelona, nos anos 80, este termo (criado em 1962, por Kempe e Silverman, na Academia Americana de Pediatria) era usado e abusado, inclusive por aqueles professores e professoras que submetiam diariamente seus filhos à pequenas torturas. 7 E aqui me permito lembrar mais uma vez o melhor escritor argentino: “Una multitud de hombres terríbles que durante el día arrastran su miseria vendiendo artefactos o biblias, recorriendo al anochecer los urinarios donde exhiben sus órganos genitales a los mozalbetes que entran a los mingitorios acuciados por necesidades semejantes.” Arlt,R. 8 Numa pesquisa realizada em São Paulo, das 930 mulheres entrevistadas, 648 haviam sofrido abuso sexual quando crianças. E em 24% delas o estupro havia sido praticado por pais ou padrastos. Ver RUSSELL (D.E.H) 9 Sobre a possibilidade de perdoar, J. Derrida, com seu estilo prolixo e incompreensível, respondendo a uma pergunta de M. Wieviorka, afirmou: “O perdão perdoa apenas o imperdoável. Não se pode ou não se deveria perdoar, não existe perdão, a não ser quando [o pecado ou o crime] for imperdoável” Ver Le siècle et le pardon, Éditions du Seuil, Paris, 2000 10Vasculhando a história das mentalidades deparo-me com documentos que evidenciam os cananeus, os arameus, os fenícios, os hebreus e vários outros porraloucas do passado como aficcionados pelo assassinato de crianças. Qualquer calamidade pública que acontecesse era motivo suficiente para se vingarem e se livrarem de seus filhos, sempre com o pretexto mentiroso do «sacrifício». Na cidadezinha de Jericó e em outros vilarejos dessa região, foram encontrados restos de corpos de crianças, possivelmente daquelas que eram queimadas em homenagem a Baal e a Moloch. Pelo que se sabe hoje sobre perversões sexuais, sado-masoquismo e pedofilia, cabe a hipótese de que todos esses crimes contra as crianças continham também algum tipo de tara sexual. Se o filho de Ivã (O Terrível) tinha ereções e ejaculações enquanto assistia o sacrifício de bodes, galinhas e outros animais domésticos, por quê esses ditadores não sentiriam prazer assistindo a imolação de suas crianças? Na página 24 do livro Nunca Contei a Ninguém, pode-se ler: “Na lei talmúdica o uso sexual de meninas, a partir dos três anos, era possível desde que seu pai consentisse e recebesse o dinheiro adequado. (...) As mulheres e crianças pertenciam a alguém e eram alugadas, compradas, vendidas como mercadorias sexuais. Desde que estas transações fossem feitas com o pagamento adequado aos homens, rabinos e legisladores, não tinham nada contra.” 11 “A lei canônica mantinha que a relação sexual estabelecia posse, e os papas, através dos séculos, defenderam o estupro como meio indissolúvel de se contrair casamento. Entretanto, a lei cristã aumentou a idade mínima legal para uma criança ter atividades sexuais de três para sete anos, fazendo com que a relação sexual com meninas de até sete anos se tornasse comprometedora e aquela com crianças de menos de sete anos ficasse fora da alçada das autoridades. No século XIII foi introduzido o conceito de estupro estatutário. Seu cumprimento, contudo, não foi muito rígido, pois o próprio clero, vergonhosamente, explorava meninas sexualmente – no confessionário e nas escolas dos conventos.” (idem, p.24)


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rufianismo universal.12 Depois das repetitivas denúncias do The New York Times de que das 177 dioceses dos Estados Unidos, 161 registraram mais de onze mil casos de abusos de padres contra crianças, releio até com certa compreensão esta maldição encontrada no Quinto Livro do Pentateuco: “...Filhos e filhas gerarás, porém não serão para ti; porque irão em cativeiro.. E comerás o fruto de teu ventre, a carne de teus filhos e de tuas filhas... E quanto à mulher mais mimosa e delicada entre ti que de mimo e delicadeza nunca tentou pôr a planta de seu pé sobre a terra, será maligno o seu olho contra o homem de seu regaço, e contra seu filho e contra sua filha...” Deuteronômio, 28 (41-53-56) Pagãos, zoroastristas, gnósticos, judeus, bruxos, ciganos e cristãos se acusaram mutuamente durante séculos de, em cultos e em fornicações bizarras, através de Lilit, de Lamia etc sacrificar e devorar crianças.13 Rousselle descreve um desses exóticos rituais, onde: “Uma pequena criança, coberta de farinha para enganar as pessoas ingênuas, é posta diante da pessoa que está sendo iniciada no culto. O neófito, incitado pela camada de farinha começa a bater nessa criança inocentemente, mata-a ao desferir-lhe golpes cegos e a esmo. Em seguida essa criança tem seu sangue lambido com avidez as partes de seu corpo são disputadas.” ···· Claro que toda essa baboseira miserável seria mais facilmente compreendida e digerida por nós se, pelo menos, já estivéssemos completamente convencidos daquilo que afirma um personagem de Thomas Mann: ser homem é estar doente... e quem desejasse curá-lo ou levá-lo a fazer as pazes com a natureza estaria desumanizando-o e aproximando-o aos animais... Como volta-e-meia estou referindo-me às religiões, meus leitores podem achar que insisto de maneira insensata e premeditada em atacar e em denegri-las, mas não é verdade. Não perderia mais meu tempo com esse tipo de bobagem. O problema é que as igrejas, com seus castos Cavaleiros Templários com suas naus repletas de chefetes e de mafiosos, já estiveram tão comprometidas com a maioria dos crimes históricos que é impossível tratar hoje de qualquer assunto relevante sem cair novamente em seu território E neste particular, todo mundo sabe (inclusive os beatos) que ao querer a qualquer custo dessexualizar o mundo, as religiões acabaram genitalizando tudo e “dando à sexualidade o sabor do pecado” (Gauthier, p.141). Além disso, ninguém pode negar que minha insistência nesta temática, embora cansativa, tem servido, e muito, para explicitar, por um lado, o perfil crápula dos religiosos e por outro, que essa miserabilidade toda está fundamentada muito mais na precária e absurda condição humana, (num mundo onde – como dizia Barthes - o sexo está por todos os lados, menos na sexualidade) do que num «handicap» sexual particular deste ou daquele debilóide. E mais, que o pedófilo do presente não seria compreensível se não tivéssemos enquadrado e mencionado o pedófilo do passado. Em 135-136 –por exemplo-, quando Valentino, vindo da Alexandria se instalou em Roma, cidade onde já existia uma teologia pseudocristã, a troupe beata e cínica de então, através de mentiras esfarrapadas jurava entrar em contato com Deus

12 Uma beata me envia um e-mail manifestando sua idéia de que o pedófilo deveria ser castrado e lembrando que foi a Santa igreja católica, no século XVII, que condenou explicitamente as relações sexuais entre adultos e crianças. Tudo bem, lhe respondo. Mil e setecentos anos já bastam! Só que, segundo as notíciais nacionais e internacionais, parece que os bispos e padres do mundo inteiro (inclusive do Brasil) estão com dificuldades para se adaptarem às novas regras... 13 Na Grã Bretanha do século XII os cristãos acusaram os judeus de praticarem o libelo de sangue, isto é, de sacrificarem crianças cristãs na semana da Páscoa. Esse mito veio sendo reeditado pelos séculos a fora, até o período nazi, quando os jornais de Hitler insistiam na imagem do rabino sugando o sangue de crianças arianas.


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através do homossexualismo e da pedofilia. Práticas que também já eram generalizadas na zona oriental do Império Romano e no país grego. (Ver Rousselle) Quando, por fim, com a testa sulcada, decidimos enfiar o nariz nestas montanhas de artigos, apostilas, brochuras e de livros empoeirados para neles rastrear as trevas onde viviam os nossos parentes remotos, as façanhas bíblicas e todo tipo de desvarios do passado, marcados sempre por furúnculos e fantasmagorias narcisistas, vamos encontrando vestígios de desfaçatez e de «leis» que autorizavam, permitiam e até incitavam o sexo entre adultos e crianças a partir dos três anos de idade. 14 Leis da selva? Instinto troglodita? Infantilismo? Loucura? Perversão? Em outros documentos, igualmente infestados de ácaros, mais dados, agora sobre os conhecidos casamentos «de interesse» que unem em matrimônio ou em concubinato adultos e crianças. 15 Um arranjo primitivo das pulsões? Negócios? Vertigem? Moléstias e taras incuráveis ou apenas maucaratismo? Em regiões agrárias, pobres, bucólicas e miseráveis do Brasil, vemos com freqüência, além da conhecida escravidão agrária infantil (ver a escravidão fabril), Meninas-criança acompanhando cabisbaixas (às vezes até maliciosas) a velhos e transfigurados ditadores de setenta ou oitenta anos, que detêm sobre elas o direito de usufruto. Se ainda conseguem a ereção suficiente para penetrá-las, se reduziram toda fruição ao sexo oral, se inventaram uma perversão fúnebre qualquer, apenas para fazer o teatro arcaico do macho potente, isto pouco importa. O que fica visível é o exercício da falocracia, da satisfação sexual unilateral e da utilização autoritária dessas crianças, 16 obrigadas a «crescer depressa», quase sempre com a cumplicidade das matronas e do mundo feminino em geral que, entretido com as noites vigiadas e com o «calvário histórico das mulheres»,17 aproveita e se dissimula nele. Por isso é uma hipocrisia e uma farsa tanto fingir incredulidade, asfixia e espanto diante dos escândalos atuais, como colocar as mãos na cabeça e fazer de conta que «não se sabia de nada». É uma falsidade imensa fingir que essas denúncias são aberrações excêntricas e inéditas, psicopatias, vícios, taras ou mau caratismo que diz respeito apenas aos dias de hoje, 18 ao surgimento da Internet, da telemática e à nossa pretensa modernidade. Por mais estúpida e ignorante que a sociedade tenha demonstrado ser, ou por mais ingenuidade que simule, sempre soube que a violência, a negligência, os crimes, a colonização, o estupro, os abusos, a mutilação clitoriana das meninas, o tráfico de órgãos, o descaso, a maledicência, 19 o acosso moral e 14 Nas tribos dos Nambutji, depois que o menino era iniciado, seu futuro sogro tinha relações sexuais com ele, e o menino passava a ser chamado de menino-esposa. (Hays, p.94) 15“Minha vagina é muito pequena / ela não sabe como copular/ Meus lábios são muito pequenos / eles não sabem como beijar...” Resposta da deusa sumeriana Ninlil ao deus pedófilo Enlil). “Ao chegar aos dez ou doze anos, às vezes até com menos idade, a garotacriança é obrigada a se submeter a uma relação sexual, forçada a suportar a dor física e a lesão às vezes permanente que as relações constantes causam às crianças.” (idem. p.25) 16 “Na tribo dos Lepcha, velhos de 80 anos copulam com meninas de 8, e ninguém se importa”. Nabocov, p.21. 17 Ver Jean Baudrillard, em De la seduccion, p.14 19 Para que se tenha uma idéia, já nos anos 60 o Vaticano transmitiu uma ordem para os bispos de todo o mundo, para que mantivessem em segredo absoluto qualquer denúncia de pedofilia ou de abuso sexual contra a igreja e os padres. Quem desse um pio sobre os religiosos que abusavam sexualmente de fiéis durante os sacramentos corria o risco de ser excomungado. (CNN, agosto de 2003) 20 Encontro sublinhado no livro de Ariès: “Ainda no século XVII, em Le Caquet de l’accouchée, vemos uma vizinha, mulher de um relator, tranquilizar assim uma mulher inquieta, mãe de cinco «pestes», e que acabara de dar à luz: Antes que eles te possam causar muitos problemas, tu terás perdido a metade, e quem sabe todos.” (Ariès, p.56) 21 Marechal francês (1404-1440) que lutou ao lado de Joana D’arc. Um católico fervoroso que sequestrava crianças pobres, as sodomizava e as degolava no meio de cerimônias demoníacas. Voltarei a falar dele neste trabalho. 23 Ver o livro de Gilberto Dimenstein sobre o assassinato de meninos no Brasil. Cito algumas passagens de nossa bela e ridícula democracia tupiniquim, nele contidas. “No RJ, em 1989, foram levadas para a Delegacia de Menores 23 crianças. Mas só foram encontradas depois 9 delas. Nunca mais se soube do destino das outras (...) Meninos revelam serem forçados a comer fezes e baratas além de levar cassetete na cabeça (...) Muitos policiais têm a fixação em chutar barriga de meninas grávidas” E esse ódio consciente ou inconsciente contra crianças e adolescentes parece ser universal. Nos EUA está se discutindo alterações na Constituição para que o Estado passe a ter o «direito» de executar (submeter à Pena de Morte) inclusive a menores de idade que cometerem delitos.


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o infanticídio descarado do cotidiano são práticas seculares. Uma endemia antiga espalhada e tolerada por todas as culturas e por todos os regimes, tanto pelos tribais como pelos contemporâneos, tanto pelos «esquerdistas», folcloricamente ateus, como pelos «direitistas», folcloricamente crentes. Apesar dos sofismas, das máscaras, das cruzes e dos patuás exibidos no pescoço do mundo, a advertência de Bataille de que «há amordaçado em cada um de nós um pequeno Gilles de Rais»20 fica cada dia mais evidente. Um Gilles de Rais, um Vampiro de Dusseldorf, um criminoso covarde de final de semana, um miserável matador de aluguel ou um desses paramilitares de porta de mercado ou de fundo de delegacia, ávidos por violentar, por torturar e eliminar «pivetes».21 A literatura «clássica» está repleta de relatos e de insinuações sexuais com crianças. Dizem -repito- que até Dostoievski, o grande e maldito Dostoievski, confessou ter abusado sexualmente de uma menina. Fanfarronice de escritor epiléptico ou não, a verdade é que em seu livro Crime e Castigo, o personagem Svidrigaylov é culpado por atos pedófilos, e que em A confissão de Stavróguin (capítulo do livro Os Demônios, que o editor se recusou a publicar) este também confessa o mesmo delito. Nos contos eróticos de Anais Nin, os casos de incesto e de pedofilia também são repetitivos. Sibyle, a filha de J.Lacan, lembra do dia em que ainda mocinha, estava nua no banho e foi surpreendida pelo pai no vão da porta: “ficou um momento parado, em seguida disse-me educadamente: desculpe querida, uma olhadela sempre vale a pena.” Ernest Jones (18791958), o biógrafo principal de Freud, por mais de uma vez esteve sob suspeita de pedofilia. Esse mesmo psicanalista relatava que a prática do coito já lhe era familiar aos seis ou sete anos de idade, e que “era um hábito bastante comum entre as crianças da aldeia de Gowertown, País de Gales” (Roudinesco e Plon, p.415). E é curioso que durante milênios, enquanto o instinto sexual ou as pulsões dos adultos era considerado sujo e incontrolável, as crianças não eram vistas nem mesmo como pessoas. Só há menos de uns cem anos se cogitou a idéia de que possuíam uma sexualidade própria e legítima. Manoel Bandeira, em seu poema Evocação do Recife, falando de sua infância, escreve: “Um dia eu vi uma moça nuínha no banho. Fiquei parado, o coração batendo, ela se ria. Foi meu primeiro alumbramento”. Em outro verso o poeta pernambucano confessa: “a menina me tirou da roda de coelho-sai, me levou/imperiosa e ofegante, para um desvão da casa de/Dona Aninha Viegas, levantou a sainha e disse mete” (Edição Crítica, p. 352). Parece evidente que tanto a negação da sexualidade infantil antes de Freud, como a repressão, a vigilância e a punição aos jogos infantis masturbatórios ou sexo-exploratório vigentes até hoje, não deixa de ser uma pedofilia negativa, pois, se há um gozo na exploração sexual de uma criança, por quê não haveria também no sofisticado e cruel processo desenvolvido para mapear seu corpo, vigiar e domar sua sexualidade? Qual é, afinal, a verdadeira origem “dessa função de espiar todos os seus momentos, de manter constantemente a infância sob a malícia de nossa observação? Dessa necessidade de saber tudo o que ocorre por debaixo das fraldas e na sua intimidade? Será que não é exatamente por aí onde a relação equívoca do preceptor com o aluno encontra satisfação, e por onde se sacia sua sexualidade vergonhosa?” (Scherer, p.32). A polícia resgata uma criança que havia sido seqüestrada. Como já mencionei, muitas crianças são roubadas nos países pobres e depois vendidas nos países ricos para casais estéreis ou aos pedaços, para transplantes.22 No estacionamento noturno do SCS, uma

22 Na Albânia –segundo Aurela Pano-, só nos últimos anos, 150 crianças foram raptadas por gangues que vendem olhos, rins, figados etc. (Inocência em perigo, p.85) Sobre este assunto, ver também o livro de Berlinger, G. e Garrafas, V. titulado O Mercado Humano,


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bicha histérica e escandalosa dá um beijo de língua num desses meninos famintos e esqueléticos de rua que, com certeza, daqui a mil anos ainda se lembrará com horror desse assédio e dessa cena aberrante. No hall de entrada do motel, um outro brutamonte, agora heterossexual, se aproveita das sombras e da cumplicidade da noite para abusar de uma menina que não deve ter mais de doze anos... No interior de SP, cinco vereadores são presos por organizarem surubas com meninas e em Belém do Pará, uma seita é indiciada por ter castrado e sacrificado vários meninos num ritual de magia. Em Porto Velho um policial militar pedófilo é expulso da corporação, e no exterior, o capelão do aeroporto de Gatwick e um pianista americano foram presos por molestarem meninos... A sociedade está apavorada, cheia de culpa. As mães, atormentadas por esses fantasmas comicamente pedófilos não conseguem mais dormir, todo mundo cochicha sobre o assunto e a sexualidade masculina é vista, com razão, cada vez com mais desconfiança. Homens e mulheres se acusam mutuamente. Ouvi um dos machistas clássicos citando um escritor francês: “O homem pede, mas a mulher tem o direito e o poder de concordar ou de recusar. Desde o esboço até o primeiro passo para a conquista da mulher o homem se desviriliza. Acreditamos que está aí a chave do labirinto sexual. Por essa chave, o gosto da violação (em todas as suas formas), o gosto pelo amor venal, a erotofilia se tornam perfeitamente claros. Pela violação o homem sacia seu desejo sem abdicar. Por dinheiro, o homem também conserva integra a liberdade de sua iniciativa... Praticando o erotismo pelo erotismo, o homem se reserva intelectualmente à eleição e o controle de suas voluptuosidades...”23 Uma socióloga, líder da liga da ginecocracia retruca, falando em «matilha de cachorros» e em hedonismo masculino-burguês ao tratar dessas obsessões libertinas, desse processo grotesco e de autofagia que não faz concessões e que não tem fim. Artimanhas, artifícios e fissuras cancerosas do desejo... Na Arábia Saudita dois bêbados que sodomisaram um menino foram executados com golpes de sabre. O jornal de ontem falava na primeira página de um pai abusador e na segunda, de uma mãe, nem em depressão e nem em psicose puerperal, 24 que estava furiosa com o recém-nascido e mortalmente arrependida de ter gerado sua imensa prole.25 Nesse mesmo dia, a televisão exibia os porretes que os «educadores» usavam no interior de uma FEBEM contra seus pequenos internos. 26 Sabe-se que a violência contra jovens cresceu 22% no Brasil entre 1995 e 1998. Mas, mesmo assim nos bastidores de todas as nossas republiquetas beatas, os politicóides, algemados às suas origens obscuras e a velhos vícios do imaginário, seguem perpetuando a hipócrita mania de fazer discursos “revolucionários”, de jogar confetes no sistema educacional vigente, na família nuclear esquizofrenizante e na reprodução compulsória. De onde, afinal, viria essa necessidade de séculos após séculos justificar tanta burrice e tantos equívocos? Quando se observa o processo, as motivações e as razões da grande maioria das ditas “uniões matrimoniais” e dos conseqüentes nascimentos, assim como as relações entre os De Luca, p.20. Na monografia do advogado A.Farhat, intitulada Do Infanticidio, apresentada junto à Sociedade de Medicina Legal e Criminologia de SP, 1970, o Infanticidio, quando praticado pela parturiente, sob a influência do estado puerperal, é considerado Delictum Exceptum. Citando dados estatisticos sobre as maneiras mais comuns que os recém-nascidos são assassinados pelas mães, o trabalho aponta 34% dos casos por sufocação; 9% pela imersão em vasos sanitários; 9% por fraturas no crâneo, estrangulação, submersão, falta de cuidados, ferimentos, combustão, hemorragia umbical, exposição ao frio e envenenamento. (p.114) 25 Foi Henrique II que, em 1556, criou um decreto que obrigava toda mulher grávida, principalmente as solteiras, a declarar sua gravidez. Se a mulher não cumprisse a lei e o bebê morresse, ela era enforcada. Isto porque o infanticídio “era frequentemente disfarçado de acidente. Mãe e bebê dormiam na mesma cama e pela manhã o bebê aparecia sufocado. Daí um novo decreto proibindo a mãe de colocar a criança para dormir na mesma cama que ela”. (Benhaim, p.p. 117,118). Já na Prússia de 1714, “As mulheres que matavam secreta, voluntária e perversamente os filhos, que dela receberam vida e membros, são enterradas vivas e empaladas segundo o costume. Para que se evite o desespêro, sejam essas malfeitoras afogadas, quando no lugar do julgamento houver para isso comodidade d’água. Onde, porém, tais crimes se dão frequentemente, para maior terror de tais mulheres perversas, que se observe o dito costume de se enterrar e empalar, ou que, antes da submersão, a malfeitora seja dilacerada com tenazes ardentes” Farhat, p.124. 26 É importante lembrar que o Padre Anchieta e toda a gangue jesuíta da época, defendia abertamente que a vara de marmelo ou a palmatória de sicupira era a melhor pedagogia para com os caboclos. 23

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pais e entre pais e filhos, compreende-se a origem da tragédia e a importância de reatualizar de imediato os conceitos sobre a «maldade materna» e sobre a «maldade paterna».27 Compreende-se porque Clitemnestra pode ser considerada, de uma vez por todas, o arquétipo de todas as nossas mães e de todas as nossas mulheres,28 e porque Urano pode ser considerado o arquétipo de todos os nossos pais e de todos os nossos homens. Se a psicanálise tem demonstrado que levamos dentro de nós, ao lado da imagem de uma mãe boa, outra terrorrífica, que mata, destrói e come o filho... outros estudos também especulam com a possibilidade do pai assassino ser essencial à paternidade.29

27 Géza Róheim afirmava sem receio de que não havia instinto paterno e que o ódio inconsciente do pai pelos filhos é sempre muito grande. “O pai vê nos filhos um rival no amor de sua esposa e um representante de sua própria culpabilidade edipiana...” Citado por Hays, p.30. 28 Os poetas, apesar da frivolidade de sempre e da repetitiva simbiose com a mãe, de vez em quando deixam escapar algumas denuncias: “As mães sem coração rogavam pragas aos filhos bons. E eu, roído pelos medos, batia com o pentágono dos dedos sobre um fundo hipotético de chagas...” (Augusto dos Anjos) 29 Enquanto relia esta página, os jornais divulgavam a Operação Hamlet, coordenada pela polícia da Dinamarca, que prendeu nos USA e na Europa uma rede de pais pedófilos que trocavam entre si e que disponibilizavam na internet fotos eróticas de seus próprios filhos de 02 a 14 anos. De Luca menciona o Faraó Queops que, por necessidade de dinheiro, colocou sua filha num mercado prostitutivo. A menina exigia de cada cliente uma pedra, com as quais foi construída mais tarde a pirâmide que leva o nome desse déspota.


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Capitulo 2 DA HIPÓCRISIA A PEDÓFILIA E VICE-VERSA “Não existe realmente mais do que dois males no mundo: o remorso e a doença... J. de Maistre Do pequeno rádio perdido entre nossas pernas e as cobertas veio a notícia da prisão de um nigeriano que, na Alemanha, havia traficado e matado onze crianças em rituais de magia, entre elas inclusive uma de suas próprias filhas. O radialista concluiu a notícia mencionando também um juiz maluco e obsceno de uma cidade do sudoeste francês, que foi pego se masturbando durante uma audiência...30 Madri amanheceu no meio de um dilúvio. Nada de sol. Não tenho noção das horas. Enrolado num cobertor e ainda com o azedume do vinho na boca, espio pela pequena varanda o vaivém de um grupo de velhos barulhentos e amontoados sob um alpendre. Discutem, gargalham e blasfemam tanto contra os Bascos como contra o palácio da Moncloa, coisa que na época de Franco, já era motivo suficiente para levar umas boas chicotadas, um tiro ou trinta anos de masmorra. Um deles, com um casacão preto e uma boina militar está visivelmente colérico. Se não lhe prescreverem rapidamente uns ansiolíticos, não tenho dúvidas, acabará num dos hospícios públicos madrilenos.31 Quando vivia neste continente, -dou um longo e nostálgico mergulho no passadocostumava fazer uns passeios exóticos pelo «Barrio Chino» de Barcelona, principalmente pelas ruas de maior densidade prostitutiva e cada um desses «trottoirs» me permitia testemunhar cenas inacreditáveis do mais refinado acervo psicopatológico. Ao invés das menininhas caprichosas, mimadas e bem alimentadas do colégio Sion ou da escola do Sacré Coeur, o bairro fervilhava de depravação pública e de imigrantes estressadas e clandestinas, que pálidas e anoréxicas, lambuzadas pelo esperma do último cliente, se agitavam no meio das escaramuças dos marinheiros ou nas janelas rococó dos claustros prostitutivos. Numa madrugada gélida de novembro, com o dia quase amanhecendo –por exemplo-, vi um homem de uns vinte e poucos anos abusando sexualmente de uma velha maltrapilha de uns oitentas. Tratava-se, logicamente, não de paidóphilia, mas de gerontofilia! Ou não? Numa outra noite, também gélida, vi nesse mesmo bairro uma criança cigana, em troca de umas pesetas, manipulando com as duas mãos o pau rígido e roxo de um homem com mais de setenta. Tratava-se, logicamente, não de gerontofilia, mas de paidóphilia! Ou não? Nessa época os jornais divulgaram uma entrevista bombástica com o pessoal da International Paedophilic inglesa, na qual defendiam abertamente a «normalidade» e a «importância terapêutica» de um adulto fazer sexo com 30 Só para lembrar o quanto a miséria de nossa «civilidade» tem antecedentes cômicos e bem próximos, recordo aqueles selvícolas australianos entre os quais era (ou é) comum, antes de irem guerrear ou vingar-se de algum inimigo, se excitarem, masturbando-se uns aos outros (Hays, p 94) 31 Tenho um interesse especial pela palavra cólera, não à infecção contagiosa que é transmitida pelos animais, mas à que se refere a um impulso violento contra aquilo que nos ofende. Um dia ainda escreverei alguma coisa como: Apologia da cólera; O cotidiano de um colérico; mulheres encolerizadas etc. Mas isto não terá nada a ver com o significado psiquiátrico ou psicológico que lhe dá, por exemplo, César Meza, quem divide os doentes coléricos em violentos (os hospitalizados) e coléricos deprimidos (os de consultório). “Tanto uns como outros tiveram pais irritantes, encolerizados e que não os respeitavam. Apresentam a mesma psiconeurose, apenas com diferentes intensidades. Em ambos predomina a cólera, apesar de em uns ser violenta e em outros se transformar em depressão. Em ambos se apresenta a mesma e amarga queixa: «não sirvo para nada» e «ninguém gosta de mim».” Não posso deixar de citar aqui também sua compreensão política da cólera, registrada na dedicatória do livro: “... la cólera salva al hombre! si antes no es muerto o maltrecho... Que mi pueblo encuentre el cauce de su cólera, el camino de su libertad!” (Meza, p. 20)


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crianças a partir de dois anos de idade.32 A mesma matéria mencionava uma organização homóloga da Califórnia, onde 2500 associados declararam ter tido sexo com crianças com menos de oito anos.33 Apesar do abalo, a sociedade fingida catalã tagarelava um ou dois dias em seu idioma primitivo, simulava uma indignação para com a «barbárie angloluterana», mas logo tudo caía no mais completo esquecimento. Fingiam não saber que naquela cidade, confinadas em bordéis e clandestinamente, viviam centenas de crianças/prostitutas vindas das Filipinas, da Albânia, da Tailândia, do interior africano e da América do Sul.34 Alguns pais e mães da mais alta casta local, daqueles que sempre simularam «amar seus filhos» apesar de a vida inteira experimentarem o sexo como estorvo, achavam até bom que essas crianças existissem, pois assim suas filhas e filhos corriam menos riscos de caírem nas mãos de um psicopata pedófilo.35 Se hoje todo mundo discute e sabe o que é turismo sexual e pedofilia, lá pelos anos cinqüenta, dizem os mais velhos, este assunto não existia aqui pelos lados de nossa América. Mal informados ou não, o fato é que no outro lado do planeta, o longínquo SriLanka, já havia sido transformado num point da velharada pedófila do ocidente. O preço de uma criança de programas? Meio dólar. Sem grandes alardes e em surdina, beneficiados pela indiferença das autoridades daquele país, os abutres de sempre converteram aquela ilha paradisíaca num «paraíso» de abuso infantil. Em determinados locais da Tailândia, só para mencionar outro dos países mais preferidos pelo turismo sexual, é fácil encontrar sujeitos europeus, americanos e asiáticos sorridentes, «jantando» ou «passeando» com ninfetas ou com meninos nativos. O perímetro de Patpong, em Bangkok, com seus bares, boates, saunas, casas de massagem, distrações pornográficas, shows eróticos e orgias ecumênicas que se pode comprar com apenas alguns dólares, é conhecido como zona erótica e como o mais autêntico «fornicatorium» da região. Segundo documentos de organismos internacionais, essa cidade receberia do interior e de outros países (para negócios), vinte mil crianças por ano. Quem caminha por ali à noite, tem cem por cento de chances de cair nas mãos de um taxista ou de um policial proxeneta que lhe colocará à disposição as mais extravagantes perversidades, entre elas, claro, meninas e meninos ainda sem pentelhos,36crianças roubadas, vendidas por seus próprios pais ou inventadas no trivialismo e na solidão dessas monarquias, dessas repúblicas e desses impérios asquerosos.37 Mesmo Paris, lá pelos anos 80, apesar da demagogia jacobina de fraternité, igualité & liberté, mantinha na clandestinidade e no metier prostitutivo, seis ou sete mil crianças (mais meninos do 32 Maureen Seneviratne, do Sri-Lanka, lembra que “desde as épocas mais antigas, acredita-se que sexo com crianças pré-puberes “cura” doenças venéreas que, no presente, incluem a Aids”. (Inocência em perigo, p.54). 33 Até recentemente, antes da pedofilia tornar-se caso de polícia no mundo inteiro, jornais homossexuais faziam aberta apologia do sexo entre homens e meninos. No artigo Intimidade intergeração masculina, publicado no Journal of Homosexuality, seus autores procuram convencer os pais das crianças com quem tinham “relações amorosas” de que não eram seus rivais, que não estavam querendo roubar-lhes os filhos, e que poderiam até ser bons parceiros na criação deles. E recentemente, na Holanda, o Partido Verde foi favorável à participação do grupo Martijn (grupo que defende o amor livre entre adultos e menores de idade) na Parada Gay, na cidade de Deventer, em 2003. 34No Estado do Maranhão, foi preso um mecânico de automóveis que abusou sexualmente, castrou e assassinou 15 adolescentes. Nesse mesmo Estado existem dez rotas de tráfico de crianças para países europeus. 35 Segundo Lorenzi (p.70), existia aqui na Espanha na década de 80, grupos neo-nazis que incluiam no treinamento de guerrilha que ministravam a crianças de até 10 anos, um “treinamento homossexual”. Como na guerrilha normalmente só havia homens, diziam- as crianças deveriam dominar essa prática. 36 No tão citado Banquete de Platão (que há muito tempo se transformou no livro de cabeceira até dos pederastas tupiniquins) se pode ver que o coito anal era comum entre professores e alunos, (lá os professores enrabavam literalmente seus alunos) e que os gregos apreciavam em seus meninos o que apreciavam nas mulheres: poucos pêlos, delicadeza e imaturidade. As crianças escravas, principalmente os meninos, tinham quase o dever de «servir» sexualmente aos velhos pederastas. 37 Insistindo na analogia entre a pós-modernidade e os tempos de nossos «irmãos» selvículas, na Nova Guiné, até o momento de ser circuncidado o menino pertence (como amante) a um homem mais velho, a quem acompanha por todos os lados (...) Na Ilha de Malécula, um dos indivíduos sobe no teto da Casa dos Homens e de lá conclama os que morreram de morte violenta a virem se envolver num ato sexual com os novos iniciados (...) Entre os Karaki, na cerimônia de iniciação os meninos desfilam pela aldeia, são espancados e entregues aos iniciadores que praticam sodomia com eles. (Hays, pp.95,96,97) Que outra razão poderia haver para essa «enrabação» toda, além da descarada pedofilia selvícula?


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que meninas). Na Holanda das tulipas, dos baseados e dos heroinômanos, foi notícia importante a prostituta de seis anos que pifou no meio de uma overdose. Antes do ato final, foi obrigada por seu proxeneta (que produzia um vídeo) a fazer sexo com um cachorro.38 E quem é brasileiro, apesar do «revolucionário» Estatuto da Criança e do Adolescente, apesar das Pastorais, das CPIs e de outras demagogias, nem precisa ir tão longe para inventar uma hermenêutica pedófila ou para ver o mercado prostitutivo e criminoso de crianças. Os países submissos, corruptos e pobres da América Latina –apesar das manadas perfumadas que vão se comungar todas as manhãs e dos berros histéricos dos evangélicos de todos os matizes, cacarejando e implorando o dízimo- engendram verdadeiros exércitos de crianças abusadas, mutiladas, enjeitadas, desqualificadas, encarceradas, castradas,39 desamadas e imbecilizadas. Do Recife ao Chile, do Piauí à Colômbia, não falta sexo infantil para nenhum dos rufiões e dos gigolôs dessas repúblicas. São Paulo, Santa Cruz de la Sierra, Curitiba, Montevidéu, Roraima, Assunción, Porto Alegre, RJ, Buenos Aires, BH, Florianópolis, Lima, DF etc., cada uma dessas cidades têm seus puteiros infanto-juvenis disfarçados, e quase sempre para satisfazer os mesmos crápulas do poder e do vício. Sujeitos até fora-de-suspeitas, mas que quase sempre também foram abusados em suas meninices e que agora, movidos por um ressentimento inconsciente, precisam vingar-se realizando suas taras, (no simbólico e no real), sobre outras crianças.40 As praias de Fortaleza exibem a mercadoria local em abundância, e apesar da encenação das Ongs, das Campanhas, do «Dia mundial contra o trabalho infantil»,41 da «caça aos turistas sexuais», da balela das Altas Comissões de Executivos e dos doutores de reconhecido saber, elas e eles estão todas as noites lá. Lá no mesmíssimo «beco sem saída» de sempre, ou como anjos de asas quebradas, ausentes de seus corpos... ou como pequenos vaga-lumes maliciosos famintos, alcoolizando-se42 e voando «voluntariamente» para as garras dos conhecidos e velhos predadores, como se para eles, o abuso e a prostituição fossem ritos de passagem obrigatórios. Às margens do barrento Rio Amazonas, as pequenas embarcações também transportam esses filhotes do acaso, esses pequenos heróis (o herói começa freqüentemente como um objeto do infanticídio, Hillman e Kerényi)43 para o grande bazar de diversões noturnas das cidades e dos garimpos. Ali, homens barrigudos, bandidos semibroxas, com seus bigodes manchados pela nicotina, os esperam, ansiosos para neles repetir a história de seus próprios estupros... e depois, se for necessário, dar um sumiço em seus corpos.44 Famílias urbanas de comerciantes, industriais, políticos e profissionais liberais, costumam «importar» crianças do meio rural precário, das tribos em extinção e das fazendas, para transformálas em pequenas escravas de suas mansões (Quem me dera recordar a teta negra de minha ama-de-leite”- choramingava nostálgico Manuel Bandeira). Outras vezes, esses 38

Sobre zoofilia, ver Ecce Bestia, Narcisus Publicadora e Cia, Brasília, 2001.

40 Quem é que não se lembra do serial killer Luis Alfredo Garavito, conhecido como El Loco, que em Bogotá, em 1999, confessou ter estuprado, torturado e mutilado 140 meninos de rua com idades entre 8 e 16 anos? Para atrair suas vítimas costumava travestir-se de mendigo, deficiente físico ou de frade. Relatou à polícia ter sido abusado sexualmente quando criança. 41 Todo mundo já observou nos retratos de Debret a presença de um menino escravo segurando ou oferecendo um copo de água para o senhor escravagista. Em seu Teatro dos Vícios, Araujo reproduz um texto de Saint-Hilaire (1820) sobre esse personagem, que diz: “Não conheço criatura mais infeliz que essa criança. Nunca se assenta, jamais sorri, em tempo algum brinca! Passa a vida tristemente encostado à parede e é frequentemente maltratada pelos filhos do dono. À noite chega-lhe o sono e, quando não há ninguém na sala, cai de joelhos para poder dormir”. 42 O que as indústrias do álcool, com suas propagandas dirigidas às crianças e o Estado, com sua conivência e com seu silêncio a esse respeito fazem com a população infanto-juvenil é igual ou pior que a ação dos pedófilos e dos estupradores... 43 Ver os casos de Édipo, Rómulo, Moisés, Hercules, Perseu, Gilgamesh, Zethos, etc. 44 Segundo declarações da doutora Bridel, citada por Lorenzi, “no Brasil e no México foram descobertas, alguns anos atrás, covas comuns, perto de bordéis em regiões subdesenvolvidas, onde eram sepultadas meninas que tinham morrido por não aguentar péssimas condições de vida, incluindo «serviços» a 80, 100 homens por dia.”


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novos ricos, mascarados de altruístas, adotam crianças para que seus «filhinhos» tenham com quem se distrair e para que entre um Big Mac e um passeio de lancha, possam iniciar-se sexualmente com elas. E toda a quadrilha que comanda as leis no país sabe disso. Mas como o suborno é irrefutável, como a culpa nos psicóticos é menor e como as elites têm «bons advogados» e pagam o dízimo em dia, fica tudo por isso mesmo. E isso, apesar de todo mundo estar cansado de saber que os efeitos desse acosso sexual e moral sobre as crianças é quase sempre devastador. Retomo a leitura de Ferenczi: “Quando a criança se recupera após um desses ataques, sente-se extremamente confusa, na verdade já dividida, inocente e culpada ao mesmo tempo: na verdade, foi destruída sua confiança no testemunho de seus próprios sentidos. Além disso, o comportamento do parceiro adulto tornou-se severo, pois ele se acha, agora, mais do que nunca atormentado e encolerizado pelo remorso, o que faz com que a criança sinta culpa e vergonhas ainda mais profundas. Quase sempre, o perpetrador age como se nada houvesse acontecido, confortando a si mesmo com o pensamento: «Afinal, é apenas uma criança, que ainda não sabe de nada, e que logo esquecerá tudo novamente». Não é raro o sedutor tornar-se excessivamente moralista ou religioso, após tal evento, e procurar salvar a alma da criança também através de tal severidade.” Um mecânico semi-analfabeto me confidencia «ingenuamente» que gosta de ir pescar no rio Araguaia porque nas estradas sempre acaba «pescando» e «comendo» meninas de doze ou treze anos, com quem faz sexo em troca de um prato de comida… 45 Depois, como se precisasse justificar-se, afirma baseado numa lógica devassa que “elas também querem” e arremata me perguntando: mas afinal, o quê é mais abominável, o abuso ou a miséria? Como lhe responder sem despencar no lodo da ideologia? E esse tipo de crime e de proselitismo não é novidade para ninguém. Muitos pais de família que de dia posam de moralistas e de coitadinhos com suas famílias, saem à noite para abusar dessas pequenas miseráveis. A mídia, (essa puta poderosa da atualidade) de vez em quando, apenas para cumprir suas pautas, esbraveja contra essa infâmia, mas ela própria, no outro dia, prescreve os disfarces para os criminosos e aposta incansavelmente nas reconciliações de sempre, que não vão resolver nada, nem impedir que as feras deixem de uivar no festim onanista de todos os dias. Vinganças, raivas, estupros e incestos qualificados… hetero e homossexualismo pedófilo! Taras, sarcasmos e imposturas compulsivas! Os genitais como punhais e símbolos nacionais. Infanticídio e filicídio sexual! Pruridos e sintomas psicóticos confundidos com paixões e até mesmo com questões ideológicas e genéticas... E é importante lembrar que apesar de todos os discursos e bravatas sexistas, apesar dos mitos da ninfomania e da ereção permanente, da histeria dos guetos, das balelas de gênero, do folclore dos travestis, das festas do orgulho gay, da luta pelo «direito de opção sexual», das desculpas dos broxas e dos celibatários, nesse campo o livre arbítrio é absolutamente ficcional, já que a grande maioria dos mal entendidos sexuais (masculinos ou femininos) são gerados nos primeiros anos de vida e estão fora do alcance consciente dos envolvidos. E o que se vê, a olho nu, no cotidiano de todos esses malucos atores? 1). Que a sexualidade continua sendo a plataforma de sustentação para todos os desvarios e que se a abstinência e a renúncia ao gozo sexual é uma usina de neuroses e de crimes, a sexualidade obrigatória, performática e compulsiva não o é menos. 2). Que as heterossexualidades oficiais, monogâmicas e machistas não tem sido passaporte para «felicidade suprema» nenhuma. Pelo contrário, só tem servido para 45

Segundo Gèza Róheim, no Talmud, o verbo designativo de comer também quer dizer coito. (Hays, p.128)


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atiçar o ódio entre os envolvidos, para lançar um náufrago e um pirado nos braços de outro e para facilitar o engendramento de uma prole e de grupos familiares psicotizados. 3). Que a homossexualidade, essa seita laica da atualidade, por toda birra, paródia, militância e fixação intestinal que representa, até agora só tem sentenciado e empurrado seus asseclas para o histerismo dos guetos e para relacionamentos paranóides. A frase dos anos 60 “Mostre-me uma bicha feliz e eu te mostrarei uma bicha morta”, dita por um personagem da peça “Os rapazes da banda”,46 ilustra bem a psicodinâmica pueril nos porões tanto do imaginário gay como do imaginário antigay.47 4). Que a zoofilia, por ser uma espécie de pedofilia e por também ser considerada crime, tem obrigado seus praticantes a viverem ansiosos, com as botas enlameadas no anonimato e na penumbra das estrebarias etc, etc... Sem falar do «vício solitário» ou da punheta, que acaba provocando LER em seus nostálgicos adeptos... Enfim, por tudo isto e por mais tudo aquilo que cada um sabe sobre o assunto, em qualquer uma das preferências se pode dizer que carnal e filosoficamente a alienação é a mesma, já que o que falta a cada um condena a todos a uma escravidão sem fim. Escravidão através da qual tem sido impossível resolver a questão do gozo que, -como escreve C.Soller- apesar de nele estar sempre envolvida uma outra pessoa (ser, animal ou objeto) é difícil comparti-lo, e as pessoas acabam gozando sempre sozinhas...48 Filosofia de banheiro à parte, que o mundo siga se digladiando e se embrenhando numa nova Sodoma ou se castrando, isto é um assunto que iludirá os envolvidos por mais milhares de anos. O que importa e o que é crucial hoje tanto para a «Sagrada Família» como para a cultura é saber como inventar uma maneira de garantir que no meio desse tiroteio neurótico-genital e ególatra, não sejam mais as crianças indefesas a pagar o pato... Em 1985 –apenas para lembrar- uma pesquisa realizada nos EEUU indicava que de 10 a 18 milhões de homens norte-americanos haviam abusado sexualmente de crianças. Outro levantamento realizado em 1986 nesse mesmo país mostrava que em cada 27 crimes, um tinha como vítima uma criança, e que os assassinos eram seus próprios pais (Rascowisky, p.11). O caso das meninas de dois e três anos que foram violentadas na creche dos filhos dos oficiais de West Point em 1984 ficou como um marco na história da pedofilia e da loucura, como um sinal de que a Grande América, de uma hora para outra também sabia ser uma Medeia, uma mãe sádica e uma puta.49 Ironicamente um documento da ONU denuncia que famílias da Somália, no intuito de garantir a seus filhos um “futuro melhor”, estão pagando a traficantes para que os levem e os abandonem em aeroportos dos EEUU e da Europa. Que equívoco o dessas famílias! Já que pelo que vimos, é quase como tentar proteger ovos em tocas de lagartos, pois nos Estados Unidos, de 300 a 400 mil crianças são vítimas de abusos sexuais todos os anos. Especialistas acreditam com unanimidade que esses «abusadores» trazem em seu currículo sabendo ou não, querendo ou não, revelando para alguém ou não, uma sinistra história pessoal de abuso e de violência. Um pai bêbado e esquizóide, uma mãe histérica e homossedutora, um vizinho perverso, um retardado mental, um lunático qualquer com a sexualidade descompensada que os submeteu por algum tempo à sua tara e à sua Citado por Luiz Carlos Machado em seu livro Descansa em Paz Oscar Wilde, p. 90, Codecri, RJ, 1982. O famoso criador e fundador da escola de Summerhill, justificando porque não contrataria um homossexual ou uma lésbica para trabalhar em sua escola, reforçando a frase dos Rapazes da banda, afirmou: «o homossexual é um pária, raras vezes feliz» (Scherer, p. 111) 48 Leio en La Ilusión Vital, de Jean Baudrillard: “Después de la gran revolución en el proceso evolutivo (la llegada del sexo y de la muerte) aparece la gran involución: su objetivo es, a través de la clonación y de muchas otras técnicas, liberarnos del sexo y de la muerte”. 49 Recentemente recebi uma notícia quase cômica sobre pedofilía, relatada no encontro anual da American Neurological Association em Nova Iorque. Leiam “Um tumor no lóbulo direito do córtex orbifrontal pode ter feito com que um professor americano de 40 anos tenha se tornado pedófilo, ao desenvolver uma repentina atração sexual por crianças. Quando o tumor foi removido, sua obsessão sexual desapareceu”. (E aí os ilustres doutores devem ter acordado!) 46 47


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enfermidade. (E aqui uso a palavra enfermidade, conscientemente, com a intenção de patologizar desde já o agressor sexual,50 tanto para evitar que um advogadozinho de acusação, valendo-se da corrupção generalizada e de nosso caótico sistema penal, queira condená-lo à morte, como para evitar que um outro, de defesa, tente demonstrar que a patologia e a culpa estão na criança). Mas, para não ser sectário, me pergunto: seria realmente uma doença? “A sexualidade dos psiconeuróticos –insistia Freud, (p.1196)conserva a essência infantil ou retrocede até ela...” Na «dialética» do abuso e das sevícias, se é que se pode chamar assim, tudo indica que quem «come» hoje já foi «comido» ontem; que quem «abusa» no presente foi «abusado» no passado e que quem viola já foi violado. A necessidade obsessivo-compulsiva de repetir esse abuso parece encarnar um tipo elementar de vingança, não apenas contra o Outro, mas contra Si Mesmo. Irônica e paradoxalmente, o pequeno abusado, intimidado pelo patético, confuso e complicado mundo dos adultos, costuma sentir-se responsável e culpado pelo abuso do qual foi objeto. O resultado disso? Quase sempre uma histeria. Mas depende de vários fatores. Em algumas crianças o malefício e o trauma são imediatos. Outras elaboraram melhor e não vão necessariamente ficar doentes por isso. Na grande maioria os resultados dessa experiência só serão realmente conhecidos bem mais tarde, na forma de fobias, homofobias,51 impotência, fantasia de estupro, autopedofilia,52 frigidez, ódio contra o gozo sexual, confusão entre prazer e culpa; luxúria e arrependimento, euforia e depressão, excesso de luz e um inferno de trevas, sedução e nojo pelo objeto conquistado.53 O abusador não sente apenas um tesão ambíguo pela criança «desejada», mas, principalmente, raiva e desprezo por ela, o mesmo que sente por si mesmo. No fundo no fundo, o pedófilo, movido por sua angústia, age (como se pode ler nas chatices filosóficas de Hegel e de Lacan falando sobre outras questões) como se sentisse um desejo incontido por si mesmo (du Soi por soi), uma necessidade de autoenrabar-se, um desejo que só pode ser rastreado através de um Outro, de preferência parecido... Procura-se a si mesmo em Alguém... já que “o objeto do meu desejo é também o objeto primordial para a reconstrução de minha unidade” perdida. E é nesta luta desesperada e pueril, antes e depois de sucumbir ao frenesi genital, que o sujeito projeta, introjeta, desloca, condensa, transfere, identifica-se, inveja, idealiza, ama e odeia, quer zelar e destruir ao mesmo tempo, como se colocasse sua alucinante verdade e suas doenças num calidoscópio e tentasse construir com elas um ícone para a própria cura. Mas isto tudo é em vão, não miniminiza em nada seus sentimentos em relação ao crime, já cometido ou ainda por cometer. Porque, repito: o mercado de crianças, o incesto, a pedofilia e a prostituição infantil são apenas detalhes do desatino e do infanticídio generalizado que sempre marcou a história fisiológica e cretina do mundo. Detalhes de uma crueldade que mesmo quando permanece negada e escamoteada na vida real, 50 O que não significa justificar nem racionalizar seu ato e muito menos achar que o abuso sexual de crianças não possa ser praticado por pessoas «normais». De 43 homens com mais de vinte e cinco anos que entrevistei –por exemplo-, 90% deles admitiram que não têm segurança sobre seus intintos. Para alguns, inclusive, o «objeto de seu desejo» sempre é fantasiado em pessoas dessa faixa etária. Uma lolita, uma ninfeta, a escolar distraída que atravessa a rua roendo as unhas, alguém que remobilize neles as antigas fantasias de incesto, não necessariamente como «atores» mas até como «vítimas». Segundo os especialistas, existe o pedófilo de situação e o pedófilo de preferência. “O pedófilo de situação (eventual) –escreve Patrice Dunaigre- apresenta em sua personalidade estruturas psicopatológicas que vão da esquizofrênia à psicopatia. Já o pedófilo preferencial (aquele para quem a criança é o objeto principal do desejo) a dimensão perversa é muito mais especificada”. (Inocência em perigo, p.18). 51 Comumente a homofobia têm raízes em experiências precoces de abuso. Os crimes frequentes contra homossexuais, gays, travestis, etc, praticados por jovens clientes e com requintes de perversidade, podem ter a conotação inconsciente de um acerto de contas. 52 Durante a relação sexual o sujeito se imagina como uma criança e deseja ser tratado como tal. 53 É evidente que existem casos (raros) de abuso incestuoso e pedófilo onde a criança abusada, por mil razões diferentes, experimenta o abuso sem traumas. A psicanalista Marie Bonaparte, num estudo sobre a sexualidade feminina, relata o caso de três moças que tiveram as primeiras relações sexuais com seus irmãos sem apresentar problemas. O cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues, além do futebol, fez uma aberta e exaustiva apologia também do incesto (ver Albúm de família) “As mulheres só deviam amar meninos de 17 anos”, dizia.


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ressurge em seus discursos (estupra, mas não mata), em seus contos, em suas lendas, em seus mitos.54 Na capital do Brasil de 1726, as mães que não queriam ou que não sabiam o que fazer com seus filhos, entre uma mandinga e outra “os abandonavam à noite nas ruas de Salvador, onde eram fatalmente devorados por cães, porcos e outros animais famintos, ou deixavam-nos na praia para que se afogassem durante a subida da maré” (Araújo, p.176). E histórias como estas da Bahia se repetiram em quase todo o mundo, pelas mesmas ou por razões semelhantes. Leio na História política da sexualidade humana: “Era a mãe que instruía a atendente para não lavar a criança que gerara com tanta dor ou providenciar para que não exalasse a primeira respiração. Ela própria podia esmagar a cabeça da criança com uma pedra, jogá-la no chão ou contra uma árvore, estrangulá-la com um cipó, enfiar um graveto afiado em sua garganta ou encher a boca com areia. Esses atos violentos eram os mais misericordiosos; o destino de crianças lançadas em valas, fossas ou deixadas em morros para morrer de exposição era mais cruel, como podem testemunhar as pessoas que recolheram de valas vietnamitas os filhos de soldados americanos...” (Greer, p. 211) Difícil não ver o mundo (tanto o atrasado como o civilizado) como um imenso mercado de bebês e como uma imensa câmara de sacrifício de crianças. Na Roma antiga os bordéis dispunham de meninos e de meninas que faziam parceria passiva com os clientes adultos. Na Índia e no Nepal os rituais religiosos (Devdasis) previam a oferta de meninas a Deus”. Meninas que passavam a ser abusadas pelos pretensiosos «procuradores» divinos e a agir, a partir daí, como escravas ou como pequenas sacerdotisas do sexo. Também a Polinésia foi pródiga em deuses pedófilos, que não se satisfazendo com qualquer sacrifício, exigiam que lhe fossem oferecidas crianças. Nessa mesma região, na ilha Salomão, corre uma lenda de que no princípio os homens viviam sozinhos, até que o Deus-serpente lhes presenteou com o fogo e uma criança de sexo masculino. Como esse menino demonstrou ser desajeitado e incompetente, mais tarde Deus criou a mulher, para que ela suprisse as deficiências técnicas do menino (Libis, p.86).55 Os teutônios sacrificavam crianças de famílias conhecidas ao deus Odín, e na Sumatra, os Nias matavam toda criança albina que nascesse. Os Incas cortavam as cabeças de suas crianças para ofertá-las à lua. “Os meninos de até dez anos -escreve um pesquisador- eram oferecidos por seus próprios pais, já as meninas eram filhas de mulheres escolhidas e educadas nos conventos. Quando morreu Huayna Capac, entre as mil pessoas que o acompanharam ao outro mundo, havia muitas crianças que foram enterradas vivas. Também sacrificavam crianças para identificar os traidores.” (Torres, pp. 56,57). Não é necessário ser um adivinho para compreender que tudo isso sempre foi um pretexto para, por um lado, justificar as taras pessoais por crianças e por outro, para se livrar delas sem muita burocracia quando fosse necessário. -Mas meu Deus, hoje as coisas não são mais tão brutais assim! Ouço os alienados e otimistas de plantão resmungando. 54 “A menina Chapeuzinho Vermelho, depois de tirar o corpete, a saia, a anágua e as meias e deitar-se na cama ao lado do lobo é «comida» por ele. Em A Bela Adormecida (uma versão primitiva) a sogra do Príncipe tenta comer sua prole ilícita. Num dos contos do ciclo da Cinderela, a heroína torna-se empregada doméstica, a fim de impedir o pai de forçá-la a se casar com ela. Em João e Maria, o herói engana um ogre fazendo-o cortar as gargantas de seus próprios filhos. No conto Ma mère m’a tué, mon père m’a mangé, uma mãe faz picadinho do filho e o cozinha. etc, etc.” (Ver Darnton, 1988). Freud em seu texto sobre o Sinistro, refere-se à historinha macabra do Homem das areias que na Alemanha os pais costumavam contar a seus filhos para obrigá-los a dormir:...”O homem das areias é um homem mau que vem visitar as crianças quando não querem dormir, joga-lhes punhados de areia nos olhos, fazendo-os saltar ensanguentados de suas órbitas; então guarda-os em uma bolsa e os leva como pasto para seus filhinhos, que estão sentados em um ninho e têm bicos curvos como as corujas, com os quais cortam a bicadas os olhos das crianças que não se portaram bem...” 55 Também no Brasil, entre algumas tribos contava-se que na origem do mundo as mulheres não existiam e que os homens procriavam sózinhos, masturbando-se dentro de calabaças.


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Seguem equivocados, porque as «coisas», queiram eles ou não, continuam assim e até tão ou mais brutais para as crianças. Além de tudo o que é cotidianamente noticiado, os abusos, os sacrifícios e os massacres continua ocorrendo aos milhares e por todos os lados. As guerras são um exemplo. Observe como com exceção de alguns velhos idiotas, as frentes de batalhas são constituídas sempre por jovens. O confronto das crianças palestinas e dos jovens soldados israelenses é o mais ridículo e o mais atual... Quem é que não se lembra com horror das crianças palestinas degoladas e empaladas 56 no massacre de Sabra e Chatila? Na Colômbia, atualmente são mais de dez mil meninos atuando no exército da FARCS, das milícias urbanas e nos grupos paramilitares. Quem é que não se lembra das crianças ciganas que os nazis batiam contra as arvores e das crianças judias que eram eliminadas com doses de luminal? Como seria possível esquecer as crianças do Camboja, da Birmânia, os milhares de pequenos escravos sexuais da Uganda e, claro, da Batalha de Acosta Ñu, já no final da guerra do Brasil com o Paraguai (16-08-1869), onde foi massacrado um exército de 3500 crianças de 6 a 15 anos?57 E o infanticídio dos anos 80, perpetrado pelas forças armadas de El Salvador, assessoradas pelo exército norte americano?58 Nesse minúsculo país, pouca gente sabe, foram degoladas, fuziladas e raptadas milhares de crianças, filhos e filhas dos rebeldes e guerrilheiros que o governo não conseguia derrotar... E por fim, quem é que não vê diariamente, os milhares de pequenos mendigos na guerra dos semáforos nas ruas do Brasil? Sem nenhum romantismo tolo e babaca, estamos cada dia mais impressionados e mais decepcionados por ver que nossa história foi construída sobre um cemitério de crianças e de adolescentes, e que nossa sociedade é um mausoléu de crueldade e uma ignomínia de aberrações que sempre se mantiveram negadas pela gerontocracia mundial, ocultas atrás dos pretextos da «soberania», da «cultura», dos «costumes» e da vida privada. Sabemos que em toda a Europa, mas principalmente na Inglaterra, as leis permitiram durante séculos que tanto em casa, como nas escolas e nas instituições públicas especializadas se surrasse, mutilasse e até enforcasse crianças. E quem tem mais ou menos cinqüenta anos, experimentou essa Pedagogia da Vara de Marmelo também aqui no Brasil, tanto no Brasil Colônia como no Brasil República. Por isso é necessário reconhecer que nossa atual indignação e angústia com os abusos da FEBEM, com a negligência nos internatos, nos berçários, nas pediatrias, creches, casas de passagem, no CAJE etc, etc, advém não apenas de uma idealização sócio-política do mundo, mas em grande parte, de nossa própria história.59 Na verdade, apesar dos conhecidos chavões altruístas e dos Don Quijotes da ética, apesar do repetitivo desfile de predicados dos políticos e dos religiosos quando falam de crianças, o mundo adulto, arrastado pela onipotência de seus complexos, nunca resolveu verdadeiramente os conflitos com a infância e com a juventude. Atormentado e sem saber o que fazer com as limitações impostas pela velhice e pelas doenças segue 56 A empalação foi uma prática de tortura muito frequente no passado e consistia em enfiar uma estaca pelo ânus da vítima e deixála assim até morrer. Sem querer ser mais freudiano do que Freud, é evidente que a nível de simbologia esse barbarismo leva em si uma fantasia e uma perversão sexual. No caso das crianças empaladas, a fusão entre pedofilia e infanticídio. 57 “As crianças de seis a oito anos, no calor da batalha, apavoradas, agarravam-se às pernas dos soldados brasileiros, chorando, pedindo que não as matassem. E eram degoladas no ato. Escondidas nas selvas próximas, as mães observavam o desenrolar da luta. (...) Finalmente, após todo um dia de luta, os paraguaios foram derrotados.. Pela tarde, quando as mães vieram recolher as crianças feridas ou enterrar os mortos, o Conde D’Eu mandou incendiar a macega – no braseiro, viam-se crianças feridas correr até caírem vítimas das chamas. (...) 16 de agosto, no Paraguay, é comemorado El Día del Niño.” (Chiavenatto, p.158) 58 Vale lembrar que o famoso jornalista americano H.L.Mencken menciona em um de seus textos uma pesquisa feita pelo exército norte-americano entre os alistados e que segundo a qual, 50% dos adultos americanos nunca ultrapassam o desenvolvimento mental de uma criança de doze anos. O livro dos insultos, Companhia das Letras, p.63 SP, 1988. 59 Volto ao texto que considero como uma pequena bíblia do infanticídio: “«os meninos chupadores» da África do Norte, que faziam serviços debaixo das mesas e os eunucos das cortes turcas são outros exemplos. (...) Os pequenos mineiros de Gales e da Colômbia, os sopradores de vidro, (...) a mutilação de crianças, cegadas, estropiadas para mendicância, a castração das voci bianche da igreja, a utilização de menores por adultos a fim de roubo ou de assassinato, os testes de novas drogas medicinais como aconteceu na Índia e em países da África...” (Lorenzi, p.17)


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disputando, rejeitando e invejando até mesmo os próprios filhos.60 Não seria essa cólera e esse ressentimento velado que acaba facilitando e justificando as mais duras e caóticas expressões de violência contra eles?61 Violência e mortificação que não necessariamente precisa se manifestar através de socos e de mutilações. Às vezes, até mesmo de uma violência cor-de-rosa, interesseira e voyerista, como no caso do famoso Lewis Carrol, autor de Alice no país das maravilhas, que abandonou a matemática e os afazeres da igreja anglicana onde era clérico, para escrever ficção infantil. Só recentemente soube-se que era mais um “papa-anjos”, que apreciava fotografar menininhas de sete, oito, dez anos em poses sensuais62 e que inclusive, foi uma delas que deu nome ao seu mais famoso texto literário. Que o «melhor» da literatura mundial tenha saído do imaginário de um clérico, voyerista e pedófilo, não lhes parece uma revelação desconfortável? E para nós que aprendemos a escutar e a olhar o mundo com um cuidado especial, tão impressionante quanto à pedofilia, é a fobia, a angústia, a falsidade e a falta de fôlego que a discussão deste tema provoca. Faça um teste. Negar o tema, diagnosticar, criminalizar, cair nos clichês ordinários da moralidade ou simplesmente «desumanizar» o abusador têm sido escapes e despistes freqüentes no cotidiano. Tende-se a esquecer que o sujeito bolinador também é deste mundo, que também teve uma infância e uma história e que não construiu do nada suas taras, seus fetiches ou suas compulsões. Claro que é mais prático e fácil propor, como castigo, a castração do abusador e, como prevenção, o aumento da repressão sexual dos até então (anjinhos hermafroditos e inocentes). 63 Claro que é mais fácil propor a construção de mais presídios, a volta da ditadura militar ou o extermínio dos pedófilos do que pensar nas verdadeiras causas desta agressão. Resiste-se a pensar que se o pedófilo é um pobre miserável, não o é sozinho, pois, na essência, não se difere muito dos ditos «normais», já que a sexualidade, essa convulsão da carne, é uma servidão absurda e perversa em si mesma. Já que o corpo (nosso único capital), este troço de carências, ossos e fluídos, comporta-se mais ou menos como um coágulo despencando ladeira abaixo, lançando sêmem e óvulos por todos os lados, numa tentativa desesperada de perpetuar-se e de vingar-se. Apesar de minhas evidentes restrições aos abusadores, não pensem que tenho deles uma percepção muito diferente da que tenho do sujeito padrão, religioso, cidadão normal e bonzinho que infesta o mundo. Desses bundões que cantam aos quatro ventos a sua «sexualidade», mas que, para gozar, ainda precisam puerilizar e infantilizar tanto sua mulher como suas amantes. 64 Desses cagões que, enclausurados em sua armadura medieval, nem tiram a gravata para, sábado à tarde, «copular» estressadamente com suas «esposas.65 Desses senhores «bem sucedidos» que colocam com nojo o preservativo ou que fecham os olhos para não vê-la instalando o diafragma. Desses beatos que tem o cuidado de não ir além de oito «bombadas», no escuro, com a tv ligada, bêbados, rangendo os dentes ou mordendo a língua para não 60 Na clínica psicológica vamos nos convencendo cada dia mais que na origem de quase todos os transtornos psicológicos está a inveja. O paciente, ou foi vítima da inveja dos outros (pais, irmãos, colegas, vizinhos, etc) ou não sabe o que fazer com a própria. 61 Até um sujeito como Pasolini –para que vejam- chegou a escrever em seu artigo I giovani infelici este ataque à juventude: “Os filhos que nos circundam, especialmente os mais jovens, os adolescentes, são quase todos uns monstros. Seu aspecto físico é quase aterrorizante e, quando não aterrorizante, enfadonhamente infeliz. Horríveis pelagens, cabeleiras caricaturais, carnações pálidas, olhos embaciados. São máscaras de alguma iniciação barbaresca, esqualidamente barbaresca. Ou então máscaras de uma integração subserviente e inconsciente que não provoca piedade...” (p.30) 62 Ver Lewis Carrol, photographer, Ed. Max Parrisch, New York, 1968. 63 Para Jung, a criança, como arquétipo, era andrógena. E a androgenia, segundo Libis, “era o grau zero do desejo. “ C’est pourquoi la pensée de l’androgyne nous conduit par étapes vers la pensée de la mort”. (p.211) 64 Exigir que as mulheres sigam pensando e sentindo como crianças, que depilem completamente o corpo, que tenham seios pequenos e os pés reduzidos (ver gueixas e mulheres chinesas), que se deixem penetrar sistematicamente pelo reto, tudo isto não estaria à serviço de um imaginário masculino pedófilo? 65“La heterosexualidad es sexista, misógina, homófoba y adultista. Tiene, además, cuatro características fundamentales: primero, defiende el matrimonio o la pareja estable; segundo, es coitocéntrica, genitalista y reproductora; tercero, interpreta la sexualidad femenina en perspectiva masculina y la hace subalterna y, cuarto, persigue, condena o ignora a quienes se apartan de ella.” (Guasch, p.81)


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deixar escapar um grunhido de gozo.66 Que saem correndo para o banheiro assim que ejaculam e que depois, como se nada tivesse acontecido, rezam uma Salve Rainha ou um Mantra, clamam pela volta da Inquisição67 e mergulham em meio quilo de sorvete que, além de agravar sua diabete, apagará todos os cheiros e todos os vestígios tanto de seus instintos como de sua culpa. Sim, apesar da pose e do cargo, as anomalias desses sujeitos são as mesmas, não só dos pedófilos ordinários, mas de todos os outros gêneros de pervertidos. Para esses energúmenos, as pessoas seriam mais assexuadas e mais frígidas possível. Nas escolas ou em casa, não se daria uma palavra sobre tesão e desejo, nem sobre o «normal» e muito menos sobre aquele que, como sintoma, é dirigido contra crianças, principalmente contra àquelas dóceis e passivas como a família nuclear e o Estado gerontocrático exigem que elas sejam. Mesmo a ciência, que para Lacan era a única que poderia vir a ser subversiva, de vez em quando tem fechado os olhos diante de fatos relacionados a alguns dos principais tabus da nossa espécie. Freud, por exemplo, que no princípio de sua carreira (1895), clinicando na Áustria, apontou as experiências sexuais traumáticas da infância (sedução e abuso) como a principal causa dos transtornos psicológicos dos adultos, foi obrigado a recuar. A pressão social e médica da época foi tanta, que mesmo ele que já estava consciente do mau caratismo e da inata perversidade humana, recuou, reconsiderou suas descobertas e suas teses, inventou uma historinha qualquer, admitiu haver se precipitado, já que suas pacientes, na verdade, “haviam apenas fantasiado suas lembranças sobre estupro e incesto”. Enfim, capitulou. Uns 86 anos depois (em 1981), em Londres, o então Diretor de Projetos do Arquivo S. Freud, J.M.Masson foi demitido de seu cargo por tentar rever o assunto e validar a negada Teoria da Sedução. Nessa mesma década, as denúncias da alta incidência de abuso sexual contra crianças, feitas por pediatras causaram a maior polêmica na Inglaterra.68 A resistência social não foi menor que a da Viena de Freud, e o caso só tomou uma dimensão política depois que a pediatra Marietta Higgs, de Cleveland, identificou em quarenta famílias, noventa e tantos casos de violência sexual, acionou a justiça e conseguiu separar as crianças abusadas dos pais. “... O deputado trabalhista local, Stuart Bell, tomou a defesa dos pais, mostrando que o assunto fere sensibilidades acima das questões partidárias. Depois da intervenção direta da primeira-ministra Margaret Thatcher, a maioria das crianças abusadas foi devolvida às suas casas e a pediatra viu-se sentada no banco dos réus, com sua capacidade profissional questionada.” (Azevedo e Guerra, p.77). 66 Em 1444 o franciscano Nicolo de Osino declarava que o “ato dos esposos só é isento de falta se nele não entrar nenhum deleite de volúpia”. (Ruffié, p.164). 67 Os relatórios da Inquisição no Brasil, principalmente na Bahia, trazem informações interessantes sobre a visão daqueles energúmenos sobre a pedofilia e a sexualidade infantil. Reproduzo aqui uma resenha feita por Bastide em 1941: “O amor lésbico era um vício de crianças muito largamente difundido: Ana Rey, de 11 a 12 anos; Quimar Pinheira, 8 anos; Maria Rangel, 13 a 14 anos; Francisca, quase da mesma idade; Quimar Pisçara, de 12 a 13 anos; Madelena Pimentel, de 9 a 11 anos, em desonesta amizade com outras meninas da sua idade: Micia Lemos, Iria Barbosa, Ana Fernandez; enfim, Isabel Marques de 10 anos. Vemos também que tais hábitos viciosos não parecem haver penetrado nos meios aristocráticos, mas haver sido geralmente apanágio da gentalha: Felipa de Saouza, que falava muitos requebros e amores e palavras lascivas, que cortejava Paula Antunes, Maria de Peralto e outras muitas mulheres e moças alta e baixas e que também dentro de um mosteiro onde ela estivera usara do dito pecado, é uma mulher de pedreiro, e uma das vítimas de suas assiduidades é uma moça casada com um alcorcovado ferreiro, o marido de Paula de Sequeira, outra amiga da mesma lésbica impenitente, é contador de fazenda; o marido de Maria Lourenço é caldeireiro; o de Quimar Guiterea Sequa é alcaide; o de Francisca, mestre de açcuqueiro; o de Guimar Pisçara, lavrador e o de sua amiga é alfaiate; o marido de Isabel Marques é sapateiro; Maria Rangel é filha de um procurador; Francisca o é de um carpinteiro; Isabel Marques, de um cônego e Catarina Baroa, de um alfaiate. Muitas destas mulheres se deleitavam já com estes divertimentos desde muito meninas, quando corriam pelas ruas ou pelos cais do Porto; encontravam, porém, aqui uma nova categoria de parceiras: as mulheres de cor. Maria Lucena dormia carnalmente com as negras da casa; Maria Roiz, casada, procura Ana, uma pequena mestiça de 11 anos, Guitarea Sequa, uma pequena mameluca de 8 anos, e vemos ainda a mesma desonesta amizade unir uma pequena camponesa de 12 anos a uma negrinha da Guiné de 18, uma branca, Madalena Pimentel a uma parda, Iria Barbosa, e Catarina Barbosa a Isabel Marques, mestiça.” (Bastide, pp.72,73) 68 Segundo pesquisa realizada em 1984 na Inglaterra, 1 em cada 10 ingleses foi explorado sexualmente quando era criança. O roqueiro inglês Ozzy Osbourne, segundo o jornal The Daily Mirror, sofreu abuso sexual durante a infância.


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Parece evidente que esta recusa sócio/científica de encarar e discutir este assunto também está baseada na angústia da identificação. As autoridades, os educadores e os próprios pais se sentem comprometidos nesta área. Identificam-se, de alguma maneira, tanto com os estuprados como com os estupradores. Tanto com a criança abusada, como com o pai ou a mãe abusadora. Trazem uma história parecida ou igual que, a custa de muito sofrimento e de muita negação, foi mantida fora da consciência durante décadas. Ter agora que encarar essa experiência e discuti-la em público é algo tão doloroso como a experiência em si. Daí a hipocrisia, os «panos quentes» e a racionalização. 69 A cumplicidade que outrora foi com o abusador de si-mesmo, agora se repete na cumplicidade com os abusadores de turno. Que as estatísticas sobre incesto e abuso sexual infantil cresçam cada dia, demonstrando que Freud blefou, que Margaret Thatcher idem e que Manson foi injustamente demitido, este não é o problema maior. O horror está em ter que lidar com a falsidade generalizada. E é curioso que até os presidiários – que às vezes cometeram crimes absurdos-, assumem posturas moralistas diante dos estupradores. Já é de praxe no Brasil, que se o estuprador não for confinado numa cela especial, será fatalmente assassinado pelos sequazes colegas de prisão. Sem falar, evidentemente, das vezes que “como castigo” é estuprado, com o aval dissimulado ou até explícito do carcereiro e de toda a sociedade.70Aí também acontece a identificação. É necessário matar, não apenas “aquele que abusou de uma criança”, mas “aquele que se deixou flagra abusando”, o que revela uma nova e hedionda faceta tanto do bandido como do crime.71 Matá-lo, aparentemente para insinuar «normalidade», para fazer média com os carcereiros intra e extra muros, mas na verdade numa tentativa de escamotear definitivamente o abusado e o abusador que levam em si mesmos.72 Freqüentemente já foram abusados, enrabados, humilhados, “feitos de mulherzinhas” por alguém. E então matam meio mundo a facadas, a tiros ou por estrangulamento, mas por maiores que sejam seus crimes e suas façanhas, não conseguem superar essa “mácula”. A metralhadora e nem a pistola automática serão suficientes para devolver-lhes o phalo, para curá-los das cicatrizes da castração e nem para suavizar suas carências essenciais... A frustração maior é saber que entre as vítimas dessas chacinas nunca está aquele ou aqueles com quem precisam ajustar contas.73 Temerão o sexo, temerão os homens, temerão as mulheres, ingressarão numa confraria, numa fé, num fanatismo e numa religião. Desconfiarão para sempre da sociedade, tanto da burguesa, como da proletária, que –segundo seus juízos- não foram suficientemente hábeis para poupá-los. Paradoxalmente, são esses mesmos presos, tomados por um moralismo religioso e cretino que, depois de eliminar o colega estuprador, sob o pretexto da “falta de mulheres”, vão enrabar-se e estuprar-se mutuamente nas celas.

69 “O contradiscurso dos pedófilos e das pedófilas –leio em La crisis de la heterosexualidad- costuma criticar o adultismo e o papel social destinado à infância em nossa sociedade. Defendem, em geral, o direito da infância em obter prazer dos adultos e a legitimidade da sedução de meninos e meninas. (...) Exigem coerência da sociedade, no sentido de que se ao longo do processo de socialização a criança é seduzida de diversas maneiras, não tem sentido condenar e perseguir apenas as seduções articuladas a partir do prazer sexual”. (Guasch, p.100) 70 Na China antiga era comum se punir a mulher adúltera submetendo-a a uma relação sexual com um cavalo 71 No capítulo A estrutura de gênero e a injunção do estupro, Rita Segato registra que: “As evidências etnográficas mostram que, nas sociedades tribais, seja de índios americanos ou de sociedades polinésias ou africanas, o estupro tende a ser um ato punitivo e disciplinador da mulher, sendo praticado em grupo contra uma vítima que se tornou vulnerável por ter profanado segredos da iniciação masculina...” (em Violência, gênero e crime no Distrito Federal, p.393) 72 Num estudo (A cela) realizado em prisões femininas francesas, o dramaturgo Michel Azama identificou nas prisioneiras um comportamento equivalente ao dos homens com os estupradores. As mulheres que entram ali por terem cometido infanticídio, são discriminadas e até levadas ao suicídio. Já, as que foram presas por matarem os maridos são admiradas. 73 Daí se poder especular que mesmo quando o estupro é praticado, “nunca é de fato um ato consumado, mas a encenação de uma consumação, inevitavelmente presa à esfera da fantasía. Se para a vítima, ele somente se consuma como violação em sua interioridade, para o estuprador, é a irrupção de uma fantasia. Isso torna inteligível, nas emoções que deslancha, a proximidade entre suas formas alegóricas e violentas.” (Segato, idem, p.417)


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Volto ao Antigo Testamento meio contra a vontade e visivelmente enojado para retirar dele quatro ou cinco momentos infanticidas. Retomo a leitura dessa brochura, não porque acredite no monte de idiotices nela contidas, mas por saber o quanto ela influenciou e ainda influencia as leis e as crenças sociais da tropa. E aqui é pertinente lembrar que em quase todo o Reino Cristão, até a bem pouco tempo, a fase dos seis aos dez anos de idade era considerada teologicamente imunda. Leio as 56 páginas do Gênesis num só impulso e chego a ficar tonto com tanta burla, com tanto infantilização dos adultos e com tanta violação ética. Com o Código Penal à mão fui lendo e listando os principais «delitos» cometidos pelo Senhor Jeová, pelos Faraós e pelos filhos de Adão e Eva. Vejam: falsidade ideológica; exploração de mão de obra; estelionato; proxenetismo; abuso de poder; bigamia; mentira; prevaricação; corrupção; estupro; incesto; bastardismo; fratricídio; latrocínio; tráfico de pessoas; onanismo; fornicação; assassinato; expropriação de bens; vingança; soberba; autoritarismo; uso de armas biológicas; infanticídio, etc. Seriamos realmente descendentes dessa ralé? “Hiel reconstruiu Jericó sobre o sacrifício de seus filhos; Jefté ofereceu sua filha depois de obter uma vitória sobre os amonitas; David, para aplacar a ira de Jeová sacrificou sete parentes de Saul. Houve uma época em que o sacrifício de crianças no fogo foi muito comum entre os hebreus (...) Este tipo de sacrifício sobreviveu entre os cartagineses, entre quem é bem conhecida a imolação de 500 crianças, de famílias nobres, com o intuito de conseguir dos deuses uma vitória sobre seus inimigos.” (Torres, pp. 43, 44). Ah, e eu que entre uma mentira histórica e outra costumava atribuir levianamente as nossas desgraças cotidianas aos portugueses, aos espanhóis, italianos e a outros pseudocolonizadores, ao terminar essa releitura me convenço de que toda a sociopatia atual vem de longe, mas de muito mais longe74 e que a civilização só começará a libertarse verdadeiramente, depois que vomitar até as entranhas, que defecar até as tripas e fizer uma imensa fogueira com tudo o que é teológico. Especificamente sobre o infanticídio, me deparo com um Abraão servil, pronto a sacrificar seu único filho em holocausto. “...edificou Abraão ali o altar, e pos em ordem a lenha, e amarrou a Isaac seu filho e deitou-o sobre o altar em cima da lenha, e estendeu Abraão a sua mão, e tomou o cutelo para imolar o seu filho...” Em Êxodo 2 (115, 22), é o rei do Egito quem pede às parteiras para que matem os bebês das mulheres hebréias, sempre que forem meninos. Quando o monarca descobre que elas não o estão obedecendo, dirige-se ele próprio ao povo para ordenar: “a todos os filhos que nascerem lançareis no rio.” E um pouco mais adiante, em êxodo 11 (5) vemos o próprio chefão dos chefões (Deus) anunciando a Moisés a morte de todos os primogênitos do Egito: “E todo o primogênito na terra do Egito morrerá, desde o primogênito do Faraó que se assenta com ele sobre o seu trono até o primogênito da serva que esta detrás da mó, e todo o primogênito dos animais...75 Na página 77, num parágrafo relativo aos Dez Mandamentos, leio com horror e indignação este comunicado:” Sou Deus zeloso que visito a maldade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem.”Impossível estar diante desta fanfarronice sem lembrar da previsão de L. 74 Com um capitalismo e uma publicidade cada vez mais abusiva, e com as religiões se multiplicando por todos os lados, volta a ser atual a necessidade de, –como escrevia Flavio de Carvalho – “se contrapor às concepções idiotas da família e da propriedade privada que embruteceram o homem com 1500 anos de monotonia recalcada (...) Cumpre a nós estudar a habitação do homem nu, do homem do futuro, sem Deus, sem propriedade e sem matrimônio (...) O homem máquina do classisismo moldado pela repetição contínua não pode aturar mais a monotonia dessa rotina, precisa apresentar-se nu, sem tabus escolásticos, livre para o raciocínio e o pensamento, apresentar sua alma para pesquisas; procurar a significação da vida”. (Morais, p.25) 75 Por mais que os leitores ignorem e por mais absurdo que seja, a Páscoa, vigente entre nós até hoje, é uma comemoração escamoteada dessa matança de crianças egípcias.


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Bloy:” Todo cristão sem heroísmo é um porco, anunciará um dia, um enviado do Espírito Santo “. E o Novo Testamento, apesar das falsificações e dos arranjos, não é muito diferente. Nele o chefe dos infanticidas se chama Herodes. Em Mateus 3 (17) está escrito:” Então Herodes vendo que tinha sido iludido pelos magos irritou-se e mandou matar todos os meninos que havia em Belém e em todos os seus contornos, de dois anos para baixo...”Crimes semelhantes vão acontecer também na Babilônia, sob o comando do rei Nemrod e no resto da terra”. À margem do esoterismo oficial, nos ambientes onde pululavam os hereges e os anticristos se convivia com freqüentes evidencias e acusações de infanticídios. Com provas ou sem provas, se acusava os discípulos do demônio e às bruxas de canibalismo e de comerem criancinhas que não tinham sequer sido batizadas. (Hughes, p.143). No Veda, o infanticídio principal sugere que o mundo teria sido criado a partir do sacrifício de Purusha, o Ser Primogênito.76 Para Cioran, que se deliciava com as aberrações humanas, toda a filosofia hindu se resumia no horror, não da morte, mas do nascimento. Da tragédia grega, que é até mais aberrante e sanguinolenta que o Antigo e o Novo Testamento juntos, além das façanhas criminosas de Cronos,77 dos caprichos vingativos de Medeia, e de centenas de outros disparates, menciono aqui apenas a lenda já mais do que popular de autoria de Sófocles: o caso Laio/Édipo. Trata-se, como todo mundo sabe, (os psicanalistas estão há uns setenta e tantos anos repetindo essa historinha a seus discípulos) do rei de Tebas que manda matar seu filho para evitar que a balela do oráculo se cumpra.78 O filho se salva, mata o pai, enraba a mãe e dá continuidade a uma seqüência de assassinatos, suicídios e horrores que até hoje não foram bem digeridos... Aqui é importante perguntar-se até onde a grande maioria dos casos de parricídio não seriam o resultado de infanticídios frustrados, e a pedofilia, uma forma de acerto de contas? 79 Entre os mexicas do século XVI, o destino das crianças não era muito diferente. Com freqüência eram sacrificadas para agradar ao sol, à lua ou a outro pedaço de asteróide quaisquer que brilhasse lá no meio das nuvens. Os primeiros meses do ano eram os preferidos para oferecer crianças aos deuses e aquelas que tivessem dois «redemoinhos» na cabeça eram escolhidas em primeiro lugar. As de pele mais clara eram oferecidas aos deuses nos montes e as mais morenas nas lagoas. (Torres, p.255). Para onde quer que se olhe neste imenso vácuo mental que é a história da humanidade, rastos de sangue e de massacres perpetrados sempre pelos mesmos patriarcas e sempre pelos mesmos «sacerdotes», seja da religião, da cultura ou do Estado que, apesar das «batinas» serem distintas, sempre estiveram a serviço dos mesmos «ideais» e das mesmas demagogias grotescas. Aos 54 anos, tenho me perguntado cada vez com mais freqüência, se chegará realmente o dia em que,-como previu Nietzsche- o sacerdote e o pastor (de todas as laias) será considerado o ser mais filha-da-puta, mais baixo, mais embusteiro e mais indecente do mundo. Releio em Bataille os passos da decadência de Gilles de Rais: “um hombre se va encerrando poco a poco en la soledad del crimen, de la homosexualidad, del sepulcro; dentro de aquel profundo silencio,los rostros que lo 76 Os seguidores do Bagha vagita, os hare-krisnas, etc, recentemente também foram investigados por tráfico de crianças e por abusos sexuais pedófilos. 77 Havia em Cartago uma estátua de Cronos feita em bronze, com as mãos estendidas, a palma para o alto e inclinada para a terra, de tal modo que a criança posta sobre ela rolava e caía num fosso cheio de chamas. Ao que parecia, as crianças eram previamente estranguladas pelas mãos do sacerdote. (Rousselle, pp. 135,136) 78 Apesar de ser pouco mencionado, é importante lembrar que Laio, além da tentativa infanticida com Édipo, também era pedófilo, pois já tinha em seu curricullum de perversidades o rapto do jovem Crísipo. 79 “Um dos temas mais misteriosos do teatro trágico grego –lembra Pasolini- é a predestinação dos filhos para pagar as culpas dos pais. Não importa se os filhos são bons, inocentes e piedosos: se os pais pecaram, eles devem ser punidos.” (p.27)


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obsesionaban eran los de los niños muertos, a los que profanaba con un beso abominable...” (p.93) Na parede, um archote aceso. Duas longas madrugadas focinhando pela microfísica do poder (Foucault) e pelos relatos de João do Rio.80 Mais notícias pedófilas nos jornais. Na província Argentina de Santa Fé, -por exemplo- o arcebispo Edgardo Storni está sendo acusado de ter abusado dos seminaristas Rubén Descalzo, Martin Lascurain e José Mingardi,81e em Buenos Aires, é retomada a discussão sobre os bebês desaparecidos durante a ditadura militar. Nova acusação de pedofilia contra as Testemunhas de Jeová. Em Luziânia, um sujeito de 26 anos estuprou e estrangulou uma menina de sete e no Amazonas, outro pai foi denunciado por incesto.82 Do início deste livro até agora quinhentos e tantos novos casos. Os atores? Sempre os mesmos: policiais, peões de obra, professores, burocratas, roqueiros,83 religiosos e até alguns funcionários da ONU,84sujeitos aparentemente «normais» e sobre quem nunca havia pesado nenhum tipo de suspeita. O que vem reforçar a tese da «moral provisória» e a idéia de Malraux, de que somos um pequeno amontoado de segredos miseráveis. Quanto aos novos assassinatos de crianças? Não há estatísticas que se possa confiar, mas os jornais estão congestionados das barbaridades dos seriais killers85 e de fuzilamentos tipo Candelária. Segundo um estudo do Ministério da Saúde sobre a mortalidade infantil no Brasil (19791986), 57% das mortes de pessoas de 10 a 17 anos foram causadas por envenenamento, suicídio, homicídios, acidentes etc, sem falar da fome e das doenças típicas da negligência estatal. A pátria como uma mãe renegada! O Estado como um pai colérico. E aí leio em Édipo e Variações, que “A paternidade - é impulsionada por sua necessidade arquetípica de isolar, ignorar, negligenciar, abandonar, repudiar, expor, devorar, escravizar, vender, mutilar, trair o filho. O pai assassino é essencial à paternidade...” (Kerényi K. e Hillman, J., p.88). Na literatura nacional, é nos Sobrados e Mocambos do velho Gilberto Freyre que vou deparar-me com mais revelações históricas de rancor e de brutalidade cometidas contra crianças pelos devassos e ignorantes patriarcas do período colonial (Curiosamente, nesse capítulo, o autor só faz referências a meninos, como se não existissem meninas). Até os seis anos a criança era beatamente considerada um «ser angelical», adorado e venerado

80 Ver desse autor A alma encantadora das ruas. Livro que contém um farto material sobre exploração infantil no Rio de Janeiro do começo do século. 81 Este tipo de denúncias está tão frequente nos últimos tempos, que aqueles que em sua infância, passaram por seminários católicos ou foram coroínhas, estnao se sentindo na obrigação de demonstrar (aos amigos ou aos familiares) que não foram enrabados por nenhum padre e que sua honra está intacta. Nesta semana foi a vez de um conhecido apresentador de TV. Em tom de «brincadeira» afirmou que foi coroínha apenas por um dia... pois brigou com o padre... 82 Em seu fantástico livro, La ilusión vital, tratando da clonagem, Jean Baudrillard escreve: “vemos na clonagem o ressurgimento de nossa fascinação por uma forma arcáica de incesto com o gêmeo original e as graves consequências psicóticas desta fantasia primitiva.” 83 A polícia de Londres invadiu a casa do guitarrista Pete Townshend (da banda The Who), com a suspeita de que ele era um frequentador de pornografia infantil na Internet. Sua justificativa dá motivos para pensar que ele próprio foi abusado na infância. Disse estar fazendo uma pesquisa sobre abuso infantil, com o objetivo de escrever a sua autobiografia. 84 Le scandale a éclaté en février, lorsque deux consultants commissionnés par le Haut-Commissariat de l'ONU pour les réfugiés (HCR) et un membre de l'ONG britannique Save The Children ont remis un rapport dénonçant des abus à grande échelle dans les camps de déplacés de la Sierra Leone, du Liberia et de la Guinée. Ils affirmaient que se pratiquent dans les camps des échanges du type "sexe contre nourriture", les employés humanitaires profitant de leur position de pouvoir pour abuser des réfugiés. (Corine Lesnes, Le Monde, 23 octobre 2002) 85 Nas últimas oito décadas o mundo assistiu os surtos de vários matadores de crianças. Mamoro T. que invadiu uma escola no Japão e matou a facadas oito crianças. Pedro López M. abusou e assassinou 60 crianças no Equador. No Paquistão, Javed I. assassinou e dissolveu o corpo de 100 crianças em ácido. Na Ucrânia, Anatoli O. matou 10, na Rússia, Andri C. doutor em filosofia e professor, assassinou 50. Na Inglaterra Denis N. matou 15 jovens. Na Alemanha o famoso vampiro de Dusseldorf não só matou mas bebeu o sangue de 9 meninas, etc, etc.


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por todos86 (...) Chegava a ser idealizado em extremo; identificado com os próprios anjos do céu; andando nu em casa como um meninosinho-Deus... Entretanto, desde que começasse a ser considerado menino, passava a ser visto como uma criatura que devia ser mantida a grande distância dos adultos. A partir dos seis aos dez anos, era visto como o menino-diabo. “Criatura estranha que não comia na mesa, nem participava de modo nenhum na convivência da gente grande. Tratado com restos: cabeça raspada, os cachos do tempo de anjo guardados pela mãe ou oferecido ao Senhor dos Passos para a cabeleira de dia de procissão (...) E porque se supunha essa criatura estranha e cheia de instinto de todos os pecados, com a tendência para a preguiça e a malicia, seu corpo era (depois dos escravos) o mais castigado dentro da casa... (...) Era castigado pelo pai, pela mãe, pelo avô, pela avó, pelo padrinho, pela madrinha, pelo tio-padre, pela tia solteirona... (...) E essa pedagogia sádica, teve seu prolongamento terrível nos colégios de padres jesuítas e nas aulas dos mestres-régios, onde as crianças eram precocemente obrigadas a estudar retórica, gramática e latin.87 (...) E o patriarca, com seus poderes absolutos, mandava matar sob os pés de cajueiros, não apenas escravos, mas também a filhos queridos... (Freire, cap. III, p. 88, 89, 90). É bem provável que há alguns anos, quando ainda eram mais visíveis as fronteiras entre o sublime e o infame, qualquer um ficasse assustado ao descobrir no meio dos destroços históricos, crimes e idiotices desse calibre... Mas hoje, nem tanto. Talvez porque o ceticismo a respeito da própria espécie cresceu mais do que se esperava, e porque foi se descobrindo que a própria raça humana, como afirma Baudrillard, não se suporta, não pode suportar a reconciliação consigo mesma. E essa desilusão é tão grande, que já não se acredita nem mesmo naquelas estorinhas idílicas através das quais os primeiros hominídeos nos eram pintados como soberbos e esbeltos caçadores. Até isso era mentira. Estudos e dados modernos demonstram que tudo era idealização e fantasia, e que já naquela época, éramos uns pobres comedores de carniça e de carcaças deixadas para trás pelas hienas...

86 Havia até uma certa alegria entre os familiares quando morria uma criança com menos de seis anos de idade. “As mães se regosijavam com a morte do anjo... choravam de alegria porque o Senhor lhes tinha levado o filho pequeno e porque seria mais um anjinho a sua espera no céu” (Freyre) 87 Ontem os jornais noticiaram a prisão de uma freira que «torturava» crianças no interior de uma instituição filantrópica para carentes no Estado do RJ. O problema da flagelação, da auto-flagelação e do erotismo é uma temática que sempre esteve ligada a instituições educacionais e de confinamento, principalmente àquelas religiosas. Quem quiser ter uma idéia mais impressionista deste assunto, deve ler As freiras lésbicas, de Rosemary Curb e Nancy Manahan. Nesse livro, falando sobre as razões que levam uma jovem a ingressar num convento, uma freira declara: “...as mulheres apaixonam-se pelas freiras e ingressam nos conventos; então as mulheres mais jovens apaixonam-se por elas e também entram. É assim que a cadeia prossegue.” p. 337.


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Capitulo 3 DA PRÉ-GENITALIDADE, DAS BRINCADEIRAS E DA LIBIDO DAS CRIANÇAS “Um adulto e uma criança se amam um ao outro; a criança tem a fantasia brincalhona de que assumirá o papel da mãe do adulto. Essa brincadeira pode também tomar formas eróticas, mas permanece ao nível da ternura. O mesmo não ocorre com adultos que têm predisposição patológica, particularmente quando tiveram seu equilíbrio e autocontrole afetado por algum infortúnio ou desastre ou pelo consumo de substâncias tóxicas. Confundem a brincadeira infantil com os desejos de uma pessoa sexualmente madura ou perdem o controle sobre si mesmos, participando de tais atos libidinosos sem avaliar as conseqüências...” S. Ferenczi Apesar de se estar continuamente tagarelando, refletindo, pensando e repensando o mundo, as coisas e a si mesmo, até agora, no que diz respeito ao cerne da existência, a grande maioria dos pensares não tem servido para nada. Quase tudo se perde na futilidade e na vaidade das academias, na gratuidade, na petulância patológica, nas flutuações da moda, nas bagatelas sociais, na burocracia estatal, na melancolia dos botecos, nas idiotices televisivas, no embotamento da razão e em mil outros acordos frívolos que, no transcorrer da vida, se é obrigado a fazer com o altruísmo e com o impossível. A cada século, apenas cinco ou seis pensadores se instalam, por bem ou por mal, no imaginário e no dia a dia real dos homens. O astrônomo polonês Copérnico (1473-1543), o naturalista inglês Darwin (1809-1882), e o médico austríaco Freud (1856-1939) foram os pensadores que mais abalaram as idéias reacionárias e beatas dos últimos quinhentos anos. Copérnico com o seu Sistema Cosmológico oposto ao de Ptolomeu, demonstrava que a terra não era o centro do universo.88 Darwin, com sua teoria sobre evolução das espécies, em oposição às lendas bíblicas da criação, evidenciava nosso parentesco fisiológico com os animais e Freud, com suas descobertas sexuais, revelava que as crianças não eram os anjinhos assexuados que até então se acreditava, mas que tinham uma sexualidade própria. Se os conceitos de Copérnico e de Darwin foram digeridos e incorporados completamente ao conhecimento e às leis da civilização, os de Freud até hoje estão atravessados como pregos na garganta da grande maioria dos agentes do moralismo. Por mais fobias que esta descoberta tenha causado e ainda siga causando, a verdade é que tanto os meninos com seu «pênis» e as meninas com seu «clitóris» conhecem as delícias da ereção, da intumescência (e da culpa) nos primeiros meses e anos depois do nascimento.89 E talvez tenha sido daí, do susto dessa «descoberta» que se originou a conhecida pedagogia, prática que tem em sua base a 88 Por sua vez, nosso libertino Manoel Bandeira, deu ao mundo o seu Pasárgada. Lugar onde, segundo a interpretação de A.R. de Sant’Anna, além das drogas, do incesto e da luxúria serem liberadas, era “o lugar do desejo desreprimido, onde o corpo do adulto, já carcomido, será substituído pelo corpo ágil e erótico do menino.” (Sant’Anna, p. 243). 89 Em suas observações sobre a sexualidade infantil entre os nativos que pesquisava, Malinowski escreveu: “Ao lado do mundo das coisas legais, normais e “bonitas” abre-se um mundo de desejos vergonhosos, interesses clandestinos e impulsos subterrâneos. As duas categorias de coisas “decentes” e “indecentes”, “puras” e “impuras”, começam a cristalizar-se, tornando-se categorias destinadas a permanecer durante toda a vida.” (p.40)


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secreta função de inibir, proibir e reprimir... A criança que não quisesse correr o risco de um confinamento cruel, ou de ser massacrada pela cultura (gerontocrática) tinha que aprender a dominar, escamotear e a recalcar seus instintos. Apesar de todos os transtornos e psicopatias que provocou, o projeto sócio/religioso de apagar e de negar qualquer vestígio de sexualidade nas crianças, nunca deu certo e foi sempre um fracasso. Nunca passou de uma teatralidade ambígua e descarada, principalmente porque os próprios adultos e pais repressores, querendo ou não, desde o alto de sua pré-potente e duvidosa maturidade nunca conseguiram esquecer os trocatrocas e as «brincadeiras» genitais de suas próprias infâncias. Brincadeiras que, apesar da teologia católica pretender dar-lhes um rótulo satanista e teratológico, quando experimentadas de maneira espontânea e com crianças da mesma idade, são fundamentais e importantes para o desenvolvimento afetivo delas. Mas isto, evidentemente, não tem nada a ver com o discurso e nem com as pretensões dos pedófilos. Entre reconhecer a existência da ternura e da sexualidade infantil e tolerar a prática pedófila há um abismo de abusos, assimetrias, incestos, 90 desvarios, inconvenientes e problemas insolúveis. Apesar do blábláblá e do jargão dos convertidos de última hora e de outros prosélitos, sabemos que “mesmo entre os gregos a relação erótica adulto/criança era reprovada e vista como um vício que ameaçava a civilização... (Roudinesco, p.351). Portanto, sem estar querendo vender aqui a idéia alienada de uma criança santinha, bobinha, ou de um anjinho puro e alado pronto para migrar para o limbo,91 é necessário deixar claro que a retórica dos interessados em defender um relacionamento sexual entre adultos e crianças não passa de uma idéia charlatanesca, de um blefe cínico e de uma tentativa de universalizar e de «normatizar» uma necessidade e um transtorno pessoal,92 Num bairro de classe média, assisto casualmente ao surto histérico de uma mãe e dona de casa: -Imaginem o que uma criança pode saber disso! Imaginem se uma criança vai ter lá algum desejo! Sexo? É a parte má da humanidade! É sujo! É coisa do demônio! Transmite doenças! Quanto mais tarde se descubra, melhor! Não quero nem pensar em ter uma filha vagabunda e um filho desses tarados que andam por aí! Manifestava-se angustiada e quase em síncope a mãe, depois de surpreender sua filha de cinco e seu filho de sete anos, nos fundos da garagem, brincando de “cabra cega”, numa verdadeira orgia-pueril com uma gangue de meninos e meninas da mesma idade. -Nenhum problema minha senhora! Veja que são todos da mesma idade… Todo mundo, inclusive nós, já brincamos de “médico e de “quarto escuro” na nossa infância... Não há necessidade de seguir dançando ao compasso desse puritanismo generalizado... –Tenta acalmá-la, com sua mania verbal, o juiz que fora chamado.93

90 Conta a lenda que na extinta tribo Aruaque, à margem esquerda do rio Joruá, “um irmão costumava coabitar incógnito com sua irmã. Esta, numa das noites, assinala-o com tinta de jenipapo. Reconhecido e castigado, foge da aldeia e é decapitado pelas tribos inimigas. Transforma-se em lua e se vinga da irmã que o traiu, mandando-lhe a menstruação” Hernâni Donato, Dicionário de mitologia, pp. 170,171, Cultrix, SP. 1973. 91 Limbo seria o lugar onde, segundo a teologia católica posterior ao séc. XIII, se encontram as almas das crianças muito novas que, embora não tivessem culpa alguma, morreram sem o batismo que as livrasse do pecado original. É importante lembrar que esse tal de «pecado original» é de natureza sexual. Diz respeito à lenda de que pela fato de Eva e Adão terem, contra a vontade de Deus, se relacionado sexualmente, todos os bebês já nasceriam com essa culpa e esse pecado. Se considerássemos essa anedota sadomasoquista, poderiamos concluir que o ato pedófilo é uma espécie de 2º trauma sexual sofrido pela criança. 92 Num dos tantos sites sobre o assunto estava esta apologia hábil e mafiosa da relação sexual de adultos com crianças: “(...) O relacionamento entre um homem e uma criança envolve duas pessoas que se amam e, por isso, o chamado boylove engloba todo o espectro das emoções humanas. Dessa forma, a sexualidade faz parte da maioria das relações adulto/criança, mesmo que o ato sexual jamais seja consumado”. (Citado por Mariana Ceratti no CB, 29-11-2002) 93 (Yo también he hundido mi cabeza en las tinieblas de los muslos...” (Desnos, em La liberté ou l’amour).


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-Nenhum problema? Puritanismo? -grita no auge do chilique- Isto porque não são teus filhos! E a moral? E os costumes? Não quero ter uma filha p.. e muito menos um filho v.... Mundus vult decipi...* -resmunga o juiz. Se a ignorância parece ter sido o estertor patológico de todas as épocas, como seria então, se não estivéssemos no Terceiro Milênio? E não pensem que este tipo de cataclismo fóbico-moralista acontece apenas no cérebro de pessoas leigas e cheias de traumas pessoais. Não. Alguns homens pensantes como o russo Metchnicow –por exemplo- respaldariam sem nenhum constrangimento o pensamento desta mãe, jurando que aquela sensualidade era uma «desarmonia da natureza». Veja-se o que passa no recôndito de todas as famílias –lembrava Nietzsche-, de todas as corporações e comunidades; por toda a parte a luta dos doentes contra os sãos; uma luta quase sempre secreta, luta de pós-envenenados, de alfinetes, de semblantes astutamente resignados e às vezes revestidos de uma hipócrita «nobre indignação» (Genealogia da moral, p.124). Freud, que relata em algum lugar de sua obra ter presenciado as brincadeiras sexuais de quatro meninas de cinco a seis anos com um menino de quatro, assegurava: «A cena não oferecia o menor caráter de obscenidade. Dir-se-ia que se presenciava uma lição científica».94 Como quase tudo na existência, o significado das palavras também não permanece o mesmo para sempre. Pedófilo hoje –por exemplo-, não é mais aquela pessoa que gosta de crianças, mas aquela que explora e que abusa delas. Um desses personagens, com graves alucinações persecutórias deixou em baixo da porta de meu escritório, num envelope branco, a página 100 do livro Desvios Sexuais, do psiquiatra e analista inglês Anthony Storr, 1964. Percebi que havia sido rasgada sem muito cuidado e que estava com partes sublinhadas, umas com tinta amarela e outras com tinta vermelha. Em letra manuscrita um recado: «Para que não corras o risco de te atolares no moralismo vigente, nos clichês e na obsessão do politicamente correto. São dados de dois estudiosos do assunto (Kinsey e Storr), dados que talvez ainda não tenham sido incluídos em teu trabalho e que servirão, pelo menos, para minimizar o horror social e a condenação inexorável que se construiu ao redor da relação sexual (casual ou repetida) entre um adulto e uma criança que, aliás, muitas vezes tem o consentimento da segunda». Meio desconfiado, principalmente pelo trabalho ser de 1964, acendo a luz do abajur e leio primeiro o texto sublinhado com tinta amarela: “Até o momento tomamos como evidente que a sedução de menores é indesejável, de modo que pode parecer ocioso tratar de seus efeitos reais. A maioria das pessoas supõe que seja necessariamente prejudicial, mas vários especialistas que examinaram crianças seduzidas concluíram que o dano emocional, ao contrário do físico, é mais uma conseqüência do horror do adulto do que qualquer coisa intrinsecamente terrível no contato sexual em si. Kinsey escreve o seguinte: [Quando as crianças são constantemente advertidas pelos pais ou professores contra contatos com adultos, mas não recebem nenhuma explicação da natureza exata do contato proibido, tendem a tornarem-se histéricas logo que qualquer pessoa mais velha se aproxima delas ou pára e lhes dirige a palavra na rua, embora o adulto não tenha nenhum objetivo sexual em mente. Alguns estudiosos mais experientes de problemas juvenis acreditam que as A humanidade quer ser iludida. Por falar em Freud, seus biógrafos asseguram que quando criança, sua babá, uma mulher tcheca de uns 40 anos o excitava e o masturbava(...) Mais tarde, ainda criança, se masturbava com o meio irmão mais velho Philipp e com seu sobrinho John... Além disso, um pouco mais crescido, alimentou fantasias de violentar sua irmã... (Dubcovsky, p.36) *

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reações emocionais dos pais, policiais e outros adultos que descobrem ter tido uma criança um contato desses, podem perturbá-la mais gravemente do que os contatos sexuais em si]...” Releio e reflito sobre o texto antes de mover-me da cadeira, depois vou à prateleira consultar o que disponho de Kinsey e de Storr,95 para em seguida rever à conferência de Ferenczi (1932), onde está sua afirmação de que: “É difícil imaginar o comportamento e os sentimentos das crianças após tais atos de violência. Seu primeiro impulso seria: rejeição, ódio, nojo, resistência vigorosa. «Não, não, não quero isso, é forte demais para mim, isso me machuca. Me larga!». Essa ou alguma semelhante seria a reação imediata, não fosse ela paralisada por um medo extraordinário. As crianças sentem-se física e moralmente incapazes, sua personalidade está ainda insuficientemente consolidada para que possam protestar, mesmo que apenas em pensamento. O poder e autoridade esmagadores dos adultos tornam-nas mudas; são freqüentemente privadas de juízo...” A escola, a igreja, a casa e o «lar», apesar das inverdades que se disse até hoje sobre elas, funcionam quase como cativeiros para as crianças (e para suas mães), cativeiros que facilitam aos «patrões» a domesticação e o abuso. São o signo máximo da triste passagem humana do nomadismo para o sedentarismo e da soberania para a simbiose.96 Triste, porque confinar significa dominar. E aqui é importante lembrar que o pedófilo ordinário não está interessado apenas em sexo, mas em sexo com domínio. Só goza quando sente que subjuga e que inferioriza o objeto de seu desejo. E “se o ideal do poder é a imobilidade absoluta –escreve Maffesoli-, então a morte é, com toda a segurança, o exemplo acabado” (p.25). Anoto o que me interessa desses textos e retomo a leitura da página que me foi deixada, agora à parte sublinhada em vermelho: “O horror pela sedução de menores baseia-se numa suposição de que a situação tende a reduzir o amor à luxúria, e o adulto procura satisfação às custas da criança, sem considerar os sentimentos dela. Isso nem sempre é verdade, e em alguns casos de contato sexual repetido a criança mostrara-se desejosa de continuar e não revelara sinais de perturbação antes de ser descoberta e censurada. Essas crianças são consideradas como portadoras de personalidades excepcionalmente encantadoras e capazes de fazer com facilidade contatos pessoais. (...) Se a sedução da criança não resulta em implantação do medo da sexualidade, pode causar o despertar prematuro de um desejo que a criança tem dificuldade para satisfazer. Algumas crianças, especialmente após contínua associação sexual com um adulto, podem tornar-se carentes e emocionalmente perturbadas quando essa associação termina, e ao crescerem podem ser levadas a repetir o padrão seduzindo uma outra criança...”(Storr, p.p.100, 101) Comparo o texto de Storr com o de Ferenczi. Apesar de algumas diferenças, os dois concluem que a criança que foi vítima de um atentado dessa natureza torna-se um ser emocionalmente obediente ou desafiador, porém não mais é capaz de dar conta do motivo 95 Na página 103 do mesmo livro, uma recomendação sobre o que fazer com os pedófilos: “O adulto que ataca um menor necessita de exame médico e psiquiátrico mais do que de punições. O homem idoso que comete um crime desse pela primeira vez, provavelmente sofre de arteriosclerose ou outra doença orgânica que danificou seu cérebro e prejudicou seu controle. O jovem que sente atração compulsiva por crianças pode ser o produto de uma perturbação de seu desenvolvimento emocional tratável pela psicoterapia, mas que, de qualquer maneira, não seria afetado pela punição. Os desviados sexuais são pessoas já sobrecarregadas de um sentimento de culpa e inferioridade, e puní-los pela prisão, sem tratamento, tende a aumentar mais do que a diminuir a oportunidade de repetirem o delito”. 96 Muitas vezes a criança abusada chega a desenvolver um vínculo longo e simbiótico com o abusador, como se um precisasse do outro para suportar a culpabilidade, e assim acabam se tornando cúmplice do sofrimentos e da destruição mútua.


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para o desafio, sequer para si mesma; sua vida sexual permanece não-desenvolvida ou toma formas perversas.... E as páginas principais dos diários e das revistas semanais não param de divulgar fotos de crianças desaparecidas, suicídios entre crianças ianomâmis, agressões, abusos e estupros pelos quatro cantos do mundo. Abusos que, como vimos, na grande maioria das vezes, além de lesões genitais, produzem traumas psicológicos graves. No Sri Lanka, um apresentador de TV é preso com material audiovisual pornográfico e sob acusação de abusar de meninos. Um português, também apresentador de TV, tenta fugir para o Brasil depois de ser descoberto explorando alunos da Casa Pia, uma instituição de ensino para crianças carentes. No Japão, um videogame na Internet incitava os internautas a matar a facadas o maior número possível de crianças. Em São Paulo, um casal de carismáticos, joga um filho contra um carro e batem a cabeça do outro contra uma árvore. Em Minas Gerais, uma mulher de 57 anos, assassinou o sobrinho de dez num ritual macabro. No Pará, um casal proporcionava orgias com crianças. Em Santa Catarina, um velho de 82 anos é descoberto como profissional da pedofilia. Nos EEUU, um pai falando do sistema interno de TV na escola de sua filha, confessa o medo e a angústia de imaginar que aquele sistema possa servir para beneficiar algum funcionário pedófilo. Desaparece um feto enterrado no cemitério de Juiz de Fora, era a prova de que a mãe, uma menina de 13 anos, havia sido engravidada pelo próprio pai. Em Porto Alegre, um pastor da igreja do Reino de Deus foi encarcerado por abusar de várias crianças. Em seu quarto a pergunta clássica de Barthes rabiscada na parede: “O lugar mais erótico de um corpo não é lá onde o vestuário se entreabre?”. Em Sergipe descobrem outro «predator priest» etc, etc, etc, enquanto uma estatística na Guatemala registra 50 assassinatos de crianças por mês, e o mundo parece tomado por um dilúvio de perversidades. Um antropólogo escreve sobre o hermafroditismo, os gêmeos, o amor fraternal, o incesto etc, e cita uma frase verdadeiramente alucinante de Otto Rank, sobre a possibilidade dos gêmeos já se relacionarem sexualmente ainda no útero.97 Uma jornalista denuncia indignada a precocidade com que as meninas começam a maquiar-se, usar tamancos e roupas sensuais. Não é de hoje que os abutres da indústria, do comércio e do marketing voltaram suas propagandas enganosas para o mundo infantil. Influenciadas por esses marqueteiros asquerosos e por mães imaturas e histéricas, meninas de até dois anos de idade estão cada vez mais dependentes das fábricas de cosméticos, cada dia mais «vaidosas», «atraentes» e «sedutoras». Sedutoras de quem? Em suas lancheiras, além dos bombons e dos yogurtes, pode-se encontrar também esmalte, brilho labial, desodorante, gel para o cabelo etc. Para que comecem a levar preservativos parece ser só uma questão de tempo. Além disso, é sabido por todos, inclusive pelo Ministério da Justiça, que programas diários de televisão, associados a marcas de produtos consumidos exclusivamente pela população infantil, hipersexualizam descaradamente as crianças. O silêncio das organizações de defesa dos menores sobre este assunto é quase incompreensível. Enquanto isto, o Los Angeles Times volta a dedicar na primeira semana deste mês, uma matéria sobre a pedofilia dos padres norteamericanos, assunto que tem atordoado o Vaticano e colocado a beataria analfabeta universal em estado de niilismo. Apesar de chegar a dois mil (só nos últimos seis anos) o número dos sacerdotes católicos acusados naquele país, os paroquianos sádicos de Boston, por enquanto, só listaram na Internet os nomes de uns 600.98 Se por um lado 97 “L’idée que les jumeax se sont créés eux-memes, me parait se manifester avec évidence dans la croyance très répandue d’après laquele les jumeaux d’un sexe différent peuvent accomplir l’acte sexuel déja avant leur naissance, dans le corps de leur mère e transgresser ainsi le tabou de l’exogamie”. (citado por Libis, p.206,207). 98 É importante lembrar que no caso dos padres abusadores, além da pedofilia há também um incesto simbólico, já que o padre assume junto aos pequenos religiosos, o papel de pai.


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tudo indica que estamos a um passo de uma convulsão mental, por outro, fica evidente que de um dia para outro poderemos mergulhar numa nova «caça as bruxas». Num lado os apóstolos do vício e da doença, no outro, os apóstolos da moral e da saúde, e cada um com seu devido fanatismo. Como não ser contaminado por esses lunáticos? Como não naufragar no clima ambíguo e paranóico que passou a reger nossas relações com as crianças? É importante lembrar que assim como existe a doença imaginária, existe também a saúde imaginária... Em quase todos os papos, quando o assunto é abuso de crianças, «meretrizes mirins» ou alguma outra forma de infanticídio, as referências vão inconscientemente sempre para países longínquos. Apesar de ontem terem encontrado no «lixão» do Distrito Federal uma criança de seis meses decapitada, é mais cômodo voltar-se para o Império Romano,99 para as arábias, para a China,100 para a Índia... Quanto mais longe melhor, como se o nosso Continente não fosse suficientemente pródigo em perversidades.101 Índia! País que precisaria voltar mais umas dez vezes para ter uma compreensão mínima até mesmo dos seus códigos mais ordinários. Costumo voltar, pelo menos em pensamentos para as margens do Ganges, em Benares, e me deleito no meio daquela mendigada leprosa, ao sol de 40º, com o cheiro dos crematórios, cânticos, gurus, vacas, fanatismo… Lembro que num quiosque improvisado, uma menina de uns nove anos, agarrada a uma garrafa de água, olhava com ternura e horror para os adultos que discutiam em voz alta, como se fossem brigar. Um deles, com certeza, era seu dono, seu proprietário, seu amante e seu estuprador... Já que lá –como escreve R.Miles-, o marido prudente tem sua esposamenina amestrada para relações sexuais rotineiras muito antes de ela começar a menstruar, a fim de beneficiar-se de seus «primeiros frutos».102 Quando acidentalmente olhavam para ela, baixava o olhar e com seus dedos ainda nem completamente desenvolvidos, fazia estalar o plástico da garrafa. “É o ódio [que o adulto sente pela criança]103 que traumaticamente surpreende e aterroriza a criança seduzida por um adulto e a transforma, de um ser espontâneo e que inocentemente brinca, num autômato do amor, carregado de culpa, que ansiosamente e, por assim dizer, auto-anulantemente, imita o adulto...” (Ferenczi, p.268). Nesses dias as tvs exibiram um vídeo-documentário sobre o empalamento público de um pedófilo indiano. Em plena rua, cercado de crianças, mulheres e da platéia mais heterogênea possível, o verdugo enfiava-lhe uma estaca pelo ânus que ia até suas costelas. Todos riem, –inclusive as crianças- aplaudem, alucinam diante dos últimos suspiros da vítima... Impossível imaginar uma crueldade maior! De onde vem todo esse rancor e a idéia de que o crime pessoal é sempre mais bárbaro que o crime estatal? Ou que o crime ritual? Quê tipo de sadomasoquismo e de narcisismo regem nossos medos e nossos ressentimentos? Quem é que estamos verdadeiramente matando nesses nossos crimes diários? Como lembra Serge Leclaire, “Não é suficiente matar os pais, resta muito a fazer, 99 Até as pessoas menos instruídas têm na memória os afrescos das paredes e do teto da casa dos Vettii, em Pompéia. Os Petits amours orfèvres; os Petits amours parfumeurs; os Petits amours jouant à la cible, etc. 100 É frequente as pessoas fazerem referências ao antigo costume chinês e japonês de, para fins eróticos, interromper o crescimento dos pés das mulheres, para que adultas, permaneçam com pés de crianças. 101 Entre toda a mentirada que os colonizadores inventaram sobre nossos indígenas, principalmente a respeito dos maiores tabús (incesto, canibalismo, infanticídio etc) num texto de Vespucio se pode ler: “a carne humana era comum vianda, foi visto o pai comer seus filhos e suas mulheres”. Ver Lestringant, F. O canibal, Ed. UnB, p.50. BsB 1997. 102 Em 1921, tempo em que os britânicos ainda estavam sugando descaradamente as riquezas do povo indiano, realizaram um recenceamento naquele país que revelou um verdadeiro massacre-legal de meninas: “3.200.000 noivas-meninas haviam morrido nos doze meses anteriores: A, com nove anos de idade:fêmur esquerdo deslocado, pelvis amassada até perder a forma e a carne em farrapos, no dia seguinte ao casamento. B, com 10 anos de idade, incapaz de ficar em pé, sangrando profusamente e com a carne muito lacerada. C, com 9 anos de idade, tão completamente violada que ficou quase além do reparo cirúrgico. I, com 7 anos de idade, vivendo com o marido, morreu em grande agonia, ao fim de três dias. M, cerca de 10 anos de idade, arrastou-se engatinhando para o hospital. Desde o casamento nunca mais conseguiu ficar em pé... Mais razão ainda, diziam os sábios, para que fossem apanhadas pequenas, antes de sucumbirem à fraqueza das mulheres”. (Miles, p.130) 103 Misopedia = Ódio mórbido por crianças.


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é preciso ainda, matar a representação tirânica do menino-rei (...) a morte da criança maravilhosa ou terrível que fomos nos sonhos daqueles que nos conceberam ou viram nascer...”104 Uma senhora enrolada em um sári escuro teve uma crise convulsiva nos degraus por onde a multidão de devotos descia para o banho diário no Ganges. Aproximei-me. Seu corpo era praticamente só os ossos. Ninguém lhe deu a mínima importância, como se já soubessem que a doença é apenas uma metáfora, outra forma de relacionar-se com os conflitos interiores e com o mundo. Desamparados na infância, intoxicados na juventude e decrépitos na velhice,105 os homens vão se digladiando com os apertos até que podem. Depois, “quando uma simples indisposição já não consegue mais resolver o conflito – afirmava Groddeck-, o ID recorre a enfermidades mais graves, longas, crônicas. Se mesmo assim não for suficiente, recorre, enfim, à morte...”

104 105

Em: Mata-se uma criança. Ed Zahar, p.12 RJ, 1977. Fragmento do texto do místico Ansaride Herat.


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Capitulo. 4 DA NUDEZ PUERIL À MALÍCIA DOS PINCÉIS “Todos sabem que a sociedade não passa de um vasto orfanato em que os internos procuram inutilmente adotar uns aos outros...” Fréderic Schiffter Sentado quase sob a estátua de Goya, observo a imensa fila que vai entrando aos poucos pela porta central do prédio quadrado que mais parece um bunker franquista do que o famoso Museu do Prado. Lugar lutuoso onde ontem passei umas quatro longas e intermináveis horas, «pisando em ovos» para, com meu ceticismo com relação à arte, não aviltar e nem corromper essa espécie de monastério da modernidade. Quatro horas dedicadas a quê? À exposição dos nus infantis que, misteriosamente, saíram dos salões privados dos reis e dos magnatas para o espaço público e para a plebe. A fila não se move. Alguns levam no olhar os cacoetes de suas dramatizações inconscientes e outros, os sinais de uma idiotice triunfante. Nenhuma criança. Há evidencias e provas por todos os lados de que a Europa odeia crianças. Proibições, dedos em riste, autoritarismo, acesso interditado em determinados lugares. Sem falar que em alguns países o índice de natalidade é praticamente zero. 106 Desse jeito, em breve a velharada terá que se lamber e esfregar-se entre si. Desde a pré-história, solteirões, boêmios, filósofos, artistas, sodomitas, escritores e outros exóticos rejeitaram abertamente a paternidade. A «esterilidade» de Kant, Nietzsche, Schopenhauer, Kierkegaard, Einstein, Barthes, Foucault, Rawet, João do Rio, Sartre, Vargas Vila, Cioran etc, é até de conhecimento popular. O pintor Dali, por exemplo, declarou em uma entrevista: “Não tenho filhos e não o lastimo. Tenho horror de crianças, fisicamente. Quando são pequeninas elas me angustiam, como tudo o que me lembra o estado embrionário. Mais tarde, quando deixam de ser os monstros molengas dos primeiros tempos, eu as aceito. Porém, no fundo, não quero que haja seres que tenham o meu nome. Não quero transmitir Dali. Quero que tudo termine comigo.” Borges, o astuto escritor argentino, em sua História Universal da Infâmia escreveu: “A terra que habitamos é um horror, uma incompetente paródia. Os espelhos e a paternidade são abomináveis, porque a multiplicam e a afirmam.” No Brasil, o velho Machado de Assis havia declarado antes deles: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”, blábláblá.... Sorte dessas crianças por não ter nascido sob o império desses neuróticos! Pois mais cedo ou mais tarde teriam que inventar uma maneira de salvar-se ou um meio para destruir-se. O suicídio entre crianças e adolescentes, se fosse divulgado, seria o maior motivo de vergonha para a humanidade. O estresse, os maus tratos e a pressão social, familiar e religiosa que é exercida sobre as crianças, as empurram com freqüência para as doenças psicossomáticas, para a delinqüência ou para o suicídio... Nos USA, esse país atormentado pelo puritanismo luterano, o suicídio é a quarta causa de mortes entre

106 Quando querem ou precisam de uma criança, vão descaradamente comprá-la ou sequestrá-la lá nos países miseráveis da Ásia ou da América Latina... sem ter que passar pelos aborrecimentos da gravidez e do parto...


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adolescentes. Recentemente um menino de 08 anos foi considerado «delinqüente sexual» e punido por isso, por ter acariciado meninas da mesma idade... Volto a prestar atenção à fila, que ainda está no mesmo lugar. Um pouco depois, quando começa a ventar e a garoar, todos abrem mecanicamente seus guarda-chuvas coloridos, como se fossem clones, criando a imagem curiosa e grotesca de um verme que vai ébrio e em ziguezague se introduzindo no concreto. Cinco dias em Madrid são suficientes para convencer-se de duas coisas: uma, que o melhor programa que se pode fazer nesta cidade não é cultural, mas estomacal. Lá pelas dez da noite, todo mundo vai devorar um bom prato no popular e conhecido Museu do Jamón. A outra, para uns inverossímil, é que poucos espanhóis escapariam ilesos de um detalhado e competente exame psiquiátrico. A compulsão por cigarros e a irritação neurótica deles é quase inacreditável e beira à loucura. Será o efeito retardado das maldições que foram lançadas sobre eles durante a rapina em suas possessões, que iam das Filipinas à América do Sul? Ou será uma espécie de degeneração mental causada pelo pó do ouro que subtraíram do fundo dos rios peruanos, mexicanos e guatemaltecos? Será que algum elemento do metal lhes subiu à cabeça, produzindo um colapso nos neurônios e os desestruturando desse jeito? Aliás, acabo de comprar a História Clínica Del Caballero don Quijote, escrito pelo psiquiatra José Manuel Bailón-Blancas. Para não ser desleal com meus leitores, confesso que quando venho a estes paises «colonizadores» faço questão de deixar fluir solta toda minha inspiração e todo meu desprezo. Deixo brotar livremente toda minha ironia para com os descendentes daqueles velhos ignóbeis e criminosos que aliciaram e devastaram econômica, moral e fisicamente os povos das nações nativas onde pisaram. Quando os vejo desfilando por aí em seus luxuosos automóveis, com seus anéis com detalhes mouriscos, com pó de arroz sobre as olheiras, brilhantina nos cabelos, com seus ternos de casimira inglesa e suas máscaras de civilizados (sem esquecer que só neste ano investiram mais de cinqüenta bilhões lá no Brasil), faço questão de reavivar alguns «ecos do passado» como a acusação que Sarmiento lhes fez em 1846: -“Vocês não têm hoje nem autores, nem escritores, nem sábios, nem economistas, nem políticos, nem historiadores, nem ninguém que se aproveite.” Ou então a proferida pelo poeta Sellén Martí em 1890: “-Os povos de língua hispânica não recebem nada da Espanha além do «bouillon réchaufeé».” Depois que li as revelações de Bartolomeu de Las Casas sobre os crimes e o infanticídio que os espanhóis promoveram na América, sinto náuseas diante desta Espanha que hoje se orgulha por pertencer à Comunidade Européia e que se traveste freqüentemente de defensora dos direitos humanos. Para não lhes revirar as tripas, leiam apenas dois dos tantos casos pertinentes relatados por Bartolomeu: “Quando os espanhóis deixam o reino de Coyoacan, um deles pede ao filho do chefe de uma província para que parta com ele. O moço não quer deixar seu país. O espanhol insiste e ameaça: vens comigo senão te cortarei as orelhas. O índio está disposto a não partir e então o espanhol saca o punhal e lhe corta as orelhas. Como o menino não se rende ele lhe corta também o nariz. (...) Um espanhol vai à caça, mas como não encontrou nada para matar e seus cães estão famintos, retira uma criança dos braços de sua mãe, a corta em pedaços e os joga para os cachorros.”107 ( De las Casas) 107 E não pensem que faço estas citações guiado por uma visão romântica e «cidadã» desses povos selvícolas. Não. Sei, e muito bem, o quanto eles também foram brutais, criminosos e infanticídas, antes mesmo dos espanhóis colocarem os pés em seu território. No caso específico dos astecas, suas festas anuais que quase sempre envolviam sacrifícios, eram verdadeiras carnificinas. Sob o


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Independente dessa leitura, para quem tem brio, é impossível entrar aqui nas catedrais madrilenas, lá nas de Sevilha, Córdoba e Toledo (cripta da capela de San Nicolas, capilla de la Virgen del Alcazar, de San Pedro, de La Virgen de la Antigua San Martin, etc), ver todo esse ouro roubado, as carolas, os militantes do Opus Dei, os totens e os mistérios do cristianismo, sem vomitar. Se Cristo aceitou essa ignomínia, é porque também não sabia o que estava fazendo. Como filho-de-deus e justo, não poderia, em hipótese alguma, ter se cumpliciado com aqueles criminosos e nem com os seus descendentes.108 Um policial se aproxima com a mão direita sobre sua arma. Prendo a respiração. Se ao invés de Stirneriano fosse bakuninista, poderia estourar-lhe os miolos antes que desse mais um passo. Mas como estou desarmado, tudo não passa de uma fantasia pueril, lembranças dos tempos do Bil Kid e do Lampião... E depois –racionalizo- é apenas um cão de fila do sistema globalizado em sua tarefa diária de acosso! O que me enoja é que traz na ponta da língua a frase de sempre: -Estoy apenas cumpriendo ordenes! Compreendo! Afinal, quem não está, vinte e quatro horas por dia, cumprindo ordens? Por aqui todo mundo ficou paranóico depois que os «soldados» do ETA explodiram duas bombas e o «pessoal» do Osama Bin Laden prometeu mandar meio mundo pelos ares. Como só voltei ao museu para admirar-lhe a parte externa, saio caminhando despreocupado, quase junto às paredes, até chegar ao lado oposto, onde me deparo com outra estátua, tão ou mais soberba que a do Goya: a de Velásquez, que sentado numa imensa e amarelada poltrona, transpira narcisismo por todos os poros e exibe de maneira simétrica os pincéis e a espada. -Trabalho em bronze que foi fundido pela Masriera y Campins de Barcelona- ouço um guia matracando. Mais em baixo, bem em frente ao Real Jardin Botanico, a Plaza de Murillo congestionada de estrangeiros. Todo mundo quer dar uma olhadinha nos depressivos eaux-fortes de Goya, nas Meninas de Velásquez e em qualquer coisa do El Greco. É quase uma obrigação moral ficar pelo menos por uns intantes boquiaberto diante das obras desses monstros idolatrados, mesmo quando tudo não vai além de uma necessidade meramente intelectual, longe, muito longe do gozo visual autêntico e do êxtase. Uma senhora sentada no meio fio corta as unhas dos pés de uma menina de uns seis ou sete anos. Sabe-se que em Chiapas, no México, entre os tzotzil, a mãe realizava essa tarefa com os dentes. Mastigava bem os pedaços e os engolia. Nessa mesma comunidade, quando o menino estava muito irritado os adultos o masturbavam. Se mais tarde essa prática passava a ser exagerada pelo menino, a mãe ameaçava queimar-lhe a mão e o pênis com um tição...109 Ontem, lá nos salões, a funcionária me olhava desconfiada a cada vez que ouvia o clic de minha câmera, não porque fosse proibido, mas porque havia percebido que só estava fotografando pinturas onde apareciam crianças rechonchudas e nuas, os famosos puttis da renascença.110 Estaria diante de um contrabandista de pornografia infantil? De um comando de Montezuma e de seus comparsas eram sacrificadas a deuses esdrúxulos, pessoas de todas as idades. Os altares não se diferenciavam em nada de nossos matadouros e de nossos açougues... Enquanto aquela ralé toda enchia a cara de pulque e perpetrava o horror e a solidão futura da América. Religião? Cultura? Costumes? Um detalhe da organização sócio-econômica da época? Não. Puro instinto assassino. Uma espécie de retardamento mental que, apesar das máscaras de modernidade, ainda não foi transcendido por nenhuma cultura. Num relato de Cortêz há a descrição de um desses rituais macabros: “Pegam muitas meninas e meninos e em presença de seus ídolos, abrem seus peitos ainda vivos e lhes arrancam o coração e as entranhas que são queimados. A fumaça é oferecida aos deuses.” 108 “Eloi, eloi lema sabachthani? (Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?) é de fato o anseio arquetípico do filho testemunhando a verdade do pai assassino” (Kerényi e Hillman) 109 Holmes C. Guiteras, Los peligros del alma. Ed. de ciencias sociales, pp. 106, 107. La Habana, Cuba, 1988. 110Curiosamente a palavra putto (putti é o plural), que em italiano é menino, em português é o masculino de puta.


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mercador de crianças? De um pedófilo latino americano aficionado pelo estilo vicioso da antiguidade clássica? Ou de um desses neuróticos carismáticos que escondem suas perversões sob os estatutos dos movimentos de caridade? Olhava-me de cima a baixo com sua postura exageradamente crítica de mulher clitoriana, depois foi disfarçadamente conferir as obras que me interessavam. Parece ter ficado mais confusa ainda quando se deparou com La Bacanal de los andrios, de Tiziano (1476-1534) que, para complicar ainda mais estava ao lado da Vênus e Adonis. Dizem que este último foi enviado pelo autor ao rei Felipe II no século XVI, e que passou séculos no acervo erótico do quarto de verão do palácio, para deleite apenas dos nobres.111 Depois, Carlos III, num surto moralista, teria mandado queimar parte dos quadros espalhados pelos Palácios Reais, sob o pretexto de que eram escandalosos. A funcionária de que falava vai cochichar ao ouvido de um funcionário fardado e mais jovem que parece não lhe dar nenhum crédito, como se conhecesse bem as trapaças e os sintomas principais da hebetude dos funcionários públicos. Seria possível um olhar e uma intenção perversa sobre aquelas obras? Um olhar libidinoso sobre aquelas branquelas e inocentes crianças nuas! Sim ou não? Será que já serviram (em outra época) de objeto erótico, mas que agora, reabilitadas, expostas no Prado, no Louvre, em Nápoles, emolduradas e penduradas entre os clássicos, já não têm mais nada a ver com a putaria, com a luxúria e nem com a malícia das gangues artísticas do pedofilismo internacional? Será?112 E se as coisas não forem bem assim? E se a espécie, não apenas na infância, mas em toda a vida, é uma espécie perversa multiforme? E se inclusive Adão e Eva, os primeiros personagens desse circo de quinta qualidade, tiveram seus filhos (Cain e Abel) mal intencionados? Para comê-los, para abusar deles e para ter em quem descarregar a fúria pessoal? E se a fúria de Cain, que acabou no assassinato do irmão, estava estruturada sobre abusos sofridos? E se o mal em questão for incurável? E se a vida for construída só de depravação, com uns comendo os outros como numa toca de ratazanas? E se todos os homens e todas as mulheres levam realmente dentro de si uma atração fatal por esses corpos rechonchudos, maliciosos e ávidos por qualquer tipo de perversidade? Por esses pequenos perversos polimorfos (Freud) que se apaixonam perdidamente tanto por um pai como por uma mãe idealizada e que são capazes de vender o «corpo» e a «alma» por um pirulito, por uma meia hora de fliperama ou pela promessa vã de que lhes será possibilitado, finalmente, o acesso ao «Objeto puro e perfeito» de seu desejo? Segundo Schéber, analisando um assunto correlato: “Não existe iconografia que não tenha um significado que está além da aparência que propõe. Não é nunca inocente. Esta iconografia insinua, desde as primeiras imagens, um determinado modo de conceber as relações entre si, com sua sexualidade; criançaespetáculo tranqüilizador para o adulto. A iconografia implica seleção e o que exclui pode ser tão importante como o que mostra” (p.72) Entra no salão uma professora simpática, seguida por seis alunos. Quando olha para longe o faz por cima de seu Giorgio Armani e na mão direita leva uma apostila sobre a História Social da criança e da família, de Philippe Ariès. Para minha surpresa está dando uma aula, em voz baixa, claro, sobre a imagem de crianças nas artes plásticas. 111 Dizem que o Duque de Berry possuia um local conhecido por «quarto das crianças», decorado com quadros e tapetes onde haviam puttis estampados. 112 Há 2400 anos, Sócrates, educador e pedófilo, escreveu esta acusação contra as crianças: “Agora as crianças amam a luxúria. Têm péssimas maneiras, desprezam a autoridade, não respeitam os mais velhos e preferem tagarelar em vez de se exercitarem. As crianças agora são os tiranos, não os servidores de suas famílias”. Talvez não tenha sido lá tão grande como dizem, e a sicuta livrou os gregos de um pulha.


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Faria parte de alguma disciplina relacionada à educação sexual?113 Atrelo-me ao grupo como um parasita e vou discretamente anotando o que posso de sua astúcia e memória literária: “Até o século XII e XIII quase não se via nenhuma representação de crianças. afirma a professora. Nas poucas que se conhece, as crianças parecem adultos reduzidos, encolhidos, deformados, uma variação do nanismo. Já quase no século XIV começam a surgir imagens de anjos, meninos adolescentes, meio afeminados e de aspecto andrógino... mais tarde aparece o menino Jesus. A criança nua vai aparecer na fase gótica. (...) As poucas miniaturas das Bíblias moralizadas que representavam crianças vestiamnas, exceto quando se tratava dos Inocentes ou das crianças mortas cujas mães seriam julgadas por Salomão. Seria a alegoria da morte e da alma que introduziria no mundo das formas a imagem da nudez infantil. (...) No século XV surgiram dois tipos novos de representação da infância: o retrato e o putto. (...) Nas efígies funerárias, a criança só aparece no século XVI. É curioso (e suspeito) observar que ela apareceu não em seu próprio túmulo ou no de seus familiares, mas no de seus professores. 114 O bispo de Amiens mandou representar os dois príncipes de dez e sete anos de que havia sido tutor, numa pilastra de sua catedral.115 (...) Uma representação da criança desconhecida da Idade Média é o putto, a criancinha nua. O putto –explica a professora- surgiu no fim do séc. XVI e, sem a menor dúvida, representou uma revivescência do Eros helenístico. O tema da criança nua foi logo extremamente bem recebido, até mesmo na França. (...) Diante do Triunfo de Vênus a professora aumentou a voz: -“Ticiano, em particular, no séc. XVI, -como vocês podem ver - usou e abusou dos putti.(...) No século XVII, até os anjos perdem as características que lhes foram dadas por Botticelli e ganham o tipo do Eros pelado. (...) A nudez do putto conquistou até mesmo o menino Jesus e outras crianças sagradas. Quando a nudez completa repugnava o artista,116 ela era apenas tornada mais discreta. (...) O gosto pela nudez da criança evidentemente estava ligado ao gosto geral pela nudez clássica, que começava a conquistar até mesmo o retrato...”117 Um aluno a interrompe com esta frase: -A pureza como um fetiche? -Más o menos... –lhe responde e arremata com uma citação de Gauthier: “El hombre siempre ha querido encontrar en el ser (en la mujer) una vinginidad si no anatomica, por lo menos moral...” Mais uns minutos de discussão e a aula foi interrompida. O grupo seguiu a professora até a boutique de souvenires e dali para a porta de saída. Nasceu naquele momento e de maneira irresistível, diante daquela nudez infantil quase religiosa, a idéia de «pensar» este livro. Enquanto me posiciono diante de um quadro de Bellini, lembro com um certo deboche da frase de Juvernay:

113 Quando a discussão sobre a Educacão Sexual nas escolas estava no auge (lá pelos anos 50, 60), um dos grupos de energumenos norte americanos, contrário à idéia, a acusava de ser um “asqueroso complô comunista”. Ao mesmo tempo, os energumenos soviéticos, mergulhados em sua rigidez partidária, achavam que falar em educação sexual no interior das escolas era parte de “um complô capitalista do imperialismo ocidental” (McCary, p.208) A idiotice é ou não é uma enfermidade universal? 114 Sem conseguir controlar meu espírito de porco, ao ler esta passagem recorri imediatamente ao livro de Schéber intitulado La pedagogia pervertida, onde já em 1984 eu havia sublinhado: “Qué fantasía causa el deseo del pedagogo? René Schérer universaliza su fantasma: la pederastia.” Três páginas mais adiante há uma citação de Witol Gombrowicz, onde ele faz uma sátira sobre a pedagogia: “Quise gritar que no era un colegial, que habia ocurrido una equivocación, salté para huir, pero algo me atrajo desde atrás, cual un garfio y me clavó, y fui atrapado por mi cu... culito infantil, escolar. Por qué el cullito es escolar? (Schéber, p.p.6.9) 115 Ainda sob o impulso do espírito-de-porco, associei a homenagem do bispo de Amiens (séc. XVI) aos recentes escândalos pedófilos e pederásticos dos padres norteamericanos. 116 Repugnância, sabemos, é um dos sintomas clássicos na histeria conversiva. 117 Ver Ariès Philippe.


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“Deus odeia a nudez porque ela é a causa e a permanência do pecado, o demônio a ama porque ela é uma prova de nossa miséria e porque ela revela ao mesmo tempo nossa indigência e nosso crime”. Subo e desço escadas, entro e saio em salões lotados, aproximo-me de grupos de turistas que murmuram idiomas nunca ouvidos… olhares, gentilezas… Rabisco duas ou três palavras que não podem ser esquecidas. Uma fala vinda de meu inconsciente lembra que este livro deverá conter o mínimo de moralismos, o máximo de adjetivos 118 e nada de academicismos eclesiásticos. Ou, para ser mais «concreto», nada além do método vagabundo e aglomerativo usado em meus outros trabalhos.119 Uma imagem aqui, uma lembrança acolá. Uma notícia, um verbete, muitas citações, uma elucubração filosófica, a última frase de um estuprador, a confissão de um médico ou das vítimas, o disfarce dos rufiões. O confessionário como isca, os conventos, os segredos do magistério e das prisões. Sim, tem que ser assim, porque a idéia não é vender uma ideologia, uma moral ou um novo horror... Talvez apenas resgatar a cara arcaica e antiga da realidade. Nas bibliotecas e livrarias dos países da América do Sul vou tropeçando em muitos e muitos livros publicados sobre o assunto. Todos com apoio de organismos internacionais e todos superfaturados. Livros que poderiam ter sido editados com cinco a seis mil reais chegaram a custar 150, 200 mil, o que, com o quadro sócio-econômico daqueles países, ninguém tem dúvida, constitui um problema ético e moral grave, uma outra variante indireta e suja do infanticídio: a corrupção. Cada dia se torna mais difícil traçar um meridiano entre o Pesquisador, o Doutor e o Estelionatário. E o complô de silêncio impera tanto aí, entre esses vermes, como lá entre os filósofos do abuso. Esses oportunistas que, sob o pretexto de «discutir a infância» estão «mamando» nas tetas de organismos internacionais desde 1959, quando foi aprovada pela ONU a Declaração dos Direitos da Criança. Os que, por uma razão qualquer, caem fora, se aposentam, morrem ou arranjam mamatas melhores, passam os postos aos seus familiares, amantes, cúmplices ou pertencentes ao mesmo gueto. Freqüentemente cruzo com dois ou três deles pelo mundo. Viena, Estocolmo, Genebra, Paris... Vão rebolantes pelos ambientes mais sofisticados, com diárias de 500 dólares/dia, supostamente «dando consultorias» para salvaguardar a integridade das crianças. São os tais fabricantes de «literatura especializada», os mediadores entre a miséria das ruas e os altos e paralelos salários dos escritórios. Os vivaldinos contemporâneos que na prática, estamos grisalhos de saber, além de uns rótulos novos e da mistificação mútua, não produzem absolutamente nada! Nada além de relatoriozinhos inúteis e muitas vezes até mentirosos. Como dizia, não pretendo gerar um outro texto estéril/acadêmico, mas apenas associar, vincular, relacionar, cavar um túnel comunicante entre umas Coisas e Outras. Entre algumas Obras de arte mistificadas, entre algumas Idéias higienizadas, moralizadas e toleradas da nudez infantil e a tara histórica, bem como aos escândalos pederásticos detonados 118 Adjetivar ao máximo! É por aí que transita o desejo e a realização de quem escreve. Desde que se proibiu o uso de adjetivos aos jornalistas, a imprensa universal se converteu numa baboseira pretensamente objetiva, pretensamente assertiva e sem a mínima chance de gozo. 119 Apesar de todas as recomendações que tenho recebido, por um lado, para dar mais atenção às regras da escrita, aos cânones literários, aos clichês e aos tabus repetidos obsessivamente nas faculdades, nas acadêmias e nos salões de redação dos jornais, e por outro, para ser mais «científico», mais «acadêmico» e mais «confiável», não me entusiasmo. Inicio um novo trabalho como quem dá um mergulho: me aprofundo, me aprofundo, me aprofundo, nado em todas as direções, até que o cenário me interessa e até que meus pulmões aguentam. Nunca sei para onde vou e nem quanto vai durar meu interesse e minha resistência. As vezes desisto quase de cara, outras exijo de meus pulmões mais do que eles normalmente estão dispostos a dar. Se me entedio, posso estar a um palmo de um submarino naufragado ou de um tesouro bizantino que não hesito em dar-lhe as costas, emergir e colocar um ponto final. Não faço revisão nenhuma, não esgoto as fontes e não estou interessado em agradar este ou aquele observador de plantão. Se querem gozar, que gozem sobre àquilo que eles próprios produzem. Meu trabalho não visa nada além do meu prazer em dizer, em desvendar, em bombardear as tocas das conhecidas raposas que insistem em dar à espécie e a si mesmas muito mais valor do que é possível.


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recentemente pelos nostálgicos da pré-genitalidade.120 O texto que pretendo construir não é, obviamente, para ser lido nos púlpitos das igrejas, nem nos auditórios das universidades, nas assembléias dos partidos e nem nos escritórios da ONU. Esses ambientes, manipulados por uma pseudocasta internacional, esmagam e castram quase tudo o que lhes cai nas mãos. Gostaria, isto sim, que fosse lido pela juventude vagabunda e incendiária, para que tenha tempo de compreender em que grau de fúria e de enfermidade foi fundamentada a realidade... Mas voltando ao museu, passo de um andar a outro fingindo um «olhar etnográfico» sobre as telas com crianças nuas que, para quem nunca se deu conta, não são poucas. Enquanto fotografo vou me perguntando por que todo mundo vestido e só as crianças de sexo masculino, gordinhas travestidas de anjos, Eros, Anteros, cupidos, ninfas etc, aparecem nuas? Peladas com seus «órgãos» semiduros e postadas estrategicamente entre adultos que se apalpam, se bolinam, se seduzem e insinuam transas sexuais? Estaria forçando a barra? Querendo ver o que não há? Projetando meus equívocos e minhas ficções sobre o tema? Pode ser, mas que é intrigante é. Que os pintores e artistas tenham transferido para as telas, suas taras inconscientes e seus traumas recalcados, não seria novidade. Não porque sejam mais suspeitos que um estivador ou que um homem das cavernas, mas porque os «desvios» libidinosos são universais, se sublimam ou se propagam com mais facilidade através das tintas, das letras e dos sons. O que, em termos éticos, de bem ou de mal, não quer dizer absolutamente nada, uma vez que –como lembra Goldenberg- “a transcendência do espírito não implica, contudo, que a civilização tenha deixado para trás o esgoto do qual surgiu. Da sublimação não resulta uma cultura sublime...” (p.19). Afinal: além da pedofilia-crime, existirá uma arte pedófila? Estou convencido que sim. Existirá um texto pedófilo? É evidente. E a música não fica para trás em nada. Releio com dificuldade um parágrafo especializado onde os compiladores dizem que: “O insolente poder de sedução dos perversos resulta, sobretudo da fascinação comumente ligada à subordinação e à depravação dos costumes que constituem o habitual de sua sanção ideológica e mediática. (não entendo quase nada, mas prossigo na leitura) Não há avaria mais cega com relação a eles que essa defesa imaginária do observador ou do cronista que se deleita com a aberração perversa do outro. Queira-se ou não saber, a perversão diz respeito a todos, pelo menos em nome da dinâmica “normal” do desejo que nela se exprime e ao qual ninguém escapa: «sobre a questão perversa, jamais poderemos dizer que ela não nos toca, seguros que estamos de que ela, de qualquer maneira, nos toca».” (Dicionário de psicanálise, p.423). Esoterismo acadêmico à parte, não posso evitar a curiosidade em saber se houve ou não malignidade, luxúria e malícia nos quadros, nas ilustrações e nos pincéis daquele tempo. Seria ingenuidade demais acreditar que todas essas crianças peladas, compartilhando cenas de sedução e de carícias entre adultos, façam parte apenas da cultura, da inocência e do estilo de uma época. Como não conheço nada de arte e não 120 E essa prática «clerical» não é privilégio apenas dos ricos padres norte americanos, ela já era levada a cabo pelos cônegos pobretões na colonizacão do Brasil. Emanuel Araujo em seu Teatro dos vícios cita fontes que ilustram o assunto. “O cônego Jácome de Queirós, “sacerdote de missa” de 46 anos confessou que levava para sua casa uma menina de seis ou sete anos que andava de noite vendendo peixe pela rua, e após embebedar-se teve relações sexuais com ela. Só que, “cuidando que corrompia a dita moça pelo vaso natural, a penetrou pelo vaso traseiro”. Mas apressou-se a acrescentar: “sem polução”. Uns dois meses antes, continuava o cônego, quisera copular com uma sua escrava, cuja idade avaliava em cerca de sete anos; aí, mais uma vez, errara a direção e tivera coito anal, mas “sentindo isso se afastou logo sem polução.” (p.217) Num outro inquérito, é um adolescente que confessa ter dormido com um clérico e o enrabado por trás “metendo seu membro desonesto pelo vaso traseiro do clérico, com polução” (idem).


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diferencio um Siron Franco, um Wagner Barja e nem uma Naura Tinn de um Paolo Veronés ou de um Rubens, puxo minha agenda e vou anotando a quê pintor e a quê tela correspondem as fotos que faço. Bernardino Luini; Andrea del Sarto; Orazio Gentileschi; Rafael Sanzio; Antonio Allegri, Tiziano Vecellio; Lorenzo Lotto; Giovanni Bellini; Bonifazio de Pitati; Paolo Caliari; José de Ribera, etc. Um outro fiscal do museu vem alertar-me de que não se pode usar flash. -Es evidente señor... Respondo-lhe. Faço o foco na Salvação de Moisés, de Orazio Gentilschi (1563-1639); no Sacrifício de Isaac, de Andrea del Sarto (1486-1530); na Minerva protegendo a paz, de Peter P. Rubens (1577-1640); na Educação de cupido, de Antonio Allegri Correggio; na Adoração dos magos, de Juan Batista Maíro (1578-1649), entre outros. Se foram três filmes. Um exagero de nus infantis e quase só meninos, de bundinha rechonchuda e cabelos cacheados. A xota, mesmo a infantil, parece ainda não ter sido digerida pela humanidade e nem pelo mundo.121 E é bom notar que todas as pinturas mencionadas e todas as ilustrações deste livro são de autoria masculina. Quando visito museus, não importa a sua fama, o momento mais importante é o da saída. Todo tipo de claustro e de mistificação me tira o fôlego. Além disso, voltar para a rua é para mim sempre um alívio. Mesmo sabendo o quanto é densa a fumaça cuspida pelos escapamentos e que nesta hora tudo está absolutamente gelado. “Os séculos passam, -escreveu João do Rio- deslizam levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua...” Mastigo umas castanhas com chocolate e vou caminhando até a Biblioteca Nacional, onde acaba de ser aberta a exposição Del Amor y de la Muerte. Na esquina, um casal de equatorianos com um bebê nos braços me pede um euro para o leite do filho. -Por amor de Dios! Necesitamos comprar la leche para nuestro hijito! -Que fazem aqui? –lhes pergunto enquanto vou retirando do bolso a esmola solicitada. -Venimos en busca de trabajo. En nuestro país las cosas andan de mal a peor... Tenemos este hijo... oxalá no se enferme... Enquanto ele fala, ela descobre sutilmente o rosto da criança. Um menininho típico da região dos Incas que me olha desconfiado como se já soubesse as regras da Nova Ordem Mundial e o quanto são insondáveis os subterrâneos da existência humana. Esse olhar não só produziu-me um nó górdio na garganta como mudou, para mais, a cifra de minha «esmola». Deve ter uns oito meses, calculo. Não escaparia ao furor de Herodes... Minha consciência, porém, preocupada com esse surto humanista e sentimentalóide, apressouse em previnir-me: -Preste atenção ao paradoxo! Veja que absurdo! São os mesmos escravos e os mesmos fodidos da América latina e do Novo Mundo (os descendentes dos povos que menciona De las Casas) correndo atrás dos opressores! Isto é demais! Lembra aquela história da vítima identificada com o verdugo? Dos pobres que amam seus algozes, que adoram quem os mantém durante séculos e séculos enfiados na merda e na escravidão mais 121Observo há muito tempo numa padaria de Bsb, um poster na parede, onde está uma menina de uns três anos, completamente nua. De vez em quando suspreendo um cliente ou os próprios padeiros lançando sobre ela um olhar quase religioso de nostalgia e de curiosidade. Nos sites eróticos disponíveis na Internet, é importante notar que as xotas das mulheres, além de depiladas passaram por plásticas que as deixaram menores e «mais infantis» Diminuição dos grandes e até dos pequenos lábios, mudança de coloração e etc, como se a vagina natural, cheia de pêlos e com seus lábios originais ainda continuasse causando um sentimento ambiguo na maioria dos homens. Por um lado um risco, por outro o conforto “da porta de entrada a uma velha morada da criatura humana, ao lugar ao qual cada um de nós esteve alojado alguma vez, a primeiva vez” (Freud,.S. no texto El siniestro, p.2500). Ainda nesta direção, recorro ao olhar etno-psiquiátrico de G, Devereux onde ele lembra que “em nenhuma parte a negação da vagina e a sobrestimação do pênis estão mais pronunciadas que na convição de numerosas feministas, ao dizer que não existe outro orgasmo que o orgasmo clitoriano. Esta doutrina proclama, em última instância, que o órgão mais caracteristico da mulher –sua vagina- é incapaz de dar-lhe um gozo completo e que só o «mini-pênis» que é seu clitoris seria capaz de proporcionar-lhe.” (Baubo, la vulva mítica, p.16)


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abjeta? Estão agindo da mesma maneira que o «estuprado» e o «abusado» sexualmente que se agrega ao complô-de-silêncio para manter em sigilo e em segurança o seu estuprador. Quando o colonizador abandona o colonizado à sua própria sorte, é ele que vai ao seu encontro para pedir mais humilhação e mais servidão... como se tivesse ficado viciado ao assédio, ao acosso, à exploração e à luxúria... Senti um choque, algo parecido a um (insait) ou a um soco... E esse alerta fez-me conceder de imediato a palavra ao monsieur La Boétie: “A primeira razão da servidão voluntária é o hábito; como ocorre com os mais bravos cavalos, que de início mordem o freio e depois descuram; que há pouco escoiceavam sob a sela e agora se apresentam por si mesmos sob os arreios brilhantes e, soberbos, empertigam-se e se pavoneiam sob a armadura que os cobre. Eles dizem que sempre foram sujeitos, que seus pais viveram assim. Pensam que são obrigados a suportar o freio, convencem-se com exemplos, e através do tempo eles mesmos consolidam a posse dos que os tiranizam...” (De la Boétie. E.,p.88). Como se precisasse justificar sua decisão migratória, o moço foi me dizendo em tom profético: -Veas como Madrid ya está llena de Equatorianos, venezuelanos, salvadoreños, uruguayos, peruanos, bolivianos, paraguaios, guatemaltecos, colombianos... y mañana, puedes estar seguro, llegaran muchos argentinos y muchos chilenos... Seus traços indígenas parecem estar mais acentuados do que nunca ali na rua gelada, imersa num cinza clássico que exige peles, luvas, vinhos e queijos cobertos de chocolate. Ali na rua cheia de paredões de vidraças espelhadas, de prédios antigos... De luzes que piscam por sobre as propagandas do putanato fashion, dos automóveis que descem velozes e reluzentes pela avenida... De escolares travessos e distraídos122 que passam bem vestidos e devorando sanduíches imensos... De mulheres maduras passeando com seus cachorros peludos e brancos... Enfim, ali no coração de uma Espanha de «novos ricos», supostamente pós-moderna, que finge apoiar a luta dos palestinos ao mesmo tempo em que quer varrer do mapa os militantes do País Basco. Estendo-lhe uma nota de cinco euros. Seus olhos negros brilham... e assume ainda mais a posição de «coitadinho» ao agradecer-me. -Que Dios te pague... Deixo escapar uma careta de burla. Ele fica desconfiado e se intimida. Quer saber a razão de minha «broma». -Dios es un pésimo pagador... No paga a nadie –lhe respondo. E em seguida, pensando evitar uma discussão estéril, acrescentei: No creo en Dios! -Ateo? Pero entonces no eres brasileño... Não digo nada. Ele fica mudo, com o dinheiro que lhe dei ainda nas mãos. Olha para sua mulher e se arrisca a murmurar: -Bueno... entonces que seas feliz ... -Tampoco creo en la felicidad! –respondo e retomo minha caminhada. O vento passa zunindo pelos alicerces pretos de uma instituição financeira. Dois mendigos aleijados parecem petrificados num dos bancos do jardim que fica em frente ao quarteirão da biblioteca. Passo por eles num passo acelerado, tentando compreender por

122 Entre os truques psicopedagógicos criados pelos adultos para controlar, vigiar e submeter as crianças, surgiu em 1987 um novo diagnóstico no campo das doenças mentais: o famoso ADHD (síndrome de distúrbio de atenção e comportamento), instituído pela Associação Psiquiátrica Americana. Nesse mesmo ano meio milhão de crianças americanas foram rotuladas com esse diagnóstico e medicadas. Número que em 1996, saltou para mais de cinco milhões. (Ver Marinoff, p.47)


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que aquele casal latino-americano não optou por um mosteiro, pela Cordilheira dos Andes ou por Galápagos? Na entrada da biblioteca, duas freiras que estão se despedindo trocam olhares quase de paixão e cochicham o Aviso nº 33 da mais famosa Madre superiora espanhola: “Sempre que for possível, fuja da singularidade, pois ela é um grande mal para a vida de Comunidade”. (Santa Tereza de Jesus, p.203). Uma sobe para a sala de leitura e a outra atravessa a avenida e some pela boca do metrô.123 Passo pelo detector de metais e estou no salão onde estão as 101 obras da exposição. Desenhos e gravados, alguns de Rembrandt e outros de Goya. Há séculos os pensadores tentam demonstrar os vínculos entre o erotismo e a morte, entre bagos e cinzas, vulva e pó. Haveria realmente alguma conexão entre essas duas coisas? Para Sade, não existia maneira melhor de familiarizar-se com a morte do que associá-la com uma idéia ou com um desejo libertino. Logo de cara, os três primeiros quadros já exibem o «objeto» de minha pesquisa. Entusiasmo-me. Vou até uma cinquentona anoréxica pedir autorização para fotografar. -No se puede! Responde cheia de amabilidades, mas dividida entre uma voz maliciosa de Lolita e um olhar vingativo de Diretora que, ao mesmo tempo em que deseja seduzir precisa intimidar.124 O serviço público –resmungaria Lima Barreto no auge de um porreé um ninho de múmias... Caneta e agenda em punho registro a síntese de um texto colado abaixo do quadro de Francesco Malzola Parmigiano (1531-1534) onde um adolescente nu e alado fabrica um arco. Encarna a beleza e o desejo amoroso –diz o texto. Sob suas pernas lutam Eros (o amor profano) e Anteros (o amor sagrado). À esquerda, numa pintura de Paulo Fiammingo, uma criança tocando harpa e outra carregando um objeto estranho que, segundo a legenda, era usado comumente pelos loucos. Dois passos adiante, na mesma parede, o conhecido Amor Dormindo, de Michelangelo. Uma criança alada e nua que dorme. Um contraste radical com a expressão de qualquer um dos 35 milhões de menores carentes que havia em 1979 nas ruas e nas favelas do Brasil. Se hoje não são tantos, (?) é porque os esquadrões da morte foram se aperfeiçoando ou porque a miséria, por si só, foi esterilizando as mulheres. Na outra parede, o quadro com três meninos nus correndo atrás de uma borboleta leva o casal que está à minha frente a entrar numa discussão sem fim relacionada com pornografia e delinqüência sexual. “Não há evidências para sugerir que a exposição dos jovens à pornografia tenha um impacto negativo sobre o caráter moral, a orientação sexual ou as atitudes”, concluiu uma comissão especializada em obscenidades e pornografias. (...) A socióloga Helen Branson chega a acreditar que a pornografia deveria ser liberada tanto na escola como em casa(...) Não é verdade que o material pornográfico leva os jovens à imitação, afirma John Money, psiquiatra e pediatra

123 Um estudante de linguística contou-me que quando tinha dezessete anos ficou perdidamente apaixonado por uma freira colombiana de uns 25 e, o mais importante, foi correspondido. De madrugada, entrava em seu quarto na ponta dos pés e a encontrava sempre nua sobre um tablado clássico dos capuchinhos, com a chama de uma vela tremulando aos pés de uma virgem qualquer. Apesar das pernas e das axilas exageradamente peludas, foi durante uns meses a Efigênia de sua adolescência. Alguém que pressentiu o «romance» dos dois a deportou o mais breve possível para um turbulento subúrbio de sua idílica Bogotá. Ela havia sido abusada sexualmente por seu avô quando tinha sete anos. Apesar da precoce e incestuosa experiência sexual não ter lhe deixado nenhum horror pelo sexo e nem pelo mundo, sua família preferia vê-la num convento, com todo o tempo disponível para aplacar a idéia vã de culpabilidade. 124Georges Devereux (idem, p.38) cita a história de uma espartana que ao ver uns fugitivos espartanos lhes pergunta de maneira depreciativa se não querem refugiar-se no lugar de onde haviam saído, ao mesmo tempo em que levanta o vestido e lhes mostra a vulva. Na página seguinte cita o psicanalista húngaro (Ferenczi) que contava a história de uma mãe que frequentemente intimidava seu filhinho levantando a roupa na frente dele.


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em John Hopkins, da mesma maneira que a leitura da Bíblia não os induz a brincar de crucificação. (Mc Cary, pp.183,184). Num dos bares da Plaza Mayor, ao invés de uma paella com bigodes de lagostas e intestinos de camarões, um bule de chocolate e um croissant. Nasci numa região cheia de montanhas rochosas e herdei uma desconfiança contra tudo o que é do mar. Se por um lado, consigo imaginar-me solto no meio dos astros, planando de uma galáxia a outra, mergulhando na estranheza dos sistemas solares mais ameaçadores... por outro, não suporto pensar-me a dois metros e meio abaixo da superfície de nenhum dos mares. Muitas vezes cheguei a questionar-me, tentando saber se esse horror tinha alguma coisa a ver com os nove meses uterinos. Bobagens! Para o velho Papini e para os antigos em geral, o mar sempre foi um inimigo que os homens se esforçam por amar, a «noite» do abismo e a pátria dos monstros. O mar é o falso infinito e a falsa liberdade e, por isso os poetas inferiores e os mais sublimes filisteus o adoraram (Vigia do mundo, p.21). O garçom anuncia o menu como se fosse um crupiê antes de girar a roleta. Se abro o guarda-sol tenho a impressão de estar na Sibéria. Se peço ao gerente que o mande fechar é como se estivesse no Saara. Caralho! Quando é que vai acabar essa luta interminável e cretina entre o sol e a sombra? Entre o gelo e o fogo? Entre o Yin e o Yang? Entre a saúde e a doença? Entre a vida e a morte? E não me venham outra vez com citações pueris de Georges Oshawa ou de Chico Xavier! Lanço um olhar «antropológico» às duas meninas quase nuas que atravessam por entre as mesas e o garçom, sorridente, me previne: -Cuidado! São iscas de cadeia... Iscas de cadeia? Tento alargar o papo, mas ele se afasta desconfiado. No hotel, descubro no guia etnográfico que sempre trago comigo, uma representação do Deus Moloch, com cabeça de bovino, sentado sobre uma caldeira feita por um tal de Athanasius Kirscher. Nos mitos cananeus Moloch, apesar de pouco mencionado, era um deus ao qual se ofereciam sacrifícios humanos, preferencialmente de jovens. Com uma garrafa de vinho pela metade varo a noite, pescando na mitologia greco-romana crimes contra crianças e filhos. Quando, lá pelas seis da manhã o barulho do caminhão dos lixeiros parecia um terremoto, já estava com esta imensa lista pronta. Um festival de assassinos teístas e adúlteros, incestuosos, tarados e pedófilos. Prepare-se para um porre de ignomínias e de sangue: “...As mulheres Amazonas que, como todo mundo sabe, detestavam homens, os capturavam para engravidar deles. Depois, se o bebê que nascia era menino o cegavam, mutilavam ou matavam (p.27). O minotauro de Creta era alimentado com virgens e adolescentes(p.30). Apolo e sua irmã Ártemis, assassinaram todos os descendentes de Níobe. Enquanto Apolo se encarregava dos filhos, Ártemis exterminava suas filhas (p.46). Durante uma caçada, Assáon quis possuir sua própria filha. Diante da sua resistência, a pretexto de oferecer-lhes um almoço, reuniu os vinte filhos dela e os exterminou lançando-os ao fogo (47). Após a queda de Tróia os gregos condenaram Astiânax, ainda um menino, a ser lançado do alto da muralha da cidade (p.48). Atamas matou seu filho mais novo Lêarco, colocando-o num caldeirão com água fervendo (p.49). Éolo lançou o neto recém nascido aos cães para ser devorado (p.67). Atreu matou os três filhos que seu irmão tivera com uma ninfa, mandou cortá-los em pedaços, prepará-los e serví-los num banquete (p. 52).Para vingar-se do pai Harpalice matou os seis filhos que tive com ele, cortou-os em pedaços os cozeu e induziu o pai a comê-los (p.86) Tântalo, filho de Zeus, imolou seu filho e preparou com suas carnes um jantar para os deuses (p.365). Não podendo conter o desejo por sua cunhada, Tereu violentou-a e para impedi-la de


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denunciá-lo cortou-lhe a língua. Filomela, entretanto, descobriu um meio de incriminálo, bordando o ato de violência num estofo que mostrou à irmã. Querendo vingar-se de Tereu, Procne matou seu filho Ítis, cortou-o em pedaços e os serviu ao marido sem ele saber o que estava comendo (p.152).125 Na cidade grega de Patras, anualmente se sacrificava à Ártemis o rapaz e a moça mais bonitos da região (p.89). Creonte, a fim de salvar Tebas, ofereceu o próprio filho Megareu para ser sacrificado a Ares (p.92). Heracles, mata seus dois filhos num acesso de loucura (p.93). Psamate abandonou o filho recém-nascido, mas Crítopo descobriu o que se passava, matou a filha e expôs o menino para ser devorado pelos cães (p.91). Em Argos o deus Dionísio enlouqueceu as filhas do rei Preto e as demais mulheres da região, que em sua alucinação coletiva chegavam a devorar os próprios filhos de tenra idade (p.110). Na volta de Ulisses, sua mulher Penélope, convenceu-o a matar Euríalo, seu filho (p.136). Ouvindo o oráculo que devia sacrificar uma virgem, Cídon mandou escolher mediante sorteio uma das virgens cretenses, e a indicada foi Eulimene, sua própria filha (p.137). Com receio de Bóreas, Quione lançou ao mar seu filho recém-nascido (p.137). Um dia Cíato (filho de Arquiteles) derramava água nas mãos de Héracles para lavá-las quando o herói lhe deu uma palmada, mas com tanta força que o matou (p.138). Por causa da perseguição implacável de Hera, Heraclés enlouqueceu e matou seus próprios filhos (p.141). Na guerra de Messênia foram reduzidos à servidão os lacedemônios que não participaram das operações militares, e todos os meninos nascidos nessa época não adquiriram direitos políticos (p.144). Com ciúme de seus enteados Idaia caluniou-os junto a Fineu, dizendo-lhe que eles haviam tentado violentá-la; acreditando na calúnia Fineu cegou seus dois filhos (p.153). Chamava-se Leimone a filha de Hipomenes. Descobrindo que a filha perdera a virgindade antes de casar-se, seu pai enclausurou-a numa casa isolada juntamente com um cavalo; levado à loucura pela fome, o cavalo devorou a moça (p.p.233/234).A alma penada de uma moça da ilha de Lesbos, morta na flor da idade, voltava ao mundo dos vivos para levar consigo crianças da ilha (p.161) Afrodite causou a loucura dos seis filhos de Halia que, nesse estado tentaram violentar a própria mãe. Poseidon, veio em sua ajuda e fez a terra Engoli-los com um golpe de seu tridente (p.168). Quando Polimêstor, movido pela cobiça veio pressurosamente ao encontro de Hécuba, ela arrancou-lhe os olhos enquanto suas antigas escravas matavam os dois filhos do rei traidor da confiança de Príamo (p.173). Por seu filho Hefesto ter nascido coxo, Hera, sua mãe, para escondê-lo dos outros deuses lançou-o do alto do Olimpo (p.173). Quando Heraclés estava com oito meses, a rancorosa Hera tentou tirar-lhe a vida. Certa noite Alemene deixara no berço seus dois filhos gêmeos e adormecera. À meia-noite Hera soltou no quarto onde eles estavam duas serpentes enormes, e cada uma delas atacou um dos recém-nascidos (p.181). Respondendo a uma consulta, o oráculo revelou que a cólera do deus somente cessaria se fosse imolada ao monstro a própria filha do rei; os troianos prenderam Hesione a um rochedo, expondo-a assim ao monstro (p.195/196). Num assomo de cólera Teseu resolveu punir o filho, mas não quis matá-lo com as próprias mãos e pediu a Poseidon, seu pai, que o exterminasse. O deus ouviu-lhe as súplicas e fez sair do mar um monstro que assustou os cavalos do carro em que estava Hipólito, que acabou sendo arrastado e morto (p.202). Na versão da lenda em que Íaco aparece como filho de Dionísio, este se uniu à ninfa Aura na Frigia; dessa união nasceram dois filhos gêmeos, mas Aura devorou um deles (p.205). 125 Como se vê, o mito da criança assada era recorrente também entre os gregos. A psicanalista Marie Langer em seu livro Fantasias Eternas, trata desse assunto e relata a versão Argentina que se ouvia em 1949 por toda Buenos Aires. Entre um tango e outro comentava-se que um determinado casal, já no final da gravidez da mulher contratou uma empregada. Algumas semanas depois de nascido o bebê, o casal sai a noite para o cinema, deixando a criança com ela. Quando retorna, algumas horas depois, encontra a casa toda iluminada, a mesa posta e a empregada usando o vestido de noiva da patroa. Ela os recebe sorridente, diz que tem uma surpresa para eles, os leva para a sala de jantar onde o bebê, assado com batatas, está colocado no centro da mesa. (p.80).


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Na viagem de volta a Creta, quando suas naus enfrentavam uma situação difícil em face de uma tempestade, Idomeneu prometeu a Poseidon que se chegasse vivo ao destino sacrificaria a primeira pessoa que visse ao desembarcar em seu reino. O herói retornou a Creta são e salvo e deparou com seu filho. Cumprindo a promessa, sacrificou o ente querido (p.209). Leuco matou Meda e a filha que esta última tivera com Idomeneu (p.209). Jacintides é o nome que se deu às quatro moças imoladas em Atenas num sacrifício destinado à salvação da pátria (p.220). Todos os filhos de Lamia com Zeus foram mortos por Hera. Desesperada, Lamia se recolheu a uma caverna onde se transformou num monstro que detestava as mães felizes e lhes devorava os filhos (p.228). Uma profecia dizia que Zeus deveria precaver-se contra a criança que teria de Métis. Receoso, Zeus engoliu Métis quando ela estava grávida de Atena (p.397)...” (Kury, Mario da Gama, 1999) Respiro fundo o ar mofado do quarto, desenho os dois arcos dos parênteses depois da última palavra e coloco dentro deles o nome do autor do dicionário consultado e a data de sua publicação. Escovo os dentes, mijo bem no centro do vaso para preservar a parte de plástico onde deveria sentar-me meia hora depois. Confiro os dólares, troco o esparadrapo que me protege o calcanhar... Na TV, percebo por acaso que alguém recita quatro linhas pedófilas do surrealista Paul Éluart. Salto para pegar a caneta e rabisco-as de improviso na madeira da mesa: “Pequeña niña antigua Ella justifica mis sueños cede a mis deseos... Afasto bruscamente a cortina da porta que dá para a varanda como se precisasse de muita luz e de muito oxigênio... A leitura dos gregos me deixou exausto. Com tanto sangue respingado pelos alicerces da história é necessário admitir que os tiroteios, os seqüestros, as cachaçadas e os pagodes orgiásticos, a execução de jornalistas, de policiais, crianças e de traficantes nas chacinas dos morros do Rio, nos subúrbios de São Paulo e na periferia de Brasília, não são quase nada se comparadas com esse período helênico. Uma cortesã espanhola me observa da janela da frente. Você que ainda precisa virginalizar, puerilizar, retardar e idealizar as mulheres observe como elas estão sempre «caçando» alguém... Não para sexo, evidentemente, já que sexo elas obtém com muito mais prazer e segurança entre elas mesmas ou com o próprio dedo, mas para cafuné, companhia e colo. Duas ou três lambidas nos mamilos, um jantar num restaurante romântico e pronto!!! O retângulo da praça central começa na esquina do hotel. Um feixe de luz cruza entre duas nuvens e se introduz nas vidraças de uma loja que vende capas de chuva e chapéus. Uma multidão, a mesma de ontem, vai de um lado para outro fingindo responsabilidade e compromissos inadiáveis. Sei que a grande maioria está fugindo de si mesma e que, para não se suicidar, tece todos os dias, de maneira meticulosa, a mesma fraude. Numa rua paralela, a mulher com estilo cigano-camponês sentada junto à parede de um prédio, exibe seus seis filhos como se os estivesse comercializando. Em seu Mercado de niños, em uma de suas andanças imaginárias por Ming-Po, Giovani Papini ouve do seu guia taoista, algumas palavras sobre o perfil dos clientes: “Existem pessoas que não têm filhos e que querem ter em sua casa um de sua propriedade. Os ricos compram um ou outro para que suas filhas tenham brinquedos vivos em lugar de bonecas de trapo ou de porcelana. Os mendigos investem suas economias na aquisição de uma criança esquelética e adoentada para provocar maior compaixão no coração das pessoas


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que passam. Alguns usam crianças em suas atividades de magia negra, sacrificando-as ocultamente a alguma divindade infernal e, finalmente, apesar de serem poucos, estão os antropófagos que para seus festins de canibais preferem a carne macia das crianças. Também se diz, apesar de não haver provas, que alguns tarados utilizam crianças compradas para satisfazer suas sujas perversões”. (Papini, p.87) Alguém me telefona do outro lado do mundo para lembrar que uma pesquisa recente registrou quase quinhentos assassinatos domésticos de crianças no Brasil só nos últimos três anos... A sirene da polícia inquieta os vendedores ambulantes, as «mulheres de programa», os punks, os imigrantes clandestinos, os gigolôs e os mendigos. Uma neblina densa umedece de súbito a estátua de bronze que olha há décadas para uma direção onde só há paredões espessos e as janelas enguiçadas de um antigo hotel. Um dos conhecidos «hotéis para instantes», desses que os espanhóis disseminaram por quase toda a terra e que se pode entrar com meninas de todas as idades sem apresentar documento algum e sem correr o risco de ser denunciado.126 O stress dos casais que entram ali, mesmo os casais adultos e «normais», lembra a eterna clandestinidade do desejo e também o sexo entre os Manus onde –segundo Denoel Gauthier- as relações sexuais têm um caráter apressado e vergonhoso, e onde a intimidade é vivida como uma espécie de excreção compartilhada (Badinter, p.26). Em outras palavras, parece estar muito mais na linha do capelão Andrew com seu De Reprobatione Amoris, do que do Ars Amatoria de Ovídio. O garçom coloca sobre o balcão o prato de salame, quatro fatias de pão integral e meia garrafa de vinho. A chuva bate furiosa nas vidraças. Acomodo-me. Encho a boca e leio, nesse clima hedonista, as cinco primeiras páginas de La route Antique des hommes pervers. Depois de algum tempo olho para a rua congestionada de vozes, de goteiras, de capas, chapéus, guarda-chuvas, gritos, trânsito congestionado... Dois homens de descendência árabe se despedem na porta de um táxi. O que está indo para o aeroporto fala entusiasmado ao outro: -Em um ano de trabalho na Arábia Saudita terei economizado quase um milhão de dólares... E então voltarei... Comeremos duas ou três espanholas por dia...127 O táxi preto arranca e os dois homens se acenam às gargalhadas e cheios de fraternidade... A uns cinco palmos, junto à vidraça, os dois olhos frios e arregalados de um homem de quase oitenta anos. Apesar da barulheira, ouço que, num castelhano de Málaga, me implora umas fatias de salame. Enfurece-se com meu silêncio e depois me previne: -Mastigue muito bem forasteiro... Desfrute... Coma com prazer hoje, mas prepare-se para a velhice... para esse dia em que irremediavelmente serás, como eu, humilhado, desqualificado, vilipendiado... Para esse dia quando tudo se reduzirá a remordimentos e a doenças e quando não sobrará nada de tua suposta dignidade... Senti um arrepio e novamente o tal do nó górdio na garganta. Se não fosse a chuva, talvez tivesse saído para abraçar aquele desgraçado e dividir com ele meus dólares... (pelo menos as notas falsas). Mas permaneci imóvel, mastigando, sofrendo, compreendendo 126 No livro Lolita de Nabocov, o acusado tenta convencer os juízes de que o pedófilo não é um assassino: “... Quase todos os pervertidos sexuais que anseiam por uma latente relação com alguma menininha (sem dúvida pontuada de ternos gemidos, mas não chegando necessariamente ao coito) são seres inofensivos, inadequados, passivos e tímidos que apenas pedem à comunidade que lhes permita entregar-se a seu comportamento supostamente aberrante mas praticamente inócuo, que lhe deixe executar seus pequenos, úmidos e sombrios atos privados de desvio sexual sem que a polícia e a sociedade os persigam. Não somos tarados! Não cometemos estupros, como o fazem muitos bravos guerreiros! Somos seres infelizes, meigos, de olhar canino, suficientemente bem integrados para saber controlar nossos impulsos na presença de adultos, mas prontos a trocar anos e anos de vida pela oportunidade de acariciar uma ninfeta...” 127 Essa gabolice falocrática remeteu-me imediatamente ao Desidéria de Moravia, onde ele diz que como hoje a palavra está estéril, parada e vazia de significados, o sexo passou a ser mais uma forma de linguagem e um meio de comunicação do que de prazer.


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sua angústia desde minha angústia... Ele, com dificuldade para caminhar, foi se afastando aos poucos, cabisbaixo, faminto, acabado... certo de que a humanidade não é mais do que uma corja de assassinos, até que desapareceu no meio da borrasca... Não apenas um mamífero raro, mas um Mamífero de luxo ironizaria Pitigrilli. Fiquei visivelmente absorvido em meu remorso, mas quando bebi o último trago de vinho já estava emocionalmente refeito, pronto para retomar a caminhada e, como dizia aquele escritor italiano, convicto de que “numa capa impermeável inglesa, com um macaco de Gibraltar nos braços, poderia passar longas horas fazendo girar um mapamúndi, viajando em sonhos por mares fabulosos e terras fantásticas, julgando ter alcançado a felicidade...”


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Capitulo 5 INSTIGAM, ABUSAM, HUMILHAM E MATAM UM TOURO... UM SHOW DE INSTINTOS PERVERSOS “Minha guerra contra o homem se eterniza porque cada um de nós reconhece no outro sua própria degradação” Lautréamont Vim a esta cidade só para testemunhar o exercício da crueldade na matança dos touros e, se for possível, tomar umas aulas de tauromaquia. Afinal, sinto que ela tem alguma coisa a ver com a matança dos filhos. Sevilha, por sua população cigana, está na rota de todo mundo que vem à Espanha, este país que no passado, segundo Michelet, adorava a Jesus de dia e a Satã de noite. No interior do bar uma multidão histérica e falante que some no meio da fumaceira parece gozar e vibrar na confusão do burburinho, neste tumulto de frases, risos e de cinismos que não alteram em nada a mesmice do mundo nem seu «pomo da discórdia». O casal que janta na mesa ao lado –ouço-os conversando-, são funcionários do Itamarati e chegaram a pouco do Brasil. Riem felizes e fazem burla do Estado (não do Estado de Hobbes, mas do Estado de merda que se instalou por toda América Latina) por ter lhes permitido trazer, de navio, a um custo altíssimo, até suas bicicletas, armários, aparelhos de ginástica e mil outras porcarias inúteis. Os sinos badalaram doze vezes. O vozerio parece aumentar com o silêncio da meia-noite. Pelo que ouço, amanhã estarão todos lá na Plaza de los Toros. O tempo está frio e chuvoso. Chego até a porta mas não me atrevo a dar o primeiro passo para fora. Duas mulheres excêntricas, vestidas de preto, que também estão ali, em pé, a espera de alguém, temem que a mudança brusca de temperatura lhes encha os lábios de herpes ou de aftas. Três bêbados passam ensopados no meio da chuva. Ouço um deles resmungando numa espécie de solilóquio: -Carajo! La vida fué un error... Como fué posible crear este oscuro y úmedo laberinto... que incluso, no tiene más que unos siete metros???. Esta frase enigmática e quase psicótica ficou ecoando no meio da chuva como se fosse a metáfora mais delirante da viagem e o enigma conclusivo da noite. -A vida é um labirinto úmido que não tem mais do que uns sete metros! Disse isto e encostou-se na parede de um prédio para vomitar. De cara me veio em mente o livro de Rawet, Terreno de uma polegada quadrada. Depois, ainda olhando para aquele proscrito no auge das convulsões, refleti e tive a sensação que ele só poderia estar se referindo à topografia do corpo e à distância que o vinho ou o salame percorrem antes de serem excretados. Mas isto teria algum sentido fora do delírio? Da muralha dos dentes superiores, passando pelo esôfago, estômago, intestino delgado, intestino grosso, o reto e a excreção... Quantos metros teria esse trajeto? Em sua ficção sarcástica e científica Cyrano de Bergerac (1619-1655) relata que os moradores da lua, para nutrir-se, não ingeriam os alimentos, mas apenas os vapores exalados deles, com o que, “se viam livres do aborrecimento e dos ruídos da digestão, das indignidades e dos anacronismos da eliminação”. Cubro a cabeça com o capuz impermeável. Uma música cigana detona em minhas veias uma antiga nostalgia. O hotel está a umas quatro quadras. Permaneço encostado ao portal e absorto em minhas últimas leituras, matutando sobre as infantilidades dos gregos, suas historinhas chatas e zoomórficas de onde os gangsteres


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que escreveram a bíblia copiaram quase tudo. Lembro de Urano que aprisionava seus filhos, não apenas nas profundezas da terra, mas «abaixo do inferno» e que acabou sendo trucidado pelo mais novo deles, Cronos. Depois de castrar e de assassinar o pai, Cronos (pintado por Goya) casa com sua irmã Rea e, como o pai que havia assassinado, passa a ter obsessão pela barriga grávida das mulheres e a devorar os próprios filhos. Entre as mulheres naturalmente possessas, lembro de Medéia, uma ciumenta e pirada que matou os seus filhos para vingar-se do marido que lhe havia dado um pontapé na bunda. Surras, rancores, cólera disfarçada, sacrifícios, castrações, crianças transformadas em eunucos, desqualificação, calúnias, inveja, ressentimento, amor e ódio, despotismo, pequenos Prometeus acorrentados no fundo das casas; abandono, canibalismo, depressão, psicose puerperal e a crueldade clássica da circuncisão. Especificamente para tratar desta mutilação prepucial, volto ao Gênesis, 17 (11,12,14) e releio: “E circuncidareis a carne do vosso prepúcio (...) O filho de oito dias, pois, será circuncidado, todo o macho nas vossas gerações; o nascido na casa, e o comprado por dinheiro a qualquer estrangeiro, que não for da tua semente (...) E o macho com prepúcio, cuja carne do prepúcio não estiver circuncidada, aquela alma será extirpada dos seus povos. 128” No Paseo Cristóbal Colón, o sol bate de cheio na parede onde se pode ler: Plaza de Maestranza de Sevilha. Como nunca entrei numa arena, (assim como nunca entrei num estádio de futebol e nem nas pocilgas de Box) é normal que me sinta meio envergonhado. Uma certa satisfação em lembrar que foi aqui que em 1992, em duas corridas, os touros mataram dois toureiros. Uma imitação bufa dos teatros gregos e dos coliseus romanos? Os vendedores de bilhetes, os fiscais, os administradores, os chefões dessa carnificina têm todos o perfil clássico do submundo. Duvido que tenham lido um livro na vida e que algum deles tenha perdido uma noite de sono tentando abrandar algum problema da cultura. Analfabetões como ocorre nos estádios de futebol ou como nos guetos de pugilistas. Que alguns intelectuais tenham feito elegias a essa barbárie e a essa ralé não significa nada. 129 Dizemme que no subsolo, há um pequeno museu, com um desenho de Cocteau, a Capa rosa de Picasso e uma reprodução do touro que, em 1947 matou o famoso Manolete. Os turistas vão chegando, uns eufóricos, outros visivelmente intimidados, dando ao lugar o alarido típico das feiras e das zonas. Como os ecologistas lançaram sobre os apreciadores desse espetáculo e dessa epifania bovina os adjetivos mais grotescos e os palavrões mais escatológicos, muitos deles se disfarçam e quando voltam para seus países mantêm em segredo essa «aventura», como se, de alguma maneira, se sentissem até responsáveis pelo assassinato dos touros. Domingo. Dezenove horas em ponto. As arquibancadas estão lotadas. Começam os rituais. O presidente dá o sinal de entrada. Vai iniciar o Primeiro Terço. Bandas, gritos, correrias, portões que se fecham. Nunca estive tão ansioso. A troupe de matadores já se exibe na arena, um «não-sei-quê» de afeminado, com calças 128 Sobre esse ritual sanguinário e cruel, Ariel Arango lembra que se “o pai primitivo castrava os filhos atrevidos com suas mulheres, os anciãos de hoje circuncidam mutilam e ameaçam. (...) A castração e a circuncisão são meras variações de um mesmo tema(...) Embora a circuncisão seja a maneira mais conspícua de submissão ritual, não é, de modo algum a única. A sujeição anal é sua constante companheira. Entre os nativos da Austrália, nos ritos de puberdade, depois da circuncisão, arromba-se o cu dos noviços...” (p.78) 129 Em seu Colóquio con Garcia Lorca, tratando das touradas e do horror que elas normalmente causam aos estrangeiros, Papini coloca estas palavras na boca do poeta andaluz: “Não todos os estrangeiros são tão imbecis, mas a maioria dos que assistem o espetáculo de nossas corridas sentem simultaneamente atração e asco. Isto se deve ao fato de que normalmente são viajantes filisteus e que, mesmo quando se trata de pessoas cultas, carecem do verdadeiro espírito poético. Estou escrevendo um poema sobre Ignacio Sánches Mejías, um de nossos toureiros mais famosos, e espero fazer essa gente comprender a beleza heróica, pagã, popular e mística que existe na luta entre o homem e o touro”. (p.170)


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ridículas e apertadas que lhes salientam as nádegas e os genitais. Ainda não vi o touro, mas já torço por ele. Nas arquibancadas os vendedores de bebidas, chapéus, fotos de toureiros e de postais se apressam. Cada idiota puxa sua câmera fotográfica, seu binóculo, sua filmadora. É necessário registrar a espada enterrada no corpo do touro ou, por que não, os chifres do animal estraçalhando o corpo do toureiro. Sinto que desejaria imensamente assistir a uma tormenta de chifradas, de coices e de imprevistos. Penso involuntariamente em Apis, o touro sagrado dos egípcios. Quando um touro morria e era «entronizado» um novo, era dado às mulheres apenas um período de quarenta dias para visitá-lo. Durante essas visitas elas levantavam as roupas e lhe mostravam a vulva. Penso no touro de Minos que, por uma artimanha dos deuses, teria enrabado Pasifae. Penso nos touros de minha infância, que trepavam com sete ou oito vacas no mesmo dia; nos testículos desse animal que a peãozada toda comia achando que tinham propriedades afrodisíacas. Enfim, parece impossível dissociar historicamente esse animal da sensualidade e da volúpia. Quando teriam iniciado as touradas? Os mouros as teriam trazido para a Espanha e esta as exportado para o México, Colômbia e etc? Não tenho a mínima idéia. Só sei que esta idiotice começou aqui, lá pelo século XIII, com as corridas de rua. Naquela época, já que ninguém escapa ao fatalismo de sua idiotice, até os nobres e os reis faziam parte do espetáculo. Depois foi sendo deixado novamente para a plebe. Entre todas as idiotices que os portugueses levaram para o Brasil estava também esta. Lá pelo séc. XVII, durante as cavalhadas de Salvador, era comum ver touradas que duravam até três dias. Normalmente o sujeito toureava de cima do cavalo e o touro tinha a ponta dos chifres aparada.130 Os dois mal encarados que me venderam os bilhetes na rua fumavam como loucos e pareciam ciganos. Os ciganos que Lorca, num surto lírico tanto elogiou...? “El gitano es lo más elevado, lo más profundo, más aristocrático de mi país, lo más representativo de su modo y el que guarda el ascua, la sangre y el alfabeto de la verdad andaluza y universal..”.131 Verdade ou apenas a velha, frívola e conhecida tapeação dos intelectuais para com os fodidos e condenados da terra? Pelo menos os espanhóis de hoje, esse povo que até bem pouco tempo jogava gatos amarrados nas fogueiras de São João, não pensam e não sentem nada disso a respeito dos ciganos. Pelo contrário, se pudessem, os mandariam de volta para o país idílico e imaginário de onde vieram ou instalariam uma nova Treblinka para eles em algum rincão espanhol.132 O portão é aberto e um touro mais preto que o azeviche entra em fúria, olhando para todos os lados, dando pequenos saltos como se fosse levantar vôo. Elege uma das bandeiras rosas e dispara contra ela. De seu nariz já escorre um líquido fumegante. Defeca, como se estivesse literalmente cagando para o mundo. Os toureiros se protegem atrás de paredes de cimento e de superstições... Ele ameaça enfiar os chifres no concreto, mas recua... Não é bobo. Os toureiros se exibem. Passos ensaiados para cá, passos ensaiados para lá. Parecem galos de briga depenados. O touro fecha os olhos e se lança sobre a capa vermelha. Não acha corpo algum. Derrapa na areia. Defeca. Dá uma rápida olhada para a platéia. Gritos. Silêncios. Cheiro de merda e de suor. O rabo para cima. 130 “Já na pré-história o touro era venerado por sua potência e sua força, era respeitado como o símbolo solar da prosperidade e da fertilidade. (...) Nas civilizações da antiguidade, diversos hinos religiosos mencionam o Deus-Touro. No Egito antigo, 3500 anos a.C. é generalizado o culto do rei-Touro. Os hititas, 2000 anos a.C fazem do touro o primeiro de seus deuses (...) O touro é também um signo solar na astrologia e tem um significado importante no cristianismo.” (Lormier, D) 131 Romancero gitano, p.140 132 Em quase todas as tribos ciganas as crianças ainda são obrigadas a casar quando e com quem os pais querem.


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Oitocentos quilos de ódio e de fel. A língua para fora. De sua pica escorre um jato de sêmen. Admiro-o por não ter vergonha de suas excrescências… Alguém das arquibancadas pede que o toureiro lhe corte as orelhas. La oreja... la oreja... la oreja. 133 Nova investida. Os chifres passam a um milímetro das tripas do toureiro. Gritos. Assobios. Aplausos. Uma pequena interrupção para que entrem os dois cavalos, protegidos nas laterais por uma couraça e com vendas nos olhos. O touro se lança sobre um deles, enfia-lhe as duas aspas com tanta fúria que o levanta da areia. O cavaleiro, por sua vez, em seu exercício de crueldade, mete-lhe o arpão no pescoço e o cavalo permanece indiferente, como se não tivesse a mais mínima idéia daquilo que estava acontecendo. Torço cada vez mais para meu herói negro e solitário, mas percebo que já está entregue. Num novo assalto contra o cavalo caí de joelhos... Gritos, xingamentos... É evidente que para o touro esta é uma luta perdida. A organização do espetáculo não permitiria qualquer possibilidade de vitória para ele. Desfilar pela arena com o toureiro espetado nos chifres se esvaindo em sangue seria o fim. Soçobrariam os negócios, o sindicato dos toureiros e o pessoal dos Direitos Humanos iriam a ONU pedir providências. As poucas vezes que houve uma chifrada fatal foi mais por negligência da equipe do que por bravura do touro. Goya desenhou exaustivamente essa barbárie e Lorca a cantou em poemas e em prosa. Picasso e outros espanhóis, apesar do folclore cult que pesa sobre eles, não passaram imunes a esse costume sanguinolento. Rafael Guerra, conhecido por «Guerrita» organizou em 1896 uma espécie de tratado, em 5 vol. sobre a tauromaquia. E um tal de Pascual Millán, em 1888 escreveu em 258 páginas Escuela de tauromaquia de Sevilla y el toreo moderno, o que significa, em última instância, que essa loucura vem de longe. O homem obeso, sentado ao meu lado, faz um esforço enorme para ver as horas em seu relógio de bolso. -Já se pasaron nueve minutos! Resmunga para si mesmo. E quando percebe que estou olhando para seu relógio acrescenta: un regalo de mi mujer.134 Acredito que já se foram outros nove minutos. Um dos matadores lhe crava certeiramente duas «puyas», de onde, como de um vulcão, jorram dois jatos de sangue. Psicologicamente já está derrotado e a platéia pede agora que o matador cumpra seu papel metafísico. Outros dois dardos. Outros dois jatos de sangue. Um mugido que causa estremecimento na platéia. Os fotógrafos preparam as câmeras, as mulheres tapam os olhos, o toureiro coloca em cena os movimentos ensaiados por mais de mil vezes diante dos espelhos. Narcisista e vaidoso de merda! Prepara a espada. Para mexer com a histeria da platéia, dá as costas ao touro que treme estático. Não entendo por que não o ataca agora. Tem dois chifres mais eficientes que qualquer espada. Poderia acertar-lhe os rins, a coluna, os pulmões, as costelas e acabar de maneira trágica com este espetáculo. Mas não atua. Decepciona-me. Depois de tantos anos, talvez já haja uma submissão genética nesses animais, uma ética e, por que não, até mesmo um forte instinto de morte. (No sentido freudiano, de ser atraído pelo próprio fim, pela desconstrução de si mesmo, uma espécie de fascínio diante da possibilidade de «deixar de ser», de ver cada osso, cada órgão e cada célula desintegrar-se no nada, quase uma vingança contra o porvir, contra todas as esperanças e contra a vida.) “Uma hora após a morte –escrevia o narigudo Bergerac, em La mort d’Agrippine-, nossa alma (a alma do touro) desfeita será o que foi uma hora antes da vida...” A multidão suspira. Aquele homenzinho estúpido se coloca 133 A linguagem das touradas é quase tão hermética e tão cheia de signos, significados e significantes quanto à dos lacanianos. Para decifrar o artigo intitulado Oreja de Consolación que saiu no jornal do dia seguinte, sobre o desempenho dos toureiros, dependi da boa vontade da camareira do hotel. «rodilla en terra»; «incorrección del site»; «pasaportar al novillo devuelto»; «danzó por delante en en amago de cite al natural», etc, etc. 134 Disfarço o riso ao lembrar da frase de um gurú indiano que previnia: “nunca presenteie alguém com um relógio de bolso, porque isto simplesmente significa que você tem como certo que esse homem está acabado. O relógio é seu último presente e lhe servirá para saber quantas horas faltam para o sol se pôr...” (OSHO)


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agora diante do animal com a espada na posição do ataque. O touro parece hipnotizado e disposto só a seguir as orientações do amo. Este lhe diz alguma coisa, obriga-o a atacá-lo pela última vez... O touro obedece e recebe no corpo exausto a estocada final. Um palmo de aço enfiado em seu dorso. Urra, corcoveia, defeca, olha para a platéia perde visivelmente a moral, toma consciência de que aquela era realmente sua última tarde de maio. Palmas, assovios, gozos secretos na platéia. Os sádicos se agitam, tagarelam, parecem exorcizar naquele ato os próprios crimes e as próprias culpas. Aquele corpo, uns dez quilos a menos, desaba. O toureiro levanta os braços, dá uma corridinha afeminada ao redor da arena, se exibe para a platéia. As mulheres atiram-lhe chapéus, «pañuelos blancos», flores, camisas e outros objetos que ele recolhe, dá um beijo e os lança de volta, ao léu. Esse frenesi feminino não parece ser para o «macho» como todo mundo sempre pensou, mas pelo que a platéia identifica que há de feminino e de cruel nele. Um açougueiro se aproxima do touro agonizante e lhe enfia várias vezes uma faca na nuca. É a apoteose, o consummatum est, «el momento profundo, sublime, y hasta diré casi sobrehumano, del sacrificio taurino». Em outras palavras: o momento de máxima crueldade. «El hombre debe matar los elementos taurinos que hay en él: la adoración de la fuerza muscular agresiva y de la fuerza erótica, igualmente agresiva» (Papini). A fanfarra reinicia sua marcha wagneriana, as arquibancadas se agitam e comemoram «la victoria de la virtud humana sobre el instinto bestial», enquanto entram na arena as três juntas de mulas cuja função é arrastar o cadáver pela porta dos fundos. E a mesma história se repete seis vezes. Sempre com touros andaluzes, pretos e da mesma raça transgênica, criados especificamente para esse fim. Deixei as arquibancadas com uma indignação contida e cantarolando a música de Francis Cabrel sobre a tremenda idiotice dessa exibição criminosa: “... Si, si hombre, hombre / baila /”. hay que bailar de nuevo / y mataremos otros / otras vidas, otros toros / Venga, venga a bailar...”135

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La corrida, música contida no CD Samedi soir sur la terre, Paris 1993.


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Capitulo 6 ...A MÃE MANIPULADORA QUE TRANSFORMA A CRIANÇA EM ENFERMEIRA VITALÍCIA... “Eu vos vejo, meninos do verão, em vossa ruína, O homem em sua estéril condição de larva. E os meninos estão inteiros e alheios no casulo. Sou o homem que foi outrora o vosso pai Somos os filhos do sílex e do breu. Ó vede os pólos que se cruzam a beijar-se.” Dylan Thomas Gosto da impessoalidade dos quartos de hotéis e dos albergues onde me hospedo pelo mundo afora. Aqui nada me pertence e nem está aí por minha responsabilidade. A renda rasgada da cortina, a cor do sofá, o vaso de flores, o varal na janela, as iniciais na toalha, o sabonete vagabundo com cheiro de macumba, os gemidos da mulher que no outro lado da parede tenta bastar-se a si mesma. Não tenho nada a ver com toda essa merda absurda e nem com esse mau gosto fenomenal dos espanhóis. Nada a ver com as manchas nos lençóis, com a fronha queimada de cigarros, o toco de vela colado à cabeceira ou com os travesseiros amarelados de tantas cabeças e coxas que neles buscaram algum tipo de consolo. Ouvi o gerente reclamando que alguns hóspedes sujam as paredes, mijam na pia, rabiscam as portas e escarram entre as folhas da Bíblia de Gedeão… Vandalismo? Delinqüência? Apologia do cortiço? Não importa, só sei que esse clima é fundamental para a exumação de minhas mais remotas lembranças. Agora, cuspir dentro da bíblia já é demais, macular esse livro logo com cuspe, quando se sabe que para a igreja tudo o que é «Da Natura» é suspeito e impuro. As três noites que dormi aqui na cidade de Córdoba, além do canto estridente de um galo na madrugada, fiquei intrigado com um vizinho que, pela manhã, dava longas e absurdas gargalhadas em seu banheiro. Como estava sozinho e não havia TV nos quartos, a hipótese de que tivesse pirado era a mais provável. Outros hóspedes, tanto dos andares de cima como dos de baixo, não só reclamaram na portaria, mas também começaram a suspeitar de sua sanidade mental. Puro preconceito! No único dia que nos cruzamos no corredor, cumprimentou-me rindo, como se fossemos velhos amigos e precipitou-se quase correndo pelas escadarias, em direção ao que chamam aqui de «judaria», mas voltou inesperadamente em menos de vinte segundos para alertar-me com uma frase de Kierkegaard: «Um dia a verdade desaparecerá do mundo e não ouviremos mais nada além da ventrilóquia da espécie humana».136 Além desse comportamento fora dos padrões e de uma simpatia exagerada, não parecia ter nenhum transtorno. E mais: na camiseta laranja que vestia, havia quatro letras reveladoras: OSHO.137 Mais tarde, vi de longe que continuava gargalhando, agora às margens do rio Citado por Paseyro, Ricardo, em Eloge de l’analphabétisme. R. Laffont, p11, Paris 1989. Num dos textos fascinantes desse charlatão indiano, encontrei a resposta para as suas gargalhadas matinais. Na conferência de 19 de agosto de 1976, Rajneesh ensinava a um sannyas: “Rir de manhã cedo é uma das mais belas formas de acordar, de sair da cama. Sem nenhuma razão – porque não há razão alguma. Simplesmente você está novamente aí, ainda vivo – é um milagre! Parece ridículo! Por que você está vivo? E de novo, o mundo está aí. Sua esposa ainda está roncando, e o mesmo quarto, e a mesma casa. Neste mundo que muda constantemente – o que os hindus chamam de maya – pelo menos por uma noite, nada mudou. Tudo continua aí: você pode escutar o leiteiro, o tráfego que começou e os mesmos barulhos – vale a pena rir! Um dia você não acordará de manhã, um dia o leiteiro irá bater em sua porta, sua esposa irá roncar, mas você não estará mais presente. Um dia a morte chegará. Antes que ela o derrube, dê uma boa gargalhada – enquanto ainda há tempo, dê uma boa gargalhada. Olhe para o ridículo de tudo: novamente o mesmo dia começa – você faz as mesmas coisas de novo durante toda sua vida. De novo você vai calçar seus chinelos, correr para o banheiro – Para quê? Escovar os dentes, tomar um banho – Para quê? Onde é que você está indo? Se aprontando sem nenhum lugar 136 137


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Guadalquivir. Gargalhava como se estivesse realmente «feliz», olhando para as águas e para os moinhos de vento deixados há séculos pelos árabes na Andaluzia... Caminhava pelas margens colhendo sementes secas, depois parava, jogava-as ao rio uma por uma como se estivesse alimentando os peixes. Ria. Gargalhava. Ficava bruscamente sério, olhando para um abismo imaginário. Falava alguma coisa e depois assumia, por uns momentos, como se estivesse diante de um tribunal inquisitorial, uma expressão de sisudez, grandeza e santidade. Só quando essa teatralidade tomou ares de psicose é que dei ouvidos às minhas suspeitas: epa! Epa! Alguma coisa não está certa! Seria um megalomaníaco crônico? Ou foi a solidão dos viajantes e as características esotéricas desta cidade que lhe provocaram um surto?138 Muitos fanáticos e místicos atribuem a Córdoba mistérios e poderes ainda não comprovados. Acontecimentos insólitos em outra dimensão e que se manifestariam desde o tempo em que Córdoba ainda era a capital do império muçulmano. Bobagens e infantilismo. E é bom que esses neuróticos se cuidem, que respeitem mais os seus próprios limites, pois, como alertava um filósofo alemão: “Se olhares por muito tempo para dentro de um abismo, o abismo também olhará para dentro de ti...”. Para que se lembre como foi tênue a «tolerância» do catolicismo, das trezentas mesquitas que havia por aqui, só restou praticamente uma, a que todos conhecem por Mesquita/Catedral. Antes de tudo era uma basílica, se justificam os padres. Até que em 784 os árabes a compraram e a transformaram na maior mesquita do mundo islâmico, usando na sua construção inclusive restos de um antigo templo romano dedicado ao deus Jano, o deus de duas caras. Num café da esquina, um barbudo vesgo toca violino enquanto sua mulher, uma ruiva com uns trinta quilos excedentes recita seus próprios poemas. “Musique et poésie –escreveu Cioran- deux aberrations sublimes.” Machado de Assis, que também tinha reservas com essa forma lírica de rezar, colocou a seguinte sugestão na boca de um de seus personagens: “ Dê um pouco de poesia à vida, mas não caia no romanesco; o romanesco é pérfido.” Fiz uma concessão de uns dois minutos, ouvi um poema e meio e deslizei sorrateiramente por trás de uma parede. Um exército de turistas alemães no Pátio das Laranjeiras e no interior, caravanas de religiosos em fila, ziguezagueando por entre as 856 colunas, com a cabeça erguida para os mosaicos e para os barrocos mouros. Alguém aponta para o lugar onde ficava o mihrab. Era ali que era depositado o Corão e, ao redor do qual os fiéis, como fazem hoje em Meca, davam sete voltas de joelhos. Mas tudo acabou. Carlos V reconquistou a cidade, mandou desconstruir o interior da mesquita e levantar ali a catedral. Intrigas teístas e vaidades idiotas... O único ponto admirável nos religiosos, diz ainda Michelet, é a capacidade que eles têm de acreditar nas próprias mentiras. Às margens do Guadalquivir, construído no século XIV está intacto o famoso palácio de Alcázar. Foi nele, durante mais de duzentos anos que os reis católicos montaram o escritório geral da inquisição (uma espécie de CIA da época) que mais tarde deve ter servido também ao Opus Dei de Josemaria Escrivá e ao Franquismo. Neguei-me a pisar lá dentro. Só me permiti circular por seus jardins, cheios de cachoeiras, fontes, roseiras e ciprestes. Pássaros de todas as espécies tagarelavam e davam rasantes para todos os lados. Aproximei-me deles como o fazia em minha infância, agora não para caçá-los, mas quase para desculpar-me. Se naquela época já fosse um crime ecológico matar pássaros, teria, com certeza, sido enviado às galés. Não tenho dificuldades em recordar que fui uma para ir. Olhe para todo o ridículo da coisa – e dê uma boa gargalhada... Durante todo o dia você irá sentir o riso borbulhando, brotando. Há tantas coisas ridículas acontecendo ao redor! Deus deve estar morrendo de rir – séculos, por toda a eternidade, vendo o ridículo do mundo. As pessoas que ele criou e todos os absurdos – é realmente uma comédia...” (OSHO, p.p. 95,96) 138 Esse tipo de ocorrência é muito frequente entre jovens ocidentais que viajam pelos países asiáticos, principalmente pela Índia. Ver em detalhes este assunto fascinante no livro Fous de l’Inde, de Régis Airault, Payot, Paris 2000.


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criança má. Como todas. Dizem que Freud teria respondido à mãe que lhe perguntava qual a maneira adequada de educar uma criança: Eduque como quiser. Qualquer que seja a maneira, ela será igualmente má.”Estendi a mão vazia e eles pousaram sobre meus dedos... Bandos aterrizam numa mesma roseira e de um momento para outro desaparecem. Cantos agudos, graves, de tristeza e de cio. Depois, ignoram-me ali completamente... Começo a acreditar que eles sim nascem, crescem e vivem além do bem e do mal... Conclusão que me isenta, pelo menos em relação a eles, de qualquer remordimento… Velhos moinhos árabes desativados no meio do rio. O bairro judeu, a música cigana... As ruas. Sempre a vida transcorrendo nas ruas... Com ou sem referências históricas. À tarde, uma manifestação religiosa que misturou carruagens, cavalos, peregrinos, fiéis, turistas, repórteres e uma estátua medieval do pobre Cristo transportada por uns asselvajados.139 Atravessaram a rua de fundos do Cafetín Halal, passaram em frente ao Palácio Episcopal e rumaram para a Ponte Romana que desemboca bem na entrada da Calahorra. Numa das carroças ia uma família típica da Idade Média, com uma matrona levando no colo um moço de uns quinze anos com visível retardo mental. Ela percebeu meu olhar e abriu em minha direção um sorriso afável, que foi seguido por uns grunhidos incompreensíveis de seu filho. A procissão estava parada sobre a ponte. Aproximei-me e nem sei porque a cumprimentei no melhor castelhano que pude. O cocheiro virou-se com o chicote na mão. Cravou os olhos em minha câmera e sorriu. Quando a cidade está cheia de turistas qualquer aproximação fica mais fácil. As manifestações tanto em nome de Cristo, como em nome do futebol, pelo menos aparentemente, socializam os adeptos. Apoiei o pé na roda da carroça e trocamos duas ou três palavras banais. Ela fechou suas duas enormes coxas, afastou-se um pouco para a esquerda e convidou-me a subir. Senti as orelhas queimarem quando percebi que alguém nos fotografava. Os cavalos estavam impacientes. Cristo vinha lá atrás com a cabeça tomada por um laurel. Alguém deu ordens para a procissão seguir. Os cavalos mordiscavam os freios. O filho resmunga alguma coisa ao mesmo tempo em que tentava arrancar-me a câmera. Ela intervém com brutalidade. Pergunto-lhe o que aconteceu com ele. Poliomielite me responde. Lá em baixo correm as águas do rio Guadalquivir. Passa-me pela cabeça uma frase de Lorca: (Voces de muerte sonaron cerca del Guadalquivir). Ela cochicha em meu ouvido. -Ser mãe é um horror! Mesmo quando os filhos são normais, ser mãe é um horror!140 Preocupado com a possível reação de seu filho, e para colocar um ponto final naquela súbita intimidade, digo-lhe, também cochichando, que compreendo. Que a maternidade é realmente um inferno. Que não conheço uma só mulher que não tenha se arrependido amargamente de ter procriado, etc. Mas ela insiste. -Você sabia que no passado era comum os pais assassinarem seus filhos? Logo depois de nascidos ou mesmo na barriga da mãe? Colocava-se uma tábua sobre a barriga da mulher grávida e duas pessoas ficavam balançando de um lado para outro, como se

139 Impossivel não lembrar de uma comemoração semelhante que acontece anualmente no Panamá, na cidade de Portobelo. Nesse dia é feita uma peregrinação com um cristo negro que lá é considerado o Patrão dos bandidos, putas, ladrões, traficantes de drogas e outros delinquentes.. Sob o olhar da polícia, mais de quarenta mil devotos, uns de joelhos e outros em frenesi, pedem perdão ou graças à estátua do nazareno. 140 Assim que ela pronunciou a frase, comecei a ruminar este parágrafo que havia recentemente selecionado: “...As mulheres que planejam seus filhos e, por conseguinte, acreditaram sinceramente que os queriam, descobrem-se levadas ao desespero. Não sabiam que a maternidade era assim; como poderiam saber? Escrevem livros irados sobre a mentira do amor maternal. As sociedades humanas anteriores sabiam que o amor materno não aflora espontaneamente para embair as mulheres a suportarem o insuportável...” (Greer, p.25). Em Genealogia da Moral Nietzsche menciona a Buda que, quando lhe anunciaram o nascimento de um filho resmungou: “Nasceu-me um demoninho; forjaram-me um obstáculo.” p.106.


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fosse uma gangorra. É, era assim, através do infanticídio, que os ianomâmis, os esquimós e outros povos australianos regulavam o crescimento da população...141 O filho toma sua mão esquerda e limpa-lhe inconscientemente as unhas. Ela parece gostar. A cena é pra lá de patética. Ferenczi alertava para o fato de que as mães manipuladoras “podem transformar a criança em enfermeira vitalícia, na verdade uma mãe substituta, lamentando seu sofrimento, ignorando totalmente o interesse da criança...” (idem, p.267). Pestes, pragas, bárbaros precoces, perversos polimorfos, endemoninhados, crias impertinentes, sádicos, egoístas, molotvs ambulantes, as crianças já receberam praticamente todos os piores qualificativos. Quebram cristais, rasgam livros, engolem pregos, cagam sobre o tapete persa, urinam da varanda, são uns poços de agressividade,142 insistem em abrir a braguilha do pai e em brincar com os pentelhos da mãe, seres obcecados por tetas e por leite, pequenos histéricos para quem o mundo, com suas galáxias e com suas fábricas de bombons gira só ao redor deles. Andróginos, incestuosos caras-de-pau, voyeristas, chantagistas, diabinhos travestidos de anjos, gurias, guris, moleques, bonecas, pinóquios, cleptomaníacos, dorminhocos, autistas, equilibristas, rastejadores descarados, folhas-em-branco, cientistas natos, coprófagos, habitantes de um universo fantasioso e regido pelo prazer, suicidas, criançolas, incendiários, hipocondríacos, maníacos, órfãos, primogênitos, filhos-únicos, fedelhos mimados, mongolóides, vítimas da meningite, sonâmbulos, exibicionistas, punheteiros, consumistas, dinheiristas, etc, etc. O homem do chicote já olhou duas vezes para trás e o filho debilóide está visivelmente enciumado. A procissão é interrompida novamente. Um dos cavalos defeca uma pasta verde, com um cheiro até suave, mas que, ao misturar-se com a fumaça do incenso, fica insuportável. Agradeço a carona e salto com cuidado para não cair da ponte. O retardado mental não consegue esconder sua satisfação ao ver-me descendo da carroça. O cocheiro me dá um Adios com a mesma mão que segura o chicote.143 Caminho na contramão para livrar-me daquela multidão desatinada. Não posso negar que foi uma aventura e tanto ter estado por uns minutos ao lado daquela obesa jararaca. Já na rua da Mesquita entro no ônibus que passa quase vazio. Casinhas seculares vão passando uma atrás da outra pela janela. Gente de todos os tipos e tamanhos, caminhando sem destino ou contando a alguém detalhes sobre suas doenças. Já afastado do centro, o ônibus vai fazendo curvas por entre quintais minúsculos, cuidados quase com obsessão por velhinhas de preto que, apesar do «dia santo», estão curvadas sobre canteiros de batatas ou de rabanetes e parecem preocupadas exclusivamente com os conflitos e com as futilidades da sobrevivência. Na periferia de quase todas as cidades do mundo, a solidão de casebres levantados com entulhos e com sobras de prédios demolidos, sempre a poucos metros das estradas de ferro, como se seus insólitos habitantes quisessem, pelo menos, dar a seus filhos o prazer de ver aqueles vagões monstruosos rasgando a noite... Um grupo de adolescentes 141 À noite, no hostal, voltei a rabiscar o livro Sexo e Destino, de Greer, pp.214, 215. “O «infanticídio disfarçado» foi um artifício adicional de limitação prevalente por toda a Europa Ocidental no final do século XVIII e início do século XIX. (...) O Hospital dos Enjeitados de Londres, que depois das admissões abertas em 1756 iria aceitar cerca de quinze mil crianças durante os quatro anos seguintes, foi chamado por um dos seus diretores de «matadouros de bebês», porque a mortalidade ali era quase igual à quantidade de internamentos. Claro que sempre havia os meios mais comuns, diretos e físicos, de se livrar de uma criança indesejável. As sanções legais contrárias eram mínimas e ineficazes. O médico W.B. Ryan escreveu em 1862 que não apenas o infanticídio não era considerado pelo público em geral “à mesma luz” que outros assassinatos, mas também não há outro crime que “desperte tanta simpatia”. E o infanticídio era igualmente prevalente no continente. Entre 1824 e 1833, uma única década, 336.297 bebês foram internados em hospitais franceses, onde encontraram o mesmo destino que seus equivalentes na Inglaterra. Tudo indica que ao final do século XVIII e início do século XIX cerca de oitenta por cento dos enjeitados morreram no prazo de um ano depois do nascimento.” 142 Em seu Infância e Sociedade, E.Erikson relata a história de um menino que ao receber a avó na estação, lança-lhe ao rosto um brinquedo que lhe quebra um dente superior. 143 O chicote não é um objeto qualquer, ele simboliza a fôrça e o poder de uns sobre os outros, a domesticação e a crueldade de nossa espécie. Esteve, de uma maneira ou de outra, na infância de quase todas as crianças, e está agora nos rituais dos sadomasoquistas (quase todos abusados sexualmente na infância) e nas sessões de tortura nas cadeias.


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encostados nos paredões de uma ruína, e meio cigarro de maconha que gira disfarçadamente. Impossível não associar a estas imagens às que trago de «minha» cidade e de «meu» país. Dos meninos e das meninas de rua que pelas avenidas pavimentadas, simétricas e surrealistas daquela capital, vão em grupos, em bandos e em «pandilhas», para lugar nenhum, com suas pernas esqueléticas, os estômagos vazios de enjeitados e com os chinelos em pedaços. O projeto pseudocomunista de Niemayer não previu nada para confortar aqueles pequenos marginais de olhar fugidio e seco. De vez em quando surgem uns filantropistas aqui, e uns voluntaristas acolá, com seus discursos idealistas e inúteis a respeito do assassinato e da escravidão de crianças, mas que não chegam a alterar em porra nenhuma o estado de sítio em que elas vivem.144 Meninos e meninas que foram e que seguem sendo sexualmente abusados, que nascem, crescem, vivem e morrem na rua, nesse lugar que além de ser um circo e um hospício, é também um bordel sem fronteiras, onde se cruzam escórias provenientes de todas as classes. Por mais que o povo se iluda, a política continua sendo construída de muita lábia e praticamente só de «conversa fiada», como se os ricos continuassem fazendo o mesmo juramento que faziam na época de Ésquilo: “Juro ser sempre inimigo do povo e fazer-lhe todo o mal que possa” (Salceda, p.37). Não faz eco, nem nos labirintos dos ministérios e nem na consciência dos políticos as revelações de que seis milhões de meninas e 3 milhões de meninos de 0 a 19 anos são abusados sexualmente no país. E se às meninas resta a prostituição, é lógico que aos meninos resta a bandidagem e, modernamente, o michê. Que as Zonas e os prostíbulos sejam constituídos basicamente por meninas estupradas e que os presídios sejam escolas do crime e de viadagem não deveria causar surpresa a mais ninguém. -Todos futuros bandidos! Alvos fáceis dos comerciantes e da polícia! Futuros corpos crivados de balas que servirão de adubo à ala do cemitério reservada aos indigentes.145 Dizia uma gerente de banco ao vê-los atravessando a W3 com suas latas de cola de sapateiro. Aproveitando a manifestação facistóide daquela analfabeta, um coronel da reserva que estava na fila complementou: -Para quê serem depositados lá, se ninguém, nos próximos mil anos, irá derramar uma única lágrima sobre suas covas? Dentro desta lógica, parece evidente que quando os fornos de incineração gratuita forem instalados na cidade, meia hora de labaredas os riscará definitivamente do mapa, o que evitará tanto que ocupem espaços nobres nos cemitérios como uma revisão histórica… Indiferente a estas especulações, o grupo se deslocava para os fundos do prédio novo do Giraffas e ali ficava admirando através do vidro fumê, a silhueta de meninos da idade deles, mas de outro pedigree, que comiam batatas fritas ou que lambiscavam sorvetes. Um guarda na calçada delimitava o território. Quando perdiam as esperanças, desciam mais duas quadras em direção à Asa Norte, até os containeres de lixo de uma outra rede de mercados, onde outros famintos, enquanto esperam alguns restos, abordavam motoristas irritados no semáforo. Nenhum centavo. Os carros quase blindados dos ministros de Estado, dos novos-milionários e de uma classe média paranóica, contrastavam com seus corpos subdesenvolvidos e vulneráveis. Nos olhos a fúria indisfarçável. Mas era necessário saber conter-se. As cercas do CAJE eram mais altas do 144 Não faz muito, um jornal sardo estampava na segunda página uma manchete escandalosa: Avvistata la nave dei bambini schiavi. Tratava-se de um navio africano que transportava umas 250 crianças de Benin para o Gabão e Costa do Marfim, onde iriam trabalhar como escravas nas plantações de cacau ou de cana de açúcar. O UNICEF alertava para a possibilidade dos contrabandistas terem jogado as crianças ao mar, (L’unione Sarda, martedi, 17 aprile 2001). 145 No ano 2000, foram assassinadas dezessete mil crianças só no Brasil. O que significa que o infanticídio nunca esteve tão em alta como agora.


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que todos os seus sonhos. E havia supostos orfanatos e supostos asilos infantis espalhados por todos os lados, cada um deles com seus panópticos e com seus funcionários impacientes e arbitrários. VIGIAR, VIGIAR, VIGIAR recomendam os novos inquisidores pedagógicos da pré-escola à universidade. A recomendação geral é de instalar câmeras nas escolas, nos shoppings, nas igrejas, nos clubes... De onde a velha pedagoga ou o eminente psicólogo vigiará os passos de cada criança para assim reprimir a tempo as eventuais perversidades. “Estar submetido ao olhar, sabê-lo e não poder escapar dele, não é essa a mais sutil das cadeias?” (Schéber, p.35). Mas apesar da fome, era necessário saber esperar e fazer o recuo de sempre: cabeça baixa, as costelas visíveis ao sol tropical, a humilhação, a ante-sala do estupro mental e do infanticídio completo.146 Como escreve José Martins na apresentação do livro Massacre dos Inocentes: “momento de punição precoce, que ensina, a quem está chegando ao mundo, que tal mundo é o mundo do castigo, que é preciso pagar logo a pena pelo delito que ainda não foi cometido. Por quê, então, não cometê-lo?” (Martins, p.11). Naquele dia os caças da aeronáutica davam rasantes sobre o parque da cidade. Gloria Trevi, a cantora mexicana acusada de sedução de menores em seu país, tinha um filho atrás das grades e jurava ter sido abusada sexualmente na PF. Alguém lembrava que era o dia das crianças! Nessas datas os shopings ficam entulhados de mulheres gordas, esqueléticas, perfumadas e alucinadas que se acotovelam diante das pilhas de brinquedos vagabundos de plástico reciclado, diante de bonecas que lembram o apartheid racial, jogos, videogames, pistolas e raras porcarias de todos os gêneros. Dali vão compulsivamente aos parques, às piscinas, aos tobogãs, ao cinema e aos Mac Donald’s da vida. Enchem as crianças de merdas nesse dia que, por sorte, só acontece uma vez ao ano. Afinal, ninguém quer ser visto como um pai desnaturado, uma avó gagá, uma mãe nefasta. Beijinhos libidinosos, abraços provocantes, sorvetes e umas horas a mais sem as algemas. Amanhã, quando acabar esse exercício de falsificação afetiva, tudo voltará a ser banal, o chicote e a chatice, o rio de culpas escoando por entre as brechas da consciência. Os brinquedos já estão quebrados ou jogados junto aos dos outros anos. Lixo amoroso! A sociedade de pediatria faz um jantar para homenagear os filhos pródigos. As indústrias doam papinhas, leite em pó, chaveiros, termômetros e vitamina C. Apesar dos risinhos e dos trejeitos senis, tudo é falso e tudo está a serviço dos comerciantes. É a colonização da infância em marcha. Aos que não morrem de fome, existe uma ideologia já pronta, programas infantis nas tvs, quase todos dirigidos por histéricas ignorantes, uma religião a seguir, uma família composta de gangsteres e quase sempre ancorada na psicopatologia. Um deles, que me olhava fixamente dentro dos olhos, apontou seu revólver de plástico para minha cabeça e detonou: Baaamm, banmn, baanmn... Encarei-o ameaçadoramente e ele soltou uma gargalhada, como se soubesse que os adultos, de seu pai ao ditador do mais recente império, apesar das encenações, são todos buldogs de papel.147 Da família para a igreja (batismo crisma, primeira comunhão, confissões semanais, colonização clerical, amar pai e mãe sobre todas as coisas etc); da igreja para a escola (obediência antes de tudo, e se for pego tocando mais de uma punheta/dia, é logo enviado para o pedagogo ou para o psicólogo); 148 da escola para o exército (barriga para dentro, respeito à hierarquia, submissão, idealização) e do exército para uma empresa onde passará a competir com os colegas e sonhar em ser o mais aplicado dos funcionários. É o fim! Está construído o cidadão e o idiota. O tipo ideal de soldado, “aquele que é sádico com seus 146 Em Brasília, essa cidade que hospeda o Parlamento e os chefões da política nacional, registra uns cem casos de abusos sexuais contra crianças por ano. Sem falar, evidentemente, dos casos que são engolidos pelo silêncio, pela cumplicidade e pelo descaso. 147 Ver: Den lille rode bog for skoleelever ou El pequeño libro rojo de la escuela, de Soren Hansen e Jesper Jensen. Editorial Extemporaneos, S.A, México, 1972. 148 E isto só agravará mais o problema, pois já tivemos oportunidade de constatar, como escreve Scheber, que “os educadores e os psicólogos, quando se trata do sexo daqueles que lhes foram confiados, são uns imbecis”. (Pedagogia pervertida, p.111)


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subalternos e masoquista para com seu superior...” 149 E aí já é a morte... Nada mais a declarar. À noite, várias vezes os reencontrava agrupados na Asa Norte, junto aos ferros-velhos de uma oficina mecânica, ouvindo submissos às ordens de uma mulher magra e agressiva, que segurava com uma certa brutalidade um bebê nos braços. Era com aquela criança que passava o dia inteiro num semáforo implorando migalhas. Na primeira página de seu livro sobre a Índia, intitulado Parias, Pascal Bruckner faz o relato de uma dessas andarilhas que em Nova Deli mendigava com uma criança morta nos braços. A criança havia morrido há uns dois dias, já estava fedendo, mas a mãe não queria livrar-se dela, pois era seu único meio de ganhar algumas rúpias.150 Apesar dos Vedas, do BhagavadGita e de outras bobagens aristocráticas e místicas, sabemos que naquele país, além de ocorrer um estupro a cada 50 minutos, essa prática serve também de instrumento para umas castas dominarem outras, principalmente nas zonas rurais. E as autoridades, caminhando de lá para cá com seus bastões nas mãos, quando recebem uma denúncia ou são requisitadas para socorrer uma vítima, se limitam a resmungar: é um ato indesejável, mas inevitável.151 Córdoba ganha um ar esquisito nos finais de tarde, principalmente agora, que uma chuva fria e inesperada descamba sobre sua arquitetura secular. Junto aos paredões da mesquita, para onde corri para proteger-me, uma gata cinza, de olhar meigo, faz o parto de seus cinco filhotes, indiferente à minha curiosidade. Os dentes afiados cortam o cordão umbilical, a língua faz a limpeza e a placenta é devorada. Em outras épocas, antes das parteiras e das maternidades, -especulo - será que as mães de nossa espécie saberiam fazer esta tarefa insólita e transcendente? -No banheiro dos fundos de minha casa –passou a dissertar a mulher de uns trinta anos que também assistia àquele espetáculo - a cozinheira paria sozinha sobre o vaso. Sua expressão não correspondia àquilo que comumente se pensava. As pernas bem abertas, as mãos apoiadas nas paredes e da bolsa que já se havia rasgado, escorria um líquido incolor que inundava suas coxas.152 Num instante apareceu o crânio cabeludo do bebê... Depois a cabeça e o surgimento abrupto de todo o corpo. Apesar da posição, ela não o deixou cair, sustentou-o pelo cordão com a mão esquerda e com a direita o segurou pelas costas. Inclinou-se –como a gata, só que com mais dificuldade - e cortou o cordão com os dentes e só então pediu ajuda. -Um pano branco... O homem sexagenário que apareceu, enrolou a criança sem nenhuma habilidade e saiu, enquanto a parturiente mastigava um pedaço da placenta153 e cortava com cuidado e

Ver Magnus Hirchfeld O misticismo indiano também se sustentou durante muito tempo com rituais infanticidas. Curiosamente, o ódio contra o primogênito parece universal. Naquele país, o primeiro filho era oferecido aos deuses para obter a cura de uma doença dos pais ou sob o pretexto paradoxal de conseguir mais filhos. Quando a mulher de uma casta superior era estéril, não conseguia engravidar, se matavam filhos dos párias, tentando torná-la fértil. Até no meio do cimento, para dar maior estabilidade aos edifícios se colocavam corpos de crianças. Dizem que na represa de Dhakra Rangal, construída no Punjab em 1950, foi usada esta técnica. Entre os Khonds, no estado de Orissa, um sacrifício agrário consistia em escolher e criar a criança que no futuro, pouco antes dos plantios, seria sacrificada. Até hoje –escreve Torres pp.45,46- não é difícil encontrar nos jornais indianos notícias sobre crianças que foram sacrificadas para pedir chuva ou num ritual tântrico. 151 Ver Marc Boulet, Dans la peau d’un intouchable, Seuil, Paris, 1994. 152 É sabido que em alguns casos o bebê pode nascer sem que a bolsa se rompa, e quando isto acontece, é interpretado pelo misticismo cultural, como um sinal de que aquela criança será bem sucedida na vida. Na Itália, quando este fato ocorre, se diz que a criança “nasceu com camisa” e na Alemanha que o bebê será protegido pelos deuses. Aqui na Espanha, as crendices populares garantem que a criança nascida dentro da placenta não morrerá afogada e nem por bala. (Tibon, p.57) 153 Além de todos os rituais que ao redor do mundo se tem feito com a placenta e com os poderes esotéricos a ela atribuídos, na verdade, como o leite e as lágrimas da mãe, ela também contém substâncias que, ingeridas, vão produzir leite e garantir imunidade e a saúde do filhote. Aqui na Espanha as mulheres tomam o caldo de placenta e na Suécia, a placenta e o cordão eram queimados e as cinzas, dissolvidas em leite, eram dadas à criança como remédio contra as dores de estômago. (Tibon, p. 46) 149

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ritualisticamente uns dois centímetros do cordão, que logo embrulhou numa tira estreita de couro.154 A chuva converteu-se num temporal. Trovões e raios por todos os lados. As águas do rio Guadalquivir ficaram mais velozes e a gata acaba de limpar o quinto filhote, o menor e o mais parecido com ela. Dá cinco ou seis lambidas em si mesma, ronrona e oferece-lhes, sem mágoas, os pequenos mamilos ainda virgens e ocultos na penugem de seu abdome. Introduzo-me na mesquita que, como já disse, tem uma catedral lúgubre em seu interior. Rezam uma missa naquele momento. Os rituais se sucedem, com incenso, sinos e palavras num idioma derivado do romeno. Faço uma foto quando o padre levanta os braços para o «telhado» e fico com o olho no visor, olhando para aqueles tipos humanos lamentáveis, até que aquela coreografia delirante termine. Nesse ínterim, sou tomado por uma frase ímpia de Heine: “Vocês ouvem a sineta? Ajoelhem-se! Estão levando os sacramentos a um deus agonizante.”

154 “En las islas micronesias, el padre envuelve el cordón del recién nacido en una hoja de pándano y lo usa varios meses como brazalete; luego lo conserva con mucho cuidado en su cabaña, generalmente colgado en la viga central. De esta manera la criatura se convertirá, al crecer, en un gran guerrero si es varon, y en un codiciado partido si es mujer”. (Tibon, p.51)


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Capitulo 7 LORCA, AS BONECAS E A INFANTILIZAÇÃO DOS POETAS O que eu ouvi referia-se a certas bonecas inteiras ou bonecas completas indústria das velhas impuras de São Luís, e vendidas tão abertamente que suas fabricantes iam negociá-las a bordo dos navios de passagem.Muito procuradas. Não eram arremedos humanos mal enchumaçados, de braços e pernas cilíndricos saindo de um corpo cilíndrico. Não. A cara era linda, o corpo recortado de tal maneira e capitaneado de material tão doce que imitava a graça das curvas e a suave consistência das mais deleitosas fêmeas. E tinham tudo... A boca não era um simples bordado de retrós vermelho, mas abertura comissural contendo dentes e a móbil língua. Tinham seios e umbigo. Mãos, pés, dedos, unhas. Pêlo nos sovacos e pentelhos fornidos e crespos. Amplas nádegas, altas e roliças coxas que, quando afastadas, deixavam ver orifício anal, ninfas, clitóris e hóstio vaginal. Uma verdadeira perfeição. Eram feitas de todas as cores, de modo que imitavam brancas, negras e mulatas. Havia as pequenas, as médias e as especiais, grandes como uma criança bem crescida. Quase utilizáveis. O corpo era todo trabalhado em pano fino de algodão. Menos a boceta. Esta era sempre de cetim. Pedro Nava Na parada de ônibus para o vilarejo de Fuentevaqueros, um homem pequeno, bem barbeado e vestindo um casacão cinza de casimira, cheio de selos e de botons, dirigiu-me agressivamente a palavra: -Também vais visitar a casa de Lorca... Não é? -Como adivinhas? Retruquei-lhe. -Para os estrangeiros, parece que em Granada não existe nada além da antiga casa de Lorca... Por que essa fixação ridícula por poetas? Duvido que tenhas ido -por exemplo visitar o mausoléu do Generalíssimo Franco... Lamento que o mundo esteja pouco a pouco se afrescalhando... E pouco a pouco se militarizando... Se dos militares nem vale a pena falar, dos poetas, sabe-se, são sempre os mesmos narcisistas imaturos e infantis, travados no período de maior complexidade de sua infância e dados a brincar com palavras e bonecas... A poesia? A luta do sujeito capturado para desatar o nó que o prende à placenta e a um estágio antigo de sufocamento... 155 Aproveite para prestar atenção ao significado das bugigangas expostas na casa de Lorca... Observe –insiste o estranho - como aqui na Espanha existe uma tendência em tratar as crianças como adultos e os adultos como crianças... Preste atenção, como a toda hora se vê passar por aqui mães com meninos e meninas de dez ou doze anos em carrinhos, como se fossem bebês... Observe como todos levam armas ou bonecas nos braços... O que é isso? Qual o significado dessas bonecas e dessas armas? Com certeza, é essa confusão que vai criar no 155 Enquanto ele ia sutilmente esbravejando contra Lorca, eu lembrava de Mencken para quem, “um poeta adulto é apenas um indivíduo em estado de retardamento mental. Um homem de cinquenta anos que continue a escrever poesia é um infeliz que nunca passou intelectualmente da adolescência ou um bufão consciente que finge ser aquilo que nunca foi – algo mais jovem e suculento do que, na realidade, é.”


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sujeito um caráter bi-polar... Num lado a couraça de Franco, no outro, a delicadeza de Lorca... Duas perversidades...156 Confesso que não vi lá no museu nenhuma boneca, mas em Santiago do Chile -lembrei, visitando «La Chascona», casa onde viveu e morreu Pablo Neruda, deparei-me com uma dezena delas que, segundo o guia, haviam realmente pertencido ao poeta.157 As primeiras notícias que tive da existência de Lorca foram através de outro narcisista catalão chamado Salvador Dali. Depois disso, tudo o que li sobre o autor do Cancionero gitano foi nos tais cadernos literários que todos os periódicos se jactam de ter... Em Fuentevaqueros, um sol de quase quarenta graus! Com exceção de um café em frente à parada de ônibus, tudo esta fechado para a sesta neste vilarejo rural, a uma meia hora de Granada. De quando em quando um velho cruza em bicicleta a avenida principal com a mão direita inchada segurando o chapéu preto, e vem misantropicamente pedalando sobre sua própria sombra para ocupar uma das quatro mesas do bar com outros homens de sua idade. Dedico alguns minutos de meu lazer para acompanhar o movimento já fatigado de suas pernas, a dificuldade com que descem da bicicleta e o vício de resmungar que todos têm. Em se tratando de pedofilia, já foi universal o preconceito contra eles, contra o «velho sujo» ou o «avô babão» acostumado a roubar carícias de crianças.158 Todos assumem um ar sepulcral quando menciono o nome e a história de Lorca. Um deles chegou até a derramar umas cinco ou seis lágrimas sem viscosidade e sem paixão. Pelo menos para o sujeito que vende os ingressos e que faz o papel de guia no interior do museu, Frederico Garcia Lorca159 teria realmente nascido aqui no vilarejo de Fuentevaqueros, na casa número 4 da rua que hoje leva seu nome. História que alguns moradores, depois de uns bons tragos, denunciam ser falsa. Uma pantomima para enganar turistas e para dar status ao município, já que o poeta teria nascido num outro vilarejo a uns vinte quilômetros daqui. Lorotas. Para mim, que nunca me entusiasmei nem mesmo com sua poesia, não tem a mínima importância o lugar e a hora de seu nascimento... Tenho curiosidade, isto sim, pelo lugar onde foi fuzilado. Apesar de todo o mistério e de toda a mistificação que gostam de fazer sobre sua pessoa, dizem que foi entre Alfacar e Víznar, ao lado de uma tal de Fonte das Lágrimas. Seu corpo, igual ao de tantos fuzilados nas ditaduras latino-americanas, nunca teria aparecido. Enquanto caminho pela rua Manuel de Falla beirando a solidão daquelas janelas desertas, na direção da fonte que leva seu nome, vou recitando seu texto impresso num folder publicitário: [... En este pueblo tuve mi primer ensueño de lejanía. En este pueblo yo seré tierra y flores... Sus calles, sus gentes, sus costumbres, su poesia y su maldad serán como el andamio donde anidaran mis ideas de niño fundidas em el crisol de la puberdad]. 156 Apesar da impertinência desse estranho, não posso negar que aquele abriu-me os olhos para o significado da boneca no mundo da pedofilia. Pensei logo nas mulheres da Play-boy que viram bonecas e nas infláveis que os sex-shop vendem. Por que a pessoa que tem sexo com uma boneca inflável não seria um pedófilo? Naquilo que diz respeito à infantilização cultural das mulheres, é comum ver senhoras casadas, com filhos, ainda conservarem suas bonecas sobre a cama ou sobre o guarda-roupas, como se ainda fossem menininhas ou não pudessem ingressar na maturidade. Por outro lado, no mundo masculino se usa com frequência a palavra «boneca» para mulheres da zona ou por quem se sente tesão ou ainda para sujeitos femininos e homossexuais... O poema citado na página anterior, publicado em 1943 numa coletiva intitulada «Bonecas» Ed, Macunaíma, Salvador BA, foi escrito por Pedro Nava, inspirado nas artesãs maranhenses que produziam bonecas perfeitas. 157 Na página 67 do livro Animales literarios chilenos ilustrados, de Enrique Lafourcade, pode-se ver a foto de um poeta menor, mago e curandeiro acossando a uma boneca. 158 As pesquisas mostram que esse preconceito não tem fundamento. Segundo de Quincey (pesquisa nos EUA) a idade média dos pedófilos é de 35 anos. “Para o Dr. Whiskin, da Harvard Medical School, os velhos acusados como os mais perniciosos delinquentes sexuais de nossa sociedade, não são mais do que criaturas “benignas e impotentes”, cuja ação em geral não é genital na origem, mas nasce de uma trágica solidão. Muitas pessoas idosas, em sua solidão e indigência emocional, buscam na criança o calor e o afeto. Se uma senhora idosa acaricia uma criança, o gesto é tido como normal. Mas, se um velho o faz, seu gesto simples –que raramente tem semitons eróticos- pode provocar um grito histérico de reprovação dos pais da criança”. (Mc Cary, p. 179) 159 Seu nome verdadeiro, segundo a certidão de batismo existente no Arquivo paroquial de Fuentevaqueros era: Frederico do Sagrado Coração de Jesus. Saravá!


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Sobre sua vida sexual... Nada. Todos se apressam em garantir que Lorca não era, como seus inimigos tanto insinuaram, mais um literato fresco e afetado (a cursiva em meus textos não tem nenhum significado especial, a uso apenas para quebrar um pouco a insipidez de minha escrita) e que, inclusive, «comia» abertamente a filha de não sei quem e a neta de não sei mais quem... Garganteios virilóides de espanhóis! Leio em seu poema Preciosa y el aire: [Niña, deja que levante tu vestido para verte. Abre en mis dedos antiguos la rosa azul de tu vientre]. Apesar do clima e do colorido pedófilo, impossível negar o legítimo erotismo desse verso. Mas «niña», nesse idioma, é preciso lembrar, não é necessariamente uma «criança».160 Em sua casa, entre os objetos e móveis exibidos ao público o que é mais mórbido e mais chocante é seu berço. Há também sua correspondência com Dali, uma foto com um ano de idade, vestido como menina sobre um cavalo e um vaso de gerânios chamado «Señá Vicenta», que os vizinhos conservaram e multiplicaram em memória de sua primeira proprietária, dona Vicenta Lorca.161 Bobices impregnadas de melancolia. Enquanto passamos de um cômodo a outro o guia acionou no gravador a música La Argentinita, com Lorca ao piano. No pátio, uma laranjeira com sete ou oito frutas amarelas, uma escultura feita por Eduardo Carretero e o tal poço que, segundo um detrator local, nunca existiu ali. Bobagens. Pois ninguém está sinceramente interessado em verdade nenhuma. Que Lorca, como Buda, Cristo ou Shakespeare, tenha existido ou não, que tenha escrito o Romancero gitano ou não em que mudaria o êxtase de nossa visita a este lugarejo? Em que mudaria o sabor da cerveja e do peixe no único boteco aberto há esta hora? Ou mesmo nossa relação com o mundo? Com as falsificações da literatura e com o narcisismo universal? Os velhos do bar dizem que os homens de Franco o mataram por «invidia». Fascina-me esta palavra castelhana: INVÍDIA. Que pode ser traduzida por inveja. Só perde para ALEIVOSIA, cujos sinônimos podem ser: traição, perfídia, calúnia, deslealdade. Afinal, teria Frederico Garcia Lorca (ou Frederico do Sagrado coração de Jesús) de alguma maneira, atiçado as feras invidiosas do inconsciente de seus inimigos? Era de uma família que tinha terras, imóveis alugados e que talvez fosse agiota. Lorca tocava piano, tinha contatos internacionais, sabia –como Borges & outros fazer-se passar por erudito, manipulava as palavras com maestria e era mais católico do que o próprio ditador Franco. (Aqui retorna uma indagação antiga: é possível ser poeta sem ser religioso?) Mas por que isto teria provocado inveja aos cães de guarda do fascismo?162 No verso do ingresso para o museu está gravado outro de seus poemas que reafirma a teoria-do-vínculo-patológico dos poetas com suas respectivas «madres». Leiam: MAMA, yo quiero ser de plata. 160 Falando em poetas e em pedófilos, vale lembrar três de origem italiana cujas grandes paixões foram por ninfetas: Petrarca, perdidamente apaixonado por Laurinha de 12 anos; Dante, por sua Beatriz de nove e Virgilio que, como diz Nabokov, “sabia cantar belas loas às ninfetas, mas que provavelmente preferia um perineo de rapaz.” (p.21) 161 Curiosamente os vizinhos de Samuel Rawet, em Sobradinho, DF, também conservaram um vaso de flores do escritor. Lá não eram gerânios, mas lírios e canela de veado. Que tipo de fantasias deve passar pela cabeça desses nostalgicos malucos? Ver EFB, Rapsódia a Samuel Rawet, Anti-editor publicadora, p.76, Brasília 1977. 162 Descobri por acaso que o primeiro monumento do mundo em homenagem a Lorca foi construído no Brasil (São Paulo), pelo arquiteto Flavio de Carvalho. Apesar de parecer incrível, em 1969, no auge do trogloditismo anti-comunista, um grupo do CCC foi à Praça das Guianas onde estava o monumento e o destruiu. Gostaria imensamente de saber se algum daqueles fanáticos teve tempo de ler a frase de Lorca “Hay que abrirse del todo frente a la noche negra” que estava escrita na parte superior do monumento.


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Hijo, tendrás mucho frío. Mamá,yo quiero ser de agua. -Hijo, tendrás mucho frio. Mamá. bórdame en tu almohada. Eso sí! Ahora mismo! Na clínica psicológica é que se vê o quanto é difícil transcender a fase pré-genital, o primeiro corpo, o primeiro amor, as tetas, a sedução, os castigos, a culpa, as brincadeiras, ingênuas, mas nem tanto. (a poesia seria então uma manifestação espontânea nos histéricos?) Apesar de sublinhar no texto de Ariès que tanto a nudez como as brincadeiras sexuais entre adultos e crianças eram mais do que normais na antiga sociedade (séculos XVI e XVII), não dá para deixar de desconfiar nem da «natureza» nem dos «significados» dessas brincadeiras. “Esse hábito de brincar com o sexo das crianças pertencia a uma tradição muito difundida, que hoje em dia ainda encontramos nas sociedades muçulmanas. Essas sociedades se mantiveram alheias não apenas ao progresso científico, mas também à grande reforma moral, inicialmente cristã e a seguir leiga, que disciplinou a sociedade aburguesada do século XVIII e, sobretudo do século XIX, na Inglaterra e na França” (Ariès, p.129).163 Com a maior boa vontade tento encontrar alguma coisa que me interesse em Romancero Gitano, algo que, pelo menos, seja condizente com a fama do autor, mas, desde minha plataforma agnósticista e antipoética, sinto como se tudo fosse de um primarismo e de um infantilismo absurdo. Estaria completa e absurdamente equivocado? Ou não? E paradoxalmente, teriam sido os assassinos de Franco os maiores responsáveis por todo o seu sucesso? Já estou quase nas páginas finais e só sublinhei três ou quatro frases que merecem ser ressaltadas. “Los niños tejen y cantan el desengaño del mundo (p.70); Oh ciudad de los gitanos! Quién te vió y no te recuerda? Ciudad de dolor y amizcle...” (p.87). Uma senhora vestida de preto atravessa a rua levando pela mão esquerda um menino de uns doze anos que tem trejeitos de adulto164 e pela direita, um mongolóide (síndrome de Dawn) obeso e sorridente... No passado se acreditava que essas pessoas nasciam de relações incestuosas, de uma gravidez ocorrida do relacionamento entre pai e filha, entre irmã e irmão, etc. 165 O incesto, o abuso, o estupro, e outras práticas sacrílegas, além dos transtornos psíquicos dos envolvidos, ainda podia ser o veículo para a geração de um «retardado». Convenço-me cada dia mais de que os mil anos da Idade Média (séc.V a XIV) foram um horror e uma fábrica de doentes. A uns cinco passos da fonte que também leva o nome do ilustre morador, uma criança com o corpo todo deformado implora por uma esmola. Sentei-me à sombra do outro lado do jardim para poder olhá-la melhor enquanto rememorava a impressionante história dos «comprachicos», que Victor Hugo relata em seu O homem que ri. Os «compra-crianças formavam no século XVII uma terrível associação especializada na compra e venda de crianças. Compravam crianças e antes de revendê-las as transformavam em monstros sorridentes. Não achavam que uma criança perfeita fosse bastante divertida –escrevia Hugo-, achavam que um corcunda era mais alegre, daí a terrível arte que se criou naquela 163 “Com menos de um ano, Luiz XIII dá gargalhadas quando sua ama lhe sacode o pênis com a ponta dos dedos (...) Com um ano, manda que todos lhe beijem o pênis (...) Diante de uma pequena senhora, levantou a túnica e mostrou-lhe o pênis com tal ardor que ficou fora de sí. Se deitou de costas para mostrá-lo melhor. Era uma brincadeira comum e muitas vezes, quando as pessoas lhe diziam: “Monsieur não tem pênis”, ele respondia: é, olha aqui, e alegremente levantava-o com o dedo. Essas brincadeiras não eram restritas à criadagem, a jovens desmioladas ou a mulheres de costumes levianos, como a amante do rei. A rainha, sua mãe, também gostava dessa brincadeira.” (Ariès, pp.125,126) 164 “Nas sociedades patriarcais –escreve Gilberto Freyre-, o menino com vergonha de sua meninice, deixa-se amadurecer morbidamente antes do tempo. Sente gosto na precocidade que o liberta da grande vergonha de ser menino...” (p. 88) 165 No Brasil, entre os indios Tucanos, num determinado momento da vida do menino, ele é obrigado a manter relação sexual com a própria mãe, e mais, na presença do pai.


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época: pegava-se uma criança e fazia-se dela um aborto. Transformava-se um rosto num focinho; impedia-se o crescimento, amassava-se a fisionomia. Onde Deus colocou o olhar aquela ciência colocava o estrabismo. Fabricavam-se monstros para o Papa e para o Sultão. Os vendedores eram os mais diversos: o pai miserável que não sabia como sustentar o filho ou o senhor insaciável que tirava proveito de sua coudelaria de escravos. Ao contrário do que se possa pensar, os compra-crianças não viviam escondidos como se fossem ladrões. Viviam apenas na penumbra. Durante o reinado dos Stuart, esses comerciantes abomináveis que eram espanhóis, alemães, ingleses, italianos, etc., não eram mal vistos na corte. Transformavam uma criança com tamanha perfeição que o próprio pai não a reconhecia. As crianças destinadas aos saltimbancos tinham as articulações deslocadas. Não apenas o rosto e o corpo da criança eram deformados, mas também sua memória Não sabia e nem se lembrava das queimaduras de enxofre e das incisões a ferro que sofrera. Jaques II, que perseguia os judeus e os ciganos, foi tolerante com os compra-crianças. Afinal, tinham também uma outra e secreta serventia: “O bem do Estado exige, por vezes, certos desaparecimentos. Um herdeiro novo e incômodo, bem manipulado, desaparecia para sempre. E os compradores de crianças eram discretos, taciturnos, juravam silêncio e cumpriam com a palavra.” Na Inglaterra, nessa mesma época, época de crise sócio-econômica, com milhares de crianças miseráveis perambulando pelo Reino, o irlandês Swift propôs ironicamente que se comesse a criança pobre para resolver o problema dos ricos, da nação e das próprias crianças. “Uma criancinha saudável e bem tratada é, com um ano, um alimento realmente delicioso, nutritivo e completo, seja cosida, grelhada, assada ou fervida; e não tenho dúvidas de que possa servir igualmente para um guisado ou um ensopado...”* Indiferente a toda essa história e a todo esse imaginário pedófobo, o pequeno mendigo quase dorme em seu ofício. De vez em quando dá uma olhada panorâmica, sem mexer a coluna, e depois de constatar que não se aproxima ninguém, volta a cochilar... A vida já não lhe pertence. Já não faz parte da perigosa e cínica irmandade universal. Foi barrado, excluído e empurrado para o lugar de maior infâmia e de maior risco... Como se com isso –me aproprio de fragmentos de Leclaire-- estivesse querendo implodir “o vigor marmóreo do monumento à criança imortal (...) atacar a cegueira que nos tornava poderosos, começando a danificar a mais fascinante das figuras do destino: a criança em nós...” (p.23).

Swift, Jonathan, em Modesta proposta para evitar que as crianças da Irlanda sejam um fardo para os seus pais ou para o seu país. Editora Paraula, p.11, Porto Alegre, 1993. *


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Capitulo 8 AS CRIANÇAS CASTRADAS DAS CAPELAS EPISCOPAIS “E o mal das civilizações, com o cansaço e o esgotamento, dá como resultado as crianças pervertidas. Pervertidas em todas as classes: nos pobres por miséria e fome; nos burgueses por ambição e luxo, nos ricos por vício e degeneração” João do Rio Na arquitetura e nos projetos urbanísticos de qualquer lugar que se vá, é visível o desprezo para com a existência das crianças. Na melhor das hipóteses se planeja para elas um ou outro espaço de confinamento no próprio prédio, ou então os tais e idiotas parquinhos, para que fiquem o mais distante possível dos pais e assim não incomodem e não exijam mais do que um ou dois carcereiros de avental para vigiá-las. No antigo casarão onde estou hospedado, os proprietários têm dois filhos com menos de dez anos que passam o dia inteiro como prisioneiros, indo do quarto úmido para uma sala a média-luz, onde de quando em quando aparece um hóspede mudo para deixar a chave de seu quarto. Permanecem ali os dias inteiros, como duas estatuetas de gesso desvirilizadas. Os pais justificam essa crueldade listando a malignidade e os perigos da rua, a freqüência de crimes, de seqüestros, acidentes, abusos sexuais, drogas, etc. A mãe, afetivamente semelhante a uma pedra, 166 denuncia a mediocridade urbanística e a negligência estatal com relação às necessidades espaciais das famílias e das crianças... Na calçada já em pleno movimento, o vendedor ambulante de guarda-chuvas a quem cumprimento todas as manhãs e com quem já discuti o tema principal deste livro, me chama atenção, de forma irônica, para o seguinte: Compañero... Estive pensando, e concluí que não é apenas a iniciação sexual prematura que representa um abuso e uma violência contra as crianças, mas inclusive a iniciação religiosa. Arrastar uma criança de cinco ou seis anos para uma igreja, quando ela ainda não tem o mínimo interesse nem por «deus» e nem pela «religião», não é contaminar-lhe o mundo real para sempre? A metafísica, as invencionices esotéricas e os contos do além não minam e não corroem a personalidade das crianças para toda vida, já que toda religião é uma aberrante imbecilidade? Fico entusiasmado com sua lucidez, mas não lhe digo nada. A cliente que se aproximou enquanto ele concluía sua frase, escolheu um guarda-chuva entre os doze que ele levava dependurados em cada braço. Ao perceber que estou de saída pede que eu espere mais um minuto. Enfia os quatro euros da venda no bolso do casaco de plástico e num tom mais veemente do que antes me fala: -E não pense que esses abusadores de crianças são tarados ou super-sexualizados... como comumente se acredita. Na verdade são sujeitos quase broxas, tímidos e que têm medo de mulher...167 166 Na Ásia, numa sociedade conhecida por Koryak, os homens costumam apaixonar-se e casar-se com pedras ao invés de mulheres. Fazem a escolha, as levam para casa, as vestem sensualmente e as acariciam como se fossem um objeto amoroso vivo. 167 Ele parecia estar adivinhando a leitura que eu acabara de fazer antes de sair do hotel: muitas vezes, os pedófilos e outros delinquentes sexuais são pessoas com dificuldades de ereção, os conhecidos meia-bomba, complexados, solitários e com muito medo de relacionar-se com pessoas de sua idade e com o genuíno objeto de seu desejo. Outras vezes são pessoas que apresentam um discreto retardamento mental, pênis demasiadamente pequeno, senis ou bêbados. Outros clinicamente sadomasoquistas, só sentem prazer sexual quando acreditam estar dominando o outro na relação (sadismo) e quando têm a perspectiva de serem punidos por seu ato (masoquismo). Por outro lado, pode-se dizer também que um grande número de pessoas são pedófilas enrustidas ou latentes. “pois muitas tiveram contatos sexuais com crianças, quando elas próprias eram crianças. Quando a expressão sexual adulta não é


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Duas enfermeiras e um médico saem da portaria de um prédio arrastando até a ambulância uma mulher enfurecida. Em um de seus movimentos bruscos cai o lençol que a envolvia. Ficou completamente nua no meio da rua. Tem as tetas sólidas, o corpo quase albino e uma cabeleira pubiana espessa e negra. De início o silêncio foi total, depois se ouviram seguidas e irônicas gargalhadas masculinas, fato que ainda delata a impossibilidade dos homens de visualizar a xota (essa ferida sobrenatural) sem desestabilizar-se. [Pequeno anel de carne, pequena fenda feia, Pequeno esfíncter pagão, Pequeno canto, sempre úmido, envenenado com ar cálido, Pequeno buraco, pequeno nada! Ventosa venenosa, abismo insaciável, Tão funesta e tão querida; quero desprezar-te, a ti, por quem chora e sofre O melhor de minha carne. Quero detestar-te sempre, coisa infame, Tu que devolves o bem com o mal, Pequeno nada cavado na parte baixa de mulher, Pequeno buraco, pequeno nada!]168 Um sol absurdo coroe os miolos e as córneas da multidão que congestionou as calçadas do centro de Granada para, como eu, assistir aquela cena mais do que patética. Vendo a atuação precária do médico e dos enfermeiros, vou lembrando de um texto atribuído a Hipócrates, onde ele compara a medicina a um combate e a uma farsa representada por três personagens: o médico, o doente e a doença. Alguns passos à direita do número 3 da Gran Via de Colón, está a entrada para a catedral. Dizem que foi iniciada no século XVI em estilo gótico e terminada em estilo renascentista. Coisas de espanhóis. Entrei ali rastreando o som de um órgão e os altos e baixos de um coral que ensaiava Bach. Eu disse Bach e não Bah! Uns quarenta ou cinqüenta sujeitos, homens e mulheres, de boca aberta, exibindo dentes de tubarões e uma língua esbranquiçada, fingiram não ter notado a minha presença. Desamarrei o tênis enquanto pensava no ridículo e na inutilidade daquela profissão. A acústica parecia perfeita. Pois ouvia até as batidas de meu próprio coração e os roncos de meu estômago em abstinência. Quando a cúria papal ainda seguia com rigor a ditadura de São Paulo169 e não permitia que mulheres entrassem nas igrejas e muito menos que cantassem ao Senhor, os corais tiveram que criar alternativas para dispor de alguns timbres e de alguns tipos de vozes, principalmente o contralto e o soprano. Sabe o que fizeram? Adotaram a idéia da castração e do eunuquismo, já que a voz do eunuco permanece infantil para sempre. Retirar os testículos de um sujeito ainda quando criança é garantir que ele terá por toda a vida a voz «glapissante» e aguda do soprano, a voz da mulher que o teatro precisava e a atingida, pode persistir –voltar- o desejo de contato sexual com crianças. Quando uma relação adulta teve de ser abandonada por morte, ausência ou doença do companheiro, pode afirmar-se novamente o desejo de contato sexual com crianças”. (Storr, p.98) 168 Extraído da Anthologie hospitalière et latinesque, citado por Badinter, p.150 169 Quando esbarro nesse tipo de gente gosto de recorrer a Cioran: “Sus consideraciones sobre la virginidad, la abstinencia y el matrimonio son sencillamente asquerosas. Responsables de nuestros prejuicios en religion y en moral, ha fijado las normas de la estupidez y ha multiplicado las restricciones que paralizan aún nuestros instintos (...) Una civilizacion podrida pacta con su mal, ama el virus que la roe, no se respeta a sí misma, deja a un San Pablo ir y venir... Por lo mismo, se confiesa vencida, carcomida, acabada. El olor de la carroña atrae y excita a los apóstoles, sepulteros ávidos y locuaces”. (La tentacion de existir, p.155).


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voz dos anjos que a igreja não sabia como simular. Pronto. Por casualidade caí numa variável importante do infanticídio e que ainda não havia mencionado: a castração infantil. Que se danem os culhões e que se salve a arte! Devia ser a premissa escamoteada dos papas, dos bispos e dos regentes daquela época.170 Dizem que lá pelo século XII a Europa teve uma super safra e um superávit incrível de cantores eunucos que, da igreja grega, passaram para a igreja romana e um pouco mais tarde para as capelas privadas. Em 1569, só na capela do duque da Baviera –por exemplo, existiam seis. Mas segundo os historiadores, só na administração do papa Clemente III (1592-1605) é que os castrados vão passar a fazer parte dos corais das capelas pontificiais, inclusive da Sistina. Os corais dessas capelas onde até então, os sopranos eram todos falsetti espanhóis de longa tradição, não resistiu à eficiência e à extraordinária «virtuosité» dos castrados. Allegri (autor de Miserere) e Francesco Grossi foram dois figurões na área. Gasparo Pacchiarott, Giusto Ferdinando e Giovanni B. Velluti ficaram estranhamente conhecidos por suas façanhas amorosas com as mulheres. E digo estranhamente, porque naquela época se achava que só poderiam estar usando os dedos ou a língua, já que ainda não se sabia que a retirada dos testículos não altera em nada a ereção. O fascínio por esses personagens «neutros» se espalhou por todas as partes. Em Bizâncio –escreve Grunbaum - foi uma verdadeira praga. (...) Durante o período Valeriano, existiam movimentos místicos em favor da castração religiosa e durante a Idade Média era muito freqüente os cristãos se automutilarem por motivos religiosos. O conhecido padre Orígenes, todo mundo sabe, era um dos que se havia castrado. Apesar de Maomé propor outras maneiras de viver em castidade, em Constantinopla não era vergonhoso ser eunuco inclusive, era sabido, que quatro dos grandes patriarcas não levavam mais nada entre as pernas. Uma seita russa conhecida por scaptzy (1885) chegou a ter trinta mil adeptos. (Grunbaum, p. 130) Historicamente os padres hititas (2000 a. C) estão na primeira fila dos castradores, seguidos pelos povos semitas. Na Suméria, eram os sujeitos castrados que cuidavam dos haréns e no templo dos faraós os que desempenhavam o papel de padres. No império romano, eram conselheiros políticos e na China, ocupavam lugares importantes no mundo dos negócios, chegando até a constituírem uma espécie de partido que, sabe-se lá por quê, era adversário mortal dos grupos mais letrados. E a idéia da castração passou a ser um ótimo negócio. Um negócio que resolvia não apenas a demanda dos gerentes das igrejas, dos mecenas e dos corais particulares, mas inclusive o problema econômico das famílias pobres, dos pais das vítimas e, claro, dos vigaristas da época que, de maneira semelhante aos já mencionados «compradores de crianças», começaram a comercializar literalmente os bagos de seus meninos.171 Na Grécia, um sujeito chamado Panionius, ganhava a vida castrando por encomenda, ou então a qualquer menino de boa aparência que conseguisse capturar. Depois os vendia por altíssimo preço em Éfeso. Nas ruas de Nápoles era comum deparar-se com esta propaganda transcendente: AQUI CASTRAMOS, E A BOM PREÇO. Apesar de naquele momento a igreja já se manifestar contra o eunuquismo e contra a castração, ficava de bico calado diante das evidências e não queria nem saber o que havia acontecido realmente por debaixo das cuecas de seus sopranos. Não parecia dar a mínima importância ao fato de, em alguns anos, só na Itália, até duas mil crianças serem submetidas à castração, principalmente nos estados eclesiásticos. E o sucesso dessa 170 “A época do Baixo-Império romano, os castrados já eram admitidos na qualidade de cantores nos edifícios religiosos, onde as mulheres não podiam cantar. Uma parte dos cantores da capela imperial era recrutada entre os castrados.” (Millant, p.187) 171 A península e certas vilas se veêm infestadas desses traficantes. Como antigamente, os cirurgiões improvisados são recrutados entre os barbeiros, que não hesitam em escrever sobre suas portas a indicação de sua vil profissão: Qui si castrano maravigliosamente i putti. “ (Millant, p.189)


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perversão durou até o final do século XVIII, quando muitos eunucos ainda trabalhavam na Europa, basicamente em óperas e em igrejas. Apesar de Gregório XIV, no século XVI e mais tarde Clément XIV terem tentado proibir a castração, foi só em 1903, que o papa Leão XIII conseguiu colocar fim, de maneira oficial, a esta prática.172 Em algumas comunidades australianas e africanas, como em algumas ilhas do Pacífico, vítimas do folclore de seus pais e da comunidade, as crianças ainda continuam sofrendo esta mutilação. É retirado o testículo esquerdo como prevenção da orquite e para aumentar a virilidade dos jovens. Em outras culturas, esta mesma extirpação –feita no ato do nascimento ou até aos oito anos de idade - tem como função tornar a criança mais apta a cavalgar, evitar a procriação de gêmeos e aumentar a fertilidade. Na Índia, entre os adeptos da seita Hijras, os meninos são castrados logo depois da puberdade. 173 Entre algumas tribos da Etiópia, o sujeito só é considerado pronto para casar depois que trouxer para a aldeia os órgãos genitais arrancados de outro... Relembro que no Brasil, membros de uma seita que tem ramificações em todo o território, foram recentemente condenados em Altamira do Pará, Maranhão e no Paraná por terem castrado várias crianças e adolescentes em seus rituais. Fato que lembra os sacerdotes da deusa-mãe da Frígia, Cibele, que tinham que se submeter à castração e que, para fazê-los aceitar melhor esse sacrifício, se lhes ensinava que Átis, esposo e filho de Cybele, ele próprio havia se arrancado os genitais. E essa aberração psicótica atingia também os sacerdotes de Atargatis, assim como os de Ártemis, em Éfeso e mereceu um versículo em Mateus: “Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; e há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a si mesmos por causa do reino dos céus. Quem pode receber isto, receba-o” (19-12)·. Enquanto estava imerso nessa historicidade vã e nesse corolário de idiotices, o coral fez uma pausa e uma mulher da primeira fila veio sorridente sentar-se ao meu lado. Apressome em colocar o tênis. Ela tem uns 120 quilos e está com a testa e as axilas suadas. Cumprimentou-me com a típica simpatia dos gordos. -Buenas tarde... -Buenas tarde... -Te gusta? -No! -No? -No! -Por quê? -No me gustan ni los corales, ni Bach. -Pero esto no es de Bach... Es más bien una Mazurka de Chopin...(exibe vitoriosa a partitura diante de meus olhos) -Es verdad... Pero asi mismo no me gusta... -Entonces por quê veniste? -Por mis pies y por los eunucos... -Eunucos?

172 Na Turquia foi abolida no final do século XIX e na África, no princípio do século XX. Nos EUA registrou-se em 1997, a existência de uns cinquenta ou sessenta pirados que, por razões diversas, se haviam castrado. “Nesse mesmo país, entre 1955 e 1975 –escreve Tannahill-, em San Diego, Califórnia, 397 ofensores sexuais preferiram ser castrados, ao invés de passarem longas sentenças na prisão. Na Dinamarca, entre 1929 e 1959, 300 prisioneiros fizeram escolha idêntica. Na Inglaterra, são preferidos os supressores químicos do impulso sexual.” No Brasil, de quando em quando se ouve a notícia de que um fanático religioso se passou uma gilete nos bagos. As cirurgias de «mudança de sexo» que alguns transsexuais e travestis estão se submetendo, pode ser uma versão moderna da psicose histórica, respaldada pela medicina e pelo Estado. 173 “Ces eunuques Hijras souvent se prostituent. Ils sont jeteurs de sort, marchands de talismans et viennent chanter dans les maisons à l’occasion des naissances ou des circoncisions de garçons. (Bonnard e Schouman, p.164)


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-Los niños castrados del siglo XII, que las madres y los padres vendian para que fueran convertidos en sopranos de las capillas... Hoy existen ustedes! Ahora las mujeres ya pueden entrar y cantar en el interior de las catedrales.... Nem sei porquê entrei nesse papo idiota com ela que, numa atitude fingida, estava fazendo de tudo para que a conversa durasse. Seus olhos cinzentos estavam inquietos. Abanava as banhas com a partitura. Também tirou os sapatos e riu. Quis saber mais sobre o assunto da pedofilia e do eunuquismo. Lancei-lhe alguns clichês e algumas das curiosidades mais chocantes sobre o tema. Ela oscilou entre o riso e a descrença. Ouvimos o farfalhar da batina de um padre. Nos olhamos como se lembrássemos das últimas notícias sobre abuso clerical de crianças. Ele finge procurar alguém ou alguma coisa. Tem as faces vermelhas como se estivesse enredado em alguma orgia imaginária, e um rosário de metro e meio amarrado ao redor das tripas. Quando desaparece por detrás do altarmor, ela cochichou-me cínica: -Acha que estamos no «território» de mais um? (falava-me em castelhano –lógico traduzo de uma vez para ficar mais fácil) -Mais «um» o quê? -Pederasta, pedófilo, castrador de criancinhas, punheteiro inveterado e mistificador do além? Quer mais? -Não sei... Você que mora aqui é que tem autoridade para dizer... -Todos são! Neste sentido sou uma teimosa e clássica anarquista espanhola. Toda teologia é demente e toda religião que agrega misóginos e ascéticos sempre será construída sobre a perversão pederástica... Toda essa neurose da oração só tem um objetivo: pedir a Deus o aniquilamento do desejo e das fantasias perversas... Os eremitas fugiam não do sexo com mulheres, mas do sexo com homens. É clássica a paixão do apóstolo Paulo pelo afeminado Timóteo... Quase todos esses dementes se castraram. Não sei se você sabe, mas o próprio Cristo teria dito a São Mateus: “que existam eunucos assim transformados para o bem do reino dos céus”. E por falar em Cristo -apontando para um imenso crucifixo banhado em ouro:- O que ele quis dizer realmente com a frase: «deixai os meninos e não os estorveis de vir a mim»? (Mateus, 19-14). Conhecendo a religiosidade e a rigidez desse povo e lembrando que historicamente sempre adoraram Jesus de dia e Satã de noite, não respondi. Entretanto, sem fugir do assunto e sem tergiversar, repassei-lhe um dado da pesquisa feita por de Quincey com 1356 delinqüentes sexuais nos USA que pareceu contentá-la: “os incestuosos que agiram contra irmãs adultas eram os mais religiosos de todos os delinqüentes...” –Ouviu, balançou a cabeça e sorriu sadicamente. Uma outra obesa do coral a chama. Enfia os pés anêmicos nos sapatos e antes de voltar para junto de seus companheiros, fala em tom de burla: -Nosotros somos apenas eunucos del espirito... Deu uns cinco passos e voltou para perguntar-me se conhecia a obra de um espanhol chamado Balthazar Gracián. –Es evidente! Respondi-lhe. Corri os olhos pelas estatuetas e ícones de gesso dependurados por todos os lados e tive a impressão de ouvir novamente a voz de Michelet que, dissecando a essência dessa confraria me alertava: veja como essa religião tem dificuldade para engendrar... Como seus anjos são pálidos, esbatidos, diáfanos!174 Reiniciam o ensaio da tal Mazurca de Chopin enquanto retorno às minhas «mazurcas» sobre os pedófilos, castradores, circuncisadores e infanticidas do planeta. Se a castração foi aparentemente banida das sociedades cultas do mundo, deixou em seu lugar uma castração simbólica: a circuncisão. Afinal, o ritual é quase o mesmo. E 174

Michelet, Jules, A feiticeira, ed Nova Fronteira, p.35, 1992, RJ.


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depois, (apesar dos mistificadores) tanto no simbólico, como no real e no imaginário, um testículo não se difere em muito de um pedaço do prepúcio. O ressentimento da criança e o horror à castração devem ser, legitimamente o mesmo. 175 Os meninos judeus são submetidos a esta idiotice ao oitavo dia de vida, já os muçulmanos do nono ao décimo terceiro.176 De cada quinhentos mil meninos que passam por essa barbárie, (por esta humilhação, e esta marca de submissão à vontade e ao poder de um pai castrador) 177dez mil são vítimas de operações mal feitas, com conseqüências estéticas e psicológicas desastrosas. Curiosamente Hitler e Stalin proibiram essa prática por considerá-la degradante para a dignidade humana (Chebel, p.p.16 e 11). Quando deixei a catedral à noite já havia se debruçado sobre a cidade. Fiquei vagando algumas horas, assistindo os comerciantes fechando seus negócios, as crianças ciganas mendigando a mando de suas mães, os estudantes cuspindo ora arroubos moralistas ora palavrões das portas dos ônibus, as luzes se multiplicando, os travestis e as mulheres da noite começando a representar os mais variados e falsificados papéis.178 Ninfetas recém saídas do banho tagarelam nas esquinas, exibindo o cheiro do xampu e uma dúzia de gestos frívolos e estereotipados. Homens cansados e deprimidos fumam seus charutos nas varandas ou nas janelas de prédios seculares, quase como sarcófagos, construídos ainda pelos engenheiros do antigo mundo árabe. Uma mãe desce de um táxi em prantos, dizendo a todo mundo que seu filho de nove anos desapareceu... No Brasil –associo - isto acontece cotidianamente. Milhares e milhares de crianças «fogem» de casa todos os dias. Vagabundeiam, se prostituem, transportam cocaína, caem no mundo do crime e depois aparecem mortas, crivadas de balas nas lixeiras, no fundo das casas ou nos camburões da polícia... No século passado «a criança fugitiva» era assunto repetitivo em todas as discussões psicológicas e psiquiátricas. São muitas as razões para essas fugas, mas na situação edipiana “é comum que a criança considere seu pai como um obstáculo insuportável. E esse pai que ela não pode matar, é a razão principal da sua ansiedade...” (Guy, p.10). Tudo bem, essa dialética de consultório ainda está vigente, mas e amanhã, quando a clonagem –espero - não deixar mais nem vestígios do pai, da mãe e da família nuclear? Da árvore em frente a um bar, morcegos alucinados dão rasantes quase suicidas para abocanhar umas esquisitas e avermelhadas mariposas. Ao perceber minha curiosidade, o dono do estabelecimento, um suposto espírito esclarecido, se aproxima e me comunica que não são hematófagos... -Hematófagos? Dou corda ao seu surto professoral. -Sim. .Estes são mamíferos quirópteros insetívoros... Um grupo que não se alimenta de sangue... Observe como seus membros anteriores foram transformados em asas... Mutação que se dá pela presença do patógio...

175 O tão discutido sentimento inconsciente que Freud denominou Complexo de castração se refere à ameaça experimentada pela criança quando constata a diferença anatomica entre os sexos” 176 “Naquele tempo disse o Senhor a Josué: faze facas de pedras, e torna a circuncidar segunda vez aos filhos de Israel. E então Josué fez para si facas de pedra, e circuncidou aos filhos de Israel no monte dos prepúcios” (Josué, V, 2,3.) 177 Ou então “de um demônio sinistro e sangrento que ronda durante a noite e que teme a luz do dia”, como sugere E. Meyer, na citação de Freud em Moisés e a religião monoteista. (Freud, p.3258) 178 A grande maioria dos travestis e das prostitutas costuma atribuir sua «profissão» e sua «degradação» a um estupro, a um abuso ou a uma indução ocorrida na infância, crimes quase sempre praticados pelo pai ou por outro adulto da família. Mas como tanto as putas como os travestis são mitômanos e mentirosos inveterados, e como tudo o que ocorre no mercado do sexo é falso, não dá para tomar essas declarações como «científicas». Se a vida em si já é um blefe, essa troca-troca noturna é a mãe de todas as falcatruas. Uma ou duas horas caminhando anonimamente pelas ruas mais perigosas de qualquer cidade do mundo é fundamental para se ter uma idéia real desses camelôs do rabo. Veados, travestis, putas e clientes alucinados que se lambem incansavelmente, representando a mais fajuta das paródias amorosas. Por debaixo da aparente genitalidade, o que se vê realmente é só o exibicionismo de uma personalidade bordeline, teatro, narcisismo, estrelismo, competição, brigas, histerismo e pura sedução. Talvez porque, como diz Braudillard, “a sedução é sempre mais singular e mais sublime que o sexo, e é a ela que atribuímos o preço máximo”.


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Enquanto ele ia discursando, num tom de voz cada vez mais histriônico e os morcegos continuavam dando piruetas como a esquadrilha da fumaça, minha atenção fez um rápido desvio e entrou num texto de Augusto dos Anjos, onde esse «mamífero quiróptero» aparece como metáfora: “A Consciência Humana é esse morcego! Por mais que a gente faça, à noite, ele entra imperceptivelmente em nosso quarto!”.


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Capitulo 9 O FASCÍNIO PELO HÍMEN O NEXO ENTRE VIRGINDADE E PEDOFILIA “O que me leva à loucura é a natureza dupla desta ninfeta – talvez de todas as ninfetas; essa mistura, em minha lolita, de uma infantilidade terna e sonhadora com uma espécie de estranha vulgaridade, derivada dos rostinhos atrevidos que aparecem nos anúncios e nas fotos das revistas, das rosadas imagens de criadinhas adolescentes...” Vladimir Nabokov Enquanto o ônibus deslizava silencioso pelas estradas que cortam as montanhas pontiagudas da Andaluzia, em direção a Gibraltar, ia distraidamente fazendo uma espécie de metafísica da carne e pensando nos costumes dos índios Tucanos, onde é de praxe um velho (comprovadamente impotente) enfiar o dedo na vagina das meninas para deflorálas... De repente, uma mulher elegante se levanta angustiada, caminha até o motorista para dizer-lhe que é estrangeira e claustrofóbica e que exige que ele abra pelo menos duas das janelas. Numa antiga lição de Melanie Klein se dizia que esse transtorno provém de duas fontes principais: da identificação projetiva sobre a mãe, que origina uma ansiedade de permanecer aprisionado dentro dela; e da reintrojeção, cujo resultado é um sentimento de que, dentro, se está prisioneiro de objetos internos rancorosos... De quando em quando entramos em pequenas cidadelas ou então contornamos outras um pouco maiores, com suas praças, prédios e ruas tomados pela solidão e pelo vazio. Poucos sinais de vida. Talvez seja pela hora ou pelo dia da semana. Da infância então, nem se fala. Absolutamente nenhuma criança solta e vadia, como se estivessem todas confinadas em suas escolas ou sido banidas da Espanha. E o problema maior nesse sentido, nem é a orfandade doméstica –como insistem os sociologistas - e nem a orfandade nacional –como esbravejam os cientistas políticos-, mas essa espécie de pedofobia que vai gerar um sentimento de orfandade universal junto ao de não Ser e de não Poder. Resultado de uma burocracia e de uma idiossincrasia piegas e colérica, não só ineficiente, mas mentirosa e corrupta, disciplinadora do tesão, do desejo e da criatividade das crianças...179 Teatro ambíguo do mundo adulto: onde (se reconhece) “l’enfant merveilleux en collusion avec le narcisisme des parents (ou se repudia) l’enfant terrible, tout puissant et destructer...” (Bernard de la Gorce, em Scarfone, p. 68). Viajar! Lançar-se de cabeça e sem escafandro nas profundezas do mar, rodopiar entre monstros tenebrosos, intoxicar-se com os venenos submarinhos, burlar do suposto instinto de morte e por fim gozar com o desespero de nossa alma à deriva... Não existe melhor ocasião para resgatar memórias, esboçar idéias e dinamitar as usinas de angústia construídas e instaladas numa espécie de pseudomemória há milênios, quase sempre com escombros de bobagens e de mal-entendidos. Estar na estrada há uns 40 anos é ter a chance de pensar-se e de repensar-se, de construir e desconstruir, idealizar e desqualificar mil vezes a visão barroca que se tem de si mesmo e claro, a visão que se tem dos outros, assim como dos fantasmas que regem a barbárie dissimulada do cotidiano... É

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É conhecida a comunidade rural Inis Beag, da Irlanda, onde as crianças são mantidas em total ignorância sobre a sexualidade.


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descobrir com Descartes, que em toda essa pantomima civilizatória, até mesmo a moralidade é provisória... Sob os efeitos do ar condicionado e das curvas os passageiros parecem mortos. Além do ronco de uma cigana com a boca enfiada na poltrona, não se ouve nada. -Tens 52 anos camarada! –ecoa malignamente uma voz no fundo de meu cérebro. Tento identificar sua origem, mas logo desisto com a desculpa de que é a voz maledicente de um Outro, apenas uma voz, uma voz saída do nada e que por si só se perderá novamente no nada das proteínas encefálicas... A elegante claustrofóbica está encolhidinha junto à janela e a cigana deixa escapar mais um dos catorze peidos diários “Não é a respiração –lembra Bakhtin, analisando a obra de Rabelais – mas o peido que é o verdadeiro símbolo da vida, o verdadeiro sinal da ressurreição” (p.336). Acomodo-me de maneira que possa vê-la por inteiro. As banhas de seu ventre tremulam nas curvas e os dedos curtos de seus pés estão todos deformados. As grandes maiorias dos gordos -dizem-, principalmente as gordas, mais cedo ou mais tarde se revelam mitômanos, mentirosos, manipuladores e chantagistas. Numa caixinha de plástico transparente que leva no colo há uma foto dos conhecidos cogumelos Agaricus Blazei. A tinta roxa das unhas lhe dá um aspecto esotérico. Segue peidando estrada afora e tendo pequenos sobressaltos com o ruído dos próprios gases.180 Deve morar em Algeciras ou em Granada e sua tataravó deve ter sido uma das vítimas da inquisição... Por aqui cada blasfêmia e cada heresia cigana era castigada com meses de prisão. Suas enormes tetas trepidam. Abre os olhos quando passamos rente a um precipício. Olha montanha abaixo, passa a língua vermelha pelos lábios e volta a dormir. Retiro da bolsa o pacote de recortes de vários jornais europeus que tive a paciência de colecionar durante a viagem e mesmo relendo só as manchetes, se tem à impressão de que o planeta inteiro está apavorado tanto com os massacres infantis como com a «comilança» de crianças que tem sido denunciada nos últimos meses. O papa promete pedir desculpas ao mundo pelo tesão desenfreado dos padres e principalmente aos coroinhas enrabados pela cúria norte-americana. Os Ministros de estado aparecem na TV e falam grosso contra os pedófilos da Internet e contra os pedófilos que podem estar espreitando em cada esquina de colégio, em cada «lar» ou até mesmo em cada uma de nossas consciências. (Todo homem é um estuprador em potencial! Denunciavam as feministas mais furiosas). A polícia exibe um homem de uns setenta anos que foi surpreendido bolinando uma menina de sete, enquanto os repórteres brigam pela melhor foto, pela melhor frase do «monstro» algemado e por uma suposta cópia dos Estatutos da Pedofilia. Se há uma histeria ou simplesmente uma falta subjacente ao transtorno do pedófilo, esta parece detonar, e de maneira fulminante, uma histeria e uma falta antiga e bem conhecida também na imprensa e na coletividade, causando mais susto, culpa e cegueira do que esclarecimentos. Apesar de todo o estardalhaço social com relação ao abuso sexual infantil, é importante repetir que essa mesma sociedade, com seus líderes, chefes e déspotas, sempre foi complacente com a escravidão, com a prostituição de crianças e até mesmo com a venda de «cabaços». Aliás, dificilmente se encontrará uma autoridade, um desses ditos «homens de bem» que em determinado momento de sua vida não tenha se jactado de haver desvirginado uma menina. O alto preço que até hoje é mantido por uma «virgindade», não é, evidentemente, pelo hímen, mas pela idade da virgem, palavra que 180 Misteriosamente, os peidos daquela mulher me trazem à lembrança três dados escatológicos: 1) que nas anedotas de magia negra, os celebrantes aparecem oferecendo velas ao diabo, às quais ele acende peidando sobre elas. 2) Que numa carta que Augusto dos Anjos escreveu à sua mãe (15-06-1912) ele menciona o longo período em que havia sofrido de constipação e 3) que no mundo das letras, das artes e principalmente da filosofia, a prisão-de-ventre tem sido uma inimiga fiel. Voltaire foi um dos constipados mais célebres. Ver Frexinos, Jacques.


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pode ser lida como eufemismo de criança. Apesar de entre alguns povos existir um medo mórbido às meninas virgens (pantenofobia), “os entusiastas –escreve Tannahill - sempre haviam declarado haver um prazer superior no defloramento de uma virgem, por causa do excitamento emocional, uma mescla de agressão, possessividade e brando sadismo” (p.402). O cinema, a literatura e as artes em geral, nunca deixaram de explorar eroticamente a adolescente virgem. Quem é que mesmo não se considerando pedófilo, não leu em êxtase o Lolita, de V. Nabokov? Ou que não perdeu o fôlego diante das telas Meninas-Mulheres do pintor francês Balthazar Klossowski (Balthus)? A maneira como se tratou ao longo dos tempos a questão da virgindade e especificamente do hímem de suas crianças e de suas adolescentes, não descarta um abuso de poder subjacente, uma perversão disfarçada em lei e nem uma prática pedófila oculta sob álibis místicos e tabus. Por debaixo de todo o cerimonial romanceado e a aura silvícola que envolvia o desvirginamento, a defloração, o despucelamento ou a desonra, poderia estar pura e simplesmente a tara e o desejo dos «iniciadores». 181 Se na Índia as meninas se agacham sobre um pênis de marfim num ritual dedicado ao Deus Shiva e entre alguns povos a ruptura artificial do hímem era feita por uma anciã (o que não quer dizer que ela também não pudesse estar gozando em sua função), em outras, como nas tribos de Portland e Glenelg, esse «serviço» era deixado a cargo dos homens brancos. Os Fenícios enviavam a noiva a um escravo para que a deflorasse. No Camboja eram os sacerdotes budistas que desempenhavam esse papel antes do casamento. Em algumas culturas, o jus primae noctis era guardado para o pai da menina e em tribos australianas o hímem era perfurado em uma cerimônia pública e em seguida, todos os assistentes, por ordem hierárquica, transavam com a menina. Entre asiáticos, curdos, ciganos e outros ignorantes, o defloramento em público tinha a função de «exibir» a virgindade da noiva e de promover o ego do noivo perante a comunidade. Existia também o chamado «direito do senhor», que garantia ao senhor/patrão o direito de passar a primeira noite com a recém-casada e em seguida entregá-la ao escravo, seu marido. Para o noivo ter o direito de ser ele o deflorador de sua mulher, devia pagar um imposto especial que consistia numa quantidade de queijo e de manteiga relativa ao tamanho do traseiro de sua futura esposa (Hirschfeld, p.62). E este abuso e mau caratismo disfarçado de costume ou ritual transcendente, perdurou por muitos e muitos séculos. Foi necessário esperar um longo tempo para ver os noivos e os maridos começarem a desconfiar e a ter consciência de que estavam sendo enganados. Sabe-se que o povo de Uruk ficava furioso com a insistência do rei em seguir reivindicando o direito de descabaçar as meninas antes de seus noivos, e que os reis e déspotas europeus, apesar da «civilização», desfrutaram desse privilégio praticamente até o século XVIII. (Na Suíça até o século XVI e na Baviera até o século XVIII) Se para os orientais a perda da virgindade era uma das formas latentes da morte, em Roma, uma virgem não podia ser condenada à morte e nos «filtros de poder» da Idade Média o elemento essencial era o suor de seis virgens. O mais poderoso «Elixir de longa vida» que se tem notícias também era composto de suor e hálito de virgens. As secreções das meninas virgens eram vendidas como remédio. O sangue da virgem curava a lepra. Em Portugal, uma virgem (Maria) cura diversas doenças comuns em crianças, com um simples toque de polegar. A invenção da partenogênese (nascer de uma virgem) era simulada muito antes do nascimento de Cristo. As religiões asiáticas estão repletas de «deuses» e de «messias» que foram gerados do nada. “O episódio bíblico foi uma ficção da igreja que, muito escrupulosa, não poderia permitir que Jesus nascesse de uma 181 Acabo de receber um e-mail anônimo mencionando uma pesquisa segundo a qual as mulheres que perdem a virgindade mais cedo são menos propensas ao estresse. Verdade ou a mesma mentira tribal travestida de civilidade?


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atividade tão rude como a cópula” (Gordon, p. 33). Até os pobres Tupinambás do Pará, expunham suas virgens às serpentes do lago de Juá (ver Cascudo, C). E não precisa ser um tarado incurável e nem andar com as veias cheias de Viagra para sentir o clima de erotismo e perversão que há em todas essas bobagens místico/esotéricas. Estudiosos de diversas áreas sempre estiveram inclinados a fazer interpretações românticas desse comportamento, sem se atreverem a levantar a hipótese de que esse costume poderia ser mais vil do que transcendente, uma prática canalha, da mesma natureza da nossa pedofilia contemporânea: uma racionalização, uma demagogia e um truque para enrabar as meninas da tribo.182 Enfim, que tudo não passava da mesma pulsão e da mesma fantasia que ainda hoje leva muitos sujeitos a encomendarem nas aldeias, nas fazendas e nos bordéis, meninas virgens para uma noite. E em algumas épocas essa demanda foi tão significativa que chegou a gerar um novo tipo de estelionatário: o falsificador e vendedor de hímens, refeitos por médicos e por charlatães. Se por um lado os xamãs, feiticeiros e silvícolas transformaram a virgindade e o desvirginamento em tabu, os padres do cristianismo florescente lançaram ao mundo os ingredientes da castidade e as vantagens teológicas para quem preservasse a película. “Tertuliano escreveu no início do século III um texto intitulado Sobre o véu das virgens e Cipriano, o Africano, um Sobre as vestes da virgem, obras que falam de mulheres que se conservaram virgens ou que escolheram o caminho da virgindade. (...) Metódio de Olimpia, morto em 311, produziu uma série de obras verdadeiramente consagradas à virgindade. (...) No curso do século IV, os discursos sobre a virgindade tornaram-se quase uma moda. (...) Dirigindo-se às mulheres, os bispos apresentam realidades penosas da vida conjugal, a dor dos partos, o mau humor do marido, a morte dos filhos, confrontadoas às belezas abstratas do ideal da virgindade... (...) Também há –claro - tratados que indicam como vigiar a virgindade dos rapazinhos, de modo a levá-los virgens à profissão monástica.”183 (Rousselle) No embalo do século XVII, se por um lado, poetas, ginecologistas, impotentes, parteiros e padres floreiam e colorem com todas as cores o mito do hímen e o mito da vulva imaculada, por outro, a literatura erótica de todos os tempos gira praticamente só ao redor deste tema. O hímen continua sendo “uma marca tangível de pureza, um «penhor», um «selo». É o ornamento dos costumes, a santidade dos sexos, o bem do pudor, o pão das famílias, e a fonte das mais santas amizades contra as agressões da concupiscência. Ele assegura a” clausura virginal “, a” guarda da virgindade “, serve de” cerca “ou de” muro “de separação” (Darmon, pp.184, 185). Numa enciclopédia casual, diversos tipos de hímens: o hymen semilunaris (semelhante a uma peneira); o hymen cribiformis (parecido a um disco); o hymen annularis; o hymen septus, fimbriatus, dentalus; o hymen microperforatus; o imperforatus, etc. Os homens babam nos travesseiros durante seus pesadelos eróticos e não se cansam de reclamar que tudo é proibido no sexo. As histórias pré-genitais e os desejos interditados emergem quando os guardas se distraem à porta dos neurônios. É difícil saber o que fazer com o desejo 182 Freud –por exemplo- relacionou e interpretou o tabu da virgindade e também o tabu da menstruação com o incômodo que o sangue provocava nos selvículas. “Para o primitivo, o enigmático fenômeno do sangrento fluxo menstrual se une inevitavelmente à representações sádicas. Interpreta a menstruação –sobretudo a primeira- como a mordida de um espírito animal e talvez como signo do comércio sexual com ele. Alguns relatos permitem reconhecer nesse espírito o de um antepassado, levando-nos a deduzir, com ajuda de outros fatos, que as adolescentes são consideradas durante o período como propriedade de tal antepassado.” (El tabu de la virginidad, p.2446) 183 “Se a virilidade legal se dá aos 14 anos, é por volta de dez anos –às vezes mais cedo – que o rapaz recebe sua primeira iniciação sexual que é homossexual. É também por volta dos dez anos – se isto não for feito bem mais cedo – que João Crisóstomo preconiza confiar o garoto a monges que assegurarão sua educação até os vinte anos. J.Crisóstomo afirma que esses meninos são geralmente violados, enquanto Libânio nos mostra o progresso das apalpações sob a cobertura dos banquetes, durante as festas de inverno, a insidiosa progressão que leva até a felação. Os meninos cristãos levados por seus pais aos banquetes oficiais, não eram de modo algum subtraídos a tais costumes.” (Rousselle, pp.159,160).


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descabido por uma vulva idealizada, imaginária e inatingível, (das irmãs e da mãe?). 184 A idéia fixa de uma xota «zero quilômetro» tem tornado crônica a insônia masculina e agravado a busca e a fúria. Uma criança virginal, uma mulher pueril, uma vagina sem pêlos, sem mácula e sem a marca de outro possesso. A fêmea idealizada ainda pelo menino... O oposto da mulher madura, fálica, exigente, rancorosa, ou já à margem de todo prazer. Pais «schizoo» que se surpreendem na embriagues do incesto,185 avós decrépitos que enfiam o indicador no sexo das netinhas, irmãos que comem as irmãs... E os eremitas circulando em estado crepuscular pelos desertos, abusando da virgindade dos meninos que a eles foram confiados.186 O hímen como um legítimo troféu que é arrancado na marra do meio das pernas da menina. Quase uma conquista de guerra, de cujo assalto ainda não se conhece o verdadeiro valor simbólico. E os homens contam vantagens dessa natureza nos cafés e nos feudos de pinguços. O número de cabaços quebrados funciona como um fortificador para o ego e a estima do molestador e corruptor.187 O pobre macho e sua miserável neurose parecem depender e nutrir-se dessa película invisível e dessa obscura membrana que, para alguns especialistas, nem sequer existe. 188 “A ligação sentimental ao hímen, escreve Darmon, p. 185- responde a aspirações profundas. O culto dessa película mítica, objeto de devoção verbal e de adulação mesmo entre os próprios céticos, é sua conseqüência lógica. A necessidade de crer em um ideal de pureza e de castidade está muito fortemente enraizada nas estruturas mentais. Nem o racionalismo, nem a observação anatômica são capazes de abalar os fundamentos dessa potência simbólica.” E existirá algum tipo de cura para essa idiotice? Na página 435 da Montanha Mágica, pode-se ler que o melhor remédio para a concupiscência e para os males da libido são as matemáticas. Diz o texto que um procurador de nome Paravant, depois de passar por sérias tentações, salvou-se mergulhando nas matemáticas. Entregou-se tanto a essa terapêutica, que chegou até à quadratura do círculo...189 Nos cafundós mexicanos onde vivia a curandeira Maria Sabina, ouvi de um homem de uns 35 anos a confissão explícita de que tinha uma paixão reprimida por menininhas e por seus hímens. Freqüentava os arredores dos colégios, os Mac Donald’s e os parques como um chacal e as devorava com olhares e com fantasias... Jurou quase em lágrimas não ir nunca ao ato. Ao adivinhar minhas suspeitas e minha desconfiança, apressou-se em completar: -E não te faças de «pendejo» porque todo mundo gosta! Como dizia Balzac: se a loucura não aparece na primavera vai aparecer no inverno... 184No México, nesse país que tem atualmente mais de 16 milhões de meninas e meninos prostituindo-se nas ruas, o fascínio por uma virgem chegou ao surrealismo de «comerem» até a estátua da Virgem Maria. Sim, não estou brincando. “No século XVI, na Basílica de Soledade, no México, uma estátua de Maria passou pelo vexame de se ver desvestida de noite. Conta-se que várias vezes se percebeu que suas vestimentas estavam molhadas e com sinais de sal, donde se conclui que foi possuída pelos pecadores de Tehuantepec...” (San’Anna, p.69). 185 Entre os índios Kajaba (Colombia) o crime de uma relação incestuosa só era redimido com a repetição do crime, isto é: com outra relação incestuosa. Haja cinismo! 186 “Mais do que as mulheres, tão raras no deserto, são os rapazes que suscitam os desejos de solitários incapazes de resistir à satisfação. (...) Os monges dizem claramente que os meninos que lhes eram confiados por seus pais, constituíam uma tentação (...) É o caso de um menino doente levado para o deserto por seu pai, que implorava sua cura por meio da santidade de um velho e que foi abusado por um discípulo do santo (...) O abade Pafnúcio recusou ter consigo um jovem cujo rosto lhe parecia feminino(...) Macário, que vira acontecer muitas relações sexuais com crianças do deserto, sugeria: Quando virem rapazinhos em Cetéia, arrumem as trouxas e vão embora.” (Rousselle, pp.176,177) 187 No livro homônimo de Eça de Queiroz intitulado O crime do padre Amaro, um outro padre de nome Benito, confessa já ter transado com uma menina, uma criança virgem. E recentemente, na Inglaterra, um tal de James White, depois de confessar o abuso contra três meninas e ser atacado na rua pela multidão, suicidou-se. Também o principe C. está sendo denunciado por ter sido flagrado enrabando seu mordomo (poder Versus acosso e assédio Versus abuso sexual). 188 Leio no Tribunal da Impotência, de Darmon: “...esse amálgama heteróclito de considerações não é senão “pura fantasía” e “ficção poética”, monte de tolices. Ambroise Paré admite com desembaraço que em vinte mil virgens essa película não é encontrada. Sua presença raríssima sob a forma de “panículo contra natureza” está por outro lado ligada a um mal orgânico. O ilustre cirurgião jamais revelou o menor sinal dele durante a dissecação de meninas.” (p.188). 189 Mann, Thomas. Plaza & Janes, S.A Editores, Barcelona, 1979.


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E é assim que o hímen faz história. Modifica os costumes. Ocupa um lugar maldito no imaginário da época. Coloca as crianças, principalmente as meninas, na mira de um desejo masculino antigo e incontrolável. Associa-se corpo com dinheiro (por sua vez o dinheiro com avareza e com o excremento, - ver o defecador de Goslar); com propina; com condescendência... E no meio de toda essa veneração, aparece W. Blake para lembrar que toda prostituta já foi virgem... Virgindade e hímen passam a ter um preço especial na bolsa de valores prostitutivos daqueles dias, 190 cresce a demanda sexual por crianças e a prostituição infantil passa a estar cada vez mais em pauta no mundo virilóide. 191 No século XIX, foi o jornalista Stead quem fez a denúncia do que acontecia no submundo londrino, relacionado à prostituição de crianças e ao mercado da virgindade (Ver Child Love ou Amores precoces (1898) na literatura erótica desse país). “Alguns bordéis especializados em virgens iam procurá-las no Grande Terminal Ferroviário, aonde chegavam os trens vindos do campo; outros achavam os parques londrinos mais proveitosos como campo de caça. Não era difícil persuadir babás ou balconistas a sacrificarem sua virgindade por um guinéu de ouro (...) Certos bordéis tinham seus próprios médicos para o fornecimento dos certificados de virgindade que os clientes costumavam exigir.” (Tannahill, pp. 404, 405). E aqui não poderia deixar de lembrar que a Rainha Elizabeth era uma virgem obsessiva que fazia de seu hímem um fetiche patriótico. Era de se prever que o somatório da vilania dos comerciantes e a babaquice masculina sobre o corpo da mulher, resultasse numa promiscuidade de ruínas e numa indústria inédita de fraudes aos «consumidores». Para os erotólogos, forjar e refazer hímens passaram a ser um negócio lucrativo. Um pedaço de tripa de carneiro adaptada entre um lábio e outro e pronto: lá está o hímen renascido.192 Um pedaço de esponja ou uma bexiga de peixe cheia de sangue introduzida na vagina antes da relação também dava ao cliente (e otário) a ilusão que precisava. Adstringentes, aloés, sanguessugas, cacos de vidro etc, dificultavam a penetração e produziam o sangramento mítico, a sensação de estar violando a parceira que por não ter um dono específico, pertence a quem tenha dinheiro para alugá-la.193 Este negócio passou a povoar o imaginário masculino de maneira tal que os puteiros das principais capitais do mundo dito civilizado, como se estivessem regredindo aos rituais tribais, passaram a incluir entre os shows de suas boates e casas noturnas, o espetáculo do defloramento.194 Um jazz, uma traviata, um tango qualquer e alguém lá no palco fazendo sexo oral 195 ou «descabaçando» uma suposta virgem, enquanto uma platéia boquiaberta se dava o luxo de bebericar o cálice transbordante de suas íntimas e nefastas perversidades. E esse fascínio por «desvirginar» é tão grande que até em alguns textos sagrados há a promessa de que os bons, ao chegarem no paraíso receberão dez mil virgens como prêmio. E mais: que as desvirginadas num dia, voltam a ser virgem no outro. Delírios masculinos e falocráticos à parte, seria importante saber o que essas mulheres pensam e sentem a respeito disso, já 190 Em Salvador (BA), foi criada no ano de 1584 a confraria das Onze mil virgens, que até o momento não descobri de que se tratava. 191 Recentemente uma mãe foi condenada a 17 anos de prisão nos EUA, por permitir que sua filha de 12 anos fosse molestada por um homem de 50, em troca de 40 dólares. 192 Expressão usada no Japão para os hímens refeitos. Sabe-se que nesse país os homens dificilmente se casam com uma mulher que não é mais virgem. 193 Les femmes se senten toujours sur le territoire de l’autre; la rue ne leur appartient pas; leur corps même ne leur appartient pas, leur corps fétichisé par le regard du chasseur, par son langage même - «marie-salope, boudin, lapin, canard»... (Fargier, p.207) 194 “Antes de ser revivido pelos notáveis médicos Avicena e Alberto Magno, cujas listas de “sinais de virgindade e/ou sua corrupção” transformaram-se em guías inestimáveis para os barbeiros, guardadores de casas de banho e prostitutas aposentadas, os quais suplementavam seus ganhos com processos para a restauração da virgindade.” (Tannahill, p.406) 195 Recentemente um policial foi preso e condenado à prisão perpétua em Cingapura, por estar fazendo sexo oral com uma menina de 16 anos.


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que nestas condições, o entusiasmo e o ânimo do desvirginador deve ser completamente diferente do da desvirginada. Como se notou até aqui, se no universo do infanticídio a mulher aparece freqüentemente como protagonista, como aquela que abandona e que mata seus próprios filhos, no caso do incesto e da pedofilia, é mencionada quase sempre como vítima, como aquela que sofre o abuso, no máximo como cúmplice de algum abusador e poucas vezes como aquela que abusa. Mas, como se sabe que a pedofilia existe também entre elas, qual seria o truque, as estratégias e o motivo desse silêncio? Será que para a «Sagrada Família», os atos libidinosos, quando praticados por mulheres, seriam acompanhados por um horror ainda maior? Será que significam mais subversão que o próprio assassinato, e por isso, não podem ser mencionados em hipótese alguma e nem sequer imaginados? Claro que esporadicamente se ouve dizer aqui e ali, que uma empregada doméstica foi surpreendida fazendo sexo oral com um menino de três ou quatro anos; que uma mulher de vinte obrigava uma priminha de sete chupar-lhe as tetas; que uma executiva gostava de exibir-se nua diante dos filhos de sua secretária; que uma mãe banhava-se com os filhos adolescentes ou que uma freira dava longos beijos e introduzia o dedo nas meninas etc, mas nada que se compare ao que ocorre no prostático mundo masculino. Será que por não haver no abuso feminino nem sêmem e nem penetração, é mais fácil anonimizar a prática? Ou será que –no caso dos meninos abusados -acham tão bom o “abuso” da mãe, da irmã, da tia, da empregada etc, que jamais as denunciam? A simpática cantora mexicana, já citada aqui, é uma das poucas mulheres que esta presa sob acusação de ter cometido este tipo de luxúria e delito.196 Aluísio Azevedo, em seu Cortiço, p.131, descreve assim o assédio pedófilo homossexual da prostituta Léonie sobre a menina Pombinha: “Pombinha arfava, relutando; mas o atrito daquelas duas grossas pomas irriquietas sobre seu mesquinho peito de donzela impúbere e o roçar vertiginoso daqueles cabelos ásperos e crespos nas estações mais sensíveis da sua feminilidade, acabaram por foguear-lhe a pólvora do sangue, desertando-lhe a razão ao debate dos sentidos.” Quem tem a mínima noção de libertinagem percebe nessa descrição que o escritor maranhense está projetando sobre elas seus próprios cânones, transes e delírios pedogenitais. O relato íntimo de Léonie e de Pombinha sobre o ato pedófilo, certamente o teria desencantado e decepcionado. Por quê? Basicamente pela ambigüidade feminina. Pelo ser e não ser; estar e não estar; desejar e não desejar; transgredir e normalizar tudo permanentemente... Lendo A mãe dividida de Rozsika Parker, não só se compreende muito sobre tudo isto, mas também se encontram elementos para deduzir que não se trata apenas da mãe dividida, mas da avó, da filha, da amante... E do gênero inteiro. E não se trata de uma ambivalência apenas com relação aos filhos, mas com tudo, inclusive consigo mesma diante do espelho. Apesar da inata tentação machista e de saber como a pressão cultural conspira permanentemente contra as mães e contra as mulheres, algo me alerta para a possibilidade delas, no fundo, serem histórica e filogeneticamente as maiores vítimas de toda a barbaridade que é o sexualizar-se, o reproduzir-se e o existir... 196 Voltando a falar do México, nestes dias prenderam na Tailândia um sujeito norte americano de 67 anos que só no estado mexicano de Jalisco havia abusado de 79 meninos de rua. Esse senhor tinha um hotel na cidade de Puerto Vallarta, onde se hospedavam muitos confrades pedófilos dos EEUU.


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Capitulo 10 PEDAGOGIA, PEDERASTIA E PEDOFILIA “Não encontrareis aqui nenhum corpo agradável. Não há mais do que corpos pedagógicos” Gombrowicz No mormaço civilizatório pelo qual passamos, é impossível pensar no mundo pedagógico e pedófilo/pederástico, sem cair em território grego, pois, como todo mundo sabe, pelo menos nesta tríade eles foram mais do que mestres. Inventaram os truques da maiuêutica, o moralismo platônico, as lições peripatéticas e através deles os sofismas afrodisíacos e as manhas para enrabar seus pupilos e seus alunos. E foram tão eficientes e tão incomuns que a educação, a política e a metafísica dos últimos vinte séculos não parou de falar deles; que a psicanálise não se cansa de reinterpretar os Diálogos e que os pederastas, evidentemente, elegeram a Sócrates como seu tutor e patrono. Mas antes de seguir neste assunto vamos às últimas notícias: No universo pedófilo - turista alemão é preso em Florianópolis «comprando favores sexuais» de dois menores no interior de um carro. Importante líder político do Acre é encarcerado depois da descoberta de que abusava de crianças. Nesse mesmo Estado, um executivo é acusado de transformar um ônibus em bordel infantil, criatividade que lembra os barcos que deslizam pelo Rio Amazonas com os mesmos fins. Funcionário inglês de um organismo filantrópico do Estado de Goiás foi acusado de abuso sexual infantil. Médico pedófilo é solto e volta ao trabalho. Motorista de ônibus escolar do DF é acusado de molestar várias crianças. Professor de escola pública paulista é afastado por suspeitas de atos libidinosos com alunos. Nesse mesmo Estado, um padeiro, um manobrista e um dono de banca de jornal foram detidos com um imenso arsenal pedófilo em suas casas: fotos de meninas nuas, vídeos, bonecas, calcinhas etc. 197 Em Brasília, o «tio» que administrava uma escolinha de futebol abusou sexualmente de dois sobrinhos. Um padrasto de setenta anos estuprou uma mocinha de catorze no Ceará, no mesmo dia em que uma central de notícias divulgava que no Brasil, em 25% das famílias, não importa a classe social, ocorre incesto. Dois famosos cineastas estrangeiros estão sendo processados pelo mesmo motivo. Na Nicarágua, a líder da Comissão Feminista daquele país, ao ser acusada pela igreja católica de promover o lesbianismo e a pederastia, contra atacou dando o nome de vários sacerdotes e líderes religiosos que, em nome de Deus, abusavam de meninas e de meninos. Um psicanalista do RJ, num artigo intitulado A confiança traída, se refere ao pedófilo como abjeto, ignóbil, vil, e à prática da pedofilia como algo sórdido e repugnante. Já um membro do Grupo Gay da Bahia, no artigo O mito e a realidade, ironiza a exagerada preocupação social com o assunto, dizendo que assim como nunca viu um extraterrestre, também nunca viu um pedófilo. Conclui afirmando, na base da ironia, que é gerontófilo e que tarde da noite, disfarçado numa capa e boné pretos, ronda o abrigo dos velhinhos. Tanto na insurreição do psicanalista como no sarcasmo do gay é evidente o inefável incômodo que a temática causa.198 197 Não lhes parece significativo que nos sex shop do mundo inteiro se vendam calcinhas e lingerie para crianças? E mais estranho ainda, que no Japão os parlamentares estejam criando regras aos vendedores de calcinhas infantis? 198 A senadora e psicopedagoga que preside a CPI da prostituição infantil no Brasil, relata a um jornal local que os depoimentos das meninas abusadas chegam a causar-lhe insônia, pesadelos e que as vezes chega até acordar banhada em suor. (Ver CB 1º-01-2004)


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No universo infanticida - Pintor mata filho de cinco meses em Luziânia. Na China o artista Zhu Yu causou escândalo com a performance onde aparece simulando devorar um bebê natimorto.199 No Paraná uma mãe abandona sua filha recém nascida. No Recife um pai mata o filho de quatro anos a socos. Na grande São Paulo são encontradas duas crianças num latão de lixo. Na Ceilândia, um padrasto estupra e degola a enteada de 11 anos. De passagem por Londres, Michael Jackson provocou escândalo ao ameaçar jogar seu filho pela janela à multidão cretina e fanática que o recepcionava. Na Austrália outro idiota e astro da TV instiga um crocodilo usando seu filho de um mês como isca. De onde teria emergido nesses retardados esse súbito teatro filicida? 200 E por falar em Londres, Marx, em seu Kapital, menciona com insistência a exploração, o abandono e o morticínio infantil de sua época naquela cidade. Ele próprio teve três filhos que morreram antes dos oito anos. Se em determinado momento fiquei impressionado com a doméstica de Alcobaça (Bahia) que, para poder namorar, dopava com maconha sua filhinha de três anos, fiquei mais impressionado ainda ao descobrir que as trabalhadoras inglesas, duzentos anos antes, para poderem ir ao trabalho, valendo-se de derivados do ópio, faziam o mesmo com suas crianças. A negligência, a miséria e os acidentes infantis eram tantos que só na semana de 1 a 7 de dezembro de 1884 –segundo Engels-, morreram seis crianças, todas queimadas com água fervente. (Acidentes realmente? Ou houve um pequeno empurrãozinho da pedofobia histórica?). Apesar de muitos políticos se elegerem e se reelegerem flertando com a bandidagem empresarial e fazendo demagogia sobre a escola e sobre a educação, a primeira continua sendo o mesmíssimo e cruel cárcere infantil de sempre e a segunda, o mesmíssimo e cruel lugar de flagelação e de reprodução das ideologias castradoras vigentes. A família, a teologia, a religião, a pátria, a cidadania, o trabalho, o pudor, a castidade, a moda, a tolerância e a modéstia social. Toda esta usina de inveja e todo este lixo idiossincrático de náufragos é transmitido nas escolas, às vezes, através dos discursos ingênuos e escancarados dos «mestres», dos «padres» ou das «diretoras», outras vezes, por debaixo dos panos, no meio das historinhas infantis, por detrás dos algarítimos, das lições ecológicas, gramaticais e humanistas... Como lembra Schiffter em seu livro sobre o blablablá dos filósofos, é repisando o dever de ser mais humano que se procura manter na coleira o desejo dos outros. -Meus filhos...-insistia a mãe em sua axiologia da ignorância - No mundo de hoje é necessário alfabetizar-se e comer... O medo do analfabetismo e da desnutrição tem feito dos pais autênticos torturadores. Os versos de Camões e de Drumonnd assim como a merenda escolar tem atormentado mais crianças do que se pensa. Sem falar, da tia que, depois que alguém defendeu a tese de que se masturbar leva à loucura, e de que as brincadeiras sexuais infantis são atuações funestas e demoníacas, fica de plantão na porta do banheiro... Além disso, é visível que os «mestres» estão voltando a ter cada vez mais poderes sobre os alunos. Não é necessário muito para uma criança ser fechada num quarto escuro, levar uns cascudos, ser encaminhada para o psicólogo ou para o psicopedagogo, ser levada para casa ou até

199 Outras notícias do gênero afirmam que na cidade chinesa de Shenzhen, próxima a Hong Kong, estão sendo comidos fetos humanos, não apenas como especialidade culinária (no preparo de bolos de carne, ensopados temperados com gengibre e casca de laranja, etc) mas também para a cura de asma e para melhorar a pele. “A médica Zou Qin, da Clínica Luo Hu, explicou que as pessoas normalmente preferem fetos de mulheres jovens, do primeiro bebê e do sexo masculino (...) Os fetos funcionam como suplementos alimentares, fortalecem o organismo e melhoram as funções renais. São desperdiçados se não os comemos. As mulheres que fazem aborto aqui não querem os fetos. Além disso, só comemos os fetos já mortos, não fazemos abortos só para comer os fetos...”. No ocidente, também são conhecidos os tratamentos geriátricos com medicamentos a base de placentas. Talvez a verdadeira história do canibalismo humano ainda não tenha sido completamente revelada. 200 No livro de Christopher Andersen, sobre M.Jackson, (Uma biografia não-autorizada), o astro pop é descrito como um «molestador de meninos imberbes»


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mesmo enviada para uma das tenebrosas FEBENS.201 Nos USA, (nesse país que segundo a imprensa dinamarquesa, mantém cinco crianças com menos de 12 anos encarceradas na prisão de Guantánamo) não faz muito, escolares de oito, dez anos, foram seriamente reprimidos por terem sido surpreendidos se beijando. Só um cego não vê que a escola – como dizia Bernard Shaw - é um instrumento para os adultos defenderem-se das crianças e que a função da educação continua sendo “inibir, proibir e reprimir os instintos agressivos e sexuais delas”. E por ironia, esse processo repressivo é quase sempre administrado pelo sujeito que mais tarde, todo mundo fica sabendo, foi afastado de seu posto e da escola por ter sido surpreendido bolinando seus alunos... Pode ser que advenham daí as freqüentes acusações de que nem os adultos e nem os pais são os sujeitos mais adequados para «educar» uma criança, já que na grande maioria das vezes eles não teriam mais alegria, nem curiosidade, nem criatividade e nem tesão por nada e que só estariam representando o papel de «professores» para resolver problemas de sobrevivência.202 Em função da própria educação infantil de que foram vítimas, não conseguiram amadurecer afetiva e psicologicamente, perdendo o lugar no mundo da infância sem, contudo conseguir ocupar aquele que lhes estava previsto no mundo adulto. A partir do quê, a opção pela pedagogia, apesar do falso glamour que a cerca, passaria a ser vista até como um truque secreto para voltar e permanecer mais tempo lá naquele ambiente «idílico» onde acreditam ter perdido suas referências, e o lugar onde podem mais facilmente ocultar os seus handicaps vitais. Mesmo com a barba de um ayatolá e com os outros disfarces típicos da classe, continuam infantilizados, imobilizados por suas inseguranças, passivos e atormentados pela cólera. Não apenas como professores, mas como pessoas, são os genuínos transmissores de mensagens ambíguas e os mais eficientes fabricantes de neuróticos. Isto, sem falar do mercado editorial e dos livros exclusivos para crianças que enriqueceram muitos vivaldinos e que infestam a pré-escola e o primeiro grau. Milhares de milhões de livretinhos medíocres engendrados por professoras que têm alergia ao giz ou por adultos infantilizados que continuam tratando as crianças de uma maneira regressiva ou como se fossem retardados mentais.203 Neles se lê tudo no diminutivo, e as coisas mais banais do mundo são idealizadas, mistificadas e escamoteadas. No meio das pernas –por exemplo - o menino tem um «pintinho», enquanto a menina tem uma «pererequinha». Quando alguém morre «foi encontrar o papai do céu». Não se caga pelo cu, mas se faz cocô pelo bumbum, etc, etc. Uma bobageira sem fim que além de dificultar a passagem do sujeito para o real, o obrigará mais tarde a enfrentar-se com dez ou vinte anos de análise. Tenho certeza que as crianças de qualquer idade preferem os textos de Einstein aos de Monteiro Lobato e os de Copérnico aos dos irmãos Grimm. Que as crianças de sete ou oito anos sentiriam mais entusiasmo por medicina nuclear e por física quântica do que pelos textos moralistas de Esopo e de La Fontaine. Façam um teste: leiam uma página de Andersen ou de Perrault e em seguida uma de Borges, para ver como seus alunos elegerão em massa o último. Um dos mistérios mais intrigantes das sociedades atuais é o fato de que apesar de todo mundo saber que os primeiros anos de vida são decisivos para a soberania futura da pessoa, mesmo assim ninguém se atreve a meter definitivamente os tanques sobre as cercas Instituições quase macabras, criadas na década de 70 pelos «pedagogos» e chicoteadores do regime militar. “São as mães responsáveis pela estupidez de seus filhos? Isto é o que afirma Nicolás Bujarin. A família limita a inteligência das crianças e além disso nada indica que os pais sejam os educadores que estas necessitariam. Entre centenas de mães, apenas uma ou duas são capazes de ser educadoras”. (Mannoni, p.41) 203 “O desejo de recuperar experiências passadas é essencialmente característico da sedução homossexual de meninos. Em muitos casos o menino atrai porque representa algum aspecto da própria juventude do homem. Amando um menino o homem pode estar admirando o menino que gostaria de ter sido ou realmente foi. Professores homossexuais muitas vezes têm um sentimento especialmente terno por meninos valentes e ousados, e uma emoção semelhante pode ser percebida em muitos líderes juvenis, visitadores de prisões e assistentes sociais que evidenciam um interesse particular por delinquentes juvenis.” (Storr, p.99) 201

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desses presídios infanto-juvenis disfarçados e nem descarregar exaustivamente as metralhadoras sobre os teóricos-tiranos de toda a idiotice educacional institucionalizada...204 E isto, bem entendido, sem alimentar nenhum tipo novo de idealismo, pois como previne Mannoni: “Não existem diferenças fundamentais entre a educação autoritária e a progressista, uma vez que as duas estão baseadas em uma coação que em um caso toma a forma de violência física e no outro uma forma mais sutil de violência psíquica oculta. Trata-se de persuadir a criança de que consinta. Provoca-se assim uma situação na qual a criança, sem possibilidades reais de eleição, suporte as condições que lhes são impostas acreditando que tem a iniciativa”. (p.34) E os mitos relacionados à educação se disseminaram tanto pelos reformatórios, ONGs, sacristias e parlamentos, que hoje qualquer babaca se atribui o direito e o papel de educador, compulsão que vem torturando o mundo infanto-juvenil desde a época das cavernas e nos primórdios da espécie, onde os adultos peludos e sanguinários, às custas de bordoadas, já pretendiam transmitir algum tipo de «ética» para seus pequenos descendentes. De lá até aqui, os séculos testemunharam absurdos e chacinas indescritíveis e a história veio sendo construída tanto na retaguarda dos colégios e das penitenciárias infantis, como na dos matadouros... Da mesma placenta surgiu o homem e a pedagogia e de dentro dela foram sendo excretados os educadores, os tutores, os Conselhos e os Ministros da educação... Cada um com seu porrete e com seus chicotes. «Grandes» educadores e «eminentes» teóricos por todos os lados. Dos mais recentes, Rousseau, com seu Emílio, e com sua idéia de uma educação ideal ocupa até hoje um pedestal privilegiado... Em cada continente vinte ou trinta de renome... Depois apareceu o velho e neurótico Schreber (o pai), com seus instrumentos e técnicas que, pode-se dizer, pressagiaram o sistema educativo nazi e de todas as nossas penitenciárias. 205 Se a criança, que em 98% dos casos já nasce contra a vontade dos pais, é percebida como o foco do desconforto, então, pelo menos numa espécie de consolo (ou vingança), é necessário moldá-la, vergá-la, fazê-la baixar a cabeça diante dos adultos... Transmitir-lhe a ferro e a fogo os bons costumes da civilização... EDUCÁ-LA... Educá-la para a fé e para o trabalho, mas principalmente para o exercício da cidadania e para o silêncio... Nem que para isto seja necessário transformá-la aos poucos em algo semelhante a um cofre vazio.206 E às vezes, mais freqüente do que se pensa, até num objeto sexual... Crianças comunistas, crianças guerrilheiras, crianças de rua, crianças capitalistas, crianças autistas, crianças nazistas, crianças boxeadoras, crianças evangelizadoras, crianças suicidas, crianças invejosas e rancorosas, crianças budistas, crianças-escravase-amigas-do-rei, crianças de Deus, crianças maconheiras, crianças dos dois gêneros e afiliadas de Satanás...207 E com que freqüência se vê alunos e discípulos submissos em mosteiros ou em seminários divinizando seus mestres, enquanto estes, aproveitando-se da hierarquia e da

204 E aqui não dá para deixar de mencionar o famoso e mistificado Dr. Bruno Bettelheim (1903-1990), por trinta anos diretor respeitado da Escola Ortogênica de Chicago, instituição que acolhia crianças autistas. Em 1938, como todo mundo sabe, o Dr em questão permaneceu por algum tempo em Dachau sob as botas da Gestapo. Pois bem. Depois de sua morte, através de cartas de exalunos, descobriu-se o impensável: no interior dos muros da escola dirigida por ele, agia como um “tirano brutal fazendo reinar o terror entre as crianças”. Teria se inspirado na pedagogia dos verdugos de Dachau? (Ver Dicionário de psicanálise, E. Roudinesco e M. Plon, p.63.) 205 Vejam como os três pontos principais da doutrina pedagógica do Dr. Schreber ainda estão presentes até nas nossas mais «democráticas» escolas: 1. A criança é má por natureza. É necessário isolá-la de sua natureza e submetê-la a um adestramento moral e físico (alternando banhos de água fria e quente, terror e sedução desde os três meses); 2. a criança deve aprender precocemente a arte da renúncia; 3. o adulto deve adquirir um domínio não apenas sobre as tendências da criança mas também sobre seu corpo.” (Mannoni, p.p.26,27) 206 Ontem foi preso a bordo de um avião brasileiro um homem americano, de uns trinta anos que, irritado com o choro de uma criança de colo, jogou-lhe um copo de água no rosto. 207 Recentemente, o gerente da seita Crianças de Satanás, em Roma, foi acusado de praticar pedofilia


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diferença de idade abusando sexualmente deles.208 É importante lembrar que um elemento fundamental para a fantasia sexual do pedófilo é a assimetria entre ele e a vítima (o professor com o aluno, o pai com o filho, o padre com o seminarista, o médico com o paciente, o mestre com o discípulo etc) e que o objeto de seu desejo seja «ingênuo», «inocente» e indefeso é a condição essencial para seu gozo. O sol se punha quando ouvi os primeiros gritos vindos do interior do CAJE. Uma pequena aglomeração no portal de entrada, um helicóptero sobrevoando os barracões e as cercas. Problemas com as visitas? Alguma fuga? Uma rebelião? O enforcamento de um menor? As cercas lembram os Campos de Concentração. Os guardas correm de um lado a outro, quase felizes por finalmente poderem quebrar a rotina de todos os dias. Dois tiros. Muita confusão. Um grupo de mães grita do lado de fora... Depois se convulsiona em soluços... Depois silencia para dali a pouco recomeçar num vozerio inarticulado que nasce e morre de uma dor incurável. É quase inacreditável que os médicos, os professores, os políticos, os juízes, os anarquistas e a sociedade como um todo admita, sem grandes angústias, a existência deste cadeião espúrio abarrotado de crianças... Assim como é quase inacreditável que, há séculos, ignorem as condições de vida dos avós e pais dessas crianças e de tantas outras que vegetam nas periferias e nas «invasões» como porcos, atolados em verdadeiros “viveiros de larvas sensuais em que irmãos dormem misturados com as irmãs na mesma cama; paraíso de vermes; brejo de lodo quente e fumegante, donde brota a vida brutalmente, como de uma podridão”.209 O camburão estacionado lembra aquele do canil. É com essa cadeia ambulante que nas ruas das grandes cidades se recolhe crianças, bêbados, loucos e cães vadios... Basta que um comerciante pérfido ou um morador qualquer se sinta ameaçado ou prejudicado e faça a denúncia. Algemas, confinamento, socos na cabeça, um acervo de estigmas contra esses pequenos delinqüentes... É desanimador ver que até agora nem a polícia, nem o Ministério da Justiça e nem as famílias conseguiram compreender que, parafraseando a Szasz, se delinqüir é um problema para a sociedade, para o delinqüente pode ser a única solução... Pelo contrário, estão revendo os Estatutos das Crianças e dos Adolescentes, querendo arranjar uma maneira de rotulá-los de criminosos e de condená-los o mais cedo possível. O sol desce quadriculado por trás da tela das cercas... Um instante de silêncio tomou conta de tudo. Nenhuma voz emerge das celas... Apenas os soluços das mães (prenhes de rancor) e de outros familiares ali do lado de fora. A força do crepúsculo e o paradoxo daquela instituição contaminam tudo com um clima melancólico... Os mesmos soldados continuam lá, como marionetes de um Estado brutal, olhando para todos os lados com suas armas engatilhadas... Convicto de que uma terrível e misteriosa catástrofe deve ter acontecido na origem desta espécie, (catástrofe que a perturbou e que a desnorteou para sempre) saio resmungando a conhecida frase de Mannoni: “O interno raramente é o mais «doente»; é ele que expia para que o resto da família (e da sociedade) possa manter-se unido...”.

208 “O medo que C.G.Jung dizia sentir ao aproximar-se muito de Freud, se devia ao fato de, quando criança, ter sofrido uma investida homossexual de um homem mais velho, que ele idolatrava.” (Stern, p.87) 209 Azevedo, A. p.p. 224,225.


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Capitulo 11 RODOPIANDO PELO MUNDO. TANGER, OS HARÉNS E AS MIL E UMA HISTÓRIAS DE SCHERAZADE “Estamos encurralados entre a avidez por conhecer e o desespero por ter conhecido...” R. Char Aproveitei as três horas de travessia do Estreito de Gibraltar para retomar a leitura do Nascimento do Purgatório, escrito por uma das mais badaladas raposas do eruditismo francês: Jacques Le Goff. No Brasil, as «freiras» pós-doutoradas molham as calcinhas só em ouvir o seu nome. Quando o navio encostou-se ao porto marroquino e todos os passageiros correram para o convés, estava terminando de sublinhar o texto numa das primeiras páginas, onde o autor cita um pensamento de Chateaubriand, um pensamento aparentemente banal, mas que havia me deixado uma sensação intensa de gozo metafísico e intelectual: “Le purgatoire surpasse en poésie le ciel et l’enfer, en ce qu’il représente un avenir qui manque aux deux premiers”. Mesmo que os livros não tenham até hoje servido objetivamente para nada, fazem cada dia mais parte de meu mundo e de meu prazer. Os finais de semana que passo refugiado em meu escritório, com todo o tempo disponível para rabiscar um aqui, folhear outro ali, fazer uma anotação num pé de página, “uma tradução”, uma comparação... Constituem para mim uma verdadeira glória. Afinal, foram sempre eles que me salvaram na solidão de circunstâncias adversas. E mais, foram adquiridos nos lugares mais exóticos do planeta. Sei de cor e salteado onde e quando comprei cada um, quais foram pagos em dólares, reais, dracmas, libras, pesetas, pesos e etc... Inclusive quais foram furtados. Uma das fantasias que ainda alimento é a de que se vivesse uns trezentos anos, construiria a biblioteca e o acervo mais explosivo e mais subversivo do mundo... E esse seria, sem dúvida, o único capital que lamentaria deixar com a morte... Já que em cada volume estariam rabiscadas e sublinhadas minhas ficções e minhas fantasmagorias mais alucinantes e secretas. Ninguém consegue descrever o que sente verdadeiramente quando desembarca num país como a Índia, o Egito, o Nepal, o Marrocos etc. Por mais que se planeje meticulosamente nossos passos, quando se chega se entra num transe hipnótico e dá tudo errado. Os rituais obsessivos, a lógica kantiana e o cartesianismo não funcionam nesses lugares. Não se consegue sair do ônibus, do barco ou do aeroporto sem cair nos esquemas e nas garras dos guias que só nos deixarão «em paz» depois de arrastar-nos para as lojas, hotéis e restaurantes que lhes dão porcentagens sobre os gastos de cada otário fisgado. Fico furioso e amargurado quando me percebo recluso desses abutres trapaceiros, principalmente quando tomo consciência que meus quarenta anos de estradas e de «psicologia», nestas situações, não servem para bosta nenhuma. Acabo de pisar na cidade de Tanger. Todo mundo já ouviu falar desta cidade, com seu odor natural de almíscar e que foi a Meca da geração beatnik, «porra louca», dos escritores vagabundos e veados dos anos 60. Vinham para cá buscar inspiração nas cachimbadas de ópio e nos baseados de hashish, escrever, dar o rabo, peregrinar e desfrutar das delícias exóticas da cidade. Tennessee Williams, Jack Kerouac, Truman Capote, Allen Ginsberg, William Burrougs, etc, etc, etc. E claro, o maior deles: veado, ladrão e trotamundo: Jean Genet que, inclusive, está enterrado a alguns quilômetros


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daqui, no cemitério espanhol de Lagache. Sua tumba branca é a única que fica de cara para o mar e para a cidade de Algeciras. Não entendo porque não escreveram nela este pensamento de seu hóspede: “Só há alguns fulgores na vida de um homem. Todo o resto é cinza.” Vinha para o Marrocos (Casablanca, Rabat, Larache, etc) para caçar seus adolescentes, para fumar, para depositar solidariedade aos excluídos do mundo árabe e para respirar um pouco fora do clima intelectual parisiense que, segundo ele, era todo pró-judáico, inclusive em se tratando do monsieur J.P.Sartre e da madame S.de Beauvoir. O primeiro «guia» com pose de califa e com corpo diáfano que tentei despistar em frente ao birô de informações do porto (cínica e estrategicamente fechado), me olhou duramente e me chamou de paranóico. Paranóico? Porra! Paranóico! Logo eu! Vá se foder cara! Reagi. Mas não podia negar que era exatamente de paranóia meu estado naquele momento... Fiquei até surpreso com sua habilidade de diagnóstico. Seria um psicólogo? Por minha mente passaram como um relâmpago alguns dos horrores relatados por pacientes paranóicos em surto. Um monstro com uma foice no nosso encalço; a aeronave em que se viaja carregada de dinamites; uma ama de leite que tem as tetas eletrizadas; ratos que correm pelas nossas artérias etc... Na Índia, -associo - nos jardins em frente ao Taj Mahal, um sujeito visivelmente em transe desceu da carroça onde estava e, sem razão nenhuma, passou a acusar-me de ser um ocidental endemonhiado e de o estar olhando de maneira ameaçadora... Não entendi absolutamente nada, e como naquele dia tudo tinha sido muito complicado, tratei de retornar para o hotel antes que algo pior pudesse acontecer. O tal guia permanece ao meu lado, disposto a empurrar-me seus serviços goela e a qualquer preço. Se pudesse, lhe daria uns cinco ou seis socos… Mas é horrível ter esses pensamentos logo que se chega a um país estranho. Aproximam-se outros dois. Um taxista e um suposto hoteleiro disputam a presa. Passo a mão pela cabeça. Olho ao redor. Parece que Tanger inteira assiste sádica e cínica àquela comédia. Dois policiais observam o acosso na mais absoluta indiferença, fazendo-de-conta que nada estava acontecendo. E talvez não estivesse mesmo. Como vítima estava dando mais importância do que havia àquele momento estúpido. Cheiro forte de alguma erva. Gritos no porto. Um navio apita a uns duzentos metros de um estaleiro desativado. Sorrio de meu desespero interior e da impotência que emerge soberana, enquanto ouço-os perguntando e propondo: -Hotel... hotel.... hotel.... hotel.... Italiano? Espanhol? Brasileiro? Ah, Brasil! Romário! Ronaldo! Bebeto! O Aleijadinho!210 Hotel barato! Trinta Euros o casal... Barato... Ao lado da Medina... Vou mostrar-te a Medina... O Soco... Conhece a história de AlMuqtadir e de suas onze mil virgens? Posso levá-los ao Joutya (mercado de pechinchas)... Tudo barato... Sem compromisso... Não seja paranóico! Brasil? Conheço São Paulo... Samba... Carnaval... A selva Amazônica... Vem comigo. Não tem problema... No problems! Sou guia há mais de vinte anos... Táxi? Podemos ir caminhando... É bem perto... Vem comigo... O melhor hotel. Quer trocar moeda? Podem confiar em mim... Não tem problema... Vamos por aqui. Deixe que eu levo a mochila. Hotel? Táxi? Moeda? Passagem para Casablanca? Restaurante típico? Dólares ou euros? Déjà-vu e Déjà-vecu várias vezes esta história! Enquanto entrava num táxi cheio de poeira e em pedaços, fazendo de tudo para conter minha fúria, ouvia de minha companheira, em tom de ironia uma frase de Bataille: relaxe 210 Parece mentira, não é? Mas é verdade. E mais: durante o trajeto que fizemos mais tarde, mencionou o livro de R. Bastide onde teria lido: “Assim como Homero é cego, e como Beethoven é surdo, o aleijadinho é leproso, de pés e mãos estropiados, forçado a arrastar-se nos joelhos e a trabalhar com o martelo amarrado ao coto disforme, sem dentes nem pálpebras, objeto de pavor para seus próprios escravos (um dos quais tenta suicidar-se de nojo), escondendo-se sob um manto negro para ir à igreja, esculpindo debaixo de uma tenda e dissimulando-se aos olhos curiosos com chuvas de cascas de pedra”.


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que «o mundo só é habitável na condição de que nada seja respeitado, porque o respeito é uma das formas de emasculação coletiva, da qual é vítima idiota e grotesca a humanidade...» O táxi se infiltra no meio de outros carros, todos aos pedaços. Algo me lembra a loucura que foi a chegada em Katmandu. De quando em quando o escapamento arrasta no asfalto. Centenas de adultos e algumas crianças vão em fila beirando à muralha do porto. Casarões dependurados no alto, sem janelas, como os antigos haréns familiares. A torre de uma mesquita. A voz do Imãm numa das oito orações do dia. O taxista o ignora e não para de propor-nos os mais variados «negócios». O guia, que tem duas cicatrizes sobre os olhos e que se parece ao meu dentista, também não. Devem ser ateus. Pelo menos isto. No meio de uma ladeira o Hotel IBN Batouta, 8, rue Magellan. O taxista se vai, mas o guia permanece na sala de espera. Já deixou claro que não nos deixará em paz enquanto não nos levar pelos labirintos da Medina e por outros «pontos turísticos». Já é quase noite. Subimos uns cem metros, tomamos à esquerda, à direita, à esquerda, à direita, seguimos em linha reta, passamos por dentro de um mercado de roupas, atravessamos a rua, os vendedores de um outro mercado de sapatos já acendem as luzes. O guia está delirante. Conta à história de quase tudo o que vai passando à nossa frente. A marginalia o cumprimenta com respeito. A escuridão é quase total quando passamos pela famosa porta La de Bab Erraha e ingressamos na casbah. Ruelas, labirintos, sombras sentadas sobre os muros, nos degraus, na porta das casas. Luzes de 40W que quase nem iluminam o interior das pequenas casas com sua decoração cafona e rococó nas estantes, os azulejos coloridos e as peças de cerâmica esquecidas sobre o limiar das janelas. Um homem frágil e cego desce com dificuldade os quatro degraus de seu casebre, com a córnea inquieta como única parte visível de seu rosto e auxiliado por uma menina de uns sete anos. Milímetro por milímetro vai tateando o solo e a muralha, resmungando coisas incompreensíveis como se precisasse afastar de si alguma fobia ou alguma tentação.211 Cheiro de peixe, de pão e gengibre se confunde com a brisa do mar. Adolescentes que fumam ocultos nas esquinas trocam frases com o guia. Um grupo de mendigos repousa ao lado de um portão de pedra em forma de arco, sobre as raízes de uma figueira secular. Um deles lê o Corão enquanto outro lhe caça piolhos ou lhe faz cafuné. Recordo um amigo de adolescência que, cheio de medo e culpa, relatou-me que, na ausência de seu pai, sua madrasta o havia aconchegado em seu colo e lhe dedicado um longo cafuné que acabou em ejaculação. Rimbaud, em seu poema Les chercheuses de poux, relata uma história análoga com relação às suas irmãs: (Elles assoient l’enfant auprès d’une croisée / Grande ouverte où l’air bleu bagne un fouillis de fleurs / Et, dans les lourds cheveux où tombe la rosée / Proménent leurs doigts fins, terribles et charmeurs.) ···. Subimos, descemos, cruzamos com homens silenciosos, ocultos em seus gorros da cor das paredes e quase nem ouvimos a verborréia do guia que se jacta de falar oito idiomas. Em tais circunstâncias, com nosso imaginário cristão apavorado pelas chacinas brasileiras, impossível não ser tomado por um ou outro sentimento paranóico. De uma esquina vemos o «minarete» da Mesquita Sidi Bou Abid, construída em 1917. Para espanto de minha companheira, de três em três minutos aquele homem com aspecto

211 Sem nenhum tipo de mau caratismo, aquela imagem do velho cego com a criança remeteu-me imediatamente ao livro de Nawal el Saadawi, sobre as mulheres no mundo árabe, (Egito) e principalmente ao capítulo intitulado O avô e seu mau comportamento, onde ela menciona a história de uma mulher que aos cinco anos era bolinada por seu avô (p.30).Também relata o caso de um homem que, depois de ter abusado de uma sobrinha, para evitar o escândalo social, se cumplicia com seu irmão, pai da vítima e a envenenam. (p.p.33,34)


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alucinado dava uma longa coçada no saco. Registrei esse mesmo comportamento na Índia, no Nepal, na Turquia e mesmo no interior do Brasil.212 -Observem como seu colorido ganha uma harmonia especial à noite. Esta casa foi de não sei quem. Aquela foi do norte-americano de tal! Aqui foi dada a maior festa do Marrocos! Lá onde se vê aquela luz azul morou o artista tal, o escritor tal, a embaixatriz tal... Aqui começam os Jardins do Sultão, aquele é o Palácio Dar el-Makhzen, construído no séc. XVII. Lá está o Grande Socco, onde se pode comprar quase tudo... Vocês conhecem algum herói do Marrocos? –perguntou-nos. -O Sultão de Granada –respondi. Ele ficou surpreso e desconfiado. -Mohamed V? -Sim. -Por quê? -Pela façanha de Algeciras... -Qual? -Diante da dificuldade de reconquistar a cidade, a incendiou e a reduziu a pedaços... Assim que concluí a frase explodiu numa gargalhada, exibindo na pouca claridade sete ou oito dentes manchados pelo hashisch. Poucas estrelas apareciam naquela hora. A mais brilhante delas, lá sobre o mar espanhol, fez a C. cochichar em meu ouvido: -Lembra que os árabes (sarracenos) imolavam jovens em honra à estrela matutina? 213 Sua mão delicada estava mais úmida e mais fria do que o normal. Seguimos caminhando noite a dentro, seguindo aquele homem aloprado e sem ter a mínima idéia de nosso destino. -Vocês brasileiros são como nós, marroquinos... Estamos submergidos na mesma miséria e no mesmo surrealismo terceiro-mundista. Parece que só há corrupção em nossa alma! Lá os colonizadores foram portugueses, aqui, tivemos que lutar contra os espanhóis e os franceses... Apesar de que os portugueses também passaram por aqui... República e Monarquia são tudo a mesma bosta! Ali em cima ainda estão alguns canhões lusitanos apontados para o mar... Mais acima fica o famoso Bar Negresco, freqüentado no passado por escritores, artistas e drogados famosos. Jack Kerouac, Ginsberg, Truman Capote, Burroughs, Beckett, Delacroix, Matisse e o casal Paul e Jane Bowles... Jean Genet morava no Hotel El Minzah. Está enterrado no Cemitério Espanhol de Larache. É importante visitar amanhã a Librairie des Colonnes. Ali sempre foi o lugar de encontro dos intelectuais estrangeiros. Também devem subir ao Terraço dos Preguiçosos, de onde se pode ter uma visão fantástica do mar de Gibraltar e até das montanhas da Andaluzia. Naquela direção está o cemitério Bouaraqya... Conhecem Mohamed Choukri?214 Um de nossos melhores escritores. Entre seus melhores livros, um é sobre Genet.215 212 Apesar de saber que aquele gesto podia muito bem ser o signo de alguma doença ou de falta de água, lembro que para o velho Hipócrates “poder pôr a mão sem obstáculos no sexo era, de qualquer modo, a condição de uma vida sadia; e ele explica por isso, em parte, a impotência que era atribuída aos citas, cujas vestimentas eram muito apertadas.” (Rousselle, p.81) 213 “Na África as práticas cultuais dos líbios compreendiam o que era chamado de «noite do erro», que pode ser comparada ao festim incestuoso; e os ritos púnicos, que sabemos terem sido adotados pelas populações berbéres, compreendiam sacrfícios de crianças, em geral de bebês” (Rousselle, p.130) 214 Curiosamente, no prefácio escrito por Tahar ben Jelloun ao mais importante livro desse autor marroquino, intitulado Le pain nu, se pode ler que Choukri, ainda criança, dormia nos cemitérios por medo de ser violado. “Très tôt aussi, Mohamed découvrit la sexualité. Une peur le hantait, celle d’être violé. Pour cela, il préférait dormir dans les cimitières, là où les vivants ont peur des morts et où les morts ne se lèveront pas pour menacer «le beau gosse au joli petit cul». (Choukri, p. III) 215Sartre, no livro intitulado Saint Genet, comedien et martyr (1952), faz esta interessante interpretação sobre esse autor verdadeiramente maldito: “En sus fantasias de niño, la mujer lo arrancó de sí, como parte viva y sangrante de sí misma, y lo arrojó hacia afuera y más allá del mundo. Estaba maldecido para siempre. (...) Genet se sentió indeseable en su ser mísmo, y no como el hijo de esta mujer, sino como un excremento. (...) Genet es un niño violado. El primer acto de violación fue la mirada del otro en su crisis primitiva.” (Razón y violencia, pp. 59/65)


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Lembro do relato de Jacqueline Fontaine, dentista na cidade marroquina de Rabat, que conheceu Jean Genet. Sua curiosa declaração está no livro de Souad Guennoun L’ultime parcours de Jean Genet -p.p. 32, 33. “Genet veio ao meu gabinete por primeira vez em 1978. Estava com câncer na laringe. Havia perdido sua prótese enquanto vomitava no toalete. Seus amigos o trouxeram para ver se eu poderia fazer-lhe uma outra o mais rápido possível. A prótese provisória que usava havia sido feita pela seguridade social, para ser trocada em três meses, mas ele a usou durante vários anos. Quando vinha a nossa casa, nós lhe preparávamos comidas que ele pudesse comer com facilidade, uma vez que seus dentes estavam em péssimo estado”.216 Entramos numa loja de tapetes onde dois personagens de ficção nos esperavam sorridentes. Chá de menta, falsos elogios, simpatias desmedidas, a hipocrisia universal dos comerciantes. O mais magricela deles, enquanto ia estendendo um tapete sobre o outro ia resmungando: -Este aqui é feito de pura seda... Este de pura lã. Este produzido pelos berberes... Tudo a mão... Material fino... Temos muitos clientes brasileiros... Rio, São Paulo... Foz do Iguaçu... Qual vai levar? Conheço um livro muito bom sobre o Brasil... As cartas de Américo Vespúcio, de quando ainda havia canibalismo por lá...217 Qual vai levar? O guia desapareceu estrategicamente. Um gato branco ronronava próximo à lamparina e na parede, reproduzido num tecido de uns dois metros quadrados, a famosa pintura de Delacroix intitulada Femmes turques au bain. Por quê um motivo turco? O chá descia queimando. Estávamos exaustos e impotentes. Voltaremos amanhã... Tomorrow? Yés! O guia reaparece do nada. Seguimos pelas ruelas quase vazias. Apenas um comerciante aqui, outro acolá, talvez à espera dos guias com seus «clientes estrangeiros». -Já ouviram falar do Le Porte? Lá se serve o melhor Martini da cidade. Aqui era o bairro judeu. Mudaram-se para Israel ou para os EEUU. Naquela direção fica a Estação e o Hotel D’Orsay. O pintor francês Balthus, aquele que gostava de pintar ninfetas, em 1930 serviu o exército francês aqui no Marrocos. E por falar em ninfetas, conhecem a história do rei Schahriar e da virgem Scherazade? 218 Lá naquela esquina ficava o bordel para homens onde ficou hospedado o escritor americano Burrougs. Veio para cá depois de matar sua mulher no México, com uma garrafada na cabeça e um tiro de fuzil... Mais cinco ou seis esquinas e saímos dos labirintos semidesertos para uma rua bem movimentada. Alguns feirantes, apesar da hora, ainda vendiam legumes e frutas no meio fio. -Bem, agora vamos jantar – nos informou autoritário quando passamos por uma escadaria de madeira. Subimos. A mesma recepção teatral e falsa da loja de tapetes. Simpatias, reverências. Um músico acionou sua cítara «em nossa homenagem». Cheiro forte de canela, menta, tâmaras e courry. Outros casais de estrangeiros comiam desconfiados e em silêncio. Seus guias, como o nosso, também esperavam lá fora. Tempo para fumar um baseado ou para refrescar o fígado. Devoramos os pratos menos picantes, a água mineral, que não foi suficiente e a sobremesa. Bastava olhar para o músico, para que levantasse uma bandeja de cerâmica em nossa direção. Se continuar assim –pensava - em dois dias nossos dólares acabam e estaremos arruinados. Pagamos muito mais do que valia, o guia reapareceu e cochichou alguma coisa no ouvido do garçom. A rua estava Tenho trabalhado numa pesquisa sobre os dentes dos filósofos. Soube depois que se referia a esta citação contida no O canibal, Ed. UnB, p.50, BsB, 1997, de F. Lestringant, onde o autor trata não apenas de canibalismo, mas de incesto, infanticídio, endocanibalismo, etc. “a carne humana era comum vianda, foi visto o pai comer seus filhos e suas mulheres...” 218 O rei que ele menciona é o tal que depois de assassinar sua mulher infiel e o escravo amante, passou a recrutar uma virgem por noite, com quem casava, explorava-a sexualmente a noite e mandava degolá-la pela manhã. Depois de ter assassinado mais de mil, chegou a vez de Scherazade que, através de histórias, (mil e uma noites) conseguiu amenizar o rancor do rei pelas mulheres e salvar-se. 216 217


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quase deserta. Seguimos aquele homem por mais uns dez minutos e descemos com alívio pela ladeira do hotel. Uns vinte metros antes de chegarmos, ofereceu-nos uns tabletes de haxixe, exigiu seus dólares, enfiou-os por debaixo de seu djellaba não muito limpo e sumiu na noite. Uma cama imensa, mais baixa do que as normais, uma descarga com defeito, vinte ou trinta mosquitos dando rasantes ao redor de nosso cérebro. A cidade está silenciosa e morna. Antes de enfiar-me sob os lençóis, rabisquei uma pequena síntese do livro de Bataille sobre Gilles de Rai, o mais famoso assassino e «abusador de crianças» que a França já conheceu. Gilles de Rais e seus dois primos Roger de Briqueville e Guillaume de Sillé (todos provenientes de famílias francesas nobres e arruinadas pela guerra) eram os cabeças de uma gangue que cometia horrores com crianças no interior de seus castelos. Seqüestravam meninos que mendigavam nos arredores e praticavam com eles rituais satânicos, de sexo e morte. “Gilles se acariciaba ante sus victimas, frotava contra ellos su virilidad... se deleitaba e inflamaba de tal modo que criminalmente y en forma adversa a la normal, surtía sobre el vientre de los niños. Gilles utilizaba para esto a cada niño sólo una o dos veces, depués de lo cual los mataba o los mandaba matar...” (Bataille, p.80, 81) Esse católico fervoroso e militar exemplar pendurava suas vítimas pelo pescoço para quebrar-lhes a resistência e para que não gritassem, depois as retirava da tortura, abusava sexualmente delas e as matava. Outras vezes cortava-lhes a veia do pescoço para gozar enquanto o sangue esguichava. A orgia durava até que houvesse calor no corpo do pequeno mendigo. Outras vezes escolhia entre as crianças mortas a cabeça que lhe parecia mais bonita e mandava seus cúmplices abrirem o corpo para gozar com a visão de suas entranhas. Depois, enquanto o monstro de Rais dormia bêbado e saciado, seus comparsas queimavam as roupas e aqueles corpos «abusados» na lareira. Foi condenado à forca em 1445, mas deixou seguidores espalhados por todos os continentes. O sono foi profundo. A oração matinal que sai dos alto-falantes da mesquita quebra o silêncio e desencadeia uma onda de latidos em todas as ruas que ladeiam o hotel. Não tenho dúvida de que o silêncio –como dizia Arlt - é o vaso comunicante pelo qual nosso pesadelo de aborrecimentos e de angústia passa de uma alma para outra. Afasto a cortina e dou de cara com um cachorrinho esquelético que late apenas por latir. São seis horas. O sol já está alto. Acordar num outro país é sempre um alucínio, principalmente quando se trata de um país como este, ainda marcado pelo absurdo e pelo medievalismo. A ordem é não perder tempo. Enfiar-se dentro das calças e ganhar a rua como fazem os verdadeiros andarilhos, movido pela curiosidade e pelo instinto. Os guias reaparecem, mas agora já e fácil despistá-los. Basta falar em nome do Armet que todos recuam, como se ele fosse o chefão de todos esses crápulas. Homens sonolentos encostados pelas paredes, velhos abrindo seus negócios, cuspindo na calçada e pisando em seguida sobre o catarro, como se estivessem com muita raiva.219 Caixotes de peixes aparentemente abandonados, esgotos, legumes, coelhos, frangos e cabras degolados, fornos coletivos, mariscos, roupas, calçados, panelas, adagas, instrumentos de marcenaria, tecidos, quinquilharias decorativas, braceletes, latões de azeite, especiarias, cheiros, ruídos, policiais, bandos de meninos, mendigos, mulheres que nos olham de longe, pipas, pães, tamancos, tudo isso caracterizando e constituindo a patologia coletiva. Na Avenida Mohamed V, fileiras de mesas nos cafés onde homens (só homens, a rua ainda não está totalmente liberada para as mulheres) fumam e bebem seu chá de menta. A voz da mesquita pela quinta vez. Numa loja da rua Kadiria, ao mesmo tempo em que me rouba 219

Segundo Norbert Elias, no séc. XVI era uma obrigação social e um bom costume, colocar o pé sobre a cuspida. (p.224)


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nos preços, o velho comerciante vai fazendo uma pregação hipócrita contra o dinheiro. Observem bem: um comerciante marroquino discursando contra o dinheiro. -Acumular leva ao infortúnio e ao sofrimento Deus dá o dinheiro a uns, para que ajudem aos outros... Segue filosofando e observando quanto ainda há em minha carteira, e só silenciou quando conseguiu arrancar-me até o último Diram. Não tenho dúvidas de que o comércio está entre as mais sórdidas doenças da civilização. Nele se condensam as aberrações da mentira, da inveja, da sedução, e principalmente a do mau caratismo. Os comerciantes, associados aos publicistas –observe - manipulam os valores sociais com mais poder do que os sacerdotes, os magistrados, os professores e os militares juntos. Ao passar por um cortiço próximo a um paredão onde se lê Museu Cervantes, ouço os gritos de um homem (o pai?) agredindo uma criança. A estaria matando? Penso nas atrocidades do regime patriarcal ilustrado de maneira comovente tanto nas cartas de Kafka, como nos relatos de Mohamed Choukri, em Le pain nu e nos de Gavino Ledda, em Pai patrão. Os pais, mas principalmente as mães, continuam acusando os filhos de serem responsáveis por todos os seus fracassos e por todas as suas doenças. “Tu étais un gros bébé, tu m’as dechiré les entrailles! (Hirigoyen, p.53). Em Esparta, todo mundo sabe, as crianças que eram consideradas «excedentes» eram queimadas vivas pelo Estado, num cemitério conhecido por Taigitos. Comento o assunto com um dos transeuntes e ele faz questão de lembrar-me que, na Índia, existe há mais de três séculos, um ritual chamado purificador, que consiste em enterrar crianças vivas num fosso, por mais de um minuto. Apesar de, inicialmente, achar que ele estava me gozando, em seguida vi que era uma informação séria e que talvez esse tipo de rituais é que havia transformado a Índia num verdadeiro manicômio. Os insultos e os gritos continuam. Atrevo-me, acompanhado por ele, a espiar por sobre o muro e vejo que o agressor é um homem extremamente magro, com os cacoetes clássicos do alcoolismo e que a vítima tem uns nove anos e o nariz que sangra. Ao adivinhar minha indignação, o marroquino me previne: - Aqui ainda não temos o Telefone Azul...220. Cospe na parede do muro, dá as costas para o pátio onde ocorre à agressão e como se precisasse justificar a violência de seu compatriota, me aconselha: - É importante não se deixar levar pelo sentimentalismo, pois as crianças não são tão inocentes como se pensa, a grande maioria delas são verdadeiramente más! Basta lembrar do horror que nas escolas umas promovem contra as outras... Quem de nós não ficou marcado para sempre pelo Bullying? Atormentadas pela culpa muitas até gostam de apanhar... Assim como muitos adultos gostam não só de surrar, mas de assistir uma criança sendo surrada... Levei um susto. Ele estava, sabendo ou não, mencionando as fantasias de flagelação, tema de um artigo de Freud publicado em 1919...221 Mas e não só isto, também estava associando àquela cena familiar as perversidades seculares de cunho sado-masoquista, atribuídas quase sempre ao torturador, mas às vezes, também à vítima... Goza aquele que está apanhando... Goza aquele que está batendo... E gozam aqueles que assistem a tortura... Porra! Mas se for assim... O que é então o ser, senão a mais pura e legítima perversão!222 220 Referência ao telefone que já existe em vários países europeus e até no Brasil, através do qual as crianças abusadas podem fazer denuncias. 221 Ver: Pegan a un niño: aportacion al conocimiento de la genesis de las perversiones sexuales. “A fantasia de presenciar como «batem numa criança», é confessada com surpreendente frequência por pessoas que procuram o tratamento psicanalítico em busca da cura de uma histeria ou de uma neurose obsessiva. A esta fantasia se enlaçam sensações prazeirosas que culminam numa satisfação de caráter sexual masturbatório, voluntária no principio mas que mais tarde pode assumir um caráter obsessivo.” (Freud, p.2465) 222 É importante lembrar que nos dias de enforcamento ou de guilhotinamento público em Paris, a população chegava a dormir nas praças para não perder o «espetáculo».


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Um grupo de meninas muçulmanas, em idade escolar, passa tagarelando e se introduz numa das entradas do labirinto da Medina.223 Lembrando do texto de Nabokov, tentei com um correr de olhos identificar entre elas qual se encaixava no perfil da «ninfeta». Mas esta é uma tarefa fácil só para os «ninfoleptos».224 Teriam todas passado pela circuncisão? (clitoridectomia) “Uma navalha afiada, nas mãos da daya, executa a extirpação do clitóris...” (Saadawi, p. 51). E quantas delas teriam sido abusadas pelos avós, pelos pais ou pelos irmãos?225 Sabe-se que quinze ou vinte anos depois, essas brutalidades incestuosas e reprimidas retornam... Como lembranças ou como delírios... E já não dá mais para saber se o que dizem é «verdade» ou «invenções».226 Na época dos haréns domésticos –segue contando-me o marroquino - muitas meninas pobres que eram capturadas nas montanhas ou nas regiões agrárias eram vendidas para os homens poderosos e ricos do Marrocos... -Conhecem a história de Scherazade... A virgem das Mil e uma Noites? -Sim, já nos contaram várias vezes... -Pois é, escapou por pouco da degola... Mas não pensem que isso só acontecia aqui no Marrocos... Em outras culturas e em outras épocas tudo era muito pior –tenta consolarse-. Na cultura mexica –por exemplo-, entre os sacrifícios dedicados à deusa chicomecóatl um deles consistia em vestir uma menina de treze anos à semelhança da deusa e colocarlhe uma pena verde na cabeça, que simbolizava uma espiga de milho. Ao anoitecer a pena e os cabelos eram cortados e oferecidos à deusa. No dia seguinte era degolada e lhe tiravam a pele que passava a ser usada pelo sacerdote... Última caminhada pelo centro de Tanger. Os hotéis, os cheiros, as músicas, as orações vindas do alto das mesquitas, uma carne de carneiro com pimentão e cebolas. O navio já está ancorado. Dois pseudopoliciais nos submetem a mais um «questionário» e a mais uma extorsão. Nenhum «gringo» escapa. Todo mundo esperneia, briga, discute, ameaça acionar a embaixada, os Direitos Humanos e até o rei do Marrocos... Mas acaba pagando a propina e ficando quietinho, louco para subir à bordo, e mais ainda, para saltar amanhã cedo, são e salvo, em Algeciras. Depois de uma longa espera, subo a rampa do navio mais misantropo e antropófobo do que nunca, resmungando uma frase de Rawet: Só a psicopatologia aliada à antropologia podem fornecer elementos para uma vaga compreensão de alguma coisa.

223 Alguém me lembrava ontem que o cineasta Roman Polansky, aquele do Bebê de Rosemary, foi proibido de viajar para os EEUU, depois de ter abusado sexualmente de uma menina de treze anos. E que só nos últimos dois anos, a polícia inglesa prendeu mil e trezentos pedófilos. 224 “Dentro dos mesmos limites de idade –escreve o autor, em seu Lolita-, o número de genuínas ninfetas é muitíssimo inferior ao das meninas provisoriamente sem atrativos, ou apenas “bonitinhas” e até “adoráveis” (...) Confrontado com um grupo de escolares ou escoteiras, um homem normal não escolherá necessariamente a ninfeta. É necessário ser um artista ou um louco, um indivíduo infinitamente melancólico, com uma bolha de veneno queimando-lhe as entranhas e uma chama supervoluptuosa ardendo eternamente em sua flexível espinha, a fim de discernir de imediato, com base em sinais inefáveis, o pequeno e fatal demônio em meio às crianças normais. Elas não a reconhecem como tal, e a própria ninfeta não tem consciência de seu fantástico poder” p.p.18 e 19. 225 A questão do incesto ainda não está e talvez não venha a ser esclarecida nunca. Pelo rigor das proibições que pesam sobre ele (biológicas, sócio-culturais e psíquicas) deve ter sido uma das mais importantes fantasias da espécie. 226 Nos anos 80, nos EEUU, chamou atenção dos psicoterapêutas o que chamaram de “síndrome das lembranças recuperadas”. Muitas pacientes começaram a lembrar que em suas infâncias tinham sido violadas e abusadas sexualmente por seus pais. Outras diziam ter participado de rituais satânicos... e de terem tido até relações sexuais com extra-terrestres.


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Capitulo 12 O PADRE BENEDITINO QUE ABUSAVA DE UM EPILÉPTICO, AS «Petites filles goulues» E AS CERIMÔNIAS FINAIS “Bandido, ladrão, vadio! É a matilha das pessoas honestas que caça à criança.” Prévert O dia em Paris não poderia estar mais cheio de luz e de encantamentos. Às margens do Sena os mesmos mercadores de livros e de artes paralelas fumam e mastigam sarcasticamente seus pequenos charutos enquanto esperam a clientela cult e snob de todos os cantos do mundo... Ainda não tomamos consciência de quanta falsidade e de quanta corrupção há por debaixo de todo o negócio das artes e nem do grau de intoxicação que essa baboseira toda vem nos causando. Entre os membros das gangues que gerenciam esse negócio, (funcionários públicos, curadores, mecenas, editores, promotores, etc, etc) o artista é o mais fútil e o mais «inocente», uma espécie de «laranja» dos verdadeiros mafiosos. Apesar de já ter dado por concluído meu trabalho sobre os pedófilos e sobre os infanticidas, não consigo ignorar num dos quiosques da rua, a reprodução de Las petites filles goulues, de Bellmer. Por estar sem óculos, tenho que me aproximar o máximo do pôster até ver a boneca cortada em pedaços e as petites filles que se autosodomisam com uma expressão que funde sofrimento e prazer. É interessante lembrar que esses pirados surrealistas e freudomarxistas, de vez em quando eram acusados de escândalos ou abusos sexuais, e que também idealizavam abertamente ninfetas ou mulheres-infantilizadas... Oh, mi mujer y mi niña!. Ronronava em cio o histérico Breton... Nos jornais locais, a denúncia de abuso sexual envolvendo um monge beneditino francês de 68 anos, um noviço epiléptico e muitas outras vítimas, quase todas crianças carentes, dependentes de drogas, sem moradia etc. parece atordoar e fragilizar os sempre cartesianos e sempre resmunguentos parisienses... “Il usait notamment de sa qualité, de son autorité et de sa notoriété afin d’obtenir le silence de ses victimes” diz categoricamente o Le Monde. Uma passeata de um grupo de velhos não identificados levava uma faixa com este pensamento de Ovidio: O vento que alimenta um incêndio também pode apagá-lo... Indo em direção ao Museu d’Orsay, onde havia sido aberta uma exposição de máscaras mortuárias, 227 lembrava que desde o período que vivi na Cidade do México experimento uma enigmática fascinação por elas. A primeira que adquiri foi de um «campesino» bêbado, recentemente chegado da província de Guerrero, que as vendia no imenso pátio da UNAM, quase em frente à Biblioteca Central. Havia trazido umas quarenta peças, enfiadas num saco verde do exército mexicano e todas feitas da mesma madeira. Quando o encontrei, restavam apenas oito. O dinheiro das que já havia vendido, foi convertido em

227 Le Dernier Portrait.. Título de uma exposição de máscaras mortuárias e de fotos de cadáveres ilustres, tipo Victor Hugo, Napoleão, Rodin, Shiller etc, realizada no Musée d’Orsay,-Paris


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tortilhas e em tequila. Por incrível que pareça, foi ele que, por primeira vez, me falou do acervo de mais de cinco mil que pertenceu ao Diego Rivera.228 Claro que as que estão expostas aqui são outra coisa. Não são máscaras ritualísticas como aquelas, mas máscaras mortuárias, de gesso ou de argila feitas sobre a face de mortos ilustres. Costume da época. Uma forma de homenagear e perpetuar a lembrança do morto. A invenção da fotografia se não colocou um ponto final nesse exotismo macabro, pelo menos o reduziu a quase zero. Lá no Brasil, em 1908, Rodolfo Bernardelli fez em gesso a reprodução do rosto morto de Machado de Assis e em 1989, Douglas Marques de Sá, fez em Brasília a do maestro Claudio Santoro. Uma multidão se acotovela nos imensos salões do museu. Fico tentando saber de onde advém essa atração universal por tudo o que se relaciona ao necro e por tudo o que, de uma maneira ou outra, insinua a possibilidade de imortalidade. Quê cegueira e quê equívoco estariam por detrás dessa fútil obsessão pela imortalidade, se, como afirma Baudrillard, ela seria o mais terrível dos destinos possíveis? A mãe germânica que caminha à minha frente, leva nos braços uma criança de uns três ou quatro anos que, como todo mundo, arregala os olhos diante de cada uma daquelas feições macabras, talvez não apenas pelo vazio ontológico que as imagens provocam, mas por querer especular com quê «humor», em quê «circunstâncias» e em quê «clima» elas foram produzidas.229 Uns quatro palmos de meu queixo a face de Pascal em argila. Filósofo-vaselina, que bateu as botas em 1662 e que teve a cabeça reproduzida por um anônimo. Procuramos a felicidade –escreveu - mas só encontramos a miséria e a morte... Nosso instinto nos faz sentir que é preciso procurar «le bonheur» fora de nós. O nariz pontiagudo e o rosto sereno. Sinto que os visitantes submergem num clima meio iniciático e lhe dedicam uma atenção especial. Dizem que Barré, Gide e Elias Canetti possuíam cópias dessa máscara em seus escritórios. Em outro de seus escritos um pensamento mais do que pertinente: “Un portrait porte absence et présence, plaisir et déplaisir...” Mais adiante a de Shiller e a de Hegel, que também teriam sido muito disputadas pelos filósofos. De Hegel, em sua Estética, é conhecida a idéia de que não existe monumento mais interessante do que a tumba dos homens. De qualquer ângulo que se olhe, Shiller (1856) aparece sempre arrogante e desgostoso. Observo que as pessoas se posicionam curiosas, emocionadas e sóbrias diante das caras e das cabeças desses homens que, de uma forma ou de outra, construíram o pensamento filosófico e lúdico deste continente... Mirabeau (1791) sarcástico e com seu nariz torto. Robespierre (1794) com sua cabeça pequena, serena e sem culpa. Marat (O amigo do povo, 1793) tem uma expressão de cinismo e de desafio. Surpreendo-me pensando o quanto à cultura se inscreve no corpo dos homens, principalmente no rosto, mas também no fígado, no estômago e nos bagos. A de Victor Hugo (25 maio de 1885) é a mais natural. Um velho já resignado, a barba branca e os cabelos inclinados para a esquerda. Quem leu Os Miseráveis e tem boa memória, pode facilmente imaginar ali “Une tempête sous un crâne”. De Paul Verlaine, morto de cirrose 228 Uma lembrança visual desse dia nunca mais saiu de minha memória. No paredão da Biblioteca Central, abaixo de um mural (não sei se de Orozco ou de Siqueiros) alguém havia pichado com tinta vermelha: Deus está vivo! Foi ressuscitado pela canalha!” Outra curiosidade sobre esse personagem: a última frase de um dos contos de Dalton Trevisan, traz esta acusação pedófila: Deus, ó grande deflorador das criancinhas. (Trevisan, p98) 229O maestro Jorge Antunes, que em 1961 assistiu no RJ a feitura da máscara mortuária do diretor do Colégio Pedro II, descreve assim o processo: “Passa-se vaselina em todo o rosto do morto. Depois cola-se, na própria vaselina, um barbante no centro do rosto da testa até o pescoço. O barbante vai sendo esticado colado ao contorno que divide a testa, descendo pelo nariz, à boca, ao queixo, até o pescoço. Assim, o rosto fica dividido pelo barbante em duas metades simétricas. Em seguida joga-se camadas de gesso mole por todo o rosto. Espera-se secar, mas não muito. Puxa-se uma das extremidades do barbante e este vai cortando o gesso ainda não totalmente duro. As duas metades, que não se grudam na pele por causa da vaselina, são então retiradas do rosto. Assim, tem-se a matriz negativa do rosto.”


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hepática (1896) foram feitas cinqüenta máscaras, que foram distribuídas entre seus amigos. Só Malarmé a recusou, com o argumento que não queria assustar sua família. “Elle ne savaite pas que l’enfer c’est l’absence”. A expressão de Gide (1951), desse marginal que afirmava não haver obra de arte sem a colaboração do demônio, com os olhos apertados e a boca fechada com rigor, é a que mais expressa sofrimento. No canto da sala o autor de Em busca do tempo perdido. Quando Proust morreu, em 1922, Jean Cocteau encomendou a Man Ray seu retrato. Proust! Estou em débito com esse homem. Nunca tive tempo de concluir sua principal obra. Sempre me pareceu um tempo perdido! “Savoir qu’on na plus rien à espérer n’empêche pas de continuer à attendre”- escrevia. Rodin (1912) parece um sábio hindu. Alguém fotografou suas mãos, a direita segurando a esquerda. O rosto de Jean Cocteau (1963) está intacto. Teria sido a apologia do ópio? Edith Piaf (1963) que morreu no mesmo dia de Cocteau, com um rosário enroscado nas mãos e uma rosa murcha sobre o peito causam lástima... Movido por uma força inconsciente permaneci por um tempo mais longo diante daquela máscara... A um palmo daquela expressão e daquela boca aterrorizada que tantas vezes fascinou o palco dos cabarés e das Óperas com seu Non, rien de rien/non, je ne regrette rien... Quando voltei à rua, estava meio atordoado. As pessoas se agitavam sobre as pontes e ao redor do Sena como se acreditassem piamente na moralidade, na solidariedade e até na imortalidade... Iludir-se faz bem! Enganar aos outros e a nós próprios é o que mais sabemos fazer... Uma coleção dos Clássicos na prateleira de um livreiro de rua me lembra que foi nesta cidade que viveu e escreveu Mac Orlan... Muitos aficionados e onanistas ainda têm nostalgia pelo Livro Secreto de Erotismo Familiar (1919), e principalmente pelos poemas contidos no Abécédaire des filles et de l’enfant chéri (1924). Seus textos estão repletos de licenciosidades, pedofilias, incestos e os mais variados tipos de perversões. É de um de seus personagens a mais óbvia das frases: Satã mora dentro de minhas cuecas. ***


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A lógica dos devassos: no circo da pedofilia e da crueldade  

Ezio Flavio Bazzo, neste instigante livro, desmascara os transtornos pessoais e a conhecida sociopatia. Ele denuncia a cumplicidade da socie...

A lógica dos devassos: no circo da pedofilia e da crueldade  

Ezio Flavio Bazzo, neste instigante livro, desmascara os transtornos pessoais e a conhecida sociopatia. Ele denuncia a cumplicidade da socie...

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