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FUNDAÇÃO ESCOLA TÉCNICA LIBERATO SALZANO VIEIRA DA CUNHA Novo Hamburgo – RS – Brasil issn 2447-0317

liberarte 2019

Concurso de contos, crônicas e poemas

Novo Hamburgo, agosto de 2019.


FUNDAÇÃO ESCOLA TÉCNICA LIBERATO SALZANO VIEIRA DA CUNHA Novo Hamburgo − Brasil liberarte 2019 Concurso de contos, crônicas e poemas issn 2447-0317 Diretor Executivo: Ramon Fernando Hans Diretor de Ensino: Amaury Silva Junior Coordenadora da disciplina de Língua Portuguesa e Literatura Rogéria Silveira Pacheco Coordenação Maria Emília Lubian Comissão organizadora Andréa Maria Escobar Íris Vitória Pires Lisboa Carmem Maria Ribeiro Bica Beltrame Jorge Amaral Cristiane Pereira Alchimowich Anton Josimar Dias da Silva Daiana Campani de Castilhos Liane Filomena Müller Danilo Oliveira Márcia Bratikowski Kossmann Doris Nienow Margarete Helena Weber Elíria Maria Poersch Rafaela Janice Boef de Vargas Gertrudez Menz Raquel Lima de Paula Giele Rocha Dorneles Regina Leitão Ungaretti Ilsa Helena Rabelo Rita de Cássia Oliveira Inaciane Teixeira da Silva Rogéria da Silva Pacheco Convidados para a banca de avaliação Pedro Gonzaga Laura Castilhos ilustradora e professora da UFRGS.

professor e escritor.

Luis Dill

Rubem Penz

conto, miniconto, novela e romance.

escritor, músico e publicitário.

Capa – vencedora da categoria "Arte da capa" Carolina de Azevedo Kowalski - 2211 Ilustrações Internas CONTOS: Roberta da Luz - 3512 CRÔNICAS: Amanda Espindola Brand - 2323 POEMAS: Anita de Moura Silva - 3212 POEMAS IN ENGLISH: Paula Premaor Siminski - 1224 POEMAS EN ESPAÑOL: Eduarda Bassani Volz - 1223 Edição e Diagramação Dennis Messa da Silva

Bibliotecária Responsável Lílian Amorim Pinheiro


Fundação Liberato

Liberarte 2019 41 anos Concurso de Contos, Crônicas, Poemas e Arte da Capa [...] acima de tudo eu escrevo porque nessas linhas cabem todas as palavras que eu nunca serei capaz de pronunciar. FARIAS, Gabriela Tatiane Cardoso de Sobrevivência – 1º Lugar Poema 2018


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Sumário Apresentação ............................................................................................ 7

Contos O dia da caça ........................................................................................... 10 Codinome Anonymous ...........................................................................12 Elisabeth...................................................................................................15 Capitu .......................................................................................................19 Com amor, seu Leonardo ...................................................................... 23 Cabeças Cortadas ................................................................................... 27 O Julgamento .......................................................................................... 32 Hiperbolianos numa Terra Eufêmica................................................... 36 Permita renovar-se.................................................................................40 Entre filmes, filhos e fins....................................................................... 42 Um vestido para um garoto................................................................... 44 Unha e Carne .......................................................................................... 47

Crônicas O querer de Emília ..................................................................................52 Sem aviso .................................................................................................53 O último suspiro ......................................................................................54 Sobre o tempo ..........................................................................................56 Amor de vó ...............................................................................................57 Bloqueio criativo .....................................................................................58 Caixinha do fundo de rosas e tropeços ................................................ 60 Espelho, espelho meu..............................................................................63 O gato preto .............................................................................................64 Homem não chora...................................................................................66 Lições da vida...........................................................................................67 Parar de esperar ......................................................................................69 Quando Lucy saiu do céu e foi para a Bahia ........................................ 70

Poemas Antitético ................................................................................................ 74 Mesmo que o medo não vá .................................................................... 75 Coringa Sem Baralho ..............................................................................77 Cores da Fundação ................................................................................. 78 Correntes de Silêncio .............................................................................80 Delírio.......................................................................................................81 5


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Desigualdade .......................................................................................... 82 Escrita ......................................................................................................83 Estou indo ................................................................................................84 Florescer ...................................................................................................85 Inspiração ................................................................................................86 Meio ..........................................................................................................87 Menina Radiante .................................................................................... 88 O Manifesto .............................................................................................89 O papel do autor ..................................................................................... 90 Paciência .................................................................................................. 91 Pretérito ...................................................................................................92 Querer ......................................................................................................93 Talvez........................................................................................................94 Tempestade..............................................................................................96 Todo poeta sabe falar de amor ...............................................................97 Um último trago ......................................................................................98 Uma ..........................................................................................................99 Utopia .................................................................................................... 100 Utopia ..................................................................................................... 101 Versos (I) ................................................................................................102 Vida......................................................................................................... 103

Poems in English A letter to the person i was ...................................................................106 If only ..................................................................................................... 107 Freckles ..................................................................................................108 Sonata.....................................................................................................109 Naked ..................................................................................................... 110 Maybe ...................................................................................................... 111 Opposite Words..................................................................................... 112 The fire pit...............................................................................................113 Walls ........................................................................................................114

Poema en Lengua Española Apartados ................................................................................................116 Liberdad en la vida .................................................................................117 Vivir ........................................................................................................ 118 Hacer ilusión ..........................................................................................119 Mi media naranja ..................................................................................120 El tiempo ................................................................................................ 121

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Apresentação A poesia é uma potência humana tão antiga na espécie que deve ter surgido pouco depois das primeiras palavras. É uma maneira de afirmar que a linguagem não basta, que estar no mundo é uma experiência integral, feita de passado e futuro, de um presente capaz de mergulhar na realidade e a ela não se subordinar. Por isso, incentivar os jovens na prática da poesia é abrir espaço para que voltem a frequentar os lugares mais fundos de nós mesmos, dando-lhes capacidade de resistir aos desafios de um mundo cada vez mais complexo, contraditoriamente simplificado pelas mensagens das mídias e das redes sociais. A presente coletânea é um sopro de esperança e qualidade, revelando excelentes observadores e observadores de nosso tempo, criativos usuários do idioma tão móvel que é nosso português. E por que não também em inglês e espanhol? Agora é hora de ler as crônicas, os contos e os poemas e completar o círculo essencial do gesto lírico, unir autores e leitores, nesta experiência musical, visual, sentimental e racional que a grande poesia, vertida nessas mãos tão jovens, é capaz de propiciar. Parabéns aos alunos do Liberato pelas belas páginas que aqui seguem. Evoé. Pedro Gonzaga

evoé interj. || grito que soltavam as bacantes, evocando Baco nas orgias. || -, s. m. (p. ext.) brado de alegria: E são evoés à farta e vinhaça a rodos. (Aq. Ribeiro, Aldeia, c. 8, p. 169, ed. 1946.) F. lat.Evoe 7


1. Contos

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1º Lugar Categoria Conto Pseudônimo: Rose Isabela de Lucena Schorn, 3212

O dia da caça Ela ergueu as mãos trêmulas, apontando a arma para o peito dele. A ponta do dedo com a unha pintada de um azul já descascando mal conseguia se manter firme no gatilho. Ela o encarava, sua expressão variando de raiva para tristeza, de tristeza para medo, de medo para pavor e, então, de volta à raiva. A coragem lhe enchia o peito, deixando o temor que sempre lhe apoderara sem espaço para expandir-se. Ela apertou os olhos, embaçando sua visão com lágrimas não caídas. Finalmente, o dia da caça chegou, que o caçador se preparasse. O homem, do outro lado da cama, a encarava sério, pensando no que fazer e sabendo, com toda a certeza, que ela não apertaria o gatilho. Não de propósito, pelo menos. Queria tanto atravessar a cama num só pulo e agarrar-lhe os cabelos, tirar a arma de suas mãos e, então, dar-lhe a maior surra que ela já vira. Ah, queria tanto fazê-lo. Já ficava excitado só de imaginar, mas sabia que corria o risco de levar um tiro caso se movesse tão brusca e impensadamente. Achou que teria uma chance de ação quando a viu fechar por um segundo a mais os olhos, deixando escapar uma ou duas lágrimas. Mas se surpreendeu ao vê-la reabri-los, segurando agora mais firme o revólver dele. A raiva e ressentimento pareciam transpirar de sua pele, de tão visíveis. Por um momento, achou que ela realmente o mataria, mas a ideia parecia tão ridícula que logo lhe fora descartada. Ficaram ali, naquele encarar de poucos minutos que mais pareceu uma eternidade. Novos pensamentos e sentimentos passaram na cabeça de cada um naquela questão de minutos. Naquela dança, brincadeira de encarar. Quem pisca primeiro? Quem ri por último? Quem atira e quem apanha? Um pequeno movimento do homem, que ele tanto pensou antes de realizar, tirou a garota do transe de ódio e a trouxe 10


Contos

de volta à realidade. Ela respirou fundo, olhos cravados nos do homem seminu em sua frente. Esse homem que tanto a ferira, que tanto a humilhara, violara. Um pequeno e bizarro sorriso surgira no rosto da garota, tão jovem para criar tal expressão, antes de finalmente quebrar o massacrante silêncio do quarto. — Boa noite, papai. E o som do tiro cortou a noite.

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2º Lugar Categoria Conto Pseudônimo: Richard Castle Meiriely Martinelli de Freitas, 3511

Codinome Anonymous Asher Levine tem trinta e cinco anos de idade, um metro e oitenta e sete de altura, cabelos escuros, olhos castanhos e está correndo, só para variar... Ele sempre foi do tipo que se atrasa para tudo, então não seria de se espantar se ele também se atrasasse quando seu chefe o ligou às cinco ho... Quatro horas da manhã. Samantha White socava o saco-de-pancadas com tanta força que parecia que o próximo soco iria dividi-lo em dois. Os cabelos ruivos estavam presos em um rabo de cavalo no alto da cabeça e ela usava uma regata e uma legue pretas. Tenta controlar a raiva com socos e chutes enquanto imagina um rosto no saco-de-pancadas. Em poucos instantes esse mesmo rosto cruza a porta. Asher Livine entra na sala ofegante. Ele olha sua companheira e por um breve instante sente pena do pobre saco-de-pancadas. Ele ensaia um sorriso. – Ainda não está pronta? Vai acabar se atrasando, sabia? – Está atrasado! – Samantha fala com raiva sem olhar diretamente para o colega e dando um chute no saco-de-pancadas. – Por que você é sempre tão irritada? – Asher pergunta se escorando na porta. – Você quer mesmo saber por quê? – começa a falar enquanto se aproxima de Asher – Por que eu era a maior detetive dessa cidade, tinha um nome de respeito por aqui! Solucionei os maiores crimes dessa cidade. E agora? Agora estou presa ao estupido novato que não consegue levar nada a sério, caçando um estupido fantasma! – Ela dá um soco na parede bem próximo ao rosto de Asher. – Tanta dedicação ao trabalho ainda vai acabar te matando – ele sorri sarcástico e vira em direção à saída. – Vamos, o chefe quer falar com a gente. – Tarde demais. 12


Contos

– Você já falou com ele, não foi? – Asher levanta uma sobrancelha. – Mexa-se. O nosso homem atacou de novo. – Agora é a vez de Samantha sorrir sarcasticamente. Ela pega um casaco e vai até a saída. A cena não poderia ser mais clichê. Um hotel barato no centro da cidade. Um corpo caído no meio de um quarto sem muitos móveis, uma cama de casal com lençóis que Asher acreditava que um dia haviam sido brancos, uma poltrona de couro falso que já estava descascando, um criado mudo com alguns papeis atirados em cima. O corpo estava jogado exatamente no centro do quarto. – Lyla, o que tem para nós? – Samantha pergunta à legista que ainda examinava o corpo. – Bom, o Modus Operanti bate com o do nosso fantasma. A morte foi causada por ferimentos a faca, nove no total. Os golpes formam uma sequência de três golpes com arma que o Anonymous criou e, fora isso, está tudo limpo. Nenhum rastro. É como se ele soubesse exatamente como agimos. – Alguma chance de ser coincidência? – Samantha pergunta, mas sem muitas esperanças. – Três golpes de faca perfeitamente alinhados e com a distância exata de dois centímetros entre si? – Lyla pergunta retoricamente. – E a profundidade do corte também confere. Vejam por si mesmos – A legista aponta para os ferimentos no abdômen da vítima. – Eca! – Exclama Asher com nojo. – Se não tem estômago para ver um corpo deveria ter escolhido outro emprego, garoto. – Fala Samantha. – Não é isso. – Ele rebate. – Quem foi que pisou no cocô de cachorro? Lyla se dirige até o local para onde Asher apontava. – Não é de cachorro, é de vaca. – Ela corrige enquanto pega uma amostra para análise. – Vou analisar isso no laboratório, é o mais próximo de uma pista que temos. Samantha White nem acreditava que estrume de vaca seria a pista que a faria, finalmente, pegar o assassino de aluguel que ela estava caçando há meses. A melhor parte? Asher Levine não 13


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estava ali para dividir os créditos com ela. Ele havia se atrasado como sempre e acabou ficando para trás. A pista havia levado até um antigo armazém na área rural. O composto químico utilizado no fertilizante que faziam ali antes de fechar era a única coisa em toda a cidade que batia com o composto da pista na cena do crime. Samantha entra no local, sobe um lance de escadas até o segundo andar e então percebe que aquilo não foi uma boa ideia. Cerca de quatro caras com máscaras de palhaço a cercam. Um deles segurava um bastão de beisebol, se prepara para golpeá-la, mas ela desvia e consegue acertar um soco na cara dele, fazendo–o cair no chão. Os outros correm em sua direção pegando o que veem pela frente para atacar. O primeiro, pega uma chave inglesa que estava em uma mesa perto dali. Samantha desvia do seu ataque e agarra o seu braço, torce–o e se coloca entre o braço e o resto do corpo pressionando o braço para baixo. A dor faz com que ele largue a chave inglesa, que cai bem na mão dela. Ela joga o primeiro cara na direção do segundo, que vinha para lhe dar um soco, os dois rolaram na direção das escadas e Samantha White pode ouvir os gritos enquanto eles caem escada abaixo. Enquanto a luta acontecia, um terceiro homem pegou uma cadeira e quebrou–a na cabeça da detetive. Ela cambaleia desnorteada, lembra que ainda está com a chave inglesa na mão e a joga na direção dele. A chave acerta o olho do terceiro homem que, com a dor, começa a caminhar para trás. Uma das mãos tentando estancar o sangramento, a outra disparando tiros ao encontro de Samantha. Ela se abaixa e pode ouvir os tiros, acertando o cara que estava com o bastão de beisebol. O que estava atirando só percebeu que estava indo demais para trás quando já estava caindo pela janela. A detetive Samantha White suspira aliviada, certa de que já estava segura, quando sente o cano gelado de uma arma encostando na parte de trás de sua cabeça. – Você chegou tão longe para pegar o cara... Samantha White está tão perplexa com a voz de quem dizia aquelas palavras que nem ouviu o som da arma sendo engatilhada. – Tanta dedicação ao trabalho ainda vai acabar te matando. – Asher Levine sorri sarcástico enquanto aperta o gatilho... 14


Contos

3º Lugar Categoria Conto Pseudônimo: Woodwork Luma Gabriela de Oliveira, 2323

Elisabeth Essa era a terceira vez em que eu encontrava Maria Clara em estado de admiração parada em frente à antiga janela. Por alguma razão, eu não notei sinal algum naquela noite, tampouco nela ou sequer na casa. Tínhamos nos mudado fazia cerca de cinco meses, ainda em processo de adaptação, havia muito a ser descoberto nessa casa de dois andares no meio de um campo onde tudo indicava que ela era mais velha que minha mãe. A estrutura estava boa, óbvio que algumas coisas eram notáveis como, por exemplo, a pia extremamente enferrujada, as paredes lascadas e marcadas do tempo. O piso do corredor manchado com tinta vermelha. O sótão tão cheio de pó que não me dera coragem o suficiente para que o fosse visitar, e claro, a janela, no final do corredor, que tinha uma peculiaridade que a fazia ser a única da casa que tinha um encanto próprio. Tinha vezes em que eu ficava duas ou até mais horas parada em frente à janela olhando para o campo e pensando em tudo o que nos trouxe até aqui, também foi, em uma dessas vezes, que notei um carro acelerando ao passar em frente a nossa casa e desacelerar após 500 metros. Assim se repetia com todos os carros, e, até mesmo, pessoas, que passavam aqui em frente. “Ótimo, não preciso me preocupar com socialização” lembro–me de ter pensado e, para ser bem sincera, eu adorei. – Filha, precisamos ir dormir. – eu disse após ficar algum tempo observando Maria Clara. – Mãe – choramingou– por que tem uma mulher que fica sorrindo para mim o tempo inteiro? – Ela apenas está tentando ser educada filha, você deve sorrir de volta e tentar fazer amizades! – Mas eu não gosto do sorriso dela mamãe! Maria Clara saiu correndo com seu pijama floral balançan15


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do, tive que rir, e entrou em seu quarto. Gritei boa noite, infelizmente sem resposta, e caminhei em direção à janela, fazendo o mínimo de esforço possível que podia, por causa de minhas recentes dores no braço. Tentei, miseravelmente, fechá-la. Já estava quase desistindo quando reparei que havia alguém caminhando entre as árvores mais afastadas. Vi também que estava mancando e com alguns cortes nas pernas. Embora minha consciência dissesse que não, desci as escadas e fui em direção à porta, logo que a abri senti a brisa fria da noite. Corri as mãos pelos meus braços de maneira que pudesse amenizar o frio que eu estava sentindo. Fui em direção à parte lateral da casa que era onde ficava a paisagem que todos os dias eu e Maria Clara admirávamos. Após alguns tropeços em galhos secos, vi, mais ao longe, a silhueta e identifiquei, pelo seu cabelo comprido e vestido, que era uma mulher, ainda mancando, se afastar cada vez mais. Corri para tentar alcançá-la e já me aproximando disse alto: – Ei, moça! Precisa de ajuda? Não obtive respostas. Aproximei–me o suficiente para tocá-la. – Moça? – falei enquanto estendia meu braço e tocava em sem ombro. Nesse mesmo instante, ela se virou, e eu senti meu corpo gelar, minhas pernas estremeceram, a sensação foi como se todo o sangue do meu corpo tivesse desaparecido junto com minhas forças e, então, caí no chão sem conseguir expressar reação alguma, mesmo que minha vontade fosse de gritar e pedir socorro. Minha garganta tinha se fechado, e a voz não saía. Tentei correr, mas também não tinha forças. Tentei olhar nos olhos da mulher, mas foi aí, então, que percebi que seus olhos estavam costurados e sangue escorria dos pontos de costura. Sua boca estava costurada de modo que formava um sorriso que atravessava o rosto de ponta a ponta. Senti seus dedos em meus braços, olhei para o seu corpo e pude ver diversos arranhões e machucados ainda abertos como se recém tivessem sido mutilados. Eu queria sair dali, mas não tinha forças e a dor em meu braço aumentava cada vez mais. Foi, nessa hora, que senti o momento exato em que minha consciência parou de funcionar, e eu desmaiei. 16


Contos

23 de março de 2019 Acordei com um pulo na cama, meu braço doía e minha cabeça latejava. Por incrível que pareça, não me lembrava de ter voltado para casa na noite anterior, muito menos de ter deitado em minha cama. Tudo me levava a acreditar que era apenas mais um sonho. Saí da cama e preparei o café da manhã, tinha decidido que o dia será produtivo. Após algumas horas, deixei que Maria Clara brincasse no jardim e decidi finalmente criar coragem pra enfrentar todo o pó existente no sótão e dar uma arrumada. Fui até o corredor, parei alguns minutos e olhei para a janela que me lembrou do sonho que havia tido na noite anterior. Não durou muito e logo puxei a escada acoplada ao teto e subi até o acesso ao sótão. Logo que entrei, espirrei. “Maldita rinite”, pensei. Comecei a tirar algumas caixas da prateleira, jogando algumas fora, certificando–me de que não tinha nada de importante dentro. Encontrei alguns objetos de decoração antigos, que também acabariam indo para o lixo mais tarde embora tenha ficado com um ou outro. Cheguei a uma prateleira um pouco menos empoeirada, o que me deixou curiosa. Comecei a ver o que tinha dentro achando que seriam coisas esquecidas pelos últimos donos. Para a minha surpresa, eram apenas recortes de jornais. Estava prestes a guardar tudo na caixa e jogá-la fora, quando me deparei com uma reportagem que dizia “mulher é encontrada morta no pátio de sua casa com olhos e bocas costurados”. Prendi a respiração por cerca de um minuto. Continuei lendo a reportagem: “Após declarações de vizinhos próximos afirmando que Elisabeth de 38 anos morava com a filha Isabel de sete anos, concluiu-se que, na noite anterior, sua casa teria sido invadida e ela teria sido mutilada pelos agressores. Logo após, eles teriam sequestrado sua filha e deixado o corpo de Elisabeth, já sem vida, jogado no pátio. Perícias afirmam que as manchas vermelhas no corredor são do sangue de Elisabeth que teria sido arrastado para fora pelos agressores, Isabel segue desaparecida” 18/05/1998. 17


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Folheei os jornais o mais rápido que pude e, já com dificuldades, pois minhas mãos tremiam e me deparei com uma notícia mais recente de três anos atrás: “Sexta denúncia seguida com um espaço de tempo de três anos desde que a primeira foi datada em 17/06/2001. O caso é que crianças, geralmente do sexo feminino, se suicidam ao pularem da janela do segundo andar da casa localizada na Rua Alberto Roosevelt, 45. Relatos de parentes dizem que antes do suicídio geralmente elas pediram desculpas, seria isso uma coincidência do destino ou uma assombração do passado buscando vingança? Afinal, todos ainda recordamo–nos do caso de Elis...” Não conseguia mais ler, eu estava chorando, o último caso foi datado em 2016, três anos atrás. Nesse mesmo instante, senti uma dor forte em meu braço, fui olhar e havia uma sutura mal feita que sangrava. – Não me lembro de ter... Nesse mesmo instante, me dei conta de que o meu sonho havia sido real, e que minha filha estava correndo perigo. Joguei as coisas para o lado no mesmo instante em que gritava o nome de Maria Clara, saí do sótão o mais rápido que pude. Ao chegar no corredor, vi as mesmas manchas vermelhas que, até então, pensava ser de tinta quando na verdade era do sangue de Elisabeth. Gritei o mais alto que pude por Maria Clara já preparada para ir pegar nossas coisas. Quando virei para janela e vi Maria Clara de costas para mim, foi, então, que ela se virou e disse: – Desculpe mamãe, eu preciso ir com ela. E, então, antes mesmo que tivesse tempo de gritar um “NÃO”, ou sair correndo e agarrá-la, Maria Clara pulou da janela. E ainda sem expressão, ao longe, vi uma mulher que mancava indo embora carregando um corpo em seus braços, um corpo que tinha nome, um corpo que pertencia a mim e tinha o sorriso mais puro, um corpo que jamais poderei tocar novamente. Naquele mesmo dia, perdi Maria Clara.”

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Contos

Pseudônimo: Ana Terra Marina Ottmann Boff, 1312

Capitu Capitu tinha seus três anos de idade quando descobriu de onde viera seu nome. Estava chovendo, lembra bem como soava o som dos pingos de chuva lá fora, que corriam amontoados uns nos outros e causavam um tremendo barulho nas telhas do seu quarto. Talvez nem fosse tão grande o barulho da tempestade, mas para o pequeno tamanho da menina se entendia o alarde. Era nessas horas que intervinha sua avó. Calmamente a levava até a grande biblioteca e contava algumas histórias. Ah, aquele lugar era seu favorito... as grandes estantes, com livros enfileirados por tamanhos, separados por autor. As edições de capa dura! Os livros maltratados pelo tempo e algumas traças... os que falavam de séculos atrás, mas fazia apenas um ano que tinham sido lançados nas editoras. Todos eles eram os tesouros que Capitu tanto desejava conhecer. – Esse livro tem uma história envolvendo seu nome, sabia? – disse a avó, retirando um livro vermelho com letras douradas da prateleira. – Qual é o nome, vovó? – disse a pequena. – Dom Casmurro. É de um escritor muito especial... sua mãe gostava muito dos seus livros. Vou contar só por cima a história que ele escreveu! Um dia você mesma vai poder apreciar detalhe por detalhe. E assim a avó foi contando a história que os senhores leitores provavelmente já sabem de cor e, portanto, não vou falar palavras repetidas e enchê-los de detalhes já conhecidos. Do necessário, só conto aos curiosos o porquê da sua mãe escolher esse nome para a menina. A mãe de Capitu a teve em um parto de risco e acabou passando desta para uma melhor. Sempre amara os livros de Machado de Assis, em especial Dom Casmurro. Nos poucos minutos que segurou sua filha antes do anjo da morte levá-la para 19


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longe, pediu para que deixassem que escolhesse pelo menos o nome daquela criança. Balbuciou, quase inaudível, que desejava que fosse “Capitu”. E assim o foi. Agora, portanto, termino essa pequena história paralela, que os curiosos ficariam insatisfeitos com a leitura se esta não fosse contada. Capitu deliciou-se com a história e mais tarde dormiu finalmente tranquila, com seus bracinhos rechonchudos abraçados num coelho de pano. Sonhou tanto com aquela história que, depois daquela noite, Capitu esforçou-se para aprender a ler. Entrou logo em seguida para a escola e em pouco tempo já juntou as vogais e consoantes. Tinha a ambição de saber o que tudo significava: desde balões das histórias em quadrinho (que sempre precisara pedir ajuda à avó para descodificá-los) até as grandes placas que sempre olhava curiosa quando visitava o centro da cidade. A menina começou a ler os livros menores, passou para uns mais grossos e, finalmente, aos dez leu Dom Casmurro. Essa Capitu também se apaixonou por Bentinho. E depois o desgraçou. Sentiu tudo que se sente, todas as dúvidas e todas as incertezas do estilo machadiano. Ficou tão apaixonada pelo livro que quem conhecera a mãe podia dizer com toda certeza que a menina amara aquele livro tanto quanto ela. Após um tempo, fez seus quinze anos. Aquela Capitu era esperta tanto quanto a de Machado, diziam. Os olhos... olhos dissimulados de cigana! Era o que mais ouvia que tinha de parecido. Seus cabelos eram compridos, vivia de tranças pela escola e nos delírios juvenis pensava quem seria o seu Bentinho. Foi na mesma idade em que teve o desejo de encontrar o seu primeiro amor, que o tão esperado Bentinho chegou. Na verdade, ele se chamava Fernando, Nando, Dinho... para Capitu era Fê. Era o menino mais legal de todos, que conhecera na biblioteca da escola enquanto escolhia um livro para ler nas férias. A tão esperada cena das tranças – a qual Capitu sonhara acordada pensando tantas vezes – chegou nesse período do recesso escolar, quando eles estavam conversando no quarto dela e ele disse que “ia fazer igual a cena do livro”. Só não se beijaram, porque, antes que o fizessem, a mãe de Capitu bateu na porta do 20


Contos

quarto avisando que o almoço estava a postos. Mesmo com as interrupções incessantes, o beijo não tardou a acontecer. A cena deu-se embaixo de uma laranjeira, depois dela ter percebido que tinha dito “te amo” sem querer enquanto riam de um assunto qualquer. Ficou aquele silêncio maior do que o universo que cabia dentro deles. Até que aquele universo se expandiu para que os seus lábios se tocassem. Capitu, então, descobriu o que era paixão e pensou que era seu nome que lhe havia conferido uma alma gêmea... igual ao livro! Foi aos dezesseis que Capitu teve o coração partido. Antes Fê, agora Fernando. Não podia dar apelidos a quem a fez passar por tanta dor. Ele não confiava mais em deixá-la ser quem ela era. Duvidou tanto que a impedia de sair com os próprios amigos, dizia que o problema não era ela e sim aquele mundo que podia persuadi-la. Uma vez colocou a culpa até no seu nome, falando que dava margem para pensar que um dia fosse traí-lo. Se ela retrucasse, pedia logo para que ficasse quieta e deixasse a cara de aborrecida de lado, não havia porquê se ele a amava. Capitu não tinha mais vida, ficou tão tristinha que começou até desistir dos livros. Tudo eram defeitos, até o sorriso que ele antes tanto gostava. Ela sempre pensava que era só mais um dia ruim, por conta da semana de provas ou da final dos jogos estudantis. Sempre tentava achar algum motivo, pois não entendia como algo tão doce podia ter virado amargo e dolorido. Até que percebeu que só estava dando desculpas e decidiu dar um ponto final. A culpa era daquela maldita história! Tinha sido amaldiçoada por aquele nome! Quem a havia desgraçado com o nome de alguém que quase fora envenenada pelo próprio marido? Quando tivesse dezoito ia trocar: não queria saber mais de algo relacionado àquela história. Logo depois do término do namoro, destruiu em pedacinhos a sua versão de Dom Casmurro que lera tantas vezes e se desfez de tudo que lembrava de toda aquela mentira que havia vivido. Todavia, foi com dezoito anos que Capitu percebeu que seu nome não era o problema e que havia cometido a maior traição possível contra si mesma ao se achar culpada. Capitu era mais 21


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adjetivo que nome. Era se envolver com tudo, ser curiosa por todas as coisas. Era procurar ocupar seu lugar no mundo que era por direito seu, sem se importar muito com o que os outros iriam dizer. Era ter olhos de cigana: não dissimulados, mas sim atentos, insubmissos. Capitu era ser mulher. Soube, aos dezoito, que ser Capitu era uma tarefa árdua, pois, num mundo em que homens preferem mulheres silenciosas que aceitem o que lhes é solicitado, seria muito difícil ser ouvida e confiada. Foi então, durante o resto da vida toda, que gritou o mais alto que pôde.

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Contos

Pseudônimo: Alítheia Ana Carolina R. Sferra, 3123

Com amor, seu Leonardo Ela estava sentada em sua varanda observando a paisagem. Aproximou a xícara de chá até seus lábios assoprando de leve para que pudesse tomar um gole de sua bebida quente. Aquele silêncio estava ajudando a se acalmar, já que chorar e gritar era desgastante para qualquer um. Tomou um gole do chá, soltando um suspiro longo. A falta de seu marido estava a afetando, as vizinhas comentavam de seu mal-estar. As senhoras intrometidas de seu bairro sabiam o quanto aquela mulher sentia a falta dele, mesmo se passando mais de um ano. Não é tão fácil esquecer o amor da sua vida, certo? Medo, angústia, solidão, ansiedade, preocupação, tudo junto e misturado dentro do pobre coração daquela mulher. Mesmo que tivesse recebido uma carta já fazia dois meses e mesmo que soubesse que ele não poderia enviar notícias todos os dias, a vontade de ir atrás dele era enorme. Maior que aquela torre que havia sido construída na França no ano em que nasceu. Levantou da cadeira de balanço com a xícara em mãos, olhando para o horizonte, se lembrando de seu amado, do seu doce Leonardo. Com cuidado para não pisar em seu longo vestido, adentrou a casa, levando consigo o bule e sua chávena de porcelana. Passando pelo enorme corredor que a levaria até a cozinha, olhou para os porta–retratos nos quais haviam fotos e algumas cartas, seus bens mais preciosos. Parou de frente para uma dela, leu o início: “Nunca saberei como dizer-te o quanto estou apaixonado por ti e como me fazes feliz minha doce amada. A cada dia que se passa, amo-te mais, minha doce Alícia”. Uma lágrima teimosa caiu de seus olhos. Secou rapidamente a lágrima intrusa e seguiu seu caminho. A saudade não mata, mas machuca. Lembrava claramente da primeira carta que recebeu de seu amado Leonardo, na qual ele dizia palavras de consolo e declarações amorosas. “Independente de nossa distância, minha amada, irei sonhar com seus beijos e carinhos. Voltarei para seus 23


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braços, minha doce Alícia. O tempo apenas será um obstáculo.” Logo abaixo: “Com amor, seu Leonardo.” Nunca ficou tanto tempo sem notícias dele. Será que havia sido transferido para outra área novamente? Talvez estivesse sido liberado? Estaria ferido? E se estivesse morto? Alícia resolveu sair para andar um pouco pela vizinhança, respirar ar puro. Pegou sua sombrinha por causa da incerteza sobre o tempo, certa hora chovia, outra hora parava. Andava calmamente pelas ruas de sua cidade até se deparar com sua vizinha. Uma mulher que tinha em torno de cinquenta anos, ela carregava sacolas. – Boa noite, Sra. Williams – disse de forma educada. – Boa noite, Sra. Petterson – foi respondida de forma gentil. – O que faz a essa hora andando pelas ruas? São quase oito horas da noite. – Resolvi andar um pouco, Sra. Williams – respondeu à pergunta de sua vizinha. – Por que não me acompanha num chá? Estou num tédio desde que meu marido viajou – convidou a mulher mais velha. Percebeu que aquela senhora e ela sofriam dos mesmos sentimentos, sozinhas e a procura de uma boa conversa. A jovem assentiu, seria bom conversar com alguém sobre as roupas escandalosas da Sra. Rubns ou quem sabe do trabalho do Sr. Willens na fábrica e talvez sobre algumas novidades positivas da guerra. Na casa da Sra. Williams, ambas tomavam chá e conversavam. – Ouvi dizer que o Sr. Falls e sua esposa viajaram para a Inglaterra para visitar alguns parentes – comentou a Sra. Williams enquanto colocava um cubinho de açúcar em sua bebida. – Deve ser um lugar encantador – Alícia respondeu antes de tomar um gole de sua bebida quente. – Com toda a certeza, Sra. Petterson. Infelizmente meu doce Alfred não voltará tão cedo para que possamos ir também – a voz da vizinha saiu pesada. – Sr. Williams está com algum problema? – perguntou a moça, porém ao perceber que fez tal pergunta se calou. – Sinto muito, não queria causar nenhum desconforto de minha parte. 24


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– Não se culpe, Sra. Petterson – a senhora lançou um sorriso gentil para a mais jovem. – Meu Alfred sempre amou servir ao seu país, mesmo que me coração doa por não tê-lo por perto, meu orgulho por ele se mantém. – Entendo, Sra. Williams – Alícia aproximou a xícara até seus lábios. – Você soube das últimas notícias da guerra, Sra. Petterson? – perguntou Sra. Williams. Seu coração parou de bater. A jovem levantou seus olhos para a vizinha em dúvida se deveria ouvir ou não. O medo de não serem boas notícias era muito mais presente que qualquer outro sentimento, porém não mais que sua curiosidade. A moça negou com a cabeça, ansiosa. – Alguns soldados estão voltando para casa – a mais velha encheu novamente sua xícara com chá. – Parece que nossos inimigos invadiram uma de nossas bases e mataram diversos soldados. O coração de Alícia se apertou de uma forma indescritível. – Graças a Deus os inimigos foram mortos e não ocorreram tantas mortes, mas ainda irão verificar quais soldados morreram para que possam avisar suas famílias. – S–Sra. Williams... Há quanto tempo isso ocorreu? – fez a pergunta com as mãos tremendo e com o coração apertado. – Acredito que já faz dois meses. Definitivamente, sua esperança sumiu como pó. – Vou ver como estão os biscoitos, peço que me espere aqui, Sra. Petterson. Nenhum biscoito ou chá concertariam o coração da pobre mulher apaixonada. Após recusar de forma educada os biscoitos de Sra. Williams, Alícia voltou para casa. Mal pisou na varanda e já se derramou em lágrimas. A sensação de ter perdido seu doce Leonardo partiu seu coração. Chorou a noite toda. Na manhã seguinte, ela estava novamente em sua varanda com uma xícara de chá em mãos, ouvindo as crianças da vizinha brigarem por não poderem brincar lá fora, vendo algumas pessoas andarem depressa para casa. Largou a xícara sobre a mesinha. Se levou para que pudesse preparar alguns biscoitos, porém foi impedida por uma voz: 25


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– Sra. Petterson? Ao virar, se deparou com o marido de Sra. Williams. – Sr. Williams? O senhor não estava em viajem? Qual o motivo da volta tão inusitada? – disse curiosa. – Felizmente voltei pela madrugada – respondeu à dúvida da jovem. O Sr. Petterson foi interrompido: – Ele... está morto, certo? – questionou a Sra. Petterson. – Infelizmente foi morto já tem dois meses, Sra. Petterson. Quando foi explicar como, Alícia o interrompeu: – Com uma invasão do exército inimigo, certo? Sr. William assentiu. – Encontramos isto em sua barraca – estendeu um pedaço de papel sem envelope. –Parece ser uma carta que ele pretendia enviar para a senhora, infelizmente não conseguiu terminar de assinar – continuou. – Muito obrigada – Alícia pegou com cuidado a carta, olhando para o papel em que havia algumas gotas de sangue já secas. – Irei me retirar – disse o vizinho. – Sinto muito pela perda, Sra. Petterson. A jovem assentiu, entrando em casa. Ao se sentar no sofá, abriu a carta com delicadeza. “Minha doce Alícia, A cada momento que passa, minha vontade de te abraçar e de te beijar com ternura aumenta. Meu sentimento de saudade é a minha maior companhia. Meu maior desejo é voltar para nossa cidade, para nossa casa, para os seus braços, minha doce amada. Que destino cruel foi posto sobre mim, eu apenas espero que todo este confronto tenha um fim e eu possa encerrar minha tarefa nesta guerra. Minha bela Alícia, como foi dito na primeira carta, se me recordo bem, eu disse que o tempo seria o nosso obstáculo, porém creio que estava errado, o nosso pior obstáculo é a saudade. Ela é tão cruel quando o tempo, entretanto ela dói mais, muito mais. Tenho esperança que irei te ver novamente, minha amada, não apenas em sonhos, mas pessoalmente. Esperarei de forma ansiosa, minha amada Alícia. Com amor...” 26


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Pseudônimo: O Estranho Alexandre dos Reis Domingues, 2312

Cabeças Cortadas Era inverno de 1992, um daqueles difíceis anos que se sucederam depois que o então presidente Fernando Collor havia passado as mãos nos cofres da população. Nas ruas, as pessoas andavam cabisbaixas, os carros haviam sumido das garagens e o silêncio dos apoiadores de Collor era de uma feiura ridícula. Apesar de tudo, a vida ainda assim parecia boa na maioria do tempo. Foi nesse ano que os Cascavelettes lançaram um EP que viria ser considerado um clássico absoluto para os amantes do bom e velho rock gaúcho, a atuação de Anthony Hopkins em O Silêncio dos Inocentes ficaria para a história e, nas manhãs, A Família Dinossauro passava na Globo, dando um aspecto mais leve para a infelicidade do dia a dia. Carlos Henrique Conceição estranhava essa calmaria. A felicidade do jovem de dezessete anos não condizia com o amargurado olhar de seu pai toda noite que voltava do trabalho. – Os tempos não estão fáceis. É mais que hora de tu virar homem, Carlos Henrique – repetia o pai rotineiramente. – Se não, vai acabar que nem teu irmão. Esse assunto era uma das feridas abertas entre os Conceição. João Renato era o irmão mais velho de Carlos, ele era quem lhe havia apresentado as maravilhas do rock britânico, lhe ensinado seus primeiros acordes no violão e também foi a primeira pessoa a dar conselhos para Carlos sobre como agir com as gurias. Era uma pessoa de presença marcante, que encantava todos ao seu redor, e de quem nunca mais havia se ouvido falar o nome, desde o trágico dia em que o pai havia o visto beijando outro rapaz. Quando João Renato sumiu do mundo com menos de vinte anos, ainda moravam em Porto Alegre. João levou poucas roupas e se despediu do irmão com um beijo na testa. Quando Carlos perguntou, semanas depois do sumiço do irmão, por onde ele andava, o pai respondeu que se Deus quisesse, já estaria morto. A dor ainda morava lá dentro toda vez que o rádio tocava Bowie, mas aquilo não era o fim do mundo. A gratidão que Car27


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los Henrique sentia pelo irmão era tanta que era como se ele estivesse ali com ele o tempo todo, assistindo o caçula cantando com o violão e prestigiando os sucessos de suas investidas nas garotas, aplicando as táticas que João, mesmo tendo preferências sexuais tão divergentes das do irmão, havia ensinado com muito carinho como conquistar o gênero oposto. E Carlos realmente fazia sucesso. A família havia se mudado há poucos meses para Canoas, mas Carlos Henrique já havia estreado a maioria de suas cantadas com as gurias da cidade. Era um lugarzinho tedioso de se viver. Durante o dia, a coisa mais interessante de lá era que o caminho para o La–Salle, onde o rapaz finalizava o ensino médio apenas pela insistência do pai, que mesmo em meio às crises juntava dinheiro para pagar bons estudos para o filho. Indo para o colégio, Carlos passava pela Passarela da Cabeça que, de acordo com as lendas locais, havia sido o cenário de um crime horrível. Os mistérios por volta da tal decapitação a la Revolução Francesa tornavam a caminhada bem peculiar, mas todo o tédio voltava a aparecer assim que botava os pés naquela escola incrustada de burgueses mimados. Tinha, entretanto, encontrado um bom grupo de amigos. Juntos tornavam as noites na cidade mais interessantes. Augusto, o mais velho, já com seus dezenove, tinha um Opala bem velho que causava na gurizada o mesmo encantamento que uma espaçonave de outro mundo. Foi com o Opala que eles foram para o bar naquela segunda-feira de julho, dia em que a vida de Carlos mudaria completamente. Mesmo sendo apenas mais um começo qualquer de semana, para aqueles guris, o 13 de julho era uma data tão comemorativa quanto o natal ou ano novo: era o dia mundial do Rock N Roll. Por conta disso, “Carl” (como os amigos o chamavam) vestiu sua melhor jaqueta de couro, um par de All–Stars e afinou a sua guitarra. Naquele dia, ele e os guris, tocariam covers ao–vivo em um festival que rolaria em um dos pubs mais alternativos da região. Intitulavam-se “Os Cabeças Cortadas” por razões óbvias de homenagear todas as lendas sobre a cabeça na passarela, histórias estas que pareciam relatos vivíssimos no subconsciente de Carlos. Não foi tocando guitarra que o rapaz abriu a apresentação. Em vez disso, ficou apenas na voz e com a banda executou uma 28


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versão impecável de Angie, dos Rolling Stones, revelando na canção todo seu talento nato. As gurias foram à loucura, dando aplausos e gritos que faziam tremer as rústicas paredes do bar, mas Carl naquela noite não poderia ter olhos para nenhuma delas. A sua querida Caroline havia feito o assombroso sacrifício de ir para um show de rock numa segunda apenas para vê-lo cantar, e tal gesto a fazia ser digna de fidelidade. Foi com o mais puro tesão que beijou os lábios apaixonados da moça. Ele havia conquistado toda a plateia com a sua incrível voz e agora seu orgulho havia virado pura libido. Permaneceu abraçado nela por um bom tempo, até que notou um olhar penetrante o observando de fora da janela. Eram olhos intensos e vorazes que, aliados com um sorriso malicioso, davam um aspecto de deboche ao estranho homem de chapéu que fumava um crivo do lado de fora em pleno frio de julho. – Tu viu aquele cara estranho? – ele perguntou, após sair de seu transe. A resposta de Carol foi bastante previsível: – Que cara? Mesmo com toda valentia que a jaqueta de couro lhe evocava, Carlos Henrique sentiu um frio na espinha no mesmo instante que percebeu que o sujeito realmente tinha sumido. Mas é como dizem, a curiosidade sempre acaba por ser aquela que leva o gato à sua morte. Carlos precisava entender o porquê daquele olhar parecer tão familiar e ter evocado no rapaz, de uma só vez, todas as dores da vida que as cantorias, os cigarros e as mulheres o faziam esquecer. Deu a desculpa que ia fumar em paz e deixou Caroline sem entender nada, para sair por aí, vagando para procurar o sujeito. Foi em pleno chão batido, numa esquina em que três ruas de terra se cruzavam, que Carl encontrou aquele homem. – Olá, Carlos Henrique – o homem falou com um sotaque britânico peculiar. – Achei primorosa a sua versão de Moonage Daydream. – Quem é você? – perguntou Carlos. Observar o sujeito de perto o tornava apenas mais bizarro. Era tão pomposo no jeito de vestir, com seus casacos de peles e suas estampas floridas, que parecia mais um típico 29


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vilão do filme do Zorro. – Por favor, permita que eu me apresente. Sou um homem de riquezas e bom gosto que se encantou na sua maneira de cantar. Julho nunca fora tão frio quanto diante da presença daquele sujeito, que subitamente envolveu tudo ao redor deles por uma densa neblina. Nem nunca o silêncio se fez tão agoniante. Era como se de repente, as algazarras lá de dentro haviam sumido e a cantoria parado, fazendo com que Carl desejasse ouvir aquele homem falar, apenas por razão de livrá-lo daquela agonia. – Muito obrigado – respondeu ele, com um sorriso desconfiado, apenas para quebrar o agoniante silêncio. – É só isso que queria dizer? – Não. Eu tenho uma proposta para fazer: Quero torná-lo o mais talentoso artista que o Rio Grande do Sul já viu. Isso tudo parecia besteira, porque afinal Carlos morava no mesmo estado que Flávio Basso, mas a curiosidade era tanta e ele já havia caminhado muito para ouvir o homem que, com toda a sua eloquência, havia tornado a sua fala bastante sedutora. Explicara com o mais puro domínio do assunto todos os segredos do universo. Contou como havia entregue o fogo para os humanos milênios atrás, por mera razão de testar até onde iria sua esperteza, e também como séculos mais tarde esses mesmos primatas haveriam de conquistar o seu respeito com a sua mais genial invenção: a música. Contou a sensação de assistir Jimmy Hendrix compor o seu primeiro riff e, mais importante que tudo, contou para Carlos todo o sucesso que o esperaria com um único preço: abrir mão daquilo que ele mais amava. – Não faz sentido – respondeu. – A música é o que é mais precioso para mim. – Não seja tolo. Você sabe que há algo mais importante para você que a música. Por um momento pensou em Caroline, mas por mais maravilhosa que a garota fosse, ele amava mais o par de coxas dela que ela própria. Essa dúvida de sobre o que ele verdadeiramente amava o atormentou profundamente depois de terem selado o pacto. Quando voltou para dentro do bar, Carol, ainda delirante de orgulho, o recebeu com um beijo de deixar qualquer um de pé. Estava completamente entregue ao músico, mas ele não sentiu 30


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a mesma emoção de antes. Ainda estava pensando nas falas de antes, e mesmo quando foi para a cama com a moça, não sentiu nada lá embaixo, absolutamente nada. Foi o momento mais vergonhoso de sua vida e, depois disso, nunca mais a encarou nos olhos novamente. Ao menos teve certeza que não a amava. De fato, o rapaz estava cantando absolutamente melhor, além de compor músicas com uma velocidade extrema. Em uma noite, era capaz de fazer vinte e sete canções novas, mas todas falando sobre relacionamentos superficiais e já esquecidos, porque Carlos já não era mais capaz de sentir atração por mulher ou pessoa alguma. Havia tentado com muitas depois de Carol, mas nem mesmo pagando ou sozinho era capaz de sentir prazer, e essa falta de satisfação foi se transformando em um mau humor extremo que ia fazê-lo explodir a qualquer momento. Já não tinha autoestima para nada. Não se atrevia a olhar no rosto nem seus amigos, muito menos as gurias. Mergulhou de vez em uma solidão acanhada e retirava de suas antigas aventuras amorosas a inspiração para escrever canções que eram recebidas pelos melhores produtores do estado com uma empolgação severa. Carlos estava tão acometido com as dúvidas consigo mesmo que fez algo que nunca se atrevera antigamente: levou a sério as falas de seu pai e, quando o homem se atreveu a falar novamente que o rapaz precisava aprender a ser homem, Carlos não conseguiu evitar de relacionar internamente aquilo com sua sigilosa impotência. Reviveu em si todo o ódio que havia guardado de seu pai. Por tudo que ele havia feito pelo irmão, por todas coisas que dizia para Carlos diariamente, e agora já não sentia mais nada por ele. Foi com uma frieza absurda que pegou uma faca de churrasco comprada no Carrefour e deu risadas histéricas enquanto decapitava seu pai. Na manhã seguinte, Canoas amanheceu com mais uma cabeça pendurada em sua passarela.

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Pseudônimo: Ana Terra Marina Ottmann Boff, 1312

O Julgamento A audiência procurava por um culpado o mais rápido possível. Os júris incompetentes, semblante da injustiça brasileira que se alastra desde o poder judiciário para o povo – que segue o exemplo dos primeiros para justificar seus próprios julgamentos errados, tentavam achar a culpa na cena terrível que aquela quarta-feira trazia consigo. Primeiro, vieram assistir à cena os vizinhos que estavam a caminho de buscar pão das sete na padaria da esquina. Depois, vieram os que faziam sua corrida matinal pela alameda mais bonita do mundo: a famosa rua Tobias da Silva, localizada, aos leitores desinformados, na cidade mais bonita do mundo (e agora fazendo, única e exclusivamente da crônica, meu jeito de declarar meu amor por esse paraíso histórico de laçadores e orlas) chamada Porto Alegre. Assim foram chegando aos poucos os espectadores daquela cena de horrores, inclusive os jornais da cidade com seus holofotes, gravadores e máquinas fotográficas. O primeiro que conseguisse a pior foto era, na verdade, o ganhador. O meu encontro com aquele cenário de filme de terror aconteceu enquanto eu passava de carro pela região a fim chegar à agência de publicidade na qual eu trabalhava. Como de costume, desacelerei o carro para maravilhar–me com aquela rua magnifica. Até que vi uma pequena multidão em círculo e decidi frear o carro e ver o que estava acontecendo. Espiando entre os espaços, reconheci a mulher que estava no chão. Era Julinha, uma ex-colega da faculdade de publicidade e propaganda, dos meus velhos tempos de UFRGS. Julinha estava igual à época em que frequentamos a faculdade juntas. Lembro pouco dela, não tínhamos uma grande amizade, apenas éramos colegas de classe que se cumprimentavam pelos corredores indo às aulas. Pensando em tentar ajudar a socorrer a ex-colega de um desmaio rotineiro, estacionei o carro e fui ver o que estava acontecendo. – O que houve?! – Perguntei, apavorada com a situação em 32


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que eu me deparava: Julinha no chão, com sangue escorrendo da sua nuca. – Ela trabalhava como empregada da Dona Dete... limpava a casa e conseguiu sujar os chãos da nossa rua! Quando chegamos aqui, já estava morta depois de se atirar do segundo andar. Eu já falei, dar oportunidade para quem mora na vila Bom Jesus é coisa de gente burra! Todos aqui sabem, já demos chances para muitos. Depois, somos os ricos metidos. Nossa rua tem uma reputação... e agora vai vir a polícia, a ambulância. – Disse um idoso de estatura baixa e cabelos grisalhos com um broche da brigada militar no bolso da camisa social. – Isso nem é o pior, quem liga tanto para reputações hoje em dia? Eu acho que o maior crime cometido foi contra a criança em seu ventre. – Agora eu reparava que estava mais rechonchudinha do que a época em que eu a conhecera – Isso foi um aborto! E aliás, ela estava no quarto ou quinto mês da gravidez e não via um sorriso no seu rosto, uma alegria por esperar uma criança. Óbvio que ela estava esperando sofrer o aborto e ser levada apenas com algumas fraturas para o hospital. Aliás, eu suspeito que foi isto justamente porque vocês lembram né? Há dois meses atrás, mais ou menos, Dona Dete havia comentado que a Júlia tinha falado sobre sua vontade de abortar... – Argumentou uma vizinha que beirava a meia idade, com cabelos compridos e castanhos. – O marido batia todo dia nela, já vi várias vezes essa mulher vindo trabalhar de olho roxo, marcas no pescoço... nunca se esforçou para sair do relacionamento. É o que eu digo, essa gente aí que tem depressão, depois acaba assim... Eu tenho certeza de que foi suicídio! Todo mundo sabe que ela nunca estava feliz, inclusive acho válido lembrar que nem com um filho em seu ventre ela ficou animada. – Retrucou uma mulher alta de óculos de sol. Usava uma legging apertada e um top que comprimia tudo de corpo que ali existia. Na sua voz, inclusive, sentia-se que o ar lhe faltava. – E se o marido não veio aqui e deu um golpe final? Quem sabe ela tentou sair do relacionamento. Mas vocês sabem, já fui agredida pelo meu marido, para sair do meu casamento tive que sumir do mapa até ele ser preso. Inclusive, até hoje vivo com uma faca de baixo do travesseiro, pois ele conquistou a confian33


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ça dos policiais e, dias depois, foi solto por não haver provas o suficiente. – Respondeu a única vizinha que, até agora, demonstrara algum remorso e compaixão por Julinha. – No fim vocês ficam inventando mil histórias, fofoqueiros! Todo mundo que já visitou a casa de Dona Dete sabe quão desorganizada ela é. Deve ter deixado algo no caminho, e a pobre empregada tropeçado! Além disso, vocês já viram aquele vazamento na cozinha? Muito fácil de tropeçar. Para mim, foi um acidente, e a nossa vizinha que é culpada. – Disse outra vizinha alta, de cabelos volumosos e ruivos. Assim começara a grande audiência. O júri, composto por muitos advogados formados, tentava achar um culpado ou um motivo para aquela cena com a qual se deparavam. Aliás, a maioria das vezes, culpavam Julinha por tudo, porque a justiça, por si só, já estava do lado deles e, por isso, já se sentiam no direito de acharem os culpados. Foi ali que eu ouvi as piores conversas do que seria o funeral da mulher que estava na minha frente. Eu, que conhecia um pouco de uma Julinha que eles não tinham ideia de que existia, senti uma dor no coração enorme. Julia dos Santos Silveira saiu da casa dos pais drogados e foi tentar a vida ajuntada com um homem vinte anos mais velho que ela. O homem tinha uma vida boa, vida que o universo nunca tinha dado por azar à Julinha. Nessa tentativa de morar mais perto da faculdade e não ter que conviver com as coisas que passava na casa dos pais, acabou sofrendo abusos do companheiro. Até que ela desapareceu completamente. Alguns rumores da faculdade diziam que ela havia sido expulsa da casa do quase–marido após uma tentativa de denunciá-lo por ser mantida em cativeiro. Tinha voltado para a vila Bom Jesus e casado com um traficante que já era conhecido por agredir mulheres na região metropolitana. Os rumores, que vinham de uma menina do Jornalismo que tinha feito uma pesquisa sobre o tráfico na vila em que Julinha morava, eram verdade. Todos sabiam que sim. Porém, era uma verdade difícil de engolir e, portanto, entrou para o esquecimento quando a semana de provas chegou. Um pedido de cancelamento de matrícula ou transferência nunca chegou à universidade, muito menos, algum sinal de vida. Ainda assim, lia-se, nas entrelinhas de cada comentário, que Julinha era a única culpada da sua morte. Talvez a culpa fosse 34


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dos pais viciados, quem sabe do SUS e o governo por não darem acompanhamento psicológico e não fornecerem um aborto seguro. De repente, do marido que realmente a jogou da janela, ou de Dona Dete por nunca ter consertado alguns canos. Apesar disso, me esquivo dos assuntos complexos e polêmicos para dizer quem, na minha concepção, foram os mais culpados daquele crime terrível que eu me deparara. O primeiro réu culpado seria realmente Dona Dete, mas não pelo motivo que todos tinham colocado em pauta. Ela sabia da tentativa do aborto e não tentou ajudá-la ou saber seus motivos. Ao invés disso, espalhou a confidência a todos vizinhos. Ela poderia ter ajudado, descoberto seus pesadelos, encontrado caminhos. De algum modo Julinha tentou demonstrar o que estava passando, o que quer que fosse. O segundo réu, ou melhor, os segundos, seriam, portanto, os vizinhos da dona da casa em que ela trabalhava, por nunca terem dado apoio, e sim ajudado a espalhar o segredo. Faltou empatia de uma rua inteira, quem sabe até de um bairro. Todos, preocupados com seus próprios problemas, nunca prestaram atenção nos verdadeiros problemas. Decidiram levar em conta o famoso ditado de que “em briga de homem e mulher não se metia colher”. Nunca a levaram para prestar uma queixa na polícia, ou oferecido uma ajuda sequer. Além disso, haveria um terceiro réu que seria eu, que nunca me aproximei de Julinha apesar de ela ter tentado algumas vezes, pois ela era muito diferente, estranha... parecia sempre com medo. Eu podia ter cessado muito dos problemas que ela teria passado depois que saiu da faculdade. Poderia ter dado chá quente e um ombro amigo. No fim, não utilizei o meu conhecimento para salvar a pele de outras pessoas além da minha. A culpa foi minha e deles por nunca a ter protegido como dever de sociedade. Todos podiam ter salvado uma vida, mas, ao invés disso, crucificaram–na. O sino da Paróquia São Pedro bateu. Aos poucos os vizinhos se afastavam, precisavam se arrumar para missa do primeiro dia da quaresma. E eu fiquei ali, sozinha, esperando o socorro chegar para a morte da minha ex-colega Julinha ser declarada e a sentença final ser dita na minha consciência: mais uma que vai ser esquecida. 35


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Pseudônimo: Maria Fulô Arthur Eloy da Silva, 3211

Hiperbolianos numa Terra Eufêmica – Pai... pai, tá certo assim? – Perguntou, animado, ao Sr. Agnès, que carpia abaixo dos sóis escaldantes. – Tem que segurar mais firme – ajudando Kaleo, que penava com a enxada pesada. O campo era interminável, e as duas estrelas faziam as gramíneas douradas resplandecerem ao horizonte. Era o último dia de colheita, e, neste semestre, a mesma havia sido farta. Os demais trabalhadores ficavam demasiados dispersos naquele acre imenso, isolando pai e filho de todo e qualquer bloqueio na relação nos últimos dias. Sr. Agnès era sisudo, mas mesmo sua pessoa estava apreciando com estima o tempo que estava passando com Kaleo. O menino já estava crescendo e perder sua companhia nessa idade era um pecado até para ele, ranzinza. – Kaleo, vá pegando o saco e guardando as ferramentas – falava com o garoto a poucos metros de distância, ao passo em que trabalhava –, que eu já estou terminando aqui e os sóis já estão quase sumindo. Hoje, a colheita foi boa; amanhã descansaremos e cearemos bem. – ... Pai... – chamou com uma voz débil. Sr. Agnès, que não ouvira, não respondeu-lhe. – Pai! – O que é? – Enquanto trabalhava concentrado. – Por que a mãe está vindo pra cá? – O quê? – Ainda absorto no labor. – A mãe... Sr. Agnès parou o que estava fazendo e prestou atenção em Kaleo. O garoto viu o semblante de seu pai, que, antes, dispunha de um aspecto esperançoso e alegre, se transformando em um rosto aflito e tenso. – Agnès!... – gritava, Holda, enquanto corria. – Agnès!... – Os gritos eram fracos e quase inaudíveis. À medida que aproximava-se dos dois, os clamores de Holda iam se tornando mais 36


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nítidos para eles. – Precisamos sair daqui agora! – Esbravejava palavras que perdiam o nexo quando chegavam aos ouvidos do Sr. Agnès. Quando, finalmente, chegou ao encontro do marido, caiu nos braços do mesmo, e continuou a ulular. – Agnès, precisamos fugir... – esbaforida. – Peguemos Kaleo e fujamos; não podemos mais ficar aqui. – Como assim? Do que está falando!? ... A colheita foi boa, será um ano de glória! – Não existe mais colheita!!! – Sr. Agnès olhava para sua esposa e não entendia–a. Os últimos dias foram tão profícuos para eles. Do que ela estaria falando? – Não existe mais nada, Agnès... – lastimava, Holda. – ... Vamos, Kaleo, não temos mais tempo... Vamos, Agnès, em casa, eu lhe explico tudo. Kaleo largou o saco que segurava e Agnès largou as ferramentas, ainda atônito. Os três correram pelo campo já ceifado. Durante o caminho, Holda não proferiu palavra; sua expressão era de medo e apavoramento. – Vamos – apressando seu filho, ao passo em que chegavam à frente do chalé –, Kaleo, ande logo, entre depressa. O menino foi aos empurrões para dentro da casa. Holda e Agnès seguiram atrás. – Ei, espere, Holda... – disse Agnès, segurando o braço da esposa, enquanto os dois adentravam a casa – o que está acontecendo? O que houve...? – Entre logo, Agnès! Não temos mais tempo; lá dentro, eu lhe explico tudo. Os dois entraram na casa. O clima era pesado mas silencioso. À fúria de Holda, o Sr. Agnès presenciava um apocalipse; pela janela da sala, enxergava um lindo final de tarde. – Kaleo, tranque as janelas e a porta dos fundos; feche todas as cortinas. Depois, vá para o porão, nós já estamos indo. – Holda! Pode me explicar o que está acontecendo nesta casa!? – Sente-se – disse, calma e séria, e esperou o marido sentar-se à mesa. – Escute... não há mais o que fazer. Você e Kaleo estavam no lavrado, não viram os noticiários. Na capital, já está tudo destruído... – Como assim? – Interrompeu a esposa. 37


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– Escute! Temos que pegar Kaleo e nos esconder ao máximo. Não há mais tempo. – Holda... Eu não estou entendendo nada. O dia está ótimo... a colheita foi a melhor dos últimos dez anos... será o melhor ano de nossas vidas, meu bem. Do que você está falando? – Agnès, não seja tolo... Eu não sei direito do que se trata. No noticiário, dizia algo sobre invasão... seres esquisitos, luzes... objetos que flutuam... – Flutuam!? – Pois é... eu não sei muito bem; mas você tem que confiar em mim. Temos que nos esconder. Sr. Agnès, como homem maduro que era, olhava para sua esposa de tantos anos como se fosse uma criança indefesa. Aqueles olhos que já tinham visto tantas coisas na vida, agora, não conseguiam entender sequer o que se passava dentro da sua própria casa. – Vamos, Agnès... Pelo amor que você tem por sua família... confie em mim. Agnès e Holda entraram no porão e cadearam o alçapão de madeira. Kaleo estava lá sentado, sem entender muito bem. – Filho, fechou tudo como a mamãe pediu? – Sim, mãe... Mãe, por que estamos aqui no porão? Vamos jantar aqui hoje? – Então, Holda... ficaremos aqui para sempre? – Agnès, colabore comigo, por favor, não deixe Kaleo assustado. – Acho que não sou eu quem está o deixando assustado. – Ficaremos aqui por algumas horas, filho, está tudo bem. Horas se passaram e os três permaneceram no porão. Agnès inquieto, Holda nervosa e Kaleo confuso. Os sóis do lado de fora já haviam sumido no horizonte havia muito e o frio da noite já assolava. – Holda, isso é ridículo. Estamos tremendo de frio aqui embaixo. Vamos voltar lá pra cima... nenhum alienígena de dois braços vai vir atacar nossa casa. Vamos, querida... olhe as luas, como está bonita a noite, está tudo bem. – Você não acredita em mim. Ficaremos aqui até amanhã, então subiremos. – Oh, querida, é claro que acredito, mas deve ter sido uma notícía falsa; aquele noticário... 38


Contos

A fala do Sr. Agnès foi totalmente apagada pelo estrondo ensurdecedor, que fez tremer o assoalho acima de sua cabeça e quebrar os vidros da clarabóia. – Mãe!!! – Calma, filho, está tudo bem... Agnès, pegue aquele colchão e tampe a janela. – Holda agia como um general e um anjo protetor ao mesmo tempo, abraçando Kaleo enquanto orientava o marido. Agnès, ao tampar a clarabóia, via luzes e ouvia barulhos irreconhecíveis. – Holda, o que é aquilo? – Sr. Agnès espiava, em pânico, pelas vidraças quabradas. – Aquele homem tem duas pernas... E o que é aquilo lá atrás? O que está acontecendo!? Passaram-se alguns minutos de silêncio; com apenas as luzes intensas estáticas lá fora. Kaleo chorava abraçado em Holda, que olhava para Agnès sem saber o que deveriam fazer. – Talvez devêssemos subir pra olhar – disse, o Sr. Agnés. Os três permaneciam calados quando o primeiro som veio quebrar o silêncio novamente. Ouviam-se estalos altíssímos e em sequência; gritos, explosões, acompanhados do choro abafado de Kaleo. – O que vamos fazer!? – Agnès clamava atônito à Holda, enquanto o assoalho, acima deles, estremecia e reluzia com as explosões. Holda não sabia o que responder, também tinha que pensar em Kaleo, em acalmá-lo e conter seus gritos. As paredes balançavam, os sons eram cada vez mais torturantes e os gritos causavam total aflição. Quando tudo cessou e restaram apenas, novamente, as luzes que tremeluziam. – Mãe... que voz é essa?... – Atenção... Atenção, aqui quem fala é o General Hudson, somos do exército americano, do Planeta Terra, da galáxia Via Láctea. Se ainda houver alguém escondido, que mostre-se... Não resistam. Vocês não têm chance alguma, nós tomamos este planeta.

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Liberarte 2019

Pseudônimo: Polaroid Samuel Rost da Costa, 4124

Permita renovar-se Sabemos que a vida não é sempre repleta de maravilhas, todos passamos por dificuldades que acabam nos colocando para baixo. Nos sentimos abalados, incapazes de lidar com a situação, mas em meio à confusão, damos nosso melhor para conseguir achar uma saída. Mesmo que possamos ficar com cicatrizes. Parece ser uma ideia simples, mas quando entendemos o contexto, fica mais fácil levar estes ensinamentos para a vida. Recentemente, eu estava muito para baixo, desolado por não conseguir lidar com meus problemas, problemas comuns, mas que eu não entendia como superá-los. Escola, família, relacionamentos e amizades, combinação perfeita para me levar ao extremo estresse. Este me deixava irracional, perdido em uma nuvem de pensamentos distorcidos. Foi em uma tarde de outono que me encontrei numa situação de ansiedade completa. Me vi na necessidade de tomar providências rápidas, então resolvi deixar minha casa e caminhar pelo quarteirão do bairro onde moro. Nem sei por quanto tempo caminhei, só sei que retornei para casa quando minha mente estava vazia, leve para resolver as próximas situações. Continuei com minhas caminhadas por uma semana, todas elas com o mesmo objetivo, me presentear com alguns minutos de paz de espírito. Em um sábado, após minhas confusões rotineiras, me vi novamente andando por aquelas ruas, nenhum carro estava presente, nenhuma pessoa além de mim estava por ali. Apenas eu andando pelos plátanos de outono. Não sei o porquê, mas naquele dia parei em uma praça. Sentei–me em um banco de madeira embaixo de uma grande árvore; no local, estavam comigo apenas um pai e seu filho se divertindo nos balanços coloridos, que rangiam com suas correntes enferrujadas. 40


Contos

Fiquei ali, apenas observando o local. Reclinei–me no banco para observar a majestosa árvore. Fui contemplado com a imagem de muitas folhas secas se despedindo dos galhos onde estavam presas; o vento as carregava rumo ao desconhecido, apenas seguindo seu ciclo natural. Não me pergunte o porquê, mas aquela cena me fez pensar em uma resposta para tudo o que estava acontecendo comigo. Talvez eu estivesse sedento por algo que me explicasse como passar pelas sensações tão amargas que me assombravam. Percebi como tudo é natural, uma fase, duradoura ou não. Precisamos de tempo para nos adaptar e crescer, conseguir encontrar uma solução, assim como uma árvore que, no outono, resseca e perde todas as suas folhas, passando a sensação de derrota, de que tudo está perdido e de que aquilo é o fim, porém, tudo é uma preparação para o duradouro inverno, quando é preciso ser forte para vencer o frio dos ventos cortantes e os longos períodos chuvosos. Contudo, no final, chega a primavera, revivendo cada beleza que um dia esteve ali, mostrando o melhor que tem a oferecer. Durante todo o tempo, tratou-se de renovação, de uma constante mudança de atitudes. A resposta está em nós mesmos, em nossa permissão para mudar aquilo que nos faz errar. Deste modo, permita renovar seus atos e, consequentemente, sua essência de ser humano.

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Liberarte 2019

Pseudônimo: Indigo Leo da Silva Moura, 4111

Entre filmes, filhos e fins Sorte no jogo e azar no amor, com filhos ou sem, se a culpa é minha ou tua, se a culpa é das estrelas, não importa mais. Eu costumava correr como Forrest Gump pela rua das ilusões, um escritor da liberdade à procura da felicidade, curtindo a vida adoidado. Nós, juntos, embarcamos neste Titanic sabendo que haveria um iceberg, sabendo das armações do amor. É um efeito borboleta. Por que contar com o que foi prometido se ninguém prometeu? Somos tão jovens, somos ases indomáveis enganados com este país das maravilhas... uma ficção. Entrando em uma fria, só bastava um click dos nossos olhares e o risco era esquecido. Simplesmente aconteceu, era eu e ela, ela dança, eu danço, claro assim. Você, dona malévola, andava com as patricinhas de Beverly Hills pela Cidade de Deus. Tentava esconder, mas no fundo eu sempre soube que você era a garota que roubava livros com a capa vermelha, aquela que usaste para cobrir as crianças antes de dormir. E eu, um maluco no pedaço com um ego duro de matar, era como se tivesse dezessete outra vez quando lhe conheci, minha malvada favorita. A Maria do bairro que parou o Don Juan. Fez–me trocar o ritmo quente por um porto seguro, pois não sou o Rei Leão, eu sou a lenda. Quando a gente atravessava as ruas, deixávamos todo mundo em pânico, éramos a dupla implacável. Éramos Bonnie e Clyde, Tony e Papper, Chaplin com Tarantino, Will Smith com Adam Sandler... éramos tudo, do prazer ao desgosto. Lembre-se o que Chris e as meninas malvadas fizeram no verão passado? Tive certeza de que o diabo veste Prada. Até hoje todo mundo odeia o Chris. O tempo e o vento voaram... de repente trinta e nosso romance era o jogo da imitação. Os erros que um cometia, o outro refazia. Idas e vindas do amor. Como Tom e Jerry, nós brigávamos, como os Miseráveis, nos traíamos. Nem me recordo como 42


Contos

eu era antes de você. Duas mentes perigosas à espera de um milagre, de uma atitude, sentados com nossas histórias e braços cruzados aguardando, no dia depois de amanhã, um pedido de desculpas. Somos bastardos inglórios, somos hipócritas. Se você acha que sou o mentiroso, prenda–me se for capaz. Tudo é uma missão impossível com nossos corações de ferro, minha esposa de mentirinha. Atuações e discussões eram imprescindíveis, causadas por nossos esteriótipos irremissíveis, sem ao menos saber a origem. Mas como se fosse a primeira vez, na hora do pesadelo apagávamos a realidade e acendíamos a chama, cinquenta tons no quarto de Jack e Rose... as crianças. De volta para o futuro, olhávamos no espelho, na beira do abismo com nosso sexto sentido, e víamos apenas o Cravo e a Rosa. Apesar dos empecilhos, nosso filme valeu o ingresso, teve um bom roteiro, porém complicado. Esta é a última página deste diário da paixão, um amor para recordar. Enfim, só o que nos resta é comer, rezar, lembrar, piscar, respirar e chorar. Chore, pois nos acalma. O amor vai embora, mas a alma melhora. A vida é louca, você é uma linda mulher, siga em frente e quebre a perna, só não esqueça: jamais roube, engane ou beba. Mas se for roubar, roube boas amizades; se for enganar, engane a morte; e se for beber, beba nos momentos de tirar o fôlego. Ouvi isso em um filme, espero que goste e aprenda. Nesse ramo, somos aposentados e perigosos, tentei descobrir mais sobre eu mesmo, mas não enxergava o lado bom da vida, só as dez coisas que odeio em você. Depois da terra, ao subirem os créditos ao amanhecer, nós perguntamos: quem somos agora? Tudo o que nosso caso tinha de especial vinha de um mero frasco de fraqueza junto e misturado com um copo de Gin. Era arrogante, insalubre, egocêntrico, raivoso e desleal. Nós demos um ultimato, e acabamos com esta guerra infinita, sem joias, sem filhos, apenas com dores e cenas sem cores. Não somos Romeu nem Julieta querida, somos os Vingadores.

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Pseudônimo: Rafa Rodrigues Rafaela Rodrigues dos Santos, 2124

Um vestido para um garoto Abri o livro pela milésima vez naquela noite, determinado a terminar pelo menos o primeiro capítulo. As palavras pareciam se mover diante de meus olhos; a penumbra do quarto também não ajudava e nenhuma frase lida parecia fazer sentido. Desisti, arremessando com raiva o livro na parede. Ele caiu ao lado da janela, erguendo a cortina fina que havia ali e revelando algo dourado atrás dela. Levantei depressa, surpreso com aquilo. Não era possível que houvesse algo ali, eu conhecia meu próprio quarto de cabo a rabo. Meus pés me guiaram de modo hesitante até o lugar, onde me abaixei. Subi o tecido da cortina, me deparando com uma portinhola dourada que não devia ter mais de 60 cm de altura. Era bonita, brilhante, polida e com uma maçaneta repleta de pedrinhas cor-de-rosa. Me apressei em abri-la, ouvindo o som incômodo da fechadura rangendo. Tudo lá dentro era um completo breu, atiçando ainda mais minha curiosidade. Quando notei, meu corpo já estava ajoelhado e eu me esgueirava pela portinha, sentindo um vento frio bater contra minha pele. Parecia que eu havia perdido a noção de espaço e tempo; a escuridão me envolveu acompanhada de uma confusão absurda. Quando voltei a mim, eu estava deitado numa estradinha de pedras cor-de-rosa, idênticas às que eu vira na maçaneta. Abri os olhos e tentei me localizar, havia árvores por toda a parte e seres alados iam e vinham frequentemente. Observei mais atentamente, vendo que os seres alados eram pequenos ratinhos mecânicos com asas de avião. Era engraçado, para dizer o mínimo. Tentei me levantar, notando um peso incomum nisso. Olhei para baixo, me deparando com um vestido bufante em um tom escandaloso de rosa; havia babados por todos os lados e tule o suficiente para vestir uma companhia de ballet. Desejei ter alguém com quem reclamar, e quando pisquei 44


Contos

novamente, uma grande construção surgiu a poucos metros de distância. ‘Departamento de vestuário’, era o que dizia a placa. Não me dei ao trabalho de questionar como aquilo era possível, apenas andei até lá, arrastando o vestido exagerado comigo. – Oh, bem-vinda ao mundo encantado, onde tudo é possível, perfeito e… – Um senhor calvo com uma prancheta estava na entrada do estabelecimento e saiu falando assim que cheguei perto o suficiente para ouvi-lo. – Nem tão perfeito, erraram minhas roupas. – Interrompi–o enquanto indicava com desprezo aquele traje estranho no qual eu fora posto. – Me parece certo. – O senhor deu uma volta por mim, procurando um defeito no vestido. – São roupas femininas! – Exclamei, batendo os pés no chão. – Sim, eu notei. – Murmurou, usando os próprios dedos para medir a saia e garantir que tudo estava perfeitamente grotesco e bufante. – Eu sou um garoto! – Chacoalhei o vestido em protesto, berrando a afirmação. – Não, reconheço uma princesa quando vejo, estou nesse ramo há anos. – O senhor fez um aceno displicente com a mão, ignorando minhas palavras. – Você certamente é uma garota. – Seu indicador de ergueu, como se ele me explicasse aquilo. – Sou um garoto! – Tornei a insistir, arrancando um suspiro do senhor. – Mas tem corpo de garota. – Ele sorriu convencido, me analisando de cima a baixo. Eu tinha plena noção disso, mas ele não precisava ficar comentando. – Mas sou um garoto. – Disse novamente, agora mais baixo, abraçando meu próprio corpo em desconforto. – Então qual o seu nome, filha? – Ele ergueu a prancheta, aparentemente disposto a procurar algo. O olhei por alguns segundos, sério. – Digo, filho. – Se corrigiu rapidamente quando notou o equívoco. – Alex. – Respondi, curto e grosso. – Viu só? Nome de garota. – O senhor socou o ar em comemoração, como se houvesse ganho alguma batalha. 45


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– É unissex! – Exclamei, sentindo minha voz sair com mais potência e raiva do que o comum. Ele não podia sair criticando o nome que as pessoas escolheram para si. O senhor suspirou, pondo as mãos em meus ombros antes de seguir a falar. – Sua roupa está certíssima, volte quando houver rasgos ou quando quiser aplicar mais renda. – Senti ser empurrado para fora do estabelecimento, ainda com o vestido ridículo e com um ser incompreensível para me atender. – Isso é injusto! – Tirei suas mãos de mim, dando passos para a frente e enfrentando–o. – Se eu digo que sou um garoto, então eu sou um garoto! E você vai ter que aceitar e respeitar! – Meu dedo se ergueu, tocando seu peito a cada palavra. Alguns segundos silenciosos se passaram; talvez ele estivesse chocado, mas o que realmente importava é que eu havia me imposto. A última coisa que o vi fazer foi sorrir, e então eu estava novamente com a sensação de perda de noção no espaço e tempo. Parecia que eu havia me desfeito ali mesmo, as coisas estavam embaralhadas diante de meus olhos e o senhor já falava sem som. Segurei minha cabeça e fechei os olhos, meu corpo amoleceu e nenhum membro parecia responder. Quando abri os olhos, eu estava de volta à entrada da portinha, ajoelhado em sua frente. Sacudi os ombros, constatando que não havia nenhum peso incomum. Olhei para baixo, me deparando com uma roupa pomposa de príncipe, com ombreiras douradas e sapatos de bico fino. Sorri, internamente satisfeito. Descobri que, no mundo encantado, tudo pode ser real, contanto que você acredite e se veja como aquilo que deseja. Lá, você é quem quiser, como quiser e quando quiser. Eu estava convencido de que era um garoto, e seria tratado assim em qualquer lugar, no mundo ou fora dele.

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Contos

Pseudônimo: Richard Castle Weslley Silva Guilherme, 3312

Unha e Carne As pernas do seu irmão não paravam de tremer. Ele, por sua vez, mantinha-se calmo. Escondia seu nervosismo debaixo da máscara de irmão mais velho, tratando de acalmá-lo. Não precisa se atucanar, dizia, vai sair tudo como planejado. Os dois estavam escondidos atrás de uma esteira, os olhinhos pregados no chefe. Olha lá, tá fechando a farmácia agora e indo pra salinha. Pronto, saiu. Pé por pé, agachados e se rastejando quase, foram até a sala do chefe. Vai que é tua, Tito. Mais alto, embora mais novo, foi ele quem, ainda grudado no chão, tateou a mesa até os dedos finos encontrarem a chave dentro da caneca do Grêmio. Descobrir o esconderijo dela fora uma questão de tempo. Quando começaram a acompanhar o pai nos serões dos fins de semana, sem nada melhor para fazer, apenas para eles mesmos também ganharem hora-extra, resolveram perambular pela fábrica. Com quase ninguém nela, não tinham medo de invadir a sala de reunião, o banheiro feminino, o que quer que fosse. Fumavam escondidos, desenhavam com giz nas paredes, roubavam peças do almoxarifado. Nada era empecilho para eles. Abriu a Farmácia. Tito tremendo ao seu lado. Era uma sala pequena e aconchegante: um armário cheio de caixas de remédios, que ficava atrás de um balcão de madeira. A caixa registradora ficava sobre ele. Tiraram Cr$20,00, deixando uns trocados para não gerar desconfiança. Quando voltavam para casa, o pai perguntou sobre o que fizeram durante toda a noite. Desconversaram. Não pareceu se importar, o rosto soturno a ser iluminado pelas luzes amareladas dos postes. Deu um cuspe na beirada da calçada. Os três em marcha lenta, como que absorvidos pelo silêncio e pelo sereno. Já era madrugada quando os irmãos foram se deitar. Esperaram os roncos do pai e da mãe começarem para, daí sim, discutirem sobre o ocorrido. Decidiram por fazer o mesmo todos 47


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os fins de semana seguintes, não esquecendo nunca das complicações que uma caixa registradora vazia poderia deixar. Embora aparentemente burro, a inteligência de Lauro, o chefe, não devia ser subestimada. Sentiam-se felizes e astutos, cúmplices de um plano perfeito; versões mirins de um Lúcio Flávio ainda em liberdade. Depois de muita conversa jogada fora e risinhos frouxos, Tito confidenciou a ele: – Preciso te contar uma coisa. – O quê? – O Salame anda passando a mão em mim. Teve vontade de rir, mas o rosto dele, visto pela penumbra, parecia tão atônito que o riso se tornou um embrulho no estômago. Começou a chover. – Tens sorte de que não é o Cavalo. O Salame pelo menos tem o tamanho da gente... – Não interessa. Eu não sou bicha ou mulherzinha pra ele achar que pode fazer isso comigo. – Ele faz isso com todos os guris da fábrica. – Contigo não. Apesar do silêncio sucedido, sentiu-se compadecido com o irmão. Ficou olhando para o teto até cair no sono, o barulho da chuva batendo no telhado de zinco. Saíram de casa logo de manhã cedo. Da cozinha, a mãe gritou dizendo para que não se atrasassem para o almoço. No caminho para o Bar do Seu Tomás, havia muitas poças de água, e Tito, como acordara gripado, tomava um cuidado excessivo para não molhar os pés. Já ele ia na frente, com as mãos nos bolsos da calça cheia de remendos, pensando nas coisas ditas por seu irmão horas atrás. Chegaram ao bar comemorando a mesa de sinuca livre. Seu Tomás esfregava o balcão com um pano encardido. Na parede atrás dele, a foto de Ernesto Geisel posava ao lado de um calendário de mulheres nuas. Compraram de fichas o suficiente para uma hora. E ficaram por lá, papeando e fingindo serem adultos e jogadores profissionais de sinuca, fazendo poses exageradas para qualquer movimento, por mais simples que fosse, e passando o giz na ponta do taco a cada batida. 48


Contos

Além deles, o bar contava com a presença de dois velhos, sentados em banquinhos de madeira. Discutiam fervorosamente quem era melhor: Dadá Maravilha ou André Catimba. Depois de alguns minutos, mais um vivente se achegara. Era também um funcionário da fábrica dos meninos e ficou assistindo ao jogo deles de longe, com uma garrafa de cerveja na mão. Quando Tito o percebeu, chamou-o para mais perto. Atitude repreendida em silêncio pelo seu irmão mais velho, porque o rapaz se tratava de Brizola, alguém que não era bom de se ter por perto. Tinha esse apelido por conta dos boatos que circulavam sobre sua pessoa, das suas ideias políticas, do seu possível envolvimento com os subversivos, do seu pai assassinado que um dia fora líder sindical. Ninguém na fábrica sabia seu nome verdadeiro, e muito menos se importava. – Vocês dois jogam muito mal, disse ele, rindo. – Quem é que te perguntou? – Não encana com ele, ele é assim mesmo, cortou Tito. – Capaz. Vocês são os filhos do Chico, né? Homem bom, trabalhador. Mui me ajudou quando entrei na firma. Qual é a idade da gurizada? – Tenho treze, sou o caçula, respondeu Tito. – Pois eu tenho vinte e dois. E teu irmão aí? Deixou os dois conversando e foi até o banheiro. Arrumou a franja pelo espelho, o rosto teso. Era só o que faltava, Tito dando bola pra vermelho. Com o canto do olho, percebeu um brilho metálico vindo da lixeira. Enfiou a mão entre as bolotas de papel higiênico e tirou um canivete enferrujado. Guardou-o dentro do bolso. Seu irmão e Brizola ainda conversavam quando voltou. – A gente tem que ir indo, Tito. A mãe disse pra não se atrasar pro almoço. Saiu na frente, sem se despedir do rapaz. Seu irmão veio logo atrás; notou um bafo de cerveja enquanto ele lhe contava sobre o novo amigo. Cortaram caminho pelo pomar de um vizinho: Tito precisava de uma bergamota para disfarçar o cheiro. – Ele disse que vai me ajudar com o Salame. Enfureceu-se, vendo-o esfregar a fruta nos braços. Como é 49


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que pode? Meu próprio irmão pedindo ajuda pra um vermelho. Como se eu não existisse. Como se eu fosse qualquer um. Pois bem, saiba ele que isso não vai ficar assim. Sentiu a ponta do canivete apertando no punho. Segunda-feira novamente, hora do almoço. – De manhã eu vi o Lauro abrindo a farmácia, disse Tito. Acho que ele percebeu que tinha dinheiro faltando porque fez uma baita cara de tacho. Sorte que bem na hora chegou o Sadir pedindo uma aspirina. – Pois é, respondeu. Despediram-se, cada qual para seu canto. Mal tocara no arroz com feijão, pensando no Salame, na sua cara horrorosa que lembrava um peixe-boi, nas coisas que devia fazer com os garotos da fábrica. Não fez questão de voltar logo para a seção. Perambulou um pouco mais do que o costume, atento às salas e corredores por onde passava. Encontrou-o fumando dentro do banheiro dos chefes. Fincou-se ao lado dele, bem em frente ao mictório, abaixou as calças, deixou o mijo escorrer como se fosse algo corriqueiro, sentiu um rubor na face após perceber o prazer do outro. Fechou a braguilha. Foi até a pia, esperando que ele o seguisse. A mão dele, peluda e cheia de calos, pousou sobre a sua e, pelo espelho, pôde ver o homem logo atrás de si, o bafo quente na nuca. Desvencilhou-se e enfiou o canivete na mão de Salame, que ficou pregada na pia. Não gritou porque sabia que a exposição seria muito pior para ele; ficou então a dar grunhidos baixinhos, de joelhos no ladrilho branco do banheiro, resignado a sua sina. Voltou à seção sob o olhar inquisidor de Lauro, que apontava o indicador para o relógio. De lá, podia ver o irmão, do outro lado da fábrica, colando solas de sapato. Quando começou o trabalho na expedição, percebeu que suas pernas estavam bambas.

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2 2. Crônicas


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1º Lugar na Categoria Crônica Pseudônimo: América Júlia da Silva Colombo, 4112

O querer de Emília Emília não entende muito bem como o amor funciona. Ela só quer alguém que chegue e fique. Emília sonha em receber um convidado no seu minúsculo, simples e bagunçado apartamento do prédio amarelo da esquina, no qual ainda há caixas da mudança acumuladas pelos cômodos, mesmo que ela tenha se mudado há três anos. Emília só quer alguém para passar a noite, acordar e passar o dia. E, depois, para ficar por mais uma noite e repetir esse ciclo por vários meses — talvez, até, por anos. A moça quer alguém com quem possa acordar cedo e se sentar na mesinha da cozinha pra comer um pão francês murcho do dia anterior. Emília quer alguém que a avise que ela está usando uma meia azul e outra preta. A guria quer alguém pra abraçar no meio da rua e não dizer nada, mas também quer alguém com quem possa falar por horas a fio sobre tudo e qualquer coisa. Ela quer alguém que a leve na carona da bicicleta até a livraria para comprar mais livros e empilhá-los no canto da sala, ao lado de uma caixa da mudança (que ainda está lá). Emília quer alguém com quem possa dividir risos e angústias. Ela quer alguém que tenha um abraço para chamar de “casa” e quer poder fazer economias com esse alguém para, enfim, comprar um fusca amarelo e viajar até o interior. Essa menina-mulher quer alguém que seja capaz de colocar um pinguinho de tinta de alegria nela, para transformar seus dias cinza numa linda aquarela. Mas, enquanto seu amor não aparece, a garota continua escrevendo sobre seus sonhos e seu fantasioso querer nas folhas daquele caderno verde que ela guarda em cima de uma caixa da mudança, que ainda está lá.

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Crônicas

2º Lugar na Categoria Crônica Pseudônimo: Vênus Isabella Morel Bordignon, 1411

Sem aviso Sem aviso: uma buzina, um clarão, um estrondo e eu morri. Morri mesmo, do tipo deixou-de-viver-bateu-as-botas-partiudessa-pra-melhor. Morto. Morrer não foi nem de longe como eu esperava. Sempre pensei que seria mais velho, com a vida cheia de coisas interessantes para contar para a penca de netos que eu teria. Achei que morreria satisfeito, consciente de que o fim de uma jornada havia chegado e toda aquela enrolação. Ao partir eu escutaria o solo de November Rain, e minha falta seria profundamente sentida. Não deu tempo pra nenhuma dessas coisas. Foi rápido, tão rápido que ficou difícil de entender como tudo tinha acontecido. Também esperava ter visto alguma luz (além dos faróis de um caminhão, essas não contam). Não vi nada. Senti calor, mas não vi nada. Nenhum anjo ou voz poderosa e sábia. Fiquei esperando... esperando... (e esperei mais um pouco). Alguma coisa devia ter acontecido até agora. Foi então que vi meus pais e um bebê bochechudo chorando alto — esse era eu. Tudo parecia passar como um filme, e agora o bebê bochechudo já tinha dois dentes da frente e começava a engatinhar. Não sabia que eu tinha riscado tanto as paredes de casa. Lá vou eu correndo atrás do cachorro, e agora conhecendo minha irmãzinha. Lembrei dos Natais, aniversários e os fogos de artifício no Ano-Novo. O filme acelerava cada vez mais. Primeiro dia de aula. Perdi meu dente. Terminei de ler um livro inteiro. Aprendendo a andar de bicicleta, caindo de bicicleta. Preciso usar óculos. Montei uma banda. A banda acabou. Primeiro amor. Cortei minha cara com gilete. Aprendi a dirigir. Formatura. Conheci ela — e o filme agora tinha mais cores. Primeiro encontro, comemos pizza. Primeiro beijo, olhos fechados. Eu te amo, pra sempre. Pausei o filme: aquele era um bom lugar para passar a eternidade. 53


Liberarte 2019

3º Lugar na Categoria Crônica Pseudônimo: Elisabeth Baker Cecília de Oliveira Vargas, 3123

O último suspiro Quando criança, você é obrigado a perder seu espaço no ventre para vir à vida. Depois você é obrigado a perder o leite materno. Depois você perde aquele bico preferido. Depois você perde aquela pelúcia preferida na mudança. Depois você perde seu primeiro dente. Depois você perde seu medo de escuro e se familiariza com seus próprios monstros. Depois você perde aquela vontade incondicional de ser bailarina e aos poucos perde a vontade de brincar de boneca. Quando adolescente, perde-se a vontade de contar tudo para seus pais. Depois você perde seu primeiro amor, que jurava ser para sempre. Depois perde aquela amizade que jurava levar para a vida. De repente perde aquela escola que era a sua segunda casa. Aí perde o gosto por ler aquele livro favorito da sua estante. E quando menos espera, perde seu animal de estimação. Porém, por mais doídas que sejam as perdas da adolescência, as perdas da fase adulta são as piores. Primeiro você perde a sua juventude. De repente se perde nas datas, e já é dia de pagar as contas, e o pior, hoje é aniversário de casamento de seus pais. Aqueles que você perdeu no tempo, quando tuas mãos os soltaram aos poucos. Aí você perde contato com aquele irmão que foi tentar a vida em outro país. Aí você perde aquele emprego que tanto custou a ter. Aí você perde sua aliança, e junto, seu casamento. Nossa relação foi perda de tempo. E para completar o dia você perde o ônibus. E, quem diria, após tanta perda, você conseguiu achar seu espelho nos achados e perdidos. Aí você só se encontra, quando vê seu reflexo e nota que perdeu o seu sorriso em alguma dessas perdas. Aí você olha a criança no parquinho chorando, porque perdeu a mãe de vista. E você olha desacreditando da vida mais uma vez, apenas com a certeza de que sempre acabaremos perdendo. A mãe. O dente. O brilho nos olhos. E tudo aquilo que a 54


Crônicas

vida queira nos tirar. Porque a vida tem dessas, desde cedo nos ensina a lidar com ciclos, que iniciam e se encerram a cada momento, basta sabermos a hora de iniciar o novo que está por vir. Por incrível que pareça, mais uma perda! Desta vez, eu havia perdido o funcionário do supermercado de vista. Não tardou para que ele surgisse com um Suspiro na mão e exclamasse que era o último do estoque. O tempo de colocar o suspiro no carrinho foi o suficiente para que eu lembrasse de inúmeras perdas que presenciei em ciclos da minha vida, entre elas, a seguinte dúvida: – Mas e se toda essa perda fosse para que você se encontrasse? Nem que seja um encontro seu com um suspiro.

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Liberarte 2019

Menção Honrosa Pseudônimo: Vênus Isabella Morel Bordignon, 1411

Sobre o tempo Quando eu era menor, meu avô me disse que a coisa mais valiosa que a gente tem é o tempo. Eu achei estranho, porque eu não podia usar o tempo pra comprar uma casquinha de morango. Nessa época, meu cabelo sempre era arrumado em “marias-chiquinhas’’, e eu morria de medo de tirar meu dente da frente que estava quase caindo sozinho. Eu só fui entender isso um pouco depois, quando coisas que eu nunca imaginei importar começaram a ter mais valor, assim como o tempo. As fotos que eu organizei em um álbum e os filmes que eu ainda tenho em DVD (alguns até em fita cassete). A cicatriz que eu tenho no joelho quando caí da árvore brincando de esconde-esconde. Meu chapéu de formatura do jardim de infância. Eu sinto tanta falta dessa parte toda. De olhar tudo de baixo e escalar cadeiras para alcançar os armários. Sinto falta dos abraços da minha vó e da música que ela cantava. Dos desenhos que passavam na TV, de construir fortes com as minhas irmãs. De férias na praia com castelos de areia. Quando vê, eu já mudei e não uso mais marias-chiquinhas, não construo mais fortes e a música que ela cantava fica mais difícil de lembrar. Hoje, quando acordei, minhas irmãs falavam sobre meninos bonitos, meus pais tinham viajado sozinhos e eu havia dormido em cima dos meus livros para o vestibular. A gente não para pra pensar muito em como chegou onde chegou, só pra onde quer ir em seguida. Deve ser por isso que o passar do tempo assusta tanto. Meu pai vive reclamando que agora a barba dele é branca, mas será que ele notou o primeiro fio? Tempo é sempre o que todo mundo precisa. Mais tempo para decidir e para entregar esse trabalho no prazo. Mais tempo pra terminar a faculdade. Pra ser promovido. Pra viajar. Pra escrever um livro. Pra pensar em filhos. Pra amar alguém. Tempo é ouro; a maioria de nós não tem ideia de como garimpar. 56


Crônicas

Pseudônimo: Greenwich Bárbara Decker Gonçalves, 1111

Amor de vó Os teus olhos eram a minha calmaria. O teu abraço era meu porto seguro. Teu carinho era a minha fonte de renovação. Teus cabelos negros, como a noite, já revelavam alguns fios brancos, como a neve. Carinho de vó é sempre o melhor do mundo. Toda a vez que eu chegava em casa, o primeiro abraço era o teu, o primeiro beijo na testa era o teu e sem dúvida ver esse sorriso era sensacional. Quando eu não estava bem, tu vinhas com aqueles biscoitos cheios de chocolate e um copo de leite. Passamos incontáveis tardes assistindo videocassete e lembro como se fosse ontem de cada uma delas. Comida não podia faltar na mesa, me entupias até explodir e dizias “Come mais, minha netinha”. Após o almoço passeávamos pelas ruas do bairro cumprimentando as mesmas pessoas de sempre. Chegávamos em casa e mais um lanche tu me davas. Afinal de contas, comida de vó é a melhor do mundo. Um dia tu caíste, sem força ficaste. Me disseste que estava tudo bem e sem mais nem menos começaste a cantar. “Na alegria ou na dor nossa força é o amor”, foi o que me disseste para jamais esquecer. Quando o mundo parecesse estar de cabeça para baixo, o amor me salvaria. A notícia veio e tu me deixaste, foste embora sem nem se despedir. A dor aqui ficou, o amor nunca se apagou, sinto falta da minha calmaria. Uma voz sempre ecoa na minha cabeça “Faça as coisas com amor, foi a única coisa que a vovó te deixou”.

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Liberarte 2019

Pseudônimo: Ana Terra Marina Ottmann Boff, 1312

Bloqueio criativo Nada assusta mais o escritor do que a sensação de, ao se sentar com um café na mão e ligar a tela do seu computador, nenhuma ideia sequer vir à mente. A falta de criatividade é o verdadeiro sufoco do criador que, ao se deparar com a simples situação de falta de criatividade, acaba por perceber que precisa ser poesia. É uma verdadeira crise existencial, muito romantizada aliás. Não é bonita, nem filosófica, é na verdade bem triste quando o sujeito que está escrevendo se vê tomado pela impressão de já ter escrito sobre tudo que conhece. Daí vem a necessidade de “ser poesia”, porque é finalmente a hora de se levantar da cadeira e passar por aventuras dignas de trechos poéticos e crônicas inspiradoras. O cronista, redator, poeta, enfim, qualquer pessoa que está acostumada a delatar fatos (verdadeiros ou não) para envolver seus leitores, se vê obrigado a sair por aí: seja para uma simples troca de olhar, para observar a mãe natureza ou até para novamente quebrar seu coração em pedaços e descrever o enredo do trágico romance. É necessário viver um milhão de histórias para que uma seja boa o bastante para ser contada, e aí que vem também o apreço do escritor por um bom livro. Um artista precisa, no mínimo, de uma dose de vivência para esgotá-la nos pincéis ou na caneta. É da natureza humana delatar fatos e, na falta deles, correr atrás de novos até encontrá-los. Não é apenas a ciência que se beneficia dessa verdade; caso contrário, não teríamos bibliotecas imensas cheias de livros e traças e revistas e... inacabáveis memórias póstumas, presentes, passadas. Inclusive paro para pensar se nossas versões da idade da pedra desenhavam em suas cavernas e declaravam que estava na hora de inventar ou explorar novamente quando já haviam feito arte sobre tudo que tinham visto. 58


Crônicas

Portanto, quando o escritor percebe que já contou todas as histórias que valeriam uma boa leitura ele se assusta, pois é sinal que algo novo está por vir – e todos sabemos como coisas novas dão um certo medo. Ousaria dizer que, no fim, esses momentos são enviados pelo universo, que um dia se deu por conta que, para evitar uma grande rebelião, deveria dar a cada escritor uma dúzia de novas memórias quando as velhas já tivessem sido colocadas no papel.

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Liberarte 2019

Pseudônimo: Chloe Isadora Hanzen de Lima, 1212

Caixinha do fundo de rosas e tropeços Eu me sentia meio estagnada, estranha, pequena. Como se eu não conseguisse crescer. Me sentia meio patética, uma coisinha de nada. Uma daquelas garotas nos filmes de Hollywood que geralmente é representada como a mais comum, e por isso não tinha tanto valor na história. Cabelo curto, estranho, com uma cor que não é nada vibrante, chamativa ou reluzente. Era pálida, e não bronzeada ou com as bochechas rosadas. Para não parecer que eu sou uma pobre coitada como alguns livros relatam, eu sou uma menina que simplesmente não se destaca, ou que não está nos padrões e nos estereótipos de “garotas que se destacam”. Eu via minhas colegas e amigas crescendo, indo para festas, se apaixonando, ficando lindas. Não que eu não fosse para festas (de aniversário), não me apaixonasse (a cada milênio), e não crescesse, mas parecia que eu, como garota de 16 anos, não era uma garota de 16 anos. Talvez eu estivesse preocupada demais em seguir um estereótipo, me encaixar numa caixa, ou cumprir alguma lista de deveres que vem junto com o bolo de cada aniversário, mas o fato é que isso me incomodava. O que mais me incomodava era ver que eu, que estava tão organizada com os estudos, sentia que, de algum jeito, estava perdendo parte da minha vida. Talvez isso soe como um exagero, mas talvez minhas condições físicas não fossem as melhores para facilitar tudo porque eu sou mais alta do que a altura média e os garotos ainda acham que eles precisam ser mais altos que eu. Porque eu não gosto de multidões que se mexam tanto, luzes piscando e bebidas alcoólicas. Para muitos, e eu aderi a essa enferma opinião, eu não era interessante. Por mais que eu tenha encontrado um grupo seleto de pessoas que eram como eu, e um grupo maior 60


Crônicas

de pessoas que não se importavam com os meus gostos do que é um bom passatempo, eu sentia que se eu não fizesse parte desta caixinha eu nunca encontraria ninguém. Isso me deixava confusa também. Por que eu tinha que encontrar alguém? Porém, acima disso, por que não? Por que eu, como menina, deveria estar preocupada com um namorado, e ao mesmo tempo deveria estar focada nos estudos e não no amor? A questão é que me cobravam constantemente a cada churrasco de família que eu tivesse um namorado, e ao mesmo tempo que focasse no meu diploma. Isso me deixava confusa, por mais que eu tivesse ouvido outrora que eu não tinha obrigação alguma. Apesar de ouvir que não, a obrigação era imposta, e isso, logicamente, é mais forte do que uma simples frase. Eu estava focada nos estudos, mas eu queria alguém. Não porque eu sentisse que eu deveria, mas porque queria me dividir, me compartilhar, sentir no fundo do peito um sentimento de aconchego ao ver alguém. O mesmo sentimento de aconchego de quando eu chego em casa e vejo minha mãe me esperando numa cadeira perto da porta, acariciando nosso gatinho. Ele mia, pula para me dar oi. Ela se levanta, me abraça do mesmo jeito todos os dias e apesar disso o sentimento é sempre similar e ao mesmo tempo diferente, mas com o mesmo fundo de gratidão e de integridade. Era amor. Era o que eu queria compartilhar com outro alguém. Por mais que eu ame o meu melhor amigo, ame meus pais, meus avós, meu gatinho, todos estes amores eram amores diferentes. Eu sentia como se eu estivesse pronta para mais um. Um amor que desmancha, que é lapidado, que é quebrado brutalmente e reconstruído pelas minhas próprias mãos depois de um tempo para poder ser experimentado novamente. Um amor que só permitia um beijo quando ele era sentido nos olhos e ao mesmo tempo no fundo do peito, que não estranhava contatos e que se sentia em casa no meio de um abraço. Esse era o mais engraçado, porque existiam tantas pessoas, mas tão poucas que faziam com que esse sentimento estivesse completamente em mim. Mas o que isso tem a ver com o fato de eu me sentir sem graça? Com a confusão? Com as cobranças externas e internas? 61


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É que tudo que eu queria cumprir do que esperam de mim, na verdade já está feito. O amor, por mais confuso que seja, talvez não venha a ser como a minha família espera. As memórias felizes, que vêm de jogos on-line, de um livro, de um intervalo na escola, de um trabalho de biologia, de uma conversa rara com alguém que sente saudades, e não de uma festa ou de um parque. Os amigos, que não precisam obrigatoriamente ser da minha turma ou do meu convívio diário e constante. A vida é muito mais fácil em um estereótipo, mas eu tinha que pensar e dizer para mim mesma e para quem estivesse preso a pensamentos como o meu (apesar de não terem necessidade alguma de viver a mesma vida que eu), o mais óbvio dos clichês: a vida não é filme, nem um mar de rosas. Talvez em minha mínima existência eu possa tirar alguma lição a ser passada. A vida não era uma caixinha, nem um mar de rosas, mas ela era profunda, ilimitada, bela e espinhosa. Ela era limitada por vários fatores, mas nenhum deveria ser (e nem era, espero eu) um filme famoso ou os stories de alguém. Ela não está nos estereótipos, nem nas conexões mais diretas. A vida e os momentos mais importantes, talvez, estejam nas entrelinhas, nos vincos da madeira, nas voltas da caneta, nos corações partidos e nos restituídos, no fundo do pacote, naquela bolacha Trakinas que misteriosamente veio com o rosto da criança virado para o recheio. Num choro de dois minutos, no lacrimejo de uma explicação de um conteúdo extremamente difícil e que parece ser o que vai te reprovar, no tapinha nas costas, seja ele físico ou não. Essas coisas não são muito exploradas, mas parecem ser as que mais valem a pena se aventurar. Num conto vago, numa crônica meio errática sem quê de poesia e sem vexa de descaso, cumpria meu dever de montar algo a me arrepender no futuro e em um futuro mais distante ainda me orgulhar de alguma coisa velha. Isso, claro, se eu não perder este arquivo em algum computador por aí. Se impresso, nos fundos da minha estante roída.

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Crônicas

Pseudônimo: Alaska Maria Eduarda Müller Wilhelm, 1112

Espelho, espelho meu A maneira como você aparece quando tudo aparenta estar tranquilo é algo que provavelmente nunca vou conseguir entender, mas pretendo. Alguns se referem a você como “bicho papão” ou até mesmo “o monstro dentro do armário”, mas acho que a maneira mais correta para mim seria “meu próprio reflexo”. Eu até tento, juro que tento, mas quando você bate na minha porta não consigo evitar abri-la, se duvidar até lhe desejo boas-vindas. A nossa relação tornou-se complicada, tipo casais de filme, sabe? Um termina o relacionamento porque o outro o magoou, mas no fim estão juntos novamente. Às vezes eu tento te deixar de lado, mas sinto que sem você aqui comigo farei coisas das quais irei me arrepender ou nas quais irei falhar, mesmo sabendo que quero alcançar meus objetivos. Ah, meu monstro, se você soubesse quantas noites já passei em claro me revirando, tremendo e até mesmo chorando sem sequer saber o porquê, acho que você iria embora, ao menos por uns tempos. Bem lá no fundo sei que a culpa é minha por ter te recebido como um hóspede temporário e te deixado ficar por todos esses anos. Mas, independente disso, sei que você já é algo (ou alguém, não sei como você se define) que faz parte de mim e criou raízes lá no fundo da minha alma. Espero que você leve em consideração o lar quentinho que te dei dentro do meu peito por todo esse tempo, que aperta de uma forma dolorosa quando você decide se manifestar, e me deixe um pouco em paz, pelo menos até eu descobrir como botar você para fora sem levar junto o que ainda resta de mim.

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Pseudônimo: O estranho Alexandre dos Reis Domingues, 2312

O gato preto A tosse quebrava o silêncio que estranhamente infestava o local. Cada qual com seu copo, não prestavam atenção em nada que não fosse a si mesmos, atitude essa que não resultava em mais nada a não ser uma solidão não esperada para ocasiões como aquela. O pior era o fato de que as pessoas pareciam facilmente se conformar com isso. Péssima hora para ser o tipo de pessoa que pensa demais. Ainda na metade do cigarro, ele o apagou e jogou-o fora. A satisfação esperada não vinha, e ele mais tossia do que respirava. Decidiu caminhar, pegar um ar, mas seu corpo congelou quando sentiu novamente que aqueles olhos o encaravam, como se o procurassem no meio de toda a multidão. Como um animal acuado, decidiu se camuflar no meio da multidão. Puxou papo com o primeiro desconhecido que viu pela frente e nem se deu o trabalho de ouvir o que este dizia. Todos seus esforços estavam em resistir à tentação de virar seu rosto, retribuir o olhar, a encarar nos olhos. Mas não. Isso ele não era capaz. Não é como se ele não a conhecesse — o que ele não conhecia era todo esse coquetel de emoções que um par de olhos era capaz de proporcionar —, apenas estava mais perdido do que jamais esteve. Por sorte (ou azar), uma outra coisa foi capaz de subitamente tomar seus pensamentos. Mais ao canto, na parte do bar em que a luz era pouca, um gato se espreguiçava, com tanta naturalidade que parecia que o lugar pertencia a ele. Era um animal peludinho e com uma beleza peculiar, tão preto que quase não dava para enxergá-lo. Uma companhia inesperada para uma festa, mas não por isso desinteressante. Quando o rapaz se aproximou, o bichano caminhou até ele e se aconchegou em seus pés, como se os dois já fossem bastante íntimos. Mas isso tinha uma explicação: o rapaz já conhecia o felino. 64


Crônicas

Já fazia algumas semanas em que todas as noites que ele voltava para casa, o gatinho o seguia pelo trajeto. Nos primeiros dias, os dois apenas trocavam olhares, mas, com o tempo, ele começou a interagir mais. Miava, como se o cumprimentasse, e com o tempo começou a se aproximar um pouco mais, caminhando algumas partes do caminho lado-a-lado com o sujeito. Teve uma vez que o gatinho se atirou na calçada, miando e fazendo o maior barraco, não deixando para o rapaz outra opção a não ser parar e lhe dar um pouco de atenção, gesto este que agradou demais o bichano. E, talvez, tivesse sido só impressão, mas o rapaz não pode deixar de perceber que, enquanto recebia carinho, o gatinho pareceu ronronar. Tudo isso era muito estranho para ele. Ele não era capaz de entender o porquê de o felino ter gostado tanto assim de sua companhia, mas pensar a respeito deste fato foi a primeira coisa naquela festa inteira que foi capaz de lhe tirar uns bons sorrisos. O único problema foi que passados alguns minutos, o gatinho havia ido embora. Imediatamente o rapaz começou a procurá-lo. Ele mal havia tido coragem de começar a apreciar a companhia do bichano e este sumira tão de repente. Ele queria passar mais um pouco de tempo com ele, retribuir o carinho… Por sorte, o achou de novo, mas justo no lugar onde menos esperava. O felino havia se aconchegado no colo dela, e agora, de frente para ela, havia posto sua cara à tapa e não tinha mais volta. Pela primeira vez na noite, havia a olhado nos olhos. A respiração no peito faltava e seu corpo todo tremia, até na ponta dos dedos. Do turbilhão de coisas que passavam pela sua cabeça, agora tão perto dela, nada foi capaz de dizer. Mas o que mais o estranhou de tudo isso era que, vendo tudo mais claro, ele notou algo que não tinha percebido. Aquele gato não era tão preto assim.

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Pseudônimo: Imaturo Gabriel Luiz da Rosa Daros, 3412

Homem não chora Era uma tarde ordinária, véspera do Dia dos Namorados. Havia um menino sentado em frente ao seu computador, tentando manter a rotina a qual se adequara. Inquieto, balançava a perna à medida que sua cabeça voltava o pensamento para o que estava acontecendo em casa. Deixara a mãe sozinha com o amado que se tornara um fardo impensável. Quando o telefone tocou, o garoto sabia o que o esperava. A ligação ficara mais baixa e sua irmã cuspia palavras de consolo as quais o jovem levaria tempo para compreender. Queria que o mundo sumisse e que seus olhos não sucumbissem ao desejo de expulsar as lágrimas que lutara para esconder. Assim que seus pés voltaram a sentir o chão e o ar enchera seus pulmões, ele fugiu. Sem destino, sem opções e sem pai. O moleque era imaturo. Ansiava que seu progenitor voltasse ao mesmo tempo em que não poderia estar mais grato pelo fim de todo o sofrimento pelo qual havia passado. Não achava justo que os outros não partilhassem da mesma dor. Não suportava ter de olhar nos olhos da pessoa que mais amava e fingir que tudo estava bem. Agora, sendo o único homem na casa, sentia que deveria honrar o compromisso assumido quando criança. Homem não chora, eles diziam. Como se expressar sentimentos fosse um defeito. Como se chorar pela morte do próprio pai fosse motivo para vergonha. Hoje, o mesmo menino ainda segura o choro debaixo das cobertas por não ser forte o bastante para ser frágil.

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Crônicas

Pseudônimo: Classic Caroline da Silva Knob, 4223

Lições da vida Como eu vou escrever uma crônica se nem sei escrever uma. Sei que tenho que contar uma história, vista de uma perspectiva diferente. Mas como vou fazer isso se minha vida é feita de várias pequenas histórias que me transformam em quem sou. Por exemplo, sempre que eu ia à piscina meu pai colocava uma boia em mim. Mas um dia, pulei na piscina sem ela, pois por algum motivo sentia que estava com a boia. Se não fosse pelo meu pai me socorrer, talvez eu nem estivesse mais aqui hoje. E assim a vida me ensinou a primeira lição. Não confie nos seus instintos. Teve outra vez em que minha escola fez uma olimpíada interna de Matemática. Era só entre as turmas e não significava muito. Até que descobri que eu ganhara. A felicidade e mais uma lição chegaram. Você pode ser muito inteligente quando quer. Em uma época da minha vida, eu participava da orquestra da escola. E todo ano várias orquestras se reuniam para tocar juntas. Houve um dia em que mais de quinhentos músicos se juntaram com alguns corais de outras escolas. Ao tocarmos a última música da noite, olhei ao meu redor e vi o quão lindo era tudo aquilo. Muitas pessoas tocando e cantando o que passaram meses ensaiando tornaram-se um só grande e lindo som. Tinha tanto amor envolvido ali, tanta paixão, que quando terminamos o público começou a aplaudir de pé. Naquele instante, aprendi mais um ensinamento. Você só pode ser grande, se for pequeno antes. Outro momento que ficou marcado foi o dia que briguei com minhas melhores amigas. O motivo era simples, só que queria que por um segundo elas me ouvissem e vissem quem eu era de verdade. Aí em uma ocasião tentei falar isso para elas, não deu muito certo e fiquei umas três semanas sozinha. Assim, mais um aprendizado. Machucados físicos podem doer, mas não tanto quanto os psicológicos. 67


Liberarte 2019

E assim chegamos à data em que uma antiga colega faleceu. Nós podíamos não ter muita afinidade, entretanto essa morte me marcou. Porque ela morreu muito nova, muito do nada, tinha uma vida toda pela frente. Ela nunca saberia como é casar, ter filhos, entrar em uma faculdade, viajar pelo mundo. Viveu só treze anos, é muito pouco tempo. Nessa tristeza, conheci a última lição. A vida é preciosa demais para não fazer nada com ela. Mas isso que é viver pra mim. Passar por diversos momentos que marcam e te transformam em quem tu és. E não só mais uma história.

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Crônicas

Pseudônimo: Vênus Isabella Morel Bordignon, 1411

Parar de esperar Às vezes tudo que as pessoas esperam é uma oportunidade pra chutar o balde. Carpe diem, Hakuna Matata e tudo mais. Dificilmente essas oportunidades vão aparecer, porque a gente é séria demais para isso, ocupada demais. Você acorda às seis da manhã e vai dormir depois das onze sem ter vivido nada importante ou memorável o suficiente, nada que vá lembrar daqui um mês, quem dirá daqui a vinte anos. E tudo bem, a gente cresce e entende que, quando Cazuza dizia “o tempo não para”, ele não para mesmo, nem quando a gente mais precisa (principalmente quando a gente mais precisa). As responsabilidades vão aparecer, você vai se preocupar com coisas estranhas, tipo o melhor horário para ir ao supermercado e se aquela empresa tem plano de saúde. Tudo bem. Nem todos os dias vão ser um Réveillon em Copacabana ou em outro lugar que eu não visitei. Não teria graça se todos fossem. Quando eu penso na vida, penso em um filme corrido, sem cortes e sem roteiro, em que tudo acontece enquanto a gente espera algum outro sonho acontecer. Talvez seja esse o segredo. Parar de esperar. Parar de esperar a sorte de acertar vários números na loteria, o amor esbarrar em você no meio de uma multidão ou qualquer outra conspiração mágica do universo. Quem sabe a gente encontra brilho na simplicidade, afinal, dá para lembrar para sempre de uma volta pra casa tarde da noite, mesmo que o caminho seja igual ao de todos os outros dias, só porque a música que tocava no rádio era boa e a cidade ficava bonita iluminada. Parece sim uma visão muito romântica da realidade, mas talvez seja exatamente disso que a gente precise. Talvez.

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Liberarte 2019

Pseudônimo: Maria Fulô Arthur Eloy da Silva, 3211

Quando Lucy saiu do céu e foi para a Bahia A areia ainda presa nas rodas do Buggy suja a lustrosa Avenida Sete de Setembro. A singela estrutura do carro se figura como grades que me prendem e, ao mesmo tempo, me deixam à mercê de tudo. Não sei o que fazer; um frenesi completo. Toda a multidão que circula pelas enormes calçadas me deixa cada vez mais tonto, e o barulho infernal dos carros e motos agitam e embaralham meus sentidos. Em meio a todo este desvario que me ocorre dentro do meu Buggy, ainda consigo identificar alguns fatos espaçados. Lembro-me de que, há poucos instantes, andava nas dunas e via o sol no alto. E também de que precisava ir ao centro da cidade por algum motivo importante; talvez precisasse ir ao Farol de Itapuã... realmente não me recordo direito. Mas, mesmo assim, não consigo ligar os fatos, muito menos traçar uma linha de raciocínio que me ajude a sair desta claustrofobia. Na verdade, acho que eu sei, sim, o motivo disto tudo. Já tinha ouvido boatos de que os ingleses haviam invadido Arembepe e que, por enquanto, a dietilamida ainda era bastante pura. Mas, no momento, não tenho capacidade para processar tudo isso. A cada ideia nova que surge na minha mente, a anterior, de instantes atrás, desaparece, tornando meu cérebro uma caixa abarrotada de milhões de epifanias por segundo. Dentro de um Buggy amarelo, debaixo de um sol de quarenta graus, numa das avenidas mais conturbadas de Salvador, eu vejo os enormes prédios derreterem, janela por janela, até chegarem ao solo. O azul do céu cega os meus olhos, e a enorme estrada à minha frente suga os carros para dentro do asfalto liquefeito. As pessoas que saem dos prédios têm seus corpos em sublimação constante, alando-se ao céu. Meu corpo, ao mes70


Crônicas

mo tempo em que se dissolve e se fragmenta dentro do carro, funde-se com o banco de couro encharcado de suor. Minha boca transita entre a inundação e o deserto. Meus cabelos pingam no meu rosto e desaparecem no retrovisor. Enfim, passaram-se horas. Já não tenho mais meus sentidos; estou apenas com o meu olhar estático. Não sei onde estou. Será que voltarei ao normal?

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3. Poemas

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1º Lugar Categoria Poema Pseudônimo: Lethologica Vitória Flores Faccini, 4211

ANTITÉTICO Você foi o pecado e a tragédia grega e o deserto inundado e a praia seca e o mar revolto e a prece afogada e a tristeza feliz e a noite ensolarada, você foi um achado um verso deslocado uma rima às avessas um rodopio de cabeça que tonteou a bailarina fez nuvens brancas solferinas a chover sangue do céu de agosto quando teu rosto sumiu na esquina.

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Poemas

2º Lugar Categoria Poema Pseudônimo: Resiliência Laura Zwetsch Marques, 1123

MESMO QUE O MEDO NÃO VÁ Eu tenho medo da minha indecisão de não saber a certa direção da minha dor criando verso estrofe, citação enquanto meu coração se reparte e eu tento então juntar todas aquelas partes de mim que com as chuvas se vão. Eu tenho medo de me ver desmoronando e sentir como se nunca mais tocarei os pés no chão ou viverei em uma tarde de verão porque, às vezes, sinto o frio do inverno tomar conta de qualquer outra estação. Eu tenho medo de que eu vá senti-lo para sempre logo, eu temo temer pois sei com todo meu ser o quanto isso pode impedir tanta coisa de acontecer mas minha mente inventa a todo o custo que tanta coisa pode deve vai 75


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talvez acontecer. Eu tenho medo de jamais conseguir responder tudo isso sem ter de colocar nas mãos dos relógios o que por algum motivo sempre me fez sentir como uma espécie de coadjuvante da minha própria história onde os ponteiros que são, enfim, seus autores enquanto eu que sempre fui de escrever sobre ser, viver sinto pânico em ter de conter um roteiro que queria eu poder fazer sem os empecilhos de não saber se o amanhã irá ou não amanhecer. Eu tenho medo mas sei que todos temos e que, de qualquer forma, certa hora ele bateria na minha porta de qualquer jeito, então, que seja entre, fique à vontade não repare na bagunça, nem nesse medo jogado nos cantos quem sabe tu me ajudes a contra ele lutar e se não conseguirmos o derrotar podemos viver com ele assim mesmo ou quem sabe até o convidamos para o jantar pois quero que fique mesmo que o medo não vá.

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Poemas

3º Lugar Categoria Poema Pseudônimo: Gessingerano Andrey Machado, 1412

CORINGA SEM BARALHO Eu sou a própria paz falando de passado. Eu sou a falta de desprezo que falta na tua descrição. Eu sou a prova viva do niilismo autoral, tenho por princípio evitar qualquer boçal. Porque de pouca fé já basta o meu pensamento, que é curioso, racional e sem espaço para lamento, que, quando estou só, entra em estado instrumental. Eu sou o sorriso que mantenho estampado, o lado bom da história que nunca chega no horário. Eu sou um erro atrasado, estampado e descuidado, causado pelo pensamento encapuzado. Alma é desculpa para arrumar mais um tempinho e aquele beijo foi para deixar tudo acertado, não entenda isso tudo como um simples recado, é só um devaneio sem nenhum precedente, que diz a verdade verdadeira a quem entende os dilemas idiotas de um imaturo coração, que apenas procura por um pouco de atenção.

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Liberarte 2019

Menção Honrosa: Categoria Poema Pseudônimo: NEOQEAV Eduardo Aniel de Anhaia Alves, 2423

CORES DA FUNDAÇÃO Suas cores, vermelho e verde Grandiosa, digna de respeito Trata-se da Fundação Liberato Lar das histórias que habitam meu peito Em meio a um mar azul Vi primatas a declarar sua glória “É o furacão gincaneiro” “Não é por estrela, é por história” Naquele manto azul presente Senti-me ali por inteiro E a eletricidade em meu corpo Comprovava, era verdadeiro Atravessando, então, a rua Vi-me em inferno monocromático Vendo o brado verde e preto Paralisei-me, fiquei estático Abaixei a minha voz Para ouvir sua oração Lutei foi pelo Taz E pelos nomes no meu saguão Um pouco mais adiante Encontrei-me em desespero Estava em meio a B10 Berço de todo graxeiro Naquele tendel laranja Meu ser estava em brasa Nas engrenagens de minha vida Um avião, destino casa 78


Poemas

Na minha última esquina A fúria veio até mim O vermelho, por excelência Entrou em meu peito enfim A química de seu efeito Deixou marcas em meu passado Na equipe das mais gatas É onde eu havia me achado Através de vários anos Meu amor sempre renascia Pelas cores apaixonadas Que aquela escola orgulhava e via Já vivi muitos amores Pelas equipes da Fundação Entenda então o amor alheio Ele é irracional, habita o coração.

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Liberarte 2019

Menção Honrosa Categoria Poema Pseudônimo: Survivor Gabriela Tatiane Cardoso de Farias, 1224

CORRENTES DE SILÊNCIO rasgaram nossos livros e nossas gargantas para que não pudéssemos transferir nossas palavras para as próximas gerações de mulheres escrever e ler em voz alta ainda é um ato de rebeldia ainda é a vingança que ansiamos por tanto tempo então a única coisa que eu desejo é que essas palavras alcancem todas as mulheres que elas descubram o poder das suas vozes e consigam quebrar as correntes de silêncio que nos calam por séculos

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Poemas

Pseudônimo: Junges Roberta da Luz, 3512

DELÍRIO Meu delírio tem nome, sobrenome E uma boca linda! Que em um sorriso Forma uma geometria perfeita. Meu delírio tem personalidade, intelectualidade E habilidade para me fazer parar, Respirar e repensar. Meu delírio tem olhos cor do mar Onde quero navegar, Mergulhar e me afogar. Meu delírio tem gostos peculiares, Singulares e similares Aos meus. Meu delírio é esboçado, rabiscado E nunca pintado, Mas sempre expressado. Meu delírio é fogo, eu sou água, Eu sou o Sol e ele a Lua, Juntos somos equilíbrio.

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Liberarte 2019

Pseudônimo: Adélia Prado Gabriela Welter Donelli, 1211

DESIGUALDADE Hoje escrevo poesia Pois aprendi sobre escrita Enquanto outra menina Pedia moeda na esquina Hoje consigo falar bonito Mas aquele menino Não sabe o que é um eufemismo E só sonha em ganhar um salário mínimo Hoje várias coisas posso conquistar Afinal nunca precisei me preocupar Se terei o que almoçar Ou se minha mãe estará viva em casa quando eu chegar Hoje você usa gravata e terno Já que graças à fortuna do seu avô paterno Nunca viveu o próprio inferno Ou se perguntou se sobreviveria ao inverno Hoje tenho oportunidade Mas muita gente não É que fica difícil estudar para entrar na faculdade Enquanto se mata trabalhando todo dia para conseguir comprar pão

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Poemas

Pseudônimo: Simon João Pedro Haas de Souza, 4411

ESCRITA O escriba, o escrivão, o escritor A paixão o contato no papel A descrição perfeita ingênuo ato de escrever O que seria a História? pequenas fábulas escritas por quem as testemunhou e não se conteve em si Escritas, descritas, manuscritas verdades de uma raça sentidas no deslizar de um pincel A arte que está nas palavras não nas pessoas

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Liberarte 2019

Pseudônimo: América Júlia da Silva Colombo, 4112

ESTOU INDO Adeus, amigo. Estou saindo daqui. Escolhi um bom livro no bazar, Juntei algumas tralhas, Entrei no meu fusca amarelo, E estou indo respirar com mais leveza, E viver com mais amor. Avisa ao país que estou bem, Que me joguei no mundo, E que me sinto mais livre do que jamais me senti!

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Poemas

Pseudônimo: Pisciana Ana Carolina Onuszeak, 1324

FLORESCER Você já teve o cabelo cacheado Era moreno e demonstrava o poder Você já teve o cabelo meio liso meio alourado Era sensual e demonstrava o querer Você já teve o cabelo ondulado Era preto e demonstrava o saber Você já teve o cabelo bagunçado Era sincero e demonstrava o prazer Você já teve o cabelo pintado Era colorido e demonstrava o viver Tanto cabelo mudado E sempre intacto era o seu ser Com um cabelo sempre determinado A transmitir o seu novo florescer

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Liberarte 2019

Pseudônimo: Lethologica Vitória Flores Faccini, 4211

INSPIRAÇÃO Hei de te amar Até o meu último suspiro Até que o amor seja esmagado Pela pressa dos novos tempos Até que o destino decida o meu fim Que talvez não seja em teus braços E talvez não sejam meus traços Que fiquem em tua memória Mas sobra o fato afinal E, mesmo oculto aos livros de História, Talvez alguém, meu bem, o descubra Seja agora ou daqui a um milênio Pois nem carecia ser gênio Pra concluir ao acaso Que eu carecia do Teu abraço Mais até Que de Oxigênio

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Poemas

Pseudônimo: Chimamanda Ana Giulia Gonçalves, 1412

MEIO Um pedaço teu me deste, Teu caderno, companheiro fiel Onde redesenhavas o céu Renorteava teu Leste. As entranhas de papel, cheias dos teus traços As páginas ocupadas, mas só até o meio. Disse-me que o outro meio me cabia, E nem um traço, rabiscar eu sabia. Decidi, então, rabiscar letras Escrever em meu meio. Estranho começar no meio, Não parece início Mesmo sem nada meu vindo antes. Mas esse meio não é meu, Pertence a quem pertenceu. Nem sei se sou digna de... continuar? Não, começar. Iniciar o meio Ou continuar o início. Só queria eu saber fazer Arte de se ouvir, de se ver. Em vez disso, tenho essa mania de brincar com palavras Na verdade, minto, As palavras brincam comigo. Eu não faço nada Só assisto.

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Liberarte 2019

Pseudônimo: NEOQEAV Eduardo Aniel de Anhaia Alves, 2423

MENINA RADIANTE É ela Dona do sorriso radiante Que em meio ao devaneio constante Roubou com um beijo meu coração. É ela Que em meio a uma noite estrelada Com o álcool ditando nossa passada Com seu beijo me deixou sem ação. É ela Que com seu olhar de menina Adjunto a astúcia de uma felina Com um beijo me levou ao chão. É ela Que por fim com seu beijo doce Por mais incrível que fosse Trouxe-me a paz em meio à ilusão.

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Poemas

Pseudônimo: Gessingerano Andrey Machado, 1412

O MANIFESTO Tenho um sonho, de fato, ambicioso, que nunca teve seu nome na lista. Eu clamo apenas por lógica e ética e sempre sou tachado de utopista. Sou tachado por tudo que faço, não sou dono do ar que respiro. Chega de roubo institucionalizado, a toda verdade é o que me refiro. Liberdade, mesmo que tarde, independência do sistema doente. Estatizaram a incoerência, é imoral e ninguém repreende. “Fique quieto e obedeça à ordem, já que pertence a uma nação tão bonita.” A minha terra é a terra que é minha, não importa qual lei seja escrita. Há pedaços de inabilidade estatal destilados em lei burra e banal. A justiça é feita para o controle e para reprimir nossa voz liberal.

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Liberarte 2019

Pseudônimo: Chimamanda Ana Giulia Gonçalves, 1412

O PAPEL DO AUTOR Deixar sem palavras É raro, escasso Num mundo em que se fala tanto O autor que faz isso Atingiu seu objetivo. É como me sinto Meu alvo atingido Quando me abro nas palavras.

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Poemas

Pseudônimo: SeQuesDiz Rafael Amaral Peroni Filho, 4223

PACIÊNCIA Li todos os teus poemas Esperando que algum fosse pra mim. Queria que fosse como eu, Escrevendo pra ti assim. Todo dia eu escrevo uma mensagem Um olá, um bom dia. Então, eu desisto de mandar, Como uma carta tardia. Tudo que eu sinto O dia todo, o tempo inteiro É saudade tua, de tudo! Do teu corpo, teu olhar, teu cabelo... Espero o dia que vai me contar Que me ama igualmente. Sei que esse dia vai chegar, Nem que eu espere eternamente.

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Liberarte 2019

Pseudônimo: Kalokairi Natália Caroline Baptista dos Santos, 3411

PRETÉRITO Eu existia. Tu existias. Nós existíamos. Somos ação inacabada; Pretérito imperfeito; Futuro que não existe.

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Poemas

Pseudônimo:SeQuesDiz Rafael Amaral Peroni Filho, 4223

QUERER Bem me quer... Se sorrir, Tu me quer. Pode vir! Mal me quer... Vira a cara, Não me quer. Se prepara! Me quer? Não quer? Poxa vida! Se decida!

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Liberarte 2019

Pseudônimo: Rose Isabela de Lucena Schorn, 3212

TALVEZ Talvez eu não esteja pronta para o amor. Talvez o amor não esteja pronto para mim. Talvez ele não queira ficar. Talvez ele não queira vir. Talvez ele não possa. Talvez ele não deva. Talvez ele mude de ideia. Talvez eu o receba. Talvez eu o acolha. Talvez eu o enxote. Talvez eu o ame. Talvez eu o adote. Talvez ele queira ficar. Talvez ele esteja só de visita. Talvez ele vá me machucar. Talvez ele não admita. Talvez ele nem se aproxime. Talvez eu fique feliz com isso. Talvez não... Talvez eu não aguente. Talvez eu não saiba o que sentir. Talvez ele não saiba o que sente. Talvez eu o queira. Talvez ele me ame. Talvez a gente não se entenda. Talvez eu mande que ele se dane. Talvez eu o peça pra ficar. Talvez nem precise pedir. 94


Poemas

Talvez mesmo pedindo ele se vĂĄ. Talvez tenhamos que nos despedir. Talvez ele nĂŁo sinta minha falta. Talvez eu sinta a dele. Talvez ele ame outra pessoa. Talvez eu ame ele. Talvez

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Liberarte 2019

Pseudônimo: SeQuesDiz Rafael Amaral Peroni Filho, 4223

TEMPESTADE Dentro de mim Ouço trovões, Vejo relâmpagos, Canto canções. Chovem ideias Dos mais diversos temas, Vêm de nuvens carregadas Cheias de poemas. Mesmo num dia nublado Que eu nem ao menos vivi, Estava muito feliz Porque lembrei de ti. Numa fina garoa Ou na chuva de granizo, Tudo que eu mais desejo É ver o teu sorriso.

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Poemas

Pseudônimo: O Estranho Alexandre dos Reis Domingues, 2312

TODO POETA SABE FALAR DE AMOR as horas voam na madrugada o teu silêncio já não me diz mais nada de vez em quando ainda me pego sonhando acordado com a imensidão desses teus olhos esverdeados e isso até que me faz bem tem muito de mim que eu ainda não sei eras atrás eu nunca me imaginei escrevendo sobre alguém esse sempre foi um medo bobo meu imortalizar sentimentos passageiros na eternidade desses versos realmente não faz meu tipo mas, meu bem, todo poeta sabe falar de amor até mesmo os da minha laia do tipo que exala um pessimismo sem nexo, então, se eu disser que, pra ser sincero, tu és bem mais do que eu espero não vai ser surpresa pra ninguém

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Liberarte 2019

Pseudônimo: Lethologica Vitória Flores Faccini, 4211

UM ÚLTIMO TRAGO “Um último trago” Não te trago mais No peito, nos pulmões ou no bolso Eu já me curei do meu vício Eu já me esqueci do teu rosto Não te trago mais Como um cigarro em manhãs de agosto Neblina, uísque e promessas Da tua boca, eu já nem lembro o gosto Não te trago mais Porque a intragável verdade De tanto correr na cidade Um dia, enfim, me desceu Depois de queimar-me com asco Lufar meu afeto no espaço Tu tirou outra amante do maço E ali mesmo tu me esqueceu

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Poemas

Pseudônimo: Junges Roberta da Luz, 3512

UMA Não sou uma Silva Cruz Uma Estradioto Uma Bouman Uma Halminton Uma Currie Uma Kahlo Muito menos uma Medeiros Ou uma Lispector Eu sou Luz Intensidade Criatividade E Artista. Minha tela é formada por palavras Como também rabiscos Preencho minhas páginas em branco Aos poucos. Meu passado já foi Meu futuro ainda não veio, Mas meu presente está aqui E agora. Assim como todas, Em algum momento pode ser eu, pode ser você... Talvez não na ciência, Não nos esportes E nem na literatura, Mas independente da “Uma” que somos Que ainda sejamos nós Nuas e cruas Prontas para aprender, Para evoluir, Para amar, Se libertar E ser feliz!

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Liberarte 2019

Pseudônimo: homosapiens1999 Matheus Daniel Faleiro, 1411

UTOPIA Eu quero que a próxima presidente do Brasil seja uma mulher negra e que os próximos ministros do Brasil sejam gays. Eu quero viver para ver os pobres de volta nas universidades, os deficientes se tornando cientistas e os condenados se tornando exaltados. Eu quero viver para ver o sabiá cantar de novo, em uma terra de palmeiras reflorestadas com aves que não se cansam de gorjear. Eu quero viver para ver os galos se unirem, se negando a respirar o ar dessa nuvem de poeira radioativa e verde que tomou o país. Para ver o povo reunido e amarrado, como em um novo órgão do corpo humano, como em um átomo interligado a outros átomos em uma grande molécula e tomando para si o que lhe foi tirado a mordidas, a golpes de tesoura e à chantagem. Eu quero não conseguir dormir com os gritos que vão se espalhar em todos os bairros e em todas as ruas do país inteiro. Gritos fortes, não mais grunhidos, que cospem, suplicam e, à flor da pele, exclamam a máxima: Liberdade! Liberdade! Liberdade!

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Poemas

Pseudônimo: Lethologica Vitória Flores Faccini, 4211

UTOPIA Deus me fez poeta e te fez poesia pra que eu te amasse e te quisesse e te adorasse e te dissesse quando chegasses o que eu sabia: Que se tu pensas que não mereces a rima boba que o peito aquece (pois faltou alma que te cantasse e faltou prosa em que tu coubesses), Que nunca houve, pois, quem te lesse por não ter verbo que descrevesse e não ter boca que declamasse quem mais parece uma utopia.

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Liberarte 2019

Pseudônimo: Lethologica Vitória Flores Faccini, 4211

VERSOS (I) Meus versos que te compunham Desaventurados, não te comportaram Meus versos que te cantavam Cataram suas coisas, daqui se foram Meus versos por ti sofridos Que te sorriam e te choravam Agora são versos idos Em vão trovados Aos que não amavam

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Poemas

Pseudônimo: POLIA Rafaela Silva de Melo, 2423

VIDA Qual a vida a ser levada, a inventada ou ousada, a sofrida ou a levada, qual seria a direção? Se a inventada, for sonhada e ousadia rateação, qual seria a opção, para não entrar em ebulição? Se a sofrida for movida de amores, paixões, superações... melhor deixar de lado a que é levada, olha a cara de cilada. A direção não sei ao certo, o caminho é encoberto e a única forma de descobrir, é nunca deixando de prosseguir.

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4. Poems in english

4


Liberarte 2019

1st Place – Poem in English Alias: Survivor Gabriela Tatiane Cardoso de Farias, 1224

A LETTER TO THE PERSON I WAS when i think about you or when a voice i no longer recognize whisper in my ear do you remember? i become all forgiveness and apologies i don’t know if am i the one who should be sorry i don’t know if i should apologize and beg for your forgiveness because how can i blame myself for trying to destroy something that was destroying me i cannot carry the guilt of having survived we are not the same person we fight different battles and we live in a different time but i know your pain and i still remember you even though you are language i no longer speak

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Poems in English

2nd Place – Poem in English Alias: Bianca Bianca Caye Juchem, 4422

IF ONLY If only life was just Love, Joy, Laughter If only it was just that simple To get me a happily ever after If only life was everything, except rough Nobody taught me to be brave, but If only living did not require to make choices The possibility of what my life could be would shut If only making a decision was easy Maybe I am simply not mature Which is wrong? Which is right? If only I had a way to know for sure If only I had known What a waste of time If only I had made the right choice But the pain of all this, makes us feel alive If only I could know How to stand up again How to finally be free If only...

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Liberarte 2019

Alias: Pisciana Ana Carolina Onuszeak, 1324

FRECKLES She had freckles in her cheeks Freckles that looked like stars in the sky Her universe face was so beautiful That was impossible not to fall in love Just by looking at her face When she smiled The stars around her eyes would shine And make constellations In that stunting universe Her eyes would play the part of galaxies Galaxies that could tell the story of a life time The story of the loving girl that had her heart broken A full of love story A full of drama story A full of life story

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Poems in English

Alias: Swan Carolina Goclawski, 1111

SONATA Did you hear that song? A low song that screams out loud, That kills me a little each day. A guest that never goes away. No one hears. No one cries. No more tears. No more lies. Just a song inside me, That one day will die. But now all I have to do is hide.

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Liberarte 2019

Alias: Dourado Carolina de Azevedo Kowalski, 2211

NAKED my body, my art blades and pen my curves and hollow bones my dirty show in a fall my naked poetry.

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Poems in English

Alias: Gola Preta Amanda Terme Machado Pioner, 1224

MAYBE Maybe in a different Place Sound Song You could be my Heart Life soul And save me from My Own Cold

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Liberarte 2019

Alias: Júlia Júlia Isabel Ninow da Rosa, 3223

OPPOSITE WORDS Small city, blue sky Cow girl, cow life Flowers and friend Big city, grey sky Urban boy, urban life Skyscrapers and lights Opposing worlds but love in common Because, when it’s meant to be Nobody can change And you may be sure that When she looks at the sky She is thinking in the lights And when he’s looking at the skyscrapers He is thinking in her eyes

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Poems in English

Alias: AmĂŠrica JĂşlia da Silva Colombo, 4112

THE FIRE PIT Sometime ago, I decided not to give myself hope anymore, So I stopped putting wood on the fire pit. But now that you are back, I realized that stop putting the wood, Without putting water, Does not make the fire pit stop burning.

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Liberarte 2019

Alias: Imaturo Gabriel Luiz da Rosa Daros, 3412

WALLS If we ever go back to it, I am not sure we are ever getting out of it. I can only say that regret is not an option and being merciful is not an act of kindness. Telling old stories is easy. However, convincing that moving back to where once we belonged is the real deal. You likely will not understand what I am talking about, and maybe that is virtuous. It means that your heart is not corrupted by the morals we are tied up to. I met a guy named Alex way back when I did not need to pursue what I believe is right. He taught me that love is not about owning someone. It is about embracing their flaws and letting them become a part of who you are. Meanwhile, an old man affirmed that walls were the solution for the barriers that the past generations had built. I thought that his speech was as remarkable as controversial. How is it even possible that a wall could solve conflicts between contrasting interpretations of what love is? Love is about sensibility. It is about passion and unconditional giving of self to another soul. A gun to your brother’s head will not heal any of the damage that had been caused. Nevertheless, the past year proved that we are still learning how to love each other. I am hopeful that the future will be better. If it is not, I do not believe that there will be a future at all. When I was seven, I remember being told that it is normal for boys to fight. It is intrinsic to their nature. The same storyline did not repeat itself when I kissed my best friend on his cheek. I was grounded for weeks in a roll. A child was being instructed that holding a gun against another man is more acceptable than holding his hand. It did not make sense in my head back then and it still does not. How can we build machines that can take us to another planet and we cannot find a way to learn from our differences? White and black. Gay and straight. We are not free until equality is not achieved. We are not free until those walls are knocked down. You might be wondering what your role in all of this huge mess we have created is. That is a question you will have to find by yourself. Regardless of how you are doing so, I promise to hold your hand every step of the way. 114


5. Poemas en lengua EspaĂąola

5


Liberarte 2019

1.º Lugar na Categoria Língua Estrangeira Espanhol Pseudônimo: Chimamanda Ana Giulia Gonçalves,1412

APARTADOS La cultura y la lengua Son el pegamento del mundo Hechos por personas Que no sobreviven En este lugar oscuro. La sangre de los pueblos Apartados por rayas No escritas por ellos. Americanos, moros, cristianos, Aunque solo quieren su tierra Sobre ellos cae la guerra, Vidas tempranas llevadas Por tan malos diplomáticos Disfrazados con sus discursos automáticos.

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Poemas en Lengua Española

2.º Lugar na Categoria Língua Estrangeira Espanhol Pseudônimo: Polia Rafaela Silva de Melo, 2423

LIBERDAD EN LA VIDA La naturaleza diferente de tanta gente irreverente, que mismo así tienden a estar en el mismo mundo a nadar. Entre risas y tristezas sólo se tiene una certeza, la de que la vida es una y un día no continúa. Sólo debe toda la gente, seguir indiferente y no intentar determinar, un lugar para llegar. Siendo así, el nado sigue libre en ese mar. Donde estoy, no estoy seguro, me permitió solamente amar.

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Liberarte 2019

3.º Lugar na Categoria Língua Estrangeira Espanhol Pseudônimo: Elio Carlos Eduardo Accorsi,4411

VIVIR La vida no es una actividad fácil Especialmente cuando tú no te permites vivir Porque piensas demás en todo lo que haces O te preocupas mucho con lo que los otros piensan de ti La realidad es que eso pasa con todos nosotros Sólo con intensidades distintas Unos más, otros menos Por eso, nada que alguién piensa de nosotros realmente importa Y, por supuesto, es muy difícil separarte de esos rótulos Pero es necesario Extremadamente necesario Para que podamos vivir

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Poemas en Lengua Española

Pseudônimo: Elio Carlos Eduardo Accorsi, 4411

HACER ILUSIÓN Siempre me percibo pensando en ti En cualquier momento A cualquier hora Hasta cuándo lo que estoy haciendo no tiene nada a ver contigo Eso ya me pasa hace algún tiempo No importa con cuantas más personas yo me involucre Siempre vuelvo a ti A pensar en ti Porque tú eres único Eres genial por tu forma de ser Y lo único que siempre me pasa Es que no importa como yo esté, tú siempre me haces ilusión

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Liberarte 2019

Pseudônimo: Elio Carlos Eduardo Accorsi, 4411

MI MEDIA NARANJA No nos hemos involucrado Tampoco compartido nuestras experiencias La realidad es que nada ha ocurrido entre nosotros Y eso me pone triste Porque tengo certeza que tú Por tu manera de ser Tan única y especial Eres, por supuesto, mi media naranja

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Poemas en Lengua Española

Pseudônimo: Elio Carlos Eduardo Accorsi, 4411

EL TIEMPO El tiempo es una cosa interesante No importa lo que hacemos El siempre está a correr Y no hay nada que podemos hacer para pararlo Pero, lo que nos resta Es aprovecharlo Usarlo a nuestro favor Para que nos pongamos felices con nuestras vidas

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Liberarte 2019  

Concurso de contos, crônicas e poemas da Fundação Liberato. Ano 2019. Novo Hamburgo, RS, Brasil.

Liberarte 2019  

Concurso de contos, crônicas e poemas da Fundação Liberato. Ano 2019. Novo Hamburgo, RS, Brasil.

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