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FUNDAÇÃO ESCOLA TÉCNICA LIBERATO SALZANO VIEIRA DA CUNHA

Novo Hamburgo – RS – Brasil

liberarte 2017

Concurso de contos, crônicas e poemas

Novo Hamburgo, setembro de 2017.


FUNDAÇÃO ESCOLA TÉCNICA LIBERATO SALZANO VIEIRA DA CUNHA Novo Hamburgo − Brasil Diretor executivo: Leo Weber Diretora de Ensino: Mareli Lurdes Regelin liberarte 2017 Coordenadora da disciplina de Língua Portuguesa Rogéria Silveira Pacheco Coordenação Íris Vitória Pires Lisboa Comissão organizadora Andréa Maria Escobar Carmem Maria Ribeiro Bica Beltrame Cristiane Pereira Alchimowich Anton Daiana Campani de Castilhos Danilo Oliveira Elenilto Saldanha Damasceno Elíria Maria Poersch Giele Rocha Dorneles Inaciane Teixeira da Silva Íris Vitória Pires Lisboa Jorge Luiz Gouveia Amaral Liane Filomena Müller

Lucrécia Raquel Fuhrmann Luiz Carlos Azambuja Silveira Márcia Bratikowski Koosmann Margareth Helena Weber Maria Emília Lubian Martina Cassel Maurer Rafaela Janice Boe f de Vargas Raquel Lima de Paula Regina Leitão Ungaretti Rita de Cássia Oliveira Simões Rogéria Silveira Pacheco

Convidados para a banca avaliadora Arthur Knevitz de Souza Mello

Pedro Gonzaga

(ex-aluno da Fundação Liberato, premiado em diversas categorias e em diversas edições do Liberarte).

(músico, tradutor e escritor, autor de “A última temporada”, “Falso começo” e outros títulos).

Marcelo Spalding

(professor, escritor, editor e jornalista, autor de “A cor do Outro”, “As cinco pontas de uma estrela” e outros títulos).

Rubem Penz

(publicitário, escritor e músico, autor de “Enquanto tempo”, “Santa sede” e outros títulos) .

Capa – vencedora da categoria "Arte da capa" Amanda Espindola Brand – turma 2123 Edição Dennis Messa da Silva


Sumário Poemas Teorema da saudade ..............................................................................08 Ciclo feminino ........................................................................................09 Epilogar .................................................................................................... 11 À deriva.....................................................................................................12 Sou ............................................................................................................13 Fragmentos ..............................................................................................14 Descansa ..................................................................................................15 Sobre o que os poemas falam .................................................................16 Abraço culpado ........................................................................................17 Três, dois, menos uma ............................................................................18 Bem-me-quer...........................................................................................19 “Mundo” virtual ......................................................................................20 Antônimos ...............................................................................................21 Coração-Berlim ...................................................................................... 22 Seguro de vida ........................................................................................ 23 Queria eu ................................................................................................. 24 Delação .................................................................................................... 25 Mulher ..................................................................................................... 26 Lágrimas secas........................................................................................ 27

Crônicas Oi, quer ficar para um café? .................................................................. 30 A cafeteria e a rotina ............................................................................... 31 Seu Ba...tista?!..........................................................................................33 O menino da van .....................................................................................34 Enjoar .......................................................................................................36 Mudanças ................................................................................................. 37 Complicações do coração .......................................................................38 No corredor............................................................................................. 40 Medo de amar ..........................................................................................42 Superstições .............................................................................................44 Um amor em POA ...................................................................................46 Orai pela minha vida amorosa ...............................................................48 Sobre ser e estar ...................................................................................... 51 Um dia após o outro ................................................................................52 Se você me deixar hoje ............................................................................54


Contos Um nome composto ................................................................................58 Adormecido .............................................................................................62 A maldição dos 22 ....................................................................................66 Mãos .........................................................................................................69 O Poeta .................................................................................................... 70 Canário .....................................................................................................72 Imaginários para os outros, reais para ela............................................76 Despertador .............................................................................................78 Sobre Marias e Dianas ........................................................................... 80 Fuga ......................................................................................................... 82 Estrela distante........................................................................................84 O lobo e a capa .........................................................................................86 Eutanásia ................................................................................................ 88

Poems Words and worlds ...................................................................................92 Breathing .................................................................................................93 Girl ............................................................................................................94

Poema en Lengua Española Reacciones ...............................................................................................96


Apresentação O cursor do meu editor de texto pisca desa ador na tela do notebook. A tela em branco é um sorriso debochando de mim. Debochando do meu medo. Já é o terceiro arquivo que eu abro, escrevo, paro, desisto e abro um novo. A versão tecnológica do ato frustrado de arrancar a página meio escrita do caderno, amassar, tentar acertar a lata de lixo e errar miseravelmente. Sonhei com a possibilidade de escrever este texto por mais de cinco anos seguidos e, quando nalmente o sonho se realiza, co enrolando até o último dia para escrever. (travei de novo) (o cursor continua piscando, insolente) (a página em branco mostra a língua) Há cinco anos, quando escrevi o poema que seria minha porta de entrada para o Liberarte, nunca imaginaria a sensação de estar aqui hoje. Eu me via com o texto pronto, abraçando meus professores e recebendo um gazilhão de elogios pela obra-prima nal que seria esse texto; hoje eu só consigo pensar em quantos bilhetes eu escrevi que são mais bonitos do que o que eu estou fazendo com o teclado deste computador. Eu nem sei se aquele ponto-e-vírgula que botei na frase anterior realmente está certo (talvez eu troque por uma vírgula, caso lembre). Toda a sensação de onipotência que eu sentia ao escrever esse texto foi minguando a cada palavra que eu li enquanto avaliava os textos deste livro. Todas as palavras rebuscadas, as metáforas inundadas de signi cados e minhas expressões de duplo sentido perderam o brilho frente às constelações de poesia que encontrei em cada poema, cada declaração de amor, cada conto aterrorizante, a cada crítica social profunda e necessária que foram reunidas aqui. Vocês, escritores e escritoras desta escola, me calaram. Vocês me botaram de joelhos.


Vocês me zeram rir e chorar, me zeram torcer por uma personagem e odiar outra. Me zeram viajar a lugares que nunca imaginei existir e me zeram enxergar, aqui mesmo onde estou, o que eu sempre via, mas nunca enxerguei. Vocês, com cada palavra sem plural, cada vírgula deslocada, cada gíria que eu mesmo já usei nesses corredores, me zeram voltar no tempo e sentir este canavial de emoções que só quem escreve entende (ou não entende, só escreve pra ver se alivia). Obrigado por colocarem seus corações nestas páginas. Por depositar suas angústias em mãos desconhecidas. Tenham certeza de que elas foram tratadas com o devido respeito (e lágrimas). Obrigado por serem tão profundos, tão intensos. Seres que pensam no que escrevem, mas que também escrevem sem pensar. Obrigado por sentirem. Obrigado pela poesia. Acima de tudo pela poesia. É dela que eu vivo. E também obrigado por me ajudarem a vencer mais esta página. Obrigado por, mesmo este texto não sendo a obra-prima que eu gostaria que fosse, eu poder olhar para uma tela menos vazia e para um coração mais cheio. Foi um prazer fazer parte de tudo isso mais uma vez.

Arthur Knevitz de Souza Mello


Poemas


Liberarte 2017

Primeiro lugar - Categoria poema Vitoria Flores Faccini 4111

Teorema da saudade Sinto falta da neve Mesmo nunca a tendo visto Sinto falta dos vulcões Das terras que não habito Sinto falta dos terremotos Mesmo tendo nascido aqui Sinto falta das manhãs em Marte Das piadas das quais não ri Sinto falta até do deserto Sinto falta de tê-lo por perto Da savana com suas cores Sinto falta de cada um dos amores Mas acima de todos eles Sinto falta dos que nunca senti E isso soa tão sem sentido Quanto sentir falta de estar contigo Quando você nunca de fato esteve aqui

Pseudônimo: Lethologica 8


Poemas

Segundo lugar - Categoria poema Isabel Muller Alves 1212

Ciclo feminino Larga esse carrinho Vai brincar de casinha Usa roupa rosa Age como menininha! Como tu cresceste Para o teu pai não vai dar paz Que bonito teu irmão Muitas vão correr atrás Essa saia é muito curta Quando alguém cair em tentação Não adianta reclamar Nem dizer que não foi a intenção E esse peso? Tu tens que emagrecer Senão que tipo de rapaz Vai querer contigo se envolver? Foi apenas um elogio Assédio não existe Mas, também, olha essa roupa Soa muito como um convite Sozinha àquela hora Claro que ia ser estuprada Ela não consegue entender Que foi a única culpada

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Ela foi morta? Não aprendeu a lição Mulher tem que car em casa Trabalhando à beira do fogão Olha lá aquela outra De novo jogando bola E o ciclo da vida feminina Novamente se desenrola

Pseudônimo: Erzsebet 10


Poemas

Terceiro lugar - Categoria poema Daniele Ataydes 1312

Epilogar Tu foste a melhor coisa que não me aconteceu. Sem tirar Sem pôr Sem dúvida. Sem teu toque dando choque. Sem nosso respirar, ofegante Sussurrando aos ouvidos de quem pudesse ouvir Aquilo que nunca foi dito Por mim Por nós. Sem teu peito que fez meu corpo casa Enquanto ouvi as batidas da porta: Teu coração; Descompassado, Acelerado, Fora de ritmo, Fora do tom, Como a nossa história Que não existiu. Somos a física Provando a força de reação Resultante de qualquer ação. Somos a música E a junção de diferentes notas Provocando um harmônico próximo do inaudível. Somos a matemática. Em um mesmo plano, Percorrendo a mesma distância. Todavia retas paralelas não se cruzam. E eu sei Assim como tu: Fui a melhor coisa que não te aconteceu. Pseudônimo: Clair de Lune 11


Liberarte 2017

À deriva Como barcos na noite Sob a alva luz da lua Na superfície quase imóvel De uma negra lagoa Vazios, à toa Ansiando por uma maré Fenômeno quase utópico Acabou que se acostumaram Com a calmaria, As algas em seus cabelos E estrelas sob os pés.

Pseudônimo: Moonlight Ana Giulia Gonçalves 1212 12


Poemas

Sou Sou dia Mas desejava ser noite Sou letras Mas desejava ser números Sou fogo Mas desejava ser água Sou música Mas desejava ser soneto Sou pavor Mas desejava ser calmaria Sou só Mas desejava ser nós.

Pseudônimo: Dia Alexia Maria Lopes de Souza 3123 13


Liberarte 2017

Fragmentos Para que me tenhas junto a ti Mesmo que por breves momentos Peço que não anseies por fragmentos Da totalidade plena que hoje sou Caso me queiras, que seja por completo Que queiras além do no manto que cobre todo o porvir Não imploro por eternidade, O tempo já não é de minha alçada Outrora quisera um “para sempre”, Hoje exijo um “por inteiro” Para que mesmo os in nitos segundos que existirão em um olhar Sejam vividos com a plenitude que emana do desejo de amar

Pseudônimo: Alma Stephanie Czaplinsky da Costa 1112 14


Poemas

Descansa Descansa em mim as tuas lágrimas Eu as limparei Descansa os teus mais profundos segredos Eu os guardarei Descansa os teus medos e pesadelos Deles, eu te protegerei Porque eu sei que o amor não são apenas ores Não é só primavera Arco-íris O amor é espinho É cada uma das estações É tempestade E eu, em todas as minhas formas Fui feita para amar-te.

Pseudônimo: Abaeté Eduarda Alves de Abreu 3311 15


Liberarte 2017

Sobre o que os poemas falam A complexidade do mundo A profundidade da mente A grandeza de um segundo Como seguir em frente A vida em versos Descrições de almas Sentimentos dispersos Dispostos em palavras A beleza in nita A melancolia escrita A admiração mais pura Sobre a mente mais escura Todas as cores Todos os momentos As angústias, sabores Temores e argumentos O in nito e o vazio O passado e o presente O grandioso e o sutil O nunca e o para sempre Uma lista apurada Aparentemente sem m Impossível de ser terminada E deve permanecer assim Pseudônimo: Susie Q Amanda Trajano de Lima 1511 16


Poemas

Abraço culpado Amiga, preciso te contar Uma coisa de lme, meio louca Alguém que veio me abraçar Me girou no ar de tal modo que quase quei tonta Como assim? Quando? Nem tanto tempo faz, Num dia meio ensolarado Há algumas semanas atrás Eu ganhei o abraço culpado De me fazer sorrir Me deixar toda boba só pela companhia De me fazer tão feliz Sem perguntar se eu queria E quem iria perguntar? Deixa de fazer cena Porque se ele te beijar Sei que você não vai achar problema Não seja tão exagerada! E me deixe terminar de contar Que ainda estou meio emocionada Preciso de alguém para culpar E quem você vai culpar por essa felicidade? Sendo bem sincera Foi tudo culpa dele ter ido me abraçar. Pois, a nal, quem está à espera De se apaixonar? Pseudônimo: Jess Isadora Gonçalves 3111 17


Liberarte 2017

Três, dois, menos uma Jovem moça Moça sofrida Ela tinha um feto em sua barriga Mas não era por sua vontade Certo dia estava fora da cidade E um moço lhe abordou cheio de maldade Moça bonita não anda sozinha Moça de respeito anda com uma amiga Moça sozinha só pensa em besteira Venha comigo, vamos fazer uma brincadeira Ela disse não, mas ele a ignorou Moça safada não pode ser difícil Mão na boca, outra coisa em outro lugar Moça sacana não pode gritar Acabou Quinze minutos para ele Para ela, uma eternidade Amiga me ajuda! Quem mandou se vestir como puta?! Padre, eu não sei o que fazer Quem mandou se entregar ao prazer?! Jovem garota Garota sofrida O que faria com o feto em sua barriga? Chorou e decidiu Sua morte seria em abril Três cartelas de remédios Dois segundos de indecisão Morreu mais uma safada nesse Brasil Mas se alguém perguntar ninguém viu E me vê uma pizza portuguesa Que a próxima se chama Tereza Pseudônimo: Pain Translation Taís Bueno 3124 18


Poemas

Bem-me-quer Bem-me-quer. Malmequer. Bem-me-quer. Malmequer. Me quer longe, Me quer perto, Me quer deserto Ou aguapé? Malmequer, Sem querer, Como poderias saber? Que “mulher” não posso ser, (Não ainda, bem querer), Bem me queres, Tu me dizes, Mas as coisas que tu viste, Eu entendo, Não condizem Com o que não podes ver. Bem-me-quer. Malmequer. O que queres a nal? Tu me dizes que me adoras E que não me queres mal Mas não pense que sou tola, Pra ti, não sou ideal, Será que você me escuta Quando eu digo: “Sou açúcar Presa num corpo de sal”?

Pseudônimo: Lethologica Vitoria Flores Faccini 4111 19


Liberarte 2017

“Mundo” virtual Pessoas vazias Vivendo sob telas Esquecendo de suas crias E de todas as coisas belas Sonhos esquecidos A cada mensagem enviada Desejos semissuprimidos A cada espiada Responsabilidades acumuladas Tanto tempo perdido Por um punhado de curtidas E aceitando mais um pedido Em todas as redes sociais Vida com perfeição Porém, fora do virtual Apenas frustração Visualizaremos quando Que a relação virtual Vem aos poucos tirando Todo o espaço da presencial?

Pseudônimo: Ima Isabel Muller Alves 1212 20


Poemas

Antônimos Eu, que sou agito Eu, que sou bagunça Que sou con ito Encontrei-me em ti Logo tu, que és descanso Tu, que és silêncio Que és tão manso Esbarraste em mim Eu, que sou vendaval Que sou tempestade Sou temporal Agarrei-me a ti E tu, que és dia de sol Que és arco-íris És girassol Colaste em mim Então, te z meu porto Encontrei conforto E te dei o meu amor, assim, tão torto

Pseudônimo: Abaeté Eduarda Alves de Abreu 3311 21


Liberarte 2017

Coração-Berlim Um é a cura O outro é o vício Um é início E o outro é o m Dois estopins Para a minha santa loucura Repartem sem frescura O meu coração-Berlim.

Pseudônimo: Lethologica Vitoria Flores Faccini 4111 22


Poemas

Seguro de vida Teu cheiro faz questão de não me deixar te esquecer teu perfume infesta a minha mente me faz presidiária de ti teu olhar despe meus pensamentos invade a minha morada me vira do avesso teu toque toca meu interior do mesmo jeito que o sol que entrava pela janela tocava teu rosto e nos incendiava tua melodia completa a minha letra e ao som da música perfeita convida minha alma para dançar tua respiração me causa arrepios faz meu coração tropeçar no meio- o teu tsunami destruiu minha cidade deixou minha população desnorteada levou o concreto ao chão a reconstrução vai ser demorada eu capotei na curva do teu sorriso e o acidente foi de perda total.

Pseudônimo: Cordemarte Gabriela Frohlich 3212 23


Liberarte 2017

Queria eu Queria eu ser Lispector Queria eu ser Quintanaa Queria eu ser Camões Queria eu ser Dummond Para falar não com a boca, Mas com o coração Queria eu ser Picasso Queria eu ser DaVinci Queria eu ser Dalí Queria eu ser Tarsila Para trans gurar minha alma Em uma tela a óleo Queria eu ser Piano Queria eu ser Wright Queria eu ser Hadid Queria eu ser Niemeyer Queria eu um dia Construir eu mesmo meu futuro.

Pseudônimo: O Poeta Matheus Senna dos Reis 1412 24


Poemas

Delação Paulo que delatou Alberto Que delatou Fernando Que delatou Nelma Que delatou Nestor Que delatou Delcídio Que delatou João Que delatou Andrade Que delatou Gutierrez Que delatou Marcelo Que delatou Emílio Que delatou Joesley Que delatou o circo todo Estou cando assustado São tantos políticos Que estão sendo delatados, É servidor, prefeito e governador Senador, vereador e deputado... Um presidente já foi, O atual que tenha cuidado Do jeito que as coisas andam Certamente será derrubado! “Não sobrará uma viva alma” Nas câmaras, no palácio e no senado.

Pseudônimo: O Grande Palhaço Matheus Senna dos Reis 1412 25


Liberarte 2017

Mulher Antes de ser tua Sou minha Antes de me ver nua Aceitei minhas linhas Antes de sair na rua Enchi-me de coragem E disse Que não amar a mim mesma É bobagem.

Pseudônimo: Femi Alexia Maria Lopes de Souza 3123 26


Poemas

Lágrimas secas Me afogo nas melancolias Em tristezas cheias e vazias No entanto, é angústia seca Os olhos marejados são miragem Em tons sombrios de friagem Vá pelo sol, não pela sombra Em vozes fúnebres Entoam os hinos da meia-noite Já não há sol, mas luar Em passos lentos Pairando entre ventos Prelúdios da queda ao ressoar Memórias do subsolo Prostrados a sete palmos Lembranças póstumas Que só aos vermes pertencem Talvez relíquias que nada valem E que apenas a ti equivalem Ninguém morre na véspera Isso somente Deus sabe…

Pseudônimo: Gorki Luiza Bender 1323 27


Crônicas


Liberarte 2017

Primeiro lugar - Categoria crônica Natália Santos 3211

Oi, quer ficar para um café? Entra, mas não repara a bagunça, isso é resultado de todas as pessoas que também foram convidadas a car. Logo ali ca a claraboia, pode observar a lua, as estrelas e, perceba, elas não são nada comparadas a nós. Opa, eu esqueci de avisar, cuidado com os cacos-de-mim aí no chão. Não, eles não vão te machucar, eu vou me esforçar para que isso não aconteça, mas eles já marcaram o piso, cuidado. Parece que tudo virou de cabeça para baixo tão rápido... aí então você bateu à porta, e eu não pude arrumar nada, mas apesar de todas as coisas fora do lugar, ca. Talvez porque o nosso abraço consiga consertar os nossos pedacinhos quebrados, ou então porque a minha bagunça te tire da rotina melancólica cotidiana. Fica porque a minha voz te agrada ou porque gosta de me ouvir gargalhar. Fica porque, talvez, você queira car. Fica porque toda vez que nos beijamos é como se houvesse uma orquestra inteira tocando, seguindo os nossos movimentos. Mais devagar, mais calmo ou com mais força. Fica porque talvez, e apenas talvez, você me ame. E então, não é sacrifício car. Fica só pra um café, ou pra vida toda. Entra, repara a bagunça e me desarruma um pouco mais. Faz das minhas paredes, telas. Pinta o nosso futuro. Desenha em um papel os teus maiores medos (não conto pra ninguém), mas não joga fora, não amassa. Deixa as tuas inseguranças se misturarem às minhas. Se mistura nas minhas cores. Toma um café antes de esfriar (o corpo). Chora um pouco. Lava a alma. Me arruma ou junte-se à minha bagunça pelo tempo que julgar necessário. Toma um café, ou um banho. Se afoga em mim. Pseudônimo: Lua em Áries 30


Crônicas

Segundo lugar - Categoria crônica Isabella Morel Bordignon 1211

A cafeteria e a rotina Passei a maior parte das minhas manhãs livres sentada em frente a um café. Era o tipo de lugar que te acolheria, no instante que teus pés repousassem no simpático tapete amarelo que ficava na portaria, e por motivos que talvez eu nunca entenda, tinha uma estrutura que me lembrava a casa dos meus avós. No banco que eu sentava todos os dias, era possível enxergar cortinas claras e mesas redondas, porém tudo que posso relatar é fruto da minha experiência como observadora curiosa. Nunca provei um cappuccino nem uma fatia de torta. Só conheci seus aromas, nunca sabores. Nem sei como ele é por dentro, se tocam músicas ou há pouca iluminação. Não sei, porque tive medo de saber. Parece ser um problema tão simples de resolver: entrar, pedir um café, pagar e me ver livre para experimentar toda e qualquer cafeteria da cidade (quem sabe até visitar algum bistrô). Mas coisas simples possuem o hábito de serem as causas das minhas piores dores de cabeça. Já estava acostumada com o banco e com a vista. Se tornou muito cômodo ser apenas uma espectadora de cena, e, quanto mais o tempo passava, mais motivos surgiam para que as coisas permanecessem iguais. Um milhão de questionamentos passavam pela minha cabeça sempre que andava em direção à porta. E se o café não fosse tão bom quanto parecia? E se fosse gelado? E se o ambiente fosse muito barulhento ou o garçom mal-humorado? Não queria estragar a imagem perfeita e acolhedora que eu tinha do lugar, por isso nunca quis que se tornasse real. Passei na rua da cafeteria essa semana, depois de alguns me31


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ses evitando o trajeto, e tudo parecia exatamente igual. Tomei fôlego e marchei decidida, mas o lugar estava escuro e empoeirado. Acabei descobrindo que a cafeteria havia falido e brindei o luto que sentia com uma xícara de chá quente, pois agora o café parecia ainda mais amargo. O problema sempre foi a rotina, que se apresenta como um dos piores vícios modernos. Não devemos subestimá-la, ela pode até não te matar de overdose, porém com certeza vai te levar ao cansaço, quiçá ao delírio. É uma dose de frustração diária que me mantém acordada, mais do que faria a cafeína.

Pseudônimo: Boreal 32


Crônicas

Terceiro lugar - Categoria crônica Rafael Amaral Peroni Filho 4123

Seu Ba...tista?! Era mais um dia de aula comum daqueles que ninguém aguenta mais, me arrumei pra pegar a van como sempre. Mas nesse dia tudo mudou! Entrei na van dando boa tarde para o bom velhinho que dirige. Um senhor de cabelos brancos que usa óculos de fundo de garrafa e passa com a van em todos os buracos que vê pela frente. Ele é uma ótima pessoa e sempre abençoa todos os passageiros com o famoso “boa aulaa!” que só ele sabe dar na chegada do colégio, sem essa frase, eu não tenho um bom dia. A van estava cheia, e todos conversavam alto quando, de repente, uma freada brusca lançou tudo e todos para frente. Tinha uma rua estreita, estávamos de um lado e do outro tinha um rapaz calvo (provavelmente por causa do estresse) em um carro branco. Só podia passar um veículo por vez e ambos os motoristas queriam passar primeiro. Passaram-se mais de 15 minutos de discussão entre os dois, os 23 passageiros (incluindo eu) estavam prontos para descer e começar uma guerra contra aquele cara arrogante quando a van começou a recuar. Nós não acreditamos naquilo! A preferencial era nossa, mas o bom velhinho estava sendo gentil como sempre, mesmo depois de ser muito ofendido pelo rapaz. Quando o estressadinho do carro passou por nós, ele gritou “Obrigado, seu babaca!” e imediatamente o nosso amado motorista respondeu enquanto acenava negativamente com a cabeça “Não é babaca, é Batista! Além de tudo errou meu nome...” No fim das contas ele nem percebeu que foi insultado, mas soube que tem os melhores passageiros. Passageiros que fariam de tudo por ele, inclusive brigar com um carequinha cheio de marra. Pseudônimo: Wasemusa 33


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O menino da van Não entendo por qual motivo chama tanto a minha atenção a forma como ele mexe em seu cabelo periodicamente, sentado ao meu lado. Nem sei porque tenho tanta curiosidade em saber quais são as músicas que o fazem adormecer todas as quintas-feiras após doze longas horas na escola. Imagino que possa ser o cansaço tomando conta de seu corpo e sendo demonstrado da forma mais comum e natural possível. Sua cabeça balança em cada curva e, a cada vez que o freio é acionado, ela é impulsionada poucos centímetros à frente. Ele adormece. Assim, sentado ao meu lado. Gostaria de poder amparar seu corpo para que, junto ao meu, sua posição não parecesse tão desconfortável, mas a falta de intimidade faria com que este ato fosse visto de uma forma mais pretensiosa do que apenas uma vontade incontrolável de cuidar dele. Eu não acredito nesse tal amor, mas, todas as vezes em que noto que pode ser ele a bater na minha porta, eu fecho todas as janelas e njo que não há ninguém em casa. Nunca me permiti ser tocada por sua luz e nem sei se quero deixá-la entrar tão cedo. Ele me olha, e seu rosto é o retrato de como sempre imaginei que seria um anjo. Todas as vezes em que se despede, me sinto uma garota boba, pois incontrolavelmente o meu interior saltita. O que está acontecendo comigo?! Eu parto e penso no quanto quero que o dia seguinte chegue logo para que eu possa vê-lo novamente. Dias incansáveis lotados de perguntas sem respostas me circulam e pergunto-me se, assim como eu, ele também é um abismo de confusão. Talvez todos sejam! O fato é que quero saber sobre ELE. Sobre como ELE se sente. Quero saber se ele é apaixonado por música clássica assim como eu ou se é mais do rock’n’ roll. Se 34


Crônicas

ele já amou e se o seu coração já foi partido. Talvez ele me falasse da namorada que tem e que até o momento era desconhecida. Admito que não me importaria se este fosse o caso, pois, mesmo não sendo a melhor resposta, eu saberia que ele está bem e feliz. Eu gosto do fato de saber que ele nunca será meu e que, mesmo assim, nada impede que ele seja o principal motivo para que eu queira me arrumar todos os dias. Talvez se eu fosse um livro do Harry Potter, ele me leria; ou, se eu fosse no mínimo um pouquinho mais interessante, seria motivo para chamar a sua atenção, mas isso não importa. Nada disso importa, pois devo vestir minha armadura de ferro novamente e voltar à batalha. Deixando de lado todos estes sentimentos infundados que eu não sinto. A nal, eu não sinto nada. Sou como uma criança birrenta que, mesmo sabendo estar errada, persiste no erro. E o meu maior erro, sem dúvidas, é ter medo de amar.

Pseudônimo: Pandinha Emily Severo da Silva 1112 35


Liberarte 2017

Enjoar Sabe, ontem eu comprei um perfume, um daquele que você usava. Sinto falta do seu cheiro, mas um dia eu precisei lavar meus cobertores com outra coisa que não fossem lágrimas. Seu cheiro agora preenche a casa toda, é nostálgico, e é difícil não chorar, mas é por uma boa causa. Lembra-se daquele álbum de rock que você me mandou uma vez? Caramba, ele era muito bom, tão bom que eu o ouvi por quase um mês, e eu lembro que você riu quando eu disse que estava frustrado por ter enjoado dele. Você me disse que essa era a parte ruim de gostar muito de algo - às vezes, você acabava enjoando. Mas é disso que eu preciso, amor: enjoar de você. Me cansar do seu cheiro, da sua risada, de como você era bonito ao acordar. Vou pôr aqueles áudios no replay, emoldurar todas as fotos, reviver todas as memórias. Irei aos mesmos lugares e, se te encontrar por lá, observarei você como nunca z antes, até que os meus olhos ardam. Porque eu preciso ter tanto de você que nalmente baste. Você me disse que essa era a parte ruim de gostar muito de algo - às vezes, você acaba enjoando. Mas, e quando a gente ama? Como se faz para esquecer de algo quando você fez disso a sua vida e você simplesmente ama aquilo com todas as suas forças? É terrível, meu anjo, amar é terrível, não que você deva saber como é, de qualquer forma. Você enjoou de mim antes mesmo de ter me amado.

Pseudônimo: Lethologica Vitoria Flores Faccini 4111 36


Crônicas

Mudanças Respirei fundo e atravessei aquela rua deserta. Aquelas roupas escuras faziam transparecer o luto no meu coração. Não que eu estivesse lamentando pela morte de um ente querido, mas eram tempos difíceis em que eu deixava o meu antigo “eu” morrer. Uma sucessão de amores perdidos, um vício por Elvis Presley e café sempre tinham me de nido. A partir de hoje, preferi deixar tudo para trás. Decidi mudar as coisas. Joguei fora meus discos de vinil do Elvis, rasguei todas as cartas de amor, tomei achocolatado em pó e decidi dar uma volta. Não queria mais ser o que fui. Até que, passando por aquelas ruas, vazias e frias, comecei a achar quem eu era em cada canto e a sentir saudade dos velhos tempos. Eu era um pouco daquela loja de música que recém estava abrindo e daquele cheirinho de café vindo da cafeteria da esquina. Não queria deixar de ouvir o rei do rock e de me apaixonar perdidamente. Minhas velhas características eram as que eu tinha para oferecer, evoluir não era jogar tudo que eu já tinha descoberto sobre mim mesma fora. Convencida, saí correndo para tirar os discos do Elvis do lixo e preparar meu café. Até que esbarrei num cara. Os olhares se cruzaram, os sorrisos se abriram e um pedido de desculpa por tudo que havia acontecido saiu da boca dele. Os lábios se encontraram enquanto nossos olhos se fechavam lentamente. Pronto, meu eu estava novamente ali. Crescer é bom, mas desistir de quem você é nem tanto.

Pseudônimo: Mary Brown Marina Ottman Boff 1112 37


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Complicações do coração Essa é a história que precisa ser contada e não há como fugir dela. Ela é tudo que já existiu, tudo que existe e tudo que existirá. Ela explica muito. Estava eu em uma festa, dançando minhas danças da chuva e bebendo em homenagem aos meus deuses celestiais, quando uma criatura cósmica, uma novidade, surge em meu caminho. Era completamente novo, como uma nova invenção tecnológica. O ambiente da festa, minha vontade insaciável de beijar todos os homens da face da Terra, sua beleza sutil e o glitter em seu rosto levam nossos caminhos a se cruzarem. Nos beijamos. Bombas nucleares estouram, varrendo cidades inteiras, varrendo a festa, matando tudo. E nos beijamos por um bom tempo, encostados em uma parede, ao som de tambores indígenas, milenares, até a hora do m da festa. Embarco em uma van e vou para casa. Meus amigos me acompanham. Comentamos sobre a festa, fazemos relatórios e dissertações e debates acerca das pessoas que beijamos e dos atos que vimos acontecer. Estamos todos envoltos em uma atmosfera cósmica e palpável de pura juventude. Juventude. Aquilo que os velhos querem, aquilo que nós temos. Aquilo que faz sentirmo-nos invencíveis. Juventude não pode ser encontrada em um frasco de plástico, não é líquido ou sólido ou gás ou plasma. É um estado de espírito. Chego em casa, durmo. Acordo, vejo uma luz piscando em meu telefone. Era uma mensagem do menino de que falei no início. Ele queria conversar, conversei então com ele. Falamos sobre tudo, sobre a vida, o mar, os morros e os átomos. Ele estava gostando da conversa, eu sentia. Eu também, em parte. Eu sabia como aquilo ia acabar. Eu já passara por aquilo centenas de vezes e, nas centenas de vezes, a história era imutável. 38


Crônicas

Era uma novela, onde sempre há o vilão, o mocinho e os personagens entre estes, que podem ser do jeito que forem, podem ter três braços e quatro olhos, pois não fará a história mudar. A história é sempre a mesma. Sempre tem o mesmo nal e, na novela da minha vida, o nal é trágico. Como com mortes e carros capotando e explosões e o ator principal, que todos gostam, levando um tiro, fazendo as donas de casa chorar e... Eu sabia como ia terminar. Querido, nós não podemos escapar do passado: nós não vamos durar. Dou prazer a ele por mais algum tempo. Conversamos bastante e saímos, nos divertimos e aproveitamos nossa juventude, mas cada dia que passava era um dia mais perto do m de nosso enredo. A sinopse já alertara sobre isso. Depois de um tempo eu paro de respondê-lo. Demoro horas para visualizar suas mensagens. Não olho com o mesmo brilho. Fujo. Se o vejo, me jogo pela janela. Me escondo. É tudo uma brincadeira de pique-esconde enorme e, no nal, eu sei que sou o que consegue se esconder melhor. Crio uma torre e me isolo dentro dela, e não importa o que eu pense, não importa que os outros me digam que eu não deveria ser assim, eu sou assim. Eu existo. O passado me fez assim, e o roteirista da história insiste em assim me manter. O menino desiste. Escalar a torre é torturante demais. Essa é a hora do relaxamento. Meus músculos, até agora tensos, se soltam. As cordas soltam um som. Uma canção celestial se inicia. Ganhei o pique-esconde. Algumas semanas passam. Mais alguns meninos aparecem em meu caminho, mais alguns meninos desistem de escalar a torre e caem em um precipício cheio de crocodilos. Por que eu sou assim? Pseudônimo: Lanadelrey2017 Matheus Daniel Faleiro 1211 39


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No corredor Eu entrei, infantil e saltitante, naquele corredor. Ele nunca teve nada de especial, não me reportava a nenhuma lembrança dolorosa. Era apenas um corredor, sem cacos do que uma vez foi esperança, sem lágrimas perdidas que me fugiram dos olhos. Foi numa quarta-feira, dia 17 de maio deste mesmo ano, que esse corredor foi o cenário pintado para uma notícia que me deram, uma notícia que consumiu meu tempo e craquelou meus sentimentos. - Ele está aqui. Ele vai sair da escola. Eu me perguntei muitas vezes depois desse dia o porquê de eu ter me sentido quebrar. Por que ele tinha e tem tanto poder sobre mim? Por que eu não sei como lidar com alguém como eu, que se assemelha tanto a minha pessoa? Não achei a resposta ainda. Nem procurei. Fiquei tempo demais no corredor. Olhando, analisando, esperando, chorando. Correndo para esconder as lágrimas, para chegar a um lugar impossível. Para procurá-lo, sentir a falta dele. Naquele momento, depois que eu processei o que aquilo queria dizer, eu mal consegui respirar. Esse tema universal de todas as histórias, o amor, o apaixonar-se, não terminou muito bem para mim. No corredor, eu caí nos braços do meu amigo, eu me desequilibrei. Parei de raciocinar o que se passava ao meu redor, parei de escutar pessoas tentando me acalmar e tei o corredor, em memórias. Vendo os sorrisos dele, imaginando ele ali, querendo ele ali comigo. Acabaram por me tirar do corredor, o que não me fez parar de chorar. 40


Crônicas

Eu me desesperei, falta do corredor, sentindo falta das memórias do corredor. Quis voltar para lá, usando de pura teimosia. E foi o que eu z, fui atrás dele. Foi no corredor que eu o vi, foi no corredor que me apaixonei por ele e foi lá que eu o abracei pela última vez. Achei ele andando meio desajeitado, meio triste. A saudade que eu sentia andou até ele, passeando, mas ele ignorou. Ele virou a cara, ele saiu do corredor. Eu ainda ando lá sem ele, mas não sem esquecê-lo, porque as memórias que tenho dele estão sempre presentes. No corredor.

Pseudônimo: Jess Isadora Gonçalves 3111 41


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Medo de amar O que eu fiz? Essa pergunta vem me atormentando já faz um mês. O que foi que eu fiz que te magoou? O que foi que eu fiz, ou deixei de fazer, que te levou para tão longe? Talvez tenha sido meu medo de me entregar, talvez tenha pensado muito nas consequências e não deixado meu coração me guiar. Você me encontrou em meio a um milhão de pessoas, soube quem eu era dentre várias versões errôneas de mim mesma, me viu quando o que eu mais queria fazer era esconder-me, foi um amigo quando eu me sentia só, o motivo das minhas risadas quando eu estava chorando. Mas eu fui ingênua, talvez até insensível a ponto de recusar-me a acreditar que realmente gostava de você. Estava tão claro, mas eu não aceitava. Já você, sempre deixando nas entrelinhas que queria mais do que os meus abraços. E eu sempre fugia do compromisso de tomar uma decisão, ou até uma atitude. Talvez tenha sido isso que te fez cansar de mim, cansar de sempre me pôr pra cima, cansar de querer ter-me por perto. Eu te afastava sem perceber, mesmo sem querer isso. Eu te magoava, sem ter a intenção. Foram tantas as decepções pelas quais eu te fiz passar, que ainda penso como tu me querias por perto? E quando tu mudaste, percebi que tua ausência era incômoda, uma tortura para mim, e, então, tudo o que eu sentia por ti veio à tona: era muito mais do que um simples “gostar”. E se isso não tivesse acontecido? Se eu tivesse te tratado da forma como deverias, ainda estarias ao meu lado? Sei que não teria passado tantas noites em claro, relembrando de nossas conversas, das nossas risadas, me arrependendo cada segundo por não ter dito aquelas três palavras: “eu te amo”. 42


Crônicas

Sinto-me magoada, mas sei que também parti teu coração. Sinto tua falta, apesar de saber que isso é tudo minha culpa. Preciso tanto de ti agora, mas sei que já não te tenho mais por perto. Mesmo quando passas por mim nos corredores, sei que já estás em outro lugar. Queria que tu pudesses me perdoar, mas não sei se ainda te importas com isso. Sinto como se tivesse te perdido, não para outra pessoa, mas para meu próprio medo de te amar.

Pseudônimo: Miia Valentina Silva de Souza, 1112 43


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Superstições Superstição é uma coisa estranha... As pessoas acreditam em cada coisa boba. Talvez antigamente as superstições servissem pra ensinar lições ou manter a ordem, mas hoje em dia são só histórias. Cada um acredita no que quiser! A minha família é muito supersticiosa. Tem cada superstição que vou te contar! Toda vez que minha vó está com dor nas costas, ela pode jurar que vai chover no dia seguinte! E não é que às vezes chove mesmo? Mas não é sempre que as costas dela estão certas. E o meu avô? Ele tem uma camiseta que tem que usar sempre que tem Grenal! Diz que dá sorte e que, se ele não usar, é certo que o Inter vai ganhar! Loucura, né? Até parece que uma camiseta vai decidir o placar de um jogo! O que posso dizer da minha tia? Aquela mulher é louca! Deus me livre se ela vir meu chinelo de cabeça pra baixo! Chega me xingando e perguntando se eu quero matar minha mãe! Queria saber quem inventou essa ideia de que, se deixar o chinelo virado, a mãe morre! E o meu tio então! Ai de mim se ele me vir comer manga e depois tomar um copo de leite! Tenho que insistir muito pra ele não me levar para o hospital! E a minha prima não podia ser diferente, né? Sempre que ela anda na rua, cuida pra não pisar nas rachaduras do chão porque acha que as costas da minha tia vão quebrar! Como filho de peixe peixinho é, minha mãe não é diferente da família dela! Quase enlouqueço quando estou em casa com ela! Qualquer coisinha que eu faça, que vai contra as suas crenças, ela tem um piti! Quer ver minha mãe brava? Fique fazendo caretas no vento ou aponte pra uma estrela! E 44


Crônicas

eu também nunca entendi porque, quando ela vai fazer comida e derruba sal, ela joga um pouco para trás do ombro! Até meu pai, de tanto conviver com essa loucura, tem suas superstições. Quando minha mãe põe a bolsa no chão, ele briga com ela, pois acredita que isso manda o dinheiro embora. E minha irmã, ao contrário de mim, puxou à família. Se eu estiver varrendo a casa e varrer o seu pé, ela começa a gritar comigo, dizendo que, por minha culpa, nunca vai se casar! Mas, graças aos céus, eu não puxei a essa família louca. Hoje minha prima vem me visitar e ela sim é supersticiosa. Quando ela chegou à minha casa, fomos olhar um filme e, para acompanhar, peguei um pacote de bolacha e abri para comermos. Quando vi que minha prima iria pegar a primeira bolacha, arranquei o pacote da mão dela: -Tá louca, Carol? Eu abri! Se você pegar a primeira, vai roubar meu namorado!

Pseudônimo: Supersticiosa Eduarda Dias Basotti 4212 45


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Um amor em poa Existem algumas coisas que acontecem na nossa vida sem explicação. Você segue sem motivo aparente, como se o seu subconsciente soubesse que aquele é o caminho. E no meio desses trajetos, guiados por nada mais que nosso instinto, descobrimos laços que são incapazes de se desfazer. Um desses laços foi meu primeiro amor. Veio de um simples “ficar”, verbo que tem um significado muito abrangente principalmente para os jovens. É uma troca, quase sempre única e sem sentimento. Simplesmente ficar. Dar uns beijos, amassos, brincar de namorar por alguns segundos e dar adeus. Mas foi diferente com a gente. Os segundos viraram horas e as horas, dias. O tempo passava de um jeito que eu, que sempre encarei as coisas como momentos de duração mínima e máxima, não conseguisse prever quanto tempo aquilo duraria. É que, na verdade, eu não queria que acabasse. O que começou num show do Armandinho, no Planeta Atlântida, foi se espalhando do litoral até a capital. Assim, as primaveras foram passando e o amor acumulando. Eram tardes inteiras comendo açaí na Redenção e noites agitadas em algum bar da Cidade Baixa. Era nossa vida, nossa pequena alegria que tanto Porto sente ao ponto de ter em seu nome próprio o adjetivo “Alegre”. Até que, um dia, fomos observar o pôr do sol no Gasômetro depois de fazermos as pazes pela décima briga daquela semana. Faltavam alguns minutos para começar o belo espetáculo. Meu coração já não batia mais na frequência do dele. O amor cresceu, mas junto cresceu todo aquele ressentimento, uma raiva imperdoável sem sentido algum. Eu disse baixi46


Crônicas

nho que tinha acabado tudo, como quem sabe que vai partir o coração em mil pedaços, mas que também reconhece a hora de dizer adeus. E, então, fomos embora do Gasômetro, com lágrimas nos olhos e de mãos dadas, sabendo que esse era o último momento que passaríamos juntos. Ter sua história com começo, meio e fim, é frustrante, mas vão existir várias até achar alguma que nunca vai acabar. Eu sou feliz por ter vivido um romance que nem aquele na minha juventude, todo aquele fogo que parece que nunca vai se apagar. Mas esse pequeno amor que vivi, que durou menos que o suficiente para ser para vida inteira, aconteceu na minha cidade amada e por isso que eu gosto tanto dele. Acabei me mudando para longe pouco tempo depois e, das memórias mais lindas que tenho da minha cidade natal, essa é minha favorita. Ah, essa Porto Alegre... já me fez sentir todos os sentimentos em cada parte dessa cidade. Vai ver um dia nos encontramos, pelo menos é o que minha intuição diz sobre nós dois.

Pseudônimo: Meredith Grey Marina Ottman Boff 1112 47


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Orai pela minha vida amorosa Tenho a estranha mania de me apaixonar em cinco minutos. Atribuo esse meu defeito a meu signo: libra, um signo de ar, que fica bêbado de paixão por qualquer alma que lhe dê cinco minutos de atenção. Meu defeito não seria um defeito se minhas paixões não insistissem em possuir uma dessas características: não darem a mínima para mim ou estarem fatalmente predestinados a possuírem personalidades chatas, que não me agradam. A culpa pelo meu fracasso amoroso sempre será do meu parceiro. Minha? Jamais. Vocês, leitores, não devem estar entendendo nada sobre minha confusa vida amorosa. Para ajudar, tecerei uma resenha crítica de meu último encontro. Antes desse encontro acontecer, já haviam me alertado sobre seu fracasso iminente. Meu ascendente em áries ignorou o comentário e me fez seguir em frente. Marquei de encontrar o menino às treze horas na estação central. Como bom libriano, cheguei antes. Como aquariano, ele chegou às treze horas e trinta minutos. Eu sentia o baque de pedras fazendo o piso da estação tremer. O castelo, chamado encontro perfeito, começara a ruir. As roupas de meu parceiro eram desbotadas, sem estilo, assim como a sua personalidade. Seus assuntos eram entediantes. Eu estava apático, e ele não fazia esforço para me tirar da apatia. Eu estava morrendo, apodrecendo, putrefazendo ao seu lado. 48


Crônicas

Fomos ao cinema. Pensei que as coisas melhorariam. Não melhoraram. Assistimos a um filme infantil, ridículo. Mas eu não queria saber do filme. Queria saber dele. Mas ele queria saber do filme. Prestou atenção em cada movimento animado dos pássaros falantes na tela. Eu preferia estar no velório do meu melhor amigo. Cansado, quase berrando por atenção, querendo atraí-la como um gato que deseja carícias do dono, escorei-me nele. Não obtive resposta. Peguei suas mãos nervosas. Nada. Nem uma olhada em troca. Deus, era como tentar fazer uma batata mover-se sozinha! Minha vontade era de sacudi-lo, provar-lhe meu ardente amor. Saímos da sala após o término do filme. Notei que a maioria do público era composto por crianças. Vendo as crianças, perguntei ao meu parceiro se ele planejava adotar uma. Não lembro da resposta. Nem faz diferença. De volta aos corredores do shopping, suprassumo capitalista, digo que vou ao banheiro. O menino diz que irá me esperar do lado de fora. Agradeço. Meus nervos estavam em carne viva. Eu sentia as cordas de um violino estendidas debaixo da minha pele, queimando-me. Cogito nunca mais sair dali. Deixá-lo esperando do lado de fora do banheiro masculino até que um guarda vá avisá-lo de que o shopping fechará em cinco minutos e que seria melhor ele ir para casa. Cogito fugir pela janela, fingir desmaio. Arder na fogueira, como os gays que vieram antes de mim. Seria menos doloroso do que rever meu acompanhante. Saio do box, pálido. Ácido sulfúrico ardendo na garganta. Saio do banheiro. Meu parceiro aguarda, petrificado. Meu único desejo naquele momento era fugir do shopping. Damos mais uma volta, bocas lacradas. Quando falamos, ele me conta seus detalhes mais entediantes: ele não gostava de festas, nunca tinha bebido e tinha um número ínfimo de 49


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amigos. Além disso, era extremamente tímido e quebrar aquela timidez exigiria paciência equivalente à de quem aguarda o efeito de um veneno. Aquilo não era um adolescente. Aquilo era um monstro. Digo que chegou a minha hora - tanto de ir embora quanto a do fim da paciência. Vamos até a estação, embarcamos juntos. Algumas estações depois ele desce, se despedindo com um abraço desajeitado. Vejo naquele abraço um pedido de desculpas pelo nosso fracasso. Não desculpo. As portas do vagão abrem-se e fecham-se na velocidade de um salto quântico. Eu começo a chorar, rosto mergulhado em um pacote de salgadinhos. Tudo dá errado mesmo. Sou sorte no azar, azar no amor, no jogo, e boca no salgadinho. Um dia desses meus desencontros vão acabar. Preciso ir a uma cartomante para saber o prazo de validade do meu fracasso amoroso.

Pseudônimo: Lanadelrey2017 Matheus Daniel Faleiro 1211 50


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Sobre ser e estar Chico Buarque escreveu, certa vez, que não há dor que dure pra sempre. Porque tudo é vário, temporário e efêmero. Nunca somos. Sempre estamos. Existem inúmeras constatações que podem surgir em relação a essa passagem. Como por exemplo: os seres-humanos estão em constante espera. De segunda a sexta, esperamos o m de semana. E, quando o domingo acaba, camos angustiados e esperamos que a próxima semana passe de maneira mais rápida que a anterior. Vivemos esperando as horas passarem. Vivemos esperando a carona chegar. Esperamos, também, a pessoa amada e o dia em que encontraremos um emprego que nos satisfaça totalmente e, ao mesmo tempo, nos deixe feliz. Somos pessoas que perdem a oportunidade de aproveitar a grandiosidade de pequenos momentos devido ao fato de estarmos sempre esperando. Esperando algo que talvez não aconteça. Esperando, talvez, porque apenas gostamos de esperar. E, nesse caso, nosso comodismo torna-se maior que a nossa vontade de fazer com que as coisas aconteçam. Porque temos medo da mudança. E a novidade pode assustar. Achamos que somos infelizes, mas não temos certeza do verdadeiro conceito de felicidade. Achamos que somos pessoas que sabem o que querem, quando na verdade o cérebro humano demora apenas 0,36 segundos para responder a um estímulo e fazer com que mudemos de ideia rapidamente. Achamos que sabemos o que as pessoas pensam sobre a gente, contudo, esquecemos da complexidade humana presente em cada indivíduo. Acreditar que “somos” é o mais distante que se pode ir em um mundo imenso e repleto de sentimentos, diferenças e incertezas. Esperar por algo pode ser uma das características que exempli cam o nosso medo do futuro. Mas não há exatidão. Porque tudo é vário, temporário e efêmero. Nunca somos. Sempre estamos. Pseudônimo: Clair Del Lune Daniele Ataydes 1312 51


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Um dia após o outro Escrevo porque não há pretensão outra ao escrever, senão, e apenas por isso, sentir as palavras entrando numa mesma pulsação do sangue corrente. Essa é a forma de traduzir o que ainda existe como sentimento. Mas elas podem ser boas ou cruéis, excepcionalmente quando se ligam ao tempo – se este for encerrado com palavras certas, com pontuações por inteiro, as frases formadas serão guardadas na caixa de lembranças; se for terminado com meias palavras, com uma vírgula querendo ser precedida por outras palavras, as lembranças sempre irão voltar, tudo o que não foi resolvido virá à tona em algum outro capítulo. Ou seja, quanto mais queremos fugir, mais nos aproximamos dos nossos conflitos. Todas os dias, eu vejo o amanhecer acordando de um jeito novo, o céu é de um tom vibrante, e o sol fica transposto entre as nuvens em um dia, mas, em outro, o tom acinzentado da paisagem e a geada fina encobrem a claridade das cores – no fundo, são esses contrastes que dão vida ao que realmente vive. Nos acostumamos a ser da mesma cor, a transmitir as mesmas emoções, a viver as mesmas paisagens, talvez porque a estabilidade seja um caminho para fugir do sofrimento – em contrapartida não percebemos que ela é a origem do mesmo quando se apresenta disfarçada de rotina. Um dia após o outro, é a vida sendo sugada pelo tempo, é o passado e o futuro dialogando entre si, é o presente carregando os efeitos deixados por essa exclusão. Navegar por mares desconhecidos, sentir o sabor da água, ouvir o silêncio atentamente, beber da essência da vida é o que realmente necessitamos. As sutilezas da vida são o grande 52


Crônicas

segredo, o segredo que liberta a alma. Senti-las é uma questão de sensibilidade, sensibilidade esta cuja fonte está no implícito: é conseguir encontrar o incomum no comum, é perceber o incorreto no correto, é desabrochar a consciência na inconsciência, é descobrir na incapacidade a capacidade, é achar o possível no impossível... Às vezes, caminhamos por estradas longas, viajamos por lugares diversos - fomos e voltamos -, mas o nosso coração ainda permanece ali, batendo no seu ritmo, no mesmo lugar, exatamente como o deixamos. No final, tudo é tecido conforme as prioridades que adotamos.

Pseudônimo: Boneca de Cristal Natascha Maria Carbonari 3211 53


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Se você me deixar hoje Eu entenderei se você me deixar hoje, se der meia volta e voltar para a sua vida como ela era antes. Se você tentar, na verdade, eu vou torcer pra que você consiga. Parece masoquismo, mas, no m, todos fazem isso, e, mesmo que doa, é uma dor com a qual eu já estou acostumada. É tão simples, quando eles ligam os pontos, todos fogem. Chorando, não me ouvem, apenas dizem aos prantos que dançar sob minha tempestade foi um grande erro. Dizem-me que eu sou como chuva ácida e, então, só me resta novamente a minha própria companhia entediante. Se você me deixar hoje, eu carei bem. Talvez eu te diga isso, mas você saberia que era mentira, não é? Você é bom com mentiras, sempre foi, e era por isso que eu amava tudo que ouvia de você. Elogios sobre mim não cabem na verdade, e enquanto eu sigo pra casa nos braços da garota que eu supostamente deveria amar, lembro-me que esse casamento foi arranjado. Eu nunca amei a mim mesma, e quando você for partir, tenho certeza de que este será o motivo. O meu próprio amor foi um dos poucos que eu não arruinei, porque ele nunca existiu, o máximo que consigo quanto a me parecer aprazível é quando sou “forte” o su ciente pra me espancar, ou “forte” o su ciente pra desistir. Esta garota, esta que eu deveria amar, é difícil de agradar, porque ele sempre quer algo que está fora do seu alcance e, hoje, ele vai querer você, mas a cama estará vazia em um dos lados. Sou apenas um fogo de palha. Me apague antes que a fumaça irrite seus olhos. Sabe, se você me deixar esta noite, eu vou entender, pois, como você provavelmente dirá, eu sou um pouco demais pra 54


Crônicas

você, eu sou um motivo de preocupação. Eu sou uma responsabilidade que ninguém toma pra si. Um problema que ninguém vai resolver. Uma consequência com a qual ninguém vai arcar. Eu sou apenas uma dor de cabeça. Eu te deixo maluco e faço você ir embora. Eu sou pouco demais para todo mundo. A verdade é que eu sou um brinquedo com o qual as pessoas brincam até que nenhum dos truques funcione mais, e então apenas me abandonam. Mas eu entendo, de verdade! Porque todos acabam descobrindo, em algum momento, e bem poucos entendem o que se passa nessa minha cabecinha conturbada. Todo o amor se transforma em repulsa quando eu me torno um fardo. Então, se você entender, fuja. Não que eu precise te pedir isso, não é? Mas tudo que estou tentando dizer é que eu não quero que você nja. Não saia pra comprar cigarros e não volte nunca mais, não faça uma viagem de negócios, não vá para um intercâmbio do outro lado do mundo. Não faça essas promessas que você não pode cumprir, porque, assim, você só estaria se rebaixando ao meu nível. Sou eu que devo prometer que vou mudar, mesmo que não vá, e mesmo que seja inútil. Isso nunca te faria car, mas eu estou desesperada. Eu sou uma desesperada, mas, lamento informar, você não foi o primeiro a quebrar o meu coração ou a me usar até cansar. Você é apenas mais um agora, e isso talvez te faça sentir raiva de mim no m, mas isso é bom. Assim, todo o seu ódio por essa criança inválida será despejado de uma vez, atingindo-a como balas alvejam meus restos mortais, e, assim, eu saberei com todas as palavras que é o m, e apenas virarei o disco na minha vitrola, voltando a dançar sozinha nos braços desta garota fraca e nojenta que eu tanto odeio: eu mesma. É, nisso nós até que combinamos bem... Pseudônimo: Lethologica Vitoria Flores Faccini 4111 55


Contos


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Primeiro lugar - Categoria conto Helena Toebe, 2422

Um nome composto José Eduardo Siqueira Trindade. Assinou no cheque dourado seu nome. Não sabia o motivo de sua mãe gostar tanto de nomes compostos, quatro lhos com nomes ligeiramente grandes: Ana Carina, Felipe Rafael, Maria Bruna e José Eduardo. Nem todos combinavam, mas parecia que cada nome tinha um signi cado. - José foi por causa do seu tio avô, que tinha um fusca vermelho e salvou seu pai levando ele o mais rápido que conseguiu pro hospital quando ele teve pedra nos rins. E Eduardo é por causa do padrinho do seu irmão, que arranjou um berço pra ele quando perdemos tudo numa enchente antes de você nascer. Na família Siqueira Trindade, as homenagens para as pessoas queridas vinham através de nomes compostos. - Aqui está, senhor, o seu cupom scal. É só apresentar naquele balcão ali e retirar sua compra. - Obrigado. – agradeceu gentilmente a atendente da única loja grande da minúscula cidade. Não precisou andar muito para chegar ao balcão de retirada. No máximo uns dez passos, talvez se tivesse contado seriam oito. A la era grande, José Eduardo lembrou o motivo de nunca mais ter saído para comprar em sábados. Felizmente, mais um atendente chegou e a la se dividiu em duas. Quatro pessoas estavam na sua frente, mais uns dez minutos e poderia voltar para o conforto de sua casa. Consultou seu relógio de pulso e veri cou as horas: 11 horas e 18 minutos. Olhou para a la ao lado e desejou não ter olhado. - Eduardo? Não podia ser ela, mas era. Estava mais magra, com certe58


Contos

za tinha cortado o cabelo e feito uma franja, parecia mais alta e bonita do que da última vez em que a tinha visto. Estava usando óculos! Desde quando? - Ah, oi, Nanda. Como vai? – José Eduardo fez um tremendo esforço para que sua voz não falhasse. - Estou muito bem – respondeu ela com um grande sorriso e entusiasmo. Pelo menos o sorriso não tinha mudado – E você parece ótimo também... “Pareço?” pensou. - Muito obrigado. “Tomara que ela não puxe assunto, tomara que ela não puxe assunto...”. - E como está sua mãe? - Bem. A mesma de sempre. – falou expressando um sorriso fraco sem mostrar os dentes. Não queria dar muita saída para ela, preferia ser sucinto. - Tenho saudade dela... “Jura?”. - E seus irmãos, estão todos bem? - Todos bem. – disse, colocando as mãos na cintura e olhando para os pés. - Vi Maria no jornal esses dias, parece que o salão de beleza dela está bombando. - É. - E você continua no mesmo emprego? “Pra que você quer saber?”. - Continuo. – afirmou ele olhando por cima do ombro do rapaz que se encontrava na sua frente na fila. Por que a fila não andava? - Deixei aquele trabalho. Agora estou trabalhando num ateliê. 59


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Sempre foi meu sonho. Você sabe, né? Não faço grandes coisas por enquanto, mas um dia serei reconhecida, tenho fé nisso! - Aham. “Como ela consegue ser tão natural?”. Um silêncio profundo entre os dois durou mais de um minuto. José Eduardo sorriu internamente, por um momento parece que nalmente Nanda tinha se calado. - Eu... Eu sei que nunca te procurei pra falar sobre a gente, mas sei que você não entenderia se eu tentasse... “POR QUE ESSA FILA NÃO ANDA?”. - Eu queria me desculpar por tudo o que z. - Passado é passado. – disse José Eduardo, entretanto nem ele se convencia disso. - Eduardo, eu... Eu não te merecia. Ele a encarou por um instante e conseguiu ver uma aliança na mão esquerda dela. Viu um colar de ouro, com o nome Gabriel gravado, no seu pescoço. Ela sempre dizia que queria ter um lho com esse nome. - Já faz mais de oito anos, Nanda. Sem estresse. Ela pareceu car aliviada, sorriu como se um peso fosse tirado das suas costas. - Tive um lho. “Parabéns pra você!” - Legal! - O nome dele é José Gabriel. Um grande buraco negro foi construído no interior da alma de José Eduardo naquele instante. - Você está bem, Eduardo? – ela perguntou parecendo preocupada. Talvez José Eduardo tenha deixado seu abatimento transparecer. 60


Contos

- Eu também me chamo José. Nanda arregalou os olhos. Ela não sabia. - Você nunca me disse... - Eu não gosto muito do meu nome completo. “E você nunca se interessou em saber as coisas a meu respeito”. Ele voltou a olhar o relógio: 11 horas e 25 minutos. Finalmente sua vez havia chegado, e ele conseguiu retirar sua compra no balcão, antes de sair com um ajudante, que levaria o televisor até seu carro, ele decidiu ser simpático e dizer: - Tchau, Nanda. - Foi bom ver você, Eduardo. Mas ele não podia dizer o mesmo. Já fazia mais de oito anos que ela o havia deixado com apenas uma mensagem no celular: “Não dá mais, preciso de um tempo”. José Eduardo não aceitou. Mandou milhões de mensagens e foi ignorado. Ligou e foi bloqueado. Foi até a casa dela, porém disseram que tinha se mudado. Ela simplesmente decidiu não fazer mais parte da vida dele e sumiu, deixando um enorme corte para cicatrizar. José Eduardo queria conscientizar a si mesmo de que tudo aquilo era passado e que ele não precisava mais relembrar suas memórias com rancor, a nal, um dia fora amor. Talvez os dois fossem muito distintos para dar certo. Ele, inseguro, tímido e nada ágil. Ela, dona de si, segura e independente. Ele um nome composto. Ela um nome simples e diferente.

Pseudônimo: Feather 61


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Segundo lugar - Categoria conto Eduardo Matheus Palini, 2211

Adormecido Começou há uma semana atrás. Aqueles malditos sonhos perfeitos. Normalmente, os sonhos costumam ser melhores do que a realidade, se você considerar que a realidade em que estamos inseridos é horrível, mas aquele ia além disso. Ele acertava todos os meus pontos fracos e me fez chorar ao acordar pela primeira vez. Eu queria mais, e não podia ter. Ao menos foi o que eu pensei. Naquela mesma tarde, sentado no meu escritório, não conseguia parar de pensar nos devaneios que me ocorreram de madrugada. Diferente da cidade, tão cinza, aquele lugar era colorido, tinha as cores que eu queria enxergar no momento certo para isso. Nele, eu saía para tocar com a minha banda que sonhei em ter na juventude, mas que acabou como apenas outro delírio juvenil. Junto comigo, além dos meus amigos que já não via há anos, havia Priscila... - Ei, por que está aí olhando para o nada? – perguntou meu chefe, depois de entrar pela porta do escritório sem que eu notasse. - Hum, desculpe, apenas... eu estava distraído. - Você está com os relatórios adiantados? - Não – respondi baixo, intimidado. - Então os adiante – e saiu da minha sala sem que eu pudesse responder. Era assim que se resumiam as relações atualmente, e, há anos, eu tentava fugir disso e não conseguia. Subordinação. Uma pessoa manda em outra, que manda em outra, e assim por diante. Tudo visando o lucro, sempre o maldito lucro. Mas não importava, não era aquilo que eu estava pensando no momento. Priscila... minha namorada do colegial que eu havia perdido para sempre. Meu primeiro amor e único amor, a garota que 62


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nunca consegui esquecer. Penso que se ela estivesse comigo, tudo seria diferente. Em meu sonho, ela estava ao meu lado enquanto ia para o ensaio da minha banda, com meus amigos, fazendo o que eu gostava. Era tudo tão mágico, o sentimento de que nada lhe falta chega a ser indescritível nessas circunstâncias, mas era o que permeava completamente aquele lugar. Viajando em pensamentos no meio de um escritório com pilhas de papéis me cercando, passei o resto da minha tarde. Enrolei meu chefe, entreguei algumas coisas e voltei para casa no m do expediente. O que me assustou foi que, naquela noite, eu sonhei tudo aquilo de novo. Como uma história que parou de ser contada e recomeçou quando deitei na minha cama pela segunda vez. A partir do último momento, eu continuei a viver aquilo, e era tão bom quanto da primeira vez. Priscila passava a boca pelo meu pescoço, enquanto sua mão puxava meu cabelo para trás. Me sentia entregue àquela sensação e sabia que tanto eu quanto ela queríamos mais. Ela beijava minha boca enquanto minhas mãos controlavam os movimentos de sua cintura. Eu dizia que precisava levantar e encontrar com o resto da banda, e ela insistia para que eu casse. A duro custo, prometia voltar quando entardecesse e saía para o ensaio. Minha casa não era a mesma, a cidade não era a mesma. Eu ia andando pelas ruas, cumprimentando as pessoas, até chegar na casa de meus amigos. Eu era o guitarrista, e eu era muito bom. Nós tocávamos por horas, conversávamos e ríamos, nos divertindo fazendo o que gostávamos. Por que as coisas não podiam ser assim? Acordei assustado pela manhã, não fazia sentido sonhar com aquele mesmo lugar. Cheguei à conclusão de que, talvez, de tanto martelar aqueles pensamentos na minha cabeça, eles tivessem voltado a me ocorrer. Eu dormia e sonhava com o paraíso para, na manhã seguinte, acordar e me ver sozinho no meu apartamento, obrigado a ir trabalhar num lugar totalmente monótono que eu não sabia como suportava. Colocando desse jeito, cava claro que sonhar aquilo era uma tortura. Não, errado, acordar que era o problema. 63


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Dentro do ônibus, em direção ao escritório, tentei esvaziar minha mente, numa tentativa de não pensar muito naquilo para não ter o mesmo sonho novamente naquela noite. Mas, por mais que eu tentasse, não conseguia. Tudo que eu pensava era no jeito como os lábios de Priscila percorriam o meu pescoço, subindo até chegar na minha boca. Ela me tava com aqueles olhos verdes, e nós sabíamos exatamente o que o outro estava pensando. A energia das músicas da banda ainda corria pelas minhas veias, como se ainda estivesse lá, e fazia com que me pegasse batucando na mesa sem perceber. Foi assim o dia todo. Por mais que eu estivesse sentado atrás de uma mesa de escritório, o meu espírito não estava ali. Eu claramente não pertencia àquele lugar. Naquela noite, aconteceu tudo de novo. Já não conseguia mais achar palavras para explicar a mim mesmo o que estava acontecendo, nem as sensações que eu experimentava lá dentro. Por que a vida real não me proporcionava tudo aquilo também? Por que eu era obrigado a acordar? Decidi então que eu não iria trabalhar naquele dia. Iria procurar um médico, e saber o que estava acontecendo. Foi o que eu z. - As pessoas costumam sonhar mais de uma vez os mesmos sonhos, já vi casos desse tipo várias vezes – disse ele, com uma voz desinteressada. - Mas não era o mesmo sonho – respondi ao médico - digo, as mesmas coisas acontecendo. Era como um universo paralelo, algo que parava quando eu acordava e continuava quando eu dormia de novo. Depois de mais um pouco de papo furado medicinal, ele me disse: - Bom, eu acho que sei como te ajudar. Há alguns calmantes aqui, você pode tomá-los antes de ir para cama. Isso tudo deve ser coisa da sua cabeça, então, se relaxar antes de dormir não vai ter mais esses “sonhos estranhos”. - Do que você está falando? - Era o que você queria, não? – perguntou ele, confuso. - Não, eu não quero parar de sonhar, você não entendeu? Eu quero sonhar mais vezes. 64


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- Como assim? - Olhe em volta, olhe para o mundo. Eu não sei como é a sua vida, mas eu posso te garantir que a minha não é nada boa. Eu não gosto da minha casa, do meu trabalho, da minha rotina, não gosto nem de mim mesmo. As únicas coisas que eu amei na vida, eu perdi. E é nos meus sonhos que eu as encontro de novo, que eu posso senti-las. - Você... eu acho que você deveria procurar um psicólogo. - Não, por favor, me ajude. Eu quero dormir para sempre – supliquei. - Você está maluco! Você não pode dormir para sempre! E a sua vida? - Qual vida? – perguntei irritado, levantando da minha cadeira – O que você de ne como vida? Por que eu sou obrigado a viver nessa merda, sendo que eu encontrei felicidade em outro lugar? - Mas esse lugar não existe! – disse o médico. Para mim, aquilo já bastava. Larguei o dinheiro por aquela droga de consulta em cima da mesa dele e saí de sua sala. Resolvi dar um m no assunto. ... Depois de toda essa tortura psicológica e incompreensão, eu decidi o que iria fazer, e aquela realmente era a única maneira. Olhei pela janela, os malditos prédios altos, todos tão deprimentes quanto o meu. Não, aquele não era mais o meu prédio. Eu não pertencia mais àquele lugar. Deitei na cama, fechei os olhos e respirei fundo. - Priscila – disse, esperando que ela estivesse me ouvindo do outro lado – eu estou indo até você, estou indo até vocês... Posicionei o cano da arma na lateral da minha cabeça. - Mas dessa vez eu prometo, eu nunca mais vou ir embora. E atirei. ... - Amor? - Priscila? Pseudônimo: Joseph Kubrick 65


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Terceiro lugar - Categoria conto Meiriely Martinelly 3323

A maldição dos 22 O coração dispara, e ela acorda com um susto. Os olhos arregalados. As palmas das mãos estão frias e úmidas. Suor escorre pelo rosto e se acumula no pescoço, deixando os cabelos molhados. A respiração pesada e ofegante. Ela ca paralisada por alguns instantes, escutando os sons ao redor, tentando se situar. Alguns animais. Folhas sendo pisadas. Em algum lugar ao longe, água corrente. Por um instante sua mente ca confusa. Imagens do pesadelo ainda passando em frente aos olhos. Aqueles olhos vermelhos, sedentos de sangue. Um corpo que parecia não ser nada além de trevas. Trevas extremamente densas. Mas, por mais que aquela horrenda criatura fosse aterrorizante, não era o que mais a deixava com medo. Era a vítima. Aquele homem de cabelos desgrenhados, olhos castanhos e mãos calejadas. Ele era extremamente supersticioso e tinha acabado de completar vinte e dois anos. Como ela sabia disso? Simples. Ele era seu irmão. Gêmeo. Ela havia pressentido que algo muito errado estava acontecendo. Nunca acreditara na maldição da família, que todos estavam fadados a morrer ao completarem vinte e dois anos, nem em nada que não fosse completamente explicável pela lógica. Mas o desaparecimento de seu irmão a deixara preocupada. E os sonhos em que ele estava morrendo eram outra preocupação. Ela se levanta, coloca o saco de dormir dentro da mochila e começa a caminhar entre as enormes árvores. O som de água corrente ca cada vez mais distante, enquanto ela adentra a oresta. Uma forte neblina começa a descer por entre as árvores, deixando um clima pesado com tom de lme de terror e molhando ainda mais seus longos cabelos negros. O silêncio da oresta 66


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era enervante, a ponto de cada passo ecoar pelo que parecia ser uma eternidade. “Ciranda, cirandinha. Vamos todos cirandar. Vamos dar a meia volta. Volta e meia vamos dar.” Ela começa a subir um pequeno morro e não pode deixar de evitar que um sorriso de canto de boca dance em seus lábios ao perceber que música cantarolava. A névoa era tão densa que ela só nota a velha mansão quando tropeça na escadaria que levava até a porta. Não tinha visto o tempo passar. Não se dera conta de que passara a dia inteiro caminhando. Decide tentar conseguir ali um lugar para passar a noite. Ela bate na porta e uma expressão de surpresa se forma em seu rosto. - Olá, garotinha. Você poderia chamar seus pais para mim, por favor? Eu estou perdida e gostaria de ver com eles se posso passar a noite aqui. - Entre, senhorita. Meu pai está descansando, mas ele não irá se importar, veja! A garotinha espera que a mulher entre. Fecha a porta e sobe as escadas correndo e saltitando, olhando para trás, de vez em quando, e esperando que a mulher se aproxime. Ela a leva até um quarto onde um homem de rosto pálido e cabelos negros está deitado na cama sob as cobertas. - Eu não disse? Até parece um anjo... Ela ca paralisada. Em estado de choque. O coração batendo tão rápido que parecia escapar pela garganta. O homem inerte sob as cobertas era nada mais nada menos do que o seu irmão. No mesmo instante ela soube que ele estava morto. E que ela seria a próxima. Ela precisa de um momento para se recompor. Quando se vira, ela percebe que aquela garotinha de olhos azuis e cabelinho loiro, aos poucos, se transformava na criatura de seus pesadelos. Ela corre em disparada para o corredor. A criatura em seu encalço. Ela entra em uma sala ampla. Cheia de armários, todos abarrotados de coisas. Era coisa de acumulador compulsivo, mas uma das coleções daquela sala chamou sua atenção. No nal da sala, 67


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havia uma grande prateleira de vidro. Era fechada com uma tranca, mas o conteúdo de dentro estava todo à vista. Fileiras e leiras de corações. Alguns mais envelhecidos, outros mais recentes. Um ainda sangrava. O do seu irmão. A criatura entra na sala, os olhos cor de rubi transitando entre a prateleira de vidro e a mulher de longos cabelos negros. A mulher tem uma ideia desesperada. Uma ideia que para seu irmão pareceria brilhante. Ela pega a primeira coisa ao alcance das mãos, um bastão de baseball. Começa a golpear a prateleira, quebrando a vidraça e fazendo com que os corações caiam para diversos lados. Sem saber o motivo, ela volta a entoar a cantiga de mais cedo: “O anel que tu me deste era vidro e se quebrou. O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.”. A cada novo golpe, e ao som de suas palavras, a criatura começa a se desfazer. Como um morro desmoronando. A casa também parecia responder a isso. Cada novo coração que rolava pelo chão fazia com que uma janela quebrasse, que uma prateleira ruísse ou que uma luminária caísse. O chão começa a tremer. As colunas começam a envergar. As tesouras no telhado começam a ceder. Ela percebe que a casa vai desmoronar em questão de segundos. Ela dispara até a saída deixando aquele show de horrores para trás com um sorriso triunfante nos lábios. Ela já está descendo as escadas da varanda quando ouve uma voz rouca saindo de dentro da casa: “Por isso dona Rosa entre dentro desta roda...”. Uma telha cai bem na direção dela. Ela tenta se esquivar. Mas isso só faz com que a telha caia certeiramente em seu pescoço, separando a cabeça do resto do corpo. Enquanto toda a casa cai, a mesma voz evapora do chão em um sussurro ao redor do corpo: “... Diga um verso bem bonito. Diga adeus e vá-se embora”.

Pseudônimo: Shakira 68


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Mãos Maria é linda. Cabelo, olhos, mãos, pernas. Com as ondas de seus cabelos, naufraga navios; e seu sorriso é farol dos perdidos na tempestade. Por onde passa, arranca olhares, suspiros e sussurros, até dos mais descrentes de que tamanha beleza pudesse ser real. Tanta simplicidade que tem em tornar todo momento em or. Ela é tão linda e tem tanto medo. Medo que atraísse suspiros e olhares demais e que fosse culpada pelos sussurros. Medo também das pernas, que a perseguiram sem que ela percebesse, dos olhos que a encararam por todos os lados, dos lábios que negaram seu não e a tocaram e principalmente das mãos, que agarraram suas ondas e apagaram seu farol. Maria era tão linda.

Pseudônimo: Bee Júlia ais Decker, 3312 69


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O Poeta Vivo na rua. Por toda parte, há mãos que me dão esmolas. Mãos enrugadas de senhoras viúvas, mãos sujas e duras de mestres de obras, mãos macias e cheirosas de moças esperançosas, mãos frias e imponentes de grandes executivos. Sinto o vento beijando meus cabelos e ouço o soar do sino da igreja naquele dia quente de verão na cidade de Porto Alegre. Aquele vento suave é um alívio para meu corpo suado, que já não troca de roupa há muitos dias. Apesar da tristeza imensa em que eu vivia, tinha algo que eu observava, todos os dias, num hotelzinho. Era um poeta. Um poeta que compunha lindos versos e canções. Meus ouvidos se alegravam quando ouviam a sua voz testando rimas. Quando ele atirava as folhas pela janela porque não havia gostado do que escrevera, eu corria antes que o vento levasse o papel amassado para longe e segurando com todo cuidado, eu abria e lia. Eu não entendia por que ele não tinha gostado de algo tão perfeito como aqueles versos. Um dia, eu me cansei de somente ouvir seus poemas. Decidi vê-lo. Estava nervoso. Se ele fechasse a porta na minha cara, seria uma dor imensa. Eu sabia que sendo quem eu era, um morador de rua, provavelmente eu seria tratado de tal maneira. Ao entrar no hotel, corri até a recepção. - Quero ver o poeta. - Quem é você? - disse a recepcionista. Eu não sabia o que falar. Eu não tinha um nome, eu era um ninguém. - João. Meu nome é João. - foi o primeiro nome que me veio à cabeça. 70


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- Vou ver se ele quer lhe ver. A mulher pegou o telefone e depois de discar o número de um dos quartos, falou com o poeta. Depois da ligação, ela me olhou seriamente por alguns instantes. - Ele quer vê-lo. Assim, corri, subindo escadas, pulando degraus, até atingir o andar em que o poeta vivia. Lá fora, a chuva caía como lágrimas, mas eu não me importava em perder o albergue aquela noite. Eu iria ver o poeta. Bati em sua porta, e ele abriu com um sorriso. Seus olhos eram luzes brilhantes, e ele tinha uma expressão suave. - Olá! Quem é você? - Ele perguntou. - Moro nas ruas. Ouço você recitando seus poemas todos os dias e recolho todas as folhas que joga ao vento. E você, a nal, quem é? - Eu me chamo Mário Quintana. Depois desse dia, tudo mudou no devagar depressa do tempo. Dali alguns meses, o poeta parou de cantar seus versos na janela, e eu acabei arrumando um lugar para morar e um trabalho. O poeta pode ter abandonado o hotel ou até morrido, mas de algo eu tenho certeza: Mário Quintana é, e sempre será, o meu poeta favorito.

Pseudônimo: Mary Brown Marina Boff, 1112 71


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Canário O menino gostava de observar, sentado no degrau da porta de casa, o pássaro cantante. Considerava fascinantes os variados tons de amarelo da plumagem. Gostava de car imaginando o que o pássaro cantava. - Mãe, que língua o passarinho fala? - Preciso trabalhar, meu bem, não atrapalhe a mamãe, pergunte pro vovô. O garotinho não teve di culdades em encontrar o avô. Ele estava sentado na varanda da casa, em sua cadeira de palha predileta, assoviando algo no mesmo ritmo da canção da ave. - Vô, que língua o passarinho fala? - Ora, ele fala passaranês! - E o senhor sabe o que ele está dizendo? – perguntou curioso, seu avô era realmente muito sábio e inteligente, com certeza saberia o que seu pássaro doméstico estava dizendo. - Ele está cantando sobre o amor, Pedro. Pedro abriu um enorme sorriso que evidenciou os dentes que lhe faltavam. Era óbvio, como não tinha pensado nisso?! Amor... é claro! Voltou a sentar no degrau da porta para observar seu animalzinho enérgico. A gaiola em que o Canário se encontrava deveria ser sete vezes maior do que ele, mas ainda assim não parecia ser um lugar confortável de se viver. Pedro lembrou quando teve de car em cima do sofá para sua mãe varrer a casa, havia sido desagradável permanecer por alguns minutos num local tão pequeno e limitado, nem conseguia imaginar como seria passar a vida inteira lá. - O passarinho canta sobre amor, mãe. - Verdade? Quem te disse isso, lho? E você vai cantar sobre o quê, se não comer a janta? Não vai ter força pra nada. 72


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- O vovô me disse. Mas mãe... - O quê? - O que é o amor? A pergunta era simples e objetiva, entretanto Luciana cou desorientada. Tentou buscar também palavras simples e objetivas para responder ao lho. - O... O amor... Bom... O amor é um sentimento de carinho como o carinho que eu sinto por ti, pelo papai, pelo vovô e pelo Dan. - O passarinho também sente carinho? - Eu acho que... Não sei, Pedro. Ele é um bichinho. Coma o brócolis. Pedro estava acostumado com as manobras evasivas da mãe, era engraçado como os adultos fugiam do assunto quando não tinham as respostas na ponta da língua... Mas tudo certo, a nal, ninguém tem a obrigação de saber tudo, tem? - Mano! Mano, mano, mano, mano! - O que é Pedro? – Daniel tirou os fones de seu ouvido no momento em que o menino começou a puxar a barra de sua camiseta. - Por que nós temos um passarinho? - Porque sim. – respondeu Daniel de forma ín ma enquanto mexia em seu celular. - De onde ele veio? - Da pecuária. - E onde está a mãe dele? - Não sei, Pedro. – ele disse dando de ombros. – E eu não gostei nada da bagunça que tu fez no meu quarto, já te disse pra não mexer nos meus... - Então ele deve estar triste se ele não sabe onde a mãezinha dele tá. - Olha só, Pedro, eu tô ocupado agora. Tu viu o carregador do meu celular? Pedro balançou a cabeça negativamente enquanto via o irmão desaparecendo por entre os corredores da casa. Seu pas73


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sarinho era órfão, e ele nunca nem havia dito a ele uma palavra de conforto. - Pai, me leva lá fora pra ver o passarinho? O pai era fácil de convencer, como passava muito tempo fora de casa sempre fazia as vontades de todos para compensar a ausência. - “Pra ver o passarinho”, garotão? Ah lho, você já não passou o dia todo olhando pra ele? Amanhã pode ver mais. Agora o papai está cansado. - Mas pai, o passarinho não vai cantar canções de amor se ele estiver triste. - E por que ele estaria triste? – quis saber. - Ele não tem mãe nem pai. - Ele tem a gente, somos a família dele agora! – respondeu o pai com um sorriso acolhedor nos lábios. - Mas ele nem dorme dentro da nossa casa. Parecia haver uma linha tênue entre carinho e amor. - É que lá fora é melhor para ele, lho. – complementou a mãe enquanto juntava-se ao caçula e ao marido. - Mas se ele ca melhor na natureza por que está aqui? Os pais se entreolharam, na verdade não sabiam direito o porquê. - É melhor ir dormir, meu bem. Quer que eu te coloque na cama? Pedro acenou com a cabeça enquanto erguia os braços para a mãe pegá-lo no colo, como de costume. O menino se sentiu desanimado ao lembrar que seu passarinho não tinha ninguém para levá-lo para a cama. Ou ninho. Pedro não lembrava bem onde ele dormia. - Mãe... - O quê? – ela perguntou enquanto aninhava seu lhote por entre as cobertas macias de so. - E se o passarinho fugir? 74


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- Ele não vai fugir. A gaiola está trancada. Fica tranquilo, meu bem. Boa noite! – sua mãe deixou um beijo molhado em sua testa Pedro arregalou os olhos, o passarinho nunca sairia daquele lugar. Ele nunca acharia sua mãe, nem voaria, muito menos caria em árvores, ele seria apenas um passarinho cantante preso. O dia seguinte amanheceu normalmente, raios tímidos de sol entraram por entre a cortina do quarto dos pais de Pedro, mas eles se permitiram car um pouco mais na cama, a nal, era sábado e com sorte Pedro dormiria até mais tarde. Nada melhor do que descansar... Mas eis que um pequeno barulho ecoa pela casa. Luciana levanta da cama, sonolenta e assustada, cutuca o marido que acorda num sobressalto. Ouve-se choro. Choro? “É o Pedro”. Eles correm assustados até o quarto dos meninos, porém só veem Daniel dormindo, a cama do caçula está vazia. Os corações dos pais disparam. Vão até o quarto do avô, mas Pedro não está lá, nem no banheiro. O desespero toma conta da mãe do menino. “PEDRO!”, ela chama e nada. “PEDRO”. Até que o pai percebe a anormalidade: a porta da entrada da casa está entreaberta. Eles correm até lá e se deparam com Pedro no chão chorando, ao seu lado se encontra um banquinho virado e a gaiola aberta acima dele. - PEDRO! – a mãe o toma nos braços, a ita – O que aconteceu? Entre soluços a voz angelical sussurra: - Eu deixei ele ir. Os pais o abraçam sem entenderem o que de fato estava acontecendo. - O que você fez, lho? - Eu soltei o passarinho pra ele ser feliz que nem eu.

Pseudônimo: Bird Helena Toebe 2422 75


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Imaginários para os outros, reais para ela Clara era uma daquelas crianças que sempre está feliz. Aquele tipo de criança que contagia todos os demais que estão ao seu redor com gargalhadas, abraços, brincadeiras. Ela não parava quieta nem por um instante; era tão ligeira que só se via um borrão de cabelos crespos passando. Esse seu jeito não se alterou, mesmo depois de mudarem de casa, de cidade. Ficaria feliz em dizer que só a paisagem vista pela janela mudou, mas eu estaria mentido. Com apenas seis anos, sua vida consistia basicamente em se divertir. Passava o dia inteiro no jardim, sempre com sua mãe e seu pai. A brincadeira favorita deles era esconde-esconde. De noite assistiam televisão. E antes de dormir, era a hora em que seus pais lhe contavam uma história, sempre acompanhada por uma xícara de leite quente. E antes do beijo de boa noite, seu pai lhe fazia cócegas que fazia a menina gargalhar alto. Essa rotina também não mudara. Mas nesse cenário, havia um problema: Clara ria sozinha. Brincava sempre sozinha. Estava sentada sozinha no sofá. Conversava sozinha. Todos demoraram um tempo até entenderem o que estava acontecendo, mas, quando compreenderam a situação, nenhum tinha tamanha coragem de conversar com a menina, de explicar tudo. Não ousavam tirar o sorriso maroto de seus lábios, simplesmente não podiam, não depois de tudo que havia acontecido na vida dela. Eu não seria capaz. Depois de alguns dias, não podiam deixar aquilo como estava, e tiveram a temida conversa com a pequena. Explicaram tudo com muita calma: houve um acidente de carro no qual estavam seus pais e ela, porém somente ela sobrevivera. Como não tinha nenhum outro parente próximo, Clara foi encaminhada para um 76


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orfanato. Tudo isso foi extremamente traumático, por isso sua mente bloqueou o acidente, como fuga da dor inevitável e insuportável. Para ela seus pais não haviam falecido, e passou a imaginar que eles ainda estavam com ela. E então a dor, o vazio e o desespero chegaram atropelando a garota. Ela se encolheu no chão, chorando descontroladamente. As imagens antes bloqueadas, voltaram rapidamente em sua cabeça. A única coisa que conseguia dizer era: “Mas eu não entendo! Como... eles estão parados bem atrás de você! Você não vê eles? Eles estão bem ali, tia. Por favor, diga que sim! ” A psicóloga do orfanato foi até Clara e abraçou-a. Não havia mais nada que podia fazer naquele momento. E ela continuou repetindo: “Eles estão ali! ”. Durante muito tempo, a menina teve acompanhamento psicológico. Aos poucos foi aceitando a morte de seus pais, mas não parou de ver e conversar com eles. Manteve isso só para si. Ela sentia que eles não eram puramente produtos de sua imaginação, ela sentia eles ali, eram tangíveis demais para não existirem. Mas, mesmo tendo essa sensação forte, os rostos de seus pais começaram a car borrados, e passaram a falar menos. Isso aconteceu à medida que crescia, visto que suas memórias anteriores aos seis anos começaram a se enfraquecer, começou a esquecer como eles eram, os detalhes. Tinha de olhar suas fotos de vez em quando para lembrar deles. E isso a machucava quase tanto quanto suas mortes. E o pior de tudo foi o momento da despedida de nitiva. Quando Clara tinha quase dez anos, ela foi adotada. Seus pais lhe disseram que não podiam ir junto com ela, que ela precisava seguir sozinha. Segurando a mão de sua nova mãe, virou a cabeça e deu uma última olhada para trás, com um sorriso sofrido acenou uma última vez para seus pais. E então, de repente, estes se misturaram ao vento e desapareceram. Mas ela sabia que não completamente, pois se agarraram ao coração e estabeleceram moradia de nitiva nas lembranças de Clara. Pseudônimo: Donna Noble Maite Perla Martins, 1412 77


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Despertador Despertamos. Não consigo me recordar do dia anterior. Acho isso estranho, não vejo nenhum resquício da noite passada e nem mesmo consigo me lembrar de algum caso de amnésia repentina. Não entendo. Não lembro. O que menos me passa pela cabeça é tentar entender a situação, já que ela está ali, do meu lado. Um no feixe de luz passa por entre a persiana chegando até os seus olhos. Os olhos mais bonitos que já vi em toda minha vida. Ou os mais lindos de que me recordo. Não importa. Me vejo naquele olhar. Não da forma literal, é algo além disso. Me vejo por detrás daquele olhar, como se eu habitasse aquela alma. Ela é apaixonada por mim, presumo. O frio na barriga que sinto não me deixa dúvidas. Sou completamente apaixonado por ela. Disso me recordo. Impossível não recordar. Ficamos um tempo na cama, deitados, um observando o outro. Não consigo parar de admirá-la, cada detalhe parece quase que uma obra de arte. Já sei: estou sonhando. Não há outra explicação, é um delírio. Começo a me beliscar, mesmo acreditando que isso não funcione efetivamente. Ela ri. Um sorriso lindo e sincero. Sinto um arrepio e, de repente, me pego sorrindo. Não estou sonhando. Não sei se é por estarmos deitados ou pela preguiça, mas o dia parece domingo. De qualquer maneira, me levanto para fazer um café. Ela reclama, mas rebato que volto logo. Chego na cozinha e preparo dois cafés. Cinco colheres de café solúvel, sem açúcar, do jeito que eu gosto. Duas colheres de café, uma colher de açúcar, do jeito que ela prefere. Acho estranho eu recordar disso, mas co feliz. Não é nenhum tipo de abstração. É só algo que aconteceu com a minha memória recente. Fico tranquilo. Quando retorno ao quarto com as xícaras de café, ela já está 78


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levantada. Rapidamente ela coloca uma roupa e diz que precisa sair. Estou ocupado demais admirando o quanto ela é bela para indagar aonde ela vai. Ela vai até mim, me dá um beijo e diz que volta logo. Fico tentando mensurar a dimensão de “logo”. Será que signi ca que ela vai voltar antes do café esfriar? Antes do sol se pôr? Realmente espero que sim. Caso não volte, não poderemos brindar com as xícaras de café, assim como sempre fazemos, pelo que bem me recordo. Também não vou poder ver o último raio de sol re etir nos seus olhos castanhos, deixando-os um pouco mais claros. Espero que ela volte logo. Espero que ela volte. O dia sem ela é chato. Tento me distrair com algumas coisas sem sentido, mas não consigo desviar meu pensamento. Minha cabeça só consegue pensar no momento em que ela estiver entrando pela porta. Me deito no sofá que ca em frente à porta, na esperança de diminuir minha angústia. É em vão. As horas passam. O café já está frio, e o sol já não entra mais pela janela, o que me deixa preocupado. Entre o dilema de olhar pra porta na esperança de vê-la entrar e desviar o olhar para a televisão, adormeço. É possível sonhar dentro de um sonho? Espero que a resposta seja “não”, assim vou ter a certeza de que ela não é um devaneio. Estou sonhando com ela. Acho que é um efeito da saudade, ou talvez seja meu inconsciente tentando aliviar a espera. Estamos correndo em um campo, na direção do sol. Quando não aguentamos mais nossas pernas, deitamos na grama. Sorrimos um para o outro. Nos beijamos. Minha maior vontade é parar o tempo naquele instante. Sei que estou sonhando, mas não quero acordar. Não até ela voltar. Meu corpo está dormindo naquele sofá, mas meu pensamento está com ela, naquele campo. Um tempo depois, ouço uma batida forte na porta. Desperto.

Pseudônimo: A Vinicius Menegoni 1312 79


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Sobre Marias e Dianas Maria era como Diana. Acordavam e tomavam banho, escovavam os dentes, lavavam a louça do dia anterior. Mas tinham suas diferenças: Diana vestia-se e ia trabalhar às 7h10min (era contadora); em frente ao toldo da padaria, cumprimentava dona Rosa (a vendedora de pipoca) enquanto ia ao trabalho; entrava na rma e trabalhava até o meio-dia, quando parava para almoçar com Neide, sua colega; trabalhava, então, o resto da tarde, até que pegava um táxi para ir para casa por volta das 19 horas. Já Maria trabalhava à noite. Às vinte horas, tomava mais um banho. Sentia seu corpo perfumado, mas isso trazia-lhe uma incabível sensação de asco. Seu corpo nu, lavado da sujeira super cial, mas não dos traumas. Os hematomas continuavam lá. Maria então maquiava-se, colocava a minissaia, o top sem sutiã e o salto vermelho que já muito calejou seu pé. Saía de casa às vinte e uma horas. Exalava um forte odor de perfume, parada numa esquina, onde tantas mulheres similares paravam, mas mantinha distância. Sabia que não era querida por ali, e os comentários e risos só ressaltavam isso. Seu primeiro cliente nunca tardava a chegar e seguia um padrão: olhava-a como um pedaço de carne pelo vidro fumê do carro, abria-o mais e perguntava quanto Maria cobrava. Ao ouvir a resposta, abria a porta e permitia a entrada da moça. Iam a um motel ou canto escuro da região, e Maria era violada. Já estava acostumada à sensação de mãos ásperas em seus seios, em sua virilha, a língua de um animal faminto em sua boca, o odor de suor enquanto era lambuzada em meio às fantasias de seus clientes. Sabia que talvez contraísse algo e por isso sempre pedia por preservativos, mas, muitas vezes, a resposta vinha como um tapa, um soco ou chute. Maria não era só pedaço de carne: era pior que bicho, era fetiche, era saco de pancada pra 80


Contos

desconto de frustração, era ser noturno, era brinquedo sexual. Com o dinheiro recolhido e o tempo encerrado, ela saía do lugar. Às vezes, claro, era impedida e passava a noite com um cliente, contra sua vontade. Mas que vontade? Vontade é coisa de pessoa ou bicho. Maria, para eles, não era nem perto disso. Diana chegava em casa com os pés doendo (dependendo do dia tinha leves enxaquecas) às vinte horas. Cozinhava algo simples e assistia à novela com o namorado. Maria chegava em casa, suja e lambuzada em corpo e mente, machucada no físico e no sentimental, desumanizada, às quatro horas da manhã. Diana e Maria foram à mesma escola durante o fundamental. Mas Maria não acompanhou sua colega no ensino médio. Tinham os mesmos sonhos, mas só Diana pôde segui-los. Tinham a mesma idade, peso, gostavam de coisas similares e tinham, ambas, as refeições balanceadas. Mas Diana e Maria nem mais se falavam desde a infância. Pois Diana é cis e Maria é travesti. Maria não concluiu o ensino fundamental pelo bullying e foi expulsa de casa aos dezesseis. Maria é escória, é fetiche, é asco. Diana morreu aos 80, de câncer. Maria foi estuprada e morta aos 33 (traumatismo craniano). Ninguém chorou sua morte, mas sua história ainda vive e acende um fogo de luta. Pois para a sociedade, nenhuma Maria é igual a uma Diana.

Pseudônimo: A virtuosa Pedro Martins de Souza 4423 81


Liberarte 2017

Fuga A chuva caía fina e escorregava lomba abaixo. Não havia trovões nem relâmpagos e Cora pareceu ficar satisfeita com isso. Odiava quando os barulhos estrondosos desciam do céu. Deixou de observar a chuva pela janela da sala e foi tomar um pouco de água. Rapidamente saciou sua sede e voltou a se aninhar em seu acolchoado. Sentia-se sozinha muitas vezes, ainda mais quando os membros de sua família saíam para trabalhar. Ela queria poder sair também, passear por aí, deixar que o vento tocasse suas orelhas. É claro que passeava nos finais de semana, mas era impaciente e esperar até lá era quase enlouquecedor. Cora gostava de brincar, porém brincar sozinha não a satisfazia e, muitas vezes, não tinha a atenção devida de quem dizia gostar tanto dela. Queria viver mais do que vivia naquela monótona vida de apartamento. Seus dias eram todos iguais, a não ser quando recebia carinho, quando isso acontecia seu corpo chegava a trair seu descontentamento. Uma pena que carinho não fosse frequente naquela casa. Foi então que ela cogitou a ideia de fugir, entretanto fugir soava como uma palavra muito rebelde. Ela devia ser grata pela família que tinha e pela forma suficiente que eles supriam suas necessidades físicas. Ainda assim, queria saber qual a sensação de se sentir livre. Liberdade soava como um sinônimo de rebeldia. Mas não era sua família que sempre dizia: “Olha o que tu fizeste, Cora! Que coisa feia, muito rebelde!”? Talvez ela devesse fazer jus àquelas palavras. Esperou a empregada chegar. Quando a doméstica girou o trinque da porta do apartamento trezentos e sete, Cora escapou por entre as pernas da mulher: 82


Contos

- Cora?! – gritou num susto, deixando cair a bolsa barata – Volta aqui! Porém a empregada era consideravelmente velha, já havia passado dos cinquenta e cinco anos, não tinha mais a energia necessária para correr atrás de Cora. E Cora, por sua vez, aproveitou a oportunidade e correu o mais rápido que pôde. Ainda chovia e ela até gostou da sensação dos pingos gelados no seu pelo macio. Sentiu-se livre quando dobrou a esquina e andou por um caminho desconhecido. Sua família chorou quando soube que Cora havia fugido. Nunca mais esqueceriam a cachorrinha rebelde.

Pseudônimo: Nostálgica Helena Toebe 2422 83


Liberarte 2017

Estrela distante Olhava seu rosto no espelho. A maquiagem já havia borrado de tanto chorar. Passava as mãos pelo rosto, sentindo as rugas nas pontas dos dedos, as marcas da idade. ‘’Vida passada faz velhice pesada’’, como gostava de dizer sua mãe, agora emoldurada em um porta-retratos, parecendo uma modelo da década de trinta. Recolheu o cinzeiro caído no chão. Não se importou com as cinzas no sapato. Usou um pano molhado para tirar a maquiagem do rosto. Olhou-se no espelho e se sentiu temerosa. Não imaginava que estava tão velha. Era óbvio que ainda conservava sua beleza, admitia isso, mas também sabia que ela iria sumir assim como sua carreira no clube. O prestígio acaba quando a maquiagem não esconde mais nada. Ela se levantou e deu alguns passes incertos pelo quarto. A barra do vestido se arrastou até o banheiro. Quedou-se, por alguns instantes, a ajeitar o cabelo. Tirou um cigarro da carteira escondida dentro do armário de remédios. O isqueiro estava em cima da mesa de jantar. Começou a fumar debruçada na janela. O movimento lá embaixo era escasso. O letreiro de neon do clube nem havia sido ligado ainda. Alguns músicos entravam pela porta da frente, carregando os instrumentos nas costas. Um homem recém terminava de colar o cartaz de Joana, a nova grande estrela e cantora da noite, na parede. Aquela que roubaria seu emprego. De repente, o telefone. Atendeu-o com receio. Era a própria. Parecia estar chorando. Foi direta: queria saber se podia visitá-la hoje à noite. ‘’Claro’’, respondeu. ‘’Matilda, querida!’’, disse Joana, abraçando-a. 84


Contos

As duas se acomodaram na mesa de jantar. Conversaram brevemente sobre trivialidades: as contas para pagar, a insegurança nas ruas, o cano entupido na cozinha, o namorado de Joana fazendo intercâmbio em Londres, o novo disco d’As Mercenárias. Matilda não dava muita atenção a ela. Ouvia o noticiário de costas para a TV. ‘’Por que você está aqui e não no clube cantando?’’, interrompeu. Joana silenciou por alguns instantes. Ficou parada como uma personagem dos sonhos de Magritte. ‘’Isso vai parecer muito estranho’’, começou, ‘’eu sei. Não me leve a mal. Eu me sinto cansada dessa vida, desse relativo sucesso, dos buquês me esperando no camarim, do assédio das gravadoras. Sinto falta da minha mãe e da minha vó, do carinho delas. Do café lá de casa. Aqui eu sou tão sozinha. Uma menina do interior perdida no meio dos lobos.’’ Se levantou e foi até a janela. Viu o cartaz com seu rosto lá embaixo, iluminado por uma luz roxa. O neon do clube. ‘’Você vai se acostumar’’, disse o bafo de cigarro de Matilda. Sentiu as mãos dela pousando em seus ombros. Um frio percorreu a espinha. Depois, parou nas pontas dos dedos do pé. Apenas o pescoço ardia, quebrado. O sangue escorrido da boca começou a se confundir com o tapete vermelho. Para a sorte de Matilda, a limpeza do sétimo andar será só semana que vem.

Pseudônimo: Arturo Bolanos Weslley S. Guilherme, 3112 85


Liberarte 2017

O lobo e a capa O céu cinzento e escuro. Os primeiros flocos de neve começam a cair por entre as grossas gotas de chuva. Os ventos balançam as árvores, fazendo-as deitar ao chão. Uma corrente abre as folhas da janela de vidro. O ar frio toma toda a casa, neve e chuva invadem o ambiente, o fogo na lareira se apaga. Ela larga o café sobre a mesa e corre para fechar a única janela da cozinha. Os cabelos brancos ficam encharcados. Neve acinzentada começa a derreter no chão. Os chinelos de pelo cor de rosa escorregam no piso molhado, e ela quase cai. Olhando para o estrago feito pelo tempo, ela volta a se sentar, tomando uma última xícara de café. Ela encara a porta do outro lado, depois do quadrado que chamava de sala, esperando que ela se abrisse e que um rosto jovem e sofrido aparecesse. Mas sabe que ela não vai abrir. Sabe que o filho não voltará. Atrás da porta, havia um capuz vermelho pendurado. Ela começa a lembrar daquele dia... A porta se abre, e uma garota de aproximadamente quinze anos entra afobada. Ela tira a sua capa, vermelha e com um capuz, e pendura no único prego atrás da porta. - Vovó! Vovó, está em casa? – ela cruza a saleta em poucos passos e encontra a mulher de cabelos brancos fazendo fogo na cozinha. - Chegou bem a tempo para o chá! – a mulher sorri afetuosamente. A garota se detém, senta à mesa e coloca uma colher de açúcar em cada uma das xícaras que estavam ali. - Vovó... Como... – a garota observa a mulher colocar chá na primeira xícara. – Como foi que meu pai morreu? 86


Contos

- Já tivemos essa conversa. – a mulher encara a neta com melancolia. – Lenhador é uma profissão perigosa, se uma árvore cair do jeito errado... - Matando dois homens? – pergunta a garota com certa indignação, enquanto a mulher se limita a encher a segunda xícara. – Foi o lobo, não foi? As pessoas da vila dizem que ele já foi um homem e... - As pessoas da vila falam demais! – interrompeu a mulher, se virando para colocar a chaleira em cima do fogão a lenha. Ela suspira profundamente. – Existe algo que você precisa saber, um segredo sobre a nossa família... Quando a mulher se vira novamente, a garota não estava mais lá. Ela corre para a porta da frente e chega a tempo de ver que sua neta havia pegado o machado do pai. - Não faça isso! Vai atrair uma maldição terrível para a sua vida! – mas já era tarde demais, a garota desaparecia no meio da mata enquanto a mulher só podia esperar. Esperar e ouvir. Algum tempo depois, ela escuta um uivo sofrido e sabe que o lobo está morto. A maldição da família havia sido ativada. Um barulho do lado de fora arranca a mulher de suas lembranças. Uma lágrima solitária escorria pelo seu rosto. Ela encara o capuz atrás da porta, que se abre com um rangido. E então aparece. Um lobo de porte médio. O pelo de um vermelho vívido, vibrante. Entrava na casa com passadas suaves, mas determinadas, lentas e um tanto femininas. Carregava entre os caninos uma caça gorda. Uma raposa talvez. A mulher enxuga a lágrima e abre um sorriso, meio triste e meio consolado. Ela havia perdido o filho naquele trágico dia. Mas, pelo menos, sua neta não a deixou desamparada.

Pseudônimo: Shakira Meiriely Martinelli 3323 87


Liberarte 2017

Eutanásia Eu nunca havia contado esta história como contarei agora. Muitos fatos ficaram ocultos, mas agora me senti livre para expô-los. Antes de qualquer coisa, sou médico. Ou era, pelo menos antes do fato. Em meu último ano, conheci pessoas com histórias extraordinárias e problemas de saúde devastadores. Uma dessas pessoas, em especial, me causou grandes crises, e pude aprender muito com seus pontos negativos. Esse homem, chamado Enzo, sofria de um câncer pulmonar, causado pelo fumo excessivo - e quando eu digo excessivo, estou falando de quarenta cigarros por dia. Ele chegou em agosto, já em um estado agravado da doença, e logo começamos o tratamento. Ele perdeu muito cabelo e passou por diversas cirurgias, mas o problema só piorava. En m, ele morreu, como em todas as outras histórias de câncer. Mas não foi exatamente pela doença. Ele nunca se importou por estar morrendo, e era isso que me fazia chorar. Ele chegou no dia 12 de abril e passou por duas cirurgias, o que o deixou bem fraco. Todas as noites, enquanto dormia, sua respiração parava como na apneia noturna, mas ele não voltava a respirar. Seu coração simplesmente parava, e a única solução era o des brilador. Toda vez que ele tinha um ataque, um sinal era disparado, e o médico tinha que reanimá-lo. Os des briladores tornaram-se seus melhores amigos, e ele nunca chorou. No 20 de abril, ele me falou sobre seu pouco tempo de vida e disse que não ligava para isso, pois sua vida havia sido boa, e ele não devia nada a ninguém. Dei-lhe vários motivos para continuar, mas ele continuava dizendo que, se a eutanásia fosse permitida em nosso país, ele já estaria livre. Pela primeira vez, senti que 88


Contos

ele estava correto. Ele estava “bem” e não temia a morte, então qual o problema de ir ao invés de car e sofrer? Por mais alguns dias, Enzo continuou a me contar sobre sua vida e os trabalhos incríveis que fez como arquiteto. Também falou de seu lho, que estava sendo bem cuidado pela mãe e que não sofreria tanto, por ser muito novo. Aquele homem tinha apenas 27 anos, mas vivera mais que meu avô de 93. No dia 13 de maio, ele exigiu falar comigo antes de sua última cirurgia. Se os ataques noturnos continuassem por mais dois dias, ele desejaria estar morto. E falou nessas palavras mesmo: “eu quero morrer se não der certo, já chega de insistir em algo que não vale a pena”. Foi uma longa noite após a cirurgia. Eu havia feito uma promessa, e agora estava suando frio enquanto Enzo dormia. Às 3h39min, o sinal tocou enquanto eu examinava uma garota de 12 anos. Imediatamente, médicos entraram no quarto de Enzo e o trouxeram de volta. Eu sabia que não precisava cumprir aquela promessa, mas seu rosto pálido e despreocupado dizia que aquilo era o melhor a ser feito. Enzo não viraria presidente, nem encontraria a cura do câncer - o que era bem irônico de se pensar. Na noite do dia 15, eu estava responsável por ele, e o sinal tocou. Seus olhos indicavam que dormia, mas era bem mais que isso. Uma lágrima escorreu em meu rosto, e eu resisti a uma crise de choro. Não tinha nenhum sentimento por aquele homem, era só um paciente doente, mas ele agia de forma tão suave com seus problemas que eu não achava justo deixá-lo ir. Mas era necessário. 01h12min: desliguei o sistema. Nenhum sinal voltou a tocar, e ninguém o viu parar de respirar. Foi uma morte calma e silenciosa, como o desejado por todos, e, de alguma forma misteriosa, eu sabia que Enzo estava em um bom lugar. Hoje é o dia da minha saída, nalmente. E não foi tão ruim. Dez anos na prisão me zeram re etir e trouxeram-me alguma sabedoria, como se percebe. Ainda me lembro da frase: “as de89


Liberarte 2017

vidas provas foram apresentadas, o réu é culpado”. Assim como Enzo, não me preocupei com o futuro, e eu realmente tinha um. A forma mais bela de uma punição é quando ocorre uma injustiça. A injustiça mostra a realidade e a razão. As pessoas souberam que a morte de Enzo fez uma pessoa viver. Ou até duas, seus órgãos foram bem úteis. Não posso dizer que tivemos uma amizade, mas durante aqueles 34 dias pude ver uma das mais belas lutas para morrer. O que ele sentiu foi por mim sentido também, e eu sei que ele me agradeceria por ter sentido tanto a ponto de compreendê-lo. Essa história foi bem intrigante, pois em oito anos naquele hospital - um e meio sendo paciente -, nunca havia sentido o que senti ao ver Enzo lutar contra o câncer; do jeito dele, mas mesmo assim lutando. Ele era diferente, tinha um forte brilho nos olhos e nunca pedia ajuda a Deus. Enzo era um peso para o hospital, mas sua família tinha dinheiro, e o país sempre foi irracional. Eu, pelo menos, cumpri minha promessa.

Pseudônimo: Connor Fred Torres 1212 90


Poems in english


Liberarte 2017

First place - Category poem in English Eduarda Luiza Hanauer, 1311

Words and worlds e cliff is never too deep e sky is never too high My dreams will hold me Will make me live Will make me y Wings for what? Words are all I need To live a thousand different lives To be whoever I wanna be

Pseudônimo: Bookworm 92


Poems in English

Breathing Breath in Breath out Don’t let them kill your smile Breath in Breath out Don’t let them change your style Breath in Breath out ey only stand for a while

Pseudônimo: Ravenclaw Eduarda Luiza Hanauer, 1311 93


Liberarte 2017

Girl And when the lights go down Just know that I’ll be here Dancing in the crowd And even if no one hears I’m gonna sing out loud And I’ll play my guitar And jump around the world Nobody will stop me from that I won’t stay silent any more You’re gonna hear my voice Whether you like it or not I’ll scream and make my noise Do not tell me to shut up You got no control over me Or any other girl We’ll be who we wanna be We’ll shake and move worlds

Pseudônimo: Granger Eduarda Luiza Hanauer, 1311 94


Poema en Lengua EspaĂąola


Liberarte 2017

Primero lugar - Categoría poema en Lengua Española Meiriely Martinelli 3323

Reacciones Tú me miras Y no te das cuenta Hasta yo mirarte también Estos ojos oscuros Que la noche los detiene Tu carita sin expresiones Me dicen Todo lo que necesito saber Tu pelo negro y tu boca Y yo no sé lo que hacer Esa carita que me atrapa Que me cambia direcciones Y me dejas así Completamente Sin reacciones

Pseudônimo: Shakira 96


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Liberarte 2017  

Concurso de contos, crônicas e poemas da Fundação Liberato. Ano 2017. Novo Hamburgo, RS, Brasil.

Liberarte 2017  

Concurso de contos, crônicas e poemas da Fundação Liberato. Ano 2017. Novo Hamburgo, RS, Brasil.

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